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1 Centro Universitário de Patos de Minas Patos de Minas, agosto de 2011 2 Professores Agenor Gonzaga dos Santos Carlos Roberto da Silva Elizene Sebastiana de Oliveira Elisa Aparecida Ferreira Guedes Duarte Fátima Aparecida dos Santos Geovane Fernandes Caixeta Gisele Carvalho Araújo Caixeta Moacir Manoel Felisbino Centro Universitário de Patos de Minas 3 Caros alunos, A disciplina Linguagem e Comunicação consta da grade curricular do curso escolhido por vocês. Isso mereceria algumas justificativas acadêmicas, mas não queremos nos dirigir a vocês como “professores de português”. Dirigimo-nos a vocês como facilitadores no aprimoramento de suas habilidades lingüísticas. Linguagem e Comunicação está presente nos primeiros semestres de quase todos os cursos de graduação deste país – isso já mostra sua importância na formação profissional de qualquer estudante. Infelizmente, os anos anteriores de formação escolar não foram suficientes para o aprimoramento de tais habilidades. O acadêmico tem, na faculdade, uma das últimas oportunidades para desenvolver sua capacidade de expressão por meio da língua, seja na modalidade falada, seja na modalidade escrita. Se perdida essa oportunidade, ou mal aproveitada, poderá sofrer punições principalmente no mercado de trabalho, caso consiga ingressar-se nele. Sabemos que, no nosso dia-a-dia, não comunicamos por meio de palavras – elas existem apenas no dicionário. Comunicamos, sim, por meio de textos. Nossas relações pessoais ou profissionais realizam-se por meio de textos que (co)produzimos com nossos semelhantes. Tecemos idéias, tecemos compromissos. Sem o domínio eficiente da língua, sem o domínio da feitura de textos, não conseguiremos nos mover neste mundo marcadamente tecnológico. Marcadamente sem fronteiras. Marcadamente informativo. Mundo de exigências, então! Nosso papel no curso escolhido por vocês, caros alunos, é contribuir para que a formação de vocês esteja, também, respaldada pelas exigências deste mundo em que informações, que são textos circulantes, são extremamente necessárias para o desempenho profissional. Mesmo que, no futuro profissional, vocês não precisem escrever textos, não precisem ministrar palestras ou seminários, a desenvoltura lingüística poderá lhes garantir possibilidades de crescimento ininterrupto, já que irão (co)produzir textos menos formais em suas relações. Não há profissional isolado; há, sim, aquele que tece conhecimentos, que troca idéias, que comunica achados e os compartilha. E isso é o que nós chamamos de produção de textos. Produzir um texto falado ou escrito é uma atividade que se aprende, por ensaio e erro. Não é privilégio de poucos, mas direito de todos. O seu curso proporciona esse direito. Na nossa disciplina Linguagem e Comunicação, possibilitamos a vocês mecanismos de compreensão de textos, nos aspectos lingüístico, argumentativo e expressivo, para que desenvolvam suas habilidades de interação. Neste mundo sem limites para a troca de informações – vocês sabem o que a tecnologia pode fazer –, a partilha de textos, ou com amigos, ou com colegas de profissão, pode ser, também, o percurso para uma vida feliz e realizada. Sem textos, não há amigos, não há profissionais, não há homens. Esperamos – e acreditamos nisto – que a prática de textos seja um instrumento-chave na participação da vida social, profissional e intelectual. Oferecer, portanto, a vocês instrumentos para capacitá-los nessa empreitada é nosso dever! Os professores 4 Sumário CARTA AOS ALUNOS ...................................................................................... 3 NOSSO MAIOR DIREITO ...................................................................................... 6 PLANO DE ENSINO ......................................................................................... 7 01 LINGUAGEM E SOCIEDADE ............................................................... 10 1.1 Informação e conhecimento ................................................................... 10 1.1.1 Quem sabe .......................................................................................... 10 1.1.2 Onde mora a inteligência .......................................................................... 12 1.2 Linguagem, indivíduo e profissão ............................................................. 13 1.2.1 Língua e poder ..................................................................................... 13 1.3 Texto e sua circulação .......................................................................... 14 1.3.1 Intenções do produtor .......................................................................... 15 1.3.1.1 Textos e atividades .............................................................................. 16 1. 3.2 Diversidade textual.............................................................................. 17 1.3.2.1 Textos e atividades .............................................................................. 17 1.3.3 Polifonia e intertexto ........................................................................... 34 1.3.3.1 Textos e atividades .............................................................................. 34 02 TEXTO E SUA TEXTUALIDADE .......................................................... 39 2.1 Coerência textual ................................................................................ 39 2.1.1 Textos e atividades .............................................................................. 40 2.2 Coesão textual ................................................................................... 46 2.2.1 Textos e atividades .............................................................................. 49 2.3 Parágrafo, estrutura e articulação ............................................................. 55 2.3.1 Textos e atividades .............................................................................. 56 03 PROCESSOS DE COMPREENSÃO ........................................................ 64 3.1 Sentido literal e não-literal .................................................................... 64 3.1.1 Textos e atividades .............................................................................. 65 3.2 Atividade inferencial ............................................................................ 67 3.2.1 Informações implícitas .......................................................................... 67 3.2.1.1 Subentendidos e pressupostos ................................................................. 68 3.2.1.1.1 Textos e atividades .............................................................................. 69 3.3 Estrutura da argumentação .................................................................... 74 3.3.1 Recursos e falácias da argumentação ......................................................... 78 3.3.1.1 Textos e atividades .............................................................................. 79 5 04 PRÁTICA DE TEXTOS ....................................................................... 83 4.1 Dossiê Cotidiano e Atualidades .................................................................. 83 4.1.1 Artigo de opinião ................................................................................ 83 4.1.2 Textos e atividades .............................................................................. 83 4.1.3 Sugestão de atividade ........................................................................... 944.2 Dossiê Política e Economia ....................................................................... 95 4.2.1 Resumo ........................................................................................... 95 4.2.2 Textos e atividades .............................................................................. 96 4.2.3 Sugestão de atividade ........................................................................... 98 4.3 Dossiê Arte e Cultura ............................................................................. 100 4.3.1 Resenha ........................................................................................... 100 4.3.2 Textos e atividades .............................................................................. 101 4.3.3 Sugestão de atividade ........................................................................... 103 4.4 Dossiê Biodiversidade, Ecologia e Meio Ambiente ............................................... 107 4.4.1 Artigo científico ................................................................................. 107 4.4.2 Textos e atividades .............................................................................. 108 4.4.3 Sugestão de atividade ........................................................................... 128 4.5 Dossiê Tecnologia e Comportamento ............................................................. 128 4.5.1 Seminário ......................................................................................... 128 4.5.2 Organização de seminário ...................................................................... 129 4.5.3 Sugestão de seminários ......................................................................... 130 REFERÊNCIAS ................................................................................................ 6 Nosso maior direito Você já pensou na maravilha que é pensar? Poder pensar? Por que maravilha? Nem sei como explicar, mas ter consciência de que se está pensando é extraordinário; quantas vezes na vida você se deu conta de que estava pensando e na liberdade que se tem quando se pensa? Pensar nos leva de um deserto na Mongólia ao palácio de um rei, do sofrimento mais doloroso à mais escandalosa das felicidades, do ódio à paixão, da descrença à mais profunda fé, até da doença à saúde -e vale o vice-versa. Pensar: o maior privilégio que alguém pode ter. As guerras, as revoluções, as obras de arte, os filmes, os livros, tudo, absolutamente tudo, só existe porque um dia, em algum lugar, um homem pensou, e há quem afirme que a força do pensamento pode até fazer com que as coisas aconteçam. Todas não sei, mas algumas, com certeza. É divertido pensar; quando se pensa não há censura, nada é pecado, proibido ou contra a lei. Talvez seja, verdadeiramente, a única liberdade total que se tem. Muitas pessoas talvez nunca tenham prestado atenção em seus próprios pensamentos: pois deviam. Essa prática pode ser melhor do que muitos filmes e muita conversa fiada, mas difícil, para quem não está acostumado. Você sabia que há muita gente que passa a vida inteira sem se dar conta do privilégio que é poder pensar? Uma maravilha e também um perigo: basta que se fique "pensativa" para que alguém pergunte "o que você tem? Está pensando em quê?" Nada desestabiliza mais um grupo do que perceber que uma das pessoas está longe, pensando. Pensar é perigoso; é pensando que se descobre que a vida não está boa mas que pode mudar, que o país vai bem mas poderia ir muito melhor, é pensando que se pode transformar nossa vida e o mundo. Nelson Mandela disse que tinha saudades do tempo que passou na prisão, porque preso ele tinha tempo para pensar. No nosso dia a dia, quando sobra um momento para se estar só, inventa-se imediatamente alguma coisa para fazer, para evitar o perigo maior que é pensar. Ninguém – ou pouquíssimas pessoas- está completamente feliz com sua vida pessoal, seus amores, seu trabalho. Mas durante a novela ninguém está pondo em questão se poderia fazer alguma coisa para ser mais feliz. Será que os altos homens de negócios já pararam para pensar se vale a pena trabalhar tanto, se não têm nem tempo para gastar o dinheiro que já têm? E para que mais dinheiro? Para ter mais cinco pares de sapato, três bolsas, 12 camisetas? É muito bom ter um carro do ano, mas se ele fosse de 2007 seria tão diferente? E essa mania de acumular, para deixar uma herança para os filhos, isso no fundo é um problema político. Todos sabemos que em alguns países a educação, a saúde e a aposentadoria são garantidas para toda a população, que sem precisar se preocupar tanto com o futuro, vive mais feliz -com menos frescuras, mas com mais alegria. Está vendo no que dá, pensar? Pensar é perigoso e subversivo, e uma coisa é certa: quem não pensa apenas faz o que os outros mandam: usam a bolsa da mesma grife porque inventaram, começaram a fumar e deixaram de fumar porque inventaram, e correm o risco de votar errado porque inventaram que quem tem carisma pode ser um bom presidente. Quem não pensa não escolhe, e são as escolhas que podem mudar. (LEÃO, Danuza. Nosso maior direito. Folha de S. Paulo, São Paulo, 25 julho 2010, p. C2) 7 Plano de ensino de Linguagem e Comunicação EMENTA A noção de linguagem como interação e o domínio de mecanismos lingüísticos (gramaticais) e discursivos que permitam ao usuário da língua não só a leitura eficiente de textos variados, mas também a produção deles, a fim de que possa interagir e atuar sobre o(s) outro(s), social e profissionalmente. OBJETIVO GERAL • Proporcionar aos educandos conhecimentos teóricos e práticos que os levem a ler e a produzir textos de maneira eficiente, considerando o interlocutor, o contexto de produção, a circulação e o papel dos textos numa dada comunidade. OBJETIVOS ESPECÍFICOS • Refletir com os educandos sobre a importância da circulação de informações na construção do conhecimento, sobre o papel da linguagem como meio de sobrevivência e como instrumento-chave nas relações sociais e profissionais. • Provocar nos educandos, junto com a prática de produção de texto, reflexão sobre os fenômenos lingüísticos, a consciência de sua diversidade e não a simples repetição mecânica de regras. • Mostrar aos educandos que a produção eficiente de um texto resulta de operações que envolvem a língua e o raciocínio e não de um dom inato, o que equivale dizer também que escrever se aprende, por ensaio e erro, não sendo privilégio de poucos, mas direito de todos. • Possibilitar aos educandos uma melhor compreensão de textos, nos aspectos lingüísticos, argumentativos e expressivos, para que desenvolvam a habilidade de interação nas modalidades escrita e falada. • Oferecer aos educandos mecanismos que os conduzam a uma adequação lingüístico- pragmática quanto às diversas tipologias e gêneros textuais, para que a prática da linguagem escrita seja um instrumento-chave na participação da vida social, profissional e intelectual. • Desenvolver nos educandos a capacidade de reflexão de natureza multi e interdisciplinar, para que possam desempenhar, por meio do domínio da língua(gem), suas atividades futuras, de modo globalizante. • Despertar nos educandos o interesse não só pela leitura variada de textos de temáticas atuais mas também pela produção deles, tanto nas relações diárias de convivência quanto nas profissionais. 8 CONTEÚDO PROGRAMÁTICO 01 LINGUAGEM E SOCIEDADE 1.1 Informação e conhecimento 1.1.1 Quem sabe 1.2 Linguagem, indivíduo e profissão 1.2.1 Linguagem e sobrevivência 1.2.2 Cada um com sua língua 1.2.3 Línguae poder 1.3 Texto e sua circulação 1.3.1 Intenções do produtor 1.3.1.1 Textos e atividades 1.3.2 Diversidade textual 1.3.2.1 Textos e atividades 1.3.3 Polifonia e intertexto 1.3.3.1Textos e atividades 02 TEXTO E SUA TEXTUALIDADE 2.1 Coerência textual 2.1.1 Textos e atividades 2.2 Coesão textual 2.2.1 Textos e atividades 2.3 Parágrafo, estrutura e articulação 2.3.1 Textos e atividades 03 PROCESSOS DE COMPREENSÃO 3.1 Sentido literal e não-literal 3.1.1. Textos e atividades 3.2 Informações implícitas 3.2.1 Subentendidos e pressupostos 3.2.1.1. Textos e atividades 3.3 Atividade inferencial 3.3.1 Textos e atividades 3.4 Estrutura da argumentação 3.4.1 Recursos e falácias da argumentação 3.4.1.1 Textos e atividades 04 PRÁTICA DE TEXTOS 4.1 Dossiê Cotidiano e Atualidades 4.1.1 Artigo de opinião 4.1.2 Textos e atividades 4.1.3 Sugestão de atividade 4.2 Dossiê Política e Economia 4.2.1 Resumo 4.2.2 Textos e atividades 4.2.3 Sugestão de atividade 4.3 Dossiê Arte e Cultura 4.3.1 Resenha 4.3.2 Textos e atividades 4.3.3 Sugestão de atividade 4.4 Dossiê Biodiversidade e Ecologia 4.4.1 Artigo de opinião 4.4.2 Textos e atividades 4.4.3 Sugestão de atividade 4.5 Dossiê Tecnologia e Comportamento 4.5.1 Seminário 4.5.2 Organização de seminário 4.5.3 Sugestão de seminários 05 PROBLEMAS GERAIS DA LÍNGUA CULTA ATIVIDADES PRÁTICAS SUPERVISIONADAS Os discentes farão leituras de textos variados e de fontes diversas, selecionados pelo professor, voltados, direta ou indiretamente, à área de atuação escolhida, com a finalidade de reconhecer, de interpretar e de analisar os apontamentos teóricos feitos nas aulas. Será contemplada também a produção de textos a partir das leituras recomendadas. 9 METODOLOGIA Para que se alcancem os objetivos propostos nas aulas de Linguagem e Comunicação, serão adotados os seguintes procedimentos didático-metodológicos: aulas expositivas, estudos de textos, debates, apresentação de seminários, oficinas de leitura e produção de textos. RECURSOS DIDÁTICOS Coletânea de textos e atividades, quadro, giz, textos selecionados de revistas, jornais e livros, retroprojetor, vídeo, salas de computadores e outros recursos necessários ao desenvolvimento das aulas. AVALIAÇÃO Do discente: • A avaliação, que consiste em um processo contínuo e permanente, será concebida e utilizada nesta disciplina como elemento constitutivo do processo ensino-aprendizagem que permite identificar, qualitativa e quantitativamente, os avanços e dificuldades na concretização dos objetivos propostos. Em cumprimento ao que prevê o regimento, no decorrer do semestre letivo, serão distribuídos 100 (cem) pontos, de acordo com a nova proposta pedagógica. • É fundamental ressaltar que freqüência, empenho, compromisso, atitude e participação do aluno nas aulas, em eventos e em todo o contexto da vida acadêmica são fatores de grande relevância para a configuração do painel avaliativo. • Para efeito de aprovação por freqüência, o aluno deverá assistir, no mínimo, a 75% das aulas ministradas. A chamada nominal dos alunos será realizada oralmente, em momento determinado pelo professor. Do docente: • Os alunos avaliarão o desempenho e atuação do professor por meio de instrumento avaliativo elaborado pela CPA. BIBLIOGRAFIA Básica FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 16. ed. São Paulo: Ática, 2006. FARACO, Carlos Alberto; TEZZA, Cristovão. Oficina de texto. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 15. ed. São Paulo: Contexto, 2001. Complementar ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. 4. ed. São Paulo: Parábola, 2008. DISCINI, Norma. Comunicação nos textos: leitura, produção, exercícios. São Paulo: Contexto, 2005. KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz C. A coerência textual. 17 ed. São Paulo: Contexto, 2007. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. 2. ed. São Paulo: Parábola, 2008. GARCIA, Othon Moacir. Comunicação em prosa moderna: aprenda a escrever aprendendo a pensar. 12. ed. São Paulo: FGV, 1985. 10 Capítulo 1 01 Linguagem e sociedade Neste capítulo, você vai ler e discutir, num primeiro momento, textos que abordam a relação entre informação e conhecimento, a construção do conhecimento como processo e a importância da linguagem técnica nas diversas áreas do conhecimento. Num segundo momento, serão apresentados textos para que você aprimore sua visão acerca do que seja (inter)texto, sua circulação e suas intenções. Ainda neste momento, você irá ler vários textos sobre um mesmo tema para que compreenda a importância dos gêneros textuais nas suas atividades diárias, profissionais e acadêmicas. Para cada texto ou conjunto de textos, serão elaboradas atividades para reforço de aprendizagem e para discussão nas aulas. 1.1 Informação e conhecimento Neste ainda recente intercurso de séculos, uma exigência é feita: devemos ter acesso a informações. No entanto, não podemos confundir esse acesso com a construção de saberes ou de conhecimento. Ter informação não significa necessariamente ter capacidade de produzir conhecimento. É consensual, porém, que informações recebidas são necessárias à elaboração de conhecimento. A evolução do homem foi e é garantida, em grande parte, pelo fluxo de informações e pelo conhecimento resultante do intercâmbio delas, ora confirmando-as, ora negando-as, ora aprimorando-as. A cada dia, somos exigidos, principalmente no trabalho: devemos produzir sempre mais. Em qualquer atividade, somos levados a pensar, refletir, discutir, entre outras questões. Quem não tem informação não interage e quem não interage torna-se um indivíduo sem relações. Não há sociedade sem relações entre os indivíduos, não há atividade profissional que não gere resultados. Portanto, para que seja alcançada a interdependência necessária entre os indivíduos e entre os profissionais, a linguagem é necessária. É por meio dela que se constroem conhecimentos. O domínio de linguagens, da língua às manifestações não verbais, não garante ao falante regalias sociais, culturais, profissionais. Não adianta ter acessos a meios que veiculam informações; isso não nos faz melhores nas nossas relações diárias e intelectuais. Não adianta ter a capacidade de assimilar a linguagem técnica de nossas profissões; outras exigências são necessárias. Talvez a nossa disposição para receber informações e colocá- las em confronto com outras seja a nossa principal característica. Somos seres de produção de conhecimento, e a linguagem é a ponte para as travessias. 1.1.1 Quem sabe ? Galileu revolucionou a ciência e a tecnologia ao afirmar que a natureza é escrita na linguagem dos números. A nova revolução tecnológica afirma que a sociedade é escrita na linguagem da informação. Mas de que tipo de sociedade estamos falando? O 0 e o 1 são os blocos básicos com os quais será construído o futuro. Dois algarismos apenas formam o alfabeto do fenômeno mais complexo dos tempos modernos: a tecnologia de informação e comunicação. Novas formas de atividade e expressão, novas práticas de 11 trabalho e de lazer já emergiram, e as velhas já estão passando por transformações radicais. Essas mudanças tremendas estão ocorrendo em escala global porque a partilha de informações em rede está, pouco a pouco, alcançando todo o planeta. Ainda restam grandes disparidades, principalmente entre os hemisférios Sul e Norte, mas esses processos estão longe de completos. Em que direção eles estão nos conduzindo? Comodevem ser implementados e regulamentados? Quais devem ser os envolvidos? Essas perguntas todas levaram a ONU a convocar a Cúpula Mundial sobre a Sociedade de Informação, que terá lugar em Genebra em dezembro. Essa cúpula reunirá governos, ONGs, participantes-chaves no setor privado e na sociedade civil, a mídia e organizações que integram o sistema da ONU. Prevendo alguns dos tópicos constantes da agenda da cúpula, a Unesco recentemente lançou um novo ciclo em sua série de fóruns de filosofia. Para situar-se em uma discussão diretamente relacionada à sua área de competência, ela postulou a pergunta “Quem sabe?” a 20 figuras de destaque de uma série de áreas geográficas e intelectuais que participam do Fórum de Filosofia da Unesco. Alguns dirão que essa pergunta já é obsoleta. Para que memorizar se máquinas podem fazer melhor e mais rapidamente que nós? De que adianta conhecermos um teorema ou uma receita se podemos acessá-los facilmente na web? Essas perguntas não deixam de fazer sentido. Mas será que devemos concluir que a sociedade da informação conduz a uma sociedade caracterizada pela amnésia e ignorância? Deve a derrota de um homem pela máquina numa partida de xadrez nos fazer colocar em dúvida aquilo que é intrinsecamente humano? Não. Precisamos repensar o problema em novos termos. O Fórum de Filosofia da Unesco mostrou que a pergunta “Quem sabe?” só terá perdido a relevância se confundirmos informação com conhecimento. No entanto, essas são duas coisas distintas, embora relacionadas, na medida em que a informação é uma ferramenta do conhecimento. A informação é uma técnica que tem por objetivo eliminar o elemento do ruído na comunicação. Mas comunicação não é inovação. Calibrar as palavras e mensagens melhora a transmissão do conhecimento, mas não o cria. O ponto forte da informação também é sua limitação. A inovação ocorre apenas quando existe uma busca pelo que é novo; não existe pesquisa – logo, não há progresso – sem conhecimento e sem a curiosidade e a experiência, as falhas e as tradições que ele pressupõe. É o conhecimento que dá sentido à informação. O conhecimento inclui dimensões sociais, éticas e políticas que não podem ser reduzidas à tecnologia. Uma sociedade que fosse exclusivamente só de informação seria um conjunto de enormes redes interligadas, eficazes e ágeis, mas que não iria produzir inovações. A informação não é base suficiente sobre a qual erguer uma sociedade. Mas a sociedade se baseia no diálogo, não em bits de informação. Assim, “sociedades do conhecimento” parece ser uma expressão mais apropriada do que “sociedade da informação” para designar os fenômenos dos quais estamos tratando. Existe apenas uma sociedade da informação, já que existe apenas um padrão de dados e comunicações. As sociedades do conhecimento existem no plural, já que, na medida em que dizem respeito à criatividade, elas necessariamente implicam diversidade e partilha. Sem o intercâmbio do conhecimento não podem existir avanços econômicos, científicos ou políticos em nível local, regional ou global. A partilha eqüitativa do conhecimento será a origem da riqueza do amanhã. Isso também é verdade no que diz respeito à vida cívica. Sem cultura democrática – ou seja, sem a tradição e o aprendizado dos costumes e valores democráticos –, a informação será utilizada para as finalidades dos regimes oligárquicos ou tirânicos, tanto quanto 12 para as dos regimes fundamentados em processos decisórios públicos e compartilhados. O conhecimento se tornou um potencial-chave de investimento em todas as áreas da atividade humana. É por essa razão que a Unesco decidiu dedicar às sociedades do conhecimento seu primeiro relatório mundial, a ser publicado em 2005, e também organizar uma mesa-redonda sobre o mesmo tema durante sua conferência geral de outubro de 2003. Afinal, a idéia do conhecimento não resume, melhor do que qualquer outra, as exigências implícitas na educação, ciência e cultura? Nossa meta é promover uma reflexão progressiva sobre os desafios postos pelas sociedades emergentes. Diante da revolução do conhecimento, a Unesco se mantém fiel a seu papel essencial: atuar como laboratório das idéias do amanhã. (Jérome Bindé é diretor de Antecipação e Estudos de Perspectivas da Unesco; Joseph Goux é professor de filosofia na Universidade Rice (Texas), EUA) (Folha de S. Paulo, 23 nov. 2003) 1) Informação e conhecimento são conceitos sinônimos e equivalentes? Argumente. 2) Qual o problema enfrentado pela sociedade da informação? 3) O que poderá acontecer se a informação e a tecnologia de ponta substituírem a cultura democrática? 4) Com base no texto e em seus conhecimentos, discorra, num único parágrafo, sobre a força e a importância do fluxo de informação para a sociedade moderna. 1.1.2 Onde mora a inteligência Retorno ao lugar onde parei, na Escola da Ponte, em Portugal. A menina que me levava me havia dito umas coisas que me espantaram por não combinarem com aquilo que eu pensava saber sobre as escolas. Foi então que me veio à cabeça a sabedoria do Riobaldo: "O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia". Sem intenção consciente, o dito do Riobaldo passou por uma transformação pedagógica e virou "a inteligência não está na saída nem na chegada, ela se dispõe para a gente é no meio da travessia". A inteligência acontece no "estar indo". Quando ela não está indo, ela está dormindo... Lembrei-me dos meus anos de ginásio, a pedagogia que os professores usavam naqueles tempos, e não sei se as coisas mudaram, porque o hábito tem um poder muito grande... Pois os professores me ensinaram as coisas que estavam na chegada, mas não me contaram como foi que a travessia tinha sido feita. O professor entrou em sala e anunciou: equação do segundo grau. Aí, ele se pôs a falar e a escrever símbolos no quadro negro. Aprendi automaticamente, sem entender, porque tinha memória boa: "x = -b + ou - raiz quadrada de b2 - 4ac sobre 2a". Lembro-me de um colega que não havia entendido a coisa, estava perturbado com o símbolo "x" e veio me perguntar: "Afinal, qual é mesmo o valor de "x"? Eu sabia que a fórmula para se determinar o valor de "x" não havia caído dos céus. Ela aparecera na cabeça de algum matemático que a deduzira séculos atrás depois de uma longa travessia numa jangada feita de pensamentos. O dito matemático a descobriu porque seus pensamentos estavam infelizes. "Ostra feliz não faz pérola". O que é dor para a ostra é uma interrogação para a cabeça. Mas por onde o pensamento matemático navegou para fazer a travessia, isso o professor não ensinou. É possível que ele não soubesse, ou que achasse que isso não importava. Para que entender a gravidez se o nenê já nasceu? O que importa é comer o bolo e não saber a receita... 13 Me ensinaram também as três leis dos movimentos dos planetas que Kepler descobriu, curtinhas, fáceis de guardar na memória. Mas essas três leis na minha memória em nada contribuíram para dar poder à minha inteligência. Enquanto a memória trabalhava para decorar a "chegada", minha inteligência dormia. Nada me contaram sobre os caminhos fascinantes por onde errou o pensamento do astrônomo por dezoito anos. Uma hipótese errada atrás da outra, um caminho que não levava a lugar algum depois do outro. Por que gastar tempo com os erros da "travessia", se se pode ir diretamente à "chegada", conclusão? Não se percebe que, ao assim proceder, o aluno ganha uma memória musculosa e uma inteligência flácida... Pensar é como escalar montanhas. Um alpinista recusaria o caminho rápido e seguro de chegar ao topo da montanhavia helicóptero, sem sofrer e sem suar. Onde está a graça? O que ele deseja são os medos, os calafrios, os desafios da montanha, o que ele vê enquanto sobe... A arte de pensar se ensina fazendo a inteligência seguir o caminho da travessia, com todos os seus erros e enganos. (ALVES, Rubens. Onde mora a inteligência. Folha de S. Paulo, 28 junho 2011, p. A2. Caderno Cotidiano) 1) O que o autor discute no texto? Você concorda com o ponto de vista dele? Por quê? 2) Qual a importância da citação no primeiro parágrafo para a montagem do esquema argumentativo do texto? 3) Traduza a seguinte passagem: “Não se percebe que, ao assim proceder, o aluno ganha uma memória musculosa e uma inteligência flácida...” 4) Para você, em relação ao conhecimento, a tecnologia é uma ferramenta para a “travessia” ou para a “chegada”? 5) Como você pretende percorrer o caminho da leitura e da produção de textos neste momento acadêmico e na vida profissional futura? 1.2 Linguagem, indivíduo e profissão Conforme, Nicola, Cavallete Terra (2002), todo falante tem um certo conceito sobre que linguagem usar, dependendo da situação em que se encontra. Por isso, utiliza um registro formal em situação formal e um registro mais livre em situação menos formal. Por isso, também, notamos que a linguagem é desenvolta quando o sujeito tem o domínio da situação e, ao contrário, ele se cala ou se inibe se esse domínio não existe. Nas relações profissionais, o uso da linguagem, sobretudo a técnica, é primordial para que o falante se sobressaia bem. 1.2.1 Língua e poder “A terapia teve um efeito idiossincrático com prognóstico favorável em caso de pronta supressão”. Essa frase, enigmática para os não- iniciados nas sendas médicas, não significa muito mais do que “o remédio teve efeito contrário, mas não causará problemas se for suspenso logo”. Esse é um dos exemplos de jargão que consta da reportagem sobre linguagens técnicas publicada na semana passada no caderno Sinapse. O jargão é de fato inevitável, mas isso não significa que ele deva ser empregado em todas as ocasiões. Com efeito, toda profissão, do telemarketing à física de partículas, acaba por desenvolver um vocabulário específico, muitas vezes impenetrável para o leigo. Não apenas neologismos são criados como palavras comuns podem ter sua significação alterada. 14 Em alguns casos, trata-se de uma necessidade. O jargão, no mínimo, economiza palavras, concentrando carga informativa em termos específicos. Quando um médico fala em “miocardiopatia idiopática”, ele está na verdade dizendo um pouco mais do que apenas “problemas cardíacos de causa ignorada”. No subtexto, um outro médico compreenderá que o paciente sofre de moléstia cardíaca de origem desconhecida e para a qual já foram descartadas as causas que mais comumente provocam doenças do coração. Em determinadas áreas científicas, os próprios objetos de estudo não passam de jargão. É o caso, por exemplo, da lingüística, com seus morfemas, sintagmas e lexemas, e da física de partículas, com seus quarks, glúons e léptons. No limite, sem o jargão, os fenômenos estudados não podem nem ser enunciados. Reconhecer a importância e a necessidade do jargão em certas situações não significa chancelar seu uso indiscriminado. Um médico ou um advogado que se dirijam a seus clientes em linguagem técnica incompreensível estão, na verdade, atendendo muito mal ao consumidor, que deve ter, em todas as ocasiões, acesso a uma explicação completa de sua situação em linguagem acessível. Infelizmente, as coisas nem sempre se passam assim. Desde que o mundo é mundo, profissionais de uma determinada área tendem a unir-se para manter sua arte impenetrável para o público em geral e, assim, aumentar seu poder. Não foi por outra razão que os escribas do antigo Egito complicaram desnecessariamente a escrita hieroglífica: era uma forma de conservarem e até de ampliarem sua posição hierárquica. Os tempos e as ciências mudaram, mas o princípio de complicar para valorizar-se permanece em vigor. Não devemos, é claro, ser ingênuos e acreditar que poderemos promover a plena igualdade através da língua. Democracia é, antes de mais nada, a arte de negociar, de aplicar o bom senso na solução de problemas. Nesse sentido, o bom profissional é aquele capaz de comunicar-se no melhor jargão com seus colegas, mas que consegue, sem grandes perdas, fazer-se entender pelo leigo. Os que ostensivamente abusam da linguagem técnica tendem a ser os menos capazes, os que mais precisam afirmar-se para não perder poder. (Folha de S. Paulo, 20 junho 2003) 1) Qual a relação entre domínio da língua e poder? Dê exemplos. 2) Qual a sua opinião sobre o uso exagerado do jargão na profissão que você escolheu. Qual a linguagem ideal para o profissional? 3) Você percebeu que esse texto faz referência a um anterior. De modo geral, como você vê a relação entre os textos? 4) O jargão, nas mais diversas profissões, pode ser considerado fator de exclusão? Comente. 5) Você acredita que o sucesso profissional esteja ligado ao domínio da linguagem técnica da área de conhecimento que você escolheu? Por quê? 1.3 Texto e sua circulação Alguns teóricos da linguagem consideram que, na era da informação, tudo é texto. Um slogan de uma campanha política, uma música, um gráfico, um discurso oral, uma placa de trânsito, enfim, os mais variados arranjos organizados com o propósito de informar, comunicar, veicular sentidos são textos. Assim, um texto é não exclusividade da palavra. O texto é determinado pela finalidade comunicativa. E não faltam meios e recursos, nesta época em que vivemos, para a produção e circulação de textos dos mais diversos e diferentes possíveis. 15 1.3.1 Intenções do produtor Conforme, Nicola, Florina e Ernani 20002), o falante, ao realizar um ato de comunicação verbal, escolhe, seleciona palavras para depois organiza-las, combina-las, conforme a sua vontade. Esse trabalho de seleção e combinação não é aleatório, não é realizado por acaso (afinal, seleção significa “escolha fundamentada”), mas está diretamente ligado à intenção do produtor do texto. Desse modo, a linguagem passa a ter funções, como as de informar, seduzir, emocionar, convencer, entre outras. 1.3.2 Textos e atividades 1) Leia, com atenção, os dois textos a seguir para responder ao que se pede. Governo emite nota oficial sobre caso Grafite O Governo Federal emitiu nota à imprensa dando seu parecer sobre o caso Grafite. A nota foi assinada pelo Ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz, e pela secretária especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro. Na nota, o ministro repudia qualquer tipo de preconceito e de discriminação. Para Agnelo Queiroz, o caso entre Grafite e Desábato representa “mais um caso na escalada do preconceito que vem se tornando rotineiro no futebol feito por torcedor e jogadores contra os atletas afro-descendentes”. O ministro afirma na nota que “A atitude racista do jogador argentino vai contra todos os valores de igualdade, respeito e união que o esporte promove”. Ainda segundo a nota, “O Governo Federal acionará as esferas da administração esportiva nacional e internacional para que adotem medidas concretas para banir definitivamente do espetáculo esportivo a discriminação racial, o preconceito e a xenofobia, que, se não eliminados, representam ameaça à democracia”. O ministro e a secretária informaram que em 2005, Ano Nacional de Promoção da Igualdade Racial, o tema é de relevante importância nos trabalhos da Comissão “Paz no Esporte”, lançada em março para acabar com qualquer tipo de violência nessa área.(Disponível em : <tv.terra.com.br/esportes/esportestv>. Acesso em: 20 abril 2007) [Fragmento do Código Penal] Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena - detenção, de 1 (um) a 6 (seis) meses, ou multa. § 1º - O juiz pode deixar de aplicar a pena: I - quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria; II - no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria. § 2º - Se a injúria consiste em violência ou vias de fato, que, por sua natureza ou pelo meio empregado, se considerem aviltantes: Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa, além da pena correspondente à violência. § 3º - Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião ou origem: Pena - reclusão de um a três anos e multa. * § 3º acrescentado pela Lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997. Art. 141 - As penas cominadas neste Capítulo aumentam-se de um terço, se qualquer dos crimes é cometido: 16 I - contra o Presidente da República, ou contra chefe de governo estrangeiro; II - contra funcionário público, em razão de suas funções; III - na presença de várias pessoas, ou por meio que facilite a divulgação da calúnia, da difamação ou da injúria. Parágrafo único - Se o crime é cometido mediante paga ou promessa de recompensa, aplica-se a pena em dobro. (Disponível em : <tv.terra.com.br/esportes/esportestv>. Acesso em: 20 abril 2007) 1) Com que intenções os textos foram escritos? 2) No Texto 1, percebe-se o uso do discurso direto. Que efeito esse uso confere à notícia lida? Já no Texto 2, não se percebe de quem é a voz que fala. Por quê? De quem seria essa voz? 2) Leia, com atenção, o texto a seguir para responder ao que se pede. Isabella mora ao lado A violência doméstica é pior do que se imagina – aliás, muito pior. É o que se conclui de uma investigação em andamento feita pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 800 famílias na periferia da cidade de São Paulo. É a primeira pesquisa de que se tem notícia feita de casa em casa, e não apenas com bases nos falhos registros oficiais. Os pesquisadores estão constatando uma incidência de 20% de agressões graves contra as crianças, o que significa queimaduras, asfixia ou espancamento, resultando em fraturas e lesões que, muitas vezes, acabam no hospital, mas não punem o agressor, protegido por um manto de silencio familiar. Mas deixam seqüelas psicológicas profundas. Essa pesquisa, que detalhei em meu site (www.dimenstein.com.br), mostra que o drama da menina Isabella, que parece tão distante, mora, na verdade, ao lado. A criança vira a depositária do estresse da pobreza combinada com o desequilíbrio emocional de adultos – e, claro, é vítima da ignorância. Os pesquisadores da Unifesp ouvem a desculpa das mães e pais de que estão apenas educando seus filhos. Esse é mais um aspecto de uma mais das maiores fragilidades sociais brasileiras: a pouca atenção à primeira infância, especialmente nas camadas mais pobres. (Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às segundas-feiras. Texto disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/gilbertodi menstein>. Acesso: 23 abril 2008) 1) Com que intenções o texto foi escrito? 2) Procure identificar o que é informação da pesquisa e o que é informação do autor do texto. 3) Simbolicamente, quem é a Isabella de Dimenstein? Argumente. 3) Leia, com atenção, as informações a seguir para responder ao que se pede. No ano de 2010 principalmente, as diversas mídias divulgaram notícias e juízos de valor acerca do julgamento do casal Nardoni, suspeito da morte da menina Isabella Nardoni. A mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, após a sentença, “abatida e com olheiras profundas”, segundo a Folha de S. Paulo (28 março 2010), falou à imprensa. 17 Com base nessas informações e em seu conhecimento sobre o caso, qual das frases abaixo NÃO poderia ter sido dita por Ana Carolina Oliveira numa de suas entrevistas à imprensa? Justifique sua resposta. I – A justiça foi feita, mas minha filha não vai voltar. II – Minha filha não vai voltar, mas a justiça foi feita. 1.3.2 Diversidade textual A seguir, você terá acesso a vários textos sobre a temática guerra e paz. Após ler esses textos e discuti-los com os colegas e com o professor, complete o quadro ao final da coletânea, cujo objetivo é compreender e fixar o conceito de gênero textual, identificando as principais características dos vinte gêneros selecionados. Espera-se que, por meio dessa atividade, você desenvolva sua leitura crítica e sua produção textual. 1.3.2.1 Textos e atividades 1 Artigo de opinião Sobre a tolice de erguer estátuas Virar estátua pode ter forte apelo. Seja de bronze, de pedra ou de madeira, ela é feita de material muito mais durável do que carne e osso. Sobrevivem até hoje estátuas de muitos milhares de anos. Graças a elas conhecemos os nomes dos faraós do Egito e as feições dos imperadores romanos. A estátua também permite ao ser humano projetar-se muito acima das reais dimensões. Nelas, o corpo pode alçar- se a 10 ou 20 metros de altura e escorar-se numa massa de 1 tonelada ou mais. Ainda assim, erguer estátuas à própria glória, como ficou provado na semana passada, é a mais estúpida das políticas. Pois, ainda que a estátua ofereça uma carona para a magnificência e um atalho para a eternidade, e ainda que semeie temor e reverência, bem ao gosto de certos regimes, algo que não oferece é a segurança de que um dia não será derrubada. E, quando isso acontece, pobre do infeliz ali representado. Nada mais gráfico, nada mais eloqüente de sua desgraça. Saddam Hussein caiu não em carne e osso, mas em pedra. No plano simbólico, pior para ele. Foi assim arrastado pelas ruas, golpeado e insultado como de outra forma não seria. A derrubada da estátua de Saddam, de 6 metros de altura, mais 6 de pedestal, numa praça central de Bagdá, foi como a encenação de um auto didático. Primeiro os próprios iraquianos tentaram derrubá-la, com picaretadas no pedestal ou com uma corda a puxá-la pelo pescoço. Não conseguiram. Seus métodos eram muito primitivos, os materiais, insuficientes para o tamanho da empreitada. Precisaram dos americanos, que vieram com tecnologia várias vezes superior à necessária: um tanque. Um marine subiu ao topo para amarrar um cabo de aço ao pescoço da estátua. Aproveitou para enrolar-lhe ao rosto uma bandeira americana. Foi vaiado, tirou-a e substituiu-a por uma bandeira do Iraque. O tanque então puxou o cabo de aço e a estátua, por puro efeito da força e da tecnologia americanas, veio abaixo. Não seria melhor caso a ação tivesse obedecido a um roteiro. Não daria tão certo se tivesse sido ensaiada. Até o marine que enrolou a bandeira americana no rosto do ditador representava um papel. Ele tinha traços orientais. Com isso lembrava que, 18 assim como o grosso das legiões romanas era formado pelos povos conquistados, assim também o Exército americano vai se transformando num mosaico onde as minorias são cada vez mais representadas. O fato de a derrubada do regime se ter dado por obra dos americanos, como bem expôs o auto da praça, tirou-lhe um pedaço da legitimidade. Claro, é sempre bom ver desabar um regime sanguinário. Mas nos regimes que desabaram na Europa do Leste, às vezes também na forma de assalto a um símbolo de pedra, como no caso clássico do Muro de Berlim, o feito foi dos próprios povos. Assim nãohumilha. No Iraque o invasor, agora feito tropa de ocupação, é não só o autor da derrubada como o sucessor do regime deposto. É também o autor de uma investida que deixou mortos e feridos no caminho. A libertação que proporcionou manchou-se do sangue dos libertados. Uma grande interrogação se abre diante da reinauguração do sistema colonial a que se propõem os americanos, no coração da região mais conturbada do mundo. Erguer estátuas a si mesmo, para voltar ao tema de três parágrafos atrás, tem, na outra face da moeda, o inconveniente de oferecer ao inimigo um símbolo grandioso a pôr abaixo. Acresce, no caso presente, que esta guerra estava sem uma imagem disponível para ser apresentada como fecho de ouro na televisão. A rendição do inimigo, na forma de um cavalheiro que se apresenta para assinar solenemente um armistício, como nas guerras do passado, parecia fora de cogitação. O paradeiro ignorado de Saddam Hussein, desde o início do conflito, também fazia prever que o ditador não se apresentaria de corpo presente para ser preso ou morto. A estátua veio a calhar. Ainda mais que se situava de cara para o hotel onde se concentravam os jornalistas. Todos os caderninhos, os notebooks, os telefones por satélite, os videofones, as máquinas fotográficas e as câmeras de TV já estavam naturalmente apontados para ela. Não precisaram nem ser convocados. O espetáculo da praça deu aos americanos uma das duas coisas de que mais necessitavam: uma multidão amiga (a outra são estoques de armas químicas). Mas é bom não esquecer: a multidão não era tão multidão assim. Não dá para, com base nela, extrair o sentimento dominante entre os iraquianos. A multidão da praça certamente é menor do que a que lotou os hospitais e cemitérios iraquianos nas últimas três semanas. O que conduz à conclusão de que, crime por crime, os de Saddam têm um contrapeso nos dos invasores. Nos Estados Unidos os governantes não costumam erigir estátuas a si mesmos. George W. Bush não poderá ser derrubado dessa forma. Mas, para honra dos Estados Unidos, há o voto. Resta esperar que, numa apoteótica volta à lucidez, o eleitorado americano faça a justiça que ficou faltando para um dos lados, numa guerra em que os dois mereciam perder. (TOLEDO, Roberto Pompeu de. Sobre a tolice de erguer estátuas. Veja, São Paulo,16 abril 2003, p. 122) 2 Resenha A revolução dos bichos Verdadeiro clássico moderno, concebido por um dos mais influentes escritores do século 20, “A revolução dos bichos” é uma fábula sobre o poder. Narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos. Progressivamente, porém, a revolução degenera numa tirania ainda mais opressiva que a dos humanos. Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista. Com o acirramento da Guerra Fria, as mesmas razões que causaram constrangimento na época de sua publicação levaram “A revolução dos bichos” a ser amplamente usada pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, 19 adepto do socialismo e inimigo de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a utilização de sua fábula como panfleto. Depois das profundas transformações políticas que mudaram a fisionomia do planeta nas últimas décadas, a pequena obra-prima de Orwell pode ser vista sem o viés ideológico reducionista. Mais de sessenta anos depois de escrita, ela mantém o viço e o brilho de uma alegoria perene sobre as fraquezas humanas que levam à corrosão dos grandes projetos de revolução política. Escrito com perfeito domínio da narrativa, atenção às minúcias e extraordinária capacidade de criação de personagens e situações, “A revolução dos bichos” combina de maneira feliz duas ricas tradições literárias - a das fábulas morais, que remontam a Esopo, e a da sátira política, que teve talvez em Jonathan Swift seu representante máximo. (Disponível em: <http://br.gojaba.com>. Acesso em: 8 jan. 2011) 3 Entrevista A guerra irracional Fascinado por guerras e pela vida militar desde que viu as tropas aliadas se preparando para o Dia D, no interior da Inglaterra, sir John Keegan não conseguiu realizar o sonho juvenil de se tornar soldado. Uma doença de infância o deixou manco e o impediu de ingressar na academia militar. Os ingleses perderam um general, mas o mundo ganhou seu mais celebrado historiador militar. Quando entrou na Universidade de Oxford, em 1953, dedicou-se à história das atividades militares. Em 1960, aos 25 anos, foi aceito como professor na Real Academia Militar de Sandhurst, a escola de cadetes ingleses, onde ficou até 1986. Casado há quarenta anos com Susanne e pai de quatro filhos, é editor de defesa do jornal inglês Daily Telegraph, mas passa a maior parte de seu tempo fazendo pesquisas e escrevendo livros. Ao todo, já publicou vinte obras, entre elas o clássico Uma História da Guerra (lançado no Brasil pela Companhia das Letras). Atualmente, prepara um livro sobre as operações de inteligência nos últimos 200 anos. De sua casa, no interior da Inglaterra, Keegan concedeu a seguinte entrevista a Veja. Veja – O que será necessário fazer para que os terroristas sejam punidos pelos atentados em Nova York e Washington? Keegan – A prisão, o julgamento e a execução de Osama bin Laden. Mas isso não seria o fim dos problemas. Os objetivos dos terroristas não deixam o menor espaço para negociações e concessões. Estamos vivendo uma situação muito incômoda. Não consigo ver um fim para isso. Para cidadãos comuns, é muito deprimente. Para os governantes, é preocupante. A única saída é eliminar os terroristas. Ou os prendemos pelo resto de suas vidas ou os matamos. Não tem outro jeito. Não temos como convencê-los de que estão errados com conversa, usando a razão. Veja – Será difícil para os americanos derrotar o Talibã, a milícia que controla o Afeganistão? Keegan – O Talibã não é tão forte quanto alguns falam. Não é numeroso nem tem um exército bem organizado e equipado. Muitos componentes nem são afegãos. Vêm do Paquistão e não conhecem tão bem o terreno. O Talibã é impopular devido à forma radical com que impôs o islamismo fundamentalista. Historicamente, os afegãos não são particularmente fervorosos em termos religiosos. Uma intervenção no Afeganistão não deve encontrar forte resistência. Pelo menos, não em grandes proporções. Já encontrar Osama bin Laden será difícil. O país é grande e selvagem, com um terreno dificílimo. Operações pequenas e rápidas para capturar Laden são a melhor opção. [...] Veja – Estamos vendo a primeira guerra verdadeiramente mundial? 20 Keegan – Não. Muitos países não são suscetíveis ao terrorismo. As nações escadinavas têm população homogênea e urbana. Não correm perigo. O terrorismo precisa de um certo grau de sofisticação e de financiamento. A maior parte do mundo é muito primitiva para dar apoio a grupos terroristas. É importante lembrar que os fundamentalistas são apenas uma minoria. Na Inglaterra, temos uma comunidade muçulmana e a maior parte de seus membros está preocupada em educar os filhos e prosperar. É claro que muitos nutrem certa simpatia por seus companheiros de crença. Mas são pessoas sofisticadas e sabem que é melhor não se misturar com os fundamentalistas. É possível que os radicais organizem algum ataque na Inglaterra, contudo não acredito em algo continuado. Já a França deve estar atenta. Tem uma grande população islâmica e a maior partedela vive na pobreza e está descontente. [...] Veja – Por que existe a guerra? Keegan – Os homens lutam por questões racionais. Acham que os custos de ir à guerra valem a pena em vista de vantagens em caso de vitória. Desta vez, temos uma guerra irracional. Veja – O significado da guerra varia de acordo com a cultura? Keegan – Sim. No mundo acadêmico, há dois grupos. Um acha que a guerra tem características imutáveis e outro diz que os conflitos mudam conforme a cultura. Sou do segundo grupo. A mais recente evidência de que a guerra é cultural são os guerreiros suicidas islâmicos, que não existem na tradição judaico-cristã. Veja – Em que circunstância uma guerra é considerada justa? Keegan – Antes de Hugo Grotius, escritor holandês do século XVII, a idéia de justiça na guerra era relacionada à moralidade cristã. Quando Estados protestantes começaram a lutar contra Estados católicos e vice-versa, foi um choque para todos, e a idéia de justiça relacionada à moral cristã caiu em desgraça. Grotius procurou nova base para estabelecer o que é uma guerra justa. No fim das contas, resumiu seu pensamento da seguinte forma: o Estado deve ser o juiz de seus atos. Se o Estado acredita que uma guerra é justa, então a guerra é justa. Isso valeu até a criação das Nações Unidas. A partir da década de 40, guerras justas são as que recebem a aprovação das Nações Unidas e aquelas levadas a cabo em autodefesa. [...] (KEEGAN, John. A guerra irracional. Veja, São Paulo, Ed. 1720, 3 out. 2001. p. 9, 12-13. Entrevista concedida a Eduardo Salgado) 4 Poema Manhã dos mortos Todos os dias, bem cedo, enquanto contemplais a manhã: de fome de dor de medo e de sede morrem milhares no Vietnam. Todos os dias, bem cedo, enquanto contemplais a manhã. (CASTRO, Altino Caixeta de. Cidadela da rosa: com fissão da flor. Brasília: Horizonte Editora Limitada, 1980. p. 281) 21 5 Carta pessoal “Amados pais. Se estão lendo esta carta, é porque ainda temos o aeroporto. Tenho certeza que esta será a última que seu amado filho lhes escreverá. Temos russos por todos os lados e não nos mandam ajuda de Berlim. Lhes tenho uma triste notícia, Granstsau morreu semana passada. Estava ele, eu e mais três andando quando simplesmente caiu no chão com a cabeça aberta. Amados pais, chorei muito ao vê-lo, porque crescemos juntos, lembram-se? Quando éramos crianças, quebrei a perna, ele me levou a casa nas suas costas com a minha perna quebrada. Sinto muito pelos pais dele. Perdi meu único amigo. E aqui haverá o fim. Nosso comandante se matou com um tiro na boca ontem de noite. Nossa moral não existe mais. Mas espero que essa maldita guerra acabe, pouco me importa o que aconteça. Se não receberem mais cartas minhas, vão para Espanha o quanto antes, sabemos que é uma questão de tempo dos russos chegarem em Berlim. Amados pais, após essa guerra, a Alemanha ficará atônita ao saber que o soldado que lhes escreve teve a vida salva por um médico judeu. Estou bem dos ferimentos, mas a cicatriz é enorme e horrível. Amados pais, se cuidem. Se não receberem mais cartas minhas, vão para Espanha, o dinheiro vocês já tem. Logo estaremos de novo conversando com Hilse, nos bom tempos dos dias de sol. Com muita devoção, seu filho querido.” (Fonte: Cartas de Stalingrado, Coleção Einaudi, 1958. Disponível em: <http://avidanofront.blogspot.com/2010/07/cartas-de- soldados-alemaes-escritas.html>. Acesso em: 06 jan. 2010) 6 Notícia Zelador afirma ter assassinado ex-ministro do TSE por “medo” O ex-zelador Leonardo Campos Alves, 44, disse ter matado o ex-ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) José Guilherme Villela, 73, a mulher dele Maria Carvalho, 69, e a empregada Francisca da Silva, 58, por “medo de ser reconhecido”. Alves, que trabalhou 15 anos no prédio onde morava a família, foi apresentado pela Polícia Civil do Distrito Federal, que o prendeu em Minas Gerais na segunda. Ele contou que entrou no apartamento do casal com um comparsa, Paulo Cardoso, “somente para roubar”. Essa é a terceira versão apresentada pela polícia desde o assassinato. Apesar de classificar com “versão harmônica”, a polícia diz que há lacunas no relato de Alves. Ele afirma que deixou a porta aberta após o crime, mas a perícia diz que estava trancada. Além disso, Alves nega que ele e o amigo tenham dado as 73 facadas que a perícia identificou nos corpos. Ele disse que Adriana Villela, até então a principal suspeita do crime, não tinha boa relação com os pais. Afirmou ainda que já viu a neta Carolina Villela – que encontrou os corpos – bater na avó. “Não tem fundamento. Carolina era o xodó dos avós”, afirma o advogado de Adriana e Carolina, Rodrigo Alencastro. (Folha de S. P aulo, 18 nov. 2010 – adaptado) 22 7 Letra de música Canção do senhor da guerra Existe alguém esperando por você Que vai comprar a sua juventude E convencê-lo a vencer Mais uma guerra sem razão Já são tantas as crianças com armas na mão Mas explicam novamente que a guerra gera empregos Aumenta a produção Uma guerra sempre avança a tecnologia Mesmo sendo guerra santa Quente, morna ou fria Pra que exportar comida? Se as armas dão mais lucros na exportação Existe alguém que está contando com você Pra lutar em seu lugar já que nessa guerra Não é ele quem vai morrer E quando longe de casa Ferido e com frio o inimigo você espera Ele estará com outros velhos Inventando novos jogos de guerra Que belíssimas cenas de destruição Não teremos mais problemas Com a superpopulação Veja que uniforme lindo fizemos pra você E lembre-se sempre que Deus está Do lado de quem vai vencer O senhor da guerra Não gosta de crianças O senhor da guerra Não gosta de crianças O senhor da guerra Não gosta de crianças O senhor da guerra Não gosta de crianças O senhor da guerra Não gosta de crianças O senhor da guerra Não gosta de crianças" (Letra e Música: Renato Russo.Disponível em <http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/03/2 49790.shtml>. Acesso em: 10 jan. 2011) 8 Editorial O que incomoda o terror O verdadeiro alvo visado pelos terroristas que atacaram Nova York e Washington na semana passada não foram as torres gêmeas do sul de Manhattan nem o edifício do Pentágono. O atentado foi cometido contra um sistema social e econômico que, mesmo longe da perfeição, é o mais justo e livre que a humanidade conseguiu fazer funcionar ininterruptamente até hoje. Não foi um ataque de Davi contra Golias. Nem um grito dos excluídos do Terceiro Mundo que, de modo trágico mas efetivo, se fez ouvir no império. Foi uma agressão perpetrada contra os mais caros e mais frágeis valores ocidentais: a democracia e a economia de mercado. O que realmente incomoda a ponto da exasperação os fundamentalistas, apontados como os principais suspeitos de autoria dos atentados, não é só a arrogância americana ou seu apoio ao Estado de Israel. O que os radicais não toleram, mais que tudo, é a modernidade. É a existência de uma sociedade em que os justos podem viver sem ser incomodados e os pobres têm possibilidades reais de atingir a prosperidade com o fruto de seu trabalho. Esse é o verdadeiro anátema dos terroristas que atacaram os Estados Unidos. Eles são enviados da morte, da elite teocrática, medieval, tirânica que exerce o poder absoluto em seus feudos. Para eles, a democracia é satânica. Por isso tem de ser combatida e destruída. (Veja, Ed. 1718, 19 set. 2001, p. 9, Carta ao leitor) 23 9 Conto Passeio noturno Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas,propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar. Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não pára de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar? A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta. Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu. Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver os pára-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na ignição, era um motor poderoso que gerava a sua força em silêncio, escondido no capô aerodinâmico. Saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas. Na avenida Brasil, ali não podia ser, muito movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto. Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos. Ainda deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa de subúrbio. Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára- lamas, os pára-choques sem marca. Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas. A família estava vendo televisão. Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando 24 fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia. (FONSECA, Rubem. Passeio noturno. Disponível em <http://arquivopodoslivros.blogspot.com>.Acesso em: 10 jan. 2011) 10 Crônica A menina Silvana Um camponês velho deu as informações ao sargento: Silvana Martinelli, 10 anos de idade. A menina estava quase inteiramente nua, porque cinco ou seis estilhaços de uma granada alemã a haviam atingido em várias partes do corpo. Os médicos e os enfermeiros, acostumados a cuidar rudes corpos de homens, inclinavam-se sob a lâmpada para extrair os pedaços de aço que haviam dilacerado aquele corpo branco e delicado como um lírio - agora marcado de sangue. A cabeça de Silvana descansava de lado, entre cobertores. A explosão estúpida poupara aquela pequena cabeça castanha, aquele perfil suave e firme que Da Vinci amaria desenhar. Lábios cerrados, sem uma palavra ou um gemido, ela apenas tremia um pouco – quando lhe tocavam num ferimento contraía quase imperceptivelmente os músculos da face. Mas tinha os olhos abertos – e quando sentiu a minha sombra ergueu-os um pouco. Nos seus olhos eu não vi essa expressão de cachorro batido dos estropiados, nem essa luz de dor e raiva dos homens colhidos no calor do combate, nem essa impaciência dolorosa de tantos feridos, ou o desespero dos que acham que vão morrer. Ela me olhou quietamente. A dor contraía-lhe, num pequeno tremor, as pálpebras, como se a luz lhe ferisse um pouco os olhos. Ajeitei-lhe a manta sobre a cabeça, protegendo-a da luz, e ela voltou a me olhar daquele jeito quieto e firme de menina correta. Deus, que está no céu - se é que, depois de tantos desgovernos cruéis e tanta criminosa desídia, ninguém o pôs para fora de lá, ou Vós mesmo, Senhor, não vos pejais de estar aí quando Vossos filhos andam neste inferno! – Deus sabe que tenho visto alguns sofrimentos de crianças e mulheres. A fome dessas meninas da Itália que mendigam na entrada dos acampamentos, a humilhação dessas mulheres que diante dos soldados trocam qualquer dignidade por um naco de chocolate – nem isso, nem o servilismo triste mais que tudo, dos homens que precisam levar pão à sua gente – nada pode estragar a minha confortável posição de correspondente. Vai-se tocando, vai-se a gente acostumando no ramerrão da guerra; é um ramerrão como qualquer outro: e tudo entra nesse ramerrão – a dor, a morte, o medo, o disco de "Lili Marlene" junto de uma lareira que estala, a lama, o vinho, a cama-rolo, a brutalidade, a ajuda, a ganância dos aproveitadores, o heroísmo, as cansadas pilhérias – mil coisas no acampamento e na frente, em sucessão monótona. Esse corneteiro que o frio da madrugada desafina não me estraga a lembrança de antigos quartéis de ilusões, com alvoradas de violino – Senhor, eu juro, sou uma criatura rica de felicidades meigas, sou muito rico, muito rico, ninguém nunca me amargará demais. E às vezes um homem recusa comover-se: meninas da Toscana, eu vi vossas irmãzinhas do Ceará, barrigudinhas, de olhos febris, desidratadas, pequenos trapos de poeira humana que o vento da seca ia a tocar pelas estradas. Sim, tenho visto alguma coisa e também há coisas que homens que viram me contam: a ruindade fria dos que exploram e oprimem e proíbem pensar, e proíbem comer, e até o sentimento mais puro torcem e estragam, as vaidades monstruosas que são massacres lentos e frios de outros seres – sim, por mais distraído que seja um repórter, ele sempre, em alguma parte em que anda, vê alguma coisa. 25 Muitas vezes não conta. Há 13 anos trabalho neste ramo – e muitas vezes não conto. Mas conto a história sem enredo dessa menina ferida. Não, sei que fim levou e se morreu ou está viva, mas vejo seu fino corpo branco e seus olhos esverdeados e quietos. Não me interessa que tenha sido inimigo o canhão que a feriu. Na guerra, de lado a lado, é impossível, até um certo ponto, evitar essas coisas. Maspenso nos homens que começaram esta guerra e nos que permitiram que eles começassem. Agora é tocar a guerra - e quem quer que possa fazer qualquer coisa para tocar a guerra mais depressa, para aumentar o número de bombas dos aviões e tiros das metralhadoras, para apressar a destruição, para aumentar aos montes a colheita de mortes – será um patife se não ajudar. É preciso acabar com isso, e isso só se acaba a ferro e fogo, com esforço e sacrifícios de todos, e quem pode mais deve fazer muito mais, e não cobrar o sacrifício do pobre e se enfeitar com as glórias fáceis. É preciso acabar com isso, e acabar com os homens que começaram isso e com tudo o que causa isso - o sistema idiota e bárbaro de vida social onde um grupo de privilegiados começa a matar quando não tem outro meio de roubar. Pelo corpo inocente, pelos olhos inocentes da menina Silvana (sem importância nenhuma no oceano de crueldades e injustiças), pelo corpo inocente, pelos olhos inocentes da menina Silvana (mas ó hienas, ó porcos, de voracidade monstruosa, e vós também, águias pançudas e urubus, ó altos poderosos de conversa fria ou voz frenética, que coisa mais sagrada sois ou conheceis que essa quieta menina camponesa?), pelo corpo inocente, pelos olhos inocentes da menina Silvana (ó negociantes que roubais na carne, quanto valem esses pedaços estraçalhados?) – por esse pequeno ser simples, essa pequena coisa chamada uma pessoa humana, é preciso acabar com isso, é preciso acabar para sempre, de uma vez por todas. Fevereiro, 1945 (BRAGA, Rubem. A menina Silvana. Disponível em: <http://www.letraselivros.com.br>. Acesso em: 24 jan. 2011) 11 Artigo de lei Art. 7º - Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro: I - os crimes: a) contra a vida ou a liberdade do Presidente da República; b) contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal, de Estado, de Território, de Município, de empresa pública, sociedade de economia mista, autarquia ou fundação instituída pelo Poder Público; c) contra a administração pública, por quem está a seu serviço; d) de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no Brasil; II - os crimes: a) que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir; b) praticados por brasileiro; c) praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, quando em território estrangeiro e aí não sejam julgados. § 1º - Nos casos do inciso I, o agente é punido segundo a lei brasileira, ainda que absolvido ou condenado no estrangeiro. § 2º - Nos casos do inciso II, a aplicação da lei brasileira depende do concurso das seguintes condições: a) entrar o agente no território nacional; b) ser o fato punível também no país em que foi praticado; c) estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza a extradição; d) não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter aí cumprido a pena; 26 e) não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por outro motivo, não estar extinta a punibilidade, segundo a lei mais favorável. § 3º - A lei brasileira aplica-se também ao crime cometido por estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil, se, reunidas as condições previstas no parágrafo anterior: a) não foi pedida ou foi negada a extradição; b) houve requisição do Ministro da Justiça. (Artigo 7º do Código Penal) 12 Charge (Disponível em: <http://esmaelmorais.com.br>. Acesso em: 8 jan. 2011) 13 Anúncio publicitário (Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/platb/christianmunaier/2009/02/>. Acesso em: 8 jan. 2011) 27 14 Infográfico (Veja, 19 set. 2001, p. 64-65) 28 15 Gráfico (Disponível em: <http://www.vermelho.org.br>. Acesso em: 24 jan. 2011) 16 Cartaz de filme (Disponível em: <http://www.borbulhando.com.br/operacao-valquiria-trailer.html>. Acesso em: 15 jan. 2011) 29 17 Capa de revista (Veja, 26 março 2003) 18 Fotografia (Disponível em: <http://mnegocio.blog.uol.com.br/arch2008-09-28_2008-10-04.html>. Acesso em: 8 jan. 2011) 30 19 Escultura Escultura Amor e da Angústia, de Kenneth Treister. Monumento dedicado às vítimas do Holocausto. Detalhe Pormenores (Disponível em: <http://histoblogsu.blogspot.com>. Acesso em: 10 jan. 2011 31 20 Quadro de pintura (Goya, Os fuzilamentos de 3 de Maio de 1808. Disponível em: <http://annualia-verbo.blogs.sapo.pt/56515.html>. Acesso em: 19 jan. 2011) Preencha o quadro a seguir, destacando: a) as principais características dos gêneros selecionados quanto ao suporte, à estrutura e ao conteúdo; b) o conteúdo temático dos textos selecionados. Gêneros e textos Análises a) dos gêneros b) dos textos 1. Artigo de opinião 2. Resenha 3. Entrevista 4. Poema 32 5. Carta pessoal 6. Notícia 7. Letra de música 8. Editorial 9. Conto 10. Crônica 11. Artigo de lei 12. Charge 33 13. Anúncio publicitário 14. Infográfico 15. Gráfico 16. Cartaz de filme 17. Capa de revista 18. Fotografia 19. Escultura 20. Quadro de pintura 34 1.3.3 Polifonia e intertexto Podemos dizer que textos são reuniões de várias vozes: polifonia. Isso significa dizer que os textos possuem uma multiplicidade de vozes que os atravessam por meio de uma voz privilegiada – a do locutor principal – que vai incorporando as outras. Essas vozes podem aparecer no texto de maneira explícita ou implícita. Um exemplo do primeiro caso é a citação no texto de ideias de outra pessoa. Um exemplo do segundo caso é a introdução no texto de ideias ou conceitos que fazem parte do senso comum, como afirmar que “televisão faz mal à saúde”. Nenhum texto se produz no vazio ou se origina do nada. Todo texto se alimenta, de modo claro ou subentendido, de outros textos. Um, ao retomar outro, tanto pode reiterar ou subverter as ideias presentes no texto “original”. O autor utiliza-o com o objetivo de apoiar ou de dizer algo totalmente diferente do que foi dito em outro texto, de criticar um ponto de vista, uma visão de mundo. Para Nicola, Florina e Ernani (2002), o conhecimento das relações entre os textos – e os textos utilizados como intertexto – é um poderoso recurso de produção e apreensão de significados. Quando um determinado autor recorre a outros textos para compor os próprios, certamente tem um motivo muito claro – a construção de significados específicos (crítica, reflexão, releitura, entre outras questões). Percorrer o caminho inverso, ou seja, buscar esse motivo e reconstruir o processo de produção leva a desvendar tais significados, pois um texto completa outro, lança luz sobre o outro. É o exercício da leitura que irá garantir tudo isso. 1.3.3.1 Textos e atividades 1) Leia, com atenção, o texto seguinte para responder ao que se pede. Sem adjetivos “Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele [delegado Fleury] ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com olhar de louco.” De Rose Nogueira,jornalista em São Paulo. Da ALN, foi presa em 1969, semanas depois de dar à luz. “No quinto dia, depois de muito choque, pau de arara, ameaça de estupro e insultos, abortei. Quando melhorei, voltaram a me torturar.” De Izabel Fávero, professora de administração em Recife. Da VAR-Palmares, foi presa em 1970. “Eu passei muito mal, comecei a vomitar, gritar. O torturador perguntou: ‘Como está?’. E o médico: ‘Tá mais ou menos, mas aguenta’. E eles desceram comigo de novo." De Dulce Chaves Pandolfi, professora da FGV-Rio. Da ALN, foi presa em 1970 e serviu de “cobaia” para aulas de tortura. “Eu não conseguia ficar em pé nem sentada. As baratas começaram a me roer. Só pude tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos.” De Hecilda Fontelles Veiga, professora da Universidade Federal do Pará. Da AP, foi presa em 1971, no quinto mês de gravidez. “Eu era jogada, nua e encapuzada, como se fosse uma peteca, de mão em mão. Com os tapas e choques elétricos, perdi dentes e todas as minhas obturações.” De Marise Egger-Moellwald, socióloga, mora em São Paulo. Do então PCB, foi presa em 1975. Ainda amamentava seu filho. 35 “Eu estava arrebentada, o torturador me tirou do pau de arara. Não me aguentava em pé, caí no chão. Nesse momento, fui estuprada.” De Gilze Cosenza, assistente social aposentada de Belo Horizonte. Da AP, foi presa em 1969. Sua filha tinha quatro meses. Trechos de 27 depoimentos de sobreviventes, intercalados às histórias de 45 mortas e desaparecidas no livro “Luta, Substantivo Feminino”, da série “Direito à Verdade e à Memória”. Será lançado na PUC- SP hoje, a seis dias do 31 de março. (Eliane Cantanhêde, Folha de S. Paulo, 25 março 2010, p. A2. Opinião) 1) Esse texto apresenta unidade temática. Qual? O que assegura essa unidade? 2) Que efeito produz a identificação das mulheres citadas? 3) No último parágrafo, em virtude da posição dos termos sintáticos que compõem o primeiro parágrafo, há um absurdo. Escreva o período para que o texto fique claro. 2) Leia, com atenção, os textos a seguir para responder ao que se pede. Os três macacos sábios A escultura Sanzaru, OS TRÊS MACACOS, - do Santuário de Toshogu, localizado na cidade de Nikko, Japão - é uma das mais famosas do templo Nikko Toshogu, o Templo do Xogum divinizado (Ieyasu Tokugawa). O três macacos são conhecidos como “Os Três Macacos Sábios” e significam: “não veja o mal, não ouça o mal, não fale o mal”. Seus nomes são: “Mizaru”, o que cobre os olhos e não vê o mal; “Kikazaru” o que cobre os ouvidos e não ouve o mal; e “Iwazaru”, o que cobre a boca e não fala o mal. Segundo alguns autores, haveria um quarto macaco, chamado Shizaru, com as mãos sobre o abdômen para lembrar “não faça o mal”. E embora não haja comprovação, eles teriam sido levados ao Japão por um monge budista chinês no século VIII. Dizem que o Mahatma Gandhi carregava uma gravura dos Três Macacos Sábios em suas viagens para lembrá-lo constantemente dos três segredos da Sabedoria: “não ouça o mal, não veja o mal, não fale o mal”." (Disponível em: <http://expiracaoeinspiracao.blogspot.com/2011/05/nao- ouca-nao-veja-e-nao-fale-o-mal.html>. Acesso em 18 julho 2011) Nem tudo se pode ver, ouvir ou dizer Um músico me escreve contando que pertence a uma grande orquesta, mas não tem prazer no trabalho por causa dos colegas. Não suporta o despotismo, a vaidade, a prepotência, a arrogância e a mania de grandeza de alguns. O convívio com “egos inflados” é 36 demasiadamente penoso, e ele me pergunta o que fazer. Eu, que sempre faço a apologia do ato generoso da escuta, sugiro ao músico que faça ouvidos moucos. Lembro que ele tem o privilégio de escutar os sons mais sutis e sabe ouvir o silêncio. Não precisa dar ouvidos ao que não interessa. Inclusive porque egos inflados estão em toda parte e a luta contra eles não leva a nada. Evitar a luta de prestígio é um bem que nós fazemos a nós e aos outros. Para viver, nem tudo nós podemos ver, escutar ou dizer. Isso é representado, desde a Antiguidade, pelos três macacos da sabedoria. Cada um cobre uma parte diferente do rosto com as mãos. O primeiro cobre os olhos, o segundo, as orelhas e o terceiro, a boca. A representação é originária da China. Foi introduzida no Japão, no século VIII, por um monge budista. A máxima que ela implica é “não ver, não ouvir e não dizer nada de mau”. Foi adotada por Gandhi, que levava sempre consigo os três macaquinhos, o cego, o surdo e o mudo – Mizaru, Kikazaru e Iwazaru. Eles ensinam a não enxergar tudo o que vemos, não escutar tudo o que ouvimos e não dizer tudo o que sabemos. Noutras palavras, ensinam a selecionar e a conter-se. Isso é decisivo para uma atitude construtiva, mas não é fácil. Somos impelidos a focalizar o que nos prejudica – impelidos por um gozo masoquista ao qual temos de nos opor continuamente. Só a consciência disso permite não sair do caminho em que a vida desabrocha. Seleção e contenção tornam a existência mais fácil. Desde que não sejam um efeito da repressão, como na educação tradicional, e sim do desejo do sujeito – um desejo vital de se opor às forças do inconsciente que podem nos fazer mal. Isso implica a humildade de aceitar que o inconsciente existe e nós não somos donos de nós mesmos. A ideia não é nova. Data da descoberta da psicanálise por Freud, no fim do século XIX, mas continua a ser ignorada porque é difícil nos livrarmos do ego. Sobretudo numa sociedade como a nossa, que tanto valoriza, e que não condena a vaidade, a prepotência, a arrogância. Pelo contrário, estimula-as para se perpetuar. (MILAN, Bety. Nem tudo se pode ver, ouvir ou dizer. Veja, 12 janeiro 2011. p. 92. A autora é e psicanalista e escritora) Três macaquinhos Três macacos juntos Na sabedoria Eles me ensinaram A filosofia Um que nada ouve Não ouviu, se cala Um que nada vê Outro nada fala Fala, fala... Três macacos juntos Na filosofia Eles me ensinaram A sabedoria Eu que nada ouço Não ouvi, não falo Eu que tudo vejo Tudo vejo e calo Calo, calo... Tô, eu tô na minha, tô, tô Tô, eu tô na minha, tô – falo? (2x) Quero aproveitar o ensejo Pra te dizer que mal falo, mal ouço, mal vejo Quero aproveitar esse embalo Pra te dizer que mal ouço, mal vejo, mal falo Sou macaco velho seu moço Por isso digo mal falo, mal vejo, mal ouço Porque... Tô, eu tô na minha, tô, tô Tô, eu tô na minha, tô – falo? (2x) 37 Três macacos juntos Na sabedoria Eles me ensinaram A filosofia Um que nada ouve Não ouviu, se cala Um que nada vê Outro nada fala Fala, fala... Três macacos juntos Na filosofia Eles me ensinaram A sabedoria Eu que nada ouço Não ouvi, não falo Eu que tudo vejo Tudo vejo e calo Calo, calo... Tô, eu tô na minha, tô, tô Tô, eu tô na minha, tô – falo? (2x) Quero aproveitar o ensejo Pra te dizer que mal falo, mal ouço, mal vejo Quero aproveitar esse embalo Pra te dizer que mal ouço, mal vejo, mal falo Sou macaco velho seu moço Por isso digo mal falo, mal vejo, mal ouço Porque... Tô, eu tô na minha, tô, tô Tô, eu tô na minha, tô – falo? (Artista: Baiano e Os Novos Caetanos. Album: Otras. Disponível em: <http://letras.azmusica.com.br/B/letras_baiano_ e_os_novos_caetanos_4486/letras_otras_3030/letra_tres_ macaquinhos_1251294.html>. Acesso em: 18 julho 2011) Charge Palloci Folha de S. Paulo, 21 maio 2011. p. A2. Caderno Opinião 1) Os textos foram produzidos com que intenções? Justifique sua resposta apontando elementos e/ou passagens dos textos. 2) Como entender o processointertextual instaurado na produção dos textos? 3) A partir da análise dos textos, comente a seguinte colocação: não há texto isolado, o que há é uma imensa rede de textos. 38 3) Ainda que de forma não intencional, o movimento dos bailarinos do célebre A Dança, do francês Henri Matisse, influenciou não só a logomarca das Olimpíadas Rio 2016 mas também a da Tellurde Foundation, copiada em 2004 pelo Carnaval de Salvador. Legalmente, a logo do Rio 2016 não é considerada plágio. Após analisar as imagens com cuidado, responda: onde estariam as diferenças? A Dança, de Henri Matisse Telluride Foundation, logo Carnaval de Salvador, 2004, logo Rio 2016, logo 39 Capítulo 2 02 Texto e sua textualidade Não adianta saber que escrever é diferente de falar. É necessário preocupar-se com o sucesso dos objetivos da produção textual, como a interação entre o produtor do texto e o seu receptor. Para que se tenha êxito nesse processo, deve-se construir um todo significativo. É preciso, portanto, recorrer a elementos que possam auxiliar na ligação das partes, na construção da coerência, entre outos. Neste capítulo, você terá acesso, num primeiro momento, a uma questão fundamental quando se fala de textos, que é a coerência. Num segundo momento, será abordado outro fator que contribui para o sucesso da produção de textos, que é a coesão. Por último, será vista a construção do parágrafo e sua articulação no texto. 2.1 Coerência textual Como vimos anteriormente, os textos são veiculadores de intenções. Essas intenções ou propósitos do autor de um texto somente terão sentido se houver uma organização harmônica das ideias apresentadas. Podemos dizer, portanto, que um texto não é um aglomerado de frases, mas um todo organizado capaz de manter contato com seus leitores, agindo sobre eles. Dizer que um texto é uma organização de sentido é dizer que ele é coerente. A coerência é resultante da não- contradição entre os segmentos textuais e da adequação entre o que está na materialidade textual e o contexto extraverbal. No primeiro caso, um segmento é pressuposto para o seguinte e assim sucessivamente. No segundo, o que é dito no texto deve estar em harmonia com o nosso conhecimento de mundo, sobre o que é permitido ou não em determinadas situações – que inclui nosso conhecimento sobre tipo e gêneros textuais. Assim, há uma transmissão e uma recepção de uma linha de pensamento. Frequentemente nos deparamos com situações em que se afirma algo, mas se faz o contrário. Como exemplo, na última campanha eleitoral política, muitos eleitores se sentiram traídos pela candidata Dilma Rousseff ou deixaram de dar créditos ao seu discurso, uma vez que constataram uma mudança de pensamento da candidata em relação ao tema do aborto. A capa de Veja (13 out. 2010), abaixo reproduzida, enfatiza essa “mudança de pensamento”, para, de certo modo, o que fica mais evidente na reportagem, desqualificar a candidata. A incoerência está clara não só nas citações em discurso direto da candidata, mas também na organização visual da capa. Os dois blocos de informações da capa, um vermelho (discurso desfavorável à opinião pública) e outro branco (discurso favorável à opinião pública), mostram ao leitor de Veja uma dupla face da candidata. Não estaria a revista dizendo: “Veja o discurso da candidata, (e)leitor!” 40 Fiorin e Savioli (2007) apresentam três níveis em que a coerência deve ser observada: narrativo, figurativo e argumentativo. No primeiro, a coerência está na decorrência lógica das ações e de suas relações com os personagens que as praticam. No segundo, a coerência está na articulação harmônica entre o que é descrito (as figuras), com base na relação de significado que mantém entre si. No terceiro, a coerência está na apresentação concatenada de uma ideia que será defendida, de argumentos que sustentam essa ideia e do remate dado pela conclusão. Ao produzir nossos textos, devemos estar atentos à organização coerente de nossas ideias. Recuperar a credibilidade e a confiança do nosso interlocutor não é uma tarefa simples. Embora eleita, a candidata perdeu eleitores em virtude de contradições ditas durante sua campanha. 2.1.1 Textos e atividades 1) Leia, com atenção, o texto a seguir para responder ao que se pede. Em março de 2005, o acordo com o FMI não foi renovado, resultado do sucesso do ajuste na economia promovido pelo governo federal nesses dois anos, que, entre outras coisas, permitiu a queda da relação dívida pública/PIB por dois anos seguidos, ao mesmo tempo em que a distribuição de renda melhorava e se criavam 100.000 empregos formais por mês. Com a economia continuando a se fortalecer nos meses seguintes (mais exportações, menos inflação), a decisão de quitar integralmente a dívida com o Fundo de forma antecipada pôde ser tomada com toda a segurança, trazendo benefícios para a melhora da imagem do país e a diminuição do custo de captação da dívida pública. (Adaptado de Em Questão, n. 387 - Brasília, 26 de dezembro de 2005) Assinale a opção que não completa o período abaixo de acordo com as idéias do texto acima. Foi possível dispensar a renovação do acordo com o FMI em decorrência de a) sucesso do reajuste na economia promovido pelo governo federal. b) queda da dívida pública/PIB por dois anos seguidos. c) melhoria da distribuição de renda e criação de 100.000 empregos por mês. d) melhora da imagem do país no exterior. 2) Sem afetar o princípio da coerência, assinale a alternativa que apresenta o título mais adequado para o texto a seguir. 41 A Receita Federal prepara uma grande operação de fiscalização na indústria de refrigerantes. Os alvos são as fábricas de concentrado que funcionam em Manaus. Por lei, os produtos com matéria-prima regional – como o guaraná – têm isenção de IPI. Mas a Receita descobriu que muitas empresas levam ingredientes de outras regiões para Manaus, colocam em novas embalagens e mandam de volta às engarrafadoras no Sudeste como se fossem produzidos na Zona Franca, sem pagar imposto. (Exame, 12 julho 2007) a) Indústria de refrigerantes b) Guaraná sem imposto c) Combate à sonegação d) Embalagens ilegais 3) Sem afetar a coerência, assinale a alternativa que apresenta o título adequado para o texto a seguir. Na semana passada, Lula garantiu que os ministérios não foram entregues de "porteira fechada" aos partidos aliados – ou seja, o partido que fez o ministro não nomeará verticalmente os outros cargos do ministério. Beleza de discurso. Mas não é bem assim. Um bom exemplo é o Ministério das Cidades, sesmaria sob o comando do PP. Com exceção de um posto relevante, que a pedido do próprio Lula continuará nas mãos de uma petista ligada aos "movimentos sociais", o resto está sendo loteado dentro do próprio PP. (Veja, 11 abril 2007, p. 50) a) Porteira (quase) fechada b) Porteira (totalmente) fechada c) Discurso (quase) filosófico d) Discurso (totalmente) filosófico 4) Todas as manchetes abaixo admitem mais de uma interpretação, EXCETO: a) Pelé critica futebol movido por dinheiro. b) TCE autoriza instalação de 100 radares. c) Cruzeiro enfrenta Atlético sem cinco titulares. d) Procurador não crê em fim de subsídio prometido por Governador. 5) Assinale a asserção que dá seqüência coerente ao texto. Ao longo da história capitalista, o mundo viveu alguns momentos particularmente felizes em termos de crescimento econômico e produção de riqueza, nos quais tudo parecia conspirar a favor da prosperidade. Foi assimno início do século 20, quando a indústria moderna deu um salto para um patamar até então inédito. O mesmo ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, com a Europa e o Japão literalmente se reerguendo das cinzas para se transformar em potências econômicas de primeira grandeza. É também o que se observa, em escala sem precedentes, neste início do século 21. A taxa de expansão mundial no ano passado, de 5,1 %, é a mais alta em décadas. Mas o que realmente chama a atenção é sua dispersão geográfica. A taxa de juro se encontra num dos patamares mais baixos dos últimos tempos – o que funciona como um impulso extra ao crescimento. Como conseqüência, o que se vê mundo afora é produção e consumo em alta, desemprego e miséria em queda. (Exame, 28 set.2005, pág. 21, adaptado). 42 a) A desvantagem fica mais evidente ao se confrontar o desempenho brasileiro não com a média do globo, mas com países em estágio de desenvolvimento semelhante, as chamadas economias emergentes. b) Para os brasileiros, esse momento de rara felicidade global deixa a incômoda sensação de que não estamos participando como deveríamos da festa. c) Não se pode esquecer que o aquecimento da demanda global foi um grande alicerce para que a economia brasileira se mantivesse em pé em tempos de crise política. d) Graças a um volume recorde no comércio global, os bons ventos têm soprado não apenas para as nações ricas, mas especialmente para as remediadas e até para as mais pobres. 6) Assinale a alternativa que apresenta, sem afetar o princípio da coerência, o título mais adequado para o texto abaixo, retirado de Exame (10 set. 2008). a) Entrada na casa, salário a discutir b) Maior tempo de casa, menor salário c) Bonificações salariais e tempo de casa d) Redução salarial de executivos antigos 7) Assinale a alternativa que apresenta, sem afetar o princípio da coerência, o título mais adequado para o texto abaixo, retirado de Exame (23 abril. 2008). a) Mercado aquecido b) Grandes montadoras c) Montadoras em ascensão d) Crescimento menor 43 8) Assinale a alternativa que apresenta, sem afetar o princípio da coerência, o título mais adequado para o texto abaixo, retirado de Exame (26 março 2008). a) Eles se preocupam b) Eles estão com receios c) Elas movem o mercado d) Elas dominam o mercado 9) Vamos supor que você recebeu de um amigo de infância e seu colega de escola um pedido, por escrito, vazado nos seguintes termos: “Venho mui respeitosamente solicitar-lhe o empréstimo do seu livro de Redação para Concurso, para fins de consulta escolar.” Essa solicitação em tudo se assemelha à atitude de uma pessoa que a) comparece a um evento solene vestindo smoking completo e cartola. b) vai a um piquenique engravatado, vestindo terno completo, calçando sapatos de verniz. c) vai a uma cerimônia de posse usando um terno completo e calçando botas. d) freqüenta um estádio de futebol usando sandálias de couro e bermudas de algodão. 10) A respeito dos dois textos, é correto afirmar que; I. O assédio em si trás no meio um poder aquisitivo escondendo ao trabalho, assim podendo fazer e refazer, adicionando o sentido, junto a essa conduta de mulher ideal, Não querendo ser prejudicial ao método agressivo, mas ao jeito decisivo a maneira pela força que o traz da forma de se agir, A teimosia circunstancial vem devido ao exotismo da participação com credibiloso contraste à elevacidade do adultério da simples cena de uma turbulência a um ser precioso. (Trecho de dissertação de um aluno de ensino médio) II. A safra pertenceu originalmente a um sultão que morreu em circunstâncias misteriosas, quando urna mão saiu de seu prato de sopa e o estrangulou. O proprietário seguinte foi um lorde inglês, o qual foi encontrado certo dia, florindo maravilhosamente numa jardineira. Nada se soube da jóia durante algum tempo. Então, anos depois, ela reapareceu na posse de um milionário texano que se incendiou enquanto escovava os dentes. (Woody Allen, Sem plumas) 44 a) O texto I é incoerente, pois não faz sentido no contexto em que foi escrito. b) O texto I e o texto II são incoerentes, qualquer que seja o contexto imaginado para sua interpretação. c) O texto I é coerente: dada sua finalidade, as relações de sentido tornam-se claras. d) Os textos I e II são coerentes: dada sua finalidade, as relações de sentido tornam-se claras. e) O texto II é incoerente, pois faz referência a acontecimentos que contrariam a lógica de qualquer mundo imaginável. 11) Quando o treinador Leão foi escolhido para dirigir a seleção brasileira de futebol, o jornal Correio Popular publicou um texto com muitas imprecisões, do qual consta a seguinte passagem: Durante sua carreira de goleiro, iniciada no Comercial de Ribeirão Preto, sua terra natal, Leão, de 51 anos, sempre impôs seu estilo ao mesmo tempo arredio e disciplinado. Por outro lado, costumava ficar horas aprimorando seus defeitos após os treinos. Ao chegar à seleção brasileira em 1970, quando fez parte do grupo que conquistou o tricampeonato mundial, Leão não dava um passo em falso. Cada atitude e cada declaração eram pensadas com um racionalismo típico de sua família, já que seus outros dois irmãos, Edmílson, 53 anos, e Édson, 58, são médicos. (Correio Popular, Campinas, 20 out. 2000) a) O que aconteceria com Leão se ele, efetivamente, ficasse “aprimorando seus defeitos”? Reescreva o trecho de maneira a eliminar o equívoco. b) A expressão “por outro lado”, no início do segundo período, contribui para tornar o trecho incoerente. Por quê? c) Por que o emprego da palavra “racionalismo” é inadequado nessa passagem? 12) Leia, com atenção, as considerações a seguir. Não importam suas diferenças e efeitos, os vírus da dengue enganam com facilidade o sistema imunológico. PORQUE Num organismo que foi contaminado anteriormente, quando a infecção é por outro tipo de vírus, as células de defesa acham que se trata do mesmo micróbio e baixam a guarda. Analisando a relação proposta entre os dois blocos de ideias, assinale a alternativa correta. a) As duas afirmativas são verdadeiras, e a segunda justifica a primeira. b) As duas afirmativas são verdadeiras e a segunda não justifica a primeira. c) A primeira afirmativa é verdadeira e a segunda é falsa. d) A primeira afirmativa é falsa e a segunda é verdadeira. e) As duas afirmativas são falsas. 45 13) O que é necessário saber para tornar o texto da tirinha abaixo coerente? 14) Em que aspectos a publicidade abaixo é incoerente? Em que aspectos é coerente? (Disponível em: <http://www.benetton.com/portal/web/guest/home>. Acesso em: 24 jan. 2011) 15) Nesse texto, há um caso de incoerência argumentativa. Procure identificá-la. Embora existam políticos competentes e honestos, preocupados com as legítimas causas populares, os jornais, na semana passada, noticiaram casos de corrupção comprovada, praticados por um político eleito pelo povo. Isso demonstra que o povo não sabe escolher seus governantes. 46 2.2 Coesão textual Nas seções anteriores vimos uma diversidade de gêneros textuais, verbais, não verbais e mistos. Nesta seção, abordaremos apenas textos da modalidade escrita devido a sua importância para o fazer acadêmico e profissional. Veremos, portanto, um dos principais recursos que contribuem para fazer com que frases amontoadas sejam consideradas um texto: a coesão. Há certa confusão entre os termos coerência e coesão. Enquanto a coerência se refere à unidade de sentido e, por isso, é de umnível profundo, a coesão é a ligação, a relação, a conexão entre as palavras, expressões, frases ou parágrafos do texto. Os elementos coesivos assinalam a conexão entre partes do texto. A palavra texto, na sua etimologia, vem do latim textum, que significa tecido, entrelaçamento. Produzir um texto é o mesmo que praticar a ação de tecer, entrelaçar unidades e partes com a finalidade de formar um todo. Desse modo, podemos falar em textura de um texto, que é a rede de relações coesivas. São muitos os mecanismos de coesão textual. Nesta seção, vamos estudar alguns. Esperamos que, a partir desse estudo, você esteja apto a não só perceber outros em suas leituras, mas também a recorrer a outros em sua produção textual. Escolhemos um editorial da revista Veja (27 abril 2006, p. 9) para demonstração do que consideramos um texto bem tecido. Destacamos apenas alguns recursos coesivos para estudo e para demonstração da continuidade textual. O Brasil tem jeito Desde a volta da democracia, em 1985, o país tem passado por uma série de escândalos na esfera institucional (1). No Poder Executivo (2), houve o impeachment de um presidente e, recentemente, a demissão de ministros envolvidos em esquemas ilícitos. No Legislativo (3), por seu turno (4), ainda se escutam os ecos do mensalão e não empalideceram as imagens dos “anões” da Máfia do Orçamento sendo banidos da vida pública. Agora, com a Operação Hurricane (furacão, em inglês), deflagrada pela Polícia Federal para prender os integrantes de uma quadrilha que explorava o jogo de caça- níqueis, chegou a vez de (5) o Judiciário (6) ter exposta a sua banda podre (7). Três desembargadores foram presos e um ministro do Superior Tribunal de Justiça (8) está afastado das suas funções. Pesa sobre esses togados (9) a acusação de venda de liminares. Com tais instrumentos jurídicos (10), os exploradores do jogo (11) conseguiam manter em funcionamento milhares de casas ilegais de jogatina, dotadas de máquinas manipuladas para lesar o jogador. Há indícios de que pode haver ainda (12) outros altos integrantes do Judiciário (13) comparsas dessa máfia (14). A sucessão de escândalos de corrupção no Brasil costuma provocar nos cidadãos a impressão de que o país não tem jeito (15). É como se a desonestidade fosse parte inextirpável do caráter nacional. Compreende-se que os ânimos se arrefeçam, mas (16) é preciso enxergar o fenômeno (17) de um ângulo mais amplo. Em primeiro lugar (18), os escândalos só vêm à tona graças ao bom funcionamento das instâncias responsáveis pela fiscalização do poder (19) – entre as quais a imprensa livre, a polícia e, ressalte-se (20), a imensa maioria dos integrantes do Poder Judiciário (21). Em segundo lugar (22), a cada quadrilha estourada, a cada esquema desvendado, dá-se um passo a mais para a depuração das instituições. Por isso (23), pode- se analisar a operação da Polícia Federal ora em curso (24) como uma contribuição ao aprimoramento da Justiça (25), cuja (26) distribuição igualitária e eficiente é um dos pilares das sociedades abertas e modernas. A continuar por esse caminho (27), o Brasil tem jeito (28), sim. 47 No quadro abaixo, encontram-se os comentários acerca dos elementos de coesão destacados no texto. (1) Embora essa “série de escândalos” esteja indefinida, é a expressão desencadeadora da organização do texto. (2) O autor apresenta, sem comentários, o primeiro dos três poderes institucionais e, a partir daí, dois escândalos aí ocorridos. (3) O autor apresenta, sem comentários, o segundo dos três poderes institucionais. (4) Essa expressão marca a passagem para a apresentação dos escândalos no Legislativo. Não há comentários acerca desses escândalos. (5) Essa expressão marca a passagem para a apresentação do escândalo no Judiciário. No meio da expressão é apresentado o escândalo aí ocorrido. (6) Essa expressão apresenta o terceiro dos três poderes, que é o Judiciário. (7) Refere-se “quadrilha que explorava o jogo de caça-níqueis”, que, por sua vez, antecipa a “banda podre” do Judiciário. (8) Refere-se a “banda podre”, identificando-a. (9) Refere-se a “três desembargadores” e a “um ministro”. (10) Refere-se a “liminares”. (11) Refere-se aos envolvidos no escândalo que pagaram pelas liminares. (12) Elemento que mostra a inclusão de membros do Judiciário no escândalo. (13) Refere-se aos desembargadores e ao ministro, além de deixar marcado o envolvimento de outros integrantes do Judiciário. (14) Refere-se a “banda podre”, já detalhada anteriormente. (15) Recupera “uma série de escândalos na esfera institucional” do primeiro parágrafo para o articular com o segundo e para acrescentar que o Brasil não tem jeito. (16) Conector que opõe a impressão de que o Brasil não tem jeito a um novo modo de “ver” os escândalos, anunciando-se um otimismo. (17) Refere-se aos escândalos na esfera institucional. (18) Expressão que fragmenta, num primeiro momento, a noção “amplo”, anteriormente apresentada. (19) Essas “instâncias” são apresentadas a seguir, após um travessão, destacando-se o Judiciário. (20) Operador que enfatiza a ideia seguinte. (21) Opõe-se a “banda podre” do primeiro parágrafo, assinalando o otimismo do autor. (22) Expressão que fragmenta, num segundo momento, a noção “amplo”, anteriormente apresentada. (23) Conector responsável por encaminhar o fechamento da questão de que o Brasil tem jeito. (24) Refere-se a “Operação Hurricane”, no primeiro parágrafo. (25) Refere-se ao Poder Judiciário. (26) Refere-se a “Justiça”. (27) Expressão que abre a conclusão subjetiva do autor. “Esse caminho” refere-se ao fato de que, se os esquemas são desvendados, há depuração das instituições. (28) Recupera o título do título do texto, deixando explícito o otimismo do autor. Você percebeu que um texto não é simplesmente um conjunto de frases aleatório. A nossa experiência como falante não é a de formar frases; a nossa experiência é a de produzir textos a todo momento. A análise e a leitura do texto O Brasil tem jeito mostraram o papel dos mecanismos de coesão, que é, de acordo com Antunes (2005, p. 47), criar, estabelecer e sinalizar os laços que deixam os vários segmentos do texto ligados, articulados, 48 encadeados. Portanto, a função da coesão é a de promover a continuidade do texto, a sequência interligada de suas partes, para que não se perca o fio de unidade que garante sua interpretabilidade. Quando lemos o primeiro parágrafo do texto O Brasil tem jeito, temos a impressão – ou somos levados a isso – de que o Brasil não tem jeito. São mencionados vários escândalos nos poderes constitutivos de nosso país. Na transição para o segundo parágrafo, o autor retoma a “série de escândalos” do primeiro parágrafo para, além de dar continuidade ao seu texto, fazê-lo progredir noutra direção, que é a de nos levar a acreditar que o Brasil tem jeito. No interior de cada parágrafo, são feitas retomadas e antecipações, além de se deixarem explícitas algumas conexões. Tudo isso para garantir não só a continuidade do texto, mas também o sucesso de sua interpretabilidade. Há dois tipos de coesão: a referencial e a sequencial. O primeiro tipo se caracteriza por substituições de um elemento por outro e por reiterações de elemento do texto. O segundo tipo se refere ao desenvolvimento propriamente dito, ora por procedimentos de manutenção temática, como emprego de termos pertencentes ao mesmo campo semântico, ora por meio de processos de progressão temática, que podem realizar-se por meio da satisfação de compromissos textuais anteriores ou por meio de novos acréscimos ao texto. Quando vamos escrever um texto nos baseamos em quatro elementos centrais: a repetição, a progressão, a não-contradiçãoe a relação. Todas essas partes compõem o texto, relacionando-se com o que já foi dito ou com o que se vai dizer. Vejamos o que quer dizer cada um desses elementos. Repetição – Ao longo de um texto coerente, ocorrem repetições, retomadas de elementos. Essa retomada é normalmente feita por pronomes ou por palavras e expressões equivalentes ou sinônimas. Também podemos repetir a mesma palavra ou expressão, o que deve ser feito com cuidado, a fim de que não seja prejudicado. Progressão – Num texto coerente, devemos sempre acrescentar novas informações ao que já foi dito. A progressão complementa a repetição: esta garante a retomada de elementos passados; aquela garante que o texto não se limite a repetir indefinidamente o que já foi colocado. Dessa forma, equilibramos o que já foi dito com o que se vai dizer, garantindo a continuidade do tema e a progressão do sentido. Não-contradição – Num texto coerente, não devem surgir elementos que contradigam aquilo que já foi considerado falso, ou vice-versa. Esse tipo de contradição só é tolerado se for intencional. Não se deve confundir a não-contradição com o contraste, pois a aproximação de idéias e fatos contrastantes é um recurso muito freqüente no desenvolvimento da argumentação. Relação – Num texto coerente, os fatos e conceitos devem estar relacionados. Essa relação deve ser suficiente para justificar sua inclusão num mesmo texto. Para que se avalie o grau de relação dos elementos que vão construir o texto, é importante organizá-lo esquematicamente antes de escrever. Feito o esquema, é importante observar se a aproximação das idéias é realmente eficaz. Esses quatro itens (repetição, progressão, não-contradição e relação) podem ajudar a avaliar o grau de coesão dos textos. A configuração final do texto depende ainda de outros fatores, como o canal de comunicação, o perfil do receptor e as finalidades pretendidas pelo emissor. Todos esses fatores afetam diretamente as feições do texto que se pretende bem-sucedido. Nas atividades a seguir, você verá, de modo operacional, os tipos de coesão mencionados e esses elementos centrais de avaliação dos textos. 49 2.2.1 Textos e atividades 1) Leia, com atenção, texto a seguir para preencher o quadro. Na coluna de coesão referencial, escreva o referente ao qual o termo ou expressão destacada faz alusão. Na coluna da coesão sequencial, diga o valor semântico do conector destacado. Cerveja preta aumenta o leite? Não. APESAR DA antiga crença de que beber cerveja preta aumenta a quantidade de leite em mulheres grávidas, não existem estudos que comprovem o fato. E, na realidade, qualquer tipo de bebida alcoólica é contra-indicada nessa situação. Num estudo feito em 1993, a cientista americana Julie Mennella acompanhou lactantes que ingeriram bebidas alcoólicas E encontrou indícios de que elas produziam menos leite. Ninguém sabe ao certo a origem da crença. Uma das hipóteses é que ela tenha surgido PORQUE mulheres que ingeriram bebidas de alto teor alcoólico não eram bem vistas na sociedade. “A cerveja preta tem menos álcool QUE bebidas COMO a cachaça e, POR ISSO, ganhou status de bebida de ‘mulheres decentes’. OU SEJA, mães. A partir daí, a relação foi se aperfeiçoando”, diz Maria Amélia Bitar, autora da tese “Aleitamento materno: um estudo sobre crenças e tabus ligados à prática”. O que se sabe é que o mito não é exclusividade brasileira. E já foi levado TÃO a sério QUE, nos anos 80, nos Estados Unidos, foi criada a Malt Nutrine, uma bebida escura que era vendida em farmácias e recomendada por médicos PARA incentivar a produção de leite. (Taíssa Stivanin. Super Interessante, fev. de 2005, p. 30) Coesão referencial Coesão sequencial o fato – APESAR DA – nessa situação - E – que – PORQUE – elas – QUE – da crença – COMO – ela – POR ISSO – mães – OU SEJA – o mito – TÃO ... QUE – bebida escura – PARA – 2) Os textos abaixo necessitam de conectores para sua coesão. Empregue as partículas que estão entre parênteses no lugar adequado. a) Uma alimentação variada é fundamental seu organismo funcione de maneira adequada. Isso significa que é obrigatório comer alimentos ricos em proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e sais minerais. Esses alimentos são essenciais. Você esteja fazendo dieta para emagrecer, não elimine carboidratos, proteínas e gorduras de seu cardápio. Apenas reduza as quantidades. Você emagrece sem perder saúde. (assim, mesmo que, para que). b) Nem sempre é fácil identificar a violência. Uma cirurgia não constitui violência, visa o bem do paciente, é feita com o consentimento do doente. Será violência a operação for realizada sem necessidade ou o paciente for usado como cobaia de experimento científico sem a devida autorização. (mas certamente, se, se, primeiro porque, depois porque, por exemplo) 50 c) O Brasil pretende sediar as Olimpíadas do ano 2004. A idéia é interessante. O que não podemos esquecer antes de mais nada temos que conquistar muitas medalhas nas olimpíadas da nossa existência como uma nação digna. Alguns dos nossos velhos e temíveis adversários a serem derrotados são a fome, a miséria, a violência, o analfabetismo e a ignorância. O nosso principal desafio será ganhar a medalha de ouro da moralidade, “o povo sem moral vai mal”. (pois, até que, afinal, é que) 3) Apresentamos alguns segmentos de discurso separados por ponto final. Retire o ponto final e estabeleça entre eles o tipo de relação que lhe parecer compatível, usando para isso os elementos de coesão adequados. a) O solo do Nordeste é muito seco e aparentemente árido. Quando caem as chuvas, imediatamente brota a vegetação. b) Uma seca desoladora assolou a região sul, principal celeiro do país. Vai faltar alimento e os preços vão disparar. c) Inverta a posição dos segmentos contidos na questão B e use o conectivo apropriado: d) O trânsito em São Paulo ficou completamente paralisado dia 15, das 14 às 18 horas. Fortíssimas chuvas inundaram a cidade. 4) As questões a seguir apresentam problemas de coesão por causa do mau uso do conectivo. Substitua a forma errada pela correta. a) Em São Paulo já não chove há mais de dois meses, apesar de que já se pense em racionamento de água e energia elétrica. b) As pessoas caminham pelas ruas, despreocupadas, como se não existisse perigo algum, mas o policial continua folgadamente tomando o seu café no bar. c) Talvez seja adiado o jogo entre Botafogo e Flamengo, pois o estado do gramado do Maracanã não é dos piores. d) Uma boa parte das crianças mora muito longe, vai à escola com fome, onde ocorre o grande número de desistências. 5) Leia, com atenção, o texto a seguir. Identifique, grifando no texto, os mecanismos responsáveis pela continuidade das ideias. Apresente um esquema da organização textual. Durante muito tempo, três inquietações dominaram a relação com a cultura escrita. A primeira é o temor da perda. Ela levou à busca dos textos ameaçados, à cópia dos livros mais preciosos, à impressão dos manuscritos, à edificação das grandes bibliotecas. Contra os desaparecimentos sempre possíveis, trata-se de recolher, fixar e preservar. A tarefa, jamais finda, é ameaçada por um outro perigo: a corrupção dos textos. No tempo da cópia manuscrita, a mão do escriba pode falhar e acumular os erros. Na era do impresso, a ignorância dos tipógrafos ou dos revisores, como os maus modos dos editores, trazem riscos ainda maiores. Preservar o patrimônio escrito frente à perda ou à corrupção suscita também uma outra inquietude: a do excesso. A proliferação textual pode se tornar obstáculo ao conhecimento. Para dominá-lo, são necessários instrumentos capazes de triar, classificar, hierarquizar. Mas, irônicoparadoxo, essas ferramentas são elas próprias novos livros que se juntam a todos os outros. (CHARTIER, Roger. As aventuras do livro: do leitor ao navegador: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: UNESP, 1998, p.99) 51 6) Leia atentamente os itens a seguir para responder ao que se pede: I. No dia seguinte, o acusado compareceu ao tribunal, apesar de haver declarado que não o faria. II. Se tivesse decidido continuar no futebol de alto nível, não o faria nem no Flamengo nem no Fluminense. III. O fato de estar trabalhando como professor não o faria mais feliz. Assinale a alternativa em que o elemento sublinhado tenha sido CORRETAMENTE identificado. a) comparecer ao tribunal – continuar – ele, como professor b) comparecer ao tribunal – continuar no futebol de alto nível – ele c) comparecer, no dia seguinte – decidir continuar – estar trabalhando como professor d) comparecer ao tribunal no dia seguinte – continuar no futebol – ele estar trabalhando 7) Os trechos abaixo constituem um texto, mas estão desordenados. Ordene-os e assinale a opção correta. ( ) Tal incremento da carga orgânica poluidora nos corpos d´água leva à escassez de água com boa qualidade, fato já verificado em algumas regiões do país. ( ) Entre os maiores desafios da gestão de recursos hídricos no Brasil está a redução das cargas poluidoras que degradam os corpos d’água. ( ) Tanto é assim que menos de 20% do esgoto urbano recebe algum tipo de tratamento, o restante é lançado nos corpos d´água “in natura”, colocando em risco a saúde do ecossistema e da população local. ( ) Nesse cenário, os efluentes domésticos representam uma das principais fontes de degradação dos ecossistemas aquáticos do território nacional. ( ) Principalmente em regiões metropolitanas, essa degradação da qualidade da água vem criando situações insustentáveis do ponto de vista de desenvolvimento. a) 2, 1, 4, 5, 3 b) 3, 2, 4, 5, 1 c) 3, 5, 4, 2, 1 d) 5, 1, 4, 3, 2 e) 4, 3, 2, 1, 5 8) Assinale a alternativa que propõe alteração ADEQUADA para o trecho a seguir, de modo a eliminar o efeito de sentido indesejável que ele pode imprimir ao texto. O delegado Clóvis Rodrigues de Souza, conforme a emissora, disse que o avião partiu do aeroclube de Garibaldi e fazia acrobacias. a) O delegado Clóvis Rodrigues de Souza disse que o avião partiu do aeroclube de Garibaldi e fazia acrobacias consoante a emissora. b) Em acordo com a emissora, o delegado Clóvis Rodrigues de Souza disse que o avião partiu do aeroclube de Garibaldi e fazia acrobacias. c) O delegado Clóvis Rodrigues de Souza também disse que o avião partiu do aeroclube de Garibaldi e, conforme a emissora, fazia acrobacias. d) De acordo com informações da emissora, o delegado Clóvis Rodrigues de Souza disse que o avião partiu do aeroclube de Garibaldi e fazia acrobacias. 52 9) Considere o seguinte período para analisar os esquemas propostos abaixo: Descumprir a lei gera o risco da punição prevista pelo Código Penal ou de sofrer sanções civis. A = Descumprir a lei B = gera o risco C = da punição prevista pelo Código Penal D = de sofrer sanções civis a) A → C A → B → D b) A → B → C B → D c) A → B A → C A → D d) A → B A → C → D e) A → B → C A D 10) Que pergunta pode ser feita para receber todas as respostas a seguir? Porque o trânsito estava muito congestionado, e eu fiquei preso(a) duas horas num engarrafamento. É que o metrô não funcionou hoje de manhã. Porque ontem fui a uma festa e dormi muito tarde. Porque meu irmão precisou ser levado ao hospital durante a madrugada. Porque ontem fiquei na firma até tarde, e o senhor me autorizou a compensar as horas hoje de manhã. Porque fui convocado pela justiça para depor no caso dos precatórios. 11) Fazer a pergunta certa na hora certa é, às vezes, mais difícil do que achar uma boa resposta. Essa é a dificuldade do cientista da história abaixo. Leia a história e tente resolver o problema. Um antropólogo desembarca numa ilha, com projetos de pesquisa. Na ilha, moram duas tribos: na primeira, a tribo A, as pessoas sempre mentem, são traiçoeiras, e tentam atrair os estrangeiros para matá-los. Na segunda, a tribo B, as pessoas são amigáveis e sempre dizem a verdade. Evidentemente, o antropólogo quer chegar com segurança à tribo B. Da praia, sai um caminho que, em determinado ponto bifurca. O antropólogo sabe que cada um dos caminhos da bifurcação leva a uma aldeia, mas não sabe qual. Na bifurcação, ele encontra um indígena, e resolve pedir informações, mas há dois problemas: 1) ele não sabe se o indígena encontrado na bifurcação pertence à tribo A ou B; 2) os índios daquela ilha só respondem a uma pergunta a cada dez anos, e não há ninguém mais por perto. O antropólogo faz uma única pergunta e chega com segurança à aldeia que procura. Qual é a pergunta? 53 12) Tem-se, abaixo, um fragmento de uma entrevista publicada em Exame (25 abril 2007, p. 90). Leia-o, com atenção, para responder ao que se pede. O desafio das marcas novas O termo neofobia é usado para descrever a aversão ao que é novidade. Para Daniel Goldstein, professor de marketing da London Business School, ele também pode ser aplicado à resistência de consumidores em testar produtos de uma nova marca. PERGUNTA 1 – ................................... GOLDSTEIN – Pode-se criar uma categoria diferente para um produto. O Cirque du Soleil se auto-denomina um "circo de vanguarda". O Stomp se intitula como um grupo artístico de percussão, apesar de usar latas de lixo como instrumento. Por isso as pessoas não os comparam a outros espetáculos tradicionais. PERGUNTA 2 – ................................... GOLDSTEIN – Sob pressão, os consumidores tendem a favorecer marcas que já conhecem. Exponha seu produto em lugares agradáveis, que motivem as pessoas a gastar tempo para analisá-lo. Sem afetar o princípio da textualidade, assinale a alternativa que apresenta as perguntas adequadas às respostas dadas por Goldstein. PERGUNTA 1 PERGUNTA 2 O que é neofobia? Quais são os lugares para a exposição? O que é um produto diferente? Como motivar os consumidores? Quais as causas da neofobia? Em que momento motivar as pessoas? a) b) c) d) Como combater a neofobia? E quando isso não é possível? 13) Leia, com atenção, as informações abaixo para responder ao que se pede. Uma compra é às vezes representada como uma dupla troca, em que o dinheiro passa das mãos do comprador para as do vendedor, e algum objeto (ou serviço) passa das mãos deste para as do comprador. No diagrama abaixo, os dois quadros representam dois momentos sucessivos. Sabendo que a letra d representa o dinheiro, o que representam as letras A, B e X? Qual seria o gráfico apropriado para os verbos “vender” e “pagar por”? 14) Leia o período para responder: é compreensível o seu conteúdo? Qual é o defeito? Chegaram instruções repletas de recomendações para que os participantes do congresso, que, por sinal, acabou não se realizando por causa de fortes chuvas, que inundaram a cidade e paralisaram todos os meios de comunicação. 54 15) O Jornal da Imprensa de Goiás, de 10 a 16.9.95, dedicou ao jornalismo daquele estado um longo “Especial”, do qual foi transcrita sem alterações a passagem a seguir: Hoje, apenas dois jornais diários existem em Goiás: O Popular e o Diário da Manhã. As redações são modernas, sendo que a informatização já chegou ao Diário da Manhã, e está anunciada para completa implantação em O Popular no máximo até dezembro. Os salários seguem pisos mínimos, contando-se nos dedos os jornalistas que contam com vencimentos,nas redações dos diários, à excessão [sic] dos editores, superiores a R$ 1000,00 por mês. a) Nesse trecho, foi empregado duas vezes o verbo contar. Transcreva a única ocorrência em que contar dá idéia de número. b) As duas ocorrências de contar diferem na construção e no sentido. Explique essas duas diferenças. c) Considerando que, no diagrama a seguir: – os círculos A, B, C e D identificam conjuntos de indivíduos que compartilham uma das seguintes propriedades: “ser jornalista”, “trabalhar numa redação de jornal”, “ser editor” e “ganhar mais de mil reais”; – a área preta identifica o tipo de profissional que, segundo o artigo do jornal é raro em Goiás, diga a que correspondem as letras A, B, C e D. 16) As frases abaixo apresentam quebra de paralelismo. Reescreva-as. a) É enorme a discrepância entre os candidatos e as vagas nos concursos. b) Obedeça e exija o cumprimento deste regulamento. c) Faríamos a pesquisa na biblioteca, mas, à última hora, desistiu-se. d) Não, não se trata de defender mais intervenção do Estado na economia ou que o Estado volte a produzir aço… e) Ele não só trabalha mas também é estudante. f) Trata-se de um argumento forte e que pode encerrar o debate. g) Funcionários cogitam nova greve e isolar o governador. h) Pedida a prisão de petista e empresário. Lula e Dantas têm duas semanas para recorrer. i) Ele hesitava entre ir ao cinema ou ir ao teatro. j) Com isso, conseguia-se o objetivo duplo de fortalecer o governo amigo e ainda por cima os oposicionistas eram incriminados. l) Não só todos ficaram perplexos e partiram desesperançados. 55 17) O trecho em destaque neste anúncio publicitário é marcado por quebra de paralelismo entre os termos relacionados pela noção de similaridade. 80% dos professores são mestres e doutores – índice similar às melhores faculdades públicas brasileiras. a) Explique em que consiste essa quebra de paralelismo no contexto dado. b) Reescreva o trecho, eliminando essa impropriedade. 2.3 Parágrafo, estrutura e articulação O parágrafo é, segundo Garcia (1978, p. 203), “uma unidade de composição, constituída por um ou mais de um período, em que se desenvolve determinada idéia central, ou nuclear, a que se agregam outras secundárias, intimamente relacionadas pelo sentido e logicamente decorrentes dela.” A definição desse autor não se aplica a todo tipo de parágrafo; aplica-se a apenas ao parágrafo- padrão. O parágrafo-padrão é bastante recorrente nos textos de natureza dissertativa, já que trabalham com ideias e exigem rigor e objetividade na composição. Apresenta a seguinte estrutura: a) introdução ou tópico frasal: expressa a ideia principal do parágrafo, definindo seu objetivo; b) desenvolvimento: corresponde a ampliação do tópico frasal, com apresentação de ideias secundárias que o fundamentam ou esclarecem; c) conclusão: nem sempre presente, especialmente nos parágrafos mais curtos e simples, a conclusão retoma a ideia central, levando em consideração os diversos aspectos no desenvolvimento. O texto a seguir, que é uma resenha, ilustra essa concepção de parágrafo-padrão. Os descobridores, de Daniel J. Boorstin; Civilização Brasileira; 646 páginas O caminho que o historiador americano Daniel Boorstin escolheu para escrever essa história* compacta da ciência é duplamente inovador. Em primeiro lugar, ele deixou de lado os habituais catálogos de nomes e descrições de experimentos que costumam rechear as obras de referência, entediando o leitor não especializado. Preferiu fazer a crônica da luta surda que sempre se travou entre as fantasias que os séculos transformariam em ciência e a “intocável realidade” que os instrumentos científicos de uma época podiam detectar. A segunda novidade foi a opção por uma narrativa romanceada – e não burocraticamente cronológica – para descrever a trajetória da evolução de alguns instrumentos, como o relógio, a bússola e o microscópio. Com isso, algumas passagens da obra ganham sabor inesperado. É o caso da história dos despertadores digitais, que o leitor aprenderá, deliciosamente, ter sua origem numa engenhoca inventada nos mosteiros medievais com a finalidade de acordar os monges para as orações noturnas. Longe da sisudez dos textos técnicos, Boorstin consegue a proeza de unir precisão científica e leitura acessível. 56 Assunto: a obra Os descobridores, de Daniel J. Boorstin, editada pela Civilização Brasileira. Delimitação do assunto: resenha crítica da obra. Objetivo fixado: mostrar a dupla inovação pelo escritor Boorstin ao escrever a história da ciência. Tópico frasal: Daniel Boorstin, ao escrever uma história compacta da ciência, procede a duas inovações. Plano de desenvolvimento das ideias: 1 Apresentação das duas novidades: 1.1 Abandono dos catálogos de nomes e descrições de experimentos e preferência pela crônica. 1.2 Opção por uma narrativa romanceada. Conclusão: o autor une precisão científica e leitura acessível. Num texto de vários parágrafos, seria pertinente que houvesse entre eles uma interligação – isso ajudará não só na elaboração, mas também na recepção do texto. Segundo Vianna (1998, p. 70), os parágrafos “funcionam como partes de um todo e devem articular-se de forma perfeita para que a informação não se disperse”. São eles responsáveis pelo nosso processo reflexivo. Enfim, cada parágrafo deve explorar uma só ideia, já que explorar várias delas ao mesmo tempo torna o texto confuso, o que pode prejudicar a coerência. 2.3.1 Textos e atividades 1) Nos parágrafos abaixo, destaque os elementos linguísticos que auxiliam na organização textual do desenvolvimento das ideias. [Opiniões sobre Freud] Se há opinião unânime sobre Sigmund Freud, é a de que mudou nossa maneira de compreender a cultura, o outro e a nós mesmos. Mas as divergências em torno de sua pessoa e de sua obra são imensas. Para alguns, Freud foi um gênio, um herói que desbravou as profundezas do inconsciente e expôs à posteridade sua vida pessoal em um grau desconhecido até então, por amor à ciência (...). Para outros, não foi mais que um charlatão, um covarde que abandonou a verdade por medo da opinião pública, um homem que enxergava o sexual em todas as coisas, alguém que perseguia os discípulos dissidentes, que não media os meios para impor suas idéias. (FREUD: a exploração do inconsciente. História do pensamento, Fase. 54, p. 641) [Tipos de poluição] Temos, na atmosfera, quatro tipos principais de poluição. A de origem natural, causada por agentes com poeira, nevoeiros, gases vulcânicos, odores de fermentação natural etc. Outra forma liga-se à ação de veículos automotores, que eliminam gases como monóxido de carbono, óxido de enxofre, cloro, bromo. Existe ainda a poluição registrada em conseqüência de fenômenos de combustão como aquecimento doméstico e outras incinerações, que explodem bióxido de carbono, composto de enxofre, hidrocarbonetos não queimados. Por último, a degradação deve-se à atividade industrial. (Revista Interior, ano II, número 18, jul/ago. 1987, p.42) 57 Progresso social e fertilidade. Os demógrafos explicam a relação entre progresso social e fertilidade em termos de uma transição demográfica de três fases. Na primeira, as condições sociais são más, tanto as taxas de mortalidade quanto as de natalidade são altas, e a população cresce pouco ou nada. Na segunda, aquelas condições começam a melhorar e as taxas de mortalidade decrescem, mas as de natalidade permanecem altas – de modo que o aumento da população é rápido. No estágio final, as taxas de natalidade também declinam, restabelecendo o equilíbrio com astaxas de mortalidade, e a população aumenta lentamente, ou não aumenta. (BROWN, Lester R. Por uma sociedade viável. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1983, p. 172) 2) Com as informações do quadro, produza um parágrafo dissertativo completo. Para a elaboração do tópico frasal e do desenvolvimento, você deverá ser fiel ao quadro; não faça comentários, apenas descreva. Na conclusão, apresente sua opinião. MAIS TRANSPARÊNCIA O que as empresas podem fazer para que os funcionários conheçam as políticas de remuneração 1. Enviar extratos mensais com todos os detalhes da remuneração – salário fixo, variável e benefícios 2. Criar simuladores de projeção dos bônus na intranet 3. Treinar os chefes para que saibam orientar seus subordinados sobre as regras de remuneração 4. Identificar, por meio de pesquisas, as práticas consideradas falhas pelos empregados. 3) Alguns assuntos são mostrados esquematicamente a seguir. Observe a delimitação de cada um deles e fixe um objetivo. As orientações do exercício anterior também se aplicam nesta tarefa. Feito isso, redija um parágrafo completo para cada esquema. a) Medidas para promoção da sáude 58 b) Tática de aproximação c) De olho na balança 59 d) Entenda a escala Richter e) Divisão internacional do trabalho 60 4) Com as informações do quadro a seguir, produza um texto de cinco parágrafos. Para a delimitação deles, observe o modo como as informações foram distribuídas no quadro. Nos quatro primeiros, seja fiel ao quadro; faça descrições das informações. No último, manifeste sua opinião acerca do assunto. 61 5) Aponte os mecanismos responsáveis pelo aparecimento de cada parágrafo no texto. Com a ajuda do professor, identifique também alguns elementos de coesão dentro dos parágrafos. Viver em sociedade A sociedade humana é um conjunto de pessoas ligadas pela necessidade de se ajudarem umas às outras, a fim de que possam garantir a continuidade da vida e satisfazer seus interesses e desejos. Sem vida em sociedade, as pessoas não conseguiriam sobreviver, pois o ser humano, durante muito tempo, necessita de outros para conseguir alimentação e abrigo. E no mundo moderno, com a grande maioria das pessoas morando na cidade, com hábitos que tornam necessários muitos bens produzidos pela indústria, não há quem não necessite dos outros muitas vezes por dia. Mas as necessidades dos seres humanos não são apenas de ordem material, como os alimentos, a roupa, a moradia, os meios de transportes e os cuidados de saúde. Elas são também de ordem espiritual e psicológica. Toda pessoa humana necessita de afeto, precisa amar e sentir-se amada, quer sempre que alguém lhe dê atenção e que todos a respeitem. Além disso, todo ser humano tem suas crenças, tem sua fé em alguma coisa, que é a base de suas esperanças. Os seres humanos não vivem juntos, não vivem em sociedade, apenas porque escolhem esse modo de vida, mas porque a vida em sociedade é uma necessidade da natureza humana. Assim, por exemplo, se dependesse apenas da vontade, seria possível uma pessoa muito rica isolar-se em algum lugar, onde tivesse armazenado grande quantidade de alimentos. Mas essa pessoa estaria, em pouco tempo, sentindo falta de companhia, sofrendo a tristeza da solidão, precisando de alguém com quem falar e trocar idéias, necessitada de dar e receber afeto. E muito provavelmente ficaria louca se continuasse sozinha por muito tempo. Mas, justamente porque vivendo em sociedade é que a pessoa humana pode satisfazer suas necessidades, é preciso que a sociedade seja organizada de tal modo que sirva, realmente, para esse fim. E não basta que a vida social permita apenas a satisfação de algumas necessidades da pessoa humana ou de todas as necessidades de apenas algumas pessoas. A sociedade organizada com justiça é aquela em que se procura fazer com que todas as pessoas possam satisfazer todas as suas necessidades, é aquela em que todos, desde o momento em que nascem, têm as mesmas oportunidades, aquela em que os benefícios e encargos são repartidos igualmente entre todos. Para que essa repartição se faça com justiça, é preciso que todos procurem conhecer seus direitos e exijam que eles sejam respeitados, como também devem conhecer e cumprir seus deveres e suas responsabilidades sociais. (DALLARI, Dalmo de Abreu. Viver em sociedade. São Paulo: Moderna, 1985. p. 5-6.) 6) Leia os textos a seguir, dois artigos de opinião, sobre o mesmo tema, mas com abordagens diferentes: um destaca mais as conseqüências do problema e o outro objetiva analisar suas causas. Juntamente com o professor, identifique as causas e as consequências, para, posteriormente, fazer o que se pede. 62 Miséria infantil No relatório apresentado em março de 95 na Cúpula sobre Desenvolvimento Social, em Copenhague, o governo já reconhecera que 16% das crianças brasileiras entre 5 e 14 anos de idade trabalham. A novidade do estudo da Organização Internacional do Trabalho divulgado esta semana é que, com esse espantoso índice uma em cada seis crianças trabalha -, o Brasil só não está em pior situação do que cinco outros países. Os casos mais graves, ignominiosos, são os de trabalho insalubre - crianças em longas jornadas em olarias, como no Piauí, ou em produções de gesso e carvão no Nordeste, intoxicando-se com tais materiais. A atividade precoce na lavoura, ainda que nos casos de agricultura familiar pareça menos atroz, não deixa de ser uma grave chaga social. Essa situação explica em grande medida o analfabetismo e o baixo grau de instrução dessas populações. São crianças que não freqüentam normalmente a escola e que, dependendo da idade e do tipo de esforço a que estão submetidas, podem ver prejudicado também seu desenvolvimento físico. Apesar do inegável mérito de alguns projetos específicos, está claro que somente medidas gerais e de grande fôlego, como os programas de renda mínima, são capazes de reduzir essa exploração infantil. Afinal, enquanto persistir uma realidade econômica impelindo as famílias pobres a submeter suas crianças ao trabalho, dificilmente o poder público eliminará tais práticas só com a repressão. A renda mínima vinculada à assiduidade escolar é um projeto extremamente promissor, pois força a escolarização e ajuda a combater a miséria. Em Brasília, o programa praticamente eliminou o abandono escolar, que caiu a 0,2% (contra índices da ordem de 6% até 94). O combate ao trabalho infantil pode ser feito. Trata-se de conferir-lhe a devida prioridade. (Folha de 5. Paulo, 17 nov. 1996) A fabricação do menor no trabalho As famílias pobres e exploradas buscam sobreviver, na desigualdade, através do trabalho. O trabalho da criança e dos adolescentes constitui um dos recursos que as famílias pobres utilizam para aumentar sua renda, e como mecanismo social para enfrentar emergências e situações de agravamento da subsistência. Isto acontece, por exemplo, em casos de invalidez, acidente, separação, desemprego e doença. Estas situações devem ser entendidas não como resultantes de dramas ou histórias isoladas e individuais das famílias pobres, mas como parte da história social da exploração. Nas regiões predominantemente rurais o trabalho de menores é um fator de expansão da produção. No caso de fronteiras agrícolas há condições do menor prover, quando adulto, a própria subsistência pela ocupação de novas terras. A modernização da agricultura, pela introdução de novas tecnologias e doassalariamento no campo, vem expulsando grandes contingentes de trabalhadores para as cidades, mudando a situação econômica, política e social da forma de inserção da família no sistema de produção. Na zona urbana há uma determinação de condições de produção próprias ao desenvolvimento urbano-industrial e a uma economia direcionada para bens de consumo duráveis, que recruta um número relativamente reduzido de trabalhadores pela alta tecnologia utilizada, combinada à expansão de serviços e de pequenas oficinas que sobrevivem na periferia das grandes empresas. Esta situação faz com que a família pobre se desarticule, levando, muitas vezes, o pai a ser uma espécie de pioneiro na busca de trabalho, obrigando-o a longos períodos de separação do resto da família. Por determinações do trabalho ocorre também um grande número de separações na família proletária, levando a mulher a ser chefe de família. As mulheres ocupam 35,6% da população em atividade econômica. (...) Verifica-se, pois, que a desagregação da família proletária é provocada por condições de vida, de trabalho e de renda, bem como pela migração rural. Nessas condições não basta à sobrevivência da família proletária o trabalho dos pais, o que obriga os filhos a ingressarem muito cedo no mercado de trabalho. (Vicente Ferreira, Humanidades, n. 12, fev./ abr. 1987. p. 7 - 8) 63 Elabore um parágrafo dissertativo completo sobre o seguinte tema: Trabalho infantil: causas, consequências e desafios. Orientações: seu parágrafo deve ter, no mínimo, 10 linhas e, no máximo, 15. Distribua as ideias em períodos, de modo que fiquem claros o tema e o objetivo, as causas, as consequências e o seu posicionamento, em que pode propor soluções para o problema e/ou expressar sua indignação e/ou fazer algum comentário importante. 64 Capítulo 3 03 Processos de compreensão De acordo com Marcuschi (2008), a compreensão de um texto não é uma atividade natural, uma herança genética, uma ação individual isolada do meio e da sociedade em que se vive. Compreender um texto exige habilidade, interação e trabalho. Quando participamos de um diálogo ou lemos um texto, entendemos algo, mas nem sempre a compreensão é bem-sucedida. Não podemos pensar que compreender seja apenas uma ação linguística ou cognitiva. É muito mais uma forma de inserção no mundo e um modo de agir sobre o mundo na relação com o outro dentro de uma cultura e sociedade. Para se compreender bem um texto, tem-se que sair dele, pois o texto sempre monitora o seu leitor para além de si próprio e esse é um aspecto quanto à produção de sentido. Isso significa dizer que: a) entender um texto não equivale a entender palavras ou frases; b) entender frases ou as palavras é vê-las em um contexto maior; c) entender é produzir sentidos e não só extrair conteúdos prontos; d) entender o texto é inferir numa relação de vários conhecimentos. São muitas as suposições que subjazem a essas colocações, a saber: a) os textos são em geral lidos com motivações muito diversas; b) diferentes indivíduos produzem sentidos diversos com o mesmo texto; c) um texto não tem uma compreensão ideal, definitiva e única; d) mesmo que variadas, as compreensões de um texto devem ser compatíveis; e) em condições socioculturais diversas, temos compreensões diversas do mesmo texto. De modo geral, pode-se admitir que compreender um texto em uso é entendê-lo em seus contextos. É no uso efetivo da língua e de modo especial no texto em sua relação com seu leitor ou ouvinte que o sentido se constitui. Neste capítulo, portanto, você terá acesso a algumas noções teórico-práticas que o auxiliarão na compreensão de textos: sentido literal e não literal, informações implícitas, atividade inferencial e aspectos da argumentação. 3.1 Sentido literal e não literal São muitas as discussões e divergências acerca da questão do sentido literal e do sentido não literal. Sem entrar nos méritos das polêmicas que envolvem as concepções literal e não literal, podemos dizer que o sentido literal nada mais é que um sentido básico que entendemos quando usamos a língua em situações normais. Já o sentido não literal não seria direto e teria uma origem em geral de caráter inferencial. Fiorin e Savioli (2007) abordam a questão da denotação e da conotação; os autores discutem os dois textos abaixo reproduzidos. Bandeirante cai no México e mata 20 ocupantes Dois aviões comerciais mexicanos caíram, causando a morte de 21 pessoas, anunciaram ontem funcionários do governo do México. O acidente mais grave aconteceu com um Bandeirante de fabricação brasileira. O aparelho caiu no oeste do país, matando todos os 20 ocupantes. Segundo os funcionários, o avião provavelmente se chocou com uma montanha devido ao mau tempo e explodiu. O outro acidente aconteceu no leste do país. A 65 fuselagem do avião se rompeu quando ele tentava decolar. Um passageiro morreu. Ambos os desastres aconteceram anteontem, o que eleva para cinco o número de acidentes aéreos – causando um total de 49 mortes – na última quarta-feira. O Bandeirante 110 da empresa aérea estatal mexicana, Transporte Aéreo Federal (TAF), decolou do aeroporto de Uruapán (224 km a oeste da Cidade do México) às 9h45 (12h45 em Brasília) com destino a Lázaro Cárdenas, na costa do oceano Pacífico, ambas no Estado de Michoacán. O aparelho perdeu contato com a torre de controle de Uruapán às 10h30 (13h30 em Brasília). Nove horas depois, os restos do aparelho foram encontrados perto do povoado de Arteaga, 60 km ao norte de Lázaro Cárdenas. (Folha de S. Paulo, 2 set. 1998, p. A-11) O grande desastre aéreo de ontem Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol. (LIMA, Jorge de. Poesia. Org. por Luiz Santa Cruz. 3. ed. R.J.: Agir, 1975. p. 64-5) Os dois textos abordam o mesmo tema: um desastre aéreo. De acordo com Fiorin e Savioli, o primeiro tem uma função utilitária. Não é um texto literário. O segundo tem uma função estética. É um texto literário. Enfim, o mesmo tema recebe um tratamento utilitário (sentido literal, denotativo, unissignificativo) ou um tratamento estético (sentido não literal, conotativo, plurissignificativo). Cada um dos textos produz um efeito de sentido distinto. Você, como leitor e produtor de textos, deve atentar-se a essas concepções, com o propósito de melhor evidenciar suas intenções. 3.1.1 Textos e atividades 1) Leia, com atenção, o texto abaixo para responder ao que se pede. Goteira como metáfora Um cano estourado provocou vazamento de lama no subsolo do Palácio do Planalto.Não é piada. Aconteceu anteontem. Três meses depois de uma reforma que consumiu R$ 111 milhões (muito além do previsto inicialmente) e mais de um ano, o palácio exibe vários sinais de desmazelo: alagamentos em banheiros e na garagem, infiltrações, paredes descascadas, deformações no teto de gesso, fechaduras novas estragadas... Um dos objetivos da reforma era eliminar os “puxadinhos” que descaracterizaram a arquitetura original. Mas parece que o Brasil voltou pela porta dos fundos. O representante 66 de Oscar Niemeyer em Brasília foi até gentil: “Faltou refinamento aos órgãos responsáveis para fazer um restauro de qualidade”. De goteiras e infiltrações o senador Gim Argello (PTB-DF) entende. O relator do Orçamento da União destinou R$ 3 milhões em emendas de sua cota individual para entidades fantasmas do DF, conforme revelou “O Estado de S. Paulo”. Em geral, funciona assim: o parlamentar faz uma emenda reservando recursos públicos para shows ou eventos culturais; o dinheiro é destinado a um instituto fantasma; este, por sua vez, repassa a verba para empresas fictícias em nome de laranjas. Tudo, como se dizia antigamente, "numa nice". O governo não fiscaliza nada. A Folha noticiou ontem que Argello incluiu entre suas emendas para 2011 um repasse de R$ 250 mil para a ONG de uma amiga. E que amiga: condenada por evasão de divisas no escândalo dos Anões do Orçamento, nos anos 90, ela ficou presa por seis meses em 2007. Este ano, foi impedida graças à Lei da Ficha Limpa de disputar uma vaga à Câmara Legislativa do DF. Ontem, Argello renunciou à Comissão de Orçamento. É muito pouco. Virão outros “gins” no lugar. Até quando vamos tolerar as goteiras das emendas e o “puxadinho” de descalabros que é a Comissão do Orçamento? É preciso uma reforma. Mas não como a do Planalto. (SILVA, Fernando de Barros e. Goteira como metáfora. Folha de S. Paulo, 8 dez. 2010, p. A2) 1) O autor faz uso da denotação e da conotação. Qual o propósito desses usos de linguagem no texto? 2) Como você compreende as seguintes passagens do texto: “De goteiras e infiltrações o senador Gim Argello (PTB-DF) entende” e “repassa a verba para empresas fictícias em nome de laranjas”. 3) Faça um apanhado das ocorrências das aspas no texto e procure distinguir as diferenças de uso. 4) “É preciso uma reforma”. Apresente dois sentidos para a palavra “reforma”. 5) Você acha que a conotação dá informações sobre o autor e sua posição diante do assunto? Explique. 6) Você considera o título apropriado? Por quê? Palavras, palavras Bárbaro, chocante, terrível. Alguns adjetivos fartamente usados pela imprensa na cobertura do caso Bruno são ambivalentes. Ao menos como gírias, essas palavras também podem ter acepções positivas. Sabemos que o grotesco é ingrediente que não falta nas receitas da comunicação de massa. O tom frenético (outro adjetivo ambivalente) que marcou nos últimos dias o acompanhamento jornalístico do caso indica como é estreita a separação entre o ímpeto necessário e a compulsão alucinada. A menção aqui não é ao sensacionalismo de certos programas e jornais, pois ele é figura antiga e, diga-se, já até produziu grandes textos e imagens. Mas por que uma boa repórter de um canal de TV paga interrompe uma delegada na operação de embarque de Bruno para Minas e faz perguntas sem nexo? Por que tantas coletivas e exclusivas – sem nenhum contraponto crítico – de um delegado mineiro nitidamente destrambelhado, fascinado por estar gastando sua prosódia constrangedora diante de Ana Maria Braga, Datena e outras potências, e que pôs querosene na alucinação coletiva ao chamar seu principal investigado de “monstro” (mais um ambivalente)? Por que tanto destaque para gritos de “assassino”, se está claro que são dados por gente que só vai às portas de delegacias por estar magnetizada pelos amontoados cada vez maiores de câmeras, e assim realiza a Inquisição da era digital? 67 A ampliação de modelos de comunicação e a necessidade de tudo se dar agora, ao vivo, com urgência, faz com que já achemos normais esses helicópteros acompanhando comboios de carros de polícia e nós, jornalistas, falando, falando, falando... Ainda há algum controle ou ele está para lá de remoto? As coberturas são intensas, maciças, arrasadoras. Somos bárbaros, chocantes, terríveis. (VIANA, Luiz Fernando. Palavras, palavras. Folha de S. Paulo, 11 julho 2010, p. A2) 1) Para o autor, alguns adjetivos são ambivalentes. Como compreender essa colocação? Responda comentando os adjetivos “bárbaro”, “chocante” e “terrível”. 2) O que seria necessário para que distinguir os sentidos de uma palavra ambivalente? 3) Como você compreende as seguintes passagens do texto: “querosene na alucinação coletiva” e “Inquisição da era digital”? 4) O autor recorre, algumas vezes, ao tom lúdico. Explique como isso aconteceu na seguinte passagem: “Ainda há algum controle ou ele está para lá de remoto?” 5) Na passagem “As coberturas são intensas, maciças, arrasadoras.”, que adjetivo você considera mas ambivalente? 6) O texto é de caráter metalinguístico. Como compreender essa questão? 3.2 Atividade inferencial Para Marcuschi (2008), a atividade inferencial, quando vista na sua complexidade, não pode ser considerada um mecanismo espontâneo e natural. Pode ocorrer que, em dado momento, determinada seja mais eficaz do que outra para dada operação inferencial. O autor apresenta, para discussão, a seguinte situação: suponhamos que na porta de certo estabelecimento comercial esteja escrito: “Aberto aos domingos”. Podemos entender, por exemplo, a) que o estabelecimento só abre aos domingos; b) que o estabelecimento abre também aos domingos e c) que o estabelecimento abre todos os dias da semana. Qual seria, portanto, a interpretação mais provável? Seguramente, todos diriam que a intenção do autor desse aviso foi dizer que o estabelecimento abre todos os dias, inclusive aos domingos. Assim, parece que (c) seria a interpretação preferencial e impliciaria (b). Mas (a) também não estaria errada; só não seria usual, porque o normal é abrir durante os dias não-feriados. 3.2.1 Informações implícitas Os textos podem transmitir tanto informações explícitas quanto implícitas. Uma leitura eficiente deve captar esses dois tipos de informações. Portanto, leitor perspicaz é aquele que lê as entrelinhas. Caso não tenha essa habilidade, deixará de perceber significados importantes ou concordará com ideias e opiniões que rejeitaria se as percebesse. Há dois tipos de informações implícitas: os pressupostos e os subentendidos. Quanto aos pressupostos, podemos dizer que são ideias não expressas de maneira explícita, que são resultantes logicamente do sentido de certas palavras ou expressões contidas na frase. Quanto aos subentendidos, são insinuações contidas em uma frase ou um grupo de frases. 68 3.2.1.1 Pressupostos e subentendidos Qual seria então a diferença entre os pressupostos e os subentendidos? Os pressupostos são informações estabelecidas como indiscutíveis tanto para o falante quanto o ouvinte, uma vez eles decorrem do sentido de algum elemento linguístico colocado na frase. Eles podem ser negados, mas o falante o coloca implicitamente para não o ser. Já os subentendidos são de responsabilidade do ouvinte. O falante pode esconder-se atrás do sentido literal das palavras e negar que tenha dito o que o ouvinte depreender de suas palavras. Em “Pedro tornou-se fumante”, a informação explícita é a de que hoje Pedro é um fumante. Do sentido do verbo “tornar-se”, que significa vir a ser, decorre logicamente que anteriormente Pedro nãoera fumante. Temos, nessa situação, uma pressuposição. Suponha que, numa sala de aula, na época do inverno, um aluno, ao dizer que estivesse sentindo frio, talvez sugerisse que um outra pessoa fechasse a porta, já que rajadas de vento estariam entrando na sala. Temos, nessa situação, um caso de subentendidos. De um único texto muitas informações implícitas ou inferenciais podem ser feitas. Apontaremos no texto a seguir algumas delas. O que vai ser quando crescer? O grupo de jovens que agrediu pelo menos três rapazes por volta das 6h30 de anteontem, na avenida Paulista, estuda num colégio particular. Menos de 15% dos adolescentes nessa faixa etária frequentam escolas privadas em São Paulo; o resto está na escola pública ou fora da escola. Além disso, desde o primeiro instante os agressores contaram com a proteção de pelo menos um advogado. É, em tese, um direito de todos, embora, na prática, seja mais um indicador de privilégio social. Os jovens já estão em casa. Foram liberados ontem – quatro deles, entre 16 e 17 anos, da Fundação Casa; Jonathan Lauton Domingues, 19, o único universitário, de um centro de detenção provisório. Não sei se deveriam permanecer detidos. Mas seria bom que não ficassem impunes. É possível, porém, que a maior punição seja a repercussão pública do caso, com os constrangimentos, para os jovens e familiares, daí decorrentes. Não se pode compactuar com o linchamento sumário dos agressores, não há dúvida; mas também não é possível tolerar ou ser conivente com esse tipo de delinquência juvenil. As vítimas, talvez não seja demais lembrar, são os que foram espancados covardemente. Há fortes indicações de que os garotos agiram movidos por homofobia. Isso apesar dos esforços do advogado – que está ali para reduzir danos dos clientes e não para dizer a verdade – para caracterizar o episódio como mera “confusão”. Quase todos já fizemos porcaria quando jovens. É a fase da explosão hormonal e da vitalidade física, dos exageros e da insensatez, dos impulsos para desafiar o perigo, das transgressões e dos ritos de afirmação diante dos (e com os) colegas. Mas a juventude também é o período em que fixamos os valores que vão nos servir de norte na vida adulta. O que pretendem ser quando crescer os meninos bem nascidos que se divertiam distribuindo pauladas em inocentes em plena Paulista no feriadão escolar? (SILVA, Fernando de Barros e. O que vai ser quando crescer? Folha de S. Paulo, 16 nov. 2010) 69 Muitos leitores concordaram com as colocações e questionamentos do autor acerca do casa noticiado e comentado. Aceitar ou refutar as ideias do autor faz parte da capacidade inferencial do leitor: ou é capaz de uma compreensão aprofundada ou apenas uma compreensão literal do texto. A inferência é que irá permitir que se dê coerência ao texto, que se extraiam informações não ditas, que se evoquem informações que devem ser adicionadas ao texto para completá-lo. Nos primeiros parágrafos, o autor identifica os jovens que praticaram os atentados: estudantes de escola particular, com residência fixa e com condições de pagar um advogado. A seguir, emite alguns juízos de valar quanto ao andamento do caso. No último parágrafo, faz um contraponto sobre o que ser jovem: fase hormonal e fase de fixação de valores. Em seguida, faz um questionamento acerca do futuro dos jovens agressores. O leitor, de acordo com suas crenças e com seu conhecimento de mundo, fará suas inferências, as quais, acreditamos, se darão, sobretudo, acerca dos valores sociais na formação moral dos jovens de classe média. O que sabemos sobre o autor, o jornal e o tema abordado é decisivo para a nossa atividade inferencial. O nosso conhecimento é filtrado pelos valores, opiniões e emoções. Ao ler o texto O que vai ser quando crescer?, podemos nos sentir irritados, revoltados, divertidos, comovidos ou até apaziguados. Para alguns estudiosos, os bons leitores avaliam o que leem e respondem de um modo tanto mais intenso quanto maior o seu interesse sobre o assunto lido. 3.2.1.1.1 Textos e atividades 1) Leia, com atenção, o diálogo a seguir. _ Eu não quero ir para São Paulo. _ Mas é preciso: aqui você não terá as mesmas chances de estudo. _ Eu não quero estudar. _ Sem um diploma hoje ninguém mais consegue um bom emprego. _ Pior que um mau emprego é viver em São Paulo. _ Olha aqui, filhinho, quando você estiver morando no seu apartamento perto do metrô, prometo que vou visitá-lo e você vai prometer me ligar toda a semana para me contar as novidades. Como se nota, no diálogo acima, a argumentação é interrompida por uma última interferência, cheia de pressupostos. Detecte alguns deles. 2) Leia, com atenção, as passagens abaixo e aponte alguns pressupostos nelas contidos. a) É preciso que os sindicalistas encaminhem as negociações com responsabilidade, com senso de patriotismo, sem induzir os trabalhadores a radicalismos inaceitáveis. b) A Rússia continuará financiando o deficit econômico cubano. c) Será que o povo soviético, no plebiscito, vai preferir continuar na miséria do comunismo ou vai arriscar a prosperidade do capitalismo? 3) Suponha que dois jornais publiquem, num determinado dia, o seguinte: Jornal A: Os índios que estavam nus não puderam entrar no Congresso. Jornal B: Os índios, que estavam nus, não puderam entrar no Congresso. Pergunta-se: os dois jornais publicaram a mesma notícia? Explique. 70 4) Leia, com atenção, os enunciados abaixo para responder ao que se pede. a) Nesta última eleição, os políticos, que foram derrotados, estão analisando as causas do seu fracasso. b) Nesta última eleição, os políticos que foram derrotados estão analisando as causas do seu fracasso. A oração adjetiva (que foram derrotados) instaura os mesmos pressupostos em ambos os enunciados? Explique sua resposta. 5) O texto abaixo é uma seqüência de perguntas de um juiz e respostas de um acusado durante uma audiência no tribunal. Estude o texto com base na seguinte concepção: “Em todo dizer há uma mensagem de não-ditos que significam”. Pergunta: A senhora passou alguma vez a noite com este homem em N. Iorque? Resposta: Eu me recuso a responder a essa pergunta! Pergunta: A senhora passou alguma vez a noite com este homem em Chicago? Resposta: Eu me recuso a responder a essa pergunta! Pergunta: A senhora passou alguma vez a noite com este homem em Miami? Resposta: Não! 6) Muitas manchetes de jornais e títulos de notícias dão margem a pressupostos e subentendidos. Explicite em cada situação abaixo pelo menos um implícito a) “Fora do governo, Ciro ataca PT e Palocci” (Folha de S. Paulo, 1º abril 2006). b) “Ministro da Justiça é o novo alvo da oposição” (Folha de S. Paulo, 3 abril 2006) c) “As medidas provisórias tornaram a Lei do Orçamento inócua” (Folha de S. Paulo, 3 julho 2010) a) “Ministério vai criar ‘lista negra’ de desmatadores e estuda cortar créditos de proprietários em situação irregular” (Folha de S. Paulo, 16 set. 2010). b) “Novas acusações derrubam ex-braço direito de Dilma” (Folha de S. Paulo, 17 set. 2010). c) “Corrupção no Amapá envolve até Judiciário” (Folha de S. Paulo, 19 set. 2010). 7) Tire a conclusão cabível: a) Na cidade, todos os prédios com mais de três andares ficam na praça da matriz. O Zé Carlos disse que morava no 6º andar. Logo, o Zé Carlos.... b) As marcas dos pneus ficaram a um metro e noventa de distância. Nenhum carro tem uma bitola tão larga. Portanto, as marcas de pneus ... c) Nenhum político de expressão é demagogo. Nosso prefeito é um grande demagogo, o que leva a concluir que.... d) Todo universitário tem QI superior a 70. Mas alguns universitários são estúpidos. Logo, um QI superiora 70 não garante que .... e) Nenhum bolo de aniversário comprado em confeitaria custa hoje menos de 30 reais. Se o João gastou menos de 30 reais com o bolo de aniversário do irmãozinho, então... f) Na véspera do concerto, o banco mandou um convite para cada um dos clientes com mais de 5 mil reais na carteira de investimentos. Se o Zé Carlos não foi convidado, é que... g) Só quem conheceu o Godofredo antes de ele ficar rico sabe que ele tinha apelido de “Almôndega”. O Zé Carlos vive chamando o Godofredo de Almôndega, logo... h) Para ser diplomata, era preciso ter o curso do Itamaraty, ou ter se notabilizado por uma obra artística considerada de grande expressão. Não me consta que o poeta Vinicius de Moraes tivesse feito o curso do Itamaraty. Logo, sua obra... 71 8) Coloque todos ou nem todos, nos espaços vazios, de modo que chegue a uma afirmação verdadeira. a) ..................... os carros são veículos, mas ..................... os veículos são carros. b) .................... os paulistanos são paulistas, mas ................. os paulistas são paulistanos. c) ................ os remédios são beta-bloqueadores, mas ............... beta-bloqueadores são remédios. d) Até 1950, ................... os automóveis que circulavam no Brasil eram importados,mas ................... os importados eram automóveis. e)......................... os escritores da Academia Brasileira de Letras são velhos, mas ................. os velhos são escritores da Academia Brasileira de Letras. f) ........................ os acidentes automobilísticos ocorridos nesta estrada se deveram a falhas mecânicas ou humanas, mas .................. os acidentes automobilísticos devidos a falhas mecânicas ou humanas aconteceram nesta estrada. 9) Todos nós já deparamos com propagandas como esta: Não se deixe explorar pela concorrência! Compre na nossa loja. Explique por que essa propaganda é potencialmente prejudicial ao comerciante que a utiliza. 10) Na revista Veja (26 jan. 2011), nas suas Páginas Amarelas, o cantor Ricky Matin concedeu uma entrevista a Bruno Meier. Leia um fragmento desse entrevista para responder ao que se pede. Por que você decidiu falar publicamente sobre sua sexualidade? Eu não aguentava mais me esconder e fingir ser quem não era. Sou uma boa pessoa e tento fazer o bem ao próximo, mas algo me faltava. O que virou a mesa foi a paternidade. Um dia, olhei nos olhos dos meus filhos e pensei: “Se quero que eles sejam felizes, eu tenho de viver com transparência”'. Nesse mesmo dia, coloquei no meu site uma carta revelando que sou gay. Se não fizesse isso, poderia dizer quem sou na minha casa? Ou será que eu iria mandar meus filhos mentir a meu respeito na escola? Nada disso. Quero mais é que eles falem aos seus amigos: “Meu pai é gay e ele é muito legal. Seu pai não é gay. Triste o seu caso”. Quero que eles sintam orgulho em fazer parte de uma família moderna. Na semana seguinte, Veja publicou várias cartas de leitores sobre entrevista, mais especificamente sobre essa parte transcrita. Uma das cartas é a seguinte: Sou pai há menos de um ano e fiquei decepcionado com Ricky Martin. Ele afirma que quer que seus filhos digam: “Meu pai é gay e ele é muito legal. Seu pai não é gay. Triste o seu caso”. Ora, quer dizer que, pelo fato de eu não ser gay, sou um pai menos legal que ele? Gostaria de mostrar a ele quanta felicidade e amor existe em uma família simples aqui do interior de Minas Gerais, um casal normal (homem e mulher) que tem uma filhinha maravilhosa cheia de saúde e sem os milhões de dólares que esse senhor tem. (Eduardo Fernandes Silva, Nova Lima, MG) 72 a) Você diria que o autor da carta é um leitor de informações implícitas? Por quê? b) Que inferências você faz do emprego dos parênteses em (homem e mulher)? c) E você? O que acha da questão? Escreva, pelo menos, cinco linhas. 11) Leia, com atenção, o texto a seguir para responder ao que se pede. Debate do segundo turno DILMA – Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. SERRA – Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! DILMA – Para sempre seja louvado! SERRA – Ave Maria, cheia de graça, o Senhor seja convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus! DILMA – Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém. SERRA – o Senhor é o meu o pastor... DILMA – ... e nada me faltará. SERRA – Deixai vir a mim as criancinhas... DILMA – ... e quem nunca pecou atire a primeira pedra. SERRA – Não só de pão vive o homem... DILMA – De que vale ao homem possuir todo o mundo se vier a perder a sua alma? SERRA – Os últimos serão os primeiros... DILMA – Eu sou o caminho, a verdade e a vida... SERRA – Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão. DILMA – O meu reino é o da verdade e da justiça. SERRA – Verdadeiramente é digno e justo, racional e salutar, que, sempre e em todo o lugar, vos demos graças, oh Senhor Santo Pai, onipotente, eterno Deus! DILMA – Porque quem não é contra nós, é por nós. SERRA – A minha casa será chamada por todas as nações de casa de oração. Mas vós a tendes feito covil de ladrões. DILMA – Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro, vem e segue-me. SERRA – Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que coais um mosquito e engolis um camelo! DILMA – Lançai sobre mim a vossa luz e a vossa verdade, para que elas me guiem e me conduzam ao vosso monte santo e a vossos tabernáculos! SERRA – Ai do mundo por causa dos escândalos; porque é necessário que venham escândalos, mas ai daquele por quem o escândalo vem. (CONY, Carlos Heitor. Debate do segundo turno. Folha de S. Paulo, 7 out. 2010, p. A2. Caderno Opinião) a) Como entender o processo intertextual instaurado na produção do texto? b) Quem é a Dilma e quem é o Serra nos planos explícito e implícito? c) Você acha que o autor critica o discurso religioso? Por quê? 12) Por que as afirmações abaixo são falaciosas? —“É muito articulado, para um ex-torneiro mecânico.” —“É muito discreto para um descendente de italianos.” —“É muito inteligente para um preto.” —“É esperta para uma loira.” 73 13) O ato de ler é motivação para muitos artistas plásticos. A retratação artística desse ato torna-se uma fonte de pesquisa acerca do comportamento do cidadão e suas relações com a leitura. Leia, com atenção, os quadros de pintura selecionados para responder ao que se pede. Rembrandt. Rembrandt mother reading the Staten Bible.1631 Jean-Francois de Troy. The Reading from Moliere. 1728 Simon Glücklich. Aprendendo a ler. 1889 Lucia de Lima (Brasil, Rio de Janeiro). Menina lendo. 2011 a) Como entender a relação intertextual entre as imagens selecionadas? b) Cada artista, de modo particular, representa uma visão subjetiva do ato de ler. A partir das escolhas do artista (cores, cenário, personagens, entre outras), infira, de cada quadro, a ideia de leitura representada. Informações sobre quem é o artista e sobre a escola a que se filia podem auxiliá-lo nesta tarefa. 74 14) Com base na leitura das duas charges, inferia o conceito de arte criticado. Qual a sua opinião sobre o que é arte. (Folha de S. Paulo, 32 março 2010 – Caderno Ilustrada) (Folha de S. Paulo, 27 dez. 2010 – Caderno Ilustrada) 3.3 Estrutura da argumentação Há uma confusão sobre o que seja texto dissertativo e texto argumentativo. Emdiato (2008) procura esclarecer essa questão. Segundo esse autor, considera-se, de modo geral, o texto dissertativo como um tipo de discurso explicativo, cujo objetivo é explorarum certo assunto sem, no entanto, incluir um posicionamento ou uma opinião. A argumentação visa a persuadir ou convencer um auditório da validade de uma tese ou proposição, cujo objetivo é construir uma comunicação persuasiva. Atualmente, somos bombardeados pelo discurso persuasivo. A noção de argumentatividade está presente nos mais diversos gêneros. Segundo Ernani e Nicola (2002), a maneira como o falante organiza seu discurso para chegar a determinadas conclusões (ato de argumentar) está intimamente ligada à persuasão. A argumentação é a base da persuasão e, assim, podemos ver a argumentação como uma estrutura criada que pressupõe o uso de estratégias linguísticas e racionais. Para que a argumentação seja válida, deve surgir de um raciocínio lógico, que comprove e justifique um ponto de vista, mas deve também estar adequada ao interesse ou à expectativa o interlocutor. Sem a noção do outro como alvo, a argumentação perde a força. Segundo Emidiato (2008), a estrutura básica do discurso argumentativo deve pressupor a existência de atitudes antiéticas (posições contra e a favor) explícitas ou implícitas, o que nos permite propor a seguinte estrutura o discurso argumentativo: Afirmação (tese, proposição): afirmação feita pelo falante sobre a verdade de algum fenômeno, seguida da análise de seus termos essenciais, que se contrapõe, explícita ou implicitamente, a uma outra concepção sobre o mesmo fenômeno; 75 Posicionamento: o falante explicita sua posição sobre o fenômeno posto em discussão, posição que pode demonstrar uma concordância, parcial ou total, com uma tese já existente, ou uma discordância,parcial ou total, com a mesma – o posicionamento pode ser acompanhado, ainda, de uma avaliação que o falante faz; Quadro de problematização: insere a argumentação numa perspectiva social, econômica, política, ideológica, religiosa, científica, moral, ética – as possibilidades de problematização são bem diversificadas e dependem, basicamente, do tipo de público ao qual é a argumentação é dirigida; Formulação dos argumentos: não se pode argumentar bem sem apresentar, em determinado momento, argumentos que possam ser aceitos como plausíveis e aceitáveis pelo interlocutor ou pelo público – a formulação dos argumentos será, portanto, a parte da argumentação relativa aos tipos de provas, à lógica dos raciocínios e princípios de explicação e justificação que fundamentam a tese; Conclusão: dedução ou inferência a que se quer chegar a partir dos argumentos apresentados e sua pertinência e adequação ao quadro de problematização apresentado. Tomasi e Medeiros (2010) fazem a análise da montagem do esquema argumentativo do texto a seguir. Leia, com atenção, o texto e, depois, a análise dos autores. A revolução da brevidade Toda área do conhecimento humano tem a sua beleza, as suas circunstâncias e as suas dificuldades. O mundo jurídico, tradicionalmente, debate-se com duas vicissitudes: (a) a linguagem empolada e inacessível; e (b) os oradores ou escribas prolixos, que consomem sem dó o tempo alheio. Verdade seja dita, no entanto, o primeiro problema vem sendo superado bravamente: as novas gerações já não falam nem escrevem com a obscuridade de antigamente. De fato, em outra época, falar difícil era tido como expressão de sabedoria. Chamar autorização do cônjuge de "outorga uxória" ou recurso extraordinário de “irresignação derradeira” era sinal de elevada erudição. Hoje em dia, quem se expressa assim é uma reminiscência jurássica. Nos dias atuais, a virtude está na capacidade de se comunicar com clareza e simplicidade, conquistando o maior número possível de interlocutores. A linguagem não deve ser um instrumento autoritário de poder, que afaste do debate quem não tenha a chave de acesso a um vocabulário desnecessariamente difícil. Essa visão mais aberta e democrática do direito ampliou, significativamente, a interlocução entre juristas e tribunais, de um lado, e a sociedade e os meios de comunicação, de outro. Não se passam dois dias sem que algum julgado importante seja notícia nas primeiras páginas dos jornais. Pois agora que finalmente conseguimos nos comunicar com o mundo, depois de séculos falando para nós mesmos, está na hora de fazermos outra revolução: a da brevidade, da concisão, da objetividade. Precisamos deixar de escrever e de falar além da conta. Temos de ser menos chatos. Conta-se que George Washington fez o menor discurso de posse na Presidência dos Estados Unidos, com 133 palavras. William Harrison fez o maior, com 8.433, num dia frio e tempestuoso em Washington. Harrison morreu um mês depois, de uma gripe severíssima que contraiu naquela noite. Se não foi uma maldição, serve ao menos como advertência aos expositores que se alongam demais. 76 Tenho duas sugestões na matéria. A primeira importa em cortar na própria carne. Petições de advogados devem ter um limite máximo de páginas. Pelo menos as idéias centrais e o pedido têm que caber em algo assim como 20 laudas. Se houver mais a ser dito, deve ser junto como anexo, e não no corpo principal da peça. Aliás, postulação que não possa ser formulada nesse número de páginas dificilmente será portadora de bom direito. Einstein gastou uma página para expor a teoria da relatividade. É a qualidade do argumento, e não o volume de palavras, que faz a diferença. A segunda sugestão corta em carne alheia. A leitura de votos extremamente longos, ainda quando possa trazer grande proveito intelectual para quem os ouve, torna os tribunais disfuncionais. Com o respeito e o apreço devidos e merecidos – e a declaração é sincera, e não retórica –, isso é especialmente verdadeiro em relação ao Supremo Tribunal Federal. Registro, para espantar qualquer intriga, que o tribunal, sob a Constituição de 1988, vive um momento de virtuosa ascensão institucional, com sua composição marcada pela elevada qualificação técnica e pelo pluralismo. Todos os meus sentimentos, portanto, são bons, e o comentário tem natureza construtiva. O fato é que, nas sessões plenárias, muitas vezes o dia de trabalho é inteiramente consumido com a leitura de um único voto. E a pauta se acumula. E o pior: como qualquer neurocientista poderá confirmar, depois de certo tempo de exposição, os interlocutores perdem a capacidade de concentração e a leitura acaba sendo para si próprio. Não há problema em que a versão escrita do voto seja analítica. A complexidade das questões decididas pode exigir tal aprofundamento. Mas a leitura em sessão deveria resumir-se a 20 ou 30 minutos, com uma síntese dos principais argumentos. Ou, em linguagem futebolística, um compacto com os melhores momentos. A revolução da brevidade tornará o mundo jurídico mais interessante, e a vida de todos nós, muito melhor. Quem sabe um dia chegaremos à capacidade de síntese do aluno a quem a professora determinou que escrevesse uma redação sobre “religião, sexo e nobreza”, mas que fosse breve. Seguindo a orientação, o jovem produziu o seguinte primor de concisão: “Ai, meu Deus, como é bom, disse a princesa ainda ofegante”. (BARROSO, Luís Roberto. A revolução da brevidade. Folha de S. Paulo, 17 julho 2008, p. A3. Caderno Tendências e Debates) Quem é o autor do texto? Luís Roberto Barroso tem 50 anos é advogado, é professor titular de direito constitucional da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e autor de “O Controle de Constitucionalidade no Direito Brasileiro”, entre outras obras. Essa identificação gera credibilidade. A variante de linguagem utilizada que dá apoio aos argumentos é a gramatical. O mesmo artigo, se escrito numa variante não gramatical, poderia perdersua força persuasiva. Portanto, a primeira estratégia utilizada pelo autor, consciente ou inconscientemente, foi a escolha de uma variante de linguagem adequada a seus interlocutores e ao próprio assunto de que trata. O texto é contrário aos que entendem que o Direito se deve fazer com linguagem empolada e prolixa. As ideias do texto se opõem à ideologia de que a redação forense é para entendidos, juristas, pessoas dedicadas ao saber jurídico. Trata-se, pois, de ideias que tendem a tornar o direito mais compreensível ao cidadão comum, bem como a leitura do voto mais breve. O leitor pode notar já no primeiro parágrafo o gerenciamento da relação: “Toda área do conhecimento humano tem a sua beleza, as suas circunstâncias e as suas dificuldades.” 77 Enumera em seguida dois problemas comuns nos meios jurídicos: a linguagem empolada e inacessível e os oradores ou escribas prolixos, que “consomem sem dó o tempo alheio”. Em seguida, novamente o autor do artigo gerencia a relação: “Verdade seja dita, no entanto, o primeiro problema vem sendo superado bravamente: as novas gerações já não falam nem escrevem com a obscuridade de antigamente.” Para defender seu ponto de vista sobre a necessidade da brevidade e sobre a dificuldade de linguagem dos textos jurídicos, faz imediatamente referência a “outra época”, em que falar difícil “era tido como expressão de sabedoria”. E o faz exemplificando, apresentando duas expressões (“outorga uxória” e “irresignação derradeira”) que eram utilizadas. E conclui o parágrafo: “Hoje em dia, quem se expressa assim é uma reminiscência jurássica.” A tese da necessidade de alterar a linguagem forense é paulatinamente defendida. Afirma: Nos dias atuais, a virtude está na capacidade de se comunicar com clareza e simplicidade, conquistando o maior número possível de interlocutores. A linguagem não deve ser um instrumento autoritário de poder, que afaste do debate quem não tenha a chave de acesso a um vocabulário desnecessariamente difícil. Para o autor do artigo a mudança de postura em relação à linguagem traz benefícios à sociedade, visto que “essa visão mais aberta e democrática do direito” amplia significamente a interlocução entre juristas, tribunais e os meios de comunicação. Os argumentos sucedem-se, agora endereçando-os para o combate à prolixidade: Pois agora que finalmente conseguimos nos comunicar com o mundo, depois de séculos falando para nós mesmos, está na hora de fazermos outra revolução: a da brevidade, da concisão, da objetividade. Precisamos deixar de escrever e de falar além da conta. Temos de ser menos chatos. Para ilustrar a defesa de sua tese, apresenta dois exemplos deoradores: George Washignton, que teria usado 133 palavras em seu discurso de posse na Presidência dos Estados Unidos, e de William Harrison, que teria feito um discurso com 8.433 palavras, num dia frio e tempestuoso em Washington: Harrison morreu um mês depois, de uma gripe severíssima que contraiu naquela noite. Se não foi uma maldição, serve ao menos como advertência aos expositores que se alongam demais. Apresenta em seguida sugestões para a prática nos tribunais: cortar na própria carne e cortar em carne alheia. Para a primeira sugestão, ilustra-a com uma referência a Einstein que teria gasto uma página para expor a teoria da relatividade: “ É a qualidade do argumento, e não o volume de palavras, que faz a diferença.” Para o argumento de cortar em carne alheia, vale-se da neurociência: “depois de certo tempo de exposição, os interlocutores perdem a capacidade de concentração e a leitura acaba sendo pra si próprio”. Como podemos verificar, a tese do autor vai progressivamente sendo elucidada. Finalmente, um argumento para tocar o leitor, porque o remete à própria vida: “A revolução da brevidade tornará o mundo jurídico mais interessante, e a vida de todos nós, muito melhor.” E para fechar o artigo, mantendo o tom bem-humorado do texto, conta a história do estudante que deveria escrever sobre religião, sexo e nobreza. Um texto argumentativo vale-se, portanto, de vários expedientes de argumentação, como referência a outras citações. No caso, Luís Roberto Barroso, advogado e professor titular de Direito Constitucional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para expor sua tese, ilustra-a com exemplos da história e uma anedota. A constituição de um ponto de vista (essência da argumentação) resulta da observação criteriosa da realidade, de leituras, da capacidade de compreensão dos fatos do dia a dia. 78 3.3.1 Recursos e falácias da argumentação Com base no que já foi visto, pode-se reafirmar que a argumentação é um conjunto de recursos de natureza linguística destinados a persuadir a pessoa a quem a comunicação se destina. A argumentação está presente em todo tipo de texto e visa a promover adesão à tese e pontos de vista defendidos no texto. Os recursos argumentativos são inúmeros. Fiorin e Savioli (1990) comentam alguns desses recursos. Argumento de autoridade: é a citação , no texto, de autores reconhecidos como autoridade em certo domínio do saber. Esse recurso produz efeitos distintos: revela o conhecimento do produtor do texto a respeito do assunto tratado; dá ao texto a garantia do autor citado. É preciso, no entanto, não fazer do texto um amontoado de citações. A citação precisa ser pertinente e verdadeira. Argumento baseado no consenso: são aquelas afirmações que, numa determinada época, são aceitas como verdadeiras e que, portanto, dispensam comprovações, a menos que o objetivo o texto que está sendo elaborado seja comprovar alguma delas. Em nossa época, são consensuais as afirmações de que o meio ambiente precisa ser protegido e de que as condições de vida são piores nos países subdesenvolvidos. Não se pode, no entanto, deixar de notar que, nesse tipo de argumento, corre-se o risco de passar dos argumentos válidos para os lugares-comuns e as frases carentes de qualquer base científica. Argumento por meio de provas concretas: é aquele em que se comprova a veracidade de uma afirmação como dados estatísticos, com fatos históricos, com experiências da vida cotidiana. Argumento com base nas relações lógicas: é a utilização correta e adequada das relações como causa e efeito, analogia, implicação, identidade etc. Um texto coerente do ponto de vista lógico é mais facilmente aceito do que um texto incoerente. Vários são os defeitos que concorrem para desqualificar o texto do ponto de vista lógico: fugir do tema proposto, cair em contradição, tirar conclusões que não se fundamentam nos dados apresentados, ilustrar afirmações gerais com fatos inadequados, narrar um fato e dele extrair generalizações. Uso de norma linguística culta: a utilização da variante culta e formal da língua (em geral, é o texto dissertativo que exige esse tipo de linguagem) mostra que o produtor do texto conhece a norma linguística socialmente mais valorizada e, por conseguinte, deve produzir um texto em que se pode confiar. Nesse sentido, é que se diz que o modo de dizer dá confiabilidade ao que se diz. Os recursos argumentativos são indefinidos. Vão dos modos de citação do discurso alheio (discurso direto, indireto e indireto livre) aos recursos retóricos (metáfora, hipérbole, ironia etc), da seleção de palavras adequadas, às informações implícitas. Além dos defeitos de argumentação mencionados, quando tratamos dos recursos argumentativos, vamos citar algumas falácias. Uso sem delimitação adequada de palavras de sentido tão amplo: servem de argumento para um ponto de vista e seu contrário. São noções confusas, como “paz”, que hoje está na boca dos norte-americanose de seus inimigos, os iraquianos. Essas palavras podem ter valor positivo (paz, justiça, honestidade, democracia) ou vir carregada de valor negativo (autoritarismo, depredação do meio ambiente, injustiça, corrupção). Uso de afirmações tão amplas: podem ser derrubadas por um único contra-exemplo. Quando se diz “Os políticos são ladrões”, basta um único exemplo de político honesto para destruir o argumento. 79 Emprego de noções científicas sem nenhum rigor: é o uso de termos fora do contexto adequado, sem o significado apropriado, vulgarizando-os e atribuindo-lhes uma significação subjetiva e grosseria. É o caso da frase “O imperialismo de certas indústrias não permitem que outras cresçam”, me que o termo “imperialismo” é descabido, uma vez que essa palavra, a rigor, significa “ação de um Estado visando a reduzir outros à sua dependência política e econômica” ou “estágio superior do capitalismo”. A boa argumentação é aquela que está de acordo com a situação concreta do texto, que leva em consideração os componentes envolvidos na discussão (o tipo de pessoa a quem se dirige a comunicação, o assunto etc). Convém alertar que não se convence ninguém com manifestações de sinceridade do autor (como “Eu, que não costumo mentir”...) ou com declarações de certeza expressas em fórmulas feitas (como “estou certo”, “creio firmemente”, “é claro”, “é óbvio”, “é evidente”, “afirmo com toda a certeza” etc) O autor não promete, em seu texto, sinceridade e certeza, autenticidade e verdade; ele constrói um texto que revela isso. Essas qualidades não se prometem, age-se com sinceridade e com certeza. A argumentação é a exploração de recursos para fazer parecer verdadeiro aquilo que se diz num texto e, com isso, levar a pessoa a quem o texto é endereçado a crer naquilo que ele diz. 3.3.2 Textos e atividades 1) Para cada grupo de palavras formule uma tese, dois argumentos e uma conclusão. a) Juventude e mercado de trabalho b) Empresas e meio ambiente c) Sociedade e crimes pela Internet d) Consumo de bebidas alcoólicas e direção e) Exclusão social e acesso à cultura Considere o fragmento abaixo para as questões 02 e 03. “Um dos mais respeitados colégios particulares da cidade de São Paulo está fechando suas portas por causa da briga crônica entre pais de alunos e donos de escolas em torno das mensalidades escolares”. (Veja, 27/9/89, p. 114). 2) Assinale a alternativa que contém uma conseqüência do fato relatado: a) A interferência do governo na fixação dos índices de reajuste das mensalidades escolares é conseqüência do lobby bem-sucedido dos proprietários de escolas privadas junto ao MEC. b) Dois meses depois que o governo federal liberou os preços das mensalidades escolares, a Justiça de São Paulo decidiu que os reajustes voltam a ser controlados, não podendo exceder os índices mensais de inflação. c) O triste desfecho desse fato é emblemático da situação da educação brasileira. d) Duas escolas se prontificaram a admitir os alunos da escola extinta. Uma delas está contratando boa parte de seu corpo docente. e) O Sindicato dos Professores de São Paulo realizou um levantamento segundo o qual esta é a escola que melhor remunera os professores. 80 3) Assinale o trecho que constitui uma premissa do fato relatado: a) As escolas que pagam salários baixos a seus professores e funcionários são as que mais dão lucros. b) O ensino privado custa caro e tende a ficar mais caro com as necessidades tecnológicas impostas a cada dia pela moderna educação. c) No vácuo criado pela ausência do Estado no ensino secundário proliferaram as escolas privadas. d) Para manter a qualidade do ensino requerida pela sociedade, as escolas privadas estão incrementando convênios com empresas e indústrias. e) Como decorrência do crescimento populacional urbano, existe hoje, nas grandes metrópoles, um grande déficit de salas de aula. 4) Indique o único item que serve como argumento favorável à defesa da legalização da pena de morte no Brasil: a) A incapacidade de um ser humano julgar o outro com isenção de ânimo. b) O sensacionalismo da mídia ao expor o sentimento dos familiares e amigos do réu diante da consumação da pena. c) A irreparabilidade do erro judiciário. d) Os estados americanos que legalizaram a pena de morte apresentam um recrudescimento no número de crimes violentos. e) O sistema carcerário encontra-se privado das condições necessárias capazes de promover a reabilitação para a plena convivência social. 5) Indique o único segmento que serve como argumento contrário à defesa da manutenção do ensino superior gratuito no Brasil: a) A Europa Ocidental considera investimento a formação de quadros de nível superior. b) Há um princípio de justiça social, segundo o qual o pagamento por bens e serviços deve se fazer desigualmente, conforme as desigualdades de ganho. c) Nos EUA, a maior parte do orçamento das melhores universidades é composta por doações, convênios com empresas ou órgãos federais, fundos privados, cursos de atualização profissional. d) Nos EUA, o montante arrecadado pelas universidades de seus estudantes, a título de taxas escolares, não chega ao percentual de 20% de seu orçamento global. e) No Brasil, país com renda per capita de aproximadamente US$ 2 mil, uma taxa escolar de US$ 13 mil/ano por aluno, conforme estimativa do Banco Mundial, é quantia astronômica. 6) Comente a estratégia do eu lírico para seduzir sua amada no poema, a seguir, de Gregório de Matos. Pintura admirável de uma beleza Vês esse Sol de luzes coroado? Em pérolas a Aurora convertida? Vês a Lua de estrelas guarnecida? Vês o Céu de Planetas adorado? O Céu deixemos; vês naquele prado A Rosa com razão desvanecida? A Açucena por alva presumida? O Cravo por galã lisonjeado? Deixa o prado; vem cá, minha adorada, Vês de esse mar a esfera cristalina Em sucessivo aljôfar desatada? Parece aos olhos ser de prata fina? Vês tudo isto bem? pois tudo é nada À vista do teu rosto, Caterina. 81 7) Leia, com atenção, o texto a seguir para responder ao que se pede. Velocidade máxima Você está cansado de saber que hoje em dia não basta ter conhecimento: é preciso ser rápido. Rápido na tomada de decisões, no trato da informação, na geração de novas idéias (e na sua transformação em novos centros de receita), no desenvolvimento da própria carreira. Tornou-se imprescindível pensar rápido, agir rápido, ter um computador supersônico. No mundo dos negócios, não existe um código nacional de trânsito que limite a velocidade dos executivos. Se houvesse, recomendaria: corra. Multa, só para os lentos. Os devagar-quase-parando não se estressam para assumir um posto de comando. Sua motivação não está em conquistar prêmios ou um bônus mais polpudo. Não fazem hora extra e, se puderem escapar de uma reunião, tanto melhor. Estão em dia com seus batimentos cardíacos e seus níveis de colesterol. Dormem 8 horas por noite; não têm insônia. Passam os fins de semana na praia com o celular desligado. Encontram tempo para ver os filhos e os filmes em cartaz. Estão em casa na hora do Jornal Nacional. Profissionais de Neandertal. Voltar à caverna, no entanto, está sendo considerado uma atitude moderna. Ao menos é o que prega há anos o sociólogo napolitano Domenico De Masi, que viaja pelo mundo dando palestras que enaltecem as virtudes do ócio criativo. De Masi acredita que trabalhar 10 horas por dia aniquila a criatividade e que todos deveriam cortar pela metade sua carga horária, aproveitando o resto do tempo para fazer qualquer coisa longe das tarefas cotidianas do escritório. Vale bungee jump, vale meditação, vale ouvir Beatles. Há quem pense que essa desaceleraçãoé zen-budista demais para quem tem metas concretas como comprar e vender ações na Bolsa de Nova York ou virar presidente de empresa antes dos 40 anos. Mas não há como negar que a inteligência e a cultura são, cada vez mais, os combustíveis que geram novos negócios e determinam a própria ascensão de um profissional. E nenhum dos fatores precisa do horário comercial para ser ativado. Podem estar em combustão durante um mergulho no mar, durante a leitura de um poema, durante uma cavalgada ecológica, talvez até durante o sexo. Durante é exagero. Depois do sexo. O escritor português José Saramago certa vez escreveu: “Não ter pressa não é incompatível com não perder tempo”. O conceito de velocidade anda cada vez mais flexível. Para alguns, ser ligeiro significa ultrapassar os ponteiros do relógio, executar um projeto a cada minuto, agendar reuniões, ler apenas livros técnicos, só fazer contatos que sejam política ou economicamente rentáveis e sentir uma culpa tremenda nos coffee breaks, como se parar fosse sinônimo de regredir. Já para o neo-Neandertal, que prefere Saramago a Philip Kotler, e Marguerite Duras a Tom Peters, manter um ritmo comedido pode realmente fazer o trabalho render mais. São pessoas que não têm pressa de subir pelo elevador, por exemplo. Preferem subir pela escada, exercitando as pernas e a imaginação, ou jogando conversa fora com um desconhecido. Não têm a pressa de apresentar pareceres e pontos de vista em 60 segundos. Ao contrário, dedicam seu tempo a escutar os pontos de vista alheios. Não têm a pressa de engolir um sanduíche em pé no escritório; reservam um tempo para fazer da gastronomia um hobby. Sem pressa, eles não pegam atalhos: procuram caminhos com paisagem e assim não sofrem com taquicardias e infartos. O estresse envelhece antes da hora. Inclusive as idéias. O mundo se apresenta hoje como uma auto-estrada alemã, livre de radares patrulhando a velocidade, onde quem tem mais potência e tecnologia pisa mais fundo, sem olhar para os lados. Você há de concordar que é tenso. Tirando levemente o pé do acelerador, o coração acalma e os olhos percebem melhor o que há nas laterais da pista. Pode-se trocar de música, ajeitar o retrovisor, prestar atenção no 82 que diz o companheiro de viagem. Ou parar e provar uma fruta na beira da estrada. Faz-se tudo correndo muito menos risco de sofrer acidentes e chegando ao destino do mesmo jeito. Na moda, costuma-se dizer que “menos é mais”. Não é uma frase que se aplique literalmente ao mundo dos negócios. Mas sou obrigada a concordar tanto com De Masi quanto com Saramago: a velocidade máxima permitida para vencer é aquela que não nos deixa esquecer que, além da estrada, existe um troço chamado vida, sem a qual não faz o menor sentido chegar lá. (MEDEIROS, Martha. Exame, 15 dez. 1999). a) Antes de redigir seu texto, a autora certamente organizou suas idéias a fim de construir um texto coeso e coerente. Podemos observar essa organização se nos detivermos em cada parágrafo e extrairmos a idéia desenvolvida em cada um. Releia o texto e grife a idéia principal de cada parágrafo. Mostre como foi feita a articulação dos parágrafos. b) Em que parágrafo a autora começa a expor realmente seu ponto de vista? O que ela nos apresenta antes disso? c) Na construção de seu texto, a autora cita dois intelectuais: Domenico De Mais de José Saramago. Qual a importância dessas citações para a organização argumentativo do texto? d) Dificilmente um texto é construído a partir de uma única voz. É muito comum encontrarmos, no meio de um discurso, o discurso de outrem. Neste texto, percebemos que há, pelo menos, quatro vozes. Identifique-as. e) Dê sua opinião sobre o que você leu, elaborando um parágrafo dissertativo completo 8) Leia, com atenção, o anúncio publicitário a seguir para responder ao que se pede. (Veja, 21 dez. 2005, p. 106-107) a) Que recurso o anunciante utilizou para comprovar que seu produto é realmente bom? Justifique. b) Explique o trocadilho feito por meio da palavra “padrão”. c) Como compreender o processo metalinguístico instaurado nessa publicidade? Que efeitos ele pode gerar no leitor? d) A que conclusões você chega acerca da linguagem persuasiva da publicidade? 83 Capítulo 4 4 Prática de textos 4.1 Dossiê Cotidiano e Atualidades Nesta seção, você estudará diversos textos sobre fatos do cotidiano e sobre questões atuais. No Capítulo 3, você estudou a estrutura da argumentação, os recursos argumentativos mais recorrentes e algumas falácias. A partir de agora você destinará sua atenção apenas à leitura e à produção de artigo de opinião, gênero textual escolhido para essa seção. Espera-se que você aprimore suas habilidades e competências na elaboração e organização de suas opiniões e juízos de valor acerca dos acontecimentos aos quais estamos expostos. 4.1.1 Artigo de opinião Opiniões não se restringem à fala; elas também podem ser dadas por escrito. Jornais, revistas, blogs publicam artigos de opinião, editoriais, cartas dos leitores, entre outros textos de natureza opinativa. Ao escrever um artigo de opinião, o articulista parte de uma questão polêmica de relevância social, criada em torno de um fato que foi notícia – sem essa questão polêmica não existe artigo de opinião. A questão gera discussões porque há pontos de vista opostos sobre o assunto. Por isso, o articulista, ao escrever, assume uma posição, defende-as com argumentos e dialoga com diferentes pontos de vista que circulam sobre a polêmica. Os artigos de opinião são importantes instrumentos para a formação do cidadão. Aprender a ler e a escrever esse gênero contribui para desenvolver a capacidade de participar, com argumentos convincentes, das discussões sobre questões do lugar onde se vive e, mais do que isso, de formar opinião sobre elas, colaborar para resolvê-las, praticar a cidadania. 4.1.2 Textos e atividades 1) Há uma fórmula desejada para a produção de artigos de opinião: introdução (ideia principal), desenvolvimento (argumentos) e conclusão (confirmação da ideia principal e sugestões). Outros fatores também interferem na produção desse gênero textual, listados abaixo. Com base neles, analise os textos a seguir. 1. O autor se baseia numa questão polêmica para elaborar seu texto. 2. O autor informou a origem dessa questão. 3. O autor tomou uma posição. 4. O autor considerou pontos de vista de opositores para construir argumentos. 5. O autor usa elementos de coesão para garantir a progressão e articulação das ideias. 6. O autor usa argumentos de autoridade, de exemplificação, de provas, de princípio / crença pessoal, causa e conseqüência. 7. O autor conclui o texto reforçando sua posição. 8. O autor elaborou o texto com legibilidade e com paragrafação adequada. 9. O autor usou um registro de linguagem adequado e ortografia correta. 10. O autor elaborou um título criativo e chamativo. 84 Texto 1: A bola da vez Pode-se concordar ou não com a iniciativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado da Turquia, de participar diretamente dos esforços em busca de uma solução para a séria crise gerada pelo programa nuclear do Irã. Dependendo do analista, a atitude foi considerada ingênua, precipitada ou ousada. Não há, porém, como negar que a governança mundial precisa de novas estruturas e novas lideranças. Uma frase de Lula diz muito a respeito dessa questão: “O mundo já não é o mesmo do tempo em que as decisões eram tomadas por Churchill, Stálin e Roosevelt”. De fato, o sistema de governança mundial montado no pós-guerra, que, aliás, teve extraordinária eficiência na Europa e na Ásia, é mantido até hoje,como se as forças políticas e econômicas não tivessem mudado nos últimos 65 anos. Alemanha e Japão, que perderam a guerra e foram beneficiados pelos planos de reconstrução, transformaram-se em potências econômicas, mas continuam fora do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, ainda hoje dominado pelos cinco grandes países vencedores da Segunda Guerra Mundial: Estados Unidos, China, Reino Unido, França e Rússia. Os quatro grandes emergentes, conhecidos como Brics, responderam por metade do crescimento global de 2000 a 2008 e, segundo as previsões, serão responsáveis por dois terços da expansão de produção esperada para os próximos cinco anos. Apesar disso, dois dos quatro Brics –Brasil e Índia – não têm voz nem voto proporcionais ao seu tamanho e importância nos dias de hoje. Os organismos de governança na área financeira, como o FMI e o Banco Mundial, também criados no pós-guerra, são impotentes para enfrentar as crises dos tempos de globalização. Só para ter uma ideia, o BNDES brasileiro empresta hoje mais recursos do que o Banco Mundial. Na crise americana de 2008 e na atual da Europa, o FMI teve participação secundária, por falta de influência e recursos financeiros. Na área social, a ineficiência da governança mundial é literalmente dramática. Milhões de pessoas passam fome diariamente em países pobres, principalmente na África, sem que a FAO, organização da ONU que cuida de agricultura e alimentação, tenha condição de fazer alguma coisa para distribuir os excessos de produção de alimentos que existem pelo mundo. Em vários outros setores, há fragilidade dos organismos multilaterais. A OMC (Organização Mundial do Comércio) impõe sanções contra países que desrespeitam as regras do livre comércio, mas essas punições não são cumpridas e continua tudo do mesmo jeito. As negociações na área ambiental são um fiasco, e grandes países simplesmente ignoram a vontade da maioria sobre um problema que tem potencial para levar à destruição do planeta. Imigrantes em busca de oportunidades de emprego são discriminados e maltratados sem que nenhum organismo internacional cuide de exigir que pelo menos sejam respeitados como seres humanos. Há, portanto, importantes tarefas a serem cumpridas pela nova comunidade internacional do século 21, como o combate à fome, a manutenção do livre mercado, a abertura comercial, a batalha contra o aquecimento global, a contenção das armas nucleares e o enfrentamento do terrorismo. Essas tarefas não podem ser assumidas apenas por meia dúzia de nações, como se faz desde 1945. O mundo claramente está a demandar uma administração mais moderna, eficiente e representativa das atuais forças políticas e econômicas. A comunidade internacional não é mais constituída pela voz dos EUA e da Europa. As crises financeiras que atingiram ambos deixaram isso muito claro. Os críticos de Lula o chamaram de ingênuo. Alguns o acusaram de ter agido em nome dos Estados Unidos. Pode ser que exista um pouco de ingenuidade na atitude do presidente. Não há dúvida, porém, de que o Brasil tem o direito de reivindicar um novo papel internacional, adequado à sua condição de potência emergente. (STEINBRUCH, Benjamin. A bola da vez. Folha de S. Paulo, 1º junho 2010, p.B10. Caderno Mercado) 85 Texto 2 – A loira do banheiro Dia desses fiquei mais bravo do que cachorro de japonês com uma loira de cabelos sebosos em um shopping aqui de São Paulo. Funcionária de uma loja, ela se viu no direito de usar o único banheiro acessível do andar com a justificativa de que "tinha pouco tempo de almoço" e ali não tinha fila. E mais, segundo ela, "não há lei" que a proíba de retocar a maquiagem no espaço reservado para deficientes e pessoas com mobilidade reduzida. Reconheço que o banheiro acessível - aquele com o símbolo de uma cadeira de rodas na porta- disponha de vantagens que convidam para o uso os mortais comuns: é ligeiramente maior, tem aquelas barras de apoio, sem falar que é difícil faltar papel higiênico, uma vez que muita gente usa o local inadequadamente como depósito. Acontece que essas "vantagens" estruturais têm razões práticas. O espaço mais generoso é porque não rola deixar a cadeira de rodas na porta, levantar e usar o WC. Tem que entrar com quatro rodas mesmo. Para os cegos que arrastam cão-guia, também é preciso maior metragem, ou alguém consegue imaginar um cachorro naqueles cubículos junto com o dono? As barras de apoio servem para ajudar que os desequilibrados, como eu, consigam se transferir da cadeira e se manter firmes no trono. Mas, voltando à loira do banheiro, tudo aconteceu quando eu esperava para usar a casinha, que ficou ocupada por cerca de 15 minutos por uma morena, também funcionária do shopping. Quando ela me viu na porta, batendo palmas, quis se transformar no Belchior e sumir. Ela me pediu desculpas, e bola para a frente. Antes disso, chegou a loira, ignorou a entrada do banheiro feminino e ficou do meu lado, esperando vaga no acessível. “Moça, esse banheiro é reservado”, quis eu alertar. “Eu sei, mas a lei obriga que haja o espaço acessível, e não que ele seja exclusivo para vocês”, declarou a rábula com desdém. Naquele momento, como diz um amigo meu chamado Wadê, “eu pirei”. Era só o que falta, ter de criar leis para que as pessoas sejam cidadãs, tenham bom senso, ajam com o mínimo de dignidade com o outro. Existe uma lógica de os deficientes defenderem o uso exclusivo do banheiro acessível. Imagine você, depois daquela coxinha criminosa devorada no pé-sujo da esquina, procurando desesperadamente um lugar para se livrar do pesadelo. Para os "normais", um banheiro público oferece diversas opções de relaxamento com mais ou menos coliformes, mas oferece. Para cadeirantes, quando existe UM, já é um alívio, literalmente. Agora, se esse UM estiver ocupado por quem poderia usar outra casinha, é de chorar de tanga no meio da rua. O banheiro exclusivo também é importante por uma razão de saúde. Pessoas que tiveram lesão medular -devido a um acidente, por exemplo- ficam mais suscetíveis a contrair infecções urinárias. Num ambiente com menos uso, o risco de contaminação pode ser menor. Sem falar dos cegos que, por motivos óbvios, se expõem menos num banheiro menos frequentado. Entendo que não é preciso lei que regule o respeito às diferenças. Um bocadinho de informação e um pouco mais de compreensão talvez acabassem de vez com as assombrações e indignações por causa de banheiros. (MARQUES, Jairo. A loira do banheiro. Folha de S. Paulo, 6 julho 2010, p. C2. Caderno Cotidiano) 86 Texto 3 – Terrorismo é vaidade Certo dia visitei o "museu do terrorismo" do Centro de Informações Meir Amit, em Israel. Aconselho. O "museu" não será propriamente um Louvre ou um Metropolitan. Mas permite contemplar, em vitrines legendadas, o tipo de material que os militares israelenses confiscam em seus "raids" contra grupos terroristas. Foguetes, sim. Metralhadoras, também. E bazucas. E bombas artesanais. Mas o melhor do passeio está no material "didático" (digamos assim) que os "mártires" deixam ficar para os vivos. No Ocidente, as nossas crianças colecionam figurinhas colantes de jogadores de futebol, atores, cantores. No estranho mundo do terrorismo suicida, crianças de igual idade levam para a escola álbuns coloridos com imagens dos que morreram pela causa. Existem sinistras semelhanças entre esses "mártires" e as nossas celebridades. Todos são jovens. Todos assumem uma pose blasé. No caso dos "mártires", a pose é refinada por uma AK-47 empunhada com orgulho. É também possível admirar pôsteres de tamanho generoso onde estão reunidosos melhores atentados terroristas e, claro, os seus brilhantes autores. Uma espécie de "best of" a exigir adoração. E imitação. Não dá para acreditar? Pois não, leitor, não dá. Eu próprio falei com alguns nativos (palestinos inclusos) e confessei pasmo e horror. Inútil tanto pasmo e horror. Faz parte do negócio, disseram-me: antes do grande dia (tradução: antes do massacre indiscriminado de civis em restaurantes ou discotecas), o "mártir" tira fotos e grava vídeos. Só não concede autógrafos porque o inimigo sionista está atento e convém não abusar. Curiosamente, essa cultura de morte e de celebração da morte está bem retratada no filme (palestino) do diretor (palestino) Hany Abu-Assad. Chama-se "Paradise Now". Também aconselho. E aconselho mais: prudência. Os ataques de 11 de Setembro inauguraram uma indústria profícua: a indústria da sabedoria islamita instantânea. Livros, artigos, conferências -não faltam especialistas de todas as cores ou feitios dispostos a explicar a mente terrorista. A explicar e a desculpar. O terrorismo existe porque a pobreza existe. O terrorismo existe porque os Estados Unidos existem. O terrorismo existe porque Israel existe. O terrorismo existe porque a religião existe. O terrorismo existe porque a alienação social existe. O terrorismo existe porque a doença mental existe. Ausente de tanta sabedoria está uma hipótese mais banal e mais humana: o terrorismo existe porque a vaidade existe. E o terrorista participa no ritual da morte porque encontra nesse ritual uma consagração pop que o redime de todos os fracassos passados e terrenos. São os seus 15 minutos de fama. É a sociedade do espetáculo levada até às últimas consequências. E Osama bin Laden sabia disso. Tudo foi escrito sobre a morte de Osama. Mas o melhor dessa morte foi revelado agora pelos Estados Unidos: vídeos caseiros confiscados durante o ataque. E com Bin Laden no papel principal. É ver para crer: o mais famoso terrorista do mundo em sua casa, com barba grisalha e feições envelhecidas; mas olhando ainda com orgulho para imagens televisivas das suas atrocidades. Há algo de infantil nos vídeos caseiros de Bin Laden; há algo de obscenamente pueril na forma como aquele homem contempla, envaidecido, os produtos do seu próprio horror; há algo de fascinante e repugnante na forma como ele sorri interiormente sempre que o seu nome é proferido pelos jornalistas. Sem falar da versão construída para consumo midiático: sabemos também, por meio dos vídeos, que aquele velho pintava de preto a barba e o cabelo para lançar as suas diatribes retóricas contra o Ocidente; sabemos que ensaiava os discursos, que se enganava, que recomeçava. E que finalmente acertava, na pose e no tom. As televisões só emitiam o "take" perfeito. Nesses momentos, imagino Osama gritando da sala: "Meninos, venham ver o vosso pai na TV!". Imagino a família Bin Laden, reunida em frente à telinha, como se Osama fosse um mero concorrente do Big Brother. Imagino a sra. Bin Laden, orgulhosa do seu homem, e sussurrando-lhe ao ouvido com entusiasmo adolescente: "Osaminho, você continua sendo a minha estrela de cinema favorita". (COUTINHO, João Pereira. Terrorismo é vaidade. Folha de S. Paulo, 10 maio 2011, p. E8. Caderno Ilustrada) 87 Texto 4 – Jovens Chego ao caixa do supermercado, onde estão a mulher de unhas cor-de-rosa e o senhor de Rider, e nos olhamos de esguelha -nossas pupilas nem se cruzam, trata-se apenas daquela checada rápida, com o canto do olho, herança das savanas, talvez, quando tínhamos que avaliar, num átimo, se havia algum leão à espreita. Não há: nenhum de nós é skin- head, bêbado ou aparenta levar uma machadinha escondida embaixo do casaco, de modo que a paz logo se instaura no microcosmo do nosso caixa; a mulher diz que sim, quer Nota Fiscal Paulista, não, não tem o cartão do supermercado e, após breve hesitação, decide pagar no crédito; o senhor começa a colocar sobre a esteirinha rolante suas compras de homem solitário, uma pizza congelada, dois limões, três latas de cerveja; eu batuco, despreocupado, na grade do carrinho. É aí que ouvimos as risadas. Várias, estridentes. Os mesmos genes responsáveis pela esguelha preventiva nos acionam o alerta laranja: "atenção, barulho, perigo!" e fazem com que viremos na direção da algazarra. São três meninos e duas meninas, entre 16 e 18 anos. Empurram um carrinho com cervejas, uma vodca e um pacote de Doritos. "Ai, cala a boca, Amanda!", diz um deles, bem alto, e logo recebe, da menina, um soco no braço. Riem muito. Nós, a turma dos veteranos da fila, damos as costas aos garotos e, pela primeira vez, nos olhamos nos olhos. É um pacto silencioso, que diz: a paz foi perturbada, não estamos de acordo com este comportamento, somos contra jovens que chegam rindo, dizendo "Ai, cala a boca, Amanda" e trocando soquinhos, no supermercado. Eles param atrás da gente, com uma extroversão que é diretamente proporcional ao nosso incômodo. A mulher de unhas rosa espera a máquina emitir seu recibo, tensa, o senhor limpa a garganta, mandando para dentro o pigarro e para fora seu sinal de desaprovação, eu pego uma barra de cereais e finjo a mim mesmo um grande interesse pela tabela nutricional - e é entre kcals e fibras alimentares que a razão do meu desconforto vai se revelando. Faz muito pouco tempo, eu estava ali atrás, falando alto, desdenhando dos adultos, com plena consciência de que o mundo é um palco e todos os papéis são cômicos. Agora, estou do lado do Rider, das unhas cor-de-rosa, do "cada coisa em seu lugar" e "a liberdade de um vai até onde começa a...". Não, não tenho a menor saudade da adolescência. Sete anos sem saber se punha as mãos nos bolsos ou pra fora das calças, a obrigação de estudar química às sete e quinze da manhã, a certeza absoluta de que iria morrer virgem, puro e besta - cruz-credo. O lado de cá é bem mais confortável, e é justamente esse conforto que os garotos ameaçam, de maneira tão ingênua e eficaz, inserindo risadas, extroversão e agressividade onde deveria haver apenas "boa noite", "Nota Fiscal Paulista?", "débito ou crédito?". Enquanto entrega o cartão à moça do caixa, posso ouvir o senhor ruminando: "absurdo! Se cada um fizesse o que tem vontade, na hora que tem vontade, o que seria do mundo?" O que seria do mundo? E de nossas vidas? Eis as perguntas que não ousamos nos fazer, e que os moleques nos esfregam na fuça, com suas risadas. (PRATA, Antonio. Jovens. Folha de S. Paulo, 16 março 2011, p. C2. Caderno Cotidiano) 88 Texto 5 – Grandes e pequenos desejos Os adolescentes de hoje me parecem desejar de maneira tímida. Como já escrevi, surpreende-me que eles desejem pequeno. De fato, poderia estender essa constatação aos adultos de hoje. Não que eles deixem de desejar (isso só acontece em raras depressões graves), mas há, aparentemente, uma preferência contemporânea generalizada pelos desejos pequenos. Cuidado: um desejo não é pequeno porque seu objeto seria pouco relevante. Tomemos, por exemplo, "Maria está a fim de cerejas" e "Antônia quer o fim de todas as guerras". Será que o desejo de Antônia é grande e o de Maria pequeno? Nada disso. Melhor nunca comparar desejos por sua suposta "nobreza" - até porque essa tal "nobreza" pode esconder motivações bem mais torpes do que uma saudável vontade de cerejas. Então, como diferenciar desejos grandes e pequenos? Pois bem, há desejos fluidos, suscetíveis de infinitos deslizamentos, como se, de alguma forma, o objeto desejado fosse indiferente. Esses são desejos pequenos. Por exemplo, estou a fim de uma calça nova. Entro na loja e o tamanho 39 está em falta.Olho ao redor de mim e acabo comprando duas camisas que não têm nada a ver com a calça que eu desejava. Quero rever "Cisne Negro", mas a sessão está lotada; nenhum drama, compro ingresso para "Bruna Surfistinha" (incidentemente: me dei bem, amei o filme). Também posso querer o fim de todas as guerras e, ao ver na TV uma ação do Greenpeace, decidir que de agora em diante só me importa o destino das baleias. Nesse caso, por se revelar facilmente substituível, o fim de todas as guerras é um desejo pequeno. Há um outro tipo de desejo, mais incômodo, que não admite a substituição. Quero circum-navegar a Terra de veleiro, quero vingar meu pai, quero produzir uma obra, construir um império, rezar em silêncio no deserto, comer cerejas a cada dia: se eles forem insubstituíveis, se sua insistência moldar nossa vida, esses desejos são grandes porque eles nos definem. O desejo pequeno é ideal para uma sociedade que conta com o consumo para alimentar a produção e organizar as diferenças sociais. Desejos substituíveis garantem que a gente seja sempre levemente insatisfeito e levemente desejante, esvoaçando de objeto em objeto como uma abelha num campo de flores. Quanto ao desejo grande, que já foi ideal dominante, ele é hoje raro na prática, mas (anúncio de uma mudança dos tempos?) a sedução que ele exerce está crescendo. Como Mônica Waldvogel (no "Entre Aspas", da Globo News, na última quinta) e o crítico da Folha Inácio Araújo (na Ilustrada de domingo), reparei que a safra do Oscar deste ano é peculiar: quase todos os filmes indicados ilustram desejos grandes. Estamos tão acostumados a desejar pequeno que desejar grande (e pagar o preço disso) nos parece ser um comportamento patológico (o cara enlouqueceu, está obcecado) ou, então, sinal de crise (os EUA devem estar muito mal se eles precisam idealizar esses heróis que desejam grande). Penso o contrário: patológico é desejar pequeno. E, se os Estados Unidos estão gostando de heróis que sonham grande, talvez eles estejam saindo da futilidade dos anos 90: o sinal não seria de crise, mas de saída da crise. Recentemente, vários leitores e leitoras me perguntaram por que não escrevi sobre "Cisne Negro", que (alguns notaram) é um prato cheio para um psicanalista. Pois é, amei o filme e concordo com a ideia do prato cheio, mas acontece que, no filme, o que me comoveu não foi tanto o desabrochar da loucura quanto o heroísmo do desejo de perfeição da protagonista -um desejo grande. Falando em desejo grande, "Bruna Surfistinha", que estreou na última sexta, é outro exemplo. O filme de Marcus Baldini não é uma apologia nem uma crítica moralista da prostituição: é um filme sobre o difícil e tortuoso caminho de alguém que quis ser livre. É a história de um desejo grande. (CALIGARIS, Contardo. Grandes e pequenos desejos. Folha de S. Paulo, 3 março 2011, p. E15. Caderno Ilustrada) 89 Texto 6 – Deus me livre de ser feliz Deus me livre de ser feliz. Existem coisas mais sérias que a felicidade. Algum sabichão por aí vai dizer, sentindo- se inteligentinho: "Existem várias formas de felicidade!". E o colunista dirá: "Sou filósofo, cara. Conheço esse blá-blá-blá de que existem vários tipos de felicidade, mas hoje não estou a fim". Um bom teste para saber se o que você está aprendendo vale a pena é ver se o conteúdo em questão visa te deixar feliz. Se for o caso e você tiver uns 40 anos de idade, você corre o risco de sair do "curso" engatinhando como um bebê fora do prazo de validade. A mania da felicidade nos deixa retardados. Querer ser feliz é uma praga. Quando queremos ser felizes sempre ficamos com cara de bobo. Preste atenção da próxima vez que vir alguém querendo ser feliz. Mas hoje em dia todo mundo quer deixar todo mundo feliz porque agradar é, agora, um conceito "científico". Quem não agrada, não vende, assim como maçãs caem da árvore devido à lei de Newton. Mas eu, talvez por causa de algum trauma (fiz análise por 20 anos e acho que Freud acertou em tudo o que disse), não quero agradar ninguém. Não considero isso uma "vantagem moral", mas uma espécie de vício. Claro, por isso tenho poucos amigos. Mas, como dizem por aí, se você tiver muitos amigos, ou você é superficial, ou eles são, ou os dois. Quanto aos meus alunos e leitores, esses eu nunca penso em deixar felizes, graças a Deus. Desejo para eles uma vida atribulada, conflitos infernais com as famílias, dúvidas terríveis quanto a se vale a pena ou não ter filhos e casar. Desejo que, caso optem por não ter família, experimentem a mais dura solidão da existência humana, porque, no fundo, não passam de egoístas. Mas se tiverem família, desejo que percebam como os filhos cada vez mais são egoístas porque querem ser felizes e livres. Desejo para eles pressões violentas no mercado de trabalho. E jantares à meia-noite diante de um trabalho que não pode ficar para amanhã porque querem viajar e ter grana para gastar. Quem quiser ser livre, que aguente a insegurança da liberdade. Quem for covarde e optar por uma vida miseravelmente cotidiana que veja um dia sua filha jogar na sua cara que você foi um covarde. Especialmente, desejo um futuro cruel para quem acredita que "ser uma pessoa de bem" a protege de ser infiel, infeliz, abandonada e invejosa. Espero que um dia descubram que, sim, eles têm um preço (apenas desejo que seja um preço alto) e que se vendam. Espero que percebam que seus pais não foram santos e parem com essa coisa de gente brega de classe média que tenta inventar uma "tradição ética familiar" que só engana bobo. E por que digo isso? Porque hoje todos nós estamos um tanto infantilizados e só queremos que nos digam o que achamos legal. O resultado é uma massa de obviedades. A tendência é transformar o pensamento público em autoajuda ou em "compromisso com um mundo melhor", o que é a mesma coisa. Quem quer agradar é, no fundo, um frouxo. Vejamos alguns exemplos do produto "querer ser feliz". Comecemos por quem acha que o seu "querer ser feliz" é superior e espiritualizado. Talvez você queira virar luz quando morrer porque ser luz é legal (risadas). Deus me livre de querer virar luz quando morrer. Prefiro as trevas. Se for para continuar vivendo depois de morto, prefiro viver no "meu elemento", as trevas, porque sou cego como um morcego. Normalmente, quem quer virar luz quando morrer é gente feia ou magra demais. Mulheres bonitas vão para o inferno, logo... E gente que acha que frango tem mãe (só porque ele "descende" do ovo de uma galinha, e ela de outro...) e por isso é crime matá-los? Trata- se de uma nova forma de compromisso com a "felicidade social e política". Entre esses "felizes que desejam a felicidade para os frangos" existem pessoas de 40 anos com cérebro de dez e pessoas de dez anos que um dia terão 40, mas com o mesmo cérebro de dez. Não creio que mudem. Hoje é Carnaval. Espero que você não tenha pegado aquele trânsito idiota de cinco horas para ser feliz na praia. (PONDÉ, Luiz Felipe. Deus me livre de ser feliz. Folha de S. Paulo, 7 março 2011, p. E6. Caderno Ilustrada) 90 Texto 7 – A outra chave de casa Silenciosamente, enquanto todos prestavam atenção nas últimas flores das tecnologias de consumo pessoal, uma mudança enorme aconteceu. Praticamente ninguém se deu conta dela, por mais que afetasse profundamente boa parte das dinâmicas sociais. Suas consequências para o comportamento dos seres urbanos são imprevisíveis, mas acredito que sejam bastante sérias: falo do desaparecimento da fronteira entre os territórios de "casa" e "rua". Essa fronteira foi erguida no ocidente ao longo dos últimos séculos, quando as famílias quese diziam civilizadas separaram, aos poucos, os bens públicos dos privados. Foi uma atitude estranha, egoísta e contraproducente, pois demandava infinitas cópias de cada bem, mas que mesmo assim funcionou tão bem que mesmo hoje é raro alguém perguntar o porquê de tão poucos bens coletivos. Ora, porque sim. E pronto. A internet começou a romper a barreira artificial ao entregar o que a televisão sempre prometeu: colocar, efetivamente, o planeta dentro de casa. Por mais importantes que fossem as notícias da telinha, elas sempre diziam respeito aos "outros", àqueles que, "lá fora", faziam o mundo acontecer. Aos poucos, home banking, e- commerce e tantos outros nomes em inglês de que mal se ouvira falar no final do século passado mudaram a relação de poder e passividade. Quem tinha acesso à rede passava a ter, de casa, uma alavanca e um ponto de apoio para mover o mundo. O muro começava a ruir. Com a banda larga, o processo se acelerou. Tecnologias como P2P, streaming e computação em nuvem permitiram o compartilhamento de milhões de documentos, lícitos ou não, via Google, Flickr, YouTube, BitTorrent e tantos outros. Esse conteúdo, por não estar aparentemente no computador de ninguém, foi parar no computador de todos. Sem que se percebesse, a inteligência voltava a ser coletiva. As mídias sociais derrubaram de vez a divisão. Até então, os sistemas de comunicação pessoal eletrônica -e-mail e mensageiros instantâneos como MSN ou Skype- não eram muito diferentes de um telefone ou um correio anabolizados. O que acontecia neles ficava por ali e não era da conta de ninguém. À medida que blogs, YouTube, Orkut, Facebook e Twitter passaram a dar a qualquer indivíduo um grau de exposição antes reservado às celebridades, as portas e janelas de todos foram abertas para multidões de voyeurs declarados. Quem está conectado em casa passou a estar, ao mesmo tempo, na rua. E vice-versa. Onde quer que se esteja, os amigos sempre estão por perto. Muitas vezes, perto demais. E nem são tão amigos assim. O celular, em especial o smartphone, se tornou a nova chave de casa. Com ele é possível trazer o mundo inteiro para dentro de um ambiente privado, ao mesmo tempo que se possibilita o compartilhamento de experiências pessoais com o mundo. Aquele que surgiu como um telefone móvel é hoje um aparelho de identidade, contato e inclusão digital. Ele ainda é tão importante quanto o cartão do banco e aquele outro objeto de metal, pesado e desconfortável, que não presta pra nada além de abrir uma porta de madeira que fecha uma cela contemporânea. Mas não demorará para que os substitua. (RADFAHRER, Luli. A outra chave de casa. Folha de S. Paulo, 23 fevereiro 2011, p. F8. Caderno Tec) 91 Texto 8 – Qualidade de morte Até meados do século 20, dava quase na mesma ser pobre ou rico na hora de morrer: iam-se todos de modo semelhante, pois as doenças ignoravam privilégios. Diante da tuberculose, por exemplo, não havia ouro que comprasse sofrimento menor ou alguma sobrevida: morriam afogados, na derradeira hemoptise, tanto os operários de Manchester estudados por Engels como os burgueses dos quais nos fala Thomas Mann em "A Montanha Mágica". Com o avanço da ciência, porém, tudo parece ter mudado. Hoje há muitos que acreditam que o dinheiro, além de comprar uma vida mais "rica", também garante a qualidade da morte: por meio dele, os abastados despedem-se deste mundo no ambiente glamuroso de "hospitais-boutique", sob os cuidados dos "médicos da moda". Mas será que as coisas são tão simples? Por um lado, ainda que a pobreza torne a vida difícil, é ingênuo pensar que a riqueza, por si só, seja capaz de resolver os enigmas que a existência nos impõe, magnatas ou não. E o remorso não raro corrói a paga que os "eleitos" recebem por sua ganância. Se isso não é tão claro, é porque a maioria das pessoas desconhece a intimidade dos poderosos, sempre dilacerada por conflitos: os psicoterapeutas e os próprios poderosos sabem bem do que falo. Por outro lado, o acesso à medicina "de ponta" nem sempre é garantia de boa recuperação ou de morte tranquila, além de dar origem a paradoxos. Um exemplo é a angústia que destrói a saúde dos que sofrem, no presente, com as moléstias que – imaginam – terão no futuro. Martirizam-se, assim, por não terem um plano de saúde "top", o qual já se tornou, ao lado do carro "zero", o atual sonho de consumo. Para essa angústia contribuem, crucialmente, a propaganda dos centros diagnósticos – que não param de crescer – e a ingenuidade de médicos que confundem prevenção com obsessão por doenças. Outro exemplo é o caso dos doentes terminais mantidos vivos mesmo à custa de muita dor, bem como a insensatez de uma legislação que proíbe a eutanásia para as pessoas que dela necessitam, condenando-as, cruelmente, ao papel de axiomas de grotesca tese: a de que a vida deve ser sempre preservada, "coûte que coûte"... Mas, já que a morte segue inevitável - muito embora a publicidade procure nos convencer de que somos imortais-, não seria melhor que encarássemos a vida de outro modo, empregando-a não só para "conquistar um lugar ao sol" mas também para aceitar um "cantinho" nas sombras para onde iremos todos? Não seria importante que aprendêssemos a morrer, buscando, se preciso, nas ideias de outras épocas a espiritualidade que tanta falta nos faz? Infelizmente, não é o que vemos. Ao ideal da morte honrosa dos gregos, da morte- libertação dos gnósticos, da boa morte dos cristãos medievais, da morte heroica dos românticos, nós contrapomos a "morte segura" no leito high-tech de um hospital chique, transfixados por catéteres e "plugados" na TV. Uma morte que é o símbolo perfeito da doença que acomete a nossa civilização e que, decerto, vai matá-la: o conformismo hedonista. (SANTOS, Cláudio Guimarães dos. Qualidade de morte. Folha de S. Paulo, 9 março 2011, p. A3. Caderno Opinião) 92 Texto 9 – O comércio de crack A disseminação vertiginosa da epidemia de crack deixa a sociedade perplexa. Tememos por nossos filhos, pela violência que caminha no rastro da droga, lamentamos o destino dos farrapos humanos que perambulam pela cidade, mas nos sentimos impotentes para lidar com problema social de tamanha complexidade. Diante desse desafio, a única saída que fomos capazes de encontrar é a de reprimir. Partimos do princípio que, se prendermos todos os traficantes, as drogas ilícitas desaparecerão ou chegarão aos centros urbanos a preços proibitivos. Alguém já disse que todo problema complexo admite uma solução simples; sempre errada. Pretender acabar com o crack por meio da repressão é ingenuidade. Gastamos fortunas para conseguir o quê? Cadeias lotadas, polícia corrompida, violência urbana, judiciário sobrecarregado, traficantes poderosos, mortes de adolescentes e droga barata. Barata como nunca. Tratar o uso de crack como simples caso de polícia, é política pública destinada ao fracasso. É enxugar gelo, como disse um delegado. Os jornalistas Mario Cesar Carvalho e Laura Capriglione publicaram no jornal Folha de São Paulo (caderno Ilustríssima de 23/6/2010) uma das análises mais brilhantes que já li sobre a epidemia de crack no Brasil. Para eles, é impossível compreender como uma droga com tal poder destrutivo se espalhou pelo país, sem analisar os dados econômicos envolvidos em seu comércio. Estão certíssimos. Citando dados da Polícia Federal enviados à ONU, os autores fazem a seguinte análise: “um grama de cocaína vale R$ 6 no atacado e R$ 25 no varejo, gerando um lucro de 300%. O lucro do crack é menor, de 200% — o traficante graúdo pega o grama por R$ 4 e o revendepor R$ 12. O que faz toda a diferença do crack é o tamanho da clientela em potencial. As classes C, D e E correspondem a 84% da população do país (162 milhões de pessoas)…” Segundo os dois jornalistas, as propriedades farmacológicas da cocaína fumada sob a forma de crack, causadoras da sensação imediata de prazer intenso que leva ao uso compulsivo, e a liquidez espantosa que o crack encontra nas ruas completam o quadro. Há mais um detalhe a considerar. No comércio de qualquer mercadoria, os custos para transportá-la do centro de produção ao de consumo são cruciais para o sucesso das vendas. No caso das drogas ilícitas, esse gasto é irrelevante. Se um traficante pagar 2 mil dólares por quilo de cocaína pura na Bolívia, e um piloto cobrar a quantia absurda de 500 mil dólares para transportar 500 quilos para os Estados Unidos num voo clandestino, que diferença fará? O preço final aumentará apenas 1.000 dólares por quilo, que será vendido por 30 mil dólares em Nova York. É impossível eliminar do mercado um produto com essas características, comercializado por capitalistas selvagens que não recolhem impostos nem reconhecem direitos trabalhistas, com poder suficiente para corromper a sociedade e condenar à morte os que lhes prejudiquem os negócios. Veja os americanos, leitor. Investiram na guerra contra as drogas mais do que a soma gasta por todos os países reunidos, e qual foi o resultado? São os maiores consumidores do mundo. O que fazer, então? Cruzar os braços? A forma mais sensata de enfrentá-lo é reduzir o número de usuários. Dependência química não é mero hábito de pessoas sem força de vontade para livrar-se dela, é uma doença grave que modifica o funcionamento do cérebro. Nós, médicos, devemos confessar nossa ignorância: não sabemos tratá-la, porque nos faltam experiência clínica e conhecimento teórico. Só recentemente a comunidade científica começa a se interessar pelo tema. É preciso oferecer ao craqueiro uma alternativa de vida para tirá-lo das ruas. Além disso, criar novos centros de recuperação formados por equipes multidisciplinares de profissionais bem pagos, dispostos a aprender a lidar com os dependentes, a conduzir pesquisas e a definir estratégias baseadas em evidências capazes de ajudar os inúmeros usuários dispostos a escapar do inferno em que vivem. O dependente de crack deve receber apoio social e ser tratado com critérios semelhantes aos que usamos no caso dos hipertensos, dos diabéticos, dos portadores de câncer, Aids e de outras doenças crônicas. (VARELLA, Drauzio. O comércio de crack. Folha de S. Paulo, 5 junho 2010, p. E12. Carderno Ilustrada) 93 Texto 10 – Tatuagens são para sempre Conheço uma moça que gastou um bom dinheiro, e um bocado de tempo, tentando, sem sucesso, tirar da orelha uma tatuagem que havia feito na Índia, no tempo em que era devota de um guru famoso. Não sei por que ela queria tirar a marca, mas o que me ficou marcado, para mim, é que ela não estava conseguindo. Eu não tenho tatuagens. Na minha geração não era moda. Quando se tornou moda, nos anos 90, eu não consegui embarcar. Tenho dificuldade em responder às duas perguntas básicas que antecedem a tatuagem: onde tatuar e o quê tatuar. Imagino que essas dúvidas expressem uma resistência mais profunda. Tatuagens são para sempre e eu tenho dificuldade com o que é irremovível. Vou morrer com a tela do corpo intacta – ou, pelo menos, livre de marcas voluntárias. Mas, ao meu redor, as tatuagens se multiplicam. São como itens de série num grupo de mulheres urbanas entre 20 e 30 anos. Em geral, vêm em dupla: uma na nuca, outra no ombro; uma no pé, outra na virilha; uma no cóccix, outra na panturrilha. Os temas das tatuagens também são parecidos, o que faz com que as pessoas fiquem mais ou menos iguais. Homens e mulheres. Houve um tempo em que fui tocado pela novidade e achei que esses adereços expressavam alguma forma de rebeldia. Ou de erotismo. Hoje eles não me dizem muita coisa, num terreno ou no outro. A revolta embutida nas tatuagens-padrão ficou para trás há muito tempo. Para chocar, hoje em dia, é preciso cobrir uma vasta porção do corpo – ou inventar um desenho totalmente inusitado. E bem agressivo. No capítulo do erotismo, uma pele sem mácula me parece tão sensual quanto uma pele desenhada, talvez mais. Vi este fim de semana as fotos da Cléo Pires sem roupa e fiquei com a impressão de exagero – com todas aquelas palavras tatuadas, a moça parecia São Paulo antes da lei Cidade Limpa. Continuava linda, mas, de alguma forma, aquele monte de desenhos desviava a atenção do essencial. Oscar Niemeyer, um homem que entende de beleza, disse uma vez que o corpo da mulher é a forma perfeita – por que, então, conspurcá-lo com tantas intervenções desnecessárias? Fica a pergunta. Para escrever este texto, eu tentei conversar com uma amiga que tem 13 tatuagens. Queria que ela me falasse do barato em desenhar e escrever no corpo com tinta que não apaga, mas a conversa não aconteceu. Minha curiosidade, portanto, permanece. Mas eu já tenho algumas opiniões. Acho que estão superestimando o ganho estético – e erótico – da decoração corporal. Se as atrizes dos pornôs baratos fazem as mesmas tatuagens das garotas de classe média, alguém está usando a coisa errada. Por isso que eu aposto que dentro de poucos anos nós veremos uma revalorização do corpo intacto. Chique vai ser não ter marcas. Outra coisa que me parece óbvia é que as pessoas tentam usar as tatuagens como uma forma de diferenciação. É um statement, como se diz em inglês, uma declaração sobre si mesmo. Os desenhos dão uma pista do que a pessoa pensa ou é. Ou pensa que é. Mas, quando todo mundo faz a mesma coisa, onde fica a individualidade? Não fica. Desaparece num mar de clichês visuais. Luas, estrelas, fadas, lírios, beija-flores, tribais... Parece uma feira hippie. Eu acho a onda das tatuagens mais uma expressão da nossa dificuldade cada vez maior em tratar com o abstrato, com aquilo que vai além das aparências. O corpo deixa de ser o complexo portador dos sentidos, dos sentimentos e das ideias para se transformar num outdoor. Frases curtas, imagens marcantes, cores. A complicada troca de ideias (eu falo, você ouve, depois a gente inverte), dá lugar a uma espécie de comunicação instantânea. Carrego todos os meus símbolos comigo e os revelo de uma só vez, exibindo o braço em que uma imagem me define: Cristo, 94 Che Guevara ou Gaviões da Fiel. Eu sou isso, sacou? Como virou moda e todo mundo usa, alguém pode dizer que a tatuagem tornou-se simbolicamente inofensiva. Ela passa, como outras rebeldias visuais da adolescência ou modismos de décadas passadas. Os piercings que a garotada usava na sobrancelha e no umbigo sumiram, embora tenham ficado os buraquinhos. Cabelos esverdeados, tranças rastafári, cavanhaques – isso tudo vai embora quando o dono cansa. A tatuagem não. Ela fica. O corpo muda, as ideias se transformam, mas a aquele desenho permanece, na contramão da natureza. Imagine a sua mãe até hoje com o cabelo que ela usava nos anos 80. A tatuagem pode ser isso, um anacronismo existencial colado na pele, a lembrança de algo que você já foi, deixou de ser, mas continua sinalizando, como uma placa de trânsito que esqueceram de arrancar – e que agora indica a direção errada. Talvez eu esteja exagerando, mas sempre penso nas pessoas que escrevem na pele o nome daqueles que amam. O que acontece com elas? O sujeito vai embora, viver com outra, mas a ex tem o nome dele escrito na nuca. O rapaz levou um pé na bunda, o noivado acabou, mas ele fica com o nome da Fulana escrito no braço. Acho essas coisas antinaturais. A marca do humanoé ser transitório. Tentar fixar na pele uma paixão, um momento, uma filiação, é inútil. As coisas passam, elas nos escapam. E aquelas que realmente permanecem estão tão fundas dentro de nós, tão entranhadas, que dispensam adereços e representações. Eu diria que as coisas essenciais não precisam ser tatuadas - e que as coisas que precisam ser tatuadas não são essenciais. Mas dêem um desconto no meu ponto de vista: eu sempre fui apaixonado por cadernos em branco. (MARTINS, Ivan Martins. Tatuagens são para sempre. Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT163 971-15230-163971-3934,00.html>. Acesso em: 24 jan. 2011) 4.1.3 Sugestão de atividade Na seção anterior, você leu e analisou artigos de opinião que abordam vários assuntos. Com base nas informações adquiridas e em sugestões de leitura do professor, produza um artigo de opinião acerca de uma das seguintes propostas – cada proposta está ligada aos textos anteriores, respectivamente. O professor é responsável pela execução dessa atividade ou por sua alteração. 1. Comportamento e questões econômicas 2. Deficientes físicos e sociedade 3. Mundo moderno e terrorismo 4. Jovens e suas relações sociais 5. Consumo e limites de desejos 6. Ser feliz: sociedade versus indivíduo 7. Tecnologia e espaços público e privado 8. Eutanásia e direito de morrer 9. Crack: coerção ao tráfico ou prevenção ao vício 10. Liberdades adquiridas versus modismos 95 4.2 Dossiê Política e Economia Nesta seção, você estudará diversos textos, enfatizando-se aqueles que abordam questões de política e economia e sua influência em setores, em grupos e em modos de vida da sociedade contemporânea. Esta seção também se destina ao desenvolvimento de suas competências e habilidades para a prática de produção de resumos, gênero textual muito utilizado na sua vida acadêmica e profissional. Ao final da unidade, você será avaliado pelas habilidades e competências desenvolvidas em atividades de produção de resumos construídos em torno de texto sobre o tema política e economia. 4.2.1 Resumo O resumo, conforme Platão e Fiorin (1997) é uma condensação fiel das ideias ou dos fatos contidos num texto. Resumir um texto significa reduzi-lo ao seu esqueleto essencial sem perder de vista três elementos: a) cada uma das partes essenciais do texto; b) a progressão em que elas se sucedem; c) a correlação que o texto estabelece entre cada uma dessas partes. O resumo é, pois, uma redução do texto original, procurando captar suas ideias essenciais, na progressão e no encadeamento em que aparecem no texto. Quem resume deve exprimir, em estilo objetivo, os elementos essenciais do texto. Por isso, não cabem, num resumo, comentários ou julgamentos ao que está sendo condensado. Muitas pessoas julgam que resumir é reproduzir frases ou partes de frases do texto original, construindo uma espécie de "colagem". Essa "colagem" de fragmentos do texto original não é um resumo. Resumir é apresentar, com as próprias palavras, os pontos relevantes de um texto. A reprodução de frases do texto, em geral, atesta que ele não foi compreendido. Para elaborar um bom resumo, é necessário compreender antes o conteúdo global do texto. Não é possível ir resumindo à medida que se vai fazendo a primeira leitura. É evidente que o grau de dificuldade para resumir um texto depende basicamente de dois fatores: a) da complexidade do próprio texto (seu vocabulário, sua estruturação, seu sentido, suas relações lógicas, o tipo de assunto tratado etc.); b) da competência do leitor (seu grau de amadurecimento intelectual, o repertório de informações que possui, a familiaridade com os temas explorados). O uso de um procedimento apropriado pode diminuir as dificuldades de elaboração do resumo. Aconselhamos as seguintes passadas: 1. Ler uma vez o texto ininterruptamente, do começo ao fim. Já vimos que um texto não é um aglomerado de frases: sem ter noção do conjunto, é mais difícil entender o significado preciso de cada uma das partes. Essa primeira leitura deve ser feita com a preocupação de responder genericamente à seguinte pergunta: do que trata o texto? 2. Uma segunda leitura é sempre necessária. Mas esta, com interrupções, com o lápis na mão, para compreender melhor o significado de palavras difíceis (se preciso, recorra ao dicionário) e para captar o sentido de frases mais complexas (longas, com inversões, com elementos ocultos). Nessa leitura, deve-se ter a preocupação, sobretudo, de compreender bem o sentido das palavras relacionais, responsáveis pelo estabelecimento das conexões (assim, isto, isso, aquilo, aqui, lá, daí, seu, sua, ele, ela etc.). 96 3. Num terceiro momento, tentar fazer uma segmentação do texto em blocos de ideias que tenham alguma unidade de significação. Ao resumir um texto pequeno, pode-se adotar como primeiro critério de segmentação a divisão em parágrafos. Pode ser que se encontre uma segmentação mais ajustada que a dos parágrafos, mas como início de trabalho, o parágrafo pode ser um bom indicador. Quando se trata de um texto maior (o capítulo de um livro, por exemplo), é conveniente adotar um critério de segmentação mais funcional, o que vai depender de cada texto. Em seguida, com palavras abstratas e mais abrangentes, tenta-se resumir a ideia ou as ideias centrais de cada fragmento. 4. Dar a redação final com suas palavras, procurando não só condensar os segmentos, mas encadeá-los na progressão em que se sucedem no texto e estabelecer as relações entre eles. 4.2.2 Textos e atividades 1) Leia, com atenção, os artigos de opinião a seguir. Escolha um deles para responder ao roteiro de perguntas e para elaborar um resumo a ser entregue ao professor. 1) Faça uma leitura seguida e completa do texto. A seguir, assinale os pontos desconhecidos, como vocabulários, fatos, dentre outros e busque esclarecimentos sobre eles. 2) Determine o tema do texto. Lembre-se de que para isso é necessário responder à seguinte pergunta: “De que o texto fala”? 3) Explicite como o assunto do texto foi problematizado. 4) Aponte a ideia principal do texto, ou seja, a tese. Não se esqueça de que ela constitui a resposta do autor ao problema levantado. 5) Identifique os argumentos utilizados pelo autor para demonstrar a tese. 6) Avalie o texto, tanto do ponto de vista interno (alcance dos objetivos propostos, logicidade na apresentação das ideias, argumentação sólida, etc.) quanto do ponto de vista externo (originalidade na abordagem do tema, contribuição do texto, etc.). 7) Elabore um resumo para entregar ao seu professor. Texto 1 – O Brasil lá Desde o governo Fernando Henrique Cardoso, e com insistência maior no governo Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil tem reivindicado uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. O pleito é legítimo, até porque vem sendo apresentado no contexto de ampla reforma a ser realizada no colegiado, a fim de dotá-lo de mais representatividade. O Conselho é o único órgão das Nações Unidas que tem poder coercitivo. Pode impor sanções econômicas e autorizar ações militares contra países que a seu juízo violem as normas internacionais. Sua composição reflete a relação de forças no fim da Segunda Guerra Mundial. Assim, são membros permanentes Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França (cinco dos hoje nove países que dispõem de armas nucleares). Cada um deles tem poder de veto sobre qualquer deliberação do Conselho. Os demais integrantes são eleitos pela Assembleia Geral para um mandato de dois anos. Eram seis países até que em 1965 uma emenda à Carta da ONU elevou seu número97 para dez. Toda alteração tem de ser aprovada por 2/3 da Assembleia e pela totalidade dos membros permanentes do Conselho. Longe de ser inédita, a pretensão brasileira tem raízes numa antiga obsessão. Basta dizer que em 1926 o Brasil abandonou a Liga das Nações, protótipo da ONU formado após a Primeira Guerra Mundial, quando viu negada sua aspiração de converter o posto de membro provisório do então conselho em membro permanente. Hoje pelo menos mais três países reclamam a sério o mesmo que o Brasil: Alemanha, Japão e Índia. Mas uma reforma no Conselho é muito difícil de implantar. Será, talvez, um resultado tardio da multipolaridade em gestação. Cada país mencionado, inclusive o Brasil, desperta oposição em sua própria área de influência. Aos atuais membros permanentes tampouco agrada ver o poder que compartilham ser diluído, como seria inevitável com o ingresso de novos parceiros. Há outras dificuldades. O atual mecanismo, que condiciona as decisões à anuência dos cinco grandes, já emperra a resolução da maioria dos tópicos examinados. Essa inoperância, que os críticos das potências talvez considerem positiva, aumentaria conforme aumentasse o colegiado. A reforma teria de ser, portanto, mais profunda. O ideal seria uma composição ampliada para cerca de duas dezenas de membros, sem poder de veto, que decidissem por maioria qualificada. O mundo está mudando depressa, em muitos sentidos para melhor; o que agora parece uma quimera talvez não o seja em poucos anos. Enquanto isso, o melhor que a diplomacia brasileira tem a fazer é sustentar com serenidade a reivindicação brasileira, mas sem elevá-la à condição de prioridade zero, nem permitir que imponha distorções à coerência de nossas atitudes no cenário internacional. (O BRASIL lá. Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 março 2011. Caderno Opinião) Texto 2 – Economia: causa ou consequência? As manchetes da imprensa funcionam em uníssono sempre que é divulgado novo índice de inflação, nova estatística do desemprego ou quando ocorre uma reunião do Copom, para nos lembrar de que a economia mudou. Como consequência, os temas das manchetes ecoam nos corredores das empresas, nas rodas de bar e nas esteiras das academias. Impressiono-me como uma alta de meio ponto percentual na taxa Selic é capaz de ganhar mais repercussão do que, por exemplo, a descoberta de um tratamento revolucionário contra o câncer. O Brasil transformou-se em um país de economistas sem diploma.Em cada lar, cada igreja e cada roda de café no corredor das empresas há sempre um economista de plantão para nos informar da variação de um importante indicador. "A Bolsa subiu forte hoje" já é uma frase comum entre casais -mesmo na cama! Pudera: há pouco menos de duas décadas, tempos de inflação elevada, quem não acompanhasse a seção de economia dos jornais não saberia o valor a receber de salário dali a dois dias, pois tudo mudava com o passar das horas. Viciamo-nos em acompanhar indicadores econômicos. Hoje, muitos acompanham a evolução da Bolsa ou da taxa Selic com a mesma expectativa e ansiedade que já dedicaram para descobrir o assassino de Odete Roitmann. É certo que indicadores econômicos ditam as decisões de grandes empresas e de investidores de grande porte. Porém questiono-me se essa busca pelo saber realmente agrega à maioria das pessoas. Depois de anos orientando as pessoas, por meio de livros e palestras, a se manterem informadas sobre seus investimentos, percebo que muitos acumulam informação, mas não conhecimento. 98 Quem acredita que uma decisão do Copom, por exemplo, impacta sua vida a ponto de exigir mudança em sua estratégia de investimento ou contratação de crédito está provavelmente enganado. Se desprezarmos o fato de que altas nos juros geralmente refletem um aumento na inflação, não é difícil demonstrar que o ganho é pequeno em uma alta de, digamos, 0,5% na Selic. Se aplicarmos R$ 10 mil hoje em um título com rendimento de 6% ao ano, teremos R$ 32.071 daqui a 20 anos. Com rendimento de 6,5%, o saldo final seria de R$ 35.236 - cerca de 10% a mais. Se lhe parece muita diferença, saiba que se, exatamente no meio desse prazo, você resgatar o título, fizer um investimento que dobre seu capital em um ano e depois voltar a investir no mesmo título, teria um resultado final de R$ 45.384 com títulos de 6% e de R$ 49.629 com títulos de 6,5%. Em outras palavras, ganharia muito mais ao se dedicar à pesquisa de oportunidades, como um imóvel barato ou automóvel em leilão, do que perdendo tempo com mudanças de estratégia de renda fixa. Seja sincero: qual o impacto que o aumento de meio ponto da inflação pode trazer em seu consumo? Certamente, a compra de uma peça de roupa que não será usada ou de um produto pirata que não funcionará será muito mais prejudicial a seu orçamento do que o aumento no preço do tomate. Atitude mais inteligente seria atentar aos preços em compras frequentes, evitar a compra do tomate quando ele estiver caro demais e, com isso, anular a inflação em seu orçamento. Seremos economicamente mais eficientes quando percebermos que o impacto de nossas decisões na economia é mais importante do que o impacto da economia em nossas decisões. Sem pesquisar preços e sem praticar o orçamento, acabamos por adquirir produtos com preços em alta e, consequentemente, comprimindo nosso consumo. Ao não pesquisar juros nos financiamentos, contribuímos para manter o "spread" bancário elevado. Ao contrair dívidas sem critério, contribuímos para a ineficiência do mercado de crédito e para o encarecimento dos empréstimos. Quem não se esforça para encontrar oportunidades sucumbe à ineficiência dos convenientes produtos de investimento de prateleira. Em vez de simplesmente conhecer a economia, procure praticá-la e transformá-la. O país agradece. (CERBASI, Gustavo. Economia: causa ou consequência. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 ago. 2010, p. B10) 4.2.3 Sugestão de atividade Leia, com atenção, o texto a seguir. Depois elabore um resumo para avaliação. O professor é responsável pela execução dessa atividade ou por sua alteração. Faltam engenheiros no governo Poucas coisas têm sido tão ridicularizadas nos últimos tempos, em todo o mundo, quando a prática da Economia por economistas alojados no poder. As chacotas se tornaram quase que diárias, e famosos economistas, como John Kenneth Galbraith, Delfim Netto, Mário Henrique Simonsen e Roberto Macedo, já soltaram farpas contra seus colegas de profissão. Talvez seja por isso que o número de candidatos para a carreira de economista venha caindo, ano após ano, na lista de vestibulares. Estamos falando, obviamente, dos economistas governamentais, que são aqueles que ainda acreditam na Ciência Econômica. Os economistas empregados no setor privado perceberam ainda cedo que muito pouco do que aprenderam da Ciência Econômica é usado 99 nas suas atividades profissionais. São economistas por causa do diploma, não porque acreditam piamente nas teorias aprendidas nas universidades. Mesmo assim, apesar de toda a incompetência e de reconhecimento dessa incompetência pela sociedade, os economistas governamentais continuam a ser o grupo de profissionais mais poderoso dentro do governo. Qual a razão de tanto poder após tantos fracassos é um mistério insondável. Os seres humanos se dividem em dois grandes grupos: os quantitativos e os verbais. Os primeiros são bons em números, e os segundos, hábeis na fala. É a grande divisão do ensino: exatas versus humanas, clássico versus científico. Os bons de fala irão tornar-se advogados, jornalistas, sociólogos, economistas governamentais,políticos. Tendem a ser românticos e de esquerda, a acreditar na autoridade da palavra e nas soluções de cima para baixo. Os bons em números irão tornar-se engenheiros, cientistas, químicos, empresários, contadores, administradores. Tendem a ser pragmáticos, apolíticos e a acreditar nas soluções de baixo para cima. Falam mal, escrevem pior ainda, têm pouca influência política. Ao contrário do que se pensa, os economistas governamentais não são bons em números. Eles fazem parte do grupo verbal da sociedade. Normalmente falam bem e escrevem melhor ainda. Seus artigos, porém, são recheados de analogias, não de números. Observem, em seus artigos assinados, que a argumentação é verbal, teológica, com poucas fórmulas, deduções, números, muito menos projeções de resultados. Seus artigos primam pelas analogias verbais, não pela quantificação numérica. “Somos um Boeing sem rumo”; “precisamos de um choque de credibilidade”, “política do feijão-com-arroz”. Seus planos não são quantificados - são mais um jogo de palavras do que planos operacionais concretos. Por isso não dão certo. A maioria dos economistas governamentais acredita que Lotus 1-2-3 é uma posição de ioga, e não uma planilha eletrônica. Um dos poucos economistas governamentais brasileiros que entendem de números, Mário Henrique Simonsen, tinha sólida formação em Engenharia. É a exceção que confirma a regra. Eles são tão numerosos porque nosso ensino tem sido voltado aos verbais. Afinal, é mais barato formar um verbal do que um quantitativo. Bastam um professor e um quadro-negro. Não é por menos que o Brasil forma mais economistas do que engenheiros, quando no Japão a relação é oposta a esta e é de 100 para 1. Apesar de desprovidos das capacidades necessárias para comandar uma economia, dominam nossas vidas. Primeiro, porque os economistas governamentais falam na mesma frequência dos políticos e são, por isso, seus principais assessores. Empolgam os políticos pelo discurso e pela visão utópica de que podem consertar o mundo de cima para baixo. Sua visão é lírica como a de um poeta, e foi justamente na gestão de um presidente-poeta que os economistas governamentais mais influência tiveram. A bem da verdade, os economistas governamentais erram em seus planos não por sadismo, nem por ignorância, mas por incapacidade genética. São pessoas verbais. Precisamos deixar de ser platéia e ouvir menos os economistas, e aí se inclui a imprensa, e ouvir mais as outras profissões. Existiam várias soluções alternativas para a inflação brasileira, vindas de engenheiros, financistas, empresários, psicólogos e contadores, que não alçaram vôo por falta de ouvidos. As outras profissões precisam sair da toca e preencher esse enorme espaço ocupado exclusivamente pelo economista. O fato de não ser tão verbal quanto os economistas têm levado muitos a se omitir irresponsavelmente em suas contribuições. A questão que se coloca é esta: mexam-se ou serão mexidos. (KANITZ, Stephen. Faltam engenheiros no governo. Exame, 27 junho 1990, p. 122) 100 4.3 Dossiê Arte e Cultura Nesta seção, você estudará diversos textos que envolvem questões sobre arte e cultura. São questões necessárias ao homem, uma vez que funcionam como meios de catarse, como veículos ideológicos, entre outros. Sua atenção, nesta seção, será voltada a textos no formato resenha, gênero escolhido para estudo. Espera-se que você aprimore, por meio de leitura e produção de resenhas, suas habilidades e competências na elaboração e organização de suas opiniões e juízos de valor acerca dos acontecimentos artísticos aos quais estamos expostos. 4.3.1 Resenha Resenha é um trabalho de síntese, publicado logo após a edição de uma obra. Tem por objetivo servir como veículo de crítica e avaliação. Geralmente constitui seção especial de revistas, sendo também chamado de revisão, nota de livros ou simplesmente resenha. Podem-se fazer resenhas de livros, artigos de periódicos, filmes e outros, separadamente, ou reunir vários trabalhos que tratam do mesmo tema, analisando-os em conjunto. As resenhas devem vir precedidas da referência bibliográfica completa das obras a que se referem – diferentemente das públicas pela mídia sem intenção acadêmica. Uma diferença entre resumo e resenha é que o primeiro se restringe ao conteúdo do trabalho analisado, enquanto esta última introduz um quadro de referência mais amplo, comparando, avaliando e criticando a obra – sob o ponto de vista pessoal do autor da resenha – em relação a outros trabalhos e ao estado-da-arte. Ao se acrescentar à análise da obra um julgamento de valor, é necessário ficar atento aos seguintes aspectos: a) o tipo de publicação: não podem ser idênticos os critérios de uma obra científica, técnica e didática, em que a autenticidade do texto deve ser analisada objetivamente, e uma obra de arte, em que se deve levar em conta a presença do emocional, subjetivo, de cada autor; b) o tipo de crítica a ser elaborada: embora existam vários tipos de crítica, duas são mais usuais: a crítica interna, quando se avalia o conteúdo da obra e o significado das ideias nela contidas, e a crítica externa, que ressalta o significado, a importância, o valor histórico da obra. Compreende a crítica do texto, a da autenticidade e a da proveniência. A resenha deve ser elaborada com apreciação justa, clareza de exposição, precisão e concisão, para cumprir sua finalidade de auxiliar na seleção de leituras. Além de seus objetivos gerais, (instrumento de pesquisa bibliográfica, atualização bibliográfica, decisão de consultar ou não o texto original), acrescentem-se os de desenvolvimento da capacidade de síntese, interpretação e crítica. Ela contribui para desenvolver a mentalidade científica e levar o iniciante à pesquisa e à elaboração de trabalhos monográficos. Lakatos e Marconi (1995, p. 245), em propõem um roteiro para elaboração de resenhas científicas e/ou acadêmica: 1. Referência bibliográfica 2. Credenciais do autor 3. Resumo da obra 4. Conclusões da autoria 5. Metodologia da autoria 6. Quadro de referência do autor 7. Crítica do resenhista 8. Indicações do resenhista 101 4.3.2 Textos e atividades 1) Leia, com atenção, a resenha a seguir para responder ao que se pede. PIRANDELLO, Luigi. Henrique IV. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas. São Paulo: Edusp, 1991. Luigi Pirandello é natural de Agrigento. Nasceu na Sicília, em 1867, e morreu em Roma, em 1936. Romancista, contista, poeta, ensaísta, dramaturgo. Uma de suas obras mais famosas e constantemente representada é Seis personagens à procura de um autor, de 1921. Esta tradução oferece ao leitor brasileiro a oportunidade de conhecer o texto de Luigi Pirandello, que focaliza o homem que enlouquece, vítima de uma experiência desastrosa. Recupera sua saúde mental, mas prefere continuar fingindo-se louco, uma vez que se sente incapaz de enfrentar a realidade. Assim, o autor rompe os limites da loucura e da sanidade, da ilusão e da realidade, e já não pode saber o que é a verdade. Erige-se, portanto, o reino da total relatividade. O leitor está diante de uma obra teatral do maior dramaturgo deste Século. Um autor que é, ao mesmo tempo, irônico, sagaz e, às vezes, até pessimista. O significado de sua obra não pode ser apreendido imediatamente numa leitura linear, ou como espectador burguês, freqüentador de teatro para puro exibicionismo ou divertimento. É grande a profundidade das locações de Pirandello e, conseqüentemente, grande seu valor, bem como prazer que se extrai do texto. Pirandello destaca-se particularmente pela análise que faz da realidade/ilusão,falso/verdadeiro, a verdade das relações humanas e a máscara social. Para a crítica, o autor de O falecido Matias Pascal é considerado um autor intelectual, muito mais para ser lido e refletido que, propriamente, representado. Engano. Sua representação consegue manter o espectador atento, tenso com o desenrolar da ação e é capaz de levá-lo ao entendimento das ideias que subjazem ao texto. Em verdade, o autor criou um estilo próprio, inconfundível. Em Henrique IV, a personagem principal inventa para si uma personagem e transforma sua vida numa representação. Os espectadores e as próprias personagens que contracenam com Henrique IV vêem-no como louco que pensa ser o imperador alemão do século XI. Vive numa casa de campo há 20 anos. Seus parentes transformaram a propriedade em um palácio e contrataram empregados para representar os mais diversos papéis, inclusive o de conde e de conselheiros. Assim, todas as personagens representam para Henrique IV e alimentam sua loucura com encenações de situações históricas vividas pelo imperador alemão, particularmente suas discórdias com o papa Gregório VII. No segundo ato, Henrique IV revela aos empregados que sua loucura tivera a duração de 12 anos e que há oito anos está totalmente lúcido, isto é, somente nos últimos anos é que vinha representando, com tanta competência que ninguém percebera nada. Por que Henrique IV prefere a máscara da loucura à lucidez? Para rebelar-se contra a ideia de que o homem é o que a sociedade quer que seja. Retomando à vida normal, os outros é que lhe imporiam uma máscara, roubando-lhe a liberdade de ação. Com a loucura, pode tomar a iniciativa e submeter todos a seus caprichos e desejos. Prefere a loucura à sanidade para poder viver com prazer, viver para "vingar-me da brutalidade de uma pedra que me machucara a cabeça!". A desgraça de Henrique IV fora causada pela marquesa Matilde Spina e seu amante Belcredi. Apaixonado, fantasiara-se de Henrique IV numa fatídica cavalgada que terminou com sua queda, após seu cavalo ter sido ferido pelo rival. Ódio e vingança explodem então dentro dele. Após a revelação da personagem principal a seus empregados, a peça ganha ritmo tenso, 102 alcançado pela ambigüidade que permanece até o fim. Henrique IV apóia-se no enigma da lucidez/loucura, ser/parecer louco, que provoca tanto espectadores quanto leitores. Até o segundo ato o espectador tem a certeza de que a personagem está louca; daí em diante não poderá afirmar categoricamente sua lucidez. Henrique IV a todos confunde, misturando fatos da vida real com os da vida da personagem criada para si. Ao final, o protagonista fere Belcredi com uma espada, concretizando sua vingança. E, assim, condena-se ao uso da máscara para sempre, uma única defesa contra a punição pelo assassínio de Belcredi. Agora, a máscara será uma imposição, uma prisão. E a personagem acaba não tendo outro nome que o de sua máscara. 1. Identifique as partes estruturais presentes na resenha lida. 2. A resenha lida apresenta todas as partes estruturais de uma resenha acadêmica? Explique. 2) Leia, com atenção, o texto a seguir para responder ao que se pede. As atividades propostas foram adaptadas de Produção de texto: interlocução e gêneros, de Maria Bernadete (2007). Piratas do Caribe é um hamburgão de fantasia Se há uma palavra para designar a terceira parte da trilogia Piratas do Caribe, esta palavra é excesso. Piratas do Caribe 3 – No Fim do Mundo abusa dos efeitos visuais, das reviravoldas, traições sem sentido e das lutas. O diretor Gore Verbinski e o produtor Jerry Bruckheimer trabalharam com o excesso da imagem e da ação – e, claro, com um olho fixo na bilheteria. O filme, que estréia mundialmente hoje – e em 769 salas de cinema só no Brasil –, é todo ele um acúmulo de elementos. Os dois longas anteriores já arrecadaram 1,8 bilhão de dólares – e este No fim do mundo pode bater o recorde do anterior, O baú da morte, que amealhou nada menos que US$ 100 milhões em apenas dois dias de exibição. Ontem, na pré-estréia brasileira, que aconteceu na quinta gelada de São Paulo, no UCI do Shopping Jardim Sul, a agitação foi grande. Tinha até espectador vestido de pirata. Um abuso. Aliás, traje apropriado à poética do excesso da produção. No fim do Mundo dura 165 minutos. Vem carregado de enredos, que correm paralelos sobre os trilhos do tema da morte. O roteiro compreende quatro linhas de trama. A primeira é o restate que os piratas têm de fazer de dois mortos: o do pai do mocinho Will Turner (Orlando Bloom), preso no navio Holandês Voador, e o resgate do pirata rebelde Jack Sparrow (Johnny Depp), desgarrado em uma geleira ártica. A segunda linha está na fronteira entre o mundo dos vivos, dos mortos e da imaginação. Há, em terceiro lugar, o amor entre os piratas bonitinhos Will e Elisabeth (Keira Knightley). E trata, por fim, do confronto entre o Mercantilismo, o Romantismo e a Natureza. É a melhor linha do longa-metragem. O capital é encarnado pelo lorde Cuttler Beckett (Tom Hollander), exterminador de piratas a serviço da Companhia das Índias. Ele diz, com um jeito cândido de Mozart, uma frase emblemática, quando tenta assassinar Sparrow: "Nada pessoal, Jack Sparrow. É apenas um bom negócio." O Romantismo tem duas frentes: Jack Sparrow, o pirata impenitente e niilista, e a Corte da Irmandade, uma entidade globalizada de bucaneiros, que se reúne para 103 defender o mar sem-fronteiras contra os avanços da Companhia das Índias. A Natureza é representada pelo amor doentio do comandante Davy Jones (Bill Nighy), do Holandês Voador, pela deusa Calíope (Naomie Harris): o coração de Jones está aprisionado a um baú, ao passo que ele aprisiona Calíope na masmorra do navio. Não há profundidade nesse entrelaçamento de linhas, nem mesmo na mais forte delas. O fato de uma liga internacional de piratas ser a detentora dos princípios da liberdade, em contraposição aos negócios (aparentemente legais) da Companhia das Índias, não é convincente. Nem por que a morte pode ser mais divertida que a vida, como Sparrow tenta mostrar o tempo todo. Os valores são relativos neste filme, como em muitos outros produzidos por Hollywood. Tudo isso leva o espectador que não acompanhou os outros dois episódios a se perder no maremoto de fantasia de No fim do mundo. Mas ele é recompensado em pelo menos duas cenas. Pode descansar na seqüência, da solidão de Jack Sparrow, que contraccena com um exército de caranguejos camuflados de pedra e com o navio Pérola Negra. Aqui prevalece o talento de clown de Johnny Depp, uma espécie de Carlitos do século XXI. A cena é despida de efeitos: o pirata sobre o vazio, tentando puxar seu navio por uma corda. Outra cena que vale o filme é a da batalha entre os piratas e os lordes durante uma tempestade. Os efeitos especiais são fenomenais e bonitos, numa seqüência que deve durar mais de 20 minutos, com direito a tons cinzentos, movimentos vertigionosos das naves e uma luta tão brutal quanto fantasiosa. No olho de todo esse furacão, Elisabeth e Will encontram tempo parara serem casados pelo rival de Sparrow, o capitão Barbossa (Geoffrey Rush). Imagem de Zeitgeist: enquanto o casal se beija (numa temperatura altíssima para os padrões Disney), eles decapitam monstros marinhos e empalam oficiais ingleses. Muita rapidez, muito efeito e muitas histórias compõem No fim do mundo. É um hamburgão de fantasia. É preciso reconhecer que o excesso pega bem neste fim de década de 2000. A audiência contemporânea sente fome de filmes carregados de efeitos e referências. Certamente o público se excede nas calorias do espírito para compensara dieta magra da vida real. (GIRON, Luís Antônio. Piratas do Caribe é um hamburgão de fantasia. Disponível em: <http://revistagalileu.globo.com>. Acesso em: 20 jan. 2011) 1. Qual a finalidade desse texto Piratas do Caribe é um hamburgão de fantasia? 2. Observa-se que os parágrafos 2, 3 e 4 caracterizam-se por sua natureza mais informativa. Os demais parágrafos apresentam uma característica diferente. Qual é ela? 3. Embora o 4º parágrafo tenha natureza informativa, em alguns trechos a opinião do resenhista começa a se manifestar. Identifique esses trechos. 4. Segundo Luís Antônio Giron, quais são os pontos negativos e os positivos de Piratas do Caribe 3? 5. Como pode ser interpretado o título do texto? 4.2.3 Sugestão de atividade Leia, com atenção, os textos a seguir. Escolha um deles. Elabore uma resenha para ser entregue ao professor. O professor é responsável pela execução dessa atividade ou por sua alteração. 104 Texto 1: O sentido da arte Há coisas que nunca imaginei que viveria para ver. Elas incluem assistir ao PT no comando da fisiologia nacional (sim, “? if culpa, mea maxima culpa”, eu fui um dos trouxas que acreditaram que o partido era “diferente”) e testemunhar o pedido da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para que os trabalhos do artista pernambucano Gil Vicente sejam excluídos da Bienal de São Paulo, que começa neste sábado. É verdade que os desenhos da série “Inimigos” são fortes. Eles retratam o próprio artista atentando contra a vida de figuras públicas como Lula, Fernando Henrique Cardoso, Bento 16 e o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Mas, como já escrevi algumas vezes neste espaço, ninguém precisa de licença para dizer o que todos querem ouvir. Para fazer sentido, as garantias constitucionais à liberdade de expressão precisam ser robustas. Devem necessariamente abranger discursos, textos e imagens capazes de chocar e até de causar a revolta de parcelas da sociedade. Que boa parte dos cidadãos não entenda isso e proteste contra a exibição de obras específicas é esperado; que o presidente da OAB caia nessa mesma esparrela e advogue pela censura é sintomático da decadência dessa instituição, que já desempenhou papéis mais nobres na história deste país. Mas não pretendo, na coluna de hoje, falar mal da OAB. Isso eu já fiz num texto mais antigo. O que eu quero discutir é a arte. Para que diabos ela serve? A questão é das mais polêmicas entre neurocientistas. A exemplo do que se dá com a religião, os especialistas podem ser divididos no bloco dos que acreditam que a arte é uma adaptação humana obtida por seleção natural e o dos que pensam que ela é apenas um efeito colateral resultante da forma como nossos cérebros estão montados. No último grupo encontram-se pesos-pesados do neodarwinismo, como o eterno Richard Dawkins, Stephen Jay Gould e Steven Pinker. No primeiro, estão o próprio Charles Darwin (para ele, o senso estético era uma faculdade intelectual fruto da seleção), a antropóloga Ellen Dissanayake, o psicólogo Geoffrey Miller, e a dupla dinâmica da psicologia evolutiva, John Tooby e Leda Cosmides, que mudaram de lado, abandonando a tese da arte como subproduto para abraçar a teoria da adaptação. Mas prossigamos com um pouco mais de calma, pois essa é uma questão extremamente controversa e que envolve conceitos complicados. Dawkins, Gould e Pinker relutam em aceitar a arte como adaptação porque isso teria implicações profundas sobre a biologia. Em primeiro lugar, mesmo que recuemos o comportamento artístico para uns 50 mil ou 100 mil anos atrás (e poucos ousam ir mais longe), esse ainda é um período curto demais para que a evolução tenha deixado marcas em nossos genes. Outra objeção forte é que admitir o caráter adaptativo da arte abre um flanco para a noção de seleção de grupo, vista com grande desconfiança pela linha dura do darwinismo. A ideia, defendida principalmente por Dissanayake, é que a arte teria sido selecionada porque, ao reforçar a coesão do grupo através de cantos e danças comunais, por exemplo, ela o tornaria mais apto a enfrentar bandos rivais e sobreviver. O problema com a seleção de grupo é que ela não é lá muito estável, porque sempre valeria a pena para indivíduos egoístas pegar uma carona na coesão grupal sem dar sua justa contribuição. Eles teriam maior sucesso reprodutivo, espalhando genes menos colaborativos. Seria assim muito difícil fixar num “pool” genético qualquer características que favorecem o grupo. É por essas e outras que Pinker classifica a arte como “cheesecake mental”, algo sem valor adaptativo em si, mas que explora, como as comidas gordurosas e doces, os mecanismos biológicos que nos dão prazer. Uma outra analogia válida é com as drogas recreativas. Seria até ridículo imaginar que elas representam uma adaptação, mas é inegável que afetam, e muito, nossos cérebros, 105 proporcionando prazer em doses tão cavalares que podem mobilizar toda nossa atenção neuronal, como no caso do vício. A exemplo do neurocientista Michael Gazzaniga, autor de “Human: The Science Behind What Makes Your Brain Unique”, acho mais prudente não tomar partido nessa polêmica, mas apenas expor o que me parecem ser os melhores argumentos de cada lado. E, por falar em argumento, Geoffrey Miller, tem um interessante. Para ele, a arte é o resultado da seleção sexual. Ela está para o gênero humano como a cauda do pavão está para a família dos fasianídeos: uma exuberância biologicamente custosa que só existe porque atribui a seu detentor inequívoco sucesso entre as fêmeas, o que se traduz em importante vantagem reprodutiva. Curiosamente, a teoria de Miller acaba explicando um pouco da demografia da arte: considerados os grandes números, a maioria dos artistas são homens no pico da atividade sexual. São ideias que, se levadas muito a sério, tiram algo da transcendência da arte e nos aproximam dos canários. Mas quem disse que pássaros, ao cantar, não experimentam a versão aviária da transcendência? Outro ponto interessante é o da ficção. Foi ele que fez com que Tooby e Cosmides mudassem de posição. OK, todo mundo está cansado de saber que a arte é um universal humano. Não há aldeia indígena, por mais remota que seja, que não faça alguma coisa pragmaticamente inútil com penas e sementes e não se reúna para cantar e dançar. Mas isso não é tudo. A ficção, isto é, histórias inventadas também são universais e, exceto por fundamentalistas religiosos, ninguém as toma por realidade. Já desde a mais tenra idade aprendemos a ? iferencia-las. Para os dois pesquisadores, esse mecanismo de decupagem é um sinal de adaptação. Confundir fatos com ficções é, evidentemente, perigoso, como o provam os homens-bombas que imaginam ir para um paraíso repleto de virgens (Alcorão 44:54 e 55:70) e “mancebos eternamente jovens” (Idem 56:17). Se desenvolvemos um sistema para operar a distinção e aparentemente estamos todos dotados com a capacidade de extrair prazer de narrativas inventadas, isso implica que a experiência ficcional é benéfica. Ponto para a adaptação. Resta apenas explicar como ela pode ser benéfica. Já abordei com algum detalhe esse tema na coluna “A título de brincadeira”, publicada em junho. O que vale a pena reter é que a ficção nos proporciona a possibilidade de “viver” determinadas situações. A experiência pode não ser tão intensa como na realidade e, embora isso atenue as sensações, também nos preserva dos perigos. Assistir no cinema a alguém sendo devorado por tubarões é mais seguro do que presenciar a cena “in loco”. Sempre pode sobrar uma dentada. Essa simulação segura é, em geral, uma boa oportunidade de aprendizado,seja para lidar com as próprias emoções, seja para adestrar-se numa atividade relevante. No mundo animal, as brigas de brincadeira entre filhotes são uma forma de aprendizado para a luta –sem o risco de ferimentos. É exatamente isso o que faz Gil Vicente ao “atentar” artisticamente contra Lula, FHC “et caterva”. De um só golpe, ele exibe seus dotes para o desenho, nos faz experimentar emoções e quem sabe até refletir. É o verdadeiro sentido da arte. Só a OAB não percebe aqui a diferença entre ficção e realidade. (SCHWARTSMAN, Hélio. O sentido da arte. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsma n/802957-o-sentido-da-arte.shtml>. Acesso em: 20 de jan. 2011) (Hélio Schwartsman, 44 anos, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão”, em 2001. Escreve para a Folha.com) 106 Texto 2: Arte sem arte Não tenho a pretensão de estar sempre certo no que escrevo, nas opiniões que emito, muito embora acredite seriamente nelas. Não foi à toa que, de gozação, me apelidaram de profissional do pensamento, por tanto atazanar os amigos com minhas indagações e tentativas de explicação. Por isso também volto a certos temas, desde que descubra, ao repensá-los, modos outros de enfocá-los e entendê-los. Se há um tema sobre o qual estou sempre indagando é a situação atual das artes plásticas, precisamente porque exorbitaram os limites do que -segundo meu ponto de vista- se pode chamar de arte. Sei muito bem que alguém pode alegar que arte não se define e que toda e qualquer tentativa de fazê-lo contraria a natureza mesma da arte. Esse é um argumento ponderável e muito usado ultimamente, mas acerca do qual levanto dúvidas. Concordo com a tese de que arte não se define, mas não resta dúvida de que, quando ouço Mozart, sei que é música e, quando vejo Cézanne, sei que é pintura. Logo, a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de definir o que é arte não elimina o fato de que as obras de arte têm qualidades específicas que as distinguem do que não o é. Do contrário, cairíamos numa espécie de vale-tudo, numa posição insustentável mesmo para o mais radical defensor do que hoje se intitula de arte contemporânea. Isto é, o sujeito teria de admitir que uma pintura medíocre tem a mesma qualidade expressiva que uma obra-prima e que ele mesmo teria de se obrigar a gostar indistintamente de toda e qualquer coisa que lhe fosse apresentada como arte. Por mais insensato que possa ser alguém na defesa de uma tese qualquer, não poderia evitar que esta ou aquela coisa que vê ou ouve ou lê tenha a capacidade maior ou menor de sensibilizá-lo, emocioná-lo ou deixá-lo indiferente. Creio não haver dúvida de que, seja ou não possível definir o que é arte, há coisas que nos emocionam ou nos fascinam ou nos deslumbram e outras que nos deixam indiferentes. Se se der ou não a tais coisas a qualificação de arte, pouco importa: é inegável que a "Bachiana nº 4" é belíssima e que um batecum qualquer não se lhe compara, não nos dá o prazer que aquela obra de Villa-Lobos nos dá. Do mesmo, um desenho de Marcelo Grassmann me encanta e um desenho medíocre me deixa indiferente. Mas um artista conceitual -ou que outras qualificação se lhe dê- responderá que esta visão minha é velha, ultrapassada, pois ainda leva em conta valores estéticos, enquanto a nova arte não liga mais para isso. Mas pode haver arte sem valor estético? Arte sem arte? Essa pergunta me leva à experiência radical de Lygia Clark (1920-1988), sob muitos aspectos antecipadora do que hoje se chama arte conceitual. Dando curso à participação do espectador na obra de arte -elemento fundamental da arte neoconcreta-, chega à conclusão de que pode ele ir além, de espectador-participante a autor da obra, bastando, por exemplo, cortar papel ou provocar em si mesmo sensações táteis ou gustativas. Assim atingimos, diz ela, o singular estado de arte sem arte. De fato, esse rumo tomado por alguns artistas resultou da destruição da linguagem estética e na entrega a experiências meramente sensoriais, anteriores portanto a toda e qualquer formulação. Descartando assim a expressão estética, concluíram que se negar a realizar a obra é reencontrar as fontes genuínas da arte. E, se o que se chama de arte é o resultado de uma expressão surgida na linguagem da pintura, da gravura ou da escultura, buscar se expressar sem se valer dessa linguagem seria fazer arte sem arte ou, melhor dizendo, ir à origem mesma da expressão. Isso nos leva, inevitavelmente, a perguntar se toda expressão é arte. Exemplo: 107 se amasso uma folha de papel, o que daí resulta é uma forma expressiva; pode-se dizer que se trata de uma obra de arte? Se admito que sim, todo mundo é artista e tudo o que se faça é arte. Já eu considero uma piada achar que todas as pessoas têm o mesmo talento artístico de Leonardo da Vinci e de Vincent van Gogh ou que esse talento seja apenas mais um preconceito inventado pelos antigos. As pessoas são iguais em direitos, mas não em qualidades. (GULLAR, Ferreira. Arte sem arte. Disponível em:< http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2111201022.htm> Acesso em: 20 jan. 2011) 4.4 Dossiê Biodiversidade, Ecologia e Meio Ambiente Nesta seção, você estudará diversos textos sobre questões que envolvem biodiversidade, ecologia e meio ambiente. O gênero textual escolhido para estudo dessa temática, nesta seção, foi o artigo científico. Não se pode excluir essa temática do fazer acadêmico; afinal, qualquer aspecto que envolve questões acerca de sustentabilidade e do discurso “verde” merecem uma atenção especial. Todos nós dependemos, para sobreviver, de um mundo ecologicamente correto. É na academia, sobretudo, que são discutidos pontos sobre essa temática, para que se chegue a respostas viáveis aos problemas. Espera-se que você aprimore suas habilidades e competências na aquisição das informações e na produção de conhecimento sobre a temática. 4.4.1 Artigo científico Conforme Votre, Pereira & Gonçalves (2009), a pesquisa não pode ficar restrita a um pequeno círculo de leitores. Sem divulgação, a pesquisa não cumpre o objetivo de ajudar a evolução da ciência, pois só se ela for conhecida por outros pesquisadores poderá ser usada como referência para futuros estudos. Assim, se queremos que nosso trabalho seja reconhecido e útil aos demais, devemos apresentá-lo em congressos e seminários ou publicá-lo na forma de artigos científicos em periódicos especializados. Veja que, mesmo que você opte por expor seu trabalho oralmente em congressos, costuma-se exigir do congressista uma versão escrita de seu texto, na forma de um artigo, o qual é publicado em anais do evento. No que diz respeito à publicação em periódicos, a primeira coisa que se deve esclarecer é que toda área tem os seus, impressos ou digitais, os quais divulgam resultados e métodos de pesquisas de forma bem mais detalhada e sistemática do que relatórios. Uma boa pesquisa bibliográfica alia a leitura dos clássicos em torno de uma determinada questão, os quais geralmente estão publicados na forma de livros, e a leitura dos mais recentes estudos sobre essa mesma questão, frequentemente publicados na forma de artigos científicos. Há dois tipos de artigo científico: a) artigos originais ou de divulgação, que apresentam temas ou abordagens originais, em relatos de caso, comunicações ou notas prévias; b) artigos de revisão, que analisam e discutem trabalhos já publicados e revisões bibliográficas. No artigo acadêmico (e em outros gêneros, como a monografia, a dissertação e atese), predominam os modos de organização textual expositivo e argumentativo, que normalmente vêm entrelaçados. A expectativa é que se comece expondo, criando o contexto da pesquisa, e que na análise dos dados e nas 108 conclusões se enfatize o tom argumentativo, defendendo pontos de vista e sugerindo aplicações. Portanto, o texto deve ser marcado por concisão, coerência, coesão e clareza, aspectos já estudados nesta Coletânea, além de ser escrito na modalidade culta. A estrutura do artigo científico segue o que se esboçou anteriormente no projeto de pesquisa, o qual já supõe uma pesquisa de campo e/ou de revisão bibliográfica. No entanto, cabe ressaltar que um artigo tem dimensões menores que a de uma monografia, devendo, portanto, se centrar em um recorte mais específico. A seguir, você lerá um artigo acadêmico. As atividades a ele referentes visam a demonstrar a sua organização. 4.4.2 Textos e atividade Leia, atentamente, o artigo Lixo eletrônico em Patos de Minas: desafios e descarte. Em seguida, responda às seguintes questões: 1. O resumo de um trabalho acadêmico tem a finalidade de apresentar, de forma concisa, os objetivos, a metodologia e os resultados alcançados em uma investigação. Verifique se tais elementos se fazem presentes no resumo desse artigo. 2. Em toda pesquisa, existem questões às quais o investigador quer responder e que norteiam seu trabalho. Identifique as questões de pesquisa apresentadas pelas pesquisadoras no artigo. 3. Os objetivos de uma pesquisa devem estar diretamente relacionados às questões de pesquisa, constituindo quase uma formulação afirmativa daquilo que foi colocado em forma de perguntas. Identifique os objetivos apresentados pelas pesquisadoras no artigo. 4. A justificativa de um trabalho consiste em indicar a relevância do estudo empreendido. Mostre, no artigo, as contribuições apresentadas pelas pesquisadoras com a investigação realizada. 5. A metodologia, em uma pesquisa, tem a função de narrar os procedimentos de coleta e análise dos dados que levaram à obtenção de resultados. Indique as ações realizadas pelas pesquisadoras para coletar e analisar os dados. 6. Busque, no artigo, passagens em que são citadas ideias de outros autores. Verifique se tais autores integram a lista de referências. 7. Os dados coletados em uma pesquisa devem ser apresentados e discutidos em relação à literatura. Verifique se esse procedimento pode ser observado no artigo. 8. Verifique, no artigo, se a conclusão apresenta os seguintes itens: síntese dos resultados encontrados, sugestões e recomendações para trabalhos futuros. 109 110 111 112 113 114 115 116 117 118 119 120 121 122 123 124 125 126 127 128 4.4.3 Sugestão de atividade Muitos acadêmicos, no início do curso, ainda não conhecem periódicos da área. É interessante já no início da graduação tomar contato com textos de pesquisadores, pois, além do aprendizado de novos conteúdos, ganha-se mais intimidade com a escrita acadêmica, que pode variar em termos de estilo de uma área do conhecimento para outra. Vá à biblioteca de sua universidade e busque periódicos. Caso não saiba como fazê- lo, peça ajuda ao bibliotecário do setor. Caso prefira, visite a base de dados on-line SCIELO, no endereço http://www.scielo.org/php/index.php. Busque periódicos de sua área e dê uma olhada nos artigos que encontrar. Faça um breve relatório dessa experiência, incluindo sua primeira impressão dos periódicos e dos artigos. Lembre-se de que toda pesquisa envolve uma etapa como essa, de levantamento de referenciais teóricos. O professor é responsável pela execução dessa atividade ou por sua alteração. 4.5 Dossiê Tecnologia e Comportamento Esta seção se destina ao desenvolvimento de competências e habilidades para falar em público, em situações formais, principalmente aquelas ligadas ao meio acadêmico e ao exercício profissional. O gênero oral destacado será o seminário. Dessa forma, além de leitura e interpretação de textos escritos, haverá atividades da modalidade falada, por meio de seminários. Ao final da etapa, os alunos serão avaliados pelo conhecimento construído em torno do tema “tecnologia no mundo contemporâneo” e pelas habilidades e competências desenvolvidas em atividades formais de oralidade. 4.5.1 Seminário O nome dessa técnica vem da palavra “semente”, o que parece indicar que o seminário deve ser uma ocasião de semear idéias ou de favorecer sua germinação. Talvez seja por essa razão que nas Instituições de Ensino Superior o seminário constitui, em geral, não uma ocasião de mera informação, mas uma fonte de pesquisas e de procura de novas soluções para os problemas propostos para pesquisa. O seminário é um recurso científico bastante dinâmico, em que se pode englobar, plenamente, a capacidade dos discentes, docentes e demais participantes, pois o seminário é um estudo aprofundado de uma questão. Proporciona o desenvolvimento da capacidade de pesquisa, de análise sistemática dos fatos, por meio do raciocínio, da reflexão, preparando o discente para a elaboração clara e objetiva dos trabalhos científicos. [...]. Em linhas gerais, o seminário é um grupo de pessoas que se reúnem com o propósito de estudar um tema sob a direção de um professor ou autoridade no assunto. Cabe aos discentes, antes de realizar a reunião do grupo, fazer uma leitura prévia sobre o assunto para que tenham subsídios a discutir no encontro grupal. 129 4.5.2 Organização de seminário Uma prática comum nos cursos superiores é a adoção de seminários. Naturalmente, como toda comunicação oral, o seminário, deve levar em conta a linguagem falada (que se utiliza da entonação e ritmo), alguns aspectos físicos (dos apresentadores/falantes e do lugar) e o conteúdo que está sendo tratado. Ao apresentar um seminário, o expositor tem, como objetivo, transmitir um conteúdo, para interferir no conhecimento dos ouvintes. Para atingir esse objetivo, o expositor deve levar em conta aquilo que seus ouvintes já sabem sobre o tema; deve, ao longo de sua exposição, avaliar a dificuldade daquilo que está ensinando e, se necessário, dizer de outra maneira, reformular, dar exemplos. O expositor deve, também, promover e manter uma interação com os ouvintes, de forma a tê- los atentos durante toda a sua apresentação. Uma forma de se conseguir isso é fazer perguntas, a fim de estimular a atenção dos ouvintes e de verificar se seus objetivos estão sendo atingidos, ou seja, se todo mundo está compreendendo sua exposição. É recomendável que o tema seja inserido de forma progressiva, que o expositor se aprofunde na discussão gradativamente, de modo a não comprometer a compreensão do que ele tem a dizer. Assim, um seminário pode ser dividido em partes para um melhor entendimento dos objetivos de cada uma de suas fases, desde a introdução até o fechamento. A seguir, uma proposta de seqüência das fases de um seminário. 1 Abertura Um expositor (pode ou não fazer parte do grupo) dirige-se ao auditório, saúda-o e apresenta os expositores ou a si próprio se o expositor for ele mesmo. Exemplos: a) “Bom dia, pessoal! Gostaria de apresentar a vocês os componentes do meu grupo: Fulano, Ciclano, Beltrano ...”; b) “Atenção, turma! Vamos chamar à frente da classe o grupo Tal que vai falar a vocês sobre um tema muito interessante, a ser apresentado em forma de seminário...”2. Introdução ao tema e apresentação do plano da exposição Etapa de apresentação, delimitação do assunto. Dá ao orador a oportunidade de explicar as razões de suas escolhas. Essa fase deve mobilizar a atenção e a curiosidade dos ouvintes e, para isso, o expositor deve utilizar uma foto ou ilustração relacionada ao tema, colocar uma questão-isca que desperte a curiosidade, contar uma anedota, fazer perguntas etc. Deve esclarecer, ao mesmo tempo, sobre o produto (o texto planejado) e sobre o procedimento (a forma, a seqüência da exposição). Exemplos: a) “Esse seminário abordará tal assunto... Falaremos, primeiramente sobre... Depois, daremos alguns exemplos, para, em seguida, abordarmos os seguintes aspectos...”; b) ”Vamos tentar explicar a vocês a importância da ... Iniciaremos com uma descrição geral sobre... Em segundo lugar, vamos nos ater especialmente a... Depois, faremos também um detalhamento... E, ainda, veremos... Por fim, iremos...” 3 Desenvolvimento do assunto É o encadeamento dos diferentes temas (e subtemas), e a quantidade deles deve corresponder ao número anunciado no plano. Faz-se necessário ressaltar que esta fase é a mais importante do seminário e, para que as idéias sejam assimiladas pelos ouvintes, é importante que elas sejam expostas numa progressão coerente. A utilização de slides deve ser comedida; neles, os textos devem ser extremamente sucintos. Exemplos: a) “A questão que abordaremos agora é... Isso nos leva à seguinte reflexão:... Então, chegamos agora a um ponto muito importante...”; b) Devemos notar, sobretudo, esses dois aspectos... Em outras palavras, podemos chamar de... E, agora, exemplificando...” 130 4 Recapitulação e síntese É a retomada dos pontos principais da exposição e também a fase de transição entre ela e a conclusão que virá a seguir. Exemplos: a) “Então, para terminar, vamos fazer uma síntese de tudo o que vimos até aqui...” b) “Em resumo, podemos dizer...” 5 Conclusão É a transmissão da mensagem final, mas pode ser também, a proposta de um problema novo aos ouvintes, ou o início de um debate, uma roda de conversa, a execução de algum exercício ou atividade de verificação, uma dinâmica, etc. Exemplos: a) “Agora, finalizando nosso seminário, vamos colocar a seguinte questão...”; b) “Para concluir, queremos deixar a seguinte mensagem...” 6 Encerramento Nessa fase, cabem os agradecimentos ao auditório. Exemplos: a) “Gostaríamos de agradecer a atenção de todos os presentes...”; b) “Esperamos que, de alguma forma, tenhamos contribuído para ampliar o conhecimento de vocês sobre...” Em resumo, apresentações orais em geral envolvem as etapas abaixo discriminadas, dentre outras: 1) explorar textos e/ou documentos diversos a fim de coletar informações sobre o tema a ser exposto; 2) ordenar os temas, subtemas e/ou tópicos, intercalando-os com exemplos, ao elaborar o plano de exposição; 3) preparar anotações/esquema, transparências, mapas, gráficos, tabelas... para servirem de suporte durante a exposição; 4) antecipar as dificuldades de compreensão dos ouvintes reformulando ou substituindo as palavras difíceis; 5) coordenar a distribuição da palavra entre os elementos do grupo; 6) treinar para a exposição, tomando consciência da importância da voz, do olhar, da atitude corporal. 4.5.3 Sugestão de seminários Os temas para a apresentação dos seminários estão listados a seguir. O professor é responsável pela execução da atividade ou por sua alteração. 1. Tecnologia e mundo do trabalho 2. Tecnologia, exclusão e inclusão 3. Tecnologia e conhecimento 4. Tecnologia e juventude 5. Tecnologia e ética 131 Referências ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. 4. ed. São Paulo: Parábola, 2008. DISCINI, Norma. A comunicação nos textos: leitura, produção e exercícios. São Paulo: Contexto, 2005. EMEDIATO, Wander. A fórmula do texto: redação, argumentação e leitura: técnicas inéditas de redação para alunos de graduação e ensino médio. São Paulo: Geração Editorial, 2008. FARACO, Carlos Alberto; TEZZA, Cristovão. Oficina de texto. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 16. ed. São Paulo: Ática, 2006. FRANÇA, Junia Lessa; VASCONCELLOS, Ana Cristina de. Manual para normalização de publicações técnico-científicas. Colaboração de Maria Helena de Andrade Magalhães e Stela Maris Borges. 8. ed. rev. e ampl. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007. GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna: aprenda a escrever aprendendo a pensar. 12. ed. São Paulo: FGV, 1985. KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 15. ed. São Paulo: Contexto, 2001. KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A coerência textual. 17. ed. São Paulo: Contexto, 2007. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. 2. ed. São Paulo: Parábola, 2008. SAVIOLI, Francisco Platão; FIORIN, José Luiz. Português: livro 2: interpretação de textos. São Paulo: Anglo, 1990. Apostila. TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Práticas de linguagem: leitura e produção de textos. São Paulo: Scipione, 2001. TERRA, Ernani; NICOLA, José de; CAVALLETE, Floriana Toscano. Português para ensino médio: língua, literatura e produção de textos: volume único. São Paulo: Scipione, 2002. TOMASI, Carolina; MEDEIROS, João Bosco. Português jurídico. São Paulo: Atlas, 2010. VIANA, Antônio Carlos (Coord.) Roteiro de redação: lendo e argumentando. São Paulo: Scipione, 1998. VOTRE, Sebastião Josué; PEREIRA, Vinícius Carvalho; GONÇALVES, José Carlos. Desenvolvendo a competência comunicativa em gêneros da escrita acadêmica. Niterói: EdUFF, 2010.