Prévia do material em texto
Layout Celular Um dos pontos fundamentais de um sistema produtivo na busca por eficiência e produtividade é a escolha do layout adequado. A Literatura sobre gestão da produção apresenta alguns arranjos de layout clássicos como: a) Linha de produção: as máquinas são organizadas de forma sequencial, segundo as etapas necessárias para a produção de um determinado produto, em um único produto. Pouco flexíveis, mas com elevada taxa de ocupação do maquinário. b) Funcional (Job Shop): as máquinas são organizadas e agrupadas segundo similaridades entre as operações que realizam. Os produtos são transportados entre os departamentos, cada um seguindo a sua própria sequência de produção. Elevada flexibilidade, mas com intensa necessidade de transporte de materiais. c) Celular: máquinas de tipos variados agrupadas, necessárias à fabricação de uma determinada família de peças. Conjuntos de máquina formam unidades produtivas, e conjuntos destas unidades formam as células. O layout celular surge como a opção de arranjo de layout proposta pelo Sistema Toyota de Produção para auxiliar na implantação de um sistema produtivo Just- in-time. O sucesso da implementação do layout celular depende de como esta célula foi projetada. Para auxiliar neste processo, a Tecnologia de grupo é utilizada para classificar e identificar os produtos, de forma a se formarem famílias. Para tal, as peças ou produtos com roteiros e operações comuns são agrupadas e identificadas como uma família de peças. As células, portanto, serão o agrupamento de máquinas e equipamentos em grupos diversos, de forma que este grupo seja capaz de propiciar a produção de vários (ou todos) componentes de uma mesma família. A constituição desta família é fator decisivo no desempenho da célula. Uma família homogênea, onde as partes integrantes apresentem elevado grau de similaridade, proporcionará reduções significativas dos tempos de preparação (setup) nos equipamentos da célula, elevando a sua taxa de utilização. Uma família que possua muitos indivíduos distintos dos demais (operações extras, ferramentas específicas, etc...) exigirá desvios no fluxo da célula, ocasionando ociosidade de alguns equipamentos e exigindo eventualmente transporte entre células durante o processamento. Seria então a solução criar tantas famílias quantas fossem necessárias para que todas elas fossem homogêneas? A resposta desta pergunta revela uma das fragilidades do layout celular, que é a necessidade de capacidade instalada superior a outros arranjos de layout. Note que se dez produtos diferentes forem divididos em dez famílias, por serem distintos, na verdade você necessitará de dez linhas de montagem distintas perdendo totalmente o sentido do layout celular. Um número muito elevado de famílias exige que mais capacidade seja instalada em células, ou que atividades de setup sejam realizadas para a modificação da célula da configuração de uma família para outra. A medida que isso eleva o investimento ou os custos de transporte e espera podem inviabilizar a operação neste arranjo, portanto cada caso deve ser estudado e avaliado na busca pelo ponto de equilíbrio entre o nível de similaridade entre as partes de cada família e o número de famílias em que os produtos serão classificados. Na literatura é possível encontrar muitas técnicas de Tecnologia de grupo para auxiliar neste processo, na busca pelo equilíbrio entre homogeneidade de similaridade entre os componentes da família de partes e a capacidade instalada necessária para atendimento das famílias definidas. Além disso, técnicas de otimização podem ser aplicadas no intuito de se buscar o melhor equilíbrio possível para a questão. As principais vantagens do uso do layout celular que podem ser destacadas são: Boa combinação de flexibilidade e integração; Maior controle do sistema e confiabilidade; Redução dos tempos de preparação (setup) e atravessamento (lead time); Favorece trabalho em grupos; Flexibilização do trabalho com operadores multifuncionais; Em contrapartida, o arranjo também apresenta suas desvantagens, como: Exige maior capacidade instalada, devido a dedicação de máquinas a determinadas células; Resistência cultural dos operários (Impressão de aumento de trabalho); Maior custo de treinamento para operadores multifuncionais; Limitações físicas (nem tudo cabe em uma célula); Dificuldade de balanceamento da capacidade das máquinas; Famílias de produtos com menor grau de similaridade podem provocar ociosidade em alguns equipamentos e requerer movimentação entre células. A forma como as células são dispostas pode ser influenciada pela disponibilidade de espaço físico, transporte de matéria-prima e produtos e até interligações entre duas ou mais células. As formas mais comuns são as disposições em forma de “U”, “V”, “L” e combinações destes formatos formando serpentinas. Dentre elas a mais popular é a configuração em forma de “U”. A Figura 1 ilustra uma célula constituída por 10 operações sequenciais, com apenas 3 operadores. As máquinas munidas de automação e detecção automática de falhas (autonomação), e os operadores multifuncionais, permitem que um mesmo operador seja capaz de operar mais de uma máquina com ciclos pré- determinados (exemplificados pelos ciclos azul escuro, vermelho e verde, onde cada ponto é uma operação realizada pelo operador). Ao se determinar quantas operações cada operador deverá realizar e por quantos equipamentos ele será responsável, deve-se levar em consideração um adequado balanceamento da carga de trabalho, uma vez que operadores sobrecarregados podem acarretar em problemas de segurança, perda de qualidade dos produtos e redução da confiabilidade dos equipamentos devido à falta de procedimentos básicos de manutenção. Figura 1: Layout celular em forma de U A preferência por este formato se dá devido ao fato de apresentar algumas vantagens sobre as demais, como: Melhor utilização do espaço físico; Fácil retorno de peças defeituosas, quando algum retrabalho se faz necessário; Materiais e ferramentas podem ser compartilhados devido à proximidade dos postos de trabalho; Fácil passagem de peças de um posto a outro quando algum posto é “saltado” na sequência de determinado produto (fluxo cruzado); Flexibilidade e facilidade de balanceamento de mão de obra, devido à proximidade dos postos de trabalho. Uma variação comum das células focadas em produto, como originalmente proposto pelo Sistema Toyota de Produção, é a célula focada no processo, ou célula funcional. Neste conceito, mais enraizado no pensamento ocidental de que “máquina não pode parar” do que no conceito de manufatura celular, as máquinas são agrupadas de acordo com a operação que realizam (layout funcional) e não pelos produtos que processam. Desta forma há uma utilização mais intensa da mão de obra que, ao invés de operar uma única máquina e dispender tempo esperando a máquina executar a operação, passa a operar duas ou mais máquinas iguais, reduzindo o tempo que o operário fica parado aguardando a máquina e aumentando sua produtividade. Este arranjo não é bem visto por autores de estudos sobre o STP, pois tende a isolar o operário do grupo e fazer com que seu conhecimento seja focado em determinada operação e não no todo do processo, o que é visto como prejudicial para a qualidade do produto, processos de melhoria e flexibilidade da mão de obra. Outro ponto negativo apontado é que o uso intenso da mão de obra e equipamentos com o simples intuito de maximizar sua utilização pode gerar estoques em processo, o que é prejudicialem termos de custo e qualidade. Porém, formas combinadas de células de manufatura focadas no produto com células funcionais em seu fluxo podem apresentar bons resultados em determinadas situações. Para exemplificar, tomemos o exemplo apresentado na Figura 1, onde temos uma célula focada no produto com 10 operações sequenciais e que utiliza 3 operadores. Se ao fazermos uma análise dos tempos de ciclo das máquinas identificarmos que a máquina 8 possui um ciclo 3 vezes maior que a máquina 9 que possui o segundo maior tempo de ciclo da célula, limitando o tempo de ciclo da célula. A empresa precisa triplicar a produção do item produzido nesta célula devido a um aquecimento do mercado, precisamos resolver esta situação. Seria lógico imaginar que se no posto 8, possuíssemos 3 máquinas ao invés de apenas 1, produziríamos três vezes mais peças podendo a célula inteira trabalhar no tempo de ciclo da máquina 9 (supondo que todas as demais máquinas sejam capazes disso). Baseado nesta lógica, podemos re-projetar a célula de manufatura, mesclando seu atual layout focado no produto com uma pequena célula funcional, conforme é exibido na Figura 2. Figura 2: Célula focada no produto com célula funcional no fluxo A combinação, permite que se alcance a melhoria nos tempos de ciclo da célula focada no produto. Infelizmente, pode-se notar que o operador responsável pela agora célula 8, ficará isolado do grupo e com seu tempo ocupado exclusivamente pela operação deste tipo de máquina, tornando-o um operador especializado e não multifuncional como seus colegas. Medidas como um rodízio entre os operadores nesta função poderia amenizar este problema. Recapitulando: O layout em células é um arranjo que visa melhorar a utilização da mão de obra e dos equipamentos, reduzindo transportes e atividades de preparação. Isto é possível através do projeto da célula com base no agrupamento de produtos em famílias de partes, fazendo com que produtos similares sejam processados na mesma célula. A tecnologia de grupo pode ser uma grande aliada nesta tarefa. As células de manufatura podem ser dispostas de muitas formas, sendo as mais usuais em forma de U, de L e V. A forma de U é a mais comumente encontrada, devido a algumas vantagens sobre as demais, como melhor utilização do espaço físico e redução das distâncias entre os postos de trabalho facilitando o retorno de peças defeituosos e que postos de trabalho sejam facilmente saltados na sequência, quando necessário. Produção sincronizada A sincronização da produção é uma das chaves para uma produção enxuta. A gestão da produção baseada no tempo e a sincronização de todo o processo permite a eliminação de perdas por estoque em processo e espera. A sincronização da produção deve ocorrer com base no takt-time e no tempo de ciclo do processo. A palavra alemã ‘takt’ serve para designar o compasso de uma composição musical, tendo sido introduzida no Japão nos anos 30 com o sentido de ‘ritmo de produção’, quando técnicos japoneses estavam a aprender técnicas de fabricação com engenheiros alemães (SHOOK, 1998). No Sistema Toyota de produção o termo ganhou força, pois define o ritmo no qual a fábrica deve trabalhar para atender os seus objetivos de produção. OHNO (1996) definiu o tempo takt como a divisão do tempo diário de operação pelo número de peças requeridas por dia”. É importante frisar que o tempo diário de operação deve ser entendido como o tempo disponível para a produção, descontando-se paradas programas para manutenção ou de causas ergonômicas, para que o objetivo seja coerente com a realidade. Portanto Alvarez e Antunes Jr (2001) definem o tempo takt como: 𝑇𝑎𝑘𝑡 = 𝑇𝑒𝑚𝑝𝑜 𝑑𝑖𝑠𝑝𝑜𝑛í𝑣𝑒𝑙 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑝𝑟𝑜𝑑𝑢çã𝑜 (𝑠𝑒𝑔𝑢𝑛𝑑𝑜𝑠) 𝐷𝑒𝑚𝑎𝑛𝑑𝑎 𝑑𝑒 𝑝𝑟𝑜𝑑𝑢çã𝑜 (𝑝𝑒ç𝑎𝑠) Tempo disponível para produção é o tempo total do turno de produção, descontando as paradas programada como paradas para almoço, manutenção programada e limpeza do equipamento. A unidade de tempo padrão é segundos, porém em casos de produções que demandem maior tempo, esta pode ser adaptada. Alvarez e Antunes Jr. (2001), apontam o takt-time como o principal elemento concreto de modelagem e representação para a Função Processo (Deslocamento do material) no STP. Os mesmos autores ainda destacam como uma aparente deficiência na literatura sobre o tema a supervalorização do sistema kanban como solução logística, enquanto a coordenação baseada no takt-time é abordada como característica local de cada célula de produção e não como um nexo mais amplo de encadeamento da Função Processo. O tempo de ciclo, é obtido a partir do que a fábrica é capaz de realizar, ou seja, qual o ritmo máximo capaz de ser desempenhado pela fábrica no atendimento da demanda. A condição ideal para uma fábrica é aquela onde o tempo de ciclo é sempre menor que o takt time, dessa forma ela será capaz de absorver as eventuais flutuações na demanda remanejando operadores e reduzindo ou aumentando seu tempo de ciclo. A condição inversa, quando o takt time é sempre menor que o tempo de ciclo, indica que a empresa está em apuros e não consegue atender a demanda que se apresenta, perdendo vendas. Nesta situação programas de melhoria devem ser intensificados de forma a reduzir o tempo de ciclo o máximo possível, e quando isto não for mais possível (limite físico do equipamento atingido), deve-se considerar a expansão da capacidade da fábrica. A gestão da fábrica pelo tempo deve buscar ao máximo que o tempo de ciclo da fábrica esteja no valor do takt time, pois um tempo de ciclo menor irá provocar perda por superprodução e um tempo de ciclo maior provocará perdas por não atendimento da demanda. O uso de folhas de trabalho padrão (assunto da próxima semana) permite que que as tarefas sejam realizadas dentro do tempo esperado, e por consequência dentro do takt time. A sincronização da produção deve ocorrer a nível amplo do processo, uma vez que se apenas algumas células trabalharem dentro deste tempo, estaremos novamente gerando perdas por estoque ou atraso nas entregas. Por isso neste ponto a programação e controle da produção assumem o protagonismo no que tange à eliminação de perdas, pois é necessário um planejamento robusto e de alto nível prevendo variações na demanda para que a fábrica consiga trabalhar atendendo ao tempo takt necessário. A dificuldade da realização desta tarefa cresce à medida que o mix de produtos aumenta, o que demonstra que o gerenciamento baseado no tempo takt é mais indicado para casos de produção em massa, o assunto é abordado em maiores detalhes no artigo “Takt-time: Conceitos e Contextualização dentro do Sistema Toyota de Produção” de Alvares e Antunes Jr. Referências REIS ALVAREZ, R.; ANTUNES JR, J. A. V. Takt-time: Conceitos e contextualização dentro do Sistema Toyota de Produção. Gestão & Produção, v.8, p. 1-18, 2001. Disponível em:< http://www.scielo.br/pdf/gp/v8n1/v8n1a01.pdf >