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2011_DanielaMountian_VOrig

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incivilizados. No campo, aquele camponês era melhor 
que os outros, mas, no meio da nobreza, ele introduz algo de rude, de não 
cavalheiresco, de não aristocrático. Para ele, primeiro vem o lucro, o inte-
resse das entranhas. Não, meu paizinho, as castas eram uma organização sá-
bia. 
(SOLOGUB, 2008, p. 121) 
Peredonov mostra-se de acordo com Avinovítski: ―— É verdade, no nosso gi-
násio, a propósito, o diretor deixa entrar qualquer tipo de ralé — disse Peredonov 
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108
 Vários outros aspectos da política educacional conservadora dos governos de Alexandre III e 
Nicolau II podem ser destacados. As escolas dos zemstvos, consideradas liberais, produziram 
importante polêmica. Em 1891, para limitar seus poderes, sai uma lei dizendo ser necessário pedir uma 
autorização para abrir novas escolas do zemstvo, e a permissão não seria dada se já houvesse uma 
escola da igreja na área. O assunto parece retratado pelo marechal da nobreza Veriga: ‖ — O senhor, 
então, é um pedagogo — e eu, em virtude da minha posição no distrito, também tenho que me 
ocupar das escolas. Do seu ponto de vista, a que escolas dar preferência: às religiosas paroquiais ou às 
dos zemstvos?‖ (SOLOBUB, 2008, p.127). Questões da grade curricular, levantadas por Sacha no 
romance, foram também alvo da política educacional – dava-se ênfase às línguas antigas e à religião, 
em detrimento da história, da filosofia e da literatura, disciplinas que as autoridades relacionavam com 
os críticos revolucionários da década de 1860, cujas ideias eram consideradas ―perigosas‖. Além disso, 
em 1887 foi imposta uma cota máxima de judeus nos ginásios e nas universidades – em Moscou e São 
Petersburgo só era permitida a presença de três por cento de judeus. 
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com raiva —, até filhos de camponeses, e dos pequeno-burgueses também há mui-
tos.‖ E possivelmente109 se refere ao decreto de Deliánov quando, ainda se queixando 
do diretor, diz ao procurador: ―— Uma circular do regulamento diz que não se deve 
deixar entrar qualquer traste, mas o diretor sempre faz tudo do seu jeito — queixou-
se Peredonov [...]‖ (SOLOGUB, 2008, p.122). 
Ardalión Boríssytch entendia as diferenças sociais e as ressaltava: 
Peredonov às vezes tratava os ginasianos por ‗você‘, mas os de família nobre 
sempre por ‗senhor‘. Na secretaria, ele ficava sabendo da classe social de 
cada um, e sua memória guardava essas distinções com tenacidade. 
(SOLOGUB, 2008, p.100). 
Mas também sentia repúdio e pavor pelo mundo oficial. Aos visitar os figurões 
da cidade, seu estado de ânimo ficava transtornado e deprimido: 
Eis que agora precisava ir contra a própria vontade — pensava ele — e ainda 
por cima dar explicações. Que incômodo! Que tédio! Se ao menos houvesse 
a possibilidade de fazer tramoia ali, para onde ia, mas nem esse consolo 
havia. 
(SOLOGUB, 2008, p.116) 
O decoro oficial era-lhe tedioso e incompreensível. Sua personalidade com di-
ficuldade aceitava misturar-se a esse mundo, do qual contraditoriamente ele queria 
fazer parte. O professor, que decidira vestir apenas o quepe com distintivo, ―[...] fazia 
alguns dias, antes de recomeçar suas andanças aos poderosos, que ele pensava nisso, 
mas apenas o chapéu comum lhe caía nas mãos [...]‖ (SOLOGUB, 2008, p.138), atirou 
o velho chapéu em cima da estufa da casa antiga. Mas ele teimosamente retornou a 
Peredonov – Erchova, a ex-senhoria, achou o chapéu, botou um feitiço nele e o de-
volveu por meio de um dos filhos peraltas do serralheiro. 
Usando um dos métodos favoritos de Gógol – a caracterização de persona-
gens por meio de objetos –, Sologub descreve um mundo socialmente paralisado e 
de aparências. Inserido neste universo, Peredonov precisava travestir-se de símbolos 
de poder – os funcionários públicos na Rússia eram graduados como os militares. 
_____________ 
 
109
 GREENE, 1986. 
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Além de passar a usar o quepe oficial, o professor mandou costurar um novo uni-
forme: 
Mas o novo uniforme, esse sim, logo seria notado. Ainda bem que as drago-
nas estão de acordo com a patente, e não com a categoria dos cargos. Isto 
sim seria importante: dragonas como as de um general, uma grande estreli-
nha. Qualquer um na rua perceberia logo se tratar de um Conselheiro de 
Estado. ―Preciso encomendar o novo uniforme quanto antes‖, pensou 
Peredonov. 
(SOLOGUB, 2008, p.107) 
O entrecho do quepe e do uniforme de Ardalión Boríssytch faz clara alusão a 
Akáki Akákievitch, personagem de O capote, conto de Gógol de 1842. Como o capote 
que Akáki, em princípio à sua revelia, manda costurar, o quepe e o uniforme de 
Peredonov representam seus desejos e suas ambições. O chapéu comum volta à vida 
de Peredonov, assim como o capote é roubado a Akáki, e ambos fracassam no que 
almejam. 
Peredonov não é o protótipo do ―homem sem importância‖, não é um escre-
vente como Akáki Bachmátchkin, ―uma simples mosca que voava pela sala de recep-
ção‖ de uma repartição pública de Petersburgo, nem despertou tamanha compaixão 
(apesar de despertar alguma), mas compartilha com esse funcionário certos traços de 
uma personalidade sem vida, quase um fantasma. E ambos são despertados de uma 
inércia sombria e mecanizada pela possibilidade de reconhecimento oficial, uma di-
mensão que Dostoiévski recupera de Gógol em Memórias do Subsolo, novela de 1864. 
Na novela de Dostoiévski, um ex-funcionário público de Petersburgo persegue 
o intento, não alcançado, de ser notado pelo oficial que um dia o ignorara. Quando 
se vê desprezado pelo oficial, o amor-próprio atingido do anti-herói o desperta da 
sua apatia subterrânea. Em sua obsessão de reencontrar o oficial, o homem do sub-
solo, enquanto um mero representante do funcionalismo público, queria nivelar-se à 
classe da alta oficialidade, definindo um plano que se aproxima da paranoica ambi-
ção de Peredonov. Em O Diabo Mesquinho, o quepe com distintivo e o novo uniforme 
são símbolos de poder que Peredonov buscava também para igualar-se: ―Para o di-
retor, usar um chapéu comum dava no mesmo — já era bem-visto pelos superiores 
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[...]‖ (SOLOGUB, 2008, p.139). Mas Peredonov tencionava ainda mais – ele queria 
pertencer ao outro mundo: 
Esta cidade é ruim‖, pensou Peredonov, ―as pessoas daqui são ruins e más; 
preciso mudar-me daqui quanto antes, ir para onde todos os professores me 
façam uma reverência profunda, para onde todos os alunos tenham medo 
de mim e digam assustados: ―olhe o inspetor passando‖. Sim, os superiores 
vivem de modo completamente diferente neste mundo. 
(SOLOGUB, 2008, p.242) 
Ao mundo cuja expressão máxima se achava na figura abstrata da princesa, 
que Peredonov nunca chegou a ver: ―[...] ela [a princesa] já tinha partido para a aldeia, 
não a pegamos por cinco minutos, e só voltaria dali a três semanas‖ (SOLOGUB, 2008, 
p. 20) − a face indefinida da princesa pode ser ligada à amórfica nedotýkomka. 
As ambições e manias persecutórias do professor Peredonov relacionadas com 
o poder e a autoridade enlaçam-se à imagem da princesa desde o primeiro capítulo – 
―Mas e a princesa, como vai ficar? Ela ficaria zangada se eu largasse a Varvara‖110. Um 
dos grandes receios de Peredonov era ser difamado ―aos olhos dos superiores‖: ―[...] 
Talvez tenham ido falar mal de mim para ele [o diretor]. E ainda continuarão com 
isso. Ainda chegará aos ouvidos da princesa‖. Temores incentivados por Varvara, que, 
depois de casada, ficou mais corajosa: ―Provocando Peredonov ainda mais, ela não 
raro lhe dizia ser provável que ele já tivesse sido denunciado e difamado perante as 
autoridades e a princesa‖. Espiões esgueiravam-se por toda parte à procura dele: 
―Parecia-lhe que alguém o estava espreitando, seguindo-o às escondidas‖;