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SEGURANÇA DO TRABALHO AGRÍCOLA Professor Me. Tiago Ribeiro da Costa GRADUAÇÃO Unicesumar C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; COSTA, Tiago Ribeiro da. Segurança do Trabalho Agrícola. Tiago Ribeiro da Costa. Reimpressão Maringá-Pr.: UniCesumar, 2018. 191 p. “Graduação - EaD”. 1. Segurança. 2. Trabalho. 3. Agrícola. 4. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-0550-9 CDD - 22 ed. 331 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de EAD Willian Victor Kendrick de Matos Silva Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Direção Operacional de Ensino Kátia Coelho Direção de Planejamento de Ensino Fabrício Lazilha Direção de Operações Chrystiano Mincoff Direção de Mercado Hilton Pereira Direção de Polos Próprios James Prestes Direção de Desenvolvimento Dayane Almeida Direção de Relacionamento Alessandra Baron Head de Produção de Conteúdos Rodolfo Encinas de Encarnação Pinelli Gerência de Produção de Conteúdo Juliano de Souza Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo Coordenador de Conteúdo Luciano Santana Pereira Lideranças de área Angelita Brandão, Daniel F. Hey, Hellyery Agda Design Educacional Yasminn Zagonel Iconografia Ana Carolina Martins Prado Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior José Jhonny Coelho Arte Capa André Morais de Freitas Editoração Victor Augusto Thomazini Revisão Textual Daniela Ferreira dos Santos Ilustração Marta Sayuri Kakitani Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualidade, novas habilidades para liderança e so- lução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no mundo do trabalho. Cada um de nós tem uma grande responsabilida- de: as escolhas que fizermos por nós e pelos nos- sos farão grande diferença no futuro. Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar assume o compromisso de democratizar o conhe- cimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros. No cumprimento de sua missão – “promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária” –, o Centro Universi- tário Cesumar busca a integração do ensino-pes- quisa-extensão com as demandas institucionais e sociais; a realização de uma prática acadêmica que contribua para o desenvolvimento da consci- ência social e política e, por fim, a democratização do conhecimento acadêmico com a articulação e a integração com a sociedade. Diante disso, o Centro Universitário Cesumar al- meja ser reconhecido como uma instituição uni- versitária de referência regional e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de competências institucionais para o desenvolvimento de linhas de pesquisa; con- solidação da extensão universitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a distância; bem-estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e administrati- va; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com o mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relaciona- mento permanente com os egressos, incentivan- do a educação continuada. Diretoria Operacional de Ensino Diretoria de Planejamento de Ensino Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportu- nidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con- tribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competên- cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessá- rios para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além dis- so, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendiza- gem, possibilitando-lhe trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória acadêmica. A U TO R Professor Me. Tiago Ribeiro da Costa Mestrado em Genética e Melhoramento Vegetal e especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho, ambos pela Universidade Estadual de Maringá (UEM/2010). Graduação em Agronomia (UEM/2007). Atualmente é professor assistente do Centro Universitário Cesumar (UNICESUMAR) no curso presencial de Agronomia e aos cursos de Tecnologia em Segurança do Trabalho, Tecnologia em Gestão Ambiental e Tecnologia em Segurança do Trabalho (NEAD/UNICESUMAR). Também é coordenador do curso de pós-graduação “lato sensu” em Engenharia de Segurança do Trabalho (UNICESUMAR) e ainda, professor assistente na UEM nos cursos de pós-graduação (agronomia, zootecnia e engenharia de segurança do trabalho). Ao longo de sua profissão, atuou como consultor empresarial e de desenvolvimento regional sustentável, conduzindo projetos de extensão universitária no contexto da Associação de Municípios do Setentrião Paranaense (AMUSEP), com enfoque na produção agroecológica de alimentos, comercialização e produção de alimentos em nível urbano. Ademais, como professor, possui expertise reconhecida por meio de sua produção científica. Ao longo de sua carreira, produziu oito livros nas áreas de Agronegócio, Gestão Ambiental e Segurança do Trabalho. Além disso, sua qualidade profissional é reconhecida pelas homenagens recebidas do corpo discente das instituições em que trabalha, tendo sido homenageado por três anos seguidos (2014-16) como nome de turma/patrono. Prezado(a) aluno(a), seja bem-vindo(a)! Neste momento, estamos iniciando a leitura de uma importante contribuição à sua for- mação como profissional da área de Segurança do Trabalho. A disciplina de Segurança do Trabalho Agrícola. Ao contrário do pensamento mais comum sobre este assunto, falar a respeito da Segu- rança do Trabalho Agrícola transcende a análise sobre a Norma Regulamentadora nº. 31, a qual fala especificamente sobre este assunto. Analisar a Segurança do Trabalho Agrícola exige uma análise das próprias atividades agrícolas (histórico e atualidades) e ainda, de seu principal ator, o trabalhador rural. Dessa maneira, em nossa primeira unidade, dedicamos todas as nossas discussões para fazê-lo reconhecer a evolução das cadeiasprodutivas agropecuárias no Brasil, ressaltan- do sua importância para o nosso desenvolvimento enquanto nação, em especial, em nossos aspectos sociais e econômicos. Já em nossa segunda unidade, nossas discussões se voltam ao Trabalhador Rural, em uma tentativa de lhe ilustrar não somente os riscos que este ator se encontra submetido, mas também seus aspectos mais subjetivos, psicológicos. Por meio desta unidade, verificaremos que este sujeito da ação possui peculiaridades que o diferencia dos trabalhadores urbanos. Por vezes, peculiaridades que podem re- presentar fragilidades que, se não consideradas, podem estabelecer sérios riscos à ati- vidade agrícola. Ademais, esta unidade nos esclarece, de forma definitiva, a pluriatividade e as tecnolo- gias com as quais estes trabalhadores rurais interagem. Muito mais que uma imagem de decadência, hoje, o trabalhador rural é encarado como um elemento transformador da realidade rural, o que justifica o renascimento deste meio e o enaltecimento das ati- vidades agrícolas como as únicas que ainda resistem frente a um cenário de depressão econômica. Já em nossa terceira unidade, tentamos aproximar o debate de atividades que são con- sideradas como “agrícolas”, mas que já possuem características mais semelhantes com indústrias urbanas. Especificamente, a unidade III nos trouxe à luz uma interessante dis- cussão sobre os espaços confinados, em especial, silos e secadores, algo tratado pela Norma Regulamentadora nº. 33. Por sua vez, a unidade IV apresentou as mais recentes discussões e conhecimentos so- bre a Norma Regulamentadora nº. 36, a qual trata das Agroindústrias de Abate e Proces- samento de Alimentos e Frigoríficos. Por meio da análise dessas duas unidades, percebemos que existe uma aproximação muito clara das diretrizes de segurança do trabalho com aquilo que é praticado por meio das Normas Regulamentadoras mais antigas. Todavia, o grau de especialização dessas duas atividades agrícolas faz com que o surgimento de Normas Regulamentado- ras mais específicas seja muito bem visto, não somente do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista humano. APRESENTAÇÃO SEGURANÇA DO TRABALHO AGRÍCOLA Pausas nas jornadas de trabalho, treinamentos em setores específicos e diretrizes mais precisas correspondem a uma excelente combinação de fatores que permite com que o trabalhador se sinta mais confiante e possa exercer sua atividade em um clima mais harmônico e produtivo. Por fim, mas não menos importante, a unidade V nos apresenta as atualidades acer- ca do cerne das atividades agrícolas: a Norma Regulamentadora nº. 31: Segurança e Saúde no Trabalho na Agricultura, Pecuária, Silvicultura, Aquicultura e Explorações Florestais. Esta unidade nos permite compreender os principais aspectos que precisam de atenção especial no campo, por exemplo, os trabalhos com máquinas agrícolas, agrotóxicos e mesmo a gestão da segurança do trabalho rural, executada pelos Ser- viços Especializados em Segurança e Saúde do Trabalho Rural (SESTR) e a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho Rural (CIPATR). Compreenderemos que existe uma importante contribuição partindo dessa norma, em especial, no que tange a proteção da vida e da integridade física dos trabalha- dores rurais. Ademais, para que possamos ter um melhor aprendizado ao longo do livro, serão apresentadas algumas atividades extras, por exemplo, leituras complementares, re- flexões, sugestões de outros materiais e outras didáticas para que você, prezado aluno, sinta-se imerso nesta experiência tão produtiva, que é compreender melhor o tema Segurança do Trabalho Agrícola. Vamos iniciar nossos estudos? Espero que goste desta humilde contribuição! Prof. Tiago Ribeiro da Costa APRESENTAÇÃO SUMÁRIO 09 UNIDADE I O MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES 15 Introdução 16 A Agricultura Colonial 19 Transição Para a Sociedade Agrária no Brasil 24 A Agricultura do Pós-Guerra: A Revolução Verde 28 As Consequências Sociais da Revolução Verde 32 Considerações Finais 39 Referências 40 Gabarito UNIDADE II O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS 43 Introdução 44 O Renascimento do Rural 46 O Entendimento Sobre o Trabalhador Rural 51 Tecnologias Relacionadas ao Trabalhador Rural 73 Considerações Finais 81 Referências 83 Gabarito SUMÁRIO 10 UNIDADE III AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS 87 Introdução 88 Os Riscos Ocupacionais e as Atividades Agrícolas 97 Trabalhos em Espaços Confinados 98 Estruturas de Armazenamento de Grãos 113 Legislação Brasileira e a Prevenção de Acidentes em Silos 114 Procedimentos de Segurança Para Entrada em Silos 116 Trabalho em Alturas em Silos 118 Considerações Finais 125 Referências 127 Gabarito UNIDADE IV OS PRINCIPAIS ASPECTOS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 36 131 Introdução 132 A Indústria Frigorífica 136 A Segurança do Trabalho na Indústria Frigorífica Brasileira 137 Principais Riscos Ocupacionais na Atividade Laboral em Frigoríficos 141 A NR-36 e sua Aplicação nos Frigoríficos 142 O Surgimento da NR-36 143 Principais Mudanças e Temas Abordados na NR-36 SUMÁRIO 11 145 Principais Desafios da Indústria Frigorífica no Atendimento à NR-36 148 Considerações Finais 155 Referências 157 Gabarito UNIDADE V ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 161 Introdução 162 Comissão Permanente Regional Rural (CPRR) 163 Serviços Especializados em Segurança e Saúde no Trabalho Rural (SESTR) 165 Comissão Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho Rural (CIPATR) 167 Os Agrotóxicos Segundo a NR-31 172 Máquinas, Equipamentos, Implementos e Ferramentas Agrícolas 178 Outras Diretrizes Definidas Pela NR-31 179 Perspectivas Sobre a Segurança do Trabalho Agrícola 181 Considerações Finais 189 Referências 190 Gabarito 191 CONCLUSÃO U N ID A D E I Professor Me. Tiago Ribeiro da Costa O MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES Objetivos de Aprendizagem ■ Conhecer a evolução das atividades agrícolas ao longo dos períodos históricos brasileiros. ■ Avaliar o aumento da complexidade de tais atividades e estabelecer uma ligação destas com os princípios de Segurança do Trabalho. ■ Entender a linha histórica que é capaz de explicar as atualidades sobre os trabalhos agrícolas. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ A agricultura colonial ■ Transição para a sociedade agrária no Brasil ■ A agricultura do pós-guerra: a Revolução Verde ■ As consequências sociais da Revolução Verde INTRODUÇÃO Prezado(a) aluno(a), bem-vindo(a) a nossa primeira unidade! Aliás, bem-vin- do(a) ao conhecimento de nossa gênese e de nossa história. Digo-lhe isso, pois conhecer sobre a evolução das atividades agrícolas ao longo de nossos princi- pais períodos históricos é também conhecer sobre nossa história. Você já deve ter ouvido falar que o Brasil é conhecido como o “celeiro do mundo”. Não obstante, isso é verdadeiro, levando-se em consideração que possu- ímos elevada representatividade na produção de grande diversidade de gêneros alimentícios, em especial, as commodities. Todavia, nem sempre nossas atividades agropecuárias tiveram a ênfase que possuem hoje. Aliás, podemos inferir pela análise de nossa primeira unidade, que nossas atividades agropecuárias foram desenvolvidas em meio a uma série de percalços e que, somente nos últimos 50 anos é que pudemos vislumbrar o desenvolvimento tecnológico pleno desta agricultura. A mais recente inserção de tecnologias, conhecida por 3ª Revolução Agrícola, ou ainda, Revolução Verde, representou um campo fértil para as mais recentes transformações sociaise econômicas no campo, dando-lhe dinamismo ímpar, ao mesmo tempo em que amplia a complexidade de seus postos de trabalho. Esse aumento de complexidade verificado nesse período foi fundamental para que o campo fosse também alvo das preocupações dos atores sociais no sentido de avaliar os riscos laborais e criar alternativas legais para que melhores patama- res fossem alcançados no sentido de ampliar a segurança do trabalho agrícola. Assim, nosso objetivo é apresentar os aspectos históricos, a linha lógica que levou a agricultura aos patamares tecnológicos utilizados e aos princípios de segurança do trabalho atualmente desenvolvidos. Vamos iniciar nossa jornada? Uma ótima leitura! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 15 O MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E16 A AGRICULTURA COLONIAL A história brasileira, embora curta em comparação aos países europeus, pos- sui uma riqueza de detalhes nos campos econômico, social, cultural, político e ambiental. Tal riqueza de detalhes nos permite evidenciar que o desenvolvimento desta história basicamente encontra-se pautado no rural. Embora, em princípio, não houvesse uma distinção entre o rural e o urbano no início do processo de colonização, algo que chamamos de “espaço contínuo”, muitos dos elementos atualmente reconhecidos como rurais estavam presentes, em especial, àqueles ligados ao extrativismo e à produção de alimentos. A extração do pau-brasil ganha destaque nesse cenário por ser a primeira atividade tipicamente rural, sendo esta datada a partir de 1502, com as primeiras expedições à Ilha de São João pelo navegador Fernão (Fernando) de Noronha. A ilha em questão faz parte do atual arquipélago de Fernando de Noronha, per- tencente ao estado de Pernambuco. Sobre este assunto, D´Agostini et al. (2013, p. 02) afirmam: Em 1502, tem início a exploração do pau-brasil, pelos colonizadores portugueses, a primeira riqueza explorada pelos europeus em terras brasileiras. A mercadoria, usada para fabricar tinturas, teve grande aceitação no mercado econômico da Europa. A substância corante ex- traída da madeira, embora tivesse valor inferior às mercadorias orien- tais, foi de grande interesse para Portugal. Assim, a coroa portuguesa declarou a exploração do pau-brasil um monopólio real, e decretou que só poderia dedicar-se a essa atividade quem obtivesse uma concessão e pagasse um imposto. A primeira concessão de exploração foi conferida a Fernando de Noronha, que, até 1504, era o único que tinha permissão para explorar o pau-brasil. A coroa portuguesa doou a ele a ilha de São João, mais tarde designada por seu nome. No referido cenário, a mão de obra indígena era cooptada a proceder esta extração de madeira no sistema de escambo, conforme mencionam D´Agostini et al. (2013, p. 02): Os indígenas brasileiros participavam da extração do pau-brasil por meio da prática do escambo, considerado, por muitos historiadores, como a primeira atividade comercial brasileira. Por esse serviço, re- cebiam em troca utensílios como espelhos, facas, canivetes, pedaços de tecidos e outras quinquilharias. Os índios cortavam as árvores e as levavam até os navios portugueses na beira do mar. A Agricultura Colonial Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 17 Considerando todo o contexto que se desenvolveu na época, é importante pensarmos o porquê da atividade de extração do pau-brasil ser considerada uma atividade rural, se ela pressupõe a extração de um recurso natural. Esse ponto de reflexão é bastante pertinente, pois a atividade agrícola não remete apenas a produção de alimentos. O rural abrange muitas outras dimensões, mas, considerando somente sua dimensão produtiva, as extrações de recursos naturais florestais, conhecida como silvicultura fazem parte das atividades rurais, conforme ilustra a legislação tributária brasileira: Consideram‐se como atividade rural a exploração das atividades agríco- las, pecuárias, a extração e a exploração vegetal e animal, a exploração da apicultura, avicultura, suinocultura, sericicultura, piscicultura (pesca ar- tesanal de captura do pescado in natura) e outras de pequenos animais; a transformação de produtos agrícolas ou pecuários, sem que sejam al- teradas a composição e as características do produto in natura, realizada pelo próprio agricultor ou criador, com equipamentos e utensílios usu- almente empregados nas atividades rurais, utilizando‐se exclusivamen- te matéria‐prima produzida na área explorada, tais como descasque de arroz, conserva de frutas, moagem de trigo e milho, pasteurização e o acondicionamento do leite, assim como o mel e o suco de laranja, acon- dicionados em embalagem de apresentação, produção de carvão vegetal, produção de embriões de rebanho em geral (independentemente de sua destinação: comercial ou reprodução). Também é considerada atividade rural o cultivo de florestas que se destinem ao corte para comercializa- ção, consumo ou industrialização (BRASIL, 2011, p. 01, on-line)1. Dessa maneira, caro(a) aluno(a), podemos considerar que a extração do pau-bra- sil no princípio da colonização brasileira foi uma atividade reconhecidamente rural, aliás, conforme já observamos, a primeira atividade rural do Brasil colônia. Desde então, o rural propiciou ao Brasil algumas mudanças significativas em termos de ocupação geográfica. As regiões litorâneas do Nordeste brasileiro e, pos- teriormente, do Sudeste foram as mais transformadas com essa extração, pois já em 1530, com a entrada das expedições colonizadoras de Martim Afonso de Souza, a coroa portuguesa já se viu obrigada a criar a 1ª Carta Régia (1532) para disciplinar a extração da madeira, que já estava escassa em uma faixa de até 100 quilômetros partindo-se no sentido litoral-interior do Brasil Colônia (D´AGOSTINI et al., 2013). Após a saída do pau-brasil dessa faixa litorânea, abriu-se caminho para a exploração de outros recursos florestais menos nobres à época, mas de grande relevância na atualidade, como o cacau e outras espécies frutíferas. ©shutterstock O MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E18 Ademais, não se observou somente a saída de tais recursos. Com a chegada das primeiras missões de real colonização, a partir de 1530, com Martim Afonso de Souza e outros colonizadores, algumas culturas já conhecidas dos europeus foram introduzidas em nosso território, como foi o caso da cana-de-açúcar, o que abriu caminho para o povoamento das principais regiões de colonização no Nordeste (Salvador, Recife e Olinda) e Sudeste brasileiros (São Vicente, São Paulo de Piratininga e Rio de Janeiro). Em cerca de um século (século XVI), o Brasil já passava por drásticas alte- rações na ocupação de seu território, graças à influência das atividades rurais. Igualmente, estendendo essa análise para os séculos XVII, XVIII e XIX, verifica- mos que o rural estabeleceu grande influência na pró- pria economia da colônia, em dois momentos distin- tos: Entre os séculos XVII e XVII, com a cultura da cana- -de-açúcar e no século XIX, com a ascensão da cultura do café, o chamado “ouro verde”. Sobre o ciclo da cana-de-açúcar, Naritomi (2007, 38-39, on-line)2 afirma: Até o século XVII, o Brasil era o maior produtor mundial de açúcar. No Nordeste, do Recôncavo Baiano ao Rio Grande do Norte, cultivava-secana-de-açúcar. Os núcleos principais de produção foram Bahia e Per- nambuco. Rio de Janeiro e Espírito Santo cultivavam cana em menor escala e, de forma predominante, para a produção de aguardente que servia de moeda de troca por escravos na África. [...] A economia do açúcar se estruturou no chamado plantation com base em três elementos básicos: latifúndio, monocultura e trabalho escravo. Junta- mente com a plantação da cana, nasceram, no Brasil, a grande propriedade rural e a sociedade patriarcal e escravocrata. O engenho de açúcar era um empreendimento que exigia um grande volume de recursos para ser ini- ciado. As terras eram concedidas àqueles que tinham alguma relação com a coroa portuguesa ou com os capitães donatários e que possuíam recur- sos para ocupá-las e nelas produzir. Além disso, o ciclo do açúcar só foi possível devido à solução do problema da mão de obra: o escravo africano. ©shutterstock Transição Para a Sociedade Agrária no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 19 Nesse momento histórico, o país alcançou sua máxima vertente agroexporta- dora. Não de forma contínua, mas conforme Naritomi (2007, on-line)2, com diferentes fases de altos e baixos que inseriram a cana-de-açúcar como o prin- cipal produto da pauta agroexportadora do Brasil, elevando sua importância econômica naquela época. TRANSIÇÃO PARA A SOCIEDADE AGRÁRIA NO BRASIL Até aqui caro(a) aluno(a), você está percebendo que a história do Brasil foi cons- truída com base na agricultura e nas atividades rurais. Não obstante, a própria cultura, atualmente configurada como uma mescla de contribuições de povos de várias partes do mundo, teve no rural o mote principal para sua junção em nosso território, inicialmente considerando os europeus e os africanos e, em um momento posterior, já com a exploração da cultura do café, uma nova leva de europeus juntamente com asiáticos (japoneses, em especial, que colonizaram as áreas do interior de São Paulo e do Paraná). Nesse ponto do texto, você deve estar se perguntando: “mas o que vem a ser atividade agrícola e atividade rural?”. Em resumo, as atividades rurais são aque- las executadas estritamente no espaço rural, enquanto as atividades agrícolas possuem um contexto mais econômico. Tais atividades estão ligadas às cadeias produtivas agropecuá- rias, mas não necessariamente estão ligadas ao rural. Ainda, o termo “agricultura” remete a produção de alimentos de origem vegetal. O MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E20 Após a queda da cana-de-açúcar e mesmo do ciclo do ouro em Minas Gerais, (entre os séculos XVI e XVII) o Brasil encontrava-se com uma pequena massa urbana nas principais capitais do território. O desenvolvimento econômico, embora ainda pautado nestas duas cadeias produtivas sendo ouro e açúcar, já se encontrava mais diversificado, em especial considerando o desenvolvimento logístico que propiciou a abertura de novas rotas ao interior, especialmente no século XIX, já no Brasil Império, com as famosas ferrovias. Outro elemento de diversificação da economia brasileira foi o desenvolvi- mento do comércio nos grandes centros, condição necessária considerando a aglomeração populacional advinda do dinamismo econômico proporcionado pelos ciclos econômicos anteriores. Já não se falavam em pequenas vilas, mas aglomerados populacionais pujantes, com economia transitando para um status de menor dependência das ativida- des econômicas tipicamente rurais. A Figura 1 demonstra o desenvolvimento da cidade de São Paulo de Piratininga em 1837. Figura 1 – Centro histórico de São Paulo de Piratininga, onde atualmente se localiza a Praça da Sé (ao centro), o Vale do Anhangabaú (na parte inferior) e o Parque Dom Pedro – Brás (parte superior da imagem) Fonte: Goetha (1944, on-line)3. No Brasil Império, segundo a visão de Trevisan (2006, p. 02, on-line)4, imperava a visão da sociedade agrária, a qual era definida da seguinte maneira: Transição Para a Sociedade Agrária no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 21 Na sociedade agrária, a cidade existe como um centro político-admi- nistrativo que organiza e domina o meio rural, mas é inteiramente es- truturada pelo rural. Ou seja, há uma predominância do rural sobre o urbano. O campo é o setor produtivo, e o urbano é o consumidor. A maior parte da população está envolvida na produção (em torno de 20 camponeses alimentam um citadino). As relações sociais, embora sejam mescladas por relações indiretas e indiferentes, ainda predomina a afetividade sobre o racional. De certa forma, as explicações dadas por Trevisan (2006, on-line)4 associadas à realidade social, econômica e produtiva já convergiam para o atual modelo de produção agropecuária, tipicamente agroexportador. Com a ascensão cafeeira, no interior do estado de São Paulo, houve o acirra- mento do modelo agroexportador, altamente demandante de mão de obra e de novas tecnologias, tanto naquilo que se convenciona chamar de atividades “dentro da por- teira” como ao longo de toda a cadeia produtiva, criando um conjunto de novas atividades que proporcionaram o desenvolvimento dos clássicos eixos econômicos brasileiros, localizados em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro (BAER, 2002). A pujança trazida pelo café foi tamanha que, segundo Baer (2002, p.38), as exportações cafeeiras saltaram de 3,1 milhões de sacas (algo que corresponde a 192 mil toneladas) no início do século XIX para 51,6 milhões de sacas (3,1 milhões de toneladas) já ao final do mesmo século. Ainda, Baer (2002) nos mostra que o agronegócio do café criou a massa crí- tica necessária para proporcionar o desenvolvimento do Centro-Sul brasileiro sob o modelo de inserção de investimentos estrangeiros em infraestrutura, emprego de mão de obra livre e imigrante e o desenvolvimento posterior da indústria, algo verificado ao longo da primeira metade do século XX. Mas, não somente isso, Baer (2002) afirma que as demais cadeias produti- vas foram impulsionadas pelo café, tanto no que tange as cadeias agropecuárias (algodão, látex de seringueira, açúcar e cacau), cadeias industriais (máquinas e equipamentos) e cadeias de serviços (com a expansão dos centros urbanos principais e secundários nos estados do Centro-Sul do país). As atividades agropecuárias, ao longo dos séculos XVI e XIX modificaram profundamente a sociedade brasileira, não somente tornando-a agrária e, pos- teriormente, urbana, mas também no que tange às questões agrárias e mesmo às questões relacionadas às formas de se executar os trabalhos. O MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E22 Veja que em nosso primeiro insight, quando falamos a respeito de “questões agrárias”, devemos analisá-las sob dois enfoques: o primeiro, relacionado à ocu- pação das terras a partir do início do século XX e o segundo, relacionado a uma crescente dicotomização entre o rural e o urbano, criando finalmente as primei- ras ideias sobre o trabalhador rural. É notável que a expansão das terras agricultáveis brasileiras ocorreu em um clima de desapropriação e desbravamento. Ao entendimento da Coroa e da República dos Estados Unidos do Brasil, todas as terras brasileiras, por direito, pertenciam a estes entes governamentais, os quais repassavam os direitos de posse aos agricultores que apresentassematributos financeiros e tecnológicos para ocuparem as terras e produzir. Foi desta forma, por exemplo, que o interior de São Paulo fora ocupado pelas fazendas cafeeiras ao longo do século XIX e início do século XX. Aos agriculto- res menos capitalizados, eram destinadas as terras marginais ou mesmo, restava a possibilidade de migrar cada vez mais ao interior do país para ocupar terras ainda não desbravadas (BAER, 2002). Como as melhores terras e condições eram destinados aos grandes agricul- tores, estes vivenciaram oportunidades de ampliar seu patrimônio, ao ponto de concentrarem terras daqueles agricultores que não tiveram sucesso em sua experi- ência de colonização de terras. A estes últimos sobravam apenas terras marginais ou, na hipótese de não possuírem terras, somente lhes restava a possibilidade de serem empregados como mão de obra nas fazendas cafeeiras ou mesmo nas dife- rentes cadeias produtivas que se relacionavam à produção do café. Tal cenário acentuou as desigualdades sociais que permanecem vivas no campo até os dias atuais, onde grandes produtores, capitalizados, possuem condições de ampliar seu patrimônio e seu domínio, enquanto os demais produtores rurais, desassistidos pelo poder público, vivem em pleno cená- rio de abandono. Esse cenário de abandono foi retratado por dois grandes autores da lite- ratura brasileira: Guimarães Rosa, com “Grande Sertão: Veredas” e Monteiro Lobato, com “Urupês”. Esse abandono, em especial, foi retratado pelo mais céle- bre personagem rural do Brasil, o Jeca Tatu, presente em Urupês, como vimos na figura a seguir: Transição Para a Sociedade Agrária no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 23 Figura 2 – Jeca Tatu nas ilustrações de Urupês, de Monteiro Lobato Fonte: Lobato (1994). De certa maneira, o personagem Jeca Tatu foi capaz de expressar os três cenários distintos existentes no Brasil cafeeiro do início do século XX: o avanço econô- mico e social das cidades brasileiras, que passavam por um denso processo de industrialização; a transformação da agricultura cafeeira em agribussiness; e a elevação do contingente de “esquecidos”, agricultores familiares que mantinham suas tradições e suas humildes produções e modo de vida no sertão do Brasil. O personagem Jeca Tatu fora tão icônico que este se encontra no centro de discussões sociais até os dias atuais. Você notou o semblante tristonho do Jeca Tatu? Esse semblante revela a genialidade mal interpretada de Montei- ro Lobato, pois, por muito tempo, este personagem levara a alcunha de pre- guiçoso e vagabundo, acentuando a dicotomização entre o “atrasado” rural e o avançado “urbano”. Todavia, a genialidade de Monteiro Lobato está no fato do semblante do Jeca revelar os problemas de doenças que o homem do campo desassistido sofria, em especial, Febre Amarela e verminoses. Um verdadeiro abandono por conta das autoridades públicas. Fonte: o autor. ©shutterstock O MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E24 É sobre esses agricultores que falaremos a respeito mais a diante em nosso livro, sendo eles um dos principais elos das cadeias produtivas, sobre os quais devemos conhecer e racioci- nar modelos prevencionistas para que sua saúde e segurança sejam preservados. Por enquanto, vamos continuar nossa análise para um novo período histórico: o da Revolução Verde. A AGRICULTURA DO PÓS-GUERRA: A REVOLUÇÃO VERDE Caro(a) aluno(a), embora tenhamos visto que a agricultura brasileira tenha evoluído à patamares nunca antes vistos, graças a cultura do café e ainda, a própria socie- dade tenha se alterado drasticamente, avançando a um modelo tipicamente urbano, a maior das mudanças que poderiam ocorrer nesse contexto ainda estava por vir. Mesmo com oscilações, nas décadas de 1940 e 1950, o café ainda era a cul- tura de maior relevância agroexportadora. O Governo Brasileiro e agências de desenvolvimento internacional viam nesta cadeia agroexportadora uma exce- lente oportunidade de negócios, tanto, que a partir de 1945, observou-se um incremento nas ações de Assistência Técnica e Extensão Rural aos produtores de café (PEIXOTO, 2008). Em especial, é de se destacar a experiência vitoriosa das Associações de Crédito e Assistência Rural (ACAR), conforme descrito por Peixoto (2008, p.18-19). A Agricultura do Pós-Guerra: A Revolução Verde Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 25 A institucionalização efetiva de um serviço de assistência técnica e ex- tensão rural no país se deu ao longo das décadas de 50 e 60, a partir da criação nos estados das Associações de Crédito e Assistência Rural (ACAR), coordenadas pela Associação Brasileira de Crédito e Assis- tência Rural (ABCAR), criada em 21/06/1956. As ACAR eram entida- des civis, sem fins lucrativos, que prestavam serviços de extensão rural e elaboração de projetos técnicos para obtenção de crédito junto aos agentes financeiros. [...] O método de ação das ACAR foi inspirado no modelo norte-america- no de extensão rural, mas os serviços não eram prestados diretamente por universidades, e sim pelas associações. Todavia, o crédito super- visionado por um serviço de assistência técnica foi uma inovação no modelo brasileiro que estava sendo implantado, uma vez que nos EUA os produtores rurais já estavam habituados a se relacionar com os ban- cos e obter empréstimos. As demais ACAR foram surgindo em cada estado, nas duas décadas seguintes. Vinte e três ACAR estavam criadas até 1974 e, juntamente com a ABCAR, substituta do Escritório Técnico de Agricultura Bra- sil-Estados Unidos (ETA) e criada em 21/06/1956, formavam o então chamado Sistema Abcar, também conhecido e tratado na legislação como Sistema Brasileiro de Extensão Rural (SIBER). Em uma única ação, os produtores rurais mais capitalizados estavam se relacio- nando de uma forma mais íntima com o conhecimento científico e tecnológico oriundo das ações de Assistência Técnica e ainda, com o financiamento público e privado de suas produções, o que estabilizou a cadeia produtiva do café ao longo destas duas décadas (1950 e 1960), levando-se em consideração que a cultura do café já não enfrentava um bom período no que tange à sua comercialização em nível internacional. Também é de se destacar que, ao passo em que o café aos poucos estava em decadência, outras culturas encontravam um nicho específico na nova configu- ração produtiva do mundo pós-guerra: os cereais. As cadeias do milho, trigo, arroz e da crescente cultura da soja estavam sob uma demanda crescente por matéria-prima, essencial para a alimentação humana e animal, de maneira que, em vinte anos, o cenário das áreas produtivas brasi- leiras foi aos poucos alterado para seguir a tendência mundial de produção de commodities (PEIXOTO, 2008). O MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E26 Segundo Branco (2008, p.12): Commodities é o termo utilizado para se referir aos produtos de origem primária que são transacionados nas bolsas de mercadorias. São normal- mente produtos em estado bruto ou com pequeno grau de industrializa- ção, com qualidade quase uniforme e são produzidos e comercializados em grandes quantidades do ponto de vista global. Também podem ser estoca- dos sem perda significativa em sua qualidade durante determinado perío- do. Podem ser produtos agropecuários,minerais ou até mesmo financeiros. Essa transformação das áreas rurais brasileiras não fora embasada somente na questão do suprimento de conhecimento e de crédito, mas também de um conjunto de ações, tidas como “pacote tecnológico” ligado a uma mudança de pro- porções extraordinárias, desencadeadas pelo ideário do Engenheiro Agrônomo de origem holandesa Norman Ernest Borlaug, conhecido como o “Pai da Revolução Verde”, como vimos na figura a seguir: Figura 3 – Norman Ernest Borlaug Fonte: Ag Bio World ([2016], on-line)5. Dada a crescente fome no mundo e a impossibilidade em se aumentar as áreas de plantio sem degradar os recursos naturais (situação da década de 1940), a única solução visualizada por Borlaug foi ampliar a tecnologia utilizada para a produção de alimentos em suas diferentes dimensões: maquinários, melhora- mento genético das culturas, manejo de solos, agrotóxicos, na época chamados de defensivos agrícolas, adubação química, assistência técnica e produção de conhecimento agrícola, crédito rural e auxílio governamental (PEIXOTO, 2008). ©shutterstock A Agricultura do Pós-Guerra: A Revolução Verde Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 27 O modelo projetado por Borlaug foi bem-sucedido, afinal, em três décadas (1950 a 1980), houve um incremento de 450% na produtividade média das cul- turas agroexportadoras (cereais, conforme observamos), de maneira que a fome no mundo fora considerada como atenuada (PEIXOTO, 2008). Esse mesmo pacote tecnológico chegou ao Brasil em meados da década de 1950, sendo a ABCAR e o SIBER os seus primeiros pilares. Já nas décadas seguintes, a agropecuária brasileira fora agraciada com a evolução deste pacote tecnológico, da forma como segue: ■ A ABCAR e o SIBER serviram de base para a criação do Sistema Brasileiro de Assistência Técnica e Extensão Rural (Sibrater/1970) e do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR/1965). ■ Diante do Sibrater, em 1973 foi criada a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e foram fomentadas a criação de cursos nas áreas de ciências agrárias, em especial, em universidades federais. ■ O SBCR fomentou a compra de máquinas e implementos agrícolas às proprie- dades rurais, que investiram fortemente nas produções de cereais. Da mesma forma, insumos químicos sintéticos (fertilizantes e agrotóxicos) passaram a ser utilizados em maior escala, gerando respostas produtivas de elevado nível. ■ O melhoramento genético propiciou a tropicalização de diferentes culturas, o que possibilitou o rearranjo produtivo aos moldes atuais, com a evolução dos plantios das commodities nos Estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país (este último inicialmente explorado no princípio da década de 1980). Para um olhar pouco cuidadoso, a conclusão óbvia seria a de que o Brasil atingiu níveis de excelência produtiva e tecnológica no campo e isto perdura até os dias atu- ais com aquilo que chamamos de 4ª Revolução Agrícola, ou Revolução Biotecnológica, que nos permite racionali- zar o uso de insumos clássicos como agrotóxicos por inter- médio do uso de espécies geneticamente modificadas ou melhoradas. O MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E28 Isto não deixa de ser verdade, afinal, o Brasil, mesmo em um momento de crise econômica, mantém sua representatividade no agronegócio mundial pelas tecnologias e pela inovação aqui gerada, o que tornam as produções altamente competitivas no mercado externo. No entanto, não podemos nos esquecer que este modelo revolucionário propi- ciou os mesmos efeitos antes observados timidamente na cultura da cana-de-açúcar e de forma escancarada na cultura do café: a concentração de terras e de renda. AS CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS DA REVOLUÇÃO VERDE Quando consideramos “a técnica pela técnica”, característica inerente à visão tec- nicista, não há o cuidado em se escolher a metodologia para se atingir um bom resultado, de maneira que os caminhos mais curtos são os preferidos. Aliás, a própria motivação da Revolução Verde era muito clara: a frase “Reduzir a Fome no Mundo”, slogan amplamente utilizado no período, não traz implícita a forma, mas sim o resultado (PEIXOTO, 2008). O acesso às novas tecnologias, em especial nas décadas de 1960 e 1970, era privilégio apenas dos produtores capitalizados e abarcados na política de Crédito Rural. Não existia uma política semelhante para a Agricultura Familiar, tendo em vista que esta não possuía garantias para pagamento das dívidas (MATOS, 2010). Ademais, também é de se destacar que não houve dialogicidade na implan- tação das novas tecnologias e a maioria dos produtores, já descapitalizados pela derrocada do café, viram-se excluídos do processo de desenvolvimento por não terem acesso e não conhecerem as tecnologias. A realidade da Agricultura Familiar sempre se estabeleceu a partir de sua essência, mesmo após a Revolução Verde: a família. Todavia, após tal revolu- ção, mesmo a Agricultura Familiar se tornou tecnificada. As Consequências Sociais da Revolução Verde Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 29 Podemos inferir que a Revolução Verde atingiu seu principal objetivo de aumentar a produção de alimentos com o uso da tecnologia de produção (meca- nização, melhoramento genético, crédito agrícola e participação do estado na vida rural). Em um curto período, a produção de alimentos triplicou, contudo, acentuou as desigualdades sociais. A única solução para os agricultores que não puderam embarcar nesse movimento foi vender as terras para agricultores mais capitalizados e ávidos em produzir mais para aumentar a sua rentabilidade e se direcionar aos grandes centros, em busca de subempregos nas indústrias e no crescente setor de serviços (MATOS, 2010). A Figura 4 ilustra o processo de inflexão da população brasileira: 200 150 100 50 - 100% Em % do Total Milhões de pessoas 75% 50% 25% 0% 1950 1960 1970 1980 1991 2000 2010 51,9 70,1 93,1 119,0 146,8 169,8 190,8 Rural Urbana Figura 4 – Distribuição da população brasileira Fonte: IBGE (2010, on-line)6. No início da década de 1970, o campo já vinha sofrendo com esse processo de migra- ção das famílias que não se encaixavam no modelo revolucionário, sendo que nessa década, pela primeira vez, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010, on-line)6, a população urbana superava a população rural. A problemática não se encontrava na simples migração. Encontrava-se na crescente alteração da estrutura fundiária do país (de pequenos núcleos fami- liares de produção de alimentos para os grandes latifúndios monocultores), na necessária concentração de terras para que isso ocorresse e na falta de estrutura e de empregabilidade dos grandes centros da época, os quais não conseguiam absorver todo esse excedente populacional (MATOS, 2010). ©shutterstock O MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E30 Ademais, esse excedente populacional não se encontrava minimamente capaci- tado para enfrentar as tecnologias produtivas das indústrias. Muitas dessas pessoas eram consideradas como analfabetas funcionais e poucas foram as pessoas e famí- lias que conseguiram protagonizar histórias de sucesso nas grandes cidades. Outra questão é que as atividades industriais e de serviçospossuem empre- gabilidade mais volátil que as atividades agropecuárias, que historicamente são menos afetadas pelas oscilações econômicas. Já dizia um grande mestre que tive: “ninguém para de comer, mesmo com pouco dinheiro!”. Durante a década de 1970, em especial, entre os anos de 1970 e 1973, o Brasil vivia um curto período de prosperidade econômica, o que gerou a alcunha de “Milagre Econômico”. As indústrias e o comércio contratavam quem estivesse disponível, um dos poucos momentos históricos do Brasil onde se pôde falar em “pleno emprego”. Ocorre que esse “milagre” teve sua morte decretada em 1973, quando da primeira crise mundial de petróleo. Nos anos seguintes, dadas às sequências de geadas no Centro-Sul do país, que dizimaram os cafezais que ainda resistiam ao tempo, houve mais um fluxo massivo de famílias do campo para as cidades que já não tinham tantos empregos. Resultado: marginalização nos grandes centros. (MATOS, 2010; BIANCHINI; MEDAETS, 2013, on-line)7. Essas famílias não possuíam dinheiro, estudos, e com o pouco dinheiro que ganhavam, alimentavam-se e poupavam para construir uma pequena casa em um terreno invadido. Surgiam aí as primeiras favelas, hoje conhecidas por “comu- nidades” (BIANCHINI; MEDAETS, 2013, on-line)7. Nesses locais longínquos e geralmente encrustados nas áreas mais declivosas, os serviços sociais básicos (educação, saneamento básico, saúde, moradia e infraestrutura) chegavam de maneira ineficiente. Mas não havia muito que fazer! Essa foi a solução encontrada por essas pessoas que, embora tenham saído do meio rural, nunca perderam o rural de si, o que é demonstrado por sua cul- tura e costumes (MARANDOLA JÚNIOR; ARRUDA, 2005). As Consequências Sociais da Revolução Verde Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 31 Pelo fato do incipiente alcance das políticas públicas é que se convenciona afirmar que essas pessoas estão marginalizadas (à margem dos processos de desen- volvimento). E isso perdurou dessa forma até meados dos anos 2000, onde se verificou a redução no processo de êxodo rural pela associação da melhoria das condições de vida no meio rural, pela adoção de políticas públicas de fomento às famílias que resistiram ao processo do êxodo, a exemplo do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) e também pelo fato de já não haver mais tantas pessoas no campo (atualmente estamos nos aproximando da cifra de 10% da população brasileira vivendo no meio rural) (BIANCHINI; MEDAETS, 2013, on-line)7. Somente na última década (2000-2010) é que se verificou uma mudança significativa nesse cenário de exclusão social e expropriação dos modelos pro- dutivos, com os programas de transferência de renda e outros programas sociais relevantes, mas nada suficientes para reverter a magnitude das mudanças sociais promovidas pela Revolução Verde. É isso que faz com que este modelo seja polê- mico e bastante questionável no que concerne à promoção da prosperidade da população brasileira. E afirmo isso, caro(a) leitor(a), sem ter lhe explanado a res- peito dos conflitos agrários derivados do processo de concentração das terras e dos problemas ambientais das técnicas de cultivo e mesmo relacionados aos excedentes populacionais nas grandes cidades, como poluição das águas, do solo e do ar, falta de acesso à água potável, desmatamentos em áreas de preservação ambiental, desmoronamentos, epidemias, dentre tantas outras consequências. Mas após a discussão deste último tópico, nesta unidade, você deve estar se perguntando se somente houve prosperidade para a Agricultura Empresarial. Ainda, outro questionamento pertinente é com relação ao atual estado da agri- cultura familiar e mesmo de nossa sociedade. Isto é algo que discutiremos em nossa segunda unidade, quando falarmos sobre a Nova Agricultura Familiar e o Trabalhador Rural, já estabelecendo um diálogo com as novas tecnologias liga- das ao meio rural e à própria segurança do trabalho. O MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E32 CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), nossa primeira unidade foi bem interessante, não acha? Por meio da ilustração dos passos históricos das atividades agrícolas brasileiras, pudemos evi- denciar que muito mais que uma serialização de atividades, ilustramos o verdadeiro pano de fundo do desenvolvimento brasileiro, amplamente pautado pela agropecuária. Em princípio, de forma, extrativista, verificamos uma grande relevância de tais atividades por meio da extração do pau-brasil. Embora tenhamos ressalvas quanto à questão ambiental, considerando ser este o primeiro processo de des- matamento brasileiro, não devemos negar que os benefícios econômicos de tal atividade criaram a massa crítica necessária para outras atividades econômicas no Brasil Colônia, a exemplo da mineração e da inserção da cana-de-açúcar na pauta produtiva brasileira. Pela análise histórica, verificamos que o Brasil se desvencilhou de sua pátria- -mãe portuguesa embasado em monoculturas (cana-de-açúcar, cacau, seringais e café), as quais impulsionaram o desenvolvimento econômico de núcleos urbanos que, mais tarde, dominariam o meio rural tornando-o subordinado às suas decisões. O ápice dessa transformação se deu entre os anos de 1850 e 1940, quando o processo de urbanização se tornou drástico demais ao ponto de se criar a dico- tomização que estigmatiza as atividades agrícolas até os dias atuais, com a marca do atraso e da decadência. Todavia, entendemos que o meio rural possuía e ainda possui ampla capaci- dade em se reinventar, de forma que a Revolução Verde transformou as formas de produção de alimentos, criando as bases para que o campo se tornasse tão ou mais produtivo, em nível econômico, que a cidade, de maneira a considerar- mos atualmente que o espaço urbano e o espaço rural não são dicotômicos, mas contínuos e complementares. 33 1. A “Revolução Verde” foi um período histórico, considerando a produção de ali- mentos, que se estendeu de 1950 a 1980. Tratou-se de um marco para o agro- negócio representado pela introdução de tecnologias produtivas que possibili- taram a ampliação da produtividade dos cereais e o abastecimento dos diversos mercados consumidores mundiais. Sobre esse período, analise as afirmações e assinale a alternativa correta. I. Esse período pode ser entendido como um “divisor de águas” para as ativi- dades agropecuárias, uma vez que toda a evolução tecnológica inserida no contexto da produção de alimentos inverteu a lógica secular da agricultura, que previa que, para aumentar a produção, eram necessárias novas terras. II. Essa lógica, mencionada no item I, foi invertida pelo fato de que as tecnolo- gias inseridas possibilitaram produzir mais no mesmo espaço e isso foi possí- vel graças a algumas soluções, como o melhoramento genético das culturas, a mecanização agrícola, os agrotóxicos e a fertilização dos solos. III. A “Revolução Verde” pode ser compreendida ainda como um marco de de- senvolvimento social, uma vez que a prosperidade produtiva no campo per- mitiu com que todas as famílias rurais permanecessem em seu meio, não ha- vendo êxodo para as grandes cidades. IV. Também é fato que a “Revolução Verde” possuiu como característica a inser- ção de tecnologias de baixo impacto ambiental, não sendo registradas conse- quências negativas em termos de contaminação de solos, águas, fauna e flora. Estão corretas: a. Apenas a afirmação I. b. Apenas a afirmação II. c. Apenas as afirmações I e II. d. Apenas as afirmações I e IV. e. Apenas as afirmações II, III e IV. 34 2. Emboramuitos analistas questionem as consequências sociais da “Revolução Verde”, é fato que as evoluções tecnológicas aplicadas possibilitaram o aumento de produtividade no campo. Entretanto, além dessa elevação de produtivida- de no campo e de todas as tecnologias desenvolvidas, devemos destacar dois benefícios, que perduram até hoje, como herança dessa revolução. Assinale a alternativa que apresenta esses dois benefícios. a. Sistema Oficial de Crédito e Institutos de Pesquisa e Extensão Rural. b. Sistema Nacional de Estocagem e Programa de Crédito à Agricultura Familiar. c. Programa de Fortalecimento da Logística e Sistema Oficial de Crédito. d. Institutos de Pesquisa e Extensão Rural e Programa Nacional de Combate à Seca. e. Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) e Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PRONATER). 3. O Brasil enquanto país assistiu seu próprio desenvolvimento pautado nas mono- culturas. Uma, em especial, proporcionou o desenvolvimento inicial da colônia, produzindo o principal produto de exportação ao longo dos séculos XVII e XVIII. Assinale a alternativa que apresenta o produto e a cultura em questão. a. Amido – Mandioca b. Amido – Milho c. Açúcar – Cana-de-açúcar d. Cafeína – Café e. Açúcar – Algodão 4. A industrialização paulista da década de 1920 foi decisiva para acentuar as di- ferenças entre o próspero meio urbano e o decadente e abandonado meio ru- ral. Essas diferenças foram ilustradas por algumas obras da literatura brasileira. Assinale a alternativa que apresenta o nome de uma obra (com seu respectivo autor), que retratava esse abandono no meio rural. a. Memórias – Carlos Drummond de Andrade b. Urupês – Machado de Assis c. Grande Sertão: Veredas – Graciliano Ramos d. Grande Sertão: Veredas – Guimarães Rosa e. Contos e Fatos: Frederico Uchoa 35 5. Ao longo das décadas de 1940, 1950 e 1960 a Revolução Verde começou a ser percebida na área rural brasileira. Além da inserção de maquinários e tecnolo- gias, um elemento se fez necessário e foi operacionalizado por meio de institui- ções públicas e privadas no sentido de fomentar financeiramente a produção de alimentos: o Crédito Rural. Assinale a alternativa que apresenta o ano de institu- cionalização do Sistema Nacional de Crédito Rural: a. 1949 b. 1931 c. 1980 d. 1965 e. 1977 36 A Revolução Verde do ponto de vista Econômico Antes de 1950, no Brasil, não se falava em uma política agrícola consolidada, a não ser quando o assunto era o café. Nessa década em especial, a cadeia produtiva do cafeeiro já passava por problemas produtivos, dadas as doenças e as pragas que assolavam os plantios. Da mesma forma, havia excesso de oferta do produto e os preços internacio- nais já não eram tão atraentes como nas últimas décadas. Assim, em 1952, o recém-criado Instituto Brasileiro do Café (IBC), autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda e vinculada, após 1961, ao Ministério da Indústria e Comércio, teve por tarefa regular o mercado, construindo armazéns e armazenando os excedentes produtivos da cultura. Não obstante, a regulação do mercado em muitas vezes era feita pela regulação da oferta, seja por meio da erradicação de pés de café ou pelo controle dos próprios estoques. Com a derrocada do café, muitos produtores rurais começaram a apostar em outras ca- deias produtivas, tanto as de pequeno porte (olericultura) como as de inserção merca- dológica internacionalizada (trigo e milho). Mediante essa expansão da pauta produtiva e, ainda, considerando que o Brasil, cada vez mais, acompanhava as necessidades do mercado internacional, tornava-se necessário estabelecer políticas que permitissem a expansão das áreas de produção (com o desbravamento de áreas no Centro-Sul do país) e ainda, a mecanização e políticas de crédito de custeio. Dessa forma, em 1965, entrava em vigor a Lei 4.829/65, que tornava como pública a política de Crédito Rural, tida como instrumento de incentivo à produção, investimento e comercialização agropecuária e, consequentemente, à economia nacional. A institucionalização do crédito rural, segundo Martins (2010), foi somente o segundo passo para a promoção do Crédito Rural no Brasil. Em resumo, este autor aponta a cro- nologia das ações de crédito rural no período da Revolução Verde: • 1964: criação do Sistema Nacional de Crédito Rural, por meio da Lei nº 4.595, de 31 de dezembro de 1964. • 1965: institucionalização do Crédito Rural, por meio da Lei nº 4.829, de 5 de novem- bro de 1965. • 1966: edição do Decreto nº 58.380, que aprovou o Regulamento do Crédito Rural. • 1967: resolução do Conselho Monetário Nacional tornou obrigatório o direciona- mento de 10% dos depósitos à vista no sistema bancário para a concessão de crédi- to ao setor agrícola. • 1967: o Decreto-Lei nº 167, de 14 de fevereiro de 1967, dispõe sobre os títulos de crédito rural. • 1973: institucionalização do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Pro- agro), por meio da Lei nº 5.969, de 11 de maio de 1973. 37 • 1986: extinção da conta movimento, o que limitou os recursos para o crédito rural à disponibilidade da União. • 1986: criação da poupança rural. • 1991: aumento da participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no crédito rural por meio do Finame Rural e do Programa de Ope- rações Conjuntas (POC) e do Programa de Operações Diretas. Tais ações impactaram de maneira relevante as atividades agropecuárias no país, mo- dificando drástica e rapidamente a pauta produtiva e o pacote tecnológico vinculado, o que possibilitou a inserção dos produtores rurais em cadeias produtivas de elevada rentabilidade, inserindo o Brasil como um país agroexportador de cereais (milho, trigo e a recém-inserida soja, que avançou nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste de maneira rápida ao longo das décadas de 1970 e 1980). Além de financiar a produção, neste período, o Estado foi o principal financiador e ar- ticulador dos agentes responsáveis pela modernização do campo e pela formação dos complexos agroindustriais, por meio (FREDERICO, 2013): • Da internalização da indústria a montante, produtora de bens de capital. • Das articulações entre as empresas públicas de pesquisa – responsáveis pelo desen- volvimento de novas cultivares – e as multinacionais produtoras de insumos quími- cos e mecânicos. • Do incentivo fiscal e creditício às agroindústrias. • Da extensão rural, difundindo as novas técnicas de manejo. • Da criação de uma rede de armazéns públicos e dos investimentos em transporte e energia. Os resultados dessa modernização no meio rural foram melhor observados ao longo da década de 1990, com a expansão das áreas agrícolas ao Centro-Oeste, em especial considerando as commodities soja e milho. Com essa expansão, o termo “Novas Fron- teiras Agrícolas” foi bastante difundido para caracterizar as novas áreas de exploração administradas por produtores com características empresariais e que detêm capital e técnicas avançadas de cultivo. Ainda, o país possui sérios problemas de infraestrutura, o que mina sua competitividade no mercado internacional, estando esta altamente dependente da eficiência no campo, mas é notório observar que o papel estruturante que o poder público teve nas décadas de 1960 a 1990, em especial na questão do crédito agrícola, teve relevante importância no que tange ao desenvolvimento humano nacional e local. Fonte: o autor. MATERIAL COMPLEMENTAR Políticas Agroambientais e Sustentabilidade Regina Sambuichi Editora: IPEA Sinopse: O presente livro é uma compilação de 10 artigos analíticos de 27 autores que versam a respeito das principais tecnologias e avanços sociais da Nova Agricultura Familiar, em contraposição ao modelo de bases meramente tecnicistas ligados à RevoluçãoVerde. Não somente tecnologias produtivas, mas tecnologias sociais são abordadas nesses textos, apresentando, acima de tudo, o dinamismo ímpar que esses trabalhadores rurais estão proporcionando ao cenário rural. Como todo modelo tecnológico, a Revolução Verde até hoje é foco de discussões polêmicas, em especial, considerando suas consequências negativas e positivas. Tais discussões centram-se no fato do Brasil ser líder tecnológico e produtivo de uma série de produtos agroalimentares sobre a égide da insustentabilidade. Assim, peço a você que veja com cuidado os materiais disponíveis nos links a seguir para que você criar uma opinião a respeito: O Veneno Está na Mesa II Disponível em: <http://youtu.be/fyvoKljtvG4>. O Mundo Segundo a Monsanto Disponível em: <http://youtu.be/y6leaqoN6Ys>. REFERÊNCIAS BAER, W. A Economia Brasileira. 02. ed. São Paulo: NOBEL, 2002. BRANCO, A. L. de O. C. A produção de soja no Brasil: uma análise econométrica no período de 1994-2008. Monografia (Curso de Ciências Econômicas – Faculdade de Ciências Econômicas). Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Campinas, São Paulo, 2008. 54p. D’AGOSTINI, S.; BACILIERI, S.; HOJO, H.; VITIELLO, N.; BILYNSKYJ, M. C. V.; BATISTA FILHO, A.; REBOUÇAS, M. M. Ciclo Econômico do Pau Brasil: Caesalphina echinata Lam., 1785. Páginas do Inst. Biol., São Paulo, v.9, n.1, p.15-30, jan./jun., 2013. LOBATO, M. Urupês. 37. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. MARANDOLA JÚNIOR, E.; ARRUDA, Z.A. Urbanidade e Ruralidade no Brasil e as Rede- finições entre campo e cidade. Boletim de Geografia, 23(1):21-38, 2005. MATOS, A. K. V. Revolução Verde, Biotecnologia e Tecnologias Alternativas. Cader- nos FUCAMP, 10(12):1-17, 2010. PEIXOTO, M. Extensão Rural no Brasil: uma Abordagem Histórica da Legislação. Textos para discussão nº 48, Brasília: IMPRENSA NACIONAL, 2008. 50p. Referências on-line 1 Em: <http://idg.receita.fazenda.gov.br/orientacao/tributaria/declaracoes-e-demons- trativos/dipj-declaracao-de-informacoes-economico-fiscais-da-pj/respostas-2012/ caputulo-xii-atividade-rural-2012.pdf>. Acesso em: 01 set. 2016. 2 Em: <http://livros01.livrosgratis.com.br/cp040592.pdf>. Acesso em: 27 set. 2016. 3 Em: <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/badaro.html>. Acesso em: 01 set. 2016. 4 Em: <http://www.forumeja.org.br/ec/files/Texto%20Salvador%20Trevisan.pdf>. Aces- so em: 01 set. 2016. 5 Em: <http://agbioworld.org/images/borlaug-young.gif>. Acesso em: 01 set. 2016. 6 Em: <http://beefpoint.wpengine.netdna-cdn.com/wp-content/uploads/legado/ wm/32950.jpg>. Acesso em: 01 set. 2016. 7 Em: <http://www.mda.gov.br/portalmda/sites/default/files/user_arquivos_195/ Brasil%20Agroecol%C3%B3gico%2027-11-13%20Artigo%20Bianchini%20e%20 Jean%20Pierre.pdf>. Acesso em: 01 set. 2016. 39 GABARITO 1. C 2. A 3. C 4. D 5. D U N ID A D E II Professor Me. Tiago Ribeiro da Costa O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Objetivos de Aprendizagem ■ Conhecer o perfil dos trabalhadores rurais e entender quais são os fatores que formam suas peculiaridades. ■ Compreender o dinamismo do atual meio rural que permite afirmar a respeito de seu “renascimento”. ■ Visualizar as principais práticas e tecnologias que se relacionam ao trabalhador rural. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ O renascimento do rural ■ O entendimento sobre o trabalhador rural ■ Tecnologias agrícolas relacionadas ao trabalhador rural INTRODUÇÃO Prezado(a) aluno(a), dando continuidade aos nossos estudos, apresentamos a segunda unidade que aprofundaremos nossas discussões, já enveredando para o cerne deste material, que é a discussão sobre a Segurança do Trabalho Agrícola. Nesta unidade, iniciaremos nossas discussões abordando uma temática pri- mordial que é “O Renascimento do Rural”. Estabelecemos essa terminologia para levarmos em consideração os dizeres de Ricardo Abramovay, ao afirmar sobre as profundas modificações que ampliaram não somente os aspectos produtivos do meio rural, mas também, sua capacidade em gerar oportunidades e desen- volvimento social aos trabalhadores agrícolas. Recentemente, observamos um fenômeno muito claro em nossa economia: mesmo em um período de recessão, o único setor econômico que manteve sua geração de empregos e renda foi o agronegócio. Ademais, um agronegócio dife- rente daquele monocultor: pluriativo e proativo. Nesse cenário, observamos uma grande contribuição do trabalhador rural que assumiu para si a pluriatividade, encarando uma nova realidade laboral, inti- mamente ligada aos princípios de segurança do trabalho. Todavia, nem todos os trabalhadores rurais seguiram esse movimento e, em uma análise mais apro- fundada, ainda verificamos elementos que apresentam restrições que podem estabelecer sérios entraves ao estabelecimento da plena segurança do trabalho agrícola. Além de conhecer os aspectos mais subjetivos relacionados ao trabalhador rural, também se faz necessário conhecer as tecnologias que interagem com este personagem. Somente por esta prática é que conseguiremos delimitar quais são os riscos laborais ligados a este tipo de trabalho. Assim, esta unidade nos traz informações fundamentais para aprofundarmos nossos conhecimentos e já esta- belecermos, no plano das ideias, quais seriam as ações necessárias para mitigar os riscos do trabalho agrícola. Vamos em frente. Ótimo estudo! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 43 O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E44 O RENASCIMENTO DO RURAL Conforme abordado em nossa unidade anterior, o meio rural brasileiro pos- suiu um dinamismo ímpar em termos de utilização de tecnologias de produção, as quais foram responsáveis por tornar o Brasil um dos maiores produtores de commodities no mundo. Todavia, devemos estabelecer que o atual meio rural, renascido e diversifi- cado, segundo Abramovay (2000) possui diferentes matizes. Ao mesmo tempo em que ainda encontramos o modelo tradicional de produção, pautado basi- camente em monoculturas, também encontramos na Agricultura Familiar um amplo exemplo de uso intensivo de terras e de tecnologia. Não obstante, Portal Brasil (2015, on-line)1 relata: Principal responsável pela comida que chega às mesas das famílias bra- sileiras, a agricultura familiar responde por cerca de 70% dos alimentos consumidos em todo o País. [...] O pequeno agricultor ocupa hoje papel decisivo na cadeia produtiva que abastece o mercado brasileiro: mandioca (87%), feijão (70%), car- ne suína (59%), leite (58%), carne de aves (50%) e milho (46%) são alguns grupos de alimentos com forte presença da agricultura familiar na produção. A Agricultura Familiar, atualmente, ocupa papel de destaque não somente no que tange à produção de gêneros alimentícios, mas também na ativação da economia local com os recursos gerados em suas diversificadas cadeias produ- tivas. Ademais, a empregabilidade também é fator de destaque, levando-se em conta que, de acordo com Silva (2014, on-line)2, 74% da mão de obra campo- nesa encontra na agricultura familiar uma fonte de renda para a sobrevivência de suas famílias. A Figura 1 ilustra o dinamismo relacionado à Agricultura Familiar e salienta ainda as diferenças relacionadas ao modelo empresarial de agricultura. O Renascimento do Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 45 14% CréditoTerras Produção Global Produção de comida Mão de obra ocupada Crédito Terras Produção Global Produção de comida Mão de obra ocupada 24% 40% 70% 74% 86% 76% 60% 30% 26% 80 70 60 50 40 30 20 10 0 00 80 60 40 20 0 Figura 1 – Diferenças entre a Agricultura Familiar e Empresarial, considerando indicadores produtivos e econômicos Fonte: Silva (2014, on-line)2. Independente da tipologia de Agricultura se é familiar ou empresarial, o fato é que o meio rural atualmente se distanciou do velho modelo de abandono ligado à crítica tecida em “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa e “Urupês” de Monteiro Lobato, obras comentadas em nossa primeira unidade e que atualmente se aproximam de um paradigma de uso mais intensivo e racional de tecnologias. Outra questão importante, caro(a) aluno(a), é que os patamares tecnológicos das atividades agropecuárias avançaram de tal maneira que ao se referir ao meio rural, já temos presentes agroindústrias altamente tecnificadas, com o uso inten- sivo de máquinas, equipamentos e instalações que permitem o processamento de alimentos e a oferta de produtos para um público consumidor altamente exigente. Com esta mudança de realidades, podemos concluir sobre a existência de duas hipóteses relevantes: o da urbanização do campo e o do amadurecimento endógeno do campo. Houve uma urbanização do campo ou esta transformação do campo é um reflexo de seu amadurecimento enquanto setor econômico? ©shutterstock O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E46 Este questionamento é importante, porém inconclusivo, pois temos elementos que podem justificar as duas hipóteses. Particularmente, acredito que houve mais um amadurecimento das atividades econômicas do campo, levando-se em consideração sua ampla capacidade de adaptação às necessidades mercadológicas, mesmo que esse amadurecimento signifique “importar” características tipicamente urbanas ao rural. Mais importante que isso é compreender que houve uma elevação da com- plexidade dos trabalhos agropecuários aos mesmos moldes que o ocorrido há décadas com os postos de trabalho tipicamente urbanos. Entretanto, devemos considerar em nossa análise que existe uma peculia- ridade relacionada ao trabalhador rural, o qual não acompanhou esta elevação da complexidade da mesma forma que o trabalhador urbano, teoricamente mais instruído a ocupar postos de trabalho mais especializados. Assim, antes de falar a res- peito dos postos de trabalho, ou mesmo, das tecnologias comumente empregadas no meio rural, faz-se necessário estabelecer uma análise sobre o trabalhador rural em si, para compreender fatores limitantes que possam explicar as possí- veis fontes de ações inseguras. O ENTENDIMENTO SOBRE O TRABALHADOR RURAL O trabalhador rural não pode ser classificado somente como um agricultor. Mais que isso, o trabalhador rural é, segundo Hentschke (2012, p. 2): “[...] toda pessoa física que, em propriedade rural ou prédio rústico, presta serviços de natureza não eventual a empregador rural, sob a dependência deste e mediante salário”. O Entendimento Sobre o Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 47 Percebe-se que a descrição de Hentschke (2012, p. 2) vai de encontro à pró- pria descrição do que seja “empregado”, presente na Norma Regulamentadora nº. 1, do MTPS (2016, on-line)1. Existe, portanto, uma relação de dependência ao empregador rural tanto naquilo que tange ao obedecimento de regras e diretrizes da empresa rural quanto à dependência de salário. Contudo, avaliar o trabalhador rural apenas sob o enfoque “empregador-em- pregado” não é suficiente. Devemos analisar esse trabalhador rural do ponto de vista de suas características psicológicas e sociais. Nesse contexto, uma das pri- meiras questões relevantes relaciona-se com o seu nível educacional. A Figura 2 ilustra a evolução do nível educacional da população campesina ao longo das décadas de 2000 e 2010: 12 11 10 90 8 7 6 5 4 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016 2018 2020 2022 2024 Escolaridade média da população de 18 a 29 anos - Campo (em anos de estudo) Meta Nacional Brasil (localidade/rural (campo)) Figura 2 – Escolaridade Média da população de 18 a 29 anos (população rural) Fonte: Observatório do PNE ([2014], on-line)4. O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E48 Pela análise da Figura 2, compreendemos que houve uma evolução significativa nos anos estudados pela população rural de entrada na fase economicamente ativa (a partir dos 18 anos de idade). Em 2001, a média de anos estudados por este estrato populacional era de 4,1 anos, o que correspondia ao cumprimento do ensino básico. Já em 2014, a média dobrou para 8,2 anos estudados, o que corresponde a quase finalização do ensino fundamental, de nove anos. Embora sejam dados animadores, devemos considerar os números não em sua exatidão, mas sim de acordo com a realidade, pois, infelizmente, a quantidade de anos estudados não corresponde necessariamente às competências educa- cionais necessárias para o pleno desenvolvimento cognitivo e de interpretação. Muitos desses elementos desse estrato populacional podem ser considerados como analfabetos funcionais. Ainda, em todas as comparações possíveis entre os dados do estrato rural e os demais estratos investigados por meio do Observatório do PNE ([2014], on-line)4, verifica-se que a educação no meio rural ainda se encontra atrás de outros estratos avaliados: 25% da população mais pobre do Brasil; Mulheres; Negros; e, Região Nordeste tida como a de menor escolaridade no Brasil, todos avaliados na mesma faixa etária (18 a 29 anos). Essa situação se agrava quando consideramos as faixas etárias superiores. Muitos trabalhadores rurais de 30 a 49 anos são analfabetos plenos (Observatório do PNE, [2014], on-line)4, com baixíssima capacitação para a execução de traba- lhos mais especializados. Embora tenhamos evidenciado um “renascimento do meio rural” em nossa seção anterior, ainda temos graves problemas relacionados ao trabalhador rural, com baixa aptidão para ser capacitado no que concerne à Segurança do Trabalho. Outros fatores ainda devem compor esta análise, a saber: ■ O trabalhador rural e o subemprego: por sua baixa capacitação, o trabalhador rural fica à mercê de subempregos (empregos altamente desgastantes, repetitivos e com baixa remuneração). ■ O trabalhador rural e sua alcunha: por não estar preparado para ocupar postos de trabalho mais especializados, destina-se a este trabalhador os trabalhos de menor importância, sendo este trabalhador erroneamente designado como “peão”. O Entendimento Sobre o Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 49 ■ O trabalhador rural, remuneração e família: também é fator de desta- que a prolificidade dos estratos sociais mais pobres da sociedade brasileira. Muitas vezes, as famílias dos trabalhadores rurais são numerosas e os salários obtidos por seu trabalho são insuficientes para suprir suas neces- sidades básicas. ■ O trabalhador rural e a sazonalidade: nem todos os trabalhos rurais são caracterizados pela prestação de serviços contínuos. Muitos deles são caracterizados por serem empreitas, ou contratostemporários (safristas), sendo estes pagos por produtividade, o que desgasta mais ainda a força de trabalho, pois, os proventos necessariamente advêm da capacidade de realizar os trabalhos em campo (cortadores de cana-de-açúcar, por exem- plo, que recebem por tonelada colhida). ■ O trabalhador rural e sua exposição aos riscos: por trabalhar em ambiente externo, o trabalhador rural encontra-se exposto a uma elevada gama de riscos laborais em todas as categorias (riscos físicos, químicos, biológi- cos, ergonômicos e de acidentes). Não obstante, associando-se seu nível educacional, nível de desgaste laboral e os riscos propriamente ditos, che- ga-se a uma situação nada favorável ao trabalhador rural, bastante afetado por acidentes ou mesmo doenças ocupacionais. ■ O trabalhador rural, desgaste, pobreza e drogadição: não é inco- mum observar casos onde os trabalhadores rurais, exaustos por conta da execução de seus trabalhos, frustrados por não conseguirem evolu- ção profissional e ainda, vivenciando as mazelas de se obter uma renda insuficiente, entregam-se às drogas ou mesmo às bebidas alcoólicas, con- figurando um problema não somente para a segurança do trabalho, mas para a saúde pública brasileira, elevando os indicadores de acidentes do trabalho ou mesmo domésticos. De maneira geral, ao caracterizar o trabalhador rural, verificamos a maior exis- tência de situações problemáticas frente à Segurança do Trabalho, as quais devem ser cuidadosamente planejadas no sentido de oferecer experiências educacio- nais, de capacitação e de qualidade de vida no trabalho que estejam condizentes com seu grau de entendimento e que ainda, transcendam os aspectos legais das Normas Regulamentadoras. O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E50 Acima de tudo, lidar com os trabalhadores rurais é lidar com um universo pleno de cultura e saberes que precisam ser corretamente usufruídos no sentido de promover a Segurança do Trabalho também em seu ponto de vista humano (CARNEIRO, [2016], on-line)5. Embora tenhamos problemas destacados, também devemos salientar uma qualidade do trabalhador rural: Sua pluriatividade, não somente naquilo que concerne às atividades tipicamente agrícolas, mas também às atividades agroin- dustriais ou mesmo as ligadas ao setor de serviços (SCHNEIDER, 2005). É de se destacar o fato de que cada vez mais trabalhadores rurais residentes na zona rural estão diversificando suas atividades, tanto no conhecimento das tecnologias empregadas no campo como também nas atividades agroindustriais ou mesmo no setor de serviços. Ao investigar esta situação, Schneider (2005) apontou para uma constante redução nas atividades tipicamente agrícolas, con- siderando o município de Barão/RS, com consequente avanço da pluriatividade para, pelo menos, 46% das famílias investigadas em seu estudo. Essa situação, ratificada por Carneiro ([2016], on-line)5, serve de justificativa para ilustrar o renascimento rural ao mesmo tempo em que nos traz um alento no sentido de perceber uma evolução educacional e de capacitação formal de tais trabalhadores, o que nos permite também evoluir as práticas educacionais e participativas no que tange à Segurança do Trabalho Rural Agrícola. O conhecimento sobre a elevação do caráter pluriativo dos trabalhadores rurais é necessário por parte dos profissionais que lidam com a Segurança do Trabalho Rural. Assim, a visão de Schneider (2005) traz profundas contri- buições sobre o entendimento deste “novo trabalhador rural” e nos permite inferir de que maneira podemos proceder na relação entre este trabalhador rural e a prática segura dos trabalhos. Veja mais em: <http://www.ufrgs.br/pgdr/publicacoes/producaotextual/sergio- -schneider/schneider-s-as-novas-formas-sociais-do-trabalho-no-meio-rural-a- -pluriatividade-e-as-atividades-rurais-nao-agricolas-revista-redes-santa-cruz-do- -sul-rs-v-9-n-3-p-75-109-2005>. Fonte: o autor. Tecnologias Relacionadas ao Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 51 Considerando que compreendemos nesta seção a base do perfil do trabalhador rural brasileiro, estamos credenciados a conhecer sua pluriatividade do ponto de vista das tecnologias com as quais este trabalhador rural interage, considerando as atividades tipicamente agrícolas, algo que faremos em nossa próxima seção. TECNOLOGIAS RELACIONADAS AO TRABALHADOR RURAL Uma das principais características ligadas à ação dos profissionais da área de Segurança do Trabalho é a agilidade em reconhecer riscos pertinentes aos pos- tos de trabalho e às máquinas e equipamentos com eles relacionados. Todavia, para que haja um reconhecimento de tais riscos, torna-se neces- sário conhecer quais são as principais práticas e tecnologias agrícolas ligadas àquilo que chamamos de atividades “dentro da porteira”. Obviamente não é nossa intenção esgotar este assunto, dada à universalidade de temas que poderiam ser abordados nesta seção. Contudo, temos o objetivo de ambientá-lo às principais práticas e tecnologias utilizadas nas propriedades rurais para que você mesmo possa perceber quais são os riscos associados. Ademais, devemos salientar que, por se tratar de um livro que fala sobre Segurança do Trabalho Agrícola, também abordaremos as atividades agroin- dustriais e outras que se relacionem ao tema, todavia, em momentos posteriores desta obra. PLANTIO CONVENCIONAL Esse foi um dos primeiros sistemas de plantio criados pelo ser humano. Consiste no revolvimento de solo, em suas camadas superficiais, para que seja possível oferecer às sementes e às plântulas condições ótimas para sua germinação e emergência. O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E52 O revolvimento do solo é realizado em duas etapas, o preparo primário e o preparo secundário. No preparo primário são utilizadas máquinas e implemen- tos de maior capacidade de trabalho, tendo em vista que se trata das primeiras etapas de revolvimento. Geralmente, arados de disco, arados de aiveca e grades aradoras são utilizadas, conforme Cruz et al. (2006) - Figura 3. (A) (B) (C) Figura 3 – Implementos utilizados no preparo primário dos solos em plantio convencional (a – arado de disco; b – grade aradora; c – arado de aiveca) Fonte: Shutterstock ([2016]). Caso o solo esteja compactado, dependendo da profundidade das camadas compactadas, abre-se mão da utilização de escarificadores (quando as cama- das compactadas são mais superficiais) ou subsoladores (quando as camadas compactadas são mais profundas, abaixo dos 30 cm). A Figura 4 exemplifica os escarificadores e os subsoladores (CRUZ et al., 2006). Figura 4 – Implementos utilizados no preparo primário dos solos em plantio convencional (da esquerda para a direita, escarificador e subsolador) Fonte: Agroads ([2016], on-line)6. Albuquerque Filho et al. ([2016], on-line)7 apontam as principais características dos tipos de arados utilizados no preparo primário, bem como as característi- cas do escarificador. Tecnologias Relacionadas ao Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 53 ■ Arado de disco: é recomendado para solos duros, com raízes e pedras, solos pegajosos, abrasivos e turfosos. ■ Arado de aiveca: promove incorporação de resíduo e boa pulverização do solo sob condições ideais. Apresenta diferentes tipos de aiveca, deacordo com o tipo de solo. ■ Escarificador: aumenta a rugosidade do solo, deixando uma apreciável quantidade de cobertura morta e também quebra a estrutura do solo a uma profundidade de 20cm a 25cm. Com essas três características, esse sistema aumenta a capacidade de infiltração de água no solo, diminui a evaporação e quebra a camada compactada, abaixo da área de preparo de solo, denominada “pé de arado”. Após o preparo primário, prossegue-se ao preparo secundário, que visa ao nive- lamento do solo ao mesmo tempo em que ocorre uma pulverização dos torrões que foram formados por meio do revolvimento primário do solo, em especial, nas condições de solos estruturados, com elevado teor e atividade de argilas. Nesse caso, o implemento mais utilizado é a grade niveladora (ALBUQUERQUE FILHO et al., 2016), conforme ilustrado pela Figura 5. Figura 5 – Grade Niveladora com controle remoto por molas (NVAM) e pistões (NVAP) Fonte: Baldan ([2016], on-line)8. O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E54 Além de possibilitar a geração de condições propícias ao desenvolvimento das culturas, o Plantio Convencional também apresenta vantagens ao controle de plantas invasoras. Conforme o solo é revolvido, as sementes de plantas invasoras que se encontram dormentes nas camadas mais profundas do solo são expostas à ação da luz, germinando. Nesse momento, o agricultor pode optar pela utiliza- ção de herbicidas sistêmicos que visam eliminar essas plantas invasoras em sua fase juvenil, onde o controle é mais fácil. Ademais, o mesmo ocorre com ento- moparasitas de solo (larvas de insetos) e nematoides, os quais são expostos ao ambiente, sendo alvo fácil de predadores e parasitas (CRUZ et al., 2006). Outro ponto interessante do plantio convencional é que o mesmo permite, na ocasião de preparo do solo, a incorporação de restos vegetais, que serão pos- teriormente transformados em matéria orgânica e a incorporação de adubos e corretivos de solo, tudo em poucas operações. Todavia, a maior desvantagem do plantio convencional está na exposição do solo às intempéries, em especial, à erosão hídrica. Pelo fato das partículas do solo revolvido já não estarem tão coesas, será necessário menos energia para desa- gregar o solo e carreá-lo na forma de erosões superficiais (laminares, sulcos ou voçorocas) (CRUZ et al., 2006). Além disso, essa modificação na estrutura do solo promovida pelo seu revolvimento altera drasticamente sua microbiota superficial, eliminando micror- ganismos simbióticos, os quais auxiliam, por exemplo, na fixação biológica de nitrogênio nas leguminosas como a soja e o feijão. Outra desvantagem se relaciona ao percentual de carbono liberado para o ar. Como o solo se desestrutura e fica exposto à luminosidade, vários componentes ficam instáveis, dentre eles, os ácidos carbônicos, fúlvicos e húmicos. Quando esses ácidos se quebram, uma das resultantes é a liberação do gás carbônico, que volta à atmosfera contribuindo para o efeito estufa, isso logicamente conside- rando essa ação em larga escala (IDO; OLIVEIRA, [2016], on-line)9. Por fim, solos revolvidos são solos mais sujeitos aos ciclos de adsorção e des- sorção de água (saídas e entradas de água, respectivamente), o que implica no fato das plantas conduzidas sob esse sistema não terem umidade conservada na superfície do solo, sendo mais sujeitas aos estresses hídricos. Tecnologias Relacionadas ao Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 55 Com suas vantagens e desvantagens, o Plantio Convencional perdura até os dias atuais como uma técnica possível de ser aplicada em condições específicas (quando da correção de solo, por exemplo) ou nas ocasiões em que a cultura exige esse tipo de preparo de solo (casos da mandiocultura, bataticultura, silvi- cultura, cultivo da cana-de-açúcar e hortaliças, por exemplo). Todavia, devido ao fato dessa tecnologia ser altamente contribuinte para a elevação dos proces- sos erosivos (Figura 6), há uma preferência em se adotar o Plantio Direto como estratégia de condução das culturas (IDO; OLIVEIRA, [2016], on-line)9. 50 40 30 20 10 0 (%) (ton/ha) 20 16 12 8 4 0 Convencional Plantio direto Sistemas de Plantio Água disponível (5) Perdas de solo (ton/ha) Agregados estáveis (%) Figura 6 – Comparativo das variáveis “água disponível”, “perdas de solo” e “agregados de solo estáveis” entre os sistemas de plantio convencional e direto Fonte: Brasil (2004, p. 10, on-line)10. De acordo com a Figura 6, as perdas de solo no sistema convencional chegam pró- ximas às 15 toneladas por hectare por ano, enquanto que no sistema de plantio direto, com a conservação da cobertura vegetal, tais perdas chegam a duas tone- ladas por hectare/ano, uma redução significativa. Ademais, as outras variáveis estudadas pontuam positivamente ao plantio direto, o qual apresenta maior agre- gação de partículas do solo e maior percentual de água disponível, o que também contribui para a manutenção da microbiota do solo (mantendo-o vivo, portanto). O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E56 SISTEMA DE PLANTIO DIRETO De maneira diferente ao sistema anterior, o Sistema de Plantio Direto (SPD) não contempla uma etapa de preparo de solos. Todas as atividades agrícolas são conduzidas sobre a cobertura vegetal da cultura anterior, o que, em termos de proteção de solos contra os processos erosivos, é algo significativo. Segundo Ministério da Agricultura (BRASIL, [2016], on-line)11: Os princípios do sistema de plantio direto seguem a lógica das florestas. Assim como o material orgânico caído das árvores se transforma em rico adubo natural, a palha decomposta de safras anteriores macro e micro-organismos, transformando-se no “alimento” do solo. As van- tagens são a redução no uso de insumos químicos e controle dos pro- cessos erosivos, uma vez que a infiltração da água se torna mais lenta pela permanente cobertura no solo. O Brasil é líder mundial no uso do sistema, que ocupa mais da metade de sua área plantada. Além do aspecto erosão, verifica-se que a manutenção de cobertura vegetal no solo propicia a manutenção da própria umidade superficial, o que serve de pro- teção hídrica às sementes e plantas e propicia ainda uma elevação no número de microrganismos nas zonas radiculares. Tais microrganismos estão presentes no processo de decomposição do mate- rial vegetal componente da palhada e podem auxiliar na disponibilização direta destes nutrientes às plantas cultivadas ou na disposição indireta dos mesmos, por meio do processo de mineralização, que se caracteriza pela disponibilização dos nutrientes pós-morte do microrganismo (BRASIL, 2016, on-line)11. A aeração do solo em superfície também é destaque, tendo em vista a ocu- pação deste solo pelos sistemas radiculares das plantas. Assim que as plantas morrem, suas raízes são decompostas e seus espaços são ocupados por solução de solo (água mais nutrientes) e oxigênio (IDO; OLIVEIRA, [2016], on-line)9. Da maneira como o SPD é sistematizado, o controle de plantas invasoras também é um destaque, pelo motivo oposto ao do sistema de plantio conven- cional. Como nesse caso não existe o revolvimento de solo, o banco de sementes não será exposto à luz do sol. Nesse caso, esse banco permanecerá dormente nas camadas mais profundas. As poucas sementes que tiverem sua dormência quebrada poderão germinar, mas encontrarão dificuldades em se estabelecer, con- siderando a presença de uma densacamada de material vegetal a ser superada. Tecnologias Relacionadas ao Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 57 Assim, pode-se dizer que o SPD também apresenta relevante contribuição ao controle de plantas invasoras (OLIVEIRA JÚNIOR, 2014). Um dos pontos negativos do SPD é o uso indiscriminado de herbicidas que dessecam precocemente as coberturas de inverno. Dada a afobação em se querer plantar a cultura de verão, muitas vezes não se permite que a cultura de inverno (por exemplo, a aveia – Avena spp.) atinja seu máximo dossel foliar, ou seja, sua máxima produção de material vegetal. Dessa forma, ao se dessecar plantas que ainda não atingiram seu máximo potencial produtivo em termos de folhas, pre- judica-se a “poupança” do SPD, em termos de cobertura (REIS et al. 2008). Além disso, o uso de herbicidas também afeta a microbiota do solo, mesmo sendo um veneno específico para vegetais. Qualquer agrotóxico pode afetar essa microbiota e os herbicidas não são exceções (REIS et al. 2008; SANTOS et al. 2004). TERRACEAMENTO Somente a adoção do plantio direto nas áreas agricultáveis não é suficiente para garantir a redução dos processos erosivos. Essa redução também está em função da declividade do terreno. Em declividades maiores, somente a palhada não conseguiria reduzir a energia cinética do escorrimento superficial de água, o que poderia resultar na formação de processos erosivos variados (MACHADO; WADT, [2016], on-line)12. Dessa forma, na década de 1980, surgiu uma tecnologia que visa segmentar o terreno em rampas menores ao mesmo tempo em que disciplina as águas das áreas agricultáveis, auxiliando em sua infiltração ou drenagem. Trata-se do sis- tema de Terraceamento (Figura 7): Figura 7 – Sistema de Terraços em nível aplicados em plantações de arroz na Ásia Fonte: Shutterstock ([2016]). O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E58 A Figura 7 ilustra um sistema de terraços em nível, os quais “cortaram” uma área bastante declivosa e a segmentaram em patamares os quais são utilizados para a produção de arroz no sistema de plantio e colheita manual. Caso não hou- vesse o corte do terreno, o plantio seria em desnível acentuado e a cobertura do arroz, que neste último caso obrigatoriamente deveria ser plantado em sistema de sequeiro, não seria suficiente para barrar os efeitos da enxurrada, resultando em severas erosões. No Brasil, por sorte, temos uma dominialidade de terrenos suaves ondulados ou ondulados (terrenos que variam de 3% a 8% e de 8% a 12% de declividade, respectivamente), o que permite a construção de terraços pouco profundos e mais (MACHADO; WADT, [2016], on-line)12. Com relação à base, a Figura 8 ilustra os diferentes tipos existentes: 6 a 12 metros Nível original do terreno A B C Nível original do terreno Nível original do terreno 3 a 6 metros 3 a 6 metros Figura 8 – Diferenciação de bases de terraços (A – base larga; B – base média; e, C – base estreita) Fonte: Machado e Wadt ([2016], on-line)12. Tecnologias Relacionadas ao Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 59 Ainda em termos de declividade, abaixo dos 3% não se faz necessária a constru- ção de terraços, tendo em vista que a própria cobertura nesses casos já é capaz de barrar os efeitos das enxurradas. Entre 3% e 12%, os terraços são construídos em nível, permitindo a infiltração das águas. Por outro lado, acima dos 12%, os ter- raços são construídos visando a drenagem da água (CAVIGLIONI et al. 2010). Existem diversas formas de se construir os terraços e diversos também são os maquinários e implementos utilizados. De maneira geral, tratores pás carregadei- ras, motoniveladoras, cultivadores, grades aradoras ou até mesmo terraceadores são utilizados. A escolha do equipamento certo vai depender de alguns fatores preponderantes, dentre eles (CAVIGLIONI et al. 2010): a. A textura de solo (se mais argilosa ou arenosa). b. A profundidade (se existem afloramentos rochosos, o processo de terra- ceamento é mais complexo). c. A declividade (se mais acentuada, os custos para estabelecimento dos ter- raços são maiores). d. A umidade do solo (caso sejam solos com traços de hidromorfismo e elevada atividade de argila, a patinação dos rodados das máquinas será mais elevada e a tendência é que existam rachaduras no canal e no cama- lhão do terraço). Um “canal” é a parte mais baixa do terraço, onde a água é barrada e drenada ou infiltrada, enquanto que a parte mais elevada do terraço se chama camalhão. A Figura 9 nos ilustra este detalhe: Figura 9 – Demonstração do Canal e do Camalhão de um terraço Fonte: Machado e Wadt ([2016], on-line)12. O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E60 Por se tratar de uma tecnologia relativamente simples, já existem programas computacionais que sistematizam as diferentes metodologias para dimensiona- mento dos terraços, bastando inserir informações a respeito das características do terreno e dos cultivos ali conduzidos para que se obtenha, como resposta, o dimensionamento correto dos terraços. A Figura 10 ilustra o programa criado por meio dos modelos matemáticos desenvolvidos por Griebeler et al. (2005) para ajuste dos terraços em nível de campo. Embora seja simples operar este e outros programas semelhantes, não se pode atribuir ao Tecnólogo em Segurança do Trabalho o dimensionamento destes ter- raços. Isso é atribuição exclusiva dos Engenheiros Agrônomos, Agrimensores e Engenheiros Cartográficos. Contudo, uma vez que esses parceiros de trabalho determinam as dimensões dos terraços, é papel do Tecnólogo em Segurança do Trabalho supervisionar a prática para que a mesma possa acontecer da maneira mais segura possível, obedecendo o preposto nas Normas Regulamentadoras de Saúde Ocupacional e de Segurança do Trabalho. Figura 10 – Programa para locação de terraços em nível de campo Fonte: Griebeler et al. (2005). Tecnologias Relacionadas ao Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 61 FAIXAS DE RETENÇÃO As faixas de retenção fazem parte do manejo conservacionista das terras, em especial, considerando os cultivos familiares em maiores declividades. São cons- tituídas por fileiras de plantas perenes dispostas em contorno, com o intuito de dividir o comprimento da rampa, formando pequenos diques naturais com o acúmulo de sedimentos ao longo do tempo (ZONTA, 2012). Para isso, utilizam-se plantas com grande densidade foliar e radicular, sendo recomendadas principalmente para regiões com solos rasos. As faixas de rota- ção devem ser estreitas, de modo a não diminuir muito a área a ser plantada, sendo que o espaçamento entre os cordões de contorno depende do tipo de solo, da cultura a ser implantada e das chuvas da região. Na prática, quanto menor a profundidade do solo e maior a declividade do terreno e a intensidade de preci- pitação, menor deve ser o espaçamento entre os cordões de vegetação. Algumas espécies recomendadas são: a cana-de-açúcar, a erva-cidreira e o capim-gor- dura (ZONTA, 2012). Junto com as faixas de retenção, é comum se observar a prática da ceifa de plantas invasoras. De maneiradiferente da capina, a ceifa considera o corte das plantas invasoras, mantendo-as com reduzidas alturas da superfície do solo. Tal fato propicia a manutenção dos sistemas radiculares dessas plantas por mais tempo, o que serve de barreira física para os processos erosivos. ADUBAÇÃO VERDE A adubação verde é uma técnica de cunho conservacionista que visa se utilizar de plantas com características especiais para reciclar e inserir nutrientes no solo, ao mesmo tempo em que protege esse solo da ação nociva dos processos erosivos. Em um terraço, a parte responsável por deter água é o canal, enquanto que o enleiramento da terra é o camalhão. O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E62 Ademais, é importante frisar que a técnica de adubação verde, se bem conduzida, condiciona o solo para a restauração e enriquecimento de material vegetal e de microrganismos, que serão responsáveis por decompor os resíduos dessa adubação. De maneira geral, a adubação verde pode ser utilizada em pré-cultivo ou em rotação de culturas (quando utilizada como condicionadora do solo antes da cultura principal), em consórcio (quando se conduz o adubo verde com a cul- tura principal, ceifando a espécie utilizada como adubo verde e depositando o material vegetal sobre o solo, para a decomposição e fornecimento de nutrien- tes à cultura principal ou à sucessora) ou ainda nas faixas de retenção, conforme ilustrado na seção anterior (ZONTA, 2012). Também é conveniente expor que a adubação verde pode associar em si a característica de proteção contra insetos-praga, levando-se em conta a adoção de plantas que produzam compostos repelentes, como é o caso de algumas espécies que são conduzidas em sistemas de olericultura (cebolinha, coentro, salsa e pimenta). Além disso, algumas das plantas que são utilizadas em adubação verde também possuem compostos alelopáticos, que são definidos como compostos químicos eliminados ou exsudados pelo sistema radicular destas plantas, com potencial de inibição à germinação e ao desenvolvimento de outras plantas noci- vas, como é o caso das plantas invasoras (OLIVEIRA JÚNIOR, 2014). Um dos exemplos mais bem acabados de alelopatia em espécies utilizadas como adubação verde é o da Aveia Preta (Avena strigosa). Segundo Ribeiro e Campos (2013), a aveia preta é rica em escopoletina, um composto secundário derivado das cumarinas, e que tem efeito inibidor do crescimento radicular das plantas. Assim, pesquisas têm sido conduzidas no sentido de aproximar o uso desta adubação verde em específico, com os plantios comerciais, o que repre- sentaria uma redução de custos com os controles químicos. Além dos benefícios citados, a pesquisa científica tem evidenciado que algu- mas espécies usadas como adubos verdes também podem ser utilizadas nos processos de biorremediação (aqui melhor nominados como “fitorremediação”), em especial, nos solos salinizados ou contaminados. Pires et al. (2005) sugerem que o uso de plantas como o feijão guandu, fei- jão-de-porco, labelabe e mucuna-anã possuem potencial fitorremediador. Os mesmos resultados foram observados por Morais et al. (2007, on-line)13. Tecnologias Relacionadas ao Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 63 Por fim, o último aspecto a ser considerado para as adubações verdes centra-se no fato destas contribuírem para sequestrar carbono da atmosfera. Atualmente, não se verifica esse sequestro de maneira mais pronunciada devido ao fato da adubação verde ainda não ser empregada em larga escala. Todavia, existe um consenso de que a prática da adubação verde possui significativo potencial de contribuição para sequestrar o carbono da atmosfera, em um cenário onde os pró- prios empresários rurais visam compensar suas emissões por meio dessa prática. PRÁTICAS DE CORREÇÃO DO SOLO A correção do solo pode ser compreendida como uma técnica que visa assegurar o correto e completo fornecimento de nutrientes às culturas que são conduzi- das sobre o mesmo. Para que este objetivo seja cumprido, dois pontos devem ser observados (WIETHÖLTER, 2004): a. A inserção planificada de fertilizantes que permitam a manutenção de rela- ções nutricionais equilibradas entre os nutrientes disponíveis, de maneira que a absorção dos mesmos se dê de forma correta. b. A inserção de condicionadores de solo que permitam que os nutrien- tes inseridos e os já presentes no solo estejam disponibilizados em sua máxima faixa de disponibilidade. Fertilizar o solo não é uma tecnologia recente. Na antiguidade, eram utilizados estercos de animais e resíduos vegetais para servir de adubo nas plantações de cereais. Obviamente que com o passar dos séculos, essa tecnologia foi aprimorada no sentido de se utilizar esses materiais já decompostos, uma vez que a inserção crua destes materiais implica em desequilíbrios nutricionais severos que podem culminar com a morte das plantas (WIETHÖLTER, 2004). Com o desenvolvimento da Agronomia enquanto ciência e com o advento da Revolução Verde, outros resíduos, de outras cadeias produtivas, foram testa- dos para verificar a viabilidade de seu uso na agricultura. Além destes resíduos, a pesquisa também foi direcionada no sentido de encontrar fontes naturais para serem industrialmente trabalhadas e fornecerem os nutrientes necessários às plantas (WIETHÖLTER, 2004). O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E64 Dessa maneira, após sucessivas pesquisas, chegou-se a algumas conclusões bastante utilizadas nas atividades agropecuárias até os dias atuais: a. A nutrição de plantas obedece a uma lógica: existem nutrientes que são absorvidos de uma maneira elevada, sendo o caso do Nitrogênio, Fósforo, Potássio, Enxofre, Cálcio e Magnésio. Esses são os nutrientes mais deman- dados nos processos metabólicos das plantas. A estes, nominou-se de “Macronutrientes”. Por outro lado, existem outros nutrientes (Boro, Cobre, Cobalto, Molibdênio, Zinco, Manganês, Ferro, Silício e outros de menor destaque) que são essenciais ao metabolismo das plantas, porém em bai- xíssimas concentrações. A estes, nominou-se de “Micronutrientes”. b. Verificou-se que tanto Macro como Micronutrientes são absorvidos em suas formas catiônicas ou aniônicas, o que significa que são absorvidos somente em solução aquosa, em sua máxima biodisponibilidade (por exemplo, o Nitrogênio não é absorvido em sua forma elementar – N2, mas sim em sua forma aniônica, o nitrato NO3-). c. Verificou-se, ainda, que o desenvolvimento vegetal obedece outra lógica. As plantas se desenvolvem ao máximo em que a disponibilidade de nutrien- tes permite. Se um dos nutrientes estiver em falta, a planta se desenvolverá limitada por esta ausência. A isso se denominou “Lei do Mínimo” ou “Lei de Justus von Liebig”. d. Considerando os contextos, seria necessário o fornecimento de um adubo barato, de fácil obtenção e de fácil absorção, e bastaria que a Lei do Mínimo fosse cumprida para que o desenvolvimento vegetal pudesse ser con- duzido ao máximo permitido pelo genótipo das plantas (considerando logicamente o isolamento dos demais fatores ambientais). Assim, os adu- bos derivados do petróleo e os de fontes naturais (na maioria, fosfatos), podem ser largamente empregados na Agricultura. e. Outro ponto interessante é que, dadas as interações dos nutrientes com o ambiente do solo, evidenciou-se uma faixa de acidez na qual os nutrientes (macro e micro) estariam em sua máxima biodisponibilidade. A Figura 11 ilustra essa situação: TecnologiasRelacionadas ao Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 65 Grau de disponibilidade Ferro, Cobre, Manganes e Zinco Molibdênio e Cloro Nitrogênio, Enxofre e Boxo Potássio, Cácio e Magnésio Fósforo 4,5 5 5,5 6 6,5 7 7,5 8 8,5 9 Aluminio Figura 11– Disponibilidade de nutrientes no solo de acordo com seu pH Fonte: Malavolta (1979). Assim, além de fornecer nutrientes, seria necessário adotar práticas que visem regular o pH do solo, mantendo-o em uma faixa favorável à disponibilidade de nutrientes. As diversas pesquisas apontaram para o uso de um condicionador em específico, o Carbonato do Cálcio (CaCO3), mais conhecido como Calcário Agrícola. A dissociação do Carbonato de Cálcio permite com que se libere Ca2+ à solução de solo ao mesmo tempo em que se captura os prótons H+ e Al3+, os principais responsáveis pela elevação da acidez do solo. Esses ficarão indisponí- veis às plantas. Ademais, dependendo da rocha de origem, o calcário também pode trazer quantidades significativas de óxidos de magnésio (presentes em maior quantidade quando a rocha de origem for a dolomita, daí o nome calcá- rio dolomítico). Por isso, dizemos que o calcário também fornece quantidades significativas de Mg2+ às plantas. Levando-se estes pensamentos em consideração, as necessidades nutricionais das plantas são atendidas, no entanto, uma crítica válida a este modelo tecno- lógico é a falta de critério com a qual se recomenda o uso destes fertilizantes. O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E66 Existem diretrizes técnicas para as recomendações, as quais são pautadas em análises de solos. Tais análises trazem os níveis dos macro e micronutrientes presentes no solo e por meio de cálculos e metodologias densamente estudadas desde 1970, torna-se possível estabelecer o uso racional destes recursos. Todavia, o lado comercial muitas vezes fala mais alto e quantidades exageradas de adu- bos são aplicadas, gerando poluição de solos e águas. Outro ponto de destaque é que as fontes de adubos químicos não são infi- nitas. Estima-se que as fontes de fósforo se esgotem em 20 ou 30 anos. Ademais, estamos passando por sucessivas crises de elevação de preços internacionais do petróleo, o que causa influências diretas nos preços dos fertilizantes dele deriva- dos. Desta forma, torna-se necessária a utilização de metodologias alternativas para a adubação das plantas, inclusive aquelas que reutilizam resíduos de outras cadeias produtivas. Nesse sentido, técnicas como a compostagem e a vermicompostagem apresen- tam uma grande importância no sentido de reutilizar os resíduos orgânicos (esterco bovino, cama de aviário, resíduos de abatedouros, resíduos alimenta- res, resíduos de varrição de ruas e outros) como base para a produção de um composto orgânico de elevada qualidade. A diferenciação entre compostagem e vermicompostagem é que nesta última se utilizam anelídeos para contribuir com o processo (minhocas). A Fertilizantes Minorgan, localizada na cidade de Mandaguari, Noroeste do estado do Paraná, tem investido na utilização de resíduos de outras cadeias produtivas para a produção de fertilizantes organominerais. Em especial, em sua linha de produção, além de resíduos orgânicos advindos das cadeias da bovinocultura e avicultura, a empresa tem se utilizado de resíduos de construção civil (gesso) para adicionar nutrientes aos seus produtos. Para conferir mais detalhes, acesse: <www.minorgan.com.br>. Fonte: o autor. Tecnologias Relacionadas ao Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 67 Segundo Ministério do Meio Ambiente (BRASIL, [2016], on-line)14: A compostagem é a “reciclagem dos resíduos orgânicos”: é uma técnica que permite a transformação de restos orgânicos (sobras de frutas e legumes e alimentos em geral, podas de jardim, trapos de tecido, ser- ragem etc.) em adubo. É um processo biológico que acelera a decom- posição do material orgânico, tendo como produto final o composto orgânico. A compostagem é uma forma de recuperar os nutrientes dos resíduos orgânicos e levá-los de volta ao ciclo natural, enriquecendo o solo para agricultura ou jardinagem. Além disso, é uma maneira de reduzir o volume de lixo produzido pela sociedade, destinando corretamente um resíduo que se acumularia nos lixões e aterros gerando mau cheiro e a liberação de gás metano (gás de efeito estufa 23 vezes mais destrutivo que o gás carbônico) e chorume (líquido que contamina o solo e as águas). Hoje, cerca de 55% do lixo produzido no país é composto por resíduos orgânicos, que sofrem o soterramento nos aterros e lixões, im- possibilitando sua biodegradação. Apenas 1,5% dos resíduos orgânicos eram reciclados no Brasil em 1999 - na Inglaterra esse índice chega a 28%, 12% nos EUA, e 68% na Índia. Há várias experiências internacionais de recolhimento de resíduos or- gânicos para compostagem, com a distribuição gratuita do adubo re- sultante do processo à população local. Dessa maneira, fica claro para a sociedade que aquele resíduo tem valor, pois retorna aos cidadãos como um benefício que os economiza o dinheiro que empregariam na compra de fertilizantes industrializados. Por fim, caro(a) aluno(a), ainda dentro do tema “Práticas de correção de solo”, uma tecnologia fundamental tem auxiliado os produtores a estabelecer plantios mais sustentáveis do ponto de vista nutricional e também do ponto de vista dos estresses hídricos: a gessagem agrícola. Principalmente no Cerrado Brasileiro, onde os solos tendem a serem acidi- ficados, as raízes das plantas tendem a encontrar ambientes favoráveis para seu desenvolvimento somente nas camadas superficiais do solo, onde estão os nutrien- tes necessários e a acidez é tolerável. Todavia, em subsuperfície, não se verifica esta disponibilidade de nutrientes, o que faz com que as raízes não se desenvol- vam em profundidade, ficando, portanto, superficializadas (MALAVOLTA, 1979). Do ponto de vista agronômico, tal fato não é interessante, pois expõe as plantas às intempéries, em especial, aos estresses hídricos, reduzindo o seu potencial produtivo. O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E68 Para sanar esses problemas, a pesquisa agropecuária descobriu que a aplicação de Sulfato de Cálcio di-hidratado (CaSO4 + 2H2O), gesso agrícola, tem solucionado esta problemática, uma vez que sua aplicação no solo permite que os nutrientes das camadas superficiais possam se deslocar às camadas subsuperficiais, criando um ambiente mais favorável ao desenvolvimento das raízes (WIETHÖLTER, 2004). A Figura 12 ilustra a ação do gesso agrícola nas raízes de algodão plantado no Cerrado Brasileiro. Note como a planta da direita possui um sistema radicular mais ramificado e distribuído nas quadrículas em comparação com a planta da esquerda. Figura 12 – Comparativo de desenvolvimento de raízes de algodão em profundidade, na ausência e na presença de gesso Fonte: Embrapa (2006, on-line)15. Dessa forma, podemos evidenciar como as tecnologias aplicadas “dentro da por- teira”, em especial as de correção de solos, são importantes no sentido de manter condições para as plantas estabelecerem maiores produtividades. ROTAÇÃO DE CULTURAS A Rotação de Culturas é uma prática conservacionista que visa a diminuição da pressão de exploração do solo poruma ou algumas culturas em esquema de sucessão, por exemplo, soja e milho segunda safra. Tecnologias Relacionadas ao Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 69 Consiste na planificação temporal e espacial do rodízio de culturas que pos- suam características distintas ao nível morfológico (sistema radicular), ciclo vegetativo (épocas distintas de sementeira e colheita), e ao nível da sua resistên- cia a pragas e doenças, o que contribui para a melhoria das características físicas, químicas e biológicas dos solos. A rotação de culturas pode melhorar a estrutura do solo, quer pela introdução de matéria orgânica, quer pela porosidade bioló- gica criada pelas raízes das culturas (BARROS; CALADO, 2011). Além disso, a Rotação de Cultura em muito contribui para o controle de pra- gas, doenças e plantas invasoras, dadas as diferenças de padrões ilustradas por Barros e Calado (2011). Essas doenças, pragas e plantas invasoras não se instalam com a mesma facilidade que se instalariam em sistemas de monoculturas suces- sivas. Ademais, a própria rotação de culturas, se bem planejada, pode propiciar ambientes favoráveis para o desenvolvimento de indivíduos que exerçam o con- trole biológico e cultural das pragas/doenças e plantas invasoras, respectivamente. A Figura 13 ilustra um modelo de Rotação de Culturas voltado para a recu- peração de pastos degradados. Note que a área da propriedade foi sistematizada em três áreas ou talhões e em cada área ou talhão uma cultura ou atividade dife- rente foi conduzida. ÁREA 1 ÁREA 2 ÁREA 3 1º Ano Milho Silagem + Forrageira Pasto Degradado Pasto Degradado 2º Ano Milho Silagem + Forrageira Milho Silagem + Forrageira Pasto Degradado 3º Ano Pasto Milho Silagem + Forrageira Milho Silagem + Forrageira 4º Ano Milho Silagem + Forrageira Pasto Milho Silagem + Forrageira 5º Ano Milho Silagem + Forrageira Milho Silagem + Forrageira Pasto 6º Ano Pasto Milho Silagem + Forrageira Milho Silagem + Forrageira Figura 13– Sistema de rotação de culturas proposto para a recuperação de uma área degradada Fonte: Embrapa ([2016], on-line)16. O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E70 Não existe uma fórmula para se instalar um sistema de rotação de culturas. Isso varia de acordo com as explorações econômicas conduzidas na área e com os fatores bióticos e abióticos que se encontram presentes. Uma sábia decisão é a associação dos conhecimentos técnicos os quais poderão permitir a inserção de espécies complementares entre si e que estabeleçam definitivamente os princí- pios da sustentabilidade nas produções agropecuárias. OUTRAS TECNOLOGIAS DE INTERESSE As discussões sobre as tecnologias aplicadas “dentro da porteira” são bastante profícuas e trazem diversos elementos que nos levariam a novas discussões, em especial, no que tange a Segurança do Trabalho. Nesta seção, vamos discutir sobre mais algumas tecnologias pontuais de interesse, acompanhe. a. Transgenia A transgenia foi uma tecnologia lançada ao mercado em 2003 com o lançamento da Soja RoundupReady (Monsanto). Consiste na inserção de trechos do genoma de outro organismo (organismo doador) em um organismo receptor (nesse caso, a planta de soja). Nos processos meta- bólicos, este material genético estranho será lido da mesma maneira que o material genético nativo do organismo receptor, de forma a expressar sua característica específica. No caso da Soja Roundup Ready,a característica expressada foi a resistência ao herbicida glifosato. Normalmente, este herbicida impediria a fabrica- ção de aminoácidos de cadeias aromáticas derivados do corismato. Estes aminoácidos dependem da ação da enzima Enol Piruvato Shiquimato Fosfato Sintase (EPSPS). O glifosato impede a ação desta enzima e blo- queia a cadeia de síntese dos aminoácidos, algo que não acontece com o indivíduo transgênico, que cria rotas alternativas para esta síntese, tor- nando a planta resistente. A transgenia hoje tem sido difundida em especial para o controle de lagar- tas desfolhadoras e broqueadoras, como é o caso da lagarta do cartucho do milho (Spodopterafrugiperda) e da lagarta das maçãs (Heliothisvirescens). A tecnologia Bt (Bacillus thuringiensis) permite com que o milho, o algodão Tecnologias Relacionadas ao Trabalhador Rural Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 71 e mesmo a soja expressem um gene transgênico que produz uma pro- teína cristalizada chamada genericamente de Cry, a qual, ingerida pelas lagartas, promove o rompimento de seus tecidos internos, matando-as. É interessante notar que a transgenia é uma tecnologia poupadora do uso de inseticidas, o que para o ambiente é algo extremamente relevante, melho- rando sua qualidade. Contudo, existem ainda pontos obscuros no uso desta tecnologia, em especial, no que tange aos efeitos nocivos à saúde humana e a própria erosão genética promovida sobre as plantas tradicionais, redu- zindo seu cultivo e estabelecendo uma contaminação de material genético no caso das plantas de fecundação cruzada (milho, por exemplo, onde as principais preocupações centram-se na contaminação de cultivares tradicio- nais pelo pólen transgênico, reduzindo a variabilidade genética da cultura). Dadas as vantagens e preocupações, ainda se considera como uma tec- nologia válida o uso de transgênicos. b. Manejo integrado de pragas, doenças e plantas invasoras Muitos dos princípios do Manejo Integrado de Pragas, Doenças e Plantas Invasoras foram explanados ao longo das tecnologias anteriormente citadas neste material. A adubação verde, rotação de culturas e adoção de práticas conservacionistas permitem com que as pragas, doenças e plantas invasoras diminuam sua pressão sobre as plantas cultivadas (OLIVEIRA JÚNIOR, 2014). Porém, o monitoramento dessas doenças e pragas, a adoção de controles diversificados e a própria adoção de princípios agroecológicos permitem com que as culturas sejam conduzidas em ambientes mais favoráveis e pro- dutivos, elevando a qualidade dos processos e dos alimentos produzidos. c. Integração Lavoura – Pecuária – Floresta A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) promove a recuperação de áreas de pastagens degradadas agregando, na mesma propriedade, diferentes sistemas produtivos, como os de grãos, fibras, carne, leite e agroenergia. Busca melhorar a fertilidade do solo com a aplicação de técnicas e sistemas de plantio adequados para a otimização e a intensificação de seu uso. Dessa forma, permite a diversificação das atividades econômicas na propriedade e minimiza os riscos de frus- tração de renda por eventos climáticos ou por condições de mercado, isso segundo o Ministério da Agricultura (BRASIL, [2016], on-line)17. O NOVO MEIO RURAL E SUAS TECNOLOGIAS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E72 A integração também reduz o uso de agrotóxicos, a abertura de novas áreas para fins agropecuários e o passivo ambiental. Possibilita, ao mesmo tempo, o aumento da biodiversidade e do controle dos pro- cessos erosivos com a manutenção da cobertura do solo. Aliada as práticas conservacionistas, como o plantio direto, constitui-se em uma alternativa econômica e sustentável para elevar a produtivi- dade de áreas degradadas, segundo o Ministério da Agricultura (BRASIL, [2016], on-line)17. d. Demais tecnologias: a. Agroindustrialização. b. Rastreamentode produtos. c. Uso do Enterprise Resource Planning (Planejamento de Recursos Empresariais) – ERP nas cadeias produtivas. d. Uso da biotecnologia na produção de cultivares mais resistentes às con- dições bióticas e abióticas de produção. e. Uso de indicadores químicos na tecnologia de aplicação de agrotóxicos. f. Tecnologias de colheita manual de produtos. g. Técnicas de Manejo Animal (bovinocultura, ovinocultura, equídeo- cultura, suinocultura, entre outras explorações animais). h. Tecnologias de segurança do trabalho e saúde ocupacional (NR 31, NR 32 e NR 36). i. Tecnologias de previsão do tempo. j. Tecnologias de mecanização agrícola de baixo impacto. k. Uso de agrotóxicos, dentre outras. Conforme vimos ao longo desta unidade, as tecnologias aplicadas internamente às propriedades rurais são inúmeras. Ilustramos as principais que se encontram vinculadas ao trabalhador rural e que podem gerar elementos que elevam os ris- cos da atividade rural. Contudo, a análise de riscos, bem como os aspectos mais ligados à segurança do trabalho agrícola serão evidenciados a partir da próxima unidade. Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 73 CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado(a) aluno(a), conhecer o perfil do trabalhador rural e as principais tec- nologias relacionadas à sua prática laboral é condição necessária à qualquer profissional da área de Segurança do Trabalho, levando-se em consideração o fato de que o conhecimento de tais informações permite a esse profissional já estabelecer qual seria sua linha de ação ao lidar com esse contexto diferenciado. Aprendemos que, apesar do dinamismo das atividades agrícolas requererem dos profissionais a eles ligados, nem sempre encontramos condições favoráveis para afirmar sobre a existência de uma harmonia entre profissional, tecnologia e meio. Nem sempre temos a condição de termos os profissionais mais capaci- tados, tanto do ponto de vista formal como profissional. É pior que isso: nem sempre temos a disposição profissionais que estejam equilibrados em suas rela- ções profissionais-pessoais. Tais desequilíbrios em interação com as máquinas, equipamentos e mesmo as práticas laborais podem representar fatores de risco que poderiam culminar na ocorrência de acidentes ou mesmo de doenças laborais. Assim, entender esses aspectos e compreender quais são as principais tecno- logias que interagem com esses trabalhadores permite aos profissionais que lidam com a Segurança do Trabalho traçarem as melhores estratégias para elevar a pro- dutividade, ao mesmo tempo em que se estabelece uma prática laboral segura. Ademais, compreendemos que muitas das tecnologias relacionadas aos tra- balhos agrícolas possuem graus de complexidade diferenciados, o que exige com que tais profissionais sejam e estejam constantemente atualizados. Não somente no que tange as tecnologias de campo, como rotação de culturas, correção de solos e adubações verdes, mas, principalmente, com os maquinários, implemen- tos e produtos tóxicos. Cobrar essa formação e proporcionar condições para que essa ocorra é uma das funções primordiais do Tecnólogo em Segurança do Trabalho. 74 1. Segundo Rosseto e Santiago ([2016], on-line)18, os solos brasileiros são ácidos em sua maioria. Ainda segundo esses autores, a acidez, representada basica- mente pela presença de dois componentes - íons H+ e Al+3 -, tem origem pela intensa lavagem e lixiviação dos nutrientes do solo, pela retirada dos nutrientes catiônicos pela cultura sem a devida reposição e, também, pela utilização de fer- tilizantes de caráter ácido. Diante dessa acidez e da falta de nutrientes no solo, os processos de calagem e gessagem possuem grande importância. Sobre esses processos, assinale a alternativa correta: a. Tanto a calagem como a gessagem possuem o papel de alcalinizar o solo. b. Somente a calagem possui o papel de alcalinizar o solo, tendo em vista que a gessagem não possui potencial para essa alcalinização, embora apresente fundamental importância no transporte de nutrientes em profundidade. c. A redução da acidez promovida pelos dois processos (calagem e gessagem) é fundamental para o aumento na disponibilidade de macronutrientes (Cálcio, Magnésio, Enxofre, Nitrogênio, Fósforo e Potássio). d. A redução do pH do solo promovida pelos dois processos (calagem e gessa- gem) é fundamental para o aumento na disponibilidade de macronutrientes (Cálcio, Magnésio, Enxofre, Nitrogênio, Fósforo e Potássio). e. Somente a gessagem possui o papel de alcalinizar o solo, tendo em vista que a calagem não possui potencial para esta alcalinização, embora apresente fundamental importância no transporte de nutrientes em profundidade. 75 2. A rotação de culturas consiste em alternar espécies vegetais, no correr do tempo, em uma mesma área agrícola. As espécies escolhidas devem ter propósitos co- merciais e de manutenção ou recuperação do meio ambiente (FRANCHINI et al., 2011). Sobre a rotação de culturas, julgue os itens a seguir e assinale a alternativa correta. I. Para a obtenção de máxima eficiência da capacidade produtiva do solo, o planejamento de rotação deve considerar, além das espécies comerciais, aquelas destinadas à cobertura do solo, que produzam grandes quantidades de biomassa, cultivadas quer em condição solteira ou em consórcio com cul- turas comerciais. II. O melhor controle de pragas e doenças nos sistemas rotacionados se deve à manutenção de um mesmo padrão, considerando os sistemas radiculares das plantas. III. Os sistemas de rotação de culturas podem ser imediatamente implantados, sem considerar tempos de adaptação, as aptidões agrícolas das áreas ou mesmo a adequação dos sistemas junto às características ambientais das mi- crobacias onde as propriedades rurais encontram-se inseridas. IV. O uso da rotação de culturas conduz à diversificação das atividades na pro- priedade, que pode ser exclusivamente de culturas anuais ou culturas anuais e pastagens, o que demanda planejamento da propriedade em médio ou mesmo em longo prazo. A escolha das culturas e do sistema de rotação deve ter flexibilidade, de modo a atender às particularidades regionais e às pers- pectivas de comercialização dos produtos. Estão CORRETOS: a. Somente o item I. b. Somente o item II. c. Somente os itens II e III. d. Somente os itens I e IV. e. Somente os itens I, II e IV. 76 3. O solo é um dos principais elementos produtivos para as culturas agrícolas. Por meio dele, água e nutrientes são fornecidos às culturas para que as mesmas pos- sam se desenvolver de maneira adequada. Para que o solo cumpra a sua função, em alguns casos, o mesmo necessita de preparo, que é feito por meio do revol- vimento completo de sua camada superficial e incorporação de restos vegetais, utilizando-se de implementos específicos, como o arado ou grades aradoras/ni- veladoras. Sobre esse assunto, assinale a alternativa que apresenta a modalidade de plantio que se encaixa com a descrição efetuada neste enunciado. a. Plantio Direto b. Plantio Escalonado c. Plantio Convencional d. Plantio Mínimo e. Plantio Conservacionista 4. Uma das críticas feitas ao pacote tecnológico da Revolução Verde centra-se no fato de que grande parte das tecnologias empregadas simplesmente foram im- portadas e implementadas, sem considerar adaptações ou estudos mais apro- fundados sobre suas reais necessidades nas áreas produtivas brasileiras. Tal fato pode ser exemplificado por meio de um caso específico de um implemento liga- do aos solos. Discuta suscintamente sobre esse exemplo. 5. Conforme observamos, o trabalhador rural já não assume mais aquela clássica feiçãode abandono ou de tristeza. Pelo contrário, assume uma visão muito mais assertiva sobre múltiplas tarefas. Ademais, vale dizer que esse trabalhador atin- giu o mesmo nível de protagonismo se comparado aos trabalhadores urbanos. Mediante o exposto, assinale a alternativa que apresenta uma das características hoje assumidas pelo trabalhador agrícola: a. Resistência b. Baixa resiliência c. Descompromisso d. Pluriatividade e. Reatividade 77 A velocidade da evolução das tecnologias agrícolas Um dos maiores expoentes da pesquisa da Revolução Verde chama-se “Melhoramento Genético”. Trata-se de uma área das Ciências Biológicas e Agrárias que visa investigar a constituição genética das espécies e, por meio de técnicas específicas, mesclá-la em busca de um ideótipo, ou seja, um indivíduo que expresse suas melhores características produtivas, associado a uma rusticidade que lhe permita a sobrevivência com reduzida dependência de insumos externos. As culturas de maior expressão econômica foram densamente estudadas no país e, dos materiais disponíveis, os melhores foram selecionados e cruzados entre si, para gerar indivíduos próximos ao ideótipo de cultivo no Brasil. Assim, já na década de 1980, já se era possível falar em cultivares desenvolvidas ple- namente no Brasil, atendendo às diferentes condições de climas e solos. Ademais, um exemplo de destaque nesse processo está relacionado à cultura da soja, a qual passou de uma opção para a rotação de culturas como milho e trigo para a principal oleaginosa produzida em nossos campos. É importante salientar que o desenvolvimento das novas tecnologias vinculadas à soja, tropicalizando-a, somado aos esforços de melhoramento genético de outras culturas de interesse (milho, cana-de-açúcar, algodão, trigo, arroz, feijão e frutas), fez com que tais culturas pudessem ser conduzidas em condições diferenciadas, muitas vezes, com menor impacto na relação das culturas com o ambiente. Por exemplo, no caso das frutas, foi notável o melhoramento de algumas culturas às condições de produção no Nordeste, local não endêmico na ocorrência de doenças e pragas importantes, o que favoreceu a produtividade destas culturas associada à eleva- ção da qualidade de vida e da economia dos pequenos municípios. Ademais, as outras variáveis envolvidas para uma produção agropecuária de qualidade também foram densamente pesquisadas, a saber: a. Solos: a ciência dos solos no Brasil teve uma evolução constante ao longo da Revo- lução Verde. De mero meio de suporte, o solo passou a ser compreendido como o principal veículo de fornecimento de nutrientes às plantas. Além disso, a composi- ção química, estrutura, dinâmica, profundidade e interações deste com os micror- ganismos foram também avaliados por meio da pesquisa científica, a qual eviden- ciou uma série de soluções técnicas que permitiram o aumento da produtividade das culturas. Dentre elas: o plantio convencional, a ciência da fertilidade do solo (fertilizantes químicos) e o dimensionamento dos maquinários e implementos para situações específicas (dependentes da estrutura e textura do solo). b. Relevo: a conformação dos terrenos para a atividade agropecuária também foi massivamente estudada para melhor compreensão do comportamento das cultu- ras em situações de declividade diferenciadas. Esses estudos criaram metodologias que até hoje são utilizadas para classificar tecnicamente as áreas de produção, por meio de sua Aptidão Agrícola e Capacidade de Uso da Terra (LEPSCH, 1983). 78 c. Clima: a partir dos estudos de adaptabilidade das culturas aos diferentes tipos cli- máticos, convencionou-se também avaliar o clima e o tempo por meio de estu- dos de climatologia agrícola. As cartas climáticas ganharam melhor interpretação e houve investimentos no sistema de previsão do tempo, o que serviu de subsídio para que, na década de 1990, fosse implantada a técnica de zoneamento agrocli- mático ou Zoneamento Agrícola de Risco Climático. d. Água: em parte, a gestão de recursos hídricos em um sistema produtivo iniciou-se a partir do momento em que houve a possibilidade de se estabelecer uma cultura em uma região onde apenas a água é o fator limitante. Por exemplo, sistemas de produção animal no Cerrado ou mesmo de frutas no Nordeste exigiram a criação de tecnologias de fornecimento contínuo ou intermitente de água. A partir disso, os sistemas de irrigação por aspersão, gotejo ou gravidade, abastecidos por meio de cisternas, poços profundos ou mesmo motobombas de recalque em córregos e rios, foram elaborados e fomentados. e. Doenças, pragas e plantas invasoras: o desenvolvimento da Fitopatologia (ciên- cia das doenças das plantas), da Entomologia (ciência dos insetos) e dos conheci- mentos sobre botânica, fisiologia e bioquímica vegetal permitiram a evolução no desenvolvimento dos agrotóxicos sobre o princípio de eliminação do fator limitan- te, por algum mecanismo químico. f. Mecanização: a evolução das máquinas agrícolas foi um dos primeiros fatores pesqui- sados durante a Revolução Verde, isso em conjunto com as culturas. Pesquisou-se, por exemplo, as adaptações de maquinários que poderiam ser realizadas às nossas condi- ções, em especial, dimensões de rodados, massa dos lastros, relação de potência, di- mensionamento de motores e demais partes componentes, adaptação de colhedoras aos novos espaçamentos e densidades de plantio, adaptação de pulverizadores, se- meadoras, adubadoras, calcareadores, roçadeiras e outros implementos de destaque. Mediante essas explanações, podemos concluir que houve uma densa mudança de pa- radigmas produtivos e de maneira muito rápida, o que contribuiu definitivamente para a evolução produtiva e econômica das atividades agropecuárias no país. Os resultados produtivos atuais ainda são resultantes das práticas relacionadas à Revolução Verde. Ali- ás, muitos autores já convencionam chamar o atual período como a “Nova Revolução Verde”, dada a velocidade com que as tecnologias são desenvolvidas e inseridas no coti- diano da produção de alimentos. Ademais, esta “Nova Revolução Verde” também possui suas reverberações no campo da Segurança do Trabalho, tendo em vista a evolução do grau de complexidade das atividades agrícolas. Atualmente, existem três Normas Regulamentadoras específicas para a área e as atividades agrícolas têm ganhado ares de destaque para a Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação no campo da Segurança do Trabalho. Certamente, o futuro é promissor para a análise conjunta de tais temas. Fonte: o autor. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Práticas de Conservação de Solo e Água Para conhecer melhor o sistema de terraceamento e outras práticas conservacionistas, consulte a seguinte referência de literatura, disponível em: <http://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/ doc/928493/1/CIRTEC133tamanhografica2.pdf>. Inovações Tecnológicas na Agricultura Familiar do Paraná A agricultura familiar é reconhecidamente protagonista de seus próprios passos e processos de desenvolvimento. De forma sustentável, essa agricultura tem se utilizado das tecnologias disponíveis para se reinventar, melhorando sua renda e ampliando suas produtividades. Este vídeo, produzido pelo Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES) e Departamento de Estudos Sócio-Econômicos Rurais (Deser), ilustra a capacidade inventiva dos agricultores familiares e seu relacionamento com as principais tecnologias disponíveis no campo. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=MQenchORupA>. REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, R. Funções e Medidas da Ruralidade no Desenvolvimento Con- temporâneo. Texto para discussão nº. 702. Rio de Janeiro: IPEA, 2000. 37p. BARROS, J.; CALADO, J. Rotações de Culturas. 01. ed. Évora-Portugal: Universidade de Évora, 2011. 21p.CAVIGLIONI, J. H.; FIDALSKI, J.; ARAÚJO, A. G. DE.; BARBOSA, G. M. DE C.; LLANILLO, R. F.; SOUTO, A. R. Espaçamentos entre Terraços em Plantio Direto. Boletim Técnico nº. 71. Curitiba: Iapar, 2010. 64p. CRUZ, J. C.; ALVARENGA, R. C; PEREIRA FILHO, I. A. Plantio direto x Convencional. I Semana de Ciências Agrárias de Diamantina. Anais... Diamantina: SECAD, 2006. 5p. FRANCHINI, J. C., et al. Importância da rotação de culturas para a produção agrí- cola sustentável no Paraná. 01. ed. Londrina: EMBRAPA, 2011. 28p. GRIEBELER, N. P.; PRUSKI, F. F.; TEIXEIRA, A. F.; SILVA, D. D. da. Modelo para o dimensio- namento e a locação de sistemas de terraceamento em nível. Engenharia Agrícola, Jaboticabal, v. 25, n. 3, p. 841-851, 2005. HENTSCHKE, M.B. Cartilha do Empregado e do Empregador Rural. Porto Alegre: Noschang, 2012. 26p. MALAVOLTA, E. ABC da Adubação. 04. ed. São Paulo/SP: Ceres, 1979. 255 p. OLIVEIRA JÚNIOR, R. S. Biologia e Manejo de Plantas Daninhas. 01. ed. São Paulo: Omnipax, 2014. PIRES, F. R.; SOUZA, C. M.; SILVA, A. A.; CECON, P. R.; PROCÓPIO, S. O.; SANTOS, J. B.; FERRREIRA, L. R. 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Acesso em: 06 set. 2016. 13 Em: <https://uspdigital.usp.br/siicusp/cdOnlineTrabalhoVisualizarResumo?nume- roInscricaoTrabalho=5039&numeroEdicao=15>. Acesso em: 06 set. 2016. 81 REFERÊNCIAS 14 Em: <http://www.mma.gov.br/acessibilidade/item/7594-compostagem>. Acesso em: 06 set. 2016. 15 Em: <http://www.consube.com.br/site/libraries/Uso%20do%20Gesso%20Algo- dao%20Djalma%20Sousa.pdf>. Acesso em: 06 set. 2016. 16 Em: <http://www.cnpgl.embrapa.br/sistemaproducao/book/export/html/243>. Acesso em: 06 set. 2016. 17 Em: <http://www.agricultura.gov.br/desenvolvimento-sustentavel/integracao-la- voura-pecuaria-silvicultura>. Acesso em: 06 set. 2016. 18 Em: <http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/cana-de-acucar/arvore/CON- TAG01_33_711200516717.html>. Acesso em: 27 set. 2016. GABARITO 83 1. B 2. D 3. C 4. Resposta: Especificamente, a tecnologia de preparo de solo conhecida como “plantio convencional”, operacionalizada pelos tratores e pelo implemento cha- mado arado (ou grade aradora) representa o melhor exemplo vinculado à crítica mencionada por meio do enunciado. Em países de clima temperado, com tempe- raturas mais frias e sujeitos à neve e ao congelamento da água nas camadas su- perficiais do solo, faz sentido se utilizar de um equipamento que exponha o solo à luz do sol, propiciando seu aquecimento, aeração e disponibilizando a água, uma vez congelada, na forma líquida. Isso propicia condições adequadas para produzir. Contudo, em países de clima tropical, quentes por natureza, tal revol- vimento perde o seu sentido, tendo em vista que já existe água e temperatura suficiente para a condução da cultura. Assim, o único benefício palpável com esta ação é a descompactação e a aeração da camada superficial do solo. Todavia, esse revolvimento prejudica o solo por eliminar boa parte dos seus microrganismos, dizimados pelo excesso de temperatura e luminosidade e ainda, reduz o carbono fixado ao solo, pela liberação à atmosfera, de gás carbônico advindo da maté- ria orgânica, o que pode contribuir para o efeito estufa. Dessa maneira, a crítica sobre este exemplo se torna válida e a aplicação pura dessa tecnologia, sem as devidas adequações, depreciou consideravelmente as áreas de plantio. 5. D U N ID A D E III Professor Me. Tiago Ribeiro da Costa AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Objetivos de Aprendizagem ■ Conhecer os principais riscos associados às atividades agrícolas (riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes). ■ Compreender os principais aspectos da Norma Regulamentadora nº. 36. ■ Conhecer os principais espaços confinados ligados às atividades agrícolas e visualizar as principais práticas relacionadas à Segurança do Trabalho em Espaços Confinados (silos e armazéns). Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Os riscos ocupacionais e as atividades agrícolas ■ Trabalhos em espaços confinados ■ Estruturas de armazenamento de grãos ■ Legislação brasileira e a prevenção de acidentes em silos ■ Procedimentos de segurança para entrada em silos ■ O trabalho em alturas em silos INTRODUÇÃO Prezado(a) aluno(a), chegamos à metade de nossos estudos e a partir de agora nos aproximamos em definitivo de nossa temática principal que é a Segurança do Trabalho Agrícola. Nas nossas primeiras unidades, dedicamos nossos esforços para compreender a dinâmica da evolução das atividades agropecuárias, bem como para compreen- der o perfil do trabalhador agrícola e as principais tecnologias por ele utilizadas. A partir desta unidade, iniciamos nossos estudos sobre uma temática bastante específica, que é relacionada ao trabalho em espaços confinados, em especial, silose armazéns. Todavia, antes de compreender os aspectos principais de tais espaços, faremos uma visitação aos riscos ocupacionais que, de forma geral, os trabalhadores agrícolas estão sujeitos. Na maioria dos casos, os trabalhadores rurais possuem postos de trabalho e funções que são executadas em ambientes externos, o que acentua a propor- ção de alguns riscos sobre os demais. Em primazia, os riscos físicos, químicos e biológicos, portanto, os ambientais, são aqueles de maior relevância ao trabalha- dor rural. Contudo, considerando o nível de esforço e as próprias características dos trabalhos agrícolas, devemos ponderar o fato de que os riscos ergonômicos e de acidentes também possuem sua relevância. Após essa compreensão, abriremos o espaço para o debate sobre os espaços confinados e as principais ações relacionadas à Segurança do Trabalho nesses ambientes. No geral, os riscos físicos (calor, em especial) e químicos (poeiras e materiais particulados em suspensão no ar) são aqueles que mais chamam a aten- ção no contexto ambiental. Já no contexto laboral, inserimos também os riscos de acidentes e explosões como os mais comuns a este tipo de trabalho. Vamos adentrar as discussões desta unidade? Bons estudos! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 87 ©shutterstock AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E88 OS RISCOS OCUPACIONAIS E AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS Em nossa segunda unidade tivemos uma ideia de grande parte das tecnologias e atividades que são executadas no contexto das propriedades rurais. Da mesma maneira, tivemos uma clara compreensão sobre as características do trabalha- dor rural. De forma geral, podemos dizer que as peculiaridades trazidas por meio des- ses conteúdos nos permitem afirmar que as atividades rurais possuem elevada complexidade e é amplamente justificável a preocupação dos órgãos compe- tentes, a exemplo do MTPS, bem como de pesquisadores da área com relação à segurança do trabalho ligada a tais atividades. São atividades com graus de risco moderados, ao se analisar o Anexo II da Norma Regulamentadora nº. 4 (MTPS, 2016, on-line)1, o que significa que existe um potencial considerável dessas atividades promoverem danos temporários ou permanentes à saúde dos trabalhadores. Não obstante, esse grau de risco moderado associado às peculiaridades liga- das ao trabalhador rural refletem negativamente no contexto dos acidentes de trabalho, conforme avaliado por meio do Quadro 1: Os Riscos Ocupacionais e as Atividades Agrícolas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 89 Q ua dr o 1 – Ac id en te s d e T ra ba lh o lig ad os às A tiv id ad es A gr op ec uá ria s ( 20 12 /2 01 4 – CN A E 01 a 03 ) Fo nt e: M TP S (2 01 4) . AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E90 Segundo a análise de MTPS (2014), verifica-se que houve um total de 21.081 aci- dentes de trabalho nas atividades agrícolas – caracterizadas pela Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) de códigos iniciando-se em 01, 02 e 03 – sendo 15.576 típicos (ocorridos no local do trabalho), 1.871 de trajeto (ocorridos no percurso entre a casa e o trabalho ou ainda, em viagens a serviço do empregador), 131 originados do agravo à saúde (doenças de trabalho com afas- tamentos superiores a 15 dias) e, o mais preocupante, 3.503 sem Comunicação de Acidentes de Trabalho registradas. Esse elevado número de acidentes sem a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) registrada revela a grande informalidade dos trabalhos agrícolas ao passo em que também nos permite inferir o elevado grau de omissão de dados no campo. Provavelmente muitos outros acidentes de trabalho não foram capturados pelas estatísticas oficiais o que eleva ainda mais a percepção de que os trabalhos agríco- las de fato oferecem condições inseguras de acordo com os riscos, associado ao fato do próprio trabalhador rural, por motivo ignorado, assumir posturas inseguras. Nesse interim, estabeleceremos inicialmente uma análise dos riscos ocupa- cionais os quais os trabalhadores agrícolas encontram-se sujeitos e, após isso, faremos uma breve análise de alguns segmentos específicos ligados aos traba- lhos rurais que já são atendidos por Normas Regulamentadoras, a se iniciar nesta unidade pela análise da NR-33 (Trabalhos em Espaços Confinados), da NR-36 (Segurança e Saúde no Trabalho em Empresas de Abate e Processamento de Carnes e Derivados) e da NR-31 (Segurança e Saúde no Trabalho na Agricultura, Pecuária, Silvicultura, Exploração Florestal e Aquicultura) , todas essas Normas Regulamentadoras do (MTPS, 2016, on-line)1. RISCOS FÍSICOS Segundo Norma Regulamentadora nº. 9 (MTPS, 2016, on-line)1, considera-se como riscos físicos o calor, o frio, as radiações ionizantes e não ionizantes, os ruídos, a umidade, pressões anormais e as vibrações. Considerando a universalidade dos trabalhos agrícolas, consideram-se como elementos de destaque: Os Riscos Ocupacionais e as Atividades Agrícolas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 91 ■ Calor: muitas vezes os trabalhadores exercem suas atividades sob o sol, em casas de vegetação, junto às máquinas agrícolas ou até mesmo em ambien- tes confinados, como silos e armazéns. As temperaturas muitas vezes ultrapassam os valores de referência dispostos na Norma Regulamentadora nº. 15 (MTPS, 2016, on-line)1, gerando uma situação crítica para a manu- tenção da saúde e da segurança dos trabalhadores. ■ Frio: essa situação se configura basicamente nas situações onde o trabalhador rural encontra-se exposto às temperaturas ambien- tais frias (nas épocas mais frias do ano) ou ainda quando o mesmo se submete às câmaras frias agroindustriais, sendo uma situação facilmente contornável pelo uso de agasalhos ou Equipamentos de Proteção Individual específicos. ■ Radiações: a principal radiação a qual o trabalhador rural encontra- -se submetido e a radiação solar, em especial, àqueles trabalhadores que executam trabalhos à céu aberto (capinas, roçadas, colheitas, empreitas etc.). Para esses casos, o uso de Protetores Solares (FPS 30) é altamente recomendado. Ainda, existem outras situações onde os trabalhadores podem estar expostos às radiações, em especial, no que concerne à agroindustrialização de alimentos com o uso de ondas eletromagnéticas para a sanitização alimentar. ■ Ruídos: esse tipo de elemento de risco está presente em quase todos os postos de trabalho agrícolas que interagem com máquinas, imple- mentos, equipamentos e instalações. Desde máquinas agrícolas, passando por ambientes de secagem de sementes e chegando até os ambientes agroindustriais, os ruídos se configuram como um impor- tante elemento de risco o qual deve ser devidamente analisado e atenuado seja no contexto coletivo ou mesmo individual – com o uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI) adequado. ■ Umidade: esse é um elemento de risco mais restrito à piscicultura, cultivo de cogumelos e rizicultura inundada (cultivo de arroz). Não obstante, o armazenamento de alimentosem atmosfera modificada ou câmaras frias também podem apresentar elevadas umidades. Já considerando as baixas umidades, geralmente nas épocas de inverno, as umidades relativas do ar abaixo de 60% podem colocar em risco a saúde respiratória dos trabalhadores. ©shutterstock AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E92 ■ Pressões anormais: em termos de trabalhos agrícolas convencio- nais, não existem trabalhos conduzidos em ambientes com pressões modificadas. ■ Vibrações: geralmente associadas às máquinas, implementos e veí- culos agrícolas em seu tráfego. Também podemos verificar vibrações em motores, ventiladores, exaustores, tubulações e transportado- res de carga nos sistemas de secagem e armazenagem de sementes. As máquinas industriais, em seus campos específicos, também podem apresentar vibrações. Todavia, também é um elemento de risco facilmente contornável. RISCOS QUÍMICOS Os riscos químicos representam a segunda categoria de riscos as quais os tra- balhadores do ramo agrícola estão sujeitos. De forma geral, sua men- suração pode se dar de maneira qualitativa (pela simples noção de presença do elemento causador do risco) e quantitativa (quando se tem a percepção de que a inten- sidade caracteriza a insalubridade derivada do risco). Segundo Fiocruz ([2016], adaptado pelo autor, on-line)2, os riscos químicos: São representados pelo o perigo a que determinado indivíduo está ex- posto ao manipular produtos químicos que podem lhe causar danos físicos ou lhe prejudicar a saúde. Os danos físicos relacionados à ex- posição química inclui, desde irritação na pele e olhos, passando por queimaduras leves, indo até aqueles de maior severidade, causado por incêndio ou explosão. Os danos à saúde podem advir de exposição de curta e/ou longa duração, relacionadas ao contato de produtos quími- cos tóxicos com a pele e olhos, bem como a inalação de seus vapores, resultando em doenças respiratórias crônicas, doenças do sistema ner- voso, doenças nos rins e fígado, e até mesmo alguns tipos de câncer. Os Riscos Ocupacionais e as Atividades Agrícolas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 93 Geralmente, os riscos químicos estão associados aos materiais particulados, poei- ras, fuligens, vapores, gases e toda a sorte de produtos químicos que, uma vez em contato com o ser humano, podem depreciar sua saúde, colocando em risco sua vida dependendo da dosagem ou ainda, do nível de exposição. Grande parte dos riscos químicos está quantitativamente caracterizada por meio dos anexos da Norma Regulamentadora nº. 15 por atividades e operações insalubres (MTPS, 2016, on-line)1. Todavia, de maneira sintética e considerando as atividades agrícolas, devemos destacar as seguintes situações as quais podem apresentar tal categoria de riscos: ■ Trabalhos com máquinas agrícolas, devido ao material particulado oriundo do solo (poeiras) ou do próprio motor das máquinas (resíduos do escape de tais máquinas). ■ Trabalhos em ambientes confinados (silos e armazéns), devido ao material particulado oriundo dos tegumentos das sementes depositados nas pare- des do silo/armazém ou mesmo nas tubulações de ventilação/exaustão. ■ Trabalhos com agrotóxicos (fungicidas, inseticidas, herbicidas e suas embalagens), levando-se em conta que muitas destas substâncias apre- sentam elevado grau de toxicidade (extremamente tóxicos – nível I ou altamente tóxicos – nível II). ■ Trabalhos de expurgo de armazéns e silos, com o uso de inseticidas de alta e média toxicidade. ■ Tratamentos de sementes com produtos químicos (enraizadores, regu- ladores de crescimento, fungicidas e polímeros condicionadores para melhorar a densidade e o formato da semente). ■ Uso de produtos químicos em agroindústrias. A definição sobre a configuração de insalubridade depende da própria NR-15, todavia, a presença de tais elementos no ambiente de trabalho rural já é indica- tivo de ação por parte dos profissionais de Segurança do Trabalho, em especial, no que condiz à antecipação, reconhecimento e controle de tais riscos, bem como às estratégias de capacitação e conscientização. ©shutterstock AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E94 RISCOS BIOLÓGICOS Por possuir uma diversidade de atividades econômicas, em especial, sendo conduzi- das a céu aberto, o ambiente rural é um dos que mais oferece elementos de riscos biológicos. A presença marcante de animais peçonhentos como cobras, aranhas, escorpiões e carrapatos, associada à presença de insetos culcídeos (pernilongos) e de outras famílias que podem transmitir doenças severas (febre amarela, malária, den- gue, febre chikungunya, doença de chagas, dentre outras) já faz com que boa parte das atividades de campo possam ser configuradas como de elevado risco (OLIVEIRA; LINK, 2011). Ademais, os riscos biológicos também se fazem presentes quando lida com os animais, seja no tratamento de suas próprias doenças, destinação de carcaças, no recolhimento e no tratamento de suas excretas. Nesses trabalhos, bactérias, fungos, vírus e protozoários podem invadir o organismo humano, causando-lhe pequenas avarias, como dermatites, ou até mesmo grandes danos cerebrais (cis- ticercose), conforme explanado por Dias (2006, on-line)3. Outra questão importante está relacionada às indústrias frigoríficas e de processamento de alimentos de origem animal. De maneira geral, os mesmos elementos elencados acima se repetem nessas indústrias, em especial, no que tange à recepção e limpeza das carcaças de bovinos, suínos, ovinos, aves e pei- xes (DIAS, 2006, on-line)3. Por fim, mas não menos importante existem situações relacionadas ao pró- prio trabalhador rural, as quais podem ser configuradas como fontes de riscos biológicos. O estado de saúde desses trabalhadores também deve ser material de interesse dos profissionais da área de Segurança do Trabalho, levando-se em conta que não devemos descartar a transmissibilidade de doenças como gripe, ©shutterstock Os Riscos Ocupacionais e as Atividades Agrícolas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 95 pneumonia e tuberculose ou mesmo de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) como: a Síndrome da Imunodeficiência Humana (AIDS), Sífilis, Herpes, Human Papiloma Vírus (HPV) e outras. Nesse interim, campanhas de conscien- tização e capacitações são fundamentais para que tais problemas não se alastrem dentro das empresas rurais (DIAS, 2006, on-line)3. RISCOS ERGONÔMICOS E DE ACIDENTES Em nossa segunda unidade, visualizamos algumas das características do per- fil do trabalhador do ramo agrícola. Podemos afirmar a partir daquela análise que lidamos com pessoas que possuem um caráter menos disciplinável no que concerne aos princípios de segurança do trabalho. Além disso, de forma geral, os tra- balhos agrícolas possuem um caráter de ser pouco especia- lizados, altamente repetitivos e demandantes de um esforço físico acima da média em comparação a outros postos de trabalho de outros seto- res (industrial e de serviços). Os riscos ocupacionais no meio rural e nos trabalhos agrícolas, como esta- mos vendo, são elevados. Considerando esse fato, os trabalhos agrícolas ga- nharam destaque recente na criação de dispositivos legais, a exemplo das NR´s, visando o controle de taisriscos. Fonte: o autor. AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E96 Ainda, devemos adicionar a essa discussão o fato de muitos dos trabalhos agrícolas acontecerem em jornadas fora do padrão (jornadas noturnas ou extensas em épocas de safra) ou até mesmo de maneira informal, sem o apoio do profis- sional da Segurança do Trabalho no que condiz a capacitação dos empregadores e empregados rurais sobre seus princípios. Tais fatos agravam o desgaste da força de trabalho, promovendo-lhes distúr- bios osteomusculares ou mesmo lesões que reduzem sua capacidade de trabalho. Ademais, esses trabalhos desgastantes também reduzem a atenção dos trabalhado- res, gerando situações que elevam os riscos de acidentes, por exemplo, a desatenção na operação de máquinas e equipamentos em terrenos declivosos ou acidentados, o que pode levar ao capotamento de máquinas agrícolas, desatenção no que tange a manutenção dessas máquinas, descuido no uso de equipamentos e ferramentas, den- tre outras situações que podem configurar acidentes de trabalho (RADOLL, 2012). Soma-se ainda a essa discussão a própria negligência dos trabalhadores rurais em defesa de um aumento pífio na eficiência de seus trabalhos. Há quem retire as proteções de máquinas (proteções às transmissões de força de tratores ou con- tra a projeção de detritos em roçadeiras, por exemplo) ou ainda trafegue com estas máquinas em rodovias pavimentadas – algo proibido, segundo o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) – justamente para não “perder tempo” em suas operações. É justamente nesses momentos de descuido e negligência que os aci- dentes de trabalho ocorrem (RADOLL, 2012). Não conseguiríamos listar, em uma única obra, todos os fatores que podem se configurar como riscos ergonômicos e de acidentes, considerando os trabalhos agrícolas. A diversidade de postos de trabalho, associada aos comportamentos tão distintos dos vários atores presentes nesse tipo de trabalho nos impede de enume- rar tais ocorrências, mas, certamente, esses riscos são extremamente preocupantes, pois estão diretamente vinculados ao ser humano e aos seus comportamentos. Cabe aos profissionais da área de Segurança do Trabalho detectar potenciais situações perigosas e prontamente mitigá-las. Cabe ainda a estes profissionais, antecipar, em caráter proativo, tais situações. Acima de tudo, devemos preser- var o bem maior das empresas rurais: a vida e a saúde de nossos trabalhadores. Trabalhos em Espaços Confinados Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 97 Agora que nós conhecemos os principais riscos relacionados às atividades agrí- colas, estamos aptos a conhecer tais atividades do ponto de vista da Segurança do Trabalho, em especial, do ponto de vista das Normas Regulamentadoras. Vamos começar nossa análise pela Norma Regulamentadora nº. 33 – Trabalhos em Espaços Confinados. Decidimos utilizar essa linha de raciocínio, tratando as atividades agrícolas que possuem normas específicas inicialmente para que, em momento posterior, possamos dar maior atenção à principal norma que versa sobre Segurança do Trabalho Agrícola (NR-31 – MTPS, 2016, on-line)1. TRABALHOS EM ESPAÇOS CONFINADOS A armazenagem é uma das atividades mais antigas e importantes da humanidade, mas somente há algumas décadas essa função passou a ter papel preponderante nas empresas, passando a ser usada como estratégia para atingir uma vantagem competitiva no mercado. A armazenagem é uma das operações da cadeia de produção, assim como o preparo do solo, plantio, tratos culturais e a colheita. De modo geral, a unidade armazenadora tem assumido, quase na sua totalidade, operações de limpeza, secagem, armazenagem e até beneficiamento dos grãos, como engenhos de arroz, indústrias de alimentos e de extração de óleo (MALLET, 2012). Considerando as características dos trabalhos e a diversidade dos compor- tamentos dos colaboradores das empresas rurais, devemos julgar apropria- do o fato dos trabalhadores não estarem seguros. Assim, ações ligadas à Segurança do Trabalho são amplamente necessárias. Fonte: o autor. AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E98 Como hoje, o preço final dos produtos é estipulado pelo mercado, em função das relações entre oferta e demanda, torna-se necessário a utilização de uma uni- dade armazenadora que propiciam a comercialização da produção em melhores períodos, evitando as pressões naturais do mercado na época da colheita, além de auxiliar no controle do tempo e do volume de insumos/produtos a ser distribuído (GIOVINE; CHRIST, 2010). Desse modo, a comercialização da safra é de forma gradual e na melhor oportunidade, de acordo com a valorização das commodities. Em outros países, como França, Argentina e Estados Unidos, onde a pro- dução de grãos constitui uma das principais fontes de divisa, a sequência do sistema de armazenagem principia na fazenda e evolui para os armazéns cole- tores, intermediários e terminais. No Brasil observa-se exatamente o contrário, porque a estrutura de armazenagem principia nos terminais e intermediários coletores, geralmente representados pelas cooperativas, resultando numa ativi- dade tipicamente urbana (D’ ARCE, [2016], on-line)4. No caso específico de grãos como soja e milho, o objetivo da realização de um armazenamento adequado é manter a sua duração e as qualidades biológi- cas, químicas e físicas que esses possuem, imediatamente após a colheita. Esse armazenamento é geralmente realizado em silos. A operação de secagem é uma parte importante do processamento que antecede a armazenagem. Segundo Puzzi e Andrade (2003), a qualidade dos grãos não pode ser melhorada durante o armazenamento. Grãos colhidos inadequadamente serão de qualidade baixa, não importando como são armazenados. ESTRUTURAS DE ARMAZENAMENTO DE GRÃOS Caro(a) aluno(a), saiba que hoje um sistema de armazenagem está alicerçado em três módulos básicos: limpeza (máquina de pré-limpeza), secagem (seca- dor de grãos) e armazenagem (silos, armazéns graneleiros, entre outros). Estruturas de Armazenamento de Grãos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 99 Independente da capacidade de estocagem, o módulo de armazenagem deverá ser composto de três itens fundamentais para a conservação dos grãos, que não podem ser dispensados pela importância de manter os seus ganhos quantitati- vos e qualitativos. São eles: o monitoramento da massa de grãos (termometria), aeração (ventilação) e o sistema de exaustão, este último considerado item fun- damental para conservação da safra armazenada. Esses itens proporcionam ganhos pela eliminação da deterioração dos grãos e equalização da umidade e temperatura da massa, inibindo o surgimento e crescimento das tradicionais pragas na armazenagem além de produzir ganhos com a redução de horas de ventilação (MALLET, 2012). A temperatura dos grãos armazenados é um bom índice do seu estado de conservação. Toda variação brusca de temperatura deve ser encarada com bas- tante cautela, pesquisando-se o mais rápido possível sua causa e procurando saná-la por meio da aeração ou transilagem. A operação de aeração consiste na injeção forçada de ar na massa de grãos, homogeneizando a temperatura des- tes, enquanto impede a migração da umidade e a formação de bolsas de calor. Já a transilagem é a movimentaçãoda massa de grãos de um silo para outro, por meio de esteiras rolantes. Ambos os processos são imprescindíveis em unida- des armazenadoras, na medida em que, qualquer aumento na temperatura, que pode ocorrer por diversos fatores, e se não solucionado a tempo pode compro- meter irremediavelmente a qualidade do produto, e o controle básico ocorre acionando estes procedimentos (D’ ARCE, [2016], on-line)4. O aumento da temperatura na massa de grãos é um dos principais fatores causadores da deterioração da qualidade do produto, e pode ser ocasionado por inúmeros fatores que levam ao aumento da respiração dos grãos e consequente aumento da temperatura (D’ ARCE, [2016], on-line)4. O controle da tempe- ratura da massa de grãos é fundamental para a manutenção da qualidade dos produtos armazenados, em função disso, o sistema de termometria, tem que fun- cionar corretamente e receber manutenções constantes. A falta de manutenção desse sistema causa a elevação da temperatura e, consequente, queima do pro- duto armazenado, formação de vapor (Figura 1) e aumento do risco a saúde do trabalhador referente a altas temperaturas. AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E100 (A) (B) (C) Figura 1 - Calor excessivo dentro do silo. Queima do produto armazenado (a e b) e formação de vapor (c) Fonte: o autor. A armazenagem de grãos a granel pode ser realizada em estruturas como gra- neleiros ou em silos construídos de diversos materiais como chapas metálicas, alvenaria, madeira ou concreto. ■ Armazéns Convencionais: constitui-se em uma unidade armazenadora de fundo plano e compartimento único, adequado à estocagem de produ- tos, normalmente em sacos, fardos, caixas, pallets e bags. A estocagem se processa embocada em lotes individualizados que reúnem espécies agríco- las com as mesmas características. Oferecem condições para conservação do produto por período relativamente grande, desde que observados os requisitos operacionais indispensáveis. Também permitem uma fácil identificação e separação de lote, uma grande flexibilidade para arma- zenar produtos diferentes com características diferentes e possuem uma maior tolerância à umidade contida nos grãos. Entretanto, suas opera- ções são manuais (utilizando mais mão de obra), necessitam de sacas (ou bags), há um menor aproveitamento do espaço, em razão da necessidade de áreas para ruas e uma baixa velocidade nas operações de carga, des- carga, expurgo, entre outras (CASEMG, [2016], on-line)5. ■ Graneleiros: são edificações que surgiram no Brasil na década de 70 quando alguns armazéns convencionais tiveram as paredes laterais reforça- das para acondicionar grãos a granel. Os armazéns graneleiros caracterizam por possuir grandes comprimentos e largura variando de 15,0 a 30,0 m. Desse modo, a dimensão horizontal prevalece sobre a vertical. O fundo dos graneleiros pode ser plano ou em talude (“V”, “W” ou semi “V”), como mostra a Figura 2. A movimentação é automatizada ou semiau- tomatizada. Dada a simplicidade construtiva do graneleiro, via de regra, apresenta o custo da tonelada instalada bem inferior ao dos silos (SILVA, 2015, on-line)6. Estruturas de Armazenamento de Grãos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 101 (a) (b) (c) (d) Figura 2 - Armazém graneleiro: (a) com fundo plano, (b) semiplano, (c) em “V” e (d) em “W” Fonte: Gomes e Calil Júnior (2005). ■ Silos: são células ou compartimentos estanques e herméticos, ou semi- -herméticos que oferecem condições técnicas de conservação do produto estocado por período de tempo normalmente prolongado. Permitem con- trolar as características físico-químicas e biológicas da massa de grãos que, embora perdendo sua identidade de origem, conservam a diferenciação classificatória da espécie e padrão agrícola, em virtude da comparti- mentação disponível. São dotados, funcionalmente, de equipamentos automatizados e semiautomatizados que permitem a simultaneidade de operações, inclusive a transilagem em circuito aberto ou fechado, além de baixa utilização de mão de obra. Apresentam como vantagens a necessi- dade de um menor tempo de manipulação do produto, dispensar sacarias, possui elevado índice de mecanização e automação (economia de mão de obra) e a grande velocidade de operações, como descarga, carga, expurgo entre outras. Em relação às desvantagens dessa estrutura de armazena- mento, pode-se citar a necessidade de um investimento inicial alto, a maior sensibilidade à umidade dos grãos, a dificuldade de individualização dos lotes, a baixa flexibilidade de armazenamento, limitado praticamente a grãos e “pellets” e a dificuldade de operações com produtos farináceos (SILVA, 2015, on-line)6. Podem ser construídos de diversos materiais, como alvenaria, placas metálicas, madeira, entre outros. Nesse caso, os silos metálicos merecem destaque. AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E102 SILOS METÁLICOS Segundo Carneiro (1948), os silos em geral, incluindo os metálicos, são cons- truções destinadas ao armazenamento e conservação de grãos secos, sementes, cereais e forragens verdes. A expansão do uso de silos metálicos no Brasil acelerou durante os anos 90, quando os fabricantes nacionais equiparam e passaram a ter disponível no mercado siderúrgico chapas metálicas para essa finalidade. Atualmente, o mercado brasileiro conta com diversos fornecedores e a capacidade estática dos silos varia de 18 a 35.000 toneladas. Quanto à montagem do conjunto de silos metálicos, também denomi- nado bateria de silos, pode se dar em leiautes com disposição circular ou o linear. Os silos de média e pequena capacidade, em geral, são metálicos, de cha- pas lisas ou corrugadas, de ferro galvanizado ou alumínio, fabricados em série e montados sobre um piso de concreto. Os silos de ferro galvanizados são pinta- dos de branco para evitar a intensa radiação solar. Os silos metálicos podem ser classificados em de fundo plano, fundo cônico, ou elevado. Segundo Andrade Júnior e Calil Júnior (2007), os silos metálicos cilíndri- cos de chapas corrugadas e coberturas cônicas são as unidades mais utilizadas no Brasil para armazenamento de produtos granulares. Isto se deve, principal- mente, pelo fato de serem eficientes, de fácil montagem, seja em cooperativas ou agroindústrias, e também por apresentarem baixo custo por tonelada arma- zenada. Alguns exemplos de silos metálicos são mostrados na Figura 3. Figura 3 - Exemplo de silos metálicos de fundo plano Fonte: Shutterstock ([2016]). Estruturas de Armazenamento de Grãos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 103 Esse tipo de silo contém um arranjo estru- tural constituído por muitos elementos, como chapas, montantes e anéis de reforço, todos eles ligados por parafusos. As chapas costumam ser de perfil ondulado para as paredes e perfil trapezoidal para a cober- tura do silo. Os montantes (colunas do silo), mostrados em detalhe na Figura 4, podem ser montados no interior ou no exterior do silo. Alguns modelos possuem montan- tes sobrepostos, resultando em resistência superior (SÉRVULO, 2012). Conforme explicitado, os anéis de reforço apresentam-se como consti- tuinte de ampliação da resistência dos silos, estando dispostos em numera- ção adequada de acordo com projetos que são desenvolvidos por Engenheiros Agrônomosou Engenheiros Agrícolas. Os anéis de reforço em silo são mostra- dos em detalhe na Figura 5. Os anéis de reforço, mostrados na Figura 5, são elementos usados para enrije- cer o silo quando o mesmo está sujeito a pressões de vento que não podem ser absorvidas somente pelo conjunto chapa lateral e montante. Todo esse conjunto encontra-se diretamente apoiado sobre uma base, com o costado fixo por para- fusos a um anel rígido de concreto que é independente da base. A cobertura é composta por telhas que podem ser autoportantes, ou podem estar apoiadas na estrutura do telhado (SÉRVULO, 2012). Os silos podem ser classificados em função da relação de suas dimensões altura/diâmetro (H/D): quando H/D é menor ou igual a 0,5 o silo é classifi- cado como curto; quando o valor de H/D está entre 0,5 e 1,5 como silo médio; e quando H/D é maior que 1,5 como silo longo (SÉRVULO, 2012). Figura 4 - Parede de um silo metálico, em detalhe: montante Fonte: Kepler Weber (2016, on-line)7. Figura 5 - Anéis de reforço circundando o silo Fonte: Kepler Weber (2016, on-line)7. AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E104 RISCOS FÍSICOS IDENTIFICADOS EM SILOS Dentre os agentes físicos citados, ruídos, vibrações e temperaturas extremas são mais comumente identificados em silos, já que as máquinas envolvidas no processo de carregamento e descarregamento, aeração e/ou transilagem dissipam intenso ruído e vibração, enquanto que as fornalhas dissipam calor excessivo (riscos físicos). É importante destacar que o excesso de ruído pode causar inúmeros danos à saúde humana. A consequência física facilmente detectada é a perda auditiva, denominada Perda Auditiva Induzida pelo Ruído (PAIR). A PAIR é uma lesão irreversível, consequência de exposições contínuas ao ruído, no período de anos, e afeta significativamente a compreensão da fala. O ruído em excesso também pode como agente causador de nervosismo, irritação e insônia que podem acar- retar dificuldades de comunicação e socialização (BREVIGLIERO et al., 2011). Por último, a exposição a altas temperaturas oferece riscos já que quando o corpo não consegue eliminar o excesso de calor, este fica “armazenado”. Nessas circunstâncias a temperatura do corpo aumenta. Na medida em que o corpo retém o calor, a pessoa começa a perder a sua capacidade de concentração e, como consequência, torna-se vulnerável ao acidente. Irrita-se com facilidade e, frequentemente, perde o desejo de ingerir líquidos. Geralmente, seguem-se os desmaios e posteriormente a morte se a pessoa não for retirada a tempo das pro- ximidades da fonte de calor (BREVIGLIERO et al., 2011). RISCOS QUÍMICOS IDENTIFICADOS EM SILOS No contexto das Normas Regulamentadoras (NR´s), os riscos químicos são descritos e tratados, mais profundamente, na NR 15 – Atividades e Operações Insalubres. Conforme atual versão desta é considerada atividade insalubre aquela onde o limite de tolerância dos agentes encontra-se acima dos mencionados por seu Anexo 11 (agentes químicos cuja insalubridade é caracterizada por limite de tolerância e inspeção no local de trabalho), Anexo 12 (limites de tolerância para poeiras minerais), quando se trabalha com poeiras minerais, ou ainda pelas ati- vidades relacionadas no Anexo 13 (agentes químicos). Estruturas de Armazenamento de Grãos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 105 De acordo com a NR 9 (MTPS, 2016, on-line)1, consideram-se agentes quí- micos as substâncias, compostos ou produtos que possam penetrar no organismo pelas vias respiratórias, nas formas de poeiras, fumos névoas, neblinas, gases ou vapores, ou que, na natureza da atividade em exposição, possam ter contato ou ser absorvidas pelo organismo por meio da pele ou ingestão. Todas as operações de transporte e deslocamento de grãos implicam na pro- dução de grandes quantidades de poeiras. Porém, em silos ou graneleiros, que geralmente são locais de grandes dimensões e onde se encontram grandes quan- tidades de grãos armazenados para abastecer o fluxo operacional, observa-se uma situação muito perigosa na carga e na descarga desses locais. Ali, há uma grande geração de poeiras e elas ficam depositadas em locais de difícil acesso, e permanecem por longos períodos. Isso, em situações propicias, pode provo- car incêndios e explosões até que não haja mais poeiras e, em seguida, devido às condições do local, a carga de grãos entra em combustão até ser extinta ou até terminar o combustível. Um estudo realizado por Yoshida e Maybank (1980) comprova que nessas atividades 75% das poeiras caem pela ação da gravidade, entretanto, mais de 25% permanecem suspensas (Figura 6). As poeiras de grãos podem causar sérios problemas de saúde para as pes- soas expostas. Se inalado, o pó pode causar problemas pulmonares como tosse, falta de ar, chiado, asma, bronquite crônica e alergias. Problemas gastrointesti- nais também podem ocorrer, juntamente com as erupções cutâneas, irritação nasal, febre, entre outros (ARMAZENAGEM FÁCIL, [2016], on-line)8. Além de prejudica- rem as vias respiratórias, as poeiras, após atingirem uma concentração elevada (de 40 a 4000 g/m3) em áreas pouco ventiladas dos silos, também podem provocar explosões, principalmente pela pre- sença de eletricidade estática (ARMAZENAGEM FÁCIL, [2016], on-line)8. Figura 6 - Poeira em Silo Fonte: o autor. AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E106 Na operação de expurgo, os trabalhadores utilizam o fumigamento de pesticidas, considerados agentes quími- cos (Figura 7). Essa operação visa a eliminação dos insetos que se encontram nos pro- dutos armazenados em suas diversas fases de desenvolvi- mento, procurando atingir a eficiência de 100% de con- trole. São empregados fumegantes, pastilhas de fosfeto de alumínio, que em contato com a umidade do ar liberam a fosfina (gás). O produto reage com a umidade atmosférica para produzir Fosfeto de Hidrogênio ou Fosfina (PH3), da seguinte maneira: AIP + 3H2O AI(OH3) + PH3 (ARMAZENAGEM FÁCIL, [2016], on-line)8. RISCOS BIOLÓGICOS IDENTIFICADOS EM SILOS Em termos legais, agentes biológicos são definidos pela NR 9 em seu artigo nº 9.1.5.3 como “bactérias, fungos, bacilos, parasitas, protozoários, vírus, entre outros” (MTPS, 2016, on-line)1. Os acidentes que ocorrem motivados por este tipo de agente, ocorrem pelo contato com materiais contaminados, pessoas portadoras de doenças contagio- sas, vetores, vestimentas objetos contaminados, perfuro cortantes entre outros (BREVIGLIERO, 2011). Condições inadequadas de estocagem favorecem a proliferação de bactérias, fungos, ácaros e insetos nos grãos. Também é possível verificar a presença de animais mortos em decomposição, como pássaros e ratos. Para evitar o risco de contami- nação, é necessária a utilização de EPI’s, por exemplo, luvas, máscaras e botas. Figura 7 - Trabalhador realizando o expurgo de um silo. Fonte: o autor. Estruturas de Armazenamento de Grãos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 107 RISCOS ERGONÔMICOS IDENTIFICADOS EM SILOS Os riscos ergonômicos são relacionados como condições de trabalho, segundo artigo 17.1.1 da NR 17 (MTPS, 2016, on-line)1 e incluem “[...] ao levantamento, transporte e descarga de materiais, ao mobiliário, aos equipamentos e às con- dições ambientais doposto de trabalho e à própria organização do trabalho”. Os trabalhadores precisam realizar diversas atividades dentro de silos, como manutenção, limpeza e o expurgo. Entretanto o acesso ao interior dos silos não é fácil. A Figura 8 mostra as portas de acesso de um silo. Os problemas ergonô- micos em silos normalmente estão associados às reduzi- das dimensões do acesso ao espaço confinado (Figura 8), que exigem contorções do corpo, o uso das mãos e dificultam o resgate em caso de acidente. Como resultado observa-se grande esforço físico com agressões à coluna vertebral. Pela análise e observação da Figura 9 percebe-se clara- mente o desconforto físico sofrido pelo trabalhador ao entrar e sair do silo, princi- palmente nas costas, já que ele tem que se entortar todo para conseguir sair. Figura 8 – Portas de acesso ao silo Fonte: o autor. Figura 9 –Trabalhador saindo de um silo Fonte: o autor. AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E108 RISCOS DE EXPLOSÕES IDENTIFICADOS EM SILOS Conforme já explanado, poeiras podem ocasionar explosões de silos. Entretanto, devido à grande importância desse tema, ele será discutido com mais afinco nesse momento. Os silos são espaços confinados nos quais se verifica um alto potencial para explosões. Para explicar essa situação é preciso entender que partículas de poei- ras decantadas e em combustão (fogo sem chama), ou com um foco de calor presente, em um espaço confinado, são evolucionadas por qualquer ocorrência, como um movimento brusco no ambiente que provoque agitação na zona e que seja suficiente para colocá-las em suspensão e contato íntimo. Por já haver, no ambiente, os três elementos necessários para a explosão, esta ocorrerá inicialmente como uma microexplosão, de pequena proporção, mas suficiente para provocar agitação nas cercanias, onde mais material depositado é colocado em suspensão. Então, ocorrerão explosões sucessivas e que percorrerão os elementos de transferência e movimentação da carga, efetuando explosões cada vez mais rigorosas, com um crescimento passível de provocar a destruição das constru- ções por meio dos elementos de interligação das instalações como transportadores de esteiras, redlers, roscas transportadoras e tubulações de ventilação (SÁ, 2011). Para se ter uma ideia de como esse fenômeno é comum em silos a Figura 10 mostra as principais causas de sinistros envolvendo poeiras em silos, sendo que pós de grãos alimentícios são responsáveis por quase 1/4 (24%) do total de sinistros (SÁ, 2011). Pós de grãos alimentícios 24% Pó de madeira 34% Outros 6% Poeiras metálicas 10% Pó de papel 2% Poeiras sintéticas 14% Pó de carvão mineral 10% Figura 10 – Poeiras envolvidas em explosões (silos) Fonte: Sá (2011). Estruturas de Armazenamento de Grãos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 109 Assim, destaca-se que uma explosão causada por poeira de grão pode gerar preju- ízos irreversíveis tanto ao patrimônio físico, com paradas no processo produtivo e destruição completa do silo quanto a perdas de vidas, já que muitas pessoas são mortas ou ficam permanentemente incapacitadas para o trabalho. RISCOS DE ACIDENTES IDENTIFICADOS EM SILOS Os riscos de acidentes em silos geralmente se devem pela movimentação dos grãos. Isso pode se dar pelo acionamento de dispositivos mecânicos, por exemplo, durante a carga/descarga dos silos, ou pela instabilidade de uma pilha de grãos entre outros. Normalmente, a consequência é a asfixia mecânica. Isto pode ocorrer por um bloqueio das vias respiratórias, ou também por uma compressão torá- cica, sobre a parede muscular do diafragma, não deixando o colaborador respirar. Quando a ventilação for deficitária ou os grãos entrarem no silo com um grau alto de umidade, este tem a tendência de colar nas paredes dos silos, como mostra a Figura 11, trazendo sérios riscos aos colaboradores. Figura 11 – Milho impregnado na parede do silo Fonte: o autor. Os grãos acumulados vão empedrar e formar blocos ou montes nas paredes do silo. Quando o trabalhador tentar soltá-la, utilizando para isso pás e enxadas, de forma a “ajeitar” o armazenamento, o bloco pode se desestabilizar, de modo a cair sobre o trabalhador, que será soterrado instantaneamente (Figura 12). AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E110 Parede de grãos Ponte de grãos Linha de vida Soterramento em segundos Soterramento Oca Figura 12 – Soterramento por parede de grãos Fonte: Zona de Risco (2011, on-line)9. Quando grãos com uma umidade muito alta são colocados dentro do silo ou quando vão acompanhados com muitas impurezas, e a ventilação está deficitária, a tendência é a formação de um bolsão de ar, em algum ponto do silo (Figura 13). Parede de grãos Ponte de grãos Linha de vida Soterramento em segundos Soterramento Oca Figura 13 – Soterramento e engolfamento em silos Fonte: Zona de Risco (2011, on-line)9. Quando o colaborador estiver andando sobre uma ponte de grãos formada sobre um desses bolsões, ocorre um deslocamento, e a pessoa é capturada pelos sóli- dos. Esse processo é conhecido como engolfamento. Estruturas de Armazenamento de Grãos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 111 Engolfamentos, também podem ocorrer durante a descarga de silos (Figura 14). No caso de um fluxo de 100 ton/h, uma pessoa de 1,70 m pode ser dragada pela massa de grãos em 13 s, isso a uma velocidade de 13 cm/s. É importante ressaltar que em sistemas com descarga por gravidade os fluxos são bem supe- riores. Portanto, caso seja necessário a entrada no silo carregado é recomendado o desligamento e bloqueio mecânico dos equipamentos de transporte de grãos, a utilização de um cartão de bloqueio e o lacramento de registros. É também importante que sejam colocados avisos de pessoas trabalhando. Situação perigosa criada pelo descarregamento parcial do silo Descarregamento inicia e a ponte de grãos cede e o trabalhador �ca preso Antes do �uxo de grãos parar, o trabalhador é co- berto. Em alguns segun- dos ocorre o soterramento Figura 14 – Soterramento por acionamento de máquinas Fonte: Fazer Segurança T&C (2016, on-line)10. Sempre que está sendo retirados grãos do silo, preste atenção na quantidade que foi retirada, e depois verifique se houve coerência no que abaixou lá dentro. Caso desconfie da altura que se encontra os grãos, não entre, pois com certeza formou um bolsão, como mostra a Figura 15. Os maquinistas que operam esses equipamentos têm muita experiência em ver o nível e saber se está correto o des- locamento ou rebaixamento dos grãos. Potencial de risco criado pela ponte. Como o volume vazio sob a ponte de grãos aumenta, o potencial para o colapso de grãos também aumenta. Antes da movimentação condição que pode existir e formar uma ponte de grãos Grão compactado O vazio permanece após parada movimentação Ponte de grãos ar Espaço de ar é criado durante a movimentação Ponte ar Figura 15 – Movimentação de grãos dentro do silo e formação de bolsas de ar Fonte: Fazer Segurança T&C (2016, on-line)10. Figura 16 – Soterramento durante o carregamento do silo Fonte: Fazer Segurança T&C (2016, on-line)10. AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reproduçãoproibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E112 Outra forma de sufocamento/soterra- mento ocorre com o carregamento de silos, como mostra a Figura 16. Nesses casos, equipamentos de transporte de grãos são acionados inadvertida- mente quando operários ainda estão dentro das estruturas de armazena- gem, podendo ser encobertos em um período menor que 10 minutos, tempo muito pequeno quando o trabalhador perca a noção de direção dentro do silo (SILVA, 2015, on-line)6. É importante destacar que quando o trabalhador entra em um silo ele está fixo em uma corda, que possui um trava queda, para auxilia-lo no caso de um desmoronamento de grãos. Ele também se encontra acompanhado por um vigia (Figura 17). O trabalhador no silo é monitorado por outro que está no teto A primeira regra de resgate é evitar a segunda vítima, duplicando os esforços para o resgate. Tenha precaução, pois você pode não ter a segunda chance. O trabalhador no teto pode receber ajuda de outro trabalhador que está no solo Em caso de resgate o tra- balhador no solo ajuda Figura 17 – Regras de resgate em silos verticais Fonte: Fazer Segurança T&C (2016, on-line)10. Mas quando isso ocorre, o trabalhador muitas vezes está atravessando por cima dos grãos, em uma distância de 22 m da porta de entrada até o outro lado do silo, sendo ele arremessado no fundo do silo e, consequentemente, os grãos viram a soterrá-lo não dando nenhuma chance de salvamento, por causa do compri- mento do cabo, onde o trava queda esta fixado. Por esse motivo os casos de acidentes com soterramento e engolfamento em silos ainda são muito comuns. Legislação Brasileira e a Prevenção de Acidentes em Silos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 113 LEGISLAÇÃO BRASILEIRA E A PREVENÇÃO DE ACIDENTES EM SILOS O MTPS estabelece as Normas Regulamentadoras (NRs) que apresentam as regras para adaptação das condições de trabalho com conforto e segurança. Ainda, no Brasil, há no mínimo duas definições legais para os espaços confinados: a da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e a do Ministério do Trabalho. Na Norma Brasileira NBR 14.787 (2001), Trabalho em Espaços Confinados, define-se espaço confinado como qualquer área não projetada para a ocupação contínua, a qual tem meios limitados de entradas e saídas e na qual a ventilação existente é insuficiente para remover contaminantes perigosos e/ou deficiência/ enriquecimento de oxigênio que possam existir ou se desenvolver. Para a Norma Regulamentadora e de acordo com a Portaria nº 202 do Ministério do Trabalho (BRASIL, 2006)12, espaço confinado é qualquer área ou ambiente não projetado para ocupação humana que possua meios limitados de entrada e saída, cuja ventilação existente é insuficiente para remover contami- nantes ou onde possa existir a deficiência ou enriquecimento de oxigênio. O Instituto Nacional para Segurança e Saúde Ocupacional (NIOSH) define espaço confinado como um espaço que apresenta passagens limitadas de entrada e saída, ventilação natural deficiente que contém ou produz perigosos contaminan- tes do ar e que não é destinada para a ocupação humana contínua (GONÇALVES; GOMES, 2015, on-line)13. A NIOSH também reconhece poder existir graus de riscos diferentes, classificando, assim, os espaços confinados em três classes: ■ Espaços Classe A: são aqueles que apresentam situações que são imedia- tamente perigosas para a vida ou a saúde. Incluem os espaços que têm deficiência em oxigênio ou contêm explosivos, inflamáveis ou atmosfe- ras tóxicas. ■ Espaços Classe B: não apresentam ameaças ou perigos para a vida ou a saúde, mas têm o potencial para causar lesões ou doenças se medidas de proteção não forem usadas. ■ Espaços Classe C: são aqueles onde quaisquer riscos apresentado são insig- nificantes, não requerendo procedimento ou práticas especiais de trabalho. AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E114 Os profissionais de segurança e as linhas de supervisão devem ter conhecimento para reconhecer, avaliar e controlar os riscos inerentes aos trabalhos em espaços confinados. São exemplos de espaços confinados: tanques, vasos, reatores, torres, dutos, galerias, caixas de inspeção, poços, silos, veículos tanques, entre outros. Diariamente, milhares de pessoas desenvolvem suas atividades em espaços confinados, porém esses recintos apresentam múltiplos riscos, que em muitos casos são ignorados ocasionando assim os acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Os riscos que podemos relacionar ao espaço confinado são níveis incor- retos de oxigênio, presença de gases e vapores tóxicos e inflamáveis, exposição aos agentes, explosão e incêndio, choques elétricos e engolfamentos. PROCEDIMENTOS DE SEGURANÇA PARA ENTRADA EM SILOS Vários organismos internacionais elaboram guias e/ou manuais regulamentando o trabalho em ambientes confinados e estabelecendo critérios para a elaboração de um programa de permissão de entrada. Esses manuais contêm informações sobre perigos, medidas preventivas e procedimentos de emergência para o caso de ocorrência de acidentes, entre outras informações pertinentes. Basicamente, um programa de permissão de entrada em espaços confinados tem a função de documentar a conformidade das suas condições e autorizar a entrada dos trabalhadores no seu interior. De acordo com Araújo (2006), todo espaço confinado deve ser considerado perigoso, e por essa razão, deve requerer uma permissão de entrada escrita e assinada por um supervisor —Permissão de Entrada e Trabalho (PET) — que contenha a lista de todos os procedimentos de segurança e informando aos trabalhadores antes de sua entrada. Procedimentos de Segurança Para Entrada em Silos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 115 A NBR 14.787 (2001) prevê os requisitos para a elaboração de uma PET em Espaço Confinado. Alguns itens como: manter permanente um procedimento de permissão de entrada e arquivando; prevenir entradas não autorizadas, trei- namentos periódicos, registros dos deveres dos supervisores de entrada, dos vigias e dos trabalhadores autorizados com os respectivos nomes e assinaturas e a implantação de um serviço de emergência e resgate mantendo os mesmos sempre à disposição, treinados e com equipamentos em perfeitas condições de uso são fundamentais para a entrada e permanência segura em silos. Entretanto ainda não é suficiente. É importante ressaltar que as funções do vigia são (MTPS, 2016, on-line)1: a. Manter continuamente a contagem precisa do número de trabalhadores autorizados no espaço confinado e assegurar que todos saiam ao término da atividade. b. Permanecer fora do espaço confinado, junto à entrada, em contato per- manente com os trabalhadores autorizados. c. Adotar os procedimentos de emergência, acionando a equipe de salva- mento, pública ou privada, quando necessário. d. Operar os movimentadores de pessoas. e. Ordenar o abandono do espaço confinado sempre que reconhecer algum sinal de alarme, perigo, sintoma, queixa, condição proibida, acidente, situ- ação não prevista ou quando não puder desempenhar efetivamente suas tarefas, nem ser substituído por outro Vigia. f. O vigia não poderá realizar outras tarefas que possam comprometer o dever principal que é o de monitorar e proteger os trabalhadores autorizados. Entretanto mesmo que o vigia desempenhe todasas suas funções corretamente, durante um soterramento ou engolfamento, ainda que o trabalhador esteja ligado a uma corda salva-vidas sobre controle do vigia, o tempo de resposta a esses even- tos geralmente não é rápido suficiente par evitar perdas humanas. AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E116 TRABALHO EM ALTURAS EM SILOS De acordo com a Norma Regulamentadora 35 (MTPS, 2016, on-line)1, Segurança e Saúde no Trabalho em Altura, redigida pela Portaria nº 313, de 2012, consi- dera-se trabalho em altura toda atividade executada acima de 2,00 m do nível inferior, onde haja risco de queda. São exemplos de trabalho em altura nos silos, o trabalho em telhado (troca ou reparo de telhas, entre outros), troca de lâmpadas, pintura de estruturas, acesso ao topo de silos, entre outros. Nos silos, assim como qualquer trabalho em altura, são necessários como Equipamentos de Proteção Coletiva/Individual: Linha de Vida, Trava-quedas, Talabarte e Cinto de Segurança, além de outros EPI´s convencionais, como luvas, botas, capacete, óculos de proteção, no que couber à prática laboral. Uma linha de vida consiste em pontos de conexão para talabartes, capazes de suportar uma força de impacto de 2.268kgf. Pode ser de dois tipos (IMAP, 2009): 1. Linha de Vida Horizontal (ou cabo guia) - cabo de aço (3/8”) tendo suas extremidades ancoradas à estrutura da edificação por meio de material de aço inoxidável ou outro material de resistência equivalente. Utilizado para os trabalhos onde o executante necessite se deslocar horizontalmente com segurança sobre pisos elevados (exemplo: telhados). Deve ser ins- talado de modo a não permitir deflexões e estar posicionado à altura da cintura do executante ou acima. 2. Linha de Vida Vertical – cabo vertical (aço ou nylon - ≥ 3/8”), tendo umas de suas extremidades conectadas a um ponto de ancoragem ou tra- va-quedas retrátil, e a outra extremidade, conectada ao talabarte, argola “D” do cinto de segurança ou trava-quedas deslizante. Utilizado para os trabalhos onde o executante necessite se deslocar verticalmente (subida ou descida) com segurança até uma superfície de trabalho (exemplo: des- cida no interior de tanques). Talabartes (dispositivo de conexão de um sistema de segurança, regulável ou não, para sustentar, posicionar e/ou limitar a movimentação do trabalhador) e trava-quedas (dispositivo de segurança para proteção do usuário contra quedas em operações com movimento vertical ou horizontal, quando conectado com Trabalho em Alturas em Silos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 117 cinturão de segurança para proteção contra quedas) são itens obrigatórios para a realização desse tipo de trabalho, em conjunto com outros EPI’s, como capace- tes, luvas, entre outros. Entretanto, eles ainda não foram aplicados integrando-os a uma linha de vida fixa dentro do silo. Algumas normativas da ABNT determinam a elaboração de procedimentos para trabalhos em altura, por exemplo, a NBR 14.626 - Equipamento de proteção indivi- dual contra queda de altura – Trava Queda deslizante guiado em Linha Flexível; a NBR 14.627 - Equipamento de proteção individual contra queda de altura – Trava Queda guiado Brígida em Linha; a NBR 14.628 - Equipamento de proteção indivi- dual contra queda de altura – Trava Queda retrátil; a NBR 15.834 - Equipamento de proteção individual contra queda de altura - Talabarte de Segurança, entre outras. Quantos conhecimentos? Você imaginava que a área de Segurança do Trabalho Agrícola fosse tão vasta? E olha que nós discutimos apenas sobre silos, arma- zéns e secadores, considerando esses ambientes confinados na alçada da Norma Regulamentadora nº. 33. Existem muitas outras discussões que ainda devemos fazer no âmbito de nosso tema principal, a exemplo das NR´s 36 e 31. Porém, vamos discuti-las mais adiante, em nossas próximas unidades. Você sabia que a Norma Regulamentadora nº. 33 exige que os trabalhado- res que possuem os postos de vigia (supervisores de entrada) e entrantes (trabalhadores autorizados que adentram aos espaços confinados) façam cursos obrigatórios de capacitação, com validade de um ano, devendo ser renovados? Tais cursos possuem carga horária mínima respectiva de 40 e 16 horas. Para as renovações (reciclagens) admite-se que as cargas horárias mínimas sejam de 12 e 8 horas, respectivamente. Saiba mais detalhes em: <http://www.mtps.gov.br/images/Documentos/ SST/NR/NR33.pdf>. Fonte: o autor. AS ATIVIDADES AGRÍCOLAS E OS RISCOS OCUPACIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E118 CONSIDERAÇÕES FINAIS Quantos riscos? Conhecer sobre os riscos ligados às atividades agrícolas, de forma mais genérica e ainda, sobre os riscos ligados às atividades em espaços confina- dos nos causa uma sensação de que se tratam de trabalhos os quais devem ser executados com muita cautela e supervisão. Caso contrário, as vidas de nossos trabalhadores rurais encontram-se em risco. Sobre esse assunto, pudemos analisar o contexto e a importância da Norma Regulamentadora nº. 33 enquanto mecanismo legal a ser cumprido pelos empre- gadores e empregados rurais. Verificamos que os espaços confinados rurais se compõem basicamente por silos, secadores e armazéns, estruturas as quais lidam com os cereais produzidos em campo. Engolfamentos, soterramentos e explosões perfazem o conjunto dos maiores riscos associados às atividades nessas estruturas. Os níveis de acidentes, con- forme vimos, podem ser alarmantes. Há também que se considerar o fato de muitos desses trabalhos ocorrerem em alturas elevadas, o que exige o conheci- mento e a aplicação não somente do disposto na NR-33, mas também da NR-35. Neste contexto, cintos de segurança, linhas de vida, trava-quedas e talabar- tes bem utilizados podem conferir ao trabalhador rural a segurança necessária para a execução de trabalhos internos aos silos e armazéns. Da mesma maneira, supervisores de entrada e trabalhadores internos, bem treinados e em sincronia com os demais atores ligados à Segurança do Trabalho, são decisivos na conten- ção de emergências relacionadas a esse trabalho. Em nossas próximas unidades, continuaremos a discutir sobre as diferentes matizes ligadas à Segurança do Trabalho Agrícola. Esperamos que você esteja gostando dos conteúdos e das atividades desta obra. 119 1. A Norma Regulamentadora nº. 33 (Trabalhos em Espaços Confinados) preza pela administração e gestão dos riscos ocupacionais, de maneira a permitir os traba- lhos internamente aos silos e armazéns somente por meio de um documento es- pecífico. Assinale a alternativa que apresenta o nome correto deste documento: a. Permissão de Entrada e Trabalho b. Programa de Controle de Riscos c. Prescrição de Trabalhos d. Assinatura de Responsabilidade Técnica e. Análise Preliminar de Riscos 2. Trata-se de um trabalhador responsável pelo acompanhamento dos trabalhos internos aos silos. Esse é responsável por acionar as primeiras medidas de con- tenção de emergências em casos onde se verifica o engolfamento ou soterra- mento do trabalhador que se encontra internamente ao silo. Assinale a alternati- va que apresenta a função do trabalhador em questão: a. Janelista b. Supervisor de Entrada c. Vigilante d. Observador e. Gestor 3. O risco de explosão é um dos mais presentes em espaços confinados. Para que uma explosão ocorra, geralmente o material particulado em suspensão precisa estar altamente concentrado em um ambiente com baixa deficiência de oxigê- nio. Considerandoesse tema, assinale a alternativa que apresenta um Equipa- mento de Proteção Coletiva capaz de mitigar este risco de explosão: a. Exaustores b. Máscaras c. Lâmpadas de emergência d. Insufladores de Oxigênio e. Ventiladores 120 4. Os trabalhadores rurais estão expostos à radiação solar intensa e para bloqueá-la se sugere o uso de protetores solares e roupas especiais que cubram possíveis partes expostas, como pescoço e braços. Considerando que os raios solares são considerados como radiações, em qual categoria de riscos podemos classificá- -los? Assinale a alternativa correta: a. Químicos b. Físicos c. Ergonômicos d. De Acidentes e. Biológicos 5. Considerando que a maioria dos trabalhos realizados em silos e armazéns ocorre em posições elevadas ao nível do solo, devemos também nos utilizar da NR-35 (Trabalhos em altura) para realizar um trabalho seguro. Segundo essa norma, o uso de equipamentos de proteção individual, como cintos de segurança e trava- -quedas deve ser obrigatória a partir de qual altura? Assinale a alternativa correta: a. 1,5 m b. 1,8 m c. 2,0 m d. 0,5 m e. 10,0 m 121 Riscos no trabalho em silos e armazéns Os silos e os armazéns são construções indispensáveis ao armazenamento da produ- ção agrícola e influem decisivamente na sua qualidade e preço. Entretanto, por sua di- mensão e complexidade, podem ser fonte de vários e graves acidentes do trabalho. Por serem os silos locais fechados, enclausurados, perigosos e traiçoeiros são conhecidos como espaços confinados e são objeto da NR33 - Espaços Confinados, da NBR 14.787 (2001) da ABNT e de alguns itens da NR 18 - Construção Civil do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). As explosões nestes ambientes ocorrem frequentemente em instalações agrícolas ou industriais onde são processados: a. farinhas = de trigo, milho, soja, cereais etc. b. particulados = açúcar, arroz, chá, cacau, couro, carvão, madeira, enxofre, magnésio, eletrometal (ligas) etc. O milho é considerado um dos grãos mais voláteis e perigosos, embora toda poeira de grãos possa ser tida como muito perigosa. Na Agricultura, existem ainda os chamados espaços confinados móveis: os tanques que são levados para o campo, onde são arma- zenados os agrotóxicos usados na lavoura; e os caminhões-tanque transportadores de combustível ou de água (carros-pipa). Exemplos de espaços confinados que podem ser encontrados nas diversas atividades ligadas à agroindústria são: tonéis (de vinho/aguardente, p.ex.), reatores, colunas de destilação, vasos, cubas, tinas, misturadores, secadores, moinhos, depósitos e outros. Riscos de explosões As indústrias que processam produtos alimentícios e as unidades armazenadoras de grãos apresentam alto potencial de risco de incêndios e explosões, pois o trabalho nes- sas unidades consiste basicamente em receber os produtos, armazenar, transportar e descarregar. O processo inicia com a chegada dos caminhões graneleiros e ao descarre- gar seu produto nas moegas, produzem uma enorme nuvem de poeira, em condições e concentrações propícias a uma explosão. O acúmulo de poeiras no local de trabalho depositada nos pisos, elevadores, túneis e transportadores, apresentam um risco de incêndio muito grande. Isso ocorre quando, uma superfície de poeira de grãos é aquecida até o ponto de liberação de gases de com- bustão que, com o auxílio de uma fonte de ignição com energia, dá início ao incêndio. Além disso, a decomposição de grãos pode gerar vapores inflamáveis; se a umidade do grão for superior a 20%, poderá gerar metanol, propanol ou butanol. Os gases metano e etano, também produzidos pela decomposição de grãos, são igualmente inflamáveis e podem gerar explosões. 122 A poeira depositada ao longo do tempo, quando agitada ou colocada em suspensão e na presença de uma chama, poderá explodir, causando vibrações subsequentes pela onda de choque; isto fará com que mais pó depositado no ambiente entre em suspen- são e mais explosões aconteçam. Cada qual mais devastadora que a anterior, causando prejuízos irreversíveis ao patrimônio, paradas no processo produtivo e o pior, vidas hu- manas são ceifadas ou ficam permanentemente incapacitadas para o trabalho. Nos Estados Unidos, que estudam as explosões de poeira de grãos há mais tempo, reco- menda-se que a concentração máxima de poeira de grãos no ambiente de trabalho seja de 4 g/m3 de ar. A faixa mais perigosa para gerar uma explosão, varia entre 20 e 4.000 g/m3 de ar. Se uma lâmpada de bulbo (incandescente) de 25 watts pode ser vista a 2 m de distância num ambiente empoeirado, isso significa que a concentração de poeira é inferior a 40 g/m3 de ar, mas mesmo assim, dentro do limite da explosividade. Foi criado nos Estados Unidos um equipamento experimental para testar poeiras explosivas, com sensores diversos que permitem conhecer as características das poeiras explosivas. Há poucas regras básicas a observar para ver se uma determinada poeira apresenta risco de explosão: • A poeira deve ser combustível. • Ela deve ser capaz de permanecer em suspensão no ar. • Deve ter um arranjo e tamanho passível de propagar a chama. • A concentração da poeira deve estar dentro da faixa explosiva. • Uma fonte de ignição com energia suficiente deve estar presente. • A atmosfera deve conter oxigênio suficiente para suportar e sustentar a combustão. Se todas essas condições estiverem presentes, pode ocorrer a explosão da poeira. A me- lhor maneira de evitá-la é anular a maior parte dessas pré-condições. Recomenda-se, sempre que possível, a ventilação local exaustora, que é a solução ide- al. Ela tem como objetivo principal a proteção da saúde do trabalhador, uma vez que capta os poluentes da fonte, antes que os mesmos se dispersem no ar do ambiente de trabalho, ou seja, antes que atinjam a zona de respiração do trabalhador. [...] 123 O interior de um silo é um ambiente hostil. Há necessidade que a pessoa designada para executar qualquer tarefa em seu interior esteja devidamente treinada, orientada quanto aos riscos de acidentes e com boa saúde. Antes de entrar em um silo para executar qual- quer tarefa, recomenda-se que: 1. O operário nunca entre sozinho em um silo. 2. Use equipamento de descida (como o da foto menor ao lado). 3. Tenha permissão prévia do seu superior. 4. Verifique se há gases e poeiras perigosas. Sempre que houver necessidade, pode-se lançar mão de aparelhos de comunicação, como o da foto, seja para transmitir orientações por alguém que esteja do lado de fora do silo, como quando obstáculos físicos impeçam a sinalização visual entre parceiros. Nos casos em que foi constatado previamente (pelo detector de gases mostrado acima) que a atmosfera no interior do silo está pobre em oxigênio, pode-se utilizar o equipa- mento portátil ao lado, fabricado para esse fim. Em casos extremos, poderíamos utilizar um equipamento externo que fornecesse oxi- gênio, por meio da ventilação forçada, com a mangueira que aparece na imagem ao lado. Sérios acidentes também podem ocorrer no sistema transportador de grãos dos silos (a rosca sem-fim) que, por ser um elemento girante, é muito perigoso. Fonte: UFRRJ ([2016], adaptado pelo autor, on-line)11. MATERIAL COMPLEMENTAR NR-33 - Guia prático de análise e aplicações – Norma Regulamentadora de Segurança em Espaços Confi nados José Eduardo Rodrigues, Rosângela Helena Pereira dos Santos e Benjamim Ferreira de Barros Editora: Érica Sinopse: Trata-se de um material com excelente didática acerca da Norma Regulamentadora nº. 33 – Trabalhos em espaços confi nados. Com exemplos e comentários, a NR-33 é trabalhada de forma a permitir uma plena compreensão de seus dispositivos e práticas principais. É um bom material para trabalhadores e profi ssionais da área de Segurança e Higiene do Trabalho.São exemplos de temas abordados: Planejamento, Implementação, Avaliação e Gestão da Saúde e da Segurança do Trabalho; Medidas Administrativas como a Permissão de Entrada e Trabalho (PET); Treinamentos; Resgates de vítimas em espaços confi nados; Análises de riscos ambientais; Controle de emergências; Primeiros socorros; e, Controle de incêndios. REFERÊNCIAS ANDRADE JÚNIOR, L. J.; CALIL JÚNIOR, C. A ação do vento em silos cilíndricos de baixa relação altura/diâmetro. Cadernos de Engenharia de Estruturas, v. 9, p. 129- 155, 2007. ARAÚJO, A. N. Análise do trabalho em espaços confinados: o caso da manutenção de redes subterrâneas. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção). Univer- sidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 2006, 141f. BREVIGLIERO, E.; POSSEBON, J.; SPINELLI, R. Higiene Ocupacional: agentes biológi- cos, químicos e físicos. 06. ed. São Paulo: SENAC. 2011. CARNEIRO, O. Silos e sua construção. Anais da Escola Superior Agrícola Luiz de Queiroz, v.5. Piracicaba, 1948. GIOVINE, H.; CHRIST, D. Ciências Sociais Aplicadas em Revistas - UNIOESTE/MCR, v.10, p. 139-152, 2010. GOMES, F. C.; CALIL JÚNIOR, C. Estudo teórico e experimental das ações em silo ho- rizontais. Cadernos de engenharia de estruturas, São Carlos, v. 7, n. 24, p. 35-63, 2005. IMAP. Manual Básico: Segurança do Trabalho em Prevenção de Acidentes em Altu- ra. 01. ed. Curitiba: IMPRENSA OFICIAL. 2009. 86 p. MALLET, A. Armazenagem: Investimento estratégico. Revista A granja, ed. 766, 2012. MTPS. Anuário Estatístico de Acidentes de Trabalho. Brasília: MTPS, 2014. 990p. NBR 14.787 – Espaço Confinado: Prevenção de acidentes, procedimentos e medi- das de proteção. Rio de Janeiro, 2001. OLIVEIRA, C. R. T.; LINK, D. A educação ambiental como estratégia de prevenção à dengue nas comunidades rurais de Mata Grande e São Rafael, Município de São Sepé/RS. Revista Eletrônica em Gestão, Educação e Tecnologia Ambiental. 4(4): 618-629, 2011. PUZZI, D. ; ANDRADE, A.N. Abastecimento e armazenagem de grãos. Campinas: Instituto Campineiro de Ensino Agrícola, 2003. 666p. RADOLL, G. F. P. Segurança Agrícola Rural. 01. ed. Curitiba: e-TEC/MEC. 2012. 232p. SÁ, A. Prevenção e controle dos riscos com poeiras explosivas. Revista Proteção. São Paulo, 2011. SÉRVULO, A. C. O. Dimensionamento da fundação de um silo vertical metálico de fundo plano para armazenamento de milho a granel. Monografia. Universi- dade Estadual de Goiás –UnUCET, 2012. YOSHIDA, K.; MAYBANK, J. A. Physical and enviromental characteristics of grain dust. In: DOSMAN, J.A.; COTTON, D.J. (ed.). Occupational Pulmonary Disease; Focus on Grain Dust and Health. 01. ed. New York: ACADEMIC PRESS, 1980, 615p. 125 REFERÊNCIAS Referências on-line 1 Em: <http://trabalho.gov.br/seguranca-e-saude-no-trabalho/normatizacao/normas- -regulamentadoras>. 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Acesso em: 12 set. 2016. 11 Em: <http://www.ufrrj.br/institutos/it/de/acidentes/silo.htm>. Acesso em: 12 set. 2016. 12 Em: <http://www.trtsp.jus.br/geral/tribunal2/ORGAOS/MTE/Portaria/P202_06.html>. Acesso em: 27 set. 2016. 13 Em: <http://docplayer.com.br/10152907-Espacos-confinados-avaliacao-das-condi- coes-de-trabalho-em-caixas-de-corrida-de-elevadores-1.html>. Acesso em: 27 set. 2016. GABARITO 127 1. A 2. B 3. A 4. B 5. C U N ID A D E IV Professor Me.Tiago Ribeiro da Costa OS PRINCIPAIS ASPECTOS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 36 Objetivos de Aprendizagem ■ Estabelecer uma visão sistêmica sobre os principais processos industriais que ocorrem em uma indústria frigorífica. ■ Conhecer os principais pontos teóricos e práticos acerca da NR-36. ■ Compreender quais foram os principais desafios para a implantação desta Norma nas empresas do setor. ■ Visualizar os principais benefícios que a implantação da NR-36 trouxe aos trabalhadores. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ A indústria frigorífica ■ A segurança do trabalho na indústria frigorífica brasileira ■ Principais riscos ocupacionais na atividade laboral em frigoríficos ■ A NR-36 e sua aplicação nos frigoríficos ■ O surgimento da NR-36 ■ Principais mudanças e temas abordados na NR-36 ■ Principais desafios da indústria frigorífica no atendimento à NR-36 INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), em nossas últimas unidades, estabelecemos o entendimento acerca da evolução histórica das atividades agrícolas e compreendemos que as tecnologias estão intrinsecamente ligadas ao seu desenvolvimento. Ainda, dedicamos boa parte de nossas discussões à compreensão dos aspec- tos psicológicos e pessoais do trabalhador rural. Verificamos que o entendimento sobre este sujeito da ação nos permite elencar fatores que nos ajudam a explicar, em especial, sobre os comportamentos inseguros ligados à ocorrência de acidentes. Por fim, em nossa última unidade, investimos nas explicações acerca de uma área específica do trabalho agrícola: os espaços confinados. É certo dizer que não somente nas atividades agrícolas encontramos espaços confinados. Existem outros setores econômicos, em especial, o industrial, que depende de tais espa- ços. Porém, não devemos deixar de enaltecer que muitos trabalhos tipicamente agrícolas, como: secagem, processamento e armazenagem de sementes, bem como armazenagem de combustíveis e óleos alimentícios dependem de tais ins- talações. Para sua melhor compreensão, desenvolvemos uma análise acerca da NR-33, conforme visto. Nesse instante, vamos investir na compreensão de outra área específica do trabalho agrícola: as agroindústrias processadoras de alimentos, as quais já possuem uma Norma Regulamentadora inteiramente dedicada a elas: a NR-36 (MTPS, 2016, on-line)1. Essa norma, criada em 2013, estabeleceu um novo paradigma às indústrias do setor, ampliando a segurança dos trabalhadores e melhorando sua quali- dade de vida no trabalho, embora sua aplicação tenha gerado alguns desafios às indústrias na época, a exemplo dos elevados investimentos para adaptação aos seus requisitos. Vamos elucidar os assuntos que se encontram no entorno dessa norma? Então, vamos lá! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 131 ©shutterstock OS PRINCIPAIS ASPECTOS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 36 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E132 A INDÚSTRIA FRIGORÍFICA Frigorífico ou indústria fri- gorífica é o estabelecimento dotado de instalações comple- tas e equipamentos adequados para o abate, manipulação, elaboração, desossa de car- nes, preparo e conservação dos produtos in natura sob variadas formas, com aprovei- tamento completo, racional e perfeito, de subprodutos não comestíveis,possuindo instalações de frio indus- trial segundo Ministério da Agricultura e Pecuária (BRASIL,1952, on-line)2. Segundo Barzotto (2013), a indústria frigorífica é composta por estruturas físicas de grande porte que realizam o abate do processamento e a industriali- zação de carnes, geralmente possuem grandes números de funcionários para desenvolvimento das atividades e atendimento a alta produção exigida. A mesma autora ainda relata que as atividades desenvolvidas nesses estabe- lecimentos geralmente são feitas manualmente exigindo assim grande esforço físico por parte dos trabalhadores. A maior parte da produção de carnes de um frigorífico é executada manual- mente, apenas com o auxílio de facas, o que demonstra que esse tipo de indústria é bastante dependente da habilidade humana e do esforço físico de cada traba- lhador. Já algumas indústrias frigoríficas investem em tecnologias com o intuito de mecanizar uma parte do processo, mais fica evidente que o trabalho manual de processamento de carnes é inevitável, e as técnicas já duram centenas de anos, ainda sim a maior parte do processo é feita manualmente, principalmente a sepa- ração de cortes comerciais e limpeza de partes não comestíveis. Campoamor (2006) ressalta que os trabalhadores dos frigoríficos estão expos- tos a uma série de fatores de risco ocupacionais os quais podem acarretar-lhes adoecimento pelo exercício da função e que, pouca atenção tem sido direcio- nada à referida população de trabalhadores. A Indústria Frigorífica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 133 O processo industrial da desossa de carnes, um dos primeiros processos na cadeia de transformação da carne em produtos alimentícios, é a atividade que transforma a carne bruta em cortes menores para serem comercializados por mercados e açou- gues, esses cortes são feitos por meio de práticas manuais, e utilizando apenas facas para cada tipo de corte comercial, utilizando a carcaça animal como matéria-prima. Considerando o exemplo da carne bovina, de acordo com CETESB (2006), a desossa consiste na separação dos ossos da carne manualmente, com o auxílio de facas. As aparas de carne e gordura são separadas para aproveitamento como charque ou encaminhadas para graxarias, juntamente com os ossos, para pos- terior destinação ou fabricação de farinha e sebo. A desossa da carne bovina tem como matéria-prima a carcaça bovina, que, entende-se por animal abatido, sangrado, esfolado, eviscerado, desprovido de cabeça, patas (mocotós), rabada, glândulas mamárias (nas fêmeas), verga (exceto suas raízes) e testículos (nos machos), a ser subdividido em meias carcaças, divididas entre dianteiro e traseiro. A cabeça é separada da carcaça entre o osso occipital e a primeira vértebra cervical, chamada de atlas. Após a divisão em meias carcaças, retiram-se ainda os rins, gorduras perirrenal e inguinal, medula espinhal, diafragma e seus pilares CETESB (2006). Geralmente, as salas de desossas têm um grande número de funcionários e um elevado ritmo de produção. A Figura 1 demonstra trabalhadores executando as atividades em uma sala de desossa bovina. Figura 1 – Sala de desossa em Frigoríficos Fonte: Shutterstock ([2016]). OS PRINCIPAIS ASPECTOS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 36 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E134 O processo de desossa é apenas uma das etapas do trabalho em um frigorí- fico. O fluxo de atividades normal para esse trabalho é o seguinte (PACHECO; YAMANAKA, 2008): a. Chegada da matéria-prima e armazenamento em câmaras frias As carcaças chegam ao frigorífico por meio de carretas refrigeradas quando o abate ocorre em local distinto. Dependendo da indústria, os animais chegam vivos em caminhões para serem abatidos no mesmo local. Independente do local do abate, as carcaças são descarregadas manual- mente por meio de lombadores e encaminhadas para armazenamento e refrigeração. A etapa de refrigeração tem como finalidade a diminuição da temperatura das meias carcaças, reduzindo o crescimento microbiano e aumentando a conservação do produto. Para reduzir a temperatura interna das carcaças para menos 7ºC, elas são resfriadas em câmaras frias com temperaturas entre 0 e 4ºC, permanecendo nesse local até atingir a temperatura dese- jada, para executar a atividade da desossa, o tempo varia entre 24 e 48 horas (PACHECO; YAMANAKA, 2008). Vale dizer que as temperaturas podem variar de acordo com a carcaça em questão (se bovina, suína de aves ou outras). b. Desossa das carcaças Segundo Quaresma (2013), a desossa das carcaças é o processo de desdo- bramento dos quartos, dianteiro e traseiro, em cortes comerciais ou para serem destinados à indústria, supermercados ou exportadores. São ope- rados por funcionários devidamente equipados, que retiram a carne dos ossos e cartilagens por meio de técnicas práticas, obedecendo todos os cri- térios higiênicos. A temperatura da desossa é climatizada no máximo 10ºC. Nessa operação ocorre o corte e a desossa das carcaças resfriadas, que são divididas em porções menores para comercialização ou posterior processamento para produtos derivados. A desossa normalmente é rea- lizada manualmente, com auxílio de facas, e algumas máquinas para agilizar o processo, tais como serra fita e máquinas de refilar gorduras. Os retalhos gerados durante a produção são normalmente aproveitados na produção de derivados da carne e/ou de subprodutos de origem ani- mal (PACHECCO; YAMANAKA, 2008). A Indústria Frigorífica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 135 c. Embalagem das peças, armazenamento e expedição A etapa de embalagem é onde as carnes, já com os cortes padronizados, são colocadas em embalagens específicas para armazenamento e expe- dição do produto final. A atividade de embalagem é dividida em embalagem primária e emba- lagem secundária. Na embalagem primária, as peças são envolvidas em películas, e sacos de polietileno e sofrem um processo de extração do ar (vácuo), executado por máquinas automatizadas, e em seguida passam por um túnel com água quente (85º C), tendo por finalidade o encolhi- mento da embalagem. Já a embalagem secundária é o acondicionamento das peças já embaladas em caixas de papelão para chegaram ao armazena- mento e resfriamento do produto. Vale dizer que existem outros processos de embalagem, variando de acordo com a finalidade da carne e com seu tipo (aves, suínos, bovinos, dentre outros). Geralmente essa atividade é executada de forma manual e é realizada por auxiliares. Após as peças serem alocadas nas embalagens as mesmas passam por máquinas a vácuo, operadas por operadores de máquinas capacitados. Por fim, os produtos são armazenados em câmaras frias para aguardar à expedição e a posterior venda do produto. Pelo fato dos frigoríficos, indústrias de abate e de processamento de alimentos se con- figurarem como agroindústrias, não somente se espera o cumprimento do disposto na Norma Regulamentadora nº. 36, mas naquilo que couber de todas as Normas Regulamentadoras do Ministério do Trabalho, Emprego e Previdência Social. Para se ter uma ideia, tais empresas possuem Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT´s), Comissões Internas de Prevenção de Acidentes (CIPA´s) bem como todos os programas ligados à Saúde Ocupacional e Segurança do Trabalho como o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) etc.,da mesma forma que indústrias tipicamente urbanas. Nesse interim, julgamos apropriado enfatizar a você, caro(a) leitor(a), que tais indústrias, bem como as próprias propriedades rurais e toda a sorte de tra- balhos agrícolas, também se constituem como um excelente nicho de mercado, levando-se em conta que a saúde e segurança do trabalho são de suma importân- cia para as indústrias, independente do seu tamanho físico ou poder econômico. ©shutterstock OS PRINCIPAIS ASPECTOS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 36 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E136 A SEGURANÇA DO TRABALHO NA INDÚSTRIA FRIGORÍFICA BRASILEIRA O ritmo cada vez mais frenético de produção jun- tamente com as mudanças nos padrões de produção, em função da competitivi- dade dos mercados exige cada vez mais produtivi- dade dos funcionários, o que resulta em grande número de incidência de desordens musculoesqueléticas crônicas relacionadas ao trabalho, reconhecidas como problemas de saúde ocupacional significado como o efeito de trabalhos, alta- mente repetitivos, particularmente na extremidade superior. As desordens, tais como: síndrome do túnel do carpo, tendinites, tenossinovites e tensões crônicas do músculo estão ligadas ao trabalho repetitivo, que requerem posturas inábeis contínuas ou repetitivas (DELWING, 2007). Segundo Cerigueli (2013), o setor frigorífico viu-se obrigado a se ajustar em termos de competitividade, em especial, a partir da década de 1990. Dessa forma, grande parte das industriais desse segmento buscou acompanhar essa nova realidade sem fazer uso de ferramentas apropriadas de gestão, resultando na eclosão das doenças ocupacionais. A atividade frigorífica brasileira, cujo processo produtivo profissionalizou-se nos últimos anos, estabelecendo agressivas escalas de produção nunca vistas antes, também se deparou com enormes desafios no campo de seus recursos huma- nos, quer sejam eles decorrentes da falta ou precariedade destes, quer seja pela necessidade imperiosa da organização do trabalho perante os avanços e benefí- cios dos trabalhadores, e, ainda pela inexperiência em lidar com os novos fatores sociais da denominada vida moderna, os quais passaram, ater maior importân- cia na vida do trabalhador (CERIGUELI, 2013). Principais Riscos Ocupacionais na Atividade Laboral em Frigoríficos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 137 Segundo o mesmo autor, a única certeza que já se tira do episódio é de que o Brasil se tornou referência global na produção de carne, mas não está conseguindo garantir segurança e qualidade de vida a quem torna isso possível, no começo do ciclo da produção de carne e ao longo desta cadeia produtiva essencial. A grande problemática relacionada aos postos de trabalho em indústrias frigo- ríficas, de abate e de processamento de alimentos está relacionada aos inadequados postos de trabalho, os quais, segundo Takeda (2010) provocam problemas aos trabalha- dores e a própria empresa, como estresses musculares, dores, fadiga e improdutividade. O mais curioso é que na maioria das vezes, tais problemas podem ser resolvi- dos com providências simples sem altos custos para a empresa. De certa forma e, considerando a realidade dos postos de trabalho das empresas em questão, tal pre- missa (adaptações de baixo custo) é que se propôs, em 2012, a criação da NR-36. PRINCIPAIS RISCOS OCUPACIONAIS NA ATIVIDADE LABORAL EM FRIGORÍFICOS As indústrias frigoríficas, de um modo geral, apresentam uma forma de organi- zação de trabalho composta de máquinas, equipamentos e dispositivos de corte que possuem risco considerável de acidentes do trabalho com seus trabalhado- res, principalmente nas operações que exigem atividade manual. Segundo Silverstain (1991), historicamente, os frigoríficos têm tido altas taxas de incidência de doenças musculoesqueléticas nas extremidades supe- riores, conforme mostram dados de indenizações a trabalhadores desse setor. Ainda, de acordo com Palma (2000), na década de 1970, as atividades no fri- gorífico eram realizadas de forma empírica, sem preocupação com tecnologia sistematizada. O procedimento era feito com base no conhecimento prático de cada operário. No entanto, a atividade nos frigoríficos evoluiu, seguindo a mesma linha evolutiva das demais atividades industriais, ou seja, automatizando processos com vistas à otimização produtiva, e minimizando os riscos ocupacionais na atividade. OS PRINCIPAIS ASPECTOS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 36 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E138 Para Campoamor (2006), o trabalho em frigoríficos compreende tarefas repetitivas, sendo o processo de produção intenso. Em geral, as atividades labo- rais são exercidas em ambiente inapropriados, incluindo má iluminação, ruído, poeiras, limitado espaço físico. Tudo isso torna o trabalho exaustivo e perigoso. Os acidentes de trabalho que correm em frigoríficos incluem lacerações severas, amputações de membros, queimaduras, intoxicações por produtos de limpeza, ferimentos oculares e aparecimento de doenças devido a traumas osteomusculares. A atividade frigorífica, por si só, já expõe o trabalhador a diversos riscos ocupacionais e acaba se tornando muito mais prejudicial na medida em que as cobranças aumentam e as ações de saúde e segurança não acompanham as neces- sidades impostas por esse rigoroso modelo de produção. Ademais, as atividades nas diferentes linhas de produção dessas agroindústrias se caracterizam pela sua execução em posições ortostáticas/estáticas onde são rea- lizados movimentos repetitivos por longos períodos e em condições ambientais desfavoráveis, provocando variados graus de fadiga física e mental e contri- buindo com o surgimento das doenças ocupacionais (EVANGELISTA, 2011). Os riscos ergonômicos são muitos, e agentes como ruído, umidade, frio, calor, riscos biológicos e de acidentes com máquinas, materiais cortantes, e nas linhas de produção rolantes engrossam a lista a que o trabalhador se expõe em sua rotina de trabalho em empresas do ramo frigorífico (TAKEDA, 2010). Barzotto (2011) relata que o elevado esforço físico, as atividades repetiti- vas, postura inadequada no desempenho de algumas funções, a monotonia, a fadiga devido ao esforço e tempo de exposição e, principalmente, as diferenças extremas de temperaturas coloca a Indústria frigorífica como um ambiente em potencial para as mais diversas doenças ocupacionais. No setor de frigorífico, em função da modalidade de atividades desenvol- vidas, a propensão ao surgimento das Lesões por Esforço Repetitivos (LER) e Distúrbos Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT) aumentam. São muitos os lesionados que apresentam queixas, nas regiões dos tendões, braços, antebraços e mãos, sendo que esses funcionários, na maioria dos casos, já apre- sentam sequelas, psicológicas dessas lesões (DEFANI, 2007). Principais Riscos Ocupacionais na Atividade Laboral em Frigoríficos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 139 De acordo com a proposta da Nota Técnica: medidas para controle de riscos ocupacionais na indústria de abate e processamento de carnes, do Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho (DSST), veiculada publica- mente em junho de 2004, pelo MTE (atual MTPS), os principais riscos em que os funcionários da atividade frigorífica estão expostos. O Quadro 2 demonstra os tipos mais comuns de riscos ocupacionais na atividade e a fonte ondeos ris- cos são gerados. Quadro 2 - Riscos Ocupacionais X Fonte dos Riscos Ocupacionais RISCOS OCUPACIONAIS FONTE DOS RISCOS OCUPACIONAIS LER/DORT Atividades fixas poucos variáveis, sujeitas à cadência imposta pela máquina e pela organização da produção, além da pres- são do tempo, levam a uma alta repetividade de movimen- tos, que podem ser agravadas por fatores como a postura corporal e a utilização de força nas tarefas. Baixas Temperaturas O trabalho permanente em ambiente frio, entre 9ºC e 12ºC, além do manuseio de produtos em torno de 4ºC, provoca a vasoconstrição, perda da sensibilidade tátil e a diminuição da destreza. Outros fatores combinados podem dar origem à síndrome do túnel do carpo. Contaminação por agentes biológicos Condições insalubres também estão presentes, como a umidade e o contato permanente com carnes, glândulas, vísceras, sangue e ossos. Doenças psíquicas A falta de controle do trabalhador sobre seu próprio trabalho, tarefas monótonas e a limitação do contato humano favore- cem reações de estresse, insatisfação e depressão, com per- turbações psicossomáticas e aumento da tensão muscular. Perda Auditiva A exposição continua a níveis de ruídos acima de 80 dB(A) provoca perdas auditivas e gera graus importantes de es- tresse, com contração dos vasos sanguíneos e aumento da tensão muscular. Em ambientes ruidosos, as atividades que exigem destreza são realizadas com um esforço maior. Posição Estática O trabalho realizado exclusivamente de pé, em posto fixo com espaço exíguo, que impede a livre movimentação, acar- reta fadiga, varizes e outros agravos á saúde, como quadros de fascite plantar. Fonte: MTPS (2004). OS PRINCIPAIS ASPECTOS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 36 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E140 De acordo com Ilda (2005), muitas vezes os trabalhadores ao executarem suas ativi- dades assumem posturas consideradas inadequadas devido ao projeto deficiente de máquinas e postos de trabalho, equipamentos, e também, as exigências para execuções rápidas de tarefas e as altas produções. A mesma autora ainda relata as três princi- pais situações as quais as más posturas podem acarretar em graves consequências: ■ Trabalhos estáticos que envolvem uma postura parada por longos períodos. ■ Trabalho que exige muita força. ■ Trabalhos que exigem posturas desfavoráveis, como o tronco inclinado e torcido. Ainda, o Quadro 3 demonstra os locais com maior risco de dores que podem ser causadas por posturas inadequada, assumidas nos postos de trabalho pelos colaboradores nessas agroindústrias, seja por deficiência de projetos, por pro- blemas em máquinas e equipamentos e pela falta de espaço. Quadro 3 - Postura Inadequada X Local com Maior Risco de Dores POSTURA INADEQUADA LOCAL COM MAIOR RISCO DE DORES Em pé Pés e Pernas (varizes) Sentado sem encosto Músculos extensores do dorso Assento muito alto Parte inferior das pernas, joelhos e pés Assento muito baixo Dorso e pescoço Braços Esticados Ombros e Braços Pegas inadequadas em ferramentas Antebraço Punhos em posições não neurais Punhos Rotações do corpo Coluna Vertebral Ângulo inadequado assento/encosto Músculos dorsais Superfície de trabalho muito baixas ou muito altas Coluna vertebral e cintura escapular Fonte: Ilda (2005). Os problemas referentes à ergonomia, ruídos, umidade, exposição à alternância de temperatura e riscos biológicos são os principais fardos de trabalhadores de frigoríficos. Levando-se isso em consideração, o atual MTPS lançou, em 2013, a Norma Regulamentadora nº. 36. ©shutterstock A NR-36 e sua Aplicação nos Frigoríficos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 141 A NR-36 E SUA APLICAÇÃO NOS FRIGORÍFICOS De acordo com Cerigueli (2013), a NR-36 traz no na sua essência o desafio de tornar a atividade dos trabalhadores da indústria frigorífica menos árdua, ele- vando-a em um patamar diferenciado de saúde e segurança do trabalho, entre as empresas do setor industrial do Brasil. A norma em questão procura estabelecer marcos regulatórios em diversos pontos peculiares da sua atividade. A NR-36 traz diversos itens para a adequação do setor frigorífico e tem como objetivo: Estabelecer os requisitos mínimos para a avaliação, controle e monito- ramento dos riscos existentes nas atividades desenvolvidas na indústria de abate e processamento de carnes e derivados destinados ao consumo humano, de forma a garantir permanentemente a segurança, a saúde e a qualidade de vida no trabalho, sem prejuízo da observância do dis- posto nas demais Normas Regulamentadoras - NR do Ministério do Trabalho e Emprego (MTPS, 2016)3. Essa NR somente tornou-se possível por causa das estatísticas assustadoras de acidentes, afastamentos e mortes no setor frigorífico, e após anos de discussões e estudos, a norma foi publicada em 2013 e as empresas do ramo frigorífico tiveram que se adaptar aos itens da norma em um prazo de dois anos a partir de seu lançamento, ou seja, o prazo para as adequações propostas pela NR-36 findou-se em abril de 2015. ©shutterstock OS PRINCIPAIS ASPECTOS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 36 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E142 O SURGIMENTO DA NR-36 O surgimento da NR-36 fez necessário após a verificação da situação da segurança do trabalho dos frigoríficos brasileiros, e por meio dos dados estatísticos negativos no âmbito de acidentes, afastamentos e mortes divulgados pelo MTPS ao longo dos anos. A necessidade de uma regulamentação própria das condições de trabalho nos frigoríficos é resultado da preocupação dos representantes da categoria, bem como das autoridades, com as estatísticas de acidentes de trabalho e doenças ocu- pacionais registradas pelo Governo Federal nesse tipo de atividade (REVISTA FRIGORÍFICO, 2013). Antes da publicação e criação da NR-36, havia apenas as normas básicas envolvendo ambientes de trabalho em geral, mas essas normas não se aplicam de forma eficiente para os frigoríficos, pois existem diversas atividades e inú- meros postos de trabalhos dentro desse tipo de agroindústria. Por esse motivo é extremamente necessário que cada setor tenha suas devidas orientações, e a NR-36 engloba várias NRs já publicadas, voltando suas diretrizes para o setor frigorífico, de forma clara e eficiente. Cerigueli (2013) afirma que foram necessários aproximadamente 10 anos de estudos e negociações com base em registros de inspeções realizadas por auditores fiscais do trabalho, denúncias de sindicatos, avanços científicos, pressão política, entre outros, para que o MTPS regulamentasse oficialmente a norma para o setor. Principais Mudanças e Temas Abordados na NR-36 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 143 A ideia do MTPS de elaborar uma nova norma específica para frigoríficos se deu quando as estáticas oficiais demonstraram a atividade como uma das gran- des vilãs para afastamentos e para a ocorrência de acidentes. Em 19 de Abril de 2013 foi publicada, no Diário Oficial da União, a NR-36, por meio da portaria 555 de 18 de Abril daquele ano. Esta, por sua vez, con- templara os prazos máximos de adaptação das empresas ao disposto na norma. Ademais, as referidas adequações tangem os mobiliários, mudanças físicas e mudanças organizacionais nas plantas produtivas. PRINCIPAIS MUDANÇAS E TEMAS ABORDADOS NA NR-36 De acordocom a análise da Norma Regulamentadora nº. 36 (MTPS, 2016), os pontos de maior relevância abordados na NR-36, e que representam mudanças frentes aos paradigmas anteriores são os seguintes: ■ Conceder pausas de, no mínimo, 10 minutos para jornadas de até 6h20min; 20 minutos para jornada de 6h20min a 7h40min; e 40 minutos para jor- nadas de 7h40min a 9h10min. ■ Para a atividade realizada exclusivamente em pé, fornecer assentos ou bancos próximos ao local de trabalho, atendendo no mínimo 50% dos trabalhadores que usufruirão das pausas permitidas. ■ Fornecer um assento com ajustes ergonômicos para cada três trabalhadores nos postos estacionários, de acordo com a Análise Ergonômica do Trabalho (AET), possibilitando a alternância do trabalho sentado com o trabalho em pé. A Norma Regulamentadora nº. 36 também considera parâmetros que defi- nem a ventilação e a qualidade do ar dentro das indústrias frigoríficas, de aba- te e de processamento de alimentos. Por meio de equipamentos de medição adequados, devemos obter uma concentração de CO2 máxima de 1.000 ppm. Fonte: o autor. OS PRINCIPAIS ASPECTOS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 36 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E144 ■ Para atividade realizada exclusivamente em pé, fornecer assentos ou ban- cos próximos ao local de trabalho, atendendo 100% dos trabalhadores que usufruirão das pausas. ■ Para atividade realizada exclusivamente em pé, fornecer assentos ou ban- cos próximos ao local de trabalho, atendendo 100% dos trabalhadores que usufruirão das pausas. ■ Organizar rodízio de postos de trabalho a modo evitar movimentos repe- titivos durante a jornada de trabalho. Ademais, vale salientar que NR-36 aborda 15 (quinze) itens com exigências espe- cíficas para adequação das empresas frigoríficas. Os itens que a norma rege são: 1. Mobiliário e postos de trabalho. 2. Estados, passarelas e plataformas. 3. Manuseio de produtos. 4. Levantamento e transporte de produtos e cargas. 5. Recepção e descarga de animais. 6. Máquinas. 7. Equipamentos e ferramentas. 8. Condições ambientais de trabalho. 9. Equipamentos de Proteção Individual (EPI). 10. Gerenciamento de riscos. 11. Programas de prevenção dos riscos ambientais e de controle médico de saúde ocupacional. 12. Organização temporal do trabalho. 13. Organização das atividades. 14. Análise ergonômica do trabalho. 15. Informações e treinamentos em segurança e saúde no trabalho. ©shutterstock Principais Desafios da Indústria Frigorífica no Atendimento à NR-36 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 145 Segundo Cerigueli (2013), as mudanças e os itens abordados na NR-36 vêm suprir uma necessidade antiga do setor e será benéfico para patrões e funcionários em médio e longo prazo. Tais mudanças visam ampliar o conforto no ambiente de trabalho, mitigando os riscos até aqui abordados. PRINCIPAIS DESAFIOS DA INDÚSTRIA FRIGORÍFICA NO ATENDIMENTO À NR-36 De acordo com Quaresma (2013), as adequações impostas pela NR-36 têm relação direta com a neces- sidade de investimentos e, a época de seu lançamento, os maiores desafios seriam sentidos pelas empresas de menor porte. Entretanto, as pausas ergonômicas foram (e ainda são) aquelas que geráramos maiores impactos às empresas do setor. As pausas em questão afetaram a produtividade dos trabalhos. Por outro lado, a instituição das pausas compensou as perdas econômicas das quedas de produtividade na medida em que estas apresentaram potencial para redução dos casos de afastamentos, acidentes e doenças. Combinada com a pausa, outra estratégia importante foi à implantação da multifuncionalidade, que muda o modo de trabalhar, muda o conteúdo e trans- forma o trabalho, dando-lhe um sentido mais amplo, pois, quanto mais se sabe e se conhece o trabalho, mais sentido ele tem. A NR-36 obteve sucesso neste que- sito, por estabelecer o rodízio de funções. OS PRINCIPAIS ASPECTOS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 36 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E146 De acordo com Ribeiro (2013), uma única indústria do setor frigorífico com cerca de 500 funcionários, e com características próprias, ao ter se adequado à NR-36, aferiu um custo aproximado de R$ 3 milhões. Esse custo foi relacionado não somente às adequações do ponto de vista de gestão do trabalho, mas prin- cipalmente às adequações de mobiliários, equipamentos e EPI´s. Ribeiro (2013) ainda alertou que algumas indústrias precisariam de ade- quações feitas por meio de grandes modificações físicas o que implicaria em um investimento bem maior em relação ao expresso. Em termos de rubricas, Ribeiro (2013) apresentou o seguinte orçamento (Quadro 4) para adequação de um fri- gorífico de médio porte aos requisitos da NR-36. Quadro 4 - Exemplo de Orçamento de Adequação NR-36 ITENS DE ADEQUAÇÃO DA NORMA VALOR ORÇADO Manuseio de Cargas R$ 2.047.000,00 Para Manipulação de Caixas, Bandejas e Engradados R$ 8.000,00 Mobiliário e Postos de Trabalho R$ 150.000,00 Adequações para Trabalhos Realizados Sentados R$ 8.000,00 Adequações para Trabalhos Realizados em Pé R$ 8.000,00 Pausas R$ 7.000,00 Ferramentas e Equipamentos R$ 205.000,00 Conforto Térmico R$ 153.000,00 Câmaras Frias R$ 1.000,00 Estrados, Passarelas e Plataformas R$ 100.000,00 Recepção Descarga de Animais (Não Aplicável no Estudo) R$ 0,00 Máquinas e Equipamentos R$ 7.000,00 Condições Ambientais de Trabalho R$ 256.000,00 Equipamento de Proteção Individual (EPI) R$ 50.000,00 Total R$ 3.000.000,00 Fonte: Ribeiro (2013). Cerigueli (2013), também apontou como um grande desafio à época, o rodízio de funções e postos de trabalho, uma vez que esse item depende da adaptação do trabalhador. Certamente essa adaptação pode ser árdua e demorada causando Principais Desafios da Indústria Frigorífica no Atendimento à NR-36 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 147 impactos diretos na produtividade, porém pode ser benéfica ao empresário pois após as adaptações os colaboradores do setor terão conhecimento total do pro- cesso podendo ser substituíveis a qualquer momento. Martins (2013) estudou a adaptação da NR-36 em uma empresa do ramo frigorífico e concluiu que a implantação da norma obteve uma boa aceitação por parte dos colaboradores, sem nenhuma resistência, pois o ambiente de trabalho tornou-se mais seguro para a realização das atividades já por parte dos empresá- rios a implantação teve alguns prejuízos como o alto investimento e o aumento de absenteísmo e rotatividade no setor, isso por causa dos rodízios de função que alguns colaboradores não se adaptaram ao novo método. Embora, estejamos falando de investimentos, adequações e “prejuízos”, reflita: Com o exposto, compreendemos então caro(a) aluno(a), o universo da Norma Regulamentadora nº. 36 e sua importância para a melhoria das condições de tra- balho dos colaboradores em frigoríficos, indústrias de abate e processamento de alimentos. Além disso, pudemos visualizar os riscos ligados aos diferentes pos- tos de trabalho deste tipo de indústria. Realmente, no contexto agrícola, estas indústrias possuem grande importância, sendo essenciais no processamento de alimentos. Ainda nós temos uma tarefa a cumprir neste livro: Discutir sobre a princi- pal Norma Regulamentadora sobre Segurança do Trabalho Agrícola – NR-31. Todavia este é um assunto mais denso, necessitando de uma unidadeexclusiva para sua elucidação. Assim, em nossa próxima unidade, vamos conhecer esta tão importante norma. Os valores para a adequação de uma empresa a qualquer norma devem ser encarados como investimentos que oportunizam a preservação da força de trabalho (e não custos ou elementos causadores de prejuízos). OS PRINCIPAIS ASPECTOS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 36 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E148 CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado(a) aluno(a), por meio de nossos estudos nesta quarta unidade, pude- mos conferir os principais aspectos relacionados a esta tão importante área agroindustrial. Nossas discussões nos levaram a um pleno conhecimento acerca da sistemá- tica do fluxo e dos postos de trabalho que são relacionados a estas agroindústrias. Esse conhecimento ainda nos permite inferir sobre a realidade de tais postos de trabalho, ergonomicamente inadequados do ponto de vista da repetitividade dos trabalhos e do esforço contínuo dispendido por parte dos trabalhadores. A Norma Regulamentadora nº. 36, também conhecida como a “norma dos frigoríficos” foi criada considerando as limitações e os riscos dos referidos postos de trabalho, representando um avanço significativo na mudança de paradig- mas que permitiu com que os trabalhos nessas agroindústrias se tornassem um pouco menos desgastantes. As pausas nas jornadas de trabalho e as adaptações ergonômicas ao longo das linhas de produção foram as principais novidades percebidas nestas agroin- dústrias. Todavia, toda a mudança de paradigmas exige também a superação de desafios, em especial, no que tange a adaptação das linhas de produção e rotinas de trabalho. Ao passo em que adaptações podem custar aos cofres da empresa alguns milhões de reais considerando obviamente seu porte, também existe a redução da produtividade por conta das pausas. Contudo, as pausas devem ser encaradas como elementos desencadeadores de uma maior produtividade, levando-se em conta que os trabalhadores terão mais atenção e menor desgaste frente à atividade laboral. Outrossim, os custos com as adaptações devem ser encarados como investimentos ligados à pre- servação da capacidade produtiva, da saúde e da vida dos trabalhadores, algo objetivado pela Segurança do Trabalho. Portanto, existem muito mais aspectos positivos que negativos em nossa análise e a NR-36 definitivamente, contribuiu para a melhoria nos trabalhos em frigoríficos e industrias de abate e processa- mento de alimentos. 149 1. A Norma Regulamentadora nº. 36 do Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS) preza por uma alternância de trabalhadores nos postos de trabalho. Para aqueles trabalhos que são realizados exclusivamente em pé, existem alguns re- quisitos mínimos que precisam ser respeitados. Sobre este assunto, analise os itens a seguir: I. Um dos requisitos da NR-36 quanto aos trabalhos feitos exclusivamente em pé é a existência de zonas de alcance horizontal e vertical que favoreçam a adoção de posturas adequadas, e que não ocasionem amplitudes articulares excessivas, tais como elevação dos ombros, extensão excessiva dos braços e da nuca, flexão ou torção do tronco. II. Outro requisito da NR-36 para os trabalhos feitos exclusivamente em pé é a existência de espaço suficiente para pernas e pés na base do plano de traba- lho, para permitir que o trabalhador se aproxime o máximo possível do ponto de operação e possa posicionar completamente a região plantar. III. Um terceiro requisito da NR-36 para os trabalhos realizados exclusivamente em pé diz respeito à necessária existência de barras de apoio para os pés para alternância dos membros inferiores, invariavelmente a todos os tipos de postos de trabalho. Estão corretos: a. I b. II c. III d. I e III e. I e II 2. Em muitos aspectos, a Norma Regulamentadora nº. 36 se aproxima da Norma Regulamentadora nº. 17, que versa sobre Ergonomia. Dentre os diversos traba- lhos que são executados no contexto dos frigoríficos, o levantamento de cargas ganha destaque por ser uma das atividades mais corriqueiras. Segundo a NR-36, qual distância horizontal máxima de pega é permitida para levantamentos não eventuais de cargas? Assinale a alternativa correta: a. 10 cm b. 40 cm c. 90 cm d. 60 cm e. 120 cm 150 3. Os trabalhos em indústrias de abate são, em muitos aspectos, desgastantes e considerados como de alta exposição em relação à fungos, bactérias, protozo- ários e outros microrganismos presentes nas vísceras dos animais. Sobre este assunto, assinale a alternativa que classifica corretamente este tipo de risco: a. Risco ergonômico b. Risco de acidentes c. Risco químico d. Risco físico e. Risco biológico 4. Embora a Norma Regulamentadora apresente diretrizes específicas para os am- bientes produtivos de frigoríficos, devemos nos atentar ao fato de que em mui- tos aspectos, estas agroindústrias se assemelham a outros tipos de indústrias convencionais, o que nos faz supor que essas empresas também adotem outras normas regulamentadoras, em especial, para a proteção de dispositivos elétri- cos em máquinas e equipamentos. Sobre esse assunto, assinale a alternativa que apresenta duas outras normas que contribuem especificamente para a proteção das máquinas do ponto de vista de partes móveis e eletricidade. a. NR-12 e NR-10, respectivamente. b. NR-35 e NR-33, respectivamente. c. NR-18 e NR-40, respectivamente. d. NR-06 e NR-08, respectivamente. e. NR-01 e NR-31, respectivamente. 5. O controle interno de qualidade do ar nas indústrias frigoríficas e de processa- mento de alimentos deve ser feito de maneira criteriosa, considerando em es- pecial, a concentração de dióxido de carbono. Sobre esse assunto, assinale a alternativa que apresenta a concentração máxima de dióxido de carbono nos ambientes das indústrias frigoríficas que é permitida pela NR-36: a. 500 ppm b. 1.000 ppm c. 2.000 ppm d. 10.000 ppm e. 50.000 ppm 151 O papel do planejamento estratégico na implantação da Norma Regulamentadora nº 36 O Planejamento Estratégico é objeto de atenção da alta administração das empresas, voltando-se para as medidas positivas que a empresa poderá tomar para identificar ameaças e oportunidades encontradas em seu ambiente e atuando de forma antecipa- da para resolver ou minimizar essas ocorrências, algo desejado na implantação de uma norma como a NR-36. Segundo Rasmussen (1990), no final do século XX, o planejamento estratégico foi de- terminado como ferramenta primordial para a alta gestão das empresas, com objetivo de obter vantagem competitiva e identificação de oportunidades no macro ambiente operacional. De acordo com Oliveira (2013), planejamento estratégico é o processo administrativo que por meio da sustentação metodológica estabelece a melhor direção que a empresa deve seguir, procurando aperfeiçoar o grau de interação com os fatores externos, os quais não são controláveis e atuando de forma inovadora e diferenciada. Para Maximiano (2004), o planejamento estratégico é o processo de desenvolver a rela- ção pretendida da empresa com seu ambiente, compreendendo a tomada de decisão que afeta a organização em longo prazo. Segundo Oliveira (2013), por meio do planejamento estratégico a empresa espera: a. Conhecer e melhor utilizar seus pontos fortes internos, sendo que pontos fortes é a diferenciação alcançada pela empresa, sendo esta varável controlável, que propor- ciona uma vantagem operacional. b. Conhecer e eliminar ou adequar seus pontos francos internos, onde ponto fraco é uma situação inadequada da empresa, variável controlável, que proporciona uma desvantagem operacional. c. Conhecer e desfrutar as oportunidades externas, sendo esta a força ambiental in- controlável da empresa, que favorece suaação estratégica, porém se conhecida e aproveitada, de maneira satisfatória. d. Conhecer e evitar ameaças internas, esta ameaça é a força ambiental incontrolável pela empresa, que cria obstáculos à sua ação estratégica, que poderá ou não ser evitada, desde que conhecida em tempo hábil. e. Ter um efetivo plano de trabalho, estabelecendo as premissas básicas que devem ser consideradas no processo de planejamento estratégico; as expectativas de si- tuações desejadas pela empresa; os caminhos a serem seguidos pela empresa para alcançar os resultados esperados; o quê, como, quando, por quanto, por quem, para quem, por que, e onde devem ser realizados os planos de ação; e como e onde alocar os recursos atuais e futuros da empresa. 152 O mesmo autor diz que como resultado do trabalho, o planejamento estratégico deverá apresentar os seguintes resultados: a. Direcionamento dos esforços para os resultados comuns, sendo estes do interesse de todos os envolvidos no planejamento estratégico da empresa. b. Estabelecimento do entendimento, por todos os funcionários, da visão dos valores, da missão, dos propósitos, das macroestratégias, das macropolíticas, da postura es- tratégica, dos objetivos gerais, dos objetivos funcionais, dos desafios, das metas, das estratégias, das políticas e dos projetos da empresa, bem como indicar a ela- boração do programa de atividades das várias unidades ou áreas que integram a estrutura organizacional. c. Estabelecimento de uma agenda de trabalho por um período de tempo que per- mita à empresa trabalhar levando em conta as prioridades estabelecidas e as exce- ções justificadas. Conforme relata Rasmussen (1990), o planejamento estratégico deve envolver em sua implantação três níveis de planejamento: a. Alta gestão: autoriza e participa na elaboração do plano estratégico, ou seja, na aceitação dos macro-objetivos, elaborados pelos responsáveis. b. Gestão executiva: transforma as estratégias dos macro-objetivos em planos táticos, ou seja, objetivos operacionais. c. Gestão operacional e funcional: transformam os objetivos operacionais em planos funcionais dentro do ciclo orçamentário para cumprir uma parte do plano estra- tégico, ou seja, dos macros objetivos ou da missão da empresa, dentro dos limites temporais do calendário estratégicos. Segundo Oliveira (2013), o planejamento estratégico possui três dimensões operacio- nais: delineamento, elaboração e implementação. O delineamento inclui a estruturação do processo de planejamento estratégico, sendo nesse momento que o executivo esco- lhe a estrutura metodológica, bem como o profissional que o auxiliara no delineamento. A elaboração inclui a identificação das oportunidades e ameaças no ambiente da em- presa e a doção de estimativas de risco para as alternativas estabelecidas. Antes de es- colher entre essas alternativas, o executivo deve identificar e aliar os pontos fortes e os pontos fracos da empresa e sua capacidade real e potencial de tirar vantagem das oportunidades identificadas no ambiente, bem como enfrentar ameaças. O executivo deve considerar, também, a explicitação dos objetivos e das metas a serem alcançados pela empresa, incluindo as maneiras de desenvolver as estratégias e ações necessárias à concretização do processo, respeitando determinadas políticas ou orien- tações de atuação (OLIVEIRA, 2013, p.39). 153 A implementação aborda os assuntos organizacionais, o sistema de informações, o siste- ma orçamentário, os sistemas de incentivos, a competência operacional, o treinamento e a liderança indispensável ao desenvolvimento do procedimento estratégico na em- presa. (OLIVEIRA, 2013). Segundo Rasmussen (1990), depois de implantado a metodologia de planejamento es- tratégico, a cultura da empresa nunca será a mesma que antes da experiência. Assim, toda e qualquer experiência de adaptação da empresa quanto à uma Norma Regula- mentadora, em especial, a NR-36 deve considerar o planejamento estratégico como fer- ramenta útil neste processo. Fonte: Martins (2014). MATERIAL COMPLEMENTAR Manual de Aplicação: NR-36 Norma Regulamentadora de Segurança e Saúde no Trabalho em Empresas de Abate e Processamento de Carnes e Derivados Moacir José Cerigueli Editora: LTr Sinopse: a Norma Regulamentadora nº. 36 é a mais recente norma criada pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS). Criada em 2013, a NR-36 apresenta os mais recentes avanços para as indústrias de abate e processamento de alimentos de origem animal. Por se tratar de um segmento específi co de agroindústria, a NR-36 apresenta peculiaridades que vão além das normas já existentes, apresentando soluções que visam à melhoria dos postos de trabalho e da saúde e segurança dos trabalhadores. O livro em questão aborda de maneira didática todos os elementos ligados à gênese e implantação da NR-36 nessas empresas, sendo uma obra de referência aos profi ssionais de Segurança do Trabalho no que tange a ampliação dos conhecimentos sobre as principais práticas prevencionistas neste segmento industrial. Amônia: por que é usada nos frigorífi cos? (NR-36) A amônia é um composto químico de larga utilização nas indústrias frigorífi cas por ter qualidades relacionadas às suas propriedades termodinâmicas. Esse composto permite um rápido resfriamento dos circuitos frigorífi cos, sendo inerte às suas instalações condutoras, a exceção do cobre. Embora possua essas características, a amônia possui elevado grau de toxicidade com relação ao ser humano, considerando os danos oriundos por sua inalação e contato. O presente vídeo apresenta um modelo mental a respeito de seu principal questionamento (motivos pelos quais a amônia é usada em frigorífi cos) além de apresentar informações acerca de casos onde houve vazamentos desse produto. Trata-se de um excelente material para aquisição de conhecimentos. Disponível em: <https://youtu.be/BUXyvL7rVCo>. REFERÊNCIAS BARZOTTO, P. C. Riscos e Acidentes na Indústria Frigorífica: Processo de abate de frango. 2013. 69 p. Monografia (Especialização em Gestão Engenharia de Segurança do Trabalho) - Universidade Federal de Educação Tecnológica do Paraná (UTFPR), Curitiba, 2013. CAMPOAMOR, M. M. Estudo da ocorrência de acidentes entre trabalhadores de uma indústria frigorífica do estado de São Paulo. 2006. Dissertação (Mestrado em Enfermagem), Universidade de São Paulo (USP), Ribeirão Preto/SP. 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Tiago Ribeiro da Costa ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 Objetivos de Aprendizagem ■ Conhecer os riscos abordados por meio da NR-31 de maneira segmentada. ■ Compreender as principais estratégias e diretrizes relacionadas à NR-31 que permitem o andamento seguro das atividades agropecuárias. ■ Visualizar as diferenças existentes entre as normas clássicas e a NR-31, em especial, no que condiz a gestão da segurança do Trabalho. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Comissão Permanente Regional Rural (CPRR) ■ Serviços Especializados em Segurança e Saúde no Trabalho Rural (SESTR) ■ Comissão Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho Rural (CIPATR) ■ Os Agrotóxicos segundo a NR-31 ■ Máquinas, Equipamentos, Implementos e Ferramentas Agrícolas ■ Outras diretrizes definidas pela NR-31 ■ Perspectivas sobre a Segurança do Trabalho Agrícola INTRODUÇÃO Prezado(a) aluno(a), chegamos à nossa última unidade com uma alta respon- sabilidade a ser cumprida: mostrar a você e discutir acerca de nossa principal Norma Regulamentadora sobre Segurança do Trabalho Agrícola, a NR-31. A Norma Regulamentadora nº. 31 faz parte do conjunto das “neo-normas”, normas as quais foram elaboradas e publicadas a partir da década de 2000. Por conta de ser uma norma relativamente nova, seus dispositivos e diretrizes são modernos e bastante abrangentes, afinal, em uma única norma, a quase totali- dade dos trabalhos agrícolas foram abordados. Para se ter uma ideia, a NR-31 aborda sobre os principais mecanismos de Segurança do Trabalho e Saúde Ocupacional para a produção de alimentos de origem vegetal (agricultura), de origem animal (pecuária), para a produção industrial de madeira e celulose (silvicultura), para as explorações florestais e produção de alimentos em ambiente aquático (aquicultura, que engloba a produ- ção de peixes, mariscos e outros animais aquáticos). Ademais, a NR-31 também aborda a industrialização dessas matérias-primas, desde que feitas internamente aos estabelecimentos agrícolas. De forma estrutural, no que tange às diretrizes gerais e aos direitos e deveres dos empregadores e empregados, a NR-31 se assemelha as demais normas, em especial, a NR-1 e às normas setoriais, a exemplo da própria NR-36, abordada em nossa quarta unidade. O mesmo se repete aos princípios de acompanha- mento da saúde dos trabalhadores. Todas as práticas da NR-31 são condizentes com aquelas estabelecidas por meio da NR-7 – Programa de Controle Médico e de Saúde Ocupacional (PCMSO). Contudo, algumas diferenças significativas aparecem na medida em que avançamos na leitura dessa norma, em especial, naquilo que é específico a este setor. Assim, nossa missão é abordar tal norma, apresentando-lhe suas seme- lhanças e diferenças frente às demais normas e estabelecer a importância de seu papel no contexto da Segurança do Trabalho Agrícola. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 161 ©shutterstock ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E162 COMISSÃO PERMANENTE REGIONAL RURAL (CPRR) Caro(a) aluno(a), você percebeu que ao longo do conteúdo do livro, aborda- mos também sobre agroindústrias, todavia, fora do contexto da NR-31. Isto só foi possível por estarmos nos referindo a indústrias armazenadoras e processa- doras de alimentos as quais não se encontram em estabelecimentos agrícolas. Tratam-se de indústrias convencionais que possuem normas particulares, mas fazem parte do universo da Segurança do Trabalho Agrícola. A NR-31, de forma específica, também lida com a Segurança do Trabalho Agrícola em agroindústrias, todavia, presentes no interior de estabelecimentos agrícolas. Assim, faz-se necessário o conhecimento acerca do empreendimento atendido, uma vez que isto é decisivo para estabelecer qual norma é a mais ade- quada ao atendimento da Segurança do Trabalho Agrícola. Todavia, além do exposto, uma das diferenças significativas da NR-31 está relacionada à Comissão Permanente Regional Rural (CPRR). Essa comissão, estruturada por representantes do governo, trabalhadores e empregadores (três representantes de cada categoria), em muito se assemelha à Comissão Tripartite Permanente Paritária (CTPP), estabelecida no contexto geral das demais NR´s. Obviamente, a CPRR pode ser encarada como um órgão consultivo que visa, acima de tudo propor melhorias no contexto da NR-31, estabelecendo um maior grau de especificidade desta norma e dos princípios de Segurança do Trabalho a este setor. Serviços Especializados em Segurança e Saúde no Trabalho Rural (SESTR) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 163 SERVIÇOS ESPECIALIZADOS EM SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO RURAL (SESTR) Outra diferença está centrada na criação dos Serviços Especializados em Segurança e Saúde no Trabalho Rural (SESTR), que é equivalente, em termos de função, aos Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT), definido pela Norma Regulamentadora nº. 4 (MTPS, 2016). No que tange ao SESTR, compreende-se que além das semelhanças com o SESMT, existem algumas diferenças a serem consideradas, da forma como segue: a. Existem três modalidades de constituição do SESTR: Próprio: quando o empregador contrata diretamente os profissionaiscomponentes do SESTR; Externo: quando o empregador contrata uma empresa (consul- toria) especializada que fornecerá o corpo técnico do SESTR; e Coletivo: quando um segmento empresarial ou econômico coletivizar a contrata- ção dos profissionais especializados. b. Para dimensionamento do SESTR deve-se considerar o número de cola- boradores contratados por prazo determinado (safristas) e indeterminado, não havendo consideração da média do número de trabalhadores do último exercício fiscal (a exemplo do que ocorre na NR-4); c. Todos os estabelecimentos rurais que possuem mais de cinquenta cola- boradores devem obrigatoriamente constituir SESTR. d. Os estabelecimentos que contem com, no mínimo, 10 e no máximo 50 cola- boradores estão dispensados de constituir o SESTR desde que o empregador rural ou preposto tenha formação sobre prevenção de acidentes e doen- ças relacionadas ao trabalho (no que couber ao cumprimento da norma). e. Caso o empregador ou preposto tenha entre 10 e 50 colaboradores e não possua o curso supracitado, o mesmo deverá contratar minimamente um Técnico de Segurança do Trabalho. f. Quando o SESTR for Coletivo admite-se que um grupo de profissionais especializados possa atender estabelecimentos pertencentes ao mesmo grupo acionário ou a um mesmo empregador ou grupos de empregado- res (cooperativas, associações), desde que tais estabelecimentos distem entre si menos de 100 quilômetros (a NR-4 permite algo semelhante, toda- via, para estabelecimentos que distem entre si menos de 5 quilômetros). ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E164 g. Caso a empresa atue em ramos diferentes (agrícola e não agrícola) e man- tenha as atividades distintas compartilhadas em um mesmo espaço físico, a empresa poderá optar por constituir SESTR ou SESMT, desde que isto seja acordado em Convenção Coletiva. h. Ao contrário do disposto na NR-4, que define uma carga horária fixa de atuação aos profissionais do SESMT, de acordo com o grau de risco de atividade e com a formação dos profissionais, a NR-31 não estabelece uma carga horária mínima. Em seus dizeres, no item 31.6.12, o empre- gador rural ou equiparado deve contratar os profissionais do SESTR em jornada de trabalho que seja compatível com a necessidade de elabora- ção e implementação das ações de gestão em segurança, saúde e meio ambiente do trabalho rural. i. Considerando as semelhanças e diferenças entre o SESTR e o SESMT, ainda vale expor sobre sua composição mínima, de acordo com os qua- dros a seguir, extraídos da Norma Regulamentadora nº. 31. Quadro 1 – Composição mínima do SESTR Próprio e Externo (A) e Coletivo (B) (A) Nº DE TRABALHADORES PROFISSIONAIS LEGALMENTE HABILITADOS ENG. SEG. MÉD. TRAB. TÉC. SEG. ENF. TRAB. AUX. ENF. 51 a 150 – – 1 – – 151 a 300 – – 1 – 1 301 a 500 – 1 2 – 1 501 a 1000 1 1 2 1 1 Acima de 1000 1 1 3 1 2 (B) Nº DE TRABALHADORES PROFISSIONAIS LEGALMENTE HABILITADOS ENG. SEG. MÉD. TRAB. TÉC. SEG. ENF. TRAB. AUX. ENF. Até 500 1 1 2 1 1 500 a 1000 1 1 3 1 2 Acima de 1000 2 2 4 2 3 Fonte: MTPS (2016, on-line)1. Comissão Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho Rural (CIPATR) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 165 Da mesma forma que para o SESMT, não existe a obrigação da inserção de Tecnólogos em Segurança do Trabalho, contudo, devemos levar em conside- ração que a última revisão da NR-31 ocorreu em 2013, quando esta profissão não estava tão difundida. Espera-se que para as próximas revisões, exista a pos- sibilidade de inserção desses profissionais, levando-se em conta sua relevante contribuição no que tange à saúde ocupacional e segurança do trabalho. COMISSÃO INTERNA DE PREVENÇÃO DE ACIDENTES DO TRABALHO RURAL (CIPATR) A Comissão Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho Rural (CIPATR) é mais um órgão de segurança do trabalho rural com grande similaridade àquele consolidado por meio da Norma Regulamentadora nº. 5: Comissão Interna de Prevenção de Acidentes. Em termos gerais, sua formação, por meio de processo eleitoral e atribuições são bastante semelhantes a uma CIPA convencional. Todavia, existem algumas diferenças, a saber: a. Para constituir CIPATR, o empregador deve contar com 20 ou mais cola- boradores contratados por tempo indeterminado. Ademais, a composição da CIPATR é variável de acordo com as condições ilustradas por meio do Quadro 2. Quadro 2 – Composição mínima da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho Rural, de acordo com o número de colaboradores da empresa rural Nº DE TRABALHADORES 20 A 35 36 A 70 71 A 100 101 A 500 501 A 1000 ACIMA DE 1000Nº DE MEMBROS Representantes dos trabalhadores 1 2 3 4 5 6 Representantes do empregador 1 2 3 4 5 6 Fonte: MTPS (2016, on-line)1. ©shutterstock ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E166 b. Aqueles estabelecimentos que possuem menos de 20 colaboradores con- tratados por tempo indeterminado, mesmo que possuírem safristas em elevado número, não necessitam constituir CIPATR (nesse caso, as estra- tégias de Saúde Ocupacional e Segurança do Trabalho ficarão a cargo do profissional contratado para esta finalidade, sendo ele minimamente um Técnico de Segurança do Trabalho). c. O mandato dos cipeiros em uma CIPATR possui dois anos, podendo ser renovável por mais dois anos apenas uma vez. d. O coordenador da CIPATR é escolhido pelo empregador, considerando o primeiro ano de mandato e pelos empregadores, no segundo ano. e. Quaisquer alterações no dimensionamento da CIPATR deverão ser encaminhadas às Delegacias Regionais do Trabalho – DRT´s para acom- panhamento e anuência. f. Também existe a questão da imunidade trabalhista, todavia, a norma não é clara no que tange a um período específico após o termino do man- dato do trabalhador cipeiro. Apenas para efeito de comparação, o cipeiro regido pela NR-5 não pode ser demitido sem justa causa durante o seu mandato e 12 meses após o seu fim. Assim, interpreta-se que o trabalha- dor rural cipeiro só poderá ser demitido sem justa causa após o final de seu mandato. Além de contribuir ativamente para que os princípios de Segurança do Trabalho sejam estabelecidos nas empresas rurais, a CIPATR tem um papel fundamen- tal em reduzir ao máximo os riscos das distintas atividades agrícolas, as quais já foram bem caracterizadas por meio de nossas discussões anteriores. Infelizmente, dado o grau de informalidade das empresas agrícolas, não se visualiza com muita frequência a formação de tal órgão. Além disso, em muitos casos a CIPATR não atua de maneira plena a diminuir os entraves que possam representar os riscos ao trabalho dadas as características dos próprios trabalhadores rurais que, com baixo nível educacional, não são capazes de estabelecer uma análise sistêmica dos traba- lhos conduzidos em suas empresas. ©shutterstock Os Agrotóxicos Segundo a NR-31 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 167 OS AGROTÓXICOS SEGUNDO A NR-31 Os agrotóxicos representam um dos pilares da agricultura contemporânea. Tais compostos químicos nasceram a partir da indústria química, em 1929, a qual lançou o ácido fenoxiacético, produto sintético ao ácido indolacético, o qual possui a função de estimular o crescimento primário(em altura) das plantas. Tal ácido faz parte do grupo dos organofosforados e foi densamente utilizado na Segunda Guerra Mundial, onde ganhou seu “campo de provas” e também da Guerra do Vietnã, onde foi utilizado pelo exército dos Estados Unidos da América para promover a desfolha de árvores da selva vietnamita, tudo com o intuito de melhor visualizar os soldados daquele país (Vietcong). Tendo sido melhorado nos campos de guerra, os agrotóxicos ganharam maior ênfase em seu desenvolvimento a partir da década de 1970, com o apri- moramento dos estudos sobre seus mecanismos de ação. Atualmente, os agrotóxicos se dividem entre (RADOLL, 2012): ■ Herbicidas (que controlam plantas invasoras). ■ Fungicidas (que controlam fungos causadores de doenças em plantas). ■ Inseticidas (que controlam insetos que podem causar moléstias às plantas). ■ Acaricidas (controladores de ácaros vetores de doenças). ■ Nematicidas (controladores de nematoides de solos). ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E168 ■ Bacteriostáticos e fungiostáticos (mantenedores do número de indiví- duos das populações de bactérias e fungos). ■ Reguladores de crescimento (análogos sintéticos aos fitormônios). ■ Adjuvantes (que atuam no sentido de quebrar a tensão superficial das gotas de caldas de agrotóxicos). ■ Surfactantes (que atuam no sentido de quebrar a tensão superficial das gotas das caldas de agrotóxicos e fisiologicamente, facilitando a penetra- ção das caldas nos indivíduos-alvo). ■ Óleos minerais (espalhantes que além de quebrar a tensão superficial das gotas das caldas de agrotóxicos, também atuam na formação de uma pelí- cula lipofílica que protege as moléculas das caldas de agrotóxicos quando inseridas na superfície das folhas das plantas-alvo). Todos esses produtos são largamente utilizados no modelo convencional de agri- cultura, considerando o manejo das principais culturas, em especial, em grandes áreas de produção de cereais. Existe uma grande discussão sobre a sustentabilidade da atividade agrope- cuária e sua relação com o uso dos agrotóxicos. Aqueles que defendem seu uso e se pautam no fato de que as dosagens desses agrotóxicos têm sido reduzidas drasticamente desde sua inserção, há quase 50 anos. Para se ter uma ideia, os antigos produtos à base de organofosforados (a exemplo do herbicida 2,4-D) possuíam uma concentração em calda de cerca de 5%. Isto representava o uso de 30 litros de 2,4-D em um tanque de pulverização de 600 litros. Atualmente, obtém-se a mesma eficiência ou até eficiências maio- res de controle de plantas invasoras com a utilização de caldas entre 0,5 e 1,0% (3 a 6 litros de agrotóxico em calda de 600 litros), segundo Oliveira Júnior (2014). Todavia, o uso indiscriminado de tais agrotóxicos, sem o receituário agro- nômico correspondente e ainda, o mau manejo do uso das caldas (aplicações sequenciais do mesmo mecanismo de ação, o que pode gerar o aumento de indivíduos resistentes aos respectivos controles) tem gerado uma contami- nação ambiental e mesmo um problema de saúde humana, que pode possui ligação com casos de cânceres, distúrbios neurológicos e problemas respirató- rios (SOUZA, 2008). Os Agrotóxicos Segundo a NR-31 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 169 Independente da visão, os agrotóxicos não possuem esse nome ao acaso. Tratam-se de substâncias químicas tóxicas ao ambiente e ao organismo humano. Considerando a toxicidade de tais agrotóxicos, a Figura 1 apresenta a categori- zação dos agrotóxicos de acordo com seu grau de toxicidade: CLASSE GRAU COR DA FAIXA Classe I Extremamente tóxicos Vermelha Classe II Altamente tóxicos Amarela Classe III Medianamente tóxicos Azul Classe IV Pouco tóxicos Verde Figura 1 – Classes toxicológicas dos agrotóxicos, segundo a NR-31 Fonte: Monografias ([2016], on-line)2. Considerando o seu elevado grau de toxicidade, Souza (2008) destaca as seguin- tes restrições para a manipulação de tais produtos: ■ A manipulação de agrotóxicos é proibida para gestantes, idosos acima de 60 anos e menores de idade. ■ Também se proíbe a manipulação de agrotóxicos que não possuam registro no Estado ou que não possuam recomendação para casos específicos (por exemplo, que não possuam registro para o uso em uma determinada cultura). ■ Proíbe-se também o uso de agrotóxicos em áreas recém-tratadas (o uso só é permitido após o tempo mínimo de reentrância). ■ Não se permite ainda a permanência de pessoas nas áreas que estão sendo tra- tadas via pulverização aérea ou mesmo na projeção das pulverizações terrestres, considerando a aplicação por pulverizadores de barra ou por outros sistemas. Ademais, sempre vale salientar que além das capacitações inerentes ao correto uso e manipulação dos agrotóxicos, é função do empregador fornecer todos os equipamentos de proteção individual necessários ao isolamento do corpo do trabalhador, reduzindo ao máximo o contato deste com as caldas agrotóxicas. ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E170 A Figura 2 demonstra o correto conjunto de EPI´s a serem utilizados pelos trabalhadores que manipulam e aplicam as caldas de agrotóxicos: Ca rg a e de sc ar ga e m a rm az én s Va rr eç ão d os a rm az én s Lí qu id o Se m en te s tr at ad as G ra nu la do d e so lo Pó s ec o Pó m ol há ve l/G râ nu lo s W G Em ba la ge m h id ro -s ol úv el Is ca g ra nu la da Co st al Co st al m ot or iz ad o M an gu ei ra G ra nu la de ira Lí qu id o G ra nu la do Tu rb o Se m en te s A ba st ec im en to d e ae ro na ve s Te rm o- ne bu liz aç ão Operações Capacete Boné Árabe Protetor de ouvido Viseira facial Respirador Calça hidro-repelente Jaleco hidro-repelente Avental impermeável Botas impermeáveis Luvas impermeáveis Botas com biqueira Manuselo/Dosagem Relação Operação x EPI x Exposição Aplicação Tratorizada Aplicação AéreaAplicação Manual Figura 2 – Relação de EPI´s a serem utilizados de acordo com a operação e o nível de exposição Fonte: ANDEF ([2016], on-line)3. A Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF) é uma entidade com ex- pertise na área de agrotóxicos. Essa expertise é traduzida por meio de seu sistema educacional, chamado ANDEFedu, no qual essa associação forne- ce gratuitamente aos profissionais da área de agrárias e de Segurança do Trabalho, cartilhas que auxiliam nos processos de capacitação dos trabalha- dores rurais. Acesse esses materiais pelo seguinte endereço, disponível em: <http://www.andefedu.com.br/publicacoes/manuais>. Fonte: o autor. Os Agrotóxicos Segundo a NR-31 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 171 Quanto aos agrotóxicos, algumas questões ainda precisam ser elucidadas, a saber: ■ Os agrotóxicos não podem ser transportados em conjunto com traba- lhadores rurais, exceto quando o compartimento de transporte estiver vedado e isolado do acesso a estes trabalhadores. ■ Em termos de armazenagem, se permite o armazenamento em locais devidamente sinalizados (abrigos), os quais possuem característicasde projeto bem consolidadas frente às demais construções. Por fim, considerando o uso dos agrotóxicos, existe a restrição de uso opera- cional dada pelo Receituário Agronômico. Sem esse receituário, emitido por um Engenheiro Agrônomo habilitado, não se tem a permissão para o uso de Agrotóxicos: atente-se a isso! A análise sobre o uso de agrotóxicos é bastante extensa e poderíamos dedicar horas e horas para falar a respeito de todos os mecanismos de ação e de todos os aspectos relacionados à sua toxicologia, todavia, a NR-31 possui muitos outros aspectos a serem discutidos e não é nossa intenção nos aprofundarmos nessa temática. Caro(a) aluno(a), para conhecer esse universo tão vasto dos agrotóxicos, acesse nossos materiais complementares, vídeos e links (Saiba Mais). Para conhecer melhor sobre as características construtivas dos abrigos de armazenamento de agrotóxicos, acesse o seguinte endereço: <http://www. andefedu.com.br/uploads/img/manuais/arquivo/ANDEF_MANUAL_DE_ PRODUTOS_FITOSSANITARIOS_WEB.pdf>. Fonte: o autor. ©shutterstock ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E172 MÁQUINAS, EQUIPAMENTOS, IMPLEMENTOS E FERRAMENTAS AGRÍCOLAS Considerando o disposto na Norma Regulamentadora 31, podemos considerar que no quesito Máquinas, Equipamentos, Implementos e Ferramentas existem uma grande aproximação com o disposto nas Normas Regulamentadoras nºs, 12 (Segurança no Trabalho em Máquinas e Equipamentos) e 10 (Segurança em Instalações e Serviços em Eletricidade). No que tange às máquinas agrícolas, fazemos um especial destaque ao trator, considerado por muitos como a máquina mais versátil utilizada no campo. Os tratores tiveram sua invenção na época da Revolução Industrial (século XIX) e ganharam evoluções significativas a partir da tecnologia bélica (SANTOS FILHO; SANTOS, 2001, on-line)4. Atualmente, os tratores são utilizados em empresas rurais de média a ele- vada tecnologia, geralmente tracionando implementos (os quais dependem da sua força motriz para funcionar) ou mesmo carretas de transporte de trabalha- dores rurais. Em conjunto aos tratores, temos as colhedoras, distribuidores de adubos, pulverizadores autopropelidos, triciclos e quadriciclos como as principais máqui- nas sendo utilizadas em campo (SANTOS FILHO; SANTOS, 2001, on-line)4. Máquinas, Equipamentos, Implementos e Ferramentas Agrícolas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 173 De forma geral, a NR-31 estabelece, da mesma forma que a NR-12, que existe uma necessidade em se enclausurar as partes móveis de tais máquinas, de maneira a não permitir o acesso dos trabalhadores rurais às partes que lhes possam causar danos físicos. Ademais, o conceito dessas proteções se estende também às transmissões de força, como eixos-cardã, polias, correias, correntes, tomada de potência (tra- tores) e eixos hidráulicos (como os pontos do hidráulico do trator). A Figura 3 ilustra algumas destas partes móveis das máquinas agrícolas: (A) (B) Figura 3 – Exemplos de transmissões de força e partes móveis em máquinas agrícolas: (A) – Tomada de Potência do Trator e Braços do Hidráulico; (B) Transmissões de Força (correias) em colhedora de feijão Fonte: Sestr ([2016], on-line)5 e MF Rural ([2016], on-line)6. Outro ponto importante está na associação dessas transmissões de força com sistemas hidráulicos, seja para o direcionamento das máquinas ou mesmo para a movimentação de sistemas auxiliares. Para esses casos, o enclausuramento se faz necessário levando-se em consideração o potencial de acidentes com líqui- dos quentes em alta pressão. Essas partes da máquina só podem ser acessadas com a máquina totalmente imóvel e desligada. Ademais, esse acesso só pode ser feito por pessoa especializada em manutenção de máquinas agrícolas. Todo o acionamento de máquinas bem como sua movimentação exigem sina- lização sonora. Isto se faz necessário especialmente com as colhedoras, levando-se em consideração que elas possuem movimentação independente de dispositivos, como molinete, correias/esteiras, elevadores e saca-palha. Dessa forma, buzinar ou acionar a sinalização de emergência se faz necessário para que os demais tra- balhadores percebam esse acionamento e a movimentação da máquina. A leitura do manual, bem como a manutenção preventiva das máquinas é outra necessidade. Em termos de manutenção preventiva, torna-se necessário (SANTOS FILHO; SANTOS, 2001, on-line)4: ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E174 a. Verificar os níveis dos líquidos de arrefecimento e óleos lubrificantes. b. Verificar a tensão das correias nas transmissões de força, bem como das correntes. c. Preencher os pinos graxeiros indicados ao longo das máquinas agrícolas, preenchendo os pinos até o extravasamento de graxa (esse extravasamento se faz necessário, no sentido de eliminar a graxa impregnada por mate- riais particulados que podem elevar o atrito das partes móveis). d. Trocar periodicamente os filtros de ar, combustível e óleo lubrificante. e. Avaliar o estado dos lastros frontais e de rodados. f. Completar o nível do tanque de combustível sempre ao final das ativida- des do dia, no sentido de evitar a evaporação de água do combustível e a consequente corrosão interna do tanque. g. Avaliar todos os indicadores do painel luminoso e/ou o computador de bordo das máquinas mais modernas, efetuando um diagnóstico sistêmico para avaliar possíveis falhas nos sistemas. h. Avaliar o desgaste natural das peças da cabine, bem como de pedais e outros dispositivos. Outras recomendações se fazem necessárias: i. Sempre visualizar os pictogramas e verificar o seu significado no manual de instruções da máquina. São exemplos de pictogramas os dispostos na Figura 4: Figura 4 – Exemplos de pictogramas Fonte: Dia de Campo ([2016], on-line)8 e Dia de Campo ([2016], on-line)9. ©shutterstock Máquinas, Equipamentos, Implementos e Ferramentas Agrícolas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 175 j. Utilizar obrigatoriamente o cinto de segurança, mesmo que o trator ou colhedora sejam cabinados. Esse dispositivo de segurança garante a integri- dade física do trabalhador rural principalmente em casos de tombamento da máquina, associados à barra anticapotamento no teto dos tratores e colhedoras. k. Não trafegar em estradas pavimentadas: muitos empregadores permi- tem com que os trabalhadores rurais dirijam suas máquinas em estradas pavimentadas, cometendo, inclusive, infração de trânsito, uma vez que no Brasil o Contran proíbe essa prática. Ademais, as máquinas agrícolas precisam ser transportadas em caminhões-prancha de um estabeleci- mento rural a outro, tomando-se todas as medidas cabíveis para que o transporte se dê de forma segura. l. Não transportar pessoas nas cabines das máquinas agrícolas se não hou- ver assento específico para isso. Não permitir ainda que as pessoas sejam transportadas fora da cabine, sobre os para-lamas ou mesmo apoiados nos braços do hidráulico do trator (essa cena é mais comum do que se imagina). m. Para operação de máquinas em movimento ou estacionárias, o emprega- dor rural ou preposto (geralmente o SESTR) deverá oferecer capacitação com carga horária mínima de 24 horas (oito horas diárias), oferecendo a ementa mínima descrita no item 31.12.76 (MTPS, 2016) e acapacita- ção deverá ser ofertada sempre antes do trabalhador rural assumir seu posto de trabalho com a máquina. Recomenda-se também que a capaci- tação em questão seja ofertada sempre que houver a entrega técnica de uma nova máquina no estabelecimento rural. Algumas dessas recomendações servem também para implementos agrícolas. Entende-se por “imple- mento” todo o equipamento agrícola que não possui movimentação pró- pria. Para movimentação ou execução do trabalho, há a necessidade de tra- ção ou empréstimo de força partindo de uma máquina, como um trator. ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E176 São exemplos de implementos agrícolas (SANTOS FILHO; SANTOS, 2001, on-line)4: ■ Roçadeira: implemento que possui a função de roçar o material vegetal. ■ Semeadora/adubadora: implemento que possui a função conjugada de adubar em sulco e distribuir as sementes no mesmo sulco. ■ Distribuidora de adubos/calcário: implemento que possui a função de distribuir calcário e adubos a lanço. ■ Grade aradora/niveladora: implementos que tem por função preparar o solo em sistemas de plantio convencional. ■ Arado (aiveca ou de disco): implemento que possui a função de “tom- bar” ou revolver as camadas superficiais de solo. ■ Rolo-faca: implemento que tem por função incorporar restos vegetais na superfície do solo. ■ Plaina para plantios de arroz: implemento que possui a função de aplai- nar a superfície das quadras de plantio de arroz inundado. ■ Ensiladeira: implemento que permite triturar materiais vegetais para ali- mentação animal. ■ Carreta de transporte. ■ Pulverizador de barras: implemento que pulveriza as caldas de agrotóxicos. ■ Encanteiradeira: implemento que enleira o solo para a formação de can- teiros de horticultura. ■ Subsolador/Escarificador: implemento utilizado para descompactar os solos em subsuperfície. Todos esses implementos possuem particularidades que devem ser avaliadas em cada caso, de maneira a se adotar as práticas de segurança do trabalho mais adequadas, isolando as fontes de risco, reduzindo-os ao máximo e tornando a operação segura. ©shutterstock Máquinas, Equipamentos, Implementos e Ferramentas Agrícolas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 177 Caso as carretas sejam utilizadas para transportar trabalhadores rurais, é importante considerar as recomendações de MTPS (2016, on-line)1, que é claro ao afirmar que tais carretas devem possuir proteção contra intempéries (cober- tura), bancos almofadados, cintos de segurança e escadas que permitam a subida e descida seguras dos trabalhadores. Carreta não é trio elétrico! Todos devem ser transportados sentados e com os cintos de segurança afivelados. Outro detalhe: nada de gambiarras! As adaptações de máquinas ou imple- mentos são proibidas. Apenas as máquinas homologadas por institutos de metrologia podem ser utilizadas nos estabelecimentos rurais e urbanos. Ademais, máquinas e implementos importados podem ser utilizados nesses estabeleci- mentos, desde que seus manuais estejam em língua portuguesa e ainda, que essas máquinas e implementos estejam liberados para uso por órgão competente como: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Ministério do Trabalho, Emprego e Previdência Social (MTPS) e Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Por sua vez as ferramentas devem estar em bom estado de conservação, em especial em seus cabos (cabos de enxadas, pás, ancinhos, foices, facas, facões e outras ferramentas), os quais devem ser feitos de material antiderrapante, per- mitindo uma boa apreensão por parte do trabalhador rural. Ademais, caso a ferramenta possua região de corte, torna-se fundamental manter tal região devi- damente afiada, daí a necessidade de o empregador rural fornecer as ferramentas em condições de uso ou fornecer meios (amolador/afiador) para que o traba- lhador rural possa preparar adequadamente sua ferramenta (RADOLL, 2012). Por fim, caro(a) aluno(a), nesta seção, destacamos os equi- pamentos agrícolas. De forma geral, os equipamentos são carac- terizados por produzirem força própria para a execução de seu trabalho. Eles diferem das máqui- nas agrícolas unicamente pelo porte (são de porte reduzido, semelhantes às ferramentas). ©shutterstock ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E178 Todos os equipamentos seguem as diretrizes próprias da NR-31 e da NR-12, considerando dispositivos coletivos de segurança, isolamento elétrico, pegado- res, acionadores e proteções/enclausuramento das partes móveis. Especial destaque deve ser feito aos trabalhos com motosserras e motopo- das. Além de todas as características já mencionadas, o empregador ou preposto deverá oferecer uma capacitação aos operadores desse equipamento de, no mínimo, oito horas, de maneira a fazer com que o trabalhador rural tenha o tra- quejo necessário à sua operação, bem como possa reconhecer os dispositivos de segurança pertinentes à este equipamento (pino pega-corrente, proteção para as mãos, freio manual, trava de segurança do acelerador (MTPS, 2016, on-line)1. Voltamos a salientar que não exploramos os máximos detalhes que pode- ríamos explorar sobre a NR-31. Esses são seus aspectos principais por grandes tópicos, de maneira que recomendamos, enfaticamente, que você possa ler a Norma Regulamentadora em sua íntegra, para conhecer as minúcias sobre cada tema. OUTRAS DIRETRIZES DEFINIDAS PELA NR-31 Até aqui, caro(a) aluno(a), definimos os diferenciais mais eloquentes da NR-31, considerando as atividades de caráter peculiar. Porém, existem outras diretrizes na NR-31 que em muito se aproximam das diretrizes definidas por outras nor- mas antecessoras, o que reforça a necessidade em se conhecer todo o conjunto das Normas Regulamentadoras para apli- cá-lo às atividades agrícolas. São tópicos mais genera- listas ligados à NR-31 e que se assemelham às normas antecessoras: Perspectivas Sobre a Segurança do Trabalho Agrícola Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 179 a. Acessos e vias de circulação: possui diretrizes semelhantes às da NR-12 (Segurança em Máquinas e Equipamentos). b. Ergonomia: possui diretrizes semelhantes à própria NR-17, em especial, no que tange ao transporte, levantamento de cargas e adaptações ergonô- micas de postos de trabalho. c. Edificações Rurais, Instalações Elétricas, Abrigos, Áreas de Vivência, Locais para refeições, Alojamentos, Lavanderias: possuem diretrizes semelhantes às da NR-18, levando-se em consideração a manutenção do bem-estar e das condições sanitárias aos trabalhadores rurais. d. Equipamentos de Proteção Individual (EPI): possui diretrizes seme- lhantes às dispostas na NR-6. Além dessas disposições semelhantes às normas predecessoras (com poucos incre- mentos específicos), destacamos alguns itens da NR-31 que abriram caminho para a criação das Normas Regulamentadoras predecessoras. Falamos respecti- vamente do item “Silos e Secadores” (tratados com bastante ênfase por meio da NR-33, discutida em nossa Unidade III) e do item “Trabalhos com Animais” (tra- tado com bastante ênfase também por meio da NR-36, tratada em nossa quarta unidade, fazendo-se o adendo que este item na NR-31 também trata sobre ani- mais vivos e não somente sob abate ou processamento). PERSPECTIVASSOBRE A SEGURANÇA DO TRABALHO AGRÍCOLA Em princípio devemos nos ater ao fato de que já temos um conjunto de Normas Regulamentadoras que cerca muito bem a grande variedade de trabalhos agrícolas. Outrossim, devemos considerar que todas essas normas discutidas com ênfase em nossas três últimas unidades são recentes (as neo-normas), algumas delas inclu- sive, com revisões recentes (2013 para a NR-31, 2012 para a NR-33 e 2016 para a NR-36), de maneira que não devemos esperar grandes alterações em curto prazo. ASPECTOS GERAIS DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 31 Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E180 Ademais, mesmo que o ambiente agrícola seja dinâmico em suas atividades, parece haver uma estabilização no nível de diferenciação ou especialização das atividades. Podemos inferir que se trata de um setor da economia que está encon- trando sua maturidade, da mesma forma que o setor industrial já encontrou nas décadas passadas. Isso não quer dizer que não há a necessidade de avanços. Avanços são neces- sários muito mais no campo da fiscalização e também no campo da formalização do trabalho agrícola. De maneira oficial, só podemos falar em aplicabilidade das NR´s quando a empresa agrícola é formalizada. Quando não se percebe a formalização da empresa agrícola, algo muito veri- ficado no meio rural, também não existe a percepção da aplicação do disposto nas normas. Aliás, pouquíssimos elementos de segurança do trabalho são elencados em casos de empresas informais. Geralmente, apenas os mais básicos, como a utili- zação dos EPI´s, difundida com base nas experiências de Assistência Técnica e Extensão Rural é que encontram campo fértil para sua aplicação. Assim, concluímos que também é necessária uma maturidade no processo de formalização das empresas rurais, o que garantiria a aplicação plena das dire- trizes dispostas nas NR´s, de maneira a, de fato, criar uma cultura prevencionista onde o ser humano é o maior beneficiário das práticas seguras no trabalho. Temos ainda muito campo para se trabalhar na área rural. Os Tecnólogos em Segurança do Trabalho, junto aos profissionais tradicionais da área tendem a estabelecer ações e contribuições significativas para alavancar a Segurança do Trabalho Agrícola, considerando os fatores aqui discutidos. Ademais, os con- sumidores também estão de olho nas formas com as quais os alimentos são produzidos tanto do ponto de vista da Segurança Alimentar e Nutricional como da própria Segurança do Trabalho. O aumento das exigências para que as empresas se tornem cada vez mais conscientes e responsáveis do ponto de vista social também impulsionam à neces- sidade de se estabelecer modelos produtivos mais seguros e que garantam a tão necessária qualidade de vida aos trabalhadores rurais. Assim, a segurança do trabalho agrícola tende a ter uma evolução significa- tiva nos próximos anos. Fique de olho! Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 181 CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado(a) aluno(a), ao final desta unidade, tivemos a clara percepção de estarmos lidando com uma das Normas Regulamentadoras mais completas do conjunto das atuais 36 normas. A NR-31 apresenta diretrizes específicas para grande parte das atividades agropecuárias ao mesmo tempo em que flerta com as Normas Regulamentadoras mais antigas. Isto fica evidente mediante a análise dos riscos químicos proporcionados pela aplicação dos agrotóxicos e sua proximidade com a insalubridade, algo verificado por meio da Norma Regulamentadora nº. 15. Da mesma forma, ao se analisar as máquinas, equipamentos e implementos agrícolas, verificamos uma proximidade com a Norma Regulamentadora nº. 12, em especial, quando se consideram as proteções às partes móveis das máquinas agrícolas e suas transmissões de força (tomada de potência, eixos cardãs, polias, correias, correntes etc.). Também são riscos destacáveis abordados pela NR-31 os físicos e biológicos, levando-se em consideração se tratar de atividades realizadas preponderante- mente em espaços abertos. São tantos riscos relacionados às atividades agrícolas que precisaríamos de um compêndio para destacar de forma detalhada cada risco e suas respectivas formas de mitigação. Todavia, a Segurança do Trabalho Agrícola, regida pela NR-31 ganhou dis- positivos importantes não somente para o cumprimento do disposto na norma, mas também para a criação e adaptação de princípios de segurança já existentes, sendo isso realizado por uma ativa CIPATR e, principalmente, por um SESTR. Tais órgãos ativos, em conjunto com a participação cada vez maior de empre- gados e empregadores rurais pode garantir uma redução definitiva dos riscos nas atividades agrícolas, estabelecendo patamares mais seguros para a realiza- ção dos trabalhos nessa área econômica de ampla relevância em nível nacional. Nos últimos tempos houve muitas mudanças nos dispositivos legais e mes- mo nas práticas de trabalho, o que ampliou a segurança do trabalho agrícola a patarames de destaque. Porém, ainda devemos ficar atentos em realizar o máximo para que os riscos ocupacionais neste contexto sejam minimizados. 182 1. Sobre Máquinas, equipamentos e implementos agrícolas, sobre a dinâmica his- tórica da produção de alimentos e sua relação com a Segurança e Saúde do Tra- balho, é correto afirmar: a. O ser humano historicamente contou com uma produção autossuficiente de alimentos e as máquinas, equipamentos e implementos agrícolas foram concebidos dentro de rígidas normas de segurança, datadas do século XIX e utilizados para potencializar esta produção. b. Chama-se “Implemento Agrícola” todo equipamento que é automotriz, ou seja, que gera a força necessária ao seu movimento. c. Os equipamentos agrícolas foram concebidos a partir do século XIX, sendo um reflexo da Teoria Malthusiana e representando ainda, uma visão tecnicis- ta de resolução dos entraves ligados à produção de alimentos, sem conside- rar princípios básicos para a segurança e preservação da saúde dos trabalha- dores. d. Chama-se “Máquina Agrícola” todo o equipamento tracionado por outro e que depende deste movimento para exercer sua função. e. Nenhuma das alternativas anteriores está correta. 2. Assinale a alternativa que melhor qualifica o Trabalhador Rural e sua relação com os profissionais de Segurança e Saúde do Trabalho. a. Dados os avanços sociais e econômicos da última década, os trabalhadores do meio rural encontram-se plenamente capacitados à operação de máqui- nas, equipamentos e implementos agrícolas, mesmo aqueles que se utilizam de alta tecnologia. Tal fato representa um anacronismo dos princípios básicos da NR 31, ou ainda, esta norma já não se reporta à realidade do Trabalhador Rural contemporâneo. b. Os profissionais de Segurança e Saúde do Trabalho, além dos aspectos téc- nicos, devem desenvolver competências ligadas às relações humanas e a co- municação, uma vez que lidam com um público (trabalhadores rurais) que apresentam diferentes características pessoais, níveis de conhecimento, cul- turas e saberes. c. De acordo com dados apresentados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as atividades econômicas nos estabelecimentos rurais são aquelas que apresentam os menores índices de acidentes de trabalho. Isto é resultado da ação intensa dos profissionais de Segurança e Saúde do Trabalho, especial- mente após a promulgação da Lei Federal 4.589/92, a qual penaliza crimi- nalmente o Engenheiro ou Técnico de Segurança do Trabalho responsável, na ocorrência de acidentes, com penas que podem chegar a oito anos de reclusão. 183 d. O fato mencionado acima está correto.Todavia, sua justificativa está errada, uma vez que o número de acidentes é baixo por conta das atividades rurais possuírem um reduzido risco. e. Caracteriza-se por “Trabalhador Rural” aquele que exerce suas atividades como agricultor e empregado em estabelecimentos rurais e empresas agrí- colas, ainda que localizadas em zonas urbanas (por exemplo, Cooperativas Agroindustriais). 3. Julgue os itens e a seguir, assinale a alternativa correta: I. O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) permite o tráfego de má- quinas agrícolas em vias de trânsito rápido, desde que a distância percorrida não comprometa o trânsito dos demais veículos. II. Os tratores apresentam uma ampla versatilidade de uso, sendo um dos mais frequentes, como meio de transporte. Quanto a isso, é permitido o transporte de pessoas na cabine (além do tratorista) e nas chamadas “carretinhas”, aco- pladas à barra de tração. III. O trator pode ser utilizado como meio de transporte, desde que se obedeça às determinações da NR 31 e do Código de Trânsito Brasileiro. Nesse caso, admite-se o uso do trator como tracionador de cabines de transporte, que devem conter, dentre outros itens, cintos de segurança, assentos almofada- dos com encosto e cobertura. IV. No transporte de passageiros e, especialmente no transporte de cargas, os tratoristas devem se atentar à manutenção de uma velocidade constante. Para isso, torna-se necessária a utilização do acelerador de mão (que se en- contra no painel dos tratores e é responsável por fixar a rotação do motor), a escolha e uso de uma única marcha e o travamento dos pedais de freio, o que evitaria freadas bruscas e direcionadas à esquerda ou à direita. V. O Tecnólogo de Segurança do Trabalho poderá atribuir a um motorista a fun- ção de tratorista, sem maiores exigências, uma vez que o mesmo já possui experiência na condução de veículos. a. Somente a alternativa I está correta. b. Somente a alternativa II está incorreta. c. Somente as alternativas III e IV estão corretas. d. As alternativas I, II e V estão incorretas. e. A alternativa II está correta e a alternativa III apresenta-se como justificativa da alternativa anterior. 184 4. Considerando a importância do uso de múltiplas linguagens nas estratégias de capacitação dos trabalhadores rurais e para a rápida transmissão da informação, assinale a alternativa que apresenta a melhor tradução para os símbolos a seguir: I) ; II) ; III) a. I – Ler é aprender; II – Obrigatoriedade do uso de cinto de segurança; III – Risco de acidentes com o eixo de uma máquina. b. I – Estude antes de operar um equipamento; II – Cuidado tratorista: o trator pode tombar em terrenos inclinados; III – Peça ajuda quando você se enrolar. c. I – Ler o manual de instruções; II – Obrigatoriedade do uso de cinto de segurança em Tratores; III – Risco de acidentes com o eixo cardã. d. I – Ler o manual de instruções; II – Risco de capotamento; III – Risco de acidentes com a barra de direção de colhedoras. e. I – Estude antes de operar um equipamento; II – Risco de capotamento; III – Risco de acidentes com o eixo cardã. 5. As motosserras são equipamentos densamente utilizados nas atividades ru- rais considerando a retirada de excedentes de materiais vegetais. Todavia, são equipamentos que oferecem riscos aos operadores e necessariamente precisam de dispositivos de segurança que reduzam as possibilidades de acidentes. Um desses dispositivos é capaz de evitar o rebote da corrente, reduzindo as possi- bilidades de seu chicoteamento contra o operador. Assinale a alternativa que apresenta o nome correto deste dispositivo de segurança. a. Pino pega-corrente b. Freio Manual c. Protetor de mão d. Capa e. Trava de segurança do acelerador 185 NR 31 – Segurança e saúde no trabalho na Agricultura, Pecuária, Silvicultura, Exploração Florestal e Aquicultura O empregador deve garantir adequadas condições de trabalho, higiene e conforto, avaliar riscos e adotar as medidas cabíveis juntamente com a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalhador Rural (CIPATR). Instruir os trabalhadores sobre riscos, direitos e deveres em segurança e saúde. Informar resultados dos exames médicos e avaliações am- bientais. Permitir que um representante dos trabalhadores acompanhasse a fiscalização. Os empregados devem informar quando existir grave e iminente risco para sua seguran- ça e saúde e escolher seu representante. Como prevenir acidentes de trabalho baseados na NR 31 visto o fundamento pelo qual se deve proteger a saúde dos trabalhadores não só do campo mais em qualquer trabalho realizado, passo ao exame de algumas das inú- meras normas regulamentadoras da NR 31, para definir sua aplicabilidade nas relações de trabalho no campo, à luz do princípio ontológico da dignidade humana. Pois bem, de acordo com a NR 31, cabe ao empregador rural ou equiparado cumprir inúmeras providências para garantir a boa saúde de seus empregados. Destacam-se as seguintes: a. Realizar avaliações dos riscos para a segurança e a saúde dos trabalhadores e com base nos resultados obtidos, adotar as medidas de prevenção e proteção adequadas. b. Analisar com a CIPATR, as causas do acidente e as doenças decorrentes do trabalho, buscando prevenir e eliminar as possibilidades de novas ocorrências. c. Assegurar que sejam fornecidas aos trabalhadores instruções compreensíveis em matéria de segurança e saúde, bem como toda orientação e supervisão necessária ao trabalho seguro. d. Adotar medidas de avaliação e gestão dos riscos seguindo na ordem de eliminação dos riscos, controle de risco na fonte, redução do risco ao mínimo, adoção de medi- das de proteção pessoal no caso de persistirem os riscos. A prioridade, portanto é a eliminação de riscos a saúde, não o fornecimento de EPI’s, que é a última medida a ser tomada para a neutralização dos riscos caso não possam efetiva- mente, ser eliminados, controlados na fonte ou reduzidos ao mínimo. [...] As organizações, sendo elas públicas ou privadas são obrigadas a promover e respeitar as normas de segurança e medicina do trabalho. O objetivo da Norma Regulamentadora 31 consiste estabelecer os preceitos a serem observados na organização e no ambiente de trabalho, de forma a tornar compatível o planejamento e o desenvolvimento das ativida- des da agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e aquicultura com a seguran- ça e saúde e meio ambiente do trabalho. Para tanto, a Norma Regulamentadora se aplica a quaisquer atividades da agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e aqui- cultura, verificadas as formas de relações de trabalho e emprego e o local das atividades. 186 [...] Os empregadores rurais ou equiparados devem implementar ações de segurança e saú- de que visem à prevenção de acidentes e doenças decorrentes do trabalho na unidade de produção rural, atendendo a seguinte ordem de prioridade: eliminação de riscos atra- vés da substituição ou adequação dos processos produtivos, máquinas e equipamentos, adoção de medidas de proteção coletiva para controle dos riscos na fonte, adoção de medidas de proteção para os trabalhadores observando o uso de agrotóxicos, adju- vantes e produtos afins, ergonomia na utilização de ferramentas manuais, maquinas, equipamentos e implementos, observação das medidas de segurança em secadores de grãos, silos por meio de acesso e vias de circulação, no transporte de trabalhadores, transporte de cargas, trabalho com a animais, fatores climáticos e topográficos, medidas de proteção individual, edificações rurais, instalações elétricas a áreas de vivência. Por- tanto, as ações de segurança e saúde devem contemplar os seguintes aspectos: a. Melhoria das condições e do meio ambiente de trabalho. b. Promoção da saúde e da integridade física dos trabalhadores rurais pormeio de exames periódicos e o fornecimento do Atestado de Saúde Ocupacional (ASO). c. Campanhas educativas de prevenção de acidentes e doenças decorrentes do tra- balho. A NR 31 prevê a implantação, na propriedade rural, da CIPATR que tem como objetivo a prevenção de acidentes e doenças relacionados ao trabalho, de modo a tornar compatí- vel permanentemente o trabalho com a preservação da vida do trabalhador. O empregador rural ou equiparado que mantenha vinte ou mais empregados contrata- dos por prazo indeterminado fica obrigado a manter em funcionamento, por estabele- cimento, uma CIPATR. Nos estabelecimentos com número de onze a dezenove empregados, nos períodos de safra ou de elevada concentração de empregados por prazo determinado, à assistência em matéria de segurança e saúde no trabalho será garantida pelo empregador direta- mente ou por meio de preposto ou de profissional por ele contratado. Deverá ser criada a Comissão Permanente Regional Rural (CPRR) que será composta por: três representantes do governo, três representantes dos trabalhadores e três represen- tantes dos empregadores, que irão propor juntamente com a Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho Rural (CANPATR): estudos de acidentes e doenças, melhorar condições de trabalho e o aperfeiçoamento desta norma. 187 Contratação, consultoria ou manutenção de departamento de Serviço Especializado em Segurança e Saúde no Trabalho Rural (SESTR) que poderão ser: interno, quando os pro- fissionais mantiverem vinculo empregatício com o empregador, externo, que é a consul- toria por profissionais especializados e coletivo que é a contratação de profissionais por segmentos empresariais ou econômicos. O SESTR será composto por: profissionais de nível superior – Engenheiro de segurança do trabalho. Médico do trabalho e enfermeira do trabalho, profissionais de nível técnico – Técnico de segurança do trabalho e Auxiliar de enfermagem do trabalho. Fonte: Invecap ([2016], on-line)⁷. MATERIAL COMPLEMENTAR Segurança na Operação com Máquinas Agrícolas Leonardo de Almeida Monteiro e Daniel Albiero Editora: Imprensa universitária Sinopse: As máquinas agrícolas se apresentam como a principal força motriz das atividades agropecuárias. Com sua versatilidade, são capazes de executar uma diversidade de atividades que se estendem do plantio à colheita. Por serem máquinas e equipamentos que apresentam capacidade para o trabalho, alguns pontos ligados à segurança em sua utilização merecem destaque. Dessa forma, o livro “Segurança na Operação com Máquinas Agrícolas” apresenta uma grande contribuição ao desenvolvimento do conhecimento acerca da correta utilização e manutenção de tais máquinas, evidenciando o seu caráter prevencionista. Trabalhos na atividade fl orestal Derrubar árvores, recolher a madeira e replantar novas mudas são tarefas que quando executadas por máquinas trazem grande alívio ao trabalhador. Por outro lado, as novas tecnologias empregadas na atividade trazem novos riscos à segurança e saúde dos trabalhadores. Neste vídeo, a Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro) mostra que esses riscos podem ser minimizados com ações que passam pela organização do trabalho, manutenção periódica de máquinas e equipamentos e a sensibilização de empregadores e trabalhadores para a importância do cumprimento das normas e dos procedimentos de segurança. Disponível em: <https://youtu.be/0XmGCGfFp4Y>. Uso correto e seguro de Defensivos Agrícolas. Disseminando as Boas Práticas Agrícolas O fi lme aborda de forma didática temas importantes como os procedimentos corretos para aquisição de agrotóxicos, transporte, armazenamento, preparo da calda, lavagem das embalagens, aplicação e devolução dos recipientes dos produtos. Este vídeo é produzido pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF). Disponível em: <https://youtu.be/kW64JiwdVTK>. Manuais da Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF) O manejo de agrotóxicos é um dos temas fundamentais para qualquer profi ssional da área de ciências agrárias e de Segurança do Trabalho. Nesse contexto, a ANDEF, criou uma plataforma (ANDEF-EDU) para disponibilizar uma série de manuais que versam sobre o correto manejo dos agrotóxicos, desde seu transporte até sua armazenagem. Além disso, a temática “aplicação de agrotóxicos” também é destaque. Disponível em: <http://www.andefedu.com.br/publicacoes/manuais>. REFERÊNCIAS 189 OLIVEIRA JÚNIOR, R. S. Biologia e Manejo de Plantas Daninhas. 01. ed. São Paulo: OMNIPAX, 2014. RADOLL, G. F. P. Segurança Agrícola Rural. 01. ed. Curitiba: e-TEC/MEC. 2012. 232p. SOUZA, M. C. M. O meio ambiente do trabalho: A questão do trabalho rural nas usi- nas da região da Alta Sorocabana e Alta Paulista e o cumprimento da Norma Re- gulamentadora 31, referente à Segurança e Saúde no Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego. Tópos, 2(2):92-112, 2008. Referências on-line 1 Em: <http://www.mtps.gov.br/seguranca-e-saude-no-trabalho/normatizacao/nor- mas-regulamentadoras>. Acesso em: 13 set. 2016. 2 Em: <http://br.monografias.com/trabalhos3/atuacao-enfermeiro-uso-indiscrimina- do-insecticida/image002.jpg>. Acesso em: 27 set. 2016. 3 Em: <http://www.andefedu.com.br/uploads/img/manuais/arquivo/ANDEF_MANU- AL_BOAS_PRATICAS_NO_USO_DE_EPIs_web.pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. 4 Em: <http://wwwp.feb.unesp.br/abilio/maqagri.pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. 5 Em: <https://sites.google.com/site/sestrcombr/TDP%20-%20candan.jpeg>. Aces- so em: 14 set. 2016. 6 Em: <https://s3.amazonaws.com/mfrural-produtos-us/61935-40098-484544-colhei- tadeira-kit-para-colher-feijao.jpg>. Acesso em: 14 set. 2016. 7 Em: <http://invecap.com.br/normas-regulamentadoras-nrs/nr-31-seguranca-e-sau- de-no-trabalho-na-agricultura-pecuaria-silvicultura-exploracao-florestal-e-aquicul- tura>. Acesso em: 14 set. 2016. 8 Em: <http://www.diadecampo.com.br/arquivos/image_bank/especiais/w1_DEN- TRO_2012101511198.jpg>. Acesso em: 27 set. 2016. 9 Em: <http://www.diadecampo.com.br/arquivos/image_bank/especiais/w2_DEN- TRO_20121015111939.jpg>. Acesso em: 27 set. 2016. REFERÊNCIAS GABARITO 1. C 2. B 3. C 4. C 5. A CONCLUSÃO 191 Prezado aluno(a), a produção deste material apresenta-se como uma contribuição aos seus estudos e ao seu futuro exercício profissional. Muitos dos conceitos e do conhecimento acerca destes temas estratégicos foram tratados, sempre com um foco realista e interdisciplinar. Ao longo das unidades, desvendamos os principais conceitos ligados à Segurança do Trabalho Agrícola. Da mesma forma, alocamos este conceito em seu desenvol- vimento histórico, se iniciando com o acirramento da complexidade das atividades agrícolas (3ª Revolução Agrícola) e evoluindo até os dias atuais, onde verificamos a existência das várias vertentes ligadas ao tema principal (Trabalhos em Espaços Confinados, Frigoríficos e Indústrias de Abate e Processamento de Alimentos) e ain- da, uma estrutura bastante desenvolvida em termos de Normas Regulamentadoras de Saúde Ocupacional e Segurança do Trabalho. Ademais, também tivemos a oportunidade de evidenciar todas as práticas de segu- rança ocupacional que devem ser de seu conhecimento, considerando nosso prin- cipal objetivo profissional: a preservação da saúde e da integridade física dos nossos trabalhadores rurais. Contudo, sei que muitos conceitos e muitas das discussões realizadas neste material não se acabam por aqui, podendo gerar novas dúvidas e levá-lo(a) a estabelecer novas e curiosas discussões sobre nosso tema. Se você possui um espírito proativo e empreendedor, você certamente irá gostar de estar neste constante estado de questionamento e de estar frente aos novos desafios, ou seja, você terá a atitude necessária para descobrir mais sobre este mundo tão vasto e complexo ligado à Segurança do TrabalhoAgrícola. Estarei sempre a sua disposição para lhe ajudar nestes assuntos e desejo lhe encon- trar em uma próxima oportunidade para discutirmos outros enfoques sobre este assunto. Um grande abraço! Prof. Tiago Costa. CONCLUSÃO