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Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1
Márcio André Lopes Cavalcante
Todos os julgados foram comentados.
ÍNDICE
DIREITO CIVIL
INTERDIÇÃO
Morte do interditando não acarreta, por si só, a extinção da ação de exigir contas ajuizada por ele.
RESPONSABILIDADE CIVIL E INTERNET
Responsabilidade do provedor de conteúdo em caso de associação indevida entre o argumento de pesquisa e o
resultado de busca.
CONTRATO DE SEGURO
Indenização securitária pelo valor do automóvel no momento do sinistro.
CONTRATO DE LOCAÇÃO
Locador de locação comercial não tem a obrigação legal de adaptar o imóvel às peculiaridades da atividade que
será explorada pelo locatário.
CONTRATOS AGRÁRIOS
Empresa rural de grande porte não tem direito de preferência previsto no Estatuto da Terra.
AÇÃO DE PETIÇÃO DE HERANÇA
Termo inicial do prazo prescricional da petição de herança em caso de reconhecimento póstumo da paternidade.
DIREITO DO CONSUMIDOR
BANCOS DE DADOS E CADASTROS DE CONSUMIDORES
A Súmula 385 do STJ aplica-se também para ações propostas pelo consumidor contra o credor que efetivou a
inscrição irregular.
ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
CUMPRIMENTO DE MEDIDA SOCIOEDUCATIVA
Cumprimento imediato da internação fixada na sentença ainda que tenha havido recurso.
DIREITO PROCESSUAL CIVIL
ADJUDICAÇÃO
Forma preferencial de pagamento ao credor.
Momento para requerimento da adjudicação.
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DIREITO PENAL
HOMICÍDIO
Incompatibilidade entre dolo eventual e a qualificadora de motivo fútil.
Inexistência de motivo fútil em homicídio decorrente da prática de "racha".
DIREITO PROCESSUAL PENAL
PROVAS
Extração sem prévia autorização judicial de dados e de conversas registradas no whatsapp.
INTIMAÇÃO
Nulidade da intimação por edital de réu preso.
TRIBUNAL DO JÚRI
Possibilidade de extensão de decisão de desclassificação adotada por Júri em favor de corréu.
DIREITO CIVIL
INTERDIÇÃO
Morte do interditando não acarreta, por si só, a extinção da ação de exigir contas ajuizada por ele
A morte do interditando no curso de ação de interdição não implica, por si só, a extinção do
processo sem resolução de mérito da ação de exigir contas por ele ajuizada mediante seu
curador provisório, tendo o espólio legitimidade para prosseguir com a ação de exigir contas. STJ. 3ª Turma. REsp 1.444.677-SP, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 3/5/2016 (Info 583).
Curatela
Em regra, se a pessoa for maior de 18 anos, ela é plenamente capaz e está habilitada à prática de todos os
atos da vida civil (art. 5º do CC).
No entanto, existem determinadas pessoas que, mesmo sendo maiores, não podem exercer alguns atos
patrimoniais da vida civil sozinhos, necessitando da assistência de terceiros.
Para resguardar os direitos de tais pessoas, o Direito Civil previu uma proteção jurídica chamada de “curatela”.
Mas o que vem a ser a curatela?
A curatela é um encargo (múnus) imposto a um indivíduo (chamado de “curador”), por meio do qual ele
assume o compromisso judicial de cuidar de uma pessoa (“curatelado”) que, apesar de ser maior de idade,
necessita de auxílio para a prática de determinados atos.
Por conta disso, o curatelado só poderá praticar certos atos patrimoniais se for assistido pelo curador.
Tutela x Curatela
Tutela Curatela
Instrumento jurídico para proteger a criança ou
adolescente que não goza da proteção do poder
familiar em virtude da morte, ausência ou
destituição de seus pais.
A tutela é uma espécie de colocação da criança ou
adolescente em família substituta.
Instrumento jurídico voltado para a proteção de
uma pessoa que, apesar de ser maior de 18 anos,
necessita da assistência de outra para a prática de
determinados atos de cunho patrimonial como
uma forma de lhe proteger.
Hipóteses em que ocorre a curatela
O art. 1.767 do CC traz o rol de pessoas que estão sujeitas à curatela. Esse dispositivo foi recentemente
alterado pela Lei nº 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Veja a alteração promovida:
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Antes Depois
Art. 1.767. Estão sujeitos a curatela:
I — aqueles que, por enfermidade ou deficiência
mental, não tiverem o necessário discernimento
para os atos da vida civil;
II — aqueles que, por outra causa duradoura, não
puderem exprimir a sua vontade;
III — os deficientes mentais, os ébrios habituais e
os viciados em tóxicos;
IV — os excepcionais sem completo
desenvolvimento mental;
V — os pródigos.
Art. 1.767. Estão sujeitos a curatela:
I — aqueles que, por causa transitória ou
permanente, não puderem exprimir sua vontade;
II — (Revogado);
III — os ébrios habituais e os viciados em tóxico;
IV — (Revogado);
V — os pródigos.
Repare que a Lei nº 13.146/2015 retirou do art. 1.767 do CC as menções que eram feitas à deficiência
mental e outras expressões congêneres. Diante disso, indaga-se: pode-se dizer que acabou a
possibilidade de a pessoa com deficiência ser submetida à curatela? Isso deixou de existir?
NÃO. Mesmo depois da Lei nº 13.146/2015, ainda existe a possibilidade de a pessoa com deficiência ser
submetida à curatela quando essa medida protetiva extraordinária se mostrar necessária.
O Estatuto da Pessoa com Deficiência expressamente prevê isso. Confira:
Art. 84. (...)
§ 1º Quando necessário, a pessoa com deficiência será submetida à curatela, conforme a lei.
(...)
§ 3º A definição de curatela de pessoa com deficiência constitui medida protetiva extraordinária,
proporcional às necessidades e às circunstâncias de cada caso, e durará o menor tempo possível.
(...)
Art. 85. A curatela afetará tão somente os atos relacionados aos direitos de natureza patrimonial e
negocial.
§ 1º A definição da curatela não alcança o direito ao próprio corpo, à sexualidade, ao matrimônio, à
privacidade, à educação, à saúde, ao trabalho e ao voto.
§ 2º A curatela constitui medida extraordinária, devendo constar da sentença as razões e motivações de
sua definição, preservados os interesses do curatelado.
(...)
O objetivo da Lei nº 13.146/2015, ao alterar o art. 1.767 do CC, foi o de deixar claro que não é pelo simples
fato de a pessoa apresentar deficiência que ela terá que ser interditada. Ao contrário. Com a nova Lei, a
regra passa a ser a não interdição da pessoa com deficiência. A pessoa com deficiência só será submetida à
curatela quando isso se mostrar necessário e tal situação durará o menor tempo possível.
Como é instituída a curatela?
Para que a curatela seja instituída, é necessária a instauração de um processo judicial, de jurisdição
voluntária, regulado pelos arts. 1.177 a 1.186 do CPC 1973 (arts. 747 a 758 do CPC 2015).
Esse processo é iniciado por meio de uma ação de interdição (ou ação de curatela).
Obs: alguns autores afirmam que, depois do Estatuto da Pessoa com Deficiência, não se deve mais utilizar
a expressão "ação de interdição" porque esta terminologia "interdição" possui uma carga de preconceito e
dá a ideia de que a pessoa fica inteiramente sem autonomia para tomar suas decisões, o que não é
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verdade já que a curatela afeta tão somente os atos relacionados aos direitos de natureza patrimonial e
negocial (art. 85 do Estatuto). No entanto, é possível que você ainda encontre a expressão ação de
interdição em julgados e nas provas porque esta expressão continua sendo empregada pelo CPC.
LegitimadosO rol dos legitimados para propor ação de interdição está descrito no CPC. Confira:
CPC 1973 CPC 2015
Art. 1.177. A interdição pode ser promovida:
I — pelo pai, mãe ou tutor;
II — pelo cônjuge ou algum parente próximo;
III — pelo órgão do Ministério Público.
Art. 747. A interdição pode ser promovida:
I — pelo cônjuge ou companheiro;
II — pelos parentes ou tutores;
III — pelo representante da entidade em que se
encontra abrigado o interditando;
IV — pelo Ministério Público.
Parágrafo único. A legitimidade deverá ser
comprovada por documentação que acompanhe a
petição inicial.
Obs.: o rol de legitimados para a ação de interdição é TAXATIVO.
Feitos os devidos esclarecimentos, imagine a seguinte situação hipotética:
Lucas, filho de João, ajuizou ação de interdição pedindo a curatela de seu pai.
O juiz deferiu a medida liminar, nomeando-o como curador provisório.
Em seguida, João, representado por seu filho Lucas (curador provisório), ajuizou ação de prestação de
contas em desfavor de Maria (irmã de João), pedindo que ela prestasse contas dos valores que sacou da
conta corrente do autor e que ela movimentava por força de uma procuração outorgada pelo requerente.
Ocorre que João faleceu no curso do processo.
O filho de João requereu que o espólio do pai assumisse o polo ativo da demanda e que o processo
continuasse, conforme autoriza o art. 110 do CPC/2015 (sucessão processual):
Art. 110. Ocorrendo a morte de qualquer das partes, dar-se-á a sucessão pelo seu espólio ou pelos seus
sucessores, observado o disposto no art. 313, §§ 1º e 2º.
O juiz, contudo, extinguiu o processo sem resolução do mérito, nos termos do art. 485, IX, do CPC/2015
alegando que a ação proposta é personalíssima:
Art. 485. O juiz não resolverá o mérito quando:
IX - em caso de morte da parte, a ação for considerada intransmissível por disposição legal; e
Agiu corretamente o magistrado?
NÃO.
A morte do interditando no curso de ação de interdição não implica, por si só, a extinção do processo
sem resolução de mérito da ação de exigir contas por ele ajuizada mediante seu curador provisório,
tendo o espólio legitimidade para prosseguir com a ação de exigir contas.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.444.677-SP, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 3/5/2016 (Info 583).
Não há dúvidas de que a morte do interditando no curso do processo de interdição acarreta a extinção do
processo sem resolução do mérito, visto que se trata de ação de natureza personalíssima. No entanto, isso
não ocorre com a ação de exigir contas (art. 550 do CPC/2015).
A ação de exigir contas (chamada na época do CPC/1973 de "ação de prestação de contas") é considerada
personalíssima apenas em relação ao requerido (réu da ação). No que tange ao requerente (autor), ela não
é personalíssima, podendo ser assumida, no polo ativo, pelo espólio do falecido.
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RESPONSABILIDADE CIVIL E INTERNET
Responsabilidade do provedor de conteúdo em caso de associação indevida
entre o argumento de pesquisa e o resultado de busca
Importante!!!
Não há dano moral quando o Google exibe, como resultado de uma busca, a indicação do link de
um site que não mais contém aquela palavra ou frase porque já foi removida. Ex: determinado
blog publicou a frase "João de Tal é um péssimo médico". Depois de um tempo, o administrador
deste blog retirou a expressão, mas manteve o restante do texto. O Google demorou para
atualizar seu sistema de buscas e continua exibindo o link deste blog quando a pessoa digita o
nome "João de Tal", mesmo não havendo mais qualquer referência no texto. Esse fato não gera,
por si só, dano moral a ser pago pelo Google.
A ausência de congruência entre o resultado atual e os termos pesquisados, ainda que
decorrentes da posterior alteração do conteúdo original publicado pela página, configuram
falha na prestação do serviço de busca, que deve ser corrigida nos termos do art. 20 do CDC, por
frustrarem as legítimas expectativas dos consumidores.
Não há dano moral quando o provedor de busca, mesmo após ser cientificado pelo
consumidor, continua exibindo resultado desatualizado. Ex: ao se digitar o nome desse
consumidor (argumento de pesquisa) continua aparecendo, entre os resultados, determinado
site que tinha realmente este nome do consumidor, mas que já foi retirado de lá. Em outras
palavras, não há dano moral quando o provedor, mesmo depois de alertado sobre a falha,
exibe associação indevida entre o argumento de pesquisa e o resultado de busca.
O provedor de busca cientificado pelo consumidor sobre vínculo virtual equivocado entre o
argumento de pesquisa (nome de consumidor) e o resultado de busca (sítio eletrônico) é
obrigado a desfazer a referida indexação, ainda que esta não tenha nenhum potencial ofensivo. STJ. 3ª Turma. REsp 1.582.981-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 10/5/2016 (Info 583).
Imagine a seguinte situação hipotética:
João é um médico famoso. Certa vez, ele digitou seu nome completo no Google e um dos resultados que
apareceu foi o depoimento de um ex-paciente seu que falava mal do tratamento dele em um blog.
O médico interpelou extrajudicialmente o ex-paciente e este manteve o depoimento no blog, mas retirou
o nome do médico e qualquer referência que pudesse identificá-lo.
Mesmo depois desta retirada, ao se digitar o nome de João no Google, continua aparecendo, como um
dos resultados da busca, o referido depoimento no blog. No entanto, ao se abrir a página, não se encontra
mais o nome do médico no texto.
João notificou o Google para que este não fizesse mais essa associação, no entanto, seu pedido não foi
atendido.
Diante disso, ele ajuizou ação de indenização por danos morais contra o Google, por continuar vinculando
no resultado das buscas de seu nome o referido depoimento.
Vejamos algumas conclusões do STJ relacionadas com esse tema.
A relação da pessoa que pede a retirada do conteúdo e o Google é uma relação de consumo? A pessoa
pode ser considerada consumidora e o Google fornecedor de serviços?
SIM. Os serviços prestados pelo Google na internet, como é o caso de seu sistema de buscas, mesmo
sendo gratuitos, configuram relação de consumo.
O fato de o serviço prestado pelo provedor de serviço de Internet ser gratuito não desvirtua a relação de
consumo, pois o termo “mediante remuneração”, contido no art. 3º, § 2º, do CDC, deve ser interpretado
de forma ampla, de modo a incluir o ganho indireto do fornecedor.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.316.921-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 26/6/2012 (Info 500).
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Qual é a natureza jurídica do serviço de pesquisa via internet?
Os sites de pesquisa (provedores de pesquisa), como o Google, são uma espécie do gênero “provedor de
conteúdo”, pois esses sites não incluem, hospedam, organizam ou de qualquer outra forma gerenciam as
páginas virtuais indicadas nos resultados disponibilizados, se limitando a indicar links onde podem ser
encontrados os termos ou expressões de busca fornecidos pelo próprio usuário.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.316.921-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 26/6/2012 (Info 500).
Qual é a responsabilidade dos provedores de pesquisa (espécie do gênero provedor de conteúdo)?
A responsabilidade dos provedores de pesquisa deve ficar restrita à natureza da atividade por eles desenvolvida
que, como visto, corresponde a facilitar a localização de informações na web. Assim, os provedores de
pesquisa devem garantir o sigilo, a segurança e a inviolabilidade dos dados cadastrais de seus usuários e
das buscas por eles realizadas, bem como o bom funcionamento e manutenção do sistema.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.316.921-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi,julgado em 26/6/2012 (Info 500).
Os provedores de pesquisa podem ser responsabilizados pelo conteúdo do resultado das buscas
realizadas pelos usuários?
NÃO. Na visão do STJ, não se trata de atividade intrínseca ao serviço por eles prestado. Logo, não se pode
reputar como defeituoso, nos termos do art. 14 do CDC, o site de pesquisa que não exerce esse controle
sobre os resultados das buscas. Como o provedor de pesquisa age como mero intermediário, repassando
textos e imagens produzidas por outras pessoas, sobre essas informações não exerceu fiscalização ou juízo
de valor, não podendo ser responsabilizado por eventuais excessos e ofensas à moral, à intimidade e à
honra de terceiros. Não se aplica aqui a teoria do risco da atividade. Conclui-se, portanto, ser ilegítima a
responsabilização dos provedores de pesquisa pelo conteúdo do resultado das buscas realizadas por seus
usuários.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.316.921-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 26/6/2012 (Info 500).
Os provedores de pesquisa podem ser obrigados a filtrar o conteúdo das pesquisas feitas por cada usuário?
NÃO. Os provedores de pesquisa realizam suas buscas dentro de um universo virtual, cujo acesso é público e
irrestrito, ou seja, seu papel se restringe à identificação de páginas na web onde determinado dado ou
informação, ainda que ilícito, estão sendo livremente veiculados.
Dessa forma, ainda que seus mecanismos de busca facilitem o acesso e a consequente divulgação de
páginas cujo conteúdo seja potencialmente ilegal, fato é que essas páginas são públicas e compõem a rede
mundial de computadores e, por isso, aparecem no resultado dos sites de pesquisa. Ora, se a página
possui conteúdo ilícito, cabe ao ofendido adotar medidas para que haja a supressão da página e, com isso,
automaticamente, ele não mais aparecerá nos resultados de busca virtual dos sites de pesquisa.
Não se ignora a evidente dificuldade de assim proceder, diante da existência de inúmeras páginas
destinadas à exploração de conteúdo ilícito – sobretudo imagens íntimas, sensuais e/ou pornográficas,
mas isso não justifica a transferência, para mero provedor de serviço de pesquisa, da responsabilidade
pela identificação desses sites, especialmente porque teria as mesmas dificuldades encontradas por cada
interessado individualmente considerado.
Sopesados os direitos envolvidos e o risco potencial de violação de cada um deles, o fiel da balança deve
pender para a garantia da liberdade de informação assegurada pelo art. 220, § 1º, da CF/88, sobretudo
considerando que a Internet representa, hoje, importante veículo de comunicação social de massa.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.316.921-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 26/6/2012 (Info 500).
Há possibilidade, de ordem técnica, para que os provedores de pesquisa possam controlar e filtrar os
conteúdos ilícitos das páginas?
NÃO. Inúmeras páginas são criadas diariamente e, além disso, a maioria das milhões de páginas existentes
na web sofre atualização regularmente, por vezes em intervalos inferiores a uma hora, sendo que em
qualquer desses momentos pode haver a inserção de informação com conteúdo ilícito. Essa circunstância,
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aliada ao fato de que a identificação de conteúdos ilícitos ou ofensivos não pode ser automatizada (deve
ser feita por humanos), torna impraticável o controle prévio por parte dos provedores de pesquisa da cada
página nova ou alterada, sob pena, inclusive, de seus resultados serem totalmente desatualizados.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.316.921-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 26/6/2012 (Info 500).
Em suma
Segundo o STJ, os provedores de pesquisa:
a) não respondem pelo conteúdo do resultado das buscas realizadas por seus usuários;
b) não podem ser obrigados a exercer um controle prévio do conteúdo dos resultados das buscas feitas
por cada usuário; e
c) não podem ser obrigados a eliminar do seu sistema os resultados derivados da busca de determinado
termo ou expressão, tampouco os resultados que apontem para uma foto ou texto específico,
independentemente da indicação do URL da página onde este estiver inserido.
Até aí, tudo bem. Acima nós temos o entendimento majoritário no STJ. No entanto, nosso exemplo
possui uma peculiaridade que ainda não havia sido enfrentada pelo Tribunal. O interessado (João)
conseguiu, extrajudicialmente, retirar o conteúdo nocivo da página (com a supressão de seu nome).
Apesar disso, o índice do Google Search permanece exibindo o link como se na página indicada ainda
houvesse o conteúdo retirado. Por que isso acontece? Por que o Google continua exibindo-o em seus
resultados mesmo o nome do interessado já tendo sido excluído?
Os sítios de busca, como o Google, disponibilizam uma ferramenta por meio da qual o usuário realiza as
pesquisas acerca de qualquer assunto ou conteúdo existente na web, mediante fornecimento de critérios
ligados ao resultado desejado, obtendo, como resposta imediata, os respectivos links das páginas onde a
informação pode ser localizada. Ok, isso todo mundo sabe porque já fez uma pesquisa no Google.
O que nem todo mundo sabe é que, para fazer isso, o Google já rastreou e indexou, previamente, trilhões
de páginas disponíveis na web, organizando essas informações em seus bancos de dados. Em outras
palavras mais simples, é como se o Google constantemente rastreasse as páginas da web e organizasse
essas informações em "estantes" para que, quando o usuário pesquise, esta busca seja rápida e forneça os
resultados necessários conforme eles já foram organizados.
Essa indexação ("organização em estantes") é atualizada, em regra, da seguinte forma: o sistema do Google
vai acrescentando novas páginas à essa base de dados a partir de novas varreduras que faz na web. No
entanto, em regra, o Google não retira essas páginas da indexação (não retira os sites das suas "estantes").
Essa exclusão até ocorre, mas de acordo com critérios e segundo uma periodicidade que é prevista no
algoritmo do sistema de buscas do Google. Não se trata de algo automático e imediato. Se você publicou
algum texto em um blog e depois de um tempo excluiu uma frase dele, isso não significa que haverá a
imediata exclusão disso do sistema de busca do Google. Esta ferramenta possui mecanismos próprios para
realizar a atualização de seus resultados.
O fato de o Google não atualizar instantaneamente esses resultados gera, por si só, dano moral aos
interessados?
NÃO. Segundo o STJ, essa ausência de atualização constante não gera, por si só, dano suscetível de
imputar ao provedor de pesquisa a responsabilidade civil.
O resultado apontado em decorrência da ausência de atualização automática não é o conteúdo ofensivo
em si, mas a mera indicação do link de uma página. Ao acessar a página por meio do link, todavia, o
conteúdo exibido é exatamente aquele existente na página já atualizada e, portanto, livre do conteúdo
ofensivo e do potencial danoso.
Em outras palavras, mesmo exibindo nos resultados uma frase que não mais existe no site, quando a
pessoa abre o link informado não irá encontrar aquela referência e, portanto, não há, nesta
desatualização, um fato que gere, por si só, dano moral.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 8
Não há dano moral quando a Google exibe, como resultado de uma busca, a indicação do link de um site que
não mais contém aquela palavra ou frase porque já foi removida. Ex: determinado blog publicou a frase
"João de Tal é um péssimo médico". Depois de um tempo, o administrador deste blog retirou a expressão,
mas manteve o restante do texto. A Google demorou para atualizar seu sistema de buscas e continua
exibindo o link deste blog quando a pessoa digita o nome "João de Tal"mesmo não havendo mais qualquer
referência ao nome no texto. Esse fato não gera, por si só, dano moral a ser pago pelo Google.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.582.981-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 10/5/2016 (Info 583).
Não há dano moral, mas essa situação pode ser considerada como uma falha do sistema de buscas? É
possível que o interessado requeira que o Google corrija esta vinculação desatualizada que está sendo
feita com seu nome?
SIM. Ao espelhar um resultado que um dia esteve disponível mas que não mais se encontra publicado na
rede mundial na data da busca, a ferramenta de pesquisa apresenta-se falha em seu funcionamento, não
correspondendo adequadamente ao fim a que se destina.
Como já vimos, o serviço oferecido pelo Google é regido também pelo CDC e este diploma estabelece, em
seu art. 20, que é dever dos fornecedores entregarem serviços que se mostrem adequados aos fins que
razoavelmente deles se esperam.
Assim, o Google tem o dever de corrigir sua base de dados e adequá-la aos resultados de busca atuais,
fazendo cessar a vinculação do nome do autor à página por ele indicada. Este é um dever seu enquanto
fornecedor do serviço de busca, ou seja, o dever de entregar respostas adequadas ao critério pesquisado.
Em um ambiente tão dinâmico e complexo como a internet, é normal que ocorram falhas e incorreções
decorrentes de informações desatualizadas. Também por isso o STJ entendeu que não caberia indenização
por danos morais. No entanto, depois de o consumidor comunicar ao Google que está havendo essa
incorreção, é dever dele corrigir a falha de seu serviço.
A ausência de congruência entre o resultado atual e os termos pesquisados, ainda que decorrentes da
posterior alteração do conteúdo original publicado pela página, configuram falha na prestação do
serviço de busca, que deve ser corrigida nos termos do art. 20 do CDC, por frustrarem as legítimas
expectativas dos consumidores.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.582.981-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 10/5/2016 (Info 583).
Caso o provedor não retire o resultado incorreto (desatualizado), nesta hipótese, podemos dizer que
existe dano moral?
Também NÃO.
Não há dano moral quando o provedor de busca, mesmo após ser cientificado pelo consumidor,
continua exibindo resultado desatualizado. Ex: ao se digitar o nome desse consumidor (argumento de
pesquisa) continua aparecendo, entre os resultados, determinado site que tinha realmente este nome
do consumidor, mas que já foi retirado de lá.
Em outras palavras, não há dano moral quando o provedor, mesmo depois de alertado sobre a falha,
exibe associação indevida entre o argumento de pesquisa e o resultado de busca.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.582.981-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 10/5/2016 (Info 583).
Mas neste caso, o consumidor ficará prejudicado? Ficará sem instrumentos para corrigir a falha?
NÃO. O consumidor poderá ajuizar ação contra o provedor de pesquisa (no caso, o Google) pedindo que
seja corrigida a falha, inclusive com a fixação de astreintes (multa cominatória).
O provedor, para tentar se isentar do dever de corrigir a falha, poderá argumentar que esse erro não
gera nenhum prejuízo ao consumidor? Esta alegação é válida?
NÃO.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 9
O provedor de busca cientificado pelo consumidor sobre vínculo virtual equivocado entre o argumento
de pesquisa (nome de consumidor) e o resultado de busca (sítio eletrônico) é obrigado a desfazer a
referida indexação, ainda que esta não tenha nenhum potencial ofensivo.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.582.981-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 10/5/2016 (Info 583).
CONTRATO DE SEGURO
Indenização securitária pelo valor do automóvel no momento do sinistro
Importante!!!
No caso de contrato de seguro de automóvel, havendo perda total, a seguradora deverá
indenizar o segurado com base na tabela vigente na data do sinistro, e não na data do efetivo
pagamento (liquidação do sinistro).
É abusiva a cláusula de contrato de seguro de automóvel que, na ocorrência de perda total do
veículo, estabelece a data do efetivo pagamento (liquidação do sinistro) como parâmetro do
cálculo da indenização securitária a ser paga conforme o valor médio de mercado do bem, em
vez da data do sinistro. STJ. 3ª Turma. REsp 1.546.163-GO, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 5/5/2016 (Info 583).
Tabela FIPE
FIPE é a sigla de "Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas", uma organização de direito privado ligada
ao Departamento de Economia da USP. Esta fundação elabora, mensalmente, uma tabela prevendo os
preços médios dos veículos usados que são vendidos no mercado nacional.
Ex: segundo a tabela FIPE, um Fiat Palio City 1.0 4p, ano 2000, custa em, em julho de 2016, R$ 10.435,00.
Os valores estabelecidos na tabela variam em função da região, conservação, cor, acessórios ou qualquer
outro fator que possa influenciar as condições de oferta e procura por um veículo específico.
Vale ressaltar que o preço dos carros, em regra, vai diminuindo com o passar dos meses. Ex: em maio de
2016, o valor do mesmo Fiat Palio City 1.0 4p, ano 2000, era de R$ 10.516,00 na tabela FIPE. Já em julho de
2016, caiu para R$ 10.435,00, como vimos acima.
As seguradoras utilizam a Tabela FIPE para determinar o valor do automóvel segurado.
Imagine a seguinte situação hipotética:
A empresa "XX" fez um contrato de seguro para cobrir possíveis sinistros em seus veículos.
Em abril de 2016, um caminhão da empresa envolveu-se em um acidente e houve perda total do veículo.
Na data do sinistro, o caminhão estava avaliado em R$ 110 mil, segundo a Tabela FIPE.
A empresa acionou o seguro e iniciaram-se os procedimentos para "liquidação do sinistro", ou seja,
pagamento da indenização.
Em regra, o procedimento de liquidação do sinistro não pode durar mais que 30 dias, conforme regras da
SUSEP (Superintendência de Seguros Privados). No entanto, em alguns casos, é possível sim que atrase
mais que isso se houver dúvida fundada e justificável, situação em que serão necessárias novas exigências,
inclusive de documentos.
Voltando ao nosso exemplo, suponhamos que três meses depois, ou seja, em julho de 2016, a seguradora
realizou o pagamento.
Ocorre que aí surgiu um problema. Isso porque em julho de 2016, segundo a Tabela FIPE, o caminhão valia
R$ 100 mil, ou seja, menos que em abril de 2016.
O contrato de seguro assinado prevê que o valor da indenização deve ser calculado no momento da
realização do sinistro (data do pagamento). Diante disso, a seguradora quer pagar apenas R$ 100 mil. A
empresa, no entanto, não se conforma e deseja receber R$ 110 mil (preço do veículo na data do sinistro).
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 10
Neste caso concreto, quem tem razão, segundo o STJ?
A empresa. A indenização deve ser calculada com base no valor médio de mercado considerando-se a data
do sinistro.
Mas e a cláusula contratual afirmando que o valor deve ser calculado com base na data do pagamento?
Trata-se de cláusula abusiva, que deve ser tida como não-escrita.
É abusiva a cláusula de contrato de seguro de automóvel que, na ocorrência de perda total do veículo,
estabelece a data do efetivo pagamento (liquidação do sinistro) como parâmetro do cálculo da
indenização securitária a ser paga conforme o valor médio de mercado do bem, em vez da data do sinistro.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.546.163-GO, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 5/5/2016 (Info 583).
Princípio indenitário
O CC/2002 prevê, em seu art. 781, o chamado princípio indenitário, segundo o qual a indenização
securitária deve corresponder ao valor real dos bens perdidos, destruídos ou danificados que o seguradopossuía logo antes da ocorrência do sinistro. Veja:
Art. 781. A indenização não pode ultrapassar o valor do interesse segurado no momento do sinistro, e, em
hipótese alguma, o limite máximo da garantia fixado na apólice, salvo em caso de mora do segurador.
Dessa forma, o total da indenização está, em regra, limitado ao valor do dano atual e efetivo sofrido. Em
outras palavras, deve-se pagar pelo prejuízo que a pessoa sofreu. Isso se justifica porque o contrato de
seguro não deve ser causa de enriquecimento do segurado. O seu objetivo é apenas o de restabelecer a
situação das coisas, em nível patrimonial, ao mesmo patamar de antes do sinistro.
Por força do princípio indenizatório, a indenização deve corresponder ao valor do efetivo prejuízo
experimentado pelo segurado no momento do sinistro, mesmo em caso de perda total dos bens
garantidos. Assim, é abusiva a cláusula contratual do seguro de automóvel que impõe o cálculo da
indenização securitária com base no valor médio de mercado do bem vigente na data de liquidação do
sinistro, pois onera desproporcionalmente o segurado, colocando-o em situação de desvantagem
exagerada, indo de encontro ao princípio indenitário, visto que os veículos automotores sofrem, com o
passar do tempo, depreciação econômica, e quanto maior o lapso entre o sinistro e o dia do efetivo
pagamento, menor será a recomposição do patrimônio garantido.
Esta cláusula é, portanto, uma disposição unilateral e benéfica somente à seguradora, a qual poderá
também atrasar o dia do pagamento, ante os trâmites internos e burocráticos de apuração do sinistro.
Desse modo, no caso de contrato de seguro de automóvel, havendo perda total, a seguradora deverá
indenizar o segurado com base na tabela vigente na data do sinistro, e não na data do efetivo pagamento
(liquidação do sinistro).
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 11
CONTRATO DE LOCAÇÃO
Locador de locação comercial não tem a obrigação legal de adaptar o imóvel
às peculiaridades da atividade que será explorada pelo locatário
Na hipótese de locação de imóvel comercial, salvo disposição contratual em sentido contrário, a
obrigação do locador restringe-se tão somente à higidez e à compatibilidade do imóvel ao uso
comercial e não abrange a adaptação do bem às peculiaridades da atividade a ser explorada pelo
locatário ou mesmo o dever de diligenciar perante os órgãos públicos para obter alvará de
funcionamento ou qualquer outra licença necessária ao desenvolvimento do negócio.
Em outras palavras, na hipótese de locação comercial, a Lei não impõe ao locador o encargo de
adaptar o imóvel às peculiaridades da atividade que será explorada pelo locatário. Também
não obriga o locador a diligenciar junto aos órgãos públicos para obter alvará de
funcionamento ou qualquer outra licença necessária ao desenvolvimento do negócio. Essas
são obrigações do locatário, salvo se houver alguma previsão contratual em sentido contrário. STJ. 3ª Turma. REsp 1.317.731-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 26/4/2016 (Info 583).
Imagine a seguinte situação hipotética:
João desejava abrir um bar em determinado bairro.
Localizou um imóvel onde funcionava uma loja e que estava para alugar e entrou em contato com Pedro
(proprietário).
João e Pedro fizeram, então, um contrato de locação comercial.
Pedro entregou as chaves e a empresa tomou posse do imóvel, iniciando a decoração do local, colocação
de placa, das mesas etc.
Ocorre que João não conseguiu obter alvará de funcionamento porque a Prefeitura afirmou que nesta
área, apesar de ser comercial, não era permitida a instalação de bares por força do plano diretor. Além
disso, também não houve autorização do Corpo de Bombeiros.
Diante disso, Pedro, que já estava devendo três meses de aluguel, devolveu o imóvel para João e afirmou
que estava desobrigado de pagar a quantia porque o imóvel teria sido alugado para ele sem que estivesse
em condições de uso para o fim a que se destinava.
A tese de Pedro (locatário) foi aceita pelo STJ?
NÃO.
Na hipótese de locação de imóvel comercial, salvo disposição contratual em sentido contrário, a
obrigação do locador restringe-se tão somente à higidez e à compatibilidade do imóvel ao uso comercial
e não abrange a adaptação do bem às peculiaridades da atividade a ser explorada pelo locatário ou
mesmo o dever de diligenciar perante os órgãos públicos para obter alvará de funcionamento ou
qualquer outra licença necessária ao desenvolvimento do negócio.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.317.731-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 26/4/2016 (Info 583).
A regularização do bem perante os órgãos públicos não está entre as obrigações conferidas ao locador
pelo art. 22, I, da Lei nº 8.245/91, sendo fato imputável exclusivamente ao locatário.
Ademais, não havia nenhuma cláusula no contrato que estipulasse a obrigação do locador de adaptar o
imóvel para fins de funcionamento de um bar. Na verdade, no contrato só dizia que o locatário faria uso
do imóvel para fins comerciais.
Obrigação do locador de entregar imóvel que sirva ao uso a que se destina
Segundo o art. 22, I, da Lei nº 8.245/91 (Lei do Inquilinato), o locador é obrigado a "entregar ao locatário o
imóvel alugado em estado de servir ao uso a que se destina".
A locação urbana pode ser:
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 12
x para o uso residencial: destinado à moradia (arts. 46 e 47);
x para temporada: destinado à residência temporária do locatário, para prática de lazer, realização de
cursos, tratamento de saúde, feitura de obras em seu imóvel, e outros fatos que decorrem tão
somente de determinado tempo, e contratada por prazo não superior a 90 dias, esteja ou não
mobiliado o imóvel (arts. 48 a 50); ou
x para o uso comercial: destinado para instalação de escritórios, comércio, indústria ou qualquer outra
atividade que não seja residencial (arts. 51 a 57).
Logo, quando o art. 22, I, afirma que é dever do locador entregar ao locatário o imóvel de forma
compatível com o uso a que se destina, o que se está dizendo é que ele deve ser entregue com condições
de ser utilizado para locação residencial, para temporada ou comercial (a depender do caso).
Assim, por exemplo, na hipótese de locação residencial, é dever do locador observar se o local onde
situado o imóvel autoriza a utilização do bem para o fim de moradia, se apresenta condições de uso e gozo
e outras condições de habitabilidade.
Já nos casos de locação para fins comerciais, a obrigação do locador restringe-se tão somente à higidez e à
compatibilidade do imóvel ao uso comercial. Em outras palavras, basta que o locador alugue um imóvel
que possa ser utilizado para atividades empresariais. O locador não tem a obrigação de entregar um
imóvel que seja adequado para a atividade comercial específica que o locatário deseja exercer.
Compete, portanto, ao locatário analisar perviamente se o bem que ele irá alugar é compatível com a
atividade empresarial que deseja realizar no local. Esse exame deve envolver inclusive os documentos
relativos a esse imóvel.
Locador não tem obrigação de preparar o imóvel para a atividade que será explorada pelo locatário
Assim, na hipótese de locação comercial, a Lei não impõe ao locador o encargo de adaptar o imóvel às
peculiaridades da atividade que será explorada pelo locatário. Também não obriga o locador a diligenciar
junto aos órgãos públicos para obter alvará de funcionamento ou qualquer outra licença necessária ao
desenvolvimento do negócio. Essas são obrigações do locatário, salvo se houver alguma previsão
contratual em sentido contrário.
Postura colaborativa do locador
Vale ressaltar, no entanto, que o locador, em virtude dos chamadosdeveres anexos à boa-fé (deveres de
informação, cooperação, lealdade e probidade) tem a obrigação de colaborar com o locatário fornecendo
os documentos e as informações necessárias à implementação da atividade no imóvel objeto da locação.
Isso, contudo, é diferente de ele ter a obrigação de resolver os entraves.
CONTRATOS AGRÁRIOS
Empresa rural de grande porte não tem direito de preferência previsto no Estatuto da Terra
O direito de preferência para a aquisição do imóvel arrendado, previsto no art. 92, § 3º, do
Estatuto da Terra, não é aplicável à empresa rural de grande porte (arrendatária rural). STJ. 3ª Turma. REsp 1.447.082-TO, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 10/5/2016 (Info 583).
Arrendamento rural
De forma resumida, arrendamento rural é um contrato por meio do qual o arrendador aluga um imóvel
que será utilizado por outra pessoa (arrendatário) para a exploração de atividade rural (agrícola, pecuária,
granjeira etc).
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 13
Vamos detalhar essa definição:
Arrendamento rural é...
- o contrato agrário
- por meio do qual uma pessoa se obriga a ceder à outra,
- por tempo determinado ou indeterminado,
- o uso e gozo de imóvel rural (no todo ou em parte),
- incluindo, ou não, outros bens, benfeitorias e ou facilidades,
- com o objetivo de que nele seja exercida atividade de
- exploração agrícola, pecuária, agroindustrial, extrativa ou mista,
- pagando o arrendatário ao arrendador uma retribuição ou aluguel,
- observados os limites percentuais da Lei.
O contrato de arrendamento rural é regido pelo Estatuto da Terra (Lei nº 4.504/64) e pelo Decreto nº
59.566/66.
Direito de preferência
O Estatuto da Terra prevê que, se o arrendador quiser vender o imóvel, o arrendatário terá direito de
preferência, ou seja, terá direito de comprar, desde que aceite pagar o valor que os demais interessados
haviam oferecido. Veja como isso está previsto:
Art. 92 (...)
§ 3º No caso de alienação do imóvel arrendado, o arrendatário terá preferência para adquiri-lo em
igualdade de condições, devendo o proprietário dar-lhe conhecimento da venda, a fim de que possa
exercitar o direito de perempção dentro de trinta dias, a contar da notificação judicial ou
comprovadamente efetuada, mediante recibo.
§ 4º O arrendatário a quem não se notificar a venda poderá, depositando o preço, haver para si o imóvel
arrendado, se o requerer no prazo de seis meses, a contar da transcrição do ato de alienação no Registro
de Imóveis.
Imagine agora a seguinte situação adaptada:
A "XXX Agropecuária" é uma empresa rural de grande porte.
João, dono de uma fazenda, firmou contrato particular de arrendamento rural com a "XXX Agropecuária"
por meio do qual esta, arrendatária, poderia explorar, durante 2 anos, o imóvel de João, devendo pagar a
ele, em contraprestação, R$ 20 mil por mês.
Faltando alguns meses para chegar ao fim o prazo de vigência do contrato, João vende o imóvel para
Pedro, dono da fazenda vizinha.
Quando descobriu que houve a alienação, a empresa arrendatária exigiu seu direito de preferência, nos
termos do art. 92, §§ 3º e 4º do Estatuto da Terra.
O pedido da empresa deverá ser acolhido?
NÃO.
O direito de preferência para a aquisição do imóvel arrendado, previsto no art. 92, § 3º, do Estatuto da
Terra, não é aplicável à empresa rural de grande porte (arrendatária rural).
STJ. 3ª Turma. REsp 1.447.082-TO, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 10/5/2016 (Info 583).
Regulamento do Estatuto da Terra limita os direitos nele previstos
O Estatuto da Terra não impôs nenhuma restrição quanto à pessoa do arrendatário para o exercício do
direito de preferência, de modo que, ao menos numa interpretação literal, nada obstaria a que uma
grande empresa rural viesse a exercer o direito de preempção. Porém, o Decreto nº 59.566/66, que
regulamenta o Estatuto da Terra, estabeleceu que os benefícios nele previstos seriam restritos àqueles
que explorem atividade rural direta e pessoalmente, como o típico homem do campo (art. 38), fazendo
uso eficiente e correto da terra, contando essencialmente com a força de trabalho de sua família (art. 8º).
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 14
Estatuto da Terra deve ser examinado à luz da função social da propriedade e da justiça social
Analisando-se o Estatuto da Terra como um microssistema normativo, percebe-se que seus princípios
orientadores são, essencialmente, a função social da propriedade e a justiça social (arts. 1º e 2º da Lei nº
4.504/64). Portanto, cabe interpretar o direito de preferência à luz desses dois princípios.
Sob o prisma da função social da propriedade, a terra é vista como um meio de produção que deve ser
mantido em grau satisfatório de produtividade, observadas as normas ambientais e trabalhistas. No caso
do arrendamento, o arrendatário tem total interesse em manter a terra produtiva, pois seria
antieconômico pagar aluguel e deixar a terra ociosa. Desse modo, o exercício do direito de preferência
pelo arrendatário possibilitaria a continuidade da atividade produtiva, atendendo-se, assim, ao princípio
da função social da propriedade. Observe-se que essa conclusão independe do porte econômico do
arrendatário, pois o foco é produtividade da terra, respeitadas as normas ambientais e trabalhistas.
Entretanto, os princípios da função social da propriedade e da justiça social nem sempre andam juntos.
O princípio da justiça social preconiza a desconcentração da propriedade das mãos dos grandes grupos
econômicos e dos grandes proprietários, para que seja dado acesso à terra ao homem do campo e à sua
família. Preconiza, também, a proteção do homem do campo nas relações jurídicas de direito agrário.
A falta ou a ineficiência de uma política agrária faz com que rurícolas migrem para as grandes cidades,
onde, não raras vezes, são submetidos a condições de vida degradantes, como temos testemunhado em
nosso país, ao longo de décadas de êxodo rural contínuo.
Assim, não é por outra razão que o Estatuto da Terra assegura a todo agricultor o direito de "permanecer
na terra que cultive", bem como estabelece que é dever do Poder Público "promover e criar condições de
acesso do trabalhador rural à propriedade da terra" (art. 2º, §§ 2º e 3º).
Direito de preferência só atende ao princípio da justiça social quando o arrendatário é um homem do campo
Diante disso, o direito de preferência previsto no Estatuto da Terra atende ao princípio da justiça social
quando o arrendatário é um homem do campo, pois possibilita que esse permaneça na terra, passando à
condição de proprietário. Por outro lado, quando o arrendatário é uma grande empresa, desenvolvendo o
chamado agronegócio, o princípio da justiça social deixa de ter aplicabilidade, pois ausente a
vulnerabilidade social que lhe é pressuposto. Tem-se, na hipótese em análise, portanto, uma situação em
que, embora o princípio da função social seja aplicável, não o é o princípio da justiça social.
Assim, agiu corretamente o Decreto nº 59.566/66 ao limitar os benefícios nele previstos a quem explore a
terra direta e pessoalmente, como verdadeiro homem do campo, contando essencialmente com a força de
trabalho de sua família.
Quando a arrendatária é uma empresa rural de grande porte incide o Código Civil
Dessa forma, quando a arrendatária é uma empresa rural de grande porte, não lhe é aplicável o Estatuto
da Terra, incidindo o Código Civil, que não prevê direito de preferência no contrato de locação de coisas,
cabendo às partes pactuarem uma cláusula com esse teor.
Se fosse reconhecido direito de preferência neste caso, as grandes empresas rurais exerceriam esse direito
contra os terceiros adquirentes, ainda que estes sejamhomens do campo, invertendo-se, assim, a lógica
de proteção do Estatuto da Terra que é, como já dito, proteger o pequeno produtor.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 15
AÇÃO DE PETIÇÃO DE HERANÇA
Termo inicial do prazo prescricional da petição de herança
em caso de reconhecimento póstumo da paternidade
Na hipótese em que ação de investigação de paternidade post mortem tenha sido ajuizada após
o trânsito em julgado da decisão de partilha de bens deixados pelo de cujus, o termo inicial do
prazo prescricional para o ajuizamento de ação de petição de herança é a data do trânsito em
julgado da decisão que reconheceu a paternidade, e não o trânsito em julgado da sentença que
julgou a ação de inventário.
Em suma, o termo inicial para o ajuizamento da ação de petição de herança é a data do trânsito
em julgado da ação de investigação de paternidade, quando, em síntese, confirma-se a
condição de herdeiro. STJ. 3ª Turma. REsp 1.475.759-DF, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 17/5/2016 (Info 583).
Ação de petição de herança
Ação de petição de herança é aquela proposta por alguém que quer ser reconhecido como herdeiro do
falecido e, como via de consequência, ter direito à herança (no todo ou em parte). Petição = pedido. Logo,
petição de herança significa pedir a herança.
Trata-se de ação para que um herdeiro preterido possa reivindicar a totalidade ou parte do acervo
hereditário, sendo movida contra o detentor da herança, com o objetivo de que seja realizada nova
partilha dos bens.
Ex1: mulher vivia em união estável com o morto, mas isso não estava oficializado e os filhos do defunto
não a reconhecem como sua companheira. Ela poderá ajuizar ação de reconhecimento de união estável
post mortem cumulada com petição de herança.
Ex2: filho não reconhecido pelo morto poderá ajuizar ação de reconhecimento de paternidade post
mortem cumulada com petição de herança.
Previsão
A petição de herança está prevista nos arts. 1.824 a 1.828 do CC:
Art. 1.824. O herdeiro pode, em ação de petição de herança, demandar o reconhecimento de seu direito
sucessório, para obter a restituição da herança, ou de parte dela, contra quem, na qualidade de herdeiro,
ou mesmo sem título, a possua.
Prazo prescricional
A pretensão de petição de herança prescreve no prazo de 10 anos, nos termos do art. 205 do CC, já que
não existe um prazo específico fixado no Código:
Art. 205. A prescrição ocorre em dez anos, quando a lei não lhe haja fixado prazo menor.
Imagine a seguinte situação hipotética:
João, viúvo, faleceu e deixou dois filhos: Antônio e Bento.
Com a morte, foi aberto inventário e, em 2002, realizou-se a partilha dos bens de João entre os dois
herdeiros acima mencionados.
Ocorre que havia uma história que poucos sabiam. João teve mais um filho (Carlos), que não foi registrado
em seu nome.
Em 2012, Maria, mãe de Carlos, decide contar a verdade para seu filho e o incentiva a procurar seus direitos.
Diante disso, Carlos ajuíza ação de investigação de paternidade post mortem pedindo que seja
reconhecido como filho de João. Havia várias provas desse fato e a sentença foi procedente e transitou em
julgado em 2014.
Em 2015, Carlos propôs ação de petição de herança contra Antônio e Bento pedindo a sua parte na herança.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 16
Os réus suscitaram a ocorrência de prescrição, argumentando que a ação de petição de herança prescreve
em 10 anos. Como a sentença que julgou o inventário e fez a partilha transitou em julgado em 2002,
arguiram que João tinha até o ano de 2012 para propor a demanda.
O argumento dos réus foi aceito pelo STJ? Houve a prescrição considerando que a ação de petição de
herança foi proposta mais de 10 anos depois do trânsito em julgado da partilha?
NÃO.
Na hipótese em que ação de investigação de paternidade post mortem tenha sido ajuizada após o trânsito
em julgado da decisão de partilha de bens deixados pelo de cujus, o termo inicial do prazo prescricional
para o ajuizamento de ação de petição de herança é a data do trânsito em julgado da decisão que
reconheceu a paternidade, e não o trânsito em julgado da sentença que julgou a ação de inventário.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.475.759-DF, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 17/5/2016 (Info 583).
Segundo o art. 189 do CC, o prazo prescricional somente começa a correr quando há violação do direito
subjetivo alegado.
Não há que se falar em petição de herança enquanto não houver a confirmação da paternidade. Dessa
forma, conclui-se que o termo inicial para o ajuizamento da ação de petição de herança é a data do
trânsito em julgado da ação de investigação de paternidade, quando, em síntese, confirma-se a condição
de herdeiro.
No mesmo sentido é o entendimento da doutrina majoritária:
"O termo inicial do lapso prescricional é coincidente com a data da abertura da sucessão, como já decidiu
o Supremo Tribunal Federal, uma vez que não se pode postular acerca de herança de pessoa viva.
Somente depois da morte há legitimação ativa para suceder, por parte de quem tiver de pleitear a
herança.
(...)
Todavia, se a legitimação depender do prévio reconhecimento da paternidade, o dies a quo do prazo
prescricional será a data em que o direito puder ser exercido, ou seja, o momento em que for reconhecida
a paternidade, e não o da abertura da sucessão." (GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro:
direito das sucessões. 10ª ed., v. 7. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 142).
DIREITO DO CONSUMIDOR
BANCOS DE DADOS E CADASTROS DE CONSUMIDORES
A Súmula 385 do STJ aplica-se também para ações propostas pelo consumidor
contra o credor que efetivou a inscrição irregular
Importante!!!
A inscrição indevida comandada pelo credor em cadastro de proteção ao crédito, quando
preexistente legítima inscrição, não enseja indenização por dano moral, ressalvado o direito
ao cancelamento.
A Súmula 385-STJ também é aplicada às ações voltadas contra o suposto credor que efetivou
inscrição irregular. STJ. 2ª Seção. REsp 1.386.424-MG, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Rel. para acórdão Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 27/4/2016 (Info 583).
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 17
Imagine a seguinte situação hipotética:
João deixou de pagar a prestação de uma geladeira. Diante disso, a loja comunicou o fato ao SERASA, que
expediu uma correspondência ao endereço do consumidor. Nesta carta, João foi informado de que existia
a referida dívida e que se ela não fosse regularizada no prazo de 10 dias, seu nome seria inserido no
cadastro negativo.
Infelizmente João não tinha condições de quitar o débito e seu nome foi incluído no banco de dados do
SERASA.
Passaram-se dois anos deste fato.
Determinado dia, João recebe uma nova carta do SERASA afirmando que a operadora de telefonia celular
estava pedindo a sua inclusão no banco de dados de devedores em virtude de ele ter deixado de pagar a conta
de dezembro/2015, no valor de R$ 100. O nome de João foi, então, incluído no SERASA por essa nova conta.
Diante desse fato, João propôs ação de indenização por danos morais contra a operadora de telefonia
afirmando que ela ordenou indevidamente sua inscrição no cadastro de inadimplentes considerando que a
dívida já estava paga.
Em sua defesa, a companhia telefônica afirmou que já ordenou a retirada do nome de João do SERASA,
mas argumentou que não deveria haver condenação por danos morais, tendo em vista que o consumidor
já possuía outra anotação legítima no cadastro de inadimplentes. Invoca, para fundamentar sua tese, a
súmula 385 do STJ:
Súmula 385-STJ: Da anotaçãoirregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe indenização por
dano moral quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao cancelamento.
João, assistido pela Defensoria Pública, refutou o argumento da operadora de telefonia afirmando que os
precedentes que deram origem a essa súmula 385 foram de ações propostas pelo consumidor contra os
cadastros de inadimplência (consumidor x SERASA/SPC).
Alegou, portanto, que a súmula 385-STJ não se aplicaria para ações propostas pelo consumidor lesado
contra o próprio credor, como no caso em tela.
A tese de João foi aceita pelo STJ? A súmula 385 do STJ aplica-se apenas para os casos de ações
propostas pelo consumidor contra os cadastros de inadimplência (SPC/SERASA)?
NÃO. A Súmula 385-STJ também é aplicada às ações voltadas contra o suposto credor que efetivou
inscrição irregular.
Na prática forense, esta tese levantada por João é comumente alegada pelos Defensores Públicos e
advogados e chegou até mesmo a ser acolhida em muitos julgados, inclusive do STJ. No entanto, o
Tribunal, ao reapreciar o tema em sede de recurso especial repetitivo, pacificou o assunto em sentido
contrário e definiu a seguinte tese:
A inscrição indevida comandada pelo credor em cadastro de proteção ao crédito, quando preexistente
legítima inscrição, não enseja indenização por dano moral, ressalvado o direito ao cancelamento.
STJ. 2ª Seção. REsp 1.386.424-MG, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Rel. para acórdão Min. Maria
Isabel Gallotti, julgado em 27/4/2016 (Info 583).
Realmente, a súmula 385 do STJ surgiu de precedentes que envolviam ações propostas pelo consumidor
contra o SPC/SERASA. Isso é verdade. No entanto, o STJ afirmou que a razão de ser deste enunciado pode
ser aplicada também para ações ajuizadas pelo consumidor contra o credor. Não há nada que justifique
tratamento diferenciado.
Ressalte-se, todavia, que isso não quer dizer que o credor não possa responder por algum outro tipo de
excesso. A anotação irregular, já havendo outras inscrições legítimas contemporâneas, não enseja, por si
só, dano moral. Mas o dano moral pode ter por causa de pedir outras atitudes do suposto credor, como a
insistência em uma cobrança eventualmente vexatória e indevida, ou o desleixo de cancelar, assim que
ciente do erro, a anotação indevida.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 18
ECA
CUMPRIMENTO DE MEDIDA SOCIOEDUCATIVA
Cumprimento imediato da internação fixada na sentença ainda que tenha havido recurso
Importante!!!
Atualize o Info 553-STJ
Atualize seu livro de 2015 (p. 717)
Atualize livro Julgados Resumidos (p. 385)
É possível que o adolescente infrator inicie o imediato cumprimento da medida socioeducativa
de internação que lhe foi imposta na sentença, mesmo que ele tenha interposto recurso de
apelação e esteja aguardando seu julgamento.
Esse imediato cumprimento da medida é cabível ainda que durante todo o processo não tenha
sido imposta internação provisória ao adolescente, ou seja, mesmo que ele tenha permanecido
em liberdade durante a tramitação da ação socioeducativa.
Em uma linguagem mais simples, o adolescente infrator, em regra, não tem direito de
aguardar em liberdade o julgamento da apelação interposta contra a sentença que lhe impôs a
medida de internação. STJ. 3ª Seção. HC 346.380-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Rel. para acórdão Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 13/4/2016 (Info 583).
No caso de apuração de ato infracional, aplica-se subsidiariamente o CPP ou o CPC?
Depende. Aplica-se:
x o CPP para o processo de conhecimento (representação, produção de provas, memoriais, sentença);
x o CPC para as regras do sistema recursal (art. 198 do ECA).
Resumindo:
1ª opção: normas do ECA.
Na falta de normas específicas:
x CPP: para regular o processo de conhecimento.
x CPC: para regular o sistema recursal.
Imagine agora a seguinte situação adaptada:
João, adolescente, praticou ato infracional equiparado a roubo majorado (art. 157, § 2º, I e II, do CP).
Durante todo o processo, João permaneceu em liberdade.
O magistrado proferiu sentença aplicando-lhe medida socioeducativa de internação.
A defesa interpôs recurso de apelação.
A apelação foi recebida apenas no seu efeito devolutivo (ou seja, não foi recebida no efeito suspensivo).
Como o recurso não suspendeu a sentença, isso significa que, na prática, o adolescente deverá aguardar
no centro de internação o julgamento da apelação. Em outros termos, foi negado ao adolescente o direito
de recorrer em liberdade e ele iniciará o cumprimento da medida de internação.
A decisão foi acertada? Em regra, a apelação contra a sentença que aplica medida socioeducativa de
internação deverá ser recebida no efeito meramente devolutivo? É possível o imediato cumprimento da
medida de internação mesmo que o adolescente tenha interposto recurso?
SIM.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 19
É possível que o adolescente infrator inicie o imediato cumprimento da medida socioeducativa de
internação que lhe foi imposta na sentença, mesmo que ele tenha interposto recurso de apelação e
esteja aguardando seu julgamento.
Esse imediato cumprimento da medida é cabível ainda que durante todo o processo não tenha sido
imposta internação provisória ao adolescente, ou seja, mesmo que ele tenha permanecido em liberdade
durante a tramitação da ação socioeducativa.
Em uma linguagem mais simples, o adolescente infrator, em regra, não tem direito de aguardar em
liberdade o julgamento da apelação interposta contra a sentença que lhe impôs a medida de internação.
STJ. 3ª Seção. HC 346.380-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Rel. para acórdão Min. Rogerio
Schietti Cruz, julgado em 13/4/2016 (Info 583).
Tema outrora polêmico
Este tema era extremamente polêmico no STJ, havendo inúmeras decisões em ambos os sentidos.
Vale ressaltar, no entanto, que a decisão proferida neste HC 346.380-SP foi tomada pela 3ª Seção (que
abrange a 5ª e 6ª Turmas, que julgam direito infracional). Dessa forma, a tendência é que esta posição se
consolide, apesar do resultado da votação ter sido extremamente apertado (5x4).
Havendo mais alguma novidade, você será alertado.
Vejamos, abaixo, os principais argumentos do STJ.
Iniciar o cumprimento imediato atende aos princípios da proteção integral, da prioridade absoluta e da
atualidade
A medida socioeducativa tem como missão precípua não a punição pura e simples do adolescente em
conflito com a lei, mas, principalmente, a ressocialização e a proteção do jovem infrator.
As medidas previstas nos arts. 112 a 125 do ECA não são penas e possuem o objetivo primordial de proteção
dos direitos do adolescente, de modo a afastá-lo da conduta infracional e de uma situação de risco. Isso atende
aos princípios da proteção integral e da prioridade absoluta (art. 227 da CF/88 e arts. 3º e 4º do ECA).
Desse modo, postergar (retardar) o início de cumprimento da medida socioeducativa imposta na sentença
significa fazer com que se perca a atualidade da resposta estatal, enfraquecendo o objetivo ressocializador
e permitindo que o adolescente permaneça em situação de risco, uma vez que ele continuará exposto às
mesmas circunstâncias que o levaram à prática infracional.
Não há ofensa ao princípio da não-culpabilidade (presunção de inocência) porque a medida
socioeducativa não é pena
Ao analisar o tema, não se deve equiparar o adolescente que pratica ato infracional ao adulto imputável
autor de crime. De acordo com o art. 228 da CF/88, os menores de 18 anos são penalmente inimputáveis e
estão sujeitos às normas da legislação especial.
No processo penal, as regras têm por objetivo, fundamentalmente, proteger o acusado contraingerências
abusivas do Estado em sua liberdade. A pena criminal é uma punição e o princípio da presunção de não
culpabilidade é levado ao extremo.
Por outro lado, a medida socioeducativa não representa punição, sendo um mecanismo de proteção do
adolescente e da sociedade, possuindo natureza pedagógica e ressocializadora. Por essas razões, para o
STJ, a imediata execução da sentença que aplica medida socioeducativa não ofende o princípio da não
culpabilidade (art. 5º, LVII, da CF/88).
Princípio da intervenção precoce
Ainda que o adolescente infrator tenha respondido ao processo de apuração de prática de ato infracional
em liberdade, a prolação de sentença impondo medida socioeducativa de internação autoriza o
cumprimento imediato da medida imposta, tendo em vista os princípios que regem a legislação menorista,
um dos quais é o princípio da intervenção precoce na vida do adolescente, positivado no parágrafo único,
VI, do art. 100 do ECA.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 20
Art. 100 (...)
Parágrafo único. São também princípios que regem a aplicação das medidas:
(...)
VI - intervenção precoce: a intervenção das autoridades competentes deve ser efetuada logo que a
situação de perigo seja conhecida;
Revogação do inciso VI do art. 198 do ECA
Um argumento contrário ao cumprimento imediato da medida socioeducativa era o inciso VI do art. 198
do ECA, que previa que os recursos seriam recebidos apenas no efeito devolutivo, sendo que este inciso
foi revogado pela Lei nº 12.010/2009. Veja o que dizia o inciso VI:
VI - a apelação será recebida em seu efeito devolutivo. Será também conferido efeito suspensivo quando
interposta contra sentença que deferir a adoção por estrangeiro e, a juízo da autoridade judiciária, sempre
que houver perigo de dano irreparável ou de difícil reparação; (Revogado pela Lei nº 12.010/2009)
Dessa forma, alguns autores defendiam a seguinte tese: ora, como o inciso VI foi revogado, isso significa
que agora os recursos no ECA deverão obedecer a legislação subsidiária, ou seja, o CPC. E o art. art. 1.012
do CPC/2015 afirma que, em regra, o recurso de apelação deverá ser recebido no seu duplo efeito. Diante
disso, para essa tese, com a revogação do inciso VI, não poderia ser admitida a execução provisória de
sentença que impõe medida socioeducativa.
A maioria dos Ministros do STJ, contudo, não aderiu a essa tese e contra-argumentou afirmando que a
regra no ECA continua sendo que os recursos tenham efeito apenas devolutivo. Isso porque continua a
vigorar o art. 215 do ECA, que prevê:
Art. 215. O juiz poderá conferir efeito suspensivo aos recursos, para evitar dano irreparável à parte.
Ora, se o art. 215 estabelece que o juiz poderá conferir efeito suspensivo aos recursos, isso significa que,
como regra, eles não possuem esse efeito.
Para o STJ, ainda que este art. 215 esteja em um capítulo que não trata sobre medidas socioeducativas, é
possível que ele seja aplicado, supletivamente, para se concluir que os recursos serão recebidos, salvo
decisão em contrário, apenas no efeito devolutivo, ao menos em relação aos recursos contra sentença que
acolhe representação do Ministério Público e impõe medida socioeducativa ao adolescente infrator, sob
pena, repita-se, de frustração da principiologia e dos objetivos a que se destina a legislação menorista.
Em suma:
Condicionar, de forma peremptória, o cumprimento da medida socioeducativa ao trânsito em julgado da
sentença que acolhe a representação – apenas porque não se encontrava o adolescente já segregado
anteriormente à sentença – constitui verdadeiro obstáculo ao escopo ressocializador da intervenção
estatal, além de permitir que o adolescente permaneça em situação de risco, exposto aos mesmos fatores
que o levaram à prática infracional.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 21
DIREITO PROCESSUAL CIVIL
ADJUDICAÇÃO
Forma preferencial de pagamento ao credor
Momento para requerimento da adjudicação
Ao analisar o instituto da adjudicação e em especial a sua preferência sobre outras formas de
expropriação e o momento de realizá-la, o STJ enunciou duas conclusões
I - A adjudicação é forma preferencial de pagamento ao credor, devendo ser assegurada ao
legitimado que oferecer preço não inferior ao da avaliação. Assim, se um dos legitimados
previstos em lei requereu a adjudicação e ofereceu preço não inferior ao da avaliação, não
deve o magistrado indeferir o pedido e determinar a alienação do bem penhorado.
II - A adjudicação poderá ser requerida após resolvidas as questões relativas à avaliação do
bem penhorado e antes de realizada a alienação. STJ. 4ª Turma. REsp 1.505.399-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 12/4/2016 (Info 583).
O que acontece com o bem penhorado?
Se o bem penhorado for dinheiro, ele é transferido ao credor, quitando-se a obrigação.
Se o bem penhorado for coisa diferente de dinheiro, ele poderá ser:
a) adjudicado;
b) alienado;
c) concedido em usufruto ao exequente.
Quando acontece uma dessas três situações acima, dizemos que houve a “expropriação”, conforme
previsto no art. 825 do CPC/2015:
Art. 825. A expropriação consiste em:
I - adjudicação;
II - alienação;
III - apropriação de frutos e rendimentos de empresa ou de estabelecimentos e de outros bens.
Obs: esses incisos estão organizados segundo uma preferência legal. Em outras palavras, se houver
interessados em adjudicar (inciso I), não será necessário fazer a alienação. Se não ocorrer a adjudicação,
deve-se tentar a alienação (inciso II) antes da apropriação de frutos (inciso III).
Adjudicação (inciso I)
A adjudicação ocorre quando a propriedade do bem penhorado (móvel ou imóvel) é transferida para o
exequente (ou para um terceiro legitimado a adjudicar), como forma de pagamento da dívida que está
sendo cobrada em juízo.
O instituto encontra-se previsto no art. 876 do CPC/2015, cujo caput estabelece:
Art. 876. É lícito ao exequente, oferecendo preço não inferior ao da avaliação, requerer que lhe sejam
adjudicados os bens penhorados.
O caput do art. 876 fala apenas no exequente, mas o § 5º prevê outros legitimados que também podem
adjudicar. Veja:
§ 5º Idêntico direito pode ser exercido por aqueles indicados no art. 889, incisos II a VIII, pelos credores
concorrentes que hajam penhorado o mesmo bem, pelo cônjuge, pelo companheiro, pelos descendentes
ou pelos ascendentes do executado.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 22
A adjudicação é forma preferencial de pagamento ao credor, devendo ser assegurada ao legitimado que
oferecer preço não inferior ao da avaliação.
Assim, se um dos legitimados previstos em lei requereu a adjudicação e ofereceu preço não inferior ao
da avaliação, não deve o magistrado indeferir o pedido e determinar a alienação do bem penhorado.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.505.399-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 12/4/2016 (Info 583).
Essa preferência fica clara ao se ler o art. 880 do CPC/2015, que afirma que a alienação somente ocorrerá
se "não efetivada a adjudicação":
Art. 880. Não efetivada a adjudicação, o exequente poderá requerer a alienação por sua própria iniciativa
ou por intermédio de corretor ou leiloeiro público credenciado perante o órgão judiciário.
A lei não prevê expressamente o prazo máximo para o exequente ou demais legitimados pedirem a
adjudicação. Diante disso, o STJ decidiu que:
A adjudicação poderá ser requerida após resolvidas as questões relativas à avaliação do bem penhorado
e antes de realizada a alienação.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.505.399-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 12/4/2016(Info 583).
A legislação não estabelece expressamente o limite temporal para requerimento da adjudicação, mas isso
pode ser extraído da redação do art. 880 do CPC/2015, vista acima.
Desse modo, podemos concluir que o termo inicial para o pedido de adjudicação é a entrega da avaliação.
Tendo o bem sido avaliado, ele já poderá ser adjudicado. Por outro lado, o termo final da adjudicação é a
realização da alienação. Se a coisa já foi alienada (seja por iniciativa particular, seja por leilão judicial), não
é mais permitida a adjudicação.
Imagine agora que o exequente, em um primeiro momento, não queira adjudicar o bem. Diante disso, são
iniciados os preparativos para a realização da sua alienação. Ocorre que também não se consegue vender
a coisa. O novo CPC prevê, de forma inovadora, que, nesta situação, será permitido novamente que o
exequente (ou algum legitimado) requeira a adjudicação. Veja do que estou falando:
Art. 878. Frustradas as tentativas de alienação do bem, será reaberta oportunidade para requerimento de
adjudicação, caso em que também se poderá pleitear a realização de nova avaliação.
Confira os comentários de Daniel Amorim Assumpção Neves a respeito deste dispositivo:
"Conforme indicado pelo art. 880, caput, do Novo CPC, a adjudicação é a forma preferencial de satisfação
do direito do exequente, no sentido de que, antes de ser determinada qualquer outra medida que busque
tal satisfação, poderá ocorrer a adjudicação. Mas não se deve entender que exista uma preclusão temporal
que impeça a adjudicação de ocorrer depois desse momento inicial de expropriação, desde que ela ainda
seja materialmente possível. É natural que não tenha sentido falar em adjudicação após o bem penhorado
já ter sido alienado ou, ainda, já estar em curso o seu 'usufruto executivo'. Mas nenhuma preclusão
impedirá que, frustrada a alienação do bem, o exequente ou qualquer outro legitimado requeira a
adjudicação do bem." (Novo CPC Comentado. Salvador: Juspodivm, 2016, p. 1391-1392).
Alienação (inciso II)
Segundo o art. 879 do CPC 2015, existem duas espécies de alienação do bem:
a) por iniciativa particular: ocorre quando o próprio exequente (ou algum corretor ou leiloeiro público
credenciado) tenta conseguir um comprador para o imóvel, seguindo determinadas regras impostas pela lei.
b) leilão judicial (eletrônico ou presencial): é a oferta do bem penhorado aos interessados em adquiri-lo
em um evento organizado pelo Estado-juiz.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 23
Observação:
No CPC 2015, o que é chamado atualmente de “leilão judicial” era conhecido como “hasta pública”
(expressão do CPC 1973). Assim, no CPC 1973 existiam duas formas de hasta pública (art. 686, IV):
a) praça, quando a coisa a ser alienada era bem imóvel;
b) leilão, quando a coisa a ser alienada era bem móvel.
O CPC 2015 não repete tais palavras e não mais faz essa distinção. Agora, fala-se em leilão judicial tanto
para bens móveis como imóveis.
Apropriação de frutos e rendimentos de empresa ou de estabelecimentos e de outros bens (antigo
“usufruto de bem móvel ou imóvel”) (inciso III)
No CPC 1973, isso era tratado como sendo “usufruto de bem móvel ou imóvel”, expressão que era
criticada pela doutrina e que, por isso, foi substituída no novo Código. Compare:
CPC 1973 CPC 2015
Art. 716. O juiz pode conceder ao exequente o
usufruto de móvel ou imóvel, quando o reputar
menos gravoso ao executado e eficiente para o
recebimento do crédito.
Art. 867. O juiz pode ordenar a penhora de frutos
e rendimentos de coisa móvel ou imóvel quando a
considerar mais eficiente para o recebimento do
crédito e menos gravosa ao executado.
Ex: foi penhorado um apartamento do executado, que se encontra alugado a um terceiro; pode o juiz
determinar que o exequente fique recebendo o valor dos aluguéis até que o débito da execução seja
totalmente pago.
DIREITO PENAL
HOMICÍDIO
Incompatibilidade entre dolo eventual e a qualificadora de motivo fútil
A qualificadora do motivo fútil (art. 121, § 2º, II, do CP) é compatível com o homicídio
praticado com dolo eventual? A pessoa que cometeu homicídio com dolo eventual pode
responder pela qualificadora de motivo fútil?
1ª corrente: SIM. O fato de o réu ter assumido o risco de produzir o resultado morte, aspecto
caracterizador do dolo eventual, não exclui a possibilidade de o crime ter sido praticado por
motivo fútil, uma vez que o dolo do agente, direto ou indireto, não se confunde com o motivo
que ensejou a conduta, mostrando-se, em princípio, compatíveis entre si. STJ. 5ª Turma. REsp
912.904/SP, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 06/03/2012.
2ª corrente: NÃO. A qualificadora de motivo fútil é incompatível com o dolo, tendo em vista a
ausência do elemento volitivo. STJ. 6ª Turma. HC 307.617-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para
acórdão Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 19/4/2016 (Info 583). STJ. 6ª Turma. HC 307.617-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 19/4/2016 (Info 583).
A qualificadora do motivo fútil (art. 121, § 2º, II, do CP) é compatível com o homicídio praticado com
dolo eventual? A pessoa que cometeu homicídio com dolo eventual pode responder pela qualificadora
de motivo fútil?
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 24
SIM NÃO
O fato de o réu ter assumido o risco de produzir o
resultado morte, aspecto caracterizador do dolo
eventual, não exclui a possibilidade de o crime ter
sido praticado por motivo fútil, uma vez que o
dolo do agente, direto ou indireto, não se
confunde com o motivo que ensejou a conduta,
mostrando-se, em princípio, compatíveis entre si.
STJ. 5ª Turma. REsp 912.904/SP, Rel. Min. Laurita
Vaz, julgado em 06/03/2012.
A qualificadora de motivo fútil é incompatível com
o dolo, tendo em vista a ausência do elemento
volitivo.
STJ. 6ª Turma. HC 307.617-SP, Rel. Min. Nefi
Cordeiro, Rel. para acórdão Min. Sebastião Reis
Júnior, julgado em 19/4/2016 (Info 583).
Obs: antes desta última decisão da 6ª Turma, prevalecia no STJ a primeira corrente, ou seja, a
compatibilidade entre dolo eventual e motivo fútil. Vamos aguardar a definição do tema e qualquer
novidade, você será avisado(a).
HOMICÍDIO
Inexistência de motivo fútil em homicídio decorrente da prática de "racha"
Não incide a qualificadora de motivo fútil (art. 121, § 2º, II, do CP), na hipótese de homicídio
supostamente praticado por agente que disputava "racha", quando o veículo por ele conduzido
- em razão de choque com outro automóvel também participante do "racha" - tenha atingido o
veículo da vítima, terceiro estranho à disputa automobilística.
Motivo fútil corresponde a uma reação desproporcional do agente a uma ação ou omissão da
vítima. No caso de "racha", tendo em conta que a vítima (acidente automobilístico) era um
terceiro, estranho à disputa, não é possível considerar a presença da qualificadora de motivo
fútil, tendo em vista que não houve uma reação do agente a uma ação ou omissão da vítima. STJ. 6ª Turma. HC 307.617-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 19/4/2016 (Info 583).
Imagine a seguinte situação hipotética:
João, conduzindo um Camaro amarelo, estava participando de um "racha", disputando corrida com seu
amigo Pedro, que conduzia um Porsche.
Em determinada curva, os veículos se tocaram e João perdeu o controle do carro atropelando e matando
Maria, que estava na parada de ônibus.
O Ministério Público denunciou João e Pedro pela prática de homicídio doloso (dolo eventual), com a
qualificadora do motivo fútil, prevista no art. 121, § 2º, II, do CP.
A defesa de João pediu a exclusão da qualificadora,sob o argumento de que o art. 121, § 2º, II, pune
aquele homicida que age com motivação fútil em relação à vítima. No caso concreto, o réu não tinha
nenhuma motivação com relação à vítima. Ele nem sequer a conhecia e não tinha nenhuma intenção para
com ela. Logo, não se pode dizer que ele tivesse motivação fútil.
A tese da defesa foi acolhida pelo STJ?
SIM.
Não incide a qualificadora de motivo fútil (art. 121, § 2º, II, do CP), na hipótese de homicídio
supostamente praticado por agente que disputava "racha", quando o veículo por ele conduzido - em
razão de choque com outro automóvel também participante do "racha" - tenha atingido o veículo da
vítima, terceiro estranho à disputa automobilística.
STJ. 6ª Turma. HC 307.617-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min. Sebastião Reis Júnior,
julgado em 19/4/2016 (Info 583).
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 25
Na situação em análise, o homicídio decorre de um acidente automobilístico, em que não havia nenhuma
relação entre o autor do delito e a vítima. A vítima nem era quem praticava o "racha" com o agente do
crime. Ela era um terceiro que trafegava por perto naquele momento e que, por um dos azares do destino,
viu-se atingido pelo acidente que envolveu o agente do delito.
Quando o legislador quis se referir a motivo fútil, fê-lo tendo em mente uma reação desproporcional ou
inadequada do agente quando cotejado com a ação ou omissão da vítima; uma situação, portanto, que
pressupõe uma relação direta, mesmo que tênue, entre agente e vítima.
No caso, não há essa relação. Não havia nenhuma relação entre o autor do crime e a vítima. O agente não
reagiu a uma ação ou omissão da vítima (um esbarrão na rua, uma fechada de carro, uma negativa a um
pedido). Não há aqui motivo fútil, banal, insignificante, diante de um acidente cuja causa foi um
comportamento imprudente do agente, comportamento este que não foi resposta à ação ou omissão da
vítima. Na verdade, não há nenhum motivo.
DIREITO PROCESSUAL PENAL
PROVAS
Extração, sem prévia autorização judicial, de dados e de conversas registradas no whatsapp
Sem prévia autorização judicial, são nulas as provas obtidas pela polícia por meio da extração
de dados e de conversas registradas no whatsapp presentes no celular do suposto autor de
fato delituoso, ainda que o aparelho tenha sido apreendido no momento da prisão em
flagrante.
Assim, é ilícita a devassa de dados, bem como das conversas de whatsapp, obtidos diretamente
pela polícia em celular apreendido no flagrante, sem prévia autorização judicial. STJ. 6ª Turma. RHC 51.531-RO, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 19/4/2016 (Info 583).
Imagine a seguinte situação hipotética:
João foi preso em flagrante pela prática de tráfico de drogas.
A polícia apreendeu seu telefone celular.
Como não havia senha, o Delegado abriu o aplicativo Whatsapp e verificou as conversas de João. As
mensagens comprovaram que ele realmente negociava drogas e, o pior, que havia praticado diversos
outros crimes, dentre eles ameaça e homicídio.
Tais mensagens foram transcritas pelo escrivão e juntadas ao inquérito policial em forma de certidão.
A autoridade fundamentou tais diligências no art. 6º, II, III e VII, do CPP:
Art. 6º Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade policial deverá:
II - apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais;
III - colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias;
(...)
VII - determinar, se for caso, que se proceda a exame de corpo de delito e a quaisquer outras perícias;
Posteriormente, tais elementos informativos serviram de base para que o Ministério Público oferecesse
denúncia contra João pela prática de uma série de crimes.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 26
Tese da defesa
A defesa, contudo, alegou que tais elementos informativos são nulos. Segundo argumentou o advogado
do réu, após a apreensão do celular, sem qualquer autorização, a polícia teria que ter requerido ao juízo
autorização para consultar o conteúdo do aparelho. Diante disso, requereu que as "provas" colhidas
fossem declaradas nulas e desentranhadas do processo.
Contra-argumento do MP
O MP refutou os argumentos da defesa afirmando que o acesso aos dados constantes do aparelho não
encontra o mesmo impedimento da interceptação telefônica e que a autoridade policial agiu estritamente
para o cumprimento da lei.
A proteção do acesso aos dados constantes do aparelho não se assemelha à interceptação telefônica.
O telefone celular foi apreendido no momento da prisão em flagrante do réu e, após a apreensão, a
autoridade policial tomou as providências previstas no art. 6º do CPP, determinando a extração das
mensagens constantes do celular.
A tese da defesa foi aceita pelo STJ? É necessária prévia autorização judicial para que a autoridade
policial possa ter acesso ao whatsapp da pessoa que foi presa em flagrante delito?
SIM.
Sem prévia autorização judicial, são nulas as provas obtidas pela polícia por meio da extração de dados
e de conversas registradas no whatsapp presentes no celular do suposto autor de fato delituoso, ainda
que o aparelho tenha sido apreendido no momento da prisão em flagrante.
STJ. 6ª Turma. RHC 51.531-RO, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 19/4/2016 (Info 583).
CF/88
A CF/88 prevê como garantias ao cidadão a inviolabilidade da intimidade, do sigilo de correspondência,
dados e comunicações telefônicas (art. 5º, X e XII), salvo ordem judicial.
Lei nº 9.294/96
No caso das comunicações telefônicas, a Lei nº 9.294/96 regulamentou o tema nos seguintes termos:
Art. 1º. A interceptação de comunicações telefônicas, de qualquer natureza, para prova em investigação
criminal e em instrução processual penal, observará o disposto nesta lei e dependerá de ordem do juiz
competente da ação principal, sob segredo de justiça.
Parágrafo único. O disposto nesta Lei aplica-se à interceptação do fluxo de comunicações em sistemas de
informática e telemática.
Lei nº 9.472/97
A Lei nº 9.472/97 (Lei das Telecomunicações), por sua vez, prescreve:
Art. 3º O usuário de serviços de telecomunicações tem direito:
(...)
V - à inviolabilidade e ao segredo de sua comunicação, salvo nas hipóteses e condições constitucional e
legalmente previstas;
Marco Civil da Internet
Por fim, também deve ser aplicada ao caso a Lei nº 12.965/2014, conhecida como Marco Civil da Internet,
que prevê o seguinte:
Art. 7º O acesso à internet é essencial ao exercício da cidadania, e ao usuário são assegurados os seguintes
direitos:
I - inviolabilidade da intimidade e da vida privada, sua proteção e indenização pelo dano material ou moral
decorrente de sua violação;
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 27
II - inviolabilidade e sigilo do fluxo de suas comunicações pela internet, salvo por ordem judicial, na forma
da lei;
III - inviolabilidade e sigilo de suas comunicações privadas armazenadas, salvo por ordem judicial;
(...)
O acesso aos dados de celular e às conversas de whatsapp representa uma devassa de dados particulares e
ocasiona uma violação à intimidade do agente. Por essa razão, para que o acesso fosse possível, seria
necessária a prévia autorização judicial devidamente motivada.
A conversa mantida pelo whatsapp é uma forma de comunicação escrita e imediata entre os
interlocutores e, caso seja acessada sem autorização judicial, representa interceptação não autorizada de
comunicações.
Acesso aos e-mails somente pode ser com autorização judicial, devendo este entendimento ser aplicável
ao whatsapp
O STJ já decidiuque as conversas mantidas por e-mail somente podem ser acessadas após prévia ordem
judicial:
(...) A quebra do sigilo do correio eletrônico somente pode ser decretada, elidindo a proteção ao direito,
diante dos requisitos próprios de cautelaridade que a justifiquem idoneamente, desaguando em um
quadro de imprescindibilidade da providência. (...)
STJ. 6ª Turma. HC 315.220/RS, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 15/09/2015.
Esta mesma proteção conferida aos e-mails deve ser empregada para conversas mantidas pelo whatsapp.
Atualmente, o celular deixou de ser apenas um instrumento de conversação por voz à longa distância,
permitindo, diante do avanço tecnológico, o acesso de múltiplas funções, incluindo a verificação de
correspondência eletrônica, de mensagens e de outros aplicativos que possibilitam a comunicação por
meio de troca de dados de forma similar à telefonia convencional. Desse modo, sem prévia autorização
judicial, é ilícita a devassa de dados e de conversas de whatsapp realizada pela polícia em celular
apreendido.
INTIMAÇÃO
Nulidade da intimação por edital de réu preso
Preso o réu durante o curso do prazo da intimação por edital da sentença condenatória, essa
intimação fica prejudicada e deve ser efetuada pessoalmente.
Se o réu for preso durante o prazo do edital, deverá ser intimado pessoalmente do decreto
condenatório, na forma do art. 392, I, CPP, restando prejudicada a intimação editalícia. STJ. 6ª Turma. RHC 45.584/PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 3/5/2016 (Info 583).
Imagine a seguinte situação hipotética:
João foi condenado, pelo juiz, a uma pena de 5 anos de reclusão.
O oficial de justiça foi até a casa onde João morava a fim de intimá-lo da sentença condenatória, mas lá
não encontrou ninguém.
Durante o processo, João foi assistido por um defensor dativo que nunca teve contato direto com o réu e,
por essa razão, nada sabia informar sobre o seu paradeiro.
Diante disso, o juiz determinou a intimação do condenado por edital com prazo de 90 dias.
Passou o prazo do edital e do recurso e houve o trânsito em julgado.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 28
Ocorre que João, durante o prazo do edital, foi preso por conta de outro delito cometido.
Alguns meses depois, ao descobrir a nova condenação, João pediu auxílio à Defensoria Pública que fica
dentro do presídio.
Foi, então, impetrado habeas corpus alegando que a intimação realizada foi nula.
A tese da defesa foi acolhida pelo STJ?
SIM.
Preso o réu durante o curso do prazo da intimação por edital da sentença condenatória, essa intimação
fica prejudicada e deve ser efetuada pessoalmente.
Se o réu for preso durante o prazo do edital, deverá ser intimado pessoalmente do decreto
condenatório, na forma do art. 392, I, CPP, restando prejudicada a intimação editalícia.
STJ. 6ª Turma. RHC 45.584/PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 3/5/2016 (Info 583).
Trata-se do texto expresso do CPP:
Art. 392. A intimação da sentença será feita:
I - ao réu, pessoalmente, se estiver preso;
Além disso, outro argumento que poderia ser invocado está no fato de que, antes de ser realizada a
intimação por edital, devem ser feitas diligências no sentido de localizar o acusado.
Veja outro precedente do STJ no mesmo sentido:
(...) É direito do acusado ser informado a respeito do resultado do julgamento da ação penal, com os
meios e recursos a ele inerentes, nos termos do art. 5º, LV, da CF, independentemente de disposição
expressa no CPP, sob pena de se violar o devido processo legal, especificamente as vertentes do
contraditório e da ampla defesa.
2. No caso dos autos, a nulidade decorrente da intimação da sentença ao paciente, mediante edital, deve
ser reconhecida por esta Corte, porque, ao tempo da efetivação da diligência, ele estava preso em regime
fechado e deveria ser intimado pessoalmente; o defensor dativo, intimado por email, sequer apresentou
apelação criminal; e, por fim, o Juízo processante, passados dois anos entre a determinação da intimação
por edital e a afixação do expediente no átrio do Fórum, deveria ter realizado diligências para tentar
localizar o réu antes de concretizar o ato, mormente quando ele demonstrou estar ao alcance de outras
comunicações dos órgãos públicos no endereço declinado por ocasião de seu interrogatório. (...)
STJ. 6ª Turma. RHC 36.986/SC, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 02/10/2014.
TRIBUNAL DO JÚRI
Possibilidade de extensão de decisão de desclassificação adotada por Júri em favor de corréu
Dois réus foram denunciados por tentativa de homicídio doloso por acidente causado em
razão da prática de racha. O feito foi desmembrado e o réu 1, que deu causa direta ao acidente
ao se chocar com a vítima, foi beneficiado com a desclassificação para crime de lesões
corporais graves, em decisão do Tribunal do Júri.
O réu 2, que ainda iria ser julgado, em um outro dia, pelo Tribunal do Júri, pode ser
beneficiado com a decisão que foi aplicada ao réu 1.
O STJ decidiu, assim, que é possível a extensão da decisão, nos termos do art. 580 do CPP, em
favor de corréu ainda não julgado pelo Tribunal do Júri.
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 29
Apesar de o art. 580 falar em "decisão do recurso", é possível a aplicação do efeito extensivo
previsto neste dispositivo para situações em que a decisão benéfica tenha sido proferida em
outras esferas que não sejam a sede recursal. STJ. 6ª Turma. HC 307.617-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 19/4/2016 (Info 583).
Imagine a seguinte situação hipotética:
João, conduzindo um Camaro amarelo, e Pedro, dirigindo um Porsche, decidiram disputar competição
automobilística não autorizada, ou seja, fazer um "racha" entre eles.
Ao "furarem" o sinal vermelho, em altíssima velocidade, João acabou atropelando Maria, que estava
atravessando a rua na faixa de pedestres.
Maria sofreu graves lesões que quase a levaram a óbito. Felizmente, a vítima sobreviveu.
O Promotor de Justiça denunciou João e Pedro pela prática de tentativa de homicídio doloso (dolo eventual).
Segundo o Ministério Público, os denunciados assumiram o risco de matar a vítima, mas o atendimento
médico por ela recebido impediu a ocorrência do resultado.
É juridicamente possível a existência de tentativa de homicídio doloso com dolo eventual?
SIM. A tentativa é compatível com o delito de homicídio praticado com dolo eventual na direção de
veículo automotor (STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1322788/SC, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em
18/06/2015).
Voltando ao exemplo:
João e Pedro foram pronunciados.
Pedro interpôs recurso em sentido estrito contra a decisão.
João não recorreu.
Diante disso, o juiz desmembrou o processo, ou seja, dividiu os autos em dois, um para cada réu:
x O processo de Pedro foi remetido para o TJ a fim de que se apreciasse o RESE;
x Quanto ao processo de João, o magistrado determinou a preparação para julgamento em Plenário.
João foi julgado e o Tribunal do Júri decidiu desclassificar sua conduta de homicídio tentado (art. 121 c/c
art. 14, II, do CP) para lesões corporais graves (art. 129, §1º, inciso II). Esta decisão transitou em julgado.
Por outro lado, alguns dias depois, o TJ manteve a pronúncia de Pedro. O juiz marcou, então, a sessão do
Júri para julgar Pedro.
Tese de Pedro
Pedro já estava com júri marcado, quando sua defesa impetrou habeas corpus alegando a seguinte tese: o
crime foi praticado pelos dois réus, que praticaram a mesma conduta. Logo, se o Tribunal do Júri
desclassificou o crime para lesões corporais, essa decisão, que foi tomada em relação a João, também
deve ser estendida a Pedro.
Em outras palavras, aação de Pedro está umbilicalmente ligada à do corréu João. Se o Júri entendeu que
não houve dolo eventual na ação de João, essa decisão também deve obrigatoriamente favorecer Pedro,
sob pena de haver um tratamento desigual.
Essa alegação de Pedro foi aceita pelo STJ?
SIM.
Ocorrido o desmembramento da ação penal que imputava aos coacusados a prática de homicídio doloso
tentado decorrente da prática de "racha", a desclassificação em decisão do Tribunal do Júri do crime de
homicídio doloso tentado para o delito de lesões corporais graves ocorrida em benefício do corréu
(causador direto da colisão da qual decorreram os ferimentos suportados pela vítima) é extensível,
Informativo 583-STJ (13/05 a 26/05/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 30
independentemente de recurso ou nova decisão do Tribunal Popular, a outro corréu (condutor do outro
veículo) investido de igual consciência e vontade de participar da mesma conduta e não responsável
direto pelas citadas lesões.
STJ. 6ª Turma. HC 307.617-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min. Sebastião Reis Júnior,
julgado em 19/4/2016 (Info 583).
Existe algum fundamento legal para essa decisão?
SIM. O art. 580 do CPP, que prevê:
Art. 580. No caso de concurso de agentes (Código Penal, art. 25), a decisão do recurso interposto por um
dos réus, se fundado em motivos que não sejam de caráter exclusivamente pessoal, aproveitará aos
outros.
Mas no art. 580 fala em "decisão do recurso" e, no caso concreto, o réu está pedindo para lhe ser
estendida a decisão do Tribunal do Júri... Mesmo assim, aplica-se o art. 580 do CPP?
SIM. A jurisprudência e a doutrina afirmam que, excepcionalmente, é possível a aplicação do efeito
extensivo previsto no art. 580 do CPP para hipóteses em que a decisão benéfica tenha sido proferida em
outras esferas que não sejam a sede recursal. Isso porque a norma inscrita no art. 580 tem como objetivo
garantir a equidade entre os réus que estejam na mesma situação. Nesse sentido: STF. 2ª Turma. HC
101118 Extn, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 22/06/2010.
Segundo decidiu o STJ, essa é a interpretação mais coerente com o espírito da lei. O fato de a decisão cuja
extensão se pretende não ser proferida em recurso não inibe que ela seja estendida a corréu. Do
contrário, estaremos permitindo que corréus em situação idêntica venham a ser julgados de forma
diferente, o que não condiz com a garantia da equidade.
Não se deve permitir que um dos corréus corra o risco de sofrer reprimenda diversa daquela imposta ao
outro corréu, sem que haja qualquer motivo que diferencie a situação de ambos os denunciados. No caso,
não se trata de hipótese de participação de menor importância ou cooperação dolosamente distinta.
Essa decisão de estender para o outro réu a desclassificação não ofende à soberania do Júri?
NÃO. Ao contrário. A decisão que fez a primeira desclassificação foi tomada pelo Tribunal do Júri e ela está
sendo estendida para o outro corréu.