A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
48 pág.
APROXIMAÇÕES ENTRE DIREITO E ANTROPOLOGIA

Pré-visualização | Página 10 de 21

Estado cumpre respeitar, preservar e proteger a dignidade da pessoa humana e, em 
especial, prestar e proporcionar condições para a sua concretização.107 Ainda, 
aponta Sarlet, que a dignidade assume uma dimensão intersubjetiva,108 ou seja, não 
é tarefa apenas do Estado protegê-la, promovê-la e não a violar, mas também da 
comunidade e das próprias pessoas.109 
Em síntese, para Sarlet, a dignidade da pessoa humana pode ser designada 
como: 
A qualidade intrínseca e distintiva reconhecida a cada ser humano que o faz 
merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da 
comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres 
fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de 
cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições 
existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover 
sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e 
da vida em comunhão com os demais seres humanos, mediante o devido 
respeito aos demais seres que integram a rede da vida.110 
 
Ressalta-se que a dignidade da pessoa humana, embora seja uma qualidade 
intrínseca ao ser humano, é concretizada através de um processo histórico-
cultural.111 Retomando as idéias do capítulo anterior, a afirmação desta qualidade 
como um símbolo significante depende da interação dos modelos “da” e “para” a 
realidade, de tal modo que seu conceito está em constante desenvolvimento, sendo 
isto uma das razões pelas quais não possui um conteúdo fixo. É o contexto histórico 
e cultural de um povo que assegura e procura concretizar efetivamente este 
elemento intrínseco de cada ser humano.112 Porém, tal elemento deverá valer para 
todo e qualquer ser humano protegido pelo ordenamento. 
Além disso, a dignidade da pessoa humana está intimamente ligada à 
liberdade. Isto diz respeito à possibilidade de o ser humano exercer sua autonomia e 
sua autodeterminação, isto é, de governar a si próprio, bem como definir sua 
 
107
 PODLECH; SACHS, apud SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos 
fundamentais na Constituição Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, 
p. 52-53. 
108
 KANT, apud SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais na 
Constituição Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 58. 
109
 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais na Constituição 
Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 125. 
110
 Ibidem, p. 67. 
111
 HÄBERLE, apud SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais 
na Constituição Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 51. 
112
 De acordo com Sarlet, a dignidade é a qualidade intrínseca ao ser humano, que preexiste ao 
Direito, mas que apesar disso “o grau de reconhecimento e proteção outorgado à dignidade da 
pessoa por cada ordem jurídico-constitucional e pelo Direito Internacional, certamente irá 
depender de sua efetiva realização e promoção” (SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da Pessoa 
Humana e Direitos Fundamentais na Constituição Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do 
Advogado, 2009, p. 76). 
Sobre este ponto convém lembrar a notável obra de Fábio Konder Comparato, que demonstra, 
através de documentos normativos, a construção histórica dos direitos do homem (COMPARATO, 
Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2005). 
 
23
conduta e escolher as circunstâncias em relação à sua vida.113 Sobre este aspecto, 
José Joaquim Gomes Canotilho refere-se à idéia de o indivíduo ser “conformador de 
si próprio e da sua vida segundo o seu próprio projeto espiritual”.114 Oportuno frisar 
que a dignidade da pessoa humana deve ser reconhecida a todo o ser humano, 
mesmo que a pessoa não possa exercer sua liberdade de maneira autônoma, como 
é o caso, por exemplo, dos absolutamente incapazes (portadores de sérias doenças 
físicas e/ou mentais, nascituro). Por conseguinte, fala-se que a dignidade humana 
está relacionada ao potencial de liberdade.115 
Observa-se, assim, que a dignidade da pessoa humana será efetiva se forem 
garantidos – não somente eles, mas principalmente – o direito fundamental à vida e 
à liberdade. Nas palavras de Sarlet, eles constituem as “exigências da dignidade da 
pessoa humana” (bem como os outros direitos e garantias fundamentais, na medida 
em que são concretizações daquela).116 Nesse sentido, segundo o autor: 
 
Onde não houver respeito pela vida e pela integridade física e moral do ser 
humano, onde as condições mínimas para uma existência digna não forem 
asseguradas, onde não houver limitação do poder, enfim, onde a liberdade 
e a autonomia, a igualdade (em direitos e dignidade) e os direitos 
fundamentais não forem reconhecidos e minimamente assegurados, não 
haverá espaço para a dignidade da pessoa humana e esta (a pessoa), por 
sua vez, poderá não passar de mero objeto de arbítrio e injustiças.117 
 
Portanto, embora tenhamos traçado em linhas gerais o conceito jurídico de 
dignidade da pessoa humana, percebe-se que o mesmo possui, segundo afirma 
Sarlet, um caráter multidimensional,118 visto que a dignidade da pessoa humana é 
qualidade intrínseca de todo e qualquer ser humano, com uma dupla função (limite e 
tarefa), concretizada em um plano histórico-cultural, e que, como veremos no 
próximo tópico, é o princípio embasador do ordenamento jurídico brasileiro. 
 
2.2 A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA COMO FUNDAMENTO E FIM DO 
ESTADO E A SUA RELAÇÃO COM OS DIREITOS FUNDAMENTAIS 
 
A Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 consagrou o valor da 
dignidade humana, ao reconhecer em seu preâmbulo e em outros artigos que o 
homem possui o direito de ser reconhecido como pessoa perante a lei. Este 
documento exerceu grande influência e, a partir disso, a idéia sobre o valor supremo 
da dignidade da pessoa humana passou a ser integrada expressamente em diversas 
cartas constitucionais.119 Após um longo processo histórico, o homem figura o 
elemento primordial do Estado, isto é, que legitima e justifica o poder estatal. 
 
113
 BLECKMANN, apud SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais 
na Constituição Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 50. 
114
 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e Teoria da constituição. 4. ed. Coimbra: 
Almedina, 2000, p. 225. 
115
 DÜRIG, apud SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais na 
Constituição Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 50-51. 
116
 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais na Constituição 
Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 51. 
117
 Ibidem, p. 65. 
118
 Ibidem, p. 66. 
119
 COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 4. ed. São Paulo: 
Saraiva, 2005, p. 222-237. 
 
24
Conforme assinala Bleckmann, “é o Estado que existe em função da pessoa 
humana, e não o contrário, já que o homem constitui a finalidade precípua, e não 
meio da atividade estatal”.120 Para Judith Martins-Costa “a pessoa, considerada em 
si e em (por) sua humanidade, constitui o ‘valor fonte’ que anima e justifica a própria 
existência de um ordenamento jurídico”.121 E, segundo Canotilho: 
 
A dignidade humana como base da República significa o reconhecimento do 
indivíduo como limite e fundamento do domínio político da República. Neste 
sentido, a República é uma organização política que serve o homem, não é 
o homem que serve os aparelhos político-organizatórios.122 
 
Nessa mesma linha, tendo em vista que os direitos protegem a dignidade do 
homem, Robert Alexy destaca que: 
 
A observação aos direitos do homem é uma condição necessária