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O negro na Bahia

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da 
Costa Oriental com a Ocidental de África. In Arquivos de 
Angola, n.o 3. 
O NEGRO NA BAHIA 29 
se todos os carregadores de escravos se arruinão" (14), 
negociar em negros, pelo menos posteriormente, deu 
margem a formação de vultosos cabedais. "Tendia 
a lucros tais, escreve Pedro Calmon, que as maiores 
fortunas da América eram os dos armadores de brigues 
de tráfico". (15) 
No comercio baiano foi "um dos ramos mais lu-
crativos o que explorava o tráfico de escravos". (16) 
Concentrando-se na Bahia uma grande parte, talvez a 
maior, do tráfico aíro-brasileiro, para ela convergi-
ram os x^roventos fartos tirados desse comércio e que 
deu aos que o exploravam a dignidade da riqueza e 
uma perfeita consciência de classe. Os traficantes cons-
tituiam uma classe tão honrada como qualquer ou-
tra e composta de destacadas figuras do mundo eco-
nômico e financeiro da Colônia. 23 firmariam a Re-
presentação de 1756. Seriam 27, em 1759, segunda 
o registro de José Caldas. (17) Em 1799, 37 subscre-
veriam o pedido para não mais "tocarem" nas 
ilhas de S. Tome e Príncipe. A primeira assinatura 
era de Pedro Rodrigues Bandeira, considerado o homem 
mais rico do seu tempo, e tio de dois futuros Presidentes 
da Província: Frutuoso e Francisco Vicente Vianna. (18) 
A ninguém repugnava comerciar em. escravos. No 
tempo não era cousa que se fizesse furtivamente, co-
berto de vergonha, fugindo às críticas da população. 
Pelo contrário, era um título. Na Inglaterra chegou a 
fazer barões. Aqui também foi serviço prestado a Sua 
Majestade e ao país. Por isso, marcando-õs na sociedade, 
tiveram mesmo os traficantes a sua Irmandade, espé-
(14) Col. Ms. do Arq. Pub. da Bahia. Ordens Regias. 
Carta de 26-10-1757. 
(15) P. Calmon, O Brasil e a Imigração Negra, no Jor-
nal do Comércio de 31-12-1933, 
(16) Góes Calmon, Vida Econ. e Financeira da Bahia, 
pag. 23. 
(17) José Antônio Caldas, Notícia Geral desta Capitania 
da Bahia. 
(18) Pedro Rodrigues Bandeira foi quem doou a Nossa 
Senhora da Pilar a coroa ainda existente e que se estima em 
mil «contos. Na época deixou uma fortuna de 15 mil contos. 
30 LUIZ VIANNA FILHO 
cie de sindicato sob a invocação de ura Santo, e que 
funcionava na pequena igreja de Santo Antônio da 
Barra, erigida numa das eminências da cidade, domi-
nando a Bahia de Todos os Santos e o Atlântico, e don-
de S. José, padroeiro da devoção dos traficantes, deveria 
velar pela sorte das embarcações que rumavam em bus-
ca de negros a serem escravizados e cristianizados pelo 
bat ismo. . . (19) 
Mas, se lucrativa, a profisão de traficante exigia ca-
pital. De 30 a 60.000 cruzados, quantia de monta na 
época, custava cada embarcação, no meado do século 
XVIII. Requeria ainda o dinheiro necessário para a 
viagem e o resgate. Por isso nem todos podiam pre-
tender chegar a essa prosperidade, enfrentando o mer-
cado africano da Costa da Mina, onde dominava uma 
burocracia perfeitamente organizada, não só de Hoían 
deses mas também de Africanos, que dela tiravam o 
maior provento possível. Somente no Castelo da Mina, 
além dos 10% de praxe, gastavam-se 827f200. (20) 
Os lucros proclamados dos traficantes enchiam de 
cobiça a quantos tivessem de prestar o seu auxílio, por 
menor que fosse, para o êxito do negócio. Cada qual 
queria e disputava o seu quinhão. Governadores, Ofi-
ciais, Fiscais, Secretários, quantos compunham a 
guarnição e administração do Forte Holandês exigiam 
a sua parte. Era a fatia do mais forte. Em Ajuda, 
como em qualquer porto, o mesmo tributo era obrigató-
rio. Estimava-se em 2:702$400 o gasto com a estada 
em Ajuda para uma embarcação até 2.500 rolos de fumo. 
Esse o quinhão dos que vendiam. Pagava-se tudo. 
O negro que lançava o bando "abrindo o negócio", os ne-
gros "ladradores", que procuravam cativos, o "moço do 
chapéu-de-sol do Capitão", o "moço do chapéu-de-sol do 
Escrivão", o diretor do tronco, o "abogá", cada qual 
(19) A imagem de S. José que era objeto de culto dos 
traficantes fora levada, em 1481, pelos portugueses, para o 
Castelo de S. Jorge da Mina, donde foi retirada por ocasião 
de sua tomada pelos holandeses em 1637. Só em 1752 veio 
para a Bahia, depois de tomada aos negros que desde aquela 
data a detinham na África. Existe ainda na sacristia da 
Igreja. 
(20) José Caldas, obr. cit, in Rev. Inst. Hist. da Bahia; 
vol. 57, pag. 304. 
O NEGRO NA BAHIA 3 1 
recebia a sua parte. O Rei recebia 320$000. Contudo, 
descobertas as minas, o negócio se tornara tão vanta-
joso que houve um excesso de "tumbeiros", todos con-
correntes, disputando entre si a preferência da "mer-
cadoria", e a tal ponto que a coroa foi obrigada a inter-
vir. Para usar de uma expressão atual o tráfico iria ser 
submetido a uma experiência de economia dirigida. 
Os lucros pingues haviam contribuído para que o ne-
gócio de escravos se desenvolvesse extraordinariamen-
te. Tomava-se dinheiro a risco para ir buscar negros. 
Remunerava-se o capital com 18 e até com 40%. Ho-
mens se associavam, entregando fumo aos capitães de 
navios para que, em troca, lhes trouxessem escravos. 
Uma verdadeira corrida em busca dos mercados huma-
nos da Costa da Mina. A conseqüência foi a decadência 
do comércio, devido à competição exagerada e o pre-
juízo de muitos, desorganizando-se o tráfico. Compe-
tia ao Governo remediar a situação. A medida preco-
nizada para a Bahia era a organização de uma Compa-
nhia, a exemplo de tantas outras que já se haviam fun-
dado e que teria o monopólio do comércio, tranqüili* 
zando-o por um justo sistema de equlibrio entre a "pro-
dução" e o "consumo". Aos homens de negócio da 
Bahia, em 1743, aventou o Governo a idéia. E, enquan-
to ela se não fundasse, anualmente, apenas 24 navios, de 
Bahia e de Pernambuco, dentre os que costumavam exer-
cer essa atividade, poderiam rumar para a Costa da 
Mina para o resgate de escravos. Evitava-se assim 
"aquela liberdade e desordem" com que até então se 
tinha feito o negócio. (21) As viagens se fariam por 
turnos, devendo medear entre um e outro pelo menos 
3 meses. Por sorte se designavam os navios que de-
viam partir em cada turno, assim como os portos a que 
se deviam destinar. 
Contra a idéia da Companhia, porém, parecem ter 
se insurgido os homens de negócio, que não a realiza-
ram. Preferiram a construção de embarcações maio-
res e que lhes compensasse o menor número. Assim 
permaneceu a situação ate 1756, não sem que sob vários 
pretextos se concedessem, de quando em quando, licen-
(21) Col. Ms. do Arq. Pub. da Bahia. Ordens Regias. 
Carta, de 8-5-1743. 
32 LUIZ YIANNA JPILHO 
ças extraordinárias. Eqüivalia a um monopólio sem 
os ônus duma Companhia. Mudara, entre tanto, a ori-
entação do Governo. A restrição tivera como conse-
qüência a introdução do tabaco trazido pelos franceses 
a cujo paladar já se iam habituando os africanos, com 
prejuízo do fumo do Brasil. E a Provisão de 30 de Mar-
ço de 1756 restabeleceu a liberdade .anterior, permitin-
do que navegassem para a Gosta da Mina quantos pre-
tendessem contanto que não levasse cada embarcação 
mais de 3.000 rolos de tabaco. A liberdade feria fundo 
os interesses dos traficantes abastados e que detinham 
nas mãos os privilégios do comércio de negros. Apres-
saram-se por isso na organização duma Companhia 
que detivesse o monopólio do comércio da Costa da 
Mina. Suplicaram a El-Rei D. José que aprovasse a 
organização da nova Companhia que se denominaria 
"Companhia Geral da Guiné". Teria o "comércio ex-
clusivo" em todos os portos da Costa da Mina — 
do cabo Monte ao cabo Lopo Gonçalves — e seu capi-
tal seria de 800.000 cruzados dividido em ações de 
200$000. Em troca do favor régio ofereciam algumas 
vantagens para b erário público e se comprometiam 
a manter um limite de preços para os escravos, cujo 
custo não poderia exceder de 140$000 para os escra-
vos de l.a