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AARÃO REIS, Daniel   Ditadura e Sociedade, as reconstruções da memória

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Dificuldades econômicas, geradas por uma rígida política 
monetarista, e políticas, em virtude dos problemas decorrentes de gerenciar as 
múltiplas forças que haviam participado do golpe, desgastavam o poder. Der-
rotados nas primeiras eleições pós-golpe, em 1965, recorreram à força bruta, 
reeditando o mec_anismo dos atos institucionais. Mais tarde, em fins de 1968, 
percebendo uma erosão ainda maior de sua capacidade de direção política, 
deram um golpe dentro do golpe: .o Ato Institucional n. 5. Embora referindo-se 
a ameaças de subversão da ordem, o que de fato os preocupava era a questão 
das dissidências no próprio interior das direitas, que ameaçavam fugir ao con-
trole, como se evidenciou na tentativa de abertura de um processo contra o 
deputado Mareio Moreira Alves, proposta pelo governo militar e recusada 
pela maioria no Congresso Nacional. 
Fechou-se a cortina, começaram os an~s de chumbo. No entanto, ao 
mesmo tempo, o país já ret?mara um ciclo ascendente de desenvolvimento 
econômico, que se prolongaria até 1973: o milagre brasileiro, gerando conten-
tamento e euforia, potencializados pela conquista do tri-campeonato mundial 
mentos de militares sobre o golpe e a ditadura militar, uma tentativa de reganhar 
terreno nas intensas batalhas de memória que se travam atualmente na sociedade 
brasileira. 
18 Cf. a obra organizada por Denise Assis, citada na nota 11. 
41 
Paru I 
História é Mem&ria 
de futebol e pela recuperação d<t auto-estima nacional. São conhecidos os slo-
gans da época: Brasi~ potência emergente. Ninguém segura este pais. Num con-
texto de grande mobilidade geográfica e social, aparecia um país estável e 
próspero: anos de ouro para os que se beneficiaram - e não foram poucos -
com as benesses proporcionadas pelo progresso material. 
A ditadura dispunha de altos índices de popularidade, os estádios 
aplaudiam o ditador de turno (Garrastazu Médici), o regime voltava a legiti-
mar-se, reagrupando a ampla frente de forças de direita e de centro que sus-
tentara a intervenção militar, agora em nome da eficiência e da modernização 
realmente existente. Quem não estivesse góstando, que se retirasse: Brasil, ame-
o ou dei:,;e-o. Ou então, que enfrentasse o braço duro da repressão e a tortura 
como política de Estado, executada pelos serviços de inteligência das forças ar-
madas, devidamente centralizados pelo Governo e financiados e apoiados pe-
los expoentes do grande capitalismo nacional. 19 
Quanto às esquerdas, reagiram diversamente à derrota de 1964. 
Depois de um primeiro momento de aturdimento e desorientação, 
que se expressou, como costuma acontecer depois de grandes fracassos, 
numa extraordinária fragmentação orgânica, decantaram-se duas grandes 
tendências. 
De um lado, os moderados, que- preferiram empenhar-se na luta péla 
redemocratização do pais, nas margens da lei, por estropiadas que estivessem, 
à sombra das lideranças e das forças políticas que ainda l)Odiam se articular 
no país legal. Suas propostas tiveram alguma vigência até a edição do AI-5. A 
partir de então, submergiram, só reaparecendo a partir de 1974, no quadro da 
política de distensão lenta, segura e gradual, inaugurada pelo quarto ditador 
de turno, o general Geisel.2º < 
De outro lado, os radicais, jogando todas as fichas na utopia do impas-
se. Emergiu então uma esquerda revolucionária. Formulava análises catastrófi-
42 
19 As dúvidas remanescentes que ainda poderiam subsistir seriam definitivamente es-
clarecidas pelos trabalhos de Elio Gasperi, recentemente publicadós, 2002/ 1 e 2 e 
2003. Já há muitos anos não é mais possível sustentar a metáfora dos "porões" para 
· designar os "órgãos" repressivos. Eles atuavam na "sala de visitas" da Ditadura, pois 
a tortura era urna política de Estado. 
20 B importante registrar que os remanescentes da esquerda moderada, depois de 
1974, nào puderam representar, em larga medida, senão o papel de "força auxiliar" 
Capitulo 2 
Ditadura e sociedade: as reconstruçôts da memória 
cas ( o capitalismo não tinha alternativas para o país), apostava na exasperação 
das contradições sociais e políticas, e, em consequência, propunha uma ofen-
siva revolucionária contra a ditadura, através de insurreições de massa ou da 
luta armada.21 
As .duas alas também divergiam a propósito das circunstâncias que pro-
vocaram a .derrota de 1964. Enquanto os moderados lamentavam o excesso de 
ousadia do movimento reformista revolucionário anterior a 1964, o que, se-
gundo eles, involuntariamente contribuíra para a coesão das forças centristas 
e direitistas (os chamados desvios esquerdistas), os revolucionários, ao contrá-
rio, deploravam a falta de audácia deste mesmo movimento, o que levara ao 
despreparo político e militar para o enfrentamento decisivo e inevitável (os 
desvios direitistas). 
Não houve jeito de se chegar a um acordo. Entretanto, os tempos eram 
mesmo desfavoráveis às esquerdas. Em suas múltiplas organizações e partidos, 
cada ala a seu modo, ambas foram derrotadas. As propostas moderadas não 
vingaram, postas na ilegalidade ou neutralizadas pelo arbítrio da ditadura. As 
radicais, igualmente, foram destruídas em combate desigual contra a repres-
são política do regime. Em meados dos anos 70, todas as organizações de es-
querda estavam praticamente dizimadas, ou decisivamente enfraquecidas, os 
principais dirigentes mortos, ou nas prisões ou nos exílios sem fim. Suas for-
ças, dispersas, tenderiam a se re"organizar na esteira dos movimentos que tive-
ram lugar na segunda metade dos anos 70. 
do Movimento Democrático Brasileiro. Cumpriram um importante papel "mili-
tante", mas sem conseguir rn;:i.rcar um perfil específico, ou urna alternativa própria, 
no processo de redemocratização do país. 
21 A esquerda radical, para além da miríade de organizações que a constituía, estru-
turava-se em duas vertentes: as que propunham o enfrentamento armado (ações 
armadas, guerrilha urbana e/ou foco guerrilheiro rural), os chamados militaristas, 
inspirados pelo castrisrno, guevarisrno ou rnaoísrno; e os que preconizavam gran-
des insurreições de massa, chamados massistas, que se apoiavam nas referências da 
revolução soviética de 1917.Arnbas as vertentes, e muitos dos próprios rnodeqdos, 
cultivavam a utopia do impasse, ou seja, a idéia de que o capitalismo não seria ca-
paz de oferecer alternativas para o país. Tais formulações, diga-se de passagem, 
apoiavam-se em renomados trabalhos acadêmicos ( Celso Furtado, Octavio Ianni, 
entre ~tros) e em convicções amplamente difundidas em todas as correntes de es-
querda da época, nacionais e internacionais. 
43 
Parte[ 
História e Memória 
e" 
Dois acontecimentos marcariam o ano de 1974. De um lado, a posse na 
presidência da República de um novo ditador, o general Geisel, com uma pro-
posta de transição controlada à democracia. De outro, as eleições realizadas 
em novembro, assinala.ndo uma grande vitória do único partido legal da opo-
sição, o Movimento Democrático Brasileiro/MDB. 
Os anos seguintes assistiriam ao progressivo deslocamento da socieda-
de brasileira, e de suas elites políticas e econômicas, no rumo da defesa do res-
tabelecimento das instituições democráticas. Passaram a compartilhar esta 
orientação as decisivas forças de centro e boa parte da própria direita. Porém, 
não foi um processo linear, nem tranquilo. 
Forças de extrema-direita, particularmente as concentradas na chama-
da comunidade de informações (serviços de inteligência das forças arma-
das/policia política), resistiram como puderam, pressionando, ameaçando, 
urdindo golpes, assassinando de forma escandalosa presos indefesos, prati-
cando atos de terrorisino. 22 Por outro lado, muitos líderes do capitalismo na-
cional e políticos de expressão temiam que os militares pudessem perder o 
controle da abertura, ensejando .ª volta dos fantasmas de subversão, agora 
controlados.

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