Prévia do material em texto
Sondagem do tipo SPT – Considerações para a execução de estacas tipo hélice contínua Mirella Talitha Rocha Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia, Brasil, mirellarocha@yahoo.com.br RESUMO: Dentre os métodos de reconhecimento das propriedades e classificação dos distintos tipos de solo, o mais popular no Brasil, é a sondagem a percussão do tipo SPT, por ser uma ferramenta de investigação rotineira e econômica. Esse ensaio visa reconhecer o nível da água do lençol freático, permite a coleta de amostras do terreno, a diversas profundidades, possibilitando o conhecimento da estratigrafia do solo e a sua resistência. No presente trabalho foram escolhidas dez obras através de um banco de dados fornecido por uma empresa goiana de sondagens a percussão. Consiste em ensaios com quantidade de furos variados, localizados em diferentes lugares no estado de Goiás, com o objetivo de aplicar os métodos estatísticos para cálculo do coeficiente de variação e desvio padrão, entre os resultados encontrados no laudo de sondagem como: nível d’ água, limite de sondagem, cota do furo, e Nspt. Os cálculos estatísticos foram realizados em planilhas eletrônicas com o auxílio dos laudos de sondagens correspondentes as obras em estudo. Ainda foi possível prever para essas obras o coeficiente de variação da capacidade de carga da estaca hélice contínua, sendo esta determinada a partir do método Décourt e Quaresma. Os dados obtidos após os cálculos foram analisados comparativamente com a teoria. Os resultados encontrados mostram que esse ensaio por ser semi-empírico apresenta divergências em relação ao prescrito pela norma brasileira. Logo, esse tipo de ensaio sofre influência de diversos fatores, como: descuido com os equipamentos, mudanças dos procedimentos preconizados pela norma e variedade das condições do solo. Verificou-se, de modo geral, as análises estudadas para a região do estado de Goiás, não variaram de forma evidente. PALAVRAS-CHAVE: Ensaio de sondagem, SPT, Cálculos estatísticos, Estaca hélice contínua. 1 INTRODUÇÃO A realização de projetos geotécnicos depende de informações adequadas sobre o solo. É necessário fazer análises em campo, para identificação das propriedades e classificação dos distintos tipos de solo discriminados por camadas. Então, para o desenvolvimento de projetos de fundações é preciso executar ensaios "in situ”, utilizando métodos de investigação de campo e sondagem, para obter as características de cada tipo de solo ou realizar em laboratório análises a partir de amostras deformadas e indeformadas. (QUARESMA et. al., 1998). Neste tipo de investigação de campo, destaca o ensaio SPT (Standard Penetration Test) que norteia a maioria dos projetos de fundação. Este ensaio tem como vantagem a simplicidade do equipamento, o baixo custo e a obtenção de informações para serem aplicadas no projeto geotécnico. Com ensaios de sondagem executados por empresas legalmente registradas pelo CREA (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia), os projetos poderão ser executados apesar dos métodos empíricos e semiempirícos divergirem e a resistência do solo variar muito em um terreno. Pela execução desse ensaio é possível a realização da avaliação da capacidade de suporte das camadas do subsolo sobre o qual se apoiará a estrutura de uma obra, a obtenção de informações sobre as características do terreno pelo projetista de fundações, como a profundidade equivalente de cada tipo de solo, a profundidade do lençol freático e através da análise do solo, o projetista deverá escolher o tipo de fundação ideal para a obra. Porém, os procedimentos de execução do ensaio normatizado pela NBR 6484 (ABNT, 2001), “Sondagem de Simples Reconhecimento com SPT – Método de ensaio” podem divergir na prática devido às variações nas técnicas empregadas durante a execução, nas geometrias dos equipamentos utilizados e entre outros. (CAVALGANTE et.al., 2006). Executando este ensaio com padronização, aumenta-se a precisão dos resultados, obtendo assim uma considerável confiabilidade em relação ao índice de resistência. 1.1 Objetivos Esta pesquisa tem como objetivo analisar e organizar os dados de sondagens a percussão disponíveis para Goiás em 2012, verificando a sua importância para a escolha de fundações profundas do tipo hélice contínua nos terrenos, pois esta oferece uma solução rápida e prática para aplicação de estacas profundas e vem sendo bastante utilizada na região. 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Esta revisão conterá o seguinte tópico: problemas relacionados aos fatores intervenientes do ensaio. 2.1 Fatores que influenciam na realização do ensaio SPT Em vista da variabilidade dos terrenos, tem-se a dificuldade em padronizar o ensaio in situ, por existir uma grande variação na geometria e nas técnicas de execução. Então, os fatores intervenientes no número de golpes SPT segundo Berberian (2005) são: picos de sondagens causadas por pedregulhos e matacões; faca do amostrador padrão cega ou quebrada; sistema de soltura do martelo pode haver redução na energia de cravação e consequentemente aumentar o índice de resistência à penetração (Nspt); Número de golpes/minuto (frequência); Diferenças do nível d’ água fora e dentro do furo; Diâmetro do furo; Poropressão gerada pela presença do nível d’ água em solos finos,etc. Em relação às propriedades dos solos que afetam a resistência a penetração, Schnaid (2000) apresenta que em areias puras e siltes grossos de baixa compacidade e saturados o efeito dinâmico de cravação tende a causar localmente e próximo da ponta do amostrador o fenômeno, da liquefação, resultando em um índice baixo, cujo efeito é impossivel de quantificar. E já em argilas muito sensíveis o efeito de amolgamento causado pela própria penetração do amostrador tende a diminuir o Nspt. Por outro lado, grandes resistências poderão ser apresentadas no caso do amostrador ser bloqueado por um pedregulho ou quando um pedregulho penetra na faca do amostrador, obstruindo-a. Para os solos colapsíveis como exemplo, característico da cidade de Brasíla, o emprego de lavagem na operação de perfuração diminui sensivelmente o Nspt, podendo alcançar reduções até 50%. 3 MATERIAIS E MÉTODOS Nesta pesquisa foram analisados alguns critérios determinados na norma NBR 6484 (ABNT, 2001), como limite de sondagem; nível d'agua, cota do furo e índice de resistência à penetração (Nspt) a 10 metros de profundidade, através de relatórios de sondagens realizadas em 2012. Então, foram selecionadas dez obras da região de Goiás para a realização das análises. Consiste em sete obras localizadas na cidade de Goiânia, uma em Rio Verde, uma na região de Aparecida de Goiânia e a outra em Brasília. Essas obras foram selecionadas por apresentarem seis furos ou mais em estudo, com a finalidade de oferecer melhores bases para as relações estatísticas. Foram realizados cálculos estatísticos, para obter os valores do desvio padrão e do coeficiente de variação relacionados com a cota do furo, limite da sondagem, nível d'agua, nível d’ água normalizado correspondente ao nível d’ água em relação ao ponto de referência da planta de locação, o Nspt e a capacidade de carga admissível pela estaca hélice contínua (a 10 m de profundidade). A capacidade de carga da estaca hélicecontínua foi calculada através do método Décourt e Quaresma (1982) por ser amplamente utilizado nos escritórios de fundações e fornecer os valores de capacidade de carga através dos dados dos laudos de sondagens para aquisição dos valores Nspt. Portanto, os cálculos dos valores estatísticos e da capacidade de carga das estacas foram desenvolvidos em planilhas do Excel. As análises estatísticas foram concretizadas, pois geralmente o engenheiro projetista utiliza apenas a média dos furos ou o valor mais baixo e isso pode ressultar em fundações superdimensionadas. Após as análises serão discutidas a importância e influência das sondagens nos projetos de fundações. 4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISES DOS RESULTADOS Através dos cálculos de desvio padrão realizados foi possível obter o coeficiente de variação dado em porcentagem, dos ensaios em estudo que tem como resultado a variação dos dados obtidos em relação à média. No entanto, a Tabela 1 destaca os dados do ensaio realizado no bairro Jardins do Cerrado em Goiânia, sendo este composto por nove furos de sondagem utilizados para os cálculos de coeficientes de variação e em seguida são apresentadas as análises referentes a esta obra. Os resultados obtidos para o coeficiente de variação relacionados com a cota do furo, limite da sondagem, nível d'agua, nível d’ água normalizado e para Nspt a 10 m de profundidade para esta obra, estão apresentados na Tabela 2. Com esses resultados obtidos será verificada a dispersão estatística dos valores em relação à média, nas análises dos resultados do ensaio de sondagem. Tabela 1. Dados do ensaio a 10 m de profundidade. Furo Nspt Tipo de solo e consistência Cota do furo (m) Limite de sondagem (m) Nível d’ agua (m) 01 51/21 Silte arenoso (muito compacto) 0,36 17,06 -6,70 02 7 Silte arenoso (pouco compacto) 0,65 17,10 -6,77 03 17 Silte arenoso (mediana mente compacto) 0,93 16,03 -6,30 04 12 Silte muito arenoso (compacto) 1,33 18,27 -6,80 05 35 Silte arenoso (compacto) 1,70 12,21 -7,00 06 27/12 Silte arenoso (muito compacto) 1,67 12,26 -7,00 07 33 Silte arenoso (compacto) 0,85 17,27 -6,90 08 14 Silte arenoso (mediana- mente compacto) -1,56 -1,56 -7,30 09 41 Argila silto arenosa (dura) -3,19 -3,19 -8,40 Tabela 2. Resultados do desvio padrão e coeficiente de variação para obra Jardins do Cerrado. Valores Cota do furo Limite de sondagem Nível d’ água Nível d’ normalizado Nspt Desvio padrão Coef. variação 1,63 2,70 0,58 2,14 23,93 537% 16% 8% 32% 72% 4.1 Cotas do furo O coeficiente de variação encontrado em relação à posição das cotas de furos da obra em estudo foi igual a 537%. Pois, conforme o gráfico mostrado na Figura 1, a curva da cota do furo tem uma grande variação do ponto 7 para o 8 e 9, já que para o furo 7 a cota do furo é de 0,85 m acima do ponto de referência, e nos pontos 8 e 9, são respectivamente: -1,56 m e -3,19 m, localizados abaixo do referencial determinado na planta de locação dos respectivos furos. Após observar a curva indicando a profundidade do furo, é possível verificar que o terreno é muito íngreme e irregular o que gera essa grande diferença na posição do furo nesta obra. Como essa diferença dos níveis dos furos é grande e pode ocorrer em várias obras, deve se verificar no local se o terreno será modificado no decorrer da obra, já que pode ser necessária a realização do serviço de corte e aterro. Então é realmente interessante analisar se esse serviço de corte e aterro pode ser feito antes da execução do ensaio de sondagem, para não ocorrer essa grande discrepância nos valores. Figura 1. Comparativo entre os valores das cotas dos furos, nível d’água e nível d’ normalizado do ensaio Jardins do Cerrado. Entretanto, é necessário verificar a real necessidade de deixar parte do solo – o corte para ser analisado, já que com o passar de alguns dias do início da execução da obra, este solo deverá ser retirado do local. Embora os pontos ensaiados sejam descartados, caso vir ocorrer essa situação. Resultando em gastos desnecessários para a execução do ensaio em profundidades que serão desconsideradas ao escavar o terreno. Os valores obtidos dos coeficientes de variação para as outras nove obras em estudo estão mostrados na Tabela 3. Tabela 3. Resultados do coeficiente de variação para outras nove obras . Obra a Cota do furo Limite de sondagem Nível d’ agua Nível d' àgua normalizado Nspt 01 22% 13% 34% 19% 67% 02 39% 7% 6% 8% 30% 03 39% 8% 16% 40% 33% 04 12% 1% 4% 15% 17% 05 26% 3% 3% 4% 33% 06 40% 9% 49% 57% 22% 07 32% 10% 2% 21% 18% 08 44% 19% 12% 16% 43% 09 112% 8% 4% 13% 26% Obra a (localização):01- Vila Abajá, 02-Setor Campinas, 03-Setor Marista, 06- Parque Amazônia, 08- Eldorado, 09-Chácara Retiro são em Goiânia; 04 – Vila Modelo em Rio verde; 05 – Asa Norte em Brasília; 07 – Chácaras Bela Vista em Aparecida de Goiânia. 4.2 Limite de sondagem O limite de sondagem foi analisado para verificar se está de acordo com o preconizado nos itens 6.4.1 e 6.3.12 da NBR 6484 (ABNT, 2001). Um fato que chamou muita atenção durante as análises dos ensaios em relação ao preconizado na norma, é que o limite de sondagem não está de acordo com o especificado nesta, apesar dos coeficientes de variação terem resultado em valores próximos de 10% para as dez obras. Ao averiguar os nove furos da obra Jardins do Cerrado, percebe-se que somente dois furos estão de acordo com a norma, constatando que para a norma ser atendida, o primeiro critério de paralisação por circulação de água determina que seja necessário um total de 30 ou mais golpes, para a penetração dos 15 cm iniciais do amostrador-padrão para amostragem de 3 metros. Logo, se essa situação ocorrer deve se paralisar o ensaio. Em relação aos doze furos da obra no Setor Campinas, observa-se que apenas três furos estão conforme a norma, constatando que ocorreu o mesmo que na obra analisada anteriormente, mesmo o coeficiente de variação sendo igual a 7% representa se uma profundidade de paralisação com valores próximos neste ensaio. Provavelmente, para a realização deste ensaio o sondador já conhecia o tipo de solo do local, e antes do início do ensaio determinou em qual profundidade seria a parada para não ter que continuar a execução do SPT em profundidades maiores. Entretanto, se isso estiver ocorrendo de fato necessita verificar se a norma não precisa ser analisada, e alterar os critérios de paralisação para a variação de solo existente na região. Conforme Quresma et. al. (1998), a profundidade a ser atingida depende do porte da obra a ser edificada e consequentemente das cargas que serão transmitidas ao terreno. Tem- se a norma brasileira NBR 6484 (ABNT, 2001), que fornece critérios mínimos para orientar a profundidade das sondagens. Porém, a resistência dos solos, o tipo de obrae as características do projeto podem exigir sondagens mais profundas ou critérios mais rígidos de paralisação. Para que se não perfure a mais ou a menos do que o necessário, é recomendável o acompanhamento do trabalho pelo profissional responsável pelo projeto de fundações. 4.3 Nível d’ água Na sequência, foi analisado os dados referentes ao nível d’ água, percebe-se que os valores estão homogêneos referentes à obra do Jardins do Cerrado, devido o valor do coeficiente de variação ser de 8%. Na Figura 1 os dados estão demonstrando que para profundidades da cota do furo abaixo do nível de referência, os valores para a profundidade do nível d’ água são de 7,30 m e 8, 40 m, afirmando que o lençol está mais distante da superfície. Através das informações do laudo de sondagem, nota-se que este ensaio foi realizado nos dias 17/07/2012 e 18/07/2012, em Goiânia, em um período que não ocorre chuvas, correspondente a estação seca. Por isso, o lençol freático neste período tende a equilibrar, por ficar muitos dias sem chuva na região, mesmo o terreno sendo bastante irregular. E para as outras nove obras pode-se comparar também o nível d’ água com a linha do nível d’ água normalizado, sendo este calculado conforme a Equação 1, para obter a profundidade em relação a cota de referência 0,0 m. |N.A|- CF (m) (1) Onde: |N.A|: nível d’ água, em módulo; CF: cota do furo ensaiado. Nota-se na Figura 1, quando menor for a cota do furo (nível abaixo de 0,0 m), maior será o valor da profundidade de água, por se encontrar em uma profundidade maior. E o coeficiente de variação do nível d’ água normalizado, aumentou de 8% para 32% acontecendo o mesmo nos outros ensaios, surgindo a incógnita se o nível d’ água está sendo medido de forma correta pelo sondador e se os equipamentos estão bem calibrados, já que o coeficiente aumentou para 90% dos ensaios nesta situação com exceção da obra na Vila Abajá, devido nesta o lencol freático está próximo da superficie do terreno, variando de 0,70 a 2,44 m. Por isso, é importante conferir o nível d’ água normalizado para confirmar se a leitura do nível d’ água dos furos foi realizada corretamente e condiz com o naturalmente esperado. Como solução para variação deste coeficiente, pode estabelecer nas empresas que executam o ensaio SPT, a realização de ensaios simultâneos para a possível comparação dos dados coletados no local, e verificar se estão executando a lavagem após encontrar o nível d’ água, e não como pode vir ocorrer, ser feita desde o início do furo. É importante a criação de relações que facilitem para o crítico do laudo de sondagem a avaliação da consistência dos dados. Isto devido à disposição por parte da equipe de sondagem. Como por exemplo, tem-se em vista a relação entre o número de golpes para o 1º+2º segmento de 15 cm cada, como referência para o somatório de golpes para o 2º+3º segmento no laudo de sondagem, sendo este último dado como Nspt padronizado. Por isso, para o nível d’ água é interessante realizar-se mais de uma leitura e analisar o nível d’água normalizado para cada furo com a finalidade de facilitar a análise do relatório de sondagem. 4.4 Variação do Nspt A análise correlacionada aos níveis das cotas do furo pode ter influenciado em um coeficiente de variação elevado, igual a 72% para o Nspt da obra do Jardins do Cerrado, apesar dos furos estarem localizados em um mesmo segmento, próximos um do outro, o solo é predominante um silte arenoso, porém o somatório dos 30 cm finais para os nove furos da obra em estudo sofreu grande variação de acordo com a Tabela 1, fazendo com que surjam questionamentos em torno da seriedade da execução do ensaio. Essa sondagem parece padecer de displicência que pode vir desde: erro humano na marcação; falta de formação de profissionais com qualificação; e contagem errônea da quantidade de golpes para a cravação do amostrador-padrão. Verificando os outros resultados, é possível constatar que as obras localizadas em Goiânia e Brasília possuem um solo mais heterogêneo, pois os coeficientes de variação quanto ao Nspt destas obras ficaram em torno de 30% a 72%. Pois, nos ensaios da Vila Abajá e Eldorado foram obtidos coeficiente de variação correspondente a 67% e 43%, respectivamente. Observa-se na obra localizada em Rio Verde, o coeficiente de variação do Nspt a 10 m de profundidade corresponde a 17%, através dos indícios das análises do solo verifica-se que o solo em Goiânia é mais instável do que da cidade de Rio Verde. Porém, a quantidade de pontos considerados é limitada a um local para esta cidade, não sendo possível confirmar se o solo é mais homogêneo. Para não ocorrer situações constrangedoras em relação a norma NBR 6484 (ABNT, 2001), é necessário o acompanhamento de um profissional no decorrer do ensaio, com isso o contratante estará evitando prejuízos que podem acarretar em várias etapas da obra no futuro, como por exemplo, problemas de recalques na fundação; aparecimento de trincas na estrutura; ou até vir romper os elementos estruturais isolados da fundação. 4.5 Capacidade de carga Após a análise dos dados obtidos acima, foram realizados cálculos através do método Décourt e Quaresma (1982), referentes à capacidade de carga admissível da estaca para cada obra selecionada. Na Tabela 4 estão os dados correspondentes ao tipo de solo, Nspt máximo e mínimo e a capacidade de carga a 10 m de profundidade para as dez obras. Tabela 4. Dados das obras em estudo referentes a 10 m de profundidade. Localização Solo Nspt máx Nspt mín Cap. de carga (KN) Vila Abajá (Goiânia) Argila siltosa 50 9 197,63 Setor Campinas (Goiânia) Silte arenoso 18 6 144,66 Setor Marista (Goiânia) Silte arenoso 21 10 187,34 Vila Modelo (Rio Verde) Argila muito arenosa 16 10 169,02 Jardins do Cerrado (Goiânia) Silte arenoso 51/21 7 255,43 Asa Norte (Brasília) Argila arenosa 23 10 163,90 Parque Amazônia (Goiânia) Silte arenoso 24 13 243,57 Chácaras Bela Vista (Aparecida de Goiânia) Silte arenoso 22 12 189,08 Setor Eldorado (Goiânia) Argila arenosa/ Silte arenoso 21 4 143,77 Chácara Retiro (Goiânia) Silte arenoso 24 9 199,52 Os valores dos coeficientes de variação da capacidade de carga apresentados na Tabela 5, serão analisados e aplicados no pré-projeto. Verifica-se que os coeficientes de variação correspondentes à capacidade de carga são heterogêneos em relação a cada obra para a mesma região, pela dispersão dos dados em relação à média. Entretanto a obra localizada no Setor Eldorado, em Goiânia apresentou uma grande variabilidade no resultado, diferindo da média 43%. Por isso, seria interessante realizar a fundação com estaca hélice contínua nessas obras, com exceção da obra no bairro Eldorado. Devido à busca por custo-benefício e segurança nas construções, seria prático realizar as estacas por terem diâmetros análogos para cada obra, o que torna bastante interessante. Pois, realizar estacas de vários diâmetros em uma mesma obra ocasiona em custos excessivos sem necessidade, porque precisaria de várias máquinas com trados de diferentes diâmetros,acarretando no aumento do preço de locação destes equipamentos. Obtém se essa análise pelos resultados dos coeficientes de variação serem abaixo de 30% para a maioria das obras em estudo, com valores da capacidade de carga análogos para estacas localizadas em diferentes posições no terreno. No entanto, de acordo com o relatório de sondagem do Eldorado, seria necessário fazer uma nova análise do solo para ratificar as propriedades do solo, com o objetivo de obter valores mais homogêneos para a capacidade de carga das estacas desta obra, aumentando a otimização para elaboração de projetos geotécnicos. As estacas hélice contínuas são utilizadas como fundações profundas, geralmente quando é necessária elevada capacidade de carga. Logo, essas estacas são escolhidas devido às características do terreno, custos envolvidos e preocupação com a vizinhança por apresentar melhor procedimento executivo para solos com nível d’água próximo a superfície. Já em relação aos custos depende da profundidade e diâmetro que estas estacas serão executadas. De acordo com Milititsky e Schnaid (1996), ensaios de resistência à penetração realizados em um mesmo lugar, segundo recomendações de normas e da boa prática da engenharia, podem resultar em valores desiguais devido ao próprio tipo de solo e aos fatores seguintes: técnica de escavação e avanço do furo de sondagem; equipamento do ensaio; procedimento do ensaio. Tabela 5. Valores dos coeficientes de variação relacionados a capacidade de carga das 10 obras. Localização Coef. de variação (%) Vila Abajá (Goiânia) 18 Setor Campinas (Goiânia) 22 Setor Marista (Goiânia) 17 Vila Modelo (Rio Verde) 14 Jardins do Cerrado (Goiânia) 21 Asa Norte (Brasília) 24 Parque Amazônia (Goiânia) 13 Chácaras Bela Vista (Aparecida de Goiânia) 12 Setor Eldorado (Goiânia) 43 Chácara Retiro (Goiânia) 29 O grande benefício em realizar sondagem com um número significativo de furos ensaiados para cada obra é obter dados suficientes para a efetivação de análises estatísticas como realizada nesta pesquisa e a vantagem é verificar antes da decisão os valores discrepantes que podem vir ocasionar problemas no futuro, que não podem ser demonstrados apenas no laudo de sondagem. E quanto menor a quantidade de pontos maior a dúvida em relação ao projeto e maiores serão as chances de superdimensionamento. Por fim, é importante considerar a setorização dos resultados de sondagem no momento do projeto de fundação para evitar que seja utilizado a média ou o menor valor da capacidade de carga da estaca. 5 CONCLUSÕES Ressalta-se a grande importância do ensaio de sondagem a percussão com SPT, para a escolha adequada do tipo de fundação que será utilizado para qualquer tamanho de obra, com influência em requisitos de qualidade, custo e segurança. Observa-se que qualquer mudança estabelecida nas condições recomendadas pela norma brasileira - NBR 6484 (ABNT, 2001), por exemplo: o tipo de haste e martelo, o não uso de coxim de madeira, uso de cabo de aço em vez da corda de sisal, sistema mecanizado de acionamento do martelo, que altere o nível de energia incidente disponível para cravação do amostrador-padrão; amostrador quebrado; variação geométrica do martelo; a frequência do número de golpes (golpes/minutos); diferenças do nível d’água fora e dentro do furo; sobrecarga ao nível de amostragem; profundidade do ponto amostrado diferente do determinado, conforme Berberian (2005), todos esses fatores são intervenientes na determinação do número de golpes SPT. Verificou-se que os critérios de paralisação especificados, geralmente não são atendidos na prática, levando a ocasionar questionamentos e a veracidade do ensaio de Sondagem SPT, por ser empírico gera algumas dúvidas quanto ao modo de execução. Os dados referentes ao nível d’ água, por exemplo, é de suma importância para determinar qual tipo de fundação em determinado terreno será adequada. Já que o nível d’ água é um fator determinante, excluindo um número grande de fundações que não podem ser realizadas. Esta situação exige no mínimo o rebaixamento temporário do nível d’água local, podendo inclusive afetar a estabilidade da obra. Logo, aumenta-se a preocupação em executar um elemento estrutural na presença de água. O projetista deve ficar pré-disposto a escolher a pior situação para calcular o projeto, para trabalhar com mais segurança, porém baseando em dados duvidosos, caso o coeficiente de variação para a mesma obra variar muito. E ocasionará como produto uma fundação mais cara, devido às dúvidas sobre o terreno. Portanto, ao realizar as análises estatísticas as empresas podem processar um volume de dados com maiores informações a cerca do solo, melhorando significamente a qualidade dos serviços e otimizando as informações repassadas para os projetistas. Para isso, foi organizado um banco de dados que com outros já existentes poderá colaborar para o conhecimento e análise do solo goianiense, e gerar como produto novas recomendações para os ensaios. AGRADECIMENTOS A autora agradece ao professor Arlam Carneiro Silva Júnior, pelo tempo dedicado no crescimento desta pesquisa, e incentivo. À instituição de ensino Pontifícia Universidade Católica de Goiás, pelo apoio financeiro concedido durante a realização desta. E às empresas e profissionais que forneceram os relatórios de sondagem de simples reconhecimento – SPT, para as devidas análises. REFERÊNCIAS Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT. (2001) NBR 6484: Solo – Sondagens de simples reconhecimento com spt - métodos de ensaio. Rio de Janeiro, RJ, 17p. Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT. (1983) NBR 8036: Programação de sondagens de simples reconhecimento dos solos para fundações de edifícios. Rio de Janeiro, RJ, 03p. Berberian, Dickran. (2005) Sondagens e ensaios in sito para engenharia. 6ª Ed. Revisada. São Paulo: Infrasolo. Vol. 1. Cavalcante, Erinaldo Hilário; Danziger, F. A. B.; Danziger, Bernadete Ragoni. (2006) O SPT e alguns desvios da norma praticados no Brasil. In: XIII Congresso Brasileiro de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica, XIII COBRAMSEG, Curitiba. Anais do XIII Cobramseg. Vol. 2, p. 583- 588 Décourt, L.; Quaresma, A. R. (1982) Como calcular (rapidamente) a capacidade de carga limite de uma estaca. Construção, São Paulo, revista semanal, nº 1800, separata de 9 de agosto de 1982. Milititsky, J.; Schnaid, F. (1996) Avaliação crítica do uso do SPT em fundações. III Seminário de Engenharia de Fundações Especiais e Geotecnia. Vol 2, p. 169- 182. Quaresma, A.R.; Decourt, L.; Quaresma Filho, A.R.; Almeida, M.S.S.; Danziger, F. (1998) Investigações geotécnicas. In: Hachich, W.; Falconi, F.F.; Saes, J.L.; Frota, R.G.Q.; Carvalho, C.S.; Niyama, S. Fundações teoria e prática. Sao Paulo: Pini, p. 119-162. Schnaid, F. (2000). Ensaios de campo e suas aplicações na engenharia de fundações. Oficina de Textos. 189 p.