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AARÃO REIS, Daniel   Ditadura e Sociedade, as reconstruções da memória

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a qual se identifica-
va o presidente empossado, embora ele próprio fosse um moderado de es-
querda, respirou aliviada. Jango percebia a fragilidade da aliança em que se 
apoiava, e tentaria a partir de então manobrar com ela, exercitando a tradição 
de arbitragem e conciliação que herdara de seu mestre e padrinho político, 
Getúlio Vargas. Desde o início, deixara clara a intenção de recuperar os plenos 
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4 A batalha de Itararé, em 1930, entrou para os anais da história corno a maior bata-
lha convencional da América Latina ... que não houve. Caso acontecesse, teriam en-
trado em choque as tropas "revolucionárias" da Aliança Liberal, que vinham do Sul, 
lideradas por Getúlio Vargas, Osvaldo Aranha e Góis Monteiro, e as forças que de-
fendiam o governo legal de Washington Luís. Entretanto, ambas as forças retira-
ram-se para evitar confrontos e resolveram a luta recorrendo à arma que se torna-
ria usual entre os militares brasileiros: o telefone. 
5 Adotarei ao longo do artigo as categorias clássicas de direita, centro e esquerda. Por 
direita, entenderei as forças conservadoras, alérgicas a mudanças e dispostas a 
manter o status quo. Centristas são as tendências da moderação e da .conciliação. 
Segundo as circunstâncias, podem se inclinar favoravelmente a reformas, desde que 
dentro da lei e da ordern,ou podem apoiar soluções de força para deter as reformas. 
À esquerda se situarão as forças favoráveis às mudanças em nome da Justiça e do 
Progresso sociais. Empregarei as categorias sempre no plural por entender que, em 
cada termo, agrupam-se posições, lideranças e forças diversas, das mais moderadas 
às mais radicais. 
6 Cf. GASPARJ, 2002/1 e 2; D'ARAÚJO; SOARES; CASTRO, 1994/1. 
Capitulo 2 
Ditadura e sociedade: as reconstruções da memória 
poderes presidenciais, mas, por cálculo e índole, não deu mostras de escolher, 
ou preferir, métodos de confronto./· 
As esquerdas, surpreendidas com a rápida vitória, conheceram uma es-
pécie de euforia. Tenderam a esquecer duas circunstâncias associadas, e deci-
sivas, da vitória contra a tentativa de golpe militar: o fato de que assumiram, 
ao lado de Brizola e do III Exército, uma posição defensiva, e o de que esta po-
sição defensiva articulara-se em torno da preservação da lei. Posição defensiva, 
e de defesa da lei: por estas razões fora possível vencer Ós golpistas. Esquecê-
lo, no futuro, teria profundas e desastrosas co'nsequências. 
Encerrada a grave crise institucional, abriu-se uma conjuntura crítica 
de múltiplas dimensões, que iria num crescendo até o fim de março de 1964. 
Antes, porém, de apresentar a crise, e sobretudo como as forças políti-
cas a analisaram, valeriá a pena tratar do contexto internacional e de seu im-
pacto no desenvolvimento do processo histórico brasileiro. 
Viviam-se então os tempos da guerra fria entre os EUA e a URSS. As 
duas superpotências empenhavam todos os recursos no sentido da polariza-
ção das contradições existentes em escala mundial em torno de seus interesses 
universalistas e expansionistas. Tentavam, com seus aliados em cada país, fa-
zer de cada área de tensão, de cada conflito, um momento do choque maior 
de dois projetos civilizacionais. Os partidários da liderança dos EUA falavam, 
segur:do o jargão da época, ná defesa da livre iniciativa, dos valores liberais, do 
ocidente, da civilização cristã. Os que de, algum modo, simpatizavam com a 
URSS, enfatizavam a justiça, o progresso, a libertação nacional, as reformas e 
a revolução social. Ambos os lados defendiam a democracia, acusando-se re-
ciprocamente por desprezá-la, mas em toda parte tinham com este regime 
uma refação meramente instrumental, não se furtando a pisotear alegremen-
te os valores e as instituições democráticas sempre que isto lhes parecesse im-
portante para fazer avançar seus interesses imediatos e o alcance de seu poder. 
Nos anos 50 e 60 do século 20, no âmbito do então chamado terceiro 
mundo, a guerra fria tornara-se quente. Embora fosse possível relacionar pro-
cessos de transição pacífica, marcados pela conciliação, o que predominava, 
no imag_inário, na mídia, no vocabulário e no terreno, era o confronto violen-
to, a luta armada, reformas arrancadas pela força, guerrilhas e revoluções so-
ciais. A guerra do Vietnã, re_tomada desde o início dos anos 60, a guerra da Ar-
gélia, encerrada em 1962 com o reconhecimento da independência do país, as 
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Parte I 
História e Memória 
guerras arabo-israelenses, o agressivo nacionalismo pan-árabe nasserista, a 
guerra civil no Congo, as guerrillias na África sub-saariana. Nas Améric~ ao 
sul do Rio Grande, avolumava-se uma nova onda nacionalista, de caráter po-
pular, reformista e revolucionária. Desdobravam-se movimentos sociais ofen-
sivos nas cidades e guerrilhas rurais. A revolução cubana, vitoriosa em 1959, 
representou um ápice neste processo. A sua radicalização política e social, a 
transformação do processo em revolução socialista (1961), a expulsão de 
Cuba da Organização dos Estados Americanos, patrocinada pelos EUA, a cri-
se dos mísseis, em outubro de 1962, que levou o mundo à beira de uma ter-
ceira guerra mundial, todos estes fenômenos evidenciam, principalmente no 
terceiro mundo, uma fase histórica em que a política se associava constante-
mente a enfrentamentos violentos, decididos pelo confronto de forças e/ou 
pela luta armada. 
O Brasil não conseguiria naturalmente ficar imune a esta atmosfera. 
Mas é preciso evitar a idéia corrente_ - e distorcida - de que o país era um mero 
joguete nas mãos das superpotências. Nem as direitas eram manipuladas pelo 
imperialismo norte-americano, nem as esquerdas, pelo ouro, ou pelo dedo, de 
Moscou. Jargões de época, de considerável eficácia propagandística, não dão 
conta, porém, da autonomia política de que dispunham as forças antagônicas. 
Feita a ressalva, passemos à crise, cuja peculiar importância na história 
republicana já foi ressaltada. Não se tratará de descrever as etapas e os.princi-
pais acontecimentos do processo de radicalização que desembocou na instau-
ração da ditadura militar.' O que importa, para os propósitos do artigo, é cha-
mar a atenção para os grandes traços dos embates que se travaram, para as 
forças em presença, e principalmente para a forma como interpretaram, na 
época e depois, os acontecimentos vividos, ou seja, para como elaboraram a 
memória do que se passara. 
Animados pela vitória contra a tentativa de golpe de agosto de 1961, 
desencadearam-se em todo o país amplos movimentos sociais populares: 
càmponeses, trabalhadores urbanos, principalmente do setor público e das 
empresas estatais, estudantes e graduados das forças armadas. Gi:eves econô-
micas e políticas, manifestações, comícios, invasões de terra, nunca se vira, 
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7 Para o período 1961-1964, cf. CASTELO BRANCO, 1975; DINES, 1964; DREI-
FUSS, 1981; MORAES, 1989. 
Capitulo 2 
Ditadura e sociedade: as reconstruções da memória 
como já se disse, algo semelhante na história republicana brasileira. Deseja-
vam, em síntese, melhorar as condições de vida e de trabalho ·e também os ní-
veis até então alcançados de participação no poder político. Havia neles a per-
cepção de que o surto desenvolvimentista dos anos 50, embora tendo promo-
vido grande mobilidade geográfica e social, não distribuir~ equitativamente as 
benesses e os lucros auferidos, nem ampliara de forma significativa a demo-
cratização do Estado e das instituições. As demandas enfeixaram-se gradativa-
mente num programa, o das reformas de base, porque, alegava-se, era preciso 
reforma~ as bas~s do sistema econômico e do regime político. Reforma agrá-
ria, urbana, bancária, financeira, universitárü1, educacional. Reforma das po-
líticas públicas, em especial do estatuto dos capitais estrangeiros, que deve-
riam ser controlados e, no limite, em certos casos, expropriados. 
Ao longo do processo de lutas, os movimentos

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