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1 
 GILLES CISTAC 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CURSO 
 
DE 
 
METODOLOGIA JURĺDICA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Universidade Eduardo Mondlane 
Livraria Universitária 
 2 
O AUTOR 
 
 
Prof. Doutor GILLES CISTAC 
Professor Associado da Faculdade de Direito 
da Universidade Eduardo Mondlane 
 
Publicações 
 
I – Livros e monografias. 
 
- O Direito Eleitoral Moçambicano/Le Droit électoral Mozambicain, 
Imprensa da UEM, Maputo - 1994, 280 páginas (Versão bilingue 
Francês-Português). 
 
- O Processo de Descentralização em Moçambique, Ed. Faculdade de 
Direito da UEM, Maputo - 1996, 40 páginas. 
 
- O Tribunal Administrativo de Moçambique/Le Tribunal Administratif du 
Mozambique, Editor Faculdade de Direito da UEM, Maputo - 1997, 520 
páginas (Versão bilingue Francês-Português). 
 
- Manual de Direito das Autarquias Locais, Maputo, Livraria 
Universitária – 2001 - 730 páginas. 
 
 
 II – Lições policopiadas. 
 
- A Tutela Administrativa, Curso de formação pelos Presidentes dos 
Conselhos Municipais e Assembleias Municipais, organizado pelo 
Ministério da Administração Estatal, Maputo, 1998. 
 
- Curso de Finanças Autárquicas - O Estado, as Autarquias Locais e o 
seu regime jurídico, Ministério do Plano e Finanças, Direcção da 
Administração e Recursos Humanos - Departamento de Formação, 
Centro de Formação do Ministério do Plano e Finanças, 2002. 
 
- Curso de Direito Administrativo, Faculdade de Direito da Universidade 
Eduardo Mondlane, 2004-2005. 
 
 
 III – Principais artigos. 
 
- “Quelques principes législatifs et réglementaires en matière de chasse 
au vol“, Revue du GFASO 1985 – spécial 10 ans de GFASO, pp. 40-43. 
 
- “Poder legislativo e Poder regulamentar na Constituição moçambicana 
de 30 de Novembro de 1990”, Revista da Faculdade de Direito da 
 3 
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Vol. 12, 1996, pp. 
148-160. 
 
- “Le renouvellement du rôle de l’État contractant dans le commerce 
international”, Droit et Pratique du Commerce International - 1996 - 
Tome 22, N.° 2, pp. 167-198. 
 
- “Une histoire juridique de l'Etat contractant dans le commerce 
international”, em, Annales de l'Université des Sciences sociales de 
Toulouse, Tome XLIII, PUSS, 1995, pp. 171-193. 
 
- “Controlo de legalidade dos actos das autarquias locais em direito 
francês”, em, Aspectos Jurídicos e Financeiros do processo de 
descentralização em Moçambique/25-27 de Março de 1996 - Maputo 
(sob a direcção do Dr. Gilles CISTAC), Edição Faculdade de Direito da 
UEM, Maputo - 1996, pp. 55-71. 
 
- “Poder legislativo e Poder regulamentar na Constituição da República 
de Moçambique de 30 de Novembro de 1990”, Rev. Jur. da Faculdade 
de Direito, Dez-1996.- Vol. I, pp. 7-29. 
 
- “A renovação do papel do Estado contratante no comércio 
internacional”, Rev. Jur. da Faculdade de Direito, Juhno-1997.- Vol. II, 
pp. 187-220. 
 
- “Os Recursos Jurisdicionais no Ante-Projecto de Reforma do Processo 
Administrativo Contencioso”, Rev. Jur. da Faculdade de Direito, Dez-
1997.- Vol. III, pp. 33-67. 
 
- “O controlo da constitucionalidade dos actos administrativos em 
Direito Francês”, em, Anais da VI Jornada Técnico-Científica da FESA, 
Luanda, 2002. 
 
- “O Anteprojecto de Lei dos órgãos locais do Estado e o processo de 
autarcização”, Rev. Jur. da Faculdade de Direito, Dez-2002.- Vol. V, pp. 
1-45. 
 
- “O Contencioso Administrativo da Terra na Jurisprudência do Tribunal 
Administrativo”, em, Aspectos Jurídicos, Económicos e Sociais do Uso e 
Aproveitamento da Terra, Coordenadores Gilles CISTAC e Eduardo 
CHIZIANE, Universidade Eduardo Mondlane, 2003, pp. 169-194. 
 
- “Como Reformar uma Constituição? (o exemplo moçambicano)”, em, 
Núcleo dos Estudantes de Direito, “Palestras e Debates”, NED – 
Faculdade de Direito, UEM, Maputo 2004, pp. 49-59. 
 
- “A questão do Direito Internacional no ordenamento jurídico da 
República de Moçambique”, Rev. Jur. da Faculdade de Direito, Set.-
2004.- Vol. VI, pp. 9-57. 
 4 
 
- “Olhar crítico sobre o Projecto de Revisão da Constituição; Questões 
de método”, em, Contributo para o Debate Sobre a Revisão 
Constitucional, Coordenação Gilles CISTAC, Universidade Eduardo 
Mondlane, Ed. Faculdade de Direito 2004, pp. 7-43. 
 
- “Justiça e Contencioso Eleitoral em Moçambique”, Maputo, Ed. 
Instituto Eleitoral da África Austral (EISA) e Centro de Estudos de 
Democracia e Desenvolvimento (CEDE), 2005, pp. 31-65. 
 
- “Justice and Electoral Disputes in Mozambique”, Journal of African 
Elections, June 2005, 4(1), pp. 61-89. 
 
 
IV – Colectâneas. 
 
- Jurisprudência Administrativa de Moçambique, Volume I (1994-1999), 
Maputo, Ed. Tribunal Administrativo – 2003 - 900 páginas. 
 
 
SOB A DIRECÇÃO DO AUTOR 
 
 
- Aspectos Jurídicos e Financeiros do Processo de 
descentralização em Moçambique/25-27 de Março de 1996 - 
Maputo (sob a direcção do Dr. Gilles CISTAC), Edição 
Faculdade de Direito da UEM, Maputo - 1996, 104 páginas. 
 
- Aspectos Jurídicos, Económicos e Sociais do Uso e 
Aproveitamento da Terra, Comunicações realizadas nas 
“Jornadas de estudos” organizados pelo Núcleo de Estudo 
sobre a Administração Pública e o Desenvolvimento Local da 
Faculdade de Direito da UEM e pela Cooperação Francesa – 
Beira – 27 – 29 de Maio de 2003, Coordenadores Gilles 
CISTAC e Eduardo CHIZIANE, Universidade Eduardo 
Mondlane, 2003, 236 páginas. 
 
- Contributo para o Debate Sobre a Revisão Constitucional, 
Coordenação Gilles CISTAC, Universidade Eduardo 
Mondlane, Ed. Faculdade de Direito 2004, 362 páginas. 
 
 5 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
 
1. Definição 
 
 No sentido etimológico, o método é uma sequência ordenada de meios com 
vista a atingir um objectivo, “uma maneira ordenada de fazer as coisas”1 ou como o 
define Edgar MORIN, numa perspectiva cognitiva: “O que aprende a aprender, é isto 
o método”2. Assim, o método é um meio e não um fim. É um simples instrumento 
que deve permitir a reflexão de se desenvolver. 
 
 Para René DESCARTES (1596-1650)3, o método parecia universal, todavia, 
hoje em dia os métodos são vários e diversificados, não só segundo as disciplinas 
científicas mas também no âmbito da mesma disciplina. 
 
A metodologia é o estudo dos métodos científicos e técnicos, assim como, dos 
procedimentos utilizados numa disciplina científica determinada. 
 
 Assim, numa primeira aproximação, a metodologia jurídica é, logicamente, o 
estudo dos métodos técnico-científicos e procedimentos utilizados no âmbito do 
Direito. 
 
 Se observar-se o fenómeno jurídico, sem preconceitos, pode-se concluir que 
abrange um conjunto de mecanismos de organização das sociedades humanas e de 
regulação das relações sociais (estruturas organizativas, normas de condutas, 
sanções). Mas especificadamente, o Direito surge através de fontes – “Fontes do 
Direito” – que, manifestam-se através de vários substratos: constituições, leis, 
tratados internacionais, regulamentos administrativos, costumes, jurisprudência. 
 
 Face a esses numerosos espaços de produção do Direito, um reflexo natural 
incita a ordenar este conjunto de regras. Por outras palavras, é preciso classificar, 
reagrupar, completar as disposições das fontes entre elas. Esta exposição sistemática 
das normas que constituem o Direito, no objectivo de coordenar logicamente e 
racionalmente a unidade do sistema jurídico, constitui uma verdadeira ciência. 
 
Nesta actividade, a Ciência do Direito, que tem por objecto o fenómeno 
jurídico4, usa de uma técnica de uma série de procedimentos para atingir a 
sistematização. Sem este esforço conceptual, o Direito não seria praticável. Por 
outras palavras, a concepção, a expressão, a compreensão e a aplicação do Direito1 Dicionário da Língua Portuguesa, Ed. Porto Editora, 8.ª. ed., 1999, vide, método 
2 MORIN E., La méthode, Tome 1. La nature de la Nature, Paris , Ed. du Seuil, 1977, p. 21. 
3 Discurso do Método, Lisboa Guimarães Editores, Lda, 1997. 
4 VIRALLY M., “Le phénomène juridique”, RDP 1966, pp. 5-64. 
 6 
pressupõem “uma lógica mais ou menos rígida de conceitos, de categorias, de 
classificações (...) que têm por objectivos de introduzir, na massa das regras, clareza 
e praticabilidade”5. É este património intelectual específico que que faz com que o 
jurista é e que o diferencia de uma pessoa que não é formada em Direito. 
 
 Os valores consagrados pela ordem jurídica e as regras que este comporta 
não podem ser implementados senão com o apoio de princípios, instrumentos e 
modos de raciocínios específicos. François GÉNY ensinava que “Qualquer elaboração 
jurídica é dominada por operações intelectuais e por uma metodologia, baseadas 
sobre princípios da lógica comum, com uma certa flexibilidade que impõe-se pela 
natureza própria do objecto a investigar: as regras jurídicas”6. 
 
 Assim, a metodologia jurídica é, stricto sensu, “o estudo dos procedimentos e 
dos métodos que os juristas são conduzidos a praticar nas suas actividades de 
pesquisa, de criação e de aplicação do Direito e, mais geralmente, para solucionar 
problemas jurídicos”7. 
 
 Esta definição abrangerá também, implicitamente, as diferentes técnicas que 
permitem trabalhar eficazmente. Este ponto de vista prático é muitas das vezes 
ignorado pelos investigadores da metodologia jurídica que consagram a sua atenção 
sobre as questões mais “teóricas”, enquanto que o sucesso dos estudantes em 
Direito, por exemplo, pode depender da aquisição de procedimentos e 
comportamentos práticos, de um "saber-fazer". Todavia, essas técnicas, sendo 
numerosas, não se podem expor na totalidade, mas apenas aquelas que são mais 
importantes. 
 
2. A natureza da metodologia jurídica 
 
 A ciência define-se comumente como: “conhecimento certo e racional sobre a 
natureza das coisas ou sobre as suas condições de existência“8. Todavia, autores 
defendem que a questão “o que é a ciência?” não tem uma resposta científica9. Por 
outras palavras, “a ciência não se conhece cientificamente e não tem nenhum meio 
de se conhecer cientificamente”10. O que existe ensina Edgar MORIN, é “uma 
metodologia científica para considerar e controlar os objectos da ciência”11. 
 
 Neste sentido, não há nenhum obstáculo em considerar o Direito como uma 
ciência; como escreve Inocêncio GALVÃO TELLES: “O Direito é objecto de uma 
verdadeira Ciência. Não se trata, evidentemente, de uma ciência do tipo das da 
Natureza; nela não se pode aspirar-se a total rigor, semelhante àquele a que devem 
chegar os matemáticos e os físicos. Trata-se de uma ciência de índole diversa, mas 
 
5 DABIN J., Théorie générale du droit, Dalloz, coll. “Philosophie du droit”, 1969, n.º 264. 
6 GÉNY F., Science et technique en droit privé positif, Nouvelle contribution à la critique de la méthode 
juridique, t. IV, n.º 302. 
7 BERGEL J.L., Méthodologie juridique, Ed. Presses Universitaires de France – 2001, p. 18. 
8 Dicionário da Língua Portuguesa, Ed. Porto Editora, 8.ª. ed., 1999, vide, ciência 
9 Vide, por exemplo, MORIN E., La méthode, Tome 1., op. cit., p. 14. 
10 MORIN E., Ibidem 
11 MORIN E., Idem 
 7 
não menos legítima, nem menos necessária: uma ciência do espírito, cujo objecto é 
esta matéria viva e palpitante – o Direito, essencialmente evolutivo, que representa 
uma das mais importantes ordens normativas a que todos estamos subordinados”12. 
 
 Mas o mais importante é a identificação da existência de uma metodologia 
científica do Direito que permite, para parafrasear Edgar MORIN, “considerar e 
controlar os objectos da ciência” do Direito. 
 
 Assim, da mesma maneira que o Direito é uma ciência, a metodologia jurídica 
é também uma ciência. Com efeito, a metodologia jurídica tem o estatuto de uma 
ciência porque constitui um sistema organizado de conhecimentos e tem, de uma 
certa forma, um carácter permanente e universal13. 
 
3. Os limites da metodologia jurídica 
 
 “O Direito não se reduz à metodologia jurídica”14, escreve JEAN-LOUIS 
BERGEL, isto permite medir os limites da metodologia jurídica. 
 
 Deve-se ainda a François GÉNY uma demonstração esclarecedora sobre os 
limites da metodologia jurídica, através de observações relacionadas a questão da 
técnica jurídica, isto é, dos métodos que conduzem à concretização da política 
jurídica entendida como o processo que visa determinar os resultados a atingir pelas 
autoridades competentes. 
 
 O referido autor demonstrou que a técnica jurídica como componente 
importante da metodologia jurídica comporta riscos, porque esta modela as coisas 
com operações intelectuais cujo uso artificial e mecânico pode conduzir à 
desnaturação das realidades concretas e das finalidades do Direito. François GÉNY 
estabeleceu, também, o princípio fundamental segundo o qual a técnica deve ser 
subordinada à ciência. O “dado” provindo das realidades de facto deve dominar o 
“construído” que é apenas justificado para atingir um objectivo que não se pode 
contradizer15. 
 
 Assim, “a metodologia jurídica não pode ser explorada até perverter ou 
deformar abusivamente os factos ou os valores essenciais”16. 
 
4. A distinção da metodologia jurídica das disciplinas científicas afins 
 
 A primeira distinção a realizar é aquela que se pode estabelecer entre a 
metodologia jurídica e a Filosofia do Direito. A filosofia do Direito trata da razão de 
ser do Direito, das suas origens, das suas finalidades em função de posições 
 
12 GALVÃO TELLES I., Introdução ao Estudo do Direito, Vol. II (10.ª ed. 2000), Coimbra Editora, n.º 
225. 
13 BERGEL J.L., “Ébauche d’une definition de la méthodologie juridique“, Cahiers de méthodologie 
juridique, 1990, n.º 5, p. 716. 
14 BERGEL J.L., Méthodologie juridique, op. cit., p. 20. 
15 GÉNY F., op. cit., t. IV, n.º 284 e seguintes. 
16 BERGEL J.L., op. cit., p. 21. 
 8 
essencialmente metafísicas, éticas, ideológicas, políticas e sociológicas17; como 
escreve Giorgio del VECCHIO: “A filosofia do Direito é a ciência que define o direito 
na sua universalidade lógica, procura as origens e os caracteres gerais do seu 
desenvolvimento histórico e apreciá-lo segundo o ideal de justiça sugerido pela 
razão”18. Por exemplo, o filósofo do Direito perguntar-se-á se a segurança social é 
uma instituição justa ou de progresso social. O jurista, diferentemente, estudará 
quais são os mecanismos de pagamento das contribuições, quais são as prestações 
oferecidas, quais são as ligações entre o Instituto de Segurança Social e o Direito do 
Trabalho ou o Direito da família, os critérios de acesso às prestações, etc... Para 
atingir esses objectivos, o jurista recorrerá a metodologia jurídica e ou seja, aos 
métodos de qualificação, de interpretação de coordenação das diversas regras de 
Direito. 
 
 Em segundo lugar, a metodologia jurídica integra-se e destaca-se ao mesmo 
tempo da teoria geral do Direito. Com efeito, a teoria geral do Direito tem por 
objecto o estudo da ordem jurídica na sua globalidade e define os eixos 
fundamentais da construção do Direito e da sua aplicação19. Neste sentido, a teoria 
geral do Direito aproveita-se da metodologia do Direito. Todavia, a metodologia do 
Direito é apenas uma parte da teoria geral do Direito. A definição do Direito, a sua 
essência e as suas funções não entram no campo de investigação da metodologia do 
Direito20. 
 
 Finalmente, deve-se distinguir a metodologia jurídica da epistemologia 
jurídica, que tem por objecto o estudo dos modos de conhecimento do direito21. A 
distanciação entre as duas disciplinas incide sobre a naturezada aproximação do 
Direito: enquanto que a epistemologia jurídica tem fundamentalmente como objecto 
o pensamento jurídico abstracto, a metodologia jurídica tem sempre uma abordagem 
concreta das necessidades e dos interesses em causa. 
 
5. O objecto da metodologia jurídica 
 
 A ideia da metodologia jurídica está ligada a ideia de uma construção racional 
do Direito e a ideia de sistema jurídico22. Com efeito, o Direito é a disciplina que tem 
por objecto a organização e a regulação de uma sociedade e as suas relações 
internas. O Direito, como ordem ou como relações, deve ser percebido como um 
conjunto coerente de elementos interdependentes, isto é, como um sistema23. 
 
 Não há dúvida sobre o facto de que os sistemas jurídicos são inspirados de 
ideologias e objectivos diversos que têm uma influência sobre o seu próprio 
 
17 Vide, Philosophie du droit, in, Dictionnaire encyclopédique de théorie et de sociologie du droit, Paris, 
LGDJ, 2.ª ed., 1993, p. 442 e seguintes. 
18 DEL VECCHIO G., Philosophie du droit, Paris, Ed. Dalloz, 2004, p. 16. 
19 BERGEL J.L., Teoria Geral do Direito, Martins Fontes, São Paulo, 2001, n.º 3 ; «Théorie Générale du 
Droit », in Dictionnaire encyclopédique de théorie et de sociologie du droit, p. 610. 
20 BERGEL J.L., “Ébauche d’une definition de la méthodologie juridique“, op. cit., p. 712-713. 
21 ATIAS C., Épistémologie juridique, Paris, PUF, 1985 ; "Épistémologie juridique", in Dictionnaire 
encyclopédique de théorie et de sociologie du droit, p. 610. 
22 BERGEL J.L., Méthodologie juridique, op. cit., p. 23 e seguintes. 
23 BERGEL J.L., idem 
 9 
conteúdo. Mas qualquer que seja a substância das normas jurídicas dos diferentes 
sistemas jurídicos, o seu desenvolvimento, o seu funcionamento e a sua aplicação 
são dominados por mecanismos, instrumentos, modos de pensamento, conceitos, 
instituições que parecem comuns a todos. 
 
Assim, a abordagem dos sistemas jurídicos através do prisma da metodologia 
jurídica permite identificar numerosos elementos transversais e universais. Com 
efeito, existe uma permanência dos métodos do Direito, das noções fundamentais, 
das técnicas, dos instrumentos jurídicos, dos modos de raciocínio, para além da 
heterogeneidade aparente das ordens jurídicas. Pode-se conceber, escreve JEAN-
LOUIS BERGEL, “que o estudo dos métodos do Direito, pelo seu âmbito de 
investigação e conteúdo, seja de algum modo comum a todos os sistemas e que 
existe uma certa universalidade e uma certa permanência da metodologia jurídica, 
qualquer que seja a multiplicidade e a diversidade das suas aplicações”24. 
 
 O objecto essencial da metodologia jurídica é “estabelecer e aplicar soluções 
de Direito a situações de facto”25. Com efeito, olhando para a actividade dos juristas, 
qualquer que seja a diversidade dessa actividade e sua riqueza, esta é caracterizada 
por um vaivém constante entre o facto e o Direito e consiste sempre em aplicar o 
Direito aos factos, ou seja, submeter situações concretas à ordem jurídica. Para 
poderem fazer isso, os juristas usam várias técnicas e métodos jurídicos para 
aproximar o Direito ao facto; por exemplo a qualificação dos factos ou o raciocínio 
silogístico ou, pelo contrário, para dissociar o facto do Direito, por exemplo com o 
recurso as ficções. 
 
6. Interesse da metodologia jurídica 
 
Pode-se observar que, até a entrada em vigor da reforma curricular na 
Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane em 2004, o estudo da 
metodologia jurídica era negligenciado. Era uma situação bastante paradoxal. 
 
Em primeiro lugar, do ponto de vista macro-jurídico, a produção crescente de 
normas jurídicas - na sua vertente quantitativa -, na ordem jurídica moçambicana e a 
interpenetração da ordem jurídica interna e regional ou internacional necessitam do 
conhecimento e da aplicação dos métodos do Direito para garantir um entendimento 
legível do conjunto dessas regras jurídicas. 
 
Em segundo lugar, do ponto de vista micro-jurídico, pode-se verificar que a 
maior parte dos estudantes têm carências mais ou menos graves em metodologia do 
Direito. Não dominam os princípios mais elementares da metodologia jurídica. Por 
várias razões e a culpa não é apenas deles. O corpo docente tem uma importante 
responsabilidade na existência desta carência. Mas essas carências metodológicas 
não são apenas um facto dos estudantes em Direito. É também uma situação que se 
estende parcialmente ao legislador, ao juiz e aos advogados. A metodologia 
legislativa – feitura de leis – é negligenciada; a redacção dos acórdãos não é 
 
24 BERGEL J.L., op. cit., p. 31. 
25 BERGEL J.L., op. cit., p. 37. 
 10 
plenamente satisfatório (incoerência, falta de fundamentação, contradições, etc...) e 
os advogados têm fraquezas em termos de argumentação, de técnica de negociação 
e redacção de contratos, por exemplo. 
 
Assim, impõe-se a todos os práticos do Direito, no sentido material da palavra, 
o estudo atento das regras que dominam os procedimentos intelectuais dos juristas. 
 
Também é preciso prestar atenção ao facto de que numa sociedade 
atravessada pelas novas tecnologias de informação, o “computador”, para tomar o 
exemplo mais significativo, não é panaceia. Pelo contrário, é suficiente ler as obras 
dos filósofos gregos (vide, por exemplo, A Ética de Nicômaco de ARISTÓTELES) ou 
dos juristas romanos (vide, por exemplo, Da República de CÍCERO) para medir o 
grau de reflexão extremamente elevado de homens que viviam num tempo onde se 
escrevia sobre pergaminho. A informática permanece um instrumento nas mãos dos 
juristas e se os mesmos não dominam as regras básicas que lhes permitirão 
entender e aplicar o fruto das suas próprias investigações. Por outras palavras, o 
resultado do seu trabalho de investigação ficará desaproveitado. Com efeito, para 
tomar um exemplo simples, pode-se facilmente via internet ter acesso a um banco 
de dados informático e assim consultar vários modelos de contratos, mas não se 
sabe qualificar o tipo de relações jurídicas em causa ou não se sabe identificar com 
rigor e precisão as questões jurídicas que se colocam concretamente, o material 
recolhido não será aproveitado e, em alguns casos, será inútil. 
 
Assim, ser bom jurista26, não consiste em conhecer todas as regras duma 
determinada ordem jurídica (dificilmente concebível na prática!). O conhecimento do 
Direito não se reduz a uma boa memória. Sobre este aspecto, o homem não pode 
rivalizar-se com o computador. 
 
Ser bom jurista pressupõe dominar métodos e procedimentos fundamentados 
sobre uma lógica e raciocínios específicos, instrumentos técnicos, classificações e 
uma terminologia rica e precisa; é ainda, compreender a totalidade das dimensões 
do Direito e gozar da possibilidade de construir e perpetuar o que se estuda e 
inscrever o seu pensamento numa finalidade normativa27 . Tudo isso não está ainda 
nos programas informáticos. Por outras palavras, sem uma metodologia jurídica 
rigorosa não se pode conceber regras capazes de reger eficazmente e com 
segurança a realidade social. Pode-se ir mais longe, e como afirma PAUL DELNOY: 
“... se se tinha o tempo de aprender apenas uma coisa, é a metodologia que 
importaria de adquirir, mais do que o conhecimento das regras jurídicas, porque 
aquelas modificam-se enquanto que a metodologia permanece”28. 
 
 
26 JEAN CARBONNIER defende que a função do jurista é constituída pela reunião de quatro ciências: 
"ciência das sistematizações" ou ciência da classificação; "ciência da interpretação" ou hermeneútica, 
"ciência da criação normativa" ou "ciência da legislação e "ciência sociológico ou estudo dos 
fenómenos, citado por, LOUIS ASSIER-ANDRIEU, Le droit dans les sociétéshumaines, op. cit., p. 10. 
27 ASSIER-ANDRIEU L., op. cit., p. 10. 
28 DELNOY P., Initiation aux méthodes d’application du droit, Presses Universitaires de Liège, 1989-
1990, Vol. I, p. 7. 
 11 
 Finalmente, dominar a coerência e a racionalidade do Direito e estudar a sua 
lógica e as suas técnicas permite identificar melhor as regras de direito e interpretá-
las e aplicá-las com melhor segurança. 
 
7. Os objectivos do curso 
 
 O ensino da metodologia jurídica aos estudantes é indispensável pela 
compreensão do Direito e pela sua aplicação. Assim, para atingir esses objectivos 
gerais, os objectivos mais específicos devem ser realçados. 
 
 O primeiro objectivo a atingir é a formação do espírito jurídico e a aquisição 
do pensamento jurídico29. Com efeito, o jurista deve ser capaz de pensar o real, de 
dominar um sistema de normas e de procurar e inventar, se for o caso, soluções aos 
problemas jurídicos que lhes são colocados; como escreve MARIE-ANNE COHENDET, 
“O Direito é, ao mesmo tempo, a escola da reflexão e da imaginação”30. Por outras 
palavras, a acumulação de conhecimentos não é suficiente para o jurista que precisa 
de mais uma formação do seu pensamento do que memorizar regras efémeras e 
especializadas. No início da sua formação, como no topo da sua vida profissional, 
qualquer jurista tem a necessidade de conhecer e de implementar instrumentos, 
técnicas e modos de raciocínio. 
 
 Qualquer que seja a sua profissão ou actividade profissional, o jurista deverá 
ser capaz de resolver qualquer problema de Direito. Na verdade, não é suficiente 
repetir o que foi aprendido, mas o jurista deve estar apto a fazer pesquisas para 
conhecer todo o âmbito da questão a resolver, percebê-la, e apresentar uma solução 
convincente, o que implica uma fundamentação pertinente. Até, algumas vezes é 
relevante introduzir, elaborar e defender hipóteses que contradizem o direito vigente 
para demonstrar que outros caminhos são teoricamente possíveis e mais vantajosos 
ou úteis31. 
 
 O segundo objectivo tem directamente a ver com o lugar do jurista num 
Estado de Direito. Neste tipo de sociedade, o jurista não deve ser percebido como 
um travão mas, pelo contrário, como um ser favorecendo a acção e a inovação. Para 
atingir este objectivo, é preciso pôr em evidência o espírito, a coerência e a 
racionalidade do direito, estudando a sua lógica e a sua técnica. Essas aproximações 
contribuem todas em mesmo tempo, na melhoria as normas jurídicas existentes e no 
funcionamento das instituições, bem como, as relações jurídicas, que terão vocação 
a ser praticadas numa determinada ordem jurídica. 
 
 Finalmente, a ambição deste curso é de melhorar os resultados dos 
estudantes mudando a sua maneira de trabalhar. De qualquer forma, um processo 
de aprendizagem como este, apenas pode ser gradual. 
 
 
29 COHENDET M.A., Méthodes de travail. Droit Public, Ed. Montchrestien, E.J.A., 1994, p. 17 e 
seguintes. 
30 COHENDET M.A., op. cit., p. 17. 
31 Por exemplo, situação em que a decisão de uma jurisdição não parece responder, por vários 
motivos, à ideia que se pode esperar da Justiça. 
 12 
 Assim, a metodologia jurídica aparece ao mesmo tempo como uma disciplina 
transversal, porque tem uma vocação de intervir em qualquer ramo do direito, e 
permanente porque os juristas deverão utilizar as suas técnicas durante toda a sua 
vida profissional. 
 
8. O plano da obra 
 
 Apesar de ter demonstrado que a metodologia jurídica é uma necessidade 
para o jurista, pode-se observar que existem poucas obras específicas sobre a 
matéria. Além disso, a maior parte das Faculdades de Direito no mundo não 
organizam um ensino específico sobre a metodologia jurídica32. 
 
 Todavia, pode-se verificar um paradoxo: se o estudo da metodologia jurídica 
como um conjunto é pouco conhecido, o estudo parcelar ou sectorial desta disciplina 
científica é, pelo contrário, muito desenvolvido. Por outras palavras, capítulos da 
metodologia jurídica são objectos, individualmente, de estudos pormenorizados; por 
exemplo: a interpretação do Direito, os raciocínios jurídicos, a feitura de leis, o 
processo de decisão do juiz ou a linguística jurídica. 
 
 A questão que se coloca, portanto, é de saber como racionalmente apresentar 
aos estudantes em Direito esta disciplina. 
 
O pensamento de JEAN-LOUIS BERGEL sobre esta questão é extremamente 
“aberto”. Este autor convida cada investigador “a reflectir ele-próprio sobre a 
maneira de conceber e leccionar a metodologia jurídica”33. Esta reflexão pode 
parecer como bastante desorientadora, mas não é. Na verdade, numa disciplina 
científica caracterizada pelo estado embrionário da sua própria reflexão, impor de 
imediato orientações epistemológicas rígidos seria comprometer o seu próprio 
desenvolvimento. É claro que o caminho é inseguro por não existirem os grandes 
tratados ou dicionários técnicos que, de uma certa forma, tranquilizam o investigador 
em outras disciplinas científicas. 
 
Esta situação, original de uma disciplina nova, posiciona o investigador face a 
um desafio; é pois este desafio que será enfrentado neste curso. Até, esta 
abordagem não é inovadora, PAUL FEYERABEND ensina, desde os anos 70 que “A 
ciência é uma empresa essencialmente anárquica”34 e que “Um meio complexo 
contendo desenvolvimentos surpreendentes e imprevisíveis reclama procedimentos 
complexos, e desafia uma análise fundada sobre regras previamente estabelecidas, 
que não tomam em conta as condições históricas que sempre mudam”35. Assim, 
 
32 Vide, Cahiers de méthodologie juridique, 1990, n.º 5 – Regards sur la méthodologie juridique. 
33 Avant-propos, Cahiers de méthodologie juridique, 1990, n.º 5 – Regards sur la méthodologie 
juridique. 
34 FEYERABEND P., Contre la méthode. Esquisse d’une théorie anarchiste de la connaissance, Paris, 
Éd. du Seuil, 1979, p. 13. Como escreve o referido autor: “A minha tese é que o anarquismo contribui 
para o progresso, qualquer que seja o sentido que se lhe atribui“, op. cit., p. 25. 
35 FEYERABEND P., op. cit., p. 15. Alfred EINSTEIN utilizará os termos de “oportunista sem escrúpulo” 
(citado por PAUL FEYERABEND, op. cit., p. 15) para caracterizar esta maneira de ser do investigador. 
 13 
está-se apenas a operacionalizar no mundo da metodologia do Direito, os ensinos 
daqueles que experimentaram este processo no âmbito da teoria do conhecimento36. 
 
 A formação do pensamento do jurista necessita, em primeiro lugar, da 
aquisição do saber, do conhecimento jurídico, o que necessita de adquirir e 
conservar algumas operações técnico-materiais muito práticas para adquirir este 
conhecimento. O domínio dessas técnicas é extremamente formador, porque em 
mesmo tempo que se praticam essas técnicas, adquire-se comportamento e uma 
disciplina de trabalho que vão permanecer durante toda a vida do jurista (PARTE I - 
O SABER DO DIREITO). 
 
Em segundo lugar, pode-se partir da hipótese que qualquer sociedade 
humana implica uma organização, regras de conduta, mecanismos de produção de 
normas e de sanções. Assim, qualquer sistema jurídico deve enfrentar e responder 
às necessidades similares. Os modos de formação do direito e as técnicas de 
conciliação ou de sanção, por exemplo, podem para além da sua diversidade
37
, 
identificar-se muito facilmente. Existe, assim, uma certa constância e permanência 
dos métodos do direito, das noções fundamentais, dos instrumentos jurídicos e dos 
modos de raciocínio, para além da heterogeneidade aparente dos diversos 
ordenamentos jurídicos
38
. São esses traços comuns e fundamentais que serão o 
objecto dum tratamento específico através do estudo das regras que dominam os 
trâmites intelectuais dos juristas (PARTE II - O MÉTODO DO DIREITO). 
 
Finalmente,uma corrente de pensamento defende, com justa razão, que “a 
investigação jurídica será mais visível quando os juristas aceitarem de recorrer mais 
às ciências humanas e tomarem em conta as esperanças dos seus investigadores, e 
as vezes os seus métodos”39. Assim, o referido autor defende a abertura de um 
processo de exploração de outras ciências, permitindo inventariar os possíveis 
métodos susceptíveis de concorrer para a elaboração de uma metodologia jurídica. 
Neste sentido, as ciências sociais podem ser o objecto concreto desta metodologia 
exploratória (PARTE III – OS MÉTODOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADOS AO 
DIREITO). 
 
 
 
 
Bibliografia: 
 
36 Para ser mais completo, pode-se realçar que alguns juristas foram até buscar na arte 
cinematográfica alguns esquemas explicativos de fenómenos jurídicos. Vide, Luís filipe COLAÇO 
ANTUNES, "A reforma do contencioso administrativo. O Último Ano em Marienbad", em O Direito 
Administrativo e a sua Justiça no Início do Século XXI. Algumas Questões, Livraria Almedina – 
Coimbra, 2001, pp. 97-121. 
37 Sobre as especificidades dos principais « direitos », vide René DAVID, Os grandes Sistemas do 
Direito Contemporâneo, São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1988. 
38 BERGEL J.L., “Ébauche d’une definition de la méthodologie juridique“, op. cit., p. 707. 
39 ROULAND N., “Quelques réflexions sur la recherche en droit“, Sciences de l’homme et de la société, 
n.º 54 – maio 1999 -, p. 21; LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., Méthodologie de la recherche 
juridique, Université du Québec à Montréal, Département des sciences juridiques, 1997, p. 7. 
 14 
 
 
- ASSIER-ANDRIEU L., Le droit dans les sociétés humaines, Paris, Éd. Nathan, 1996. 
- ATIAS C., Épistémologie juridique, Paris, PUF, 1985. 
- BERGEL J.L., Méthodologie juridique, Ed. Presses Universitaires de France – 2001, pp. 17-43; 
- BERGEL J.L., “Ébauche d’une definition de la méthodologie juridique“, Cahiers de 
méthodologie juridique, 1990, n.º 5, pp. 707-719. 
- CARBONNIER J., Sociologie juridique, Paris, PUF, "Quadrige", 1994. 
- DESCARTES R., Discurso do Método, Lisboa Guimarães Editores, Lda, 1997. 
- FEYERABEND P., Contre la méthode. Esquisse d’une théorie anarchiste de la connaissance, 
Paris, Éd. du Seuil, 1979. 
- GALVÃO TELLES I., Introdução ao Estudo do Direito, Vol. II (10.ª ed. 2000), Coimbra Editora, 
n.º 225 . 
- LAPERRIÈRE R., "À la recherche de la science juridique", em Le droit dans tous ses états, (Ed. 
R.D. BUREAU e P. MACKAY), Montréal, Wilson e Lafleur, 1987, pp. 515-526. 
- “Méthodologie juridique“, in Dictionnaire encyclopédique de théorie et de sociologie du droit, 
p. 373. 
- MORIN E., La méthode, Tome 1. La nature de la Nature, Paris , Ed. du Seuil, 1977; 
- Regards sur la méthodologie juridique, Cahiers de méthodologie juridique, n.° 5, RRJ, 1990, 
4. 
- VIRALLY M., “Le phénomène juridique”, RDP 1966, pp. 5-64. 
 
 
 15 
PARTE I – O SABER DO DIREITO 
 
 
 O “Saber do Direito” apresenta-se sob várias formas; manifesta-se através de 
vários “saberes”40 que é preciso dominar para poder constituir um capital de 
conhecimentos e de técnicas que reunidas num conjunto homegéneo constituirão o 
“Saber do Direito”. 
 
 Quaisquer que sejam as suas tarefas, os juristas são sempre conduzidos a 
aplicar, alterar ou modificar o ordenamento jurídico existente. Os juristas devem 
conceber e conduzir a sua acção a partir do seu conhecimento do sistema jurídico. 
 
Assim, “A metodologia jurídica deve permitir-lhes determinar o melhor 
processo para mobilizar os seus conhecimentos, de outro modo, definir “um processo 
racional de exploração dos conhecimentos” jurídicos”41. 
 
Mas, esta operação requere a existência de um pressuposto fundamental sem 
o qual o referido processo intelectual não terá nenhum efeito. Esta operação prévia e 
necessária é a aquisição do SABER JURÍDICO (CAPÍTULO I). 
 
 A própria definição da metodologia jurídica implica, também, o estudo do 
SABER-FAZER dos juristas, isto é, os métodos, as técnicas e as habilidades que 
reflectem as diferentes facetas do trabalho do jurista na sua vida de 
prático/profissional ou de investigador: “a sua maneira de fazer” uma determinada 
operação ou um determinado acto (CAPÍTULO II). 
 
 Aprender o Direito é, também e ao mesmo tempo, adquirir uma ética. O 
jurista ocupa na sociedade um lugar particular devido em grande partes aos valores 
que ele reflecte (justiça, poder, etc…). Esta posição específica do jurista como 
SABER-SER na sociedade dos homens merecerá um estudo autonomizado 
(CAPÍTULO III). 
 
40 Como escreve LOUIS ASSIER-ANDRIEU: “Como teoria, como maneira de considerar as relações 
sociais, ele (o Direito) secreta quantidade de saberes apropriados”, Le droit dans les sociétés 
humaines, op. cit., p. 5. 
41 BERGEL J.L., “Ébauche d’une definition de la méthodologie juridique“, op. cit., p. 709. 
 16 
CAPÍTULO I – O SABER JURÍDICO 
 
 
 O “Saber jurídico“, isto é, o conjunto de conhecimentos jurídicos adquiridos 
por uma actividade intelectual, pode ser estudado sob várias perspectivas. 
 
Em primeiro lugar, pode-se interrogar sobre os modos de aquisição do saber 
jurídico (SECÇÃO 1); em segundo lugar, pode-se, também, questionar a gestão e o 
desenvolvimento deste saber (SECÇÃO 2). 
 
Além disso, a aquisição do saber jurídico é grandemente facilitado por uma 
organização do trabalho pessoal racional e eficaz (SECÇÃO 3). 
 
 
SECÇÃO 1. A AQUISIÇÃO DO SABER JURÍDICO 
 
 A aquisição de conhecimentos jurídicos (§2) não significa o afastamento dos 
conhecimentos gerais, pelo contrário, o jurista, que tem vocação a actuar 
directamente nas relações sociais, deve possuir um bom conhecimento da sociedade 
onde ele vai actuar e desenvolver a sua actividade professional (§1). 
 
§1. A aquisição dos conhecimentos gerais 
 
 A necessidade de ter uma cultura geral, isto é, a soma dos conhecimentos 
adquiridos por um indivíduo através da aprendizagem, da experiência e da prática, é 
quase indispensável pelo jurista. O jurista é, ou deve ser, um indivíduo curioso por 
natureza. Com efeito, como um prático das relações sociais poderia afastar-se do 
conhecimento ou da ecologia dessas relações? 
 
 Com efeito, o Direito é uma realidade social42. Ele é uma componente das 
actividades humanas eminamente marcada pela cultura e pelas formas de 
organização de cada sociedade. De uma certa forma, o Direito é o reflexo de uma 
sociedade e, em mesmo tempo, “o projecto de agir sobre esta, um dado básico da 
composição social e um meio de canalizar o desenrolamento das relações entre os 
indivíduos e os grupos”43. Isto significa que o jurista deve adquirir uma sólida cultura 
geral. 
 
 Nesta perspectiva, várias actividades podem ser indicadas como a leitura, o 
cinéma, a participação às palestras, exposições de arte ou outras, a televisão, etc... 
Deste modo, o jurista participa às actividades da “Cidade” como qualquer ser 
sociável curioso. Mas isto constitui, também, o reflexo das escolhas intelectuais que 
o indivíduo deseja previlegiar na sua vida. 
 
 
42 ASSIER-ANDRIEU L., Le droit dans les sociétés humaines, op.cit., p. 5. 
43 ASSIER-ANDRIEU L., Ibidem 
 17 
Mas, dentro da cultura geral existe um bloco de conhecimentos, que sem 
constituir um saber estritamente jurídico pode constituir um conjunto de informações 
extremamente importantes pelo jurista que necessitará de um tratamento específico. 
 
São, por exemplo, as informações divulgadas pelos órgãos de comunicação 
social relacionadas com o direito. Vários jornais ou semanários económicos da praça 
veiculam muitas informações vulgarizadas sobre o direito ou situações ligadas ao 
direito (por exemplo em matéria de uso eaproveitamento de terras ou de projectos 
de reforma legal em curso no País). O jurista deve estar atento a essas informações, 
sobretudo quando ligadas ao seu domínio de actividade profissional44. Pelo menos 
esta actividade permite, de um certo modo, “viver” o funcionamento das instituições 
e as figuras e mescanismos jurídicos que foram apresentados durante as aulas. 
Desta maneira, as matérias estudadas tornar-se-ão mais concretas e menos 
abstractas. 
 
§2. A aquisição do saber jurídico stricto sensu 
 
 A aquisição do saber propriamente jurídico implica de se interrogar sobre as 
fontes do conhecimento jurídico (A), sobre os espaços onde se pode adquirir esses 
conhecimentos (B) e sobre o seu conteúdo (C). 
 
 A. As fontes do conhecimento jurídico 
 
Sem pretender ser–se exaustivo, apresentar-se-ão as principais fontes do 
conhecimento jurídico: os livros (a), as revistas (b) as coletâneas (c) e o Boletim da 
República (d). 
 
a) Os livros 
 
 Os livros constituem uma das fontes do saber jurídico mais antigas. 
Actualmente, podem ter uma apresentação clássica em papel ou informática, o que 
permite para as obras volumosas ou demasiadas técnicas um manuseamento 
facilitado. 
 
 Dentro dos livros, encontramos os códigos (1), os manuais (2), as 
monografias (3), os dicionários jurídicos (4) e as enciclopédias (5) que se destacam 
pelas especificidades do seu conteúdo. 
 
 1. Os códigos 
 
 Nos códigos estão reunidos os diplomas legais que regulam uma matéria. Por 
outras palavras, encontra-se a “Lei”, no sentido lato da palavra. 
 
Vários códigos estão em vigor em Moçambique. Os principais são: Código 
Civil, Código Penal, Código Comercial, Código de Processo Civil e Código de Processo 
 
44 São nessas situações que o jurista deve preparar e elaborar fichas e dossiers. 
 18 
Penal45. Editores privados ou públicos tomaram a iniciativa de publicar o conteúdo 
desses códigos46 ou reunir nos códigos um conjunto de leis regulando uma mesma 
matéria47. 
 
 É claro que o conteúdo dos códigos é susceptível de mudanças e como não há 
edições sistemáticas e regulares destes no país, pode ser difícil de ter a certeza sobre 
o direito efectivamente vigente e, pois, recomendado aos utentes dos códigos para 
completar a consulta dos códigos pela consulta regular do Boletim da República Série 
I para identificar os diplomas que alteraram o conteúdo do código consultado. 
 
 Recomenda-se, pelo menos, possuir um Código Civil, desde o início dos 
estudos em Direito. Nas matérias onde existem códigos seria, também, útil ter o 
respectivo código. De qualquer modo, é preciso tomar o custume de manusear os 
códigos para conhecer melhor a sua estrutura, as suas subdivisões e o seu plano 
organizacional. 
 
Regra geral, é preciso habituar-se a referenciar sempre o texto original da Lei. 
Não se pode apreciar o conteúdo de uma disposição legal através do que é exposto 
oralmente por uns ou por outros. É necessário ter um conhecimento de “primeira 
mão” do conteúdo do diploma legal em causa. É a aplicação do primeiro princípio do 
método cartesioano: "O primeiro consiste em não tomar nenhuma coisa por 
verdadeira sem que a conheça evidentemente como tal, quer dizer: em evitar 
cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e não integrar nada mais nos meus 
juízos do que aquilo que se apresenta nítida e distintamente ao meu espírito, que 
não tenha ensejo de duvidar dele"48. 
 
2. Os manuais 
 
 Regra geral, cada displina jurídica tem os seus manuais. Para se convencer 
desta banalidade é suficiente tornar-se utente de uma biblioteca de uma faculdade 
de Direito. Os manuais são obras cujos autores apresentam as diversas matérias do 
Direito de forma sistemática e didáctica, isto é, com o objectivo de instruir o leitor. 
 
O ideal seria, pelo estudante em Direito, adquirir o manual que corresponde 
ao seu programa. Todavia, Moçambique tem uma situação bastante específica, 
porque até hoje existem poucos manuais de direito moçambicano em circulação na 
praça49. Este balanço faz com que a informação veículada nos manuais à venda ao 
público reflete uma imagem de sistemas jurídicos estrangeiros, que podem ser útil 
porque muitas vezes de comuna raíz ou numa perspectiva comparatista mas que não 
 
45 Outros como o Código Tributário Autárquico ou o Código do Notariado são já diplomas mais 
especializados. 
46 Vide, por exemplo, a iniciativa do Ministério da Justiça de reeditar o Código Civil com o patrocínio 
do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD) em 2004. 
47 Vide, por exemplo, Código Civil e Legislação Complementar (BACELAR GOUVEIA J., BRASIL DE 
BRITO S. e FEIJÃO MASSANGAI A.), Maputo, 2000. 
48 Discurso do Método, op. cit., p.25. 
49 Vide, por exemplo, CISTAC G. Manual de Direito das Autarquias Locais, Imprensa Universitária, 
2001 - 730 páginas. 
 19 
satisfaz plenamente o jurista porque não reflete a ordem jurídica vigente. É preciso 
sempre exercer um “controlo” entre a doutrina assim divulgada e o direito vigente, 
para se evitar contradições ou mal entendidos. 
 
3. As monografias 
 
 Uma monografia é um estudo de um tema particular do Direito; por exemplo, 
“O Tribunal Administratif de Moçambique”50. Essas obras são extremamente úteis por 
várias razões. 
 
Em primeiro lugar, do ponto de vista do saber jurídico esses estudos fazem o 
ponto, de uma forma exaustiva, sobre uma questão ou um tema de direito em 
particular e permitem conhecer com pormenores as investigações realizadas pelo 
autor e as suas conclusões sobre o referido tema, e assim elas participam no 
aprofundamento do conhecimento da realidade jurídica de um determinado sistema 
jurídico. 
 
Em segundo lugar, são os aspectos metodológicos que podem ser útil de 
consultar: Como o autor definiu o tema a tratar? Como ele tratou do tema? Quais 
são as fontes que ele utilizou? Quais são as opções que forma consagradas? Mas o 
balanço desta fonte de saber é comparável à aquela das monografias: existem 
poucas monografias jurídicas no mercado mozambicano. 
 
4. Os dicionários jurídicos 
 
 Os dicionários jurídicos são destinados a dar a definição dos termos ou 
expressões da linguagem jurídica. Regra geral, as palavras são classificadas por 
ordem alfabética. O lugar que ocupa a terminologia jurídica na metodologia jurídica 
necessita de uma consulta regular de dicionários jurídicos. É mesmo desejável que os 
estudantes em direito possuem, a título pessoal, um dicionário jurídico que será útil 
para todas as disciplinas jurídicas. 
 
 Dentro dos dicionários jurídicos disponíveis no mercado, pode-se aconselhar: 
 
- Ana PRATA, Dicionário Jurídico, Livraria Almedina Coimbra; 
- João MELO FRANCO, Dicionário de Conceitos e Princípios Jurídicos, Almedina 
Coimbra; 
- Raymond GUILLIEN e Gabriel MONTAGNIER, Lexique de termes juridiques, 
Paris, Dalloz; 
- CAPITANT (Association Henri), Vocabulaire juridique, 7.ª. ed., Paris, PUF, 
2005; 
- Henry CAMBELL, BLACK, M.A., Law Dictionary, West Publishing co.; 
- Maria PAULa GOUVEIA ANDRADE, Dicionário Jurídico Inglês-Português; 
 
5. As enciclopédias 
 
50 CISTAC G., O Tribunal Administrativo de Moçambique, Maputo, Ed. Faculdade de Direito da 
Universidade Eduardo Mondlane, 1997 – 260 páginas. 
 20 
 
As enciclopédias designam, geralmente, volumosas obras colectivas que 
abrangem o essencial do Direito Positivo. Regra geral, as rúbricas, escritas por 
diferentes autores, estão classificadas por ordem alfabética. 
 
Moçambique não tem ainda uma enciclopédia que corresponda às 
características acima referidas no âmbito do Direito. A alternativa é utilisar 
enciclopédias estrangeiras. Nesta perspectiva, a “POLIS” – Enciclopédia VERBO daSociedade e do Estado contem várias contribuições relacinadas ao Direito (por 
exemplo: “Assento”, “Cheque”, “Código de processo Penal” ou “Contrato de 
Trabalho”). O seu uso é particularmente recomendado aos estudantes, porque a 
informação encontrada é clara, completa e de fácil acesso. 
 
b) As revistas 
 
 As revistas jurídicas constituem fontes privilegiadas dos conhecimentos 
jurídicos. É nas revistas jurídicas que a doutrina apresenta os desenvolvimentos mais 
recentes da investigação científica sobre um tema de direito em particular, e 
contribuem assim ao seu próprio crescimento e fortalecimento. A sua importância é 
considerável porque as revistas jurídicas participam a propria reputação de uma 
escola de direito e constitui um meio privilegiado de troca de ideiais entre centros de 
investigação científica. 
 
 Até hoje, existe apenas uma revista jurídica moçambicana: a “Revista Jurídica” 
editada pela Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane. 
 
Esta revista é de extrema importância, porque é o único instrumento que 
permite veicular o pensamento jurídico dos juristas/investigadores nacionais. Cada 
número contem vários trabalhos da doutrina nacional ou estrangeira sobre temas ou 
questões de actualidade. 
 
Além disso, a “Revista Jurídica” contém uma “Notícias Bibliográficas da 
Biblioteca da Faculdade de Direito” que informa aos leitores da revista sobre todas as 
obras que foram registadas no ano em curso na Biblioteca da Faculdade de Direito e 
a publicação da rúbrica “Documentos” integra a publicação de textos relevantes para 
o estudo do Direito positivo vigente no País. A última rúbrica da revista está 
consagrada à “Vida da Faculdade de Direito” onde a Direcção da Faculdade de 
Direito apresenta o balanço académico do ano findo na Faculdade. 
 
c) As coletâneas 
 
 As coletâneas constituem instrumentos práticos úteis. Elas apresentam-se na 
forma de um agrupamento sistematizado de informações jurídicas que têm por 
objectivo facilitar o acesso à mesma. Em direito existe, principalmente dois tipos de 
coletâneas. 
 
 As coletâneas de legislação que integram um conjunto de diplomas legais 
relacionados com uma matéria; por exemplo, um coletânea de legislação relacionada 
 21 
às autarquias locais ou ao meio ambiente51 e as coletâneas de jurisprudência que 
têm por finalidade sistematizar as decisões das jurisdições para dar a conhecer o seu 
conteúdo. Geralmente, essas coletâneas têm vários índices para facilitar a pesquisa. 
Se existe algumas coletâneas de legislação no mercado moçambicano52, existe 
apenas uma coletânea de jurisprudência em Moçambique53. 
 
 d) O Boletim da República 
 
 O estudante em direito deve se familiarizar desde o primeiro ano com o 
Boletim da República. É uma publicação que traz uma informação oficial ao público 
sobre a quase-totalidade da legislação moçambicana e assegura a publicidade de 
vários tipos de informações. Além do aspecto meramente informativo, a Constituição 
da República impõe a publicação de alguns actos ou decisões praticados por alguns 
órgãos do Estado sob pena de ineficácia jurídica (Artigo 144 da Constituição da 
República). 
 
 O Boletim da República está dividido em 3 Série. 
 
Na Primeira Série são publicados os actos normativos e individuais aprovados 
pelos “órgãos centrais” do Estado (Leis, Decretos-Leis, Decretos, Diploma Ministerial, 
Despachos, Comunicados). 
 
Na Segunda Série são publicados vários actos aprovados por órgãos das 
administrações do Estado ou com personalidade jurídica distinta (despachos, actos 
aprovados pelo Conselho Universitário da Universidade Eduardo Mondlane, 
deliberações da Ordem dos Advogados de Moçambique, etc.). 
 
Na Terceira Série são publicados os anúncios judiciais e outros (pacto social 
de sociedades comerciais, estatutos de associações). 
 
B. Os espaços do conhecimento jurídico 
 
 Alguns espaços do conhecimento jurídico são comums a todos os juristas (a) 
outros são mais personalizados (b). 
 
 a) Os espaços comums 
 
 Existe um conjunto de espaços que constituem lugares onde os juristas, 
qualquer que seja a sua actividade profissional ou investigativa, podem ter acesso. 
Trata-se mais particularmente das bibliotecas (1), dos centros de informação jurídica 
(2), dos arquivos (3) e dos sítios internet (4). 
 
51 Vide, por exemplo, WATY T.A., Autarquias locais : legislação fundamental, Maputo, W & Q editora, 
1999; SERRA C., Colectânea de Legislação do Ambiente, Centro de Formação Jurídica e Judiciária, 
Dezembro de 2003; Legislação de Terras, Editor, MozLegal Lda, 2004. 
52 Vide, por exemplo, WATY T.A., Código do Imposto sobre o rendimento e legislação complementar, 
Maputo, W & W editora, 2001 ; VASQUEZ S., Legislação Económica de Moçambique, Lisboa, 1996. 
53 Vide, CISTAC G., Jurisprudência Administrativa de Moçambique, Volume I (1994-1999), Maputo, Ed. 
Tribunal Administrativo – 2003 - 900 páginas. 
 22 
 
 1. As bibliotecas 
 
 Regra geral, as bibiotecas são edifícios onde estão classicados livros para 
consulta54. As bibliotecas jurídicas constituem, pela maior parte dos juristas, 
instrumentos indispensáveis da acquisição do saber jurídico. As bibliotecas devem 
tornar-se um lugar usual e habitual dos juristas. É de realçar a classificação 
sistemática realizada pelo Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa dos arquivos, 
bibliotecas e centros de documentação e informação existentes em Moçambique55. 
 
 Quais são as principais bibliotecas jurídicas da praça (1.1); como utilizá-las 
(1.2). 
 
 1.1. As principais bibliotecas jurídicas 
 
 Existe duas categorias de bibliotecas jurídicas. As primeiras são espaços 
exclusivamente dedicados ao saber e a pesquisa jurídicos como, por exemplo, as 
bibliotecas das Faculdades de Direito pública ou privadas (exemplo: Biblioteca do 
Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane56, Instituto Superior de 
Relações Internacionais (ISRI)57); outras são bibliotecas "generalistas" que fornecem 
um acesso ao saber geral mas que tem fundos dedicados ao Direito como, por 
exemplo a Biblioteca Nacional de Moçambique58 ou Biblioteca da Assembleia da 
República59. 
 
 1.2. Como utilizar as bibliotecas 
 
 É desejável conhecer o funcionamento das bibliotecas antes de iniciar 
qualquer pesquisa. É preciso conhecer os modos de classificação das obras, das 
revistas, dos códigos, das enciclopédias, etc... É necessário dominar os modos de 
organização dos ficheiros que permitem procurar as obras registadas. Muitas das 
vezes, existe duas classificações: uma por apelidos dos autores e outra por matéria. 
 
2. Os centros de informação jurídica 
 
54 A "biblioteca" é o "organismo ou parte de um organismo cujo objectivo principal é de criar 
colecções organizadas de livros e de publicações seriadas ou quaisquer outros documentos 
audiovisuais ou gráficos, mantê-los e facilitar, graças à existência de pessoal especializado, a 
utilização de documentos que respondem às necessidades de informação, investigação, de educação 
ou recreativas dos utilizadores", Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, Directório dos arquivos, 
bibliotecas e centros de documentação e informação existentes em Moçambique, Maputo, 2003, p. 
12. 
55 Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, Directório dos arquivos, bibliotecas e centros de 
documentação e informação existentes em Moçambique, Maputo, 2003. 
56 Endereço: Avenida Kenneth Kaunda, n.° 960 - Caixa Postal 257 Tel.: 21 488883 ext: 203 Fax: 21 
494630 lrbenzane@yahoo.com.br 
57 Endereço: Avenida Ahmed Sékou Touté, n.° 21, 3° andar, flat 35 – Maputo Tel.: 21 494494 Fax: 21 
491506 
58 Endereço: Avenida 25 de Setembro, n.° 1348 – Caixa Postal 141 – Maputo. Tel.: 21 311905/6 Fax: 
21 304040 E-mail: biblina@teledata.mz 
59Endereço: Avenida 24 de Julho, n.° 3773, r/c – Caixa Postal 1516 – Maputo Tel.: 21 400835; 
400833 E-mail: armoz@sortmoz.com 
 23 
 
 As bibliotecas pressupõem um acesso público dos utentes o que constitui a 
sua razão de ser: trazer o conhecimento e a informação para todos. Além desses 
espaços de conhecimento jurídico universal e público existe outros espaços de 
conhecimentos jurídicos mais restrito. Servem fundamentalmente e principalmente 
como fonte de informação para uma instituição em particular (tribunais, ministérios, 
bancos, etc...). Assim, a informação jurídica acumulada nesses organismos é 
especializada e tem uma finalidade utilitária: constituir meio de informação à 
disposição dos serviços da instituição onde estão localizados60. Todavia, pessoas que 
não pertencem à instituição (por exemplos: estudantes ou docentes universitários) 
podem ter acesso aos recursos informativos desses organismos com a autorização 
expressa dos órgãos competentes da instituição. 
 
 Os principais centro de recursos informativos em matéria jurídica são os 
seguintes: 
 
 - Centro de documentação do Tribunal Supremo61; 
 
 - Centro de documentação do Tribunal Administrativo62; 
 
 - Centro de Documentação da Procuradoria Geral da República63; 
 
 - Centro de Documentação do Ministério da Administração Estatal64; 
 
 - Centro de Documentação do Banco de Moçambique65. 
 
3. Os arquivos 
 
 Tecnicamente, os arquivos não se distanciam muito das bibliotecas. Assim, o 
arquivo como a biblioteca é "o conjunto documental dispondo de uma sala própria e 
de uma trabalhador com a responsabilidade de zelar por esse fundo"66. 
 
 
60 Como estabelece o Directório dos arquivos, bibliotecas e centros de documentação e informação 
existentes em Moçambique, o Centro de Documentação é um "organismo que assume as funções de 
reunião de um conjunto de documentos para fins específicos e de tratar e difundir a informação neles 
contida, a diversos níveis", op. cit., p. 12. 
61 Endereço: Avenida Vladimir Lenine n.° 103 – Caixa Postal: 278 – Maputo. Tel.: 21 321037 – ext: 
235. 
62 Endereço: Avenida Mateus Sanssão Muthemba, n.° 65 - Caixa Postal 254 – Maputo. Tel: 21 
490170/1 – ext: 314 E-mail: sousa_massingue@yahoo.com.br 
63 Endereço: Avenida Julius Nyerere, n.° 15 – Caixa Postal 282 – Maputo Tel.: 21 491011 E-mail: 
avantina@pgrmoz.com 
64 Centro de Estudos de Documentação e Formação de Moçambique (CEDIMO). Endereço: Rua da 
Rádio Moçambique, n.° 112 – Caixo Postal – 4116 – Maputo. Tel.: 21 325982 Fax: 21 427574. E-mail: 
Lourenço.chipenende@mae.gov.mz 
65 Endereço: Avenida 25 de Setembro, n.° 1695, 1° andar – Caixo Postal 423 – Maputo. Tel.: 21 
422014 Fax: 21 426704 E-mail: pam@bancomoc.mz Página Internet: http://www.bancomoc.mz 
66 Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, Directório dos arquivos, bibliotecas e centros de 
documentação e informação existentes em Moçambique, op. cit., p. 12. 
 24 
 Existe vários tipos de "arquivos": privado, público, técnico67 ou geral. No que 
concerne a realização de investigação no âmbito do Direito aconselha-se, como 
ponto de partida, a consulta do Arquivo Histórico de Moçambique (AHM)68 que 
integra uma biblioteca multisectorial. Este arquivo serve, ao mesmo tempo à 
comunidade e aos investigadores e historiadores oriundos de vários campos 
científicos. 
 
4. Novas tecnologias e Sítios Internet 
 
 O desenvolvimento da tecnologia informática atingiu o Direito e permite o 
acesso à uma informação jurídica considerável bem como a realização de pesquisas 
com uma excepcional rapidez69. De facto, o tratamento da informação através de 
meios informáticos tornou-se uma verdadeira necessidade. Com efeito, a 
documentação jurídica conhece um desenvolvimento intenso e o jurista deve 
enfrentar os problemas inerentes a este crescimento que não parece ter encontrado 
um limite. 
 
 Nessas condições, os meios informáticos tornam-se uma necessidade porque 
um jurista não pode humanamente acompanhar toda produção jurídica. Além disso, 
a técnica informatica permite a armazenagem de milhares de documentos num 
espaço muito reduzido o que tem consequências positivas em termo de tempo e de 
transporte da informação. 
 
 Um dos meios informáticos existente no mercado que constitui um 
instrumento extremamente útil para o jurista é o banco de dados jurídico. O Banco 
de dados jurídicos "é um banco no qual são reagrupados textos, segundo diferentes 
métodos, de jurisprudência, de doutrina, de leis e regulamentos ... e ofrecidos ao 
práticos ou ao estudante que procura, por diversos meios, o que deseja consultar, 
podendo mesmo imprimi-ló para conservar um exemplar sobre papel"70. 
 
 Regra geral, existe no mundo vários produtos em termos de bancos de 
dados71. Todavia, no caso de Moçambique, são principalmente os CD-ROM jurídicos 
que constituem os bancos de dados mais utilizados. PANDORA 
 
 Internet72 deveria mudar profundamente os métodos do ensino do Direito; 
como refere um autor: "This is likely to provide the backbone of delivery of legal 
information in the future and, in so doing, will break the connection between the 
physical locale and the virtual presence of any law school. Teaching in law in the 
future must assume a distributed network, will be Web-based to a significant degree, 
 
67 Vide, por exemplo, arquivo técnico de Águas de Moçambique ou arquivo técnico as Alfândegas de 
Maputo. 
68 Endereço: Avenida Filipe Samuel Magaia, n.° 715, r/c – Caixa Postal 2033 – Maputo. Tel.: 21 
421177/8 Fax: 21 423428 E-mail: jneves@zebra.uem.mz 
69 Vide, sobre a informática jurídica, PANSIER F.J., Méthodologie du droit, Paris, Ed. Litec, 2002, n.° 
267 e seguintes. 
70 PANSIER F.J., op. cit., n.° 316. 
71 Vide, por exemplo en França, JURIS-DATA e LEXIS. 
72 PANSIER F.J., op. cit., n.° 357 e seguintes. 
 25 
and will inevitably involve some diminution of physical presence of students. Hence, 
students will not be required to be physically present at the law school for the 
extendend periods which we currently expect. Though it is likely that some 
attendance will always be desirable the amount will always be desirable, the amount 
will surely fall"73. Esta situação é já uma realidade em Australia e na Europa74. 
 
 Existe uma multidão de sítios Internet consagrados à matéria do Direito. Na 
realidade, a maior parte dos países do mundo propõe sítios jurídicos sobre Internet o 
que demonstra o interesse crescente dos Estados para esta nova tecnologia. 
 
 Além dos sítes gerais ou globais como www.google.com, www.yahoo.com ou 
www.altavista.com existe vários sítes especializados na pesquisa jurídica. 
 
 Língua portuguesa 
 
http://www.govmoz.gov.mz/index.htm 
 
 http://www.verbojuridico.net 
 
 http://www.dji.com.br 
 
 http://www.unimep.br/fd/ppgd/cadernosdedireitov11/00_Capa4.html 
 
 http://www.ambito-juridico.com.br 
 
 http://www.jus.com.br/doutrina/ 
 
 http://conjur.uol.com.br 
 
 Língua francesa 
 
 http://www.precisement.org/internet_jur/droit_fr_revues.htm 
 
 http://www.laportedudroit.com 
 
 http://www.justiceintheworld.org 
 
 http://www.droit.umontreal.ca 
 
 Língua inglesa 
 
 http://www.journal.law.mcgill.ca 
 
 http://www1.umn.edu/twincities/index.php 
 
73 HUNTER D., "Legal Teaching And Learning Over The Web", University of Technology, Sidney – Law 
Review, em http://www.austlii.edu.au/au/journals/UTSLR/2000/8.html 
74 HUNTER D., op. cit. 
 26 
 
 http://www.hg.org/index.html 
 
 http://www.loc.gov/law/public/law.html 
 
 http://www.loc.gov/law/guide/mozambique.html 
 
 http://jurist.law.pitt.edu/world/mozambique.htm 
 
http://www.law.du.edu/naturalresources/Individual%20Countries/Mozambique.htm 
 
 http://www.austlii.edu.au/ 
 
 http://www.stanford.eu 
 
b) Os espaços específicos: aulas e trabalhos práticos 
 
 Dois espaços em particular permitem adquirir um conhecimento direccionado 
e específico: as aulas (1) e os trabalhos práticos (2). 
 
1. As aulas 
 
 O estudante deve adoptar um comportamento proveitoso das aulas (1.1) o 
que deveria facilitar o entendimento do seu conteúdo (1.2). 
 
1.1. Nas aulas 
 
 A assistência às aulas é necessária (1.1.1). A aquisição de técnicas específicas 
permite rentabilizar a assistência às aulas (1.1.2). 
 
1.1.1. A assistência às aulas 
 
 A aquisição dos conhecimentos básicos faz-se fundamentalmente nas aulas 
mesmo se o estudante tem um manual que incida sobre a disciplinada jurídica 
ministrada, o rendimento, em termos de aquisição de conhecimentos é mais elevado 
nas aulas, do que aprender exclusivamente a matéria com a ajuda de um manual. 
 
A aula não deve ser percebida como simples horas destinadas a copiar 
mecanicamente a informação transmitida pelo docente, pelo contrário, a aula é um 
espaço dinámico de trocas de informação. Existe uma relação circular entre o 
docente e a turma. A turma contribui na realização de uma boa aula. Em particular o 
docente é atento às suas reacções e deve sempre verificar que existe uma certa 
“densidade” entre ele e a turma capaz de favorecer o circuito da informação. 
 
Uma aula não tem a mesma tensão positiva em termos de transmissão da 
informação do princípio até o fim. Existem momentos de cansaço e de lassidão e é 
tudo uma arte do docente para sempre manter uma certa capacidade de transmissão 
 27 
da informação organizando momento de repouso no caso em que a turma manifesta 
momentos de cansaço (por exemplo: dar um exemplo ou relatar uma experiência 
prática em relação com o tema desenvolvido) e aproveitando a boa disposição da 
turma para desenvolver a parte mais técnica ou mais complexa da sua aula. 
 
A assistência nas aulas é obrigatória por várias razões. 
 
 Em primeiro lugar, a assistência é obrigatória, mesmo pelos repetentes, 
porque a assistência nas aulas permite conhecer as actualizações da disciplina ou as 
modificações da estrutura do curso. O curso é vivo e integra todas as alterações do 
Direito Positivo que o docente considera relevante no que diz respeito a sua 
disciplina. Como conhecer esses dados se o estudante não participa às aulas? 
 
A assistência nas aulas é também obrigatória no que concerne a própria 
exposição do Direito positivo moçambicano. Como vou conhecer o direito existente 
em Moçambique se não vou às aulas? Assim, neste caso pode-se verificar a 
imperfeição da opção, pela exclusividade em estudar com a ajuda de um manual 
estrangeiro. 
 
 Em segundo lugar, a forma da exposição oral, que é o própria da docência, 
facilita a compreensão da matéria e por conseguinte contribui a sua assimilação. 
Com efeito, a exposição oral como discurso irrigado de exemplos torna-se a matéria 
mais compreensível do que um manual ou do conjunto das fotocópias do seu colega 
da turma. 
 
 Em terceiro lugar, a assistência é recomendada porque a assistência nas aulas 
permite ao estudante fazer perguntas sobre as dúvidas que ele tem em relação com 
alguns conceitos, definições ou demonstrações apresentadas e desenvolvidas na 
aula. Assim, pode-se organizar uma relação interactiva parcelar no quadro da aula 
que permitirá não só ao estudante autor da pergunta de ter imediatamente a 
resposta a sua dúvida mas támbem beneficiará aos outros estudantes quer, 
esclarecendo dúvidas, quer suscitando dúvidas! 
 
 Finalmente, a assistência nas aulas permite utilizar o conjunto dos seus meios 
de memorização. 
 
Com efeito, existem principalmente três meios de memorização: visual, 
auditivo e a própria tomada de notas. Na aula o estudante pode ver o docente, o 
quadro no qual ele pode escrever ou desenhar alguns gráficos e assim memorizar 
visualmente algumas sequências da aula como a assistência a um filme no cinema; 
na aula o estudante pode ouvir o docente e memorizar auditivamente algumas 
sequências da sua exposição e finalmente, na aula o estudante vai escrever e, 
escrevendo, o estudante vai pelo menos memorizar uma parte daquilo que 
transcrever75. Escolher não assistir às aulas é perder um meio de memorização útil e 
proveitoso. Assistir às aulas é uma ocasião de participar num ambiente específico 
susceptível de contribuir na aprendizagem da matéria e na constituição das relações 
 
75 MAZEAUD H. e MAZEAUD D., Méthodes de travail, Ed., Montchrestien, EJA, 1996, p. 35. 
 28 
de trabalho com outros estudantes que serão muito úteis durante a fase de 
assimilação da matéria76. 
 
1.1.2. A tomada de notas 
 
 A tomada de notas não é um exercício que deve ser negligenciado. A natureza 
do suporte e da sua arrumação vão facilitar o acesso à informação (1.1.2.1.). A 
selecção da informação a notar é um imperativo (1.1.2.2.). 
 
1.1.2.1. O suporte 
 
 O que é que vou utilizar para escrever? Um caderno ou folhas? O estudante é 
livre de escolher o seu suporte. Ambos têm vantagens e inconvenientes. Pode-se 
perder folhas mas o uso das folhas permite mais flexibilidade. O caderno é mais 
seguro mas dificilmente permite intercalar documentos ou acréscimos. Em todos os 
casos, o estudante deve fazer o esforço de escrever legivelmente e de forma limpa. 
É importante deixar uma margem do lado esquerdo da folha que terá várias funções 
nomeadamente, redigir um resumo da aula, a notar investigações de origem pessoal, 
a notar questões a colocar ao docente, outras definições oriundas de manuais, etc... 
Durante a fase da assimilação da matéria e a sua revisão durante os testes e 
examens, o conteúdo das informações assim mencionadas serão extremamente úteis 
para facilitar a assimilação da matéria. 
 
 Em cada matéria tudo deve ser cuidadosamente arrumado e classificado; é 
esta classificação que vai permitir a materialização do plano da disciplina jurídica. 
Regra geral, é melhor autonomisar cada subdivisão. Por exemplo, cada uma das 
PRINCIPAIS PARTES do Curso será arrumada numa pasta. Dentro desta pasta, cada 
CAPÍTULO será arrumado numa outra pasta. É importante identificar cada pasta com 
o seu título e o seu posicionamento em relação à parte principal. Este modo de 
sistematização permite aprender o plano sem grande esforço. 
 
1.1.2.2. O que anotar? 
 
 Querer anotar tudo prejudica muitas vezes a compreensão do fundo da 
matéria77. É preciso partir de um princípio simples: tomando em conta, o facto de 
que será impossível fisicamente anotar tudo o que foi ministrado na aula, é preciso 
fazer escolhas pertinentes da matéria que será anotada. A dificuldade é que ao 
mesmo tempo que o estudante ouve e escreve, ele deve selecionar a matéria que 
será anotada, isto é, medir no discurso do docente o que é essencial. Isto pode 
parecer difícil no início da aprendizagem do Direito, mas rapidamente o estudante vai 
adquirir um saber fazer nesta matéria e a selecção da matéria será realizada com 
uma certa automaticidade. Nesta operação, o dodente tem, um papel importante 
para guiar o estudante. O estudante deverá estar atento ao ritmo do dircurso do 
docente. Regra geral, quando o docente quer inistir sobre uma definição ou un 
raciocínio ou uma demonstração, a velocidade do seu decurso será reduzida e o seu 
 
76 Vide infra 1.2. 
77 DEFRÉNOIS-SOULEAU I., Je veux réussir mon droit, op. cit., p. 23. 
 29 
estílo será profundamente articulado para fazer perceber ao estudante que esta 
parte do discurso é importante e, de facto, permitir ao estudante anotar a 
integralidade do raciocínio. Caso o decurso for veloze, por exemplo, na exposição de 
vários exemplos relacionados com o mesmotema, o estudante deverá apenas anotar 
um exemplo que ilustra, melhor a figura jurídica tratada na aula. 
 
 Os apontamentos devem formar um tudo coerente78. Todas as ideias 
essenciais devem ser anotadas bem como todas as fases de um raciocínio importante 
pela demonstração. 
 
 Quando o docente, na sequência da sua demonstração, cita algumas 
referências bibliográficas (manuais, artigos de doutrina, acórdãos, etc...) é 
importante de anotar escrupulosamente essas referências. Essas referências 
permitirão enriquecer o conjunto dos seus apontamentos e permitirão, também, 
entender melhor o raciocínio do docente bem como a sua fundamentação. 
 
 Regra geral, o estudante não deve tentar transcrever o conteúdo dos artigos 
dos códigos que serão citados. O essencial é anotar a referência completa do artigo, 
ele encontrará o texto da referência no respectivo código. 
 
 Nesta fase da tomada de notas, o estudante pode utilizar abreviaturas; 
técnicas muito utilizadas pelos juristas. 
 
 
78 MAZEAUD H. e MAZEAUD D., Méthodes de travail, op. cit., p. 24 e seguintes. 
 30 
 
EXEMPLOS DE ABREVIATURAS 
 
Código 
Civil..........................................................................................................C.civ. 
Código comercial .............................................................................................C. 
com. 
Código Penal .....................................................................................................C. 
pen. 
Código de Processo Penal ...........................................................................C. pr. 
pen. 
Código de Processo Civil ..............................................................................C. pr. 
civ. 
Lei 
............................................................................................................................
...L. 
Artigo....................................................................................................................
.....art. (exemplo: artigo 279 do Código Civil : art. 279 C. civ.) 
Jurisprudênica 
..........................................................................................................jur. 
Direito...................................................................................................................
.......dir. 
Tribunal Administrativo 
...............................................................................................TA 
Tribunal Supremo 
.......................................................................................................TS 
Conselho Constitucional 
............................................................................................CC 
Assembleia da República 
..........................................................................................AR 
Revista Jurídica da Faculdade de Direito .......................................... Rev. Jur. da 
Fdir. 
 
 
 
1.2. Aprender o curso 
 
 Para aprender (1.2.2.) é preciso previamente entender (1.2.1.). 
 
1.2.1. Entender 
 
 O que significa entender? Entender significa “ter ideia clara de”79. Por outras 
palavras “Entender” as aulas é ter uma ideia clara sobre o conteúdo das mesmas. 
 
 Uma demonstração, uma regra ou um raciocínio é assimilado com facilidade 
se previamente o estudante entende a sua lógica e a sua razão de ser80. Por outras 
 
79 Dicionário da Língua Portuguesa, Ed. Porto Editora, 8.ª. ed., 1999, vide, Entender 
 31 
palavras, não vale a pena tentar aprender a regra ou o raciocínio antes de ter tudo 
percebido da referida regra ou do referido raciocínio. Um bom entendimento da 
substância das aulas contribui, sem dúvida, para um melhora assimilação da matéria 
divulgada. 
 
 Para concretizar esta norma várias técnicas são possíveis e podem ser 
movimentadas. 
 
 Em primeiro lugar, caso em que existirem dúvidas, o estudante pode dirigir-se 
ao docente e pedir-lhe os esclarecimentos necessários. É o método mais directo para 
solucionar as dúvidas que podem surgir em relação ao contéudo do fluxo de 
informações dado pelo docente. 
 
 Os esclarecimentos podem ser pedidos durante as aulas, depois das aulas ou 
na ocasião das sessões de trabalhos práticos. 
 
 Em segundo lugar, o debate entre estudantes pode ser extremamente útil 
para confrontar ideias e esclarecer dúvidas. Assim, o trabalho em grupo permite 
partilhar as dúvidas de cada um dos membros e, em comum, procurar soluçőes as 
dúvidas identificadas ou inventoriar as zonas de incerteza que serão apresentadas ao 
docente na aula seguinte ou na sessão de trabalhos práticos. 
 
 Em terceiro lugar, o estudante pode investigar a fonte de dúvidas com a ajuda 
ou o apoio dos instrumentos de acesso ao saber jurídico consoante a natureza da 
dúvida em causa e do nível académico do estudante. Assim, o estudante poderá 
consultar obras jurídicas gerais (por exemplo, manuais básicos da disciplina) ou 
específicas (por exemplo: monografias especializadas ou estudos publicados numa 
revista jurídica especializada). 
 
1.2.2. O processo de aprendizagem 
 
 A aquisição dos conhecimentos jurídicos, no seu conjunto, necessita de um 
método racional de aprendizagem (1.2.2.1.). Todavia, o direito tem a sua linguagem 
e a aprendizagem, ele induz, também, o domínio do seu vocabulário (1.2.2.2.). 
 
1.2.2.1. Método geral para aprender 
 
 Regularidade no processo de aquisição dos conhecimentos. É 
importante trabalhar, consultar o conteúdo da aula no próprio dia da sua tomada. 
Isto permite, lendo, apoiando-se sobre a sua memória, verificar se a compreensão 
do conteúdo é total, e se não for, providenciar todos mecanismos já desenvolvidos 
anteriormente81 para chegar a uma situação de perfeita compreensão do curso. As 
notas tomadas nas aulas e devidamente organizadas devem ser aprendidas 
regularmente. É um aspecto fundamental da aprendizagem. Com efeito, é impossível 
acreditar que uma disciplina será perfeitamente assimilada em algumas horas de 
 
80 DEFRÉNOIS-SOULEAU I., Je veux réussir mon droit, op. cit., p. 11 e seguintes. 
81 Vide, supra 1.2.1. Entender 
 32 
leitura ou em alguns dias. A informação é tão densa que o próprio esforço de 
memorização e assimilação, não permite, num breve período de tempo, dominar o 
contéudo da matéria a aprender. A regularidade no estudo da matéria é, com 
certeza, um elemento preponderante do sucesso no estudo do Direito. Além disso, é 
preciso aproveitar as feiras para verificar se o estudo de cada disciplina esta 
actualizado e corrigir se existem alguns atrazos em algumas delas. 
 
 Resumir e realizar fichas82. Aproveitando-se dessa leitura atenta dos 
apontamentos, será útil realizar um resumo detalhado do que foi ministrado na aula 
e redigir este resumo no fim de cada série de notas de preferência na margem 
prevista a este efeito. Com efeito, apenas pode-se aprender fazendo resumos e 
fichas que contribuem à memorização dos conhecimentos. 
 
 Aprender o plano. É fundamental aprender o plano do curso por várias 
razões83. Em primeiro lugar, permite melhor distinguir onde vai o docente e guiar o 
estudante no programa estabelecido no princípio do ano lectivo. Em segundo lugar, 
isto permite situar qualquer questão no conjunto da matéria. Na altura das 
avaliações, na ocasião dos testes ou dos exames, o primeiro reflexo do estudante 
será de identificar a informação útil para responder às questões colocadas. Esta 
operação será facilitada a partir do momento em que o estudante conseguirá situar 
no plano da disciplina as referidas questões. Com efeito, na fase das revisões ou 
para responder a qualquer pergunta é preciso fazerum esforço de rememorização 
dos conhecimentos adquiridos, e é possível atingir facilmente este objectivo se o 
plano tiver sido bem assimilado. O cérebro funciona por associação de ideiais e 
tenterá relacionar o tema ou a questão a tratar com um espaço onde se pode 
conseguir identificar uma informação relacionada com ele ou ela. 
 
 Conjugar o estudo do conteúdo das aulas com um ou mais manuais. 
Nesta fase de estudo da matéria, é importante conjugar o estudo da matéria com os 
desenvolvimentos de um manual indicado pelo docente. O facto de perceber que 
uma mesma questão ou um mesmo problema pode ser tratado de diferentes formas 
permite melhorar a análise do estudante e contribui directamente para a operação 
de memorização. Todavia, é preciso estar consciente de que nas disciplinas onde não 
existe nenhum manual de Direito Moçambicano, que trata de uma forma substancial 
a disciplina, o estudante deve estar atento no que diz respeito ao manuseamento dos 
manuais estrangeiros susceptíveis de difundir conceitos completamente distintos do 
direito vigente. Mesmo assim, os respectivos manuais têm um valor pedagógico 
indispensável do ponto de vista do Direito Comparado e merecem, pelo menos por 
esta razão, de serem consultados. 
 
 Solicitar todos os meios e técnicas de memorização. Nesta fase de 
trabalho de compreensão/assimilação todos os meios de memorização devem ser 
solicitados e mobilizados. Viu-se anteriormente84 que, o estudante possui uma 
memoria auditiva e uma memoria visual que lhe permite adquirir uma parte das 
 
82 Vide SECÇÃO 2 infra. 
83 DEFRÉNOIS-SOULEAU I., Je veux réussir mon droit, op. cit., p. 12 e seguintes. 
84 Vide, supra a) do A ; do §1. 
 33 
informações difundidas durante as aulas. Nesta fase de estudo da matéria, é preciso 
solicitar esses respectivos meios de memorização com vista a aprender o conteúdo 
do ensino ministrado. 
 
 Em primeiro lugar, a memoria auditiva será solicitada para ouvir interiormente 
a informação que foi difundida pelo docente. A associação da memoria auditiva e das 
notas escritas permite a verificação de uma certa dinâmica circular entre a escrita e a 
memoria auditiva no sentido de que a escrita possa ser o ponto de partida de uma 
“recordação auditiva”. Assim, na fase de melhoramento e de aprofundamento dos 
apontamentos, o estudante poderá aproveitar-se da sua memoria auditiva para 
melhorar o conteúdo das suas notas introduzindo na margem do seu suporte as 
recordações úteis para a assimilação do curso. 
 
 Em segundo lugar, a memoria visual deve também ser aproveitada. Por 
exemplo, se pode sublinhar com cores as partes, os títulos, os sub-títulos, os 
parágrafos e as passagens importantes das notas com o objectivo de atrair a 
atenção do leitor. 
 
Existem também técnicas para avaliar a sua memoria visual como “fotografar” 
visualmente o contéudo de uma página com notas e depois tentar escrever numa 
outra fólia o que foi “fotografado” e comparar no sentido de verificar se todos os 
elementos importantes, em termos de contéudo, foram assimilados. 
 
 Aprendizagem sistemática. Finalmente, é necessário aprender de forma 
sistemática o conteúdo do curso; repetir o seu conteúdo até dominá-lo 
perfeitamente. Este esforço de compreensão e de memorização depende de cada 
estudante. Um estudante pode assimilar o contéudo dos seus apontamentos lendo 
duas vezes, enquanto que para um outro estudante será necessário ler e repetir 
sete, oito ou dez vezes. O importante em ambos os casos, é que o conteúdo do 
curso seja assimilado. 
 
1.2.2.2. A linguagem jurídica 
 
 A linguagem jurídica não tem boa reputação. Esta linguagem aparece como 
complexa e incompreensível ao cidadão comum. É só pensar na situação do 
estudante do primeiro ano da Faculdade de Direito confrontado, pela primeira vez, 
com os conceitos de “Direito positivo” e “Direito natural”. Será que existe um “Direito 
artificial”? Será que existe um “Direito negativo”? 
 
O Direito em sí, dirige-se potencialmente a todos os cidadãos e, logicamente, 
deveria identificar-se com a linguagem corrente85. Mas deve também ser mais 
precisa e não escapar às exigências técnicas dos conceitos, dos mecanismos, das 
prescrições e dos raciocínios jurídicos86. Com efeito, no mundo do direito é a 
precisão das regras que constitui uma garantia de segurança e as palavras são os 
 
85 Vide, sobre as características da tradição jurídica occidental (a "ratio scripta"), ASSIER-ANDRIEU L., 
Le droit dans les sociétés humaines, op. cit., pp. 46-47. 
86 BERGEL J.L., Teoria Geral do Direito, Martins Fontes, São Paulo, 2001, n.º 208. 
 34 
agentes indispensáveis da expressão dos conceitos e das regras jurídicas87. Assim, a 
linguagem jurídica torna-se um instrumento necessário de comunicação das noções, 
das normas e dos raciocínios jurídicos. “Como toda a ciência”, escreve JEAN-LOUIS 
BERGEL, “o direito tem os seus métodos, os seus princípios e os seus conceitos. Por 
conseguinte, ele não pode dispensar uma linguagem apropriada”88. 
 
 A linguagem do direito, cujas características mais salientes são a polissemia e 
a fraseologia89, tira as suas particularidades da especificidade das mensagens 
transmitidas aos seus destinatários, o que implica, ao mesmo tempo, palavras e 
enunciados que lhe são próprios, como o são os seus conceitos e os seus métodos, 
 
Assim, dois tópicos permitem ordenar de forma racional as questões 
relacionadas com a linguagem jurídica: o da terminologia jurídica (1.2.2.2.1.) e o da 
fraseologia jurídica (1.2.2.2.2). 
 
Os textos legislativos e regulamentares, as decisões judiciais, os documentos 
contratuais estão repletos de termos e de expressões herméticas para o profano, 
mas cujo sentido jurídico é bem determinado e que os juristas não podem dispensar. 
Assim, coloca-se a questão da aprendizagem da linguagem jurídica (1.2.2.2.3). 
 
 1.2.2.2.1. A terminologia jurídica 
 
 A terminologia é o conjunto dos termos técnicos usados numa ciência ou 
arte90, consequentemente, a terminologia jurídica é o conjunto dos termos usados na 
ciência jurídica. 
 
A necessidade de uma terminologia exacta e rigorosa impõe-se ao legislador, 
ao juiz e ao jurista em geral. Para compreender o sentido dos textos jurídicos ou 
prever a solução de um problema jurídico, as palavras têm de corresponder aos 
conceitos que tenham um conteúdo preciso e certo; como afirma JEAN-LOUIS 
BERGEL: “Cumpre que todo conceito jurídico seja susceptível de uma definição e seja 
designado por um termo próprio”91. A definição do conceito é então a um só tempo a 
do sentido de uma palavra. Os termos jurídicos devem, assim, designar, como afirma 
Charles EISENMANN, conceitos “à maneira de um rótulo ou de um sinal algébrico”92. 
Caso um termo tiver város sentidos, a linguagem jurídica deve especificar o seu 
sentido com uma ou mais precisões suplementares. 
 
 Mas quais são as funções (1.2.2.2.1.1.), o particularismo (1.2.2.2.1.2.) e a 
estrutura do vocabulário jurídico (1.2.2.2.1.3.)? 
 
 
87 SCHMIDT C., "La langue juridique: maux et remèdes", em http://www.uni-
trier.de/uni/fb5/ffa/lehrmaterialien.htm 
88 BERGEL J.L., op. cit., n.º 208. 
89 SOURIOUX J.L., "Pour l'apprentissage du langage du droit", in RTD civ. (2) avr-juin 1979, pp. 344. 
90 Dicionário da Língua Portuguesa, Ed. Porto Editora, 8.ª. ed., 1999, vide, Terminologia 
91 BERGEL J.L., op. cit., n.º 209. 
92 EISENMANN C., “Quelques problèmes de méthodologie des définitions et des classifications en 
science juridique“, in APD, T. XI, La logique du droit, Sirey, 1966, p. 25 e seguintes. 
 35 
 1.2.2.2.1.1. As funções do vocabulário jurídico 
 
 O vocabulário tem por função principal, atender a certas exigências ligadas à 
qualidadeda regra jurídica e à sua comunicação. 
 
 Com efeito, a regra de direito é uma proposição destinada a impor uma regra 
de conduta sob a coerção social. Nesta perspectiva, esta regra deve ser precisa e 
clara e por isso, esta regra deve ser constituída de termos que têm um sentido claro, 
preciso e certo. Na hipótese em que esta regra comporta conceitos jurídicos 
equívocos ou insuficientemente definidos, a regra fica incerta; então fica difícil prever 
a solução de um eventual litígio porque “o sentido da noção evocada e o significado 
da norma envolvida dependem da apreciação subjectiva do juiz”93. “A incerteza do 
direito”, escreve JEAN-LOUIS BERGEL, “é um mal grave, pois aumenta a desordem 
dos comportamentos que se querem evitar, a desordem na norma”94. Assim, a 
segurança do direito pressupõe um aparelho conceptual e uma terminologia 
relativamente rígida e, algumas vezes, muita específica95. 
 
A dificuldade reside no distanciamento entre o processo de criação da 
linguagem comum que se adapta facilmente às mudanças da realidade social e a 
obrigação de ter termos jurídicos com conteúdo estável, preciso e rigoroso. Não é 
duvidoso que os termos jurídicos traduzem uma realidade. Quando aparecem novas 
realidades sociais, o direito deve tomar em conta essas mudanças, o que pode se 
traduzir, algumas vezes, pela criação de novos termos jurídicos. Como toda a 
linguagem, a linguagem jurídica é um instrumento de precisão e de comunicação do 
pensamento96. A questão fundamental que se levanta nesta matéria, é de saber se o 
Direito deve empregrar a linguagem corrente ou uma terminologia especial97. 
 
Pode parecer conveniente redigir a lei no linguagem corrente para pô-la ao 
alcance do cidadão médio e permitir-lhe entender o seu conteúdo. Mas, como 
ensina, JEAN-LOUIS BERGEL, “a inevitável complexidade da regra de direito torna 
ilusória a ideia de que o cidadão médio possa, sem formação jurídica, compreender 
os textos à sua mera leitura, independentemente de seus vínculos com o conjunto do 
sistema jurídico”98. Pode-se mesmo chegar a pior das confusões, quando uma 
palavra comum é utilizada pelo direito num sentido particular. Assim, é preciso 
chegar a um acordo: “a linguagem corrente é preferível por razões de comodidade e 
de clareza, quando é suficiente; mas, se apresenta o risco de gerar ambiguidade, 
deve ser substituída por uma terminologia específica”99. 
 
 
93 BERGEL J.L., op. cit., n.º 211. 
94 BERGEL J.L., Ibidem 
95 BATIFFOL H., "Observations sur la spécificité du vocabulaire juridique", em Mélanges dédiés à 
Gabriel MARTY, Université des Sciences Sociales de Toulouse, 1978, p. 36 e seguintes. 
96 BERGEL J.L., op. cit., n.º 212. 
97 Sobre o relacionamento "Língua" e Direito", vide, SILVA ANTUNES PIRES C. (da), "Língua e Ciência 
Jurídica. Da Formulação do Direito à Transposição Linguística. Dúvidas e Perplexidades", em 
http://www.dsaj.gov.mo/macaolaw/pt/mag_display.asp?issue=5&offset=0 
98 BERGEL J.L., op. cit., n.º 212. 
99 BERGEL J.L., Ibidem 
 36 
O jurista extrai da linguagem comum o meio de transmitir mais facilmente a 
regra de direito para a vida social. Tira até as expressões necessárias para explicitar 
o sentido profundo e particular dos conceitos jurídicos. Isso gera uma linguagem 
técnica, que se apoia na linguagem comum, mas especificando-lhe os termos ou as 
formas, às vezes desnaturando-os, quando necessário, até mudando totalmente a 
aplicação, de modo que se obtenha um idioma especialmente adaptado ao objectivo 
perseguido e que finalmente lhe assinale o seu lugar distinto no meio da confusões, 
das obscuridades e dos equívocos da língua vulgar. A linguagem é então um 
instrumento essencial para a aplicação do direito positivo; deve permitir fazer as 
regras de comportamento precritas pelo direito, passar para a prática100. São as 
palavras e as frases que tornam compreensíveis os preceitos jurídicos. 
 
 1.2.2.2.1.2. O particularismo do vocabulário jurídico 
 
 O particularismo do vocabulário jurídico está ligado à diversidade da origem 
do seu conteúdo. Com efeito, encontram-se na linguagem jurídica três tipos de 
palavras: as extraídas do vocabulário corrente (por exemplo: "privilégio", "servidão", 
"competência" ou "boa-fé"), as que são oriundas de outras disciplinas (por exemplo: 
"crédito", "capital" ou "mercado") e os termos especificamente jurídicos (por 
exemplo: "anatocismo" ou "anticrese"). 
 
 A terminologia jurídica, muitas das vezes, tem origem grega ou latina. Parte 
considerável do vocabulário institucional é oriundo do grego (democracia, 
monarquia, oligarquia, política) ou do latim (República, Constituição, legislatura). 
 
Essas inspirações encontram-se em grande número em todos os ramos do 
direito: 
 
- anatocismo do grego anatokismós (“juros compostos”) - é o fenómeno de 
actualização dos juros, ou de juros de juros; junção dos juros vencidos ao 
capital, para que o todo proporcione novos juros101; 
- anticrese do grego antikhrésis – “uso de uma coisa por outra” (garantia real 
que consiste na afectação dos rendimentos de determinados bens imobiliários, 
ao pagamento de certa dívida); 
- enfiteuse do grego emphyteusis – “enxertia” (é o contrato pelo qual o 
senhor de um prédio concede a outro o domínio útil – direito de usufruir a 
coisa - dele, com reserva do domínio directo)102; 
- hipoteca do grego hypothéke “penhor” (é uma garantia real das obrigações 
que se traduz no direito concedido a certos credores de serem pagos, pelo 
valor de certos bens imobiliários do devedor, e com preferência a outros 
credores, estando os seus créditos devidamente registados)103; 
- alienação do latim alienatiône (é a transmissão a título oneroso); 
 
100 BERGEL J.L., Idem 
101 Artigo 560.º do Código Civil. 
102 Artigos 1491 e seguintes do Código Civil. 
103 Artigo 686.º do Código Civil. 
 37 
- codicilo do latim codicillu (escrito particular de uma pessoa contendo 
disposições sobre enterro, esmolas e legados a serem feitos, após a sua 
morte, de objectos de uso pessoal de pouco valor); 
- de cujus (primeiras palavras do brocardo de cujus sucessione agitur – aquele 
cuja sucessão está pendente; utilizada para designar o falecido autor da 
sucessão); 
- ab intestat (sem testamento. Diz-se de uma sucessão cujos bens são 
atribuídos aos herdeiros segundo as regras legais quando o falecido não 
deixou testamento ou quando, tendo redigido um testamento, este é nulo ou 
caduco); 
- in limine litis (no início do processo); 
- intuitu personae (negócio concluído tendo em conta considerações de 
carácter pessoal das partes); 
- Lex rei sitae (lei do lugar da situação das coisas); 
- Lex loci delicti (lei do local da prática do delito); 
- Lex fori (lei do tribunal – lei do país no qual o processo se desenrola). 
 
A influência do direito romano foi determinante pelas ordens jurídicas dos países 
de raíz romano-germánica; por exemplo, o Projecto de Código Civil (francês) de 1793 
que vai influenciar quase todos os sistemas romano-germânicos seguiu a divisão dos 
Institutes de Gaius104 e de Justiniano105. Tinha quatro livros: Das pessoas, Dos bens, 
Dos contratos e Das acções106. O nosso Código Civil não foge muito desta 
organização mesmo si a sequência é diferente: Livro I: Parte Geral, Livro II: Direito 
das Obrigações, Livro III: Direito das Coisas e Livro IV: Direito da Família. 
 
 O vocabulário jurídico às vezes é oriundo de línguas vivas estrangeiras. Foram 
tirados do italiano termos financeiros e comerciais usuais, tais como aval (avallo), 
bancarrota (bancarrotta), balanço (balancio) e do inglês palavras como cheque 
(cheque), júri (jury). Mas estas palavras foram integradas na língua portuguesa. 
Outras, em compensação, foram directamente introduzidas na prática sob a suaforma estrangeira. É o caso do kow-how, lock out107 (n.º 3 do Artigo 87 da 
Constituição da República) ou A forfait108. 
 
 1.2.2.2.1.3. A estrutura do vocabulário jurídico 
 
 No que concerne a estrutura do vocabulário jurídico109, a linguagem jurídica 
comporta sobretudo substantivos de acções (exemplo: demarcação do verbo 
demarcar) e substantivos de agentes (por exemplo: parte, pleitante, juiz, 
 
104 http://encyclopedia.laborlawtalk.com/Gaius 
105 Emperador bizantino (527-565). Vide, http://buscabiografias.com/cgi-bin/verbio.cgi?id=4751 
106 SAGNAC Ph., La législation civile de la Révolution française (1789-1804), Paris, 1898, citado in 
Naissance du Code Civil, Paris, Flammarion, 1989, p. 14. 
107 Do inglês lock out « fechar, deixando fora ». É o encerramento de um local de trabalho por 
iniciativa patronal como forma de pressão face a reinvindicações dos trabalhadores ou face a um 
movimento grevista. 
108 Por exemplo: "A forfait": viagem organizada em conformidade com as especificações do cliente e 
que cujo o preço inclui todos os serviços programados" (n.° 5 do Artigo 1 do Decreto n.° 70/99, de 5 
de Outubro). 
109 BERGEL J.L., op. cit., n.º 216. 
 38 
contratante, etc.). Um estudo técnico recente da linguagem do direito110 mostra que 
o vocabulário jurídico comporta “palavras-bases”, “derivadas” e “compostas”. 
 
 As “palavras-bases” são as numerosas palavras jurídicas simples que 
constituem o fundo do vocabulário e provêm do grego e do latim, da linguagem 
corrente, de termos estrangeiros. 
 
 As “derivadas” são oriundas das “palavras-bases”, acrescidas de prefixos ou 
de sufixos. 
 
Por exemplo, em relação aos sufixos: 
 
- “ório”: cominatório, possessório (cominar (palavra-base) + sufixo – ório; 
posse (palavra-base) + sufixo - ório)); 
- “ura”: candidatura, primogenitura (candidato (palavra-base) + sufixo – ura; 
primogénito (palavra-base) + sufixo – ura); 
- “ato”: concubinato (concubino (palavra-base) + sufixo - ato); 
- “ário”: fiduciário; comanditário (fidúcia (palavra-base) + sufixo – ário; 
comandita (palavra-base) + ário); 
- "ivo": aquisitivo, legislativo (adquirir (palavra-base) + sufixo – ivo; legislar 
(palavra-base) + sufixo – ivo). 
 
Em relação aos prefixos: 
 
- “co”: co-autor, co-herdeiro; 
- “contra”: contra-proposta, contradita; 
- “”sub”: sublocação, submandato. 
 
As “palavras compostas” do vocabulário jurídico também têm particularidades. 
 
Algumas se caracterizam pela mistura linguística; por exemplo: uma 
arbitragem ad hoc ou por “formações regressivas”, consistentes em um 
complemento que precede a palavra completa, por exemplo: jurisdição ou 
litispendência. Com maior frequência, as palavras compostas são formadas segundo 
as características habituais dos vocabulários técnicos: substantivo e adjectivo de 
relação, por exemplo: herdeiros legitimários (“São herdeiros legitimários os 
descendentes e os ascendentes, pela ordem e segundo as regras estabelecidas nos 
artigos 2133.º a 2138.º” – Artigo 2157.º do Código Civil), dois substantivos ligados 
pela palavra "de" como "Chefe de Estado" ou "sequências estratificadas" como no 
termo "interesse de agir". 
 
"Essas estruturas terminológicas diversas", ensina JEAN-LOUIS BERGEL, 
"procedem da natureza dos mecanismos jurídicos. A utilização do sufixo –ório, por 
exemplo, marca que se formam instrumentos (acção possessória); os prefixos co-, 
contra-, sobre-, sub- expressam as relações de cooperação, de oposição ou de 
 
110 CORNU G., Linguistique juridique, Paris, Ed. Montchrestien, 1990, p. 57 e seguintes. 
 39 
hierarquia que caracterizam a matéria jurídica. As palavras compostas traduzem 
noções técnicas"111. 
 
Exemplificando o ensino do referido autor: 
 
 Prefixo co- : "Co-autoria", "Co-utente"112, "Co-herdeiro", "Coligação"; 
 
 Prefixo contra- : "Contrapartida", "Contraproposta", "Contraprova"113; 
 
 Prefixo sub- : "Sub-rogação"114, "Subempreiteiro"115, Subfiança"116, 
"Sublocação"117. 
 
 1.2.2.2.2. A fraseologia jurídica 
 
 A fraseologia é o "estudo da construção das frases"118. Apesar da diversidade 
das formulações e dos estilos conforme os textos jurídicos e os meios profissionais 
envolvidos, pode-se destacar alguns traços constantes na construção da fraseológia 
jurídica. 
 
 A formulação da regra de direito é, em princípio, directa e expressa em uma 
forma impositiva119. A enunciação jurídica, ou seja, "o emprego da língua jurídica 
num acto"120, revela a atitude que o seu autor toma para com seu enunciado e a 
linguagem de acção, característica da linguagem do direito. As atitudes possíveis do 
autor para com seu texto formam um leque limitado e se exprimem pela 
impessoalidade, negação, situação e regra de conduta121. 
 
A enunciação normativa é de facto impessoal, sendo o sujeito do verbo um 
conceito jurídico e não uma determinada pessoa. Utiliza-se então para a contrução 
gramatical da frase uma forma passiva; por exemplo: "A força probatória das 
respostas dos peritos é fixada livremente pelo tribunal"122 ou uma locução impessoal 
consistente num sujeito aparente seguido por um verbo passivo; por exemplo: "É 
permitido ao devedor desistir a todo tempo da cessão, cumprindo as obrigações a 
que está adstrito para com os cessionários"123. 
 
 A formulação negativa é também frequente para o enunciado de princípios; 
por exemplo: "A ignorância ou má interpretação da lei não justifica a falta do seu 
 
111 BERGEL J.L., op. cit., n.º 216. 
112 Artigo 1398.º do Código Civil. 
113 Artigo 346.º do Código Civil. 
114 Artigo 589.º do Código Civil. 
115 Artigo 1226.º do Código Civil. 
116 Artigo 630.º do Código Civil. 
117 Artigo 1060.º do Código Civil. 
118 Dicionário da Língua Portuguesa, Ed. Porto Editora, 8.ª. ed., 1999, vide, Fraseologia 
119 BERGEL J.L., op. cit., n.º 218. 
120 BERGEL J.L., op. cit., n.º 219. 
121 BERGEL J.L., op. cit., n.º 220. 
122 Artigo 389.º do Código Civil. 
123 N.º 1 do Artigo 836.º do Código Civil. 
 40 
cumprimento nem isenta as pessoas das sanções nela estabelecidas"124 e torna-se 
restritiva quando a norma comporta um só tempo a regra e sua excepção; por 
exemplo: "Nenhuma pena poderá ser substituída por outra, salvo nos casos em que 
a lei o autorizar"125. 
 
 A situação ou a localização no texto é um procedimento frequente na lei e nas 
certidões para marcar as referências ligadas à coerência delas, evitando ao mesmo 
tempo sacrificar-lhes a concisão126. Assim, os textos jurídicos assinalam-se, por 
expressões tais como "adiante", "acima referida", "precedente"127, etc. 
 
 A regra de conduta é sem dúvida de uso constante. Só pode consistir num 
elenco restrito de orientações: 
 
 - uma obrigação; por exemplo: "O mandatário é obrigado a transferir para o 
mandante os direitos adquiridos em execução do mandato"128; 
 
 - uma proibição; por exemplo: "É proibida a utilização de meios informáticos 
para registo e tratamento de dados individualmente identificáveis relativos às 
convicções políticas, filosóficas ou ideológicas, à fé religiosa, à filiação partidária ou 
sindical e à vida privada"129; 
 
 - uma permissão; por exemplo: "O credor hipotecário pode, antes do 
vencimento do prazo, exercer o seu direito contra o adquirente da coisa ou direito 
hipotecado se, por culpa deste, diminuir a segurança do crédito"130; 
 
 - uma faculdade; por exemplo: "Dentro dos limites da lei, as partes têm a 
faculdade de fixar livremente o conteúdo dos contratos, celebrar contratos diferentes 
dos previstos neste código ou incluir nestes as claúsulas que lhes aprouver"131. 
 
 A linguagem jurídica é, também, uma linguagem de acção132. Consiste então 
em compromissos, em constatações ou em decisões executórias.Os compromissos pessoais enunciados pelo autor se caracterizam pela 
utilização do pronome pessoal da primeira pessoa ou não seguido de certos verbos 
significativos no indicativo presente. 
 
 O exemplo mais esclarecedor é o do juramento. 
 
 
 
124 Artigo 6.º do Código Civil. 
125 Artigo 85.º do Código Penal. 
126 BERGEL J.L., op. cit., p. 306. 
127 Vide, por exemplo, Artigo 510.º do Código Civil. 
128 N.º1 do Artigo 1181.º do Código Civil. 
129 N.º 1 do 71 da Constituição da República. 
130 Artigo 725.º do Código Civil. 
131 N.º1 do Artigo 405.º do Código Civil. 
132 BERGEL J.L., op. cit., n.º 221. 
 41 
Juramento do Presidente da República 
(n.º 2 do Artigo 150 da CRM) 
 
Juro, por minha honra, respeitar e fazer 
respeitar a Constituição, desempenhar com 
fidelidade o cargo de Presidente da República de 
Moçambique, dedicar todas as minhas energias 
à defesa, promoção e consolidação da unidade 
nacional, dos direitos humanos, da democracia e 
ao bem-estar do povo moçambicano e fazer 
justiça a todos os cidadãos 
 
 
 As decisões executórias são igualmente formuladas na terceira pessoa. Os 
verbos utilizados, em número relativamente restrito, variam conforme se trate de 
leis, de regulamentos ou de decisões jurisdicionais. 
 
 
Diploma Ministerial n.º 213/2004 
De 30 de Novembro 
 
O Ministro do Interior, verificando ter sido dado cumprimento ao disposto no artigo 
14 do Decreto n.º 3/75, de 16 de Agosto, e no uso da faculdade que lhe é concedida 
pelo artigo 12 da Lei da Nacionalidade, determina: 
 
É concedida a nacionalidade moçambicana, por naturalização, a Renato Passini, 
nascido a 12 de Dezembro de 1948, em Genova-Itália. 
Ministério do Interior, em Maputo, 16 de Novembro de 2004. 
- O Ministro do Interior e para Assuntos de Defesa e Segurança na Presidência da 
República, Almerino da Cruz Marcos Mahenje 
 
Exemplo de decisão executória do Ministro do Interior 
 
 
 O regra de direito se caracteriza por sua generalidade e pela sua 
permanência133. 
 
 Por causa de seu carácter geral, a norma jurídica se expressa com a ajuda de 
indefinidos como: 
 
- "todo": "Todo o cidadão tem direito à vida e à integridade física e moral e 
não pode ser sujeito à tortura ou tratamentos cruéis ou desumanos"134; 
 
- "nenhum": "Nenhum cidadão pode ser julgado mais do que uma vez pela 
prática do mesmo crime, nem ser punido com pena não prevista na lei ou com pena 
 
133 BERGEL J.L., op. cit., n.º 222. 
134 N.º 1 do Artigo 40 da Constituição da República. 
 42 
mais grave do que a estabelecida na lei no momento da prática da infracção 
criminal"135; 
 
- "ninguém": "Ninguém pode ser condenado por acto não qualificado como 
crime no momento da sua prática"136; 
 
- "aquele que": "Aquele que tentar alterar a Constituição do Estado ou destruir 
ou mudar a forma do Governo por meios não consentidos pela Constituição será 
punido com a pena do n.º 4 do artigo 55.º"137. 
 
A permanência da regra de direito138 se expressa o mais das vezes pelo 
emprego do presente, às vezes do futuro, mas esses dois tempos geralmente são 
utilizados com um valor intemporal e significam que se trata de verdades gerais, de 
definições ou de máximas: 
 
- "A lei só dispõe para o futuro ..."139; 
 
- "Obrigação é o vínculo jurídico por virtude do qual uma pessoa fica adstrita 
para com outra à realização de uma prestação"140; 
 
- "Confissão é o reconhecimento que a parte faz da realidade de um facto que 
lhe é desfavorável e favorece a parte contrária"141. 
 
 Assim, o pretérito perfeito e o imperfeito não têm lugar nenhum na lei. 
 
 Do ponto de vista da estilística, a norma deve ou deveria obedecer a alguns 
parâmetros, magistralmente resumido por Fernando Emídio da SILVA: "A lei obedece 
aos cânones da arquitectura: deve ser majestade, expressão, ordenamento e 
harmonia"142. 
 
 1.2.2.2.3. O aprendizagem da linguagem jurídica 
 
 Os caracteres da linguagem jurídica – origem diversa, polissemia e fraseologia 
– constituem razões suficientes para implementar uma aprendizagem séria desta 
linguagem143. 
 
 Uma aprendizagem eficaz da linguagem jurídica pressupõe uma acção positiva 
por parte do docente e um auto-aprendizagem permanente do jurista ou do 
estudante em direito. 
 
135 N.º 3 do Artigo 59 da Constituição da República. 
136 N.º 1 do Artigo 60 da Constituição da República. 
137 Artigo 167.º do Código Penal. 
138 BERGEL J.L., op. cit., n.º 222. 
139 N.º1 do Artigo 12.º do Código Civil. 
140 Artigo 397.º do Código Civil. 
141 Artigo 352.º do Código Civil. 
142 Citado por SILVA ANTUNES PIRES C. (da), "Língua e Ciência Jurídica. Da Formulação do Direito à 
Transposição Linguística. Dúvidas e Perplexidades", op. cit., p. 7. 
143 SOURIOUX J.L., "Pour l'apprentissage du langage du droit", op. cit., p. 343 e seguintes. 
 43 
 
 O papel do docente na aprendizagem da linguagem jurídica. 
 
 Na aprendizagem da linguagem jurídica o docente tem um papel fundamental. 
O docente deve dominar uma didáctica de aprendizagem da linguagem jurídica que 
deve situar-se ao nível de cada disciplina ministrada. Trata-se, para o docente, de 
explicar a linguagem jurídica144. Nesta perspectiva, o docente deve dirigir a sua 
explicação da linguagem jurídica para duas direcções. Na primeira direcção, como 
refere JEAN-LOUIS SOURIOUX, "o acento é posto sobre as fases de constituição das 
palavras do direito, numa perspectiva chamada diacrónica"145. A segunda direcção 
está centrada sobre "o funcionamento sincrónico dessas palavras, isto é, que são 
estudadas, num momento dado considerando lhes como estacionárias"146. 
 
 Na primeira perspectiva, o docente terá o cuidado de apresentar o 
constituição histórica do termo jurídico mas também a sua constituição recente. As 
explicações históricas dependem da sua investigação etimológica. Por exemplo, a raíz 
grega emphyteüse, isto é, "plantador" na palavra enfiteuse permite destacar o 
aspecto rural da figura e explicar vários elementos fundamentais da sua constituição 
e do seu regime juridico. 
 
 Na perspectiva sincrónica, o docente deverá insistir sobre o vocabulário 
jurídico no momento mesmo do seu ensino. 
 
 Assim, é imperioso para cada docente exercitar permanentemente uma 
actividade "definitória" na sua disciplina e isso mesmo em relação às noções básicas 
do Direito. Com efeito, "é a definição (...) que veicula os conhecimentos que 
permitem, só, entender o sentido dos termos jurídicos (...). Conhecem-se os 
"significados" das terminologias na medida em que conhecem-se as ciências e 
técnicas às quais elas respondem e não na medida em que conhece-se a língua"147. 
Assim, a definição torna-se "a actividade didáctica fundamental por excelência"148. 
 
Nesta perspectiva, o comentário ou a análise de diplomas legais149 nas 
sessões de trabalhos práticos constitui um excelente exercício para aquisição de um 
saber linguístico-jurídico. 
 
 A auto-aprendizagem permanente do jurista ou do estudante em 
direito. 
 
 Trata-se, para o jurista ou para o estudante em Direito, aprender a ler os 
termos do direito150. O auto-aprendizagem da leitura dos termos do direito passa 
 
144 LERAT P., "La pratique terminologique dans le domaine du droit", Cahiers de linguistique sociale, 
n.º 7, 1994, p. 22. 
145 SOURIOUX J.L., "Pour l'apprentissage du langage du droit", op. cit., p. 346. 
146 SOURIOUX J.L., Ibidem 
147 SOURIOUX J.L., op. cit., p. 347. 
148 SOURIOUX J.L., Ibidem 
149 Vide, por exemplo, SOURIOUX J.L., LERAT P., L'analyse de texte. Méthode générale et applications 
au droit, Jurisprudence Générale Dalloz – 1986. 
 44 
necessariamente pelo manuseamento de umdicionário jurídico151. Para incitar os 
estudantes à consulta de dicionários jurídicos, pode-se recorrer ao método lúdico; 
por exemplo, organizando a realização de "palavras cruzadas jurídicas". Essas 
diversas actividades contribuem, igualmente, para a aquisição da "ortografia 
jurídica". Neste caso, trata-se da auto-aprendizagem da escritura do direito. Nesta 
perspectiva, o estudante em direito deve perceber a especificidade dessas 
"escrituras". Por exemplo, o estudante pode realizar exercícios de estilística 
comparada de diplomas legais. Assim, o estudante poderia comparar o estílo de uma 
lei e do seu decreto de aplicação ou do diploma ministerial que se relaciona com 
esta. 
 
Depois, desta primeira fase de aprendizagem, pode-se pensar em organizar 
(ao nível do quarto ano) sessões de iniciação à redacção de diplomas normativos152 e 
de actos jurídicos e jurisdicionais. 
 
2. Os trabalhos práticos 
 
 Nos termos do Curricula de licenciatura em Direito da Faculdade de Direito da 
Universidade Eduardo Mondlane153, “As aulas passam a estar divididas em teóricas e 
práticas, na proporção de 50% do horário semanal”. 
 
O trabalho realizado nas sessões de trabalhos práticos é de uma extrema 
importância porque permite aprofundar e aplicar concretamente os conhecimentos 
adquiridos durante as aulas e fazer exercícios visando a preparar, por um lado, os 
estudantes aos testes e exames de avaliação, e por outro lado, à vida professional. 
Assim, a presença dos estudantes nessas sessões é obrigatória. 
 
 Como se preparar para as sessões de trabalhos práticos (2.1) e como se 
desenrola essas sessões (2.2). 
 
2.1. A preparação dos trabalhos práticos 
 
 O cumprimento de alguns pressupostos (2.1.1.) é necessário para permitir 
uma melhor preparação das sessões de trabalho (2.1.2.). 
 
 2.1.1. Pressupostos necessários 
 
 O pressuposto necessário é de conhecer e dominar perfeitamente o contéudo 
do ensino ministrado e fazer a ligação entre o ensino ministrado e o tema 
desenvolvido na sessão de trabalhos práticos. A identificação da referida ligação 
permite situar o tema dentro do conjunto da matéria leccionada, o que não só 
permite identificar a informação teórica necessária ao tratamento do tema, mas 
também tem um efeito formador em termos de procedimento metodológico. O 
 
150 SCHMIDT C., "La langue juridique: maux et remèdes", em http://www.uni-
trier.de/uni/fb5/ffa/lehrmaterialien.htm 
151 Vide, supra A., a), 4. 
152 Vide, infra, PARTE IV. 
153 Reforma curricular, UEM, Faculdade de Direito, Maputo, Novembro de 2003. 
 45 
estudante deve aprender sempre a posicionar o tema ou a questão a tratar no 
conjunto da matéria ou que lhe será extremamente útil quando ele deverá solucionar 
casos práticos ou identificar o direito aplicável a uma situação de facto. 
 
 O objectivo fundamental é acquirir técnicas jurídicas através de exercícios 
típicos que permitem manusear essas técnicas. 
 
 2.1.2. Preparação do trabalho pedido 
 
 Para aproveitar-se de uma sessão de trabalho prático, é preciso preparar com 
seriedade o trabalho pedido pelo docente docente que vai dirigir a sessão. Isto 
significa realizar as investigações necessárias, as leituras aconselhadas e estudar os 
documentos distribuídos durante as sessões de trabalhos. 
 
2.2. O desenvolvimento das sessões dos trabalhos práticos 
 
 Um bom aproveitamento das sessões de trabalhos práticos requere o 
cumprimento de alguns condicionalismos (2.2.1.) com a finalidade de conseguir 
realizar os exercícios propostos (2.2.2.). 
 
 2.2.1. Condicionalismos para um bom aproveitamento das sessões 
 
 Em regra geral, os estudantes devem ser preparados a solucionar quaisquer 
tipos de exercícos práticos (dissertação jurídica, caso prático, comentário de texto ou 
de acórdão de uma jurisdição). 
 
 A correcção do exercício será tanto mais útil se o estudante preparou 
seriamente o trabalho pedido. A troca de informação será mais frutuosa e o diálogo 
mais produtivo se previamente o estudante domina o tema a investigar ou o 
problema a solucionar. Essas trocas de informação serão ainda mais rentáveis se a 
troca é multipolar; isto é, se o diálogo envolve um número razoável de estudantes. A 
participação de todos é recomendada. 
 
 A edificação do plano de resolução do problema ou da dissertação jurídica 
deve ser concebido como um espaço de diálogo onde cada estudante pode 
apresentar o seu ponto de vista. A comparação dos planos realizados pelos 
estudantes pode ser um momento privilegiado para debater sobre as vantagens ou 
inconvenientes de cada um e avaliar todos os processos metodológicos na sua 
globalidade. 
 
 2.2.2. Tipos de exercícios 
 
 Vários tipos de exercícios podem ser realizados durante as sessões de 
trabalhos práticos. Podem ser, entre outros exercícios, a realização de uma 
dissertação jurídica, de um plano detalhado, de uma pesquisa bibliográfica, de uma 
síntese sobre algumas questões relacionadas com as aulas, de exposições orais 
sobre questões predeterminadas, de apresentação de resumos da actualidade 
legislativa, de debates sobre um tema determinado ou de avalições escritas ou orais. 
 46 
 
 Há um exercício que se destaca particularmente do conjunto é a exposição 
oral154. Com efeito, este exercício tem várias vantagens. 
 
Um primeiro lugar, a exposição oral permite a iniciação à pesquisa. O 
estudante deverá nesta ocasião familiarizar-se com as fontes bibliográficas e se 
deslocar-se, se for o caso, nos espaços onde se encontram as referidas fontes (por 
exemplo: serviços administrativos, centros de documentação de tribunais). A 
exposição oral favorece assim, indirectamente, a comunicação com os práticos do 
direito o que beneficia directemente ao estudante. É também a ocasião, para o 
estudante/investigador, redigir fichas de leituras, o que servirá para a própria 
elaboração da exposição oral, mas também para enriquecer as suas notas pessoais. 
 
 Em segundo lugar, a exposição oral favorece a expressão em público o que 
implica a dominação das técnicas da expressão oral. Na sua vida profissional, o 
jurista será conduzido a tomar a palavra em público, quer, num tribunal, quer, num a 
reunião de um conselho de administração de uma empresa, ou quer numa 
assembleia política (Assembleia da República, assembleia municipal). É a ocasião 
ideal de se familiarizar com as técnicas da expressão oral e dominar os seus impulsos 
pessoais. 
 
C. O conteúdo dos conhecimentos 
 
 Qualquer que seja a natureza ou o âmbito da reflexão jurídica a elaborar, o 
jurista deve adquirir conhecimentos jurídicos (a) e dominar as técnicas de pesquisa 
visando a aprofundar, dado o caso, esses (b). 
 
 a) A aquisição do saber jurídico elementar 
 
 Qualquer que seja a natureza ou o âmbito da reflexão jurídica a elaborar, o 
jurista deve adquirir os conhecimentos gerais que lhes serão necessários para 
dominar o ambiente dentro do qual se situa ou se posiciona o problema a solucionar. 
 
O jurista, mais particularmente, o estudante em direito, deve adquirir 
conhecimentos elementares sólidos. A Faculdade de Direito, no programa de 
licenciatura, apenas pode oferecer isto porque seria praticamente impossível querer 
aprender todos os ramos do direito de uma forma especializada. Mesmo assim, os 
conhecimentos jurídicos elementares devem ser perfeitamente dominados, porque 
provalmente um dia o jurista terá a necessidade de chamá-los para utilizá-los. 
 
Só apenas se esse saber jurídico elementar for bem dominado e adquirido que 
o jurista poderá reflectir melhor sobre um problema jurídico e saber quais são as 
questões que devem ser levantadas e quais são as direcções que devem ser 
exploradas e pesquisadas commais profundidade para solucionar o problema em 
causa ou atingir seu objectivo. 
 
 
154 Sobre a técnica da exposição oral, vide, ??????????????? 
 47 
b) A pesquisa em direito 
 
 O que significa o termo “pesquisa” em Direito? (1) Qual é o seu âmbito prático 
de actuação? (2) Quais são os seus objectivos? (3) Quais são os meios da 
investigação jurídica? (4) 
 
 A resposta a esta pergunta permitirá melhor delinear as operações a realizar 
como investigador (2). 
 
 1. O significadodo do termo “pesquisa” em Direito 
 
 Regra geral, a ideia de pesquisa implica uma investigação metódica com o 
objectivo de descobrir qualquer coisa. 
 
 O que significa “pesquisa” em Direito?155 
 
A expressão pode significar pelo menos duas coisas. 
 
Em primeiro lugar, partindo de uma observação da prática muito simples, 
pode-se afirmar que as pesquisas em Direito podem simplesmente significar a 
reflexão sobre uma questão de natureza jurídica e buscar os diplomas legais, a 
jurisprudência e a doutrina sobre um tema ou questão jurídica determinada. 
 
Em segundo lugar, pode-se entender por “pesquisa em direito”, o estudo de 
uma questão jurídica de maneira exaustiva e fundamental com o fim de fazer 
progredir o conhecimento jurídico no seu conjunto. 
 
É claro que se o conceito de “pesquisas” em direito tem um sentido específico, 
a noção de “descoberta” tem também um sentido particularmente diferente do que 
pode existir nas ciências exactas. Neste sentido, o objectivo só pode ser compatível 
com o objecto da metodologia jurídica. Trata-se de propor uma análise nova sobre 
uma questão de direito, tomar uma posição distinta do que era defendido até então 
ou descobrir novo campo de pesquisa susceptível de trazer novas propostas pela 
intelegibilidade da realidade. 
 
 2. O âmbito prático de actuação da investigação em Direito 
 
 O pecado original que partilham a maior parte das instituições de ensino 
superior do Direito no mundo é que a investigação jurídica consiste em mais de 90% 
em determinar o que é o Direito positivo (legislação, jurisprudencia, 
regulamentação)156. 
 
 
155 Vide, AMSELEK P., “Éléments d’une définition de la recherche juridique“, in APD, T. 24, Les biens et 
les choses, Sirey, 1979, pp. 297-305; LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., Méthodologie de la recherche 
juridique, op. cit., p. 5 e seguintes. 
156 LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., op. cit., p. 7. 
 48 
 Moçambique não afastou-se, infelizmente, desta tendência. É só medir as 
dificuldades em dar continuidade às "Revistas jurídicas nacionais" ou em publicar 
monografias críticas de Direito sobre questões jurídicas de âmbito nacional. 
 
 Esta abordagem foi criticada com muita força por alguns autores porque "Este 
objectivo de pesquisa pressupõe (...) um método extremamente restrito que se 
relaciona com uma filosofia do Direito fraca, o positivismo jurídico, agregado com 
uma prática tecnicista e professionalista do Direito. A hipertrofia deste tipo de 
pesquisa jurídica explica-se historicamente pelos objectivos prosseguidos pelas 
faculdades de direito, seja a formação e a reprodução das elites profissionais 
(advogados, juizes, legisladores, funcionários) vocacionados principalmente à 
conservação e à consolidação do direito e da ideologia veinculada em ele"157. 
 
 Nessas circunstâncias a análise científica e crítica do direito tem muito 
dificuldade a se desenvolver. 
 
 Pode-se identificar três espaços práticos da investigação jurídica: a 
investigação dos práticos (2.1), a investigação encomendada (2.2) e a investigação 
académica (2.3). 
 
 2.1. A investigação dos práticos 
 
 Os práticos do Direito (advogados, notários, juizes, etc.) tem uma percepção e 
uma prática do Direito muito utilitária da investigação jurídica158. A sua função é de 
solucionar problemas práticos do Direito e, regra geral, esses práticos não têm a 
oportunidade, o tempo e a vontade de ir além do que é necessário para solucionar o 
problema prático que eles devem resolver. Assim, o seu método de pesquisa é 
essencialmente técnica e exprimem-se em pareceres jurídicos, actos e contratos ou 
decisões judiciais e sentenças arbitrais. 
 
 Nesta perspectiva, a investigação é condiciona pelo objectivo a atingir. Este 
tipo de pesquisa deveria ser, em princípio, exaustivo e exegético, mas de facto, os 
práticos seleccionam constantemente no Direito os elementos favoráveis para 
fundamentar a sua pretensão ou a decisão que querem aprovar159. Outro elemento 
que se deve realçar desta investigação é o seu carácter lucrativo e necessariamente 
limitado pelos meios e pelo tempo à disposição do pesquisador. Regra geral, as 
soluções aproximativas e expeditivas são preferidas a uma investigação científica 
apurada. 
 
 A experiência demonstra que é este tipo de pesquisa que será desenvolvida e 
praticada pela maior parte dos estudantes em Direito. Nessas condições, é 
importante identificar os constrangimentos e dificuldades em causa e, ao mesmo 
tempo, adquirir um método de trabalho que permite ultrapassar as situações 
negativas acima descritas e desenvolver e praticar uma análise mais profunda dos 
 
157 LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., op. cit., p. 7. 
158 LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., op. cit., p. 8. 
159 LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., op. cit., p. 9. 
 49 
fundamentos do Direito e da prática jurídica relacionada à solução ou ao tratamento 
de factos particulares. 
 
 2.2. A investigação encomendada 
 
 A investigação encomendada abrange um conjunto de actividades 
investigativas praticadas por centros de investigação especializados, públicos ou 
privados, ou por estruturas mais ou menos ligados a gabinetes de advogados ou de 
empresas de auditoria especializadas na actividade de consultoria. 
 
 Em Moçambique, o sector público é grande consumidor deste tipo de 
pesquisas. Os doadores internacionais alimentam substancialmente este tipo de 
actividade investigativa – mediante os organismos estatais160 - o que criou um 
verdadeiro mercado da consultoria jurídico. Este tipo de pesquisa depende 
principalemente das fontes de financiamento disponibilizadas e, pois, tem uma 
finalidade utilitária ligada a objectivos políticos ou institucionais precisos. 
 
 Todavia, apesar da qualidade científica de alguns estudos ou relatórios 
difundidos no âmbito deste tipo de pesquisa161, a maior parte dessas investigações 
permanecem limitadas a uma abordagem prática - no sentido definido na 
investigação dos práticos - com os seus defeitos. 
 
 2.3. A investigação académica 
 
 A pesquisa académica concentra-se, principalmente, nas Faculdades de 
Direito. A caractérística dominante deste tipo de pesquisa é, regra geral, que ela é 
gratuita, desenteressada e abstracta162. 
 
 O objectivo principal é a consolidação de um ramo de Direito para lhe dar uma 
apresentação coerente sobre o plano técnico. Como foi referenciado anteriormente, 
existe poucas construções jurídicas "monumentais" tipo manuais em Moçambique 
enquanto que o primeiro passo da pesquisa académica deveria ser a elaboração 
desta visão abrangente de uma disciplina jurídica, isto é, construir em primeiro lugar 
o edifício sólido da ciência jurídica nacional através dos manuais próprios a cada 
disciplina e depois deste esforço indispensável e necessário, orientar a investigação 
para uma temática mais específica e de actualidade. 
 
 É o desenvolvimento de uma verdadeira doutrina jurídica nacional que está 
em causa articulado em torno da elaboração das bases do conhecimento académico 
e de investigações mais especializadas capaz de influir sobre os espaços de produção 
do Direito como o Parlamento, o Governo ou os tribunais; como ensinam René 
LAPIERRE e CLAUDE THOMASSET: "Os professoresde universidade têm um papel 
primordial a desempenhar no desenvolvimento de uma pesquisa crítica do direito e 
 
160 Vide, por exemplo, os vários estudos encomendados pela Unidade Técnica da Reforma do Sector 
Público (UTRESP) no âmbito da Estratégia Global da Reforma do Sector Público (2001-2011). 
161 Infelizmente nem são todos difundidos e publicitados o que não permite avaliar objectivamente a 
qualidade desses trabalhos. 
162 LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., op. cit., p. 11. 
 50 
das instituições, porque elas gozam da liberdade académica que lhe permite 
contestar o direito existente, e pois as razões da autoridade, sem correr o risco de 
represálias ..."163. 
 
 3. Os objectivos da investigação em Direito 
 
 O estudo dos objectivos da investigação jurídica pode articular-se em torno de 
duas questões: a pesquisa para quem (3.1.) e a pesquisa para fazer o que (3.2.)? 
 
 3.1. A pesquisa para quem? 
 
 A quem dirige-se a pesquisa? 
 
 Regra geral, o potencial público destinatário da investigação (académicos, 
estudantes, público em geral ...) tem uma influência sobre o método de pesquisa 
utilizado e, por via de consequência, o resultado esperado está necessariamente 
influenciado por este elemento determinante164. Além disso, não é sempre fácil 
determinar, a partida, aquem se dirige uma investigação jurídica (vide, por exemplo, 
em matéria de pesquisas fundamentais não imediatamente utilizáveis)165. 
 
 3.2. A pesquisa para fazer o que? 
 
 Regra geral, a investigação jurídica é feita para responder a um problema 
específico ou a um conjunto de problemas que se colocam numa conjuntura dada166. 
Por exemplo, a realização de uma pesquisa visando a realização de um projecto ou 
proposta de lei ou de um projecto de decreto que tem por objectivo responder a 
uma necessidade social (por exemplo, a normação de algumas actividades 
industriais). 
 
 Dois tipos de finalidades podem ser destacadas. 
 
 Em primeiro lugar, a investigação pode ser "utilitária" e imediatamente 
utilizável para responder, principalmente, a um problema conjuntural. Este tipo de 
pesquisa induz, regra geral, uma produção pontual e limitada (elaboração de um 
processo, redacção de documentos ou relatórios)167. 
 
 Em segundo lugar, a investigação pode tomar a forma de uma "pesquisa 
fundamental" ou "substancial". Nesta perspectiva, a "utilidade" pode parecer menos 
evidente mas ela existe e é real. É este tipo de pesquisa que permite fazer progredir 
a análise e a reflexão do direito no seu conjunto e a construir uma verdadeira 
"escola" de direito nacional. 
 
 4. Os meios da investigação em Direito 
 
163 LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., op. cit., p. 13. 
164 LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., op. cit., p. 15. 
165 LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., Ibidem 
166 LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., op. cit., p. 16. 
167 LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., Ibidem 
 51 
 
 Os meios condicionam, de uma certa forma, a investigação. Por outras 
palavras, antes de iniciar uma pesquisa, é preciso ser consciente que as esperanças 
investigativas serão objectivamente limitadas pela quantidade e qualidade dos meios 
disponibilizados e que o método utlizado deverá tomar em conta esses 
constrangimentos. 
 
Assim, vários parâmetros devem ser tomado em conta, mais 
especificadamente o financiamento (4.1), o pessoal (4.2), a documentação (4.3), e o 
tempo (4.4.). 
 
4.1. O financiamento 
 
O financiamento da pesquisa jurídica tem um impacto directo ou indirecto 
sobre o investigador. Mas, num país em desenvolvimento como Moçambique, a 
dificuldade é ainda mais complexa porque a investigação jurídica não é uma 
prioridade das instituições públicas mais preocupadas, regra geral, pela gestão das 
necessidades básicas das populações. Deve-se bem reflectir sobre este desinteresse 
para o Direito. 
 
A construção de um Estado de Direito, de uma forma geral, e as reformas 
necessárias para tornar-se Moçambique atractivo para o investimento estrangeiro 
sustentável implicam necessariamente uma reflexão sobre as mudanças da ordem 
jurídica para responder a esses desafios. Assim, mais cedo ou mais tarde, a questão 
do Direito surgirá como uma necessidade. Sem uma planificação das reformas 
jurídicas a realizar e do financiamento do seu estudo, existe um risco real de produzir 
uma reflexão insuficientemente madura realizada na precipitação que induzirá perda 
de tempo e prejuízos para a comunidade. 
 
Assim, para prevenir esses efeitos negativos qualquer reforma política, 
económico ou social deveria integrar um vertente jurídico que delimitará, por um 
lado, o quadro legal dentro do qual essas reformas deverão ser desenvolvido e 
identificará, por outro lado, os poblemas jurídicos que deverão ser solucionados para 
permitir aquelas reformas minimizando, assim, as dificuldades concretas da sua 
aplicação. 
 
 4.2. O pessoal 
 
 As dificuldades em encontrar investigadores em direito bem como constituir 
núcleos de pesquisa no âmbito do direito não é um problema próprio a 
Moçambique168. 
 
 4.3. A documentação 
 
 
 
168 Vide, por exemplo, as dificuldades encontradas no Canadá, LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., op. 
cit., p. 16. 
 52 
 
 4.4. O tempo 
 
 
 
2. As modalidades da pesquisa: como pesquisar? 
 
 Perante uma diverdidade de métodos de pesquisa (), é preciso construir uma 
estratégia adaptada () 
 
 1. A diversidade de métodos de pesquisa 
 
 
 
 2. A estratégia da pesquisa em Direito 
 
 
 
 
 
 Quando um estudante do primeiro ano da Faculdade de Direito deve realizar 
uma trabalho pessoal ou estudar de maneira aprofundada uma questão de Direito, é 
perfeitamente compreensível que terá algumas dificuldades: Como iniciar? O que 
fazer169? 
 
Para fazer face a este questionamento natural, o estudante deve perceber, 
antes de tudo, quais são os objectivos a atingir. Estes podem ser apresentados da 
seguinte forma: o estudante deve poder em pouco tempo procurar as informações 
úteis e necessárias a sua investigação, por um lado, e as pesquisas devem ser 
cuidadosamente preparadas e conduzidas de forma progressiva, por outro. 
 
Nesta perspectiva, o jurista deve dividir o seu processo investigativo em três 
fases: adquirir o conhecimento básico (2.1), concentrar o estudo sobre uma questão 
precisa (2.2.) e realizar efectivamente a pesquisa (2.3). 
 
2.1. Adquirir os conhecimentos básicos 
 
Antes de iniciar qualquer trabalho jurídico ou tarefas investigativas, é preciso 
tomar conhecimento da matéria teórica. Assim, o estudo profundo de uma questão 
jurídica comença pela consulta dos instrumentos de trabalho habituais (Curso, 
Manuais). Neste sentido, é preciso encontrar, ler e entender a parte do curso ou do 
manual da disciplina, na hipótese onde existe, que trata da questão que precisa 
investigar. Regra geral, é preciso saber utilizar a documentação próxima antes de 
recorrer a outras. A aquisição de uma visão clara do contexto é um pressuposto a 
qualquer estudo profundo de um problema de Direito. Nesta fase prévia, será 
 
169 DEFRÉNOIS-SOULEAU I., Je veux réussir mon droit, Paris, Armand Colin, 1996, p. 61 e seguintes. 
 53 
também necessário esclarecer o sentido dos termos técnicos com a ajuda de um 
dicionário jurídico. 
 
2.2. Concentrar o estudo sobre uma questão suficientemente 
delimitada 
 
 A concentração implica um estudo profundo do tema em sí e do conteúdo da 
questão a solucionar. 
 
 Em primeiro lugar, é necessário bem equacionar o problema; como ensina 
Karl POPPER, “Uma pesquisa comença com um problema”170. Mas a questão 
fundamental é “Qual é o problema?” Esta questão não é de pura forma, pelocontrário, ela determina o conteúdo de todas as fases subsequentes da pesquisa. 
 
 Em segundo lugar, é preciso situar a questão a tratar no conjunto da matéria, 
isto significa encontar exactamente onde ela foi desenvolvida e tratada no Curso ou 
num manual. O objectivo principal, nesta fase, é medir a fisionomia geral da questão 
que constitui o objecto do estudo. 
 
 Em terceiro lugar, é preciso determinar com precisão o sentido do tema a 
tratar. Nesta perspectiva, é preciso pesquisar o sentido das palavras e o conteúdo da 
questão: quais são as noções, as ideais e normas chaves? 
 
Essas operações deveriam permitir equacionar correctamente o problema. A 
delimitação assim realizada constitui o quadro dentro do qual a pesquisa deve ser 
prosseguida. Nas fases posteriores da investigação este quadro deverá sempre 
constituir a referência à realização das operações subsequentes como a do 
levantamento da documentação pertinente na matéria. Apenas quando o tema ou a 
questão a investigar for entendida e delimitada é que se pode aproveitar da 
documentação ou de obras específicas. 
 
2.3. Realizar as pesquisas 
 
 Em qualquer obra ou documento que foi consultados na fase preliminar da 
pesquisa (Curso, Manual, Tratado e outros) encontram-se mencionados as fontes da 
reflexão exposta (artigos de doutrina, outros manuais ou tratados, actos normativos, 
etc...). É preciso notar as referências relevantes com todas as indicações necessárias 
para encontrar – nos espaços do conhecimentos jurídicos – essas fontes. 
 
 Depois de ter encontrado um conjunto de documentação sobre o tema ou a 
questão de direito a investigar, é preciso ler atentamente tudo que foi encontrado. 
Ao mesmo tempo que se efectua a leitura, é preciso activar sempre o tema objecto 
da investigação e os objectivos da investigação, isto permite seleccionar as 
informações úteis. No caso em que um extracto do documento consultado ou da 
obra consultada é considerado como importante, a solução é de fotocopiá-lo. Assim, 
poderá se estudadá-lo com mais ponderação e profundidade. É importante também 
 
170 Citado por PAUL FEYERABEND, op. cit., p. 23. 
 54 
seleccionar, dentro do conjunto dos documentos levantados, os que são 
efectivamente pertinentes pela investigação. No caso em que a pesquisa incide sobre 
uma análise de jurisprudência ou tem uma relação com decisões proferidas por 
tribunais, é recomendado constituir fichas de jurisprudência. Na análise da doutrina é 
importante notar as principais opiniões desenvolvidas e onde foram desenvolvidas, 
isto é, a sua localização; isto permitirá citar facilmente as suas fontes. Pode-se 
também resumir um raciocínio ou uma argumentação. 
 
 Regra geral, é preciso habituar-se a relizar uma lista de tudo o que procurado 
e o que foi útil e relevante em relação à questão investigada. 
 
 
SECÇÃO 2. A GESTÃO E O DESENVOLVIMENTO DO SABER JURÍDICO 
 
 Qualquer jurista armazena informações – livros, revistas, relatórios, extractos 
de jornais, etc... – com o objectivo de as explorar em caso de necessidade. 
 
 RESERVADO 
 
 
§1. A criação de uma biblioteca de obras usuais 
 
 
 
 §2. A criação e conservação de uma documentação 
 
 
 
Sem pretender a exaustividade, uma das técnicas mais simples é a constituição de 
“dossiers temáticos” que podem reagrupar todos tipos de informações em relação a 
um tema, uma disciplina ou uma questão determinada e a constituição de fichas de 
leitura. 
 
Por exemplo: 
 
Disciplina determinada: Todas as informações veículadas pelos órgãos de 
comunicação social ligadas ao Direito Constitucional (actividades da Assembleia da 
República, debates nas comissões parlamentares, actividades do Governo, Questões 
constitucionais, etc...). 
 
Uma questões determinada: Todas as informações ligadas ao Direito de Uso e 
Aproveitamento da Terra. 
 
 Este trabalho que pode aparecer como rotineiro, não é, pelo contrário. Em 
primeiro lugar, para os investigadores de uma disciplina, isto permite sempre ter 
uma informação actualizada sobre a ecologia da disciplina, o que permitirá situar 
melhor a sua evolução na sociedade. Em segundo lugar, no que diz respeito a uma 
 55 
questão jurídica em particular, a constitução de dossiers temáticos permite identificar 
os dados práticos interligados com a questão de direito. 
 
Um tema determinado: Todas as informações relacinadas com a “Administração 
Pública”. 
 
 §3. O uso das novas tecnologias da informação 
 
 
 
 
SECÇÃO 3. A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PESSOAL 
 
 A organização das relações de trabalho contribui (§1), assim como a gestão 
do seu tempo (§2), ao aumento do seu rendimento e em criar um ambiente 
favorável ao seu crescimento. 
 
§1. A organização das relações de trabalho 
 
 Cada estudante organiza o seu trabalho como ele entende, todavia, as 
necessidades da vida e do trabalho universitários impõem que o estudante tome em 
consideração as relações típicas e inerentes a esta vida ou a este trabalho para 
organizar melhor o seu trabalho pessoal. 
 
 Principalmente, o estudante deverá estabelecer relações de trabalho com os 
docentes (A), outros estudantes (B) e práticos do Direito (C). 
 
A. A relação de trabalho com os docentes 
 
 Quem são os docentes (a) e como se relacionar com eles (b)? 
 
a) Os docentes 
 
 Geralmente os docentes são antigos estudantes – em princípio os melhores – 
que escolheram esta profissão por vocação. Vide REGULAMENTO DA CARREIRA 
DOCENTE UEM. Com efeito, não se deve pensar que a docência é a melhor via para 
ganhar fortunas. Pelo contrário, o que anima o docente é um conjunto de valores 
“não lucrativas”: a curiosidade científica, o gosto pela pesquisa, a vontade de 
contribuir para a resolução dos problemas da sociedade, a partilha do seu saber para 
contribuir ao aumento do saber na sua globalidade. Isto pode conduzir a situações 
de prestígio e de grande reputação para alguns docentes mas isto, é mais o 
resultado lógico do seu trabalho do que uma vontade ou uma estratégia deliberada 
de produzir “honores”. Por outras, palavras, prestígio e reputação não são os fins do 
docente mas as consequências hipotéticas de uma trabalho muito arduo e 
desinteressado. 
 
 Contrariamente ao um conjunto de ideias preconcebidas, a actividade do 
docente não se limita a dar aulas. Isto é a parte visível do iceberg. A preparação das 
 56 
aulas – actualização, integração de novos conceitos e novas teorias, novas reflexões 
e melhor arrumação do saber -, a correção das provas, as avaliações, as direcções 
de trabalhos de fim de curso ou de teses de mestrado, a organização dos trabalhos 
práticos, assim como as actividades dedicadas a pesquisa e a preparação de 
comunicações para “workshops” ou palestras representam um volume de trabalho 
considerável muito mais além do que dar aulas. 
 
 b) O relacionamento com os docentes 
 
 Em princípio os docentes estão à disposição dos estudantes. É o trabalho 
deles de responder às questões e preocupações dos estudantes. Como imaginar ou 
pensar o contrário? Neste sentido, os docentes deverão esclarecer quaisquer dúvidas 
relacionadas com a organização da disciplina leccionada ou do seu conteúdo. Assim, 
é possível, até recomendado, fazer perguntas ao docente em particular durante o 
intervalo ou no fim das aulas ou marcar com ele um encontro de trabalho na ocasião 
de sessões previstas para este efeito. 
 
 Para estabelecer uma relação de trabalho produtiva é ser atendido nas seus 
preocupações é preciso evitar qualquer agressividade nas relações com os docentes. 
Numa relação recíproca o respeito e a cortesia são essenciais; como escreve MARIE-
ANNE COHENDET: “Les enseignants vous rendent le respect que vous leur donnez, 
et réciproquement”171. Respeite os seus docentes e eles te respeitarão. 
 
 Não deve ter qualquerhesitação em fazer perguntas e pedir conselhos. É um 
reflexo fundamental cuja razão pedagógica já foi exposta nos desenvolvimentos 
anteriores172. A instauração de um diálogo permanente entre os estudantes e os 
docentes deve nortear a forma de relacionamento entre eles. Não se deve pensar 
este relacionamento em termos de subordinados e de superiores mas, pelo contrário, 
entre adultos responsáveis. 
 
 Este relacionamento tornará-se-à particularmente importante na fase de 
elaboração do trabalho de fim de curso ou de tese de mestrado. Na preparação 
desses trabalhos, os estudantes são menos numerosos e os debates muito mais 
aprofundados. 
 
 Um espaço importante de diálogo pode ocorrer na ocasião da consulta das 
provas. É importante dialogar com o docente que avaliou o seu trabalho não para 
contestar a avaliação atribuída – salvo erro material da nota, a avaliação não será 
alterada -, mas para entender o porque da sua avaliação a fim de poder melhorar a 
qualidade das provas e realizar uma auto-avaliação do seu próprio trabalho. Tudo 
isso poderá contribuir para corrigir algumas deficiências em termo de assimilação da 
matéria ou das técnicas jurídicas desenvolvidas no âmbito dos trabalhos práticos. 
 
B. A relação de trabalho com outros estudantes 
 
 
171 COHENDET M.A., op. cit., p. 63. 
172 
 57 
 Parafraseando MARIE-ANNE COHENDET: “La solitude est le pire ennemi de 
l’étudiant”173. Com efeito, é com muita dificuldades que o estudante solitário poderá 
vincer alguns problemas ou dificuldades de forma ou de contéudo. O debate entre 
estudantes não permite solucionar apenas esses problemas ou dificuldades de 
natureza jurídica mas, ao mesmo tempo, contribui para a formação do 
comportamento social do estudante na constitução do seu lugar na sociedade. Com 
efeito, defender as suas ideias, aprender a ouvir e a tomar a palavra no seio de um 
grupo de colegas é extremamente formador não só no âmbito estudiantil e 
universitário mas também no relacionamento com os outros em geral. Aprender o 
respeito dos outros e a humildade no trabalho em grupo de estudantes contribui, 
sem dúvida, à formação de uma correcta postura social e do ser do estudante numa 
sociedade. 
 
 A técnica aconselhada é desde o início do ano académico constituir grupos de 
trabalho, entre estudantes, por afinidades, cujo número não deveria ultrapassar 
cinco ou seis estudantes – um número mais elevado poderia prejudicar o bom 
rendimento do trabalho do grupo -, e estabelecer uma planificação das sessões de 
trabalho semanal; por exemplo uma ou várias sessões por semana na Faculdade ou 
no domicílio de cada membro do grupo. 
 
 São numerosas as acções a realizar: 
 
- debater sobre os conceitos insuficientementes assimilados; 
- preparar os trabalhos práticos; 
- preparar as exposições orais; 
- fazer a revisão do conteúdo das aulas; 
- repartir o trabalho de investigação; 
- elaborar fichas ou resumos, etc... 
 
Regularmente, o grupo de trabalho deve fazer o ponto da situação sobre o 
grau de conhecimento adquiridos dos seus membros. Por isto, os membros do grupo 
podem interrogar-se em conjunto e assim avaliar o grau de conhecimento de cada 
um numa determinada disciplina jurídica. 
 
O trabalho em grupo permite também trabalhar a sua exposição oral, antes de 
fazer a sua apresentação na aula prática. Este treinamento permite melhorar o seu 
conteúdo, dominar o tempo e avaliar a sua compreensão pelo público. 
 
Regra geral, os melhores estudantes fazem parte de um grupo de trabalho, 
isto significa que a ajuda mútua permite melhorar as capacidades de cada um. 
 
C. A relação de trabalho com os práticos 
 
 O relacionamento com os práticos é muito útil quando se trata de realizar uma 
investigação necessitando dados concretos (a). Além disso, pode ser proveitoso 
 
173 COHENDET M.A., op. cit., p. 63. 
 58 
conversar com os práticos sobre o próprio conteúdo da profissão que eles exercem 
(b). 
 
a) Preparar uma investigação necessitando informações práticas 
 
 No caso de uma exposição oral, de preparação de uma tese de licenciatura ou 
de mestrado necessita o conhecimento prático do Direito, a melhor solução é 
encontrar os práticos que, no âmbito da sua investigação, poderão dar a melhor 
informação e conhecimentos práticos no que diz respeito ao tema investigado. 
Assim, funcionários da Administração Pública, magistrados, advogados, notários 
poderão partilhar com o estudante investigador o seu saber-fazer num determinado 
sector do Direito. Todavia, encontrar os práticos do Direito não é uma improvisação. 
Em princípio, os práticos têm uma vida profissional bem carregada e é necessário 
tomar algumas medidas cautelares. 
 
 Em primeiro lugar, o estudante deve bem conhecer – teoricamente – o tema 
objecto da investigação. Sem este pressuposto seria um tempo perdido e o prático 
ficaria aborecido. 
 
 Em segundo lugar, é útil preparar um lista de questões relevantes para a sua 
investigação. Isto, demonstrará que o estudante é sério e que trabalhou a questão. É 
importante durante a entrevista notar o máximo de informações; pode-se utilizar, se 
o prático concorda com isso, um gravador. Isto será muito útil quando o investigador 
deverá explorar o conjunto das informações fornecidas pelo prático. 
 
b) Conhecer os profissionais do Direito 
 
 Os encontros com os práticos permite também conhecer concretamente o 
conteúdo concreto da sua actividade. Assim, conhecer a profissão será muito 
benéfico para escolher a sua via profissional ou elaborar uma estratégia para atingir 
este objectivo. Neste sentido, a prática de estágios nas administrações centrais ou 
locais do Estado, nas empresas ou nas associações ou organizações não 
governamentais nacionais ou estrangeiras é extremamente útil para ter uma ideia 
precisa sobre a actividade desses organismos ou instituições mas também para 
concorrer nessas respectivas instituições ou organismos uma vez acabado o seu 
percurso universitário. 
 
§2. A gestão do tempo 
 
 O seu trabalho pessoal situa-se no tempo. Assim, se pode identificar três 
planos distintos174 que necessitam uma organização específica do trabalho pessoal: a 
muito curto prazo (A), a curto prazo (B), a meio prazo (C) e a longo prazo (D). 
 
A. A muito curto prazo 
 
 
174 Adoptar-se-à a sequência proposta por MARIE-ANNE COHENDET, op. cit., p. 65 e seguintes. 
 59 
 Deve-se entender por curto prazo, concretamente, a preparação da exposição 
oral (a), do teste ou do exame e de uma forma geral de uma prova (b). 
 
 Saber dominar o tempo na preparação desses eventos é difícil mas, em 
contrapartida, é a aprendizagem de uma disciplina estruturante da sua vida 
profissional e do respeito pelos outros. 
 
a) O tempo da exposição oral 
 
 O tempo atribuído pelo docente no quadro dos trabalhos práticos para uma 
apresentação oral deve ser escrupolosamente respeitado. A duração é geralmente 
entre 10 a 20 minutos. O objectivo não é de não deixar o estudante se exprimir e 
desenvolver o tema mas avaliar a sua capacidade de síntese e de identificação dos 
elementos essenciais do tema a desenvolver. Uma exposição oral breve e clara é 
muito melhor que uma demonstração demorosa onde o público percebeu 10% do 
conteúdo e onde a maior parte do referido público expressa sinais de consaço. 
 
 Uma vez a exposição pronta, é preciso treino. O treino pode ser feito sozinho 
falando várias vezes e cronometrando-se para não ultrapassar o tempo previsto. É 
claro que o treino pode ser, também, realizado no grupo de trabalho com o apoio 
dos membros deste. Caso o estudante verifique que demorou na apresentação de 
alguns desenvolvimentos da sua exposição não é aconselhavél acelerar oritmo da 
exposição a consequência seria que a maior parte do público não poderá tomar 
notas ou não entenderá o conteúdo da sua exposição, É melhor, nessas condições, 
amputar a exposição oral dos desenvolvimentos considerados como não 
indispensáveis. O ritmo deve prevalecer sobre o conteúdo para permitir a 
transmitição de uma informação clara. 
 
 b) O tempo na prova 
 
 RESERVADO 
 
 
 Os testes e os examens 
 
B. A curto prazo 
 
 
 
 C. A meio prazo 
 
 
 
 D. A longo prazo 
 
 
 
 
 60 
 
Bibliografia: 
 
 
 Bibliografia geral 
 
- BATIFOULIER C. E PASQUIER M.H., Organiser sa documentation et savoir consulter d'autres 
sources, Paris, Ed. du Centre de formation et de perfectionnement des journalistes, 1993; 
- BERGEL J.L., Teoria Geral do Direito, Martins Fontes, São PAULo, 2001; 
- COHENDET M.A., Méthodes de travail. Droit Public, Ed. Montchrestien, E.J.A., 1994; 
- DEFRÉNOIS-SOULEAU I., Je veux réussir mon droit, Paris, Armand Colin, 1996; 
- MAZEAUD H. e MAZEAUD D., Méthodes de travail, Ed., Montchrestien, EJA, 1996; 
- PANSIER F.J., Méthodologie du droit, Paris, Ed. Litec, 2002. 
 
 A pesquisa em direito 
 
- AMSELEK P., “Éléments d’une définition de la recherche juridique“, in APD, T. 24, Les biens 
et les choses, Sirey, 1979, pp. 297-305. 
- LAPERRIÈRE R., "À la recherche de la science juridique", em Le droit dans tous ses états, 
(Ed. R.D. BUREAU e P. MACKAY), Montréal, Wilson e Lafleur, 1987, pp. 515-526. 
- LAPERRIÈRE R. e THOMASSET Cl., Méthodologie de la recherche juridique, Université du 
Québec à Montréal, Département des sciences juridiques, 1997. 
- THOMASSET Cl., "L'enseignement critique et le rôle social du professeur", in L'enseignement 
critique du droit: Journée d'étude, Dir. LOUISe LANGEVIN, Publications du GEPTUD, Faculté 
de droit, Université Laval, Ste-Foy, 1996, pp. 11-23. 
 
 A Linguagem jurídica 
 
- ASSIER-ANDRIEU L., Le droit dans les sociétés humaines, Paris, Éd. Nathan, 1996, p. 45 e 
seguintes. 
- BATIFFOL H., "Observations sur la spécificité du vocabulaire juridique", in Mélanges dédiés à 
Gabriel MARTY, Université des Sciences Sociales de Toulouse, 1978, pp. 35-44; 
- BERGEL J.L., Teoria Geral do Direito, Martins Fontes, São PAULo, 2001, pp. 289-315; 
- CORNU G., Linguistique juridique, Paris, Ed. Montchrestien, 1990; 
- EISENMANN C., “Quelques problèmes de méthodologie des définitions et des classifications en 
science juridique“, in APD, T. XI, La logique du droit, Sirey, 1966, pp. 25- 43; 
- MARINHO C., A linguagem no Direito. Análise semântica, sintática e pragmática da linguagem 
jurídica, em http://cristianemarinho.vilabol.uol.com.br/16.html 
- SILVA ANTUNES PIRES C. (da), "Língua e Ciência Jurídica. Da Formulação do Direito à 
Transposição Linguística. Dúvidas e Perplexidades", em 
http://www.dsaj.gov.mo/macaolaw/pt/mag_display.asp?issue=5&offset=0; 
- SCHMIDT C., "La langue juridique: maux et remèdes", em http://www.uni-
trier.de/uni/fb5/ffa/lehrmaterialien.htm; 
- SOURIOUX J.L., "Pour l'apprentissage du langage du droit", in RTD civ. (2) avr-juin 1979, pp. 
343-353. 
 61 
CAPÍTULO II – O SABER FAZER JURÍDICO 
 
 
 A Reforma Curricular da Licenciatura em Direito na Universidade Eduardo 
Mondlane insistiu com um particular destaque sobre o “Saber Fazer” e, 
nomeadamente, os espaços onde deveriam se materializar, isto é, os trabalhos 
práticos. 
 
 Entende-se por “Saber Fazer”, o conjunto dos conhecimentos, experiências e 
técnicas acumuladas por uma pessoa ou grupos de pessoas, que se pode por à 
disposição de outrem, a título gratuito ou oneroso. Assim, trata-se de habilidades em 
solucionar ou resolver problemas e competências ou experiências desenvolvidas no 
exercício de uma actividade, que esta actividade seja intelectual ou não. 
 
 No mundo do Direito essas experiências ou habilidades são numerosas. Cada 
jurista no seu âmbito de actividade desenvolveu um “saber fazer” próprio. Por 
exemplo, a redacção de um contrato ou de uma petição, a elaboração de um ante-
projecto de lei ou de um decreto necessitam de um saber fazer específico. Cada 
jurista envolvido numa operação jurídica em particular, tem as suas habilidades em 
realizar um determinado trabalho jurídico. 
 
 No âmbito deste desenvolvimento trata-se da aplicação e da implementação 
do pensamento jurídico através de exercício prático que representa a essência do 
saber fazer jurídico. Com efeito, não seria materialmente possível no âmbito de um 
curso de metodologia jurídica, com os seus constrangimentos institucionais e 
temporais, analisar exaustivamente o conjunto das habilidades necessárias para 
realizar um determinado trabaho jurídico em especial. A especificidade própria a 
cada trabalho jurídico deveria ser analisado no âmbito de cada disciplina (por 
exemplo: o método de redacção contratual no âmbito do Direito das Obrigações ou o 
método de redacção de uma petição no âmbito do Direito Processual Civil). É 
também uma maneira de aprender; como refere Dan HUNTER: "Though it is 
important to provide conceptual framework for students, it is equally important for 
students to learn by doing"175. 
 
 Assim, é preciso seleccionar alguns exercícios que podem permitir adquirir 
habilidades gerais susceptíveis de ser desenvolvidas em qualquer trabalho jurídico 
em especial. Neste perspectiva, o estudo do método da realização de uma trabalho 
jurídico em geral permite adquirir regras metodológicas gerais neste sentido 
(SECÇÃO 1). O estudo de alguns exercícios em especial permitirá aplicar e 
implementar essas habilidades gerais sem ter por finalidade a exaustividade 
(SECÇÃO 2). 
 
 
SECÇÃO 1. O MÉTODO DA REALIZAÇÃO DO TRABALHO JURÍDICO EM 
GERAL 
 
 
175 HUNTER D., "Legal Teaching And Learning Over The Web", op. cit. 
 62 
 Não se deve perder de vista que as técnicas apresentadas constituem a 
aplicação e a implementação do pensamento jurídico e que elas devem respeitar a 
sua exigência: rigor, objectividade, pensamento analítico e de síntese, prático, 
teórico e crítico. 
 
 RESERVADO 
 
 
 
 
SECÇÃO 2. O MÉTODO DA REALIZAÇÃO DO TRABALHO JURÍDICO EM 
ESPECIAL 
 
 A escolha dos exercícios aqui apresentado é subjectiva mas não totalmente. 
Esses exercícios, praticados de uma forma regular, permitem adquirir experiências e 
competências genéricas capazes de serem utilizadas ou úteis em relação à realização 
de vários tipos de “maneira de fazer” prático em especial. 
 
 Assim, serão apresentados a dissertação jurídica (§1), a análise ou comentário 
de texto (§2), a resolução de caso prático (§3) e a exposição oral (§4). Além desses 
exercício geralmente desenvolvidos nas faculdades de direito dos países de tradição 
romano-germánica, é preciso, também, aproveitar-se das experiências dos países 
anglosaxónicos em matéria da “educação em direito”176. Assim, previleriar-se-à o 
estudo do método casual (§5) e dos julgamentos fictícios (§6). 
 
§1. A dissertação jurídica 
 
 RESERVADO 
 
A. Definição. Definir é em mesmo tempo atribuir um sentido e fixar 
um limite, isto é, a noção em si e em relação às outras. 
 
 A dissertação jurídica consiste em expôr, de uma maneira substancial, 
coerente, e sintética, os diversos dados jurídicos referidos pelo tema a tratar. 
Noutros termos, a dissertação jurídica é um trabalho que tem uma certa 
originalidade, pressupondo conhecimentos sólidos; ela implica uma reflexão e uma 
mestria suficiente destes para poder expô-los, combiná-los e com eles fazer uma 
construção. 
 
Em regra geral, trata-se de um tema de síntese que permite verificar que o 
estudante domina, a materia e tem o espírito de síntese. Por outras palavras, na 
prática a dissertação materializa-se em forma da redação de um artigo para uma 
revista jurídica, da realização de uma comunicação paraum seminário ou um 
colóquio, de uma obra de doutrimna . Trata-se de demonstrar uma tese, ou, pelo 
mesmo, no primeiro ano da faculdade uma capacidade argumentativa orientada em 
 
176 GORDON R.W., “A educação em direito nos Estados Unidos: origens e desevolvimento”, em 
http://usinfo.state.gov/journals/itdhr/08202.htm 
 63 
torno de duas ou mais ideias centrais a partir dos conhecimentos adquiridos nas 
aulas. 
 
B. Razão de ser 
 
 A dissertação jurídica é um excelente exercício intelectual que permite medir, 
em primeiro lugar, a capacidade de teorisação do autor, em segundo lugar, verificar 
se o autor domina a matéria e, finalmente, se o autor tem um pensamento sintético. 
 
C. Técnica 
 
a) A preparação 
 
 Em primeiro lugar é preciso ler várias vezes e com cuidado o tema de maneira 
articulada, com atenção, e sem nenhuma a priori (Estudar o senso do tema : 
observar tudo, cada vírgula, os singulares, os plurais, as conjunções de coordenação, 
etc.). 
 
 Em segundo lugar, rememorar-se as definições de todos os termos e 
expressões que o compõem. Delimitar o tema em relação às noções semelhantes. O 
estudo dos termos, as fórmulas e as locuções, fazem, muitas vezes, pressentir quais 
serão as partes essenciais da composição. 
 
 Em terceiro lugar, localizar no plano geral das aulas, as noções por ele 
tratadas. 
 
 Em quarto lugar, apresentar por escrito o inventário resumido dos 
conhecimentos que se tem sobre estas noções (fixar os conceitos essenciais, 
especificar as soluções e fontes do direito positivo e da ciência jurídica). 
 
 Finalmente, ter sempre um pensamento crítico sobre o tema a tratar. A crítica, 
no sentido universitário do termo, não consiste em denegrir o legislador ou o juiz. Ela 
consiste em dizer, duma forma objectiva e motivada, em que aspecto tal solução é, 
ou não é, satisfatória ou fundamentada. Por outras palavras, a ou as análises críticas 
devem ser jurídicas, o que quer dizer fundamentadas sobre argumentos relativos ao 
direito e a sua coerência. 
 
b) O plano 
 
 Um plano não é um esboço arbitrário, mas um desenvolvimento logico do 
pensamento. Ele está ao serviço do discurso. O plano é o meio mais cómodo para 
expôr de maneira racional, condensada, e facilmente inteligivel, os diversos dados 
constitutivos duma questão. Em outros termos, o plano é uma ordem na exposição 
das ideias. Ele estrutura a demonstração. 
 
 Em primerio lugar, é preciso tomar as decisões necessárias, sobre o fundo e 
sobre o tipo de exercício (descrição, demonstração, discussão, comparação, 
evolução) para adaptar os seus conhecimentos ao tema de dissertação ele mesmo. 
 64 
 
 Em segundo lugar, reagrupar as diversas observações em dois ou três blocos, 
caracterizados cada um por um eixo director, de tal maneira que a composição trate 
a matéria com coerência (escolher os grandes eixos e os grandes polos de 
interesse). O essencial é conseguir estabelecer uma classificação dos elementos que 
se deseja expôr, e ordenar assim o seu desenvolvimento em torno de duas ou três 
noções ou ideias-matrizes cuja justaposição construirá um discurso claro. Em regra 
geral, é o próprio tema e sobretudo a abordagem que temos, que vai impôr o plano. 
 
c) A redacção 
 
 A dissertação está concebida, falta redigí-la. 
 
 Na dissertação jurídica a introdução é de uma peculiar importância. A 
introdução177 deve apresentar o tema (situar o tema e precisar o seu conteúdo), 
preparar ao estudo da matéria (pôr em evidência a importância extra-jurídica do 
tema, pôr em evidência a importância jurídica do tema), e anunciar o plano. 
 
De uma maneira sintética e resumida, MARIE-ANNE COHENDET propõe um 
meio mnemotécnico para memorizar a sequência de todos os elementos que devem 
integrar uma boa introdução: “D.L.A.I.C.H.P.A”178. Este guião deve ser realizado no 
início da sua reflexão, no âmbito da aplicação do pensamento analítico ao tema, 
antes de elaborar o plano detalhado. 
 
 D: Definição do tema. 
 
 A definição do tema é uma operação que consiste em definir palavra por 
palavra os termos contidos na formulação do tema e em definir o tema no seu 
conjunto. Este exercício é importante porque permite entender o tema e incita em 
reflectir sobre as diferentes concepções possíveis. A definição do tema no seu 
conjunto deverá ser justificada e aplicada com rigor no desenvolvimento do tema. 
 
L: Limites do tema 
 
 Traçar os limites do tema, isto significa, delimitar o tema no tempo, no espaço 
e na matéria. Quando o tema não tem nenhuma indicação expressa sobre o tempo, 
o espaço ou a matéria, é melhor optar por um estudo lato do tema. Por exemplo: se 
o tema é “O juiz administrativo garante das liberdades fundamentais”, o tema deve 
ser estudado relacionado a todos os países (pelo menos os que conhecem esta 
figura) e num período de tempo não espeficidado. Nestas circunstâncias qualquer 
restrição do tema deve ser objectivamente fundamentada. 
 
 A: Actualidade do tema 
 
 
177 «A introdução, é a porta que permite o acesso à casa; à conclusão, é a janela que se abre e que 
permite aperceber-se de outros horizontes», Professor JEAN-PIERRE LASSALE. 
178 COHENDET M.A., op. cit., p. 118 e seguintes. 
 65 
 Cada vez que o tema o permite é desejável integrar na sua introdução 
elementos de actualidade relacionados com o tema. 
 
 I: Interesse do tema 
 
 (Práticos, Teóricos e Pedogógicos) 
 
 C: Direito Comparado 
 
 É importante posicionar o tema no espaço. 
 
 H: Histórico 
 
 É também importante posicionar o tema no tempo. As instituições e as regras 
de Direito têm uma história que, na maior parte dos casos, determinou a sua 
estrutura. As vezes apenas podem entender a sua morfologia actual se foi analisado 
a sua história. 
 
 P: Problemática 
 
 A: Anúncio do Plano 
 
 
 Em outros termos, ela deve colocar a questão no conjunto da matéria, indicar 
as suas particularidades, a sua terminologia, e finalmente, acabar anunciando o 
plano. Em regra geral, ela deve começar por uma frase que deve despertar a 
atenção do leitor. Ela terminará sempre pela explicação da sua problemática179, o 
que quer dizer, deve fazer entender ao leitor quais são os problemas maiores que 
são colocados, e porquê se vai tratar o tema de tal maneira. A última frase 
compreenderá sempre o anúncio do seu plano que será formulado de maneira 
simples e clara. 
 
 — O plano deve ser claramente apresentado; por isso, indicam-se os títulos 
das partes e das sub-partes. 
 
 — No fim de cada subdivisão deve-ter-se o cuidado de colocar uma frase de 
transição, para evitar uma mudança de tema demasiado brusca. 
 
 — As partes devem ser equilibradas. 
 
§2. O comentário de texto 
 
 
 
A. Definição 
 
 
179 A problemática deve ser a conclusão lógica e necessária da introdução. 
 66 
 No exercício do comentário de texto, trata-se de demonstrar porquê e como o 
autor do texto tem adoptado tal ou tal atitude e construir um juizo pessoal crítico e 
argumentado sobre este. Por outras palavras, comentar um texto consiste em 
adoptar um procedimento temático e sintético, acompanhando-se de uma 
interpretação mais ou menos livre e mais ou menos pessoal de um texto. Noutros 
termos, comentar é fazer um exame crítico do conteúdo e da forma de um texto. 
Vários são os textos cujos comentários são fornecidos durante as aulas e nos 
manuais (artigos da Constituição, disposições de leis ou de decretos, sentenças, 
extraídas de obras de doutrina, etc...). O primeiro trabalho deve consistir em situar o 
texto a comentar na materia e relacioná-lo com as questões tratadas no programa. 
 
 B. Razão de ser 
 
 
 
C. Técnica 
 
a) A preparação 
 
— a situação do texto consisteem indicar : a data, o autor, a referência (artigo de 
uma revista, monografia, texto normativo, etc...), o tipo de texto abordado, o 
contexto (isto é, a localização exacta de um extracto de texto bem como o meio 
social e profissional). 
 
— a investigação das palavras—chave : procurar os termos ou as ideais que 
apresentem um interesse particular para a compreensão do texto. 
 
— a investigação da construção do texto : ter em conta a construção tipográfica 
(com isto queremos dizer essencialmente, a abertura de novos parágrafos. 
Frequentemente, o número de parágrafos é um indício interessante da organização 
do conteúdo. A partir da altura em que o número é reduzido, isto reflete uma 
concentração da matéria tratada em alguns pontos fortes claramentes distintos; se, 
ao contrário, a composição é menos densa, é necessario dar-se uma atenção 
particular à coordenação das ideais), a construção gramatical (conjuncões de 
coordenação, advérbios), a construção lógica (a passagem de uma forma de 
raciocínio à uma outra). 
 
— estude o sentido do texto : identifique, formule, explique o conteúdo do texto 
(Qual é a situação por ele visada? Qual é o sistema por ele instituído? Quais são as 
regras por ele editadas? Que noções estão aqui definidas? ou implicadas? Que 
pontos de vista estão aqui expressos? ou criticados?). Deve não só identificar e 
explicar o sentido geral do texto a comentar, mas também o sentido de cada um das 
partes separadas. 
 
 Se a estrutura do texto não lhe fornece o plano do comentário, deve elaborar 
um plano a partir do conteúdo do texto, isto é, das ideias essenciais que nele são 
expressas. Para evitar sair do texto, seremos obrigado a citar regularmente, em cada 
uma de subdivisões adoptadas. Cada vez que for possível, os títulos retomarão 
 67 
certos termos ou certas expressões do texto a comentar. Todos os elementos 
importantes do texto devem ser evocados. De mesma maneira, explicaremos e 
criticaremos o texto com rigor e prudência, fazendo prova de uma certa finesa na 
análise. 
 
 O comentário de decisões de justiça implica regras específicas. A finalidade do 
comentário de acórdão é de explicar de uma maneira crítica, porquê e como um juíz 
adoptou uma determinada solução em relação a um problema jurídico particular e 
quais serão as consequências desta decisão para o futuro. Para analisar claramente 
estes elementos, pode-se raciocinar numa ordem cronológica. Em primeiro lugar, 
como se situa esta decisão em relação ao passado : o sentido da decisão (estado do 
direito antes da decisão e analisar a decisão do juíz em relação ao estado do direito 
anterior). Depois, como se situa esta decisão em relação ao futuro : incidência da 
decisão (que consequências esta decisão terá no futuro, qual será a sua influência 
jurisprudencial). 
 
b) O plano 
 
 Em regra geral, um comentário de texto é elaborado segundo o plano do 
próprio texto. 
 
 Se o texto for curto e se tiver só uma frase, deve apoiar-se na sua estrutura 
gramatical e lógica. 
 
 Se o texto fôr mais longo, siga as suas divisões em alíneas, em artigos ou em 
parágrafos. 
 
 Se fôr impossivel encontrar um plano na estrutura do texto, procure um plano 
no seu conteúdo, nas noções por ele tratadas, as ideias que nele são expressas. 
Neste caso, vale do que o seu plano abranja o conjunto do texto e lhe permita 
comentá-lo na sua totalidade sem distanciar-se dele. 
 
 Deve expôr os seus conhecimentos relacionando-os sempre com o texto. 
 
 Ao conteúdo do texto, deve acrescentar uma quantidade de informações. 
Cada palavra e cada frase será um ponto de partida para novos pontos de vista. 
 
 Pelo comentário de decisão de justiça : uma frase preliminar para situar o 
tema, recordar os factos, evocação dos problemas secundários, apresentação dos 
problemas de direito e anúncio do plano (tratar-se da problemática : qual é ou quais 
são os problemas jurídicos que fazem todo o interesse da decisão?). 
 
 c) A redacção 
 
 
 
 §3. O caso prático 
 
 68 
 
 
A. Definição 
 
 O caso prático é um exercício no qual o estudante é chamado a tomar 
conhecimento de uma situação de facto, a descobrir as dificuldades jurídicas que 
esta contêm, e enunciar para cada uma, de uma maneira fundamentada, a solução 
mais verosímil no estado actual do direito positivo. O objectivo é de demonstrar qual 
é a solução jurídica de um problema de direito concreto. A demonstração deve ser 
clara, coerente e rigorosa, porque o objectivo do trabalho é explicar um problema 
jurídico e convencer que a solução proposta é a mais pertinente180. 
 
 B. Razão de ser 
 
 O caso prático permite verificar a aptidão do estudante ao raciocínio jurídico. 
Regra geral, este exercício apresenta-se sob a forma de uma pequena história que 
envolve vários protagonistas e que culmina num litígio que é preciso resolver. O caso 
prático constitui um exercício delicado porque é preciso bem perceber o problema 
jurídico que suscita a situação de facto, depois, descobrir a solução abstracta e 
finalmente, aplicar esta solução ao caso concreto em discussão. 
 
C. Técnica 
 
 
 
 x) As fases da resolução 
 
 A técnica consiste em encontrar a solução da aplicação das regras de direito, 
tendo préviamente justificado a escolha e a aplicação destas regras por uma 
qualificação jurídica exacta da situação. 
 
 Em todas as respostas devem, por conseguinte, figurar estas três 
componentes do raciocínio jurídico : selecção dos factos relevantes (a) qualificações 
jurídicas (b), regras de direito aplicáveis (c) e soluções (d). Por outras palavras, 
qualquer que seja o número de problemas, é preciso aplicar sempre esta sequência. 
 
 A demonstração sempre deve ser simples e clara para o leitor ou auditor 
porque o ponto de partido é de que esses ignoram tudo da questão. Este 
pressuposto é necessário porque corre-se o risco de negligenciar alguns aspectos 
fundamentais do problema acreditando que estes são tão evidentes que não 
precisam de ser expostos. A argumentação deve ser organizada com lógica e 
coerência, em torno de um plano estruturado. 
 
 a) A selecção dos factos relevantes 
 
 
180 DEFRÉNOIS-SOULEAU I., Je veux réussir mon droit, op. cit., p. 128 e sguintes; COHENDET M.A., 
op. cit., p. 156 e seguintes. 
 69 
 Nem todos os factos são relevantes e pertinentes para solucionar um 
problema jurídico. Assim, é preciso seleccionar dentre dos factos do caso, os que 
apresentam um interesse pela resolução do problema. São esses factos que deverão 
ser qualificados juridicamente181. Por exemplo, se João compra um carro numa 
empresa especializada e que depois de uma semana o motor do carro explode por 
causa de um vício de fabricação do motor e que João pede o seu parecer para 
responsabilizar a empresa vendedora; a cor do carro não é verdadeiramente 
relevante para solucionar o seu problema jurídico. Pelo contrário, o vício de 
fabricação do motor é um elemente pertinente num processo em responsabilidade. 
 
b) A operação de qualificação jurídica 
 
 Qualificar juridicamente é nomear em termos jurídicos. Qualificam-se factos, 
ou uma situação, exprimindo-os em termos jurídicos afim de ligá-los aos casos 
previstos e regulamentados pela ordem jurídica considerada. 
 
 O raciocínio consiste em traduzir em termos de direito os factos e a questão 
contidos no enunciado para passar do plano do caso concreto ao plano de uma 
situação jurídica e de um problema de direito. Por outras palavras, a qualificação 
jurídica é a tradução jurídica de dados factuais182. É preciso fazer entrar os factos 
numa categoria jurídica. 
 
 Por exemplo, se João tem 23 anos de idade, isto significa, juridicamente, que 
ele é maior de idade. Com efeito, ao abrigo do Artigo 122.° do CC: "São menores as 
pessoas de um e outro sexo enquanto não perfizerem vintee um anos de idade"; se 
Pedro compra um livro a João, isto é, juridicamente, um contrato de compra/venda. 
Com efeito, nos termos do Artigo 874.° do CC: "Compra e venda é o contrato pelo 
qual se transmite a propriedade de uma coisa, ou outro direito, mediante um preço". 
 
 Feito isso, é preciso identificar a ou as questões jurídicas que suscitam o caso 
prático e expô-las com clareza e precisão. 
 
c) As regras de direito aplicáveis 
 
 O raciocínio consiste numa descrição e numa explicação das regras aplicáveis 
à situação jurídica que o estudante acaba de esclarecer. São estas regras que trazem 
consigo os princípios da solução e que justificam as respostas à questão colocada. 
Por outras palavras, é preciso indicar a regra de direito aplicável no caso concreto. 
Todavia, não se trata ainda de apresentar a solução do problema jurídico mas de 
formular a regra abstracta que permitirá de resolvé-lo. 
 
 Este exame do direito positivo incide sobre os textos legais e regulamentares, 
a jurisprudência e a doutrina, isto é, as fontes do direito. 
 
 
181 MAZEAUD H. e MAZEAUD D., Méthodes de travail, op. cit., p. 61. 
182 PANSIER F.J., Méthodologie du droit, op. cit., n.° 138. 
 70 
 O estudante deve explicar de maneira aprofundada os pontos de direito úteis 
à solução. 
 
d) As soluções 
 
 A última etapa consiste em tirar as conclusões do raciocínio, aplicando as 
regras de direito ao caso concreto. Confinam-se assim as soluções impostas pelo 
direito positivo. Assim, é preciso aplicar ao caso concreto a solução jurídica abstracta 
anteriormente identificada. 
 
 No plano jurídico e abstracto, trata-se de dar uma resposta aos problemas de 
direito anteriormente esclarecidos e explicar de maneira clara e convincente a 
solução encontrada a partir das regras expostas (podem analisar claramente o 
problema aplicando o raciocínio silogístico). 
 
 No plano concreto, trata-se de responder à questão prática colocada (dar uma 
resposta ou un conselho concreto e preciso). 
 
 Assim, o essencial não é de afirmar categoricamente uma solução, "mas de 
explicá-la e justificá-la com uma raciocínio rigoroso e uma argumentação precisa"183. 
 
 No caso em que, a situação o permite, o estudante pode e deve expor as 
diversas soluções que são susceptíveis de solucionar o problema discutindo da 
fundamentação de cada uma 
 
 No concernente à apresentação do exercício, devem recordar-se sucintamente 
dos elementos essenciais, afim de poder expôr o problema de direito em termos de 
princípio. Quanto à solução, pode-se tanto dá-la imediatamente, e fazê-la 
acompanhar das explicações necessarias, como enunciá-la no fim da argumentação. 
O importante é fornecer uma resposta justificada e completa. 
 
 Assim, como ensinam HENRI MAZEAUD e DENIS MAZEAUD, "Em definitivo, os 
trâmites do caso prático consistem em um silogismo que, a partir de uma situação de 
facto e passando por um regra de direito, conduz à solução do caso concreto"184. 
 
§4. A exposição oral 
 
 A exposição oral é um exercício de comunicação. Trata-se de um exercício 
destinado a exercitar-vos para a locução pública, por um lado, e, por outro, a 
beneficiar todo grupo do trabalho de um dos estudantes. O direito é uma arte de 
expressão e quase todas as profissões jurídicas exigem um dominio da fala, de 
explicação e da convicção. 
 
 A. A preparação 
 
 
183 MAZEAUD H. e MAZEAUD D., op. cit., p. 61. 
184 MAZEAUD H. e MAZEAUD D., Ibidem 
 71 
 Tal como uma dissertação, uma exposição deve ser preparada com um estudo 
aprofundado das questões a tratar. Ela deve ser bem elaborada e centrada no tema. 
Mas o texto é destinado a ser apresentado oralmente, a ser compreendido 
imediatamente pelos outros estudantes, e deve captivar a sua atenção. 
 
 — Os centros de interesse ou as linhas directivas do tema devem ser 
claramente realçados. A sua exposição deve estar organizada à volta de duas 
grandes ideias que lhe darão um carácter coeso e captivarão a atenção. Regra geral, 
deverá aliar frequentemente estas ideias directivas, o auditório poderá retê-las e não 
perderá o fio da exposição. 
 
 — O plano da exposição assemelha-se ao de uma dissertação, mas ele deve 
ser imperativamente muito claro. Os que estiverem a ouvir e que ainda não tenham 
aprofundado o tema, devem ser capazes de compreender e de identificar o plano 
logo que ele fôr anunciado. os títulos de cada parte devem, por isso, ser muito 
curtos e claros, e as subdivisões devem ser claramente indicadas. 
 
 — As primeiras frases de uma exposição são muito importantes pois elas 
anunciam a tonalidade. A introdução é feita para despertar o interesse (interesse do 
tema, situar o tema em relação ao conjunto da matéria, evolução histórica, ideias 
directivas, anunciar o plano). 
 
 B. A locução em público 
 
 Trata-se de comunicar aos outros, o resultado do seu trabalho, sem fazê-los 
perder tempo nem cair na monotonia, mas de um modo que lhe seja benéfico. Para 
atingir estes objectivos, esteja motivado, seguro e respeite as três regras da locução 
em público : 
 
 — Falar devagar e pausadamente; 
 
 — Ler sem olhar para o papel; 
 
 — Variar o tom da voz e a cadência. 
 
 §5. O método casual 
 
 Fazer referência ao método casual (B) é fazer referência inevitavelmente a 
educação em Direito nos paízes anglo-saxónicos (A). 
 
 A. A educação em Direito nos países anglo-saxónicos 
 
 A história da educação em Direito nos países anglo-saxónicos é rica e diversa 
mais o que surpreende – para um jurista educado num sistema diferente - é que 
esta educação ficou, por muito dentre eles e durante muito anos (por exemplo, o 
sistema norte-americano), num estádio arquáico. 
 
 Porque? 
 72 
 
 A educação em direito é fundamentalmente o reflexo do próprio sistema 
jurídico. Os sistemas jurídicos anglo-saxónicos estabelecidos sobre os fundamentos 
da Commun Law priviligiam, de facto, principalmente um estudo concreto do direito 
e por razões óbvias, priviligiam em particular uma profissão a do advogado. Assim, a 
reflexão teórica ficou, muito tempo, numa estado vegetativo. Além disso, a influência 
da evolução política nesses países houve uma influência substancial sobre a evolução 
do sistema jurídico-educativo; por exemplo, se se olha para o sistema dos Estados 
Unidos de América, a educação em Direito espelha a evolução da democracia norte-
americana185. No princípio da República norte-americana (Século XVIII), os padrões 
profissionais eram poucos e as profissões eram privilégio de homens brancos donos 
de terras. Os adogados das pequenas cidades dos tempos pós-coloniais tinha apenas 
uma educação em direito que se reduzia em alguns anos de aprendizagem em um 
escritório de advocacia. É clara que esta educação evolui enormemente desde os 
seus primórdios até hoje. 
 
 As curricula dos Faculdades de direito norte-americana enriquerecerem 
apenas a pouco tempo (algumas decadas) e ainda os curricula tradicionais estão no 
início das mudanças. 
 
 Nos Estados Unidos, ser advogado significa muitas coisas. Existem adogados 
ques estão presentes nos tribunais e muito outros que nunca vêem um juiz. A 
estrutura dos gabinetes de advogados é estremamente diversas. Há enormes 
empresas de advocacia das grandes cidades que empregam de 500 a 1000 
advogados que prestam trabalho muito especializado para empresas transnacionais e 
advogados que trabalham sozinhos ou em pequenas empresas que ajudam famílias e 
pequenos negócios com seus problemas legais como divórcios, testamentos, 
transacções de bens ou falências. O Direito é também a carreira preferida para 
entrar na política. 
 
 Por mais diversos que sejam os advogados norte-americanos em suas 
especialidades, rendimentos ou posição social, todos eles pertencem a uma única e 
específicaprofissão e detêm as mesmas qualificações formais básicas, educação e 
trenamento. Todos foram admitidos na Ordem dos Advogados de um ou mais dos 
cincuenta estados, sob normas dispostas pelos mais altos tribunais estaduais. 
 
 O ingresso na profissão é controlado pelas OABs (), pelos tribunais estaduais e 
pelas faculdades de Direito. 
 
 Como ser advogado? 
 
 Completar 4 anos de faculdade sob graduação; 
 
 Completar 3 anos de uma faculdade de Direito aprovada pela ABA; e, por fim, 
 
 
185 GORDON R.W., "A educação em Direito nos Estados Unidos: origens e desenvolvimento", em 
http://usinfo.state.gov/journals/itdhr/08202.htm 
 73 
 Ser aprovado em um exame da ordem. 
 
 Na maoir parte dos Estados, 50 a 80% dos candidatos que prestam o exame 
da ordem são aprovados. prática, este sistema torna o ingresso na faculdade de 
Direito a etapa fundamental e mais difícil do ingresso na profissão. 
 
 Existem nos Estados Unidos, hoje em dia, 185 faculdades de Direito aprovadas 
pela ABA, com cerca de 2 000 professores leccionando em tempo enteiro. As 
faculdades são financiadas pelas mensalidades dos alunos, doações dos formados e, 
no caso das faculdades públicas, dotações dos estados. A faculdade de Direito nos 
Estados Unidos é pós-graduada, não subgraduada. Os ingressos são muito selectivos 
e determinados por altas notas e em um teste padrão. A Faculdade de Direito de 
YALE, por exemplo, possui 5 000 inscritos para 170 vagas na sua turma inicial. Os 
custos são também uma alta barreira. Os alunos das faculdades privadas de Direito 
pagam cerca de USD 30 000 por ano em taxas e mensalidades; mesmo nas 
faculdades de Direito públicas, eles devem pagar de USD 15 000 a 20 000 por ano; 
e, desta forma, muitos se formam com dívidas de USD 100 000 ou mais. 
 
 As faculdades de Direito controlam não apenas quem entra na profissão, mas 
as oportunidades após a formação. Os formandos com alta notas das faculdades 
mais prestigiosas são activamente contratados para os empregos de maior prestígio 
e ganhos mais altos, como nas empresas de advocacia das grandes cidades, 
enquanto os graduados das faculdades inferiores às vezes enfrentam problemas para 
encontrar trabalho como advofgados. 
 
 Embora as faculdades estejam realmente preparando formandos para 
carreiras muito diversas, seus currículos e métodos básicos são similares. Todos eles 
ensinam os mesmos cursos de primeiro ano: propriedade, contratos, 
responsabilidade, legislação cível e criminal e os ensinam pelo método "casual". 
 
 B. A técnica do estudo de caso 
 
 No método casual, os estudantes chegam a cada turma após lerem alguns 
"casos", isto é, decisões e pareceres de tribunais federais e estaduais superiores 
recolhidos em "livros de casos" publicados; e o professor incentiva o diálogo entre os 
estudantes sobre os casos. 
 
 Por exemplo: o professor pode pedir a um aluno quais são os factos que 
originaram o caso João contra Empresa Bolacha de Nova-York? 
 
 O estudante deve explicar com pormenores os factos da causa. Por exemplo, 
que o Sr. João comprou um pacote de bolachas de Mozambique e depois de ter 
consumido apareceu máculas de várias cores na barriga. Por isso, o Sr. João 
apresentou uma acção contra a Empresa Bolachas de Nova-Tork por perdas e danos. 
 
 Depois o professeur pode perguntar ao aluno qual foi a defesa da Empresa 
Bolacha de Nova-York. 
 
 74 
 A Empresa bolachas de Mozambique afirmou que respeitou todos os padrões 
técnicos de elaboração de bolachas que a legislação vigente impõe e que de facto as 
máculas na barriga que aparecerem na barriga do Sr. João não são imputáveis a ela. 
 
 O Professor pode perguntar então, em termos de procedimentos, como o caso 
foi resolvido no tribunal? E como ele chegou ao tribunal superior estadual? 
 
 O aluno pode expor que o João recorreu ao tribunal de 1er instância e este 
decidiu a favor do João. Mas que, a Empresa bolacha de Nova-York recorreu da 
decisão do tribunal de 1er instância. O Tribunal Supremo confirmou a decisão do 
primeiro juiz. 
 
 O professor pode perguntar mas o João não omitiui nada em relação os 
factos? 
 
 Um outro estudante pode tomar a palavra e reorientar o debate. Por exemplo, 
acrescentando outros elementos a argumentação do João que o primeiro aluno 
omitiu. 
 
 O professor pode perguntar sobre as provas, as testemunhas, etc... Pode 
também perguntar sobre a decisão do tribunal se é corecta ou não? E se vocês 
estivessem defendendo o lado da Empresa bolacha de Nova-Yok, qual seria os seus 
argumentos? 
 
 
 
 §6. Os julgamentos fictícios 
 
 
 
 75 
CAPÍTULO III – O SABER SER DO JURISTA 
 
 
O jurista ocupa na sociedade um lugar particular devido, em grande partes, 
aos valores que ele reflecte (justiça, poder, etc…). Esta posição específica do jurista 
como SER186 na sociedade dos homens merecerá um estudo autonomizado. 
 
A maneira de ser no mundo do Direito do jurista, isto é, o seu modo de existir 
neste mundo, levanta pelo menos duas questões fundamentais em razão do seu 
posicionamento e da sua actuação na sociedade. 
 
A primeira situação é aquela do jurista actuando na elaboração do seu 
trabalho científico-investigativo que lhe impõe de agir em conformidade com algumas 
normas sem as quais o seu trabalho não responderia aos critérios da “cientificidade” 
(SECÇÃO 1); a segunda é a da sua relação com a própria sociedade onde ele actua 
como jurista. Trata-se, neste sentido de uma questão de ética que envolve, deste 
ponto de vista, o próprio relacionamento do Direito com a Ética (SECÇÃO 2). 
 
 
SECÇÃO 1. AS EXIGÊNCIAS DE CIENTIFICIDADE DO TRABALHO JURÍDICO 
 
O jurista deve observar as exigências científicas para considerar como séria a 
sua demonstração, isto é as exigências impostas em qualquer disciplina que se quer 
científica. Se considera-se a actividade científica como um sistema ordenado de 
conhecimento, então o estudo do Direito pode ser científico. 
 
As principais exigências impostas para considerar como científicas são o rigor 
e objectividade (§1), um pensamento analítico e um pensamento de síntese (§2), 
uma análise teórica e prática (§3), um pensamento crítico (§4) e uma faculdade de 
adaptação (§5). 
 
 §1. O rigor e a objectividade 
 
 A combinação do rigor (A) e da objectividade (B) impõe, em qualquer análise 
jurídica, analizar sistematicamente todos os elementos presentes (C). 
 
 A. O rigor 
 
 O rigor – no sentido de concisão, exactidão e precisão187 - impõe-se em todos 
os aspectos da análise jurídica, quer na fase da reflexão de fundo, quer na fase da 
organização das pesquisas, do desenvolvimento da argumentação ou do próprio 
 
186 No sentido de “estar ou ficar situado” (Dicionário da Língua Portuguesa, Ed. Porto Editora, 8.ª. ed., 
1999, vide, Ser) na sociedade. 
187 Dicionário da Língua Portuguesa, Ed. Porto Editora, 8.ª. ed., 1999, vide, rigor. A precisão dos 
termos é necessária para saber quais são os factos que serão subsumidos na norma aplicável e o teor 
do seu comando, vide, BATIFFOL H., "Observations sur la spécificité du vocabulaire juridique", op. 
cit., p. 40 e seguintes. 
 76 
estilo do jurista. Assim, é necessário organizar e apresentar racionalmente a análise, 
para que seja clara e séria. 
 
 B. A objectividade 
 
 A objectividade entendida como “carácter de um objecto de pensamento 
válido”188, sendo critério de tal validez a universalidade do acordo dos espíritos em 
relação ao mesmo objecto, é uma exigência indispensável em Direito. 
 
O jurista pode considerar que uma regra de Direito é odiosa e que precisa 
combate-lá mas o jurista, neste caso, deve agir, antés de tudo como cidadão e não 
como jurista. 
 
 Todavia, a objectividade não existe no absoluto e é possível,em alguns casos 
específicos, decidir tratar de uma questão sob um ângulo ou uma perspectiva 
particular, mas é sempre necessário, nesta situação, precisar esta maneira de se 
aproximar da questão para que a honestidade da demonstração não podesse ser por 
em causa. 
 
 Neste sentido, MARIE-ANNE COHENDET explica que “por exemplo, se estuda-
se tal questão de Direito Constitucional afirmando que o pressuposto da abordagem 
da questão será este, por exemplo na busca das garantias da Democracia num 
Estado de Direito, isto conduz a ter uma abordagem que não é neutro, porque esta 
abordagem favorece a Democracia”189. Mas, se precisa-se expressamente a 
especificidade da abordagem, esta permanece tão científica como uma aproximação 
dogmática pode ser. 
 
 É certo que as normas jurídicas exprimem valores e que a análise dessas 
normas pela dogmática jurídica não é também neutra e por isso que, parafraseando 
MARIE-ANNE COHENDET: “o jurista deve fazer tudo por ser tão objectivo como 
possível tentando não tomar em conta esses valores e/ou precisando o quadro no 
qual ele raciocina”190. Por outras palavras e mais concretamente, quando o juiz 
interpreta uma regra de direito, ele não pode substituir os seus juízos de valores a 
aqueles do legislador. 
 
 Na maior parte dos casos, várias concepções são aceitáveis, mas devem 
respeitar, quaisquer que sejam, todas as exigências da cientificidade para ser válida. 
 
 C. A combinação do rigor e da objectividade 
 
 A combinação do rigor e da objectividade impõe, em qualquer análise jurídica, 
de considerar e analizar sistematicamente todos os argumentos existentes, mesmo e 
sobretudo se estes são opostos a tese que se pretende defender. É preciso sempre 
 
188 Dicionário da Língua Portuguesa, Ed. Porto Editora, 8.ª. ed., 1999, vide, objectividade 
189 COHENDET M.A., op. cit., p. 30. 
190 
 77 
avaliar cada argumentação antés de se pronunciar de maneira fundamentada para 
defender aquela que parece pertinente no caso concreto. 
 
 §2. Um pensamento analítico e um pensamento sintético 
 
 O pensamento analítico (A) e sintético (B) são necessáros para conduzir uma 
boa análise jurídica. 
 
 A. Um pensamento analítico 
 
 O pensamento analítico consiste em examinar um objecto, parte por parte ou 
decompor este nos seus princípais elementos. Assim, no Direito o pensamento 
analítico traduz-se na decomposição do objecto de estudo em todos os elementos 
necessários a sua reflexão. 
 
 Assim, a análise de um texto, por exemplo, necessita o seu estudo global e 
frase por frase; palavras por palavras. 
 
É preciso, também, analizar tomando em conta todos os pontos de vista 
situando a questão ou problema no seu contexto geral (eventualmente contexto 
histórico, sociológico, económico) e no seu contexto jurídico procurando todos os 
problemas de Direito que esta ou este pode colocar. Por outras palavras, o tema ou 
a questão investigada e todos os elementos necessários à reflexão deverão ser 
sistematicamente analisados e ponderados. 
 
 B. Um pensamento sintético 
 
 A qualidade de uma trabalho jurídico depende muitas vezes do pensamento 
sintético do seu autor. 
 
 O pensamento sintético pode ser definido como “a aptidão a reagrupar 
elementos dispersos em volta de uma única ideia”191. 
 
 É uma abordagem inversa daquela que se prossegue no pensamento analítico. 
Não se trata de partilhar uma ideia em vários elementos, mas, pelo contrário, reunir 
numerosos elementos em torno de uma ideia. 
 
 O exercício da exposição oral192 permite experimentar concretamente e 
plenamente o pensamento sintético. Com efeito, num tempo limitado e a partir de 
uma documentação que pode ser, em alguns casos abundante, o estudante deve 
realçar o que é essencial num tema a tratar. Nesta pespectiva, deve evitar-se perder-
se nos pormenores inúteis que prejudicam a clareza da exposição oral e realçar os 
elementos mais importantes do tema. O estudante que preparou insuficientemente o 
exercício será tentado de perder tempo com uma argumentação vazia para esconder 
as suas deficiências mas isso não vai enganar ninguém apenas ele próprio. 
 
191 COHENDET M.A., op. cit., p. 31. 
192 
 78 
 
 Assim, é preciso aprender a avaliar o que importante e o que não é isto é, o 
que é acessório. Por outras palavras, é preciso encontrar o elemento fundamental ou 
decisivo. 
 
 §3. Análise teórica e análise prática 
 
 Um bom jurista é como uma palmeira alta: a cabeza nos nuevens e as raízes 
bem ancoradas na terra. O que é difícil, mas essencial, é fazer a ligação entre os 
elementos abstractos e os elementos muitos concretos de uma tema, isto é o 
relacionamento entre a teoria e a prática. 
 
 Muitas vezes, pode-se observar na literatura jurídica ou nas relações laborais, 
a apresentação da oposição entre os teóricos e os práticos. Os teóricos sabem tudo 
mas entendem nada e, pelo contrário, os práticos sabem nada mas entendem tudo. 
 
 Esta posição do relacionamento entre teóricos e práticos é um falso 
posicionamento. Em primeiro lugar, a maior parte dos teóricos conhecem 
perfeitamente a prática e alguns dentres eles são também muitos bons práticos. Em 
segundo lugar, os bons práticos sabem também que é necessário dominar a teoria 
para analizar correctamente uma questão de Direito. Muitas vezes os práticos 
percebem que as análises teóricas realizadas e apreendidas na Faculdade de Direito 
que, nesta altura, poderiam aparecer como longe do problema a solucionar e inúteis, 
revelam-se pertinentes na vida profissional para resolver problemas muitos concretos 
e complexos. 
 
 Assim, e de uma forma concreta, é preciso sempre relacionar as questões 
colocadas aos problemas teóricos, e, reciprocamente, aplicar essas teorias para 
avaliar se estas têm ou não um interesse prático. 
 
 É sempre útil, na ocasião de uma demonstração, acompanhar a sua exposição 
com exemplos muitos concretos para torná-la mais acessível. 
 
 Uma questão pode se levantar no que diz respeito ao facto de saber se é 
preciso partir da teoria para culminar na prática, isto é, ter uma abordagem dedutiva 
(do geral ou particular)193, ou pelo contrário, partir da observação da realidade para 
enunciar ou formular uma teoria, isto é privilegiar uma raciocínio indutivo194. 
 
 Os dois pontos de visto são válidos mas podem ser combinados: observação – 
teorização – aplicação ou seja, indução e depois dedução195. 
 
 §4. O pensamento crítico 
 
193 A dedução é a consequência da aplicação de um raciocínio ou de um princípio (Dicionário da 
Língua Portuguesa, Ed. Porto Editora, 8.ª. ed., 1999, vide, dedução). 
194 A indução consiste a partir do particular e formular princípio geral ; observa-se um fenómeno 
depois formula-se um princípio (Dicionário da Língua Portuguesa, Ed. Porto Editora, 8.ª. ed., 1999, 
vide, indução). 
195 COHENDET M.A., op. cit., p. 32. 
 79 
 
 
 
 A. O pensamento crítico 
 
 “Nenhum trabalho científico não poder ser sem um pensamento crítico”196, até 
porque a crítica do direito vigente é indispensáveis pela realização das reformas197. 
 
 Esta afirmação ilustra perfeitamente um certo estado de espírito que consiste, 
em primeiro lugar, pelo jurista, a criar um certo distanciamento entre ele e o objecto 
estudado, e em segundo lugar, pôr em causa as aparências, as evidências e as ideias 
pre-concebidas. Esta operação é bastante difícil porque o jurista “é um 
conservador”198; como escreve GEORGES RIPERT: “A ciência jurídica cria um estado 
de espírito que é comum a todos os juristas. Ela impõe um método que forma o 
espírito num determinado sentido. Trata-se de estabelecer e aplicar as regras 
necessárias à vida dos homens num estado social determinado, depois de examinar 
comoos actos e os factos se posicionam sob a aplicação dessas regras. É preciso 
para uma tal ciência um espírito de ordem e de moderação, um senso do concreto 
que preserva da ideologia, um cuidado da justiça que afasta as paixões, uma 
previsão dos maus originados pela sua violação. É preciso, também, de algum 
septicismo sobre a perfeição da ordem estabelecida que permite tolerar as infracções 
menores e julgar os homens com indulgência”199. 
 
 Neste sentido, a questão fundamental que deve fazer o jurista é porque? 
 
 Porque o juiz, o legislador ou a doutrina trataram esta questão desta maneira? 
Não se pode questionar o problema de uma outra forma? Qual foi a solução 
adoptada no passado? Qual é a situação no Direito Comparado? Qual é a posição dos 
estudiosos sobre esta questão? Esses pontos de vista não podem ser contestados? 
Como ensino CLAUDE LÉVI-STRAUSS: “O sábio não é o homem que fornece as 
verdadeiras respostas: é aquele que faz as verdadeiras questões”200. 
 
 É claro que o cliente do advogado não espera dele uma dissertação abstracta 
sobre a sua situação mas de analizar o seu problema e demonstrar qual é a solução 
concreta que é mais adequada. Mas a solução mais pertinente nesta caso apenas 
pode ser apresentada se a questão foi bem entendida, isto é equacionada com um 
pensamento crítico. Assim, “o pensamento crítico exerce-se em primeiro lugar 
quando trata-se do tema a investigar, e depois durante todo o tempo da análise”201. 
 
 B. Um pensamento crítico-jurídico 
 
 
196 COHENDET M.A., op. cit., p. 33. 
197 RIPERT G., Les forces créatrices du droit, Paris, LGDJ, 1955, p. 4. 
198 RIPERT G., op. cit., p. 8. 
199 RIPERT G., op. cit., p. 10. 
200 CLAUDE LÉVI-STRAUSS, Le cru et le cuit, Plon, citado por COHENDET M.A., op. cit., p. 33. 
201 COHENDET M.A., op. cit., p. 34. 
 80 
 As análises críticas devem ser jurídicas. Isto significa, fundamentadas sobre 
argumentos relativos ao direito e a sua coerência. Por exemplo, uma situação de 
incompatibilidade ou de contradição entre dois diplomas legais (entre duas leis ou 
entre a Constitução e a Lei ou entre a Lei e um decreto do Conselho de Ministros). 
 
 Alguns casos, a análise crítica pode tomar em conta elementos relacionados 
com o funcionamento das normas jurídicas, isto é, “no que diz respeito às relações 
entre as regras de direito e sociedade com a qual essas têm vocação a se aplicar”202. 
Trata-se, por exemplo, de argumentar com dados sociológicos, económicos, 
religiosos, políticos ou históricos para explicar o surgimento ou a ineficácia de uma 
norma jurídica. 
 
 Todavia, esta abordagem deve ser utilizado com muito cuidado sob pena de 
se afastar do direito positivo sobretudo quando se trata-se de críticas relacionadas 
com a vida política. É preciso distinguir claramente entre as críticas que têm uma 
relação directa e necessária com a regra de direito e as que são simples alegações 
de politiquice. As primeiras podem ser admitidas; as segundas são absolutamente 
proibidas do ponto de vista científicas. 
 
 A análise crítica deve ser enunciada ao mesmo tempo em termos prudente na 
forma e no fundo. 
 
 Preliminarmente, a crítica é fundamentada sobre argumentos precisos e 
rigorosos. É preciso demonstrar porque e como uma demonstração ou um discurso 
jurídico é contestável mas a crítica deve ser feito com moderação. 
 
 Em primeiro lugar, é precioso ser prudente na organização e formulação das 
ideias. As certezas podem ser enunciadas claramente, mas a sapiénza incita à 
moderação203. Não se pode afirmar que “o Conselho Constitucional exagerou”, mas 
que “a posição do Conselho Constitucional parece excessiva no que concerne a sua 
fondamentação jurídica”. 
 
 Em segundo lugar, o crítico deve ser humilde porque é muito mais fácil 
demonstrar inépcias que verdades. Isto não impede que o pensamento crítico 
necessita de coragem na defesa das sua ideiais. 
 
 §5. A faculdade de adaptação 
 
 As análises jurídicas podem ser diferentes segundo as situações. O regente da 
disiciplina pode ensinar uma concepção ou uma figura jurídica de uma certa forma 
enquanto que o seu assistente desenvolve um ponto de vista diferente ou que um 
manual desenvolve um ponto de vista diferente do primeiro e do segundo. 
 
Onde está a verdade? 
 
 
202 COHENDET M.A., op. cit., p. 34. 
203 COHENDET M.A., op. cit., p. 35. 
 81 
 A verdade no Direito é relativa, “o essencial é sempre respeitar as exigências 
científicas explicando claramente as diferentes opções e escolhendo, de maneira 
muita argumentada, aquela que parece mais convincente”204. Assim, a incerteza 
prévia é aparente. Pelo contrário, a diversidade é um signo de riqueza na reflexão 
jurídica. Os juristas devem ser preparados em enfrentar uma variedade de situações. 
 
No âmbito do estudo da formação do pensamento jurídico, trata-se apenas de 
bem entender a razão de ser dessas diferentes aproximações. 
 
Assim, os métodos de abordagem do Direito podem variar em função da 
relação do jurista à regra de Direito (A), segundo a concepção do Direito (B) e em 
função da matéria (C). 
 
A. Trâmites diferentes em função da posição do jurista 
 
 O jurista é susceptível encontrar-se em situações muito diferentes em relação 
à regra de Direito segundo a sua profissão ou as situações nas quais ele está a 
actuar. É importante entender essas diferentes aproximações porque são essas que 
serão muitas vezes adoptadas na vida profissional e que, por esta razão, foram 
objecto de estudo nos desenvolvimentos anteriores205. 
 
 O jurista pode intervir, em primeiro lugar no momento da elaboração de um 
diploma legal (a), em segundo lugar no momento da aplicação deste (b) ou, 
finalmente como mero observador do Direito (c). 
 
 a) A intervenção do jurista na elaboração de um diploma jurídico 
 
 O jurista pode intervir no momento da elaboração de um diploma legal, por 
exemplo, pode ser consultado pelo próprio autor deste (por exemplo, o Parlamento 
ou o Governo) ou o seu redactor (por exemplo, Departamento Jurídico de um 
ministério). Pode tratar-se no que concerne o diploma, da Constituição, de leis, de 
decretos mas também de uma postura municipal ou de um contrato. O jurista pode 
actuar como consultor da Administração Pública para elaborar os referidos diplomas 
(advogado, docente da Faculdade de Direito, etc...) ou como próprio funcionário 
desta. 
 
 Qual é o método a seguir? 
 
 Em primeiro lugar, é preciso estabelecer um diagnóstico crítico das normas 
jurídicas existentes nesta matéria. 
 
 Em segundo lugar, o jurista deve elaborar um estudo prospectivo pela qual 
este pesquizará quais podem ser as vantagens ou os inconvenientes de aprovar tal 
 
204 
205 Vide, supra ?????????????????????? 
 82 
ou tal diploma novo. Todos esses elementos deverão ser apreciados a respeito dos 
objectivos do autor do diploma, até os seus interesses206. 
 
 b) A intervenção do jurista no momento da aplicação do diploma 
jurídico 
 
 O jurista pode intervir no momento da aplicação da regulamentação, por 
exemplo, pode ser consultado sobre os pormenores da sua aplicação; por exemplo, 
um advogado pode ser consultado por um empresa para conhecer melhor as regras 
de edificação de prédios no Município de Maputo que deve ser respeitas porque tem 
o projecto de ampliar o seu estabelecimento. 
 
 A consultoria jurídica implica uma resposta precisa e concreta. Não é o lugar 
de desenvolver amplas dissertações teóricas mas de dar uma resposta prática 
directamente utilizável pelo solicitador. 
 
 Mas, é sobretudo no âmbito de um processo que o jurista é chamado a 
intervir com um particular desempenho. 
 
Como assessor das partes – sobretudo como advogado – o jurista deveráprocurar a solução mas satisfatória pelos interesses que deve defender, não só sobre 
o plano pecuniário mas também, sobre o plano humano. Nesta perspectiva, o jurista 
deverá convencer o juiz da pertinência da solução proposta. A sua análise pode 
necessitar elementos teóricos, mas neste caso, o jurista deverá ser muito pragmático 
e não negligenciar nenhum pormenor. 
 
 Como juiz, a posição do jurista é diferente da primeira porque deve actuar 
com imparcialidade e procurar a solução mais satisfatória em Direito. 
 
 c) O jurista observador do Direito 
 
 O jurista pode ser numa posição de observador. Investigadores, docentes, 
estudantes estão, regra geral, numa posição de terceiro em relação aos problemas 
de elaboração ou de aplicação do Direito. Nesta perspectiva, o objectivo principal da 
sua actividade é analisar e explicar o Direito numa forma objectiva207. 
 
 É no âmbito da sua actividade doutrinal que as análises teóricas são mais 
necessárias, mesmo se essas actividades podem se exercer sobre questões muito 
práticas, por exemplo o comentário de um acórdão. 
 
 B. Aproximações variáveis em função da concepção do Direito 
 
 O ponto de partida da análise é a complexidade dos fenómenos a observar e a 
riqueza das aproximações possíveis no estudo de uma mesma questão de Direito. 
 
206 COHENDET M.A., op. cit., p. 38. 
207 Vide os trabalhos publicados na Revista Jurídica da Faculdade de Direito da Universidade Eduardo 
Mondlane. 
 83 
Nesta perspectiva, acontece que os juristas podem não ter a mesma concepção do 
Direito. É claro que a escolha de uma concepção em relação com outra tem uma 
consequência no que diz respeito ao método escolhido. 
 
Qual é o método a seguir? O que fazer se não concorda com a concepção do 
Direito escolhida pelo seu professor? 
 
 Pode-se distinguir entre diferentes concepções do Direito como conjunto de 
normas ou com ciência tendo por objecto o estudo dessas normas. 
 
 
SECÇÃO 2. A ÉTICA, O DIREITO E O JURISTA 
 
 O documento do Curso de Mestrado da Faculdade de Direito da Universidade 
Eduardo Mondlane208 insistiu, pelo menos em duas ocasiões, sobre a ética. Em 
primeiro lugar, o referido documento lembrou que um dos objectivos fundamentais 
da Faculdade de Direito é de “Desenvolver a consciência ética e cívica dos seus 
alunos”209 e, mas particularmente, o referido documento na sua parte consagrada ao 
“Desenvolvimento de competências genéricas” precisa que a Ética “É a capacidade 
de orientar a sua conduta pessoal e profissional em conformidade com os ditames da 
moral e das normas deontológicas das respectivas profissões, propugnando sempre 
pela dignificação da pessoa humana”210. 
 
 
208 Documento do Curso, Maputo, Julho de 2002 – policopiado. 
209 Documento, p. 4. 
210 Documento, p. 10. 
 84 
 85 
PARTE II – O MÉTODO DO DIREITO 
 
 
Os problemas colocados aos juristas são inumeráveis e variáveis no tempo e 
no espaço. O estudo da actividade dos tribunais sobre esta questão é elucidativo. As 
soluções jurídicas são também extremamente evolutivas e também variáveis, 
segundo os países e as épocas e por isso que o estudo dos métodos jurídicos 
caracterizados por uma certa permanência são indispensáveis e mais importantes 
que uma colectânea de soluções pontuais. 
 
 Nesta perspectiva, é preciso pois estudar o método jurídico geral que integra 
um conjunto de instituições, instrumentos e mecanismos que constituem a base de 
qualquer ordenamento jurídico (CAPÍTULO I – O MÉTODO JURÍDICO GERAL). 
 
 Se situa-se a análise ao nível da implementação dos meios e dos métodos nas 
diferentes actividades, legislativas, jurisdicional ou administrativas, pode-se verificar 
que esta implementação varia em função do objecto porque os objectivos a alcançar 
são diferentes bem como os problemas a solucionar. 
 
Trata-se de aplicar os métodos estudados em situações meramente distintas. 
Os caminhos são diferentes quando se trata de pesquisar, elaborar uma norma 
jurídica ou aplicar o Direito. 
 
Finalmente, são os mesmos conceitos ou mecanismos jurídicos que são 
utilizados mas em situações concretas distintas. É esta abordagem que será 
apresentada num segundo Capítulo (CAPÍTULO II – O MÉTODO JURÍDICO 
APLICADO). 
 
Assim, encontra-se, do ponto da "ciência objectiva do Direito", no Método do 
Direito, as "ciências" cuja reunião constitui, segundo JEAN CARBONNIER, a função 
de jurista ("ciência das sistematizações" ou ciência da classificação; "ciência da 
interpretação" ou hermeneútica e "ciência da criação normativa" ou "ciência da 
legislação)211. 
 
211 JEAN CARBONNIER, citado por LOUIS ASSIER-ANDRIEU, Le droit dans les sociétés humaines, 
op.cit., p. 10. A este agregado de "ciências", JEAN CARBONNIER acrescenta a "ciência sociológica". 
Esta "ciencia" por seuobjecto e seus métodos não foi contemplada na delimitação 
 86 
CAPÍTULO I – O MÉTODO JURÍDICO GERAL 
 
 
Um dos aspectos essenciais da metodologia jurídica é de estabelecer e aplicar 
soluções de Direito a situações de facto. 
 
O legislador e a doutrina devem tratar, em Direito, situações gerais 
fornecendo soluções concretas ou práticas. Do mesmo modo, o juiz e o prático do 
Direito devem solucionar problemas particulares e aplicar regras de direito a um 
litígio, por exemplo. 
 
Essas situações que podem aparecer como diferentes não as são por 
natureza. A actividade dos juristas situa-se fundamentalmente num relacionamento 
entre o Direito e os factos. É sempre aplicar o Direito aos factos ou elaborar o Direito 
em função dos factos. É por concretizar esta finalidade que os juristas utilizam 
diversos métodos jurídicos para aproximar o Direito dos factos. Por exemplo, pela 
qualificação jurídica dos factos ou o silogismo judicial. Esta submissão dos factos 
sociais às normas jurídicas será o objecto de uma primeria Secção (SECÇÃO 1). 
 
Além disso, a implementação das normas jurídicas ou das regras de Direito 
bem como a sua concepção resultam de um conjunto de operações necessárias à 
aplicação do Direito. Assim, é necessário classificar, categorizar e interpretar o 
Direito para proceder a sua aplicação numa situação concreta (SECÇÃO 2). 
 
 Assim, aparece com clareza a distinção operada pela sociologia do Direito 
entre o Direito como "prática" (regras, conceitos, instituições) e o Direito como 
"conhecimento", isto é, como um modo específico de apreender os factos sociais 
numa perspectiva de, a partir da análise desses factos, induzir consequências 
jurídicas212. 
 
 
SECÇÃO 1. O TRATAMENTO JURÍDICO DOS FACTOS 
 
O tratamento jurídico dos factos pressupõe tudo um conjunto de instrumentos 
conceptuais, técnicos e operacionais susceptíveis de enquadrar os fenómenos e as 
operações da vida humana e social. Isto implica traduzir todos os aspectos da vida 
social em conceitos e em categorias jurídicas para melhor determinar as regras que 
lhes serão aplicados. 
 
O Direito, nesta perspectiva, é “totalizante” no sentido de que ele tem vocação 
a abranger todas as situações da vida em sociedade. Nesta perspectiva, o argumento 
a completudine constitui uma manifestação prática desta “totalização” do Direito213; 
como refere LOUIS ASSIER-ANDRIEU: "... nada do que é humano é a priori estranho 
ao direito"214. 
 
212 Vide, ASSIER-ANDRIEU L., Le droit dans les sociétés humaines, op. cit., p. 37. 
213 PERELMAN C., Logique juridique. Nouvelle rhétorique, Paris, Dalloz, 2.ª ed., 1979, n.° 33. 
214 ASSIER-ANDRIEU L., op. cit., p. 29. 
 87 
 
Assim, pode-se distinguir três espaços susceptíveis de caracterizar esta 
operação de tratamento dos factos pelo Direito. 
 
Em primeiro lugar, o Direitoprecisa de instrumentos (§1); em segundo lugar, 
o Direito classifica, categoriza e qualifica os factos (§2); finalmente, o Direito preciso 
de raciocínios para desempenhar esta operação jurídica de tratamento dos factos 
(§3). 
 
§1. Os intrumentos do Direito 
 
O sistema jurídico para realizar a sua função e suas finalidades uza de vários 
instrumentos que os juristas devem conhecer e saber implementar: “Melhor sabe 
utilizar, melhor é o jurista”215. 
 
Seria um erro considerar o Direito como uma simples sequência de regras sem 
ligações e sem interacções. As regras jurídicas são o fruto da associação de conceitos 
mais ou menos numerosos. Assim, uma construção intelectual é necessária para 
elaborar os conceitos e realizar a coerência da ordem jurídica. 
 
De uma certa forma, os conceitos jurídicos constituem “as bases racionais das 
realidades humanas concretas”216. Será pois necessário estudar esses instrumentos 
conceptuais (A). Mas além dos instrumentos conceptuais, a implentação do Direito 
pressupõe instrumentos técnicos (B) necessários para a sua efectividade. Finalmente, 
a implementação do Direito necessita também instrumentos operacionais (C). 
 
A. Os instrumentos conceptuais 
 
Do facto de que a ordem jurídica elabora regras abstractas, o Direito 
necessariamente recorre aos conceitos que são a representação abstracta de 
objectos materiais ou intelectuais217. Por outras palavras, "palavras investidas de um 
sentido abstracto e eficaz"218. 
 
É claro que a construção do conceito jurídico pode ser mas ou menos 
elaborada. Assim, através deste esforço de abstracção e de conceptualização dos 
factos o jurista sujeita esses factos ao Direito. Assim, existe uma certa apropriação 
dos factos pelo Direito. 
 
O Direito utiliza, ao mesmo tempo, “conceitos primários”, isto é, 
representações de realidades concretas como o nascimento ou a morte (vide por 
exemplo, o Artigo 226.º do Código Civil219, ou 207 da Lei n.° 10/2004, de 25 de 
 
215 BERGEL J.L., Méthodologie juridique, op. cit., p. 49. 
216 BERGEL J.L., op. cit., p. 50. 
217 LOBO A., Dicionário de Filosofia, Lisboa, Plátano Edições Técnicas, 1999, vide Conceito 
218 ASSIER-ANDRIEU L., Le droit dans les sociétés humaines, op. cit., p. 54. 
219 “1. A morte ou incapacidade do declarante, posterior à emissão da declaração, não prejudica a 
eficácia desta, salvo se o contrário resultar da própria declaração ...” (o sublinhado é nosso). 
 88 
Agostol220) ou conceitos já construídos e elaborados, por exemplo, as modalidades 
da declaração negocial (Artigo 217.º do Código Civil221), as associações (Artigos 
167.º e seguintes do Código Civil) ou a sociedade comercial222 que representam já 
um conjunto extremamente complexo de regras e de instituições jurídicas. Mas, por 
natureza, todos os conceitos jurídicos são conceitos abstractos223. 
 
Todavia, isto não significa que todos os conceitos têm um alto grau de 
precisão. A maioridade, por exemplo, é um conceito jurídico muito preciso. Por 
exemplo, o Artigo 73 da Constituição da República (1990) precisava : “Os cidadãos 
maiores de dezoito anos têm o direito de votar”; mas existe outros conceitos menos 
preciso ou indeterminados como os bons costumes ou a ordem pública (Artigo 280.º 
do Código Civil) ou a imoralidade (Artigo 128 do Código Civil) que permitem 
abranger uma infinidade de situações previsíveis. Os conceitos são, pois, os 
instrumentos pelos quais o direito ordena o realidade. Assim, a metodologia jurídica, 
sem ser a ciência dos conceitos, caracteriza-se, por tanto, por seu 
“conceptualismo”224. P. 51 p. 52 
 
Pode-se observar que dentro das noções propriamente jurídicas, existem 
algumas sem as quais, não se pode conceber nenhuma organização jurídica como a 
noção de norma, de direitos e obrigações, de contrato, etc.... Essas noções têm 
verdadeiramente um carácter fundamental porque estam na base de qualquer 
sistema jurídica. Todavia, apenas do ponto de vista metodológico que serão 
equacionados esses conceitos para pôr em evidência a sua necessidade e as suas 
funções na ordem jurídica. 
 
Limitar-se-á ao estudo de três exemplos clássicos de instrumentos conceptuais 
o das normas jurídicas (a), o dos direitos subjectivos (b) e o da ordem jurídica (c). 
 
a) As normas jurídicas 
 
 GEORGES RIPERT ensinava que: “A direcção dos homens exige um conjunto 
de regras gerais e permanentes que permitem a cada um de viver em paz com seus 
congéneros”225. As normas jurídicas traduzem, conceptualmente, essas “regras 
gerais e permanentes” idealizadas pelo referido autor (1) e cumprem funções 
específicas numa ordem jurídica (2). 
 
 1. O conceito de normas jurídicas 
 
 
220 “O momento da concepção do filho é fixado, para os efeitos legais, dentro dos primeiros cento e 
oitenta dias dos trezentos que precederam o seu nascimento, salvas as excepções dos artigos 
seguintes” (o sublinhado é nosso). 
221 “1. A declaração negocial pode ser expressa ou tácita: é expressa, quando feita por palavras, 
escrito ou qualquer outro meio directo de manifestação da vontade, e tácita, quando se deduz de 
factos que, com toda a probabilidade, a revelam ...”. 
222 
223 BERGEL J.L., Teoria Geral do Direito, op. cit., n.º 180 e seguintes. 
224 BERGEL J.L., Méthodologie juridique, op. cit., p. 51. 
225 RIPERT G., Les forces créatrices du droit, op. cit., p. 1. 
 89 
Uma norma, no sentido lato da palavra, é um modelo concreto ou abstracto, 
geral ou individual226, do que deve ser ou não deve ser, que se caracteriza por o seu 
efeito obrigatório o que pode implicar, em alguns casos, a intervenção do Poder 
Público. Todavia, este modelo tem um conteúdo muito específico; como escreve 
MICHEL VIRALLY: “a norma jurídica ... (define-se) como uma proposta exprimindo 
direitos e obrigações bem como as relações que lhes unem”227. Por outras palavras, 
trata-se de uma “proposta” integrando poderes e deveres. É o instrumento básico do 
Direito228. 
 
Todavia, a norma jurídica é diferente das outras normas que organizam a vida 
social como as normas morais, religiosas, de cortezia ou estéticas. Distingue-se das 
outras normas sociais principalmente por suas fontes (autoridades públicas), suas 
finalidades (organização da vida social), suas sanções (objectivas estabelecidas pelos 
órgãos do Poder público) e pela sua enunciação que é, regra geral, expressa e 
precisa. 
 
O que caracteriza a norma jurídica é sua capacidade de apropriação de outras 
normas sociais. Com efeito, o Direito pode apropriar-se de qualquer outra norma 
social e transformá-la em norma jurídica com todas as suas características. Por 
exemplo, uma prática administrativa pode torna-se uma norma jurídica pelo 
funcionamento ou organização da Administração Pública através de um decreto do 
Conselho de Ministros. 
 
Além deste carácter, a norma jurídica tem, também, um carácter dual: um 
dever jurídico ou obrigação e um poder jurídico ou direito. 
 
Toda regra de direito integra um dever. Este pode revestir várias formas 
negativa ou positiva: ordens positivas, proibições, obrigação de fazer, 
reconhecimentos de faculdades ...229. Todavia, nem apenas as normas jurídicas 
estabelecem obrigações; por exemplo, as normas morais estabelecem, também, 
obrigações. Neste caso o que faz com que se pode distinguir uma obrigação jurídica 
de uma obrigação que não tem este carácter? O que faz com que uma norma 
jurídica é obrigatória? A “sanção”, como defendem alguns autores230? MICHEL 
VIRALLY fiz uma crítica muita interessante deste fundamento para chegar à 
conclusão de que “Os traços próprios à obrlgação jurídica parecem assim resultar 
não das características da sanção que em regra geral accompanha-lá, mas do 
método específico pelo qual é estabelecidoa sua validade, isto é, a validade da 
norma jurídica que a expressa”231. 
 
A norma jurídica integra também um poder jurídico ou direito. Neste sentido, 
o termo “poder” implica, à carga de outrem ou de autoridades, obrigações em 
relação ao seu titular como, por exemplo, as obrigações lhe fornecer serviços ou de 
 
226 JEAMMAUD A., “La règle de droit comme modèle”, D. 1990, Chronique. – XXXI, pp.199-210. 
227 VIRALLY M., “Le phénomène juridique”, RDP 1966, p. 11. 
228 BERGEL J.L., op. cit., p. 54. 
229 VIRALLY M., “Le phénomène juridique”, op. cit., p. 19. 
230 
231 VIRALLY M., op. cit., p. 25. 
 90 
lhe transferir bens. Regra geral, este tipo de direito abrange todas as situações em 
que um sujeito de direito é habilitado a obter uma prestação de um outro sujeito de 
direito232. 
 
Todavia, a norma jurídica não pode ser definida, exclusivamente, pelo seu 
carácter obrigatório. Ela tem, também, um carácter “constitutivo”, isto é, “a sua 
capacidade a conferir habilitações, a definir direitos ou poderes e a atribuir-lhes”233. 
Com este poder constitutivo, “as normas”, escreve MICHEL VIRALLY, “estão 
habilitadas a, não só de estabelecer uma hierarquia social, mas, também de criar 
autoridades e, de maneira geral, estabelecer instituições. Atribuindo o poder de criar 
novas normas jurídicas, o direito adquire, finalmente, esta capacidade (...) de 
regulamentar a sua própria criação e mais ainda: de se criar ele-próprio”234. Este 
poder constitutivo do Direito, é um elemento essencial e específico do fenómeno 
jurídico: “nada de comparável encontra-se em outros sistemas normativos”235. 
 
A estrutura da norma jurídica é também específica. A norma jurídica aplica um 
efeito jurídico particular a uma hipótese determinada. Por outras palavras, a norma 
estabelece uma solução jurídica aplicável à uma hipótese pressuposta. Por exemplo, 
o Artigo 218 do Código Civil. Do mesmo modo, um julgamento aplica uma solução a 
uma situação litigiosa. 
 
Do ponto de vista da classificação das normas, pode-se distinguir entre regras 
de organização e regras de conduta. As regras de organização determinam 
essencialmente poderes e competências dos poderes públicos236 ou das instituições 
do Direito Privado como a família ou das pessoas jurídicas, por exemplo. As regras 
de conduta, pelo contrário fixam os deveres impostos aos sujeitos de direito. 
 
Pode-se, também, adoptar uma classificação “hartiana”237 e distinguir entre as 
“regras primárias” que estabelecem condutas e as “regras secundárias” que atribuem 
poderes ou fixam, criam e executam as “regras primárias”238. 
 
2. As funções das normas jurídicas 
 
V; Eiseznmann sur la definition 
 
As normas jurídicas constituem instrumentos privilegiados da regulação da 
vida social. Em mesmo tempo, elas organizam a sociedade e as relações entre os 
seus componentes para atingir uma determinada paz social. 
 
 
232 VIRALLY M., op. cit., p. 26. 
233 VIRALLY M., op. cit., p. 27. 
234 VIRALLY M., op. cit., pp. 27-28. 
235 VIRALLY M., op. cit., p. 28. 
236 Por exemplo, em Direito Público, essas regras consubstanciam nas normas que estabelecem 
funções ou instituem órgãos. 
237 HART H.L.A., The concept of law, Oxford, 1961, p. 77 e seguintes. 
238 BERGEL J.L., op. cit., p. 56 e seguintes. 
 91 
Além disso, a norma jurídica é um instrumento de política jurídica e de técnica 
jurídica. A norma jurídica é um instrumento de política jurídica no sentido de que 
essa integra julgamentos de valores que pressupõem escolhas de sociedade e, 
portanto, de escolhas políticas. Todavia, para concretizar essas escolhas definidas 
nesta política jurídica, a ordem jurídica construi procedimentos e regras técnicas para 
permitir a aplicação e realização do direito. Essas elementos são igualmente 
consagrados sob a forma de normas. Essas duas componentes susceptíveis de 
integrar a norma são interligados; como escreve JEAN-LOUIS BERGEL: “... a política 
jurídica apenas pode ser implementada graça à técnica jurídica e, pelo contrário, as 
medidas técnico-jurídicas bebem dos condicionalismos da política jurídica”239. 
 
b) Os direitos sujectivos 58e s 
 
 
 
1. A natureza dos direitos subjectivos 
 
Os direitos subjectivos são poderes concedidos pela ordem jurídica para tutela 
de um interesse ou de um núcleo de interesses de uma ou mais pessoas 
determinadas240. Por outras palavras, “trate-se de prerrogativas individuais, 
atribuídas a pessoas pela satisfação de interesses pessoais e garantidos pelos meios 
do Direito”241; como escreve H. COING: “A ordem jurídica reconhece a uma pessoa o 
livre gozo de um bem: é isto a essência do significado da concepção do direito 
subjectivo”242. 
 
Todo direito subjectivo pressupõe a reunião de quatro elementos: um titular 
(o sujeito do direito), um objecto material ou imaterial, uma relação jurídica que 
consiste essencialmente em uma liberdade ou um poder de agir, e uma protecção 
jurídica. A tutela jurídica dos direitos subjectivos permite, assim, impôr o respeito ou 
a realização do seu direito graça a uma acção judicial243. 
 
De uma extrema diversidade (direitos patrimoniais e direitos extra-
patrimoniais), os direitos subjectivos constituem “a expressão do reconhecimento de 
poderes juídicos aos indivíduos e relacionam-se com uma filosofia individualista”244. 
Pode-se conceber, assim, que a noção de direitos subjectivos responde a funções 
bem determinadas de política jurídica, mas também, de técnica jurídica, e que esta 
constitui a característica de um determinado tipo de sociedade245. 
 
2. As funções dos direitos subjectivos 
 
239 BERGEL J.L., op. cit., p. 58. 
240 MELO FRANCO J. e ANTUNES MARTINS H., Dicionário de Conceitos e Princípios Jurídicos, Livraria 
Almedina – Coimbra, 1993, vide, Direito sujectivo. Sobre a origem e evolução da noção, vide, COING 
H., "Signification de la notion de droit subjectif", em Le droit subjectif en question, APD, tome IX, 
1964, pp. 1-15. 
241 BERGEL J.L., op. cit., p. 58. 
242 COING H., "Signification de la notion de droit subjectif", op. cit., p. 8. 
243 BERGEL J.L., op. cit., p. 59. 
244 BERGEL J.L., Ibidem 
245 BERGEL J.L., Idem 
 92 
 
 Os direitos subjectivos de uma pessoa são na sua totalidade a base da 
liberdade desta pessoa no Estado e na sociedade. Tal é a sua função social 
específica246. 
 
 c) A ordem jurídica 
 
 
 
B. Os instrumentos técnicos do Direito 
 
A técnica define-se como o conjunto de procedimentos organizados 
fundamentados nos conhecimentos científicos que são utilizados para produzir uma 
obra ou obter um resultado determinado247. Assim, a técnica jurídica é o conjunto 
dos meios específicos que comandam à organização e à realização do Direito. As 
presunções, as ficções e a qualificação são bons exemplos de técnicas jurídicas. A 
técnica jurídica permite fundamentalmente a aplicação e a realização do Direito com 
um conjunto de procedimentos e de meios práticos, como, por exemplo, o 
formalismo, a publicidade, as ficções e até a linguagem jurídica. 
 
Do facto de que essas construções são o resultado de operações intelectuais 
específicas, próprias aos jurístas, esses instrumentos técnicos podem aparecer como 
dificilmente compreensíveis para as pessoas não jurístas. 
 
As críticas do público em geral incide sobre esses instrumentos técnico-
jurídicos. Com efeito, o público em geral considera esses instrumentos como 
“artifícios dos juristas” sem procurar a sua razão de ser. 
 
 Limitar-se-á em estudar como instrumentos técnicos do Direito o formalismo 
(a) e as ficções (b). 
 
a) O formalismo jurídico 
 
 
 
1. A noção de formalismo jurídico 
 
O Formalismo jurídico é a técnica jurídica segundaa qual a validade e eficácia 
dos actos são subordinados ao cumprimento de certas formas e formalidades248. 
 
No sentido jurídico da palavras, as formas são os procedimentos técnicos que 
consistem em manifestações exteriores e sensíveis que condicionam o efeito jurídico 
produzido pelos eventos ou circunstâncias. 
 
 
246 COING H., op.cit., p. 8. 
247 BERGEL J.L., op. cit., p. 61. 
248 BERGEL J.L., op. cit., p. 62. 
 93 
Por outras palavras, esta-se face ao formalismo quando um elemento de 
forma exterior determinado pela ordem jurídica condiciona o efeito jurídico produzido 
ou desde que a eficácia jurídica de um acto é alterada porque as formas prescritas 
não foram cumpridas. 
 
2. As funções do formalismo jurídico 
 
O formalismo jurídico é essencialmente pragmático e utilitário. Ele tem por 
objectivo facilitar as relações sociais e constitui, ao mesmo tempo, um instrumento 
de segurança jurídica. É o caso, por exemplo, do direito do consumidor que 
privilegia, regra geral, a protecção da parte mais fraca (mas não só249). Este ramo do 
direito é rico em exemplos de formalismos destinados a garantir a protecção do 
consumidor250: rôtulas explicativas, prazos de consumo do produto, informações 
obrigatórias, etc... 
 
Pelo contrário, pode ser, em alguns casos um factor de complexidade inútil. É 
o caso, de alguns formalismos administrativos excessivos. Neste sentido, a UTRESP 
identificou dezenas de formalismos administrativos inúteis e sem necessidades. 
 
É sobre tudo no Direito Processual que integra, por natureza, o formalismo, 
respeito das formas e dos prazos aparecem como garantia de uma boa justiça 
porque são necessários para o respeito dos princípios directores do processo e 
especialmente, o princípio do contraditório e o direito de defesa. 
 
De forma resumida, a problemática circunscreve-se a escolha entre a melhor 
segurança jurídica ou uma maior liberdade em termos de cumprimento de actos 
jurídicos. 
 
 b) As ficções 
 
 
 
 1. A noção de ficção jurídica 
 
 Uma ficção jurídica é “procedimento de técnica jurídica pelo qual se considere 
como existente uma situação manifestamente contrária à realidade e que permite 
deduzir dela consequências jurídicas diferentes daquelas que resultariam da simples 
constatação dos factos”251. Por outras palavras, trata-se de legitimar juridicamente 
um facto que pode ser cientificamente falso ou errado. 
 
 Porque? 
 
 
249 RAYMOND G., "Da necessidade do Direito do Consumidor", Rev. Jur. da Faculdade de Direito, Dez-
2002.- Vol. V, p. 104 e seguintes. 
250 BEAUCHARD J., "Qual Direito do Consumidor?", Rev. Jur. da Faculdade de Direito, Dez-2002.- Vol. 
V, p. 116 e seguintes. 
251 BERGEL J.L., Teoria Geral do Direito, op. cit., n.° 282. 
 94 
 Em algumas situações, é necessário conciliar a estabilidade da construção 
lógica, necessária à segurança jurídica, e as exigências da sua adaptação às 
realidades sociais. Com este objectivo, o Direito altera a “verdade verdadeira” para 
justificar soluções socialmente adequadas. 
 
 2. Das necessidades das ficções 
 
 Saber se as ficções são necessárias ou desnecessárias depende 
fundamentalemente das funções que as ficções devem realizar numa ordem jurídico-
social. Isto significa que pode ser socialmente útil ou juridicamente necessário de 
não tomar em conta a realidade para construir uma “verdade jurídica artificial”. 
 
 Em primeiro lugar, pode ser útil salvaguardar um elemento essencial da 
organização social. Por exemplo, é o caso, 
 
C. Os instrumentos operacionais 
 
Para permitir a avaliação das operações jurídicas, o sistema jurídico recorre à 
mecanismos muito diversificados. Trata-se, em princípio, da combinação de regras e 
meios técnicos que a ordem jurídica põe à disposição dos interessados. É o caso, por 
exemplo do CONTRATO. São técnicas judiciais que têm como especialidades de 
produzir efeitos jurídicos e cujos juristas precisam para actuar no mundo do Direito. 
Estes instrumentos operacionais têm por objectivo modificar o ordenamento jurídico. 
 
O Contrato 
 
Para analisar uma questão e caracterizar áreas ### o sistema jurídico utiliza vários 
instrumentos muito diversificados que todos os juristas devem conhecer. 
O Direito não pode apenas ser um sismples ### de regras. No caso de não evitar 
mecanismos para ligar em diversos elementos um conjunto coerente o Direito ficará 
impraticável. 
Para conseguir isso, é preciso ### intelectual fundamentado como concreto/que 
qpermite realizar ou atingir uma ordem; 
 
Existe ### conceptuais = Normas jurídicas em Direito subjectivos. 
 
Existe instrumentos técnicos = formalismo ou ficções. 
 
Existe instrumentos operacionais = contrato a representar-se. 
 
Contrato: 
 
Para permitir a realização das operações jurídicas ( ### o direito) o sistema jurídico 
utilioza mecanismos, trata-se sempre da comunicação de regras, de elementos, 
meios técnicos e actos materiais ou jurídicos com ### de obter um resultado 
determinado: 
 
 95 
O contrato ( a prova, a reformularidade, a representação) são técnicas jurídicas, 
procedimentos destinados a produzir alguns efeitos particulares cujas questões têm 
necessidade por actuar ### do Direito. 
 
Estes mecanismos constituem uma aproximação dinâmica do Direito que implicam 
uma combinação de vários elementos. Sáo principalmente um conjunto de regras de 
direito e de procedimentos organizados com finalidade de uma operação e 
constituindo um conjunto ### são quadros atribuidos pelo Direito para a realização 
de uma operação jurídica e que constituem instrumentos que o Direito se atribui 
para a nova aplicação. 
 
Características = Todos tem por objectivo modificar o ordenamento jurídico 
estabeleceido. 
 
Mecanismos e Funções do Contrato 
 
As Funções do Contrato 
 
O contrato é ### tempo 
 
Um instrumento de consequências de métodos inicialmente ###. Um ponto de 
encontro entre interesses opostos. 
 
 
- criação de direitos e delegações; 
- instrumento de antecipação sobre o futuro. 
 
Pode-se geralmente reconhecer várias preocupações, 
 
Do ponto de vista filosófico 
O contrato aparece como um instrumento de conciliação de que é útil e justo = o 
contrato é um instrumento que o Direito sanciona-se em orgnizar porque ele 
permite operações socialmente úteis porque responde as necessidades concretas e 
porque existe trocas de bens de serviços. O acordo do ### aparece como um 
procedimento específico de criação de efeitos de Direito que tem uma 
utilidadelovável. 
 
O Contrato é apenas obrigatório se ele é justo. 
O valor da vontade é subordinada 1as exigências da crítica e da boa fé. Cada parte 
deve receber uma parte que equivale ao que dá e um dever de lealdade compõ-se 
na formação na fase de execução do contrato. 
 
Esta análise idealista encontra-se realmente no contrato concreto? 
 
Do Ponto de Vista Jurídico 
 
 96 
O contrato tem por função execencial de produzir identificações solicitações jurídicas 
estabelecidas criando-se modificando folhas ### ou anulando Direitos patrimoniais 
meios e mais obrigações. 
 
Acordo da vontade com finalidade de produzir efeitos de Direito - conformidade com 
o Direito ###, por outras palavras, o contrato é um instrumento operacional de 
Direito que permite a um cordo de vontade de produzir aspectos jurídicos 
modificando o ordenamento jurídico ### e cuja execução é garantida pelo poder 
público. 
 
A técnica contratual de regulação social é um progresso em relação aos medos 
regulamentares e institucionais? 
 
Do ponto de vista económico, o contrato é percebido como um instrumento de 
maximização das utilidades individuais e sociais. 
Nesta perspectiva, o contrato deve facilitar os trocos que permitem multiplicar as 
riquezaspelas partes e valorizar mais riquezas com a perspectiva de utilidade social. 
 
CLASSIFICAÇÃO JURÍDICA E QUALIFICAÇÃO DOS FACTOS 
 
A necessidade da operação de qualificação. 
### juridicamente é relacionar um dado concreto a uma categoria jurídica abstracta 
o que implica à produção de consequências jurídicas. A questão jurídica constitui 
uma operação intelectual de análise jurídica de uma situação de facto ou de Direito 
para identificar o seu regime jurídico. 
 
“Considerar um facto como jurídico, é aprovar o princípio de classificação segundo 
qual esta facto mais do que um outro é qualificado de jurídico”252. Assim, o Direito é 
fundamentalmente “um arte da classificação”253. 
 
Juridicamente, consiste no facto de uma função invertida de um poder legal, ou 
convencional de cumprir ao nome e por conta de uma outra pessoa - um acto 
jurídico cujos efeitos produzem-se como participação do representado. 
 
Ex. Da utilização deste conceito 
 
- Direito das Obrigações; 
- Exprimir a vontade do PM de Direito Público Privado 
- Direito Processual = o advogado vai representar o seu cliente 
- Participação da vontade 
- Delegação em Direito Público 
 
É uma ficção, porque o representado presume-se ter agido ele próprio enquanto que 
na realidade ele não agiu directamente. 
 
 
252 ASSIER-ANDRIEU L., Le droit dans les sociétés humaines, op.cit., p. 7. 
253 ASSIER-ANDRIEU L., op.cit., p. 9. 
 97 
A ideia é de que "exercício de um Direito pode ser ### de um gozo ou um direito 
pode ser exercido pela intromediação de um terceiro como se era efectivamente 
exercido pelo seu titular. 
 
 
Ficção: ANDRIEU p. 56 
 
 
 
FUNÇÕES 
 
- Desconhecida do Direito Romano - obrigação jurídica era uma ligação 
pessoal, 
- Da COMMONLOW = TWIST = Importante não é o representado , mas o 
agente que celebra os actos jurídicos - Gestão do património do 
representado mas em plena independência. 
 
Por outras palavras para determinar a solução jurídica em relação a uma situação de 
facto, é preciso traduzir os factos da língua jurídica, isto é dar um rótulo aos actos e 
as coisas. 
 
Há uma necessidade pelas justas de dar de dar um nome às caisas e de as 
caracterizar juridicamente for a a submete-las a uma ordem jurídica estruturando e 
racionalizando os processos. 
 
As Modalidades de Qualificação Jurídica 
 
A Determinação do Regime Jurídico 
 
As Modalidades e Processos de Equivalência Jurídica 
 
É preciso traduzir em Direito uma situação de facto, para fazer isto a primeira 
operação consiste os factos na linguagem do Direito. 
 
Por outras palavras, para entrar no mundo do Direito os factos precisam de ser 
conceptualizados assim, é preciso subssumir nos termos da Lei, isto é, uma certa 
forma de confrontar os factos aos conceitos jurídicos estabelecidos pela ordem 
jurídica para conhecer aqueles que se identificam aos factos e deduzir as regras 
jurídicas que devem ser aplicadas. 
 
Qualquer jurísta em princípio, pratica naturalmente esta operação, isto é, fazer 
entrar um facto, uma situação, uma pesoa uma coisa ou um acto numa categoria 
jurídica ### ou aproximá-lo de um conceito jurídico conhecido para deeduzir o 
regime jurídico aplicável - Isto é reconhecer ao facto as características existentes no 
conceito jurídico = aplicar o Direito. 
 
O jurísta em particular tem a obrigação de notificar um erro de qualificação das 
partes. Isto é, pode apenas aceitar sem analisar a qualificação proposta pelas partes. 
 98 
 
a) Conceitos e Categorias Jurídicas 
b) Conceitos Jurídicos Indeterminados 
 
 
a) Conceitos e Categorias Jurídicas 
 
Os jurístas têm a obrigação de estabelecer categorias jurídicas, isto é um conjunto 
de direitos , de coisas, de pessoas, de partes ou de actos que têm entre eles 
características comuns ou que obedecem a um regime comum. Assim, as categorias 
jurídicas agrupam conceitos jurídicos diferentes mas que têm algo de comum. Assim 
é preciso reflectir os conceitos jurídicos ante de determinar os que são as categorias 
jurídicas. 
 
Os antropólogos distinguem entre as categorias jurídicas "duras" e as 
"moles"254. As "duras" são as categorias jurídicas que estabelessem-se numa certa 
evidência social e encarnam-se com precisão na lei e na jurisprudência dos tribunais. 
É, por exemplo, o "sujeito de direito"; "é "o indivíduo humano, qual quer que seja o 
seu sexo, a sua idade, a sua condição social"255. 
 
Pelo contrário, o conceito "mole" é aquele cujo conteúdo varia segundo as 
necessidades; por exemplo, a "propriedade". Marie-Angèle HERMITTE demonstrou 
como foi distendido o conceito de propriedade, até o ponto de integrar realidades 
completamente diferentes daqueles bens materiais e imobiliários que constituiam à 
sua representação originária256. ANDRIEU p. 55. 
 
 
 b) Os Conceitos Jurídicos Indeterminados 
 
Os conceitos jurídicos são representações inlectuais gerais e abstractas de objectos - 
Em Direito, são determinandos pelo Direito objectivo e as próprias nulidades sociais 
são elas concretas que vão organizar intelectualmente o mundo do ireito. 
 
Devo analisar o conteúdo de cada situação específica para identificar todos os 
aspectos justificativos e identificar todos os conceitos ### desta situação. 
 
Conceito jurídico deve representar um modelo que permite uma comparação para 
pemitir estabelecer uma ligação entre situações concretas e o Direito. 
 
 
254 
255 ASSIER-ANDRIEU L., op.cit., p. 55. 
256 HERMITTE M.A., "Les concepts mous de la propriété industrielle: passage du modèle de la 
propriété foncière au modèle du marché, em EDELMAN B. e HERMITTE, L'Homme, la Nature et le 
Droit, Paris, Christian Bourgois, 1988, p. 85 e seguintes, citado por ASSIER-ANDRIEU L., op.cit., p. 55. 
256 
256 ASSIER-ANDRIEU L., op.cit., p. 55. 
256 HERMITTE M.A., "Les concepts mous de la propriété industrielle: passage du modèle de la 
propriété foncière au modèle du marché, in EDELMAN B. e HERMITTE, L'Homme, la Nature et le Droit, 
Paris, Christian Bourgois, 1988, p. 85 e seguintes, citado por ASSIER-ANDRIEU L., op.cit., p. 55. 
 99 
É preciso realçar o facto de que a tarefa do ### é de estabelecer definições 
cientificamente corretas, mas elaborar regras aplicáveis (###). 
 
Função captar permanentemente a mudança social 
 
 
Situações: 
 
Ou a ordem jurídica (Lei--regulando) estabelecem a definição dos concretos. 
 
- Ausência dos diplomas - é o Juiz 
- A Doutrina pode ### 
- Algumas legislações ### de comum ### um uso sistemático das 
definições gerais do princípio de cada Lei. 
 
Determinação das Categorias Jurídicas 
 
Objectivo: Reagrupar conceitos jurídicos da mesma natureza em categorias. 
 
§3. Os métodos de raciocínios jurídicos 
 
 
 
A. A noção de raciocínio jurídico 
 
 
 
a) A definição do raciocínio jurídico 
 
O raciocínio Jurídico define-se como a operação intelectual susceptível de 
conduzir a uma solução dos problemas jurídicos como o uso de meios racionais. 
 
b) O objecto do raciocínio jurídico 
 
O raciocínio jurídico tem sempre por objecto confrontar uma situação de facto 
às regras de Direito e tem por finalidade procurar a solução jurídica mais adequada. 
 
O problema é: como passar de uma situação de facto à regra de Direito ou da 
regra de Direito à situação de facto? 
 
Pode-se acreditar que que este relacionamento é facilmente atingido e que 
sempre a solução é facilmente procurada; todavia, a diversidade das situações de 
facto e dos comportamentos das pessoas não permite prever ou encontrar sempre 
uma regra específica e pertinente em cada caso para solucionar o problema em 
causa até porque a estrutura abstracta da regra de Direito não ajuda, as vezes, o 
prático do Direito, em encontrar facilmente uma solução concreta.100 
Assim, pelo raciocínio, o jurista deve procurar, na base de um conjunto de 
conhecimentos, o meio de atingir um objectivo. Com efeito, o raciocínio jurídico 
apresenta-se portanto como um conjunto de argumentos cujo número, a qualidade e 
a organização têm por objectivo de convencer. Mas, neste processo intelectual, o 
raciocínio lógico ocupa um lugar relevante. Ele tem por objectivo de garantir a 
consistência da ordem jurídica e a segurança na aplicação do Direito. Por outras 
palavras, os raciocínios lógicos no Direito permitem dar uma melhor previsibilidade 
do Direito o que contribui para constituir uma garantia de segurança jurídica. 
 
B. A complexidade e flexibilidade do raciocínio jurídico 
 
 O raciocínio jurídico é complexo (a) porque utiliza, ao mesmo tempo, vários 
tipos de raciocínios cuja fusão constitui a particularidade deste. Outro aspecto 
importante do raciocínio jurídico é de que, este conjuga rigor lógica (factor de 
segurança jurídica) e flexibilidade da argumentação para poder adaptar-se à 
diversidade das situações de factos (b). 
 
 a) O raciocínio jurídico é complexo 
 
 O que caracteriza o raciocínio jurídico é a diversidade dos métodos de 
raciocínio. 
 
 Como estudar esta complexidade? 
 
 Em primeiro lugar, a diversidade manifesta-se pelo uso do método indutivo e 
dedutivo e do raciocínio analítico e sintético (1). Em segundo lugar, esta diversidade 
manifesta-se, também, pelo uso da lógica formal (2) e da argumentação dialéctica 
(3). 
 
 1. Análise e síntese / indução e dedução 
 
 1.1. Análise e síntese 
 
 Regra geral, o método analítico consiste em examinar um objecto para 
identificar as suas componentes. Pelo contrário, o método sintético consiste em 
construir figuras intelectuais partindo de dados elementares. 
 
Em direito utiliza-se os dois métodos. 
 
Na prática jurídica utiliza-se essencialmente o método analítico, isto é, 
concretamente, extrair os elementos relevantes que podem caracterizar-se numa 
determinada situação. 
 
No que concerne as regras de Direito, procura-se as condições de aplicação, 
os modos de execução e as consequências práticas destas. A análise tem por 
objectivo aproximar melhor os dados de factos e os conceitos e as regras de direito 
com a finalidade de procurar uma solução. 
 
 101 
Pelo contrário, a síntese é mais importante na obra doutrinal. Neste caso, a 
operação intelectual consiste em reagrupar um conjunto de elementos dispersos do 
sistema jurídico para propôr uma visão geral do conjunto. Mas isto é apenas possível 
depois de uma actividade de análise das situações de facto ou de regras de Direito. 
 
O raciocínio jurídico utiliza alternativamente a análise e a síntese. Assim, a 
análise e a síntese não são métodos exclusivos, mas pelo contrário, são 
complementares. 
 
1.2. Dedução e Indução 
 
A dedução consiste a partir de um princípio geral deduzir consequências 
específicas. A indução consiste partir de consequências observadas para procurar um 
princípio. 
 
Os juristas procedem por indução e por dedução. O método dedutivo 
caracteriza sobretudo a lógica matemática ou seja, a partir de proposições básicas 
todas as outras proposições demonstra-se como teoremas (proposição que se 
demonstra por dedução lógica a partir de proposições já demonstradas ou admitidas 
como verdadeiras). 
 
O raciocínio indutivo parte de fenómenos observados para induzir princípios. Por 
exemplo, se o juiz decidir num determinado sentido em termos similares em casos 
similares, logicamente pode-se deduzir que este vai decidir da mesma forma em 
casos similares a ocorrer no futuro. É o caso, concretamente, da elaboração dos 
princípios gerais do Direito. Alguns autores no âmbito da teoria geral do 
conhecimento defenderem que a constituição de hipóteses que contradizem teorias 
bem aceitadas e/ou resultados experimentais bem estabelecidos podem fazer 
progredir a ciência257. 
 
 Assim, introduzir e elaborar no Direito hipóteses que não concordam com 
teorias estabelecidas e/ou com factos estabelecidos é útil? Será que a “contra-
indução” pode fazer progredir a ciência do Direito, em geral, e a metodologia jurídica 
em particular? 
 
 Pode aparecer que os factos susceptíveis de refutar uma teoria apenas podem 
ser evidenciados com a ajuda de uma “alternativa incompatível” para parafrasear 
PAUL FEYERABEND258. Nesta perspectiva, pode-se pensar em criar situações de 
factos que não correspondem ou que contradizem o modelo factual que decorre da 
aplicação de uma teoria fundamentada empiricamente. O objectivo desta abordagem 
foi evidenciado por PAUL FEYERABEND quando ensina que “Um científico que deseja 
alargar no máximo o conteúdo empírico das suas concepções, e que quer 
compreender-las tanto claramente como possível, deve consequentemente introduzir 
outras concepções: isto é que este deve adoptar uma metodologia pluralista”259. O 
 
257 FEYERABEND P., op. cit., p. 26 e seguintes. 
258 FEYERABEND P., op. cit., p. 26. 
259 FEYERABEND P., op. cit., p. 27. 
 102 
jurista deve comparar as ideias com outras ideias e deve tentar melhorar mais do 
que rejeitar as concepções que foram vencidas. Essas “contra-concepções” actuarão 
como testes das concepções dominantes para medir a sua “resistência” a novas 
representações/contestações e, finalmente, avaliar o seu sucesso e sua perenidade. 
Assim, a contra-indução como “uma medida da crítica”260 e permite, assim, comparar 
os conceitos. 
 
 Fazendo isto, o jurista pode descobrir que a teoria do acto administrativo não 
é tão boa como se admite geralmente para explicar toda a acção da Administração 
Pública e que é preciso, ou acrescentar outros dados a este teoria, ou mudar de 
teoria explicativa. Ainda como escreve o referido autor: “O conhecimento assim 
concebido não é constituído por séries de teorias coerentes que convergem para 
uma concepção ideal; não é uma marcha progressiva para a verdade. É antes m 
océano sempre mais vasto de alternativas mutualmente incompatíveis ...”261. 
 
 No caso da indução, isto significa que é preciso demonstrar até que ponto o 
método contra-indutivo pode ser defendido por argumentação. 
 
Assim, o raciocínio jurídico procede, ao mesmo tempo, de uma aproximação 
dedutiva e indutiva, sem poder identificar-se um ou outro método. 
 
Mais particularmente, em relação ao raciocínio dedutivo, descreve-se também 
este raciocínio como um silogismo segundo o qual, se os factos correspondem à uma 
situação que se enquadra numa determinada regra de Direito, devem 
automaticamente ser submetidos a essas regras. Assim, é clássico apresentar o 
silogismo como a base geral de toda a aplicação do Direito. 
 
Neste raciocínio, a regra de Direito é a premissa maior; o caso 
individual/concreto, a premissa menor. A conclusão é o julgamento que admite ou 
rejeita a aplicação – no caso concreto – do efeito da regra de Direito (da premissa 
maior). 
 
2. A lógica formal no raciocínio jurídico 
 
Regra geral, pode-se afirmar que a aplicação do Direito funda-se num 
silogismo de subsumpcão, isto é, a conclusão jurídica é o resultado da aproximação 
de duas premissas: a premissa maior que representa a questão de Direito e a 
premissa menor que representa a questão de facto. Assim, o raciocínio silogístico 
relaciona as três proposições cujas duas primeiras chamam-se premissas e a última 
conclusão. 
 
Nos países de tradição romano-germânica como Moçambique é, as sentenças 
judiciais organizam-se sob a forma de silogismos. 
 
 
260 FEYERABEND P., op. cit., p. 69. 
261 FEYERABEND P., Ibidem 
 103 
Fundamentalmente, nas decisões de Justiça, o silogismo exprime a sujeição 
do juiz à regra de Direito. 
 
Esquematicamente, o raciocínio silogístico descompõe-seda seguinte forma: 
 
1. Se todos os ladrões são punidos (PREMISSA MAIOR); 
2. e se foi provado que João robou (PREMISSA MENOR); então 
3. João deve ser punido (CONCLUSÃO). 
 
Como sublinha JEAN-LOUIS BERGEL: “Este rigor lógico garante, ao mesmo 
tempo, a solidez do efifício jurídico e a aplicação sistemática da lei”262. Todavia, isto 
não significa que se deve reduzir o Direito em equações silogísticas. O Direito tem 
por função de regular a vida social e não se pode ignorar nem as realidades 
concretas, nem o movimento dos factos sociais. 
 
Apesar disso, na prática, os raciocínios podem ser invertidos, isto é, se pode 
partir da conclusão para legitimar um raciocínio lógico. Por exemplo, um advogado 
que defende uma tese, procura os elementos de facto e as regras de Direito 
susceptíveis de lhe permitir justificar esta tese ou de atingir um resultado 
determinado. Até numerosos juízes començam por determinar “intuitivamente” a 
solução fundamentando a sua decisão num “manto jurídico”. 
 
Além disso, as premissas do raciocínio jurídico não têm a certeza das 
premissas do raciocínio científico. Ver VIRALLY. Algumas vezes, as premissas do 
raciocínio jurídico não têm a certeza das premissas do raciocínio “científico”; por 
exemplo, algumas vezes, ignora-se o que de facto aconteceu. A prova não é nitida, 
pode-se ter dúvidas. No que concerne as regras de Direito aplicáveis numa 
determinada situação de facto, a sua escolha e a sua interpretação podem dar lugar 
a hesitações. 
 
Assim, a regra de direito positivo não resulta do único raciocínio jurídico. 
Fenómenos sociais podem ter influências (ex. A policia não executa uma dedcisão 
por interesse público). 
 
 3. A dialéctica no raciocínio jurídico 
 
 O raciocínio jurídico é um raciocínio dialéctico? 
 
 Os juristas da Idade Média como os romanos e os grecos praticavam a 
dialéctica. Por outras palavras, não iniciavam o estudo de uma determinada questão 
pelo uso de um raciocínio dedutivo ou a partir de regras pre-estabelecidas mas por 
controversias para chegar a conclusões simplesmente verosímil fundamentada sobre 
a argumentação. 
 
 
262 
 104 
 De facto, este modo de raciocínio existe em Direito. É nas discussões, nos 
debates e nas controvérsias que se encontram a crítica e a refutação que 
caracterizam qualquer reflexão e particularmente a reflexão jurídica. 
 
 O raciocício dialéctica/jurídico apresenta-se como um conjunto de argumentos 
cujo número, qualidade e consistência têm por objectivo convencer os seus 
destinatários. Dentro do conjunto dos argumentos, alguns têm um “valor 
acrescentado”, é, por exemplo, os fundamentados sobre a força obrigatória da lei, 
das decisões de justiça e das opiniões doutrinais. 
 
 É na combinação dos diversos raciocínios dialéctico e lógico-formais que 
encontra-se a particularidade e especificidade do raciocínio jurídico. 
 
 B. A flexibilidade e adaptabilidade do raciocícion jurídico 
 
 Um raciocínio puramento formal e lógico pode conduzir conclusões injustas ou 
impraticáveis. O pensamento jurídico deve recorrer, neste caso, aos valores para 
evitar esses erros. 
 
SECÇÃO 2. A IMPLEMENTAÇÃO DA NORMA JURÍDICA 
 
 Regra geral, para determinar as soluções jurídicas mais apropriadas, é preciso 
identificar as regras de Direito que são susceptíveis de se aplicar ao problema em 
causa e implementar métodos e mecanismos específicos ao Direito. Além disso, para 
implementá-las e integrá-las nos raciocínios jurídicos, procura-se o sentido dessas 
regras. 
 
 Assim, depois de precisar os métodos e princípios de coordenação das regras 
jurídicas (§1), será necessário apresentar os métodos de interpretação do Direito 
(§2). 
 
 §1. Os métodos e princípios de coordenação das normas jurídicas 
 
 O Direito é constituído por um conjunto de normas jurídicas, de instituições, 
de conceitos, de instrumentos integrados num sistema cujos diferentes elementos 
são coordenados entre eles e, ao mesmo tempo, em interacção. 
 
 Para ser tecnicamente satisfatório, um sistema jurídico deve ter três 
qualidades: deve ser completo, económico e coerente. 
 
 Um sistema jurídico deve ser completo significa que este sistema deve ser 
apto a regular todas as situações que podem surgir concretamente nessa ordem; ser 
ecocómico significa que o sistema jurídica deve ser desprovido de coisas inúteis e 
finalmente, o sistema jurídico deve ser coerente significa que este pressupõe a 
existência de métodos de coordenação apropriados para permitir escolher entre as 
regras da ordem jurídica as que são aplicáveis e as combinar. 
 
 Numa ordem jurídica, a articulação 
 105 
 
 
 
3. Os métodos fundamentados sobre a coerência do sistema jurídico 
 
 Para assegurar a “ordem social”263 com regras seguras numa organização 
estruturada e equilibrada, a ordem jurídica deve-se constituir em uma unidade lógica 
e esta deve ter uma densidade suficiente para evitar lacunas e contradições264. 
Assim, o direito tem uma vocação a 
 
B. 
 
 
Bibliografia: 
 
 
 Bibliografia geral 
 
 
 
263 Vide, em particular, HAURIOU M., Précis de droit constitutionnel, Paris, Sirey, 2.ª., 1929, p.34. 
264 BERGEL J.L., Méthodologie juridique, op. cit., p. 203 e seguintes. 
 106 
CAPÍTULO II – O MÉTODO JURÍDICO APLICADO 
 
 
 
 
 
SECÇÃO 1. A METODOLOGIA NORMATIVA 
 
 
 
 
SECÇÃO 2. A METODOLOGIA JURISDICIONAL 
 
 
 
 
 107 
PARTE III – OS MÉTODOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS 
APLICADAS AO DIREITO 
 
 
Examinando e analizando a pesquiza em Direito, Norbert ROULAND265 escrevi: 
“Pode-se, pois, pensar que a pesquisa jurídica será mais visível no exterior quando 
os juristas aceitarão mais recorrer às ciências humanas e tomar em conta as 
expectativas dos seus peritos, e às vezes, os seus métodos”266. 
 
 Trata-se, portanto, nesta parte, de enfrentar este desáfio e ouvir o que os 
pesquizadores e das outras ciências, e em particular da área das ciências sociais têm 
a dizer sobre a aplicação dos seus métodos no âmbito do Direito. 
 
 
Do ponto de vista prático, é preciso de realçar que as ciências sociais ……..p. p. 716 
BERGEL 
 
 
Conclusão 
 
Importantes mais limites ligadas ao próprio objecto que éo dirieto. Pois necessidade 
de dominar o metodo do dirieto 
 
 
Todavia, não deve-se confundir a sanção e a execução; como escreve JEAN-LOUIS 
BERGEL: “É apenas a possibilidade de sancionar coercivamente que atribui 
efectividade a regra de direito sem a qual o seu carácter obrigatório seria vão”267. O 
Direito Internacional é, sobre esta questão, meramente elucidativo. Com efeito, a 
ausência, de facto, de recorrer à força não significa que as regras de direito não têm 
sanções. 
 
 
265 Professor Catedrático da Universidade Aix-Marseille III (França). 
266 ROULAND N., "Quelques réflexions sur la recherche en droit", Sciences de l’Homme et de la 
Société, n.º 54, p. 21. 
267 BERGEL J.L., Ibidem 
 108 
BIBLIOGRAFIA GERAL

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