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HIDROLOGIA BÁSICA 1 SUMÁRIO LISTA DE FIGURAS.................................................................................................. LISTA DE TABELAS................................................................................................. 1. CICLO HIDROLÓGICO......................................................................................... 1.1 Introdução à hidrologia....................................................................................... 1.1.1 História da hidrologia....................................................................................... 1.1.2 Aplicação da Hidrologia …............................................................................... 1.2 Ciclo hidrológico................................................................................................. 1.3 Bacia hidrográfica.............................................................................................. 1.3.1 Área de drenagem1......................................................................................... 1.3.2 Ordem da Bacia............................................................................................... 1.3.3 Tempo de concentração................................................................................... 1.4 Precipitação........................................................................................................ 1.4.1 Tipos de precipitação....................................................................................... 1.5 Interceptação...................................................................................................... 1.6 Infiltração............................................................................................................. 1.6.1 Grandezas características................................................................................ 1.6.2 Fatores intervenientes...................................................................................... 1.6.3 Determinação da capacidade de infiltração..................................................... 1.7 Evaporação......................................................................................................... 1.8 Escoamento superficial e regime dos cursos d'água.......................................... 1.8.1 Escoamento superficial.................................................................................... 1.8.2 Regime dos cursos d’água............................................................................... 1.9 Transporte de sedimentos................................................................................... 1.9.1 Ciclo hidrossedimentológico............................................................................. 1.10 Balanço hídrico.................................................................................................. 2. CARACTERÍSTICAS DO MONITORAMENTO.................................................... 2.1 Coleta de dados de precipitação (chuva)............................................................ 2.1.1 Pluviômetros.................................................................................................... 05 07 08 08 09 11 13 15 19 19 21 22 24 27 31 32 33 34 35 41 41 51 53 54 57 61 61 62 2 2.1.2 Pluviógrafos..................................................................................................... 2.1.3 Radares Meteorológicos.................................................................................. 2.1.4 Satélite............................................................................................................. 2.2 Coleta de dados de níveis dos cursos d'água e descarga líquida (vazão)......... 2.2.1 Volumétrico....................................................................................................... 2.2.2 Calhas Parshall................................................................................................ 2.2.3 Vertedor............................................................................................................ 2.2.4 Ultrassônico..................................................................................................... 2.2.5 Eletromagnético............................................................................................... 2.2.6 Colorimétrico ou radioativo.............................................................................. 2.2.7 Molinete............................................................................................................ 2.2.8 Medição do Nível d’água.................................................................................. 2.3 Coleta de dados de descarga sólida................................................................... 2.3.1 Técnicas de amostragem................................................................................. 2.4 Coleta de dados de qualidade da água............................................................... 2.5 Técnica de análise de dados de precipitações, níveis e descarga líquida.......... 3 APILCAÇÃO DE DADOS HIDROLÓGICOS EM SÉRIES HISTÓRICAS E ESTUDOS........................................................................................................ 3.1 Estudos de vazões máximas e mínimas............................................................. 3.1.1 Vazões máximas............................................................................................... 3.1.2 Vazões mínimas............................................................................................... 3.2 Cálculo de precipitação média em bacias hidrográficas..................................... 3.2.1 Método da Média Aritmética............................................................................. 3.2.2 Método de Thiessen......................................................................................... 3.2.3 Método das Isoietas......................................................................................... 3.3 Regionalização de vazões.................................................................................. 3.3.1 Fases do desenvolvimento da regionalização.................................................. 3.4 Regularização de vazões (reservatórios) e controle de estiagens..................... 3.5 Previsão e propagação de enchentes................................................................. 66 68 69 70 71 71 75 78 80 81 82 83 87 96 104 110 118 118 118 121 122 122 124 128 131 136 136 145 3 3.5.1 Previsão de Enchentes..................................................................................... 3.5.2 Propagação de Enchentes............................................................................... 3.6 Sistema de suporte à decisão (SSD).................................................................. 3.6.1 Ferramenta computacional AQUANET............................................................. 3.7 Qualidade da água: vazões de diluição e decaimento de poluentes.................. 3.7.1 Autodepuração................................................................................................. 3.7.2 Vazão de Diluição............................................................................................. REFERÊNCIA........................................................................................................... 145 148 149 152 157 158 162 165 4 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Ciclo Hidrológico Figura 2 – Bacia Hidrográfica Figura 3 – Divisor de águas Figura 4 – Regiões Hidrográficas do Brasil Figura 5 – Precipitações ciclônicas Figura 6 – Precipitações orográficas Figura7 – Precipitações convectivas Figura 8 - Ietograma e hidrógrada de uma chuva isolada Figura 9 – Hidrograma de saída Figura 10 - Pluviômetro “Ville de Paris” Figura 11 – Altura do pluviômetro Figura 12 - Proveta Pluviométrica Figura 13 – Pluviógrafo de báscula Figura 14 – Estimativa de chuva usando radar Figura 15 – Estimativa de chuva através de imagem de satélite Figura 16 – Calha Parshall ilustrando as condições de afogamento e saída livre Figura 17 – Calha Parshall Figura 18 – Vertedor triangular para medição de vazão em pequenos cursos d’água Figura 19 – Vertedor triangular com soleira delgada em ângulo de 90º Figura 20 – Vertedor trapezoidal (Cipoletti) Figura 21 – Vertedor retangular Figura 22 – Esquema Emissor-receptor de ultra-som Figura 23 – Medidor de vazão ultrassônico baseado no efeito Doppler. Figura 24 – Esquema de instalação e réguas na margem do rio Figura 25 – Limnígrafo de boia Figura 26 – Sensor de pressão Figura 27 – Gravação contínua em papel Figura 28 – Distribuição da velocidade da corrente, concentração de sedimentos e da descarga sólida em suspensão na seção transversal Figura 29 – Garrafa de amostragem indicando níveis a serem obedecidos Figura 30 – Exemplo de amostragem pelo método de igual incremento de largura 5 Figura 31 - Curvas Médias de Variação de Qualidade das Águas Figura 32 – Análise de Dupla Massa – Sem inconsistências Figura 33 – Hidrograma típico Figura 34 – Bacia Hidrográfica utilizada para cálculo da precipitação média pelo método da média aritmética. Figura 35 - Bacia Hidrográfica utilizada para o cálculo da precipitação média pelo método deThiessen. Figura 36 – Traçado de linhas unindo postos pluviométricos da bacia em estudo. Figura 37 – Determinação do ponto médio e traçado da linha perpendicular. Figura 38 – Definição da região de influência de cada posto. Figura 39 - Divisão das linhas escrevendo os valores de precipitação interpolados Figura 40 - Traçado das isolinhas. Figura 41 - Determinação da precipitação média utilizando o método das isoietas. Figura 42 – Hidrógrafa de entrada de um reservatório Figura 43 – Volumes atuais do reservatório Figura 44 - Curva de permanência de vazão típica. Figura 45 – Diagrama de massa para dois períodos de estiagem Figura 46 – Propagação de uma onda de cheia. Figura 47 – Características de um sistema de suporte a decisão Figura 48 – Interface do modelo AQUANET Figura 49 - Perfil das zonas de autodepuração ao longo do trecho de um rio. 6 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Equações empíricas baseadas na expressão aerodinâmica Tabela 2 - Valores do coeficiente de deflúvio, C. Tabela 3 – Variáveis de entrada e saída de água do Balanço Hídrico Tabela 4 - Valores de n e K para determinar a vazão Tabela 5 – Métodos de medição de carga sólida Tabela 6 – Parâmetros do Índice de Qualidade das Águas (IQA) e respectivos pesos Tabela 7 – Calcular Precipitação 7 1. CICLO HIDROLÓGICO 1.1 Introdução à hidrologia Hidrologia é a ciência que trata da água na Terra, sua ocorrência, circulação e distribuição, suas propriedades físicas e químicas, e sua reação com o meio ambiente, incluindo sua relação com as formas vivas (Definição recomendada pela United States Federal Council for Science and Technology, 1962). A hidrologia é uma ciência interdisciplinar e tem evoluído expressivamente devido aos problemas crescentes observados nas bacias hidrográficas, como a ocupação inadequada, o aumento significativo da utilização da água para diversos fins e principalmente em face aos resultados dos impactos sobre o meio ambiente. O estudo da água era uma ciência basicamente descritiva e qualitativa, porém se transformou em uma área de conhecimento onde os métodos quantitativos têm sido explorados através de metodologias matemáticas e estatísticas, melhorando de um lado os resultados e do outro explorando melhor as informações existentes (TUCCI, 1993). Antes o planejamento de ocupação nas bacias era mínimo, levando em consideração apenas o menor custo de implantação e o máximo aproveitamento para os usuários, a questão de cuidados e preservação do meio ambiente raramente era apreciada. Dessa forma, o crescimento populacional e a exploração da água causaram grandes impactos e consequentemente a degradação dos recursos naturais. De fronte aos problemas observados, a população começou a se preocupar, estabelecendo medidas preventivas que minimizassem os prejuízos causados à natureza. Nos anos 70, as ações tinham como foco a bacia hidrográfica, enquanto que atualmente o problema tem grandeza global, em decorrência dos possíveis efeitos globais da alteração do clima. A tendência atual envolve desenvolvimento sustentado da bacia hidrográfica, que implica o aproveitamento racional dos recursos com o mínimo dano ao ambiente. 8 Segundo NRC1 (1991) apud Tucci (1993), se chegou à conclusão que o desenvolvimento da ciência hidrológica tem sido influenciado por aspectos específicos do uso da água e controle de desastres. A comissão menciona a necessidade de instruir profissionais com formação mais ampla, que englobe conhecimento de matemática, física, química, biologia e geociência, para desenvolver uma ciência dentro de um contexto mais vasto. 1.1.1 História da hidrologia A hidrologia, que é a ciência que estuda a água, é fundamentada em históricos de processos envolvidos no meio físico natural. Para analisar a sazonalidade da ocorrência de precipitações num determinado local, por exemplo, são utilizadas observações obtidas no passado. A convivência com o meio físico natural existe desde a origem do homem. De acordo com Tucci (1993), filósofos gregos tentaram erroneamente explicar o ciclo hidrológico, e apenas Marcus Vitruvius Pollio (100 a.C.) apresentou conceitos próximos do entendimento atual do ciclo hidrológico. Admitia-se que o mar alimentava os rios através do subsolo. Até no início deste século ainda existiam pessoas que questionavam o conceito moderno do ciclo hidrológico. Mesmo sem saber a origem da água e o funcionamento dos fenômenos naturais, as civilizações antigas exploraram os recursos hídricos por meio de projetos de irrigação, aquedutos para abastecimento de água e controle de inundação. Ainda segundo Tucci (1993), apenas a partir do século 15, com Leonardo da Vinci e Bernard Palissy, o ciclo hidrológico passou a ser melhor compreendido. O problema era aceitar que a 1 NRC (National Research Council), 1991. Opportunities in the hydrologic sciences. Washington: National Academy Press. 348p. 9 precipitação tinha um volume maior que a vazão e que os rios são mantidos perenes pelo retardamento do escoamento do subsolo. Pierre Perrault, no século 17 (1608- 1680), avaliou os elementos da relação precipitação-vazão, ou seja a precipitação, evaporação e capilaridade da bacia do rio Sena e comparou estas grandezas com medições de vazão realizadas por Edm‚ Mariotte, constatando que a vazão era apenas cerca de 16% da precipitação. As medições sistemáticas de precipitação e vazão, assim como o desenvolvimento teórico e experimental da hidráulica se iniciaram no século 19. Porém, no Brasil os postos mais antigos de precipitação são do final do século passado, enquanto que a coleta de dados de níveis e vazão iniciou no começo deste século. Foi na década de 30 que surgiram os elementos descritivos do funcionamento dos fenômenos naturais e fórmulas empíricas de processos específicos, tais como as demonstradas por Chezy: • Equação para movimento uniforme em canais; • Método racional para cálculo de vazão máxima em pequenas bacias. Essa década também marcou o início da hidrologia quantitativa com algunstrabalhos, tais como: • Conceitos do hidrograma unitário utilizado para o escoamento superficial (Sherman,1932); • Equação empírica para o cálculo da infiltração, permitindo a determinação da precipitação efetiva (Horton, 1933) ; • Teoria para a hidráulica de poços (Theiss,1935). Nesta mesma década outros métodos quantitativos foram apresentados, o que possibilitou a ampliação dos conhecimentos nessa ciência. Porém, mesmo com esse 10 avanço, até a década de 50 a hidrologia se limitava a indicadores estatísticos dos processos envolvidos. Somente com o surgimento do computador, houve o aprimoramento e experimentação das técnicas numéricas e estatísticas. Alguns aspectos da hidrologia tais como o escoamento subterrâneo, fluxo em rios, lagos e estuários desenvolveram-se com a observação e quantificação das variáveis envolvidas, aprimoramento de técnicas matemáticas e o aumento da capacidade do computador. Foram criadas em diversos países bacias representativas e experimentais visando ao atendimento e quantificação de processos físicos que ocorrem na bacia, tais como reflorestamento e desmatamento, erosão do solo e escoamento superficial. Como a hidrologia está ligada diretamente ao uso da água, ao controle da ação da mesma sobre a população e ao impacto sobre a bacia, os estudos realizados visam o melhor entendimento desses processos e a implantação de um planejamento adequado do uso da bacia hidrográfica. 1.1.2 Aplicação da Hidrologia Segundo Righetto, 1998, a Hidrologia exerce grande influência em: 1. Escolha de fontes de abastecimento de água para uso doméstico ou industrial; 2. Projeto de construção de obras hidráulicas: a. Fixação das dimensões hidráulicas de obras de arte, tais como: pontes, bueiros etc.; b. Projeto de Barragens: localização e escolha do tipo de barragem, de fundação e de extravasor; dimensionamento; c. Estabelecimento de método de construção; 3. Drenagem: a. Estudo das características do lençol freático; 11 b. Exame das condições de alimentação e de escoamento natural do lençol: precipitação, bacia de contribuição e nível d’ água nos cursos ‘d água; 4. Irrigação: a. Problema de escolha do manancial; b. Estudo de evaporação e infiltração; 5. Regularização de cursos d’ água e controle de inundações: a. Estudo das variações de vazão; previsão de vazões máximas; b. Exame das oscilações de nível e das áreas de inundação; 6. Controle de Poluição: a. Análise da capacidade de recebimento de corpos receptores dos efluentes de sistemas de esgotos: vazão mínima de cursos d’ água, capacidade de reaeração e velocidade de escoamento; 7. Controle da Erosão: a. Análise de intensidade e frequência das precipitações máximas, determinação de coeficiente de escoamento superficial; b. Estudo da ação erosiva das águas e da proteção por meio de vegetação e outros recursos; 8. Navegação: a. Observação de dados e estudos sobre construções e manutenção de canais navegáveis; 9. Aproveitamento Hidrelétrico: a. Previsão das vazões máximas, mínimas e médias dos cursos d’ água para o estudo econômico e o dimensionamento das instalações; b. Verificação da necessidade de reservatório de acumulação; determinação dos elementos necessários ao projeto e construção do mesmo: bacias hidrográficas, volumes armazenáveis, perdas por evaporação e infiltração; 10.Operação de sistemas hidráulicos complexos; 11.Recreação e preservação do meio ambiente; e 12.Preservação e desenvolvimento da vida aquática. 12 1.2 Ciclo hidrológico Denomina-se ciclo hidrológico o processo natural de evaporação, condensação, precipitação, detenção e escoamento superficial, infiltração, percolação da água no solo e nos aquíferos, escoamentos fluviais e interações entre esses componentes. (Righetto, 1998). Para entender melhor, o ciclo pode-se visualizá-lo como tendo início com a evaporação da água dos oceanos. O vapor resultante é transportado pelo movimento das massas de ar. Sob determinadas condições, o vapor é condensado, formando as nuvens que por sua vez podem resultar em precipitação. Esta precipitação que ocorre sobre a terra pode ser dispersa de várias formas. A maior parte fica retida temporariamente no solo próximo onde caiu, que por sua vez, retorna à atmosfera através da evaporação e transpiração das plantas. Uma parte da água que sobra escoa sobre a superfície do solo ou para os rios, enquanto que a outra parte penetra profundamente no solo, abastecendo o lençol d’ água subterrâneo. A Figura 1 demonstra melhor como ocorrem essas relações entre as fases. As principais variáveis hidrológicas consideradas no ciclo hidrológico são: • E: evaporação (mm/d); • q: umidade específica do ar em gramas de vapor d’ água por quilo de ar, ou g/kg; • P: precipitação (mm); • i: intensidade de chuva (mm/h); • Q: deflúvio superficial ou vazão (m³/s); • f: taxa de infiltração (mm/h); • ET: evapotranspiração (mm/d). 13 Figura 1 – Ciclo Hidrológico Fonte: USGS - United States Geological Survey Embora o ciclo hidrológico possa parecer um ciclo contínuo, com a água se movendo de uma forma permanente e com uma taxa constante, é na realidade bastante diferente, pois o movimento que a água faz em cada uma das fases do ciclo ocorre de forma bastante aleatória, variando tanto no espaço como no tempo. Em determinadas circunstâncias, a natureza parece trabalhar com os excessos. Ora provoca chuvas torrenciais que ultrapassam a capacidade de suporte dos cursos d’ água, acarretando em inundações, ora parece que todo o ciclo hidrológico parou completamente. Esses extremos de enchente e seca são os que mais interessam para os engenheiros, pois muitos dos projetos de Engenharia Hidráulica são feitos com a finalidade de proteção contra estes mesmos extremos, e quando não previsto podem acarretar em danos. Quando trabalhamos com projetos, necessariamente devemos definir nosso domínio, seja ele local ou regional. A definição do domínio implica na seleção dos componentes 14 mais relevantes. Do ciclo hidrológico, por exemplo, para o balanço hídrico, são considerados a evapotranspiração, a precipitação, o escoamento superficial, a infiltração e a percolação profunda. Já nos estudos de drenagem é necessário conhecer as distribuições espaço-temporais da precipitação, da infiltração e das vazões nas seções de interesse. Para cada trabalho que irá realizar, uma análise hidrológica deve ser feita, seja para saber se a precipitação irá interferir no processo, ou se a drenagem é adequada para o tipo de empreendimento. 1.3 Bacia hidrográfica Uma bacia hidrográfica de um curso de água é uma área de captação natural da água da precipitação que faz convergir os escoamentos para um único ponto de saída, seu exutório. É composta basicamente de um conjunto de superfícies vertentes de uma rede de drenagem formada por cursos de água que confluem até resultar um leito único no exutório. Bacia hidrográfica é, portanto, uma área definida topograficamente, drenada por um curso d’água ou por um sistema conectado de cursos d’água, de forma tal que toda a vazão efluente seja descarregada por uma simples saída. Pode ser considerada um sistema físico onde a entrada é o volume de água precipitado e a saída é o volume de água escoado pelo exutório (Figura 2), considerando-se como perdas intermediárias os volumes evaporados e transpirados e também os infiltrados profundamente. 15 Figura 2 – Bacia Hidrográfica Fonte: Pedrazzi, 2003. A formação da bacia hidrográfica dá-se através dos desníveis dos terrenos que direcionam os cursos da água, sempre das áreas mais altas para as mais baixas. É uma área geográfica e,como tal, mede-se em km². A bacia hidrográfica é o elemento fundamental de análise no ciclo hidrológico, principalmente na sua fase terrestre, que engloba a infiltração e o escoamento superficial (SILVEIRA, 1993). Ela pode ser definida como uma área limitada por um divisor de águas (Figura 3), que a separa das bacias adjacentes e que serve de captação natural da água de precipitação através de superfícies vertentes. 16 Figura 3 – Divisor de águas Fonte: Mendiondo, 2004. Atualmente, o Conselho Nacional de Recursos Hídricos, de acordo com a Resolução nº 32 de 15 de outubro de 2003, divide o Brasil em 12 regiões hidrográficas. Diferentemente das bacias hidrográficas, que podem ultrapassar as fronteiras nacionais, as regiões hidrográficas estão restritas ao espaço territorial pertencente ao Brasil, como mostra a Figura 4. 17 Figura 4 – Regiões Hidrográficas do Brasil Fonte: Plano Nacional de Recursos Hídricos (PNRH). Disponível em http://www2.ana.gov.br/Paginas/default.aspx. 18 1.3.1 Área de drenagem É a área plana (projeção horizontal) inclusa entre seus divisores topográficos. A área é o elemento básico para o cálculo das outras características físicas. A área de uma bacia hidrográfica é geralmente expressa em km2. Na prática, determina-se a área de drenagem com o uso de um aparelho denominado planímetro, porém pode-se obter a área com uma boa precisão, utilizando-se o “método dos quadradinhos”. 1.3.2 Ordem da Bacia O sistema de drenagem de uma bacia é constituído pelo rio principal e seus tributários. A classificação dos rios quanto à ordem reflete o grau de ramificação ou bifurcação dentro de uma bacia. Os cursos d´água maiores possuem seus tributários, que por sua vez possuem outros até que chegue aos minúsculos cursos d´água da extremidade. Normalmente, quanto maior o número de ramificações maior serão os cursos d´água. Dessa forma, podem-se classificar os cursos d´água de acordo com o número de bifurcações (PEDRAZZI, 2003). O estudo das ramificações e do desenvolvimento do sistema é importante, pois ele indica a maior ou menor velocidade com que a água deixa a bacia hidrográfica. O padrão de drenagem de uma bacia depende da estrutura geológica do local, tipo de solo, topografia e clima. Esse padrão também influencia no comportamento hidrológico da bacia. Dessa forma, o Engenheiro brasileiro Otto Pfafstetter, do extinto Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS), desenvolveu um eficiente e engenhoso método de subdivisão e codificação de bacias hidrográficas, utilizando dez algarismos, diretamente relacionado com a área de drenagem dos cursos d’água (PFAFSTETTER, 1989 apud GALVÃO & MENESES, 2005). 19 De acordo com Galvão e Meneses (2005), esse método é considerado natural, hierárquico, baseado na topografia da área drenada e na topologia (conectividade e direção) da rede de drenagem. Sua aplicabilidade em escala global, com o emprego de poucos dígitos, além da amarração nos dígitos da relação topológica entre as bacias hidrográficas, são as características marcantes do método de Otto Pfafstetter. A técnica desenvolvida por Otto Pfafstetter, conhecida pelo nome de “Ottobacias”, caracteriza-se por sua racionalidade. Utilizando pequena quantidade de dígitos em um código específico para uma dada bacia, o método permite inferir através desse código quais as bacias hidrográficas que se localizam a montante e a jusante daquela em estudo. Cada vez que for citada uma determinada numeração, sabe-se exatamente a identificação da bacia hidrográfica, seu rio principal e seu relacionamento com as demais bacias da mesma região hidrográfica, até o nível continental (SILVA, 1999 apud GALVÃO & MENESES, 2005). O primeiro princípio dessa forma de classificação é que o rio principal de uma bacia é sempre o que tem a maior área de contribuição a montante. Isto contraria, em muitos casos, a atribuição de nomes feita tradicionalmente na bacia, mas é um critério que certamente tem uma base hidrológica mais sólida. A partir da identificação do rio principal, classificam-se suas bacias afluentes por área de drenagem. As quatro maiores recebem números pares, sendo a mais a jusante a de número 2, a logo mais a montante a 4, a outra a 6 e a mais a montante de todas a 8. As bacias incrementais recebem números ímpares, sendo a da foz a número 1, a incremental entre as bacias 2 e 4 a 3, e assim por diante até a bacia de montante, que recebe o número 9. Desta forma está terminada uma fase da classificação. Cada uma das bacias determinadas pode ser novamente classificada, sendo então atribuído um algarismo adicional. As bacias pares são classificadas como uma nova bacia integral, sendo o rio principal o que na fase anterior foi um afluente. As bacias 20 incrementais, ímpares, são classificadas considerando-se o mesmo rio principal da fase anterior, restrito ao trecho incremental considerado. O processo pode ser repetido enquanto houver afluentes na rede hidrográfica. A classificação de Pfafstetter tem como objetivo as bacias, mas nada impede que seja adaptada, como foi feito, para a classificação dos rios. Basta para isso que o rio receba o número da bacia principal ao qual é associado. Desta maneira os códigos dos rios sempre terão sua terminação em um algarismo par. (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS, 2002). 1.3.3 Tempo de concentração O tempo de concentração é aquele necessário para que toda a água precipitada na bacia hidrográfica passe a contribuir na seção considerada. Este tempo pode ser calculado através de dois métodos, apresentados a seguir. Fórmula de Kirpich • Equação – Tempo de concentração t c=57( L2I eq) 0,385 Onde: Ieq = declividade equivalente em m/km L = comprimento do curso d´água em km. Fórmula de Picking • Equação – Tempo de concentração 21 t c=5,3( L2I eq) 1 3 Onde: L = comprimento do talvegue em km; Ieq = declividade equivalente em m/m. 1.4 Precipitação O regime hidrológico de uma região é determinado por suas características físicas, geológicas e topográficas, e por seu clima. Os fatores climáticos mais importantes são a precipitação, principal “input” do balanço hidrológico de uma região, sua distribuição e modos de ocorrência, e a evaporação, responsável direta pela redução do escoamento superficial. A precipitação é entendida em hidrologia como toda a água proveniente do meio atmosférico que atinge a superfície terrestre. Neblina, chuva, granizo, saraiva, orvalho, geada e neve são formas diferentes de precipitações. A diferença entre essas precipitações é o estado em que a água se encontra (BERTONI & TUCCI, 1993). A disponibilidade de precipitação numa bacia durante o ano é um fator determinante para quantificar, entre outros, a necessidade de irrigação de culturas e o abastecimento de água doméstico e industrial. A determinação da intensidade de precipitação é importante para o controle de inundação e da erosão do solo. Por sua capacidade para produzir escoamento, a chuva é o tipo de precipitação mais importante para a hidrologia (BERTONI & TUCCI, 1993). Outros fatores climáticos de suma importância são a temperatura, a umidade e o vento, principalmente pela influência que exercem sobre a precipitação e a evaporação. 22 Os fenômenos atmosféricos de precipitação ocorrem quando existe uma condensação de vapor d’ água formando nuvens, os ventos movimentam as partículas d’ água de maneira a ocorrer aglutinação de gotículas, formando massas d’ água suficientes para serem precipitadas. Os processos de crescimento das gotas mais importantes são os de coalescência e de difusão do vapor. O processo de coalescência é aquele no qual as pequenasgotas das nuvens aumentam seu tamanho devido ao contato com outras gotas através da colisão, provocada pelo deslocamento das gotas, devido a movimentos turbulentos do ar, à força elétrica e ao movimento Browniano2. A partir do momento em que as gotas d’ água atingem tamanho suficiente para vencer a resistência do ar, elas se deslocam em direção ao solo. Nesse movimento de queda, as gotas maiores caem com maior velocidade do que os menores, o que faz com que as gotas menores sejam alcançadas e incorporadas às maiores aumentando, portanto, seu tamanho. O processo de difusão do vapor é aquele no qual o ar, após o nível de condensação, continua evoluindo, provocando difusão do vapor supersaturado e sua consequente condensação em torno das partículas que aumenta de tamanho. 1.4.1 Tipos de precipitação O esfriamento dinâmico ou adiabático é a principal causa da condensação e é o responsável pela maioria das precipitações. O movimento vertical das massas de ar é um requisito importante para a formação das precipitações, que podem ser classificadas de acordo com as condições que produzem 2 O movimento Browniano é o movimento aleatório de partículas macroscópicas num fluido como consequência dos choques das moléculas do fluido nas partículas. 23 o movimento vertical do ar. Neste sentido, o rápido resfriamento de grandes massas de ar pode ser produzido de forma ciclônica, orográfica e convectiva. Normalmente quando ocorre a precipitação, mais de um desses processos são ativados. • Precipitações Frontais ou Ciclônicas Estão associadas com o movimento de massas de ar de regiões de alta pressão para regiões de baixa pressão. A diferença de pressão normalmente é causada por aquecimento desigual da superfície terrestre. As precipitações ciclônicas podem ser classificadas como frontal ou não frontal. A frontal resulta da ascensão do ar quente sobre o ar frio na zona de contato entre duas massas de ar de características diferentes. Se a massa de ar frio se move de tal forma que é substituída por uma massa de ar mais quente, a frente é conhecida como frente quente, e se o contrário acontece, chamamos de frente fria. A ascensão frontal pode ser vista na figura 5. As precipitações ciclônicas Costumam ser de longa duração, apresentando intensidade de baixa a moderada, espalhando-se por grandes áreas. Figura 5 – Precipitações ciclônicas Fonte: Villela & Mattos, 1975. 24 • Precipitações Orográficas Essa precipitação é resultante de ascensão mecânica, acontece quando uma corrente de ar úmido horizontal é forçada a passar por uma barreira natural, tais como as montanhas. As precipitações da Serra do Mar são exemplos típicos. A figura 6 demonstra como ocorre. Figura 6 – Precipitações orográficas Fonte: Villela & Mattos, 1975. • Precipitações Convectivas As precipitações convectivas são típicas das regiões tropicais. Quando ocorre um aquecimento desigual da superfície terrestre, acaba surgindo o aparecimento de camadas de ar com densidades diferentes, o que gera uma estratificação térmica da atmosfera em equilíbrio estável. Caso esse equilíbrio, por qualquer motivo (vento, superaquecimento) for quebrado, provocará uma ascensão brusca e violenta do ar menos denso, que é capaz de atingir grandes altitudes. Essas precipitações costumam ser de grande intensidade e curta duração, concentradas em pequenas áreas. A Figura 7 demonstra como esse fenômeno acontece. 25 Figura 7 – Precipitações convectivas Fonte: Villela & Mattos, 1975. 1.5 Interceptação A interceptação é a retenção de parte da precipitação acima da superfície do solo (Blake, 1975), podendo ocorrer pela presença de vegetação ou outra forma de obstrução ao escoamento. O volume retido é perdido por evaporação, retornando à atmosfera. Este processo interfere no balanço hídrico da bacia hidrográfica, funcionando como um reservatório que armazena uma parcela da precipitação para consumo. A tendência é de que a interceptação reduza a variação da vazão ao longo do ano, retarde e reduza o pico das cheias (TUCCI, 1993). Ainda de acordo com Tucci (1993), a retenção de parte do escoamento também pode ocorrer por depressões do solo, mas não pode ser considerada uma interceptação propriamente dita, já que parte do volume retido retorna ao fluxo da bacia através da infiltração. Essas depressões do solo ou a baixa capacidade de drenagem podem provocar o armazenamento de grandes volumes de água, reduzindo a vazão média da bacia. 26 Como já mencionado, a interceptação pode ocorrer de duas formas: pela vegetação e por depressões. As duas formas são explicadas a seguir. • Interceptação vegetal Esse tipo de interceptação pode depender de algumas variáveis, dentre elas: características da precipitação e condições climáticas, tipo e densidade da vegetação e período do ano. As características principais da precipitação são a intensidade, o volume precipitado e a chuva antecedente. A intensidade do vento é o fator climático mais significativo na interceptação, aumentando a mesma para uma cheia longa e diminuindo para cheias menores (WIGHAM, 1970 apud TUCCI, 1993). O tipo de vegetação caracteriza a quantidade de gotas que cada folha pode reter e a densidade da mesma indica o volume retido numa superfície de bacia. As folhas geralmente interceptam a maior parte da precipitação, mas a disposição dos troncos contribui significativamente. Em regiões em que ocorre uma maior variação climática, ou seja, em latitudes mais elevadas, a vegetação apresenta uma significativa variação da folhagem ao longo do ano, que interfere diretamente com a interceptação. A época do ano também pode caracterizar alguns tipos de cultivos que apresentam as diferentes fases de crescimento e colheita. A equação da continuidade do sistema de interceptação pode ser descrita por • Equação – Precipitação Interceptada S i =P−T−C Onde: Si = precipitação interceptada; P = precipitação; T = precipitação que atravessa a vegetação; 27 C = parcela que escoa pelo tronco das árvores. De acordo com Tucci (1993), Horton (1919) foi um dos primeiros a descrever e apresentar resultados e equações para descrever o comportamento da interceptação vegetal. O referido autor relacionou o volume interceptado durante uma enchente com a capacidade de interceptação da vegetação e a taxa de evaporação. • Equação – Interceptação vegetal S i =Sv+( AvA ). E .tr Onde: Sv = capacidade de armazenamento da vegetação para a área; Av = área de vegetação; A = área total; E = evaporação da superfície de evaporação; tr = duração da precipitação. • Armazenamento nas depressões Na bacia hidrográfica existem obstruções naturais e artificiais ao escoamento, acumulando parte do volume precipitado. Em áreas rurais isso pode ser observado após uma enchente, quando áreas sem drenagem formam pequenas lagoas. O volume de água retido nessas áreas somente diminui por evaporação e por infiltração. Como o lençol freático fica alto, logo após a enchente, a saída de água dá-se principalmente pela evaporação, reduzindo a vazão média da bacia. Isso é mais grave em solos que se impermeabilizam com a umidade, como o argiloso (TUCCI, 1993). 28 Em bacias urbanas, podem ser criadas artificialmente áreas com retenção do escoamento em função de aterros, pontes e construções. O somatório destas perdas se reflete na redução da vazão média e no abatimento dos picos de enchentes. Linsley et al. (1949) utilizou a seguinte expressão empírica para retratar o volume retido pelas depressões do solo após o início da precipitação (TUCCI, 1993). • Equação – Fórmula empírica de interceptação 1−e−kPe V d =Sd Onde: Vd =volume retido; Sd = capacidade máxima; Pe = precipitação efetiva; K = coeficiente equivalente a 1/Sd No uso desta equação, admite-se que no início da precipitação as depressões estão vazias e para gerar escoamento superficial é necessário que as depressões estejam preenchidas. São aproximações do comportamento real, já que o escoamento superficial ocorre sem que as depressões sejam todas preenchidas, devido à variabilidade espacial da capacidade de retenção das mesmas. 1.6 Infiltração A infiltração é o fenômeno de penetração da água nas camadas do solo próximas à superfície do terreno, movendo-se para baixo, através dos vazios, sob a ação da 29 gravidade, até atingir uma camada suporte, que a retém, formando então a água do solo (MARTINS, 1976). A água de chuva precipitada sobre terreno permeável é geralmente succionada totalmente pelo solo até o instante em que se inicia a formação de um espelho d’água na superfície e, por conseguinte, a ocorrência de deflúvio superficial. Esse fato pode ser observado por qualquer pessoa, porém é regido por leis físicas complexas, cuja quantificação é supostamente conseguida por meio de experimentos, leis empíricas e solução de equações diferenciais que governam o movimento da água no solo (RIGHETTO, 2008). A infiltração pode ser dividida em três fases essenciais, sendo elas a fase de intercâmbio, de descida e de circulação. Na fase de intercâmbio, a água está próxima à superfície do terreno, sujeita a retornar a atmosfera por uma aspiração capilar, provocada pela ação da evaporação ou absorvida pelas raízes das plantas e em seguida transpirada pelo vegetal. Quando o deslocamento vertical da água ocasionado pela ação de seu próprio peso supera a adesão e a capilaridade, chamamos de fase de descida. Esse movimento se efetua até atingir uma camada-suporte de solo impermeável. A fase de circulação ocorre quando há acumulo de água, onde são constituídos os lençóis subterrâneos, cujo movimento se deve também a ação da gravidade, obedecendo às leis de escoamento subterrâneo. 1.6.1 Grandezas características As principais grandezas características são explicadas por Martins (1976), como mostram os próximos itens. 30 • Capacidade de infiltração É a quantidade máxima de água que um solo, sob uma dada condição, pode absorver na unidade de tempo por unidade de área horizontal. A penetração da água no solo, na razão de sua capacidade de infiltração, verifica-se somente quando a intensidade da precipitação excede a capacidade do solo em absorver a água, isto é, quando a precipitação é excedente. A capacidade de infiltração pode ser expressa por milímetros por hora (mm/h), milímetros por dia (mm/dia), metros cúbicos por metro quadrado (m3/m2) ou metros cúbicos por dia (m3/dia). • Distribuição granulométrica É a distribuição das partículas constituintes do solo em função das suas dimensões. • Porosidade É a relação entre o volume de vazios de um solo e o seu volume total, expressa comumente em porcentagem (%). • Velocidade de infiltração É a velocidade média de escoamento da água através de um solo saturado, determinada pela relação entre a quantidade de água que atravessa a unidade de área do material do solo e o tempo. Pode ser expressa por metros por segundo (m/s), metros por dia (m/dia), metros cúbicos por metro quadrado (m3/m2) ou metros cúbicos por dia (m3/dia). 1.6.2 Fatores intervenientes Os principais fatores intervenientes também são explicados por Martins (1976), apresentados nos itens a seguir. • Tipo de solo 31 A capacidade de infiltração varia diretamente com a porosidade, o tamanho das partículas do solo e o estado de fissuração das rochas. As características presentes em pequena camada superficial, com espessura da ordem de 1 cm, têm grande influência sobre a capacidade de infiltração. • Compactação devida ao homem e aos animais Em locais onde há tráfego constante de homem ou veículos ou em áreas de utilização intensa por animais (pastagens), a superfície é submetida a uma compactação que a torna relativamente impermeável. • Ação da precipitação sobre o solo As águas das chuvas quando se chocam com o solo promovem a compactação da sua superfície, diminuindo a capacidade de infiltração, transportam os materiais finos que, pela sua sedimentação posterior, tenderão a diminuir a porosidade da superfície, umedecem a superfície do solo, saturando as camadas próximas, aumentando a resistência à penetração da água; e atuam sobre as partículas de substancias coloidais que, ao intumescerem, reduzem as dimensões dos espaços intergranulares. 1.6.3 Determinação da capacidade de infiltração Para a determinação da capacidade de infiltração, podem ser utilizados equipamentos chamados infiltrômetros, que são capazes de realizar uma medição direta. São tubos cilíndricos curtos de chapa metálica, com diâmetros que variam entre 200 e 900 mm. São cravados verticalmente no solo de modo a restar uma pequena altura livre sobre este. 32 O método de Horner e Lloyd também pode ser utilizado para conhecer a capacidade de infiltração do solo de uma dada área, porém para pequenas bacias hidrográficas. Ele é baseado na medida direta da precipitação e do escoamento superficial resultante, o que possibilita a determinação da curva da capacidade de infiltração em função do tempo. Já em bacias muito grandes, a intensidade de precipitação não é constante em toda a área e por isso, Horton propôs um método de avaliação da capacidade média de infiltração. Este método indica que a precipitação seja medida por diversos aparelhos por toda a bacia, e um deles deve ser necessariamente um pluviógrafo. 1.7 Evaporação Evaporação é o conjunto dos fenômenos de natureza física que transformam a água líquida ou sólida em vapor de água da superfície do solo e transferida, neste estado, para a atmosfera. Esse processo somente poderá ocorrer naturalmente se houver ingresso de energia no sistema, proveniente do sol, da atmosfera ou de ambos e será controlado pela taxa de energia, na forma de vapor de água que se propaga na superfície da Terra (TUCCI & BELTRAME, 1993). A evaporação pode ocorrer em corpos d’água, lagos reservatórios de acumulação, águas retidas na camada superficial do solo e mares e é influenciada também pela temperatura e umidade relativa do ar, vento e pressão de vapor. Os métodos mais utilizados para determinar a evaporação são: • Evaporímetros: instrumentos que possibilitam uma medida direta do poder evaporativo da atmosfera, estando sujeitos aos efeitos de radiação, temperatura, vento e umidade. Os mais conhecidos são os atmômetros e os tanques de evaporação; 33 • Transferência de massa : é baseado na primeira Lei de Dalton, que estabelece a relação entre evaporação e pressão de vapor, expressa da seguinte forma: • Equação – Transferência de massa E=C .(es−e ) Onde: E = intensidade da evaporação; C = coeficiente influenciado por fatores interferentes; eS = pressão de saturação do vapor de água à temperatura da água; e = pressão do vapor d’água presente no ar atmosférico. O efeito do vento foi introduzido através da alteração do coeficiente empírico (C). A expressão resultante é função da velocidade do vento, expressa por: • Equação – Evaporação em função do vento s−ea e Nf (w ) E0= Onde: N = parâmetro que considera dos efeitos da densidade do ar e da pressão; f(w) = função da velocidade do vento; f(r) = parâmetro de rugosidade. 34 De acordo com Tucci e Beltrame (1993), as funções introduzidas, que retratam o efeito do vento, são obtidas com bases nos conceitos de camada limite que ocorre na ação do ventopróximo da superfície de interesse. Várias expressões são utilizadas para a estimativa da evaporação em intervalos de tempo superiores a um dia. Segue a equação apresentada por Sverdrup (1946): • Equação – Evaporação em intervalo de tempo superior a um dia E0= 0,63 ρK 2 w8 (e2−e8 ) p[ln(800r )] 2 Onde: ρ = massa específica do ar; K = 0,41 (constante de Von Karman); w8 = as velocidades do vento a 8 metros acima da superfície; e2 e e8 = pressão de vapor a 2 e 8 metros; p = pressão atmosférica; r = altura da rugosidade. • Equações Empíricas : foram estabelecidas com base no ajuste por regressão das variáveis envolvidas, para algumas regiões e condições específicas. Por isso devem ser utilizadas com cautela. São baseadas usualmente na equação aerodinâmica: • Equação E0 =Kf (w ) [e s(T s )−ea ] 35 Onde: K = constante; f(w) = função da velocidade do vento. Tucci e Beltrame (1993) apresentaram um resumo das equações desse tipo, apresentadas na Tabela 1. Tabela 1 - Equações empíricas baseadas na expressão aerodinâmica Equação Condições de aplicação Referência Eo (pol/mês) = 11(1+0,1w8) (es-e8) Lagos rasos Meyer (1915) Eo (pol/dia) = 0,771(1,465- 0,0186p)(0,44+0,118w0)(es-ea)* Lagos rasos Rohwer (1931) Eo (pol/dia) = 0,35(1+0,24w2) (es-ea) Pequenos tanques Penman (1948 Eo (pol/dia) = 0,057w8(es-e8) Lago Hefner Marcian o e Harbeck (1952) Eo (pol/dia) = 0,072w4(es-e2) Lago Hefner Marcian o e Harbeck (1952) * pressão barométrica • Balanço hídrico : possibilita a determinação da evaporação com base na equação da continuidade do lago ou reservatório. A referida equação pode ser escrita da seguinte forma: • Equação – Balanço hídrico 36 dV dt =I−Q−E 0 . A+P . A Onde: V = volume de água contido no reservatório (hm); t = tempo (s); I = vazão total de entrada no reservatório (m3/s); Q = vazão de saída do reservatório (m3/s); E0 = evaporação (mm/mês); P = precipitação sobre o reservatório (mm/mês); A = área do reservatório (km2). A evaporação é obtida da equação 10 por: • Equação – Evaporação E0= I−Q A +P− dV dt A Além da equação de continuidade, o método do balanço hídrico também apresenta a equação de Evaporação Real (ER): • Equação – Evaporação Real ER= [EP+ ( I−EP )−∆AS ] Onde: 37 EP = Evaporação Potencial I = Infiltração; ∆AS = variação do armazenamento de água no solo. A evapotranspiração representa a quantidade de água que nas condições reais se evapora do solo e transpira das plantas e é de suma importância para o balanço hídrico de uma bacia como um todo. Para estimar os valores dessa variável, pode-se aplicar o método de Penman-Monteith, representado pela seguinte equação: • Equação – Evapotranspiração δ+γ∗. 900 (T+273 ) .(es−ea ) δ+γ∗(Rn−G ) 1λ+ γ ET 0= δ Onde: ET0 = evapotranspiração diária de referência (mm); ��= calor latente de vaporização (MJkg-1); δ = inclinação da curva da pressão de vapor saturado versus temperatura (k Pa K-1); Rn = saldo de radiação (MJ m-2 dia-1); G = fluxo de calor no solo (MJ m-2 dia-1); es = pressão de vapor saturado do ar (k Pa); ea = pressão de vapor do ar na altura z (k Pa); T = temperatura do ar na altura z (ºC); γ * = coeficiente psicrométrico modificado (k Pa K-1) = γ (1+ 0,33 U2); (U2 é a velocidade do vento medida a 2 metros de altura (m s-1); 38 900 = Constante (k J-1 kg ºK). 1.8 Escoamento superficial e regime dos cursos d'água 1.8.1 Escoamento superficial O escoamento superficial talvez seja a fase mais importante do ciclo hidrológico e de maior importância para os engenheiros, pois é a etapa que estuda o deslocamento das águas na superfície da Terra e está diretamente ligada ao aproveitamento da água superficial e à proteção contra os efeitos causados pelo seu deslocamento (erosão do solo, inundações, etc.). Esse tipo de escoamento é presenciado fundamentalmente na ocorrência de precipitações e considera desde o movimento da água de uma pequena chuva que, caindo sobre um solo saturado de umidade, escoa pela sua superfície, formando as enxurradas ou torrentes, córregos, ribeirões, rios e lagos ou reservatórios de acumulação. De acordo com Martins (1976), parte da água das chuvas é absorvida pela vegetação e outros obstáculos, a qual é evaporada posteriormente. Da quantidade de água que atinge o solo, parte é retida em depressões do terreno e parte é infiltrada. Após o solo alcançar sua capacidade de absorver a água, ou seja, quando os espaços nas superfícies retentoras tiverem sido preenchidos, ocorre o escoamento superficial da água restante. No inicio do escoamento superficial é formada uma película laminar que aumenta de espessura, à medida que a precipitação prossegue, até atingir um estado de equilíbrio. Dentre os fatores que influenciam o escoamento superficial estão os seguintes: 39 • Fatores climáticos : ligados à intensidade da chuva, duração da chuva e a chuva antecedente; • Fatores fisiográficos : ligados à área e forma da bacia, à permeabilidade e capacidade de infiltração e à topografia da bacia; • Obras hidráulicas : ligadas à construção de barragens, canalização ou retificação e derivação ou transposição. • Coeficiente de escoamento superficial (run off) O coeficiente de escoamento superficial ou coeficiente de “run off”, é definido como a razão entre o volume de água escoado superficialmente e o volume de água precipitado. Este coeficiente pode ser relativo a uma chuva isolada ou relativo a um intervalo de tempo onde várias chuvas ocorreram (VILLELA E MATTOS, 1975). A equação a seguir demonstra o coeficiente de “run off”. Equação – Coeficiente de “run off” C= Volumetotalescoado Volumetotalprecipitado Sabe-se que conhecendo o coeficiente de “run off” para uma determinada chuva intensa de uma certa duração, pode-se determinar o escoamento superficial de outras precipitações de intensidades diferentes, desde que a duração seja a mesma. Esse coeficiente é muito utilizado para se prever a vazão de uma enchente provocada por uma chuva intensa. • Métodos de Estimativa do Escoamento Superficial 40 De acordo com Carvalho e Silva (2006), os métodos de estimativa do escoamento superficial podem ser divididos em quatro grupos conforme à: a) Medição do Nível de Água A estimativa do escoamento superficial por meio de medição do nível de água é realizada em postos fluviométricos, onde a altura do nível de água é obtida com auxílio das réguas linimétricas ou por meio dos linígrafos. De posse das alturas pode-se estimar a vazão em uma determinada seção do curso d’água por meio de uma curva- chave. Esta curva relaciona uma altura do nível do curso d’água a uma vazão. É o método mais preciso e requer vários postos fluviométricos. b) Modelo Chuva-Vazão Calibrados - Método do hidrograma A área de drenagem, grau de permeabilidade, profundidade do lençol freático, porosidade do solo e também o tipo de precipitação que ocorreu sobre a bacia, são aspectos da bacia que podem refletir em um hidrograma. O hidrograma, hidrógrafa ou fluviograma é a representação gráfica da distribuição da vazão em função do tempo numa dada seção de um curso d’água. Essa distribuição é interpretada como sendo a resposta da bacia hidrográfica ou área de drenagem quando estimulada pelas chuvas que caem sobre essa área (Righetto, 1998). A figura 8 mostra uma hidrógrafa de uma chuva isolada (ietograma) de uma precipitação que ocorreu em uma bacia, assim como a curva de vazão correspondente registrada em uma seção de um cursod’água. 41 Figura 8 - Ietograma e hidrógrada de uma chuva isolada Fonte: CARVALHO e SILVA, 2006 Alguns fatores contribuíram para o escoamento na seção considerada, sendo eles: 1) Precipitação recolhida diretamente pela superfície livre das águas; 2) Escoamento superficial direto (incluindo o escoamento subperficial); 3) Escoamento básico (contribuição do lençol de água subterrânea). É possível observar quatro trechos diferentes na Figura xx, aonde o primeiro vai até o ponto A. Neste primeiro trecho o escoamento ocorre devido exclusivamente à contribuição do lençol freático, fazendo com que a vazão decresça. Entre os pontos A e B acontece a contribuição simultânea dos escoamentos superficial e da base, formando escoamento superficial direto, o qual promove aumento da vazão à medida que aumenta a área de contribuição para o escoamento. 42 Quando a chuva durar tempo suficiente para que toda a área da bacia hidrográfica contribua para a vazão na seção de controle, atinge-se o ponto B, onde ocorre a vazão de pico, ou seja, o valor máximo para a vazão resultante da precipitação sob análise. De qualquer forma o ponto B é um máximo da hidrógrafa, mesmo que toda a área da bacia não contribua para a vazão, porém não representando a condição crítica. Caso a chuva tenha duração superior ao tempo de concentração da bacia, a hidrógrafa tenderá a um patamar com flutuações da intensidade de precipitação. As contribuições dos escoamentos superficiais e de base acontecem no trecho entre os pontos A e B, chamado também de trecho de ascensão do escoamento superficial direto. Quando a chuva houver terminado, a área de contribuição do escoamento superficial é reduzida gradualmente, como mostra o trecho BC. Este trecho é denominado trecho de depleção do escoamento superficial direto, o qual se encerra no ponto C. Quando é observada apenas a contribuição do escoamento básico, chamamos de curva de depleção de escoamento de base, fase apresentada após o término do trecho C. O volume escoado superficialmente (VESD) corresponde à área compreendida entre o trecho de reta AC e a hidrógrafa. Para avaliá-la deve-se utilizar qualquer processo de aproximação como o é a integração numérica, com base, por exemplo, na regra dos trapézios, cuja aplicação resulta: • Equação – Volume escoado superficialmente 43 Q i Q1 +Qn 2 +∑ 1=2 n−1 ; VESD=∆T Desde que ∆t seja constante. Deve-se utilizar para ∆t a mesma unidade de tempo da vazão. O valor encontrado para VESD pode ser transformado em lâmina escoada ou precipitação efetiva (Pe) por meio de: • Equação – Precipitação efetiva Pe= VESD ABH Onde: Pe = precipitação efetiva; VESD = volume escoado superficialmente direto; ABH = área da bacia hidrográfica. A separação do hidrograma em escoamento superficial direto e escoamento básico é muito importante para o estudo das características hidrológicas da bacia e para alguns métodos de previsão de enchentes. A determinação do hidrograma de projeto de uma bacia hidrográfica depende de dois componentes principais, a separação do volume de escoamento superficial e a propagação deste volume para jusante. Este último componente dos modelos 44 hidrológicos geralmente utiliza da teoria de sistemas lineares, ou seja, o hidrograma unitário (HU) (Tucci, 1993). O método de HU, apresentado por Le Roy K. Sherman em 1932 e aperfeiçoado mais tarde por Bernard e outros, baseia-se primariamente em determinadas propriedades do hidrograma de escoamento superficial (Pinto, 1976). O HU é o hidrograma resultante de um escoamento superficial unitário (1 mm, 1cm, 1 polegada) gerado por uma chuva uniforme distribuída sobre a bacia hidrográfica, com intensidade constante de certa duração, constituindo uma característica própria da bacia, refletindo as condições de deflúvio para o desenvolvimento da onda de cheia (Carvalho e Silva, 2006). c) Modelo Chuva-Vazão Não Calibrado Método Racional O método Racional é utilizado para o dimensionamento das redes de drenagem urbana dada sua simplicidade, uma vez que engloba todos os processos em apenas um coeficiente “Coeficiente de Escoamento (C)”. No entanto, não devem ser aplicados em bacias com área superior a 2 km². Os princípios dessa metodologia são: 1) Deve-se considerar a duração da precipitação intensa de projeto igual ao tempo de concentração da bacia. Ao considerar esta igualdade admite-se que a bacia é suficientemente pequena para que esta situação ocorra, pois a duração é inversamente proporcional à intensidade. Em bacias pequenas, as condições mais críticas ocorrem devido às precipitações convectivas que possuem pequena duração e grande intensidade. 2) Adotar um coeficiente único de perdas (coeficiente de escoamento), estimado com base nas características da bacia. 45 3) Não avalia o volume de cheia e a distribuição temporal das vazões. A equação do método racional é a seguinte: • Equação – Método Racional Q=0,27 .C .i . A Onde: Q = vazão máxima (m³/s); 0,027 = correção quando usando a área da bacia em km²; C: coeficiente de escoamento, também conhecido como run-off ou deflúvio; i: intensidade da precipitação (mm/h); A: área da bacia (km²). A tabela abaixo apresenta alguns valores de C relativo a tipos de ocupação de solo. Tabela 2 - Valores do coeficiente de deflúvio, C. Tipo de Ocupação Coeficiente C Áreas com edificação; grau de adensamento - • Muito grande 0,70 a 0,95 • Grande 0,60 a 0,70 • Médio 0,40 a 0,60 • Pequeno 0,20 a 0,40 Áreas livres: matas, parques, campos 0,05 a 0,20 Pavimentos 0,70 a 0,95 Solos com vegetação - • Arenoso 0,05 a 0,15 • Argiloso 0,15 a 0,35 Fonte: RIGHETTO, 1998 46 O coeficiente de escoamento utilizado no método racional depende das seguintes características: • Solo; • Cobertura; • Tipo de ocupação; • Tempo de retorno; • Intensidade da precipitação. • Método Racional Modificado Este método deve ser utilizado para áreas maiores que 80 ha até 200 ha. A equação seguinte representa o método. • Equação - Método Racional Modificado Q= C . i . A 360 . D Onde: D = 1 – 0,009.L/2 (L = comprimento axial da bacia, km). • Método de I – Pai – Wu Método desenvolvido em 1963 sendo aplicado a áreas maiores que 200 ha até 20.000 ha. Equação – Método de I – Pai – Wu Q= C∗.i . A 0,90 360 . K 47 Sendo que: C∗( 21+F ) . C( 42+F ) F= L √ Aπ Onde: F = fator de ajuste relacionado com a forma da bacia; L = comprimento axial da bacia; A = área da bacia; K = coeficiente de distribuição espacial da chuva. d) Fórmulas Empíricas A estimativa por meio de fórmulas empíricas deve ser utilizada somente na impossibilidade do emprego de outra metodologia. A utilização das fórmulas empíricas é principalmente alvo de estudos de previsão de enchentes. 1.8.2 Regime dos cursos d’água De grande importância no estudo das bacias hidrográficas é o conhecimento do sistema de drenagem, ou seja, que tipo de curso d’água está drenando a região de acordo com seu regime. Segundo Carvalho e Silva (2006), uma maneira utilizada para classificar os cursos d’água é a de tomar como base a constância do escoamento com o que se determinam três tipos: 48 a) Perenes: contém água durante todo o tempo. O lençol freático mantém uma alimentação contínua e não desce nunca abaixo do leito do curso d’água, mesmo durante as secas mais severas. b) Intermitentes: em geral, escoam durante as estações de chuvas e secam nas de estiagem. Durante as estações chuvosas, transportam todos os tipos de deflúvio, pois o lençol d’água subterrâneo conserva-se acima do leito fluvial e alimentandoo curso d’água, o que não ocorre na época de estiagem, quando o lençol freático se encontra em um nível inferior ao do leito. c) Efêmeros: existem apenas durante ou imediatamente após os períodos de precipitação e só transportam escoamento superficial. A superfície freática se encontra sempre a um nível inferior ao do leito fluvial, não havendo a possibilidade de escoamento de deflúvio subterrâneo. Os rios proporcionam a forma mais visível de escoamento da água fazendo parte integrante do ciclo hidrológico e alimentado a partir das águas superficiais e subterrâneas (CHRISTOFOLETTI, 19813 apud DESTEFANI, 2005). A vazão é uma das principais variáveis que caracteriza um rio, constituindo-se da quantidade de água que passa por uma sessão num determinado período de tempo. As vazões que escoam em um curso d’água são consideradas estocásticas (TUCCI, 2002) sendo variáveis no tempo e no espaço. Essa variabilidade representada pela subida e descida das águas consideradas no decorrer de um ano civil (janeiro a dezembro) ou um ano hidrológico (ciclo de vazante-cheia-vazante) corresponde ao regime fluvial ou regime de cursos d’água ou hidrológico (DESTEFANI, 2005). Tucci (1993) cita que a variabilidade do regime hidrológico é controlada por alguns elementos que formam a bacia hidrográfica ou fatores que nela ocorrem. Dentre eles estão: as condições climáticas, como a precipitação, evapotranspiração e a radiação 3 CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia fluvial. São Paulo: Edgard Blucher, 1981. 49 solar; a geologia; a geomorfologia; os tipos e uso dos solos; a cobertura vegetal e as ações antrópicas. O regime de um curso d’água se constitui na forma em que é alimentado, ou seja, de acordo com a origem da água que o abastece. Pode ser classificado em pluvial, nival ou misto. O regime pluvial é caracterizado pelos rios que recebem água da chuva, já no regime nival o rio é abastecido pelo derretimento de geleiras. Um exemplo de rio que apresenta regime misto é o rio Amazonas, que suas águas são oriundas de derretimento e de altos níveis pluviométricos. 1.9 Transporte de sedimentos Quando a água está se movimentando rumo à saída de uma bacia hidrográfica, passa sobre as rochas e os solos que formam ou revestem as vertentes e as calhas da rede de drenagem. Os obstáculos que a água encontra determinam os caminhos que ela vai seguir e a velocidade que se deslocará, propiciando que partículas sejam removidas e transportadas vertente ou rio abaixo, pelo fluxo líquido. Embora eventuais, o deslocamento dos sedimentos carregados pela água podem ocasionar a alteração do ciclo hidrológico, e certamente afetar o uso, a conservação e a gestão dos recursos hídricos (BORDAS & SEMMELMANN, 1993). A composição do material do leito e as características geométricas e hidráulicas da seção e do trecho do rio são fatores importantes que influenciam na quantidade de sedimentos transportada. Por essa razão qualquer intervenção que altere o equilíbrio natural do rio pode trazer sérias consequências em termos de erosão e deposição de sedimentos. Transporte e deposição de sedimentos em leitos de cursos d’água são ações naturais que ocorrem de forma lenta e contínua. Porém, esse processo está sendo acelerado pelo homem quando ocupa de forma desordenada e irresponsável as áreas próximas 50 aos rios. A falta de cuidados, como o corte da vegetação, o manejo inadequado do solo e a urbanização acelerada próxima aos rios, são alguns dos fatores que trazem sérias consequências ao meio ambiente e ao homem. Dentre outras decorrências, podemos citar o assoreamento de reservatórios e rios e, por conseguinte, os alagamentos, redução da qualidade da água para consumo e irrigação, mortandade de espécies aquáticas e impossibilidade de navegação devido à diminuição da lâmina d’água. Os custos para a recuperação de um rio ou reservatório assoreado são extremamente altos, por isso medidas preventivas acompanhadas de um monitoramento sedimentométrico são recomendadas (SCAPIN, 2005). Righetto (1998) afirma que grande parte do sedimento transportado por um rio, por exemplo, é proveniente da erosão do solo da bacia hidrográfica, retirando significativa quantidade de nutrientes de terras férteis para agricultura. Esse fato pode acontecer por decorrência de chuva em solos desprotegidos, provocando a erosão por um processo físico complexo de desprendimento e transporte de partículas de solo pela ação do impacto das gotas da chuva e pelo arraste do escoamento superficial. 1.9.1 Ciclo hidrossedimentológico Esse ciclo é paralelo, vinculado fortemente e dependente do ciclo hidrológico. É um ciclo aberto que envolve o deslocamento, o transporte e o depósito de partículas sólidas presentes na superfície da bacia. No entanto, ao contrário das moléculas da água, os sedimentos não terão como voltar ao meio de onde vieram. A gestão integrada dos recursos hídricos, os riscos de degradação dos solos, dos leitos dos rios e dos ecossistemas fluviais e estaurinos, ou de contaminação de sedimentos por produtos químicos, fizeram com que se fosse dada mais atenção ao ciclo hidrossedimentológico, pois o custo dos impactos decorrentes da remoção não 51 controlada de sedimentos nas bacias hidrográficas é bastante elevado (BORDAS & SEMMELMANN, 1993). Os principais fenômenos que compõem o ciclo hidrossedimentológico e que regem o deslocamento de partículas sólidas são a desagregação, separação ou erosão, transporte, decantação ou sedimentação, depósito e consolidação. Esses processos são explicados por Bordas e Semmelmann (1993), como apresentado a seguir: • Desagregação É o desprendimento de partículas sólidas do meio do qual fazem parte, podendo acontecer por reações químicas, flutuações de temperatura, ações mecânicas ou outros fatores naturais. Esses processos deixam uma massa de partículas sólidas exposta à ação do escoamento superficial, que é remanejada pelo movimento das águas. Esse estoque de material sólido é composto por elementos de vários tamanhos e feições, distinguidos como: argila, silte, areia, cascalho, seixo e pedras, pedregulhos ou matacão. • Erosão Erosão é o processo de deslocamento das partículas sólidas de seu local de origem. Esse deslocamento ocorre quando as forças hidrodinâmicas exercidas pelo escoamento sobre uma partícula ultrapassam a resistência por ela oferecida. A resistência tem sua origem, principalmente, no peso das partículas e nas focas de coesão. A coesão constitui a força de resistência por excelência das partículas mais finas, enquanto o peso da partícula é a principal força resistente para as areias e o material mais graúdo. No primeiro caso, os sedimentos são qualificados de coesivos, no segundo de não coesivos ou granulares. • Transporte 52 O processo de transporte de material erodido pela água pode ocorrer de diversas formas. As partículas mais pesadas deslocam-se sobre o fundo por rolamento, deslizamento ou, em alguns casos, por saltos curtos, e constituem a chamada descarga sólida de fundo ou arraste. As mais leves deslocam-se no seio do escoamento e constituem a descarga sólida em suspensão. Estas podem ser provenientes da bacia vertente, ou do fundo e paredes da calha, enquanto o arraste é exclusivamente constituído de material encontrado no fundo. • Sedimentação ou Decantação Neste processo as partículas mais finas transportadas em suspensão, tendem a chegar ao fundo do leito sob ação da gravidade. Pode ainda ocorrer a resistência do meio fluido, impedindo ou reduzindo a queda das partículas para o fundo, principalmente por efeito da turbulência. • Depósito Entende-se por depósito a parada total da partícula em suspensãorecém-decantada sobre o fundo, ou daquela transportada por arraste. Esse processo, por algumas vezes, é confundido com a decantação. No entanto ele se difere, pois uma partícula recém- decantada pode continuar movimentando-se após entrar em contato com o fundo, de acordo com as forças hidrodinâmicas existentes rentes ao fundo. • Consolidação A consolidação ocorre após o depósito das partículas e corresponde ao acúmulo de partículas sobre o fundo e a compactação do depósito resultante sob efeito do próprio peso dos sedimentos, da pressão hidrostática ou qualquer outro fenômeno que venha a 53 aumentar a densidade dos depósitos (efeito do esvaziamento de uma represa, por exemplo). Algumas ações de controle podem ser consideradas para evitar as consequências da erosão e o consequente transporte de sedimentos. Em pequenas bacias hidrográficas, por exemplo, deve haver o correto manejo do solo na agricultura, considerando o tipo de plantação e respeitando as curvas de nível do terreno. Já nas áreas urbanas, uma das ações é a implantação de um sistema de drenagem eficiente e sua manutenção adequada. 1.10 Balanço hídrico O balanço hídrico pode ser entendido como o resultado da quantidade de água que entra e sai de um sistema em um determinado intervalo de tempo. Diversas escalas espaciais podem ser analisadas para se contabilizar o balanço hídrico. Em escala global, o “balanço hídrico” é o próprio “ciclo hidrológico”, cujo resultado nos mostrará a quantidade de água disponível no sistema (no solo, rios, lagos, vegetação úmida e oceanos), ou seja, na biosfera, apresentando um ciclo fechado. A bacia hidrográfica é o melhor espaço de avaliação do comportamento hídrico, pois tem definido o espaço de entrada, a bacia, o local de saída e a seção de rio que define a bacia hidrográfica (TUCCI, 1993). Dessa forma, em uma escala intermediária, que pode ser representada por uma microbacia hidrográfica, o balanço hídrico resulta na vazão de água desse sistema. Para períodos em que a chuva é menor do que a demanda atmosférica por vapor d ´água, a vazão diminui, ao passo em que nos períodos em que a chuva supera a demanda, a vazão aumenta. Na escala local, no caso de uma cultura, o balanço hídrico tem por objetivo estabelecer a variação de armazenamento e, consequentemente, a disponibilidade de água no solo. 54 Conhecendo-se qual a umidade do solo ou quanto de água este armazena é possível se determinar se a cultura está sofrendo deficiência hídrica, a qual está intimamente ligada aos níveis de rendimento dessa lavoura. Conhecendo essas características, podemos aplicar a equação da continuidade da massa, que afirma que o volume de água de entrada menos o volume de água de saída, deve igualar a variação dos estoques de água na área em um determinado período de tempo. Essa lei é representada pela Equação 20. • Equação – Continuidade da massa ∆V=ΣI−ΣO Sendo: ΔV = variação de volume no tempo, que consideraremos de um mês (m3); ΣI = somatório dos volumes de água que entram no sistema isolado (m3); ΣO = somatória dos volumes de água que saem do sistema isolado (m3). Dessa forma, as entradas e saídas podem ser determinadas como apresentadas na Tabela 3. Tabela 3 – Variáveis de entrada e saída de água do Balanço Hídrico Entrada de água Saída de água Chuva Evapotranspiração Orvalho Escoamento Superficial Escoamento Superficial Escoamento Subsuperficial Escoamento Subsuperficial Drenagem Profunda Ascensão capilar Fonte: Tomaz, 2006. 55 De acordo com Tucci (2009), o entendimento do balanço hídrico é um dos fundamentos mais importantes para conhecer os efeitos causados pelo homem sobre o meio natural, disponibilidade hídrica e sustentabilidade ambiental. A determinação do balanço hídrico pode ser realizada para uma camada de solo, para um trecho de rio ou por uma bacia hidrográfica. O conhecimento desses componentes depende de vários fatores como: precipitação, evapotranspiração potencial (aqui embutidas outras variáveis climáticas), condições do solo e uso do solo, geologia subterrânea. Os principais objetivos de se estudar o balanço hídrico, são: conhecer o regime hídrico; conhecer as disponibilidades hídricas; conhecer as demandas de uso da água e prestar informações para elaboração de projetos, estudos e gerenciamentos. É de suma importância para o planejamento agropecuário, principalmente para saber quais são as épocas propícias para plantio e o controle de pragas, para o planejamento de obras de engenharia, previsão e acompanhamento de enchentes, zoneamento de áreas inundáveis, entre outros. Numa bacia o balanço hídrico é determinado por (TUCCI, 1993): • Equação – Balanço hídrico S ( t+1)=S ( t )+(P−E−Q ) . Dt Onde: S (t+1) e S(t) = quantidade de água no tempo t+1 e t; P = precipitação na área da bacia no intervalo; E = evapotranspiração real no intervalo de tempo na bacia; 56 Q =vazão de saída no intervalo de tempo Dt. Quando o período de avaliação (Dt) é muito longo a diferença de armazenamento (S) pode ser considerada desprezível e, dessa forma temos: • Equação P−E=Q A vazão Q no tempo é o hidrograma de saída da bacia e representa o escoamento superficial (superfície das bacias) e subterrâneo (gerado pelos aquíferos) (Figura 9). Figura 9 – Hidrograma de saída Fonte: Tucci, 2009. Disponível em: Blog do Tucci (http://rhama.net/wordpress/?p=116) 57 2. CARACTERÍSTICAS DO MONITORAMENTO 2.1 Coleta de dados de precipitação (chuva) No Brasil a precipitação é convencionalmente medida por meio de aparelhos chamados de pluviômetros ou pluviógrafos. Existe ainda a possibilidade de se medir a precipitação por meio de radar (radares meteorológicos) ou imagens de satélite, mas os erros associados a esses métodos ainda são relativamente grandes (TASSI et al., 2007). No entanto, pelo fato de apresentarem medidas em um contínuo espacial são excelentes ferramentas, que permitem a análise da distribuição espacial da chuva, ao contrário dos pluviômetros e pluviógrafos, na qual a medição é de caráter pontual. Segundo Varejão-Silva (2005) denomina-se pluviometria (do latim pluvia, que significa chuva) à quantificação das precipitações. Em se tratando de precipitações sólidas (neve, por exemplo) essa quantificação é feita provocando-se antes a fusão do gelo. A quantidade de precipitação é normalmente expressa em termos da espessura da camada d’água que se formaria sobre uma superfície horizontal, plana e impermeável, com 1m2 de área. A unidade adotada é o milímetro, que equivale à queda de um litro de água por metro quadrado da projeção da superfície terrestre. • Assim, 1 litro/m2 = 1 dcm3/100 dcm2 = 0,1 cm = 1 mm. Uma precipitação de 50 mm equivale à queda de 50 litros de água por metro quadrado de projeção do terreno (500.000 litros por hectare). A precipitação é ainda caracterizada por sua duração (diferença de tempo entre os instantes de início e término) e por sua intensidade, definida como a quantidade de 58 água caída por unidade de tempo e usualmente expressa em mm por hora (mm/h) (VAREJÃO-SILVA, 2005, p. 405). 2.1.1 Pluviômetros O pluviômetro é um aparelho dotado de uma superfície de captação horizontal, delimitada por um anel metálico e de um reservatório para acumular a água recolhida, ligado a essa área de captação. É um aparelho que fornece o total de água acumulado durante um intervalo de tempo (TASSI et al., 2007). Em função dos detalhes construtivos, há vários modelos de pluviômetros usados no mundo. No Brasil é bastante utilizado o tipo “Ville de Paris” (Figura 10). Esse pluviômetro tem uma forma cilíndrica com uma área superior de captação da chuva de400 cm2, de modo que um volume de 40 ml de água acumulado no pluviômetro corresponda a 1 mm de chuva. Figura 10 - Pluviômetro “Ville de Paris” Fonte: Disponível em: http://www.cchla.ufrn.br/estacao/index/fotos.html 59 Ainda segundo Tassi et al. (2007) a quantidade de chuva que entra no pluviômetro depende da exposição ao vento, da altura do instrumento e da altura dos objetos vizinhos ao aparelho. O efeito do vento altera as trajetórias do ar no espaço circundante ao pluviômetro e causa turbulência nas bordas do instrumento, produzindo erros na observação da chuva. A distância mínima dos obstáculos próximos (prédios, árvores, morros, etc.) deve ser igual a quatro vezes a altura desse obstáculo, devendo o local de instalação estar protegido do impacto direto do vento. O pluviômetro deve ser instalado a uma altura de 1,50 m do solo (Figura 11). Figura 11 – Altura do pluviômetro Fonte: disponível em: http://www.observatorio- phoenix.org/k_ensaios/24_k16_a.htm Nos pluviômetros da rede de observação mantida pela Agência Nacional de Águas (ANA) a medição da chuva é realizada uma vez por dia, sempre às 7h da manhã, por um observador que anota o valor lido em uma caderneta (TASSI et al., 2007). 60 Normalmente, segundo Tassi et al. (2007) durante o processo de monitoramento e operação do instrumento podem ocorrer alguns erros que devem ser minimizados: • Perdas por evaporação da água contida no coletor; • Contagem incorreta do número de provetas resultantes, no caso de chuvas importantes; • Água derramada durante a transferência do coletor para a proveta; • Graduação da proveta não correspondente à área da boca do pluviômetro; • Leitura defeituosa da escala da proveta; • Anotação incorreta na caderneta do observador. Os pluviômetros possuem reservatórios normalmente capazes de acumular a precipitação ocorrida durante 24 horas, exceto sob situações de excepcional abundância de chuva. Para quantificar a água acumulada em um pluviômetro existem basicamente três processos: usar uma proveta especialmente graduada, uma régua, ou uma balança. Uma proveta capaz de indicar a quantidade de água acumulada em um dado pluviômetro, diretamente em milímetros de precipitação, chama-se proveta pluviométrica (Figura 12). A graduação da escala dessa proveta leva em conta sua área de secção reta, bem como a do coletor do pluviômetro. Assim, uma dada proveta pluviométrica somente pode ser usada em instrumentos que tenham área de captação igual àquela considerada para definir a sua escala (VAREJÃO-SILVA, 2005). 61 Figura 12 - Proveta Pluviométrica Fonte: disponível em: http://imageshack.us/photo/my- images/706/proveta.png/ Para efetuar a determinação da precipitação, a água acumulada no reservatório do pluviômetro deve ser previamente transferida à proveta. Faz-se a leitura da quantidade indicada pela coluna de água dentro da proveta sobre a escala, usando como referência o plano tangente ao menisco da coluna líquida, mantendo-se a proveta perfeitamente a prumo. Uma régua pluviométrica é uma escala que se mergulha verticalmente no vasilhame contendo a água oriunda do pluviômetro. As réguas pluviométricas são confeccionadas em material de baixa capilaridade. Segundo Varejão-Silva (2005) na graduação da escala de uma régua pluviométrica são levadas em conta as áreas das secções retas do vasilhame (π r2), da própria régua (s) e do coletor (π R2). A distância (h) entre os dois traços consecutivos da escala, equivalentes à variação de 1 mm de precipitação, será: 62 • Equação – Distância entre as escalas h=πR2 / (πr 2−s ) . O terceiro método de se quantificar a precipitação é por pesagem da água coletada. Ainda que muito mais exato, tem o inconveniente de exigir uma balança de precisão. 2.1.2 Pluviógrafos São aparelhos que registram em gráfico o total de precipitação acumulada ao longo do tempo, imprescindíveis para estudos de precipitação de curta duração. Tanto os pluviômetros quanto os pluviógrafos, costumam ter superfície receptora circular com área entre 200 e 500 cm2 e são geralmente instalados a 1,50 m do solo. Devem ser instalados de tal forma que não sofram influências de árvores, prédios ou outros obstáculos. O pluviógrafo (Figura 13) permite um monitoramento contínuo; originalmente eram mecânicos, utilizavam uma balança para quantificar a água e um papel para registrar o total precipitado. Os pluviógrafos antigos com registro em papel foram substituídos, nos últimos anos, por pluviógrafos eletrônicos com memória (data-logger) (TASSI et al., 2007). 63 Figura 13 – Pluviógrafo de báscula Fonte: Tassi et al., 2007. O pluviógrafo mais comum atualmente é o de cubas basculantes, em que a água recolhida é dirigida para um conjunto de duas cubas articuladas por um eixo central. A água inicialmente é dirigida para uma das cubas e quando esta cuba recebe uma quantidade de água equivalente a 20 g, aproximadamente, o conjunto báscula em torno do eixo, a cuba cheia esvazia e a cuba vazia começa a receber água. Cada movimento das cubas basculantes equivale a uma lâmina precipitada (por exemplo, 0,30 mm), e o aparelho registra o número de movimentos e o tempo em que ocorre cada movimento. 2.1.3 Radares Meteorológicos Conforme anunciado anteriormente, os radares meteorológicos também podem medir a chuva, e esta medição está baseada na emissão de pulsos de radiação eletromagnética, que são refletidos pelas partículas de chuva na atmosfera, e na medição da intensidade do sinal refletido (Figura 14). A relação entre a intensidade do 64 sinal enviado e recebido, chamado refletividade, é correlacionada à intensidade de chuva em cada instante e dentro de um raio de até 200 km. Figura 14 – Estimativa de chuva usando radar Fonte: Tassi et al,. 2007. No Brasil são poucos os radares para uso meteorológico. No estado de São de Paulo é que existem alguns em operação. Em alguns países desenvolvidos como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha a cobertura por radares para estimar a chuva, é completa (TASSI et al., 2007). 2.1.4 Satélite Também é possível fazer estimativas da precipitação a partir de imagens capturadas por sensores instalados em satélites (Figura 15). A temperatura do topo das nuvens, que pode ser estimada a partir de satélites, tem uma boa correlação com a precipitação (quanto mais quente a nuvem mais água ela contém). Além disso, existem experimentos de radares a bordo de satélites que permitem melhorar a estimativa baseada em dados de temperatura de topo de nuvem (TASSI et al., 2007). 65 Figura 15 – Estimativa de chuva através de imagem de satélite Fonte: Tassi et al.,2007. 2.2 Coleta de dados de níveis dos cursos d'água e descarga líquida (vazão) No planejamento e gerenciamento do uso dos recursos hídricos, o conhecimento das vazões é necessário para se fazer um balanço de disponibilidades e demandas ao longo do tempo. Periodicamente são feitas medições de vazão em determinadas seções dos cursos d’água (as estações ou postos fluviométricos). Diariamente ou de forma contínua medem-se os níveis d’água nos rios e esses valores são transformados em vazão através de uma equação chamada de curva-chave (PORTO et al., 2001). 66 Curva-chave é uma relação nível-vazão numa determinada seção do rio. Dado o nível do rio na seção para a qual a expressão foi desenvolvida, obtém-se a vazão. Não é apenas o nível da água que influencia a vazão: a declividade do rio e a forma da seção (mais estreita ou mais larga) também alteram a vazão, ainda que o nível seja o mesmo. Entretanto, tais variáveis são razoavelmente constantes ao longo do tempo para uma determinada seção. A únicavariável temporal é o nível. Assim, uma vez calibrada tal expressão, a monitoração da vazão do rio no tempo fica muito mais simples e com o custo muito menor (PORTO et al., 2001). A expressão da curva-chave poder ser obtida através da medição de vazão em diversos níveis. Tais pares de pontos podem ser interpolados, definindo a expressão matemática da curva-chave. As medições de vazão podem ser realizadas de diversas formas, que empregam princípios distintos: volumétrico, colorimétrico, estruturas hidráulicas (calhas e vertedores), velocimétrico, acústico e eletromagnético. A escolha do método dependerá das condições disponíveis em cada caso. Cada um destes métodos será apresentado a seguir. 2.2.1 Volumétrico Este método é baseado no conceito volumétrico de vazão, isto é, vazão é o volume que passa por uma determinada seção de controle por unidade de tempo. É utilizado um dispositivo para concentrar todo o fluxo em um recipiente de volume conhecido. Mede-se o tempo de preenchimento total do recipiente. Este processo é limitado a pequenas vazões, em geral pequenas fontes d’água, minas e canais de irrigação (PORTO et al., 2001). 2.2.2 Calhas Parshall 67 As calhas Parshall são igualmente como os vertedores, estruturas construídas no curso d’água e possuem sua própria “curva-chave”. Assim, a determinação de vazão a partir do nível é direta para a seção onde a mesma está instalada. No entanto, se não há ondas de cheia propagando pelo canal, a vazão que passa pela calha é a mesma que passa por qualquer outra seção do rio. Pode-se então gerar a curva-chave para outras seções de interesse medindo o nível da água em tais seções e relacionando-os com a vazão medida pela calha ou vertedor (PORTO et al., 2001). O método (calha ou vertedor) se aplica a escoamento sob regime fluvial. Isto consiste em forçar a mudança deste comportamento para o regime torrencial, medindo-se a profundidade crítica. No caso da calha, tal mudança é condicionada por um estreitamento da seção conforme ilustrado abaixo nas Figuras 16 e 17. Figura 16 – Calha Parshall ilustrando as condições de afogamento e saída livre Fonte: Porto et al., 2001. 68 Figura 17 – Calha Parshall Fonte: Porto et al., 2001. Assim, com o conhecimento do nível da água na região da profundidade crítica obtêm- se a vazão do canal, uma vez que a forma da seção da calha e a cota do fundo são conhecidas. Se a saída de jusante se dá de forma livre (sem afogamento), a vazão pode ser assim definida: • Equação – Vazão QL =K . H n Onde: QL = vazão do canal; 69 H = profundidade crítica; K e n = constantes que dependem das características da calha. Conforme a Tabela 4 com valores de K e n para diversos padrões. Tabela 4 - Valores de n e K para determinar a vazão Valores de n- K (para vazão em m3/h) W N K (inch) (mm) 1” 25,4 1, 550 217,29 2” 50,8 1, 550 434,58 3” 76,2 1, 547 633,60 6” 152,4 1, 580 1371,60 9” 228,6 1, 530 1926,00 12” 304,8 1, 522 2484,00 18” 457,2 1, 538 3794,40 24” 609,6 1, 550 5133,60 36” 914,4 1, 556 7855,20 48” 1219,2 1, 578 10566,00 60” 1524,0 1, 587 13420,80 72” 1828,8 1, 16254,00 70 595 84” 2133,6 1, 601 19101,60 96” 2438,4 1, 606 21963,60 Fonte: Norma ASTM 1941:1975. Caso a saída da água do canal se dá sob afogamento, forma-se um ressalto hidráulico e a vazão calculada pela expressão acima precisa ser corrigida: • Equação – Correção de vazão QA=QL .C Onde: QA = vazão do canal: C = coeficiente de redução: As calhas Parshall não interferem no escoamento (como ocorre com os vertedores, ao provocarem o remanso), mas apresentam um forte limitante: sua viabilidade está restrita a pequenos canais (PORTO et al., 2001). 2.2.3 Vertedor Este dispositivo também se baseia na determinação da vazão a partir da medição do nível d’água. Existem diversos modelos de vertedores com diferentes curvas que relacionam o nível d’água com a respectiva vazão. • Vertedores de soleira delgada São composições hidráulicas que forçam o escoamento a passar do regime subcrítico (lento) para o regime supercrítico (rápido), para as quais a relação entre a cota e vazão 71 é conhecida. Dessa forma, o nível de água medido a montante com uma régua pode ser utilizado para estimar diretamente a vazão (Figura 18). Figura 18 – Vertedor triangular para medição de vazão em pequenos cursos d’água Fonte: Collischonn, 2011 Um vertedor triangular de soleira delgada com ângulo de 90° (Figura 19), por exemplo, tem uma relação entre cota e vazão, que pode ser verificada pela seguinte equação: • Equação – Vazão vertedor triangular Q=1,42.h2,5 Onde: Q = vazão (m³/s); h = carga hidráulica (m) sobre o vertedor que é a distância do vértice ao nível da água, medido a montante do vertedor. 72 A relação entre a cota e a vazão de um rio pode ser utilizada diretamente, porém sugere-se que na maioria dos casos seja realizada a verificação em laboratório. Figura 19 – Vertedor triangular com soleira delgada em ângulo de 90º Fonte: Collischonn, 2011 No caso de abertura trapezoidal, a forma que têm os lados com inclinação 4:1 (indicador de declividade dos taludes -1 unidade na horizontal e 4 unidades na vertical) é conhecida como vertedor Cipoletti (Figura 20). Figura 20 – Vertedor trapezoidal (Cipoletti) Fonte: Pereira e Mello A dedução da equação de vazão parte da equação de Francis para vertedores com duas contrações laterais e que fornece: • Equação – Equação de Francis – vertedores com duas contrações laterais 73 Q=1,861. L .h 3 2 Onde: Q = vazão (m³/s); L = comprimento da soleira (m); h = carga hidráulica (m). Além dos vertedores já apresentados, existem também os retangulares (Figura 21). A equação para determinação de vazão de vertedores retangulares mais utilizada é a proposta por Francis, pois é simples e oferece bons resultados. Figura 21 – Vertedor retangular Fonte: Pereira e Mello • Equação de Francis para vertedores retangulares: • Equação – Equação de Francis – vertedores retangulares 74 Q=1,838. L .h 3 2 Onde: Q = vazão (m³/s); L = comprimento da soleira (m); h = carga hidráulica (m). 2.2.4 Ultrassônico Dois aparelhos emissor-receptores de ultrassom são dispostos de forma a emitirem pulsos de cerca de 4MHz na direção do fluxo de água. De montante para jusante a propagação do pulso é favorecida pelo fluxo de água, tendo a velocidade “v” acrescida à sua velocidade de propagação neste meio fluido. No sentido oposto, ocorre o contrário, conforme (Figura 22). Assim, como os dois pulsos são produzidos simultaneamente aparece uma defasagem no tempo de recepção (PORTO et al., 2001). • Equação – Velocidade “v” v= c 2 . ∆T 2 . l Onde: ∆T = diferença de tempo entre a recepção dos pulsos; C = velocidade de propagação do som no fluido; L = distância entre os emissor-receptores; 75 V = velocidade do escoamento na linha que liga os dois aparelhos; Figura 22 – Esquema Emissor-receptor de ultra-som Fonte: Porto et al., 2001, p.12. O aparelho da Figura 23 fundamenta-se em outro princípio, o efeito Doppler. Figura 23 – Medidor de vazão ultrassônico baseado no efeito Doppler. Fonte: Porto et al., 2001. Este medidor possui emissores e receptores apontados para diversas direções. O pulso de ultrassom emitido pelo aparelho é refletido por partículas presentes na água. Portanto, o pulso refletido por uma partícula que caminha ao encontro do aparelho é captado por este com frequência maior à que foi emitida. 76 Por outro lado, o pulso refletido por uma partícula que se afasta do equipamentochega com velocidade e frequência menores que as emitidas. Com base nesta diferença de frequência produzida pelo efeito Doppler, o aparelho calcula diretamente a vazão do rio. Este equipamento possui um alcance de mais de 22 m e é bastante utilizado para monitorar a vazão de forma permanente, sendo fixado, por exemplo, em pilares de pontes (PORTO et al., 2001). 2.2.5 Eletromagnético O princípio eletromagnético do método produz o perfil de velocidades do escoamento. Assim, com o perfil da seção do rio pode se calcular sua vazão. Um aparelho gera um campo magnético na água. Os íons presentes na água (concentração conhecida) movem-se com a velocidade da mesma e alteram o campo magnético que foi produzido. Tal perturbação é medida, fornecendo indiretamente a velocidade com que as partículas carregadas passaram pelo campo (PORTO et al., 2001). 2.2.6 Colorimétrico ou radioativo Existem situações nas quais a aplicação dos métodos anteriores é inviável ou até mesmo impossível. Por exemplo: • Escoamentos com velocidades altas, muita turbulência e leito irregular, como rios de montanhas; • Perigos devido a transporte de grandes sólidos, como troncos de árvores, ou ainda presença de cachoeiras, etc. Em situações como estas, pode-se utilizar uma técnica interessante, baseada na diluição de um produto químico (ex: corante) de concentração conhecida, aplicado ininterruptamente numa determinada seção do rio. Numa seção a jusante (o 77 escoamento deve ser suficientemente turbulento para provocar a total diluição), mede- se a concentração deste produto. Segundo Porto et al., (2001), a medição é feita depois de estabelecido o regime permanente, ou seja, têm-se ao mesmo tempo aplicação do traçador (solução química com vazão conhecida) na seção 1 e medição desta solução diluída na seção 2 a jusante. A vazão pode então ser assim definida: • Equação – Vazão q .C1=(Q+q ) .C 2 Onde: q = vazão do produto traçador; Q = vazão do rio; C1 = concentração inicial do traçador; C2 = concentração após total diluição no rio. O produto químico utilizado como traçador não deve reagir com impurezas existentes na água do rio e muito menos se prejudicial à fauna ou à flora. Caso seja radioativo, deve-se corrigir o efeito do decaimento no tempo (PORTO et al., 2001). 2.2.7 Molinete Molinetes: são aparelhos que permitem, desde que bem aferidos, o cálculo da velocidade mediante a medida do tempo necessário para uma hélice ou concha dar um certo número de rotações. Através de um sistema elétrico, o molinete envia um sinal 78 luminoso ou sonoro ao operador em cada, 5, 10 ou 20 (ou outro número qualquer) voltas realizadas. Marca-se o tempo decorrido entre alguns toques, de forma a se ter o número de rotações por segundo (n). Cada molinete, quando tarado, recebe a sua curva V = a.n+b, onde “n” tem um significado acima visto e “a” e “b” são constantes do aparelho, o que permite o calculo da velocidade V (m/s) em cada ponto considerado (Pinto, 1976). 2.2.8 Medição do Nível d’água O nível d’água deve ser medido simultaneamente com a medição vazão na operação de determinação da curva-chave, a fim de se obter os pares de pontos cota-descarga a serem interpolados. Uma vez definida a curva-chave, precisamos monitorar apenas o nível d’água para obtermos a vazão do rio. O sufixo grafo é aplicado quando o monitoramento do nível se dá de forma contínua ao longo do tempo, sendo os registros realizados em papel ou data-logger. O sufixo metro é aplicado a métodos que fazem a verificação do nível em intervalos discretos de tempo, como a leitura da régua por um operador (PORTO et al., 2001). • Régua (limnímetro) A forma mais simples para medir o nível de um curso d’água é colocar uma régua vertical na água e observar sua marcação. As réguas na maioria das vezes são constituídas de elementos verticais de 1 metro graduados em centímetro. São placas de metal inoxidável ou de madeira colocadas de modo que o elemento inferior fique na água mesmo em caso de estiagem excepcional conforme a (Figura 24). 79 Figura 24 – Esquema de instalação e réguas na margem do rio Fonte: Porto et al., 2001. A leitura de cotas é feita pelo observador com uma frequência definida pelo órgão operador da estação, pelo menos uma vez por dia. Normalmente a precisão destas observações é da ordem de centímetros. • Limnígrafo Segundo Porto et al., (2001), este equipamento grava as variações de nível continuamente no tempo. Isto permite registrar eventos significativos de curta duração ocorrendo essencialmente em pequenas bacias. É possível classificar os tipos de limnígrafos segundo as quatro etapas da aquisição: medição, transmissão de sinal, gravação e transmissão do registro. Quanto à medição: • Boia flutuante (Figura 25); 80 Figura 25 – Limnígrafo de boia Fonte: Porto et al., 2001. • Sensor de pressão a gás, que possui uma membrana que separa o gás do interior da célula da água do leito do rio. Tal membrana se deforma em função da coluna d’água existente sobre ela, induzindo uma determinada pressão no gás, que é constantemente monitorada (Figura 26). Figura 26 – Sensor de pressão Fonte: Porto et al., 2001. 81 • Borbulhador, que emprega um princípio parecido com o do sensor de pressão a gás. A coluna d’água sobre o bico injetor é obtida a partir da pressão necessária para que as bolhas de ar comecem a sair. • Sensor eletrônico (ou transdutor de pressão), que também se baseia na deformação de uma membrana, percebida eletronicamente; • Ultrassônico, aparelho posicionado fora da água num suporte, emitindo constantemente pulsos de ultrassom contra a superfície do rio (PORTO et al., 2001). Quanto à transmissão do sinal: • Mecânica, (pena ou codificador colocado na ponta de uma alavanca tipo “rosca sem fim” movimentada com cabo e roldana) com sistema de redução da amplitude do sinal em uma escala definida (1:1, 1:2, etc, sendo 1:10 a mais comum). O mecanismo de rosca sem fim permite que se registrem níveis d’água quaisquer sem a necessidade de se alterar a dimensão do limnígrafo. Quando o cursor (“pena”) atinge o final do curso, seu trajeto é revertido. No gráfico do limnigrama (NA x tempo) esta reversão aparecerá como um ponto anguloso. • Eletrônica (cálculo e digitalização do sinal transmitido pelo sensor). Quanto à gravação • Em suporte de papel, que pode ser: fita colocada em volta de um tambor com rotação de uma hora a 1 mês; (Figura 27). 82 Figura 27 – Gravação contínua em papel Fonte: Porto et al., 2001. • Memorizada em suporte eletrônico (data-logger); • Transmitida em tempo real para uma central de operação. 2.3 Coleta de dados de descarga sólida O ciclo hidrossedimentológico ocorre paralelamente ao ciclo hidrológico nas bacias hidrográficas, pois é dependente do ciclo hidrológico nos processos de deslocamento, transporte e depósito de partículas sólidas presentes na superfície da bacia hidrográfica. A produção de sedimentos na área de drenagem é afetada pelos seguintes fatores: a precipitação, tipo de solo e formação geológica, cobertura do solo, uso do solo, topografia, natureza da rede de drenagem, escoamento superficial, características dos sedimentos e hidráulica dos canais. A quantidade medida do sedimento transportado pelos cursos d’água é chamada sedimentometria. Segundo Carvalho et al., (2000), existem diversos métodos em sedimentometria, que podem ser classificados como métodos diretos e indiretos. No nosso país a 83 sedimentometria tem sido realizada por amostragem de sedimento, análise no laboratório e cálculos de obtenção da descarga sólida, sendo este procedimento considerado umdos métodos indiretos. A seguir serão apresentados os métodos de medição de carga sólida simplificadamente na Tabela 5. Tabela 5 – Métodos de medição de carga sólida Descarga Sólida Medição Descrição Equipamentos ou metodologia de medida Descarga Sólida em Suspensão Direta Usa equipamentos que medem diretamente no curso d' água a concentração ou outra grandeza como a turbidez ou ultrassom. Medidor Nuclear (portátil ou Fixo); Ultrassônico ótico; Ultrassônico Doppler de dispersão; Turbidímetro; ADCP (Doppler) Por acumulação de sedimento num medidor (proveta graduada) Garrafa Delf (medição pontual e concentração alta) 84 Indireta Coleta de sedimento por amostragem da mistura água- sedimento, análise de concentração e granulometria e cálculos posteriores de descarga sólida. Diversos tipos de equipamentos: de bombeamento, equipamentos que usam garrafas ou sacas, sendo pontuais instantâneos, pontuais por integração e integradores na vertical (no Brasil usa-se principalmente a série norte-americana - U-59, DH-48, DH-59, D-49, P- 61 e amostrador de saca). Uso de fotos de satélite e comparação com medidas simultâneas de campo para calibragem, em grandes rios. São estabelecidas equações que correlacionam as grandezas de observação das fotos com as concentrações medidas. Descarga Sólida Medição Descrição Equipamentos ou metodologia de medida 85 Descarga Sólida de Arrasto Direta Amostrad ores ou medidores portáteis de três tipos principais (a amostra é coletada em diversos pontos da seção transversal, determinada o seu peso seco, a granulometria é calculada a descarga de arrasto); o medidor fica apoiado no leito entre 2 min. a 2 horas de tal forma a receber no receptor 30 a 50% de sua capacidade. 1) Cesta ou caixa - medidores Muhlhofer, Ehrenberger, da Autoridade Suiça e outros; 2) Bandeja ou tanque - medidores Losiebsky, Polyakov, SRIHH e outros 3) Diferença de pressão - medidores Helly-Smith, Arnhem, Sphinx, do USCE, Karolyi, do PRI, Yangtze, Yangtze-78 VUV e outros Estrutura s tipo fenda ou poço - as fendas do leito do rio são abertas por instantes e Medidor Mulhofer (EUA) 86 coletado o sedimento Indireta Coleta de material do leito, análise granulométrica, medida da declividade, da temperatura, parâmetros hidráulicos e cálculos da descarga de arrasto e de material do leito por fórmulas (de Ackers e White, Colby, Einstein, Engelund e Hansen, Kalinske, Laursen, Meyer- Peter e Muller, Rottner, Schoklitsch, Toffaleti, Yang e outras). Tipos de equipamento: 1) De penetração horizontal, tipos caçamba de dragagem e de concha. 2) De penetração vertical, tipos de tubo vertical, caçamba de raspagem, caçamba de escavação e escavação de pedregulho. 3) Tipo piston-core que retém a amostra por vácuo parcial. 87 Deslocam ento de dunas - por medida de volume de duna que se desloca com uso de ecobatimetro de alta resolução. 1) Levantamento batimétrico seguidamente ao longo da seção transversal. . 2) Levantamento batimétrico seguidamente ao longo de seções longitudinais. Descarga Sólida Medição Descrição Equipamentos ou metodologia de medida Descarga Sólida de Arrasto Indireta 1) Traçadores radioativos 2) Traçadores de diluição, sendo ambos os métodos com a colocação do traçador no sedimento e seu acompanhamento com equipamento apropriado (o traçador deve ser escolhido de tal forma a não poluir o meio ambiente). Métodos: 1) Por coloração direta do traçador no sedimento do leito do rio 2) Por coleta do sedimento, colocação do traçador no sedimento e seu retorno ao leito. 88 Proprieda des litológicas - uso das características mineralógicas dos sedimentos. Coleta do leito de afluentes e do curso principal, determinação das características mineralógicas dos sedimentos e comparação por uso de equações adequadas a partir das quantidades dos componentes existentes nas amostras. Método acústico - utilizado para pedras que se chocam no medidor. (Pouco eficiente) Método fotográfico de amostragem - utilizado para pedras (coloca0se uma escala que também é fotografada). Fotos de pedras submersas; Fotos de pedras de leitos secos. 89 Descarga Sólida Total Direta Uso de estruturas tipo blocos, no leito, para provocar turbulência e todo o sedimento fica sem suspensão. Faz-se amostragem do sedimento e calcula- se como descarga em suspensão. Levantam ento topo- batimétrico de reservatório, detreminação do volume dos depósitos e da eficiência de retenção de sedimentos no lago 1) Para pequenos reservatórios permite o cálculo do sedimento no leito. 2) Para grandes reservatórios permite o cálculo do sedimento total. Descarga Sólida Medição Descrição Equipamentos ou metodologia de medida Descarga Sólida Total Indireta Coleta de material em suspensão e do leito, análise de concentração, análise granulométrica, medida de Diversos tipos de equipamentos: de bombeamento, equipamentos que usam garrafas ou sacas, sendo pontuais instantâneos, 90 temperatura, parâmetros hidráulicos e cálculo da descarga total - método modificado de Einstein e método simplificado de Colby. pontuais por integração e integradores na vertical (no Brasil usa-se principalmente a série norte- americana - U-59, DH-48, DH-59, D-49, P-61 e amostrador de saca). Fonte: Carvalho et al., 2000, p.18. Os equipamentos de medida ou de amostragem em suspensão podem ser classificados em vários tipos, conforme disposto por (Carvalho et al., 2000): • Instantâneos ou integradores; • Portáteis ou fixos; • De bocal ou com bico; • Instantâneos pontuais, pontuais por integração e por integração na vertical; • Amostrador de tubo horizontal, de garrafa, de saca compressível, de bombeamento, de integração, fotoelétrico, nuclear, ultrassônico ótico, ultrassônico de dispersão e ultrassônico Doppler; • Os equipamentos também podem ser classificados pela orientação de seus bicos ou bocais como na direção da corrente ou em 90º com a corrente. 91 2.3.1 Técnicas de amostragem • Amostragem do material em suspensão Os métodos ou técnicas de amostragem são: pontual instantâneo, pontual por integração e integração na vertical ou em profundidade. Para Carvalho et al., (2000), as amostragens pontuais são empregadas somente em trabalhos específicos ou científicos, sendo a mais rotineira a integração na vertical, porque permite a obtenção da concentração e da granulometria média na vertical. Na amostragem por integração a amostra é coletada em um certo tempo, normalmente superior a 10s, o que permite a determinação da concentração média mais significativa do que a pontual instantânea. A obtenção de valores médios em toda a seção é realizada através da amostragem em várias verticais, uma vez que a distribuição desedimentos é variável em toda a largura do rio e em profundidade, conforme mostra a Figura 28. 92 Figura 28 – Distribuição da velocidade da corrente, concentração de sedimentos e da descarga sólida em suspensão na seção transversal Fonte: Guy et al., 1970 apud Carvalho et al., 2000. Recomenda-se não fazer amostragens em locais de águas paradas, devendo-se considerar somente a largura de água corrente. Tente não realizar amostragens atrás de bancos de areia e pilares de pontes. Também é recomendado medir a temperatura da água para aquisição da viscosidade cinemática, que é utilizada em diversas fórmulas de transporte de sedimento. Para que a aquisição do dado seja correta, o termômetro deve ser mergulhado completamente na água até que a temperatura se regularize, realizando a leitura quase na superfície, na horizontal, sem retirá-lo da água. 93 Segundo Carvalho et al., (2000), além da necessidade de fazer amostragens em verticais ao longo de toda a seção transversal, tanto em largura quanto em profundidade, deve-se ter cuidado para coletar amostras em quantidade suficiente ,para que sejam realizadas análises com a precisão desejada. Para o sedimento em suspensão deve-se fazer a sua análise de concentração e se necessário também de granulometria. Fatores como quantidade e características dos sedimentos, bem como qualidades químicas de componentes contidos na água influenciam o processamento das amostras. Para não ocorrer erros de pesagem deve- se ter cuidado para que as amostras possuam a quantidade de sedimento necessário para oferecer condição de boa análise e com precisão desejada. Se as amostras contêm grandes quantidades de sedimento, requerem bipartição da amostra para não causar problemas de pesagem, ambos conduzindo a erros indesejáveis. • Amostragem por integração na vertical Para Carvalho et al., (2000), a amostragem por integração na vertical pode ser realizada em um só sentido ou em dois, de descida e subida. Faz-se em um só sentido apenas quando se controla a entrada da amostra por abertura e fechamento de válvula, como no caso do amostrador P-61. Os equipamentos DH-48, DH-59, D-49, amostrador de saca e outros só permitem a amostragem em dois sentidos. Neste tipo de amostragem por integração na vertical, a mistura água-sedimento é acumulada continuamente no recipiente, e o amostrador se move verticalmente em uma velocidade de trânsito constante entre a superfície e um ponto a poucos centímetros acima do leito, entrando a mistura numa velocidade quase igual à velocidade instantânea da corrente em cada ponto na vertical. 94 Esse procedimento é conhecido com IVT, Igual Velocidade de Trânsito ( do inglês, ETR, equal transit rate). Para não correr o risco de coletar sedimento de arrasto, o amostrador não deve tocar o leito. Para que a velocidade de entrada da amostra seja igual ou quase igual à velocidade instantânea da corrente é necessário que o bico fique na horizontal, ou seja, o amostrador deve ter cuidado para se movimentar sem haver inclinação. Isso ocorre quando a velocidade de trânsito, ou de percurso é proporcional à velocidade média. Segundo estudos em laboratório, os bicos apresentam diferentes constantes de proporcionalidade, conformes as seguintes relações apresentadas por (Carvalho et al., 2000): Bico de 1/8”: vt = 0,2.vm Bico de 3/16” e¼”: vt = 0,4.vm Sendo Vt – velocidade máxima de trânsito ou de percurso do amostrador Vm – velocidade média da corrente na vertical de amostragem Para a prática de campo calcula-se o tempo de amostragem pelas seguintes equações: • Equação – Tempo de amostragem para Bico de 1/8” tmin = 2 . p Vt = 2 . p 0,2 .Vm • Equação – Tempo de amostragem para Bico de 3/16” e 1/4" 95 tmin = 2 . p Vt = 2 . p 0,4 .Vm Sendo 2.p a distância percorrida de ida e volta pelo amostrador na profundidade p da superfície para o leito. Numa coleta por integração vertical o ideal é coletar aproximadamente 400 mL de amostra água-sedimento para amostradores com garrafas com capacidade máxima de 500 mL, nos quais são normalmente utilizados na maioria das medições realizadas no País, conforme ilustração (Figura 29) abaixo: Figura 29 – Garrafa de amostragem indicando níveis a serem obedecidos Fonte: Carvalho et al., 2000. 96 • Amostragem por igual incremento de largura, IIL Devido a sua simplicidade esse é método mais utilizado para amostragem da mistura água-sedimento. Neste método IIL a área da seção transversal é divida numa serie de verticais igualmente espaçadas. Em cada vertical se utiliza a amostragem por integração na vertical, mas com a mesma velocidade de trânsito em todas as verticais. Para isso deve-se usar sempre o mesmo amostrador com o mesmo bico. Como as velocidades médias em cada vertical são diferentes, diminuindo geralmente do talvegue para as margens, então as quantidades amostradas por garrafa vão se reduzindo a partir do talvegue com quantidades proporcionais ao fluxo conforme mostrado na (Figura 30). Segundo Carvalho et al., (2000), para a operação de campo e obtenção adequada das diversas amostras, em primeiro lugar é realizada a medida da descarga líquida com verticais escolhidas igualmente espaçadas para se obter as velocidades médias da corrente para o cálculo dos tempos de amostragem. Em seguida, selecionam-se as verticais escolhidas para as amostragens, dentre as quais é escolhida a vertical de referência, a qual apresenta a maior velocidade média, se a seção for regular, ou o maior produto entre velocidade média e profundidade, se a seção for irregular. Assim, nessa vertical obtém-se a primeira amostra, adotando os procedimentos com o cálculo do tempo mínimo de amostragem. 97 Figura 30 – Exemplo de amostragem pelo método de igual incremento de largura Fonte: Edwards/Glysson, 1988 apud Carvalho et al., 2000. Conforme a velocidade, o bico é escolhido: em baixas velocidades usa-se o bico de 1/4"; em velocidades moderadas, o bico de 3/16” e em maiores velocidades, o de 1/18”. Ainda segundo Carvalho et al., (2000), é necessário que a primeira amostra parcial seja otimizada, isto é, que seja coletado um volume até o limite permitido pela garrafa do amostrador utilizados na posição de coleta, ou seja, na horizontal. As amostras parciais obtidas em cada vertical devem ser combinadas em uma só amostra composta para determinação da concentração média e, caso seja necessário, da granulometria. • Amostragem por igual incremento de descarga, IID No método IID, a seção transversal é dividida lateralmente em segmentos, representando iguais incrementos de descarga para que seja feita em cada um deles uma coleta de amostra, dividindo cada incremento em duas porções iguais. 98 Segundo Carvalho et al., (2000), para esse procedimento é necessário primeiro efetuar a medição da descarga líquida e calculá-la. A partir desta medição, faz-se um gráfico utilizando-se as porcentagens acumuladas da descarga, em ordenadas, em função das distâncias em relação ao ponto inicial das medições em abscissas. Fazem-se também os desenhos da seção transversal na parte inferior do gráfico e o gráfico das velocidades médias em cada vertical da seção. Nas ordenadas obtêm-se as porcentagens iguais ao número de amostras desejadas. O próximo passo é a obtenção no gráfico das abscissas e profundidades desejadas para as posições das coletas. Cada amostra parcial pode ser coletada utilizando o bico do amostrador de acordo com a velocidade da corrente, calculando a velocidade de trânsito máxima e o tempo mínimo de amostragem. A regra seguinte, é que todas as amostras tenham o mesmo volume; é desejável ser de 400 mL ou próximo disso, para amostradoresde 500 mL de capacidade. Nesse método podem ser coletados de 5 a 15 amostras parciais, que podem ser combinadas em uma só amostra composta, ou analisadas individualmente. • Anotações necessárias Segundo Carvalho et al., (2000), existem dois processos de etiquetagem ou de identificação das amostras: o primeiro é etiquetar cada garrafa com todos os dados necessários; o segundo é simplificar a etiquetagem da garrafa e criar uma lista paralela. Em qualquer processo é necessário identificar posto e rio, data, hora da coleta, número da garrafa, abscissa e profundidade de amostragem, nível d’água, temperatura da água, amostrador utilizado e nome do hidrometrista, todas indispensáveis. Outras informações úteis podem constar de um relatório do hidrometrista. Os recipientes com as amostras devem ser bem tamponados para evitar derramamento durante transporte 99 para o laboratório. Se possível, colocar um esparadrapo ou fita colante indicando o nível d'água no frasco. 2.4 Coleta de dados de qualidade da água Para uma adequada gestão dos recursos hídricos são primordiais o monitoramento e a avaliação da qualidade das águas superficiais e subterrâneas, permitindo assim a caracterização e análise de tendências em bacias hidrográficas, sendo essenciais para várias atividades de gestão, tais como: planejamento, outorga, cobrança e enquadramento dos cursos de água. No Brasil o monitoramento da qualidade da água é realizado por uma variedade de órgãos estaduais de meio ambiente e recursos hídricos, companhias de saneamento e empresas do setor elétrico. Assim, não existem procedimentos padronizados de coleta, frequência de coleta e análise das informações. Para permitir a comparação dos resultados e tornar possível que se apliquem em diferentes locais as experiências adquiridas, os procedimentos de coleta e análise dos dados devem ser uniformes. Segundo o Programa Nacional de Avaliação da Qualidade das Águas (PNQA) lançado pela Agência Nacional de Águas, no monitoramento da qualidade das águas, são acompanhadas as alterações nas características físicas, químicas e biológicas da água, provenientes de atividades antrópicas e de fenômenos naturais. Uma rede de monitoramento de qualidade de água é constituída dos seguintes elementos: • Pontos de coleta, denominados estações de monitoramento, definidos em função dos objetivos da rede e identificados pelas coordenadas geográficas. • Conjunto de instrumentos, utilizados na determinação de parâmetros em campo e em laboratório. 100 • Conjunto de equipamentos utilizados na coleta: baldes, amostradores em profundidade (garrafa de Van Dorn), corda, frascos, caixa térmica, veículos, barcos e motores de popa. • Protocolos para a determinação de parâmetros em campo, para a coleta e preservação das amostras, para análise laboratorial dos parâmetros de qualidade e para identificação das amostras. • Estrutura lógica de envio das amostras: locais para o envio das amostras, disponibilidade de transporte, logística de recebimento e encaminhamento das amostras para laboratório. Para indicar a contaminação orgânica da água usa-se o Índice de Qualidade das Águas, utilizados atualmente por dez unidades da Federação. Segundo o PNQA o uso de índices de qualidade da água surge da necessidade de sintetizar a informação sobre vários parâmetros físico-químicos, visando informar à população e orientar as ações de planejamento e gestão da qualidade da água. O Índice que Qualidade das Águas (IQA) foi elaborado em 1970 pelo National Sanitation Foundation (NSF), dos Estados Unidos, a partir de uma pesquisa de opinião realizada com especialistas em qualidade de águas. No Brasil, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) de São Paulo o utiliza desde 1975. Nas décadas seguintes, outros Estados brasileiros adotaram o IQA, que hoje é o principal índice de qualidade da água utilizado no país. Segundo o PNQA os parâmetros de qualidade que fazem parte do cálculo do IQA refletem, principalmente, a contaminação dos corpos hídricos ocasionada pelo lançamento de esgotos domésticos. É importante também salientar que esse índice foi desenvolvido para avaliar a qualidade das águas, tendo como determinante principal 101 sua utilização para o abastecimento público, considerando aspectos relativos ao tratamento dessas águas. A avaliação da qualidade da água obtida pelo IQA apresenta limitações, já que este índice não analisa vários parâmetros importantes para o abastecimento público, tais como substâncias tóxicas, protozoários patogênicos e substâncias que interferem nas propriedades organolépticas da água. O IQA é composto por nove parâmetros, com seus respectivos pesos (W), que foram fixados em função da sua importância para a conformação global da qualidade da água (Tabela 6). Tabela 6 – Parâmetros do Índice de Qualidade das Águas (IQA) e respectivos pesos PARÂMETROS PESOS Oxigênio dissolvido w= 0,17 Coliformes termotolerantes w= 0,15 Potencial hidrogeniônico (pH) w= 0,12 Demanda bioquímica de oxigênio (DBO5,20) w= 0,10 Temperatura da água w= 0,10 Nitrogênio total w= 0,10 Fósforo total w= 0,10 Turbidez w= 0,08 Resíduo total w= 0,08 Fonte: Adaptado de Cetesb 2008. Além de seu peso (w), cada parâmetro possui um valor de qualidade (q), obtido do respectivo gráfico de qualidade em função de sua concentração ou medida (Figura 31). 102 Figura 31 - Curvas Médias de Variação de Qualidade das Águas 1 10¹ 10² 10³ 104 105 C. F. # / 100 ml Nota: se C. F. > 10 , q = 3,05 1 q1 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Coliformes Fecais para i = 1 w = 0,151 2 q2 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 pH para i = 2 pH, Unidades Nota: se pH < 2,0, q = 2,02 se pH > 12,0, q = 3,02 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 w = 0,122 0 q3 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Demanda Bioquímica de Oxigênio para i = 3 DBO , mg/l5 Nota: se DBO > 30,0, q = 2,05 3 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 w = 0,103 0 q4 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Nitrogênio Total para i = 4 N. T. mg/l Nota: se N. T. > 100,0, q = 1,04 10 20 30 40 50 60 70 80 100 w = 0,104 0 q5 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Fósforo Total para i = 5 PO - T mg/l4 Nota: se Po - T > 10,0, q = 1,054 1 2 3 4 5 6 7 8 10 w = 0,105 -5 q6 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Temperatura (afastamento da temperatura de equilíbrio) para i = 6 Nota: se t < -5,0 q é indefinido∆ 6 0 5 10 15 20 w = 0,106 At, °C se t > 15,0 q = 9,0∆ 6 0 q7 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Turbidez para i = 7 Turbidez U. F. T. Nota: se turbidez > 100, q = 5,07 10 20 30 40 50 60 70 80 100 w = 0,087 0 q8 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Resíduo Total para i = 8 R. T. mg/t Nota: se R. T. > 500, q = 32,08 100 200 300 400 500 w = 0,088 0 q9 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Oxigênio Dissolvido para i = 9 O.D. % de saturação Nota: se OD. %sat. > 140, q = 47,09 40 80 120 160 200 w = 0,179 Fonte: Cetesb, 2008. O cálculo do IQA é feito por meio do produtório ponderado dos nove parâmetros, seguindo a seguinte fórmula: • Equação – Índice de qualidade de água 103 IQA=∏ i=1 n qiW i Onde: IQA = Índice de Qualidade das Águas, um número entre 0 e 100; qi = qualidade do i-ésimo parâmetro, um número entre 0 e 100, obtido da respectiva “curva média de variação dequalidade”, em função de sua concentração ou medida e, wi = peso correspondente ao i-ésimo parâmetro, um número entre 0 e 1, atribuído em função da sua importância para a conformação global de qualidade, sendo que: • Equação ∑ i=1 n W i=1 Onde: n = número de variáveis que entram no cálculo do IQA. Os valores do IQA são classificados em faixas, que variam entre os estados brasileiros conforme o (Tabela 7). 104 Tabela 7 – Classificação dos valores do Índice de Qualidade das Águas Faixas de IQA utilizadas nos seguintes Estados: AL, MG, MT, PR, RJ, RN, RS Faixas de IQA utilizadas nos seguintes Estados: BA, CE, ES, GO, MS, PB, PE, SP Avaliação da Qualidade da Água 91-100 80-100 Ótima 71-90 52-79 Boa 51-70 37-51 Razoável 26-50 20-36 Ruim 0-25 0-19 Péssima Fonte: Adaptado de Cetesb 2008. 2.5 Técnica de análise de dados de precipitações, níveis e descarga líquida O objetivo de um posto de medição de chuvas é o de obter uma série ininterrupta de precipitações ao longo dos anos ou o estudo da variação das intensidades de chuva ao longo das tormentas. Em qualquer caso pode ocorrer a existência de períodos sem informações ou com falhas nas observações, devido a problemas com os aparelhos de registro e/ou com o operador do posto (TASSI et al., 2007). Alguns processos empregados na consistência dos dados serão descritos a seguir: • Identificação dos erros grosseiros Os erros mais comuns observados são: • Preenchimento errado do valor na caderneta de campo; • Soma errada do número de provetas, quando a precipitação é alta; • Valor estimado pelo observador, por não se encontrar no local no dia da amostragem; 105 • Crescimento de vegetação ou outra obstrução próxima ao posto de observação; • Danificação do aparelho; • Problemas mecânicos no registrador gráfico. Após a análise, as séries poderão apresentar falhas, que devem ser preenchidas por alguns dos métodos indicados a seguir. • Preenchimento de falhas Quando se trabalha com precipitação deseja-se uma série ininterrupta e mais longa possível de dados. No entanto, podem ocorrer dias, ou períodos maiores em que o dado de precipitação não foi obtido, ocasionando assim uma falha. Para o preenchimento de falhas podemos utilizar os seguintes métodos: • Método de Ponderação Regional; • Método de Regressão Linear. O método de Ponderação Regional é um método simplificado normalmente utilizado para o preenchimento de séries mensais ou anuais de precipitações, visando a homogeneização do período de informações e a analise estatística das precipitações. Designado por x a estação que apresenta falha e por A, B e C as estações vizinhas, pode-se determinar a precipitação Px da estação x pela média ponderada dos registros das três estações vizinhas, onde os pesos são as razões entre as precipitações médias anuais, assim, tem-se: • Equação – Precipitação Px 106 Px= 1 3( NxNA PA+ NxNB PB+ NxNC PC) Onde: PA, PB e PC = Precipitação nas estações A, B, C. NA, NB e NC = Médias nas estações A, B, C. Px, Nx = Precipitação média na estação em questão. Exemplo: Considerando as precipitações dadas na tabela, calcular a precipitação. Tabela 7 – Calcular Precipitação Ano A B C D 1965 28 4,60 232 ,00 289,60 216,60 1966 12 9,00 139 ,00 122,70 117,50 1967 95 ,80 96, 60 100,70 97,80 1968 89 ,80 80, 00 92,70 131,10 1969 12 9,20 124 ,50 128,70 118,80 1970 15 8,60 149 ,80 174,60 150,00 1971 53 ,20 147 ,30 163,40 140,40 Média 14 8,60 138 ,46 153,13 140,18 Fonte: Nota do autor Assim, temos: 107 Px= 1 3(140,18148,60 89,80+140,18138,46 80,00+140,18153,13 92,70) P x=83,52 • Análise de consistência de séries pluviométricas • Método da Dupla Massa Um dos métodos mais conhecidos para a análise de consistência dos dados de precipitação é o Método da Dupla Massa, desenvolvido pelo Geological Survey (USA). A principal finalidade do método é identificar se ocorreram mudanças no comportamento da precipitação ao longo do tempo, ou mesmo no local de observação. Esse método é baseado no princípio que o gráfico de uma quantidade acumulada, plotada contra outra quantidade acumulada, durante o mesmo período, deve ser uma linha reta, sempre que as quantidades sejam proporcionais (TASSI et al., 2007). A declividade da reta ajustada nesse processo representa, então, a constante de declividade. Especificamente, devem-se selecionar os postos de uma região, acumular para cada um deles os valores mensais (se for o caso), e plotar num gráfico cartesiano os valores acumulados correspondentes ao posto a consistir (nas ordenadas) e de outro posto confiável adotado como base de comparação (nas abscissas). Pode-se também modificar o método, considerando valores médios das precipitações mensais acumuladas em vários postos da região, e plotar esses valores no eixo das abscissas. A Figura 32 exemplifica a análise de Dupla Massa para os postos 3252006 e 3252008, para um período de 37 anos de dados de precipitação mensal, onde se pode observar 108 que não ocorreram inconsistências. A declividade da reta determina o fator de proporcionalidade entre as séries. A possibilidade de não alinhamento dos postos segundo uma única reta existe e pode apresentar as seguintes situações: Figura 32 – Análise de Dupla Massa – Sem inconsistências Fonte: Tassi et al., 2007. Quando o gráfico anterior formar uma reta quer dizer que o posto pertence àquela região meteorológica. Alguns casos típicos serão apresentados abaixo por Barbosa, 2010: • Caso 1: Ok - Série de valores proporcionais, homogênea; − Série confiável. 109 Fonte: Barbosa, 2010. • Caso 2: Pode estar correto - Erros sistemáticos; - Mudança nas condições de observação; - Existência de uma causa física real, por exemplo, presença de um reservatório artificial e mudança no microclima; - Pode ter ocorrido mudança de localização dos postos. Pode-se modificar a reta dependendo do segmento que se considerou mais correto. Fonte: Barbosa, 2010. • Caso 3: Não está correto - Possíveis erros de transcrição; - Talvez os postos pertençam a regiões meteorológicas diferentes. 110 Fonte: Barbosa, 2010 • Caso 4: Não está correto - Postos em regiões meteorológicas diferentes. Fonte: Barbosa, 2010. • Correção dos dados (Caso 2): • Passar os valores mais antigos para a tendência atual; • Passar os dados mais recentes para a tendência antiga. • Equação – Precipitação acumulada ajustada 111 Pc=Pa+ Ma Mo (Po−Pa ) Onde: Pc = precipitação acumulada ajustada à tendência desejada. Pa = Valor da ordenada correspondente à interseção das duas tendências. Ma = Coeficiente angular da tendência desejada. Mo = Coeficiente angular da tendência a corrigir. Po = Valor acumulado a ser corrigido. Fonte: Barbosa, 2010. 112 3. APLICAÇÃO DE DADOS HIDROLÓGICOS EM SÉRIES HISTÓRICAS E ESTUDOS Um conjunto de dados hidrológicos deve ser previamente analisado com base em alguns indicadores para que se possa, efetivamente, desenvolver estudos e chegar a resultados desejados. De acordo com Chevallier (1993), é essencial lembrar que a aquisição de dados hidrológicos de boa qualidade é bastante difícil, embora a medição e os aparelhos sejam simples. No entanto, é muito raro encontrar uma série de dados pluviométricos ou pluviográficos confiável. Antes de analisar a consistência dos dados, é de suma importância conhecer os métodos de aquisição e dos aparelhos usados. Os temas a seguir mostraram a aplicação de alguns dados hidrológicos existentes. 3.1 Estudos de vazões máximase mínimas 3.1.1 Vazões máximas A vazão máxima de um rio é entendida como sendo o valor associado a um risco de ser igualado ou ultrapassado, que pode produzir enchentes nas margens. Elas podem ser controladas por obras hidráulicas como condutos, bueiros e vertedores, que permitem a drenagem do escoamento. A estimativa da vazão máxima é de suma importância para o dimensionamento de tais obras (TUCCI, 1993). As vazões máximas são de grande interesse para o estudo de cheias e inundações, sendo as vazões mais elevadas que ocorrem em uma seção do rio (DESTEFANI, 2005). Villela e Mattos (1975) explicam que nem toda cheia causa inundações, sendo que a enchente é caracterizada por uma vazão grande de escoamento e as inundações são consideradas quando ocorre extravasamento das águas do canal. Uma ferramenta importante no estudo das vazões máximas é o hidrograma, que representa graficamente a distribuição da vazão em função do tempo numa dada seção 113 de um curso d’água. Essa distribuição é interpretada como sendo a resposta da bacia hidrográfica ou área de drenagem quando estimulada pelas chuvas que caem sobre essa área (RIGHETTO, 1998). Um hidrograma de projeto ou hidrograma tipo é uma sequência temporal de vazões relacionadas a um risco de ocorrência, considerando o volume, distribuição temporal e o valor máximo da chuva (pico do hidrograma) (TUCCI, 1993). Um hidrograma típico produzido por uma chuva intensa apresenta uma curva com um pico único (Figura 33). Porém, se houver variações abruptas na intensidade da chuva, uma sequência de chuvas intensas ou uma recessão anormal do escoamento subterrâneo, o hidrograma gerado pode apresentar picos múltiplos (Porto et al., 1999). Figura 33 – Hidrograma típico Fonte: Porto et al., 1999 A determinação de vazões máximas e a construção de hidrogramas são necessárias para o controle e atenuação das cheias numa determinada área, dimensionamento de obras hidráulicas de drenagem urbana, perímetro de irrigação, diques e extravasores de barragens, entre outros. As estimativas desses valores têm importância decisiva nos custos e na segurança de projetos de engenharia e podem ser realizadas com base (TUCCI, 1993): a) No ajuste de uma distribuição estatística; 114 b) Na regionalização de vazões; e c) Na precipitação (método racional). Tucci (1993) cita que a distribuição estatística pode ser ajustada se existirem dados históricos de vazão no local de interesse e as condições da bacia hidrográfica não se modificarem, e pode ser utilizada para a estimativa da vazão máxima para um risco escolhido. Já no caso de não existirem dados ou ter uma série de dados pequena, a estimativa de vazão máxima pode se dar pela regionalização de vazões máximas ou pelas precipitações. A regionalização permite estimar a vazão máxima em locais sem dados com base em postos da região e será apresentada posteriormente. As precipitações máximas são transformadas em vazão através de modelos matemáticos já apresentados. • Vazões máximas com base em série histórica Todos os valores de vazões máximas devem ser ajustados e para isso são utilizadas distribuições estatísticas. As séries amostrais para esse cálculo de vazão máxima podem ser anuais ou parciais. As séries anuais são as vazões máximas ocorridas em cada ano, desprezando outros valores ocorridos. O ajuste de séries parciais utiliza os valores máximos escolhidos a partir de uma determinada vazão escolhida. A diferença de resultados entre as duas séries apenas ocorre para tempo de retorno pequeno (TUCCI, 1993). 3.1.2 Vazões mínimas As vazões mínimas são geralmente consideradas as de estiagem, sendo representadas pelos valores mais baixos da série histórica. No entanto, a vazão mínima mensal é o valor mais inferior de cada mês e não é necessariamente uma vazão correspondente a 115 um período de estiagem. Normalmente a vazão mínima é aplicada para avaliação da demanda mínima que um rio pode oferecer (DESTEFANI, 2005). A vazão mínima é utilizada para o planejamento da bacia hidrográfica, para a avaliação do cumprimento aos padrões ambientais do corpo receptor e para a alocação de cargas poluidoras. Assim, a determinação das eficiências requeridas para os tratamentos dos diversos lançamentos deve ser determinada nas condições críticas. Estas condições críticas no corpo receptor ocorrem exatamente no período de vazão mínima, em que a capacidade de diluição é menor. A vazão crítica deve ser calculada a partir de dados fluviométricos históricos do curso d'água (VON SPERLING, 1996). É um importante parâmetro hidrológico com grande aplicação nos estudos de planejamento e gestão do uso dos recursos hídricos. Além disso, constitui importante instrumento da Política Nacional dos Recursos Hídricos do Brasil, pois fornece estimativa estatística da disponibilidade hídrica dos escoamentos naturais de água. Levando em conta a necessidade de se estabelecer diretrizes gerais para a definição da vazão mínima remanescente, a ser observada nas avaliações de disponibilidade hídrica, o Conselho Nacional de Recursos Hídricos - CNRH publicou a Resolução nº 129, de 29 de junho de 2011, definindo tais diretrizes. De acordo com Tucci (1993), as vazões mínimas, em alguns casos, se caracterizam pelos menores valores das séries anuais. São associadas a uma duração t. Por exemplo, a vazão mínima de um ano qualquer com duração de 30 dias, indica que é o menor valor do ano da vazão média de 30 dias consecutivos. Usualmente, a vazão mínima de 1 dia tem pouca utilidade, já que a sequência de vazões baixas é a condição mais crítica na utilização da água. A curva de probabilidade de vazões mínimas possibilita a encontrar a estimativa de riscos de acontecerem vazões menores que um valor elencado. Esta curva pode ser utilizada em regularização de vazão para 116 abastecimento de água e irrigação, estudos de qualidade da água, dentre outros diversos. 3.2 Cálculo de precipitação média em bacias hidrográficas Visando calcular a precipitação média em uma superfície qualquer, devemos utilizar as observações dentro dessa dada área ou região (vizinhanças). A precipitação média é dada como sendo a lâmina de água com altura uniforme sobre uma área considerada, que deve estar associada a um período de tempo. Para calcular a precipitação média em bacias hidrográficas (ou área) existem vários métodos, porem os mais usuais são o Método da Média Aritmética, o Método de Thiessen e o Método das Isoietas, que serão vistos a seguir. 3.2.1 Método da Média Aritmética Segundo Bertoni e Tucci, 1993 a precipitação média é calculada através da média aritmética dos valores médios de precipitação. É importante ressaltar que o método ignora as variações geográficas da precipitação, portanto só pode ser aplicado em regiões onde isso pode ser feito sem cometer grandes erros, como por exemplo, em áreas planas com variação gradual, suave gradiente pluviométrica e com cobertura de postos de medição bastante densa. Um exemplo da aplicação deste método pode ser observado logo abaixo a figura 34. 117 Figura 34 – Bacia Hidrográfica utilizada para cálculo da precipitação média pelo método da média aritmética. Fonte: Teixeira, 2010. • Equação – Equação para determinação da média aritmética Pm= 1 n ∙∑ Pi Onde: Pm = precipitação média na área (mm); Pi = precipitação média no i-ésimo pluviômetro (mm); n = número total de pluviômetros. Portanto: 118 Pm= (66+50+44+40 ) 4 =50 mm 3.2.2 Método de Thiessen O método de Thiessen também é conhecido como o método do vizinho mais próximo, sendo um dos mais utilizados. Ele considera a não uniformidade da distribuição espacialdos postos, porém não leva em conta o relevo da bacia. Neste método deve ser definida a área de influência de cada posto pluviométrico dentro da bacia hidrográfica. Conforme Teixeira (2010), para calcular a precipitação em uma bacia hidrográfica com valores médios de precipitação, em uma área total de 100 km² (Figura 35), devemos adotar os seguintes passos. Figura 35 - Bacia Hidrográfica utilizada para o cálculo da precipitação média pelo método deThiessen. Fonte: Teixeira, 2010 119 Primeiramente devemos traçar linhas que unem os pontos pluviométricos mais próximos, conforme mostra a figura 36. Figura 36 – Traçado de linhas unindo postos pluviométricos da bacia em estudo. Fonte: Teixeira, 2010 Em seguida deve-se determinar o ponto médio em cada uma das linhas que foram traçadas, e a partir disso, traçar uma linha perpendicular, como mostra a figura 37. Figura 37 – Determinação do ponto médio e traçado da linha perpendicular. 120 Fonte: Teixeira, 2010 Através da intercepção das linhas médias que foram traçadas entre si, mais o limite da bacia, temos a área de influência de cada um dos postos conforme mostra a figura 38. Figura 38 – Definição da região de influência de cada posto. Fonte: Teixeira, 2010 Segundo Teixeira (2010), temos que: • A área sobre a influência do posto com 120 mm é de 15 km²; • A área sobre a influência do posto com 70 mm é de 40 km²; • A área sobre a influência do posto com 50 mm é de 30 km²; • A área sobre a influência do posto com 75 mm é de 5 km²; • A área sobre a influência do posto com 82 mm é de 10 km². Logo, a precipitação média da bacia será dada por: • Equação – Precipitação média 121 Pm=∑ At−Pt A Onde: At: área de influência do posto i; Pt: precipitação registrada no posto i; A: área total da bacia. Deste modo temos que: Pm= 120.15 100 +70 . 40 100 +50 . 30 100 +75 . 5 100 +82 .10 100 Pm=73 mm Se o método da média aritmética fosse utilizado teríamos apenas dois postos no interior da bacia, logo a média seria 60 mm. E no caso se ser feita a média utilizando os postos que estão fora da bacia, chegaríamos a 79,5 mm. 3.2.3 Método das Isoietas Este método utiliza linhas, chamadas de isoietas, que unem pontos de igual precipitação dentro de uma bacia hidrográfica. Após termos os valores de chuva em cada posto, unem-se estes com linhas retas nas quais se interpolam linearmente os valores para as quais se pretende traçar as 122 isolinhas4. Considerando a mesma bacia do método de Thiessen, com área total de 100 km², aplicaremos o método de Isoietas. Deve ser feito o mesmo procedimento demonstrado na figura 40, onde se devem traçar as linhas que unem os postos pluviométricos mais próximos entre si. Segundo Teixeira (2010), em seguida se dividem as linhas escrevendo os valores da precipitação interpolados linearmente, como mostra a figura 39. Figura 39 - Divisão das linhas escrevendo os valores de precipitação interpolados. Fonte: Teixeira, 2010. O próximo passo será traçar as isolinhas, conforme demonstrado na figura 40. 4 Isolinhas são linhas de mesmo valor. Mesma precipitação pluviométrica. 123 Figura 40 - Traçado das isolinhas. Fonte: Teixeira, 2010 Após realizar o traçado das isolinhas, determina-se a precipitação média na bacia hidrográfica. A figura 41 mostra uma área com hachura que iremos chamar de área Ai, que é delimitada por duas isoietas. Esta área é utilizada como ponderador, segundo a seguinte equação: • Equação Pm= ∑ i=1 n Pi . Ai ∑ i= 1 n Ai 124 Figura 41 - Determinação da precipitação média utilizando o método das isoietas. Fonte: Teixeira, 2010 3.3 Regionalização de vazões A regionalização de dados hidrológicos é o alvo principal dos estudos hidrológicos envolvendo a implantação e operação de redes hidrométricas, caracterização geomorfológica das bacias hidrográficas e modelagem matemática (SMITH, 19895 apud RIGHETTO, 1998). A obtenção de dados para os estudos em hidrologia e recursos hídricos é muito trabalhosa e, por isso, os hidrólogos tentam buscar formas e transferências de informações de um local para outro da bacia, dentro de uma área com comportamento hidrológico semelhante. Como a implantação, manutenção e operação de uma rede 5 SMITH, J. A., 1989, “Regional Flood Frequency Analysis Using Extreme Order Statistics of the Annual Peak Record”, Water Resources Research, vol. 25, nº 2, PP. 311 – 317. 125 hidrométrica são relativamente caras, torna-se importante a otimização das informações disponíveis (TUCCI, 1993). Dessa forma, Tucci (1993) explica que a regionalização de vazões consiste num conjunto de ferramentas que exploram ao máximo as informações existentes, visando a estimativa das variáveis hidrológicas em locais sem dados ou insuficientes, podendo ser usadas para melhor explorar as amostras pontuais e, por conseguinte, melhorar as estimativas das variáveis; verificar a consistência das séries hidrológicas; identificar a falta de postos de observação. Tucci (1993) classifica os métodos de regionalização em três classes: métodos que regionalizam parâmetros de uma distribuição estatística, métodos que regionalizam um evento de vazão com um determinado risco e os métodos de regionalização da curva adimensional de frequências, denominados métodos de regionalização index-flood. De acordo com Pinto & Naghettini (1999)6 apud Davis & Naghettini (2000), independentemente do método de regionalização a ser utilizado, um dos pontos cruciais é a definição de regiões estatisticamente homogêneas, ou seja, aquelas contendo várias estações cujas séries sejam oriundas de populações regidas pela mesma distribuição de probabilidades, com os parâmetros de posição e escala variando entre as estações. Os itens a seguir esclarecerão como funciona cada método classificado por Tucci, 1993. • Métodos que regionalizam parâmetros de uma distribuição estatística 6 PINTO, E.J.A. & NAGHETTINI, M. Definição de regiões homogêneas e regionalização de freqüência das precipitações diárias máximas anuais da bacia do alto rio São Francisco. Anais. 13º SIMPÓSIO BRASILEIRO DE RECURSOS HÍDRICOS (CD-ROM), Belo Horizonte, 1999. 126 Este método analisa que uma distribuição estatística ajusta bem os dados dos postos da região escolhida, considerando diferentes bacias. Sendo µ e σ os parâmetros, obtêm-se as estimativas μ 1, σ 1; μ 2, σ 2;...; µn, σn, onde n é o número de bacias ou postos. Os parâmetros obtidos são relacionados com as características físicas e meteorológicas das bacias, chegando às seguintes expressões: µ = f1 (A, P, S,...) σ = f2 (A, P, S,...) Onde: A = área (km2); P = precipitação (mm); S = declividade (m). Para aqueles postos que não possuírem dados ou que tiverem dados insuficientes, os parâmetros µ e σ são estimados com base nas expressões apresentadas, após a determinação das características físicas e climáticas de mapas disponíveis. Dessa forma, sabendo quais são os parâmetros da distribuição estatística, as vazões com o risco desejado podem ser encontradas. • Métodos que regionalizam a vazão com um determinado risco Da mesma forma que o método anterior, as distribuições a vazões de diferentes postos ou bacias são ajustadas. A vazão de alguns tempos de retorno de interesse é obtida das distribuições ajustadas a cada posto e com base nesses dados a regressão é estabelecida entre as vazões e as características físicas das bacias, obtendo-se as seguintes relações: QT1 = G1 (A, P, S,...) 127 QT2 = G2 (A, P, S,...) QTm = Gm (A, P, S,...) Onde: Gm (A, P, S,...) = equação de regressão para o tempo de retorno Tm. Para aquelas bacias semdados são utilizadas diretamente as equações acima. Neste procedimento podem-se utilizar diferentes distribuições para os postos. • Métodos que regionalizam uma curva de probabilidade adimensional e o fator de adimensionalidade Este método dimensionaliza as curvas individuais de probabilidade com base no seu valor médio, e estabelece uma curva adimensional regional média dos postos com a mesma tendência. Essa curva pode ser expressa por: F1(QT/Qm) = 1/T Onde: T= tempo de retorno Qm = valor médio QT = valor com tempo de retorno T Separando os dois componentes de probabilidade, a vazão média e a curva adimensional de probabilidade, é possível estimar cada uma das partes, de acordo com as informações disponíveis, sendo bastante útil principalmente para locais com série menores que 10 anos. Tucci (1993) cita ainda outros dois métodos de regionalização. Um deles é o de funções específicas que relacionam variáveis hidrológicas, resultando em curva de 128 regularização, curva de infiltração e curva de permanência. São usualmente utilizados dois procedimentos: ajuste de uma função matemática aos dados de cada posto e regionalização dos parâmetros da função matemática, e adimensionalização da função, obtenção de uma curva média com base nas curvas adimensionais dos diferentes postos e a regressão entre a variável de adimensionalização e características físicas e climáticas. O outro método é o de parâmetros de modelos hidrológicos, que nem sempre apresentam relações definidas entre as características físicas do sistema e os seus parâmetros. Quando o local de interesse possui dados observados, a estimativa desses parâmetros pode ser realizada, porém, quando isso não ocorre, a estimativa pode ser feita com base em experiências de outras bacias. Um dos critérios para esse procedimento é a regionalização, que toma como base a determinação de equação de regressão entre o parâmetro ou combinação de parâmetros e características físicas e climáticas das bacias, que possam ser estimadas por mapas, e a definição do intervalo de variação possível dos parâmetros com base em informações características das bacias. 3.3.1 Fases do desenvolvimento da regionalização A regionalização das curvas de probabilidade de vazões aqui apresentada segue os métodos que regionalizam uma curva de probabilidade adimensional e o fator de adimensionalidade. As fases podem ser as seguintes (TUCCI, 1993): • Análise dos dados básicos; • Curva adimensional de probabilidade; • Regressão da vazão de adimensionalização; • Regiões homogêneas; 129 • Mapeamento das vazões específicas. 3.4 Regularização de vazões (reservatórios) e controle de estiagens A regularização das vazões naturais é um processo que tem como objetivo a melhor utilização dos recursos hídricos. Para esse fim, é necessário promover-se o represamento das águas, através da construção de barragens (reservatórios) em seções bem determinadas dos cursos d’água naturais. Com a regularização das vazões por meio da construção de reservatório pretende-se, ainda, alcançar vários outros objetivos, dentre eles: o atendimento às necessidades do abastecimento urbano ou rural (irrigação); o aproveitamento hidroelétrico (geração de energia); a atenuação de cheias (combate às inundações); o controle de estiagens; o controle de sedimentos; a recreação; e, também, permitir a navegação fluvial. Toda vez que o aproveitamento da água prevê a retirada de uma vazão de uma dada proporção de um rio, deve-se confrontar este valor com as vazões naturais deste curso d’água. Se as vazões naturais forem expressivamente maiores que a retirada, mesmo durante os períodos de estiagem (vazões naturais mínimas), não haverá a necessidade da regularização de vazão. Contudo, se a vazão a ser retirada é superior à mínima do curso d’água, se torna necessária a reservação dos excessos sobre a vazão derivada para atender aos períodos cujas vazões naturais são menores que aquelas derivadas (VILLELA & MATTOS, 1975). Sabendo que as vazões fluviais são muito variáveis, tendo como resultado visível a ocorrência de excesso hídrico nos períodos úmidos e a carência nos períodos de seca, é necessário que seja preconizada a formação de reservas durante as épocas chuvosas, a fim de suprir as necessidades dos períodos secos. Como as ocorrências de chuvas são eventuais, não é possível prever com precisão o tamanho da reserva de água necessária para o suprimento das demandas, levando os planejadores de 130 recursos hídricos a duas situações ineficientes: superdimensionar as reservas à custa de altos investimentos, ou subdimensionar as reservas considerando o racionamento durante o período seco (LANNA, 1993). Lanna (1993) também alega que a dimensão ótima para um reservatório deverá ser considerada em função de um compromisso entre o custo de investimento na sua implantação e o custo da escassez de água durante os períodos secos. O custo do investimento é diretamente proporcional e o segundo é inversamente proporcional à dimensão do reservatório. Ainda assim, existem outros fatores que podem influenciar na tomada de decisão: a demanda de água também pode ser variável e aleatória como a vazão, e existem perdas de água em um reservatório por evaporação, infiltração e vazamentos. O fato é que o estudo de um reservatório de regularização de vazões exige o conhecimento de sua dimensão, das vazões afluentes, da demanda a ser suprida e das perdas que poderão ocorrer. Primeiramente, conhecidas as vazões naturais ou de entrada no reservatório, pode-se calcular o volume para atender a uma dada lei para as vazões regularizadas ou de saída do reservatório. É possível também, dado um certo reservatório, determinar uma lei para as vazões regularizadas, que mais se aproxime da regularização total, isto é, da derivação constante da vazão média. As soluções destes problemas são básicas para o projeto e operação de reservatórios de regularização de vazões (VILLELA & MATTOS, 1975). Para calcular o volume do reservatório com o intuito de atender a uma lei de regularização, aplica-se a seguinte função: • Equação – Lei de regularização 131 Y (t )= Q r ( t ) Qmed . Onde: Qr(t) = vazão regularizada em função do tempo (t) (soma de todas as vazões que saem do reservatório; Qmed = vazão média no período considerado. De acordo com Villela & Mattos (1975), a capacidade mínima de um reservatório para atender a uma certa lei de regularização é dada pela diferença entre o volume acumulado que seria necessário para atender aquela lei no período mais crítico de estiagem e o volume acumulado que aflui ao reservatório no mesmo período. Levando em conta diversos períodos de estiagem, o mais crítico é aquele que resulta na maior capacidade do reservatório. Assim, pode-se calcular a capacidade do reservatório para vários períodos de estiagens e adotar a maior capacidade encontrada. A figura 42, por exemplo, apresenta um hidrógrafa com dados de entrada de um ano: 132 Figura 42 – Hidrógrafa de entrada de um reservatório Fonte: Villela & Mattos, 1975 Observando a figura, é fácil perceber que o período crítico para essa lei de regularização é estabelecido entre os meses de abril e setembro. Supondo-se que se queira a seguinte lei de regularização: Y (t )=1 Isso significa que se deseja uma vazão regularizada constante e igual à média (Qmed). O volume necessário para manter a vazão Qmed, durante os meses críticos é: • Equação – Volume necessário 133 V n =Qmed .(∆tabr .+∆t mai .+∆t jun .+∆t jul .+∆t ago.+∆t set .) Onde: Vn Volume necessário (m³); ∆tabr. = número de segundos do mês de abril; ∆tmai. = número de segundosdo mês de maio e assim por diante; Qmed = vazão média (m³/s). O volume que chega (Va) ao reservatório neste período é: • Equação – Volume que chega ao reservatório V a =Qabr . ∆t abr .+Qmai . ∆tmai .+Q jun . ∆t jun .+Q jul . ∆t jul .+Q ago. ∆tago .+Qset . ∆t set . Dessa forma, a capacidade (Cr) mínima do reservatório para manter aquela lei de regularização, será: • Equação – Capacidade mínima C r =V n−V a 134 Onde: Cr = capacidade mínima do reservatório (m³); Vn = volume necessário (m³); Va = volume que chega ao reservatório (m³). Após conhecer a lei de regularização e a capacidade do reservatório, é possível determinar os volumes atuais do reservatório. Villela e Mattos (1975) sugerem um diagrama de massas (curvas ABCD da Figura 45), e que, através da lei de regularização, se construa a curva integral das vazões regularizadas (curva AEFD da Figura 43). Figura 43 – Volumes atuais do reservatório Fonte: Villela & Mattos, 1975. Conforme foi visto, a capacidade do reservatório será dada pela soma dos segmentos BE e CF. Construindo a curva do diagrama de massas deslocada para cima do valor da capacidade do reservatório, tem-se a curva GHIJ. 135 Desenhando a curva integral das vazões regularizadas deslocada para cima do segmento BE, tem-se a reta LBIM. Observando a figura, pode-se verificar que no tempo t1 o reservatório estará completamente cheio, pois se derivou uma vazão np intervalo (Dt1) muito menor que as vazões naturais. No intervalo de tempo (t1, t2) o reservatório se esvaziará, pois se derivará uma vazão maior que as naturais. Assim supondo que no tempo t1 o reservatório esteja completamente cheio, os volumes atuais (V) do reservatório serão dados por: • Equação – Volume atual do reservatório V=C r+∫ t 1 t Qdt−∫ t1 t Qr dt Onde: V = volume no tempo t (m3); Cr = capacidade do reservatório (m3); Q = vazões naturais (m3/s); Qr = vazões regularizadas (m3/s); t = tempo genérico (s). É fácil observar que o volume (V) é dado pelo segmento NO da figura e ainda que, para qualquer tempo t, os volumes do reservatório podem ser dados pelas diferenças entre as curvas GHOIJ e LBNIM. • Curva de permanência A curva de permanência também é conhecida também como curva de duração. A elaboração da curva de permanência consiste na construção de um gráfico que informa 136 com que frequência a vazão de dada magnitude é igualada ou excedida durante o período de registro de vazões. A figura 44 apresenta uma curva de permanência de vazão típica. Figura 44 - Curva de permanência de vazão típica. Fonte: Barbosa, 2005 Em um sentido estatístico a curva de permanência representa uma curva de distribuição das frequências acumuladas de ocorrência das vazões em um dado rio. a) Construção da curva de permanência A curva é construída com base nos registros de vazões em uma dada estação fluviométrica. A curva pode ser construída para vazões diárias (vazão média diária), vazões médias mensais ou vazões médias anuais. Segundo Barbosa (2005), é muito provável que a curva de permanência com vazões médias anuais difira significativamente daquela construída com vazões médias mensais, ou diárias. Como em geral, existe uma variação média da vazão de um rio mês a mês, que mantém um valor médio anual aproximadamente constante, a curva de permanência para vazões médias mensais terá uma forma aproximada à da Figura 44. Para construir a curva de permanência o procedimento utilizado é como segue abaixo: 1) Dispor as vazões observadas no período considerado em ordem decrescente; 2) Com a amplitude da variação das vazões, definem-se os intervalos de classe; 137 Uma primeira idéia é fazer N=√n → k= AN Chamando de: n = número de dados de vazões médias; A = amplitude da variação das vazões (Qmax-Qmin); N = número de intervalo de classe; K = amplitude do intervalo de classe. 3) Dispor os intervalos em ordem decrescente e verificar o número de eventos ocorridos em cada intervalo – frequência absoluta. 4) Calcular a frequência relativa (frequência absoluta / número de dados) para cada intervalo e acumulá-las seguindo a ordem anterior. 5) Plotar em um gráfico o limite inferior de cada intervalo (ordenada) e a correspondente frequência relativa acumulada (abscissa) para se obter a curva de permanência das vazões. • Controle de estiagem Quando consideramos um histórico de vazão de, por exemplo, 30 anos, a escolha do período mais crítico de estiagem, ou seja, de menores vazões durante o maior intervalo de tempo, terá o valor estatístico de 30 anos de tempo de recorrência. O dimensionamento de um reservatório para conhecer sua capacidade é, para fins práticos, adequado quando se usam esses dados. No entanto, quando se conta apenas com um histórico pequeno de dados (5 anos, por exemplo), o período mais crítico de estiagem pode não ser o adequado para o dimensionamento do reservatório. Dessa forma, pode-se estudar, extrapolando a curva de probabilidade dos períodos de estiagem, qual o número de dias sem chuva que teria a probabilidade, por exemplo, de 1 para 30. A partir da equação de depleção, pode-se encontrar a mínima vazão no fim desse período. 138 A curva assim extrapolada seria mais adequada ao dimensionamento do reservatório do que a curva dos dados históricos de 5 anos. A figura 45 mostra mais claramente o efeito da estiagem no dimensionamento do reservatório. Figura 45 – Diagrama de massa para dois períodos de estiagem Fonte: Villela & Mattos, 1975. 3.5 Previsão e propagação de enchentes 3.5.1 Previsão de Enchentes As enchentes são eventos anormais no escoamento superficial, que ocorrem em virtude do excesso de chuva, resultando muitas vezes em inundação. A inundação por sua vez é o extravasamento d’ água do canal natural de um rio. Calcular a enchente em um determinado rio tem como objetivo fornecer a máxima vazão de projeto e, quando possível o hidrograma de projeto, que mostra a variação da vazão no tempo. Para obter a vazão de projeto, uma das maneiras é realizando a extrapolação dos dados históricos para condições críticas, aplicando estatística dos 139 dados de vazão máxima já observados. É importante lembrar que a vazão de projeto está sempre associada ao período de retorno. O período de retorno ou tempo de recorrência, como também é conhecido, nada mais é do que o tempo médio em anos que um evento é igualado ou superado pelo menos uma vez. Existe a seguinte relação entre o período de retorno e a probabilidade de ocorrência (P): T = 1/P Para exemplificar, temos: Se uma cheia é igualada ou excedida em média a cada 20 anos terá um período de retorno T = 20 anos. Em outras palavras, diz-se que esta cheia tem 5% de probabilidade de ser igualada ou excedida em qualquer ano. Segundo Villela e Mattos (1975) a fixação do período de retorno das enchentes em obras hidráulicas se faz por critérios, tais como: a) Vida útil da obra; b) Tipo de estrutura; c) Facilidade de reparação e ampliação; e d) Perigo de perda de vida. Assim, ao dimensionar uma: Barragem de terra: T = 1000 anos; Barragem de concreto: T = 500 anos; Galeria de águas pluviais: T = 5 a 20 anos; Pequenas barragens de concreto para fins de abastecimento de água: T = 5 a 100 anos. Outro critério utilizado para escolha de T é a fixação do risco que se deseja correr, no caso da obra falhar dentro do seu tempo de vida útil. 140 Segundo Villela e Mattos (1975) o risco da obra falhar uma ou mais vezes ao longo da sua vida útil pode ser deduzido dos conceitos fundamentais da teoria da probabilidade, que é igual a: • Equação – Teoria da probabilidade R=1−(1− 1T ) n Onde:T = período de retorno (anos); n = vida útil da obra (anos); R = risco permissível (%). Visando exemplificar a equação citada acima, temos: supondo que o risco de canalização de um dado rio falhe uma ou mais vezes considerando que o projeto tenha sido efetuado para T = 500 anos com vida útil de 50 anos, qual é o seu risco permissível com base nessas afirmações? R=1−(1− 1500 ) 50 =0,1=10 3.5.2 Propagação de Enchentes Após a ocorrência de uma precipitação acontece um evento de cheia, onde se forma uma onda que desloca o fluxo do curso d’ água de montante para jusante. Esse deslocamento é denominado propagação. Quando acontece o fenômeno de 141 propagação ocorre uma diminuição da vazão máxima do evento e o aumento do tempo de propagação. A figura 46 demonstra a propagação de uma onda de cheia. Figura 46 – Propagação de uma onda de cheia. Fonte: Baptista (1995)7 apud Marins (2004). Segundo Marins (2004), pode-se dizer então que a onda de cheia sofre um amortecimento da sua vazão máxima, ou vazão de pico. Esta redução é em função de características físicas do curso d’ água onde ocorre o escoamento. Segundo Holtz e Pinto (1976) quando conhecemos o hidrograma das vazões afluentes (Qa) ao reservatório ou à extremidade de montante do rio, o problema resume a determinação do correspondente hidrograma de vazões efluentes (Qe), através da descarga da barragem ou da seção de jusante do trecho de rio. O fenômeno é descrito pela equação de continuidade. • Equação – Equação da continuidade Qa =Qe+ dV dT Onde: dV = variação do volume acumulado no reservatório ou no próprio rio, devido à sua variação de nível, no intervalo elementar de tempo dT. 7 Baptista, M. B. Contribuition à l’étude de la propagation de curves em Hidrologie. Tese de Doutoramento: ENPC, 1990. 142 A resolução da equação de continuidade é bastante simples para reservatórios, uma vez que os efeitos dinâmicos são desprezíveis e as variáveis Qe e V são funções, exclusivamente, do nível das águas represadas, ou seja, em condições existentes a montante. Para propagação de cheias em reservatórios dotados de comportas, consultar Holtz e Pinto (1976). 3.6 Sistema de suporte à decisão (SSD) No decorrer do tempo, as demandas de água estão crescendo, de modo que estão aumentando os conflitos e disputas por esse recurso, fazendo com que os sistemas se tornem maiores e mais complexos, havendo a necessidade de planejamentos estratégicos que incluam a eficiência econômica, sustentabilidade, flexibilidade e equidade. A eficiência do uso da água é um assunto de muita preocupação entre órgãos gestores de recursos hídricos em todo o País. Uma meta importante a se alcançar é o uso racional da água através de ações de planejamento e da gestão de recursos hídricos. Como diversos ambientes possuem múltiplos usos, o bom conhecimento das necessidades dos diversos usuários e das disponibilidades hídricas é fundamental para uma boa gestão; no entanto, as incertezas hidrológicas, as variações das demandas e o grande número de variáveis representativas dos processos físicos, químicos e biológicos, atribuem elevado nível de complexidade à análise dos sistemas de recursos hídricos (CARVALHO et al., 2009). Sendo assim, no processo de gestão de recursos hídricos, a decisão deve ser escolhida entre as diversas alternativas existentes. Essas decisões devem ser tomadas 143 a partir de conhecimentos sólidos sobre os aspectos ambientais, hidrológicos, econômicos, políticos e sociais. Para tanto, é necessária a escolha da melhor solução entre as alternativas existentes (ZORZAL, 2009). Para auxiliar na tomada de decisões e permitir tratar e resolver os problemas de gerenciamento de recursos hídricos de forma mais rápida e eficiente, podem ser utilizadas determinadas ferramentas, como os Sistemas de Suporte à Decisão (SSD), que tornam as ações mais claras e objetivas. Carvalho (2003) ressalta que essas ferramentas têm por objetivo ajudar indivíduos que tomam decisões na solução de problemas não estruturados (ou parcialmente estruturados). Segundo Carvalho (2003), existem atualmente alguns SSD que simulam com eficiência sistemas complexos de recursos hídricos, assim como modelos que calculam a demanda de irrigação total e/ou suplementar, porém nenhum deles incorpora essas duas características. Porto & Azevedo (1997)8 apud Carvalho (2003), ressaltam que o SSD não é construído para tomar decisões, mas para apoiar ou assistir um indivíduo ou grupo de indivíduos na execução desta tarefa. É preciso definir quais os princípios que orientarão a escolha, seja para se chegar a uma solução “ótima” ou a uma solução “satisfatória”, e a disposição a assumir riscos ou não. Deve-se procurar expressar as alternativas em termos monetários ou em termos de outro indicador de desempenho (por exemplo, atendimento a uma vazão de demanda com determinada garantia). A figura 47 apresenta de modo geral, os atributos de um sistema de suporte a decisão. Basicamente, os SSD são compostos por três partes (ANA/BANCO MUNDIAL/PROÁGUA NACIONAL/COGERH, 2010): 8 Porto, R. L. L.; Azevedo, L. G. T. Sistemas de suporte a decisões de recursos hídricos. In: Porto, R. L. L. Técnicas quantitativas para o gerenciamento de recursos hídrico. Porto Alegre: UFRGS/ABRH, 1997. cap.2, p.43-95. 144 • Um módulo de diálogo, (geralmente uma interface gráfica); • Uma base de dados/conhecimentos; e • Uma base de modelos, (de otimização e simulação). Figura 47 – Características de um sistema de suporte a decisão Fonte: Tuban (1993) apud Porto e Azevedo (1997) apud Carvalho (2003). Nesse contexto, abordaremos uma ferramenta computacional de SSD, a plataforma AQUANET, que foi desenvolvida pelo Laboratório de Sistema de Suporte a Decisão da Universidade de São Paulo (USP). 3.6.1 Ferramenta computacional AQUANET 145 O Laboratório de Sistema de Suporte a Decisão da USP desenvolveu a Plataforma AQUANET, que é constituído por um simulador/otimizador de sistemas de reservatórios utilizando programação linear com algoritmo de rede de fluxo para otimizar a alocação sob sistema de prioridades e custos otimizados. Com essa plataforma, o usuário pode montar redes com um grande número de reservatórios, demandas e trechos de canais (da ordem de alguns milhares), representando o problema em estudo de forma bastante detalhada, além de possibilitar a comparação de cenários. A interface gráfica do modelo AQUANET é apresentada pela Figura 48. Figura 48 – Interface do modelo AQUANET Fonte: ANA/BANCO MUNDIAL/PROÁGUA NACIONAL/COGERH, 2010. Porto et al. (2003)9 apud Carvalho et al. (2009) apresentaram o modelo de planejamento AQUANET, originado de um modelo de rede de fluxo denominado Modsim (LABADIE, 9 Porto, R. L. L.; Roberto, A. N.; Schardong, A.; Méllo Júnior, A.V. Sistema de suporte a decisão para análise de sistemas de recursos hídricos. In: Silva, R. C. V. Métodos numéricos em recursos hídricos. Porto Alegre: ABRH, 2003. cap.2, p.93-240. 146 1998) e do ModsimLS (ROBERTO & PORTO, 2001), uma versão atualizada do primeiro. O modelo tem como principal característica a incorporação automática de uma série de funções, que são comuns em bacias hidrográficas, sem a necessidade de que o usuário tenha que programá-las. O modelo permite realizar atividades de locação de água, avaliação da qualidade de água, determinação de alocação de água para irrigação e, também, pode servir no processo de seleção de alternativas com base em análise econômica. Os modelos de rede de fluxo na realidade misturam características dos modelos de simulação e otimização e podem incorporar as características estocásticas das vazões deentrada (PORTO & AZEVEDO, 1997). Assim, a maior parte das configurações e estruturas operacionais das bacias hidrográficas pode ser representada por meio da especificação de dados de entrada apropriados (ROBERTO & PORTO, 199910 apud CARVALHO et al., 2009). Esse SSD possui uma interface de comunicação com o usuário amigável, a operação dos reservatórios é feita utilizando-se o conceito de volume meta ao qual se atribui uma prioridade, e as perdas por evaporação dos reservatórios são levadas em conta por meio de processo iterativo (CARVALHO et al., 2009). Ainda de acordo com Carvalho et al., 2009, atualmente, o sistema adota o intervalo de análise mensal e, além de ser um instrumento de gerenciamento, também pode ser usado para o planejamento, para a análise do impacto de propostas alternativas para a implantação de projetos de aproveitamento de recursos hídricos, e também pode servir no processo de seleção inicial de alternativas com base na análise econômica, em um nível simplificado, por meio da inclusão direta de dados de custos e benefícios, em lugar da especificação relativa de prioridades. 10 Roberto, A. N.; Porto, R. L. L. Alocação da água entre múltiplos usos em uma Bacia Hidrográfica. In: Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos, 13, 1999, Belo Horizonte. Anais… Belo Horizonte: ABRH, 1999. CD Rom. 147 A estrutura de rede utilizada nesse modelo pode ser entendida como um conjunto de pontos, chamados nós (reservatórios, pontos de retirada de água, confluência de rios) e um conjunto de curvas, chamados ramos (ou arcos, ou ligações) que conectam um certo número de pares de nós (ANA/BANCO MUNDIAL/PROÁGUA NACIONAL/COGERH, 2010). Cada ramo é caracterizado por três parâmetros, sendo eles os limites superior e inferior do fluxo que passa pelo arco, ou seja, as capacidades máxima e mínima de um canal, e um “custo” por unidade de fluxo que transita pelo arco. Este custo não significa, obrigatoriamente, um valor financeiro, podendo representar preferências estabelecidas pelo usuário. As capacidades máxima e mínima de cada ramo podem ser fixas para todo o período de simulação ou podem variar ao longo do tempo (ANA/BANCO MUNDIAL/PROÁGUA NACIONAL/COGERH, 2010). Em linhas gerais, o modelo AQUANET funciona da seguinte maneira, em conformidade com seu manual: • Durante a utilização do AQUANET, todas as ações feitas pelo usuário são imediatamente armazenadas em um banco de dados temporário, que existe somente durante a utilização do modelo; • Ao iniciar o modelo, o usuário pode começar um novo projeto ou abrir um projeto previamente gravado; • Se for iniciado um novo projeto, um novo banco de dados temporário será criado; • Quando o usuário abre um projeto existente, o AQUANET cria imediatamente uma cópia deste projeto, que passa a ser o banco de dados temporário; • No banco de dados temporário são armazenadas todas as informações fornecidas pelo usuário (traçado e dados de entrada). 148 A utilização de um banco de dados temporário durante o funcionamento do modelo apresenta as seguintes vantagens: • Não é necessário alocar memória para guardar valores em variáveis, já que os mesmos estarão automaticamente armazenados no banco de dados; • Ao abrir um projeto só uma pequena parte do banco é lida. Todos os dados e resultados só serão lidos (diretamente do banco) quando for necessário; • Um projeto só será alterado quando o usuário salvá-lo. Nesse instante será criada uma cópia do banco de dados temporário com o nome e no local fornecido pelo usuário; • Observando-se os itens anteriores percebe-se que ocorre um grande aumento de desempenho do modelo com a utilização do banco de dados temporário, já que as operações de entrada/edição de dados, leitura e salvação lidam com um número relativamente pequeno de variáveis. Ainda de acordo com seu manual, o AQUANET pode efetuar os cálculos de maneira sequencial no tempo (Simulação Contínua) ou estatisticamente (Planejamento Tático). Na Simulação Contínua, o valor mais importante é o número total de anos de simulação (chamado aqui de NT). O usuário deve fornecer séries de vazões afluentes mensais com duração igual a NT. O modelo irá efetuar os cálculos continuamente, para todos os anos existentes. Ao final do cálculo, os resultados serão fornecidos mensalmente para todos os anos. No Planejamento Tático o usuário deve fornecer, além do número total de anos de simulação (NT), o número de anos do horizonte de simulação (NH). O horizonte de simulação é o número de anos durante os quais se pretende estudar o comportamento do sistema em análise. 3.7 Qualidade da água: vazões de diluição e decaimento de poluentes 149 A água é um insumo de fundamental importância à vida, configurando elementos insubstituíveis em diversas atividades humanas, além de ocasionar um equilíbrio no meio ambiente. Embora a humanidade dependa desse recurso para sobrevivência e para o desenvolvimento econômico, a sociedade acaba sempre por poluir e degradar nossos recursos hídricos, não dando o devido valor merecido. Atualmente o Brasil possui uma privilegiada situação em relação a sua disponibilidade hídrica, porém, cerca de 70% da água doce do país encontra-se na região amazônica, que é habitada por menos de 5% da população. Além disso, o problema de escassez hídrica no Brasil é consequência dos desordenados processos de urbanização, industrialização e expansão agrícola, que, quando combinados com o crescimento exagerado das demandas localizadas e da degradação da qualidade da água, agravam os problemas mais ainda, pois a partir desse momento se prejudica a qualidade de vida da população. Sabe-se que os recursos hídricos têm capacidade de diluir os esgotos e os resíduos, mediante processos físicos, químicos e biológicos, que proporcionam a sua autodepuração. Entretanto, essa capacidade é limitada em quantidade e qualidade dos recursos hídricos existentes. 3.7.1 Autodepuração De acordo com Braga (2002), o fenômeno da autodepuração é um processo natural de recuperação de um corpo d’ água que foi poluído por lançamentos de matéria orgânica biodegradável e é realizado por meio de processos físicos (diluição, sedimentação), químicos (oxidação) e biológicos. 150 Segundo Mota (1998), esse fenômeno está associado à capacidade de o meio aquático retornar ao seu equilíbrio após as alterações induzidas pelos despejos afluentes. De acordo com Von Sperling (2007) não existe uma depuração absoluta; mesmo que a estabilização seja completa, o oxigênio consumido seja totalmente recuperado e o ecossistema atinja novamente o seu equilíbrio, sempre haverá a formação de certos produtos e subprodutos da decomposição que não serão degradados e poderão ocasionar outros danos ao meio aquático. O processo de estabilização da matéria orgânica é realizado por micro-organismos decompositores (as bactérias) que estão presentes nos corpos d’ água. Elas têm a função de degradar a matéria orgânica que é lançada no rio, e faz isso através de processos químicos, consumindo o oxigênio dissolvido (OD). Ao fazer isso, as bactérias acabam por competir com as demais espécies, por exemplo, os peixes, pois elas não precisam de muito oxigênio para sobreviver. Reduzindo o oxigênio dissolvido que tem no meio aquático, começa a ocorrer um novo fenômeno, o de sucessão biológica, onde organismos que necessitam de mais oxigênio começam a morrer, e o que dependem de menos, começam a se proliferar. Após ocorrer a total degradação da matéria orgânica o OD começa a aumentar novamente, o curso d’ água tende a se recuperar naturalmente, até estabelecer o equilíbrio com as comunidades locais (Zorzal, 2009). Para identificarse o oxigênio dissolvido na água está adequado, dentro dos padrões de qualidade estabelecidos e se existe poluição, nós medimos a DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio). A DBO é um dos principais parâmetros utilizados para avaliar o efeito produzido pelo impacto de despejos domésticos ou industriais sobre os cursos d’ água. A autodepuração em rios é um processo que se desenvolve ao longo do tempo e ocorre longitudinalmente, quando através de analises físico-químicas conseguimos identificar as zonas de autodepuração. Braga (2002) as divide em quatro: zona de degradação, zona de decomposição ativa, zona de recuperação e zona de água limpa. De acordo 151 com Benassi (2002), segue abaixo a definição de cada zona no processo de autodepuração. - Zona de degradação: no local onde é feito o lançamento da fonte poluidora. A água torna-se turva, ocorrendo deposição de partículas no fundo. Há nesta zona alta concentração de matéria orgânica, sendo a decomposição lenta devido à adaptação dos microrganismos. O número de espécies diminui sensivelmente, mas o teor de oxigênio ainda é suficiente para permitir uma diversidade de espécies. A quantidade de coliformes é elevada; também são encontrados protozoários e fungos, entre outros. A presença de algas é rara devido à dificuldade de penetração da luz. - Zona de decomposição ativa: neste ponto o ecossistema tende a se organizar, com microrganismos aeróbios e anaeróbios que desempenham ativamente a decomposição da matéria orgânica introduzida, provocando a queda do oxigênio dissolvido (atingindo sua menor concentração) e o aumento da DBO, e com isso a indução do predomínio de organismos anaeróbios. O número de bactérias patogênicas diminui rapidamente, uma vez que estas não resistem à nova condição ambiental. Há nesta fase desprendimento de gases do sedimento, provocando mau cheiro. O nitrogênio é encontrado em grande quantidade, ainda na forma orgânica, mas predominantemente na forma de amônia que pode iniciar sua oxidação a nitratos. O número de protozoários se eleva; ocorre a presença de macrorganismos e larvas de insetos (sucessão ecológica). A macrofauna ainda é restrita. - Zona de recuperação: Após a fase de intenso consumo de oxigênio pelos micro- organismos e de degradação, a matéria orgânica já se apresenta estabilizada. Começam a surgir os organismos autotróficos, favorecidos devido à presença de nitritos, nitratos e fosfatos, os quais são nutrientes para as algas. Há aumento da transparência da água o que favorece os processos de fotossíntese. Estes organismos autotróficos começam então a participar da reoxigenação da água, melhorando as características desta. As algas azuis são os primeiros organismos a aparecerem, depois os flagelados, algas verdes e, finalmente as diatomáceas. O 152 material depositado no fundo tem uma granulometria mais grossa e não apresenta mau cheiro. - Zona de águas limpas: O corpo d’água volta às condições normais, pelo menos em relação ao oxigênio dissolvido e matéria orgânica. Devido à mineralização ocorrida nas zonas anteriores, as águas são ricas em nutrientes, e a produção de algas é maior. Há um restabelecimento da cadeia alimentar. A diversidade de espécies é grande. O ecossistema encontra-se estável, as águas atingem nesta zona as condições existentes antes do lançamento dos esgotos, pelo menos no que diz respeito ao teor de oxigênio dissolvido, ao DBO e aos valores de coliformes. Predominam as formas mais oxidadas e estáveis de compostos minerais: nitratos, fosfatos, entre outros. A figura 49 apresenta essas zonas delimitadas com base na trajetória de três principais parâmetros (matéria orgânica, bactérias decompositoras e oxigênio dissolvido). Von Sperling (1995), também fez considerações a respeito destas zonas de autodepuração, citando ainda que nas primeiras há predominância exclusiva de organismos heterotróficos, ou seja, a respiração supera a produção fotossintética (P/R < 1), devido ao lançamento de efluente contendo grande aporte de matéria orgânica. Esta colocação torna-se interessante quando consideramos a teoria do “Continuo Fluvial”. 153 Figura 49 - Perfil das zonas de autodepuração ao longo do trecho de um rio. Fonte: Zorzal, 2009 apud Von Sperling (2007) Segundo Benassi (2002), os ecossistemas possuem certa estabilidade de resistência diante do estresse causado por atividades antrópicas, e uma capacidade de recuperar- se através de processos ecológicos como autodepuração. As zonas de autodepuração demonstram como os ecossistemas reagem frente ao lançamento de resíduos orgânicos em um corpo d’água. O monitoramento pode mostrar um desequilíbrio no sistema, quando o lançamento supera a capacidade suporte do meio. Este monitoramento, que pode ser realizado com aplicação de modelos de qualidade de água, pode fornecer previsões ao longo do tempo. Benassi (2002), diz que o conceito de capacidade de autodepuração apresenta a mesma relatividade que o conceito poluição. Uma água pode ser considerada 154 depurada, sob o ponto de vista ecológico, mesmo que não esteja totalmente purificada em termos higiênicos apresentando, por exemplo, organismos patogênicos. Logo, a capacidade de autodepuração está intimamente relacionada aos usos preponderantes a que se destina cada trecho de um curso d’água. 3.7.2 Vazão de Diluição A vazão de diluição está ligada a aspectos qualitativos e quantitativos do efluente na hora do empreendedor realizar o lançamento em um rio. Para isso existe uma Política Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, Lei n° 9.433/97 que trata da outorga do lançamento de efluentes e a outorga de vazão de diluição. Em seu artigo 12 trata sobre os usos sujeitos à outorga pelo poder público no Brasil, que são: “ I – derivação ou captação de parcela da água existente em um corpo de água para consumo final, inclusive abastecimento público, ou insumo de processo produtivo; II – extração de água de aquífero subterrâneo para consumo final ou insumo de processo produtivo; III – lançamento em corpo hídrico de esgotos e demais resíduos líquidos ou gasosos, tratados ou não, com o fim de sua diluição, transporte ou disposição final.” Nesta mesma Lei, a outorga qualitativa está disposta, portanto, em termos de uma outorga para o lançamento de efluentes (inciso III). O Projeto de Lei Federal n° 1616 (em tramitação desde 1999 no Congresso Nacional) dispõe sobre a gestão administrativa e a organização institucional do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos e possui um capítulo que trata da “sistemática de outorga do direito de uso de recursos hídricos”. É neste capitulo que está descrito e especificado como se obtêm a outorga para diluição de resíduos em corpos hídricos. O PL dispõe que: 155 “Para fins de lançamento de efluente, a vazão de diluição será fixada de forma compatível com a carga poluente, podendo variar ao longo do prazo de duração da outorga, em função da concentração máxima de cada indicador de poluição estabelecida pelo Comitê de Bacia Hidrográfica ou, na falta deste, pelo poder outorgante”. E que: “As vazões de diluição serão calculadas separadamente, em função da natureza do poluente”. A proposta de outorga em termos de vazão de diluição foi disposta também na Resolução n° 16/2001 do CNRH que no seu artigo 15 especifica que: “A outorga de direito de uso da água para o lançamento de efluentes será dada em quantidade de água necessária para a diluição da carga poluente, que pode variar ao longo do prazo de validade da outorga, com base nos padrões de qualidade da água correspondentes à classe de enquadramento do respectivo corpo receptor e/ou em critérios específicos definidos no correspondenteplano de recursos hídricos ou pelos órgãos competentes”. A diferença entre as duas abordagens está na forma de quantificação da outorga de lançamentos de resíduos em corpos hídricos, onde no PL n° 1616 e na Resolução CNRH n° 16/2001 se dá em termos do cálculo da vazão de diluição necessária para atender ao limite de concentração de cada parâmetro estabelecido pela classe de enquadramento, a qual é definida pela Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente CONAMA n° 430/2011. Para saber mais sobre as condições e os parâmetros de lançamento de efluentes em corpos hídricos consultar Resolução n°430/2011. 156 REFERÊNCIA ANA/BANCO MUNDIAL/PROÁGUA NACIONAL/COGERH. Revisão do Plano de Gerenciamento das Águas das Bacias Metropolitanas e Elaboração dos Planos de Gerenciamento das Águas das Bacias do Litoral, Acaraú e Coreaú, no Estado do Ceará. Fase 2 – Planejamento. Fortaleza/CE, 2010. BARBOSA, P. R. Hidrologia Geral. Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, departamento de recursos hídricos e meio ambiente. Rio de Janeiro, 2010. BARBOSA, A. R. B. Jr. Apostila de Hidrologia Aplicada. 2005 BRASIL. CONSELHO NACIONAL DE RECURSOS HÍDRICOS. Resolução nº 129, de 29 de novembro de 2000. Disponível em: <http://www.cnrh.gov.br/sitio/index.php? option=com_content&view=article&id=14>. Acesso em 10 de julho de 2012. BRASIL. CONSELHO NACIONAL DE RECURSOS HÍDRICOS. Resolução nº 32, de 15 de outubro de 2003. 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