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Filósofos do século XVIII
Uma introdução
Organizador
Lothar Kreimendahl
Tradutor·
Dmzkwart Bernsmii Iler
EDITORA UNISINOS
Coleção História da Filosofia
6
INTRODUÇÃO
A filosofia do séczilo XVIII coriio filosofia do Il11minismo
Lothar Kreimendahl
Diferentemente da filosofia do século XV{I, o século seguinte
parece oferecer menos dificuldades pfira aqueles que têm um olhar
classificatório para acontecimentos h~stóricos. ,É que o século XVII
a resenta tal uantidade de tendências, que fica difícil dar-lhe um
título temático, adenda a enas ser consi era o com o ia de
início da modemidade . O século XVIII é considerado o século do Ilu-
;;inismo, ue se im õe em todas as áreas, não séi na hlosoha. É, por-
tanto marca desse erío ue engloba a secu anza ao na o i i-
~a, na cultura, na literatura e na re igião, ou seja, em todas as mani-
festaçoe~ da atiyjdade hµmanáz ..
1 Vide: Einige C/uirakteristika der Philosophie des 17. Jalzr/111nderts. (Algumas caracte-
rísticas da filosofia do século XVII.) ln: L. Kreimendahl (Org.). Filósofos do Século
XVII. Uma lntroduçiio. São Leopoldo: Ed. UN!SINOS.
2 Vide, por exemplo: W. Krauss: Das Zeitbewusstsein der Aufkliirung fdllt mil dem
llcgriff 1/cs 18. /11/ir/11111dcr/s ci111fr11lig zúsr1111111r11. Vor/1c111rrk1111g z11r l'rriodisirru11g
der Aufkliirung. (A consciência temporal .do Iluminismo identifica-se irrefutav~l
mente com o século XVIII. Observações Preliminares sobre o Iluminismo). ln: W.
Krauss/H. Mayer (Org.). Grundpositionen der franzosischen Aufkliirung. (Posições
básicas do Iluminismo francês). Berlim, 1955, XI. Também no Philosophielexikon
(Dicionário de Filosofia), publicado por A. Hügli/P. Lübcke._Personen 11nd Be-
griffe der abe11d/ii11disc/1en Philosophie vo11 da Antike bis zur Gegenwart (Pessoas e
conceitos da filosofia ocidental, desde a Antigüidade até o presente). Reinbek
(Hamburgo), 1991, a Era do llu111i11is1110 ainda é o co11ceito aglutinador para as mar-
cantes correnles filosóficas, políticas e sociais do século XVIII na Europa (63).
8 LOTHAR KREIMENDAHL
Contra essa tese foram levantadas dúvidas ultimamente3, e nós
nos propomos a examiná-la a ·seguir, com a necessária brevidade,
considerando-a como filo~ofia dessa época. No final, constataremos
que ~sa designação tax·ativa aplica-se como expressão •genérica
ara a filosofia desse período, mas ue não leva .em considera ão a
mu tip ic1 a e e correntes ilosóficas', tanto no que diz respeito
aos pnncip10s como aos métodos. Insinua um movj.mento intelec-
t_ual homogeneo! o gue ~ão Ro
1
de ser verifiq1d9 C.2º?-.. ~.:?-~!.!_cos.ffiDfia
qg"ando da leitura dos te~tos da éQoca - a não ser gµe se ao::mU~Jl
c9mpreen~~-q q9 conceito Iluminismo a p9n~9. pe m.rná-lo s~~n~
n1o da pr..9,pria filosgfiéf. Isso não é de forma alguma errado, pois o
.........
conceito Jl11111i11is11'.10 pode não só ser tomado no sentido histórico
como designativo de uma determinada época, como também se
adapta como conceito programático para a caracterização de certa
postura espiritual que transparece no dito horaciano Sapere a!lde e
que não foi utilizado pela primeira vez-por Kant em seu conhecido
ensaio iluminista de 1784, quando o elegeu como lema para o Ilumi-
3 Recentemente, R. Vierhaus: Wns wnr A1ifkliirung? (O que foi o Iluminismo?). Gõt-
tingen, 1995, 6; W. Rõd: Der Wcg der Philosophie. Von de11 A11fii11ge11 bis ins 20. jnhr-
h1111dert (O caminho da filosofia. Do Iluminismo até o século XX). Volume II: sé-
culo XVII até século XX. Munique, 1996, 80; R. Darnton: George Wnslú11gto11s fnl-
scl1e Zii/111e odl!I' 11oc/1 ei11111n/: Was ist Aiifkliin111g? (Os dentes postiços de George
Washington ou, novamente, o que é o Iluminismo?) Munique, 1996, 6; e W.
Schneiders: Das Zeitnltcr der A1ifkliinmg (A época do Iluminismo). Munique,
1997, 7, entre outros, manifestaram-se com restrições sobre essa concepção.
4 M. Wundt já advertia sobre o perigo de se menosprezar a varie'dnde de seus pri11Cí-
pios em favor da percepção de diri:cio11nmeuto unilnternl, geralmente 11em obseniado
por ele mesmo, quando se fizesse uma pesquisa sobre o Iluminismo. Die de11tscl1e
Scl111/phi/osophie im Zeitnlter der Aufkliinmg (A filosofia escolar alemã na época do
Iluminismo). Tübingen, 1945. Reimpressão, Hildesheim, 1964, 17.
5 Assim, por exemplo, J. Mittelstrass: Neuzeit u11d Aujkliinmg. Studie11 ziir E11tste-
/11111g der 11e11zcitliche11 Wisse11schnft und. Philosophie. (Modernismo e Iluminismo.
Estudos sobre o surgimento da ciência e da filosofia moderna). Berlim, Nova
York, 1970.
INTRODUÇÃO 9
nismo' e para o qual talhou a seguinte famosa tradução: Tem coragem
defnzer uso de tun própria i11teligê11cin( EQtend ida dessa forma. o Ih.i-
minismo é um 12ostulado moral qn@ o i;i@r humana dirige. inicial-
mente, sobre si mesmo na busca de auto-iluminação e, de ois, sobre
os ou ros, como 1 uminação de estranhos. Conforme Kant, isso nun-
c1t'"jc'âba porque pa ira sobre o ser humano sempre de novo a ameaça
de recaídas individuais ou coletivas de 111e11oridnrfr cn11sndn por ele
111cs1110'. Se entendermos Iluminismo dessa forma_c ntão çle é quase
·9L1e por inteiro idêntico à filosofia. O século XVIII apropriou-sedes-
sa visão e, por isso mesmo, autodenominava-sc plausivelmente de o
século socrático", numa referência ao p rimeiro filósofo ocidental que
queria livrar o ser humano do conhecimrnto ªparente.
,..... No entanto, se falarmos do século XVIII .como o século do Ilum i-
nis.n1o, então referimo-nos à designação de uma época. Para en ten-
der - filosoficam ente - o século XVIII, como estando sob o signo do
Ilu111i11is1110, é necessário entender o que se quer dizer com esta pala-
vra.
6 · Referente ao uso desse lema antes de Kant, vide F. Venturi: · Sn1icrc n11dc!. ln:
Idem: Ew·opc dcs /11111iêrcs. Rcchcrc/1es s11r le 1Se siêc/c (A Europa das luzes. Pesqui-
sas sobre o século XVlll). Traduzido do italiano por F. Braudel. Paris e Haia,
.· 1971, 35-47.
7 Bcn11tworlw1g der Frnge: Wns is/ Aufkliinmg?. Kmrt's gesn111111e//c Schrifte11. (Respos-
ta à pergunta: O que é Iluminismo? Escritos recolh idos de Kant). Publicados
pela Academia Prussiana de Ciências (e Suces·sores). Berlim, 1900 ss., volume
VIII, 35.
8 Vide a definição de Kant no início do ensaio sobre o Iluminismo: Ilu111inis1110 é n
snídn do ser h11111n110 de s11n nuto-i111postn 111e11oridndc. Wns is/ Az~fkliirzmg? Kmzt's gc-
snnmzcltc Sc/1riftc11. (O que é Iluminismo? Escritos recolhidos de Kant), idem, vo-
lume VIII, 35.
9 Vide 13. Bohm: Sokratcs im 18. Jnlll"lzzmdcrl. St11dic11 ;:um l.Vcrdcgmzg des modcmm
. Pcrso11/iclzkeitsbew11sslsei11s (Sócrates no século XVIII. Estudos sobre o desenvolvi-
mento da moderna consciência da personalidade). Neumünster 2, 1966.
10 LOTHAR KREIMENDAHL
Início e pressupostos para o Iluminismo
Como o Ilu~ ~ de abran ência euro
-com desta ue ara os países centrais do movimento, isto é,---. ...... ~-
ra Fran a e Alem.a 1a , es.p.&ra-se encontrar em todos os lu~s
mesmos ou, pelo menos, parecidos fenômenos. Realmente, o Ilumi-
r nismo inicia na década dE.:2§80,_m~is ou menos ao mesmo te1_;;po
n.~sses três países, mas partir;9?_~e. _eressuE2:~.s históricos e cultu-
ra· acionalmente di e inde e SSalase inicial de
conStitui ão recebe a denominação d illlminismo inicz . E de cunho
essencialment elitista e carrega caráter escoas 1c . umm1smo e
al YO Assim, pinoza 1nge seu Trnctatus
Tlzeologico-Politiws, de 1670, que com a apregoada destruição da
crença na Revelação e a reivindicação pela concessão de liberdade
para o filosofar pode ser considerado como uma espécie de posto
avançado do Iluminismo, especificamente ao leitor filosófico 111 ou, ain·-
da, ao público 111ais i11telige11te11 • Por conseqüência, escreve na lingua- .
gem dos instruídos e, aparentemente, opõe-se ao esforço de a obra
ser traduzidapara oholandês12• Só lentamente o Iluminismo vaies-
tender-se a camadas mais amplas. Voltaire, por exemplo, ainda não
previra que camponeses apr~iiãeriam pelo menos a ler, uma vez .
que sua preocupação central era cultivar os camposD. Essa fase, em
que o Iluminismo atinge a classe média intelectual e taffi6ém a cons-
cjência dos cidadãos gue participam da vida intelectual, é deno~
nada de alto Jlll111i11is1110. Pode ser localizada na França em meados
do século XVIII e expressa-se de forma mais significativa na máquina
10 Tractatus Theologico-Politirns. ln: Spinoza. Opera. Por incumbência da Academia
'7 de Ciências de Heidelberg, organizado por Carl Gebhardt, volume Ili, 2a. ed.,
Heidelberg, 1972, 12.
•11· Càrta a Heiririch Oldenburg,'de setembro/ outubro de 1665. ln: Opera, idem, vo-
lume IV, 166.
;12 Carta a Jarig Jelles, de 17.2.1671. ln: Opera, idem, volume IV, 227.
:13 R. Damton recordou isso recentemente: Georg Wnshi11gto11s fnlsche Zii/111e (Os
dentes postiços de George Washington), idem, 6. ·
INTRODUÇÃO 11
de 111ta do Il11111i11is1110, a Encvclopédie, publicada por Oiderot e
d' Alembert em 1751 14 O programa do Iluminismo popular1s, gue se
direciona ex licitamente ao homem do e á apenas no.Í~
a obra e é uma característica do Iluminismo tardio. Nele já são claros
os sinais de exaustão do movimento, e a crítica, cada vez mais con-
tundente advinda das gerações mais jovens, desemboca, na Alema-
nha, em uma nova era, o Romantismo inicial, ou na chamada filoso.:
fia do Idealismo alemão17•
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14 Sobre ela e sua dinâmica história da publicação, vide R. Darnton: The Business of
E11/iglzten111e11t. A publishing history of lhe E11cyc/opédie 1775-1800 (O negócio do
Iluminismo. Uma história da publicação da Enciclopédia - 1775-1800). Cam-
bridge, Mass., 1979.
15 Os significativos escritos alemães foram reunidos por H. Bõning/R. Siegert:
Volksmifkliin111g. Bibliogrnphisc/res HQ11dl111d1 ::.ur Pop11/arh:icru11g rwfkliircriscl1n1
Denkens im deutschen Sprnclirmcm vo11 de11 A11fo11gen bis 1850 (Iluminismo popular.
Manual bibliográfico para a popularização do pensamento iluminista na área de
língua alemã, desde os primórdios até 1850). Stuttgart-13ad Cannstatt, 1990 ss.
16 Cf., por- exemplo, Rudolph Zacharias Becker: Vers11c/1 iiber die A1ifkliir1111g des
Lnndmmms. Dessau, Leipzig, 1785.
17 Na Inglaterra, Edmund 13urke destacou-se como crítico do Iluminismo com su;is
Reflections on lhe Revolzction in France (Reflexões sobre a revolução na França),
publicadas em 1790.
12 LOTHAR KREIMENDAHL
criando o clima favorável a6' desenvolvimento da arte e da ciência e
·que era ViSfa com mve·a e c · o exem lar elos intelectuais euro-
peiib. Como referência disso, cita-se Voltaire, que co eceu a situa-
ção inglesa durante seu exílio londrino (1726-1729) e a exaltou em
suas Lettres écrites d'e Londres sur les Anglais (1734). Ambas as áreas, a
ROlítica e a econômica, foram interl igadas por Johri Locke. qYe:"-ero
seus Two Trcatiscs 011 Govem111e11t, de 1690, aparece como porta-voz
filosófico da Gloriosa Revo/11çiio, ublicando nesse mesmo ano sUa.
' principa o ra i osófica: Essay Conceming Hwnan Understanding.
Qs Principia de Newton e o Essmt de Loge são obras de cujo es-
J;-:írito e contetiêiõ.õ IIürr!:f?i?~_e fl.lim~nta çQ:1!18.~-~-nenhuma ou-
!!:.a-0 reconhecimento contemporâneo a Newton espelha-se no epi-
táfio escrito por Alexander Pope: Nature, and Nature's Laws lay liid i11
Niglit/God said, Let Newton be! andAll was Liglit (A natureza e as suas
leis estavam envoltas em trevas/Deus disse: Surja Newton! e tudo
se fez luzt. Newton tornou-se um líder no Iluminismo não tanto
pelo conteúdo de sua filosofia da natureza, ue, or ser escrita em
lingua em ma ematica, era acessível a pouco
seus, mas muito mais el onsciênc1a intelectua o indivíduo ue
nela se expressa e que correspondia ao espmto da é oca. Sua o ra
abriu os olhos o u 1co ara a orça que reside dentro da razão
ue se apóia apenas em si e para a istancia que é capaz de per as-
sar entro o universo uan o se i erta de preconceitos e quando
ppera irecionada, livre de insumos me o o og1cos re ac10nados à
Revelaçao teolog1ca. 1 ante o m acrocosmo como o microcosmo pa-
reciam abrir mão de seus segredos, quando foi reconhecido que são
as mesmas e poucas leis que regem a mecânica dos grandes astros
celestes e as minúsculas partículas m ateriais. Parecia inimaginável
_gue alguma área n ão pudesse ser iluminada pela nova ciência; até
mesmo a Teologia pôde beneficiar-se dos sucessos das ciências na-
turais newtonianas e conferir adequada solidez ao reconhecimento
de Deus por meio da teologia-física, atingindo, assim, um paradig-
18 Alexander Pope: Minor Poems (Poemas menores). Editados por N. Ault. Com-
pletados por J. Butt. Londres, New Haven, 1954, 317.
INTRODUÇÃO 13
ma de modernidade e nível científico adequado às exigências da
época10• É verdade que Francis Bacon já :havia propalado, no início
do século XVII, as hoje eonhecidas ciências naturais, tendo atrelado
. ao desenvolvimento delas expectativas que se aproximavam da sal-
vação histórica, mas ele ficara devendo a comprovação da real efi-
ciência da ciência. Bacon havia dado a senha indicativa do futuro e
formulara uma crítica ao preconceito que seria essencial para o Ilu-
minismo por meio de seu Ensino de ídolos. No entanto, foi Newton
quem ofereceu a sólida exe üibilidade do ro rama natural-filosó-
ico, ue atingiu consensÕ entre os entendidos. Assim fica caro por-
que, a seguir, o meto o c1enh ico e Newton é distanciado e seu i
conteudo es ecihco para ser transfendo a outros cam os, atmgfrídu !
ali o mesmo sucesso. spec1a men e na ng a erra, onde o llummis- i
ino foi e permaneceu mais forte que em outros países com caracte-
rísticas de presença das ciências (naturais) e de empirismo, o movi-
mento se apresenta como executor do programa newtoniano. David
Hume é o exemplo mais conhecido. Pela introdução do experi111e11tnl
111ctlwd of renso11i11g into 111ornl s11bjccfs (método expcrinlcntal de racio-
dnio em assuntos morais)~º queria trànsformar-se no Newton das
ciências intelectuais.
O L::11s11io de Locke acompanha a sobriedade da linha newtonia-
na naTísica e se fundamenta no pnllzos da confiança na razão cm si
mesma. Da mesma forma como Newton havia descnto a multiplici-
dade de movimentos no mundo físico por meio de algumas poucas
e simples leis, assim('(9Skf)merja reduzir a multiplicidade de idéias
ue são encontradas no consciente a uns poucos princípios simples.
Para tanto, ogo no m.ic10 e sua o ra co ocou o pressupos o e que
o intelecto humano fosse comparável a uma folha de papel em bran-
co~ que a percepção do externo e do interno ocorresse sem qualquer
insumo a enas ela ex eriência. Isso serviu de fundamento para a
d:;:laração de guerra contra o Rac10na ismo contmen a , que a mi-
19 Vide R. H. Hurlbutt: H11111c, Ncwfo11, a11d lhe Design Arg11111e11/ (Hume, Newton e a
discussão sobre o desenho). Lincoln, 1965.
20 O subtítulo é: Trcatisc of H11mm1 Nalurc (Tratado sobre a Natureza Humana).
14 LOTHAR KREIMENDAHL
tia idéias e princíEios inatos, e, especialmente, contra o Cartesianis-
1
mo, como demonstra a exposição de Voltaire sobre a filosofia locke-
~ . Fundamentado em seu princípio básico e empírico, Locke
sondava as idéias do inteleto e tentava explicar suas<Qügens por
m~io da experiênlllt>De acordo com seus contemporâneos, ele teve
sucesso a ponto de transformá-lo na autoridade máxima da filosofia
em seu tempo. Não foi apenas por recomendação de Voltaire que
Newton e Locke atingiram grande significado para o Iluminismo
francês. Assim, por exempls>,.já em 1700 circulava uma tradução dq
Ensaio, elaborada por Pierre Coste, que atingiu várias tiragens até a
metade do século. Umano depois, surgiu a tradução para o latim, o
que possibilitou uma recepção por tod~ a Europa. A versão alem.ã
do Essay apareceu em 1757 e·a primeira preleção universitária sobre .
Locke foi feita pelo wolffiano Georg Friedrich Meier, em 1754, na
Universidade de Halle- aliás, por ordem expressa de Frederico n22:
França
TJ;mbém na França um aconteciínento político e circunstâncias
do mundo literário marcam o início do Iluminismo. Aos protestan-
tes franceses havia-se garantido a liberdade da prática religiosa por
meio do Édito de Nantes, de 1598. Sua revogação por Luiz XIV em
21 Carta XIII das Lcttrcs érritcs de Lo11drcs sur les A11glais (Cartas escritas de Londres
sobre os ingleses). .
22 Vide o programa de preleções de Meier Zusclmft mi sei11e ZuhOrer, wori11 er i/111e11
seÍl1('11 E11tsc/1/11ss /Jd:m111/ 111ac/1t, ri11 Collcgi11111 ii/Jcr Locks (!) Vers11ch t10111111c11schli~
. c/1c11 Vcrs/1111de w ha/te11 (Missiva a seus ouvintes, na qual lhes informa que pro-
moverá um colóquio sobre' o tratado sobre à inteligência humana de Locke),
Halle, 175-1, 3. Frederico II posteriormente determinou a todos os docentes de fi-
losofia na Prússia que seguissem a metafísica de Locke. A. v. Hamack: Geschichte
der Ko11iglich Pre11ssische11 Akademie der Wisse11sc/U1fte11 z11 Berlin (História da Real
Academia Prussiana de Ciências de Berlim). Berlim, 1900, volu-ilie II, 373.
/ ..
'
INTRODUÇÃO 15
1685 teve como conseqüência a sangrenta perseguição aos hugue-
notes e sua fuga para o exterior. Dessa maneira teve firn a tênue tole-
rância religiosa vi ente, uma vez que a França havia se tomado um
Est~do católico absolutista, tendo c~mo líder um rei dotado de po-
#Í" irrestrifü>surgiu uma forte cultura aristocrática que desenvol-
veu notável auto-estima. Clara expressão disso temos nas chamadas
Querelle des anciens et des modemes. Ali se discutia o que prepondera-
ria culturalmente - o antigo ou o moderno23• Charles Perrault res-
pondeu essa pergunta em 1687 por meio de um poema em louvor ao
Rei Sol, dando ênfase ao moderno, sublinhando a auto-estima ca-
racterística da nova época. Um ano. antes, foram publicados os
Entretiens sur la pluralité des mondes, por Fontenelle, nas quais é de-
fendida a tese de que outras estrelas são habitadas, o que determina-
ria que o ser humano fosse desalojado de sua posição central na cria-
ção2~. Em 1682, Pierre Bayle já havia encetado campanha contra a su-
perstição e o preconceito por ocasião da passagem do cometa que
dois anos antes trouxera tanto medo à Europa25• Defendia com toda
23 Essa mesma discussão ocorria quase que concomitantemente na Inglaterra,
onde o ensaio O/ Ancient and Modem Learning (Sobre a-antiga e moderna apren-
dizagem), publicado em 1690 por William Temple, abria o debate que lá setor-
nou conhecido como The Bati/e of lhe Books (A batalha dos livros), título de uma
contribuição de Jonathan Swift.
24 Essa tese da habitação em outros mundos prolongou-se pelo século XVIII aden-
tro. Vide K. S. Guthkc: Die Mchrheit der WC'ile11. Gcistcsgcschic/11/ichc Perspcktivc11
auf ein literarisc/1es Thema im 18. jahrhundert, Zeitschrift für Deutsche Philologie
97 (A maioria dos mundos. Perspectivas das ciências intelectuais sobre um tema
no século XVIII. Revista da Filologia Alemã, n." 97) (1978), 481-512; aqui: 488.
Também Kant considerava certa a habitabilidade da maioria dos planetas. Allgeme-
ine Nnturgeschichte und Theorie des Himmels (História natural geral e a teoria do
céu). Kant's gesnmmelte Sc/1riften. (Obras completas de Kant), idem, volume I,
354.
25 Nos Pensées diverses écrites à un Docteur de Sorbonne à I' occasion de ln comete qui pa-
rut nu mais de décembre 1680 (Pensamentos escritos a um doutor da Sorbonne por
ocasião da passagem do cometa que apareceu em meados de dezembro de 1680)
- este o título definitivo.
16 LOTHAR KREJMENDAHL
a firmeza que a moral era independente da religião e aperfeiçoou
esta tese a ponto de afirmar que apenas um ateísta poderia levar
uma vida moralmente irreparável Em 1697, foi publicado seu Dicti-
01111nire historique et critique, obra que chegou a ser cognominada de
bfblin do Il11111i11is1110 e que, nas palavras de Wilhelm Dilthey, repre- _
sentava o arsenal do ceticismo filosófico e da crítica histórica para o Ilwni-
nismo fmncês16• Desse arsenal também se serviram autores de outros
países. O significado de Bayle para o Iluminismo europeu em for-
mação é geralmente reconhecido e destacado17, mas ainda não teve
suas conseqüências devidamente estudadas, se comparado aos es-
tudos existentes sobre Newton e Locke.
Q centro geográfica do.JW-minismo francês é a metrópole de P-ª.:
!!LO que significa Iluminismo na~ pode ser melhor estu-
dado na produção literária proveniente da capital da república dos ins-
tniídos. Eara Robert Darntou. Iluminismo é um [enômeno histórico
concreto em determinado tempo e em determinado lugar, Paris, no início do
sérnlQ de7,iitri.~. Isso porque o Iluminj~mo foi a li ita contra a Igreja Ca-
26 Gn111driss der n/lgc111ci11en Geschichte der Plzilosopllie (Esboço da história geral da fi-
losofia). Organizado e acrescido por H.-G. Gadamer, Frankfurt/Meno, 1949,
178.
27 Assim também já na pesquisa anterior. Vide, por exemplo, Dilthey: Grzmdriss
der Plzi/osoplzic (Esboço da Filosofia), idem, 178.: Pierre Bnyle colocn o fw1dn111e11to
pnrn 11111n novn épocn. Para W. Windelband/H. Heimsoeth, Bayle é o pioneiro do
J/11111i11is1110 frn11cês por causa de seu ccticis1110 religioso. Lelll'buc/1 der Gesc/1ic/1te der
Jllzilosoplzic (Ensinamentos sobre a História da Filosofia). Tübingen 14 1950, 377.
Nesse mesmo sentido surgiram trabalhos mais recentes. Para Rõd, Bayle parece
revolucionário, sendo 11111 prepnrador do Iluminismo devido à tendêncin nntidogmáti-
cn de seu pensnmenlo (Der Weg der Plzilosoplzie (0 Caminho para a Filosofia), idem,
volume 11, 81) e para Vierhaus s·eu Dictiomznire lzistorique e critique (Dicionário
Histórico e Crítico) conta como um dos primeiros marcos do pensnmento i/11mi11istn.
Wns war J\11fkliin111g? (0 que era Iluminismo?), idem, 9.
28 George W11shi11gto11s falsr/1r Zii/111c (Os dentes postiços de Gt•orge Washington),
idcm,5.
lNTRODU<:ÃO 17
tólica e contro instituições polít-i~-i:ctàiE+e+-~. Quem desenvolve
a lula são os eliilosop/ri:::;. Não são [ilôso/i>s no sentido restrito do ter-
mo, mas sim litcr<1tos guc, no scú conjuntp sija fjlnsofirnnwntc n«da
origina is, mas gue co1npcnsam sua ,fàlta de inovação por meio de
enorme atividade a serviço de uma meta de luta comum:><•. Voltaire e
Diderot encarn<11Tl -não apcn<1s parn Darnton- os protótipos do p/1i-
losophe iluminista. Na E11cyclopédie, compilada por quase todas as
progressist<1s cabeç<1s intelectuais d<1 França, revela-se a tendência
~1ciclopedista da é.E.oca a trelada a uma idéia de ciência que, em pri-
m~iro lugar, quer disponibilizar conhecimento útil, que possibilita-
ria a transformação soei.ali política e econômica da vida no sentido
do bem-entendido interesse próprio do indiví@o.
- Diferentemente da linha em írica de ciência natural) do Ilumi-
nismo britânico, o francês tem orienta ã sociocrít1ca e diri e-se
contra a Igre·a contra institui ões re ressivas e contra a burgue-
29 Da mesma forma Darnton na Gcspriich iibcr A11jkliin111g 1111d A1rfkliin111gsforsclu111g
(Conversa sobre o Iluminismo e pesquis;:i sobre ele), entre Jean Mondot e Wer- ·
ner Schneiders e dirigida por H. Zimmermann, Das nchtzel111te /nhrlw11derf 20 (O
século XVIII) (1966), 137. Com base nesse conc!?ito muito restrito de Iluminismo,
para Darnton nem chegou a haver um real l/11111i11is1110 na Inglaterra, uma vez que
lá não chegou a haver luta contra preconceitos e instituições repressivas. (ibi-
de~ 1~. ·
30 O Vocnl111lnin: tcch11iq11c cf critiq11cdc ln philosoJ'hiL• (Vocabulário técnico e crít ico da
filosofi;i),de A. L;ilande, define os phi/osophes adequad;imcntc como sendo lc
gro11p des écrivni11s pnrlisn11s de ln rniso11, des l11111ieres, de ln tolérn11ce, cl plus 011111oi11s
hostilcs n11x i11stit11lio11s rcligicuscs cxistn11tés (ó gru po de escritores partidários da
razão, das luzes, d;i tolerância e mais ou menos hostis às instituições religios;is
existentes), 10·' edição revista e ampliad;i, P;iris, 1968, 773. Esse signific;ido se
impõe através da obra Lc J'hilosophc (O filósofo), publicada ;inonimílmente cm
1743 e que teve extr;iordinílri;i influência. Vide). Schlnb;ich: ;irtigo: Phi/o:;oplw
( Fi lt'isoío ). 1 n: M. IX·lon (lll").:.). Dirl i11111111 i /"c' l'lf r11111'm dr,; / 1111tiiTr" ( Dicil 111,i ril> l'll n >-
JWLI d;is luZl'S). P;i ris, 1997, 852.
18 LOTHAR KREIMENDAHL
sia31 • No terreno metafísÍco re resenta um materialismo que acaba
evoluindo religiosa e filosoficamente para
Alemanha
Nenhum acontecimento político de dimensões comparáveis
está no início do Iluminismo. Também não era provável que hou-
vesse, uma vez que a Alemanha, isto é, o contexto político ao qual se
costuma atribuir esse nome, nessa época ainda não havia se recupe-
·rado das conseqüências da Guerra dos Trinta Anos, tendo se esti-
lhaçado em uma infinidade de pequenos e minúsculos estados so-
beranos, sem um poder político central. Em conseqüência disso
também não havia uma corte de tamanho considerável, que pudes-
se ter cuidado de assuntos culturais e que atraísse os intclecfua1s,
cÕmo ocorreu, po,r exemplo, na França. Assim, o llunurnsmo teve
itucw com um <1coictecimeuto tomparavelmente discreto e com. sig-
nificado acadêmico inicialmente apenas regional. Em Le1pz1g,
CFinsüan lhomasms publicou, em 1687, um anunc10 de preleção
em alemão - não em latim-, o que foi considerado revolucionário.
Leva o título Discours, welcher Gestalt man den Frantzosen in ge111eine111
Leben und Wandel t{achalzmen solle? (Discurso sobre qual a forma de
imitar os franceses na vi<;l.a e na transformação conjunta). Ihomasi-
us reivindica uma renova ão da cu ra ale - da lín ua ale-
mã como rnguagem científica, apresenta ataques à nobreza e coloca
31 O Iluminismo inglês desco;1hece esse materialismo anticlerical, voltado contra
as instituições estabelecidas, devido à situação política liberal reinante no país.
Vide:$. ~rown: Introd11ctionjlntrodução) . .Jn: o mesmo (org.). British P/lilosópily
ai1d tile Age of E11/ighte11111e1it (A filosofia b.ritânica e a época do lluminismó). Lon-
dres, Nova York, 1996, 3. Na realidade, a Inglaterra não produziu a partir da dé-
cada de 1720 nenhum pensador comparável a Voltaire. Vide: R. Porter: artigo:
Englmzd (Inglaterra). ln: J. W. Yolton (org.). The Blackwell Co111pa11io11 to lhe E11/iglz-
len111enl (Uma Introdução de !3lackwell no Iluminismo). Oxfôrd, 1991, 151.
-···· ·
.. ... \ ··=" \. , ·.-.. a. •:' ...
INTRODUÇÃO 19
no centro de sua filosofia o ser humano, aquele que desenvolve a
vida cotidjana,...especjalmepte o cidadãa....Outros momentos ilumi-
nistas agregam-se, entre os uais a exigência de que mulherespos-
sam obter formação universitária. Thomasius esenvo ve esses te-
mãSilummistas em seu jornal - o primeiro periódico alemão de cu-
nho crítico - as Monatsgespriiche (Conversas mensais) (1688-1690).
Também sua Einleitzmg zur Vennmftlebre (Introdução ao ensino da
razão), de 1691, apresenta esse tom~2 • Não deve passar sem menção
o fato de Thomasius o az o itn1m1s1110 a e111a se um o o exemp o
o Friedrich von Spee e do holandês Balthasar Bekker, ter enfrenta-
do a acusação de bruxaria com tal firmeza, que esse tipo de rocesso
01 anido da Prússia. Usando uma citação de Frederico II, as mu-
lheres têm de agradecer a Thomasius o fato de novamente poder en-
velhecer e morrer em paz~.
O,_início do Iluminismo na Alemanha é menos espetacular e n~o
há pensador com pro1eçao gue tenha transformado em luz p lena a
faísca atiçada por Thomasius. Somente nas obras em alemão de
Christian Wolff, publicadas na década de 1720, o Iluminismo conse-
gue firmar-se, especialmente por meio de um evento que chamou a
atenção em toda a Europa: a expulsão de Wolff de Halle, em 1723.
Ele, que há muito era um estorvo para os pietistas, defendeu teoria
sobre uma moralidade autônoma em sua obra Deutsche Ethik (Ética
Alemãt, de 1720, e um ano depois, no Rede iiber die praktisclze Philo-
32 Além dos temas mencionados, aqui também se reivindica uma crítica aos pre- •.
conceitos. Ei11/eit1111g zur Vem1111ftle/1re (Introdução ao Estudo da Razão). Com
uma introdução de W. Schneiders. Reimpressão da edição de Halle, 1691. Hil- .,
desheim, 1968, 24-27. Na 13' peça principal, Thomasius dedica-se a essa tarefo.
33 Vide: W. Schmidt: Ein 11ergcss('11er Re/Jcll. Lei"'" uml Wirkt•11 dcs Christia11 Tlw11111si-
11s (Um rebelde esquecido. Vida e atuação de Christian Thomasius). Munique,
1995, 170.
34 Vernünfftige Gednncken von der Mensc/1e11 Tlmn und Lassen, zu Befordenmg ihrer
Gliickseeligkeit (Pensamentos racionais sobre o fazer e deixar de fazer humano na ·
busca por sua bem-aventurança). Christian Wolff: Gesa111111e//e Werke (Obras
completas). Organizadas e retrabalhadas por]. École, J. E. Hofmann, M. Tho-
mann e outros. Parte I, volume 4. Hi ldesheim, Nova York, 1976. Ali ele fixara
20 LOTHAR KREIMENDAHL
sopliie der C/Ji11esen (Discurso sobre a filosofia prática dos chineses),
atribuiu àquele povo, que não era cristão, considerável grau de mo-
rnlidadeJ~. Os pietistas concen~rados em torno de Joachim Lange
conseguiram convencer o Rei Soldado, que de qualquer forma pou-
co interesse nutria pela ciência e intelectualidade, de que a metafísi~
ca de Wolff se baseava em um fatalismo que não permitia a grana-
deiros fugidias agirem de forma diferente daquela em que atuavam
quando desertavam. Assim ocorreu esse fatídico decreto real que
determinava que Wolff deveria abandonar a Prússia no prazo de 48
horas sob pena de ser enforcadoJ1'.
Mas na obra de Wolff encontram-se também marcantes traços
restauradores." Assim, por exemplo, sua reivindicação por uma li-
bertas p/Jilosoplwndi torna-se cada vez mais branda. Isso levou mui-
tos pesquisadores a colocarem o início do Il~mi.nismo alemão em
época posterior, após o desaparecimento da influência de Wolff e
sua escola~7 • Mesmo que essa tese pareça exagerada, não pode ser
ne ado o fato de o Iluminismo alemão estar atrasado-não tanto e o
ator temparaL..mas sim P-elo po er de se impor como atuante força
mental e ·social. O esfacelamento em muitos estados e uenos favo-
receu politicamente esse atraso: utro a or que contribuiu foi a de-
mora para gue Newton e Locke fossem divulgados, o que acarretou
um distanciamento do paradigma de entendimento do mundo or
meio de uma só ria p~tspecti y..a_científica, como era o caso da Ingla-
como princípio máximo da moralidade a lei da 11at11rezn, que seria aplicável mes-
1110 que 11iio houvesse 11111 De11s. Parágrafo 20, p. 17.
35 Oratio de Si11arum Philosophia Pmcticn (Estudo sobre a filosofia prática dos sina-
ros). Tradução para o alemão, do latim, introduzida e organizada por M.
Albrecht. Hamburgo, 1985, 25-29.
36 Vide a respeito: C. Hinrichs: Preussen/11111 1111d Pietis11111s. Der Pietismus i11 Bra11-
de11b11rg-Preicssen ais religios-soziale Refor111beweg1111g. (Prussianismo e Pietismo. O
Pietismo em Brandenburgo-Prússia, como movimento reformador religioso-
social) Gottingen, 1971, 388-441.
37 Vide, por exemplo: Johann E. ·Erdmann: Vers11ch einer wisse11sc/1aft tlic/1e11 Darstel-
lrmg der Gesc/1ic/1te der 11e11em Plzilosophie. (Tentativa de uma apresentação cientí-
fica da história da moderna filosofia) Volume II, 2º parte. Leipzig, 1842, 480.
iNTRODUÇÃú 21
terra e da França, onde ela tivera efeito catalítico para o processo de
desenvolvimento do llumm!Sitló. l~a realidade, diferentemente de
o~tros pa1ses ondea ciência natural e a técnjcé) eram consideradas
. uma força propulsara do ro ressoe a maneira de submeter a natu-
reza a sacia ao na usca ela felicidade or arte do homem, no Ilu-
minismo alemão elas desem enharam a enas um pape secundá-
..!l.2:''. Além disso, por vezes a mentalidade alemã e menciona a para
. explicar esse fenômeno, uma vez que o Iluminismo alemão desdo-
bra seu efeito não apenas com significativo atraso, mas é muito me-
nos radical gue o francês·'". Seus portadores advêm prioritariamente
da categoria de professores - como Thomasius e Wolff -, de pasto-
res protestantes ou filhos destes - como Spalding e Herder -~e
altos funciona nos pubhcos-como a maioria das cabeças que se reu-
niam na chamada soelt'dmic:·d11 q1111rl11~/"cim berlinense·'". Portanto, in-
te rantes desses rupos levaram adiante a tocha do Iluminismo, ou
se·a, essoas com restrito interesse revolucionário. No ina essa
época encontramos uma curiosidade que não 1ouve na Inglaterra e
que na França pode ser encontrada quando muito nos Esquissc d'1111
tabl.en11 historiq11e des progres de /'esprit /111nrni11, publicado em 1795 por
Condorcet, qual seja, uma reflexão do Iluminismo sobre si mesmo,
38 · Tanto mais significativo é o fato de que exatnmente esse Christian Wolff, que su-
postamente era um representnnte puro do Racionnlismo, houvesse em seus
anos de jovem adulto se destacado"por experiências no cnrnpo das ciêncins ngríl-
rias por meio dns quais queria enfrentar a fome endêmica. E11tdecki111g dcrwnhrc11
Ursnchc von der w1111derlmhre11 Ver111ehrn11g des Cctrcydcs ( .. .)(Descoberta da real
origem da maravilhosa multiplicação dos cereais( ... ). Halle, 1718.
39 Já para Hegel, o Iluminismo alemão é u111 ndc11do,-u111n pálidnformn do movimento
francês. Vorlcs1111ge11 iiber die Ccsc/iic/1te dcr l'hilosop/1ic. Wcrkc in 20 Biimien (Prele-
ções sobre a história da filosofia. Obras em 20 volumes). Nova reedição com
base nas obras de 1832 a 1845. Volume 20. Frnnkfurt/Meno, 1971, 269.
40· G. Birtsch: Die Ber/i11er Mittwochsgesellsclmft .(A sociedade berlinense de quar-
tas-feiras). ln: H. E. 13üdeker /U. Herrmann (org.). Über de11 l'rozess der A11fklii-
n111g i111 18. fnhr/11111dcrt. l'crso11c11, l11stit11tio11cu 11111i Mcclic11 (Sobre o processo do
Iluminismo no século XVIII. Pessoas, Jnstituiç0es e Meios). Cottihgen, 1987,
94-112.
22 LOTHAR KREIMENDAHL
sobre seus objetivos e sucessos. Os textos de Kant e Mcndelssqhn
s~bre o Iluminismo no Ber/i11isc/1e Mv11ntssc/1rift (Periódico Mensal
B1erlinense) do ano de 1784 são os exemplos mais conhecidos da
grande quantidade de publicações semelhantes.
Percebe-se dessa forma que o Iluminismo teve um início inde-
pendente dentro dos diversos aíses e teve também um desenvol-
vimento astante característico em cada um deles devido às diferen-
çãs pohhcas e sociais. Isso é válido a esar das im orta ões de idéias
i unurnstas nos diversos países. A Inglaterra é, inicialmente, o for-
necedor para a França e a Alemanha", havendo influência recíproca
apenas em momentos osteriores -. A Alemanha não pôde exportar
mm as idéias devido ao atraso com ue o Iluminismo a i se est ele-
~ m compensação, o Dictionnnire /Jistorique et critiq11e de Bayle
apareceu em três sucessivas edições na língua inglesa até meados
do século. P..._or isso, já houve quem propusesse não falar mais em o
Iü_1111inis1110, mas de Ili m1s s nacionais ou, ctté mes 0 ais
diferentes. No entanto, apesar de todas as diferenças, há uma certa
uantid~de de convic ões cdmuns ue são encontradas em todos os
lugares em que se fala significativamente sobre o I ummismo e que
permite 'ustif1car a un ·ao de tod s movimentos em uma ten-
dência, tendo seu n ome com título unifica o .
No entan o, no ma esse p contecimento políti-
co qu~ constitui um momento único no mundo político pela exten-
41 O fato de o pensamento inglês e francês ter tido influênciíl sobre o Iluminismo
alemão pode ser atribuído a Frederico li e à Academia !3erlinense de Ciências,
que ele reinsta lou. ·
42 Assim, Locke negou-se íl m_ílnter correspondência filosófica com Leibniz. l/ 111e
se111/Jle, 11011s vivo11s forl paisi/Jle111e11t e11 /Jo11 voisi11age avec les Messie11rs e11 Alle111ag-
11e, car ils 11e co11oisse11t pas 11os livres, el 11011s 11e liso11s pas les /eurs, telle111e11/ que le
_, (0111pteflil /Jie11 ajousté ele clmque pari (Parece-me qu'e vivemos bastante bem" níl .vi-
zinhançíl com os senhores na -Alemanha, pois eles não conhecem nossos livros e
nós não lemos os deles, de maneiríl que o nimpu to fic;i bl'm ;i justado p;ira cad;i
p.1rll'). LJic 11lrih1so11liisd1c11 Sdirijfr11 (Os l'Sl'rilos li los<·ifinis). O rg.1nizados por C.
1. Gcrhard t, voluml' 111, l3crlim, 1887. Rcimprt?ssão: Hildeshe im-;·1978, 208.
~·· • ,... ..~.. ~ e .· •
INTRODUÇÃO 23
são de sua influência: a Revolução Francesa de 1789. No mundo in-
Í:electual lhe corresponde um fenômeno de significado equivalente,
qual seja a apresentação da filosofia transcendental de Kant, que ini-
cia com a publicação da Kritik der· reinen Vernunft (Crítica à razão
pura), em 1781, e que praticamente encerra com a Kritik der Urteils-
kmft (Crítica à força julgadora), de.1790. A Revolução Francesa re-
2resenta uma cesura na história mundial. da qual não há volta, as-
sim o criticismo de Kant é um marco que servirá de parâmetro pa;a
toda a filosofia futura. Dessa forma, o Iluminismo ode ser delimi-
tado pelas q.uatro gerações que a rangem o período entre as déca-
das de 1680 e 1790, a roximadamente. ·
s raízes do Iluminismo encravam-se no século XVII. Filósofos
pa 1a o um pensamento que se sentia submisso apenas à racionali-
dade. Descartes havia secularizado o critério para a verdade e havia
desvendado claramente seu reconhe'Cimento4). Spinoza o seguira44,
tão bem como Leibniz, que chegou a redigir um texto explicativo do
termo45• Muito embora os filósofos do século XVII tenham fornecido
o otencial argumentativo de que se serviram os iluministas do sé-
culo posterior e te am preparado o clima intelectual que viabili-
zou o Ilumfuismo, eles mesmos naq integram o movimento. Isso
vale também para Thomas Hobbes, em cuja obra, como nas de Ba-
con e Espinoza, encontram-se momentos de puro pensamento ilu-
mi.nista. Isso vale igualmente para Leibniz, cuja obra adentra pro-
43 Encontra-se, por exemplo, logo no início de suas Medilatio11es de prima pliilosop/ria
(Meditações sobre o início da filosofia), na sinopse. CEitvres de Descartes (Obras
de Descartes). Publicadas por Ch. Adam e P. Tanney. Reimpressão: Paris,
1982-1991 (nova apresentação), volume VII, 15. · ·
44 Ethica, ordine geo111elrico demonstra/a Parte l, proposição VIII. Opera (Obras), idem,
volume 11, 50.
45 Meditatio11es de cognitione, veritate e/ idris (Meditações sobre o conhecimento, a
verdade e as itléi<Js). Vic 11hilusoplriscln•1.1 idirifte11 (Os escritos filosóficos), idem
volume IV, 422-426.
. 24 LüTJ-li\R KREIMENüi\J-IL
fundamente o século XVIII e que decisivamente auxilia no-preparo
do terreno para o Iluminismo, em especial o alemão46, mas que, na
essência, é muito mais um representante do Racionalism.o do século
anterior que um arauto do novo tempo47• A reivindicação, também
feita por Leibniz, por clareza e exatidão de idéias, restringe-se ao
campo inofensivo da_ ciência, não se transformando em instrumento
de crítica social e, por isso mesmo, politicamente inoperante. Aliás,
Leibniz recomenda na filosofia política, por exemplo, e seguindo a
tradição augustiniana, que o estado mundano se espelhe no ideal do
Tei..no divino. Tal filosofia estatal nada tem de iluminista e não tinha
futuro algum. após H obbes, Spinoza e Locke terem apresentado
suas concepções· seculares .
46 Leibniz havia falecido em 1716. Uma visão mais aprofundada de sua obra so-
mente se tornou possível por meio da publicação das CE11vresp/1i/osoplriq11es
(Obras filosófirns), por R. E. Raspe, em 1765, que continham os No11vrn11x cssnis
s11r l'L'11/t.:111fc111c11t /111111ai11 (Novos ensaios sobre a compreensão humana), e da pu-
blicação da Opera 011111in (Obras compietas), em seis volumes, por L. Dutens, em
1768 .
. p Os espíritos se dividem na hora de atribuir Leibniz ao Iluminismo ou não. A
pesquisa mais antiga tende a colocar n i111e11snfig11rn de Leib11iz ( .. .)na ponta do l/11-
111i11is1110 11/e111iio. K. Vorlílnder: Die Plrilosoplrie der Nc11zeit. Die A11fkliin111g (A filo-
sofia da modernidade. O Iluminismo.), organizado por H. Knittermeyer. Rein-
bek p róximo a Hamburgo, 1971, 78. Essa percepção era partilhada por E. Cassi-
rl'r: Oic l'lri/o,;011/ric der /\11fkliir1111g (A. filosofia do Iluminismo). Tübingen, 1973,
163, G. Funke (org.): Dic A11fkliin111g. /11 n11sgewiilrltc11 Tcxtc11dnrgcstellt1111d ei11gele-
itet. (O lluminismo. Apresentado e introduzido através de textos escolhidos.)
Stuttgart, 1963, 45, e também S. Wollgast: Z11r Plrilosoplrie in Deutsclrln11d vo11 der
Rrfor111ntio11 bis wr A11fkliin111g (Estudo sobre a filosofia na Alemanha, desde a
Reforma até o lluminismo). Berlim, 1982, 3. Em oposição, L. W. Beck o considera
integrante do século XVII. Enrly Ger111n11 Plri/osoplry. Kn11t n11d /ris predecessors. Tex-
le 11ml Dnrstel/1111gr11 . (Prim(1rdios d;:i filosofin alemã. Kant e seus predecessores.
Textos e interpretações) . Apresentação cm alemão por N. 1-!inske e R. Specht.
Stuttgart, 1990. 18ss., Vierhaus: Wns wnr A11fkliin111g? (O que era lluminismo?)
idem, 5, Schnciders: Dns Zeilnller der /\11jkliir1111g (A época do Iluminismo), idem,
91ss, ]. Adler: artigo: Gen11n11y (Alemanha). In: Yolton (org.). The Blnckwell Co111-
pn11io11 to lhe E11lighle11111e11t (Uma introdução da Blackwell ao lluminismo), idem,
191ss.
,l•°'i •"' .. , ·. :·
INTROLJUC.,:ÂO 25
Ç/ século xym liga-se ao xyr1 de maneira muito forte, a ponto
de se poder falar de capítulo segücncial na história da filosofia4\ ao
cE"ial se poderia dar o tjt1ilo de aa da m:::.1Io 1' que poderia ser distin-
guido do Iluminismo do sérnlo XY!ll pela entrada de idéias e posi-
c{onarncntos qractcrísticos do Racjoqalismo. bem como por sua
apl.icação em aspectos de relevantes problemas sociais por parte do
Eúblico culto4Y. De qualquer forma, excetuando Hume, Rousseau e
Ka.rlt, não se encontra pensador·que rivalize em originalidade com
os ni.encionados filósofos do século anterior. O Iluminismo não
apresenta um novo tipo de filosofia, nem se desenvolvem grandes
nõvos sistemas"º, mas antes cristaliza-se uma nova forma de pên-
Sãr~1, que é independente do conteúdo ªPfesentado no século XVII e
se serve dos filosofemas então desenvolvidos, em arte para des-
ven ar problemas que não haviam se to1nado conscientes e, em
12arte, para superá-los com o uso desse instrumental. Os rri.eios em-
pregados eram escolhidos de acordo com o objetivo a ser alcançado.
A filosofia do Ilumi.n.ismo é, no todo, eclética/ em especial a francesa .
Assim, praticamente todas as frases de Voltaire com significado fi-
losófico têm comprovada fonte em Newton, Locke e Bayle. Até a ca-
beça filosófica mais original entre os plzilosoplzes franceses, o Abbé de
Condillac, já foi designado por Karl Marx de a/11110 e intérprete francês
4!l Assim também A. Kcnny: Jl/11stril'rlc Gesc/1ichtc dl'r WC'sf"lid1c11 Philosophic (Histó-
. · ria ilustrada da filosofia ocidental). Tradução para o alemão por H. Vetter.
Frankfurt e Nova York1 19951 121.
49 C. !3rinton: artigo: E11/ightc11111c11/ (Iluminismo). ln: P. Edwards (org.): Thc
·E11cyclopcrlin of Philosophy (Enciclopédia da Filosofia)1 volume II. Nova York e
Londres/ 19671 519.
50 Já em 1751, d1Alembert diagnosticava em seu Disco11rs préli111i11nin.> de
/'E11cyclopérlie (Discurso preliminar sobre a enciclopédiá) que o tempo dos siste-
m;is filosóficos h;ivi;i p;iss;ido e ;idverti;i, exprcss;iml'nlc1 cnntr;i o perigo que
íldvinhíl de seu emprego. Je;in Lerond ~I' J\ll'mbcrt: Ei11/cit1111~ :ur Em·ykloJ'iidic.
Trndução do francês e introdução por E. Kühler. H;imburgo119751 175, 177.
51 Vide cm C;issircr: Dic l'hi/osophii' der A11fkliin111g (A filosofiíl do lluminismo)1
idem. Para Cassirer1 o sig11ificnrlo prorl11li110 do pc11sn111e11to do J/11111i11is1110 não está
em rlefm11i11nrlo co11feúrlo i11telec/11nl, 111ns si111 110 uso q11e o l/11111i11is1110 fnz rio pc11sn:
111c11/o filosófico (IX e VII).
26 LOTHAR l<REIMENDAHL
próximo de Lockeº~. Isso porque seu empenho consistia na tentativa de
desenvolver convincentemente o empirismo inglês por meio da re-
flexão que Locke considernva como fonte independente do reconhe-
cimento ao lado dos sentidos. Ele julgava a capacidade de raciocínio
como meras sensações transformadas. Dessa forma executou a pas-
sagem do empirismo ao sensualismo, tornando-se seu iniciador mo-
derno. No entanto, essa tentativa publicada por Condillac em 1754
sob o título de Traité des sensntions (Tratado das sensações) é forte-
mente orientada pelo Essay de Locf<e, a ponto de que sua filosofia
não teria ocorrido sem o trabalho do britânico5J. A Encyclopédie de
Diderot e d' Alernbert serve-se de uma multiplicidade de verbe.tes
além dos de Locke, em especial de Francis Bacon, em assuntos teóri-
co-científicos, bem corno da obra filosófica de Christian Wolf.t., De
maneira especial, é notável que o conceito de filosofia encerrado na
Encyclopédie seja transcrição quase literal daquele contido no Discur-
.s11s prnelimi11nris de plii/osopliin i11 ge11ere (Discurso preliminar sobre a
filosofia em geral), de WolffS. ·
52 Fr. Engels/K. Marx: Ofr /1eilige Fa111ilir (A Sagrada Família). Obras, volume 2,
lkrlim, 197·1, 137.
53 Como o título já demonstra, a dependêncin de Condillac de Locke é aindn'mais
forte em sua primeira obra, o Essai s11r /'origine des co1111oisse11ces lw111aines (Ensaio
sobre a origem dos conhecimentos humanos), de 17~6.
54 M. Thornann chamou a atenção pnra isso. Une sorce pe11 co111111e de /'Encyc/opédie:
/' inf1 11ence de Chrisl ia11 Wolff. A eles d11 92r. cv11grcs 11ativ11al dcs sociétés scwm1/rs. Sec-
lion d'hisloire 111oda11e t!I co11te111poraine. (Urna fonte pouco conhecida· da Enciclo-
pédia: a influência de Christian Wolff. Anais do 92" congresso nacional das so- ·
ciedades de conhecimento. Seção da história modern<t e contemporânea). Paris,
1970, 95-11 O. Com base nisso, S. Carboncini pôde identificar uma série de outros
artigos: L'E11cyclopédieel C/1rislim1 Wolf!. A propos deq11elqrces artic/es a11011y111es, Les
él11des plrilosoplriq11cs (A Enciclopédia e Chris tian Wolff. A propósito de alguns .
artigos anônimos, Estudos filosóficos). (1987), 488-504, em especia l: 490-499.
55 N. Hinske chamou a atenção de maneira especial: Wolffs Stcllwrg i11 derde11tsc/1e11
A11fkliin111g (A posição de Wolff no Iluminismo alemão). ln: W. Schneiders (org).
C/1rislim1 Wolf/ (1679-1754). [11terprelatione11 zu seiner Phi/osophie lllld derell Wir-
kw1g. Mil eiller Bi/Jliogmphie der Wvlff-Litemlur (Christian Wolff (1679-1754).
Interpretações sobre sua fi losofia e sua a tuação. Com uma bibliografin da litera-
tura sobre Wolff). H amburgo, 1986, 308. . ...... ,
..
INTRODUÇÃO 27
A enorme expansão do pensamento iluminista estava ligada a
urna ~érie de pressupostos e condiçõ.es. Considerando a atualidade ·
dos ternas propostos, a comunicação entre os simpatizantes do Ilu-
minismo ocorria inicialmente apenas por yja Q,ral. Círculos priva-
dos, os salões e os cafés eram os lu ares em ue as conversas cons i-
rL oras podiam ser mantidas. No início, especialmente na França,
onde havia forte censura em o osi ão ao ue ocorria na ln la terra, a
ocurnenta ão escrita circulava apenas de mão em mão. Obras im-
pressas eram executadas, quando muito, em impressoras clandesti-
nas de lugares fictícios na Holanda liberal. Isso explicaa relativa-
mente elevada incidência de àbras francesas nã literatura clandesti-
nas1'. A.2 obras tinham de ser adaptadas ao público-alvo, qual seja, os
cidadãos cultos. Gradativamente o latim era substituído pela língua
nacional, dando-se P.f,C~ferência às formas mais agradáveis de leftu-
ra,1 como os ensaios dj\ílogas 011 relatos de viagens. sobre os volu-
~osos tratadoss7• O progresso na.J:écnica daimp.rensGLpossibilitava
maior rap~d~ e, conse_Qüentemente, uma reação mais rápida dos
iluministas a acontecimentos atuais. plém de baratear os custos, o
que ennilia atingir círculos mais aIT~ 'los. O mercado livreiro inter-
nacionalizava-se, e a crescente tendência ao jornalismo contri u1u
... pél.ra a eficácia do movimento jlumjnjs.ta.
56 R. Darnton lista 720 livros publicados clandestinamente nas duas dl'cadas que
precederam a Revolução Francesa. The Corp11s of Cla11desti11e Litem/11re i11 Fm11ce
1769-1789 (O corpus da literatura clandestina na França, de 1769 a 1789). Nova
York e Londres, 1995.
57 Como o Iluminismo atingia cada vez çírculos maiores a partir da filosofia, amal-
gamou-se com a literatura geral, de maneira que surginm peçns teatrais, sát iras,
fábulas e epigramas com conteúdo iluminista. Na música, algumas óperas de
Mozart, como A Flauta Mágica e As Bodas de Fígnro - principalmente devido a
seus libretos - , surgem como expressão pura do Iluminismo. Assim, por exem-
plo, I. Kramnick (org.): The Porlnble E11/iglite11111e11t Render (Leituras de bolso do
Iluminismo). Nova York, 1995, IX.
28 LOTH/\R KREIMEND/\HL
Características da filosofia do Iluminismo
De acordo com o diagnóstico homogeneizante de Cassirer, há
apenas poucos pe11sn111rntos i111portn11tes e f1111dn111e11tn is que dominam
a época da filosofia do Iluminismo e que lhe dão 1,lma certa unifor-
midade, de maneira que ela pode ser vista e interpretndn n partir de
1111111 (!) idéin ce11trnt~. Essas idéias fLmdamentais eram de natureza
genuinamente filosófica, istó é, a filosofia5~foi, desde o início, o motor do
J/11111 i11 is1110'"', tendo assim pernumecido. Nesse sentido, o século
XVIII é chamado, com razão, de siecle philosophique61 • Mesmo quando
próximo ao final do século o Ilu_minismo passou a ser p ressionado, a
crítica partia do ponto de vista filosófico'2•
58 Die l'lrilosoplrie der A1ifkliiru11g (A filosofia do Iluminismo), idem, VI, vide XII.
Tamb6m N. f-linske acreditn que o Iluminismo, como outros movimentos inte-
lectunis de umn épocn definidn, sejn suportado por detem1i11adas e defi11idas idéias e
estnbelece umn tipologin dns convicções básicns pnrn o Iluminismo alemão: Die
trnge11dc11 Grw1didee11 der deutscl1e11 A1ifkliir1111g. Versuclr ei11cr Typologie (As con-
vicções básicns do Iluminismo alemão. Tentntiva de estnbelecer umn tipologia).
ln: R. Ciafílrdone (org.). Dic Plrilosophie der de11tscl1e11 Aufkliir1111g, idem, 407-458;
nqui: 407.
59 P. Pütz: Die deutsclre Aiifk/iin111g (O Iluminismo alemão). Darmstadt 1991, 65.
60 Hinskc destacou o domínio da.fi losofin em árens em si não filosóficns, como n
tcologin, pedngogia e jurisprudência. Die trngeudell Grrmdidecll, idem, 410 ss.
61 Vide a autocaracterização do século dnda por d' Alembert já por volta de 1750:
Nol rc sifr/c s'csl do11c 11ppt•lé par cxccllcllce le siêcle de ln philosophie. (Nosso século
já é chamado de o século da filosofia por excelência.) Essai s11r les c!lé111c11ls de plrilo-
soplrie (Ensaio sobre os elementos de filosofia). (1759). Reimpressão da edição de
Pnris de 1805, com uma introdução .de R. N. Schwab. Hildesheim 1965, 9. Tnm-
bém Knnt oportunamente fala dessa época filosófica e crítica. Kritik der praktisclre11
Ven11111ft. Kn11/'s gesa111111c//e Sclrriftw (Crítica da razão prática. Escritos recolhi-
dos de Kant), idem, volume V,14.
62 Em relnção ils objeções de nutores como Johann Georg Hamann e Georg Chris-
toph Lichtenberg, na década de 1780, Friedrich Schiller faz um balanço dos re-
sultados do Iluminismo nas chamadas Cartas sobre a educação estética do ser ill1111n-
110, em especial nas quinta e oitava cartas, antes de os irmãos Schlegel nos Frag-
111e11tos do Ate11c11 fazerem a relação desse espírito negativo com o do
pré-romnntismo e August Wilhelm Schlegel, em suas preleções berlinenses so-
INTRODUÇi\O . 29
. A reivindicação básica do Iluminismo refere-se à autonomia do
sujeito. O Eu que havia sido descoberto no século XVII corno iniludí-
vel instância última de toda a certeza e que, corno fundamento da
visão filosófica de mundo, sofrera enorme valorização, deveria ago-
ra ser liberto de todos os laços da tradição por meio de um ato liber-
fador, com a restituição de seu direito original. Nesse sentido, o Ilu-
minismo num rimeiro momento 1 - · ' ão ma im
' restitui - O ser humano torna-se o centro do interesse. Alexan-
der Pope indica o caminho em seu poema didático An Essny 011 Mnn
(Um ensaio sobre o homem), de 173.3/34, nos versos: Tlze proper
s.tudy of Mt111ki11d is Mt111 (O interesse do estudo da humanidade é o
homem)"'. Kant aprova explicitamente . .esta idéia quando reduz a fi-
losofia a três perguntas: 1) Wns kn1111 ic/1 wissen? 2) Wns sol/ ic/1 tlz1111?
.1) W11:; c/111/ ic/1 l1C~ji·11? (Que possu conhL'L'L'r? (.?llL' ·devti fazn? Quç
posso esperar?) e as considera aspectos diferentes de uma pergunta:
4) Wns ist der Mensclz? (Que é o ser humario?), de maneira que a me-
tafísica, a moral e a religião, nas quais se abordam as primeiras três
perguntas, aparecem como ciências auxiliares da antropologia, qtie
. surge no século XVIII como disciplina autônorna'..i. Qesse mei.Q.:i.n-
tropológico há melhor possibilidade de compreensão do século
XVI II corno um todo e o movimento 1lurnin1sta, em especial. Isso
porque pensadores como Rousseau, q_uel a rigor/ não poderiam ser
cÕi\tados como iluministas, são abarcados por esse conceito.
A reivindicação por autonomia do indivíduo encontra uma
multiplicidade de ex ressões. Tudo o ue tem retensão or reco-
nhecimento precisa passar el ivo da razao. ssa posição crítica
impoe-se em to os os campos, sem excluir a política e a re 1giao.
T1_1do o que não passa nesse teste crítico é desmascarado como pre-
CQ.nceito ou superstição e, conseqüentemente, é menosprezado.
Assim, duas das metas do Iluminismo são os combates ao precon-
t"""" í' - ...._
bre literatura e belns artes1 no início do século XIX, empenhnr-se por uma avalia-
ção histórica e reflexiva, reunindo os principais pontos críticos.
63 Nn Essny 011 Mnn II, 2·' edição por M. Mack. Londres e New Haven, 1950, 53.
64 Logik ]iische. Km1t's gesn111111elte Schriften, ibidem, volume IX, 25.
1·
30 LOTHAR KREIMENDAHL
sei to e à superstição"-~. Como a maioria dos preconceitos teve· seu
c:.!·escimento em razões históricas. toma-se impn~scindível 9cu-
1;u-sc da história e discutir as tradi ·ücs critica1ncntc. Também aqui
Bay e indica o caminho. A sempre mencionada censura de que o Ilu-
minismo não leva em con:sideração a históriaM, por estar voltado a
uma razão independente no tempo e à imposição de suas reivindi-
cações, não encontra sustentação67, sem considerar o fato de que fi-
guras centrais do movimento, como Voltaire e Hume, projetaram-se
inicialmente como historiadores.
A racionalização de· toda a prática da vida é o meio de o Ilumi-
nismo atingir seu objetivo principal, gual seja, a entronização do su-
jeito racional e autônomo. Este ro rama fu da-se na · ão e
que a rea i a e apresenta uma ordem racional e que a razão - e·so-
J
mente ela - tem a caoacidade de erceber essa ordem ue uando
persegui a, proporciona ·o ro resso e ossibilita ao ser humano
atingir a e ic1 a ena medida do possíyel. O otimismo típico do Ilu-
minismo funda sua aceifração de uma isomorfia de realidade e ra-
~ Os céticos do período, entre eles Bayle e Hume, não consegui-
ram sacudir essa crença tanto quanto o terremoto de Lisboano ano
de 1755, quando justament~ no dia 1º de novembro- um feriado re-
ligioso católico - a terra tremeu a ponto de destruir catedrais e i'gre-
jas, soterrando os fiéis que se encontravam nelas. Apesar de os da-
dos sobre o número de vítimas variarem muito, foi novamente le-
vantada a questão de· como o Deus de bondade infinita e to-
do-poderoso poderia permitir que tal desgraça acontecesse. Ü·pro-
65 Vide em relação a isso estudo de W. Schneiders: A1ifkliir1111g 1md Vortei/skritik.
St11die11 z11r Geschic/1te der Vorwteilstheorie. Stt1ttgart-I3ad Cannstatt, 1982, e M.
Pott: A11fkliin111g 1111d Alie1sle111ll('. Dif: deutsc/1e Friilw11fk/iir1111g i111 Spiegel ihrcr Aber-
gla11úe11skritik. Tübingen, 1992.
66 Por exemplo, J. Hirschbcrgcr:· Gescliic/1tc da Plrilosoplrit'. Volume 2. Nc11zcit und
•·Gege11wart. Freiburgo, 1991;·246:-0 período do l/11111itíis1110 é extra-histórico.·
67 W. Krauss destacou isto com ênfase: O período do ll11llli11islllo desc11volve11 lllnior
co11sciê11cia histórica q11e o co11j1111/o de todos os períodos vividos l' sofridos a11/criormen-
te pc/11 hH1111111idade. ln: W. Krauss/H. Mayer (org.). Gn111dpositio11e11 der fra11z6?is-
chc11 A11fkliiru11g, ibidl'm, V III. ·::4:
--~ ........... -•.
'
INTRODUÇÃO
1
31
blema da teodicéia, sobre o qual Bayle e Leibniz haviam brigado no
início do sécu.lo e ao qual muitos pesquisadores atribuem função de
leit111otiv do século XVIII"", colocou-se, pelo mencionado motivo con-
creto, como ponto de discussão para círculos mais amplos. Aliás,
após Voltaire publicar a engraçada e muito lida, mas filosoficamen-
te pouco profunda prestação de contas da disputa com a Theodicée
de Leibniz e o otimismo do Iluminismo, o Candide, em 1759, a crença
no progresso estava tão abalada que este nunca mais recuperou sua
força de convencimento.
!::!g caminho da entronização do sujeito é necessário sobrepujar
muitos obstáculos ue estão formulados nas assim chamadas idéias
ciJ! uta . Mas, no lugar dos velhos valores, é necessário que se colo-
quem novos, direcionados a_.metas racionais, nos quais ganhe ex-
i;ressão o programa construtivo do Iluminismo. Entre esses valore;,,
a liberdade de pensamento assume lugar de destaque. Já Spinoza
em seu Tractatus Theologico-Politict1s reivindica essa liberdade, e
Kant considerou, em momento retrqspectivo, o uso independente
da razão como o lema do Iluminismo - com o que não se abarca a
obviedade do movimento, quando se questionam as fontes . Mas o
Sapere a.ude é para Kant muito mais uma máxima ética que a quintes-
sência história do período. Na realidade, os tempos eram pouco li-
berais, ao menos na Prússia, e o acerto da avaliação feita por Kant de
que ainda não se vivia numa era iluminada, (. . .) mas sim numa era de
Iltm1inisn10711, ele mesmo teve de comprovar quando, ainda em 1794,
recebeu uma focinheira .com a proibição de, em público, fazer uso de
sua própria inteligência quando se tratasse de assuntos ligados à re-
ligião.
68 Vide C.-F. Geyer: Das /nilr/wndert der Theodizee, Kn11t-Studie11 73 (1982), 393-405.
13. v. Wiese colocou a tragédia alemã da segunda metade do século sob o título
Trngiidie 1t11d Theodizee (Tragédia e teodicéia). Die de11tsc/1e Trngiidie von Lessi11g bis
Hebbel. Hamburgo, 1973.
69 Essa é a terminologia de Hinske: Die trngenden Gr1111didee11, ibidem, 426.
70 Was is! Aujkliir1111g? Kant's gesa111111e//e Scl1rifte11, ibidem, volume VIII, 40.
. 32 LOTHAR KREIMENDAHL
$omente a liberdade de ensamento não conse ue fixar con-
t~dos comprometi os unicamente com a racionalidape. Ela é, an-
tes de tudo, uma cond1çao para tanto. O m esmo ocorre em relação ás
chamadas ideias progmmnlicns, das quais há uma infinidade. Uma
das mais importantes articulava a aspiração à felicidade mundana,
para o que conta o desenvolv'imento dos talentos, das habilidades e
das tendências inerentes à natureza humana. Valores transcenden-
tais são relegados a um segundo plano. Na França, há empenho em
suprünir o cristianismo71 de1-i1aneira mais acintosa que na Inglater-
iã. Ali, devido às dificuldades desveladas quanto à fundamentação
d o ensino da Revelação Divina a partir de uma crítica histórica, bus-
cava-se minimizá-la e vinculá-la às m odernas ciências naturais sob
a denominação de deísmo72, até que Hume, em seu Enquiry Concer-
ning H1111ra11 Undestnnding (Questionamento referente à compreen-
são hum rovou que esse caminho não levava a lugar
algumn. a Alemanha r outro lado, onde o Iluminismo se desen-
volvera mais tarde e em grande proximidade ao Pietismo de Philipp
Jacob Spener e August Hermann Francke, a crítica radical à religião .
era uma exceção, conhecida apenas em textos de d'Holbach, Helve-
tius e outros;~. Aqui-ª teologia progressista acompanha o moviru.en-
to iluminista e procura adaptar-se aos novos tem os or meio da
71 A luta do Iluminismo francês contra a Igreja encontra sua expressão maior na
exclamaçiio Écrnscz /'i1ifii111c!, de Voltaire.
72 Vide G. V. Lechler: Geschichte dcs e11glische11 Dcis11111s. Reimpressão da edição de
Tübingen, de 1841. Com prefácio e bibliografia de G. Gawlick. Hildesheim,
1965.
73 Vide deste au tor: /-111111es friihc Krilik der l'hysikotheologie. ln: J. Kulenkampff
(org.). Dnvid /-111 111e: Eine U11tcrs11c/11111g ii/Jer de11 111e11schlic/1c11 Vers/n11d. I3erlim,
1997, 197-213.
74 O texto mais conhecido é, poss ivelmente, o anônimo De tri/J11s i111postoril111s, que,
pelas averiguações de W. Schroder, é de Johann Joachim Müller, do ano de 1688.
AnCmimo IJohann joachim Müllcr]: De h111ws/11 ri's rcligiu1111111 (De tril111s i111pos/ori-
/J11s). Von dcn Betriigereyen der Rcligio11c11. Dokwncn/e. Organizado criticamente e
comcntudo por W. Schrõdcr. Stuttgurt-Bad Canstatt, 1999, 63.
/
INTRODUÇÃO 33
·neologia75 • A questão antropológica sobre a Bestim1111111g des Mensche11
' (Definição do ser humano), título de um livro surgido em 174876, de
aufona do pastor prote'Stante Joltarnt Joachíh'i"3ptitdl:!ig, e que viria 'à
ser um dos mais editados na Alemanha no século XVIII, perpassa a
discussao e, como o Iluminismo alemão é mais onentado na mefafí-
sfca, em oposição à orientação científica e empírica inglesa e socio-
c'rit1ca= e matenaüsta francesa, autores como Thomas Abbt e Moses
.Mendelssohn debatem o tema com a consciência da vinculação do
ser humano aval res com fundamentação religiosa. Nas ilhas !Jntâ-
nic·as, Hutcheson, Hume e outros desen vo vem emas morais de
cunho utilitarista, que entendem que a felicidade é uma grandeza
unicamente do mundo interno e que os sistemas morais podem ser
entendidos como ensinamentos autônomos de moral e bons costu-
mes, urna vez que não há lugar dentro deles para Deus. Raciocínios
dessa natureza acabam assumindo um papel jurídico-político e aca-
bam na formulação dos direitos humanos. O francês La Mettrie, que
durante certo tempo foi leitor e médico particular de Frederico II,
apresentou uma ética que era especialmente chocante. Já em mea-
dos do século ele havia enquadrado o ser humano num sistema me-
cânico que funcionava restritamente conforme as leis dessa ciência e
que, conseqüentemente, localizava a felicidade como hedonismo a
serviço da satisfação das necessidades desse autômato. L'ho111me ma-
cliine (O homem máquina) é o programático título de sua obra.
· Outras idéias programáticas vinculam-se a ela. Como a realida-
de e a-razão se fundam em estruturas isomorfas, há a possibilidade
de que a parte mais proeminente da realidade, o ser humano, possa
gradativamente cultivar sua razão, e isso significa que ele acaba se
desenvolvendo em um ser moral. A metáfora da luz gue advém do
sol e acaba dis ersando a neblina da i norância era utilizada ara
in icar o ob"etivo a redominância da razão. Ela transparece nas
75 Vide a respeito disso K. Aner: Oic Tlzcologic drr Lcssi11g::cit. Halle, 1929. Reim-
press;ioHildesl1L'im, 19(,.1, l' W. Philipp: D11~ l.Ycnln1der1\11jk/iir1111s i11 t/1('t>/c>gic-
gesclzicl1tliclzcr Sid11. Giittingen, 1957. ·
76 Já cm 179.f estava disponível a 13" t'diçílo.
34 LOTHAR KREIMENDAHL
palavras Ilc1111i11is1110, lumieres, illu111i11is1110 e e11liglzte11111e11t, e uma sé-
rie de gravuras concernentes ilustra obras da épocan. A história da
filosofia busca o sentido e o objetivo da História e encontra resposta
ná"progressão a uma maior moralidade. Nesse sentido discute-se
controversamente a questão: essa progressão é realizável pelo indi-
víduo, de maneira que a espécie fica num sobe-e-desce permanente,
sempre no mesmo nível, como Mendelssohn disse, voltando-se à
obra de Lessing7x; ou, como afirmava Kant em um ensaio, apenas a
espécie avança, mas não o indivíduo, de maneira que a atual gera-
ção se posiciona sobre os ombros da anterior7'1; ou, ainda, como Frie-
drich Schiller se expressa~.ª em oposição a isso, o progresso da espé-
cie ocorre em detrimento dos objetivos do indivíduolll.l. Q meio de
encontrar essa perfeição é a educação, tanto ara o indivíduo corio
para a especie. O ponto de ·sta ibera e John oc e, defendido
sob o título de Some Thoughts Conceming Education (Alguns pensa-
mentos referentes à educação), publicado em 1693, destaca a neces-
sidade de se respeitarem as habilidades e necessidades individua.is
de cada criança no processo educativo. Seu princípio pedagógico
era coerente com a convicção iluminista e exerceu grande influência
· não apenas sobre o romance educativo É111ile, de Rousseau (1762). Se
pedagogos como Basedow e Pestalozzi insistem na educação do' in-
divíduo, isso ocorre porque o olho pedagógico direciona-se à ques-
tão de saber se a espécie 0 educ<lvel ou não. Lessing percebe a Histó-
ria como sendo a ed11caçiio dn espécie /111111n11n na busca por uma mora-
77 W. Schneiders examinou-a com mais cuidado: Hoff111111g nuf Vem1111ft. A11fklii-
rr111gsphi/osophie i11 De11lsc/1/n11d. Hamburgo, 1990, 83-93.
78 ferusnle111 oder iiber die religiiise Mnc/11 111u/ /111/C'lll11111 (1783). Moses Monddssohn:
Gesn111111elle Sclrriflm. f 11bilii11111sn11sgnbe. Iniciada por!. Elbogen, J.·Guttmann, E.
Mittwoch. Continuada por A. Altmann. Em conjunto com H. Bar-Dayan, E.
Engel, L. Strauss. Volume 8. Stuttgart-Bad Canstatt, 1983, 162s.
79 Idee1! ~11 eilier n/lge111ei11e11 . Çeschic/1le i11. 1vellbiirgerlicher Absiclzl, Zweiler Sntz.
:.Knnt's gesnmme/le Sc/rriflen, .ibidem, volume VIII, 18,
80 Über die iistlzelisc/1e Erzie/11111g des Me11sc/1e/l ill eiller Reilre 11011 Briefe11. Seclrsler Brief.
Sc/ril/ers Werke. Nntio11nlnusgnbe. Volume 20. Com colaboração de H. Koopmann,
organizado por B. v. Wiese. Weimar, 1962, 327s. . ..... ·
~INTRODUÇÃO l 35
lidade autónoma. Também Schiller quer lapidar a moral ào ser hu-
mano, mas ele não aposta no imperceptível pnsso da providênciax1, ele
mesmo assume e acredita no desenvolvimento da mô~alidade por ·
meio do caminho indireto da educação estética do ser lzumnno82•
Tendências contrárias ao Iluminismo
~pesar de o Iluminsimo ser inquestionavelmente a maior ~or
rente intelectual do século XVIII. este século não se esgota nele. Nas
Ilhas Britânicas, o.futuro bispo irlandês George Berkeley é o filósofo
de renome que assume posição contrária ao movimento. Ele vê are-
ligião cristã ameaçada pelc{ateísmo e ceticismo it já em seu Trentise
Concerning the Principies of Human Knowledge (1710), desenvolve sua
defesa por meio de uma metafísica original- a filosofia do imateria-
lismo. D~acordo com Berkeley, o ceticismo e o ateísmo se fundam
n~ materialismo, que ele entende ser a aceitação da ex1stencia de
uma matéria independente da consciência. Esse materialismo, por
s .. eu lado, funda-se nos sucessos obtidos pelas modernas-newtonia-
nas - ciências e na recente - locken1ana - ftlosofta, de maneira que
.,,.
Berkele recisa entrar em confronto com essas duas obras filosó-
ficas que são determinantes para o Iluminismo. Sua /zi o ese 11nn e-
na/ , e a qual o ser consiste no ser- ercebi o ou no erceber, pode
p~r.ece,r .• absurel.ii-à .. pr.imeii:a ~s.e.la-EUãa bem fundamenta a,
que ainda Kant considerava um escândalo que se tinha de aceitar a
81 Die Erzie/11111g des Menschengesc/1/echts. Gott!1old Ephraim Lessing: Werke. Em tra-
balho conjunto de K. Eibl, H. Gobel, K. S. Guthke entre outros, organizada por
H. G. Gõfert. Volume VIII. Munique, 1979, § 91, p. 509.
82 Pela concepção da 23• carta: somente a partir do estado estético ... pode desemio/ver-se
o 111ornl. Werke, ibidem, 385. .
83 Na formulação de seus Phi/osophical Comme11/aries diz: Exislere is percipi or perci-
pere. Philosophical Works l11c/11di11g lhe Works 011 Visio11. Editado por M. Ayers.
Londres, 1993, § 429, p. 354.
36 LOTHAR KREIM.END/\HL
· existência das coisas fora de 11ós pela fé pura e que até então não havia
prova convincente de sua real ex.istênciax~. Ele dedicou-se a essa ta-
refa na Crítica da razão pura - com questionável sucesso.
Na França, em ir1eados do século, havia surgido, com Rousse-
au, um pensador original que, por meio de sua crítica socialx5, se
opôs à crença no Iluminismo e ·às ex12ectativas exageradas de que a
técpica e a civilização trariam o be'in-estar geral, não se submetendo
~Rousseau exerceu enorme influência úa França e também na
Alemanha, onde sua Nouvelle Héloise (1761) foi marcante para a se11-
sibilidade das percepções de vida da jovem geração da década de
1860, além de influenciar decisivamente o desenvolvimento filosófi-
co de Kant na· filosofia moral"''.
Como nos demais países centrais da Europa, também na Ale-
ma.nhà outras tradições de pensamento e de vida se mantêm ao lado
<Ío Ilumirusmo e, em parte, têm profundas raízes históricª's. Por isso
mesmo não se deixam desbancar facilmente e exercem forte oposi-
ção às tentativas de extin ui-las, uma vez que, segundo os iluminis-
as, não tinham fundamenta ão em s.
J_gumas vezes chêgava-se ao confronto. Na Alem, 1a, es ao en
esses movimentos a ortodoxia protestante, bem como o pietismo,
que durante certo tempo se aliou ao Iluminismo, aproveitando sua
reivindicação por tolerância religiosa, mas que, após o fortalecimen-
to deste, torna-se igualmente intolerante, como bem demonstram os
acontecimentos em Halle. Pé décadas de 1760 e 1770 levam na Ale-
manha a uma corrente conhecida por sua sensibilidade e gue adotou
o sentimento como parâmetro para as coisas, culminando no movi-
~ento denominado de St11r111 und Drang (tempestade e ânsia) .. ..0 gri-
84 Krilik der rei11e11 Venr1111ft. Re~ditado conforme as primeira e segunda edições
originais por R. Schmidt. H;imburgo, 1971, volume XXXIX, observações.
85 No primeiro d iscurso de 1750 sobre a questão colocada pela Academia de Dijon,
Si /e rétablisse111e11t des scie11ces et des arts a co11trib11é à épurer Jes 111oe11rs.
86 Em nota autobiográfica, Kant constata: Ro11ssea11111e co11serto11 . Kn11t's gcsn111111elte
Schriftc11, ibidem, volume XX, 44.
·' .
.. ·~·. ""
INTRODUÇÃO 37
to de guerra aparece em 111 Tircmnos";, mas prefere maior originalida-
de do que aquela conseguida por meio de conhecimentos adquiri-
dos por meio da racionalidade, o que le\ra à primeira crise séria do
Iluminismo. Johann Georg Hamann, cuja vida corre paralela ao alto
Iluminismo alemão, é um pensador que se coloca contra o Zeitgeist
(espírito da época) reinante .. Para ele, à verdade é um assunto reli-
gioso, não racional. Este ponto de vista Hamann também defende
em relação a Kant, submetendo a filosofia transcendental deste e
todo o Iluminismo a uma forte crítica - e isso com claros meios filo-
sóficos"". E, finalmente, Georg Christoph Lichtenberg também é um
filho do Iluminismo, mas não se apega a ele. Os aforismas de seus
S.itrlr:lbiiclter buscam no ser humano os pontos altos e baixos e ex-
cluem qualquer tentativade consenso. Dele provém uma das me-
lhores definições de Iluminismo: ll11111i11is1110 em todos os 11Íl1eis (so-
ciais) consiste cn1 co11ccit1111r corrc/11111c11tL' 11~ 11ossns 11cccssid11dcs cssc11-
cinis"". Mas ele também sabia que era qiinsc impossíz'L'i rnrregnr n tocha
dn verdade 11/mués de 11n111 n111//irliio sc111c/11111111scnr11 /l(lr/,11de11lg11l;111"".
O fim do Iluminismo alemão prenuncia-se dentro da própria fi-
losofia por meio de um filosofar eclético que se cristaliza a partir do
declinio do wolffianismo e que tem em Mendelssohn seu represen-
tante nrnior. Estes são os anos em que ocorre o desenvolvimento fi-
losófico de Kant, que leva à filosofia transcendental. Ele se constitui
no encerramento e na superação do Iluminismo, tornando-se ponto
de partida para uma nova corrente filosófica - o Idealismo alemão-,
que ainda se forma no século XVIII, mas chega ao desdobramento
pleno somente no século seguinte.
87 A vinheta do título da segunda edição do dmma de Schiller Die Rii11bcr contém
essa inscrição, embora não provenha do próprio Schiller.
88 Sua crítica ao Iluminismo fica muito clara em.carta a Christian Jakob Kraus, de
18.12.178-1. Johann Georg Hamann: Bricfi{lcchscl. Volume V, organizad'il por
Arthur Henkel. Frankfurt/Meno, 1965, 289-292.
89 Aforisma J 2-16. Georg Christoph Lichtenberg: Schriftcn 1md Bricfe. Organizada
por W. Promies. Volume 1. Munique, 1968, 688.
90 Aforisma G 13. Schriftm 1md Briefe, ibidem, volume 2, 135.
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