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Apostila comunicação e expressão 2

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bilhete entre pessoas que moram juntas, ou 
amigos íntimos, terá um cunho bem informal, com abreviações não permitidas pela 
gramática, com possíveis erros de ortografia, pois o propósito não é a publicação, mas 
sim a manutenção de relações e a passagem de informações úteis e importantes entre 
pessoas que se conhecem muito bem. 
Assim, é importante que todos saibam que não se fala errado, nem se escreve 
certo, mas que a língua é utilizada de várias formas, por isso ela é muito variável, e 
todas as variedades têm seus propósitos e são absolutamente adequadas nas 
situações em que foram originadas e em que são utilizadas. Segundo a renomada 
autora Maria Helena de Moura Neves (2010:134): 
Com efeito, o falado e o escrito – excluída qualquer rigidez de 
dicotomização, insisto – diferem quanto aos modos de aquisição, 
métodos de produção, transmissão, recepção, e, mesmo, estruturas de 
organização. E, se há diferenças constitutivas de cada uma dessas 
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modalidades, isso tem repercussão no produto. Não por isso, porém, se 
dirá que alguma das modalidades constitui um padrão único. 
 
6.4 O Internetês e o “dialeto escrito” com efeito oral5 
 
Segundo Xavier (2011:170), o internetês simula uma conversa espontânea face 
a face, embora haja muitas diferenças e limitações entre esse gênero digital e a 
conversa real. O autor mostra como os participantes de conversações em internetês 
buscam reproduzir a mesma velocidade das trocas orais presenciais, e assim tornar a 
interação que é remota mais próxima e fluente da forma natural de conversar. 
Como todas as variedades da língua, o internetês é mais um dialeto que serve aos 
seus propósitos comunicativos e não representa uma ameaça à língua. Como diz 
Xavier (p.175), “... o internetês parece representar perigo àquele que não o 
compreende ainda, nem tem boa vontade para estudá-lo a fim de encontrar a 
funcionalidade interacional presente em todas as línguas e dialetos, inclusive neste.” 
Vemos, assim, novamente, que cada variedade linguística é utilizada no contexto 
onde atinge melhor os propósitos da comunicação, o que significa que, como outros 
dialetos, o internetês será utilizado para a comunicação em meios digitais e hipertexto, 
e não indiscriminadamente em qualquer texto escrito. 
 
 
 
Recapitulando 
Vimos, neste capítulo, que a língua falada e a língua escrita são duas modalidades 
que se assemelham e se diferenciam em muitos aspectos, e que ambas apresentam 
 
5 Segundo XAVIER A.C., in: ELIAS (org.) 2011: 167-179). 
 
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variações, dependendo da situação em que são utilizadas e dos propósitos 
comunicativos dos participantes em cada ato de comunicação. É importante destacar 
que nenhuma modalidade e nenhuma variedade linguística é certa ou errada, mas que 
cada uma tem sua razão de ser e é perfeitamente adequada em seu contexto de uso. 
E isso inclui o internetês, o dialeto utilizado nos meios digitais. 
 
 
Bibliografia 
CASTILHO, Ataliba T. de. A Língua Falada e o Ensino do Português. São Paulo: 
Contexto, 2001. 
ELIAS, Vanda Maria (org.) Ensino de Língua Portuguesa:oralidade, escrita, leitura. 
São Paulo: Contexto, 2011. 
FÁVERO, Leonor Lopes, ANDRADE, Maria Lúcia C.V.O, AQUINO, Zilda. Reflexões 
sobre oralidade e escrita no ensino de língua portuguesa. In: ELIAS, Vanda Maria 
(org.), Ensino de Língua Portuguesa:oralidade, escrita, leitura. São Paulo: Contexto, 
2011. 
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da Fala para a Escrita: o tratamento da oralidade no 
ensino de língua. São Paulo: Cortez, 2001. 
NEVES, Maria Helena de Moura. Ensino de Língua e Vivência de Linguagem. Temas 
em confronto. São Paulo: Contexto, 2010. 
 
 
 
 
 
 
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CAPÍTULO 7 – COERÊNCIA E LÓGICA 
Edgar Kirchof 
 
 7.1 O que é coerência 
 
A coerência é a condição lógica para que nós possamos compreender os 
textos que lemos. No senso comum, nós geralmente a entendemos através do 
princípio lógico da não-contradição: “Algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo”. 
Um exemplo muito simplificado é o seguinte: uma pessoa afirma que esteve em um 
determinado lugar (sua casa, por exemplo), num determinado horário (ao meio dia de 
hoje), e, logo em seguida, afirma que não esteve naquele mesmo lugar e horário. Nós 
diríamos que essa pessoa está se contradizendo e que, portanto, seu discurso é 
incoerente. O resultado desse tipo de operação linguística é que o leitor tem 
dificuldade para decidir sobre a informação que deve ser apreendida. 
Textos incoerentes geralmente iniciam com um determinado assunto, mas, ao 
longo dos parágrafos, acabam se desviando para outros temas, não ligados de forma 
clara com o assunto principal, o que frequentemente produz contradições e 
enunciados não compreensíveis. É como se prometessem algo que não cumprem. 
Uma fonte inesgotável de incoerência textual é o uso inadequado de mecanismos 
coesivos, como conjunções, pronomes, substituições de palavras e de expressões etc. 
Assim sendo, a coesão pode ser considerada como um dos principais fundamentos da 
coerência e, por isso, será tratada detalhadamente no próximo capítulo deste livro. Por 
ora, para citar um único exemplo, se utilizarmos mal um pronome relativo, o leitor terá 
dificuldades para saber do que estamos falando. No enunciado “Não vi o pai do aluno 
que está doente”, não é possível saber se quem está doente é o “pai” ou o “aluno”. A 
ambiguidade no uso da coesão, portanto, gera incoerência textual. 
Por outro lado, retomando o exemplo da pessoa que afirma estar e não estar 
em um mesmo lugar no mesmo horário, poderíamos perguntar por que uma pessoa 
faria uma afirmação para, logo em seguida, contradizê-la. Nesse caso, precisaríamos 
imaginar algumas situações em que isso pudesse ocorrer. Poderíamos levantar a 
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hipótese de que essa pessoa quer confundir seu receptor; que está sendo irônica ou 
que está brincando; que está mentindo; que está tentando esconder alguma coisa. 
Poderíamos, inclusive, pensar que essa pessoa está tentando ser poética, pois, na 
poesia e na arte, muitas contradições aparentes são verdadeiros paradoxos repletos 
de sentidos densos e profundos. Pense, por exemplo, no poeta Camões, quando 
afirma que Amor é um contentamento descontente. 
Como você percebe, há muitas maneiras de interpretar um texto 
aparentemente incoerente. Isso nos leva a duvidar de definições muito simples de 
coerência textual, principalmente aquelas segundo as quais a coerência seria uma 
propriedade exclusiva dos textos. A linguista Ingedore Koch (2006) afirma que a 
coerência permite estabelecer os sentidos do texto, fazendo com que este possa ser 
interpretado pelo leitor. Mas isso não quer dizer que as marcas da coerência sejam 
estáticas e que possam, todas elas, ser sempre encontradas dentro de alguns textos – 
os textos coerentes – estando completamente ausentes em outros – os textos 
incoerentes. Antes, a coerência é o resultado da interação entre as intenções 
interpretativas de um leitor, a partir de certas marcas estruturais de um texto, 
produzido por um autor. 
É no processo de interação com as estruturas textuais, de um lado, e na 
produção de sentidos por parte do leitor, de outro, que a coerência é construída, 
permitindo que os textos façam sentido. Muitas vezes, um texto aparentemente 
incoerente acaba se revelando coerente quando levamos em conta o seu contexto 
enunciativo. É o que ocorre no seguinte exemplo: 
 
7.2 Cooperação entre o leitor e texto 
 
Uma maneira bastante produtiva para

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