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metodo indutivo

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(hipótese) e deduzir conseqüências 
observacionais. Empiristas indutivistas, como Bacon ou Mill, em geral não negam a 
importância do método hipotético-dedutivo, pois é esta a maneira de justificar uma abdução. 
Mas também defendem que a indução enumerativa seja um procedimento de justificação (ao 
contrário de Popper). 
 
 
4. O Estágio Dedutivo em Aristóteles 
 
O estágio dedutivo parte dos princípios explicativos (generalizações), obtidas por meio 
da indução (enumerativa e abdutiva), e esses princípios servem como premissas para que se 
deduzam outras afirmações a respeito dos fatos. Esse processo de explicação dedutiva, 
segundo a lógica aristotélica, envolveria apenas quatro tipos de proposições, mostradas na 
Tabela IV.1. 
Um exemplo de dedução envolvendo apenas afirmações do tipo A (apelidado Barbara) 
é o seguinte silogismo (ou seja, argumento “com lógica”): 
 
 
Todos os planetas são corpos que não cintilam. Todo C é B 
Todos os corpos que não cintilam estão próximos da Terra. Todo B é A 
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– –––––––––– 
Todos os planetas são corpos que estão próximos da Terra. Todo C é A 
 
 
 
Tipo Proposição Notação moderna Diagrama de Venn 
 
A 
 
 Todos os S são P 
 
 ∀x (Sx → Px) 
 
E 
 
 Nenhum S é P 
 
 ∀x (Sx → ¬Px) 
 
I 
 
 Algum S é P 
 
 ∃x (Sx ∧ Px) 
 
O 
 
 Algum S não é P 
 
 ∃x (Sx ∧ ¬Px) 
 
Tabela IV.1: Quatro tipos de proposições. Os conectivos lógicos são: “→” implicação, 
 “¬” negação, “∧” conjunção, “∀” significa “para todo” e “∃” “existe ao menos um”. 
 
 
O sujeito da conclusão (C) é chamado “termo menor”, e o predicado da conclusão (A) é 
o “termo maior” (o que coincide com os tamanhos dos conjuntos desenhados na linha A da 
 
19 POPPER, KARL R. (1934), Logik der Forschung, Springer, Viena. The Logic of Scientific Discovery, 
Hutchinson, Londres, 1959. A Lógica da Pesquisa Científica, trad. L. Hegenberg & O.S. da Motta, 
Cultrix/Edusp, São Paulo, 1975. Tradução abreviada: “A Lógica da Investigação Científica”, trad. P.R. 
Mariconda, in Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1979, pp. 1-124. 
TCFC I (2010) Cap. IV– Método Científico em Aristóteles 
 
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Tabela IV.1). O termo que aparece apenas nas premissas (B) é o “termo médio”. Este é um 
silogismo válido, ou seja, se as premissas foram verdadeiras, a conclusão será necessariamente 
verdadeira. Porém, é possível que uma das premissas seja falsa. Neste caso, não há garantia de 
que a conclusão seja verdadeira e, segundo Aristóteles, a explicação não é satisfatória. 
O silogismo acima é válido, mas há algo de errado: estamos dizendo que todos os 
planetas estão próximos da Terra (a conclusão) porque não cintilam (o termo médio). Mas a 
não-cintiliação não é causa da proximidade, e sim o contrário. A cintilação é aquele 
fenômeno em que as estrelas que observamos ficam piscando intermitentemente. Hoje 
sabemos que sua origem são flutuações na atmosfera. A luz de um planeta não cintila 
significativamente porque ela é mais intensa do que a luz de uma estrela. Dadas essas 
evidências, é razoável supor (por abdução) que a causa da cintilação (ou uma das causas) está 
relacionada com a proximidade em relação à Terra. Ou seja, a causa (a explicação) da não-
cintilação é a proximidade com a Terra, e não o contrário, conforme sugerido pelo silogismo 
acima.20 
Aristóteles impôs cinco requisitos extra-lógicos para as premissas de uma explicação 
científica. 1) As premissas devem ser verdadeiras. 2) As premissas devem ser primárias e 
indemonstráveis, ou, pelo menos, deve haver alguns princípios da ciência que são 
indemonstráveis, para que se evite uma regressão ao infinito. 3) As premissas devem ser 
melhor conhecidas do que a conclusão, ou seja, algumas leis gerais da ciência devem ser 
evidentes, por meio da faculdade da “intuição”. Esta posição de que as leis científicas 
afirmam verdades acessíveis à intuição ou à razão, e que estas teriam um caráter necessário, 
teria uma longa influência na filosofia da ciência. 4) As premissas devem ser anteriores em 
um sentido absoluto ou ontológico (mas não num sentido epistemológico, ligado ao ser 
humano, pois para este o que é anterior é o que é observável pelos sentidos). 5) As premissas 
devem ser as causas da atribuição feita na conclusão. 
Ora, como já vimos, o silogismo acima viola o quarto requisito. Para que tenhamos 
uma explicação científica, a causa deve constar como termo médio das premissas (letra A 
abaixo), e o efeito como termo maior (letra B) (em sua notação, em 78b1, Aristóteles inverte 
essas letras): 
 
 
Todos os planetas são corpos que estão próximos da Terra. Todo C é A 
Todos os corpos que não estão próximos da Terra não cintilam. Todo A é B 
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– –––––––––– 
Todos os planetas são corpos que não cintilam. Todo C é B 
 
 
Aristóteles sugeriu que a ciência tem uma certa estrutura explicativa, baseada nos 
níveis de generalidade de suas proposições, que se concatenam dedutivamente. No nível mais 
alto acham-se os princípios de identidade, não contradição e terceiro excluído, aplicáveis a 
todos os argumentos dedutivos21. No nível seguinte se encontram os princípios e definições da 
ciência particular em questão. E mais abaixo, estão os outros enunciados da ciência em 
questão. 
 
20 ARISTÓTELES (2005), op. cit. (nota 16), Livro I, § 2, pp. 253-4 [71b8-72a5]; § 13, pp. 276-8 [78a22-78b31]. 
 
21 Em termos proposicionais (onde “∧” é a conjunção, “∨” a disjunção, e “↔” a bi-implicação), o princípio de 
identidade afirma que da verdade de P se segue a verdade de P: P ↔ P; o princípio de não contradição afirma 
que dados P e sua negação ¬P , no máximo um deles é verdadeiro: ¬(P ∧ ¬P); e o princípio do terceiro excluído 
afirma que dados P e ¬P , pelo menos um deles é verdadeiro: P ∨ ¬P. 
 
TCFC I (2010) Cap. IV– Método Científico em Aristóteles 
 
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Qualquer explicação, para Aristóteles, deve envolver os quatro aspectos da causação 
mencionados anteriormente, a saber, a causa formal, a causa material, a causa eficiente e a 
causa final. Destaca-se aqui sua insistência na causa final, o que equivale a uma explicação 
teleológica. A causa final do processo de camuflagem de um camaleão é escapar de seus 
predadores. A causa final do movimento do fogo é atingir seu “lugar natural”, que se encontra 
para cima de nós. 
Aristóteles criticava os atomistas por sua tentativa de explicar a mudança em termos 
apenas de causas materiais e eficientes. Ele criticava a ênfase dos pitagóricos com a 
matemática dizendo que eles teriam uma preocupação exclusiva com as causas formais.

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