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A sala de aula no século XIX

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cavaletes, para fazer
exercícios na “pedra”. Nos longos bancos (classes), os buracos para os tinteiros.
Um dos alunos provavelmente encontra-se respondendo às perguntas do
professor, as famosas “lições”. Ambos, professor e aluno, estão concentrados,
o aluno tentando não errar, o professor procurando o erro. Os demais
acompanham atentamente o desenrolar da aula. A lição parece ser conduzida
pelo conteúdo do compêndio (um exemplar na mão do professor, outro na
do aluno). Ao fundo, um cartaz com imagem de uma girafa. Diversos
relatos de estudantes reafirmam esse uso. Reina disciplina, controle e
organização.
Figura 1 – Sala de aula no século XIX
Fonte: Davinis e Trainer (1887).9
9 Adesivo provavelmente francês na contracapa desse livro. DAVIDIS, Henriette; TRAINER, Theodore.
Kleines Kochbuch [Pequeno manual de cozinha]. Leipzig: Berlag von Belhagen, 1887.
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As salas de aula, em geral retangulares, de tamanho reduzido e com um
estrado na frente, com disposição dos bancos em fileiras facilitavam o controle
do professor sobre os alunos.
Em suas memórias, Antônio Álvares Pereira Coruja, ao relatar como
era a aula do Padre Tomé, deixou registrado um “retrato” desse espaço
escolar:
Um quarto de hora antes da designada para as lições, o padre
mestre abria a porta da sala; e esta era de toda a simplicidade,
contendo só o essencialmente necessário: bancos de encosto,
cadeiras junto à parede entre as duas janelas, para assento do padre
mestre, e defronte desta uma pequena mesa com gaveta em que se
guardavam as seletas e o tinteiro; e nas paredes [...] cinco grandes
mapas geográficos pendentes, a saber: o mapa-múndi e as quatro
partes do mundo. (CORUJA, 1996, p. 85-86).
Na sala de aula de então, a figura do professor encontra-se numa posição
de relevo e dominando o contexto. Sua figura mormente é retratada de
frente. Os alunos, por sua vez, são vistos de costas, prestando atenção e em
posição subalterna.
Em quase todas, o estrado é bem visível. Os bancos de madeira são longos
e ocupados por dois ou mais alunos, não possuindo encosto. As mesas são do
mesmo jeito, longas e compridas, com leve inclinação para facilitar o ato de
escrever. O quadro-negro, em regra, situa-se numa das laterais da sala. Diversos
outros objetos são perceptíveis, tais como: crucifixos, mapas, globos, figuras de
animais e plantas pendurados nas paredes, relógios, etc.
Recordando o seu tempo de estudante, Magalhães (1859-1903) lembra
do Padre Mestre Belmonte entrando em sala de aula com o seu passo pausado,
fazendo ringir as grossas botas nas taboas do soalho, “por entre as filas paralelas
dos bancos [...]. Os rapazes, que este ruído familiar avisava de longe,
mergulhavam apressadamente os olhos nos livros abertos, simulando uma
aplicação ao estudo realmente... feroz”. (1899, p. 52). Magalhães guardava no
fundo da memória o tempo da palmatória:10
10 Embora tivesse sido abolido o uso da palmatória, ela continuou presente no cotidiano escolar, conforme se
pode verificar pelo teor do seguinte documento: “Deseja a Câmara saber se os regulamentos dos colégios
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Quando se aproximava do meu banco, apenas me distinguia entre os
outros pequenos, vinha declinando a meia voz, com um sorriso
paternal: Valentinus, Valentini... e batendo-me com a palma da mão
sobre a cabeça: – Valentino!... Um dia, na aula de latim, deu-me dois
bolos... Não sei que contrariedade lhe havia, naquela manhã, agastado
o espírito; o certo é que entrou para a aula com uma das mãos passada
atrás das costas, o sobr’olho carregado, a cabeça mais enterrada sobre
o peito do que de costume... Sinais evidentes de que trazia consigo
duas coisas terríveis: um vivo desejo de dar bolos e... a palmatória.
(1899, p. 53-54).
Com as mãos nas costas, passava por entre eles fiscalizando o estudo,
afagando a cabeça de um, sacudindo com um ligeiro “piparote” as orelhas
de um preguiçoso, atendendo solícito ao pedido de explicação de outro.
Finalmente, “sentou-se e gritou: – Cheguem-se cá, fiquem em volta da
mesa. Nós obedecemos, tremendo. – Vá, comece você”. (1899, p. 54).
O que os alunos mais escutam são ordens: “Levante-se! – ordenou o
professor” (FLAUBERT, 1884, p. 2); “Quinhentos versos a toda classe! – bradou
o mestre.” (1884, p. 4). Esse contexto era muito semelhante ao da Europa,
ao menos o de Portugal e o da Espanha. O escritor português Eça de
Queiroz (1845-1900) não tinha uma visão positiva da sala de aula, “nem
espaço, nem asseio, nem arranjo, nem luz, nem ar. Nada torna o estudo tão
penoso como a fealdade da aula”. (1891, p. 112). Do mesmo modo, Ramalho
Ortigão (1836-1915) descrevia o colégio como uma “casa triste e sombria”.
As paredes possuíam “riscos e letras a lápis”, no chão escuro, “pedaços de
papéis rasgados”. As aulas, “sujas pela lama que trazem as botas dos externos,
os bancos lustrados pelo uso, as carteiras de pinho pintadas de preto, os
transparentes das janelas manchados pela chuva, a lousa negra polvilhada de
giz [...] infundem uma tristeza lúgubre”. (1889, p. 10-11).
particulares que estabeleçam como disciplina, os castigos físicos, ficam, neste ponto, de pé, diante do que
dispõe o artigo 18 do regulamento citado (de 22 de fevereiro), que expressamente proíbe os castigos corporais,
e determina quais devam ser os de que podem lançar mão os professores. É certo que em alguns estabelecimentos
particulares são os alunos castigados com bolos, e que em uma das escolas públicas a Comissão da Câmara
encontrou sobre as mesas uma palmatória”. (RELATÓRIO DO ESTADO DA INSTRUÇÃO PÚBLICA DE RIO GRANDE,
08.01.1879). Manuscrito: arquivo dos autores.
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Presos nas quatro paredes da sala de aula, observados constantemente
pelos professores, as classes dispostas em filas para dificultar os contatos e
facilitar o controle, pouco restava aos alunos. As tarefas diárias, os exercícios
constantes e avaliações permanentes mantinham os alunos ocupados. Os
exames, por sua vez, poderiam ser para muitos uma verdadeira tortura.
Figura 2 – Sala de aula
Fonte: Contreras (1895).
Reproduzimos a seguir o relato dessas relações entabuladas dentro do
espaço da sala de aula, feito de maneira arguta pelo escritor Contreras. A
imagem acima acompanha o texto:
Terminada a classe de leitura, o mestre, sentado numa cadeira alta
sobre um largo estrado, dá com uma régua três pancadas sobre a
mesa que tem defronte. Murmúrios de vozes sumidas, tropel de
passos ruidosos respondem a esse sinal: cada menino acode ao seu
lugar marcado nas mesas de escrita, e por fim se restabelece o
silêncio. Formando filas, de oito em oito, silenciosos, de pé e
chegados aos estreitos bancos, os meninos esperam com os olhos
postos na mão do mestre até que um só golpe, seco e mais forte
que os anteriores, lhes diga que podem sentar-se. Novo sussurro:
choques de madeira, papéis e mãos; as carteiras se abrem e fecham
durante cinco minutos; os tinteiros são suspensos para observar
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através do vidro o nível da tinta; os cadernos recebem de vez em
quando o toque dos dedos umedecidos virando-lhes as folhas;
experimenta-se a tempera das penas de aço de encontro à unha
do polegar esquerdo. Já se prolongam em demasia os preparativos;
risos abafados começam a misturar-se com frases ditas à meia voz e
beliscões, pontapés à sorrelfa e mesmo pescoções são afinal
reprimidos pela voz do mestre gritando, “Silêncio!” e pela forte e
derradeira reguada sobre a mesa. Calam-se os meninos e escrevem.
Na grande sala do colégio só se ouvem as penas rangendo
nervosamente e o monótono zumbido das moscas. Cessa então o
mestre de examinar os alunos, recosta-se um pouco à cadeira, pega
num livro as mãos ambas e põe-se a ler distraidamente.
(CONTRERAS, 1895,