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Lógica I
As noções de verdade, validade e correção
1.
Verdade e validade
No uso corrente da linguagem, freqüentemente dizemos que uma determinada sentença é
válida quando ela é verdadeira. Na lógica, essa palavra tem um significado mais restrito. Os
termos válido e inválido aplicam-se a argumentos, não a sentenças. Sentenças são verdadeiras
ou falsas. Considere os seguintes exemplos:
(3) (4)
Todo carioca é brasileiro.
Zico é carioca.
Logo, Zico é brasileiro.
Todo carioca é brasileiro.
G.W. Bush é carioca.
Logo, G.W. Bush é brasileiro.
(5) (6)
Todo carioca é brasileiro.
Zidane não é carioca.
Logo, Zidane não é brasileiro.
Todo carioca é brasileiro.
Lula não é carioca.
Logo, Lula não é brasileiro.
Os argumentos (3) e (4) têm uma característica em comum. Em ambos, é impossível as
premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Dizemos nesse caso que os argumentos são
válidos e que a conclusão é conseqüência lógica das premissas. Note que, em ambos os casos,
de posse das premissas, podemos inferir as respectivas conclusões.
A validade de um argumento depende da sua forma lógica. (3) e (4) têm a mesma forma
lógica:
(A)
Todo A é B
c é A
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Logo, c é B.
Podemos facilmente perceber que (A) é uma forma válida trabalhando com conjuntos.
Considere que A e B são conjuntos. A sentença ‘todo A é B’ significa que o conjunto A é
subconjunto do conjunto B. A sentença ‘c é A’ significa que c é um elemento do conjunto A.
Ora, se é verdade que c é um elemento de A e A é subconjunto de B, é impossível que não seja
também verdade que c é um elemento de B, e esse é o significado da sentença ‘c é B’.
Por esse motivo, todo argumento que tem a forma (A) é válido. Em outras palavras, quaisquer
que sejam os significados atribuídos às letras esquemáticas c, A e B, teremos um argumento
válido. Note que mesmo que sejam produzidas sentenças falsas na atribuição de significados
às letras esquemáticas c, A e B, a forma do argumento continua sendo válida. Esse é o caso de
(4). Sabemos que Bush não é carioca nem brasileiro, mas (4) é válido porque tem uma forma
válida.
Já os argumentos (5) e (6) são inválidos. A forma lógica de (5) e (6) é
(B)
Todo A é B
c não é A
Logo, c não é B.
Considere, como foi feito acima, que A e B são conjuntos e que A é subconjunto de B. A
sentença ‘c não é A’ significa que c não é um elemento do conjunto A. Ora, é possível que c
não seja um elemento de A mas o seja de B. Por esse motivo, todo argumento que tem a forma
B é inválido.
Note que um argumento pode ser inválido mas ter uma conclusão verdadeira. E de fato, esse é
o caso de (5). Mas por (5) ser um argumento inválido, a verdade da sentença ‘Zidane não é
brasileiro’ não é justificada pelas premissas de (5).
Não dizemos que um argumento é verdadeiro ou falso, mas sim válido ou inválido. Por outro
lado, não dizemos que uma sentença é válida ou inválida mas sim verdadeira ou falsa. E um
argumento válido pode ter conclusão falsa, desde que tenha uma ou mais premissa falsas,
assim como um argumento inválido pode ter uma conclusão verdadeira que, nesse caso, não é
devidamente justificada pelas premissas do argumento.
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2.
Validade e correção
Vimos nos exemplos acima que a validade de um argumento não depende do valor de verdade
das suas premissas e da conclusão. Mas usamos argumentos para mostrar que uma
determinada sentença, a conclusão do argumento, é verdadeira. Logo, não basta apenas que o
argumento seja válido. Precisamos também de premissas verdadeiras, pois somente nesse
caso podemos ter certeza de que a conclusão é verdadeira. Denominamos argumento correto
(ou sólido) aquele que, além de ser válido, tem as premissas verdadeiras. Vejamos alguns
exemplos.
Em (7), temos um argumento válido com premissas falsas:
(7)
Todo carioca é flamenguista.
Eurico Miranda é carioca.
Logo, Eurico Miranda é flamenguista.
Em (7), se as premissas fossem verdadeiras, a conclusão também seria verdadeira. Mas, posto
que as premissas não são todas verdadeiras, não temos a garantia de ter obtido uma conclusão
verdadeira. E, de fato, a conclusão do argumento é falsa. É importante observar, entretanto,
que é impossível conceber uma circunstância em que todas as premissas de (7) sejam
verdadeiras e a conclusão falsa, pois (7) tem uma forma válida, ainda que tenha uma premissa
e a conclusão falsas.
Podemos também ter um argumento inválido com uma conclusão verdadeira, como é
o caso do argumento (5).
(5)
Todo carioca é brasileiro.
Zidane não é carioca.
Logo, Zidane não é brasileiro.
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Apesar da conclusão de (5) ser verdadeira, nós não podemos chegar a essa conclusão baseado
apenas nas premissas dadas. Note que é possível, considerando apenas as premissas, conceber
uma circunstância em que Zidane não é carioca mas é, por exemplo, paulista, o que torna as
premissas verdadeiras e a conclusão falsa e mostra que o argumento é inválido. Nós sabemos
que na realidade Zidane não é paulista, mas se temos em mãos apenas as premissas do
argumento, a única coisa que sabemos acerca de Zidane é que ele não é carioca. A conclusão
de (5), embora seja verdadeira, não é uma conseqüência lógica das premissas.
O conjunto de premissas de um argumento é também denominado antecedente do argumento
e a conclusão é também chamada conseqüente do argumento. Podemos escrever um conjunto
finito de premissas {P1, P2…Pn} como uma conjunção ‘P1 ∧ P2 ∧ … ∧ Pn’. Basta uma das
premissas ser falsa para a conjunção das premissas ser falsa. Logo, basta uma premissa ser
falsa para o antecedente do argumento ser falso.
Um argumento válido com antecedente falso pode ter tanto uma conclusão verdadeira quanto
uma conclusão falsa. No caso de um argumento inválido podemos ter tanto o antecedente
quanto o conseqüente verdadeiro ou falso. Mas em todos esses casos, mesmo que a conclusão
seja verdadeira, sua verdade não é garantida pelas premissas.
O seguinte quadro mostra a relação entre a verdade do antecedente, a validade do argumento e
a verdade da conclusão:
ANTECEDENTE ARGUMENTO CONCLUSÃO
FALSO INVÁLIDO
? ? ?
VERDADEIRO INVÁLIDO
? ? ?
FALSO VÁLIDO
? ? ?
VERDADEIRO VÁLIDO
VERDADEIRA
Nos três primeiros casos, podemos obter tanto uma conclusão verdadeira quanto falsa. Mas
mesmo que a conclusão seja verdadeira, sua verdade não é garantida pela verdade das
premissas. Somente quando temos um argumento válido com premissas verdadeiras podemos
ter certeza que a conclusão é também verdadeira.
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Um argumento correto (ou sólido) é aquele que, além de ser válido, possui também premissas
verdadeiras. Nós caracterizamos um argumento válido como um argumento no qual é
impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Ora, se temos um argumento
válido com premissas verdadeiras, daí se segue que nesse caso, é impossível que a conclusão
seja falsa. E é em argumentos desse tipo que estamos primariamente interessados.
Para saber se um argumento é correto, devemos fazer duas perguntas:
(1) É impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa?
(2) Todas as premissas são verdadeiras?
Se a resposta à pergunta (1) for afirmativa, trata-se de um argumento válido. Se, além disso, a
resposta à pergunta (2) for também afirmativa, trata-se de um argumento correto. Nesse caso,
temos a garantia de que a conclusão é verdadeira.
Exercício:
Formule argumentos com as seguintes características:
1. Argumento válido, antecedente falso e conclusão verdadeira
2. Argumento válido, antecedente falso e conclusão falsa
3. Argumento inválido, antecedente falso e conclusão verdadeira
4. Argumento inválido, antecedentefalso e conclusão falsa
5. Argumento válido, antecedente verdadeiro e conclusão verdadeira
6. Argumento válido, antecedente verdadeiro e conclusão falsa
7. Argumento inválido, antecedente verdadeiro e conclusão verdadeira
8. Argumento inválido, antecedente verdadeiro e conclusão falsa
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