Prévia do material em texto
MAD II - 211 - 4º Período "Se eu pudesse iniciar uma revolução, seria a do Amor, a única revolução verdadeira.Compartilhar é amar no sentido mais real possível, como Jesus me ensinou." Rachel Alencar 07.05.2013 Introdução à micologia Profa.Dra.Andréa Regina S. Baptista Disciplina de Micologia -MP/Instituto Biomédico/UFF Bibliografia indicada: Sidrim - Micologia à luz de autores contemporâneos. Fungos tornaram-se mais importantes quanto à mortalidade e morbidade devido a: • Uso prolongado de antibacterianos de amplo espectro(seleção de populações e depressão do SI); • Surgimento da AIDS (imunosupressão). • Demais casos de imunossuprimidos. O tipo de patologia causada pelos fungos, como aquelas causadas por outros agentes, depende da relação do patógeno com o hospedeiro, da carga microbiana, dent outros fatores. Micologia: mykes (grego) = fungo. Estima-se que há mais de 100.000 espécies de fungos, das quais cerca de 200 são patógenos com amplo espectro de doenças. Dentre esses patógenos, a maioria é oportunista.Os patógenos primários ou verdadeiros não dependem do oportunismo para causar doencas, e seu número é reduzido. Taxonomia fúngica • Domínio Eukaryota • Reino Fungi • Quatro filos: Basidiomycota - os visíveis a olho nu encontram-se nesse grupo (macroscópicos); Ascomycota Zycomycota - são mais primitivos, ligados a ambientes aquáticos, causam micoses mais profundas. Chytridiomycota - diferente dos acima, não tem grande importância para a clínica. Deuteromycota - não formam um filo real, são chamados atualmente de Mitospóricos. Não se sabe determinar suas fases de reprodução, conhecendo-se apenas a fase assexuada dele. Alguns são patogênicos. OBS: Fase de reprodução assexuada: importante para o diagnóstico, pois é a fase em que se parasita o homem, isto é, o diagnóstico laboratorial é feito na fase assexuada da reprodução dos fungos. • Quimioheterotróficos: transformam matéria orgânica maior em menor. • Reserva de glicogênio (não amido). • Não formam tecidos verdadeiros (apenas hifas e micélios). • Parede celular: composta por quitina (poucas apresentam celulose). • São ubíquos. • Podem ser, no ecossistema, sapróbios (degradam matéria orgânica morta), simbiontes (presente sem causar doenças) ou parasitas (causadores de doenças). • Podem ser unicelulares ou pluricelulares. • Membrana plasmática: principal esterol é o ergosterol (importante para antifúngicos como alvo). • Imóveis. • Reprodução sexuada ou assexuada. • Nutrição por absorção de matéria orgânica degradada. • Mesófilos: 5-37º C.Maioria dos fungos cresce bem à temperatura ambiente tropical. Portanto, "os fungos não possuem nenhum pigmento fotossintético, não formam um tecido verdadeiro, não apresentam celulose na parede celular (com exceção de alguns fungos aquáticos inferiores) e não armazenam amido como substância de reserva. Na sua parede celular, há a presença de uma substância quitinosa. Sua estrutura somática é representada por hifas, cujo conjunto constitui o denominado micélio." Morfologia fúngica "Macroscopicamente, os fungos podem ser divididos em dois grandes grupos: os bolores, que apresentam uma colônia filamentosa, e as leveduras, que apresentam em geral, uma colônia cremosa." Há ainda os fungos dimórficos. Unicelulares = leveduras são células ovaladas.Formam estruturas chamadas de pseudo-hifas e pseudomicélio que se multiplicam por brotamento ou gemulação, e não por germinação. Pluricelulares = filamentosos/bolores são formadores de hifas verdadeiras. Estas constituem micélio verdadeiro, que se multiplica por meio de germinação de esporos, e não por brotamento ou gemulação. Dimórficos = têm fase de leveduras e fase de bolores; são mais patogênicos por serem melhor adaptados ao parasitismo humano. Dessa forma, apresentam-se diferentemente dependendo do ambiente. "A unidade estrutural dos fungos é representada pela hifa que forma um conjunto denominado micélio. O micélio pode se apresentar como micélio vegetativo, exercendo as funções de assimilação, fixação e crescimento das espécies, ou se diferenciar em micélio de frutificação que serve à reprodução da espécie." OBS: Micélio gemulante = conjunto de leveduras que, por gemulação/brotamento, produz o blastoconídeo. Blastoconídeo = broto que surge das leveduras. Fungos microscópicos filamentosos: MAIS IMPORTANTES nas patogenias. A reprodução assexuada dos fungos pode ser de várias formas, como gemulação/brotamento, fragmentação de micélio, formação de esporos, etc. Hifas O micélio verdadeiro produz propágulos vegetativos que se dispersam no ambiente, e depois de alcançarem em ambiente propício, germinam, formando tubos germinativos, que originam as hifas.Crescimento de hifas ocorre na região apical. As hifas podem ser classificadas como: • Cenocíticas (conteúdo citoplasmático livre) ou septadas (septos que produzem poros); • Verdadeiras ou falsas; • Demáceas (acastanhadas) ou hialinas (azuladas); • Espessas ou finas. Tubos Hifas dispersão + germinaçãoPropágulo Micélio Reprodutor verdadeiro OBS: Corpos de Woronin que cicatrizam locais de lesão, impedindo o extravasamento de citoplasma nos fungos filamentosos.Zygomycetes podem formar septos verdadeiros quando vão formar os tubos para gerar propágulos vegetativos, o que ocorre apenas nesses casos. Quanto à coloração Demáceas - visualiza-se castanho escuro com corante devido à muita melanina na parede celular. Hialinas - visualiza-se azulado claro com corante. Essa divisão é muito utilizada com filamentosos. Nos casos de leveduras não se usa muito. Micélio Micélio = corpo do fungo. Vegetativo - fixo, serve para nutrição e fixação do fungo. Reprodutor/ de Frutificação - aéreo ou visível, visa à dispersão, e serve para reprodução. Propágulos vegetativos São estruturas que se formam nas células e podem ter as duas colorações.Os propágulos ou órgãos de disseminação dos fungos são classificados, segundo sua origem, em externos e intemos, sexuados e assexuados. Embora o micélio vegetativo não tenha especificamente funções de reprodução, alguns fragmentos de hifa podem se desprender dele e cumprir funções de propagação, uma vez que as células fúngicas são autônomas. Podem ser septados ou não, ter diversas formas, e sua função pode ser de reprodução (mais comum) ou resistência (principalmente em candida albicans). Há vários tipos de propágulos na via assexuada: Artroconídios - formados por fragmentação de hifas após espessamento da parede celular. Blastoconídios - formados por brotamento, comumente nas leveduras, e podem continuar juntos à célula mãe, formando pseudomicélio. Clamidoconídios - tem função de resistência, semelhante aos esporos bacterianos. Conídios - são os mais frequentes; para sua formação, é preciso hifa diferenciada em conidióforo; Esporangiósporos - equivalente aos conídios, porém nos Zygomycota. Corpos de frutificação O corpo de frutificação é análogo a um sistema reprodutor humano.Inicialmente, a hifa forma micélio (septado ou não septado) e quando ocorre esgotamento de nutrientes no ambiente, é preciso disseminar. Então acontece a formação de tubos para que possa se formar o corpo de frutificação. Quando é um corpo de frutificação de hifas cenocíticas, a ponta desse forma um esporo. Quando é um corpo de frutificação de hifas septadas, a ponta desse forma um conídio. Todos os fungos, com poucas exceções, têm origem nos esporos (reprodução sexuada) ou conídios (reprodução assexuada). Portanto... Esporo: só para cenocíticos. Esporângeo é a ESTRUTURA na ponta do tubo, que formará o esporo. ESSE TUBO É CHAMADO DE ESPORANGIÓFORO. Conídios: só para septados. Conídio É SEMPRE LIVRE, na ponta do tubo. ESSE TUBO É CHAMADO DE CONIDIÓFORO. Reprodução de célula fúngica ASSEXUADA:mecanismo nuclear é mitose. Pode ser COM estruturas diferenciadas (levedura) ou SEM estruturas diferenciadas (fungo filamentoso). Dentre os filamentosos, podem ser artroconídios ou conidióforo. OBS: esporangiósporo - esporo dentro do esporângio. PARA COLETAR AMOSTRAS de fungos para diagnóstico laboratorial, utiliza-se parte da borda da colônia, que é a parte mais jovem. Importância dos fungos Relação do fungo com meio ambiente: sapróbios, simbióticos e parasitas. Distribuídos no mundo inteiro. Benefícios dos fungos: nas indústrias, como alimento (saprofíticos), etc. Malefícios dos fungos: atuação maléfica sobre matéria orgânica (alergias, micoses, micotização, micotoxicose, micetismo, micide, etc.) e inorgânica (destruição de objetos, por ex.). Aspectos básicos do diagnóstico micológico As micoses podem ser mais superficiais ou mais profundas. Micose superficial Atinge áreas queratinizados (pêlos e unhas). Ex: pitiríase versicolor, parasitismo ectothrix (na parte externa do pêlo; há também o endothrix). Micose cutânea Atinge áreas queratinizadas e epiderme superficial (pêlos e unhas). Ex: dermatofitoses (ex: candidíase), onitomicose. Micose subcutânea Atinge regiões profundas da derme, podendo chegar até linfáticos. Ex: micetomas, cromomicose, esporotricose. Micose sistêmica A maioria começa com foco pulmonar, disseminando então para outros sistemas e órgãos. Ex: paracoccidioidomicose. Coleta Coleta de materiais clínicos (espécime clínico: material para análise) para uso em exames diretos ou cultura.Material deve ser etiquetado, devidamente identificado.Não se deve utilizar formol; caso necessário, utilizar salina. Instrumentos: bisturi, pinça, punch, swab. Escamas de pele: faz-se raspagem com bisturi ou lâmina, deixando uma placa de petri embaixo. Quando analisa-se uma lesão, raspa-se a extremidade da circunferência. A luz ultravioleta (lâmpada de wood) é utilizada para avaliação da presença de fungos no couro cabeludo.Pode-se usar também um durex para retirar escamas e visualizar na lâmina em seguida. Essas formas de coleta avaliam micoses superficiais. Biópsia: é feita para coletar fragmentos de lesões mais profundas, e pode ser feita utilizando-se os instrumentos já citados.Secreções mais translúcidas de linfonodos fistulados são preferidas às mais turvas (purulentas) por conterem menos células brancas. Unhas: coleta-se a massa sob a unha afetada, ou o limite entre a parte afetada e a parte sadia. Unhas completamente tomadas são difíceis para se fazer coleta, pois a colônia já destruiu a matéria orgânica e não se distingue parte mais jovem da mais velha. Punção lombar: coleta-se líquor; é importante para pesquisa de meningite fúngica. Diagnóstico laboratorial Para o diagnóstico das micoses, no laboratório, pode ser feito: 1º - Exame direto; 2º - Cultura; 3º - Biópsia - Histopatologia; 4º - Provas Imunológicas; 5º - Exame Radiológico; 6º - Inoculação Animal; Macroscopia do material - há duas condutas possíveis: exame direto ou cultura. Exame direto: avaliação imediata do espécime clínico ao microscópio. Pode ser chamado também de exame micológico direto. Faz diagnóstico PRESUNTIVO, isto é, SUGESTIVO DA PRESENÇA DE FUNGOS OU NÃO. No exame direto utiliza-se: • Escamas de pele, pêlos, cabelos e unhas: solução de hidróxido de potássio 10-40%, que destrói o tecido, mas preserva o fungo. • Mucosas, orifícios naturais e secreções: swabs. • Biópsia: punch. • Líquor, urina, líquido cefaloraquidiano: centrifugar com tinta de china. • Fezes: tratar com potássio 10-40%. Cultura: FUNGO DEMORA PARA CRESCER, principalmente o filamentoso (espera-se cerca de 30 dias).As leveduras tem crescimento mais rápido. A semeadura e incubação ocorre utilizando meios específicos. Inocula-se o espécime em um tubo com ágar-sabouraud e outro com ágar-mycosel ou ágar- mycobiotic.A análise macroscópica é então feita, na qual percebe-se cor, formato, verso da placa; não possibilita fechamento de diagnóstico até que atinja-se análise microscópica ou morfológica. A análise microscópica é feita em seguida. Semeadura e incubação Meio utilizado: ágar-sabouraud (para fungos que não persistem ao cicloheximida). Meios seletivos (ágar-sabouraud + cloranfenicol* + cicloheximida**): ágar-micosel, ágar-micobiotic. **Antifúngico contra sapróbios contaminantes do ambiente. *Antibacteriano. Análise morfológica Utiliza-se uma alça de platina estéril para obter-se uma porção do espécime da cultura, que será tingida com azul de lactofenol (o lactofenol mata os fungos, protegendo o pesquisador). Microcultivo: cultivo em ágar pobre em nutriente com menor quantidade de fungo, possibilitando visualização de unidades individualizadas e análise de micromorfologia. Faz-se a inoculação de parte do espécime em quatro pontos do quadrado de ágar ou em uma estria sobre o ágar.O fungo cresce então entre a lamínula e o ágar, utilizando-se então água e finalmente o microscópio, no qual visualiza-se o fungo mais individualizado, em conídios, etc. Diagnóstico de leveduras Utilizam-se provas de bioquímica (fermentação, e outros processos). Prova do tubo germinativo - candida spp.: visualiza-se tubo germinativo diretamente alargado desde a levedura, sem constrição no prolongamento (candida albicans). Note: • Candida albicans - tubo germinativo sem constrição inicial. • Candida não albicans - tubo germinativo com constrição inicial. • Não albicans - é preciso fazer provas de assimilação e fermentação. Provas de assimilação e fermentação em carboidratos utilizam diferentes açúcares para análise do crescimento de diferentes leveduras. Imunologia Imunodifusão radial: poços e ágar em lâmina cujo centro contém fungos. Se ocorre migração do material (anticorpos) dos pacientes nos poços para o centro, é positivo. Utilizado para fungos causadores de micoses sistêmicas. Aglutinação em látex. Técnicas moleculares diagnósticas PCR - busca de gene específico. 14.05.2013 Mecanismos de agressão e defesa nas infecções fúngicas Atualmente sabe-se que os fungos, em grande parte, são oportunistas, o que significa que os imunossuprimidos (pacientes com AIDS, recém-nascidos, transplantados, etc.) formam, frequentemente, um grupo cujo risco de submissão às infecções fúngicas é maior. Há casos portanto de infermidades causadas por fungos ligados à imunossupressão especificamente. Doenças fúngicas associadas à condições especificas do sistema imune são: Meningite criptocóccica - associada à AIDS, é causada por micose sistêmica (fungiremia); na meningite criptocóccica, o quadro é característico, similar à meningite bacteriana ou viral. O fungo é inalado, e, ocorrendo fungemia, vai para o SNC. Candidíase disseminada - associada à neutropenia (uso de cateteres favorece o risco para candidíase disseminada); Aspergilose - associada ao transplante de medula óssea. Há também classes importantes de fungos patógenos verdadeiros e também fungos que infectam pessoas cujo SI está normal: Coccidiodes, histoplasma, sporothrix: associados às doenças de pele, mucosa; Cryptococcos variedades gatti - associado às infecções em pessoas imunologicamente saudáveis e às pessoas infectadas por HIV. OBS: síndrome dos edifícios doentes - madeiras de prédios antigos cheias de fungos - causa sinais inespecíficos (cansaço imenso após dormir, etc.). Aspergilose pode ser letal para pacientes fumantes que, devido a complicações pelo hábito, vão para o CTI.Na asperdigose, o fungo também é inalado. Recentemente, tem-se a descrição de um cryptococcos que está infectando pessoas no Brasil que tem um sistema imunológico com níveis celulares normais. Antibioticoterapia de amplo espectro por mais de 14 dias favorece o acometimento porinfecções fúngicas.Comumente, as infecções fúngicas relacionadas à antibioticoterapia estão ligadas ao gênero Candida.Candida faz parte de nossa microbiota, mas diante do uso prolongado de antibióticos pode se tornar patológica, devido ao desequilíbrio na microbiota. Além disso, ela pode ser disseminada na corrente sanguínea por cateteres contaminados. Relação fungo versus hospedeiro O hospedeiro possui barreiras mecânicas intactas, além das imunidades inata e adquirida. O fungo, no entanto, tem fatores de virulência que transpassam barreiras e realizam a evasão. A imunidade inata é a primeira linha de defesa e não gera memória imunológica, sendo menos especifica que a adaptativa. OBS: em epidemiologia, virulência é a gravidade da intensidade da doença, enquanto fatores de virulência são comumente usados como sinônimos para patogenicidade. Ações relacionadas ao SI Tipos de infecção Quanto à fonte do patógeno: Infecção heterógena - origina-se externamente. Infecção endógena - origina-se na microbiota. A temperatura ótima para o crescimento dos fungos (cerca de 28º a 30º) não é compatível com a humana, de forma que 37º é uma temperatura inóspita para eles. Estado febril pode ser desencadeado pelo SI diante de infecções fúngicas, e este é diferente da febre, pois é o aumento de um grau ou um grau e meio acima da temperatura corporal normal. Febre configura um aumento da temperatura corporal danoso, que acarreta a degradação e desnaturalização protéica. Microbiota humana: protege nosso corpo de infecções exógenas.Fungos comensais fazem parte da microbiota. Se a microbiota estiver em equilíbrio, não ocorrerá infecção endógena. Muco: é uma barreira que pode ser transpassada por conídeos pequenos, que podem atingir o pulmão; os grandes, no entanto, ficam presos nele e nos cílios nasais/traqueais. Hormônios: podem modular ação do SI contra infecções. OBS: recém-nascido têm dificuldade com seu termostato. Alguns fungos produzem enzimas que degradam queratina, acarretando micoses de pele. Células TCD4+: sua resposta aos fungos inclui a diferenciação em Th1 - que ativam macrófagos e induzem inflamação - e em Th17 - que recrutam neutrófilos. Também pode ocorrer diferenciação em Th2, que está correlacionado com a exacerbação do processo alérgico causado por fungos, e em Threg, que regula a resposta inflamatória. É importante observar que os principais envolvidos em infecções fúngicas são Th1 e Th17. Th1 ativa macrófagos por meio da produção de interferon gama, e acarreta resposta FAVORÁVEL À INFLAMAÇÃO, havendo liberação de citocinas pró-inflamatórias*, contribuindo para debelação da população de fungos também. Th17 está principalmente nas mucosas; produz citocinas (principalmente interleucina 17) que são fatores quimiotáticos para neutrófilos irem em direção aos vasos. Acarreta resposta FAVORÁVEL À INFLAMAÇÃO, contribuindo para diminuição da população fúngica. Th2 acarreta resposta DESFAVORÁVEL À INFLAMAÇÃO, havendo liberação de citocinas anti- inflamatórias, de forma que ocorre um processo alérgico que não contribui para a diminuição da população fúngica.Produz IL-4, recrutando eosinófilos na inflamação. *promovem ou retroalimentam o processo de inflamação. Treg diminui a ativação de Th1 e Th17, modulando o processo inflamatório. É importante para reduzi- lo mais tardiamente, porém pode ser ativado por fungos para que a resposta inflamatória não ocorra ou seja defasada. Citocinas podem ser pró-inflamatórias ou anti-inflamatórias, dependendo do fungo (PAMP reconhecido), do receptor ativado, da célula produtora, etc. As interleucina 4 e interleucina 5 estão relacionadas a alergias por fungos (conídeos). As citocinas também estimulam a diferenciação de linfócitos T em células efetoras. Células dendríticas reconhecem DAMPS e PAMPS pelos receptores toll like, que as ativam. Fagocitam Ag e o apresentam.FUNGOS mais patogênicos conseguem fugir da fagocitose. As células dendríticas podem fagocitar conídeos (Th1) e artroconídeos (Th2). OBS: os fungos têm mecanismo de modulação de Treg, inibindo inflamação antes do tempo. DAMPS (moléculas próprias do organismo humano associadas a lesões). Imunidade inata: inespecificidade relativa - discrimina tipos de infecção (viral, bacteriana, fúngica, verminosa). Igs participam da resposta inflamatória contra infecções fúngicas, porém sua ativação é reduzida. Neutrófilos são recrutados por citocinas liberadas por Th17, e são agentes muito importantes no processo porque podem degranular (liberar enzimas), fagocitar conídeos e formar NETs, que são redes formadas pela liberação do seu genoma e de moléculas microbicidas, de forma a auxiliar a captação dos fungos pelas hifas e sua eliminação. Essas redes acabam ajudando a conter infecção e inflamação. Tipos de receptores Os receptores de lectina do tipo C e receptores toll-like são muito importantes nas infecções fúngicas, pois por meio deles ocorre o reconhecimento de moléculas (muitas delas PAMPS) que leva à formação do inflamassomo, um complexo de proteínas que estimula caspases a clivarem a pro-leucina em interleucinas 1B e 18. O mesmo fungo pode ser reconhecido por vários receptores. Doença granulomatosa crônica É hereditária, e configura-se pela ativação de neutrófilos que não produzem peróxido, de forma que estes não degradam o material fagocitado. Patogenia dos fungos Decorre de: Fatores do patógeno: fatores de virulência, tipos de respostas que induz; Fatores do hospedeiro: status imune, sexo, raça, comportamento; Fatores ambientais: hábitat do hospedeiro. Fatores do patógeno Componentes da parede celular: são PAMP's. Beta glucanos - são altamente imunogênicos, aumentam a quantidade de células NK e têm grande importância na medicina terapêutica e também na produção de vacinas. Quando o fungo muda sua forma para levedura (dimorfismo), o alfa glucano é mais expresso do que o beta glucano, mascarando- o por ser menos imunogênico. Mananas - são cadeias de muitas centenas de moléculas de manose ligadas a proteínas fúngicas. Quitina - pequenos e médios fragmentos dessa substância são reconhecidos pelo SI por meio dos PRR (Pathern Recognition Receptors) de células dendríticas, macrófagos,etc.Grandes fragmentos, no entanto, não são reconhecidos - não são imunogênicos - de forma que a intensa produção de quitina é um mecanismo de evasão do SI. OBS: Candida albicans aumenta produção de quitina após ser exposta a antifúngicos. Termotolerância: quanto mais tolerante, mais ubíquo e mais patogênico um fungo é. Ele é capaz de se reproduzir a 37º, apesar de essa não ser a chamada temperatura ótima. A termotolerância é induzida pelo dimorfismo, pois em forma de levedura a faixa de temperatura tolerável aumenta. Dimorfismo: pode ser induzido por muitos fatores (temperatura, ph, antibioticoterapia...).O fungo passa da forma filamentosa para a de levedura.Além disso, ocorre troca de moléculas de superfície e adesão.Ele confere termotolerância e evasão pela produção de alfa glucano. Dimorfismo invertido: fungos cuja forma saprofítica é leveduriforme se tornam filamentosos. A Candida albicans, dentre outras, realizam dimorfismo invertido. Ocorre na seguinte ordem: Cápsula: presente acima da parede celular, aumenta quando fungo entra no organismo para elevar sua proteção. Os polissacarídeos importantes são GXM e GaIXM. A cápsula repele de maneira eletrostática os fagócitos por causa de sua carga negativa (propriedade antifagocítica). O fungo pode liberar fragmentos da cápsula, e esses ativam a via alternativa do complemento, "confundindo" SI, além de inibirem L-selectina, fundamental para rolamento dos neutrófilos. Esses fragmentos induzem a produção de Fas e Fas-ligante nas APCs e no linfócitos, moléculas importantes para apoptose, de forma que ativama morte celular.Em pacientes com criptococose ocorre a inibição da migração de polimorfonucleares, pela inibição de L-selectina. Melanina: pode se depositar na parede e na cápsula do fungo, protegendo-o contra antifúngicos. No ambiente, a melanina também protege contra calor, radiação e enzimas hidrolíticas. Ela se liga aos reativos do O2, impedindo que o fagócito destrua o fungo (resistência à fagocitose) e também inibe a produção de TNF-alfa, importante para ativação de macrófagos. Quando o fungo se encontra envolvido por melanina, as Igs humanas são indispensáveis por impedirem a absorção de nutrientes pelo patógeno. Interações com receptores hormonais e hormônios 17 beta estradiol: é feminino. Ações: Impede dimorfismo de conídios para leveduras. Estimula dimorfismo invertido em Candida albicans pela formação do tubo germinativo. Estimula produção de Th1, constatada nas infecções por P. brasiliensis. Produção de enzimas e toxinas fúngicas Fungos são capazes de produzir e liberar proteínas para o meio. Ex: queratinases, elastases, sulfitase, lipase. Micotoxinas Substâncias tóxicas produzidas por fungos. Podem ser Exógenas - causam micotoxicose: toxina produzida e liberada no meio externo, posteriormente ingerida. Endógenas - causam micetismo: toxina produzida e liberada no meio interno, o fungo é ingerido, causando então patogenia. Toxicidade Toxicidade aguda: resulta em danos aos rins e ao fígado. Toxicidade crônica: pode ser mutagênica ou teratogênica. OBS: micotoxicose - toxinas fúngicas liberadas por fungos psicotrópicos em alimentos podem levar a problemas de saúde coletiva. 21.05.2013 Dematofitoses Prof. Alba Regina de Magalhães As micoses podem ser: Superficiais: algumas são inerentes aos fatores do hospedeiro e outras são contagiosas; Cutâneas: adquiridas por contato, são contagiosas; Subcutâneas: adquiridas por lesão; Sistêmicas ou pulmonares: adquiridas por inalação; não contagiosas. As dermatofitoses são as micoses cutâneas, causadas por fungos dematófitos, organismos adaptados à invasão da camada queratinizada da pele, pêlo* e unha**, por utilizarem essa substância como fonte de nutrientes. *principalmente em crianças, quase nunca em adultos. **principalmente em adultos, quase nunca em crianças. São três os gêneros principais: 1. Microsporum; 2. Trichophyton; 3. Epidermophyton. Os dematófitos existem em locais específicos, que serão citados a seguir. As dermatofitoses não são, frequentemente, letais, salvas as devidas exceções (causadas geralmente pelo gênero Trichophyton). Habitat dos dermatófitos • Espécies geofílicas: encontrados no solo em fase saprófita; vivem nos restos de queratina encontrados (cabelo, escamas de pele, fragmentos de unhas, etc.). Podem passar para humanos pelo contato contínuo com terra, serviços de limpeza, etc. Ex: Microsporum gypseum. • Espécies zoofílicas: encontrados em animais, principalmente nos gatos, contaminando famílias inteiras por vezes sem quaisquer sintomas (que é o caso do Microsporum canis em gatos). Por isso, é altamente disseminada entre crianças. Ex:Microsporum canis, Trichophyton mentagrophytes var. mentagrophytes • Espécies antropofílicas: encontrados em humanos. Ex: Trichophyton rubrum***, Trichophyton tonsurans, Epidermophyton flocosum, Trichophyton schoenienii. ***Sobrevive ativamente por seis meses em, por exemplo, um sofá contaminado. Crianças são comumente infectadas por Trichophyton tonsurans, Microsporum canis, Microsporum gyspseum. Trichophyton schoenienii: cabelo não cresce após contaminação no couro cabeludo. Epidermophyton flocosum: principal agente de dermatofitose crural. Os habitats indicam a afinidade dos fungos, de forma que existe uma preferência de condições. Ainda assim, um fungo geofílico pode infectar um ser humano; observe, no entanto, que um fungo antropofílico ou zoofílico sobrevive pouco tempo, por exemplo, no solo. Contágio Pode ser por contato direto - por meio de seres humanos, animais e solo contaminados - ou indireto - por fômites. ManifestaçõesTinea: capitis, corporis, cruris, pedis, unquium, manuum, barbae, favosa. OBS: Favosa - lesão causa cicatriz. Tinea = dermatofitose. Manifestações e gêneros Tinea capitis ocorre apenas em cabeças de crianças e de alguns idosos. Tinea capitis favosa é dermatofitose no couro cabeludo que causa cicatriz; causada por Trychophyton schoenienii, ocorre de dentro pra fora, destrói o bulbo do pêlo formando uma massa. Tinea capitis ectothrix é causada principalmente pelo Trichophyton tonsurans, e ocorre de fora para dentro no pêlo. Tinea inflamatória do couro cabeludo é causada por Trichophyton tonsurans ou Microsporum canis.A lesão é purulenta. Tinea unguium: fungo lesa a unha em direção à cutícula. Tinea cruris é comumente causada por Epidermophyton flocosum, principalmente na região inguinal. Gêneros e manifestações Microsporum gypseum não acomete unhas, mas pele e pêlo. Trichophyton rubrum não acomete cabelo, mas pele e unhas. O resto de seu gênero atinge os três. Epidermophyton flocosum não acomete cabelo, mas pele e raramente as unhas. OBS: não se utiliza formol para biópsia de fungos, pois este morre; pode-se usar salina para conservar. Área a ser raspada para biópsia é a borda da lesão. Serão pedidas: capitis, corporis, pedis, unquium. Ptiríase rósea é confundida com dermatofitose. Há três tipos de ptiríase: a)Pitiríase alba: são manchas brancas e ásperas com descamação fina, de causa desconhecida, que afetam pessoas alérgicas, e evoluem para manchas hipocrômicas, ou seja, com pouca ou nenhuma pigmentação, na face, braços e tronco. Em geral, estão relacionadas com o ressecamento da pele. b) Pitiríase versicolor: manchas amarelas e acastanhadas que parecem brancas por causa do contraste que estabelecem com a pele da face, tronco, pescoço e braços escurecida pelo sol. É uma doença não contagiosa, que piora sob a ação do sol, causada pelo Malassezia furfur. Esse fungo habita normalmente a pele dos seres humanos e é responsável pela alta taxa de recorrência da infecção . c)Pitiríase rósea de Gilbert: de causa desconhecida, caracteriza-se por erupção aguda. Inicialmente, aparece uma placa única (chamada precursora ou mestra, ou mãe), autolimitada, ao redor da qual surgem placas menores, que se distribuem principalmente pelo tronco, braços e coxas. Adolescentes e adultos jovens de pele morena são mais suscetíveis a essa doença. Sintomas: a erupção das manchas é geralmente assintomática, mas pode causar leve prurido. Só em poucos casos, a coceira é intensa. Existe uma forma mais rara da pitiríase rósea que pode evoluir para lesões inflamatórias. Coleta de material: Lesão seca e descamativa - raspado cutâneo; Lesão exsudativa - raspado e/ou swab; Lesão vesicular - colher o teto das vesículas e bolhas; Lesão cutânea - raspado e pêlos tonsurados. Exame direto É feito pela observação direta do espécime ao microscópio. Na dematofitose, todas as hifas são septadas. Isso possibilita um melhor uso do exame direto pela visualização de artroconídeos. Cultura, meios, etc. - vistos anteriormente, aula 1. Macroscopia e microscopia de culturas Microsporum canis - botão central, crescimento filamentoso, reverso mostra cor amarelada.Ao M.O., mais de seis septações, macroconídios em naveta, fusiforme ou canoa, apresentando parede espessa e rugosa, hifas septadas hialinas. Microsporum gypseum - cor de açúcar com canela. Ao M.O., hifas septadas hialinas, cerca de cinco septações. Epidermophyton flocosum - cultura muito superficial. Ao M.O., hifas hialinas septadas, conídio grande dividido em número qualquer. Esse conídio é mais estreito na base e mais redondo no ápice. Tratamento Principais medicamentos: cetoconazol (mais caro), itraconazol(oral e tópico, é um tratamento demorado e também caro - o mais usado atualmente), griseofulvina (principal, mais utilizado antigamente). Micoses superficiais Ceratofitoses são as micoses superficiais: invadem apenas a camada córnea da pele ou a haste livre dos pêlos. As principais são as seguintes: Ptiriase versicolor - Malassezia spp. (leveduras lipofílicas, sapróbias da pele - a mais importante); Tinea niegra - Hortae werneckii; Piedra preta - Piedraia hortae; Piedra branca - Trichosporon spp. Ptiriase versicolor Chamada também de micose de praia, é superficial de evolução crônica e recidivante, causada por Malassezia spp.Ocorrem manchas na parte superior do tronco, peito e costas, bem como na face e antebraço. Geralmente não acomete os membros inferiores. É um sapróbio, encontrado no couro cabeludo de muitos dos seres humanos, que pode desenvolver patogenia. Lesão pode ser branca, castanha ou rosada (hipocrômica ou hipercrômica). Quando se passa uma lâmina, a lesão descama, esfarelando. No entanto, quando o paciente tem pele muito oleosa, a lesão se dá em forma de escama graxenta. OBS: indivíduo vai à praia, mas a lesão não é queimada pelo sol porque o agente forma um tipo de filtro e produz substâncias que interferem a produção de melanina. Patogenia: levedura lipofílica que vive saprofiticamente. Fatores que facilitam a filamentação tornando-a patogênica: oleosidade e sudorese excessiva da pele, substâncias lubrificantes, predisposição genética, estados carenciais... Tratamento: hiposulfito de sódio Sinais: craquelado na pele ao esticá-la. Ao M.O.: hifas ou filamentos septados, blastoconídios agrupados. Aspecto de macarrão com almôndegas. Cultura: geralmente não se faz; quando é feita, utiliza-se azeite. Tinea negra Causada por um fungo chamado Hortae werneckii, demácio, sapróbito do solo e de vegetais. Acomete pele das mãos e dos pés principalmente, atingindo mais pele grossa. Lesões: acastanhadas ou negras, discretamente descamativas, localizadas principalmente nas regiões palmares e plantares. Ao M.O.: hifas septadas escuras (acastanhadas) e ramificadas; vê-se conídios bicelulares (didimoconídios). Hortae werneckii tem crescimento lento, inicialmente como levedura e posteriormente como filamentoso. Piedra preta ou negra Micose pouco frequente, caracterizada por tornar o cabelo mais áspero, espesso e com fios dobrados. Ao M.O.: nódulos negros firmes e aderentes; lojas ascígeras (zonas mais claras), ascos contendo dois a oito ascosporos. Cultura: enegrecida, com um "chapéu" no meio da cultura. Piedra branca Comumente confundida com piolho, é causada principalmente por Trichosporon spp. Acomete cabelo e pêlo, principalmente genitais. As principais espécies causadoras são: Trichosporon ovoides - couro cabeludo: relaciona-se ao hábito de prender o cabelo úmido Trichosporon inkin - região genital: relaciona-se ao contágio pela atividade sexual. OBS: Trichosporon beigelii não existe - confusão no meio científico. T.asahii - causa piedra branca em uma patogenia altamente mortal, com maior capacidade de se filamentar. Pode causar tricosporonose. "A Tricosporonose é uma infecção fúngica superficial do pêlo conhecida como “Piedra branca”, causada pelo gênero Trichosporon. Este patógeno pode causar infecções cutâneas, profundas e disseminadas atingindo principalmente em pacientes imunocomprometidos." Ao M.O.: hifas septadas hialinas com artroconídios e blastoconídios. Cultura: leveduriforme. Pseudomicoses Lesões causadas por bactérias que, clinicamente, são confundidas com fungos. Tricomicose axilar - causada por Corynebacterium tenuis, que é habitante da pele humana. Ocorre a formação de nódulos branco-amarelados, porém variam de cor: se estiverem em conjunto com Micrococcus castellani, a cor das lesões se torna vermelho e com M.nigrensis, a cor escurece.Sua cultura não é necessária. Eritrasma - conhecido como frieira, é causada por Corynebacterium minutissimum. Pode ocorrer formação de um macerado nas dobras de pacientes acima do peso. Produz lesões avermelhadas/ acastanhadas, que variam de papulosas à ressecadas, com aspecto que pode ser apergaminhado. Atinge pessoas com intensa sudorese ou macerado nas dobras da pele. Ao M.O.: bactéria gram positivo com filamentos muito pequenos; elementos coco-bacilares. Luz de Wood confirma diagnóstico. OBS: Tricomicose palmelina, piedra branca e tinea ectothrix: colônias parecidas.