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sebenta Morfologia-e-Citologia-da-célula-bacteriana3

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Bacilos Gram-Negativo 
 
Família Enterobacteriaceae 
 A família das enterobactérias é a maior colecção de bacilos gram-negativos com 
importância clínica. As enterobactérias são organismos ubiquitários, encontrados globalmente em 
solos, água e vegetação, e fazem parte da flora intestinal de muitos animais incluindo os humanos 
(o que pode levar à infecção destes). 
 Esta família de bactérias, em importância clínica, pode ser dividida em dois grupos: 
 Patogénicos Primários: organismos capazes de causar doença em qualquer 
indivíduo (Shigella, Salmonela, Yersinia, Klebsiella pneumoniae, Escherichia coli); 
 Patogénicos Secundários (ou oportunistas): organismos que só são capazes de 
causar doença em certas condições ou em certos hóspedes (Escherichia coli, 
Klebsiella pneumoniae, Proteus, Serratia, Enterobacter, Morganella, 
Providencia). 
 
Como em todas as bactérias gram-negativas, a parede celular contém o lipopolissacarídeo, 
que consiste em três componentes: o polissacarídeo somático O, mais exteriormente; um 
polissacarídeo central, comum a todas as enterobactérias, e o lípido A. Na lise celular, o lípido A é 
libertado, tornando-se numa endotoxina (factor de virulência). 
 
Classificação Serológica 
A classificação serológica dos bacilos desta família é baseada em três grandes 
grupos de determinantes antigénios: o Ag O (polissacarídeo O somático, componente do 
lipopolissacarídeo), o Ag K (cápsula – sendo hidrofílica, protege a célula da fagocitose, pois 
repele a superfície hidrofóbica da célula fagocitária) e o Ag H (os flagelos). 
 
Caracterização 
 As enterobactérias têm várias características em comum: 
 são asporogénicos; 
 são fermentadores de glucose; 
 são catalase positivos; 
 e são citocromo-oxidase negativos. 
Relativamente à tolerância ao oxigénio, podem ser aeróbios ou anaeróbios 
facultativos. Estas bactérias podem ser móveis se possuírem flagelos perítricos (o que nem 
sempre acontece). 
 
 Diferenciação 
As enterobactérias podem ser diferenciadas a partir das suas diferentes 
capacidades bioquímicas: 
 diferenças na fermentação de lactose; 
 diferenças na produção de H2S; 
 diferenças na hidrólise de ureia; 
 diferenças na liquefacção de gelatina. 
Diferentes meios de cultura permitem-nos diferençar visivelmente estas bactérias, 
 
 
 
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pois os meios salientam as suas diferenças metabólicas (ex. meio EMB40 e meio 
MacConkey). 
 
Escherichia coli 
 A Escherichia coli é um colibacilo comensal do tracto intestinal dos mamíferos, que se pode 
apresentar em quatro formas, dependendo de como efectua a infecção. Esta é uma bactéria 
aeróbia que não forma esporos. 
 Como factores de virulência, temos as enterotoxinas, as adesinas, as exotoxinas e a 
capacidade invasiva. 
 
 E. coli enterotoxigénica (ETEC) 
Sendo mais comum nos países em 
desenvolvimento, esta bactéria causa a doença 
conhecida como a diarreia do viajante. 
Estas bactérias produzem dois tipos de 
enterotoxinas: uma termolábil (LT) e outra 
termoestável (ST). Estas têm um mecanismo de 
acção tóxico, com diarreia aquosa devido à 
hipersecreção de água e electrólitos. 
Local de acção: intestino delgado. 
Abordagem laboratorial: a partir de ensaios 
de citotoxicidade em culturas celulares, de modelos animais e de técnicas de biologia 
molecular. 
 
E. coli enteroinvasiva (EIEC) 
As estirpes enteroinvasivas estão associadas 
a serotipos O restritos, tendo propriedades 
patogénicas semelhantes às da Shigella. É mais 
comum nos países subdesenvolvidos. 
Estas bactérias invadem e destroem o 
enterócito por um mecanismo invasivo, 
ocasionando uma diarreia aguda com pus e sangue. 
Local de acção: intestino grosso. 
Abordagens laboratoriais: por técnicas de 
biologia molecular (sondas de DNA, PCR e PCR 
multiplex). 
 
E. coli enteropatogénica (EPEC) 
As estirpes enteropatogénicas estão associadas à diarreia do recém-nascido. Estas 
bactérias aderem ao enterócito promovendo a fusão das vilosidades. Isto que leva à 
formação de filamentos de actina polimerizada, o que promove a destruição do enterócito, 
resultando em diarreia aquosa e má absorção de nutrientes. 
Local de acção: Intestino delgado. 
Abordagens laboratoriais: a partir de testes genotípicos. As classificações 
 
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 Eosin methylene blue (meio diferencial) – inibe o crescimento dos gram-positivos e distingue os lactose positivo e 
negativos (nos lactose positivo há a produção de cor preta). E. coli é a única bactéria q produz cor verde metálica 
neste meio 
 
 
 
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serológicas têm interesse apenas em estudos epidemiológicos. 
 
E. coli enterohemorrágica (EHEC) 
As estirpes enterohemorrágicas estão associadas à colite hemorrágica, pois 
produzem uma toxina conhecida por verotoxina, que provoca a morte do enterócito dando 
origem a diarreias com sangue. 
Local de acção: intestino grosso. 
Abordagens laboratoriais: pela verificação de efeitos citopáticos em células vero, 
induzido pela verotoxina, ou pelo uso do “MacConkey Sorbitol Agar”. 
 
Outras infecções por E. coli 
A E. coli também pode dar origem a: 
 Meningite; 
 Septicémia; 
 Pneumonia; 
 Infecções urinárias: 1º - aderência bacteriana ao uroepitélio (a partir de 
fímbrias e adesinas); 2º - a bactéria atravessa a uretra e infecta a bexiga 
(cistite), podendo atingir o rim (pielonefrite). Sintomas: ardor ao urinar, 
urinar frequentemente. 
 
Shigella 
 A Shigella é um género de bactéria com quatro espécies, todas anaeróbias facultativas. É 
uma bactéria altamente infecciosa (102 células) predominante em faixas etárias inferiores a 10 
anos, podendo também afectar pessoas em contacto directo com essas crianças (ex. pais, 
educadoras de infância) e homens homossexuais. É de transmissão fecal-oral. 
 A Shigella diferencia-se bioquimicamente da E. coli, pois não fermenta lactose, e da 
Salmonella, pois não produz H2S. 
 
 Patogénese 
 1º - Adesão e invasão das células epiteliais na mucosa do íleon distal e cólon; 
 2º - Multiplicação das bactérias no interior destas células, causando uma reacção 
inflamatória local e lesões ulcerativas; 
 3º - S. flexneri e S. sonnei: produção de uma toxina termolábil, activadora de uma 
adenilciclase, e uma enterotoxina citotóxica. 
 
Patologias 
 Esta bactéria tem um espectro clínico que vai desde: 
 Ausência de sintomas (portadores, que podem transmitir) até a 
 Disenteria bacilar: caracterizada por febre e mal-estar com diarreia a-
quosa e dores abdominais; 12-24 horas depois a febre diminui, surgindo 
tenesmo41 e dejecções com sangue e muco abundantes, mas em menor 
número; 
 Pode ocorrer também gastroenterite (shigellose). 
 
 
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 Tenesmo - sensação dolorosa na bexiga ou na região anal, com desejo contínuo, mas quase inútil, de urinar ou de 
evacuar. 
 
 
 
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Diagnóstico 
 As bactérias podem ser isoladas de amostras fecais. Numa fase aguda da doença, 
pode-se efectuar uma coprocultura (pois a bactéria é facilmente isolada), tendo-se que 
usar métodos de enriquecimento após esta fase, pois o nº de bactérias diminui. O 
crescimento é efectuado em meio SS, onde se crescem Shigella e Salmonella, sendo depois 
feita a diferenciação pela produção de H2S (que estas bactérias não fazem). 
 
Terapêutica 
A terapêutica antibiótica encurta a progressão da doença. 
 
Salmonella 
 A Salmonella é um género de bactérias anaeróbias facultativas com mais de 2500 serotipos 
O (referidos como espécies). As Salmonella não typhi (S. enteritidis, S. choleraesuis) estão 
tipicamente adaptadas aos animais. A transmissão pode dar-se então por consumo de produtos 
alimentares contaminados (ex. ovos) ou por meio fecal-oral em crianças. 
 As S. typhi e S. paratyphi são organismos