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Teoria quântica do direito: o direito como instrumento de dominação e resistência

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reconhecimento, identifi-
cação delas ou com elas. (FOUCAULT, 2003, p. 18).
O conhecimento, para Foucault, é uma criação artificial da mente 
humana, centrada em uma razão universal, fundamento de uma verdade 
objetiva. Foucault nega a existência dessa razão universal, em favor de múl-
tiplas racionalidades, cada qual com as suas “verdades”. 
As condições políticas, econômicas de existência não são um véu 
ou um obstáculo para o sujeito do conhecimento, mas aquilo 
através do que se formam os sujeitos de conhecimento e, por 
conseguinte, as relações de verdade. Só pode haver certos tipos 
de sujeito de conhecimento, certas ordens de verdade, certos do-
mínios de saber a partir de condições políticas que são o solo 
em que se formam o sujeito, os domínios de saber e as relações 
com a verdade. Só se desembaraçando destes grandes temas do 
sujeito de conhecimento, ao mesmo tempo originário e absoluto, 
utilizando eventualmente o modelo nietzscheano, poderemos 
fazer uma história da verdade. (FOUCAULT, 2003, p. 27).
Tal como no paradigma consagrado pela Física Quântica, é a postura 
do observador e sua opção entre múltiplas racionalidades que vão definir 
o que conhecemos por verdade. A verdade objetiva, natural e divina cede 
espaço a uma verdade subjetiva, artificial e humana.
Pelo princípio da incerteza, de Heisenberg, é impossível conhecer si-
multaneamente a posição e a velocidade de uma partícula. É a opção do 
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observador por uma das duas racionalidades que irá definir os resultados 
da experiência.
Dessa forma, o cientista não é mais um mero observador da realida-
de, mas um participante desse processo de observação que, inevitavelmente, 
interfere nos resultados das pesquisas. Não há mais uma verdade determi-
nada a ser descoberta pelo cientista, mas uma provável a ser criada a partir 
do seu olhar.
De forma semelhante, o olhar do historiador definirá as “verdades” 
históricas. Não mais “a história da humanidade”, mas histórias diversas con-
tadas sob a perspectiva de múltiplos historiadores que, ao narrá-las, modifi-
cam o próprio passado. Os economistas, por sua vez, ao observarem o merca-
do, enunciarão “verdades” que interferirão nos índices das bolsas de valores. 
Enfim, os juristas, ao interpretarem o direito, criarão novos “direitos”.
O conhecimento não se limita a descrever a realidade, mas inevitavel-
mente a altera. Surge, assim, uma relação de saber-poder, pela qual o cientis-
ta se funde com seu objeto de estudo, pois, para conhecê-lo, necessariamente 
precisa modificá-lo. Lado outro, surge também uma relação de poder-saber 
que possibilita ao cientista optar por uma entre várias racionalidades, permi-
tindo um razoável grau de controle sobre sua interferência na realidade.
Copérnico demonstrou que a Terra não era o centro do universo; 
Darwin, que o homem não era diferente dos outros animais; Freud, que o 
inconsciente humano não pode ser plenamente domado. Essas descobertas 
retiraram do homem seu lugar privilegiado na natureza, mas mantiveram 
a dicotomia cartesiana res cogitans e res extensa. O golpe quântico suprimiu 
do homem sua identidade, fundido-o à natureza: observar a natureza é mo-
dificá-la.
A teoria quântica revela, assim, uma unidade básica no uni-
verso. Mostra-nos que não podemos decompor o mundo 
em unidades menores dotadas de existência independente. 
À medida que penetramos na matéria, a natureza não nos 
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mostra quaisquer “blocos básicos de construção” isolados. 
Ao contrário, surge perante nós como uma complicada teia 
de relações entre as diversas partes do todo. Essas relações 
sempre incluem o observador, de maneira essencial. O ob-
servador humano constitui o elo final na cadeia de processos 
de observação, e as propriedades de qualquer objeto atômico 
só podem ser compreendidas em termos de interação do ob-
jeto com o observador. Em outras palavras, o ideal clássico 
de uma descrição objetiva da natureza perde sua validade. A 
partição cartesiana entre o eu e o mundo, entre o observador 
e o observado, não pode ser efetuada quando lidamos com 
a matéria atômica. Na Física atômica, jamais podemos falar 
sobre a natureza sem falar, ao mesmo tempo, sobre nós mes-
mos. (CAPRA, 1999, p. 58).
Assim, a “verdade” científica é criada por um sujeito a partir de uma 
racionalidade arbitrariamente determinada. A opção por uma abordagem 
metodológica, por sua vez, modifica a realidade, o que implica uma relação 
de poder-saber.
A razão científica, tão prezada na modernidade, cede espaço às di-
versas racionalidades probabilísticas da pós-modernidade. A paradoxal cer-
teza absoluta do pensamento pós-moderno é que tudo é relativo. Não há 
verdades, apenas probabilidades.
3 O direito quântico
O direito, tal como a luz e as partículas subatômicas, possui uma na-
tureza dual: é, ao mesmo tempo, instrumento de dominação e de resistên-
cia; de manutenção do status quo e de inclusão social; de segurança jurídica 
e de justiça distributiva.
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A natureza dual do direito de dominação-resistência expressa o 
paradoxo de um instrumento criado para apaziguar uma guerra entre 
opressores e oprimidos em prol de uma segurança jurídica mantene-
dora do status quo. O direito é uma verdade imposta aos oprimidos 
pela racionalidade de seus opressores. Ao mesmo tempo, pode tornar-
se instrumento de resistência dos oprimidos se amparado pela cons-
trução de uma racionalidade que sobreponha a justiça distributiva à 
segurança jurídica.
O direito como instrumento de dominação fundamenta-se no inte-
resse de manutenção do status quo dos segmentos hegemônicos da socie-
dade: ricos, brancos, homens, heterossexuais e outros. A tutela de uma 
hipotética sociedade composta por indivíduos formalmente iguais em di-
reitos é a base do conceito de segurança jurídica. Em benefício da ordem 
social, são mantidas as desigualdades materiais que legitimam o exercício 
do poder opressor de alguns membros da sociedade sobre outros. 
Lado outro, o direito como instrumento de resistência fundamenta-
se no interesse de inclusão social, com a conseqüente redução dos poderes 
dos setores hegemônicos. A sociedade é entendida como uma abstração que 
não se sustenta como unidade, mas, sim, como um pólo de tensão entre 
grupos sociais antagônicos ricos-pobres, brancos-não brancos, homens-
mulheres, heterossexuais-homossexuais etc. A justiça distributiva consiste 
na redistribuição de poder entre esses diversos grupos, com a redução das 
tensões dominação-resistência. Para tanto, faz-se necessário garantir os di-
reitos fundamentais ao pólo mais fraco, mesmo que isso acarrete ruptura da 
ordem social vigente.
Ao conceber uma natureza dual do direito como instrumento de do-
minação-resistência, a Teoria Quântica do Direito desvela o caráter político 
de todas as decisões judiciais que não são, em essência, certas ou erradas – 
uma vez que não há mais uma razão jurídica universal –, mas ações políticas 
que ora tutelam os interesses de manutenção do status quo, ora os interesses 
de redução da tensão de poder entre opressores e oprimidos.
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A interpretação da norma jurídica deixa de ser mera elucidação 
de significado, transformando-se em verdadeira produção de significado 
normativo a ser imposto à sociedade em complexas relações de poder-sa-
ber. A figura do juiz assume, assim, especial importância por seu poder de 
impor sua produção de significado normativo coercitivamente, apelando 
para as forças de segurança pública, enquanto advogados, promotores e 
outros agentes jurídicos só podem consagrar