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2011_DanielaMountian_VOrig

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XI). Logo em seguida, a narração abandona esse detalhamento: 
Os rumores sobre Pýlnikov ser uma senhorita disfarçada se alastraram rapi-
damente pela cidade. Os primeiros a saber foram os Rutílov. Ludmila, curi-
osa, sempre se empenhava em ver com os próprios olhos tudo que era novo. 
Nela brotou uma curiosidade ardente por conhecer Pýlnikov. Tinha que ver 
de qualquer jeito aquela trapaceira dissimulada. 
(SOLOGUB, 2008, p. XIV, p.174) 
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45
 GREENE, Diana. Insidious Intent: an Interpretation of Fedor Sologub‟s The Petty Demon. 
Bloomington: Slavica Publishers, Inc., 1986, p. 51. 
49 
 
No início a narrativa parece seguir o movimento linear dos acontecimentos, 
―Depois da missa de domingo os paroquianos dispersaram-se para voltar às suas ca-
sas‖ (SOLOGUB, 2008, p.18), mas depois lacunas são criadas, e a percepção do tempo 
ao longo do romance é perdida. 
 O tratamento dado ao clima também desestabiliza o leitor de Miélkii Biés – 
parece haver um uso quase arbitrário dos elementos climáticos. No capítulo I, o co-
meço do outono fica marcado: ―O jardim [de Viérchina] amarelava e estava variegado 
de frutas e de flores tardias‖46. A primeira menção a Sacha, no capítulo XI, ―(...) faz 
alguns dias, entrou um novo aluno no ginásio, foi direto para a quinta classe‖, mostra 
que prevalece o outono, pois é quando começa o ano letivo na Rússia. No penúltimo 
capítulo, Ekaterina Ivánovna Pýlnikova, tia e tutora de Sacha, resolve visitá-lo depois 
de receber notícias do relacionamento do sobrinho com Ludmila, e ainda permanece 
o outono: ―Apesar do lamaçal de outono e deixando seus negócios de lado, ela partiu 
da aldeia para a nossa cidade‖. Com essa referência ao outono no fim do livro, fica 
estabelecido ainda que todos os inúmeros acontecimentos que envolveram a cidade 
transcorreram em poucos meses. 
No capítulo XXVI, no entanto, numa das cenas amorosas de Ludmila e Sacha, o 
sol ardia quente: 
O ar quente, triste e parado acariciava e fazia lembrar algo que não volta 
mais. O sol, como um doente, ardia embaçado e enrubescia no céu pálido e 
exausto. 
(SOLOGUB, 2008, cap. XXVI, p. 319) 
O outono de Ludmila era quente e alegre: ―O dia quente de outono a alegrava, 
era como se ela difundisse à sua volta o espírito de alegria peculiar‖ (SOLOGUB, 2008, 
cap. XVI, p. 201), enquanto o de Peredonov fechado e tortuoso: ―O tempo também 
estava desagradável. O céu, fechado. Os corvos voavam e crocitavam. Crocitavam 
sobre a cabeça de Peredonov [...]― (SOLOGUB, cap. XV, p. 198). 
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46
 SOLOGUB, 2008, p.24, p.144, p.370, respectivamente no parágrafo. 
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No último capítulo, um pouco antes de Peredonov matar Volódin, o tempo 
estava mais uma vez fechado e opressivo, o inverno e a escuridão se aproximavam da 
cidade: ―O tempo estava nublado, fazia um dia frio. Peredonov retornava da casa de 
Volódin. A tristeza o afligia‖ (SOLOGUB, 2008, cap. XXXII, p.378). 
A principal função da desorganização climática é estabelecer o contraste entre 
o mundo caótico de Peredonov e de seus conhecidos, e o universo idílico e erótico 
de Ludmila e Sacha. Mas o sol de Ludmila é quimérico, assim como sua história de 
amor: o outono russo é um período frio e chuvoso, marcado pelo desfloramento das 
árvores, e dificilmente dias de sol quente fazem parte da paisagem. O outono de 
Miélkii Biés incorpora as características das personagens, mas prevalece como 
símbolo de declínio, antevendo o rigoroso inverno que sem falta chegaria. 
O narrador em relação às personagens também tem uma função híbrida. De 
um lado, desempenha o papel tradicional do naturalismo – com uma voz onisciente 
rege o espaço entre o leitor e as personagens. Há ainda digressões, em tom elevado, 
e por vezes a narração confunde-se com o pensamento de algum personagem, 
delineando o discurso indireto livre e já relativizando a posição do narrador, mas 
nada disso era incomum ao século XIX. O que, mais uma vez, distancia a narração de 
O Diabo Mesquinho da convenção é sua função primordial: legitimar a loucura 
progressiva de Peredonov entrelaçando com ela todas as personagens. 
Os personagens e as situações que irão compor as alucinações do professor 
são apresentados pela narração, em 3ª pessoa, exatamente como ele os verá depois, 
já ensandecido. Vejamos o caso de Volódin, que, no entanto, pode ser aplicado em 
geral. No início do romance, Pável Volódin é apresentado ao leitor: 
Com uma risada alegre e barulhenta, entrou Pável Vassílievitch Volódin, um 
jovem, no rosto e no jeito, surpreendentemente parecido com um carneiro: 
cabelos encaracolados como pêlo de carneiro, olhos esbugalhados e sonsos 
— todo ele como um alegre carneirinho —, um jovem abobalhado. Volódin 
era marceneiro, estudara numa escola técnica e agora ensinava o mister na 
escola técnica do município. 
(SOLOGUB, 2008, p.36) 
Já bastante perturbado, Peredonov, antes de encontrar com Volódin, é aflito 
por alucinações: 
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Na rua, tudo parecia hostil e sinistro aos olhos de Peredonov. No cruza-
mento, um carneiro o fitava com olhar inexpressivo. Um carneiro tão pare-
cido com Volódin que Peredonov levou um susto e pensou que talvez 
Volódin tivesse se transformado em carneiro para espioná-lo. 
(SOLOGUB, 2008, p.240) 
E no ápice de sua loucura: 
Peredonov afundava-se cada vez mais na loucura. Continuava a escrever de-
núncias contra as cartas do baralho. E agora também contra a nedotýkomka, 
o carneiro — que se fazia passar por Volódin e pretendia assumir um cargo 
importante, mesmo sendo apenas um carneiro — e contra os cortadores de 
lenha — que haviam abatido todas as bétulas, de modo que não havia mais 
como tomar banho a vapor, além de ter ficado difícil educar as crianças; dei-
xaram apenas os álamos, mas quem precisa de álamos? 
(SOLOGUB, 2008, p.339) 
O narrador antecipa as visões de Peredonov – os moradores da cidade têm o 
mesmo papel no contato com os outros e nos delírios do professor, e estão todos 
relacionados com a nedotýkomka. A amórfica nedotýkomka, a representação da de-
sordem, é uma alucinação de Peredonov, mas, quando isoladamente tomada, é um 
símbolo do coletivo. 
A nedotýkomka poderia ter sido criada como uma personagem aceita pelas 
demais – o enredo permitiria essa presença, assim como ela estaria legitimada pela 
própria literatura russa, já povoada por ídolos, narizes, capotes e sósias. No entanto, 
o que tornou a nedotýkomka um símbolo universal foi a narrativa. A construção da 
nedotýkomka, que será analisada no capítulo III, é peça-chave da desarticulação de 
Peredonov e um dos principais elementos da narração que afastam o romance da 
estética realista do século XIX. 
Além da narração, a paródia é o recurso que mais se destaca na contextura. Na 
realidade, toda a estrutura, formal, temática e filosófica, de O Diabo Mesquinho é 
paródica. Além de parodiar gêneros literários, Sologub retoma autores como 
Aleksándr Púchkin (1799-1837), Nikolai Gógol (1809-1952) e Fiódor Dostoiévski 
(1821-1881) e incorpora um grande repertório de referências míticas e folclóricas. 
 
52 
 
3. Ontologia da paródia 
Logo que travaram conhecimento com Miélkii Biés, passaram a fazer corres-
pondências do romance com outras obras e personagens – o forte diálogo estabele-
cido com a tradição foi de imediato notado. A primeira relação destacada foi com 
Mikhail Liérmontov (1814-1841): aproximaram Peredonov do herói de Conto de fadas 
para crianças (1839-1840), apesar de a presença de M. Liérmotov em Miélkii Biés não 
ser quase sentida. Com o ensaio, bem pouco elogioso, Izmletchávchii rússkii 
Mefistófel e Peredonovschina (O pequeno Mefistófeles russo e o peredonovismo), 
publicado