Governan+ºa participativa da pol+¡tica municipal para popula+º+úo em situa+º+úo de rua comit+¬ de belo horizonte
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Governan+ºa participativa da pol+¡tica municipal para popula+º+úo em situa+º+úo de rua comit+¬ de belo horizonte

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GOVERNANÇA PARTICIPATIVA DA POLÍTICA MUNICIPAL PARA POPULAÇÃO EM

SITUAÇÃO DE RUA: COMITÊ DE ACOMPANHAMENTO E ASSESSORAMENTO DA POLÍTICA

MUNICIPAL PARA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA DE BELO HORIZONTE

Soraya Romina Santos
1

“(…) pode-se dizer que o fenômeno população em situação de rua vincula-se
à estrutura da sociedade capitalista e possui uma multiplicidade de

fatores de natureza imediata que o determinam. Na contemporaneidade,
constitui uma expressão radical da questão social, localiza-se nos grandes

centros urbanos, sendo que as pessoas por ele atingidas são
estigmatizadas e enfrentam o preconceito como marca do grau de dignidade

e valor moral atribuído pela sociedade.”

Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua

RESUMO

Este artigo apresenta uma reflexão, no contexto da adesão da Prefeitura de Belo

Horizonte à Política Nacional para População em Situação de Rua, instituída pelo Decreto

Federal nº 7.053, de dezembro/2009, em torno da criação do Comitê de Acompanhamento e

Assessoramento da Política Municipal para População em Situação de Rua de Belo Horizonte,

como importante estratégia de enfrentamento de um fenômeno tão complexo como é o caso

da população em situação de rua, dentro de uma lógica participativa e de uma abordagem

intersetorial nos mais diferentes campos da Política Pública.

1 Introdução

Visto sob uma perspectiva histórica ampla, o fenômeno de expansão das populações

em situação de rua se agrava com as transformações produzidas pela modernização

capitalista, que expulsaram camponeses das áreas rurais, direcionando fluxos populacionais às

grandes cidades, sem que a eles fosse garantido seu direito à inclusão social e econômica. Não

obstante, as mesmas sociedades que produziram a expropriação destas pessoas de suas posses,

de sua identidade e de suas relações societárias, passaram a discriminá-las e considerá-las

como um incômodo à vida nos centros urbanos, criando mecanismos de segregação e de

exclusão dos espaços da cidade.

1
 Professora da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte, Especialista em Educação, Assessora da

Secretaria Municipal de Políticas Sociais da Prefeitura de Belo Horizonte, Coordenadora do Comitê de

Acompanhamento e Monitoramento da Política Municipal para População em Situação de Rua. Presidente do

Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas de Belo Horizonte.

De acordo com estudiosos, a população em situação de rua encerra em si o trinômio expresso

pelo termo exclusão: expulsão, desenraizamento e privação. Segundo a definição de cientistas

sociais como Alcook (1997) e Castel (1998), a exclusão social relaciona-se com situação

extrema de ruptura de relações familiares e afetivas, além de ruptura total ou parcial com o

mercado de trabalho e de não participação social efetiva. Assim, como aponta Silva (2006),

pessoas em situação de rua podem se caracterizar como vítimas de processos sociais, políticos

e econômicos excludentes, sendo comumente enumerados vários aspectos motivadores da

existência desse segmento da população, tais como fatores estruturais (ausência de moradia,

inexistência de trabalho e renda, mudanças econômicas e institucionais de forte impacto

social), fatores biográficos (alcoolismo, drogadição, rompimentos dos vínculos familiares,

doenças mentais, etc), além de outros problemas que vem sendo agravados recentemente

como a dificuldade de reinserção de egressos do sistema prisional ou a expulsão de indivíduos

das comunidades pelo comando do tráfico de drogas. Soma-se a isso a ocorrência de desastres

naturais, como enchentes ou secas prolongadas ou outros fenômenos que em todo o mundo

tem multiplicado o número de pessoas que perdem sua referência de moradia.

Como decorrência deste conjunto variado de motivações, observa-se que as pessoas

em situação de rua, estão expostas a representações sociais e sentimentos pejorativos e, por

vezes, antagônicos, conforme explicita Mattos:

Alguns as vêem como perigosas, apressam o passo. Outros logo as consideram

vagabundas e que ali estão por não quererem trabalhar, olhando-as com hostilidade.

Muitos atravessam a rua com receio de serem abordados por pedido de esmola, ou

mesmo por pré conceberem que são pessoas sujas e mal cheirosas. Há também

aqueles que delas sentem pena e olham-nas com comoção ou piedade. Enfim, é

comum negligenciarmos involuntariamente o contato com elas. Habituados com

suas presenças, parece que estamos dessensibilizados em relação à sua condição

(sub) humana. Em atitude mais violenta, alguns chegam a xingá-las e até mesmo

agredi-las ou queimá-las, como em alguns lamentáveis casos noticiados pela

imprensa. (MATTOS, 2004, p.ND)

Percebe-se, portanto, que se trata de um fenômeno complexo e multifacetado, que não

pode ser explicado a partir de uma perspectiva unívoca e monocausal. São múltiplas as causas

de se ir para a rua, assim como são múltiplas as realidades enfrentadas pela população em

situação de rua.

Dessa forma, o enfrentamento dessa situação, extremamente complexa, exige a

atuação compartilhada dos poderes governamentais e da sociedade civil e uma abordagem

intersetorial, envolvendo ações nos mais diferentes campos da Política Pública.

 No Brasil, a atenção do Poder Público para com a população em situação de rua é

recente e consequência das mobilizações dos movimentos organizados e dos avanços políticos

no campo dos direitos, ocorridas nas últimas décadas, conforme comenta Sposati (1988):

...é nos anos 80 que as pessoas em situação de rua começam a transitar, de forma mais consistente,

do reconhecimento apenas por parte da igreja – pela caridade e fraternidade – para o
reconhecimento público. Essa travessia significa a passagem da condição de excluídos para a de

alcançáveis pelas políticas públicas, conquista que fica mais evidente na década seguinte.

(SPOSATI, 1988, p.ND)

 Assim, a proposta desse artigo é apresentar uma reflexão em torno da criação do

Comitê de Acompanhamento e Monitoramento da Política Municipal para População em

Situação de Rua de Belo Horizonte, como importante estratégia de enfretamento de um

fenômeno tão complexo como é o caso da população em situação de rua.

2 Novo panorama

 A partir da Constituição Federal de 1988, que considerou os direitos sociais como

direitos fundamentais de todo cidadão e da Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS), que

regulamentou os artigos 203 e 204 da Carta Magna, reconhecendo a Assistência Social como

política pública, o tratamento e o panorama político do fenômeno população em situação de

rua pelo Estado começaram a se alterar.

 No contexto desses arcabouços legais, o Poder Público passou a ter responsabilidade

de manter programas e serviços voltados para esse segmento da população, assegurando-lhes

padrões éticos de dignidade e não violência na consolidação dos “mínimos sociais” e de

direitos de cidadania.

 Nessa mesma perspectiva, o Governo Federal elaborou e instituiu a Política Nacional

para População em Situação de Rua, por meio do Decreto Federal nº 7.053, de 23/12/2009,

como instrumento norteador das ações do Poder Público, em suas diferentes esferas e da

sociedade civil, para o enfrentamento deste fenômeno. De acordo com a Política Nacional, a

população em situação de rua é constituída por um:

grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os

vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia

convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas

degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou