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o CASO REGULA ZURCHER 06
Medard Boss
DASEINSANALYSE E A CLINICA 26
loao Augusto Pompeia
FENOMENOLOGIA E DASEINSANALYSE 43
Maria de Fatima de Almeida Prado
Daseinsanalyse / Associa<;ao Brasileira de Daseinsanalyse -
NQ 14 (2005) - Sao Paulo: A Associa<;ao, 2005
Irregular
ISSN 1517-445X
A CONTRIBUI<;AO DAS NO<;OES DE
SER-NO-MUNDO E TEMPORALIDADE PARA A
PSICOTERAPIA DASEINSANALITICA 55
Ida Elizabeth Cardinalli
o TEMPO NA CRIAN<;A E A DASEINSANALYSE 64
Maria Beatriz Cytrynowicz
Associa<;ao Brasileira de Daseinsanalyse
Rua Cristiano Viana, 172 - Fones: 3082-9618/3081-6468
CEP 05411-000 - Sao Paulo
www.daseinsanalyse.org
abd@daseinsanalyse.org
FILIADA A INTERNATIONAL FEDERATION OF
DASEINSANALYSIS - ZURICH - SUI~A
APRESENTA<;Ao
Nota:
Editora<;ao de Fernanda de Camargo Vianna.
A revista Daseinsanalyse tem como intuito apresentar refle-
xoes fruto da dedica<;ao e esfon;o daqueles que buscam a compre-
ensao do homem baseada nas ideias heideggerianas do existir hu-
mana como Dasein. Neste novo numero foram escolhidos textos
que contribuem prioritariamente para 0 exerdcio da pnitica clfnica.
o primeiro artigo, 0 caso Regula Zurcher, foi publicado origi-
nalmente no livroExistential Foundations ofMedicine & Psychology
(1994) pOl'Medard Boss. Neste relato 0 autor, descrevendo a his-
toria de vida e do processo terapeutico de uma paciente, mostra
como as manifesta<;oes somMicas e existenciais referem-se ao ser
humano em totalidade seja na realiza<;ao mais plena do seu existir,
seja nas vicissitudes desta realiza<;ao, e como 0 trabalho tei"apeutico
pode contribuir para superar as restri<;oes de rela<;aocom 0mundo
an"aVeSdo desenvolvimento das possibilidades existenciais mais
proprias.
No texto Daseinsanalyse e a cUnica, Joao Augusto Pompei a
expoe os diversos significados das palavras Logos e Psique na his-
toria do pensamento ocidental para, entao, introduzir uma diferen-
cia<;ao entre 0 curar e 0 cuidar do paciente. Mostra, assim, que a
clfnica daseinsanalftica nao tern como objetivo a cura que visa a
modifica<;ao da conduta ou a elimina<;ao do sintoma, mas sim, 0
tratar como um exerdcio do cuidado. Neste sentido, 0 autor consi-
dera que a tarefa da terapia daseinsanalftica e a liberta<;ao do paci-
ente para que possa aproximar-se da sua historia e, ao ampliar esta
liberdade, ele possa constituir a sua propria historia.
Em seguida, foram escolhidos tres trabalhos preparados para
uma apresenta<;ao no IV Congresso Mundial de Psicoterapia, no
Simposio intitulado "Identidade e Diferen<;as da Psicoterapia
Daseinsanalftica", ocorrido em Buenos Aires no mes de agosto de
2005.
No primeiro desses trabalhos, FenOlnenologia e
Daseinsanalyse, Maria de Fatima Almeida Prado, tern como objeti-
vo caracterizar a Daseinsanalyse destacando a sua liga<;ao com a
fenomenologia. Inicialmente, ela distingue as prciposi<;aes
husserlianas das heideggerianas, apontando que a Fenomenologia
iniciada par Husserl visa ao esc1arecimento daquilo que possibilita
o conhecer e 0 conhecimento, enquanto que a Fenomenologia para
Heidegger e, como uma ontologia que permite acessar 0 ser dos
entes, urn metodo de acesso aos fenomenos, ao ser-no-mundo e ao
Dasein. Neste sentido, considera que esta posi<;aoheideggeriana se
constitui como urn salto fundamental na compreensao do existir
humano, que contribui tambem para um novo entendimento ou outro
modo de acesso ao paciente na situa<;ao terapeutica. Finalmente,
como ilustra<;ao, saGapresentadas algumas passagens do livro Se-
miruirios de Zollikon, de Martin Heidegger, no qual a fenomenologia
foi abordada em rela<;aoespecffica a psiquiatria e a psicologia ..
No texto seguinte, A contribuir;;iiodas nor;;oesde ser-no-mun-
do e temporalidade para a psicoterapia daseinsanaUtica, Ida
Elizabeth Cardinalli mostra que a explicita<;ao heideggeriana de
Dasein, ser-no-mundo e sua temporalidade, superando 0 entendi-
mento baseado em aspectos pertinentes aos objetos ou ao funcio-
namento de uma maquina, compreendem 0 homem segundo dimen-
saes especfficas ao ser humano. A reflexao sobre 0 objetivo da
psicoterapia e da rela<;aoterapeutica daseinsanalitica revel am tam-
bem que essa compreensao do homem permite que 0 trabalho
terapeutico focalize 0 desenvolvimento das possibilidades mais pr6-
prias do paciente, enquanto considera a maneira especffica de viver
de cada paciente no decOlTer do processo terapeutico.
POl'ultimo, em 0 tempo na crianr;;ae a Daseinsanalyse, Ma-
ria Beatriz Cytrynowicz discute inicialmente as explica<;aes cientf-
ficas sobre 0 desenvolvimento infantil, pois considera que estas se
afastam do mundo e das experiencias da crian<;a.A partir de uma
abardagem fenomenol6gica da infancia, a autara desenvolve uma
compreensao da temporalidade na crian<;ae suas implica<;aes exis-
tenciais fundamentais, destacando que a crian<;a ja se mostra em
totalidade a cada momenta e que 0 percurso pr6prio de seu cresci-
mento nem sempre e facil. Finalmente, destaca que a psicoterapia
daseinsanalftica com crian<;as, visando tamMm as possibilidades
pr6prias de existir, aproxima 0 caminho para 0 pr6prio crescimen-
to, 0 que significa algo diferente da elimina<;ao de problemas ou de
doen<;as.
IDA ELIZABETH
CARDINALLI
Revista 2005
o CASO REGULA ZORCHER1
MEDARD BOSS
madas, precisaram ser removidas. Quando menstruou, aos quinze
anos, come<;:oua se queixar de uma grave constipa<;:aoque a obri-
gou a urn intenso consumo de laxantes. Sem medica<;:ao,seu intes-
tino pOl'vezes nao funcionava pOl'uma ou duas semanas. A pacien-
te sentia-se sempre fraca, parecia vegetal' e estava tao magra que
seus medicos, suspeitando de tuberculose, fizeram-na repetir cons-
tantemente exames de raios-X.
Aos dezenove anos casou-se com urn homem poucos anos mais
velho que ela. Conheciam-se desde a epoca escolar. Aos vinte e urn,
nasceu sua primeira e unica filha. Durante a gravidez ela sentiu-se
melhor do que nunca, mas dois meses ap6s 0 nascimento, sua saude
deteriorou-se rapidamente. As constipa<;:6es,assim como as dores
de estomago e intestino, tornaram-se mais intensas a despeito do
uso de urn arsenal de medicamentos. De modo crescente a consti-
pa<;:aose alternava com severas crises de diarreia que come<;:avam
abruptamente e duravam por dias. 0 medico diagnosticou uma gra-
ve colite quando foi encontrado sangue em suas fezes.
POllCOantes do seu casamento, RZ tinha inclufdo urn gineco-
logista ao seu regimento de medicos. Ela come<;:oua sofrer de insu-
portaveis dores nas mamas. Durante tres semanas, em cada ciclo
menstrual, suas mamas tornavam-se duras como pedras e 0 mais
leve toque era tao doloroso que ela poderia gritar. Outros gineco-
logistas se juntaram ao primeiro, incluindo ate urn famosa profes-
sor de ginecologia. Seu relato: "Eu nunca tinha visto urn caso tao
grave de desequilfbrio hormonal, ou seja, de uma excessiva produ-
<;:aode hormonios estimulante folicular. Vma terapia anti-estr6geno,
consistindo na administra<;:aode andr6genos, mostrou-se ineficaz".
Seus sintomas intestinais obrigavam-na cada vez mais a longas
interna<;:6esno hospital. Os medicos do hospital estavam "confu-
sos" quanta ao diagn6stico e como tratar sua doen<;:a.Eles tent a-
ram varias dietas e medica<;:6escom pouco sucesso. Durante uma
dessas interna<;:6esfoi diagnosticada uma:aguda pancreatite que foi
tratada com analgesicos, penicilina e cataplasmas, e a saude de R.Z.
melhorou rapidamente.
A descri<;:aodeste casa constitui 0 primeiro capitulo do livro
"FundamentosExistenciais da Medicina e Psicologia", de Medard
Boss.
This case constitutes the first chapter of the book "Existential
Foundations of Medicine and Psychology", by Medard Boss.
o primeiro relato da mae dessa paciente foi de que ela preci-
sou de ajuda de pediatras poucas semanas ap6s seu nascimento
quando desenvolveu urn eczema agudo, com secre<;:6es,que cobria
principalmente extensasareas dos seus bra<;:ose pernas.
Ahist6ria clfnica familiar, cujo levantamento ja tinha sido feito
com muito cuidado pelo primeiro medico de RZ, nao indicava mai-
ores complica<;:6eshereditarias. Nenhum de seus antepassados ou
familiares mais pr6ximos havia apresentado desordens neurol6gi-
cas ou mentais, nem qualquer tipo de alergia. Pelo contrario, todos
descreveram as famflias paterna e materna como pessoas bastante
vigorosas e saudaveis.
o tratamento do eczema infantil mostrou-se muito diffcil e pro-
longado. Varios anos de cuidados medicos foram necessarios antes
que a grave irritabilidade de sua pele cedesse. No entanto, mesmo
quando 0 eczema finalmente regrediu, RZ ainda apresentava 0 mai-
or fndice de ausencia escolar devido a problemas de saude. Resfri-
ados e estranhas dores de estomago mantinham-na constantemente
de cama. Aos sete anos, suas amfdalas, que estavam sempre infla-
Quatro anos depois, ela foi novamente intern ada, desta vez
com insuport::iveis dores nas costas. Seus testes de laboratorio e
raios-X nao mostraram maiores anormalidades, exceto pOl' uma
crescente atividade secretoria no intestino delgado.
Um especialista em artrite foi chamado. Ele achou sinais de
reumatismo, mas notou que 0 procedimento terapeutico usual nao
funcionava com essa paciente tao diffcil. De fato, alguns analgesi-
cos poderosfssimos prescritos pOl'ele aumentavam suas dores ao
inves de alivia-Ias. Ele a mandou de volta ao c1fnico que, sem saber
o que fazel', sugeriu.que ela "fizesse uma viagem de ferias com seu
marido".
Poucos anos depois, sob os cuidados de outro medico, foi sub-
metida novamente a uma bateria de testes c1fnicos, sendo os sinto-
mas, desta vez, fortes dores intestinais e constipac;ao que se alter-
navam com diarreia. 0 resultado do teste indicava "colon irritavel".
A paciente mencionou, desta vez, que beber leite fazia seu estado
pioral', entao seu medico prescreveu uma dieta sem leite. RZ rela-
tou que se sentiu um pouco melhor, mas estava longe de se sentiI'
bem.
Durante as varias outras internac;oes, que se davam em inter-
valos cada vez menores, a paciente foi submetida a um intensivo e
carfssimo tratamento a base de opio e morfina. Mas, a cada vez que
as drogas eram suspensas, suas dores voltavam com a mesma in-
tensidade.
Em vista da piora de seu estado, 0 medico prescreveu dietas
cada vez mais restritas, e logo ela estava se alimentando apenas de
mingau de aveia e varios tipos de papa. Finalmente, sua alimenta-
c;aotornou-se tao restrita que foi necessario adicionar complemen-
tos alimentares. A paciente perdia peso e chegou aos 38 quilos (ela
tinha um metro e setenta e sete centfmetros de altura). 0 pequeno
exercito de seis medicos responsavel pOl'ela estava preparado para
o pior. 0 c1fnico no qual ela depositava mais confianc;a Ihe disse
francamente que nao sabia mais 0 que fazer.
Essa admissao de fracasso pareceu marcar 0 final da historia
c1fnica que muitos pediatras, clfnicos,reumatologistas, radiologis-
tas, endocrinologistas, cirurgioes e ginecologistas tinham tentado
decifrar. Alguns desses medicos tinham tentado ir alem da historia
c1fnica de RZ, pesquisando sobre seu passado, mas a paciente sim-
plesmente nao podia pensar em nada que considerasse relevante.
As questoes dos seus medicos eram basicamente direcionadas a des-
vendar suas dores ffsicas e sintomas do pass ado e do presente; a
paciente nunca teve a menor intenc;ao de esconder nenhuma infor-
mac;ao dos medicos que estavam tentando ajuda-la. Repetidamen-
te, quando os medicos pressionavam-na para obter maiores infor-
mac;oes, ela insistia que nada de maior relevancia havia se passado.
Podemos dizer que seu caso tomou novas proporc;oes quando
a paciente decidiu, pOl' iniciativa propria, procurar um
psicoterapeuta. Ela tinha entao 28 anos. Tendo ela infinitas enfer-
midades e sentindo-se desesperada, alem dos sintomas psicologi-
cos que serao descritos abaixo, ela entrou numa profunda depres-
sao e cada vez mais se senti a tentada a cometer suicfdio.
E verdade que seus outros medicos nao ignoravam a possibili-
dade de ramificac;oes psicossom<iticas no seu caso. Com efeito, eles
consideraram seriamente a ideia de dizer a paciente que poderia
haver aspectos psicologicos no seu sofrimento. Mas durante os lon-
gos anos de tratamento nao notaram nenhum sintoma de nervosis-
mo extremo, ou de ansiedade histerica, ou qual que I'coisa que suge-
risse doenc;aemocional, e conc1ufram que qualquer suspeita de com-
plicac;oes neurotic as deveria ser descartada. Pensaram entao que
nao seria sensato erial' falsas esperanc;as sugerindo psicoterapia. Na
verdade, foram tao cautelosos a ponto de nem mencionarem a ela
esta possibilidade.
Para 0 terapeuta escolhido pOl' RZ, ela parecia uma mulher
jovem, tfmida e muito sensfvel. Tinha uma figura de menina, muito
magra, mas graciosa. Seu rosto era lindo, com trac;os delicados e
femininos. Raras vezes ousou olhar para os olhos do terapeuta. A
maior parte do tempo ela olhava fixamente para 0 chao a sua frente,
de modo que de seus grandes olhos quase fechados apenas suas
paJpebras com seus cflios longos e pretos pudessem ser vistos. Suas
maos se contorciam junto aos seus joelhos nas dobras do sofistica-
do vestido.
Durante a primeira entrevista, apos algumas observa<;6es co-
loquiais, a paciente ficou em silencio e nao ousou dizer mais nada
sobre si. Respondeu as perguntas do medico num tom de voz urn
pouco provocativo, quase condescendente.
Essa entrevista foi a primeira sessao do tratamento
psicoterapeutico que durou tres anos, em urn total de mais de 600
horas de analise. Durante esses anos muitos detalhes de sua vida
foram desvelados. Nos reproduzimos aqui urn pouco daquilo que
completa a historia e as descobertas medicas.
Seu avo paterno pertencia a uma familia de classe alta. Como
todos os seus irmaos e irmas, ele cursou a academia, mas sua per-
sonalidade era.violenta e pouco controlavel; nao havia ninguem como
ele na familia. Quando jovem, sua natureza passionallevou-o a "per-
del' a cabe<;a" por umajovem empregada, abandonou os estudos e
partiu com ela para outro pais. Ele nunca se realizou muito profis-
sionalmente e era considerado a ovelha negra da famnia.
Desconsiderando a miseria economic a de sua propria famnia, teve
urn filho apos 0 outro sem controle. POl'fim, tornou-se urn alcoolista
cronico. 0 fardo da imensa prole ficou para sua mulher que, embo-
ra intelectualmente limitada, tinha for<;ade vontade, era trabalha-
dora e amorosa.
o pai da paciente era 0 mais novo desses onze filhos. Era 0
unico entre os irmaos que se destacava no seu meio, extremamente
modesto, em razao de sua inteligencia, sua for<;ade vontade fora
do comum e sua ardente ambi~ao. Tornou-se diretor-chefe de urn
dos mais importantes empreendimentos industriais de seu pais.
Como seu pai, ele tambem exercia urn papel de tirano absoluto
e onipotente na vida de sua propria familia. Nao tolerava a mais
leve oposi~ao, muito menos a expressao de algo diferente da sua
vontade por parte de nenhuma de suas quatro filhas ou de sua mu-
Iher. As explos6es de raiva do pai eram provocadas pela minima
insubordina~ao da famnia. Completamente sem limite no que dizia
respeito a si, ele exigia estrita disciplina e modestia de todos. As
vezes, durante uma de suas brutais crises de raiva em casa, situa~ao
na qual ele subjugava a vitima de sua ira, ele subitamente mudava
sua expressao facial e sentia remorso pelo que tinha feito. Entao,
ele colocavadinheiro na mao daquele que tinha sido punido para
comprar de volta a sua afei~ao. Muitas vezes, suas filhas teriam
preferido atirar esse dinheiro em sua cara, mas enquanto eram pe-
quenas, elas somente agradeciam. Nao e diffcil imaginal' 0 novo
ataque de fUria que esta recusa do dinheiro teria causado. Quando
o pai estava em casa, a atmosfera familiar era pesada e tensa, como
o ar antes de uma tempestade.Os avos maternos eram ambos grandes e ilustres personalida-
des. Eram consideradas pessoas altamente inteligentes e solidarias.
Eram amados e respeitados pelos que os rodeavam. Como casal,
pOl'em, tinham pouco a vel' urn com 0 outro. No fim do primeiro
ana de casamento j a tinham se tornado completamente estranhos, e
dai em diante 0 relacionamento foi caracterizado por um alto grau
de irrita~ao. 0 avo viveu apenas para sua carreira, enquanto a avo
viveu inteiramente para suas crian~as e para 0 servi~o social. A mae
da paciente foi criada sob forte influencia da excepcional vitalidade
da personalidade de seus pais. Infantil, imatura e ingenua, extrema-
mente carente, foi sempre controlada pelas ideias excessivamente
puritan as dos pais. Apesar de seus esfor~os caridosos que apenas
imitavam 0 comportamento social de sua mae, essa mulher carente
na verdadese preocupava pouco com os outros. Entretanto, tinha
exigencias exorbitantes com 0 mundo ao seu redor. Desde muito
cedo, ela amaldi~oou 0 destino que a fez mulher. Teria preferido
imensamente ser homem. Ela nunca teve verdadeiras amigas. Com
seu marido era frfgida e submissa. Ele, um homem vigoroso e agres-
sivo, entregava-se a uma gama sem fim de casos extraconjugais,
enquanto ela se consumia em ciume cronico.
Como mae, sua principal preocupa~ao era ensinar as filhas a
reprimir absolutamente seus sentimentos. Ela citava constantemen-
te 0 exemplo desagradavel de seu pai como.urn aviso. Baseando-se
nele, ela dizia 0 quanta os homens podiam ser repulsivos. Nao era 0
pai delas que mostrava todos os dias que uma mulher pode esperar
apenas ingratidao e brutalidade de urn homem? Apenas a mais estu-
pida se deixaria seduzir ou confiaria num homem.
RZ, nossa paciente, e a filha mais nova entre as quatro desse
casal. Havia uma diferenc;ade nove anos entre ela e a irma mais
proxima, 0 que permitiu que ela crescesse praticamente como filha
(mica. Alem do mais, era uma filha unica a quem os pais prestavam
pouca atenc;ao. Viviam tao absorvidos em suas eternas discuss5es
que deixavam a crianc;a entregue a suas proprias possibilidades. Ao
mesmo tempo, ela era proibida de qualquer contato com outras
crianc;as da vizinhanc;a. Como se fosse uma "propriedade" deles,
achavam que ela era muito bem nascida para misturar-se com crian-
c;ascomuns.
Quando RZ comec;ou a freqilentar a escola, nao sabia, portan-
to, como se relacionar com outras crianc;as. Tfmida e indefesa, fica-
va a distancia olhandoas outras crianc;as brincarem. Foram neces-
sarios muitos meses e a compreensao dos professores do jardim de
infancia para que ousasse pouco a pouco participar de algumjogo.
Mas nunca perdeu a sensac;ao de ser, basicamente, uma criatura
completamente solitaria.
Nos anos escolares seguintes, buscava refUgio na leitura, dedi-
cando-se por horas a fio, e vivia somente no mundo dos her6is de
seus livros. Outras vezes, resignava-se a tocar piano ao longo do
dia na solidao do quarto na casa dos pais. Acima de tudo ela amava
a musica de Bach, especialmente as "Invenc;5es". Nelas, como em
nenhuma outra musica, diferentes melodias alternavam-se, simulta-
neamente, perguntando e respondendo umas as outras. Essa era a
unica forma de dialogo a qual essa garota tinha acesso.
Apesar de sua pr6pria experiencia de uma vida familiar seria-
mente perturbada, seus pIanos adolescentes eram de constitiIir al-
gum dia sua propria famflia. Ern redac;ao na 4" serie, sob 0 tftulo de
"Urn passeio dominical", ela descreveu corn meticulosos detalhes e
consideravel inspirac;ao, urn passeio no campo com seu marido e
seus dez filhos. Essa composic;ao ficou tao bela e pitoresca que
virou referencia freqilente de seu professor.
Apesar das leituras, do piano e de escrever, RZ sofria intensa-
mente, ate onde ela podia se lembrar, corn a atmosfera familiar per-
petuamente tensa, opressiva e sem alegria. Embora fosse muito in-
teligente, precisava esforc;ar-se para responder as demandas esco-
lares; as tens5es na casa dos pais exigiam muito dela. No infcio da
puberdade, as cenas corn 0 seu pai foram se tornando cada vez mais
passionais. Ela nao se submetia mais a ele. A cada castigo injusto,
verbal ou ffsico, ela tambem se tornava extremamente agressiva.
Gritava com ele e 0 amaldic;oava, na mais ofensiva Iinguagem. Isso
originava atos de violencia recfprocos. As vezes, apesar da fragili-
dade, atingia seu pai de maneira tao dura que ele recuava para 0
cantQ da sala.
RZ odiava sua mae tambem, embora por outras raz5es. Junto
com suas tres irmas, ela era profundamente infeliz com a eterna
submissao materna ern relac;ao ao pai. Sua mae nunca tinha feito 0
menor esforc;o para defender ou protegeI' as filhas da ira do pai.
Alem do mais, RZ aborrecia-se pelo fato de sua mae cortar imedia-
tamente qualquer expressao de sentimentos de sua filha
temperamental. Se ela demonstrasse 0 menor entusiasmo por uma
melodia aprendida ou admirac;ao por uma fIor, sua mae a repreen-
dia por seu carateI' "fanatico". 0 desejo de RZ por belas roup as
provocava acusac;5es de indecencia e imoralidade. De fato, sua mae
conseguiu carrega-la com sentimentos de culpa pseudomorais e
roubou dela as possibilidades de abertura e franqueza. Alem disso,
RZ foi mandada para uma escola particular estritamente religiosa
onde as crianc;as eram obrigadas a recital' os Dez Mandamentos
diariamente. No infcio, RZ esperou ansiosamente encontrar apoio e
ajuda pelo menos na religiao, mas a recitac;ao diaria dos Dez Man-
damentos, especialmente 04° Mandamento - amar e homar pai e
mae - deixavam-na completamente transtornada. Como poderia
resgatar amor e honra por tais torturadores? Antes, poderia atirar-
Ihes uma pane.la na cabec;a.
Quando, na adolescencia, RZ recebeu seu primeiro convite para
urn baile, seus pais a advertiram repetidamente para que nao se
envolvesse com nenhum rapaz. Sendo uma bela moc;a, era muito
solicitada. Sob a pressao maralista dos pais, ela obedientemente
limitou-se a aceitar somente aqueles que podiam ser facilmente
mantidos a distlncia. Para completar a tragedia da sua juventude,
RZ foi usadapor seus pais como uma especie de muro de
lamentac;6es ou lata de lixo, onde eles despejavam
inescrupulosamente seus problemas conjugais.
POl' ser muito talentosa, RZ teria adarado fazer urn curso su-
perior, mas seus pais nao queriam ouvir uma palavra sequel' sobre
filhas "educadas". Um curso superior, diziam eles, implica em que
o filho permanec;a em casa par mais tempo e sobrecarregue os pais.
Entao, imediatamente ap6s 0 curso secundario, RZ nao teve esco-
Iha senao se inscrever como estudante num dos primeiros sal6es de
moda da cidade. Felizmente, foi cardialmente recebida pOI'urn grupo
de estilistas muito talentosos, que partilhavam de sua paixao par
criar. Neste lugar, ainda como aprendiz, descobriu que suas ideias e
avaliac;6es tinham 0 mesmo status que as de seus superiares. Pela
primeira vez em sua vida nao estava enfrentando uma crftica cons-
tante, mas, ao inves disso, experimentava uma gratificante confir-
mac;ao de seu excelente gosto e talento artistico.
Com relac;ao ao hist6rico de suas deficiencias fisicas, 0
psicoterapeuta soube que mesmo ap6s 0 desaparecimento dos pio-
res sintomas do eczema infantil de RZ, sua pele permaneceu hiper-
sensivel a la. Sua mae, entretanto, nao deu atenc;ao a isso e sempre
farc;ava a filha a usar meias de la, acreditando que medidas tao rigi-
das pariam urn fim a feminilidade, assim como a vaidade e a arro-
gancia que 0 uso de meias de seda poderia proVocar.
Aos dezenove anos, a paciente procurou refUgio no casamen-
to, acreditando que era a unica escapat6ria para a atmosfera desu-
mana da casa dos pais. A escolha do admirador foi influenciada par
sua experiencia familiar: tinha boa aparencia, equilibrio emocional,
parecia segura e discreto. Esse amigo de juventude, que ela CSC()-
Iheu como marido, parecia ser 0 oposto do seu pai apavorantec
ameac;ador. Ela esperava ser capaz de encontrar a felicidade no pa-
pel de uma simples e tranqUila dona de casa e mae. Nao que ela
estivesse apaixonada por este homem. Ela se ligou a ele da mesma
maneira que uma irma cac;ula procura protec;ao e apoio no irmao
mais velho.
Para tristeza e espanto das pessoas mais pr6ximas, a saude de
RZ piorou consideravelmente ap6s 0 casamento. Percebeu, ainda
na lua-de-mel, que seu casamento tinha sido urn equivoco. Naquele
momenta ficou evidente que aquilo que ela tinha tornado par inte-
gridade e possibilidade de uma relac;ao confortavel com aquele ho-
mem, nao era nada mais que uma falta de interesse e vitalidade,
uma especie de imaturidade infantil.
o jovem marido era incapaz de sentir-se verdadeiramente en-
tusiasmado com sua mulher. Ele a procurava sexualmente com in-
tervalos de semanas e logo, com intervalos de meses. Acima de
tudo, 0 envolvimento fisico com sua mulher consistia somente num
f(ipido eabrupto ato sexual, ap6s 0 qual ele se afastava 0 mais
depressa possivel, virava-se para 0 outro lado e dormia. Durante os
intervalos entre essas pobres "intimidades", 0 marido encontrava
satisfac;ao em olhar e acariciar sua mulher quando ela deitava nua
ao seu lado. Entao, repentinamente, ele a deixava e se trancava
sozinho no banheiro. Fotografias de corpos nus de outras mulheres
o excitavam mais do que a presenc;a fisica de sua jovem mulher
carente de amor. Desde 0 inicio de sua vida em comum, ele cobriu
as paredes do banheiro com cartazes de mulheres nuas. Devido aos
"esc1arecimentos" consolidados par sua mae, RZ acreditava que
todos os homens fossem assim e entao se conformou com a situa-
c;ao conjugal. Desnecessario dizer que, casada com tal parceiro,
tornou-se frigida e assim permaneceu.
Mas entao nasceu sua filha. De modo completamente inespe-
rado, 0 final das contrac;6es do trabalho de parto fez com que RZ
sentisse, pela primeira vez em sua vida, urn argasmo sexual. Este
turbilhao de sensa<;:5esinvadindo todo 0 seu ser obliterou as dores
do parto e Ihe preencheram com uma imensa sensa<;:aode prazer e
alegria. Ela arrancou a mascara de anestesia das maos da parteira,
que seria usada para facilitar 0 trabalho de parto nos seus momen-
tos finais, e Ian<;:ou-alonge. Como poderia ela se deixar anestesiar
no momenta mais feliz de sua vida?
Apos essaextasiante experiencia; ela ficou fisicamente mais
exigente com seu marido, querendo-o junto com mais frequencia.
Aparentemente, entretanto, 0 marido sentiu-se mais pressionado
que antes com essas novidades desse desejo descontrolado de sua
esposa e com 0 papel de pai no qual ele foi "envolvido". Ele se
fechou cada vez mais, raramente dando qualquer aten<;:aoa crian<;:a
e tratando sua mulher como se fosse uma completa estranha. Nun-
ca mais a Ievou ao teatro, a concertos, nem jogos, nem eventos
sociais, e tomou impossIvei para ela receber seus antigos amigos
em casa, porque 0 marido afastava todos com silencio e Ietargia tao
pesados que 0 dominavam durante os encontros sociais.
Entao, RZ ficou cada vez mais isolada. Ela se relacionava ape-
nas com sua filha. Como resultado dessa priva<;:ao, tomou-se
crescentemente mal-humorada, tensa, irritadi<;:ae atormentada. Alem
disso, tinha vergonha do seu comportamento e se recriminava pe-
Ios crescentes sentimentos de odio que, mais fortes que ela, se trans-
formavam mais e mais em explos5es de raiva dirigidas ao marido.
Isto se tomava muitas vezes ataques repentinos contra ele. Em deses-
pero, ela olhava 0 abismo que havia entre ela - uma mulher afetuosa
e musicalmente talentosa, cheia de vida e sensIvei as coisas bel as - e
seu marido, uma miseravel forma human a que somente se interes-
sava por sua mania por carros e sua cole<;:aode selos. Fora isso, ele
so sabia do seu trabalho tecnico, numa pequena Ioja, onde trabalha-
va doze ou catorze horas por dia para ganhar tanto dinheiro quanta
fosse possIve!.
POllCasseman as apos 0 crucial evento do nascimento de sua
crian<;:a,a paciente foi surpreendida, pela primeira vez, por sinto-
mas f6bicos. Dada a rejei<;:aodo seu marido, a unica criatura viva
no mundo que ela amava era seu bebe. Mas justamente nas yews
em que se sentia mais intimamente ligada com suafilha - durante 0
banho, ou quando a colocava para dormir com abra<;:ose beijos, ou
entao, mais tarde quando fazia as ora<;:5esnoturnas - era assaltada,
frequentemente, vindo do nada, pelo mais irresistIvei impuiso de
apunhalar 0 pequeno corpo de sua filha com uma faca. A paciente
descreve da seguinte maneira:
Durante esses mOlnentos especia17nente felizes com a criarl-
l;a, se meus olhos, mesmo acidentalmente, pousam sobre algUln
objeto cortante nas proximidades, uma lixa de unha ou umafaca,
sou tomada pelo impulso de esfaquear seu corpo. As vezes 0 im-
pulso e tao forte que tenho meclo de percler 0 controle e enlouque-
cer no segundo seguinte. Imediatamente eu corro para fora do
quarto. Entao me ap6io na parede e seguro ,ninha mao dire ita com
a esquerda, para me impedir defazer a coisa horrfvel. Com 0pas-
sar do tempo eu sentia {mpetos de estrangula-Ia COlnminhas pr6-
prias maos, lnas nao era tao freqiiente quanta 0 impulso de
esfaquea-Ia.
Meus lnedos defacas e de estrangulaTnento ficavam mais for-
tes quando meu marido me l1wndava com a crianl;a para uma ca-
bana isolada nas l1wntanhas pOI'longas semanas de ferias. Entao
eu nao podia nem olhar para facas lnesmo quando a crianl;a nao
estava pOI'perto. Eu simplesmente nao podia olhar para as facas
da gaveta do annario da cozinha. Era COlnose elas quisessem e
pudesseln, fOrl;aT'-mea enterra-Ias e111algo. Em quem ou em que
nao importava. Entao a gaveta de facas se tornou uma insuporta-
vel provoca(;:ao e tental;ao para mim.
Quanto mais longas eram asferias, maior era 0 poder que as
facas tinham sobre mim. Chegou ao ponto de nem precisar de uma
faca de verdade para entrar em panico. Eu comecei a conjimdir
qualquer brilho mana supeljlcie polida com 0 brilho da lamina de
wna faca. Finalmente, eu podia vel' dezenas de facas brilhantes
passando pOI'mim no aT;sentindo-as tao reedsque poderia agarra-Ias.
Este e 0 relato da paciente que nessa epoca esteve, muitas
vezes, a ponto de acabar com a propria vida com uma overdose de
sonfferos.
meiramente, sublinhou para a paciente as regras fundamentais da
analise (esse metodo terapeutico e seus resultados praticos serao
discutidos com mais detalhes na quarta parte deste livro). Aqui nos
precisamos apenas dizer como se seguiu a analise. Embora a paci-
ente se esfon;asse para responder aos pedidos do terapeuta para as
associa<;:oeslivres, os primeiros efeitos do tratamento nao foram
muito promissores. Desde 0 momento em que come<;:oua contar a
historia de sua vida para alguem mais, ela tornou-se insone. Lem-
bran<;:asde sua infancia desesperadora, ha tempos colocadas de lado,
vieram a tona e ela foi tomada pOl'isso de maneira tal que durante a
noite toda ficava pensando incessantemente nas rejei<;:oes,maus tra-
tos e invasoes espirituais que ela tinha tido que agi.ientar de seus
pais. Ela nao podia fazer nada, mas constantemente refletia e pon-
derava de novo sobre essas lembran<;:as.Era tomada por ataques de
ira e rai va contra seus torturadores paternos. As noites insones es-
gotaram as for<;:asda ja fragilizada paciente. Ela acreditava que logo
nao poderia abster-se de tomar grandes doses de pflulas para dor-
nul'.
Essas facas se dirigialn a mim do nada e me pressionavam
fortemente para que eu fizesse loucuras com elas. Essas terrlveis
alucinac;8es deixaram claro para mim que, ou eu me controlava ou
procurava wn psicoterapeuta. Cada minuto me assegurava de que
eu estava enlouquecendo. Defato, s6poderia ser loucura esfaque-
ar ou estrangular a coisa mais querida que vocetem. Eu tinha me
tornado uma assassina de crianc;as em potencial. Eu sentia que
era uma criatura tao depravada que tinha perdido qualquer direi-
to de vidaneste Inundo.
Apos voltar das catastroficas ferias de verao, RZ decide sub-
meter-se a psicoterapia. Embora estivesse acamada pOl'causa de
seu estado debilitado, ela compareceu poucos dias depois a consul-
ta com seu futuro psicoterapeuta. Ela escolheu este especialista em
particular porque sabia que ele tinha tratado alguem de suas reIa-
<;:oescom algum sucesso. E pOl"queera uns trinta anos mais velho
do que ela, parecia tel' uma boa experiencia que oferecia garantia.
Na primeira sessao terapeutica a paciente queixou-se de um
sonho recorrente que a perseguia desde pequena, em intervalos que
variavam de seman as a meses. Justamente na noite anterior ela ti-
nha sido despertada por este sonho, aterrorizada e banhada em suor.
Nos acontecimentos dessa noite, a sonhadora encontrou-se 0 tem-
po todo completamente sozinha e nua, agachada e encolhida, com
medo no canto de um vagao de trem de carga vazio. Seus bra<;:os
estavam dobrados sobre seus joelhos e em frente a sua face para
protege-la. 0 vagao estava no fundo de urn oceano de aguas con-
geladas onde nao havia um unico peixe, nem crescia nenhuma plan-
ta. Na profundidade do mar, urn vento artico soprava atraves das
portas e dos cantos do vagao. Ela estava gelada de medo.
POl'algunsdias 0 terapeuta nao quis discutir esse sonho. Pri-
Oterapeuta, entretanto, nao se desviou do tratamento em vis-
ta dessa situa<;:aoseveramente dramatica, e logo observou que sua
firmeza tornou-se 0 suporte da paciente. Pouco a pouco ela se fir-
mou mais na situa<;:aoterapeutica. Apos poucos meses, todos os
seus sintomas ffsicos desapareceram, embora nunca tivessem sido
discutidos particularmente nas sessoes terapeuticas. Para 0 espanto
da paciente, as dores gastrintestinais e a diarreia viscosa e sangui-
nolenta que se alternavam com severa constipa<;:aodesapareceram,
assim como seu recente disturbio do sono. 0 intumescimento das
mamas, que causava dol' insuportavel, tambem nao demorou a de-
saparecer. 0 impulso de esfaquear nao desapareceu tao rapidamen-
te, embora tenha perdido muito do seu poder de amea<;:apela con-
fian<;:aque ela desenvolveu nas capacidades terapeuticas do seu
analista.
Apos um ana de psicoterapia, a paciente decide pedir 0 divor-
cio, embora seu medico tenha pedido calma. Ela estava convencida
de que estava fazendo a melhor coisa por si e, especial mente, por
sua crian<;;aao separar-se do marido 0 mais nipido possIvel. Com
freqi.lE~nciacada vez maior, a crian<;;atestemunhava as discussoes
dos pais, a crescente irrita<;;aoe as explosoes da mae dirigidas ao
pai. As lembran<;;asda sua propria infancia com constantes brigas \
paternas era algo tao horrIvel que ela queria poupar a filha. Desa-
costumada de ficar so, ela tinha muito a fazer apos a completa se-
para<;;ao.Ter que "andar com as proprias pernas" nao era facil para
essa mulher que nunca tinha administrado a propria vida. Mas nun-
ca lastimou 0 passo dado para libertar-se desse casamento infeliz e
sem futuro.
Apos mais urn ana de intensivo trabalho terapeutico, a pacien-
te conheceu urn jovem numa festa. Ele a impressionou, mas, ao
mesmo tempo, deixava-a estranhamente perturbada. Temendo se
apaixonar loucamente por ele, ficou feliz em deixar a festa e fugir
para a seguran<;;ade sua casa.
Poucos dias depois, viu 0mesmo jovemcaminhando em dire-
<;;aoa ela do outro lado de uma das ruas da cidade. Acreditando que
tinha sido reconhecida e que ele estava atravessando a rua para
falar com ela, sentiu-se grudada no chao; nao podia dar nenhum
passo. Repentinamente ela desmoronou, ficou paralisada. Foi leva-
da para 0 hospital numa ambulancia. Ambas as pernas ficaram
flacidas em decorrencia de uma paralisia histerica.
Apos esse incidente, a psicoterapia continuou, sem interrup-
<;;ao,no hospital. Depois de tres semanas, ja capaz de usar suas
pernas novamente, deixou 0 hospital. Foi necessario mais urn ana
de esfor<;;ospsicoterapeuticos para que uma mulher madura capaz
de amar e trabalhar evoluIsse de uma criatura infantil, totalmente
frIgida. Tres anos de analise foram necessarios para que ela estives-
se pronta para finalizar 0 tratamento.
o jovem, cuja apari<;;aosubita na rua, urn ana antes, tinha oca-
sionado a paralisia histerica das pernas, nao tinha se intimidado com
os sintomas excessivamente impressionantes da doen<;;ada pacien-
te. Ela mal tinha chegado em casa de volta do hospital e ele come-
<;;ou,de forma habil e persistente, a corteja-Ia. Logo se tornaralll
amantes. E sentindo-se agora, pela primeira vez, capaz de exprcs-
sar de modo maduro sua capacidade de amar, ela perdeu os ultimos
tra<;;osde seus impu]sos de esfaquear sua pequena filha. Esses im-
pulsos nao retornaram, embora RZ nunca tivesse estado tao limita-
da pela presen<;;ada filha como nesse momenta da sua vida, com
tantos compromissos.
Aconteceu de ela encontrar seu novo amado na mesma rua
onde urn ana antes, nas mesmas circunstancias, tinha reagido com a
paralisia histerica. Desta vez tambem ela 0 ve, inesperadamente,
vindo em sua dire<;;aodo outro lado da rua. Mas, livre do medo,
sentiu-se repleta de alegria diante dessa situa<;;ao.Seu cora<;;aobatia
tao fortemente que parecia querer pular para fora do peito. Ela nem
reparou no movimento da rua. Correu para seu amado, impulsiva-
mente, abra<;;ando-oe beijando-o. Ele correspondeu aos abra<;;os
com igualprazer. Entao, andaram abra<;;adospela rua, fazendo pIa-
nos de ferias nas Ilhas Canarias. Ambos conheciam a casa de campo
para a qual iriam em algumas semanas. Imaginaram, com detalhes,
como passariam horas juntos ao sol, nadando e divagando em cam-
pos abertos.
Algum tempo apos essas felizes ferias, entretanto, ficou evi-
dente que as circunstancias nao permitiriam a permanencia do VIn-
culo de casamento com esse amado. Apos dois anos de imperturbavel
felicidade, ele foi para 0 Extremo Oriente, de la nunca retornando.
Tres seman as apos a separa<;;ao,RZ tornou-se insuportavelmente
agitada. Severa irritabilidade, ressentimento e intolerancia toma-
yam conta dela. A sombra da doen<;;apesava sobre ela 0 dia todo.
Tudo que acontecia a deixava nervosa e incomodada. Mesmo com
a melhor das inten<;;oes,nao conseguia dar conta do trabalho do-
mestico cotidiano. Era empurrada por uma constante impaciencia
de uma coisa para a outra. Sentia-se sufocada, como urn puro-san-
gue num estabulo estreito. Pelo fato da sua vida ter sido resumida
repentinamente a cuidar de sua crian<;;ae do pequeno apartamento,
come<;;oua revelar sinais de panico, semelhantes 11claustrofobia.
Nesta situa<;aode solidao e isolamento renovados, os antigos
impulsos para esfaquear e estrangular, dos quais ela pensava estar
livre, retornaram para sua surpresa e horror. Tentando expandir sua
vida severamente limitada, ela procurou safda num trabalho artfsti-
co profissional e na retomada de rela<;6es com antigos amigos e \
conhecidos. Essas divers5es, entretanto, nao puderam ajuda-Ia. Nem
sua irritabilidade, nem os impulsos para esfaquear ou estrangular,
desapareceram. RZ desejava a aproxima<;aodo homem que ela ama-
va. Seu desejo pOI'ele nunc a a abandonava, mesmo durante sua
rotina diaria quando tentava se distrair. Atribuindo sua animosidade
e tensao a frustra<;ao sexual, ela tentou se masturbar, esperando
encontrar alguma especie de alfvio para seus impulsos destrutivos.
Mas descobriu que era completamente incapaz de se satisfazer des-
te modo. Nao era por causa de qualquer especie de sentimento de
culpa, mas a masturba<;ao nao a colocava emcontato consigo mes-
ma, a mulher que tinha conhecido a exuberancia de amar 0 corpo e
a alma de urn homem, e que tinha se tornado fisicamente capaz de
urn pleno orgasmo feminino na comunhao sexual. Com a
masturba<;ao nunca experimentava excita<;ao sexual, muito menos
orgasmo.
Desesperada com essa situa<;aoaparentemente sem safda, RZ
iniciou urn relacionamento sexual com outro homem. Embora fos-
se urn tipo agradavel,ele nao era sensfvel a ela, nem ffsica nem,
particularmente, artisticamente. Ela sentia prazer sexual com ele,
mas a intensidade de entrega que experimentava era apenas uma
sombra do que tinha vivido com seu primeiro amor. Ela era consci-
ente 0 tempo todo da distancia que havia entre eles em rela<;ao a
sua sensibilidade espiritual e preferencias, e a sua inabilidade de
partilhar entusiasmo pela arte, 0 que era essencial para ela. Sentia-
se muito sozinha na sua presen<;a,mesmo quando estavam deitados
juntos na cama. Os contatos sexuais com esse homem ajudaram
muito pouco em rela<;ao aos impulsos de esfaquear e estrangular
que ela continuava a experimental' em rela<;ao a sua filha. Ap6s
algumas seman as de honestos mas infrutfferos esfor<;ospara respei-
tar e aceitar seu novo parceiro como ele era, assim como para aprCl1-
del' a ama-Io, ela termina 0 relacionamento. A falta de harmonia
essencial tinha provocado mais angustia do que alfvio.
Esse relacionamento amoroso foi seguido pOI'variosoutros
no decOlTer dos anos seguintes, os quais tambem eram apenas de
natureza temporaria. Mas sempre que RZ se permitia entregar-se
de modo rico e pleno, seus impulsos de esfaquear e estrangular e as
fobias desapareciam completamente. Enos perfodos de frustra<;ao,
entre urn relacionamento e 0 seguinte, eles recome<;avam com per-
sistente regularidade. Contudo, a presen<;ados impulsos nao apre-
sentava mais 0 risco de suicfdio, como ocorria antes da psicoterapia.
A paciente tambem tinha perdido todo 0 medo de ficar louca.
Finalmente, cinco anos ap6s a conclusao de sua cura analftica,
RZ teve a sorte de encontrar urn parceiro para se casar; urn homem
que ela podia amar livremente, de corpo e alma, como 0 seu primei-
ro amado. Ele era excepcionalmente carismatico e bastante conhe-
cido profissionalmente, alem das fronteiras de seu pr6prio pafs.
Tambem era muito semelhante a ela nos julgamentos esteticos, sen-
sibilidade e talentos artfsticos. Alem disso, ele percebeu facilmente
suas necessidades afetivas e sexuais, amando sua mulher pOI'sua
delicadeza feminina, sua ternura e habilidade para 0 amor, assim
como pOI'sua espiritualidade, por sua vivacidade intelectual e seu
natural senso de humor. Apreciava sua presen<;a, que constante-
mente the inspirava ideias e impulsos criativos. Desde que come<;ou
a se relacionar com esse homem, RZ nunc a mais experimentou 0
menor sinal de impulso para esfaquear ou estrangular. Tornou-se
uma mulher radiante, cheia de vida e altamente espiritualizada.
RZ esta especialmente feliz por conseguir agtientar as ausenci-
as profissionais do marido pOI' longos perfodos sem sentiI' medo
nem os antigos impulsos. Ela reconhece nisso urn sinal de sua liber-
dade. Ela nao esqueceu que os colapsos costumavam acontecer
subitamente quando ficava sozinha, sem 0 acolhimento ffsico do
seu amado, pOl'duas ou tres semanas.
Houve apenas urn acontecimento que prejudicou 0 seu bem-
estar desde 0 segundo casamento. Umjovem motorista irresponsa-
vel perdeu 0 controle do carro e atropelou urn grupo de pedestres.
RZ estava entre as vitimas. Sobreviveu, mas, porter quebrado a
tibia, teve que ficar acamada durante seis semanas.
Descreve esse momenta de impacto da seguinte maneira:
\
va, 0 pensamento que tinha express ado com frequencia nas (titilll;\S
semanas de seu tratamento.
Estou surpresa pelo curso do lneu desenvolvimento, quollc!o
olho para tras, para a ,ninha vida antes e depois do tratamento
anaUtico existencial. Voce sabe que sob a influencia de pais com-
pletamente incompativeis eu era totabnente alienada de mim epodia
levar somente Ulnavida apagada antes do comer;o da minha cura
pOl'voce. A pequena pessoa que eu era naquela epoca, basicamen-
te nunca disse respeito a mim; dejinitivamente, aquela nao era eu.
Na realidade, eu nasci pela primeira vez no tratmnento da analise
existencial. E entao, ate ofiln do tratamento, pensei em ,nim cada
vez mais como wna mulher sem um passado ou uma vida anteriOl~
De repente fui atingida pOl' um duro, forte golpe lateral, per-
dendo 0 equilibrio. Antes que eu soubesse 0 que tinha acontecido,
estava deitada de costas no cimento. Ul1Wdol' enlouquecedora se
irradiava de algwn lugar de minha perna. No inicio eu nao sabia
exatamente 0 que era isso. Era embaixo e vinha bem de dentro.
Nos primeiros momentos, a dol' era semelhante a uma bola de ar;o
fervente. Mas entao elafluiu atraves de mim na velocidade de um
relampago. Eu me tornei nada l1wis que uma enonne dol' dilace-
rando. Quase percli os sentidos efiquei meio inconsciente. Fui com-
pletwnente tomada por essa dOl~perdendo-me nela. Felizmente,
fui capaz de voltar a ,nim, arrancando-me desseestado. Somente
entao pude entender que provavelmente tinha quebrada a tibia.
Nao podia mover minha perna ne111mesmo um milimetro, ou a dor
dilacerante irradiava-se da perna por todo 0 meu corpo. Entao,
um atendente de primeiros-socorros aplicou-me uma il~jer;ao.A
dor desapareceu. As pessoas e coisas ao meu reclor tornaram-se
distantes e enevoadas. Senti-me sonolenta e quando acordei esta-
va mllna cama de trar;ao, num quarto da clinica cirurgica.
A forte dol' dos prirneiros dias deixou RZ consideravelmente
exausta. Ap6s urn arrastado tempo de convalescen<;a, ela voltou a
forma antiga. Durante as ultimas semanas de invalidez RZ escreveu
contos, que posteriormente interessaram os melhores jornais. Par
outro lado, dificilrnente ela passou urn dia sem que sete ou oito
amigos fossem visita-la. Recuperou-se completamente em tres me-
ses.
Em sua carna de hospital, escreveu uma carta de agradecimen-
to a seu antigo terapeuta, que havia cuidado dela par meio da ana-
lise existencial. Na carta, repete, de forma valiosamente informati-
DASEINSANALYSE E A CLINICA1
JOAO AUGUSTO POMPEIA
expressao como essa nao e facil quando 0 queremos fazer por Illci()
de uma aproxima<;aocuidadosa daquilo que pretendemos explicit<lL
Come<;amos a pensar aqui, e ja temos que nos deter na palavra
aproxima<;ao. 0 que quer dizer aproximar? N6s nos damos conLa
de que, quando nossos olhos se aproximam de alguma coisa, essa
coisa aumenta, seu conteudo se torna mais complexo, ela vai se
tornando preciosamente singular em sua manifesta<;ao. Aqui urn
exemplo: Se, do alto de urn predio de trinta andares, olhamos uma
multidao la embaixo vemos que todo mundo e igual, e tudo uma
uniformidade s6. Nao sabemos se sao homens ou mulheres, velhos
ou crian<;as, gordos ou magros. S6 vemos aqueles pontinhos pretos
se movendo. A medida que nos aproximamos, come<;amos a dife-
renciar: ha homens, mulheres, velhos, crian<;as. Se nos aproxima-
mos mais ainda, notamos que alguns tern olhos azuis, outros, casta-
nhos, alguns tem cabelos lisos, outros, crespos. E, se chegamos
bem perto, percebemos que nao haduas pessoas iguais andando la
embaixo.
Quando nos aproximamos das situa<;6es,elas tendem a se tor-
nar complexas; elas passam a manifestar 0 singular, e, ao mesmo
tempo, a realidade ganha uma riqueza fantastica que a constitui.
Essa riqueza ou grandiosidade do que se manifesta faz com que 0
conhecimento se reconhe<;a sempre iniciante. Por mais que 0 co-
nhecimento se desenvolva, se articule e tente dominar a realidade, a
realidade sempre tern a capacidade imensa de ser muito mais com-
plexa e muito mais rica do que aquilo que 0 conhecimento pretende
focalizar.
Essas considera<;6es feitas acima servem para que nos lembre-
mos de que, se quisermos dizer 0 que e a clfnica psico16gica eo que
e a Daseinsanalyse, com base em uma minuciosa aproxima<;ao des-
sas duas express6es, estaremos diante de uma tarefa muito comple-
xa e demorada para 0 tempo de que dispomos para esta nossa con-
versa.
Apesar dessa dificuldade, tentemos esclarecer 0 que puder-
mos.
Este texto tern a clfnica como tema: a clfnica psico16gica como
e vista tradicionalmente, para cuja compreensao e necessario saber
o que significam psique e logos, ea clfnica na perspectiva da
Daseinsanalyse, que se ap6ia na concep<;aode Dasein como ser-no-
mundo, com tudo 0 que daf decorre.
The theme of this article is the clinical work: the clinical
Psychology as it is seen traditionally to which the understanding of
psyche and logos is necessary to be known, and the clinical work in
daseinsanalytical perspective supported by the conception ofDasein
as being-in-the-world with all its implications.
No campo da Psicologia, geralmente, 0 que e entendido como
c1fnica e a psicoterapia, ou seja, e 0 trabalho c1fnico no consult6rio.
E sao muitas as formas de psicoterapia.
E importante nosdetermos um pouco na clarifica<;ao do que
entendemos como clfnica psico16gica. Dizer 0 que significa uma
o que e clfnica psicol6gica? E, antes disso, 0 que e psicologia?
Nessa palavra encontramos etimologicamente logos e psique.
muito especiais. Sao principalmente quatro:.
Atomiza<;ao: Para conhecer e preciso decompor 0 que vai scr
estudado em seus elementos mais simples. Isso vale para todas as
ciencias, inclusive para as teorias pr6ximas a filosofia, na psicolo-
gia do secu]o 19. Opera tambem na compreensao da estrutura do
inconsciente, seja do ponto de vista freudiano, seja do ponto de
vista junguiano ou reichiano.
Procura por explica<;5es causais: Aquilo que foi atomizado ou
decomposto precisa ser recomposto, mas 0 mais importante e que
haja explica<;ao.A explica<;ao se faz pelo princfpio da causalidade.
Assim, passa-se a achar evidente que conhecer algo seja identificar
suas causas.
Interferencia na realidade: Uma vez conhecidas as causas de
algo, toma-se possfvel a interferencia naquela realidade. 0 conhe-
cimento, sendo uma possibilidade de interven<;ao, de modifica<;ao,
liga-se ao poder. (Nao e a toa que Platao, que cria um sistemafilo-
s6fico, idealiza tambem uma teoria polftica de organiza<;ao da cida-
de.) 0 conhecimento se tomou tao poderoso que atropela culturas
diferentes, domina 0 planeta.
Produzir resultados: 0 conhecimento, que pode interferir na
realidade, faz isso com base no que e por ele considerado desejavel.
E um movimento que visa a submeter, destruir 0 indesejavel, e,
nesse sentido, ele e luta. E luta contra aquilo que pode ser identifi-
cado como 0 mal. No ambito das religi5es, e mais valorizado 0
conhecimento poderoso que luta contra 0 mal, representado pelo
demonio, que 0 saber que aproxima de Deus.
Assim, quando falamos do logos como conhecimento, estamos
falando daquele conhecimento que parte de uma determinada atitu-
de de distanciamento diante das coisas do mundo. Aqui, nesta ex-
pressao "coisas do mundo", sem nenhum sentido pejorativo, estao
inclufdos os homens tambem.
Podemos dizer que logos, como e entendido no mundo atual,
eo conhecimento racional que opera a partir de um recuo, de um
distanciamento que categoriza e busca leis gerais. Eo conhecimen-
Embora sem nos aprofundarmos no significado da palavra
logos, sabemos que, desde 0 infcio de seu aparecimento entre os
gregos, ela esta associada a uma condi<;aohumana. Ela pode signi-
ficar 0 "dizer", a enuncia<;ao,mas costuma geralmente ser traduzida
por razao. Como razao, ela em seguida passa a designar conheci-
mento. E se logos significa conhecimento, entao, a palavra psicolo-
gia deve significar conhecimento da psique, pois logia deriva de
logos.
Dentro da hist6ria da filosofia ocidental, 0 conhecimento apa-
rece com alguns atributos. Um deles e que os elementos com os
quais ele opera devem ser universais. Para que 0 conhecimento se
constitua como logos, como um corpo de conhecimentos com sig-
nificado e importancia, e preciso que ele opere com universais, com
categorias, com elementos resultantes de abstra<;ao. Para abstrair e
preciso deixar de lado as caracterfsticas particulares de cada objeto
e buscar as caracterfsticas essenciais que 0 constituem. Aquele ob-
jeto singular e inscrito numa categoria que 0 contem, e af entao 0
conhecimento pode se desenvolver, organizar-se como verdadeiro,
como veritas. Em resumo, sob esse prisma, e preciso que aquele
que conhece afaste-se do singular para que se constitua 0 logos.
Outro atributo do conhecimento e este: partindo de universais
e de categorias, buscam-se leis gerais, princfpios gerais que possam
reger aquilo que e conhecido, as coisas do mundo, estas que, a
partir de um momenta na hist6ria da filosofia passam a se chamar
objetos do conhecimento.
o conhecimento como logos assume algumas caracterfsticas
Media, com as modifica<;oesintroduzidas por Sao Tomas de Aq1Ii11 ( ).
No seculo 17, Descartes rompe com a tradi<;ao aristotelica. J\
partir dele temos, de urn lado, algo que conhece, que pens a, a res
cogitans, coisa pensante, e, de outro, a res extensa, coisa extensa,
ou seja, tudo 0 mais que ha para ser conhecido, ate mesmo 0 corpo
humano.
A partir de Descartes, constitui-se a dualidade sujeito-objeto.
Nao mais 0 homem junto as coisas.
Com 0 cartesianismo passamos a tel' 0 sujeito separado do
objeto que ele vai conhecer. A coisa se transforma em objeto, e e
como se a coisa perdesse a dignidade de ser coisa para passar a ser
objeto. Falamos entao da verdade objetiva, a cujo conhecimento
chegamos fundamentados no metodo cientifico.
Nesse mundo ja dividido entre sujeito e objeto, em que surgem
as tendencias racionalistas e as empiristas, a palavra psique vai de-
signal' 0 elemento pr6prio do sujeito, a subjetividade, ou a consci-
encia.
No final do seculo 19 surge uma psicologia experimental pre-
ocupada com 0 estudo das sensa<;oes, das combina<;oes entre os
elementos da percep<;ao.
No seculo 20 crescem tambem os estudos sobre a linguagem.
Curioso e que, no decorrer do seculo 20, a chamada subjetivi-
dade passa a ser algo objetificado. 0 que pode e deve ser conhecido
do sujeito e 0 observavel, 0 seu comportamento. Este e objeto de
pesquisa, de controle. Desenvolvem-se as teorias comportamentais.
o que antes pertencia ao ambito do sujeito ou da subjetividade pas-
sa a ser visto como algo cujas peculiaridades pertencem ao mundo
dos objetos. Alem disso, as pesquisas relativas ao cerebro aumen-
tam a compreensao dos componentes organicos que interferem nas
emo<;oes, no pensamento. Nessa perspectiva, espera-se que a cien-
cia objetiva, no caso as neurociencias, possa dar conta da subjetivi-
dade. A tristeza se torn a questao de nfveis de serotonina; a fe, ques-
tao de urn conjunto de sinapses.
Mas, nessa mesma epoca, a psique e considerada tambem de
to que formula teoria, em grego the6ria, contempla<;ao. Urn possf-
vel sentido da palavra teoria no grego nos remete a urn panorama
que se estende diante da vista. Nesse contexto, empregando as
metaforas relativas a luz e a visao, podemos nos referir as teorias
como evidentes, 6bvias, claras ou obscuras.
o conhecimento que se organiza como logos, tendo por base
o afastamento, 0 distanciamento da coisa, a procura pelo geJ:al,pelo
universal, e geralmente simbolizado pelas metaforas que falam da
luz e do vel' do olhar; nesse caso, fala-sedo enxergar sob a luz da
razao.
Quando na palavra psicologia nos referimos a um conhecimento
(logos) da psique ou do psfquico, 0 que significa essa palavra psi-
que? Psique deriva-se do grego psukhe,es, com 0 significado de
sopro (como em sopro de vida). Psfquico vem de psukhik6s, e, on
(relativo ao sopro, a vida, aos seres vivos, a alma como principio de
vida). A palavra latina equivalente e anima,ae como principio de
vida. (Na mitologia, Psique era 0 nome da amante de Eros.)
Espfrito, que etimologicamente provem do latim spiritus, us,
tambem tern significado de sopro. E outra palavra com significado
semelhante ao de alma.
Como vemos, no infcio, as palavras psique, alma, espfrito, des-
crevem uma peculiaridade dos seres vivos em geral.
Para Arist6teles, a alma e a forma (no senti do de essencia) de
todos os corpos naturais que tern vida. As plantas tern a alma que
responde pol'suas fun<;oes de alimenta<;ao, crescimento, reprodu-
<;ao.A alma dos animais, alma sensitiva, desempenha mais fun<;oes,
como discrimina<;ao, locomo<;ao.A alma dos seres humanos, alem
dessas fun<;oes que eles compartilham com outros animais e plan-
tas, tem algo que a distingue, isto e, tem a faculdade da razao. 0
homem e 0 animal racional.
o pensamento de Arist6teles predomina durante toda a Idade
maneira a priorizar a subjetividade. Com Freud surge a
metapsicologia, teorias que explicam aquilo que esta alem da psi-
cologia. A psicanalise estabelece um outro campo alem da consci-
encia, 0 do inconsciente. Estabelece para a consciencia uma fonte
de determina(,,:aoque provem do inconsciente.
Vejamos entao: A psique, como espfrito ou alma (palavras que
lembravam alguma conota(,,:aoreligiosa), cede lugar a psique.-como
consciencia ou a coisa pensante, que pensa 0 objeto. Num outro
momento, temos as tendencias ou para objetificar 0 sujeito ou para
priorizar a subjetividade, e, nesta, ganha mais relevo 0 inconscien-
te.
Quando usamos a palavra psicologia ou a expressao "clfnica
psicoI6gica", estamos certamente falando do logos, mas a psique
referida afja nao diz respeito ao que psique ou consciencia signifi-
caram no passado. A grande maioria das teorias, se nao caminha na
dire(,,:aodaobjetifica(,,:aodo sujeito, caminha na perspectiva de uma
estrutura inconsciente, estrutura essa que e determinante da experi-
encia psicol6gica, ou seja, da forma como 0 objeto vai se apresen-
tar a consciencia.
Enfim, quando falamos em psicologia, psic610go ou psicol6gi-
co, toda uma hist6ria das palavras af contidas esta presente. Ha um
pensamento que se desdobra ao longo da hist6ria da metaffsica e
das ciencias que dela surgem, em nosso caso, a psicologia. Esse
modo de pensar, aos poucos, vai determinando os significados de
logos e psique.
que, diante do objeto a ser conhecido, procura decompo-lo para
melhor encontrar explica(,,:oescausais e, assim, poder interferir Ila
realidade para produzir alguns resultados considerados desejaveis.
E preciso conhecer as causas da queixado paciente para poder
lutar contra 0 "mal", seja 0 sintoma, seja 0 disturbio, seja 0 que no
inconsciente e 0 fator de perturba(,,:ao.A clfnica aparece como um
processo de interven(,,:ao.0 psic610go freqUentemente veste a ar-
madura para ir a luta e, como Sao Jorge, matar 0 dragao. E acaba
pOl'se preocupar, pois a industria qufmica esta matando mais dra-
goes e com mais eficiencia do que ele. Uma vez mortos quimica-
mente os dragoes, vem a pergunta: e agora? 0 que faz a pessoa que
acreditava que viver e lutar pela vida, pOl'ganhar mais, pela salva-
(,,:ao,pelo planeta? Em vez da luta, e 0 luto pelas perdas, pela mes-
ma falta de sentido na vida.
Notamos que na clfnica psicol6gica prevalece atualmente a in-
ten(,,:aode curar 0 paciente. A fun(,,:aodo curar e pragmatica. Curar
significa eliminar algo. Quando curamos uma doen(,,:a,n6s destruf-
mos 0 vfrus, a bacteria, acabamos com aquilo que esta criando pro-
blema ou que esta configurando a doen(,,:a.Olhamos para 0 que esta
acontecendo e vemos que ali ha alguma coisa que esta errada. Nes-
se caso, compreendemos 0 paciente nao como alguem que precisa
ser cuidado, que precisa de um abrigo pOl'que, pOl'alguma razao, a
existencia dele se viu solicitada pOl'algo ao mesmo tempo delica-
do, dificil e importante. Olhamos esse p'aciente como alguemvfti-
ma de um erro, de urn trauma, de urn mal.
Se temos a perspectiva da cura, nosso trabalho mergulha nessa
referencia do mal e da necessidade de destruir, de eliminar 0 pro-
blema. 0 paciente pergunta como ele deve fazer para acabar com 0
problema. 0 problema esta ali paraser arras ado. A pessoa nao ve
que aquela dificuldade pode ser oportunidade de crescer; ela s6 se
ve como alguem submetido a um mal. POl'exemplo, 0 problema de
alguem esta nos receptores de serotonin a; ele precisa de remedio;
ele come muito chocolate; ele engorda muito. 0 que esta aconte-
cendo e um erro e precisa ser eliminado. Ele precisa parar com isso,
Sabendo que 0 conhecimento como logos tem aquelas carac-
terfsticas que reconhecemos acima, podemos tel' uma ideia de como
o conhecimento da psique, ou seja, a psicologia,opera atualmente.
Na clfnica psicol6gica, embora 0 psic610go nao esteja 0 tempo
todo pensando nessa descri(,,:aoque fizemos do conhecimento, sua
tendencia e geralmente esta: agir de acordo com aquela perspectiva
precisa.emagrecer. Nessa perspectiva, nem 0 paciente nem.o
terapeuta veem que ali ha uma questao, sim, mas a questao e um
convite para um crescimento, para uma aproxima~ao maior da vida
pessoal com as suas contradi~6es. Eles veem que ali ha um erro ou
um mal que deve ser submetido, e 0 quanta antes. Aquele paciente
quer submeter a sua fome, reduzir 0 seu estomago. Ele pede ao
medico que tire de suas maos a liberdade de comer ou de na2 co-
mer, ele nao suporta lidar com a sua liberdade. A liberdade pode ser
um fardo terrivel.
o curar e sempre pontual. Ha uma decomposi~ao do problema
num aspecto especffico (analogamente a atomiza~ao que caracteri-
za 0 conhecimento, como vimos um pouco acima). Ja existe 0 es-
pecialista em problema sexual, em anorexia, em crise de panico. 0
que e preciso e eliminar aquele problema. 0 que acontecera daqui a
uns anos ... bem, isso se resolvera depois com um outro especialis-
ta.
o paciente cobra do profissional que ele 0 cure de alguma
forma, mesmo que essa cura esteja inscrita em buracos tao terriveis
como quando ele pede que sua liberdade the seja tirada. A pressa
em eliminar um problema pode eliminar tambem uma oportunidade
de crescimento.
nica psicol6gica. Vma diferen~a ja pode ser notada pelo falo de
colocarmos a enfase nao no curar, mas no tratar. Tratar e curar nito
sao 0 mesmo (embora essas palavras guardem um sentido semc-
lhante: tratar e cuidar, e cuidar tem a mesma etimologia de curar).
Tratar e compreendido como 0 exercfcio do cuidado. E as si-
tua~6es que demandam cuidado, como dissemos antes, tem princi-
palmente tres caracteristicas ou qualidades: delicadeza, dificulda-
de e importancia, que inclui as duas primeiras. Assim, tudo que e
delicado demanda cuidado, pede para ser bem tratado, pois 0 que e
delicado se destr6i com facilidade se for maltratado. 0 que e diffcil
precisa de cuidado, pede que a pessoa se detenha, pare para olhar
melhor, pense bem; e ai, na referencia do perigo, cuidado quer di-
zer: tome cuidado. E todo cuidado e pOllCOcom aquilo que e im-
portante, que e valioso.
Quando essas tres qualidades se juntam, articulam-se na expe-
riencia da pessoa, temos a solicita~ao, a demanda, 0 pedido de cui-
dado, ou a voca~ao, ou seja, 0 chamado para 0 cuidado (voca~ao,
de vocare - chamar). A voca~ao que chama nessa articula~ao ou
reuniao dessas qualidades e a apresenta~ao de um problema. Curi-
oso e que a palavra problema, que pertencia primeiramente amate-
matica, passou a ser usada no senti do de problema psicol6gico.
Na clfnica, a palavra problema aparece frequentemente com
um sentido negativo. Vm paciente chega e diz: "Estou procurando
voce pOl"quetenho um problema existencial: nao e um problema
psicoI6gico." Para algumas pessoas, tel' um problema psicol6gico
parece uma incompetencia, uma vergonha, mas tel' um problema
existencial parece coisa de pessoa profunda; lembra Sartre, angus-
tia, fil6sofos, pensadores, artistas. Engra~ado e que ainda nao in-
ventaram remedio para problema existencial, s6 ha remedio para
problema psicol6gico.
Para mim, apalavra problema tem um senti do precioso. Des-
A proposta, no inicio desta apresenta~ao, era falarmos de
Daseinsanalyse e clfnica psicol6gica. POl' isso, trouxemos aqui as
palavras logos, psique e consideramos a inten~ao de curar como
uma possivel tarefa da clfnica.
Mas agora, para pensarmos a partir da perspectiva da
Daseinsanalyse, temos de nos situar numa outra dimensao que im-
plica consequenciasdiferentes para 0 que consideramos como cli-
cobrir seu significado me ajudou a compreender que ha um valor
moral de bem e de mal ligado a ideia de problema psicologico ou
existencial. Em nossa epoca e cultura, problema e visto como im-
pedimento, barreira. Tendemos a perceber no problema so 0 mal e
esquecemos que ele carrega em si tambem a dimensao essencial do
bem.
Lembro-me de uma brincadeira de moleque que consistia em
dizer: "Eu sei a solu<;;aopara qualquer problema." Quando apessoa
perguntava qual era a soluc;ao, a gente respondia: "Dar urn tiro na
cabec;a. Morto nao tern problema." Pensando depois nessa brinca-
deira, vejo que os vivos e que tem problemas.
o problema mostra que ha uma barreira. Mas so ha barreira
para quem tem vida, tem forc;a,tem pulso, tern proposito. Para quem
nao tern nada disso, nao ha problema. Porque a barreira nao e uma
coisa. Ela e um papel, e uma func;ao.Vma parede diante de mim so
e uma barreira se eu quiser passar para 0 lugar que esta do outro
lado dela e nao dispuser de outra passagem. Se eu nao quiser passar
para 0 outro lado, ela nao e barreira. Ela pode permanecer em seu
lugar e nao me incomoda em nada. Se eu quiser passar, tenho que
arrumar picareta, dinamite, qualquer coisa para arrebentar a pare-
de. A barreira so e barreira diante do meu proposito, do meu dese-
jo, do meu projeto, da minha necessidade de movimento. E preciso
que haja essa energia para que algo seja barreira.
A palavra problema vem do grego problema, atos, derivado
de probaU8, em que 0 radical baUo tem 0 significado de lanc;ar.
Assim, essa palavra tern a vel' com algo que e lanc;ado, que se mo-
vimenta. Isso nos sugere que 0 problema surge carregando uma
energia que faz com que alguma coisa se apresente como barreira.
So quando ha algo ec-sistindo pode haver algo re-sistindo. A resis-
tencia e 0 que se op5e a existencia. A barreira so esta la na medida
em que algo diferente dela, ou seja, a existencia, luta contra aquela
barreira, de alguma forma conflita com ela.
Portanto, de uma certa maneira, tel' problemas e uma expres-
sao da vitalidade. Emais ou menos como quando 0 pediatra diz que
a febre alta da crianc;a precisa ser control ada, ela pode se tornar tlill
problema. Mas isso e sinal de que 0 corpo esta reagindo. Entre a
forc;a que ec-siste e a barreira que re-siste, da-se uma tensao. Essa
e a tensao da vida. (lung identifica isso de uma maneira muito forte
dizendo que os problemas fundamentais da vida nao podem tel' so-
luc;ao.)
Os problemas fundamentais sao sem soluc;ao porque e exata-
mente esse conflito, essa confrontac;ao que expressa a vitalidade da
vida. Essa vitalidade ou vigor, na perspectiva contemporanea, re-
duz-se freqUentemente amera ideia de luta, busca de dominac;ao de
urn sobre outro. Mas a vida nao precisa ser sempre luta.
Nos problemas que fazem parte da vida 0 que ha e uma tensao
que solicita atenc;ao. Tudo aquilo que esta tenso tern algo a dizer,
expressa alguma coisa, conta de uma existencia, conta de uma rela-
c;aotragic a que articula esses dois elementos, existencia e resisten-
cia, numjogo que pode ser uma verdadeira paixao. A tensao que ai
aparece pede urn cuidado, e esse cuidado tem 0 carater do abrigo.
Quando nos situamos na referencia da Daseinsanalyse, 0 exer-
cicio da clinica se toma diferente pOl'quepartimos de urn modo de
pensar em que nos descolamos dos pressupostos que vieram da
metafisica e fundamentaram as ciencias, inc1uindo a psicologia.
A diferenc;a do nosso pensar ja se faz sentiI' na compreensao
que temos do que significa conhecer, isto e: nao consideranws 0
logos, conhecilnento racional que se distancia do seu objeto para
chegar ao geral, ao universal, como 0modelo privilegiado do que
e conheceT: Consideramos que esse conhecimento tao bem repre-
sentado pelas metaforas que falam do olhar sob a luz - a luz da
razao -, de certa forma, rejeita 0 saber.
Pois 0 saber se realiza em outras dimens5es tambem. E, nesse
caso, ha outras metaforas que podem ser lembradas, aquelas que se
referem a outros 6rgaos dos sentidos.
do, para 0 que nao foi pensado ao longo desses 2600 anos, dL;Stk
que a op<;aodo conhecimento se tornou essa que tern prevalccido.
Ele fala do esquecimento do sentido do ser.
Ao propor 0 conceito de Dasein, ser-ai, que e ser-no-mundo,
ele mostra 0 que ha de mais peculiar ao homem, aquilo que 0 distin-
gue de todos os outros entes, mesmo dos outros animais. Aristoteles
tambem havia se preocupado com 0 peculiar do homem eo distin-
guiu como sendo 0 animal racional (0 que pode ser pens ado, com
Heidegger, como 0 animal que fala).
Quando nos aproximamos do que Heidegger tern a dizer sobre
o mais peculiar do homem, nos nos surpreendemos com isto: es-
sencialmente 0 homem se caracteriza por urn nao ser. 0 ser hum a-
no e aquele que carrega consigo 0 vazio do seu proprio ser, esse
vazio que e 0 espa<;ode tudo aquilo que ainda nao e, que ainda nao
aconteceu, que ainda nao se tornou real, mas pode ser, pode se
tornar real. Foi a isso que eu me referi em outra ocasiao com a
expressao: 0 homem e urn animal que sonha.
o sonhar refere-se ao modo como 0 homem de fato existe: ele,
o tempo todo, lan<;a adiante de si a configura<;ao de propositos,
objetivos, inten<;5es,motivos, desejos, e, nisso que ainda nao exis-
te, ele se apoia para se relacionar com aquilo que existe. 0 jeito
como ele age concretamente com as coisas que existem brota, nas-
ce, justifica-se e se fundamenta naquilo que ainda nao existe. 0
homem esta sempre querendo chegar a algum lugar. Esse algum
lugar, mesmo que ele nao chegue la, ja esta sempre presente no
momenta em que, nesta realidade concreta, ele da 0 primeiro passo
naquela dire<;ao. Por isso dizemos que a essencia do homem esta
contida, esta revelada nesse nao ser, naquilo que nao e.
Uma outra dimensao que caracteriza 0 homem eo fato de ele
carregar aquilo que nao e mais, mas ja foi, porque ele e capaz de
recordar. Ele nao so projeta e abre a perspectiva do vazio daquilo
que orienta sua a<;ao,como abre tambem a perspectiva daquilo que
nao existe mais, mas que, de certo modo, continua existindo nesse
espa<;o vazio em que as coisas que foram podem retornar, pois 0
No enxergar sob a luz da razao pode haver clareza, mas nao ha
intimidade com 0 que e visto. E 0 saber se faz na intimidade. 0
saber e sempre urn sabor (a etimologia e a mesma), e 0 sabor e 0
gosto do que ingerimos, do que incorporamos; e algo que senti-
mos, que degustamos no ceu da boca.
o saber se faz na proximidade. E como 0 tato aproxima! 0
olho nao conhece no escuro, mas 0 tato, sim. 0 olho trabalha na
distancia; 0 tato, na proximidade, como quando pode~os sentir
algo com as maos.
Estamos concebendo aqui 0 conhecimento como urn saber que
aproxima, que pode chegar perto da manifesta<;ao das coisas. Esse
saber permite que tenhamos com elas uma rela<;ao de intimidade,
que tenhamos com as coisas a liberdade de quem se sente na fami-
liaridade e em casa com elas. E e exatamente esse 0 modo de co-
nhecimento ou de saber que vem ha tempo sendo posto de lado em
nosso mundo.
o fato de esse saber ter sido posto de lado e ter sido privilegi-
ado 0 logos no decorrer da historia da metafisica aparece junto com
aquilo que Heidegger chama de "0 esquecimento do ser". Penso
que 0 esquecimento do "ser" come<;acom a recusa da intimidade. A
proposta de se relacionar de longe com as coisas talvez seja a mar-
ca daquilo que se desdobra nas implica<;5es do desenvolvimento da
metafisica.
A Daseinsanalyse faz uma critic a daquele conhecimento que,
como logos, se assume como modelo universal e absoluto.
Com Heidegger surge urn outro modo de pensar mundo e ho-
memo
Romper com a tradi<;ao da metafisica nao quer dizer que
Heidegger nao reconhe<;a a genialidade dos filosofos que 0 prece-
deram. Ele era apaixonado por Aristoteles, por Kant, por Hegel.
Mas sua proposta e a de que nos voltemos para 0 que foiesqueci-
homem recorda. Ele traz de volta, pOl'que0 passado passa do pon-
to de vista concreto, mas 0 homem resgata isso que passa e traz 0
passado na presen<;a daquilo que se apresenta no presente.
Ao mesmo tempo, ele se abre para compreender esse presente
de uma forma mujto curiosa, ou seja, ele compreende 0 que esta
sendo como uma possibilidade que poderia ser OLltradiferente des-
sa que esta sendo. Vejamos. Eu olho para fora, vejo 0 dia claro e
posso pensar: "Nossa, hoje podia estar chovendo, hoje 0 sol podia
nao tel' nascido de manha, hoje 0 mundo podia tel' acabado, hoje eu
podia tel' morrido na estrada, hoje eu podia tel' ganho na loteria ...
hoje poderia urn monte de coisas". Isto que eu digo que poderia
hoje, ate este momento, nao e uma coisa que pode acontecer. Eu
sei que ela nao pode mais acontecer, porque se ela tivesse aconteci-
do, isto que esta acontecendo agora nao poderia estar acontecen-
do, pois so uma possibilidade pode se realizar. Todas as outras sac
jogadas fora. No entanto, essas possibilidades que nao mais podem
ser, que tambem nunca foram, esse dia de hoje que podia tel' side e
nao foj, tudo que nao foi e puro nada, esse nada prenhe, esse vazio
pleno de possibilidades. a Dasein se caracteriza pOl'ser aberto no
vazio das possibilidades.
Essa condi<;aode cheio de possibilidades permite que 0 Dasein,
apoiado nas possibilidades que sac nao ser, ainda nao ser, e nao
l1wis ser, ou seja, a partir disto que e 0 nao ser, olhe 0 que esta
sendo e avalie. Avaliar significa inscrever 0 real no contexto do
possivel. Assim, por exemplo, eu considero as possibilidades que
poderiam estar acontecendo e nunca VaGacontecer, aproximo-as
daquela que esta se realizando e esta entao ganha urn colorido
afetivo. Eu penso: "Que penal Justo hoje, neste dia tao bonito es-
tou aqui assistindo a aula. Eu poderia estar na praia. Vai vel' que
amanha vai chover e a aula foi hoje, em vez de ser amanha. Que
pena que esta sendo assim!" au penso: "Nossa, eu podia estar do-
ente ou podia estar assistindo a uma aula ainda mais chata do que
esta. Que born que e isto que esta acontecendo!" a born eo ruim
naquilo que esta acontecendo e dado quando coloco 0 que esta
acontecendo, 0 real, no conjunto do possivel.
Dependendo de quais possibilidades aproximamos a real idadc,
nos nos sentimos felizes ou infelizes, satisfeitos ou arrependidos.
No arrependimento eu penso: "Eu podia tel' feito isso." E so ...
podia. Mas eu saber que podia faz com que aquilo que realmentc
esta sendo fique colorido decerta forma. Nesse caso, eu me arre-
pendo do que nao fiz, pelo que nao se efetivou.
a fazer humano e ligado ao possivel, e aquilo que e possivel
adentra 0 real. a homem transcende porque, pela palavra, ele e
arrancado do interior da realidade e projetado no espa<;odas infini-
tas possibilidades, futuras, presentes, passadas. Ao ser jogado nes-
se plano das possibilidades pela fala, ele prova desse plano como
chao, como fundamento, e e a partir desse plano que ele retorna ao
real, qualificando esse real em termos de significados.
Aberto para as possibilidades nas dimens5es do presente, do
passado e do futuro e facticamente tendo de ser, realizando sua
existencia como ser-no-mundo, 0 Dasein ea sua historia.
a Dasein e tambem lugar. E 0 lugar onde 0 mundo se faz mun-
do, desdobra-se em historia e se efetiva nesta reuniao de ser urn so,
embora tantas coisas se deem no mundo. a Dasein e 0 lugar do
abrigo, e 0 lugar do "cuidado".
E no "cuidado" - 0 carater essencial do ser-no-mundo, ou seja, do
Dasein -, que 0 mundo se faz historia e que 0 Dasein se faz si mes-
mo. a "cuidado" pode se realizar concretamente dos mais variados
modos, incluindo os modos do descuidar ou do cuidar mal.
Cada urn de nos e uma historia que esta sendo escrita, que vai
se transformando a medida que os episodios VaGacontecendo.
Estamos abertos na indetermina<;ao da historia.
Pelo que foi dito aqui, ja e possivel vel' que a Daseinsanalyse
tern urn pensamento que transforma a compreensao de homem e de
mundo, e, assim, modifica a proposta daquilo que caracteriza 0
fazer do psicologo.
o psicologo daseinsanalista, em sua condic;ao de psicologo, e
lanc;ado numa realidade social e cultural em que 0 papel do psicolo-
go e relativamente bem definido e ele vai se identificar com esse
papel. Entretanto, quando ele trabalha no referencial da
Daseinsanalyse, seu trabalho e influenciado por uma certa compre-
ensao de homem que se reflete no exercfcio da clfnica. Compreen-
del' 0 ser humano como Dasein, isto e, como ser-no-mundo, como
o enteque se abre para 0 nao ser, para 0 vazio das possibilidades,
aquele cujo carater essencial consiste no "cui dado" com a propria
existencia, e isso inclui 0 mundo ..., bem, compreender e aceitar 0
que tudo isso significa, certamente, confere uma marca bem defini-
da ao seu trabalho clfnico.
Sabemos da dinamica de dominac;ao que opera em nossa cul-
tura que enfatiza a luta, 0 poder. A palavra poder e vista
prevalentemente como substantivo. Mas lembremos que ela pode
tambem ser pensada como verba; af, entao, poder significa possi-
bilidade. 13, com esta conotac;ao que 0 psicologo daseinsanalista pre-
fere pensar 0 poder em seu trabalho clfnico. Ele sabe que nao tem
poder, mas acredita na possibilidade de que seu cuidado seja oca-
siao para que aquele que 0 procura possa prestar mais atenc;ao as
suas proprias dificuldades e as suas proprias possibilidades, possa
cuidar melhor de sua existencia.
A tarefa da terapia daseinsanalftica e libertar 0 paciente para a
sua tarefa de se aproximar da sua historia. Assim, ela nao cura,
naquele sentido de eliminar um mal; ela trata 0 paciente, com 0
proposito de ampliar a liberdade dele para que ele possa fazer sua a
sua propria historia. Nao 0 passado, nao 0 presente, nao 0 futuro,
nao a conduta, nao 0 sintoma, mas a totalidade da sua historia: e
essa a nossa referencia na clfnica psicologica.
FENOMENOLOGIA E DASEINSANALYSP
MARIA DE FATIMA DE ALMEIDA PRADO
Fenomenologia: Este termo tem sido definido e compreendido
de diversas maneiras ao longo da historia da Filosofia. Apresentare-
mos a fenomenologia do modo como foi desenvolvida pOl'Edmund
Husserl para, posteriormente, aproximar a compreensao
heideggeriana da fenomenologia assim como e explicitada em Ser e
tempo e nos Seminarios de Zollikon, comofundamento da terapia
daseinsanalftica.
Palavras-chave: Fenomenologia, Daseinsanalyse, conhecer, ser,
metodo.
Phenomenology: this term has been defined and understood in
different ways during the history of Philosophy. We will present
Edmund Hussed's phenomenology and then we will approach
Heidegger's understanding of phenomenology as he clarified inBeing
and Til11e and in Zollikon SelTlinars as the foundation of
daseinsanalytical psychotherapy.
Key-words: Phenomenology, Daseinsanalyse, knowledge,
being, method.
o objetivo deste trabalho e caracterizar a Daseinsanalyse e
explicitar sua ligac;ao com a fenomenologia. A fenomenologia rece-
beu diversos sentidos ao longo de sua historia e da historia da Filo-
sofia. Deveremos esclarecer 0 sentido especffico e original que ela
2 Trabalho apresentado no Simp6sio "Iclentidade e Diferen~as cla Psicoterapia Daseinsana1ftica _no IV Congresso
Mundia! de Psicoterapia em Buenos Aires, Argentina, de 27 a 30 de agosto de 200S.
tem.para Heidegger e para a Daseinsanalyse. Ao final, como ilus-
trac;ao, serao apresentadas algumas passagens encontradas no livro
Sem.inarios de Zollikon, de Martin Heidegger, no qual a
fenomenologia foi abordada de modo especifico.
Diferentes autores estudaram e definiram fenomenologia. A
fenomenologia nao e uma escola de Filosofia ou de Psicologia pro-
priamente. Ela e uma especie de movimento que se desdobra em
diversos ramos e que assume diferentes significados conforme 0
autor que a utiliza. Dentre os autores mais importantes que utiliza-
ram a fenomenologia,podemos citar: Edmund Husserl, Merlau-
Ponty, Jean Paul Sartre e Martin Heidegger. -
Com vista ao entendimento da Daseinsanalyse, sera fundamental
apresentar 0 sentido proposto por Edmund Husserl, a fim de enten-
del' mais especificamente a significac;ao que a fenomenologia aJcan-
c;acom Martin Heidegger.
Edmund Husserl nasceu em 1859 na Moravia e morreu em 1938.
Ele foi mestre de Heidegger e urn dos mais importantes e originais
autores em fenomenologia.
HusserJ iniciou sua carreira como matematico, mas gradual-
mente seu interesse pelas questoes da Filosofia se sobrepos. Husserl
estava interessado na importante questao do conhecimento. A per-
gunta que ele fazia era: Como se da 0 conhecimento? Essa era tam-
bem a questao de Descartes, de Kant e, na verdade, de quase toda
a Filosofia.
HusserJ buscava uma Filosofia rigorosa e seu pensamento se
modificou ao longo do tempo. A fenomenologia surge no infcio do
seculo 20, urn momenta em que se percebia uma ausencia de uma
Filosofia vigente: havia uma insatisfac;ao com a metaffsica e urn
grande fascinio com 0 progresso das ciencias, especialmente a Psi-
co1ogia e a Matematica.
Em 1901, Husserl publica seu livro Investigar;oes Logicas, no
qual aponta a existencia de uma crise da cultura, das ciencias e do
conhecimento. Alem disso, Husserl faz uma crftica violenta ao
psicologismo ao qual aderira anteriormente. Para Husserl,
psico1ogismo e uma "doutrina filos6fica segundo a qual tanto a kl
gica como a teoria do conhecimento deveriam ser consideradas d is-
ciplinas subordinadas, ou mesmo simples ramos secundarios, lb
entao nascente Psicologia experimental." (Paisana, 1992, p.27).
Husserl procurava diferenciar a Psicologia como ciencia, que estu-
da 0 comportamento humano no mundo empfrico da fenomenologia
pura ou transcendental que euma ciencia das essencias, portanto,
eidetica3, e nao uma ciencia empfrica. Husser1 buscava as bases e
condic;6es de uma ciencia rigorosa para a Filosofia. Assim, pergun-
tava-se como dar rigor ao raciocinio filos6fico em relac;ao a coisas
tao variaveis como as coisas do mundo real.
ometoda cientffico prop6e 0 estabelecimento de uma "verda-
de provis6ria" util, que sera verdade ate que urn fato novo mostre
outra realidade. Para evitar que a verdade filos6fica tambem fosse
provis6ria, a soluc;ao, para Husserl, e que ela "deveria referir-se as
coisas como seapresentam na experiencia de consciencia estuda-
das em suas essencias, em seus verdadeiros significados, de urn modo
livre de teorias e pressuposic;oes, despidas de seus acidentes pr6-
prios do mundo real, do mundo empfrico, estesim objeto da cien-
cia" (Cobra, 2005). A fenomenologia de HusserJ e uma tentativa de
dar fundamentos apodfticos ao conhecimento.
A fenomenologia procura descrever de modo preciso os feno-
menos, 0 que aparece, 0 que acontece ante a consciencia
cognoscitiva.
HusserJ diz que a atitude do fenomen610go e diferente da ati-
tude natural, a qual acumula atos cognitivos sem se ocupar com os
mesmos nem com a consciencia, mas apenas com os conceitos dos
objetos intufdos. Esse retorno a consciencia marca a atitude
fenomeno16gica. A fenomenologia se pauta pelo respeito ao modo
de apresentac;ao das coisas. Em vez de suposic;6es, as coisas sac
tomadas como esHio. 0 que interessa e a presenc;a da coisa, 0 que
aparece e nao a "coisa em si".
Portanto, Husser! postula contra a 16gica psicologista, uma
16gica pura dos objetos ideais, isto e, dos prindpios 16gicos, das
leis 16gicas puras e das significafoes. A fenomenologia eo estudo
da consciencia e dos objetos da consciencia. 0 interesse nao e 0
mundo que existe, mas, sim, 0 modo como 0 conhecimento do
mundo se da ou acontece para cada pessoa. A fenomenologia (para
Husser!) e uma ciencia de objetos ideais. E, pOl-tanto,uma ciencia
a priori; alem disso, e uma ciencia universal, porque e ciencia das
essencias das vivencias, Vivencia e qualquer ato psiquico (imagi-
nal', lembrar, perceber etc). As essencias podem ser conhecidas por
meio de um metodo que Husser! chamou de redu<;ao eidetica, um
metodo que elimina dos fenomenos suas caracteristicas reais ou
empiric as (superfluas), obtendo assim sua essencia. Por esse meto-
do, chamado redu<;aofenomenol6gica e da epoche - suspensao de
todo juizo, atitude contemplativa a qual se pode revelar genuina-
mente a pr6pria essencia das coisas -, Husser! chega a algumas im-
portantes descobertas, sendo a mais importante e ainda em vigor a
intencionalidade da consciencia.
A consciencia e caracterizada pela intencionalidade pOl"quee
sempre a consciencia de alguma coisa. A consciencia e intencional,
isto e, um movimento de transcendencia em dire<;aoao objeto, e 0
objeto se da ou se apresenta a consciencia "em carne e osso" ou
"pessoalmente" .
"Vm objeto intencional e algo para 0 qual minha mente esta
direcionada (a palavra latina intendere quer dizer "dirigir-se a").
Ele nao precisa ser um objeto real; posso sonhar com unic6rnios
ou Sher!ock Holmes. Vm objeto real, em contrapartida, nao preci-
sa ser objeto intencional de ninguem: pode haver coisas sobre as
quais ninguem nunca pensou nem pensara. Uma atitude intencio-
nal, uma atitude direcionada para um objeto, nao precisa ser inten-
cional no senti do usual: posso amar, ou sonhar com alguem sem tel'
esta inten<;ao." (Inwood 2002, p.68)
A fenomenologia de Husser! e considerada por alguns estudio-
sos como uma forma de idealismo, porque lida com objetos ideais,
com as ideias das coisas em sua essencia, tal como os idcal is(;\s
Platao, Hegel e outros. No entanto, esse idealismo e parcialll1clllc
superado pela descoberta da intencionalidade da consciencia, que
possibilita a supera<;ao daantiga dicotomia cartesiana do sujeito X
objeto; eu X realidade.
Como dissemos, Heidegger foi aluno de Husser! e dedicou a
seu mestre sua obra fundamental, 0 livro Ser e tempo, publicado em
1927. Alem de aluno de Husser!, Heidegger foi um de seus melho-
res comentadores e criticos.
Heidegger compreende a fenomenologia e a filosofia - a ques-
taoda filosofia - de modo diferente. Nao apenas diferente de Husserl,
mas diferente de toda a filosofia ate entao. A questao que inquieta e
provoca 0 pensar de Heidegger e: qual 0 sentid% que e ser?, e
nao: como e possivel conhecer? Na busca de esclarecer ou interro-
gar pel a questao do ser, Heidegger se da conta de que e preciso
primeiro interrogar ou compreender 0 ente que se coloca essa ques-
tao, ou seja, 0 homem, a quem ele chama de Dasein, ou ser-ai, cuja
estrutura fundamental e ser-no-mundo. E Dasein quem coloca a
questao do e de ser.
Ao analisar 0Dasein em seu modo de ser cotidiano, Heidegger
procura um caminho para chegar a compreender 0 ser. Esta analise
do Dasein e precedida no livro Ser e tempo por um esclarecimento
decisivo: esta e uma analisefenomenol6gica. Ele diz:
"A expressao 'fenomenologia' significa, antes de tudo, um con-
ceito de metodo. Nao caracteriza a quididade real dos objetos da
investiga<;ao filos6fica, 0 que dos seus objetos, mas 0 seu modo, 0
COJ1W dos objetos. (...) A palavra 'fenomenologia' exprime uma
maxima que se pode formular na expressao: 'para as coisas elas
mesmas!' - pOl'oposi<;ao as constru<;5es soltas no aI',as descober-
tas acidentais, a admissao de conceitos s6 aparentemente verifica-
dos; por oposi<;ao as pseudoquest5es que se apresentam, muitas
vezes, como 'problemas', ao longo de muitas gera<;5es."(Heidegger,
2006 p.66).
Para esclarecer 0 significado que tem para Heidegger 0 lerJll()
fenomenologia, devemos lembrar que em seu pensar, Heidegger
examina a tradi<tao filos6fica, desconstruindo, isto e, retirando os
entulhos acumulados ao longo dos seculos, e re-examina 0 signifi-
cado original das palavras, dos conceitos, especialmente em sua
origem grega. 0 termo fenomenologia tem dois componentes: fe-
nameno e logos. Com re1a<taoa sua forma<tao a palavra fenameno-
logia seria correspondente a s6cio-Iogia(ciencia da sociedade), bio-
logia (ciencia da vida) - ou seja, ciencia dos fenamenos. Examine-
mos os termos que a compoem:
Em Ser e tempo ele nos diz:
"A expressao grega 'phenomenon', a que remonta 0 termo 'fe-
nameno', deriva do verbo phenestai. Phenestai significa: mostrar-
se e, por isso, phenOlnenon diz 0 que se mostra, 0 que se revela.
(...) Deve-se manter, pOltanto, como significado da expressao 'fe-
nameno' 0 que se revel a, 0 que se mostra em si lnesino. ta
phenomena, "os fen amen os", constituem, pois, a totalidade do que
esta a luz do dia ou se pode par a luz, 0 que os gregos identifica-
Yam, algumas vezes, simplesmente como ta onta (os entes), a tota-
lidade de tudo 0 que e". (Heidegger, 2006 p.67)
Heidegger nos diz tambem que os entes, ou fenamenos, tam-
bem podem se mostrar no modo de aparecer, parecer, aparencia,
isto e, como aquilo que em si mesmo nao e. Em Ser e tempo,
Heidegger reserva 0 termo fenameno para designar 0 senti do posi-
tivo e originario de fenameno como 0 que se mostra, e fenameno
como aparecer, parecer e aparencia como uma modifica<tao privati-
va de fenameno.
Ao examinar 0 segundo componente da expressao
fenomenologia, logos, ressaIta-se que seu sentido original e "dis-
curso", e Heidegger nos diz que e necessario determinar 0 sentido
do discurso e suas varias tradu<toes (0 que equivale a interpreta-
<toes) como razao, jufzo, conceito, rela<tao, propor<tao. Discurso
ou dizer significa "deixar e fazer vel''' - e e esta a fun<taoprimaria
do logos.
Assim, finalmente obtemos pelos significados das express6es
'.'fenameno" e "logos" a seguinte defini<tao para fenomenologia:
deixar e fazer vel' por si mesmo aquilo que se mostra, tal como Sl'
mostra a partir de si mesmo. E Heidegger conc1ui: "e este 0 sentido
formal da pesquisa que traz 0 nome de fenomenologia. Com isso
nao se faz Olltracoisa alem de exprimir a maxima formulada anteri-
ormente: 'as coisas mesmas"'.
Mas, se 0 que importa apreender ja se mostra em si mesmo,
qual e entao a tarefa da fenomenologia? Para que uma investiga-
<tao?Mas 0 fato e que 0 que se manifesta mais imediatamente e
sempre um ou outro ente, isto e, objetos e seres da vida cotidiana,
eo que interessa compreender eo ser dos entes, seu senti do e fun-
damento. Este sentido em geral se ocuIta, fica esquecido e dado
como certo. Daf a necessidade de se colocar novamente a questao
sobre 0 ser, 0 sentido de ser em geral.
o que a fenomenologia mostra, pOltanto, e aquilo que, acima
de tudo e na maior parte dos casos, nao se manifesta, 0 que esta
escondido mas e capaz de expressar 0 sentido e 0 fundamento da-
quilo que, acima de tudo, e na maior parte dos casos, se manifesta.
Se a fenomenologia tem por tarefa essa rela<taooriginal com 0 ser,
pode-se dizer que ela e uma ciencia do ser do ente - uma ontologia.
Nesse senti do a fenomenologia e a (mica ontologia possfvel. Reto-
mando: 0 fenameno a ser estudado e 0 ser dos entes e 0 metodo de
acesso a esse 'ser dos entes' e a fenomenologia.
Assim, a fenomenologia nao pode ser confundida com urn
fenomenismo ou uma redu<taoda existencia a aparencia. (Abbagnano
1998, p.439)
A fenomenologia como e explicitada em Ser e tempo como
metodo de acesso aos fenamen os, como metodo de aces so ao ser-
no-mundo, ao Dasein, foi tambem tema dos seminarios de Zollikon.
Nos Se7ninarios de Zollikon, Heidegger se empenha em mos-
trar aos medicos, alunos de Medard Boss, 0 que quer dizer
fenomenologia, sua compreensao fundamental como metodo. 0 que
quer dizer metodo para Heidegger? Metodo e 0 "caminho para" -
em grego: lneta odos. Metodo e 0 modo de acesso aos fenamenos.
Estamos familiarizados com 0metodo das ciencias naturais. Este e
o metodo que domina 0 modo de pensar das ciencias em geral, isto
e, domina 0 modo de pensar ocidenta1. 0 metodo cientifico natural,
que determina que 0 acesso aos entes deve ser a mensurabilidade
com vistas a previsibilidade, tem dominado nosso pensar de tal
maneira que ja nao 0 questionamos mais. Somente e verdadeiro
aquilo que e provado por ca1culos e pOl'meio da causalidade. Diz
Heidegger: "A ciencia natural so pode observar 0 homem como
algo simplesmente presente na natureza. Surge a questao: seria
possivel atingir desta forma 0 ser-homem?" (Heidegger, 200 1p.51)
Para a Daseinsanalyse, 0 modo de acesso aos fenomenos e 0
metodo da fenomenologia: nao menos rigoroso, mas, sim, condi-
zente com 0 ente que ele estuda. Se estudarmos 0 ente natureza -
faz sentido utilizarmos 0 metodo definido pOl'Descartes: 0 metodo
cientifico natural que determina que devemos abrir mao de tudo 0
que nao for extenso, ca1culavel, quantificavel, de tudo aquilo de
que nao pudermos tel' uma certeza absoluta e indubitave1. Mas ao
estudarmos, investigarmos 0 fenomeno humano, 0 Dasein, nos pre-
cisaremos de um outro modo de acesso, condizente com a essencia
do Dasein. A essencia do Dasein e a existencia. A existencia nao
pode ser entendida como ca1culavel e previsivel de antemao. Ela
tambem nao e fundamentada na logica e no principio da razao,
embora ela tambem (e na maioria das vezes) possa ser vista assim.
Para uma ilustra<;ao do que implica esse diferente modo de
acesso, examinemos 0 fenomeno do corpo humano, discutido nos
Selniruirios de Zollikon. Nao por acaso 0 fenomeno do corpo foi
abordado - ele e um dos mais misteriosos, como ja dizia Nietzsche:
"0 corpo e uma icteia mais surpreendente que a velha alma". A
lingua alema tern duas palavras para designar corpo: Leib e Korper.
Corpo como Korper refere-se ao corpo entendido como uma meta
extensao ou corpo material (um ente extensoda natureza). No en-
tanto, 0 corpo Leib como fenomeno nao se esgota em sua extensao
e materialidade. Muito pelo contrario, 0 corpo de Dasein e sempre
meu corpo. 0 corpo tem uma notavel rela<;ao com 0 si mesmo.
Heidegger insistiu muitas vezes nos seminarios que 0 problema do
corpo e um problema de nuitodo. E desenvolveu junto com os par-
ticipantes uma maneira critic a de pensar a historia do metodo, nuo
mais entendido como mera tecnica, como mais urn procedimento,
mas em seu senti do mais original, baseado em uma ontologia, uma
determinada visao ou compreensao de ser. Para 0 cientista da natu-
reza, nem sempre esta clara a ontologia que fundamenta sua ciencia
eo metodo de sua ciencia. Assim, pOl'exemplo, na Flsica a natureza
e compreendida como legalidade, isto e, como essencialmente sen-
do regida por leis que precisam ser descobertas e definidas. Urn
exemp10 de lei ou principio e 0 principio da causalidade: tudo que e
tem uma causa. A fun<;aodas leis e dominio, controle e previsibilidade
sobre os fenomenos (da natureza).
Podemos estudar 0 corpo como Korper por meio dos meto-
dos das ciencias naturais, e assim tern feito a Medicina. Este nao e
urn metodo a ser abandonado. 0 que Heidegger discute e 0 impres-
sionante dominio deste metodo como 0 unico que possibilite a re-
vela<;ao da verdade. E quase re1igiosa nossa cren<;a na medicina
como meio de controle do corpo (veja 0 investimento em pesquisa
e os novos medicamentos que nos garantem bom sono, felicidade,
ausencia de angustia, sexo etc.).
Agora, 0 corpo como meu corpo (Leib), como meu ser-no-
mundo, nao se esgota na observa<;ao fisico-quimica. 0 acesso ao
corpo como fenomeno so pode se dar pOl'meio da fenomenologia
como metodo de investiga<;ao que leva em conta seus aspectos nao
quantificaveis, suasparticularidades, sua singularidade (e sempre
em cada caso 0 meu corpo).
Heidegger afirma:
"1- 0 tratamento dos fenomenos corporais nao e possivel sem
a elabora<;ao suficiente dos tra<;osfundamentais do ser-no-mundo
existencia1.
2- ainda nem existe qualquer descri<;ao suficiente do fCl1i\llll'
no corporal, isto e, alguma descri<;ao que seja vista a partir do ."t'l
no-mundo. Em se tratando de "fenomenologia do corpo", .,,()11;1
descri<;oes. Qualquer "explicar", isto e, todo desenvolvimento a
partir de outra coisa, naofaz sentido." (Heidegger, 2001 p.180)
Aqui se abre muito claramente a diferen<;a do metodo
fenomenologico que nao se precipita em reduzir 0 fenomeno aos
aspectos mensunlveis e conhecidos. Abre-se urn modo de
envolvimento com 0 fenomeno que e rigorosamente atento, fiel ao
que se mostra (nao meramente ao aparente, visfvel). Obviamente,
no ambito dos seminarios e desta apresenta<;ao, nao e possfvel es-
clarecer ou descrever minuciosamente 0 fenomeno corporal. 0 que
se espera e apenas indicar a diferen<;a dos metodos de acesso ao
fenomeno (corpo - Dasein) e a impossibilidade ou os limites do
metoda cientifico, uma vez que a compreensao do corpo como coisa /"
extensa impede por si mesmo a visao do cientista ou do psicologo
da verdade do corpo como meu corpo, como Leib.
Em urn dialogo com Medard Boss, em 1972, quando os semi-
narios ja nao aconteciam mais devido a idade avan<;adade Heidegger
e ambos comentavam a respeito do quao diffcil era para os medicos
compreenderem a corporeidade de Dasein, Heidegger diz:
"Entao tudoo que chamamos nossa corporeidade, ate a ultima
fibra muscular e a molecula hormonal mais oculta, faz parte essen-
cialmente do interior do existir; nao e, pois, fundamentalmente
materia inanimada, mas sim urn ambito daquele poder perceber nao
objetivavel, nao opticamente visfvel de significa<;oes do que vem ao
encontro, do que consiste todo 0 Dasein. (...) Assim, tamMm nao
poderfamos ser corporais, como de fato somos, se 0 nosso ser-no-
mundo nao consistisse fundamentalmente de urn sempre j a
perceptivo estar-relacionado com aquilo que se nos fala a partir do
aberto de nosso mundo como 0 que, aberto, existimos. (....)Apenas
nao podemos confundir nosso ser corporal existencial com a
materialidade corporea de urn objeto inanimado simplesmente pre-
sente."
Neste dialogo, Boss conclui:
"Isto significa, entao, que aMedicina psicossomatica teria muito
a ganhar se os medicos aprendessem a realizar a experiencia de que
todo 0 corporal, ate a ultima fibra nervosa, provern daquele I"alor
singular, que nao pode ser derivado de nenhum outro, e forrnado ;\
partir dele e, incorporado nele, permanece aquilo que devernos cha-
maI' determina<;ao da essencia do Da-sein humano. Mas isto e, na
verdade, a totalidade das possibilidades de compreensao e rela<;ao
nao-materiais e nao apenas energeticas que abrangem 0 mundo in-
teiro e que perfazem fundamentalmente urn Da-sein.
Ao que Heidegger responde:
"Sirn, eu tambem usaria exatamente as mesmas palavras."
Conclusao: a fenomenologia iniciada pol' E. Husseri alcan<;a
com Heidegger uma posi<;aooriginal e possibilitadora de urn salto
fundamental na compreensao do existir hurnano. Este salto do pen-
samento e uma exigencia que constantemente nos desafia. A
daseinsanalyse clfnica - iniciada com Medard Boss - esta em seu
caminho para dar as diffceis respostas as demandas de nossos paci-
entes, cujas existencias so podem ser entendidas a luz das desco-
bertas fundamentais de Martin Heidegger. A atualidade das ques-
toes colocadas em seu pensar e cada vez mais comprovada em nos-
sa epoca, dominada pOl' urn pensar tecnico, completamente
insatisfatorio, insuficiente e incapaz de dar as respostas necessarias
as angustias do hornern de nosso tempo.
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A CONTRIBUI<;AO DAS NOCOES DE SER-NO-MUNDO
E TEMPORALIDADE PARA A PSICOTERAPIA
DASEI NSANALITICA4
IDA ELIZABETH CARDINALLI~'
Resumo
o presente artigo mostra que a explicita<;ao heideggeriana do
existir humano como Dasein, ser-no-mundo e sua temporalidade,
permite compreender 0 homem segundo as dimens5es que sao es-
pecfficas ao ser humano. Assim, este entendimento permite ao
psicoterapeuta daseinsanalista focalizar 0 desenvolvimento das pos-
sibilidades pr6prias de cada paciente, uma vez que a rela<;ao
psicoterapica considera a maneira especffica de viver de cada paci-
ente no decorrer do trabalho terapeutico.
The article shows that Heidegger's understanding of human
existence as Dasein, Being-in-the world, and its temporality allows
the comprehension of man considering the dimensions which are
specific to the human being. Hence, this comprehension makes
possible for daseinsanalysis psychotherapist to focus on the
development of the possibilities of each patient since the
psychotherapeutic relation takes into account the specific way of
living of each patient along with the therapeutical work .
.j 0 presente nrtigo foi elaborado para ser apresentaclo no Simp6sio "Iclenticlade e Diferent;as cia Psicoterapia
DaseinsanaHtica". no IV Congresso Ivlundial de Psicoterapia em Buenos Aires. Argentina. de 27 a 30 de <1Qosto de
2005. ~ ~
5 Ida Elizabeth Carclinulli e Psicoterapeuta em Daseinsan{llise e Mestre em Psicologia CHniea peIn pue-sr. E
professora e supervisora cIa Fac.uldac!e de Psicologia cia PUC-SP.
historicidade e mortalidade6 .
Para 0 autor, estas caracterfsticas nao sao compreendidas Sl>
paradamente, pois elas sao eqUiprimordiais e interdependentcs l'
mostram a indissociabilidade do Dasein com 0 mundo, conforlllc
suas pr6prias palavras:
"0 Dasein deve ser visto sempre como ser-no-mundo, como
ocupar-se com as coisas e cuidar de outros, como ser-comas pes-
soas que vem ao encontro, nunca como urn sujeito existente para si.
Alem disso, 0 Dasein deve ser visto sempre como urn estar na cla-
reira7, como estada junto ao que vem ao encontro, isto e, como
desvelamento para aquilo que vem ao encontro nela."(Heidegger
2001,p.182).
Assim, a nossa existencia se revel a a luz de sua pr6pria experi-
encia, em consonancia com a acepyao mais literal possivel do verbo
'existir' (ek-sistere, ek-stare), que indica 0 movimento de ser lanya-
do e de estar fora junto as coisas do mundo. E, ao estar junto as
coisas, 0 Dasein apreende os significados do que se apresenta no
mundo, que revelam tambem uma afinayao (disposiyao ou tonali-
dade afetiva) espedfica.
Com base nesses esclarecimentos do fil6sofo, percebemos que
a natureza do ser-no-mundo nao pode ser equiparada a de um obje-
to, seja uma maquina ou urn sistema de atos psiquicos, pois s6 0
homem possui a capacidade de perceber e de compreender 0 que se
apresenta do seu mundo. (vide Boss 1969, p.21)
A dimensao temporal tambem nao e ocasional no existir huma-
no, pois Dasein ja e e esta aberto ekstatico e temporalmente. A
temporalizayao envolve sempre os tres extases: 0 futuro (advir), 0
pass ado (retrovir) e 0 presente (apresentar), segundo Nunes (p.138).
Eles nao vem urn atras do outro, pois ha uma relayao de
interdependencia e reciprocidade entre eles, que, ao mesmo tempo,
Este trabalho foi organizado considerando 0 pensamento do
fil6sofo Martin Heidegger sobre a constituiyao fundamental do existir
humano e a proposta psicoterapica do medico e psicoterapeuta
Medard Boss.
Inicialmente, sera apresentada a compreensao heideggeriana
do existir humano como Dasein, ser-no-mundo e sua temporalidade
e, em seguida, serao discutidas as implicay5es desta nova compre-
ensao do homem para 0 trabalho terapeutico com reflex5es sobre 0
objetivo da psicoterapia e a relayao terapeutica daseinsanaHtica.
A Daseinsanalyse baseia-se na Fenomenologi'l0u no metodo
fenomenol6gico,tal como definido por Heidegger, isto e, como urn
modo de aproximayao e desvelamento dos fenomenos do ser do
existir humano. 0 fil6sofo esclarece que "metodo aqui nao significa
indefinidamente 'procedimento'. Metodo e a maneira como 0 ente
(oo.) e tematizado." (Heidegger 2001, pp. 159 e 160).
Neste sentido, 0 fil6sofo destaca que na atualidade os entes
(os fenomenos) sao tematizados como objetos, que devem ser
medidos e calculados, uma vez que estao apoiados no metoda da
Ciencia da Natureza. Ele questiona a transposiyao do metodo da
ciencia natural para 0 entendimento do ser humano e considera que
o existir humano deve ser compreendido segundo dimens5es que
sao espedficas ao ser humano, esclarecendo que "0 tema da Flsica
e a natureza inanimada. 0 tema da Psiquiatria e da psicoterapia e 0
homem." (idem, p. 161).
o pensador considera que a sua explicitayao das caracterfsti-
cas fundamentais do existir humano, desenvolvida no livro Ser e
Tempo (1927), permite que 0 homem nao seja mais considerado de
modo analogo aos objetos da natureza ou ao funcionamento de
uma maquina. Heidegger, visando ao esclarecimento da questao do
sentido do ser, descreve as caracterfsticas ontol6gicas do Dasein
como ser-no-mundo, que sao denominadas como abertura,
espacialidade, temporalidade, ser-com 0 outro, afinayao,
Ii Neste trabalho nao serna apresentaclas toeIns estas caracterfsticas, c1estacaremos apenas alguns pontos centrnis do
entenclimento do Dasein como ser-no-l11undo e sua temporalidade.
"70 fiJ6sofo esclarece que 0 estar na clareira au 0 homem como estado-de-abertufa ;'€ 11111 estar-aberto para a
percepqao de presen~'a e de alga que est5 presente C..), e sempre aberturn para a interpelaqao dll presenql1 de <.IIgo."
(Heidegger, 1001, p, 130),
revelam uma primazia do futuro. Assim, deve-se .atentar sempre
para a tripla estrutura fundamental do ser-no-mundo. Esta
triplicidade e, em si, eqUiprimordial, mostrando tres momentos es-
truturais do cuidado, isto e, do ser-adiante-de si, do sempre-ja-ser
(no ser-no-mundo), do estar junto a (entes que vem ao encontro
dentro do mundo). (Heidegger, 200 I).
A Daseinsanalyse prop5e a compreensao do existir hUIlWIIU
segundo a genese motivacional, que considera que a influencia du,";
acontecimentos na vida de alguem, pressup5e a presen<;a e aiguill
entendimento do proprio homem. Deste modo, a motiva<;ao consi-
dera que alguem tenha entendido alguma coisa como tal eque estc
alguem seja motivado a fazer algo. 0 motivo refere-se ao apelo de
algo baseado no futuro, que revel a como 0 homem e solicitado pela
tarefa de ter que dar conta de seu proprio existir. Assim, vemos que
"0 motivo e tambem integrado as tres dimens5es temporais: sem-
pre se da no presente, e comprometido com 0 passado e dirigido,
prioritariamente, ao futuro." (Cardinalli, 2004, p. 102).
Para 0 filosofo, 0 futuro apresenta uma primazia em rela<;ao
ao passado e ao presente, pois 0 extase do compreender, 0 poder
ser, possibilita 0 ser projetante do Dasein, segundo Nunes (p.138).
Percebemos, deste modo, que e a solicita<;ao do futuro (0 poder
ser, que inclui 0 ainda nao, vir a ser e 0 estar em aberto) que possi-
bilita 0 agir humano e as mudan<;as no seu existir.
A -A COMPREENSAo DO EXISTIR HUMANO COMO
SER-NO-MUNDO E SUA TEMPORALIDADE
Quando a psicoterapia e orientada pelas explicita<;6es
heideggerianas do existir humano como Dasein, 0 paciente e com-
preendido pelo seu modo de ser-no-mundo junto com os outros
num mundo compartilhado. Isto e, 0 foco dasitua<;ao terapeutica e
a maneira como determinada pessoa esta se relacionando consigo
mesma, com os outros e com tudo 0 que se apresenta em seu mun-
do.
o paciente e compreendido como uma abertura compreensiva
ao que se apresenta em seu mundo, que se revela como uma totali-
dade significativa e, deste modo, cada experiencia humana e com-
preendida na totalidade do existir de cada pessoa. Nesta perspecti-
va, tambem as dificuldades e 0 sofrimento vividos pelo paciente em
cada situa<;ao nao sao pensados como comportamentos isolados
em si mesmos, nem como sintomas independentes da totalidade do
existir. Pois a patologia e entendida como uma maneira de alguem
existir no mundo que, ao mesmo tempo, mostra urn comprometi-
mento na vida do paciente da realiza<;ao mais livre de seu proprio
existir.
Os modos de existir humano, tanto os saudaveis, quanta os
patologicos, nao sao explicados segundo a no<;aode determina<;ao
causal como e habitual nas teorias psicologicas e psiquiatricas, que
muitas vezes identificam num unico fator a causa das problematicas
humanas, seja 0 temporal, 0 organico ou 0 contexto historico, e
entendem a causalidade de uma forma mecanica.
Como a psicoterapia daseinsanalftica nao tern como referencia
o modelo medico, que visa a elimina<;ao de sintomas ou 0 ajusta-
mento ao padrao de normalidade, 0 seu objeto nao e a doen<;a e,
sim, 0 homem (paciente) no seu proprio existir.
o foco do trabalho psicoterapico e favorecer a aproxima<;ao e
a compreensao do paciente da sua propria experiencia, que, con-
forme ja foi explicitado, refere-se a totalidade de rela<;5esreferen-
tes e significativas que constituem 0 mundo de uma determinada
pessoa.
E importante salientar que este entendimento da existcncia
humana nao considera que a experiencia do paciente se mostr,1 de
forma explfcita e patente, pois 0 existir inclui 0 movimento dc Cil
cobrimento e de ocultamento. Assim, 0 terapeuta busca, no cUllin
to terapeutico, 0 desvelar do sentido da experiencia do pacil'11Il',
como mera repeti<;aode outras rela<;6escomo, por exemp!o, a I'l'\;\
<;aocom os pais, uma vez que ela abarca tanto 0 modo pOSSfVl'ldl'
viver do paciente, quanta pode proporcionar 0 desenvolvimen(o dc
novas maneiras de viver. Percebemos que a maneira como 0 paci-
ente pode ser naquele momenta na sua vida se revela tambem no
modo como ele se relaciona com 0 terapeuta, uma vez que, na situ-
a<;aopsicoterapica, 0 paciente efetivamente experiencia de acordo
com 0 modo que ele pode ser nesse momento da sua vida e, nao,
simplesmente transfere as suas experiencias infantis.
Nesta perspectiva, a maneira como 0 paciente esta podendo
ser, mais imaturo, dependente ou distanciado dele mesmo, e 0 pon-
to de partida do trabalho do terapeuta; e, muitas vezes, a primeira
tarefa terapeutica e ajudar 0 paciente a admitir e aceitar 0 seu sofri-
mento e suas limita<;6es, de tal forma que ele possa se aproximar e
se apropriar de seu modo de ser mais restrito. Este modo de ser do
paciente apresenta certa afina<;aoou tonalidade afetiva e uma com-
preensao especffica de si mesmo, do outro e do mundo, que no
infcio do trabalho terapeutico, muitas vezes, nao pode ser tematizada
e esclarecida pelo pr6prio paciente.
A pratica terapeutica daseinsanalftica exige do analista especi-
almente urn desprendimento de si e urn acolhimento ao paciente. 0
analista deve aceitar 0 outro inteiramente, da maneira como ele e,
com todas suas belezas e feiuras ffsicas e mentais. Todas as possibi-
lidades do paciente devem tel' uma chance de emergir e nao devem
considerar as ideias, desejos ou julgamentos pessoais do analista.
Tal supera<;ao s6 pode ocorrer se 0 analista permitir que a sua reIa-
<;aocom 0 paciente se tome urn lugar no qual todas as possibilida-
des de rela<;ao do paciente possam se mostrar livremente para 0
aberto. Somente dessa maneira 0 paciente pode adquirir uma nova
confian<;a em si e no seu mundo. (vide Boss, 1963, p.71-72).
Boss ressalta que 0 trabalho junto ao homem que sofre deve
evitar urn modo interventivo de atua<;ao,pois este modo significa
ocupar-se daquilo que deve ser feito pelo paciente, e assim 0
terapeuta ocupa 0 seu lugar. 0 autor considera que a atitude do
que se encontra muitas. vezes encoberto, procurando esclarecer 0
horizonte a partir do qual 0 paciente esta vivendo.
Medard Boss afirma que 0 objetivo da psicoterapia e liberal' 0
paciente de seusmodos restritos de se relacionar com as pessoas e
as coisas de seu mundo, uma vez que "a saude humana consiste na
capacidade de se engajar (ocupar-se) livremente de acordo com as
suas pr6prias possibilidades" (Boss 1979, p.281). Desta maneira, a
tarefa do terapeuta e ajudar os pacientes a se desenvolverem no
sentido das pr6prias possibilidades de sua existencia.
Como a Daseinsanalyse nao entende a problematic a do paci-
ente segundo a no<;aode determina<;ao causal, Boss ressalta que no
trabalho terapeutico 0 mais importante nao e identificar as causas
ou as situa<;6es que originaram certos comportamentos e, sim, es-
clarecer junto com 0 paciente 0 que ainda estamantendo determi-
nadas maneiras de ser e esta impedindo 0 desenvolvimento das suas
possibilidades mais pr6prias.
Diferentemente do que pode parecer, a perspectiva
daseinsanalftica nao nega a influencia das experiencias do passado
no modo de viver de alguem, mas apresenta uma nova compreen-
san da temporalidade quando destaca que as extases temporais (pas-
sado, presente e futuro) san interligadas reciprocamente e, assim,
nao san focalizadas como momentos isolados.
Na Daseinsanalyse a rela<;aoterapeuta-paciente (0 ser-com-o-
outro) e considerada a dimensao central do trabalho
psicoterapeutico, 0 l6cus onde efetivamente ocorre 0 tratamento,
pois e af que surge a oportunidade de ocorrer mudan<;as na vida do
paciente, seja no sentido de ele saber mais dele mesmo e ampliar a
compreensao do seu viver, quanta de estabelecer novas maneiras
de existir. Assim, 0 paciente junto com 0 terapeuta podera perceber
e desenvolver os seus modos de existir.
A rela<;ao do paciente com 0 terapeuta nao e compreendida
terapeuta que favorece odesenvolvimento do paciente pode ser
caracterizada como urn cuidar antecipativo, afirmando que "0 ana-
lista nao deve substituir 0 paciente em seus encargos, mas procurar
devolver-Ihe 0 que tern que ser cuidado. (.,,) Esse modo de cuidar
ajuda 0 outro se tomar, em seu cuidar, transparente para si mesmo
e livre para sua existencia." (Boss, 1963, p.73).
Ao rever as contribui<;5es do pensamento heideggeriano para
a atua<;aodo terapeuta, Boss destaca a atitude de respeito diante de
tudo que e vivido pelo paciente, dizendo que:
"A contribui<;ao mais importante de Heidegger para a
psicoterapia consiste em uma nova atitude silenciosa do medico
ante 0 enfermo e seu mundo. :E uma atitude de profundo respeito
diante de tudo, que nos ensina a analise do Dasein. Efetivamente, 0
respeito diante de tudo, proprio da concep<;ao da analise do Da-
sein, permitira ao analist(l seguir de otima maneira a norma funda-
mental de Frend: a saber, levar a serio tudo 0 que 0 enfermo pode
dizer, aceitar - sem reserva - qualquer coisa tal como se apresenta
e conceder-lhe seu proprio valor." (Boss 1969, p.25).
Finalmente, 0 autor focaliza a importancia da disponibilidade
do paciente para usufruir da experiencia terapeutica, quando assi-
nala que 0 analisando podera se libertar das suas restri<;5es:
"Desde que se disponha, com espfrito sereno e inabalavel ate 0
fntimo de seu ser, a responder livremente ao apelo das coisas, dos
afetos, dos homens e, por fim, se sinta disposto a se abrir, devota-
do, ao Misterio do sentido ainda oculto do nosso tempo, no qual
predomina 0 espfrito da tecnica." (Boss, s.d., p.lO).
BIBLIOGRAFIA
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o TEMPO NA CRIAN9A E A DASEINSANALYSE8
MARIA BEATRIZ CYTRYNOWICZ
o psiquiatra holandes Van den Berg, em seu IivroM etablet ic({,
observa que nem sempre houve psicologia da crian<;a. Assim, elc
escreve: "Bern cedo e sem obsUiculo, a crian<;a tinha acesso ao
mundo do adulto, nao havia abismo que necessitasse uma ponte
cientifica para 0 entendimento mutuo." Para esse autor, somente se
come<;ou a falar sobre infancia quando os mundos das crian<;as e
dos adultos se distanciaram. 0 mesmo ocorreu com a adolescencia.
Pois, foi somente no inicio do seculo 20 que se come<;oua falar em
adolescencia.
Este artigo apresenta, com base em uma abordagem
fenomenologica da infancia, uma compreensao da temporalidade
na crian<;ae suas implica<;oes existenciais fundamentais. Conside-
rando que a crian<;aja se mostra em totalidade a cada momento e
que 0 percurso proprio de seu crescimento nem sempre e facil, a
Daseinsanalyse no ambito terapeutico com crian<;as,numa referen-
cia particular e nao externa, visa a liberta<;aodas possibilidades pr6-
prias de existir e, assim, aproximar 0 caminho de seu cresci mento,
o que significa algo diferente da elimina<;ao de problemas ou doen-
<;as.
Ante essas constata<;oes, perguntamos: Sera que hoje, quan-
do falamos em Psicologia de Desenvolvimento, compreendemos
melhor 0 ser humano? Sera que, hoje, os jovens humanos sao
mais compreendidos porque os chamamos de adolescentes e os
diferenciamos dos adultos e das crian<;as?
Com muita frequencia, tambem dizemos que a infancia, em nossa
epoca, esta diminuindo com a chegada precoce da adolescencia e
que esta tern se estendido. 0 que isto significa? Muitas vezes dize-
mos coisas cujos significados nao compreendemos bem.
POl' isso, vamos come<;ar esclarecendo 0 que normalmente
entendemos por crian<;a e infancia para, em seguida, ressaltar al-
guns tra<;oscaracteristicos da visao fenomenologica que nos levou
a refletir sobre a experiencia do tempo das crian<;ase, pOl'fim, tra-
zer a compreensao da Daseinsanalyse com crian<;as.
Palavras-chave: Crian<;a, Infancia, Terapia, Fenomenologia,
Daseinsanalyse, Temporalidade.
This essay presents an understanding of child temporality and
its fundamental existential particularities from a phenomenological-
existential approach of childhood. Considering that child existence
is a totality even at every moment of life and that the process of the
own growth is not always easy, the aim of Child Daseinsanalyse
therapeutic work is to free the existential possibilities of being to
approach ways of growing, which is different from eliminating
problems or diseases.
Desde que a infancia se tomou mais uma questao a ser estuda-
da do que acompanhada proximamente, ja se disse muito sobre as
crian<;as.Muitas vezes, as visoes teoricas acabaram pOl' se sobre-
por ao existir, ele mesmo, tomando-se a referencia para a compre-
ensao da vida das crian<;as. As condutas, as rea<;oes, as emo<;oes
Key-words: Child, Childhood, Therapy, Phenomenology,
Daseinsanalyse, Temporality.
S Este artigo foi apresentado inicialmcntc em agosto de 2005, em Buenos Aires. par ocasifio cia lV Congresso
Mundio! de Psicoteropio.
· das crian<;as passaram a ser interpretadas a partir de perspectivas
exteriores, atitude que desconsiderava 0 que elas podiam trazer de
mais particularmente significativo. Isto se deu de varios modos:
Primeiramente, a crian<;ae a infancia foram entendidas, como
aponta Van Den Berg, como uma epoca de vida primitiva, tanto
na perspectiva de uma hist6ria individual, como da hist6ria da hu-
manidade. Neste caso, pensamos numa epoca em quefor<;as huma-
nas primitivas ou instintivas se sobrepoem as condi<;oes social e
cultural. Af as analises etiol6gicas e geneticas e as compara<;oes
etol6gicas da biologia animal ganham precedencia sobre qualquer
ontra e os comportamentosou as rea<;oes pessoais desta epoca de
vida sao consideradas com base nas determina<;oes das for<;asnatu-
rals.
Mas, com base nos estudos da fisiologia, da neurologia e da
motricidade que se iniciam no fim do seculo 19 surgiu outra possi-
bilidade de analise. A crian<;ae a infancia significaram, entao, urn
eshigio de desenvolvimento humano ainda incompleto, insufici-
ente ou de imaturidade. Neste estagio 0 organismo ainda incomple-
to tern que se desenvolver e a incompletude explica a ocorrencia
dos eventuais desequilfbrios tanto organicos como de comporta-
mentos.
Temos ainda a considera<;ao, principalmente no pensamento
religioso, da infancia como estado puro de inocencia. Mesmo hoje,
quando se trata da discussao sobre castigo e orienta<;ao do que e
mal, a crian<;ae vista isenta do sentimento de culpa ou da culpabili-
dade e livre do sentido do mal e da responsabilidade de tel' que ser.
a entendimento do estado de inocencia pode ser associado
com 0 criterio cronol6gico; a infancia como ausencia de respon-
sabilidade passa a ser determinada, entao, pela cronologia.
Finalmente, com os estudos da psicologia e as teorias de de-
senvolvimento, a partir do infcio seculo 20, aprendemos que infan-
cia e urn estado mental ou psicol6gico inicialmente incompleto,
indiferenciado, imaturo ou de desequilfbrio, e que deve ser su-
perado na perspectiva de urn bom crescimento.
A infancia seria, assim, umaespecie de status inferior ao adul·
to, e a psicologia da crian<;a, chamada de Psicologia do Desenvol-
vimento! Nas universidades, 0 estudo da infancia e da vida das cri-
mwas e realizado pOI'meio dos processos de desenvolvimento. E
nas mais diversas teorias psicol6gicas (de Freud aWinnicott e Piaget)
a infancia aparece, pOI'exemplo, como um estagio inicial de emo-
<;oesnao diferenciadas, de estruturas psfquicas instaveis, de ideias
incoerentes ou de rela<;oes simbi6ticas que deverao deixar de acon-
tecer com 0 crescimento normal e a seq"Uenciadas experiencias vi-
vidas.
Nesses contextos, a infancia e compreendida com base naquilo que
a crian<;a se tornara quando crescer, ou pelo que e, mas que tern
que deixar de ser. Isto e, a crian<;a seria, sobretudo, 0 que ainda
nao e ou que teni que deixar de ser, ressaltando-se 0 que nela nao
aparece ou esperando aquilo em que ela venha a se desenvolver e a
se transformar. Transforma<;ao e crescimento aparecem aqui como
se fossem tra<;osmais pr6prios do existir humano nessa epoca da
vida. No entanto, deixar de ser e ainda nao ser sao caracterfsticas
fundamentais da condi<;ao humana e nao, especificamente, da cri-
an<;a.
Em resumo, 0 existir da crian<;ae a infancia foram compreen-
didos com base em um certo ideal a ser aIcan<;ado no desenvolvi-
mento, ou a partir de urn status de amadurecimento, considerado
superior e mais representativo da condi<;aohumana. Com isto, para
os especialistas da infancia, 0 desenvolvimento normal tornou-se
padrao de crescimento e conduta, e a descri<;ao de comportamen-
tos normais se constituiu seguindo 0 princfpio cientffico de verdade
universal. Nesta perspectiva, as teorias de desenvolvimento, assim
como a Psicologia em geral, tornaram-se seguidoras de parametros
gerais que servem a compara<;ao e a homogeneiza<;ao de toda a
especie humana. Vemos,entao, que conhecer teorias de desenvol-
vimento nao e a mesma coisa que compreender 0 que e fundamen-
tal nas experiencias infantis: como uma crimwa vive, 0 que e impor-
tante para ela, quais sao seus medos e sonhos e 0 sentido que isso
tem na vida dela.
A objetiva<;aoda crian<;ae da infancia, transformadas em ques-
tao teorica da ciencia e do conhecimento, distanciou 0 entendimen-
to do mundo da crian<;a das experiencias infantis, sendo objetivo
das tearias a constru<;ao de uma boa matriz ou um bom infcio que
possa explicar como as crian<;as se transformam naquele adulto
conhecido. Assim, as teorias sao como constru<;5es que preenchem
com cren<;as, conceitos e ideais de adultos, 0 que aparece, inicial-
mente, como obscuro nas experiencias infantis. Mas, em no<;5es
ideais e em um estado previamente conhecido que devera ser alcan-
<;ado,dificilmente poderemos compreender 0 que ja e mais funda-
mental na crian<;a,que e ainda nao conhecido, par ser ela mesma.
Como poder conhecer a crian<;a,ela mesma, e a nossa tarefa.
2 - COMO APROXIMAR CRIAN<;A E FENOME-
NOLOGIA
A fenomenologia e um caminho que pode nos levar a aceitar
os Iimites de nosso entendimento ante as situa<;5ese os fen6menos
que sao mais obscuros para nos. As experiencias do outro que nao
podemos compreender claramente, somente podemos compreen-
del' verdadeiramente se nao recusarmos, mas respeitarmos as limi-
ta<;5es de nosso saber. A nao certeza e 0 cuidado na proximidade
com 0 outro pode ser muito mais essencial para a compreensao de
uma experiencia, comportamento ou modo de relacionamento do
que uma explica<;ao obtida par considera<;5es logicas das mais so-
fisticadas ou par tentativas rapidas.
Acompreensao desenvolvida com base em Martin Heidegger,
em Ser e tempo, sobre os existenciais - da temporalidade,
historicidade, espacialidade, cuidado, culpabilidade, angustia e ser
mortal - nao permitem que nos contentemos mais com explica<;5es
teorico-cientffico-psicologicas para as condutas humanas. SeqUen-
cias de experiencias psicologicas nao podem mais ser tomadas, em
si, como determinantes de toda a condi<;ao humana. Ao contrario,
o acontecer psicologico que e historico e, assim, temporal e sitll:1
do, e que ganha sentido pela propria existencia humana. Precis:,
mos, sempre e antes, considerar a totalidade da existencia para <111:1-
lisar 0 significado dos proprios acontecimentos.
Uma vez que nao tomamos certas experiencias como deterll1i-
na<;5esprevias, 0 que podemos dizer de mais fundamental das ex-
periencias da cada crian<;a?Como podemos compreender uma cri-
an<;a,a partir do que ela ja mostra dela mesma?
Descrevendo as peculiaridades dos modos do existir nas ex-
periencias na infilncia - isto e possivel se for conservado verdadei-
ramente 0 que chamamos de totalidade do ser-no-mundo de cada
crian<;a. Isto quer dizer: 0 que podemos e descrever mais especifi-
camente 0 existir da crian<;aja no modo como ela vive 0 seu ai.
Para explicitar melhor esse caminho, vamos fazer algumas con-
sidera<;5es.
- A crian~a e inteira: vive 0 seu tempo em sua totalidade.
Nao precisamos esperar que ela cresc;a para compreender 0 que ela
anseia ou teme. Isto quer dizer que precisamos aproximar e com-
preender as crian<;aspelo modo como ja se mostram, na completude
de sua existencia humana, como ser no mundo em totalidade. A
cri an<;aj a vive 0 seu amanha (0 futuro), sua historia (0 passado) e 0
seu agora (0 presente).
- A crian~aja emortal! Como todo existir humano, simulta-
neamente, a crian<;aja e poder-ser - que se mostt'a sempre de um
modo tal e ja limitado - que sendo de um modo, nao pode ser de
Olltro. Este poder-ser e a sua limita<;ao acontecem sempre em um
mundo compartilhado com pessoas e coisas.
- A crian~aja e gente! Como os adultos! 0 que dizemos das
crian<;astem que valer para os adultos! Mesmo que isto pare<;auma
tarefa diffcil. 0 que podemos atribnir de verdadeiro a crian<;a e 0
que tambem cabe a cada um de nos, adultos. Isto e, 0 que falamos
da infancia e 0 que pode tel' sentido tambem para os adultos, de
algum modo, mesmo que numa amplitude de possibilidades c1iver-
sas. A amplitude de nossas possibilidades humanas pode variar cles-
de. as experiencias mais proximas, atuais e imediatas, ate as mais
longfnquas. Destas possibilidades, no entanto, podemos nos apro-
ximar quando recordamos dias mais longfnquos ou quando com-
partilhamos com uma crianc;a, com 0 que, agora, ela pode viver
mais intensamente.
Assim, quando falamos da infancia, estamos nos compreen-
dendo a nos mesmos, de algum modo que nos reconhecemos, em
nossas proprias possibilidades existenciais.Com base nessas indicac;5es iniciais, poderfamos aproximar e
analisar varios aspectos que se mostram, diretamente e de modo
mais original, na relac;ao com as crianc;as. Por exemplo, a relac;ao
com os adultos do compartilhar-corresponsavel (e nao simbiotico),
o brincar, a fantasia e a realidade comb co-pertencentes (e nao
como oponentes), a corporeidade e a sensualidade infantil (e
nao sexualidade infantil - conceito que tem criado muitos enganos
como a charnada masturbac;ao infantil), a importancia original do
mundo privado e familiar, da intimidade e do abrigo, e a desco-
berta do mundo publico e escolar.
Entretanto, aqui, vamos desenvolver a questao mais funda-
mental que e a rela<;ao existencial com 0 tempo na infancia e
para as crian<;as,na perspectiva do caminho da fenomenologia.
Ser temporal nao e uma quesUio infantil, mas humana. Nao e a
crianc;a que faz 0 tempo, nem aquele e ela que 0 possui. Mas e com
ela e por ela que 0 tempo se instaura em cada existir humano e,
desde 0 infcio, constitui a nossa questao mais fundamental.
Na crianc;a 0 TEMPO se enrafza. Podemos dizer tambem que
a durac;ao ou 0 decorrer de uma vida esta engatado na infancia,
com a crianc;a.Qualquer movimentac;ao e realizac;ao, desabrochar e
criac;ao humana acontecem sempre numa certa durac;ao temporal
que tem 0 seu infcio na infancia.
DURA<;::Ao nao e seqUencia de fases. Fase e um segmento
determinado entre dois pontos e composto pela sucessao de fatos
que normalmente sao ligados numa relac;ao causal. Chamamos de
DURA<;::Aoa continuidade na totalidade. Qualquer movimentac;ao
e realizac;ao, crescer e criac;ao humana acontecem sempre numa
certa durac;ao temporal. Falamos em durac;ao ou decorrer de uma
vida ou do tempo de uma vida. Aqui as express5es durac;ao e tem-
po significam 0 mesmo, 0 acontecer de uma vida.
Mas, de que tempo estamos falando? Como podemos, a partir
daf, compreender melhor 0 tempo na infancia?
Para os gregos antigos, 0 que hoje, para nos, e apenas 0 tem-
po, constitufa tres experiencias distintas: CRONOS, KAIROS e
AION.
CRONOS corresponde ao conceito comum e atual do tempo
cronologico, que e caracterizado por ser geral, pontual, linear e
seqiiencia!. Refere-se a uma experiencia igual para todos (geral),
que pode ser contada ou dividida em partes (pontual) e organizada
numa seqUencia do antes e do depois.
Essa experiencia do tempo cronologico privilegia as medidas
mais objetivas, as regularidades e as seqUencias previas dos aconte-
cimentos e se da num mundo que tambem privilegia as medidas e as
regularidades.
CRONOS e 0 tempo que se conta, e 0 tempo das coisas, do
intratemporal: dos dias, das horas, meses e ano; e 0 tempo de todo
"mundo:"ninguem" vive fora desse tempo. 0 homem vive preso
nele, nos horarios e compromissos. Pois, CRONOS e 0 tempo do
convfvio geral na seqUencia dos fatos: os prazos e as urgencias sao
medidos pelos cronogramas. E as ciencias norteiam-se por ele. Este
e 0 tempo que serve para a determinac;ao previa dos fatos da vida
das crianc;as que comp5em 0 mundo comum e geral de todas elas -
como por exemplo, da idade certa para fazer isto ou aquilo, como
comec;ar a escola.
Mas, diferentemente do que se costuma pensar, este tempo
nao e natural e as crianc;as precisam aprende-Io. Podemos observar
que esta noc;ao de tempo, a princIpio, e muito diffcil para elas. Por
exemplo, quando uma crian<;adeseja muito a chegada de uma pes-
soa querida, uma coisa ou um momento especial, e pergunta se ja
chegou 0 "agora", se "ja e amanha" ou se ja e 0 "dia seguinte". Isto
nao significa uma deficiencia ou uma confusao mental. Contudo,
podemos pensar que as no<;6esde tempo crono16gico SaGrestritas
para abarcar tanto a intensidade da experiencia do esperar como a
for<;ade algo que somente se realizara depois, e que ja se constitui
na espera.
A eternidade dos momentos e a oportunidade da chegada do
esperado nao SaGcronol6gicas. Englobam experiencias temporais
que nao SaGgerais ou previsiveis. Essas experiencias, os gregos
denominavam de dois outros modos: AION e KAIROS.
AION e 0 tempo da eternidade, dos deuses e da imortalidade.
E 0 tempo da mitologia e do eterno que nao diz respeito aos mor-
tais.
KAIROS eo tempo das oportunidades para uma certa possibi-
lidade. E 0 tempo que nao pode ser medido, verificado, e nao e
igual para todos os mortais. E 0 momenta do possivel que somente
pode se dar como 0 tempo certo, adequado, oportuno para uma
certa realiza<;ao.
Sendo 0 tempo da possibilidade, KAIROS e 0 tempo existen-
cial, pois existir significa poder-ser, e nao, 0 que ja e dado e imuta-
vel. Ele e 0 tempo humano de todos homens, dos mortais. KAIROS
nao e 0 tempo da crian<;a, nem mesmo e uma questao infantil. Mas
ele se instaura com e na crian<;a.E 0 tempo em que faz sentido a
crian<;a perguntar: "Agora ja e amanha?". Este "amanha" nao e 0
dia seguinte, mas e 0 momento certo, oportuno em que algo ja
poderia acontecer. E 0 tempo em que futuro e presente se unem, e
presente e passado se tornam um, unico. Este e 0 tempo na vigencia
do qual podemos tambem dizer: "Nunc a mais you querer ..."; "Que
demora!"; "A minha vida inteira esperei ... "; "Espera s6 um
pouquinho!", que SaGexpress6es sem medidas objetivas, mas que
expressam algo clara e intensamente.
KAIROS e 0 tempo do em cada caso, da proximidade e da
Com base nessa experH~ncia significativa de tempo, 0 que
podemos dizer, especialmente, do tempo da infancia, das CriatI-
~as e do tempo das recorda~oes infantis?
Vemos desde cedo, quando, por exemplo, os bebes choram ou
sorriem ao acordar, ou quando alguem se aproxima, e, que se con-
tinuam a chorm·, e que nao estao bem (c6Iicas, fome, fralda molha-
da) que 0 bebe mostra de imediato a satisfa<;aoe a insatisfa<;ao, 0
que quer e 0 que nao quer.
Talvez este seja 0 sentido mais verdadeiro da TEORIA DO
PRINCIPIO DO PRAZER: 0 PRINCIPIO DO IMEDIATO. Isto
e, tudo tem que acontecer JA e sem considera<;6es intermediarias!
A busca do prazer e da satisfa<;ao pode aparecer, mas isto nao tem
primazia sobre a questao fundamental da temporalidade que se
mostra no imediato.
Princfpio do prazer quer dizer E PRA JA! Se esta doente, 0
bebe chora ate que a dor passe, se esta com fome, 0 bebe reclama
ate receber comida. Vm pouco maior, a crian<;a insiste tanto para
conseguir algo logo que, ou desiste e chora, ou acaba "vencendo
pelo cansa<;o". Depois, quando come<;a a gostar de hist6rias, quer
ouvir sempre a mesma que sabe inteirinha. Quando vai para a esco-
la e come<;a a fazer as li<;6es, quando sente alguma dificuldade,
chorando, reclama: "Eu nunca you conseguir!", como se "0mundo
caisse sobre a sua cabe<;a".
o que vemos riessas situa<;6es?
Podemos perceber que 0 tempo da infancia e 0 lugar do ja, da
presen<;a imediata, do agora. Nas experiencias infantis, a experien-
cia imediata prevalece sobre qualquer aspecto passado ou futuro
mais distante. Na perspectiva existencial, podemos ver que as ex-
periencias infantis SaGfortemente marcadas pelas presen~as ime-
diatas e que, assim, as crian<;as parecem constantemente atrafdas
pela novidade de descobertas constantes. Quanto menor a crian<;a,
mais 0 imediato ganha uma dimensao radical. A experiencia imecli-
ata e a que vigora e e a mais vigorosa.
Podemos perceber tambem que 0 viver temporal da crianc;a
exacerba 0 presente. Nas experiencias infantis nao ha uma divisao
equilibrada de passado, presente e futuro.
Costuma-se dizer: "A crianc;a tern todo 0 futuro pela frente".
"0 futuro da crianc;a e maior do que 0 do adulto ou do anciao."
Mas, isto nao e verdadeiro na perspectiva existencial em que, dife-
rentemente do que se pensa, e 0 imediato que domina a vida da
crianc;a eo futuro parece ser tao menor quanta ela for. Que a crian-
c;a tenha "todo 0 tempo pela frente" somente pode ser dito por
alguem que ja tenha descoberto uma maior amplitude compreensi-
va temporal.
No sentido vivencial, 0futuro tambem ganha urn carater espe-
cial na infancia, pois ele aparece inicialmente, tambem, de modo
mais imediato.
A dimensao de futuro sera tambem mais ampla conforme a
abertura do presente que se da junto a hist6ria que tambem se de-
senrola. Assim, e que 0 futuro na inHlncia e tao curto quanta 0
pass ado e vai se abrindo a medida que a crianc;a vai crescendo e
criando a sua hist6ria. 0 futuro e 0 passado da crianc;a sao desco-
bertos conjuntamente, na continuidade das realizac;6es que se dao a
cada momento. E quando 0 passado vai surgindo juntamente com
as experiencias de "ter sido", nas lembranc;as e nos novos aprendi-
zados, descobre-se tambem 0 ter que esperar. Ter pacH~ncia e
poder prever SaGpossibilidades que SaGdescobertas com a experi-
encia da espera, isto e, de urn futuro que pode ser mais vigoroso.
Neste sentido, a paciencia, espera e previsao saGpossibilidades ini-
cialmente veladas para as crianc;as.
resposta com a intensidade do desespero e mais comum c sua illl
portancia e mais inespedfica e difusa. 0 desespero e uma rcspust;t
que, na crianc;a, pode ser provocada facilmente. Com 0 crescilllcl1-
to e a ampliac;ao temporal, 0 desespero vai se tornar mais singular.
Isto torna ainda mais importante a proximidade de nossa comprc-
ensao na relac;ao com a crianc;a.
Alem disso, diferentemente do que se pode pensar, a primazia
do imediato na infancia nao traz imobilidade a vida das crianc;as.A
primazia do presente com 0 envolvimento mais imediato e a expe-
riencia mais radical da mobilidade dos significados e nao determina
uma relac;ao de imobilidade com urn mundo restrito. Ao contrario,
favorece uma constante e rica possibilidade de renovaC;ao.0 que e
aa-ora loa-o-logo pode nao ser mais. 0 brincar e as brincadeirasb , b
mostram especialmente essa rica mobilidade com a descoberta e
articulac;6es constantemente diferentes das relac;6es com 0mundo.
No que implica a primazia do imediato na vida da crian<;a?
A forc;a do imediato e tao grande que chega a tomar toda a
vida com igual intensidade, desde 0 desespero com uma dorzinha
"a toa", ate 0 desesperado sofrimento de uma crianc;a que se sente
abandonada com uma safda de casa temporaria da mae. Assim, uma
A mobilidade de significados e 0 fascinio pelas descobertas
na infancia se confundem com 0 presente. As crianc;as podem mu-
dar muito facilmente seus "julgamentos" sobre os outros. E comum
ver algum adulto se aproveitando desta facilidade, quando tenta
conquistar a boa impressao de uma crianc;a que parecia rejeita-lo
havia pouco. Mas, nao e preciso temer, pois a crianc;a aprende rapi-
do sobre esta artimanha. Cada nova descoberta surge sempre da
totalidade das referencias significativas que, a cada momento, se
rearticulam. Mas esta rearticulac;ao constante se da como cresci-
mento, pois implica numa ampliayao dos significados ja conhecidos
ante a perspectiva da novidade, das surpresas, dos desafios, isto e,
do futuro.
A infancia eo tempo do descobrir e das descobertas pr6prias c
do mundo. Estas constantes descobertas se referem, conjuntamcn-
te, as diferentes possibilidades dos diversos ambitos do existir cia
crianc;a, dos outros, tanto as mais familiares como as mais distal1-
tes, e das coisas do mundo em volta. No infcio, as experiencias dc
descoberta ocorrem, sobretudo, nas relac;6es de maior proxil11idalk
e cuidado, e, com 0 proprio crescimento, 0 mundo das pessoas e
das coisas tambem se amplia para 0 alcance do que nao era imedia-
to de infcio.
Quando descobre a si mesmo, os outros e as coisas, a crian<;a
se constitui ja, e desde sempre, como um estar-no-mundo que rea-
liza a sua propria historia. E, assim, ela se compreende: vivendo a
propria vida, ela pode dizer: "Quando eu crescer eu yOU ser...",
"Voce nao manda em mim!", "Eu nao quero isso!". Podemos, en-
tao, compreender a dimensao de historicidade de seu proprio exis-
tir. Nao nos referimos aqui a historia comumente entendida como
uma seqUencia de fatos ou vivencias datadas que determina os acon-
tecimentos do presente ou do futuro. Mas, a historicidade como a
condi<;ao fundamental apoiada na temporalidade do existir huma-
no, como "0 contexto da vida" ante a provoca<;ao do que ainda nao
e e pode vir a ser, ante 0 imediato presente e, ao mesmo tempo,
ante 0 retorno ao ja possfvel e vivido. Conforme Heidegger explicita:
"Historia significa aqui um conjunto de acontecimentos e influenci-
as que atravessa passado, presente e futuro. Aqui 0 passado nao
tem primazia."
a fascinio pelas descobertas na infancia tambem esta presen-
te na renova<;ao dos proprios desejos. Estando mais abertas para a
novidade, as crian<;asaprendem a esperar e podem desej ar algo que
antes nao queriam, ou ao qual se opunham. Entender que os dese-
jos das crian<;as podem ser nao satisfeitos, mas transformados, se
SaGinadequados ou improprios, e fundamental para um born cres-
cimento, pois estimula 0 cuidado para a realiza<;ao do que e 0 me-
lhor e nao para uma atitude de imposi<;ao autoritaria.
Crescer esta voltado para a possibilidade do novo, do que ain-
da nao e, ou seja, crescer e abrir-se para 0 futuro. Mas, crescer e
tambem abrir-se para a propria historia. Isto quer dizer que a histo-
ria tambem caminha na dire<;aodo futuroenquanto constantemente
vem a desvelar urn passado, na vigencia das presen<;as de cada
momento. Assim, junto ao futuro que ja 0 permeia, 0 crescimento e
tambem compreendido pela presen<;ado imediato, a partir da reali-
za<;aoda propria historia. No crescimento, pleno de possibilidades
do novo, de algo que ainda nao e, desvela-se urn futuro pleno de
uma historia propria.
Dizemos que cada crian<;a quer crescer, que imita 0 adulto e
nao quer ser mais crian<;a. Ela quer deixar para tras suas proprias
limita<;oes, quer deixar de ser quem ela e, pois como todos os ho-
mens, a crian<;aexiste provocada, isto e, chamada pelo que ela ain-
da nao e. No entanto, esta provoca<;ao aproxima tambem a experi-
encia de desamparo e da angtistia, uma vez que 0 mais familiar de
suas proprias possibilidades e momentaneamente abandonado pela
sua propria condi<;ao de crescimento, do advir do que ainda nao e.
Assim, crian<;asmuito ansiosas ou angustiadas podem estar caren-
tes de um presente mais vigoroso que possa the assegurar a confi-
an<;apara experimental' 0 que desconhece ou que aparece mais
amedrontador. Insatisfeitas, elas reagem esperando sempre algo
melhor ou, constantemente, reclamando que nao tern 0 que curtir e
aproveitar.
Viver intensamente e envolver-se com as proprias descobertas
e uma constante na infancia. Assim, quando a crian<;ae privada das
condi<;oes favoraveis de descobertas, da-se uma restri<;ao em sua
vida. Isto pode ocorrer devido a condi<;oes sociais, de relaciona-
mento ou ambientais, ou por varios tipos de doen<;a. Ha casos de
priva<;ao que podem levar ate a morte, tal 0 grau de carencia de
cuidado, das solicita<;oes ou dos estfmulos do mundo proximo.
Consideramos aqui que a crian~aja e em totalidade em cada
momento e junto ao que ja se mostra em sua existencia, numa refe-
rencia particular e nao externa. Assim, 0 seu futuro ja esta anun-
ciado. Mas e importante dizer que 0 percurso de seu proprio cres-
cimento nem sempre e facil e que nao precisamos esperar a che-
gada de urn certo futuro para dizer algo sobre 0 seu sofrimenlo que
a faz chorar ou sobre 0 seu querer que a deixa agitada.
Devemos nos esfon;ar ao maximo para dizer, apenas,. aquilo
que se mostra de cada crianya.
Desse modo, entendemos que para a Daseinsanalyse a meta
do trabalho clinico nao e a doenya, mas a libertayao das possibilida-
des pr6prias de existir. A Daseinsanalyse, no ambito terapeutico
com crianyas, tamMm nao se prop6e a suprimir problemas, mas a
aproximar 0 caminho mais proprio para 0 crescimento de cada
crianya. Se os problemas da crianya SaGsuperados, isto se deve a
ampliayao das possibilidades de crescimento que 0 cuidado pr6xi~mo e significativo do terapeuta favorece, em meio as brincadeiras,
hist6rias e conversas.
Podemos mencionar diversas situay6es de sofrimento que um
trabalho clfnico daseinsanalftico pode ajudar a superar. Situayoes
como a que leva uma crianya a recusar veementemente ir a escola,
da qual antes ela tanto gostava; ou as sensay6es de ameaya genera-
lizada e do mundo mais pr6ximo, os pesadelos continuos com os
sintomas de enurese noturna, dores de barriga, tristeza, choros, in-
continencia fecal, agressividade exagerada, tudo isto sem causa apa-
rente. Em casos como estes, divers os cuidados SaGpossiveis, desde
a psicoterapia com as crianyas a orientayao dos pais, ou a indicayao
de outras atividades especfficas que fazem parte do mundo infantil,
como marcenaria, esportes, artes, danya etc.
Finalmente, e necessario dizer que somente numa relayao de
proximidade, que a crianya pode se mostrar mais amplamente. Isto
significa que ela pode mostrar como e e como nao e, como nao e
mais e como ainda pode ser. Algumas coisas podem ser compreen-
didas, outras nao. Mas nao podemos esquecer 0 mais importante:
que ante 0 que ainda nao se mostrou claramente, devemos aguar-
dar 0 momenta oportuno da saida (ou nao) do misterioso encobri-
mento para uma adequada compreensao. Para isto e fundamental 0
desenrolar do tempo e a descoberta do dizer pr6prio da crianya.
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