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FORMAÇÃO DE TRIBUTARISTA -- Planejamento Tributário -- 2012 Módulo II 1 MÓDULO II A 1. SISTEMA TRIBUTÁRIO BRASILEIRO 1.1. ATIVIDADE FINANCEIRA DO ESTADO A missão primordial do Estado é assegurar ao homem os meios para que ele possa viver com dignidade. Esta procura de meios para satisfazer as necessidades públicas é denominada Atividade Financeira do Estado. Ela visa à obtenção, arrecadação, administração e emprego dos meios que lhe possibilitarão o desempenho das demais atividades que constituem a sua finalidade própria: políticas, sociais, econômicas, administrativas, educacionais e todas as necessárias à realização do interesse público. O Estado já recebeu gama enorme de definições diferentes, formuladas pelos diversos autores que o examinaram em profundidade. Não é nossa intenção nos aprofundarmos nesses conceitos, mas reconhecemos que o Estado é uma entidade à parte da própria coletividade, constituindo uma pessoa jurídica, portanto titular de direitos e obrigações. Trata-se de uma pessoa jurídica que difere das demais, físicas ou jurídicas, por ser a personificação da ordem jurídica nacional, que a constitui e com a qual quase se confunde. A CF/88, no preâmbulo, consagra que os “representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, Módulo II 2 pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”. Temos, então, no Estado, uma entidade com um sistema jurídico criado pelo homem, tendo por fim a tutela e o desenvolvimento da pessoa humana e da vida social de determinada comunidade. O esforço material do Estado, na busca de seus fins, é representado por sua atividade, denominada atividade estatal. Conceituando juridicamente o Estado, assim consagram Dalmo Dallari e Oswaldo Aranha Bandeira de Mello: o Estado, “é a ordem jurídica soberana, que tem por fim o bem comum de um povo em determinado território” (Dalmo de Abreu Dalari); “é a organização jurídica de um povo em dado território, sob um poder soberano, para a realização do bem comum de seus membros (Oswaldo Aranha Bandeira de Mello).1 A atividade financeira do Estado desenvolve-se, pois, fundamentalmente em três áreas: a receita, a gestão e a despesa. As necessidades públicas são satisfeitas por meio de serviços de interesse geral, que são denominados públicos. E o conjunto dessas atividades são os serviços públicos pelos quais o Estado realiza seus fins. As principais características dos serviços públicos são2: seletividade, universalidade; coercibilidade; e, não-reciprocidade. Assim, no dizer de Aliomar Baleeiro3, a atividade financeira do Estado consiste em obter, gerir e despender o dinheiro indispensável às necessidades, 1 Citados por Bernardo Ribeiro de Moraes, in Compêndio de Direito Tributário. 2 Elencados por Dejalma de Campos, in Direito Fiscal. Módulo II 3 cuja satisfação o Estado assumiu ou cometeu àquelas outras pessoas jurídicas de direito público. A atividade financeira do Estado é estudada pela Ciência das Finanças e regulada por um conjunto de normas e princípios, denominado Direito Financeiro. Já o Direito Tributário tem o seu objeto delimitado ao campo da receita pública, exclusivamente. A maioria dos tratadistas divide a receita pública em duas espécies: receitas originárias e receitas derivadas. Consideram-se como originárias as receitas provenientes da exploração econômica do patrimônio do Estado. Esta espécie compreende, pois, as rendas provenientes dos bens (ex. alugueres) e empresas comerciais e industriais pertencentes ao Estado, rendas essas que se conceituam como preço. Decorrem de atividades de natureza tipicamente privada, e caracterizam uma intervenção do Estado no setor econômico. Essa intervenção, ressalvados os casos de monopólio mantidos por questão de interesse público, como é o caso dos correios e telégrafos, ocorre numa maior ou menor intensidade por razões de ordem política. Já as receitas derivadas são as obtidas pelo Estado mediante o exercício de sua soberania. No dizer do mestre Rubens Gomes de Sousa4: “Receita derivada é a que o Estado arrecada mediante o emprego de sua soberania, nos termos fixados em lei, sem contraprestação diretamente equivalente, e cujo produto se destina ao custeio das finalidades que lhe são próprias”. 3 Uma Introdução à Ciência das Finanças. 12ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 1977, p. 17. 4 SOUSA, Rubens Gomes de. Compêndio de Legislação Tributária. 4ª ed. póstuma – 2ª tiragem. São Paulo. Resenha Tributária, 1982, p. 39. Módulo II 4 Em nosso direito positivo, as receitas derivadas estão representadas pelos tributos e pelas penalidades pecuniárias decorrentes de atos ilícitos. Ao Direito Tributário, porém, só interessam as receitas derivadas que correspondam ao conceito de tributo. A Lei nº. 4.320/64 classifica a Receita: por categorias econômicas e por fontes. As receitas por categorias econômicas são classificadas em Receitas Correntes e Receitas de Capital: - Receitas Correntes são as receitas tributárias, patrimonial, industrial e diversas e, ainda, as provenientes de recursos financeiros recebidos de outras pessoas de direito público ou privado, quando destinados a atender despesas classificáveis em despesas correntes; e, - Receitas de Capital são as provenientes da realização de recursos financeiros de constituição de dívidas; da conversão, em espécie, de bens e direitos; os recursos recebidos de outras pessoas de direito público ou privado destinados a atender despesas classificáveis em despesas de capital e, ainda, o superávit do Orçamento Corrente. As receitas por fontes classificam-se em Receitas Correntes, que são: - Receitas Tributárias: provenientes de impostos, taxas e contribuições de melhoria; - Receita Patrimonial: proveniente de receitas imobiliárias, receitas de valores mobiliários; participações e dividendos e outras receitas patrimoniais; - Receita Industrial: provenientes de receita de serviços industriais e outras receitas industriais; - Transferências Correntes: provenientes de multas, contribuições, cobrança da dívida ativa e outras receitas diversas; e, Módulo II 5 - Receitas de Capital: provenientes de operação de crédito, alienação de bens móveis e imóveis, amortização de empréstimos concedidos, transferências de capital e outras receitas de capital. 1.2. SISTEMA CONSTITUCIONAL TRIBUTÁRIO Constitui um sistema o agrupamento coerente entre determinadoscomponentes. Há, portanto a necessidade da existência de um vínculo entre tais componentes. Assim ocorre com o sistema nervoso, sistema solar, sistema jurídico ou mesmo com o sistema tributário. O Sistema Tributário é o conjunto dos tributos que compõem o ordenamento jurídico, assim como os princípios que norteiam as normas pertinentes à matéria tributária de um determinado país. Este conceito não espelharia nitidamente o que se entende por Sistema Tributário, se não se considerasse a interligação ou vínculo existente entre os tributos, como também se as normas não fossem subordinadas a princípios coerentes e harmônicos. Portanto, o fato de um determinado país cobrar tributos não significa que aquele país possua um Sistema Tributário; isto só ocorrerá quando os tributos cobrados forem harmônicos entre si e fizerem parte de um todo com uma determinada finalidade. São requisitos do Sistema Tributário5: a - existência de uma administração financeira eficiente; b - ausência de evasões e bitributações; c - simplicidade, coerência e elasticidade; 5 CAMPOS, Dejalma de. Prática Processual Tributária. Módulo I, São Paulo, Cultura Jurídica, 1996. Módulo II 6 d - manutenção do imposto progressivo, dentro de limites reais; e - afirmação dos princípios de personalidade e de eqüidade na divisão tributária; f - existência de um conjunto de impostos indiretos; g - clara determinação dos direitos e deveres do Estado e dos contribuintes, coordenada com um Código Tributário de princípios gerais; e, h - estabelecimento de sanções penais. 1.3. SISTEMA TRIBUTÁRIO BRASILEIRO No dizer de José Afonso da Silva6 ”A Constituição diz mal quando intitula de princípios gerais a seção I do título VI, referindo-se ao sistema tributário nacional. Não há nela senão os princípios da personalização e o da capacidade contributiva, constante do art. 145, § 1º. Os princípios constitucionais gerais, especiais e específicos da tributação aparecem mesmo é na seção II, como expressão das limitações do poder de tributar”. Para ele, “Na primeira seção, o que temos são disposições gerais sobre a tributação, que sintetizam as bases constitucionais do sistema tributário nacional”7. Apesar da crítica do mestre, neste momento é importante saber que a Constituição Federal tem um Capítulo específico para o Sistema Tributário Nacional, que engloba dos artigos 145 a 162. O Sistema Constitucional Tributário Brasileiro é do tipo rígido, ou seja, é o sistema no qual o legislador ordinário não dispõe de quase nenhuma opção, uma vez que a Constituição estabelece o disciplinamento completo, delineando 6 Curso de Direito Constitucional Positivo. 17ª ed., São Paulo, Malheiros Editores, 2000, p. 684. 7 Op. citada, p. 685. Módulo II 7 todas as normas essenciais do sistema. O nosso legislador constituinte cuidou amplamente do sistema tributário, não deixando nenhuma margem de discrição ao legislador ordinário. A rigidez do nosso sistema tributário é o que o distingue de quase todos os existentes no mundo. A maioria dos sistemas tributários existentes são flexíveis, ou seja, é aquele sistema no qual o legislador ordinário goza de amplas faculdades, podendo até alterar a discriminação de rendas. Tanto é assim, que inúmeras Emendas Constitucionais foram editadas justamente para modificar o Sistema Tributário Nacional. Por exemplo, em 13 de setembro de 2000, a EC nº 29 alterou, entre outros, o artigo 156, para possibilitar a cobrança de alíquotas progressivas e diferenciadas de IPTU. Por intermédio da EC nº 39 de 2002, inclui-se o artigo 149-A no texto constitucional prevendo que os Municípios e o Distrito Federal poderão instituir contribuição, na forma das respectivas leis, para o custeio do serviço de iluminação pública. O Sistema Tributário Nacional estabelecido pela Constituição de 1988, com vigência a partir de 1º de março de 1989, assegura a aplicação da legislação anterior, no que não for incompatível com as normas constitucionais vigentes, enquanto não forem editadas as leis complementares previstas no texto constitucional. Entre outras matérias, cabe à lei complementar estabelecer normas gerais de legislação tributária, particularmente sobre a definição de tributos, respectivos fatos geradores, bases de cálculo, contribuintes, obrigação tributária, lançamento, prescrição e decadência. Módulo II 8 Enquanto não for editada a lei complementar prevista no artigo 146 da Constituição, dispondo sobre normas gerais de direito tributário, permanece em vigor a Lei nº 5.172, de 1966 (Código Tributário Nacional – CTN), no que não for incompatível com as normas constitucionais vigentes. O Código Tributário Nacional, não obstante tenha surgido como lei ordinária, é hoje considerado materialmente como lei complementar, pelo fato de cuidar de matéria reservada constitucionalmente à lei complementar. Conforme já abordamos, a CF/88 dedica o Capítulo I do Título VI ao Sistema Tributário Nacional e no artigo 145 dispõe que as pessoas políticas (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) poderão instituir os seguintes tributos: I - impostos; II - taxas; III - contribuição de melhoria, decorrente de obras públicas. Com relação aos impostos, a Constituição estabelece que, “sempre que possível” essa espécie de tributo: - tenha caráter pessoal, e - seja graduado segundo a capacidade econômica do contribuinte. Para conferir efetividade a esses objetivos, à administração tributária é facultado, por norma constitucional, identificar o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte, respeitados os direitos individuais. No que concerne às taxas, a Constituição dispõe que estas não poderão ter base de cálculo própria de impostos. Além de impostos, taxas e contribuições de melhoria, a Constituição refere-se a mais duas espécies de tributos: - empréstimo compulsório; e - contribuições. Módulo II 9 1.4. TRIBUTO – CONCEITO E SUAS ESPÉCIES O Estado pode, pelo poder coercitivo de suas normas, exigir que os seus jurisdicionados contribuam com as prestações pecuniárias indispensáveis ao cumprimento das finalidades de interesse coletivo que lhe cabe desempenhar. Esta quantidade de dinheiro entregue pelos cidadãos aos Estados, para ser aplicada em serviços públicos é que se denomina tributo. O Direito Tributário examina o tributo como objeto da relação jurídica tributária. Tributo é, pois, a prestação (comportamento) que o Estado (sujeito ativo) tem o direito de exigir do contribuinte (sujeito passivo), em razão do nascimento da obrigação tributária. Alfredo Augusto Becker8 define: “o tributo é o objeto da prestação jurídica que satisfaz o dever jurídico tributário”. Já para Alberto Xavier9 tributo “é a prestação patrimonial estabelecida por lei a favor de uma entidade que tem a seu cargo o exercício de funções públicas, com o fim imediato de obter meios destinados ao seu funcionamento”. Vimos que a legislação brasileira (art. 3º do CTN) define tributo nos seguintes termos: “Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valornela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada”. Assim, o conceito de tributo abrange os seguintes elementos: 8 Teoria Geral do Direito Tributário, São Paulo, Ed. Saraiva, 2ª tiragem, 1972, p. 259. 9 Manual de Direito Fiscal, Lisboa, Distribuidora Livraria Almedina, 1ª ed., vol. I, 1970, p. 35. Módulo II 10 - Prestação pecuniária – pecúnia é dinheiro. O conceito legal exclui qualquer prestação que não seja representada por dinheiro. Não podem ser cobrados, portanto, tributos que consistam em prestação de natureza pessoal, tal como a prestação de serviços. - Compulsória – obrigatória. Nenhum tributo é pago voluntariamente. É da essência do tributo a sua obrigatoriedade. O tributo não decorre de negócio jurídico realizado mediante manifestação de vontade das partes. Decorre de uma relação de soberania de Estado, que lhe permite exigir de todos que tiverem capacidade contributiva, nos termos objetivamente previstos em lei, uma prestação obrigatória. - Em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir – satisfeita em moeda. O tributo pode ser fixado em moeda, ou em outra unidade traduzível em moeda, tal como unidade de UFIR, papel selado, estampilhas etc. - Que não constitua sanção de ato ilícito – tributo não é pena, sanção. A lei exclui do conceito de tributo a prestação pecuniária que constitua sanção de ato ilícito. Assim, em nosso direito positivo, esse tipo de sanção constitui receita derivada com características próprias, não contidas no conceito de tributo. - Instituída em lei – somente a lei pode instituir o tributo. Esse princípio é de âmbito constitucional. De fato, o artigo 150, I da Constituição veda à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios exigir ou aumentar tributo sem que a lei o estabeleça. - E cobrada mediante atividade administrativa vinculada – não compete à autoridade administrativa analisar se e quando é conveniente a cobrança do tributo. Esse trecho final do conceito Módulo II 11 estabelece que, sendo administrativa, esta é uma atividade privativa que não pode ser exercida por nenhuma outra pessoa. Além disso, há de ser vinculada, entendendo-se como tal a atividade que não é discricionária; isto significa que a administração pública deverá agir estritamente de acordo com a lei tributária, e não segundo o seu próprio critério. Ainda sobre a qualificação da natureza jurídica do tributo, é importante acrescentar o disposto no art. 4º do CTN, que sobre o tema dispõe nos seguintes termos: “A natureza jurídica específica do tributo é determinada pelo fato gerador da respectiva obrigação, sendo irrelevantes para qualificá-la: I - a denominação e demais características formais adotadas pela lei; II - a destinação legal do produto da sua arrecadação.” O conceito de tributos abrange as seguintes espécies: os impostos, as taxas, as contribuições10 de melhoria, as contribuições especiais e os empréstimos compulsórios, que serão adiante estudados. 10 Luciano Amaro, em seu Direito Tributário Brasileiro (São Paulo, Ed. Saraiva, 1997) observa que: “Observando o fenômeno da tributação sob esse ângulo, temos, como devedor da obrigação tributária, o ‘contribuinte’ (etimologicamente, o mesmo que ‘tributário’ e ‘contributário’), isto é, aquele que, juntamente com outros, ‘tributa’, ou seja, ‘presta um tributo’ ou ‘contribui’, entregando a contribuição (‘tributo’ou ‘contributo’) ao Estado (ou a entidade não estatal designada por lei). O vocábulo contribuição (cognato de tributo) representa a mesma idéia de partilha, entre os indivíduos (contribuintes), dos ônus comuns, embora hoje, em nosso direito, seja utilizado para designar certas espécies de tributos. Imposto, que os léxicos dão como sinônimo de tributo (e que, em nossa legislação, se emprega para indicar uma espécie de tributo), não possui aquela conotação de solidariedade de todos no concurso para a despesa comum; imposto (do verbo ‘impor’) é algo que se faz realizar forçadamente, expressando, assim, a velha conotação das prestações tributárias, que eram exigidas de modo forçado (impostas) ao súdito, sem buscar-se a anuência do devedor. Módulo II 12 Para uma mais fácil caracterização de cada espécie tributária, é útil a classificação dos tributos quanto à vinculação com a atividade estatal. De acordo com esta classificação, os tributos dividem-se em: a) Vinculados – as taxas, as contribuições de melhoria e as contribuições especiais; b) Não vinculados – os impostos. Assim, por exemplo, quando se classifica o imposto como uma exação não vinculada, fica implícito que a sua hipótese de incidência não se liga a qualquer atividade estatal específica relativa ao contribuinte. 1.4.1. Impostos11 O Código Tributário Nacional define imposto como o tributo cuja obrigação tem por fato gerador uma situação independente de qualquer atividade estatal específica, relativa ao contribuinte (art. 16). O elemento essencial à conceituação do imposto é, pois, o seu caráter geral. O imposto é o tributo que se destina a cobrir as necessidades públicas gerais, o que o distingue da taxa, cuja característica essencial é a sua vinculação à prestação de serviços públicos. O tributo, portanto, resulta de uma exigência do Estado, que, nos primórdios da história fiscal, decorria da vontade do soberano, então identificada com a lei, e hoje se funda na lei, enquanto expressão da vontade coletiva. Taxa, deverbal de ‘taxar’ também figura nos dicionários como sinônimo de ‘tributo’ (a par de outras acepções). Vem do latim taxare (avaliar, estimar, determinar o valor); confiram-se as expressões ‘taxa de juros’, ‘taxa de câmbio’, ‘taxímetro’(aparelho que mede valor). Etimologicamente, taxa é sinônimo de preço (de um serviço ou de um bem), traduzindo, pois a idéia de cumulatividade ou contraprestacionalidade. O inglês tax (do mesmo étimo) é empregado, na linguagem jurídica, no sentido de imposto. No nosso direito, taxa é espécie de tributo, exatamente a figura na qual está presente, de acordo com o sentido etimológico da expressão, a idéia de contraprestação, dado que a taxa se caracteriza pela conexão a um serviço ou utilidade que o Estado propicia ao contribuinte (por exemplo, a prestação de um serviço público)”. (pág. 17). 11 LATORRACA, Nilton. Direito Tributário: Imposto de Renda das Empresas – Atualizado até 31-12- 1999 por Rutnéa Navarro Guerreiro e Sérgio Murilo Zalona Latorraca. 15ª ed., São Paulo, Ed. Atlas, 2000. Módulo II 13 1.4.2. Taxas A taxa tem como fato gerador o exercício regular do poder de polícia ou a utilização efetiva ou potencial de serviço público específico e divisível, prestado ao contribuinte ou posto à sua disposição. Essa é a conceituação descrita no art. 77 do CTN, e no art. 145 da Constituição, que põe em relevo o caráter remuneratório da taxa e a sua vinculação com a prestação de serviços, pelo Estado. Considera-sepoder de polícia a atividade da administração pública que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou a abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do poder público, à tranqüilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. 1.4.3. Contribuição de Melhoria A contribuição de melhoria, por sua vez, é definida no CTN como tributo instituído para fazer face ao custo de obras públicas de que decorra valorização imobiliária, tendo como limite total a despesa realizada e como limite individual o acréscimo do valor que da obra resultar para cada imóvel beneficiado (art. 81). 1.4.4. Empréstimos Compulsórios O empréstimo compulsório é modalidade de tributo. Nesta categoria jurídica, estão presentes todos os requisitos essenciais à qualificação do conceito estabelecido pelo CTN. A necessidade de restituição não é circunstância que prejudique o conceito, visto que o destino do produto da Módulo II 14 arrecadação nada acresce à essência jurídica do tributo. É o CTN que o diz, nos seguintes termos: “Art. 4º A natureza jurídica específica do tributo é determinada pelo fato gerador da respectiva obrigação, sendo irrelevantes para qualificá-la: I – a denominação e demais características formais adotadas pela lei; II – a destinação legal do produto da sua arrecadação.” Sendo tributo, os empréstimos compulsórios poderão revestir-se de quaisquer das formas que correspondem às espécies do gênero tributo: imposto, taxa ou contribuição de melhoria; para reconhecê-lo basta aplicar a norma do art. 4º do CTN. No art. 148, a Constituição atribui competência à União para, com exclusividade, instituir empréstimo compulsório. Subordina, porém, essa competência a algumas condições. O empréstimo compulsório só poderá ser instituído, por lei complementar, numa das seguintes hipóteses: - para atender a despesas extraordinárias, decorrentes de calamidade pública, de guerra externa ou sua iminência; ou - no caso de investimento público de caráter urgente e de relevante interesse nacional. A CF de 1988 sujeitou, expressamente, a instituição de empréstimo compulsório, no caso de investimento público de caráter urgente e de relevante interesse nacional, ao princípio da anterioridade (art. 148, II). Assim, já não resta qualquer dúvida, como havia em relação à Constituição anterior, que a Módulo II 15 União não poderá cobrar os empréstimos compulsórios criados nesta hipótese, no mesmo exercício financeiro em que houver sido publicada a lei que os instituir. Por sua vez, ficam excluídas da submissão ao princípio da anterioridade as demais modalidades de empréstimo compulsório; o que nos parece irrepreensível, posto que a necessidade de obter recursos no caso de calamidade pública, guerra externa ou sua iminência, é imediata, caso contrário tais recursos correriam o risco de tornar-se inúteis se recebidos apenas no ano seguinte. Ambas as hipóteses de empréstimo compulsório estão sujeitas aos demais princípios constitucionais, dos quais destacamos: o princípio da legalidade – só poderão ser instituídos por lei, no caso lei complementar, cuja aprovação depende de maioria absoluta; o princípio da competência legislativa – só a União poderá instituí-los; e o princípio da irretroatividade – não poderão ser cobrados em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei que os instituir ou aumentar. Por fim, ressalta-se que o parágrafo único do art. 148 da CF vincula a aplicação dos recursos obtidos à efetiva despesa que fundamentou a instituição do empréstimo compulsório. 1.4.5. Contribuições O art. 149 da Constituição Federal dispõe que compete exclusivamente à União instituir as seguintes contribuições: - sociais; - de intervenção no domínio econômico; e - de interesse das categorias profissionais ou econômicas. Módulo II 16 No parágrafo 1º, estabelece que os Estados, o Distrito Federal e os Municípios também instituirão contribuição, mas especificamente para o custeio de sistema de previdência e assistência social de seus servidores, dos quais serão cobradas. As contribuições figuram no capítulo em que são estabelecidos os princípios gerais do sistema tributário nacional, e estão submetidas às limitações constitucionais impostas aos tributos e às normas gerais previstas no art. 146, III, da Constituição. É, pois, vedado cobrar contribuições. a) sem lei que as estabeleça; b) antes da vigência da lei que as houver instituído ou aumentado; c) no mesmo exercício financeiro em que haja sido publicada a lei que as instituiu ou aumentou. As contribuições podem ter diferentes finalidades e distintas bases de cálculo; poderão, pois, conceituar-se como imposto ou taxa, poderão ser um misto das duas categorias ou contribuições de melhoria. O fato gerador da respectiva obrigação é que determinará a natureza específica da contribuição em cada caso (CTN, art. 4º). A Constituição refere-se a contribuições específicas em vários dispositivos: contribuição à seguridade social (arts. 195 e 201 a 204); contribuição social do salário-educação (art. 212, § 5º); contribuição para o Programa de Integração Social – PIS – e para o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público – PASEP -, que financiará o programa do seguro-desemprego (art. 239). As crescentes funções intervencionistas do Estado cada vez mais estimulam a criação de contribuições de organismos que se desenvolvem e atuam ao lado das funções estatais; são as chamadas funções paraestatais. As contribuições – instrumento de atuação e de intervenção do Estado, como reconhecem a própria norma do art. 149 da Constituição – têm uma Módulo II 17 característica peculiar: o sujeito ativo das contribuições não é necessariamente aquele que detém a respectiva competência tributária. Como veremos a seguir, a competência tributária compreende a competência legislativa (art. 6º do CTN), de que são dotadas apenas as pessoas políticas – União, Estados e Municípios. O art. 7º do CTN dispõe que a competência tributária é indelegável, o que não prejudica a atribuição a outras pessoas de direito público das funções de arrecadar e fiscalizar tributos, ou executar leis e atos administrativos. A atribuição de funções prevista no art. 7º do CTN não autoriza o ente, a quem estas foram conferidas, a ficar com o produto da arrecadação, o que, no entanto, pode ocorrer no âmbito do Direito Financeiro. Quando o sujeito ativo recebe a atribuição das funções previstas no art. 6º do CTN e, além disso, tem a disponibilidade sobre os valores arrecadados, para aplicá-los no desempenho de suas atividades específicas – tal como ocorre, por exemplo, com as contribuições ao INSS, o pedágio cobrado pelo Desenvolvimento Rodoviário S.A. (DERSA), contribuições cobradas pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) –, temos caracterizado o fenômeno da parafiscalidade. Os tributos parafiscais estão subordinados ao regime jurídico-constitucional dos tributos. A destinação legal do produto da arrecadação é irrelevante para a qualificação jurídica específica do tributo, conforme estabelece o art. 4º do CTN. Módulo II 18 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. São Paulo, Ed. Saraiva, 1997. BALEEIRO, Aliomar. Uma Introdução à Ciência das Finanças. 12ª ed., Rio de Janeiro, Ed. Forense, 1977. BECKER, Alfredo Augusto. Teoria Geral do Direito Tributário, São Paulo, Ed. Saraiva, 2ª tiragem, 1972. CAMPOS, Dejalma de. Direito Fiscal. TPD IOB, São Paulo, 1991. CAMPOS, Dejalma de. Prática Processual Tributária. São Paulo, Cultura Jurídica, 1996. LATORRACA, Nilton. Direito Tributário: Imposto de Renda das Empresas – Atualizado até 31-12-1999 por Rutnéa Navarro Guerreiro e Sérgio Murilo Zalona Latorraca. 15ª ed., São Paulo, Ed. Atlas, 2000. MORAES, Bernardo Ribeiro de. Compêndio de Direito Tributário. Primeiro Volume, 2ª ed., Rio de Janeiro, Ed. Forense, 1993. SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 17ª ed., São Paulo, Malheiros Editores, 2000. SOUSA, Rubens Gomes de. Compêndio de Legislação Tributária. 4ª ed. póstuma – 2ª tiragem. São Paulo. Resenha Tributária, 1982. XAVIER, Alberto. Direito Tributário Internacional do Brasil. 4ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 1995.