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Direito Penal. Parte Geral. Prof. Gabriel Habib. 2018

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aos comandos da ultratividade e 
retroatividade da lei mais benéfica, comandos estes constitucionais. Essa posição é 
defendida por autores como Frederico Marques, César Bitencourt, Régis Prado, Rogério 
Greco. Em doutrina, essa posição é majoritária. 
Uma segunda corrente defende que não pode haver combinação de leis. Se fosse 
permitido, o juiz estaria legislando, criando uma terceira lei, a lex tertia, sem 
autorização constitucional para tanto, inclusive com violação do p. da separação de 
poderes. No Brasil, essa é a posição de Fragoso e Hungria. 
 
O STF se manifestou em alguns informativos sobre esse tema, ora concedendo a 
combinação de leis, ora não concedendo. 
 
 
 
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DIREITO PENAL | Teoria da Norma, Teoria do Crime e Teoria da Pena 
Inf. 478, 492, 499, 500, 523, 525, 563, 570i. 
Atualmente, o tema se encontra pacificado no STJ e STF. Vide Súmula nº 501 STJ, 
que expressamente proíbe a combinação de leis. 
O STF também pacificou a questão no RE 600817, Informativo 727, no sentido de que 
não é admitida a combinação de leis.ii 
STF e STJ pacificaram que é descabida a 
combinação de leis para beneficiar o réu. Na 
doutrina, porém, é majoritário que a combinação 
é possível. 
 
 
Crime Permanentes e Crimes Continuados 
O crime permanente é aquele no qual o agente controla a permanência do crime. Ou 
seja, ele faz a permanência nascer e cessar. 
A permanência é da consumação. 
 
A consumação do delito, no crime permanente, se prolonga no tempo e o agente 
controla essa permanência, fazendo-a nascer e cessar. 
Ex.: Art. 148 CP (sequestro e cárcere privado). Eu sequestro a pessoa, fazendo a 
consumação nascer, e quando quiser coloco a pessoa em liberdade (então a consumação 
cessa). 
Vamos imaginar que sequestrei alguém e o mantive desse jeito por 2 meses. Durante a 
permanência, entrou em vigor a Lei X, que aumenta a pena para 3 a 8 anos. 
A nova lei se aplicará, mas isso não é extratividade. Ora, pela atividade tempus regit 
actum: a lei se aplica aos fatos praticados durante sua vigência e eficácia. Se o fato 
Cogitação 
Preparação 
Execução 
Consumação 
 
 
 
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ainda estava sendo praticado quando a lei entrou em vigor, então não há que se falar em 
extratividade, mas em atividade (a lei estava em vigência e eficácia enquanto os atos 
estavam sendo praticados). 
V. Súmula nº 711 STF 
 
Crime continuado → imagine que temos 10 crimes autônomos, cada um com sua 
preparação, cogitação, preparação, consumação, só que todos praticados com várias 
características semelhantes, como tempo, modo e lugar. Entende-se que, embora na 
realidade o agente tenha praticado 10 crimes, ficticiamente ele cometeu um só, o 
primeiro. Os demais atos teriam sido apenas continuação do primeiro. 
Esta é uma ficção criada pelo legislador – os crimes continuados adotaram a Teoria da 
Ficção Jurídica (na realidade são 10 crimes, mas a lei presume que é um só). 
Vamos imaginar que no meio desses 10 crimes adveio a Lei K, aumentando a pena. 
Essa lei se aplicará a toda a série delitiva. É um crime único, durante a sua prática houve 
a nova lei mais rigorosa, então também falaremos em ATIVIDADE (tempus regit 
actum). 
 
Vacatio Legis 
Lei em vacatio legis entrou em vigor, mas ainda não tem eficácia. 
Podemos aplicar desde logo a lei mais benéfica se esta se encontra em vacatio legis? Ou 
devemos aplicar a lei mais antiga até que a lei mais benéfica entre em atividade? 
Uma primeira corrente diz que podemos aplicar a lei benéfica em vacatio legis, pelo p. 
da retroatividade da lei penal mais benéfica. O fato de ela estar em vacatio significa 
que, embora ainda não tenha eficácia, já tem vigência, então poderemos aplicá-la desde 
logo. 
E se a norma for revogada ainda em vacatio? Isso ocorreu com o CP de Nelson 
Hungria. Ocorrendo a revogação antes de terminar a vacatio, basta voltar ao status quo 
ante. 
Para a segunda corrente, não podemos aplicar uma lei que ainda não tem eficácia. Se se 
deu vacatio à lei, é porque o legislador não quis que houvesse eficácia imediata, então 
não podemos aplicá-la ainda, continuando a utilizar a norma antiga até que nova ganhe 
sua eficácia. 
 
 
 
 
 
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Leis Penais Temporárias e Excepcionais 
Art. 3º CP 
A regra é que se uma lei vigorar e não houver outra revogando-a, ela vigorará ad 
eternum. As leis excepcionais ou temporárias, porém, têm uma “vida” mais curta. 
Possuem prazo de duração, são feitas para vigorar durante determinado período de 
tempo. 
A lei temporária traz expressamente um termo a quo e um termo ad quem de vigência 
(termo inicial + termo final). Ex.: essa lei durará de 01/07/2014 a 30/08/2015. A lei 
temporária traz expressamente seu tempo de vigência. 
A lei excepcional é elaborada para vigorar durante uma situação fática de exceção 
(extraordinária). Não se sabe até quando ela vigorar: depende que a autoridade diga, 
p.e., que cessou o estado de calamidade pública. 
Obs.: a lei da Copa era temporária. 
 
Essas leis temporárias e excepcionais são ultrativas e auto-revogáveis. O agente 
pratica o fato durante sua vigência, mas elas podem continuar a ser aplicadas mesmo 
depois de revogadas. Ademais, não é necessária uma lei posterior para revogá-las, 
porque elas se auto-revogam. 
Cessada a situação temporária ou advindo o tempo ad quem, essas leis se auto-revogam. 
 
No CP, a pena de roubo é de 4 a 10 anos. Imaginemos que o legislador, com medo do 
aumento da criminalidade na Copa do Mundo, tivesse editado antes uma lei temporária 
agravando a sua pena: “a pena do crime previsto no art. 157 CP passa a ser de 10 a 15 
anos. Esta lei vigorará entre os dias 10/06/2014 e 20/07/2014”. 
Agora vamos imaginar que um grupo roube máquinas fotográficas de vários turistas ao 
longo da vigência desta lei. Só vão ser condenados muito depois, quando já voltara a 
vigorar o CP com sua pena de 4 a 10 anos. Mesmo assim, pela ultratividade esses 
sujeitos receberiam uma pena de 10 a 15 anos, apenas pelo período em que cometeram o 
crime. 
Ocorre que, mais tarde, o legislador resolve aumentar definitivamente a pena do roubo 
para 8 a 12 anos. Estamos diante de uma novatio legis. Em relação à pena do roubo 
prevista no CP, trata-se de uma novatio legis in pejus; mas se comparada à lei 
temporária, trata-se de uma novatio legis in mellius (vai de 10-15 para 8-12). Essa lei 
nova mais benéfica retroage? 
 
 
 
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Posso ingressar com um HC para aplicar a pena da nova lei (08-10 anos)? Por um lado, 
a lei temporária tem ultratividade. Do outro, a retroatividade da lei mais benéfica é 
constitucional (art. 5º, XL, CF). 
O conflito, portanto, é entre um princípio constitucional e uma norma legal (CP – art. 
3º). 
A característica da ultratividade da lei excepcional e da lei temporária violam o p. 
constitucional da retroatividade da lei mais benéfica (novatio lex in mellius)? 
Uma 1ª corrente diz que essas leis violam o p. da retroatividade da lei mais benéfica. No 
conflito entre o p. da retroatividade, de nível constitucional, e o art. 3º CP, prevalece o 
p. constitucional. Sendo o CP anterior à CF, seu art. 3º foi revogado pela CF. Esta é a 
posição do Zaffaroni e do Nilo Batista. Esta posição ainda é minoritária. 
A 2ª corrente diz que a ultratividade não viola o p. constitucional da retroatividade da lei 
mais benéficas. Nas leis excepcionais e temporária, o tempo determinado de vigência 
funciona como elemento do tipo. As situações tipificadas são diferentes. Quando o 
agente praticou o delito, vigorava a lei temporária ou excepcional; quando a lei teve seu 
advento, a situação é diversa.

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