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SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 1 Sistemas e Tratamento de Efluentes SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 2 Sistemas e Tratamento de Efluentes 1. Introdução Observa-se que o principal problema na atualidade está associado à falta de água potável no mundo, devido a uma gestão inadequada dos recursos hídricos. A contaminação da água, uma das principais questões a ser analisada nesta disciplina, tem como causa a falta de saneamento básico e o lançamento de esgoto doméstico in natura, a descarga de dejetos industriais sem o devido tratamento e a contaminação por produtos químicos provenientes de atividades agrícolas. Sem dúvida, o consumo de água no mundo aumentou em razão do crescimento populacional e a consequente maior demanda pela produção de alimentos, bem como a necessidade de uma maior oferta de água frente ao crescimento dos centros urbanos. Se levarmos em conta que a maioria dos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento lança as águas residuais nos rios, lagos e oceanos sem nenhum tipo de tratamento, constataremos que há uma grave ameaça à saúde da população e o comprometimento do acesso à água potável. O aumento da industrialização também se torna uma ameaça, pois muitas indústrias são altamente poluentes e grandes consumidoras de água, especialmente nos países desenvolvidos. O cálculo apresentado pelas pesquisas é de que as indústrias chegam a utilizar entre a metade e 3/4 de toda a água extraída do mundo, já que em determinados processos produtivos chega-se a gastar toneladas de litros d’água e produzir toneladas equivalentes de efluente contaminado. As grandes poluidoras a se destacar são as indústrias de produtos químicos, polpa e papel, entre outras, em função do processo que utilizam em suas atividades. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 3 Visto, então, que se trata de um recurso básico para nossa sobrevivência e de alta utilização, nada mais justo que tratemos os efluentes com a coleta e o tratamento de esgotos, que atendam aos aspectos sanitários e legais para devolvê-lo à natureza da forma mais adequada possível para que seja reaproveitado sem que contenha agentes nocivos que a poluam e à proteção dos mananciais. Fundamentos Segundo a Organização Mundial de Saúde – OMS, Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, não apenas a ausência de doença ou enfermidade. Através da análise dos dados históricos, temos que a questão da saúde se encontra com as condições ambientais em que a comunidade se insere. Surge, então, a Saúde Pública como a ciência e a arte de promover, proteger e recuperar a saúde, através de medidas de alcance coletivo e de motivação da população, num esforço organizado em prol da saúde tal como entendida pela OMS. Deste modo, o Saneamento é o controle dos fatores do meio físico, que exercem ou podem exercer efeitos sobre o bem-estar do homem, consistente em um conjunto de medidas que tende a modificar o meio e quebrar o elo da cadeia de transmissão de doenças com o propósito de promoção e proteção da saúde. O saneamento adquire, assim, grande importância econômica, pois reduz o número de enfermidades e de mortes de indivíduos e o gasto com internações hospitalares. Com a construção de um sistema de esgoto sanitário numa comunidade, procura-se atingir os seguintes objetivos: Melhoria das condições higiênicas locais e consequente aumento da produtividade; Conservação de recursos naturais, especialmente das águas; Coleta e afastamento rápido e seguro do esgoto sanitário; SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 4 Disposição sanitariamente adequada do efluente; Eliminação de focos de poluição e contaminação, assim como de aspectos estéticos desagradáveis; Proteção de comunidades e estabelecimento de jusante; Diminuição dos custos no tratamento de águas para abastecimento, ocasionados pela poluição dos mananciais; Redução de gastos públicos com campanhas de imunização e/ou erradicação de moléstias endêmicas ou epidêmicas. Breve história do esgotamento sanitário Os primeiros sistemas de esgotamento executados pelo homem foram projetados para protegê-lo das vazões pluviais, pois não havia sistemas de recolhimentos de dejetos subterrâneos, mas abertos, o que se tornava um problema quando da ocorrência de chuvas. Desde a antiguidade, quando consumimos a água, geramos vazões de águas residuárias ou esgotos, que precisam ser devidamente coletadas e transportadas com rapidez e segurança para regiões afastadas do núcleo comunitário, para passar por processos de tratamento adequados antes do lançamento nos corpos receptores. Historicamente, observamos que as civilizações primitivas não se destacaram por práticas higiênicas individuais por razões sanitárias, mas por religiosidade, de modo a se apresentarem puros aos olhos dos deuses a fim de não serem castigados com doenças. Os primeiros indícios de tratamento científico do assunto, ou seja, de que as doenças não eram exclusivamente castigos divinos, começaram a aparecer na Grécia, por volta dos anos 500 a. C., com Empédocles de Agrigenco, que construiu obras de drenagem das águas estagnadas dos rios no litoral sul da Sicília, visando combater uma epidemia de malária. No entanto, a repercussão deste tipo de prestação de serviços foi prioridade apenas em áreas SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 5 nobres das cidades gregas e romanas, onde os moradores tinham de pagar pelo uso do serviço, tornando-se um serviço para a elite. Com a queda do Império romano, em 476, iniciou-se uma fusão de culturas clássicas, bárbaras e ensinamentos cristãos, centralizando em Constantinopla grande parte dos conhecimentos científicos, iniciando o Período medieval europeu – a “Idade das Trevas”. Neste período, o conhecimento científico restringiu-se ao interior dos mosteiros. As instalações sanitárias, como encanamentos de água e esgotamentos canalizados, ficaram por conta da iniciativa eclesiástica, mas com clara defasagem com relação às práticas mais antigas. Enquanto no século IX, a cidade do Cairo, no Egito, já dispunha de um serviço público de adução de água encanada, por exemplo, apenas em 1310 os franciscanos concordaram em que habitantes da cidade de Southampton utilizassem a água excedente de um convento que tinha um sistema próprio de abastecimento de água desde 1290. Com o constante crescimento das aglomerações humanas e a necessidade cada vez maior de água de consumo e a consequente geração de efluentes, o transtorno de poluir os corpos receptores e causar desequilíbrios ecológicos com danos ao meio ambiente se torna cada vez mais evidente. O que se observa nas cidades que possuem um sistema de abastecimento de água, mas não possuem um sistema de abastecimento de esgotos, é que as águas servidas acabam por contaminar e poluir o solo, as águas superficiais e lençóis freáticos, contribuindo para a disseminação de doenças. As primeiras leis públicas de instalação, controle e uso de serviços de esgotamento sanitário têm origem a partir do século XIV. A partir do século XVI, com a crescente poluição dos mananciais de água, o maior problema era o destino dos esgotos e do lixo urbanos. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 6 No século seguinte, o abastecimento de água urbano teve largo desenvolvimento, pois se passou a empregar bombeamentos com máquinas movidas a vapor e tubos de ferro fundido para recalques de água, na Alemanha, juntamente com a formação de empresas especializadas em fornecimento de água. Osestudos de John Snow, o movimento iluminista, a revolução industrial e as mudanças agrárias provocaram alterações no final do século XVIII, transformando o antigo panorama de ruas estreitas e sinuosas em avenidas largas e alinhadas, pavimentadas, iluminadas e drenadas. A distribuição de água encanada e das peças sanitárias com descarga hídrica fez com que a água passasse a ser utilizada com uma nova função, a de afastar os dejetos e outras sujeiras indesejáveis do ambiente de vivência. A evolução dos conhecimentos científicos, inclusive na área de saúde pública, tornou imprescindível a necessidade de canalizar as vazões de esgoto de origem doméstica e os efluentes domésticos e industriais para as galerias de águas pluviais existentes, dando origem ao Sistema Unitário de Esgotos, no qual todos os esgotos eram reunidos em uma só canalização e lançados nos rios e lagos receptores. Fatos como a epidemia de cólera de 1831/32 chamaram a atenção para a necessidade de um serviço de saneamento nas cidades, pois evidenciou que a doença era mais intensa em áreas urbanas carentes de saneamento efetivo, ou seja, em áreas mais poluídas por excrementos e lixo. No final do século XIX, a construção dos sistemas unitários propagou-se pelas principais cidades do mundo. Nas cidades situadas em regiões tropicais e equatoriais, com índices pluviométricos de cinco a seis vezes maiores que a média europeia, a adoção de sistemas unitários tornou-se inviável devido ao elevado custo das obras, pois a construção das avantajadas galerias transportadoras das vazões máximas contrapunham-se às desfavoráveis condições econômicas. No entanto, a SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 7 evolução tecnológica e a necessidade do intercâmbio comercial forçavam a instalação de medidas sanitárias eficientes, pois a proliferação de pestes e doenças contagiosas em cidades desprovidas dessas iniciativas propiciavam aos seus visitantes os mesmos riscos de contaminação, gerando insegurança e risco de contaminação da tripulação, causando prejuízos da mesma forma. No Brasil, os portos do Rio de Janeiro e de Santos temiam os efeitos deste desastre econômico; assim, o imperador D. Pedro II contratou profissionais ingleses para elaborarem e implantarem sistemas de esgotamento para o Rio de Janeiro e São Paulo - na época, as principais cidades brasileiras. Foi pensado um sistema diferenciado, no qual eram coletadas e conduzidas às galerias, além das águas residuárias domésticas, apenas as vazões pluviais provenientes das áreas pavimentadas interiores aos lotes (telhados, pátios etc.). Criava-se, então, o Sistema Separador Parcial, cujo objetivo seria reduzir os custos de implantação e as tarifas a serem pagas pelos usuários. Sistema separador absoluto Fonte: Adaptado de Von Sperling (2005) Em 1879, o engenheiro George Waring foi contratado para projetar um sistema de esgotos para a cidade de Memphis, no Tennesee, EUA, região onde predominava uma economia rural e pobre. Waring, então, projetou um sistema SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 8 de coleta e remoção das águas residuárias domésticas, excluindo as vazões pluviais no cálculo dos condutos. Estava criado o Sistema Separador Absoluto, constituído de uma rede coletora de esgotos sanitários e outra exclusiva para águas pluviais, que foi rapidamente difundido pelo resto do mundo. No Brasil, destacou-se na divulgação do novo sistema Saturnino Brito, cujos estudos fizeram com que, a partir de 1912, o separador absoluto passasse a ser adotado obrigatoriamente no país. Elementos de um sistema de esgotamento sanitário O Sistema de Esgotos Sanitários é o conjunto de obras e instalações destinadas a realizar a coleta, o transporte e o afastamento, o tratamento e a disposição final das águas residuais de uma comunidade, de forma sanitária adequada. O conjunto de condutos e obras destinado a coletar e transportar as vazões para um determinado local de convergência é denominado Rede Coletora de Esgotos. A coleta e o transporte das águas residuais, desde a origem até o lançamento final, constituem o fundamento básico de um sistema de saneamento. Os condutos que recolhem e transportam essas vazões são denominados de coletores e o seu conjunto compõe a rede coletora. A rede coletora, os emissários e as unidades de tratamento constituem o sistema de esgotos sanitários. Para este estudo, cabe conhecermos alguns conceitos que embasam o entendimento do sistema de esgotamento sanitário: Bacia de Drenagem: área delimitada pelos coletores que contribuem para um determinado ponto de reunião das vazões finais coletadas nessa área. Caixa de Passagem (CP): câmara subterrânea sem acesso, localizada em pontos singulares por necessidade construtiva e econômica do projeto. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 9 Coletor de Esgoto: tubulação subterrânea da rede coletora que recebe contribuição de esgotos em qualquer ponto ao longo de seu comprimento, também chamado coletor público. Coletor Principal: coletor de esgotos de maior extensão dentro de uma mesma bacia. Coletor Tronco: tubulação do sistema coletor que recebe apenas as contribuições de outros coletores. Corpo Receptor: curso ou massa de água onde é lançado o efluente final do sistema de esgotos. Diâmetro Nominal (DN): número que serve para indicar as dimensões da tubulação e acessórios. Emissário: canalização que deve receber esgoto exclusivamente em sua extremidade de montante, pois se destina apenas ao transporte das vazões reunidas. Estação Elevatória de Esgotos (EEE): conjunto de equipamentos, em geral dentro de uma edificação subterrânea, destinado a promover o recalque das vazões dos esgotos coletados a montante. Estação de Tratamento de Esgotos (ETE): unidade do sistema destinada a propiciar ao esgoto recolhido ser devolvido à natureza sem prejuízo ao meio ambiente. Interceptor: canalização que recolhe contribuições de uma série de coletores de modo a evitar que deságuem em uma área a proteger, por exemplo, uma praia, um lago, um rio. Ligação Predial: trecho do coletor predial situado entre o limite do lote e o coletor público. Órgãos Acessórios: dispositivos fixos sem equipamentos mecânicos (definição da NBR 9649/86 - ABNT). Passagem forçada: trecho com escoamento sob pressão, sem rebaixamento. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 10 Poço de Visita (PV): câmara visitável destinada a permitir a inspeção e trabalhos de manutenção preventiva ou corretiva nas canalizações - é um exemplo de órgão acessório. Profundidade do Coletor: a diferença de nível entre a superfície do terreno e a geratriz inferior interna do coletor. Recobrimento do tubo coletor: diferença de nível entre a superfície do terreno e a geratriz superior externa do tubo coletor. Rede Coletora: conjunto de condutos e órgãos acessórios destinados à coleta e remoção dos despejos gerados nas edificações, através dos coletores ou ramais prediais. Sifão Invertido: trecho de conduto rebaixado e sob pressão, com a finalidade de passar sob obstáculos que não podem ser transpassados em linha reta. Sistema Coletor: Todo o conjunto sanitário, constituído pela rede coletora, emissários, interceptores, estações elevatórias e órgãos complementares e acessórios. Tanque Fluxível: reservatório subterrâneo de água destinado a fornecer descargas periódicas sob pressão dentro dos trechos de coletores sujeitos a sedimentação de material sólido, para prevenção contra obstruções porsedimentação progressiva. Terminal de Limpeza (TL): dispositivo que permite introdução de equipamentos de limpeza, localizado na extremidade de montante dos coletores. Trecho de coletor: segmento de coletor, interceptor ou emissário limitado por duas singularidades consecutivas, por exemplo, dois poços de visita. Tubo de Inspeção e Limpeza (TIL): dispositivo não visitável que permite a inspeção externa do trecho e a introdução de equipamentos de limpeza. Tubo de Queda (TQ): dispositivo instalado no PV de modo a permitir que o trecho de coletor a montante deságue no fundo do poço1. 1 Fonte: http://www.ceap.br/material/MAT15052014142755.pdf SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 11 Concepção de Rede de Esgotamento Sanitário Para o estudo de concepção de sistemas de esgoto sanitário, é necessário o desenvolvimento de uma série de atividades, sendo as principais: Dados e características da comunidade (localização; infraestrutura existente; cadastro dos sistemas existentes: abastecimento de água, esgoto sanitário, galerias de águas pluviais, pavimentação, telefone, energia etc. e condições sanitárias atuais); Análise do sistema de esgoto sanitário existente; Estudos demográficos e de uso e ocupação do solo (dados censitários, pesquisas de campo, análise socioeconômica do município, plano diretor da cidade, projeção da população da cidade etc.); Critérios e parâmetros de projeto (consumo efetivo per capita, coeficientes de variação de vazão – k1, k2 e k3, coeficientes de contribuição industrial, coeficiente de retorno esgoto/água, vazão de infiltração etc.); Cálculo das contribuições (doméstica, industrial e de infiltração ano a ano, por bacia ou sub-bacia); Formulação criteriosa das alternativas de concepção (estimativa de custo das alternativas estudadas e comparação técnico-econômica e ambiental das alternativas); Estudo de corpos receptores (vazões características, cotas de inundação, condições sanitárias e usos de montante e jusante atuais e futuros, aspectos legais da Resolução 20/90 do CONAMA e das legislações estaduais e municipais). Sistemas alternativos SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 12 As redes de esgotos representam cerca de 75% do custo de implantação de um sistema de esgoto sanitário, os coletores tronco 10%, as elevatórias 1%, e as estações de tratamento 14%. Devido ao alto custo da construção das redes, têm sido apresentados alguns sistemas alternativos para coleta e transporte, visando à diminuição dos custos das redes de esgotos, tais como Sistema Condominial de Esgoto ou Rede Coletora de Baixa Declividade. Sistema Condominial O condominial foi desenvolvido no Rio Grande do Norte, espalhando-se para outros estados brasileiros com pequenas adaptações. Esse sistema é uma forma de concepção de traçados de redes, cuja ideia central de sua implementação é a formação de condomínios, em grupos de usuários, em nível de quadra urbana como unidade de esgotamento. No aspecto físico, o ramal condominial, constitui uma rede de tubulações que passa quase sempre entre os quintais no interior dos lotes, cortando-os no sentido transversal. Intercalada nesta rede interna à quadra, de pequena profundidade, encontra-se em cada quintal, uma caixa de inspeção à qual se conectam as instalações sanitárias prediais, independentemente, constituindo um ramal multifamiliar. No aspecto social, resulta da formação de um condomínio, ou de condomínios, na quadra urbana, abrangendo o conjunto de usuários interligados pelo ramal multifamiliar. O condomínio, informal, é alcançado através de pacto entre vizinhos, o qual possibilita o assentamento dos ramais em lotes particulares e disciplina a participação dos condôminos no desenvolvimento dos trabalhos. A execução das obras é realizada pelos usuários do sistema com a ajuda do município ou empresa de saneamento básico. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 13 O traçado mais racional é discutido com os usuários e apresentado como padrão do serviço, permitindo modificações, desde que sejam assumidos os ônus adicionais por quem assim desejar. A operação e manutenção desse ramal é de responsabilidade do próprio condomínio, com cada condômino assumindo sua parcela do sistema que integra a rede coletora. Rede Coletora de Baixa Declividade Em áreas planas ou onde o terreno apresenta baixas declividades, a implantação e operação de redes coletoras de esgoto sanitário podem tornar-se bastante onerosas. Estas condições estão presentes, por exemplo, em um grande número de cidades litorâneas da costa brasileira. Nestes locais há uma situação de áreas planas com solos moles e lençol freático alto, exigindo disposições construtivas especiais, como escoramento contínuo de valas, rebaixamento do lençol, fundações especiais para a tubulação etc. Em consequência, a incidência dos custos relativos à escavação, escoramento, reaterro e recomposição da via se situa na faixa dos 80 a 90% do custo total de implantação. O custo nessas áreas eleva-se também pelo emprego de estações elevatórias de esgoto nesses locais. A busca de soluções de menor custo de implantação e operação de redes coletoras de esgotos para as situações antes descritas levou ao desenvolvimento das redes coletoras de baixa declividade. Trata-se de solução em que a rede é assentada a declividades drasticamente reduzidas, bem menores que as resultantes dos cálculos propostos na normalização com as vazões originais de dimensionamento. Para um coletor atendendo ao mesmo trecho, porém com uma declividade muitíssimo menor, observa-se a montante do trecho a presença de um dispositivo gerador de descargas (DGD) que através de suas descargas de esgoto origina o escoamento requerido para o transporte da carga sólida depositada, como na cidade de Guarujá, Estado de São Paulo. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 14 Ligações prediais e vazões de esgotos Os sistemas de ligações dos ramais prediais nos coletores de esgoto podem ser principalmente de dois tipos: sistema radial e sistema ortogonal. No sistema radial, dois ou mais ramais prediais são conectados ao coletor em um único ponto de ligação pré-definido. Neste sistema, o ramal interno e o ramal predial geralmente não ficam num mesmo alinhamento. É frequentemente empregado em áreas povoadas, com predominância de lotes estreitos (até 10 m de fachada) com até dois pavimentos ou em arruamentos com construções geminadas. No sistema ortogonal, diversamente do radial, para cada ramal predial haverá um ponto de conexão no coletor. Normalmente os ramais prediais são perpendiculares ao alinhamento da propriedade e no mesmo plano vertical do ramal interno. Este sistema é mais frequente em loteamentos de grandes fachadas (mais de 10 m) ou em conjuntos populares com construção simultânea de rede coletora convencional. As vazões para dimensionamento dos trechos de uma rede coletora são compostas por três parcelas: Contribuições devido ao esgoto doméstico Contribuições concentradas Contribuição de águas de infiltração Contribuição de Esgoto Doméstico SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 15 Calculadas para início e final do Alcance do Projeto. A consideração para o início do projeto é devida principalmente à condição mais crítica com relação à inclinação mínima que deve ter um coletor de modo que o material sólido não seja sedimentado no mesmo. Os valores usualmente empregados noBrasil variam entre 0,75 e 0,85. A Norma NBR 9649/86 recomenda adotar, na falta de dados confiáveis, C = 0,80. No entanto, o coeficiente de retorno pode variar desde 0,60 até 1,30, sendo que quando este é maior do que 1,0 indica que existem vazões provenientes de outras fontes de abastecimento como consumo de água de chuva, abastecimento próprio de indústrias etc. As cidades brasileiras geralmente apresentam o traçado das ruas em forma de xadrez com um padrão no qual a extensão das vias públicas por hectare varia relativamente pouco. Na cidade de São Paulo, por exemplo, a extensão das vias públicas por hectare varia entre 150 e 200 metros, com um valor médio de 170m/ha. Contribuições Concentradas São devidas às áreas de expansão, indústrias, lavanderias públicas, clubes e demais instalações que gerem vazões elevadas concentradas. Calculadas também para início e fim de projeto. Entram de maneira pontual e localizada em uma rede coletora de esgotos. Contribuição de Águas de Infiltração A infiltração ocorre devido à entrada de águas em juntas mal executadas, fissuras e rupturas nos coletores, entrada pelos poços de visita. Seu volume depende do nível d’água, da natureza do subsolo, da qualidade de execução da obra, do material da tubulação, tipo e distância das juntas etc. Na falta de dados, a NBR 9649/86 recomenda que se utilize uma taxa de infiltração entre 0,05 e 1,00l/s.km. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 16 Aspectos econômicos Dados divulgados pelo Ministério da Saúde afirmam que para cada R$ 1,00 investido no setor de saneamento, economizam-se R$ 4,00 na área de medicina curativa. A importância da implantação do sistema de abastecimento de água dentro do contexto do saneamento básico deve ser considerada tanto nos aspectos sanitário e social quanto nos aspectos econômicos, visando atingir aos seguintes objetivos: Aumento da vida produtiva dos indivíduos economicamente ativos; Diminuição de despesas com o tratamento de doenças evitáveis; Facilidade para instalações de indústrias, onde a água é utilizada como matéria-prima ou meio de operação; Incentivo à indústria turística em localidades com potencial para seu desenvolvimento; Redução do custo do tratamento de água de abastecimento, pela prevenção da poluição dos mananciais; Controle da poluição das praias e locais de recreação a fim de promover o turismo; Preservação da fauna aquática, especialmente os criadouros de peixes. Materiais empregados Tubos Cerâmicos e/ou Manilhas Cerâmicas de Barro Vidrado: construídos unicamente com ponta e bolsa nos diâmetros de 75, 100, 150, 200, 250, 375, 450, 525 e 600mm. As manilhas cerâmicas vidradas quase não são SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 17 afetadas pelos ácidos ou produtos de decomposição oriundos da matéria orgânica dos esgotos. Tubos de Concreto (simples ou armados): construídos com diâmetros a partir de 150mm, passam a substituir as manilhas cerâmicas acima de 350mm. Cuidados especiais devem ser tomados quando se utilizam tubos de concreto, pois se o esgoto que estiver sendo veiculado possuir temperaturas elevadas e havendo quantidades consideráveis de matéria orgânica e sulfatos, ocorre a formação de gás sulfídrico, que ataca o concreto dando origem à formação do enxofre. O enxofre é utilizado por determinadas bactérias aeróbias em seus processos respiratórios, dando origem à formação de ácido sulfúrico que ataca o cimento do concreto reduzindo sua resistência. Os tubos de concreto simples são fabricados nos diâmetros 150, 200, 225, 250, 300, 375, 400, 450, 500 e 600mm. Para grandes diâmetros é necessário o emprego de concreto armado que pode ser fabricado com 300, 350, 400, 450, 500, 600, 700, 800, 900, 1000, 1100, 1200, 1300, 1500, 1750 e 2000mm. Os tubos de concreto são muito empregados em sistemas de águas pluviais, devido a sua resistência à abrasão, disponibilidade em grandes diâmetros, grande resistência aos impactos e geralmente baixo custo em relação aos demais. Tubos de Cimento-Amianto: é durável e possui uma superfície lisa, mesmo sem revestimento. Tubos para coletores por gravidade são fabricados entre 100 mm e 400mm. Tubos de Ferro Fundido: são tubos de ponta e bolsa, acoplados com juntas elásticas ou não elásticas. São disponíveis nos diâmetros 50, 60, 75, 100, 125, 150, 175, 200, 225, 250, 275, 300, 350, 400, 450, 500, 550 e 600mm. Possuem elevada resistência às cargas externas. São SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 18 empregados principalmente nas seguintes situações: instalações elevatórias e linhas de recalque de esgoto, passagem sob rios, onde haja pequeno recobrimento (em zonas de trânsito pesado), em grandes profundidades e passagens sob estruturas sujeitas a trepidação (pontes ferroviárias ou rodoviárias). Os tubos de ferro fundido estão sujeitos à corrosão pelos esgotos ácidos ou em estado séptico e por solos ácidos, devendo ser previstos revestimentos internos e/ou externos de cimento ou de asfalto. Tubos de Aço: são recomendados nos casos em que ocorrem esforços elevados sobre a linha, como nos casos de travessias diretas de grandes vãos, pois devido à sua grande flexibilidade resistem ao efeito de choques, deslocamentos e pressões externas. Tubos de Plástico: os tubos plásticos mais usados nas redes coletoras são os de PVC. Os tubos de PVC são fabricados em duas classes e principalmente nos seguintes diâmetros 75, 100, 150, 200, 250, 300, 350, 400mm. Alguns fabricantes produzem-nos em diâmetros maiores. O comprimento padrão é de 6 metros. São empregados principalmente em ligações prediais e coletores secundários. Conclusão A implantação de estações de tratamento de esgotos (ETE) é o método mais adequado a ser utilizado para os corpos receptores das vazões esgotáveis, provenientes tanto de esgoto doméstico quanto industrial, pois o ambiente não possui a capacidade de absorção da carga orgânica ou química total do efluente. A capacidade das ETE será sempre dimensionada de modo que o efluente contenha em seu meio uma carga orgânica no máximo suportável pelo corpo SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 19 receptor, ou seja, que não cause danos irreversíveis ao equilíbrio do ambiente como meio natural. 2. Estação Elevatória de Esgoto Segundo a NBR 12208/92, estações elevatórias de esgoto são obras civis como poços de sucção e instalações eletromecânicas responsáveis pelo transporte do esgoto sanitário do nível do poço de sucção das bombas ao nível de descarga na saída do recalque propiciando assim o recalque das vazões de esgotos coletadas a montante. As estações elevatórias de esgotos são comuns em cidades de grande porte que possuem áreas planas ou onde existam declividades superficiais menores às consideradas mínimas necessárias para seu devido funcionamento e, nestes casos, temos que na evolução do traçado das tubulações coletoras elas vão constantemente se afastando da cota superficial até alcançarem as profundidades necessitando então que se elevem as cotas dos coletores a profundidades mínimas, o que só é possível através de instalações de recalque; após, seguirá um novo coletor até o destino da linha ou outro conjunto de recalque. As estações elevatórias são comumente utilizadas no caso de interceptores muito longos com atenção maior nos que estão localizados às margens dos corpos hídricos, nas entradas das Estações de Tratamento de Esgotos ou nos emissários. As estaçõeselevatórias podem ser classificadas segundo a sua vazão e a altura manométrica de acordo com a NB 569/89. Segundo a vazão, elas são SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 20 consideradas pequenas quando é menor que 50l/s; médias quando estão compreendidas entre 50l/s e 500l/s e grandes quando são acima de 500l/s. Pequena: Qr ≤ 50l/s (aproximadamente uma população de até 20.000hab); Média: 50 ≤Qr ≤ 500l/s (população entre 20.000 e 200.000hab); Grande: Qr ≥ 500l/s (população acima de 200.000hab). Segundo a altura manométrica, elas são consideradas de baixa carga quando são menores que 10 metros de coluna d´água (mca); são de média carga quando estão compreendidas entre 10mca e 20mca; e são de alta carga quando são superiores a 20mca. Baixa: Hman ≤ 10mca; Média: 10 ≤ Hman ≤ 20mca; Grande: Hman ≤ 20mca. As vazões máximas e mínimas desde o início até o final do projeto e as informações do coletor ou do interceptor afluente são os parâmetros básicos de um projeto de estação elevatória. Já a escolha da localização das instalações deve ter como parâmetros não só os aspectos técnicos, mas também os econômicos, tais como acesso a rede elétrica de distribuição, acesso para manutenção, custo da área onde serão instaladas bem como menor desnível geométrico entre a captação e o fim do recalque e menor extensão; abrigo contra inundações; distância das habitações; a possibilidade de descargas dos esgotos em cursos d’água ou galerias se ocorrerem eventuais paralisações do sistema elevatório, além de prever futuras ampliações. O conhecimento das variações das vazões máximas e da topografia da região vai determinar o tipo de projeto e todas as suas fases (assim como o conjunto motobomba para pequenas vazões) de instalações automatizadas. As Estações Elevatórias de Esgotos são constituídas de: SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 21 Poço de Coleta, ou Poço de Detenção, de Sucção ou Poço Úmido, local destinado a receber e acumular os esgotos por um período de tempo. Nos casos em que a vazão de bombeamento for superior à de chegada dos Esgotos, poderá haver entrada de ar na bomba e seu funcionamento será comprometido. Quando ocorrer a acumulação temporária dos esgotos num poço de coleta, é possível fazer com que as bombas entrem em funcionamento ou se desliguem automaticamente de acordo com o nível do esgoto com posições mais elevadas ou mais baixas no local. Poço Seco ou Câmara de Trabalho, local onde são instalados os conjuntos de geradores, motobombas, válvulas de controle, exaustores, além das estruturas de manutenção e transporte de equipamentos. Dependências Gerais se localizam sobre o poço seco possuindo acomodação para os operadores, equipamentos e os dispositivos necessários para a operação e manutenção. Estação elevatória convencional Fonte: http://www.dec.ufcg.edu.br/saneamento/ES10_02.html As condições para determinar o tipo de bomba são a altura manométrica local e a capacidade da mesma. As bombas devem poder recalcar a quantidade de SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 22 esgoto afluente. A altura manométrica da bomba deve estar de acordo com a altura estática de recalque que é a elevação entre o nível máximo de líquido no poço da descarga menos o nível mínimo do líquido no poço de sucção. A chamada altura dinâmica consta das perdas de carga que ocorrem nas linhas de sucção e de recalque. Os principais tipos de bombas utilizadas para recalques são as centrífugas com velocidade fixa ou variável com eixo vertical ou horizontal. As verticais podem ser com motor acoplado ou de eixo longo. Existem também os conjuntos motobombas submersíveis de eixo vertical. As bombas devem trabalhar afogadas, ou seja, com carga na entrada, que permite o funcionamento sem necessidade de escorvá-las - isto é, eliminar o ar existente no interior da bomba e da tubulação de sucção. Além destas, existem as bombas tipo parafuso e as elevatórias com ejetor pneumático. Bombas centrífugas As bombas centrífugas para esgotos são do tipo aberto, com diâmetros até 5 cm, possibilitando o bombeamento de sólidos em suspensão no esgoto. Nas estações elevatórias utilizam-se bombas dos tipos: a) De eixo vertical para instalação em poço seco; b) De eixo vertical para instalação em poço molhado c) De eixo horizontal; d) Conjunto motobomba submersível. As bombas de eixo horizontal são as mais utilizadas, porém as bombas de eixo vertical possuem a vantagem de serem operadas por motores colocados em cota elevada. A vazão de bombeamento, partindo do pressuposto de somente uma unidade em funcionamento, deverá ser igual ou pouco superior à vazão SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 23 máxima de chegada dos esgotos na estação, para que, quando houver maior chegada, o nível do líquido no poço de sucção seja constante. Bomba eixo vertical Fonte: http://bhandariengg.com/product/sewage-sumbrsible-pump Bomba eixo horizontal http://pt.made-in-china.com/co_yzsuhua/product_Split-Casing-Sewage- Centrifugal-Submersible-Water-Pump-OMEGA-_hrguhyeeg.html Para a altura manométrica total, deverá somar-se a distância vertical medida entre o nível do esgoto no poço de coleta e o nível de chegada ao ponto de lançamento; e como o nível de sucção varia, para efeito de cálculo pode ser usado o nível médio, ou seja, a média entre os níveis máximo e mínimo. Para o funcionamento de uma só bomba por vez observa-se que a sua capacidade deverá ser um pouco superior à vazão máxima, evitando que o poço transborde e refluxos na tubulação de chegada. Para as elevatórias com duas bombas, é comum que elas operem de maneira alternada; para isto, instala-se um sistema de comando possibilitando o SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 24 revezamento automático das bombas quando o nível do esgoto atingir o nível superior. Dimensionamento do poço de sucção O Poço de sucção é o compartimento que vai receber e acumular os esgotos durante um dado período de tempo. Para o dimensionamento do poço de sucção, o volume útil utilizado é o volume líquido entre o nível máximo e o nível mínimo de operação do poço que é a faixa de operação das bombas, e é determinado observando-se o intervalo de tempo entre partidas consecutivas do motor ou o tempo de ciclo que vai levar ao tempo de detenção do esgoto no poço. Outro ponto de conhecimento é a vazão de bombeamento. Volume útil do poço de sucção Para o cálculo do volume útil do poço de sucção, e em relação às bombas, é de conhecimento que o número de partidas por hora não vá ultrapassar 10 minutos e que não aconteça mais do que 4 acionamentos por hora. Então, temos que o volume é dado por: V = (Q .T) / 4 Onde: V = Volume útil do poço (m3) Q = Vazão da maior bomba com velocidade constante (m3 / minuto). T = intervalo de tempo entre duas partidas consecutivas de uma bomba com o mínimo de 10 minutos Volume efetivo SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 25 Para determinar o volume efetivo estabelece-se que o tempo de detenção máximo do esgoto no poço esteja entre 10 e 20 minutos onde temos: V1 = Q1 . T1 Onde: V1 = Volume efetivo do poço de sucção (m3) Q1 = Vazão média de projeto, afluente da elevatória (m3 / minuto) T1 = Tempo de detenção no poço em minutos Interceptores De acordo com a NBR 12207, interceptores são canalizaçõescuja função principal é a de receber e transportar o esgoto sanitário coletado, caracterizada pela defasagem das contribuições, da qual resulta o amortecimento das vazões máximas. Devem ter como requisitos o levantamento topográfico planialtimétrico dotado de curvas de nível de metro em metro e pontos intermediários cotados nas depressões e pontos altos, da faixa necessária ao projeto do interceptor possuindo escala mínima de 1:1000. Deve-se fazer um levantamento cadastral de interferências, acidentes e obstáculos, tanto superficiais como subterrâneos, na faixa da diretriz provável do interceptor bem como as sondagens de reconhecimento da natureza do terreno e níveis do lençol freático ao longo da diretriz provável do interceptor. Deve-se ter, também, o estudo de concepção de acordo com a norma NBR 9648 e os relatórios de projeto das redes coletoras afluentes de acordo com a norma NBR 9649. Em relação à avaliação das vazões, para cada trecho do interceptor devem ser estimadas as vazões inicial e final, onde: SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 26 a) Qi, n = vazão inicial do trecho n; b) Qi, n = Qi, n - 1 + ∑ Qi onde Qi = vazão inicial a jusante do último trecho de uma rede afluente ao PV de montante do trecho n, calculada conforme critério da NBR 9649; c) Qf, n = vazão final do trecho n; d) Qf, n = Qf, n - 1 + ∑ Qf onde Qf = vazão final a jusante do último trecho de uma rede afluente ao PV de montante do trecho n, calculada conforme critério da NBR 9649; Aspectos como as populações ou as áreas de edificações, em casos de estiagem ou tempo seco, e contribuições pluviais conhecidas como parasitárias devem ser levados em consideração. As populações ou as áreas edificadas contribuintes a considerar na avaliação da vazão final devem ser as do alcance do projeto. A contribuição de tempo seco lançada ao interceptor, permanente ou temporariamente, deve ser adicionada à vazão inicial e, quando for o caso, à vazão final. A contribuição pluvial parasitária deve ser adicionada à vazão final para a análise de funcionamento e para o dimensionamento dos extravasores, bem como deve ser determinada com base em medições locais. Em caso do não levantamento das medições, pode ser adotada uma taxa cujo valor deve ser justificado e que não deve superar 6 l/s.km de coletor contribuinte ao trecho em estudo. O traçado do interceptor deve ser constituído preferencialmente por trechos retos em planta e em perfil e, nos casos especiais justificados, podem ser empregados trechos curvos em planta. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 27 Interceptores Foto: Sanepar/Foz Quanto ao dimensionamento hidráulico, observa-se que o regime de escoamento no interceptor é gradualmente variado e para efeito do dimensionamento hidráulico ele pode ser considerado permanente e uniforme. Algumas condições específicas podem ser observadas, tais como: trecho com grande declividade deve ser interligado ao de baixa declividade por um segmento de transição com declividade crítica para a vazão inicial; as ligações ao interceptor devem ser sempre através de dispositivo especialmente projetado para evitar conflito de linhas de fluxo e diferença de cotas. A admissão da contribuição de tempo seco no interceptor deve ser através de dispositivo que SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 28 evite a entrada de material grosseiro, detritos e areia; e o dispositivo de admissão de água no interceptor deve limitar esta contribuição, de modo a não superar 20% da vazão final do trecho a jusante do ponto de admissão. Emissários Segundo a norma NBR 9649 (ABNT 1986), o emissário é a tubulação que recebe esgoto exclusivamente na extremidade de montante. Ele é comumente o último trecho de um interceptor que precede e contribui para uma estação elevatória ou uma ETE ou para descarga no destino final do esgoto. Os emissários são projetados para funcionar como condutos livres e devem ser dimensionados atendendo a situações extremas de projeto. De acordo com a ocorrência nas localidades onde os coletores estão impossibilitados de continuar ou descarregar o esgoto bruto, tem-se que instalar interceptores, bem como para transportar vazões finais para longe da área de coleta, será necessária a construção de um emissário. Recomenda-se que, em qualquer trecho, o menor valor de vazão a ser utilizado nos cálculos seja de 1,5l/s, que está de acordo com o pico instantâneo decorrente de descarga de um vaso sanitário. Sifão Invertido O sifão invertido é um trecho de tubulação rebaixado e com escoamento sob pressão. Possui a finalidade de transpor depressões, algum obstáculo ou transpor rios, valas, canais ou a maioria dos cursos de água. Os sifões invertidos, bem como as tubulações de recalque das estações elevatórias, são as poucas unidades que funcionam sob pressão nos sistemas de SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 29 esgotos sanitários. O escoamento acontece por gravidade muito embora estejam sob pressão, diminuindo então o gasto com energia elétrica. Sistema de disposição oceânica de esgotos sanitários A resolução do Ministério do Meio Ambiente – MMA nº 430, de 13 de maio de 2011, informa que Emissário submarino é a “tubulação provida de sistemas difusores destinada ao lançamento de efluentes no mar, na faixa compreendida entre a linha de base e o limite do mar territorial brasileiro”, e tem como função promover o tratamento de efluentes utilizando processos naturais que dispersam, diluem e assimilam naturalmente os efluentes após um pré-tratamento nas ETEs com a finalidade de reduzir as concentrações de poluentes, tornando-as admissíveis em relação à legislação, diminuindo assim o impacto na saúde pública e no meio ambiente. A disposição oceânica através de emissários submarinos possui algumas vantagens como um menor custo operacional, afasta para longe o efluente e assim promove melhoria da saúde pública, uma maior confiabilidade operacional, possibilita menor geração de odor. Como desvantagens podemos citar o custo elevado da obra e tubulações, a possibilidade de causar impacto no ambiente bentônico, utilizar o efluente para reúso não é aplicável e uma menor aceitabilidade da população. Os materiais utilizados nas tubulações dos emissários submarinos variam em função das características do ambiente, tais como batimetria e dinâmica das ondas em função da agressividade deste ambiente no material das tubulações e estruturas de ancoragens no leito marinho. Para locais profundos, com marés muito fortes e grandes vazões de efluentes, utiliza-se ferro ou aço revestido de concreto ou somente de concreto. Para SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 30 menores vazões, leito raso e menor incidência da força das marés utilizam-se materiais como o polietileno de alta densidade. Antes do lançamento, os efluentes devem passar por uma Estação de Tratamento ou de Pré-Condicionamento com a finalidade de diminuir as concentrações dos poluentes e contaminantes presentes nos esgotos brutos; pode ser planejada a forma de realizar um tratamento preliminar, primário ou secundário, de acordo com as possiblidades econômicas e técnicas. Para a implantação de um sistema de tratamento anterior ao lançamento nos emissários, alguns aspectos devem ser levantados, tais como a composição do esgoto, o local de lançamento, a capacidade de difusão dos efluentes no corpo receptor bem como os padrões de qualidade. No Brasil,as estações responsáveis pelo tratamento dos efluentes antes do lançamento nos emissários possuem apenas o tratamento preliminar, visando retirar os sólidos grosseiros do efluente através de processos como gradeamento e caixas de areia. Quando lançado no mar através, de emissário submarino, o processo de dispersão dos efluentes possui três fases. A primeira é a de diluição inicial na qual a energia mecânica do efluente e a dinâmica das correntes marítimas promovem uma diluição no corpo receptor; a segunda fase consiste na difusão horizontal e vertical do efluente; e a terceira fase ocorre com a difusão turbulenta promovida pelas correntes marítimas na região do lançamento. Os emissários são utilizados em várias partes do mundo como uma alternativa para afastar os efluentes da população. Como exemplos de emissários no Brasil, temos o de Ipanema/RJ, com uma extensão de 4325m a uma profundidade de 26m e com uma vazão de 12m3/s; o SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 31 de Maceió/AL possui 3100m a 15m de profundidade e com uma vazão de 4,2 m3/s; o de Salvador/BA possui 2350m a 28m de profundidade com uma vazão de 2 m3/s. Nos Estados Unidos, em Boston/Massachusetts, o emissário possui 15000m a 30m de profundidade e com uma vazão de 55,6m3/s. Sistema de Disposição Oceânica Jaguaribe (Salvador) Fonte: http://piniweb.pini.com.br/construcao/infra-estrutura/emissario-submarino-da- bahia-utiliza-metodos-nao-destrutivos-240568-1.aspx SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 32 Emissário Ilha Deer, Boston, Mass (EUA) Fonte: Marjari, 2008, p. 20. A efetiva realização de um Sistema de Esgotamento Sanitário beneficia efetivamente as comunidades e o meio ambiente evitando que as águas servidas possam poluir o solo e contaminar as águas superficiais e lençóis freáticos; e eliminando o escoamento pelas valas a céu aberto e sarjetas que constitui em focos de disseminação de doenças. Promove mudanças de hábito, aumento da expectativa de vida da população e melhoria nas condições sociais e econômicas. 3. Tecnologias A composição do esgoto é bastante variável, apresentando maior teor de impurezas durante o dia e menor durante a noite. A matéria orgânica, especialmente as fezes humanas, confere ao esgoto sanitário suas principais características, mutáveis com o decorrer do tempo, pois sofre diversas alterações até sua completa mineralização ou estabilização. Enquanto o esgoto sanitário causa poluição orgânica e bacteriológica, o industrial produz a poluição química. O efluente industrial, além das substâncias presentes na água de origem, contém impurezas orgânicas e/ou inorgânicas resultantes SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 33 das atividades industriais, em quantidade e qualidade variáveis de acordo com o segmento industrial. Os corpos d’água podem se recuperar da poluição, ou depurar-se pela ação da própria natureza. O efluente pode ser lançado sem tratamento em um curso d'água, desde que a descarga poluidora não ultrapasse cerca de quarenta avos da vazão: um rio com 120l/s de vazão pode receber, grosso modo, a descarga de 3l/s de esgoto bruto, sem maiores consequências. Frequentemente, os mananciais recebem cargas de efluentes muito elevadas para sua vazão e não conseguem se recuperar pela autodepuração, havendo a necessidade da depuração artificial ou tratamento do esgoto. O tratamento do efluente pode, inclusive, transformá-lo em água para diversos usos, como a irrigação ou a limpeza, por exemplo. A escolha do tratamento depende das condições mínimas estabelecidas para a qualidade da água dos mananciais receptores e em função de sua utilização. Em qualquer projeto é fundamental o estudo das características do esgoto a ser tratado e da qualidade do efluente que se deseja lançar no corpo receptor. Os principais aspectos a serem estudados são vazão, pH e temperatura, demanda bioquímica de oxigênio - DBO, demanda química de oxigênio - DQO, toxicidade e teor de sólidos em suspensão ou sólidos suspensos totais - SST. Ao se definir um processo, deve-se considerar sua eficiência na remoção de DBO e coliformes, a disponibilidade de área para sua instalação, os custos operacionais, especialmente energia elétrica, e a quantidade de lodo gerado. Alguns processos exigem maior escala para uma maior população atendida, apresentando custos per capita compatíveis. Na implantação de um sistema de esgotamento sanitário, compreendendo também a rede coletora, a estação de tratamento representa cerca de 20% do custo total. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 34 O tratamento biológico é a forma mais eficiente de remoção da matéria orgânica dos esgotos. O próprio esgoto contém grande variedade de bactérias e protozoários para compor as culturas microbiais mistas que processam os poluentes orgânicos. O uso desse processo requer o controle da vazão, a recirculação dos micro-organismos decantados, o fornecimento de oxigênio e outros fatores. Os fatores que mais afetam o crescimento das culturas são a temperatura, a disponibilidade de nutrientes, o fornecimento de oxigênio, o pH, a presença de elementos tóxicos e a insolação (no caso de plantas verdes). A matéria orgânica do esgoto é decomposta pela ação das bactérias presentes no próprio efluente, transformando-se em substâncias estáveis, ou seja, as substâncias orgânicas insolúveis dão origem a substâncias inorgânicas solúveis. Havendo oxigênio livre (dissolvido), são as bactérias aeróbias que promovem a decomposição. Na ausência do oxigênio, a decomposição se dá pela ação das bactérias anaeróbias. A decomposição aeróbia diferencia-se da anaeróbia pelo seu tempo de processamento e pelos produtos resultantes. Em condições naturais, a decomposição aeróbia necessita três vezes menos tempo que a anaeróbia e dela resultam gás carbônico, água, nitratos e sulfatos, substâncias inofensivas e úteis à vida vegetal. O resultado da decomposição anaeróbia é a geração de gases como o sulfídrico, metano, nitrogênio, amoníaco e outros, muitos dos quais malcheirosos. A decomposição do esgoto é um processo que demanda vários dias, iniciando-se com uma contagem elevada de DBO, que vai decrescendo e atinge seu valor mínimo ao completar-se a estabilização. A determinação da DBO é importante para indicar o teor de matéria orgânica biodegradável e definir o grau de poluição que o esgoto pode causar ou a quantidade de oxigênio necessária para submeter o esgoto a um tratamento aeróbio. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 35 As tecnologias de tratamento de efluentes nada mais são que o aperfeiçoamento do processo de depuração da natureza, buscando reduzir seu tempo de duração e aumentar sua capacidade de absorção, com consumo mínimo de recursos em instalações e operação e o melhor resultado em termos de qualidade do efluente lançado, sem deixar de considerar a dimensão da população a ser atendida. Existem alguns outros processos alternativos para tratamento de esgotos e de águas residuais que são mais econômicos por serem processos naturais e sem mecanização. Os principais são: Valos de Oxidação; Lagoas de Estabilização; Lançamento no Terreno. Valo de Oxidação Trata-se do mesmo princípio do processo biológico de lodos ativados, com períodos de aeração maiores (aeração prolongada) que os comumente adotados nos processos convencionais. Os Valos de Oxidação são unidadescompactadas de tratamento por meio de aeração prolongada. Logo, são estações a nível secundário. O processo procura reproduzir os fenômenos dos rios com velocidade abaixo de 0,5 m/s. Podem ou não ser sucedidos por Decantadores Secundários. Tanque de aeração Fonte: http://www2.corsan.com.br/sitel/www/?page_id=54 Lagoas de Estabilização SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 36 São unidades de tratamento de águas residuárias vantajosas sempre que existir disponibilidade de terreno e área suficiente, pois apresentam reduzidos custos de implantação e operação. O processo é simples, de fácil operação e sem necessidade de equipamentos elétricos e mecânicos. A área deve ser predominantemente plana. Lagoa de estabilização Fonte: http://www2.corsan.com.br/sitel/www/?page_id=54 Lançamentos no Terreno Constituem-se normalmente em um misto de tratamento a nível secundário e disposição final. É classificado como nível secundário devido à atuação de mecanismos biológicos e à sua elevada eficiência na remoção de poluentes. Graus de Tratamento Usualmente, consideram-se os seguintes níveis para o tratamento de esgotos domésticos, que compreendem normalmente processos físicos, químicos e biológicos, atuando isolada ou concomitantemente: Preliminar; Primário; Secundário; Terciário (apenas eventualmente). Tratamento Preliminar SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 37 Destina-se principalmente à remoção de sólidos grosseiros que são substâncias de maiores dimensões, tais como minerais na forma de areia, materiais flutuantes, óleos e graxas. O tratamento preliminar possui como finalidades principais proteger as unidades de tratamento; proteger os corpos receptores da poluição; prevenir a abrasão nos dispositivos de transporte do esgoto, tais como as tubulações e as bombas; evitar o entupimento nas tubulações. Tratamento Primário Destina-se à remoção de impurezas sedimentáveis, grande parte de sólidos em suspensão sedimentáveis e sólidos flutuantes com a utilização de mecanismos físicos. Os resultados obtidos geralmente estão compreendidos entre 30 e 40% de remoção da DBO, dependendo das unidades constituintes. A decantação é o processo primário básico. Os lodos retirados dos decantadores são submetidos a tratamento próprio. As instalações para tratamento primário normalmente são precedidas de unidades de tratamento preliminar e possuem dispositivos para tratamento do lodo decantado, que se constitui na fase sólida do tratamento. Nos decantadores primários, ocorre o que se denomina sedimentação floculenta, onde são removidos Sólidos em Suspensão (SS). A remoção do lodo acumulado será feita diretamente para os digestores ou para adensadores de lodo, por bombeamento. Uma forma de tratamento a nível primário para pequenas vazões são as Fossas Sépticas e os Tanques Imhoff. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 38 Esquema de fossa séptica Fonte: http://www.fkcomercio.com.br/dicas_de_fossa_septica.html Tratamento Secundário O processo de tratamento secundário destina-se principalmente à remoção de toda a matéria orgânica fina e a matéria orgânica na forma de sólidos dissolvidos não removidos no processo de tratamento primário. Ele reproduz os fenômenos naturais de estabilização da matéria orgânica no corpo receptor, por isso também é conhecido como Tratamento Biológico. Os resultados obtidos são entre 70 e 98% da DBO, dependendo das unidades constituintes. Normalmente, em grandes Estações de Tratamento de Esgotos, o tratamento secundário envolve um Processo Biológico Aeróbio (Oxidação) seguido de Decantação Secundária, e não necessariamente é antecedido por um Tratamento Primário, pode seguir diretamente de um Tratamento Preliminar. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 39 Fonte: http://www.ufrrj.br/institutos/it/de/acidentes/esg4.htm Decantador secundário Fonte: http://www2.corsan.com.br/sitel/www/?page_id=54 Tratamento Terciário São tratamentos para situações especiais, que se destinam a completar o tratamento secundário sempre que as condições locais exigirem um grau de depuração excepcionalmente elevado (devido aos usos e reúsos das águas receptoras) e também para os casos em que seja necessária a remoção de nutrientes dos efluentes finais, para evitar a proliferação de algas no corpo de água receptor (fenômeno da eutrofização). SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 40 Lago eutrofizado Fonte: http://biocarthagenes.blogspot.com.br/2011/07/eutrofizacao-eutroficacao_12.html Operações e Processos O Tratamento de Esgoto e Efluentes compreende normalmente processos Físico- Químicos e Biológicos. Processo Físico-Químico Este processo consiste na adição de soluções químicas, de composição e concentração conhecidas, a um efluente de origem industrial, ou não, que possui componentes na forma solúvel e na forma particulada, usado para remover poluentes que não podem ser removidos por processos biológicos convencionais. Esse tipo de tratamento também é usado para reduzir a carga orgânica antes do tratamento biológico. Com isso, a carga orgânica da estação de tratamento de efluentes (ETE) biológica é também diminuída. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 41 Esquema ETE Fonte: http://selmawebsite.blogspot.com.br/2009/04/esquema-de-uma-ete.html Estações de Tratamento de Água (ETAs) utilizam o tratamento físico-químico para tornar a água potável. Esquema ETA Fonte: https://aguapratodos.wordpress.com/author/wimacpp/ SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 42 O processo Físico-Químico consiste das seguintes etapas: Floculação; Coagulação; Decantação; Separação. Floculação Nessa etapa, os flocos são agregados, por adsorção, às partículas dissolvidas ou em estado coloidal. No Brasil, o coagulante mais utilizado é o sulfato de alumínio (Al2(SO4)3), que é obtido por meio da reação química entre o óxido de alumínio (Al2O3) e o ácido sulfúrico (H2SO4). O sulfato de alumínio é adicionado à água com o óxido de cálcio (CaO), mais conhecido como cal virgem. Quando essas duas substâncias misturam-se na água, ocorre uma transformação química que forma uma substância gelatinosa, o hidróxido de alumínio (Al(OH)3). Essa transformação química ocorre porque, em meio aquoso, o sulfato de alumínio gera os seguintes íons: Al2(SO4)3 → 2 Al3+ + 3 SO42- Os íons Al3+ passam a atuar de duas formas: (1) a minoria desses cátions neutraliza as cargas negativas das impurezas presentes na água, e (2) a maioria desses cátions interage com os íons hidroxila (OH-) da água, formando o hidróxido de alumínio: Al2(SO4)3 + 6 H2O → 2 Al(OH)3 +6 H+ + 3 SO42- O hidróxido de alumínio está carregado positivamente e, por essa razão, consegue neutralizar as impurezas coloidais carregadas negativamente que estão SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 43 na água. O resultado é que as partículas de sujeira sofrem aglutinação e se ligam ao hidróxido de alumínio, formando “flocos” (ou flóculos) sólidos. Isso é feito para o controle do pH do meio. Note que a última equação química acima apresenta um excesso de H+. Isso constitui um problema porque torna o meio ácido (pH < 7), o que impede a formação do hidróxidode alumínio. Assim, quando a cal é adicionada à água, ela forma o hidróxido de Cálcio (cal hidratada, cal extinta ou cal apagada): CaO + H2O → Ca(OH)2 O hidróxido de Cálcio (Ca(OH)2) é uma base e, portanto, torna o meio alcalino ou básico, aumentando o pH do sistema. Depois disso, essa água é levada para a próxima etapa do tratamento, que ocorre nos tanques de decantação. Lá os flóculos (formados de lama, argila e micro-organismos) sedimentam-se e são separados. Etapa de floculação em Estação de Tratamento de Água Fonte: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/quimica/floculacao.htm Coagulação Esta etapa se resume na aglomeração das impurezas que estão em estado coloidal, e algumas que se encontram dissolvidas, em partículas maiores que SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 44 possam ser removidas por decantação ou filtração. A coagulação usa produtos químicos como sais de alumínio e ferro que reagem com a alcalinidade da água formando hidróxidos desestabilizadores dos coloides e partículas em suspensão. O processo de coagulação pode ser, então, realizado por meio da adição de Cloreto Férrico e tem por finalidade transformar as impurezas da água que se encontram em suspensão fina, em estado coloidal. Inicialmente, são adicionados no canal de entrada da ETA a solução de Cal e o Cloreto Férrico. Em seguida a água é encaminhada para o tanque de Pré-Floculação para que o coagulante e a cal se misturem uniformemente no líquido, agindo assim de uma forma homogênea e efetiva. Decantação Nessa etapa, os flocos são sedimentados. As partículas são arrastadas até o fundo do decantador para constituírem lodo químico (formado pela adição de coagulantes, geralmente não naturais). Tanques de sedimentação em estação de tratamento de água Fonte: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/quimica/decantacao.htm Separação SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 45 Esta etapa consiste na separação entre os sólidos (lodo) e o líquido (efluente bruto) por meio da sedimentação das partículas sólidas através dos decantadores, permitindo que os sólidos em suspensão, que apresentam densidade maior do que a do líquido circundante, sedimentem gradualmente no fundo, dando origem ao Lodo Primário Bruto. Processo biológico O processo de digestão biológico consiste na redução da carga poluidora DBO e DQO, contida em um efluente de origem sanitária. Ele ocorre no interior de reatores anaeróbios ou reatores aeróbios que possuem em seu interior microfauna anaeróbica ou aeróbica. O resultado desta depuração é a obtenção de lodo anaeróbico ou lodo ativado, além do efluente tratado com baixa carga de DBO e DQO que, atendendo aos parâmetros de emissão, pode ser descartado em corpo receptor ou utilizado como água de reuso. Este processo reproduz, de certa forma, o que ocorre em um curso de água onde são lançados despejos. No corpo d'água, a matéria orgânica é convertida em produtos mineralizados inertes por mecanismos naturais – é o denominado fenômeno da autodepuração. Em uma estação de tratamento de esgotos ocorre o mesmo, mas com tecnologia se consegue fazer com que o processo se desenvolva em condições controladas (controle da eficiência) e em taxas mais elevadas, permitindo soluções mais compactas. A remoção da matéria orgânica dos esgotos ocorre por dois tipos de processos, o oxidativo (oxidação da matéria orgânica) ou o fermentativo (fermentação da matéria orgânica). No processo oxidativo a matéria orgânica é oxidada por um agente presente no meio líquido – oxigênio, nitrato ou sulfato. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 46 No processo fermentativo ocorrem determinadas reações de forma que depois de várias ocorrências sequenciais os produtos se tornam estabilizados, isto é, não mais suscetíveis à fermentação. Há organismos adaptados funcionalmente para as diversas condições de respiração para o tratamento de esgotos. Os organismos aeróbios estritos utilizam apenas o oxigênio livre na sua respiração; os organismos facultativos utilizam o oxigênio livre (preferencialmente) ou o nitrato; os organismos anaeróbios estritos utilizam o sulfato ou o dióxido de carbono, não podendo obter energia através da respiração aeróbia. As reações de oxidação que ocorrem no tratamento de esgotos são, portanto, do tipo aeróbias, anóxicas ou anaeróbias. Os sistemas anaeróbios trazem como vantagem a reduzida mecanização e o baixo consumo energético, com uma menor taxa de geração de lodo residual e uma menor área de instalação, tendo custos de implantação e operação mais vantajosos. No entanto, os tratamentos anaeróbios apresentam eficiência inferior aos aeróbios. Uma desvantagem associada aos sistemas anaeróbios de tratamento de efluentes é o risco de emissão de odores, dependendo do tipo de efluente a ser tratado e do nível de controle operacional do sistema, pois o processo anaeróbio converte parte da matéria orgânica em gás metano, o que permite produzir um menor volume de lodo residual. O uso de queimadores de gases, especialmente quando se trata de grandes unidades, reduzem o risco operacional. Os sistemas anaeróbios têm sido implantados com sucesso no tratamento de esgoto sanitário de comunidades e indústrias, principalmente do ramo de alimentos e bebidas, seguidos por um sistema aerado que os complementa. Para o tratamento biológico das águas residuárias em cidades de pequeno e médio porte, o tratamento anaeróbio é mais utilizado quando o processo aeróbio exigir a alimentação de oxigênio com custos suplementares de energia elétrica. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 47 O que ocorre, na maioria dos casos, é um consórcio entre estes processos, sendo destacados os reatores anaeróbios (RAFA) associados a filtros biológicos e lagoas, com eficiência e baixo custo. 4. Tratamento Preliminar A primeira fase do tratamento nas estações é o preliminar. Destina-se à remoção de sólidos grosseiros, que são substâncias de maiores dimensões, tais como minerais na forma de areia, materiais flutuantes, óleos e graxas. O tratamento preliminar possui, como finalidade principal, proteger as unidades de tratamento, prevenir e proteger os corpos receptores da poluição, prevenir a abrasão nos dispositivos de transporte do esgoto, tais como as tubulações e as bombas, e também evitar o entupimento nas tubulações. No Tratamento Preliminar, existem unidades ou dispositivos específicos empregados, que são: Gradeamento; Caixas de areia; Tanques para remoção dos sólidos flutuantes; Tanques para remoção de óleos e graxas. As unidades ou dispositivos se iniciam com o Gradeamento, destinado a reter os sólidos de maior tamanho ou chamados sólidos grosseiros que não foram diluídos ou não constituem elementos a serem tratados na estação. Os tipos de grades no gradeamento podem variar em função da tecnologia especificada ou com os investimentos disponíveis para o tratamento. As grades simples apresentam a utilização de funcionários para a limpeza manual e são destinadas a pequenas instalações ou para pequenas comunidades. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 48 Gradeamento simples Fonte: http://jorcyaguiar.blogspot.com.br/2011_05_01_archive.html?view=classic As grades mecanizadas são mais sofisticadas, possuem limpeza mecânica e são indicadas para grandes instalações. Por serem mais sofisticadas, necessitam de uma maior manutenção, elevando o custo de sua instalaçãoe, por isso, geralmente são adotadas em instalações cujas características justifiquem o investimento. Gradeamento mecanizado http://www.sigma.ind.br/produtos/grades-mecanizadas SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 49 No gradeamento, levando-se em consideração o espaço entre as barras da grade, elas são classificadas como grosseiras de 40 a 100mm, médias de 20 a 40mm, finas de 10 a 20mm e ultrafinas de 3 a 10mm. Os modelos de grades conhecidas são as grades para canais, com profundidade até 2,5m. Existem as grades mecanizadas, normalmente utilizadas como grade média para canais com nível líquido até 2,0m. A remoção e destino final do material gradeado são uma preocupação diária no tratamento primário. Não se pode obstruir a entrada do efluente e, assim, a limpeza deve ser constante. Nas pequenas instalações, o trabalho de limpeza é feito manualmente pelos funcionários responsáveis, utilizando ferramentas simples, como os rastelos manuais, e o material retirado é enviado para os aterros sanitários ou, se a localidade possuir tecnologia, podem ser incinerados. Nas instalações de grande porte, os detritos são removidos mecanicamente, podendo ser incinerados, digeridos ou enviados para algum tipo de tratamento. Para eliminar óleos, graxas, gorduras ou outros materiais com densidade menor do que a da água, o que as faz permanecerem na superfície do esgoto, utilizam- se caixas de separação, dimensionadas de acordo com a densidade do material a ser recolhido (a concentração de gordura dos esgotos pode variar entre 6 e 70mg/l. Esse material é originado no esgoto doméstico, nos postos de gasolina, em pequenos estabelecimentos industriais, em curtumes e frigoríficos. Estas substâncias também são chamadas de sólidos flutuantes, escuma ou gorduras e os principais dispositivos para removê-los, primeiramente quando analisamos as residências, são as caixas de Gordura Domiciliares, utilizadas antes do lançamento na rede coletora. Temos também em estabelecimentos como indústrias e postos de gasolina, o Separador de Óleo. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 50 Em unidades como um conjunto de residências ou indústrias, pode-se constituir uma unidade de tratamento com Caixas de Gordura Coletivas. Os Dispositivos de Remoção de Gordura em Decantadores, para o tratamento primário em geral, são adaptados nos decantadores que possibilitam recolher o material flutuante em lugares especificados para depois serem levados às unidades de tratamento do lodo. Em algumas estações ou indústrias, temos os Tanques Aerados que são dispositivos que injetam ar comprimido ao tanque para aumentar ou auxiliar a flotação, que veremos mais adiante, e aumentar a eficiência de todo o processo, tornando mais rápida a retirada destas substâncias. São dispositivos dispendiosos e que necessitam, além da energia elétrica, de manutenção periódica. Fonte: http://pt.slideshare.net/grupoagua/saneamento-basico-5987397 Caixas de areia SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 51 A segunda unidade corresponde aos desarenadores ou caixas de areia que são unidades destinadas a reter areia ou outros detritos minerais mais pesados ou os inertes presentes nas águas dos esgotos. Os desarenadores evitam o acúmulo dos sólidos nos tanques de tratamento diminuindo seu volume útil e o tempo de reação biológica. Nas caixas de areia são removidas as partículas com diâmetros entre 0,1 a 0,4mm e em geral obtém- se 30 litros de areia para cada 1000m³ de esgoto sanitário. Geralmente esta areia pode ser removida por raspadores de fundo. Desarenador Convencional Fonte: http://jorcyaguiar.blogspot.com.br/2011/05/tratamento-primario.html As caixas de areia mais usadas são construídas de forma quadrada com altura compreendida entre 1,0 e 1,6m. Nas Estações de grande porte geralmente são construídas caixas de areia tipo profunda e de forma retangular. Existe também um dispositivo conhecido por bomba parafuso acionada por um moto redutor e montada em uma calha feita de aço carbono ou inox. Esta areia é lavada posteriormente e a água volta à estação para tratamento enquanto a areia pode ser descartada. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 52 O material retido nas caixas de areia, no caso de ocorrer uma grande quantidade de matéria orgânica capaz de causar um odor muito forte, deve ser imediatamente levado ao aterro sanitário. A areia com baixa percentagem de matéria orgânica pode ser aproveitada para ser levada a aterros, por exemplo, ou utilizada em leitos de secagem de lodo. O Tratamento Primário Esta fase é a que vem logo a seguir ao tratamento preliminar. Este tratamento é destinado à remoção das impurezas sedimentáveis, a maioria dos sólidos em suspensão sedimentáveis e os sólidos flutuantes através de mecanismos físicos e removendo de 30 a 40% da DBO. O processo primário básico é a decantação, e os lodos retirados dos decantadores são submetidos a tratamento próprio. É aconselhável que as instalações para tratamento primário possuam antes unidades de tratamento preliminar com tratamento do lodo decantado. Geralmente, temos o tratamento preliminar com as grades e caixas de areia, depois a sedimentação nos decantadores primários, depois a digestão e secagem e disposição final do Lodo. Para as médias e grandes vazões, o dispositivo mais utilizado nas estações de tratamento são os Decantadores Primários. Eles são empregados para remoção de sólidos sedimentáveis antes de haver qualquer tratamento biológico, bem como para evitar a formação de depósitos de lodo nos corpos receptores, quando não se possui nenhum tipo de tratamento seguinte. A sedimentação floculenta ocorre nos decantadores primários onde as partículas em pequena concentração formam partículas maiores e aumentando SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 53 gradativamente a velocidade de sedimentação onde todo o processo depende das características de floculação e da sedimentação das partículas. Os Sólidos em Suspensão são removidos nos decantadores primários em torno de 40 a 60% e 25 a 35% da DBO; geralmente, nos decantadores primários podem existir dispositivos para remover a gordura e a escuma que não foram removidas no tratamento preliminar - seguem para um poço de escuma e, depois, são encaminhadas para os digestores ou para adensadores de lodo, por bombeamento. Classificação dos Decantadores Os decantadores podem ser construídos de diversas formas, levando-se em consideração o projeto e a área onde será construída a estação, bem como os investimentos necessários. Em geral são construídos de acordo com a forma, do tipo circular e retangular. De acordo com o fundo construído, pouco inclinado, inclinado com 1 a 4% e fundo com poço. De acordo com o sistema de remoção de lodos, pode ser mecanizado ou de limpeza manual; e de acordo com o sentido de fluxo, horizontal ou vertical. O elemento mais importante para o dimensionamento dos decantadores é a taxa de escoamento superficial dada em m3/m2.dia. As taxas muito elevadas levam a pequenas taxas de remoção da DBO e de sólidos em suspensão. As taxas mais baixas levam a decantadores antieconômicos. Para as pequenas vazões, uma forma de tratamento a nível primário muito utilizado no Brasil são as Fossas Sépticas e, um pouco menos, os Tanques Imhoff. Nestes tipos de tratamento, os sólidos sedimentáveis são levadospara o fundo onde, com o tempo, serão estabilizados pela ação dos micro-organismos responsáveis por sua digestão. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 54 Tratamento físico-químico Flotação A flotação, ou flotação por ar dissolvido, envolve a dissolução do ar nas águas de esgoto através da pressurização em um vaso de pressão. Quando o ar pressurizado é liberado na água para o tanque de flutuação, a súbita diminuição da pressão faz com que o ar, ao sair da solução na forma de microbolhas, vá se juntar às partículas sólidas presentes nas águas e fazê-las flutuar. Neste processo, ao contrário do que acontece na sedimentação, na qual as partículas em suspensão se depositam no fundo do recipiente pela ação da gravidade e depois são retiradas por decantação, a flotação leva as partículas até a superfície da mistura. O resultado é uma esteira flutuante das partículas sobre a superfície, que é retirada depois. A flotação operando sem o uso de coagulantes, que promovem a formação de flocos, remove de 40 a 80% de sólidos em suspensão e óleos e graxas; com o uso de coagulantes, podem retirar cerca de 80 a 93% dos sólidos e 85% dos óleos e graxas. Os tanques podem ser circulares ou em forma retangular. A flotação pode ser comumente aplicada rotineiramente para separação de sólidos e líquidos em esgotos domésticos para o pré-tratamento de efluentes, ou na remoção de gorduras, óleos e graxas. Ela também permite o controle e a remoção de gases e odores no esgoto devido à oxigenação. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 55 Os flotadores são usados como pré-tratamento dos esgotos para redução de carga orgânica (DBO). Pode ser usado também em um pós-tratamento para a remoção de nutrientes, algas, cor e turbidez. Tratamento químico O tratamento químico dos efluentes é usado principalmente para controlar os poluentes que não foram removidos pelos processos biológicos convencionais e reduzir a carga orgânica antes do tratamento biológico possibilitando a menor dimensão de uma Estação de Tratamento de Esgotos. Coagulação Grande parte dos coloides presentes na água possui carga negativa, resultante da adsorção preferencial de íons negativos ou da ionização das suas moléculas; essas partículas muito pequenas não são removidas por decantação simples e, dotadas de mesma característica elétrica, a força de repulsão não permite a aglomeração. Para retirada destas partículas, tem-se que neutralizar as cargas negativas e a posterior aglutinação para que elas fiquem mais densas e maiores e assim decantar mais rapidamente. Os coagulantes são os agentes químicos geradores de cargas positivas que neutralizam os coloides. O objetivo do tratamento é formar flocos mais pesados aumentando a velocidade de decantação ou flotação retirando assim de forma mais eficiente as partículas nos efluentes. As substâncias comumente utilizadas são os sais de ferro, o sulfato de alumínio e a cal para fornecer alcalinidade ou algum fator requerido para o tratamento. A especificação da substância utilizada para o tratamento depende da capacidade da estação, das características do esgoto, do custo da substância e da facilidade de obtenção. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 56 Algumas substâncias agem de maneira mais eficiente nos esgotos. Uma análise criteriosa é necessária para estabelecimento de um parâmetro. Em instalações com grandes vazões, o uso do sulfato férrico é mais vantajoso; já em instalações de pequeno porte, é mais interessante o uso de substâncias fáceis de manusear e aplicar. O sulfato férrico pode ser preparado na forma granular para facilitar o manuseio e o armazenamento. Ele forma flocos sobre uma grande variação de pH, então, não é tão afetado por estas mudanças presentes nos esgotos; pode ser aplicado de forma seca ou adicionado na forma de solução. Também nos esgotos encontramos uma série de substâncias alcalinas que reagem com o sulfato férrico. Caso não sejam detectados sinais de alcalinidade, há a necessidade de correção, com o uso de hidrato de cal. O sulfato de alumínio possui coagulação com valores de pH entre 6,5 e 8,5. Ele forma flocos com menos eficiência que o sulfato férrico. A mistura ideal das substâncias nos esgotos é essencial para se obter um bom resultado bem como economizar as substâncias. A agitação do esgoto através de peneiras ou chicanas nem sempre é eficiente. Há necessidade de um misturador mecânico ou a insuflação de ar, pois algumas substâncias exigem uma agitação mais violenta do que outras e assim, deve haver um controle e monitoramento para regular a quantidade de substâncias a serem adicionadas ao esgoto. A quantidade e dosagem das substâncias químicas dependem dos resultados requeridos, pois os esgotos variam tanto na composição que não há como se estabelecer uma regra definida. Existe aí necessidade de análises laboratoriais para podermos saber a quantidade necessária. A diminuição da quantidade de reagentes nas estações de tratamento faz com que o tratamento preliminar seja necessário para uma maior efetividade no SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 57 tratamento primário. Muito embora a qualidade do esgoto após o tratamento preliminar seja melhor, ainda permanecem inalteradas as características poluidoras do esgoto. As substâncias orgânicas ainda presentes devem ser retiradas com um método mais eficiente e de acordo com cada tipo de esgoto. Este tratamento permite uma eficiência na ordem de 60% ou até mais, dependendo de fatores como características dos esgotos, tipo de unidade de tratamento e operação das estações. 5. Tratamento Secundário Normalmente, nas grandes Estações de Tratamento de Esgotos, o tratamento secundário envolve um Processo Biológico Aeróbio (Oxidação) seguido de Decantação Secundária, não necessariamente é antecedido por um Tratamento Primário, e segue diretamente de um Tratamento Preliminar. Desse modo, o tratamento biológico é uma das alternativas mais econômicas e eficientes para a degradação da matéria orgânica de efluentes biodegradáveis pela ação de agentes biológicos como bactérias, protozoários e algas. No processo Reator ocorre a transformação da matéria orgânica em novos produtos através da ação dos micro-organismos, estabilizando a matéria orgânica até que ocorra a síntese ou produção de novas células. Além das bactérias, principais micro-organismos responsáveis pelo processo, outros organismos também estão envolvidos e presentes, como os protozoários, as algas e alguns fungos. Os reatores biológicos para tratamento de efluentes podem ser aeróbios ou anaeróbios em função da ausência ou presença de oxigênio que determina os microrganismos. Ambos são usados para redução de poluentes orgânicos (DBO), Nitrogênio (N) e Fósforo (P). Um efluente é considerado passível de tratamento biológico quando a relação entre DQO e DBO é menor que 2. O tratamento dos SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 58 efluentes gera uma água com qualidade variável de acordo com a necessidade e legislação. É necessário todo um ambiente adequado para que os micro-organismos possam agir, tais como disponibilidade de Oxigênio Livre, Concentração adequadas de Nutrientes, Temperatura, pH, entre outros fatores básicos. No interior da célula dos micro-organismos irá ocorrer a transformação da matéria orgânica, através de processos de oxidação e síntese. Os micro-organismos produzidos são as novas células sintetizadas e são aquelas que darão origem aos chamados “flocosbiológicos”, juntamente com as impurezas em suspensão que a eles serão agregados. Os flocos serão retirados nos Decantadores Secundários, também chamados de Decantadores Finais, formando consequentemente o lodo secundário. Lagoas de Estabilização As lagoas de estabilização são sistemas de tratamento biológico em que a estabilização da matéria orgânica é realizada pela oxidação bacteriológica (oxidação aeróbia ou fermentação anaeróbia) e/ou redução fotossintética das algas. Estas são unidades de tratamento de águas residuais vantajosas sempre que existir disponibilidade de terreno e área suficiente, pois apresentam reduzidos custos de implantação e operação. O processo é simples, de fácil operação, sem necessidade de equipamentos elétricos e mecânicos, e funciona baseado no processo biológico. São os mais simples métodos que existem para tratamento de esgotos. São constituídas de escavações rasas cercadas de taludes de terra. As principais vantagens de um sistema de lagoas são a facilidade de construção, operação e SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 59 manutenção e respectivos custos reduzidos, além da sua satisfatória resistência a variações de carga. Uma grande desvantagem é a necessidade de grandes áreas para a construção. De acordo com a forma predominante pela qual se dá a estabilização da matéria orgânica, e dependendo da área disponível, topografia do terreno e grau de eficiência desejado, podem ser classificadas em lagoas anaeróbias, facultativas, estritamente aeróbias ou de maturação. Lagoas Anaeróbias São projetadas sempre que possível em associação com lagoas facultativas ou aeradas. Têm a finalidade de oxidar compostos orgânicos complexos antes do tratamento através de lagoas facultativas ou aeradas. As lagoas anaeróbias não dependem da ação fotossintética das algas, podendo assim ser construídas com profundidades maiores do que as outras lagoas, variando de 2,0 a 5,0 metros. Removem cerca de 50% da DBO. Lagoa anaeróbica seguida de lagoa facultativa (ao fundo) Fonte: http://hidrocomeduardo.blogspot.com.br/2013/03/tratamento-de-esgoto-hidrocom- materiais.html Lagoas Facultativas Têm profundidades entre 1,0 e 2,0 metros e áreas relativamente grandes. Funcionam através da ação de algas e bactérias sob a influência da luz solar (fotossíntese). São chamadas de facultativas devido às condições aeróbias SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 60 mantidas na superfície liberando oxigênio e às condições anaeróbias mantidas na parte inferior onde a matéria orgânica é sedimentada. São o tipo mais usado. O tempo de detenção é superior a 20 dias, e o processo se dá predominantemente por bactérias facultativas. Removem cerca de 70 a 90% da DBO. Lagoas Estritamente Aeróbias O processo necessita de oxigênio e a profundidade das lagoas varia de 2,5 a 4,0 metros. Os aeradores servem para garantir oxigênio no meio e manter os sólidos bem separados do líquido (em suspensão). A qualidade do esgoto que vem da lagoa aerada não é adequada para lançamento direto, pelo fato de conter uma grande quantidade de sólidos. Por isso, são geralmente seguidas por outras, quando a separação dessas partículas pode ocorrer. Pela ação da luz solar, transformam o gás carbônico em hidratos de carbono, libertando oxigênio, que é utilizado de novo pelas bactérias e assim por diante. São, portanto, lagoas onde a oxidação e a fotossíntese aparecem balanceadas ao limite de produzir completamente uma estabilização aeróbia. Lagoas de Maturação Normalmente são empregadas como Tratamento Terciário. Servem como polimento para efluentes das estações de tratamento de lodos ativados e lagoas facultativas. O principal objetivo destas lagoas é a remoção de organismos patogênicos, e não a remoção adicional de matéria orgânica. Diversos fatores contribuem para a remoção de patógenos, como temperatura, insolação, pH, escassez de alimento, organismos predadores, competição, compostos tóxicos etc. Vários destes mecanismos se tornam mais efetivos com menores profundidades da lagoa, o que justifica o fato de as lagoas de maturação serem mais rasas e consequentemente requererem grande área de implantação. A eficiência das lagoas de maturação é expressiva principalmente em termos de SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 61 redução do número de bactérias (da ordem de 99%). Possui profundidade útil entre 0,80 e 1,20 metros. Lodo Ativado Lodo Ativado é o floco produzido num esgoto bruto ou decantado, pelo crescimento de bactérias ou outros organismos, na presença de oxigênio dissolvido e acumulado em concentrações suficientes graças ao retorno de outros flocos previamente formados. É um processo biológico no qual o esgoto afluente, na presença de oxigênio dissolvido, pela agitação mecânica e pelo crescimento e atuação de micro- organismos específicos, forma um lodo biológico. Essa fase do tratamento objetiva a remoção de matéria orgânica biodegradável presente nos esgotos. Após essa etapa, a fase sólida é separada da fase líquida em outra unidade operacional denominada decantador. Este processo de tratamento de esgotos apresenta vantagens como a exigência de pouca área para implantação; maior eficiência e maior flexibilidade de operação; no entanto, apresenta um custo operacional mais elevado; necessita de controle laboratorial diário, sendo uma operação mais delicada. O processo de lodo ativado é totalmente biológico, pois o esgoto afluente e o lodo ativado são intimamente misturados, agitados e aerados em unidades chamadas tanques de aeração, para logo após se separar o lodo tratado no decantador secundário. O lodo ativado separado retorna para o processo ou é retirado para tratamento específico ou destino final, enquanto o esgoto já tratado passa para o vertedor do decantador no qual ocorreu a separação. A aeração pode ser por agitação mecânica por aeradores de superfície, dispersão de ar ou combinação dos dois sistemas. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 62 Tanque de Aeração - Lodos Ativados Fonte: http://www.acquaeng.com.br/noticias/obra-em-turn-key-e-finalizada-no-nordeste/ Filtração Biológica Aeróbia Na verdade, o processo não realiza qualquer operação de peneiramento ou filtração. No interior da unidade vai existir um meio de enchimento, que pode ser de pedra britada, anel plástico ou colmeia plástica, no qual os micro-organismos que promovem a transformação da matéria orgânica irão se fixar. Essa matéria orgânica é estabilizada por via aeróbia, por meio de bactérias que crescem aderidas ao suporte. Usualmente, o esgoto é aplicado por meio de braços giratórios. O fluxo contínuo do esgoto em direção ao fundo do tanque permite o crescimento bacteriano na superfície do meio suporte, possibilitando a formação de uma camada biológica denominada biofilme. O contato do esgoto com a camada biológica possibilita a degradação da matéria orgânica. A aeração desse sistema é natural, ocorrendo nos espaços vazios entre os constituintes do meio suporte. O mecanismo do processo é caracterizado pela alimentação e percolação contínua de esgoto através do meio suporte. Em continuidade, a passagem dos esgotos nos interstícios promove o crescimento e a aderência da massa biológica na superfície do meio suporte. Esta aderência é favorecida pela predominância SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 63 de colônias gelatinosas denominadas de “zoogleas”, mantendo suficiente período de contato da biomassa com o esgoto. É necessária a colocaçãode decantador secundário após o filtro biológico, uma vez que a biomassa agregada ao material de enchimento se desprende com o tempo, devido ao próprio aumento na espessura da camada biológica e também à ação do líquido sobre a camada. Nos filtros biológicos, bem como nas estações de lodo ativado, ocorre normalmente a recirculação do lodo. As vantagens da recirculação do lodo são: Maior período de contato, semeando o Filtro Biológico completamente ao longo de sua profundidade, com uma variedade de organismos; Redução do odor e de moscas; Redução da formação de escumas nos decantadores primários; Maior qualidade do efluente após o decantador secundário. Processos Anaeróbios Aparentemente nova, a solução é considerada uma das mais antigas e surgiu com a evolução dos filtros biológicos convencionais. O filtro anaeróbio está contido em um tanque de forma cilíndrica ou prismática de seção quadrada, com fundo falso para permitir o escoamento de efluente do tanque séptico. O filtro anaeróbio é um processo de tratamento apropriado para o efluente do tanque séptico, por apresentar resíduos de carga orgânica relativamente baixa e concentração pequena de sólidos em suspensão. Consiste de tanques com leito de pedras ou outro material suporte para desenvolvimento de microrganismos. Entre os fenômenos que ocorrem no filtro anaeróbio, temos a retenção por contato com o biofilme, sedimentação forçada de sólidos de pequenas dimensões, partículas finas e coloidais e ação metabólica dos microrganismos do biofilme sobre a matéria dissolvida. As pequenas britas que o compõem retêm em sua superfície as bactérias anaeróbias (criando um campo de microrganismo), SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 64 responsáveis pelo processo biológico, reduzindo a Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO). São indicados para esgotos com contaminantes predominantemente solúveis, pois quanto maior a quantidade de contaminantes particulados, os sólidos suspensos, maior a possibilidade de entupimento. Podem ser construídos com fluxo ascendente, descendente ou horizontal. A eficiência de redução de DBO pode variar de 40 a 75%, para DQO, de 40 a 70%; para sólidos suspensos, de 60 a 90% e para sólidos sedimentáveis, 70% ou mais. Os filtros anaeróbios apresentam efluentes clarificados e com baixa concentração de matéria orgânica. Não consomem energia, removem matéria orgânica dissolvida, têm baixa produção de lodo, a água tratada presta-se para disposição no solo, resistem bem às variações de vazão afluente, a construção e operação são simples, não necessitam de lodo inoculador nem recirculação de lodo. Entre as desvantagens citam-se a produção de um efluente rico em sais minerais e risco de entupimento. A fossa séptica serve como tanque de retenção/sedimentação para tratamentos preliminares de água e os filtros anaeróbios como redutores de DBO (demanda biológica de oxigênio), carga orgânica e nutrientes. São equipamentos que funcionam normalmente sem gasto de energia, por gravidade. O filtro anaeróbio é uma tecnologia conhecida, eficiente e robusta, capaz de obter reduções substanciais de DBO. Tratamento do Lodo Os sólidos suspensos, lodo produzido diariamente correspondente à reprodução das células que se alimentam do substrato, devem ser descartados do sistema para que este permaneça em equilíbrio. O lodo excedente extraído do sistema é dirigido para a seção de tratamento de lodo. O lodo retido nas diversas fases dos SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 65 Tratamentos Primário e Secundário sofre os seguintes tipos de tratamento, na sequência: Adensamento do Lodo; Digestão Anaeróbia do Lodo; Secagem do Lodo; Disposição do Lodo. Adensamento do Lodo Etapa na qual ocorre a estabilização de substâncias instáveis e da matéria orgânica presente no lodo fresco. Possui como principal finalidade reduzir o volume a processar e, consequentemente, reduzir os custos de implantação e operação das unidades de digestão e secagem. O adensamento pode estabilizar total ou parcialmente as substâncias instáveis e matéria orgânica presentes no lodo fresco, reduzindo o volume do lodo através dos fenômenos de liquefação, gaseificação e adensamento, tornando suas características favoráveis em relação à redução de umidade que permite a sua utilização, quando estabilizado, como fonte de húmus ou condicionador de solo para fins agrícolas. A estabilização de substâncias instáveis e da matéria orgânica presente no lodo fresco também pode ser realizada através da adição de produtos químicos. Esse processo é denominado estabilização química do lodo. Normalmente o líquido removido é retornado para o tratamento primário da ETE, em alguns casos pode ser lançado a montante do tratamento biológico. Digestão Anaeróbia do Lodo Corresponde a um processo de decomposição anaeróbia, conduzido sob condições controladas no qual a matéria orgânica é convertida principalmente em gás metano (CH4) e gás carbônico (CO2). A digestão é realizada com as seguintes finalidades: destruir ou reduzir os microrganismos patogênicos; SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 66 estabilizar total ou parcialmente as substâncias instáveis e matéria orgânica presentes no lodo fresco; reduzir o volume do lodo através dos fenômenos de liquefação, gaseificação e adensamento; dotar o lodo de características favoráveis à redução de umidade e permitir a sua utilização, quando estabilizado convenientemente, como fonte de húmus ou condicionador de solo para fins agrícolas. A estabilização de substâncias instáveis e da matéria orgânica presente no lodo fresco também pode ser realizada através da adição de produtos químicos. Esse processo é denominado estabilização química do lodo, e utiliza de produtos como: cloreto férrico, cal, sulfato de alumínio e polímeros orgânicos. O condicionamento químico, usado antes dos sistemas de desidratação mecânica, tais como centrifugação, filtração por filtro prensa ou belt press, resulta na coagulação de sólidos e liberação da água adsorvida. Os digestores são grandes tanques cobertos, geralmente de formato circular, onde ocorre a estabilização do lodo pelo processo anaeróbio. Nos digestores o lodo é introduzido de forma contínua ou intermitente e aí permanece durante certo tempo. O lodo estabilizado é retirado também de forma contínua ou intermitente do digestor, sendo que os organismos patogênicos são em grande parte removidos. Tipos de Digestores Normal: onde não ocorre a mistura interna do lodo fresco com o existente, nem aquecimento; o tempo de detenção varia de 30 a 60 dias; Alta Taxa: onde ocorre a mistura interna do lodo fresco com o existente, com aquecimento e o tempo de detenção é menor do que 15 dias. As condições para uma boa digestão são: SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 67 Adição de lodos frescos; pH favorável (7,0 a 7,4); Temperatura conveniente (ótima entre 30 e 35º C); Agitação do lodo. Secagem do Lodo Após a digestão, o lodo ainda possui teores de umidade em torno de 96%, ou seja, somente 4% de sólidos. Nesta etapa é feita a secagem do lodo, que pode ser por meio natural - como os leitos de secagem localizados ao ar nos tanques retangulares - ou artificial - com o uso de Secador Térmico, como um Filtro Prensa ou Centrífuga. A Secagem do Lodo é um processo de redução de umidade através de evaporação de água para a atmosfera com a aplicação de energia térmica, podendo-se obter teores de sólidos da ordem de 90 a 95%. Com isso, o volumefinal do lodo é reduzido significativamente. Disposição do Lodo O lodo tem como destino final normalmente os aterros sanitários, principalmente os oriundos dos tratamentos primário e secundário. Alguns tipos de lodo já estabilizados que não possuem patogênicos em abundância podem ser empregados para outros usos, como aterros de parques e aplicação no solo, como fertilizantes. 6. Estabilização Os sistemas de lagoas de estabilização naturais ou artificiais constituem-se na forma mais simples para tratamento de esgotos, apresentando diversas variantes com diferentes níveis de simplicidade operacional e requisitos de área através de processos naturais de decomposição. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 68 Bactérias e algas são os seres vivos que habitam as lagoas, coexistindo em um processo de simbiose e, desta forma, tratando os esgotos através da decomposição da matéria orgânica pelas bactérias. O processo se baseia nos princípios da respiração: as algas existentes no esgoto na presença de luz produzem o oxigênio que é liberado através da fotossíntese. Esse oxigênio dissolvido é utilizado pelas bactérias aeróbicas (respiração) para se alimentarem da matéria orgânica em suspensão e dissolvida presente no esgoto. O resultado é a produção de sais minerais (alimento das algas) e de gás carbônico. A DBO é a quantidade de oxigênio dissolvido, necessária aos micro-organismos, na estabilização da matéria orgânica em decomposição, sob condições aeróbias. Nas condições normais de tratamento por lodos ativados, a biomassa retirada do sistema contém grande quantidade de matéria orgânica, necessitando de uma etapa posterior para sua estabilização. Lagoa de estabilização Fonte: http://o2engenharia.com.br/index.php/atuacao/projetos Em geral, a eficiência do tratamento por lodos ativados depende da quantidade de matéria orgânica contida no efluente, do tempo de contato do efluente com o lodo ativo e do tempo de detenção hidráulica. Num efluente, quanto maior a SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 69 quantidade de matéria orgânica biodegradável, maior é o índice de DBO, e este também é proporcional ao tempo, ou seja, quanto maior o tempo, mais matéria orgânica biodegradável é decomposta pela atividade aeróbica das bactérias. Cinco dias são usados como tempo padrão nas medidas de DBO de uma água ou efluente. No teste de medição, a amostra deve ficar incubada a 20oC, durante cinco dias. A matéria orgânica em suspensão (DBO particulada) tende a sedimentar, vindo a constituir o lodo de fundo, na zona anaeróbia, que sofrerá processo de decomposição por micro-organismos anaeróbios, sendo convertido lentamente em CO2, água, metano e outros. Após um período de tempo, apenas a fração inerte (não biodegradável) permanece na camada de fundo. O gás sulfídrico gerado não causa problema de mau cheiro, pelo fato de ser oxidado por processos químicos e bioquímicos na camada aeróbia superior. A matéria orgânica dissolvida (DBO solúvel), junto com a matéria orgânica em suspensão de pequenas dimensões (DBO finamente particulada), não sedimenta, permanecendo dispersa na massa líquida. Na camada mais superficial, tem-se a zona aeróbia. Nesta zona, a matéria orgânica é oxidada por meio de respiração aeróbia. Há necessidade de oxigênio, o qual é suprido parcialmente pela fotossíntese realizada pelas algas. Tem-se, então, um perfeito equilíbrio entre o consumo e a produção de oxigênio e gás carbônico. As bactérias consomem O2 e produzem CO2, e as algas através da fotossíntese produzem O2 e consomem CO2. A zona facultativa é aquela intermediária onde pode ocorrer a presença ou ausência de O2. Digestão anaeróbia e aeróbia Como também já mencionado em aulas anteriores, tratando-se de reações de natureza biológica, a velocidade de decomposição do esgoto aumenta de acordo com a temperatura, sendo a faixa ideal para atividade biológica entre 25 e 35ºC; SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 70 abaixo de 15ºC as bactérias formadoras do metano se tornam inativas na digestão anaeróbia. Dentro dos tanques sépticos (fossas), por exemplo, ocorre a digestão anaeróbia. Havendo oxigênio livre (dissolvido), são as bactérias aeróbias que promovem a decomposição. Na ausência do oxigênio, a decomposição se dá pela ação das bactérias anaeróbias. A decomposição aeróbia diferencia-se da anaeróbia pelo seu tempo de processamento e pelos produtos resultantes. Em condições naturais, a decomposição aeróbia necessita de três vezes menos tempo que a anaeróbia e dela resultam gás carbônico, água, nitratos e sulfatos, substâncias inofensivas e úteis à vida vegetal. O resultado da decomposição anaeróbia é a geração de gases como o sulfídrico, metano, nitrogênio, amoníaco e outros, geralmente malcheirosos. A digestão anaeróbia (ou anaeróbica) é um processo de decomposição de matéria orgânica por bactérias em um meio onde não há a presença de oxigênio gasoso. Este método é usado há muito tempo pelo homem mesmo antes de ele descobrir do que se tratava ou mesmo de saber sobre a existência dos micro-organismos responsáveis por isso. Unidade de Digestão Anaeróbia SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 71 Fonte: http://www.valnor.pt/AValnor/Interven%C3%A7%C3%A3o/UnidadedeDigest%C3%A3oAnaer% C3%B3bia/tabid/184/language/en-US/Default.aspx Na digestão anaeróbia ocorrem diversos processos que juntos resultam na decomposição da matéria: a primeira fase é a liquefação ou hidrólise, na qual o material orgânico complexo é transformado em compostos dissolvidos ou matéria orgânica volátil; a segunda fase é a gaseificação, que pode ser dividida em duas subfases: na fermentação ácida, ou acidogênese, os compostos são transformados em ácidos orgânicos voláteis (fórmico, acético, propiônico, butírico e valérico); e na fermentação acetogênica, ou acetogênese, os produtos da subfase anterior são transformados em acetato, hidrogênio e monóxido de carbono; a terceira e última fase é a metanogênese, em que os produtos da acetogênese são transformados, principalmente em metano (CH4), embora também sejam gerados outros gases. Alguns processos para a digestão anaeróbia em estações de tratamento de esgoto são: lodo ativado, filtro biológico, lagoas anaeróbias e reatores anaeróbios, entre outros, para a decomposição e tratamento de esgoto em primeiro plano, não para a obtenção de biogás. Biodigestor Fonte: http://www.snatural.com.br/Bio-Digestores-Tratamento-Agua.html SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 72 Cabe lembrar que a digestão anaeróbica é uma reação biológica, realizada basicamente em três estágios por bactérias, tais como Archeo-bacter, Suphovibryum, Thiobacius Sulphuricans, Acetobacter e Metaníferas, e na total ausência de oxigênio. O grupo de bactérias fundamental nesse processo é o grupo de bactérias Metanogênicas, que atuam na última etapa, metabolizando o Ácido Acético e excretando Metano (CH4). Os estágios de produção do metano são: Estágio 1 - Nesse primeiro estágio, a Matéria Orgânica é convertida em moléculas menores pela ação de bactérias hidrolíticas e fermentativas. As primeiras quebram as cadeias proteicas em peptídeos e aminoácidos (originando amônia), monossacarídeos e polissacarídeos; gorduras e fosfolipídios, em ácidos graxos, pela ação de enzimas extracelulares, como a protease, a amilase e lípase. As segundas, bactérias fermentativas, transformam esses produtosem ácidos solúveis (ácido propiônico e butílico, por exemplo), álcool e outros compostos. Nessa etapa também são formados: dióxidos de carbono (CO2), gás hidrogênio (H2) e ácido acético (CH3COOH). Estágio 2 – Nessa etapa, bactérias Acetogênicas metabolizam os produtos obtidos na primeira etapa e excretam ácido acético (CH3COOH), hidrogênio (H2) e dióxido de carbono (CO2). Essas bactérias são facultativas, ou seja, elas podem atuar tanto em meio aeróbico, como anaeróbico. O oxigênio necessário para efetuar essas transformações é retirado dos próprios compostos que constituem o material orgânico. Estágio 3 – A última etapa na produção do biogás é a formação de metano pelas bactérias Metanogênicas, que transformam o hidrogênio (H2) e o ácido acético (CH3COOII) em metano (CH4) e (CO2). Essas bactérias são obrigatoriamente anaeróbicas e extremamente sensíveis a mudanças no meio, como temperatura e PH (sendo ideais 30ºC e PH 8). As bactérias SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 73 envolvidas na formação do biogás atuam de modo simbiótico. As bactérias que produzem ácido Acético (Acetobacteres) geram os produtos que serão consumidos pelas bactérias Metanogênicas. Sem esse consumo, o acúmulo excessivo de substâncias tóxicas (ácidos) afetará o metabolismo das bactérias produtoras de Biogás, matando-as. Vários fatores influenciam na produção do biogás, já que, por ser toda feita por bactérias, os fatores que afetam o metabolismo ou a sobrevivência das mesmas, irão afetar diretamente a produção do biogás. Alguns dos mais importantes e que devem ser controlados são: O processo desenrola-se na ausência de ar - as bactérias Metanogênicas são essencialmente anaeróbias, portanto, o biodigestor deve ser perfeitamente vedado. A decomposição de matéria orgânica na presença de ar (oxigênio) irá produzir apenas dióxido de carbono (CO2). Temperatura - as bactérias produtoras do biogás, em especial as que produzem metano, são muito sensíveis a alterações de temperatura (são termossensíveis); a faixa ideal para a produção de biogás é de 30ºC a 45ºC (bactérias mesofílicas). Também se pode obter biogás com biodigestores trabalhando na faixa de 50ºC a 60ºC (bactérias termofílicas), mas a temperatura deve permanecer constante. Não deve haver variações bruscas de temperatura, pois as bactérias não sobrevivem ao choque térmico e, portanto, a produção de biogás diminui consideravelmente. Alcalinidade e PH - a acidez ou alcalinidade do meio é indicada pelo seu fator PH; a alcalinidade é uma medida da quantidade de carbonato de cálcio, carbonato de magnésio ou seus equivalentes na solução em digestão. É fator importante porque, à medida que as bactérias e fungos produzem ácidos, o que implica em uma diminuição do PH, os carbonatos reagem com SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 74 esses ácidos, o que leva a uma neutralização da acidez (efeito tampão do carbonato). As Bactérias que produzem o metano sobrevivem numa faixa estreita de pH (7 a 9). Assim, enquanto as bactérias acidofílicas (estágios 1 e 2 da digestão anaeróbica) produzem ácidos, as bactérias produtoras de metano consomem esses ácidos, mantendo o meio alcalino. Como as reações envolvidas nos estágios 1 e 2 são mais rápidas que a produção do metano, ao se iniciar a produção do biogás, é necessário que já exista uma população de bactérias metanogênicas presentes. Os processos de biodigestão para geração do biogás, como forma de obtenção de energia, podem ser divididos por biodigestores “em batelada” ou biodigestores “contínuos”, que, por sua vez, se dividem em vários modelos dentre os quais podemos citar: o modelo indiano, que foi o primeiro a ser usado, o chinês, o paquistanês, tailandês, coreano, filipino, o de deslocamento vertical e o modelo em plástico flexível. Em sistemas de digestão aeróbia são utilizados aeradores mecânicos ou difusos que promovem a mistura e fornecem o oxigênio necessário à biomassa; seu principal benefício é o menor tempo requerido para o processo e, portanto, apresenta menor volume do tanque; porém, deve-se mencionar que o custo energético é maior. Alguns estudos apresentam que, em ambos os processos, o fenômeno é muito similar, ou seja, o lodo ainda muito ativo e com excesso de matéria orgânica é enviado ao digestor, ficando submetido à condição de pouco alimento, no caso fazendo referência ao material presente na água residuária já previamente removido no tratamento da fase líquida. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 75 Lagoa aerada aeróbica – ETE Tambaú Fonte: http://infraestruturaurbana.pini.com.br/solucoes-tecnicas/26/estacoes- compactas-280963-1.aspx Desidratação Os despejos industriais pós-tratamento produzem um lodo que deve ser disposto de maneira que não afete o meio ambiente. Esse lodo possui grande teor de umidade a qual deve ser removida para facilitar principalmente o transporte e destinação final. O processo de desidratação serve para remover essa umidade relativa que se encontra presente no lodo, com o uso de equipamentos tais como centrífuga, filtro prensa ou belt press. Os processos mecânicos de desidratação do lodo necessitam de alguns pré- requisitos para que o lodo seja convenientemente desidratado. Normalmente, o lodo, após passar por um adensador, é encaminhado para o condicionamento químico, que deve ser adaptado a cada tipo de lodo, em função da sua composição físico-química e estrutural e da técnica de desidratação a ser utilizada; já os sistemas de processos naturais constituídos, basicamente, de leitos de secagem e lagoas de secagem, são bastante utilizados em sistemas de tratamento simplificados, situados em locais com clima semelhante ao do Brasil. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 76 Os leitos de secagem são unidades de tratamento, geralmente projetadas e construídas em forma de tanques retangulares, que têm por objetivo desidratar, por meios naturais, o lodo digerido. São operados em regime de batelada, sendo que a remoção do lodo seco, antes da aplicação de cada nova batelada, é necessária para o bom funcionamento do leito. Inicialmente, a percolação é o processo que mais contribui na remoção da água; todavia, a percolação só é viável até que o lodo atinja, aproximadamente, teor de sólidos de 20%, de modo que a evaporação é essencial para se obter lodo com teor mais elevado de sólidos. O emprego do processo de secagem do lodo a partir de leitos de secagem tem sido considerado a alternativa mais coerente, por motivos técnicos e econômicos, quando utilizada em estações de tratamento que empregam reatores UASB. Destaca-se, também, que a secagem natural do lodo resulta em um produto com baixo teor de água, o que facilita, sobremaneira, sua remoção e transporte, e possível ausência de patogênicos, acarretada pela exposição ao sol. Essas considerações possibilitam a alternativa de utilização do lodo seco na agricultura; todavia, o processo de desidratação de lodo em leitos de secagem não é muito bem definido, existindo uma lacuna quanto ao perfeito entendimento dos fenômenos que englobam a secagem do lodo e dos parâmetros que possam ser tomados para o dimensionamento do leito. A própria Norma Brasileira 12209/90, que fixa as condições para o tratamento do lodo, não possui critérios que levem em conta as características do lodo ou da região em que o leito de secagem vai ser construído. Para empresas que geram pequena quantidade de lodo, uma das alternativas mais viáveis para redução da umidade é o sistema de leito de secagem. Os leitos de secagemsão de baixo custo de construção e destinam-se a receber o lodo SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 77 oriundo de processos biológicos para promover a redução da umidade, através da drenagem e evaporação da água liberada durante o processo de secagem. O lodo biológico, após secagem, gera um resíduo sólido que, ao atender critérios agronômicos, sanitários e de metais pesados, poderá ter como destinação final a reciclagem agrícola. A escolha dentre os métodos de secagem depende das características do lodo a ser tratado, das vantagens e desvantagens de cada equipamento e do custo. Dentre os diversos processos disponíveis de disposição do lodo, destaca-se o encapsulamento com vias de desidratação, através do uso de tubos geotêxteis. Essa solução resulta em benefícios técnicos, operacionais e econômicos, que viabilizam de maneira limpa e sistemática a disposição dos resíduos dentro de tais tubos, capazes de filtrar o líquido proveniente do lodo, tornando a parte sólida totalmente encapsulada e passível de tratamento na condição de resíduo sólido. Esses tubos geotêxteis são confeccionados em geotêxtil, tecido de elevada resistência mecânica, inerte à degradação biológica e resistente a ataques químicos (álcalis e ácidos) com dimensões finais adequadas para atender à disponibilidade de espaço. O processo de desidratação inicia com o bombeamento do lodo devidamente floculado para o interior do tubo geotêxtil através de seus bocais de enchimento; o tubo, por sua vez, permite o escoamento da fração líquida através de seus poros retendo a fase sólida no seu interior, reduzindo assim o volume total do material inserido e aumentando a porcentagem de matéria sólida desidratada. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 78 Após atingir o teor de umidade desejado, o material sólido confinado no tubo geotêxtil poderá ser disposto em aterros sanitários e/ou industriais para descarte final ou reutilização como um subproduto. Caso os tubos geotêxteis, dispostos horizontalmente ou em pilhas, ocupem grandes áreas, após o processo de desidratação e uma vez consolidados, podem ser encapsulados definitivamente por uma camada espessa de solo, a fim de criar uma área passível de remediação. Tubos geotêxteis Fonte: http://www.saneatech.com.br/servicos.php A decomposição do esgoto é um processo que demanda vários dias, iniciando-se com uma contagem elevada de DBO, que vai decrescendo e atinge seu valor mínimo ao completar-se a estabilização. A determinação da DBO é importante para indicar o teor de matéria orgânica biodegradável e definir o grau de poluição que o esgoto pode causar ou a quantidade de oxigênio necessária para submeter o esgoto a um tratamento aeróbio. Lodo consolidado após desidratação Fonte: http://www.saneatech.com.br/servicos.php SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 79 Da mesma forma que ocorre nas outras estruturas de tratamento, são realizados vários tipos de análises para levantar dados a respeito de PH, Temperatura, Sólidos Totais, Sólidos Totais dissolvidos, Sólidos Suspensos, Sólidos Sedimentáveis, DBO5, DQO, Coliformes Fecais e Coliformes Totais. 7. Tratamento local No Brasil, boa parte da população não tem acesso à rede de esgoto nas suas cidades. O método tradicionalmente utilizado por estas populações é o tratamento local com o uso de fossas, filtros e sumidouros. Em comunidades pequenas e médias, onde não existe rede coletora de esgoto, as soluções locais e individuais para tratamento e destino final dos esgotos domésticos são particularmente adotadas. O tratamento local pode ser assim chamado quando nas instalações individuais o responsável pelo uso e manutenção é o próprio usuário. Muitas vezes, os próprios usuários não possuem conhecimentos específicos sobre o funcionamento dos dispositivos que utilizam. Em muitos casos, podem estar causando danos ao meio ambiente e à própria comunidade. Quando não há um sistema de abastecimento, por exemplo, na zona rural dos municípios, podem ser adotadas algumas soluções para que se resolva o problema do esgotamento sanitário. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 80 Uma delas é a chamada Privada com Fossa Seca, que consiste em uma casinha e uma fossa seca escavada no solo que vai receber somente as fezes sem o uso de água. Com o passar do tempo, as fezes retidas no interior vão se decompondo através do processo de digestão anaeróbia. Elas devem ser construídas em locais onde não possa haver enchentes e desmoronamentos, o mais longe possível dos poços e fontes e sempre situadas em uma cota inferior para que não exista a possibilidade de contaminação dos mananciais. Corte de uma fossa seca tradicional Fonte: http://www.dec.ufcg.edu.br/saneamento/SBER4.html As vantagens do uso desta fossa é o baixo custo, não há o uso de água, a manutenção é muito simples, pode ser construída em vários tipos de terrenos, pode ser construída com diversos materiais e é aplicável para comunidades com média e baixa densidade. As desvantagens são o risco de contaminação do solo e não aplicabilidade em locais de alta densidade demográfica. A massa orgânica dentro da fossa será consumida pelas bactérias até atingirem um volume muito grande que deverá ser retirado e levado para um destino final apropriado. Em muitos casos a fossa é simplesmente tapada e construída em outro lugar. Outro tipo é a Privada com Fossa Estanque que consiste em um tanque destinado a receber os dejetos também sem a descarga de água, porém é indicada geralmente em locais onde o lençol freático é muito superficial, também em terrenos rochosos ou muito duros. O tanque deste tipo de fossa deverá ser construído em alvenaria ou concreto e devidamente impermeabilizado. A SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 81 vantagem em relação à fossa seca simples é que não há a possibilidade de contaminação do solo, pois após algum tempo, o material é retirado do tanque e dado um destino adequado ao mesmo, não havendo também necessidade de mudança de local. Fossa estanque Fonte: Manual de saneamento, 2006. A Privada com fossa de fermentação, conhecida também como tipo Cynamon, é projetada com duas câmaras contíguas e independentes que vão receber os dejetos da mesma forma que ocorre nas privadas de fossa seca. Ela é indicada para outros tipos de terrenos onde a construção de privada de fossa seca não é indicada. De acordo com o tipo de solo, as privadas de fermentação poderão ter tanques enterrados, semienterrados, ou totalmente construídos na superfície do terreno. O revestimento das câmaras é em função das características do solo e da área de locação da privada; nos terrenos onde pode haver alagamentos e perto de poços, as paredes e o fundo deverão ser construídos de concreto ou de tijolos SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 82 com impermeabilização feita de argamassa de cimento e a estrutura da casinha pode ser do mesmo tipo da privada de fossa seca. Como vantagem, ela pode ser aplicada em locais de lençol freático próximo da superfície, porque a profundidade das câmaras é de apenas 1,00m e também pode ser aplicada em terrenos rochosos em que a escavação poderá ser mais rasa com câmaras semienterradas; além disso, possui duração maior que a fossa seca sendo uma solução praticamente definitiva. O processo de tratamento se dá da seguinte maneira, observando-se a figura abaixo. Especificandocomo sendo I e II as duas câmaras, primeiro isolar a câmara II, vedando a respectiva tampa no interior da casinha e usar a câmara I até esgotar a sua capacidade. Após a câmara I ficar cheia, será isolada e o material acumulado sofrerá fermentação natural. Será usada então a câmara II até esgotar a sua capacidade. Durante o período de uso, o material da câmara I terá sido mineralizado; então, deve-se retirar o material da câmara I, removendo as respectivas tampas externas e recolocando-as após. Durante a limpeza, deve-se deixar pequena quantidade de material já fermentado para auxiliar o reinício da fermentação. Após isto, repetir o processo. Fossa Cynamon SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 83 Fonte: Manual de saneamento, 2006. Onde a comunidade possui água encanada, pode ser adotado o Tanque Séptico ou Fossa Séptica cujo destino final do efluente pode ser um Sumidouro, Vala de Infiltração ou Vala de Filtração. O Tanque Séptico também pode ter o efluente passando por um Filtro Biológico antes de ir para o destino final. O Tanque Séptico possui uma ou mais câmaras fechadas para deter os esgotos domésticos por um tempo estabelecido para permitir a decantação dos sólidos e a retenção do esgoto tratando bioquimicamente e o modificando em substâncias e compostos mais simples e estáveis. Economicamente, o tanque séptico é recomendado para até 100 habitantes e as unidades domiciliares devem possuir um suprimento de água. No processo de retenção, o esgoto passa um tempo na fossa por um período determinado variando de 12 a 24 horas, mas depende das contribuições de esgoto. Ao mesmo tempo, durante a retenção ocorre uma sedimentação de cerca de 60 a 70% dos sólidos em suspensão, formando-se o lodo. Parte dos sólidos não decantados, formados por óleos, graxas, gorduras e outros materiais misturados com gases, é retida na superfície livre do líquido, no interior do tanque séptico possuindo o nome de escuma. Já a digestão tanto do lodo como da escuma é efetuada pelas bactérias anaeróbias que promovem uma destruição total ou parcial dos organismos patogênicos. Deste processo de digestão resultam gases, líquidos e uma grande redução de volume dos sólidos retidos e digeridos que se estabilizam permitindo que o efluente líquido do tanque séptico possa ser lançado com maior segurança do que o do esgoto bruto. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 84 O tanque séptico é feito para receber os despejos de cozinhas, lavanderias, vasos sanitários, chuveiros, ralos de piso e outros. Para as canalizações provenientes de cozinhas é necessária a instalação de caixa de gordura e não pode haver qualquer despejo que possa causar problemas ao bom funcionamento dos tanques sépticos ou que possam ter um alto índice de contaminação. Tanque séptico Fonte: ABNT NBR 7229/93 O Filtro anaeróbico é uma solução tradicional e aparece junto aos filtros biológicos convencionais. Ele é formado por um leito de brita nº 4 dentro de um tanque geralmente de forma cilíndrica ou prismática com seção quadrada e com fundo vazado para permitir o escoamento de esgoto do tanque séptico. O filtro anaeróbio é um processo de tratamento apropriado para os esgotos do tanque séptico, pois apresenta resíduos de carga orgânica e concentração de sólidos em suspensão relativamente baixa. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 85 Fonte: http://www.habitissimo.com.br/orcamentos/minas-gerais/santa-luzia/outros-trabalhos- construcao-fossas-septicas-58 É na superfície das britas que as bactérias anaeróbias, na forma de um conjunto de microrganismos, sofrem o processo biológico, reduzindo a Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO). Filtro anaeróbico Fonte: http://www.macae.rj.gov.br/midia/conteudo/arquivos/1397515917.pdf Os poços absorventes ou sumidouros são escavações feitas no terreno para receber os efluentes do tanque séptico, que vão se infiltrando no solo geralmente pelo fundo ou pelas laterais. Para termos as dimensões dos sumidouros tem-se que saber a capacidade de absorção do solo. Eles devem ser construídos de alvenaria de tijolos ou de anéis pré-moldados de concreto. Podem ter enchimento de cascalho, coque ou brita no fundo com altura igual ou maior que 0,50m e deve ficar ao nível do terreno, feito em concreto armado e com abertura de inspeção com fechamento eficiente. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 86 Sumidouro Fonte: Manual de saneamento, 2006. Os Valos de infiltração são um conjunto de canalizações colocadas a uma profundidade determinada onde a absorção do esgoto efluente do tanque séptico se dará através do solo. Quando o líquido infiltrar através do solo vai propiciar o processo de mineralização dos esgotos, antes que se transformem em uma fonte de contaminação dos lençóis freáticos e superficiais. Alguns fatores devem ser observados para a instalação, por exemplo, devem ser assentados em tubos de drenagem com no mínimo 100mm de diâmetro; a tubulação deve ser envolvida em um material filtrante apropriado e deve haver pelo menos duas valas de infiltração para disposição do efluente de um tanque séptico. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 87 Valas de infiltração Fonte: ABNT NBR 7229/93 Filtros anaeróbios Consistem em tanques com leito de pedras ou outro material suporte para desenvolvimento de microrganismos, nos quais ocorre a retenção por contato com o biofilme, sedimentação forçada de sólidos de pequenas dimensões, partículas finas e coloidais e ação metabólica dos microrganismos do biofilme sobre a matéria dissolvida. São indicados para esgotos com contaminantes predominantemente solúveis, pois quanto maior a quantidade de contaminantes particulados, os sólidos suspensos, maior a possibilidade de entupimento. Podem ser construídos com fluxo ascendente, descendente ou horizontal. A eficiência de redução de DBO pode variar de 40 a 75%, para DQO de 40 a 70%; para sólidos suspensos, de 60 a 90% e para sólidos sedimentáveis, 70% ou mais. Os filtros anaeróbios apresentam efluentes clarificados e com baixa concentração de matéria orgânica. Não consomem energia, removem matéria orgânica dissolvida e têm baixa produção de lodo. A água tratada pode ser reutilizada no solo. Vale lembrar que, como consequência, ocorre a produção de um efluente rico em sais minerais e deve-se levar em conta o risco de entupimento. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 88 Fonte: http://www.naturaltec.com.br/Tratamento-Agua-Fossa-Filtro.html Estações de tratamento compactas Os sistemas compactos de tratamento de esgotos podem vir a ser em determinados casos uma solução de baixo custo e de fácil implantação, pois podem ser utilizados onde não existam redes de esgoto públicas. São ideais para o tratamento dos esgotos de residências, conjuntos residenciais, edifícios de escritórios, shopping centers, chácaras, hotéis, motéis, pousadas, restaurantes, condomínios residenciais e comerciais, pequenos bairros ou pequenos distritos urbanos. Possuindo os mesmos módulos de uma Estação de Tratamento de Efluentes convencional, porém em uma escala bem reduzida e adaptável, uma ETE compacta pode ser formada por tonéis de PVC ou outro material resistente a corrosivos normalmente implantados em uma base concretada fixa,podendo ser ampliada de acordo com o crescimento de sua demanda. Além disso, é importante prever, na instalação, uma manutenção preventiva nas bombas, sistema de aeração, filtros, na parte hidráulica, elétrica, e mecanismos de desvio do esgoto para um tanque de armazenamento, que será usado caso haja um funcionamento inadequado da ETE. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 89 Esquema de uma estação compacta Fonte: http://ecosus.com.br/ete-compacta/ SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 90 ETE compacta Fonte: http://www.snatural.com.br/ETE-Estacao-Compacta-Tratamento-Efluentes-Esgotos.html Assim, observa-se que os tratamentos individuais ou locais, ainda realizados em grande quantidade no Brasil, em todos os estados, são necessários, sem dúvida, uma vez que apenas parte das cidades brasileiras é contemplada por rede de esgotamento sanitário. Na verdade, esses tratamentos locais, muito embora pareçam ineficientes, se devidamente projetados e com manutenção adequada, representam uma opção muito mais adequada do que esgotamento a céu aberto e lançamento de esgoto in natura nos corpos receptores. 8. Efluentes industriais A grande diversidade das atividades industriais ocasiona a geração de efluentes, que podem contaminar o solo e a água, sendo preciso observar que nem todas as indústrias geram efluentes com poder impactante nesses dois ambientes. As diferentes composições físicas, químicas e biológicas, as variações de volumes gerados em relação ao tempo de duração do processo produtivo, a potencialidade de toxicidade e os diversos pontos de geração na mesma unidade de processamento recomendam que os efluentes sejam caracterizados, quantificados e tratados e/ou acondicionados, adequadamente, antes da disposição final no meio ambiente. As características físicas, químicas e biológicas do efluente industrial são variáveis conforme o tipo de indústria, o período de operação, a matéria-prima utilizada, a reutilização de água etc. Com isso, o efluente líquido pode ser solúvel ou sólido, com ou sem coloração, orgânico ou inorgânico, com temperatura baixa ou elevada. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 91 Entre as determinações mais comuns para caracterizar a massa líquida estão as determinações físicas (temperatura, cor, turbidez, sólidos etc.), as químicas (pH, alcalinidade, teor de matéria orgânica, metais etc.) e as biológicas (bactérias, protozoários, vírus etc.). O conhecimento da vazão e da composição do efluente industrial possibilita a determinação das cargas de poluição, o que é fundamental para definir o tipo de tratamento, avaliar o enquadramento na legislação ambiental e estimar a capacidade de autodepuração do corpo receptor. Desse modo, é preciso quantificar e caracterizar os efluentes, para evitar danos ambientais, demandas legais e prejuízos para a imagem da indústria junto à sociedade. O tratamento físico-químico apresenta maiores custos em razão da necessidade de aquisição, transporte, armazenamento e aplicação dos produtos químicos. No entanto, é a opção mais indicada nas indústrias que geram resíduos líquidos tóxicos, inorgânicos ou orgânicos não biodegradáveis. O tratamento biológico é menos dispendioso, baseando-se na ação metabólica de microrganismos, especialmente bactérias, que estabilizam o material orgânico biodegradável em reatores compactos e em ambiente controlado. No ambiente aeróbio são utilizados equipamentos eletromecânicos para fornecimento de oxigênio utilizado pelos microrganismos, o que não é preciso quando o tratamento ocorre em ambiente anaeróbio. Apesar da maior eficiência dos processos aeróbios em relação aos processos anaeróbios, o consumo de energia elétrica, o maior número de unidades, a maior produção de lodo e a operação mais trabalhosa justificam, cada vez mais, a utilização de processos anaeróbios. Assim, em algumas estações de tratamento de resíduos líquidos industriais estão sendo implantadas as seguintes combinações: Unidades anaeróbias seguidas por unidades aeróbias; Unidades anaeróbias seguidas de unidades físico-químicas. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 92 Processos Físicos Este costuma ser o primeiro dos estágios, pois remove a sujeira mais grossa da água. No processo físico, são removidos sólidos em suspensão sedimentáveis e, também, flutuantes, através de separações físicas — como, por exemplo, peneiramento, caixas separadoras de óleos e gorduras, gradeamento, sedimentação e flotação. Também remove a matéria orgânica e inorgânica que está em suspensão coloidal — reduzindo ou eliminando os microrganismos que estejam presentes, através de processos de filtragem com areia ou membranas (microfiltração e ultrafiltração). Nesse tipo de tratamento de efluentes industriais, os processos também têm a finalidade de desinfecção, como no caso de radiação ultravioleta. Processos Químicos Para este processo, utilizam-se agentes de coagulação, floculação, neutralização de pH, oxidação e redução e desinfecção dos sistemas de tratamento. Processos Biológicos O tratamento de efluentes industriais por processos biológicos tem o objetivo de retirar a matéria orgânica que estiver dissolvida e em suspensão para poder transformá-la em sólidos sedimentáveis ou gases. Esse tratamento reproduz os mesmos fenômenos que acontecem na natureza, só que em um tempo reduzido. Tratamento de Compostos Voláteis Extração de Voláteis e Amônia (Stripping) SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 93 Entre os sistemas de tratamento mais eficazes para a redução de Compostos Orgânicos Voláteis - COVs, os sistemas de extração podem representar uma solução financeira e técnica favorável. Comumente utilizado dentro da indústria química, eles estão sendo amplamente utilizados na área de remediação de águas subterrâneas contaminadas em locais caracterizados por compostos orgânicos voláteis. Tipos de sistemas de extração (Strippers) A tecnologia de extração envolve basicamente a passagem do ar pressurizado/oxigênio através de um dado volume de água contaminada que extrai os contaminantes do líquido para a fase gasosa. Sistemas de extração podem, essencialmente, ser divididos nos seguintes tipos: Sistemas de placa horizontal; Sistemas de torre convencionais; Sistemas de circuito fechado de extração. O sistema de extração com placas horizontais contém uma série de placas onde o ar, gerado por um soprador, é introduzido sob pressão. A turbulência criada pela pressão do ar em conjunto com os vórtices que são produzidos pelo caminho forçado, dão origem a ciclones muito amplos que eficazmente removem os voláteis presentes no líquido a ser tratado. A placa de extração horizontal Geostream pode ser dividida em três categorias de acordo com o fluxo do líquido a ser descontaminado (5m3/ h, 10 m3/ h, 15 m3/ h); o corpo do sistema de extração é feito de aço inoxidável e as placas são dimensionadas de acordo com a capacidade. A estrutura externa e interna é concebida para maximizar o espaço disponível e permitir um bom acesso para limpeza de qualquer incrustação e para permitir os trabalhos de manutenção em qualquer um dos componentes de distribuição de ar. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 94 Os sistemas podem ser montados em contentores normais e podem ser equipados com monitoramento contínuo de COVs e de tratamento do efluente gasoso usando tanto carbono ativadoquanto oxidantes catalíticos. A torre de extração (Packed Tower Aeration, PTA) executa um processo de aeração em cascata, em que a água a ser tratada flui através dos meios de suporte que aumentam a área de superfície para troca entre o ar e a água. A aplicação dos sistemas de extração de torre e com placas horizontais, produzidos pela Geostream, permitiu endereçar diferentes requisitos de projetos através da implementação de tecnologias mais adequadas para os diversos tipos de contaminação. Torres de extração tradicionais utilizadas em sistemas de vácuo foram refinadas para ajudar a gerenciar o fluxo de água com uma baixa razão água/ar. O sistema de circuito fechado de extração permite alcançar a máxima eficiência no tratamento de efluentes gasosos. A recirculação do fluxo de gás através do meio filtrante permite a saturação completa, sem a necessidade de quaisquer emissões para a atmosfera. Adsorção em Carvão Ativo Dentre os vários adsorventes existentes no mercado, o experimento de interesse utiliza o carvão ativo. Para compreender o fenômeno da adsorção é necessário conhecer as propriedades físico-químicas do material adsorvente, o carvão ativo. As propriedades físicas do carvão ativo dependem de ele estar sendo utilizado na forma de carvão ativo em pó (CAP), utilizado quando se tem fase líquida, ou na forma granular, utilizado para o adsorbato na fase gasosa. Para o CAP, as propriedades mais importantes são filtrabilidade e densidade, enquanto na forma granular são a dureza e o tamanho das partículas. Logo, as propriedades do carvão ativo vão influenciar a taxa e a capacidade de adsorção sendo necessário SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 95 levá-las em conta na escolha do carvão e na concretização do projeto dos equipamentos. A distribuição de tamanhos de poros e as atividades químicas superficiais dos diversos tipos de carvão são bastante dependentes de sua origem (coque de petróleo, carvão vegetal, carvão betuminoso, lignita, entre outros). O carvão ativo pode apresentar caráter ácido ou básico, relacionado com a oxidação na sua superfície. Este caráter é dependente das condições de manufatura do carvão e da temperatura na qual se processa a oxidação. Um carvão ácido apresenta comportamento ácido, ou seja, adsorve quantidades apreciáveis de bases, tendo pouca afinidade por ácidos, enquanto o carvão básico apresenta comportamento oposto ao carvão ácido. Nitrificação e Desnitrificação Nitrificação A nitrificação é a primeira etapa do processo biológico de eliminação do nitrogênio via nitrificação/desnitrificação e se baseia na oxidação biológica do nitrogênio amoniacal por parte das bactérias amônio-oxidantes (AOB) e Bactérias nitrito-oxidantes (NOB). Este grupo de bactérias se caracteriza por: obter sua energia para crescer da oxidação de compostos inorgânicos (NH4+ e NO2-), utilizar o carbono inorgânico (CO2) como fonte de carbono e o oxigênio (O2) como aceptor de elétrons. As AOB oxidam o amônio a nitrito e dentro deste grupo podem ser encontrados gêneros como Nitrosococcus e Nitrospira, sendo que as mais estudadas são as Nitrosomonas. Continuando, as NOB oxidam o nitrito a nitrato e dentro deste grupo se encontram os gêneros Nitrospira, Nitrospina e Nitrococcus, sendo as mais estudadas as Nitrobacter. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 96 Na nitrificação ocorre a produção de hidroxilamina (NH2OH) como composto intermediário. No primeiro passo, as AOB transformam o amônio em hidroxilamina por meio da enzima amônio mono oxigenase (AMO). Posteriormente, convertem a hidroxilamina a nitrito, mediante a enzima hidroxilamina óxido reductase (HAO), sendo este o passo que permite extrair energia para as AOBs. A oxidação da hidroxilamina produz 4e-, único sítio redutor onde se gera energia, o que explica porque estas bactérias têm um rendimento e crescimento tão baixo. Estas reações tornam possível a oxidação de amônia a nitrito em condições energeticamente favoráveis. No entanto, em condições de oxigenação insuficiente, as AOB podem produzir óxidos de nitrogênio (NO e N2O), diminuindo ainda mais o rendimento e crescimento bacteriano. As bactérias nitrificantes, por serem autotróficas, caracterizam-se por ter velocidades de crescimento muito baixas em comparação com as bactérias heterotróficas. O processo de nitrificação é limitado pela concentração de OD e temperatura, além de ser inibido pela concentração de amônia e ácido nitroso. As expressões matemáticas que interpretam as velocidades de crescimento específico das AOB e NOB são características da cinética de Haldane. Na cinética da nitrificação se consideram os tipos de inibição: por substrato e competitiva. Também está incluído o efeito produzido pela limitação de substrato (nitrogênio) e OD. Isso mostra uma grande sensibilidade das bactérias nitrificantes à concentração de seus substratos. Desnitrificação A desnitrificação é um processo respiratório anóxico, realizado por bactérias heterotróficas. Os gêneros mais representativos incluem Alcaligenes, Paracoccus, SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 97 Pseudomonas, Thiobacillus e Thiosphaera. A desnitrificação compreende uma série de passos até a formação de N2. A capacidade de desnitrificar está relacionada à quantidade de substrato biodegradável presente (relação carbono orgânico/nitrogênio). Geralmente, nos tratamentos biológicos de efluentes, a presença de substrato facilmente degradável é baixa. Com uma relação carbono/nitrogênio (C/N) maior do que 4, a taxa de desnitrificação se incrementa de um fator 1,5 a 1,7; relações C/N menores do que 2,5 não possibilitam uma desnitrificação satisfatória, portanto se necessita de uma fonte externa de carbono. De acordo com Cox (2009), a velocidade de crescimento das bactérias desnitrificantes depende da presença de matéria orgânica e da concentração de NOx (nitrito e nitrato, aceptores finais de elétrons) Nitrificação e Desnitrificação Simultâneas Uma alternativa de tratamento para otimizar o processo de eliminação de nitrogênio corresponde à nitrificação e desnitrificação simultâneas (SND), em que a nitrificação e desnitrificação acontecem em um mesmo reator, sem separação, nas mesmas condições e ao mesmo tempo. Do ponto de vista físico, a SND ocorre dentro do biofilme ou flocos microbianos, devido ao gradiente de oxigênio através da biomassa. Bactérias nitrificantes se encontram ativas em áreas que possuem maior concentração de oxigênio, enquanto que em áreas onde a concentração de oxigênio é limitante, estão localizadas as bactérias desnitrificantes. A distribuição desigual de oxigênio dentro da biomassa permite a proliferação simultânea de bactérias nitrificantes e desnitrificantes. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 98 Por outro lado, foi provada a capacidade de algumas bactérias, especificamente Alcaligenes faecalis e Thiosphaera pantotropha, desenvolverem SND utilizando substratos orgânicos para transformar aerobicamente amônia em gás nitrogênio. Além disso, algumas bactérias nitrificantes podem realizar desnitrificação na presença de pequenas concentrações de oxigênio. Portanto, o nitrogênio amoniacal pode ser diretamente convertido em nitrogênio gasoso (N2) sem acumulação de nitrito nem de nitrato. A SND oferece vantagens sobre os tratamentos convencionais como economia de espaço e infraestrutura. No entanto, as condições nas quais ocorre uma eficiente SND ainda não estão totalmente esclarecidas. Para obter uma SND completa, a taxade oxidação de amônio deve ser preferencialmente igual à taxa de desnitrificação. Como a nitrificação autotrófica é geralmente mais lenta em comparação com a desnitrificação, é necessário que haja um substrato orgânico lentamente degradável; este substrato orgânico pode se encontrar intrinsecamente no efluente. A conversão de carbono orgânico facilmente biodegradável em um polímero de armazenamento bacteriano, tal como Poli-β-hidroxibutirato, preserva o carbono orgânico solúvel como substrato lentamente degradável. Em um reator operado em modo SBR existem dois períodos de acordo com a presença ou ausência de matéria orgânica facilmente degradável: 1) Período de saciedade - Ocorre quando existe um excesso de matéria orgânica exógena. Este substrato se difunde no biofilme, sendo armazenado como uma reserva de substrato (lípidos de glicogênio e PHB) em condições adversas. O substrato de reserva dominante é o PHB. A penetração de oxigênio é baixa porque ele é rapidamente consumido por bactérias autotróficas e heterotróficas. No período de saciedade, o oxigênio é utilizado na nitrificação, oxidação do acetato e no crescimento da biomassa aeróbia. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 99 2) Período de fome - Quando não há matéria orgânica exógena, portanto, o PHB armazenado pode ser usado como fonte de matéria orgânica para a desnitrificação, o que explicaria porque o fenômeno é típico dos sistemas de SND operados em modo de SBR. Stripping de Amônia Lixiviado O lixiviado é um líquido altamente poluidor, haja vista possuir altas concentrações de nitrogênio amoniacal. Tratar lixiviado é uma tarefa muito difícil devido a sua composição ser muito complexa. Um tratamento que vem sendo desenvolvido é o stripping de amônia, no qual a amônia vai ser removida do lixiviado por transferência de massa da fase líquida para a fase gasosa. O stripping é o método mais usado para eliminar altas concentrações de nitrogênio amoniacal, tanto no tratamento de esgotos quanto no tratamento de lixiviado de aterros. O desempenho desse método pode ser avaliado em termos de eficiência de remoção de nitrogênio amoniacal. Neste método, além do nitrogênio amoniacal, medido na forma de amônia, é possível remover outros gases e compostos orgânicos voláteis. Dentre os gases que podem ser removidos por arraste, merecem destaque alguns que sofrem ionização em meio aquoso: amônia (NH3), gás carbônico (CO2) e gás sulfídrico (H2S). Somente a forma não ionizada pode ser removida por arraste, pois é gasosa e pode ser volatilizada. As formas ionizadas desses compostos são totalmente solúveis e não podem ser removidas por arraste. No caso da amônia, o processo recebe o nome de “arraste de amônia com ar” (air stripping of ammonia), podendo ser chamado resumidamente de “arraste de amônia”. A forma em inglês ammonia stripping é incorreta, pois literalmente significa que a amônia está sendo usada como gás de arraste. Se esse fosse o caso, estaria aumentando a concentração de amônia na fase líquida. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 100 A dissolução da amônia livre em líquidos depende da pressão parcial do gás amoníaco na atmosfera adjacente. Se essa pressão parcial for reduzida, a amônia tenderá a sair da água. Então, é possível remover amônia colocando gotículas do efluente em questão em contato com ar livre de amônia. Nessas condições, a amônia sairá da fase líquida numa tentativa de restabelecer o equilíbrio. Caso o gás de arraste escoe continuamente, em tese chegará um momento em que todo o composto indesejado será removido da fase líquida. A transferência de massa da fase líquida para a fase gasosa recebe o nome técnico de dessorção, embora o termo mais utilizado na engenharia sanitária e ambiental seja mesmo arraste (stripping). Troca Iônica para Contaminantes de Nitrogênio O Processo de troca iônica tem sido utilizado em sistemas de tratamento de efluentes para a remoção de nitrogênio, metais pesados e SDT. Para o controle de nitrogênio, os tons removidos da corrente de efluentes são o amônio (NH4) e o nitrato (NO3-). O íon que o amônio desloca na resina dependerá da solução utilizada para a regeneração do leito. Embora seja possível utilizar materiais naturais ou sintéticos para essa aplicação, as resinas sintéticas são mais utilizadas em função da sua maior durabilidade. Alguns materiais naturais, como as zeólitas, também podem ser utilizados para a remoção do amônio presente em efluentes. A clinoptilolita, uma zeólita natural, demonstrou ser um dos melhores materiais com capacidade de troca iônica e apresentar uma grande afinidade com os tons amônio em comparação com outros materiais, bem como baixo custo em comparação aos materiais sintéticos. Uma das inovações em relação a esses materiais é o sistema de regeneração empregado. Quando exaurida, a zeólita pode ser regenerada com uma solução de hidróxido de cálcio [Ca(OH)2], ocorrendo a conversão do íon amônio para o SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 101 gás amônia, em decorrência do valor elevado do pH. A corrente líquida da qual a amônia foi extraída é armazenada em um tanque para posterior reuso. Um problema a ser solucionado nesse sistema está relacionado à precipitação de carbonato de cálcio no leito de zeólita, nas torres de extração, nas tubulações e em outros equipamentos. O leito de zeólitas é equipado com um dispositivo de contralavagem para remover os depósitos de carbonato de cálcio que são formados durante a operação do sistema. Quando se utilizam as resinas sintéticas para a remoção de nitrato, dois problemas podem ocorrer. Primeiro, apesar de a maioria das resinas aniônicas ter grande afinidade com o nitrato em comparação com o cloreto ou o bicarbonato, elas apresentam uma afinidade significativamente maior com o sulfato, o que limita a capacidade da resina para a remoção de nitrato. Fonte: http://www.naturaltec.com.br/Tratamento-Agua-Efluentes-Arraste-VOC-amonia.html Tratamentos por Radiação Ozonização SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 102 O Ozônio é uma molécula composta por três átomos de Oxigênio em vez dos usuais dois átomos componentes do Oxigênio atmosférico. Ozônio apresenta-se sob forma gasosa em condições ambientais normais, sendo altamente reativo e instável, o que significa que não pode ser transportado ou armazenado, tendo que ser produzido no local de aplicação. O alto interesse no uso de Ozônio para desinfecção deve-se ao seu poder oxidante, pois trata-se de uma das substâncias de mais alto potencial de oxidação (somente excedido pelo flúor e radicais OH- de vida curta), aliado a outras características interessantes para esta aplicação: sua pressão parcial é bastante inferior à do Oxigênio diatômico, sendo facilmente absorvido pela água numa interface de bolhas (cinquenta vezes mais rápido que Oxigênio diatômico). Na água, o Ozônio realiza três funções: oxidação, precipitação e sanitização. Recentemente, as autoridades dos EUA têm recomendado a ozonização das águas de abastecimento público, como substituição à cloração e outros métodos de desinfecção. No passado, o uso mais intenso do Ozônio foi inibido pelo alto investimento de capital e custo operacional das instalações de produção, bem como a elevada toxicidade do produto. Recentemente foram desenvolvidas tecnologias muito SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 103 econômicas de produção de Ozônio em baixas concentrações (geração de ozônio em lâmpadas de luz ultravioleta),tornando a sua aplicação altamente interessante. Fonte: http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/03/15/ozonio-trata-residuos-de-mineracao/ Reações do Ozônio na Água Quando aplicado na água, o Ozônio, como potentíssimo oxidante, reage com contaminantes produzindo moléculas inócuas precipitadas, gerando Oxigênio como subproduto. A ação do Ozônio é extremamente rápida (< 1/10 s) e não- seletiva (mata todos os micro-organismos: bactérias, fungos, bolores, vírus etc.). Segue um resumo das características do Ozônio: Reduz metais a suas formas insolúveis (normalização); Destrói hidrocarbonetos por dissociação (quebra das cadeias); Solidifica (mineraliza) compostos orgânicos dissolvidos causando a sua coagulação e precipitação; Eleva o potencial redox da água, causando microfloculação (microprecipitação) dos patogênicos e pirógenos destruídos, que podem facilmente ser removidos por filtração; O tempo de reação é tão reduzido que não há Ozônio residual remanescente na água. Geração de Ozônio Para a geração do Ozônio são utilizadas três tecnologias diversas: a) Por passagem de ar ou oxigênio através de uma descarga elétrica voltaica silenciosa (efeito corona), sendo que o uso de Oxigênio resulta SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 104 em concentrações de Ozônio bem mais elevadas que o uso de ar (0,5 – 10% em peso). A produção de Ozônio é de aproximadamente 150 g/kWh. Trata-se de instalações complexas e caras tanto do ponto de vista do investimento como do custo operacional. As altas concentrações e quantidades de Ozônio produzidas requerem monitoramento cuidadoso e constante, bem como eliminação do Ozônio residual no ar por catálise, irradiação UV ou passagem por carvão ativado. Utiliza-se este tipo de instalação quando é necessária a produção de grandes quantidades de Ozônio. b) Por eletrólise direta da água: foram desenvolvidas células eletrolíticas capazes de produzir Ozônio diretamente no meio aquoso, através de eletrólise. Estas instalações são mais econômicas que as anteriormente descritas e capazes de produzir altas concentrações de Ozônio diretamente dissolvido na água. A capacidade de produção é de até 5,0 g Ozônio/h, porém somente em águas com características físico-químicas de potabilidade (especialmente ausência de turbidez e coloração). A produção de Ozônio é de aproximadamente 5 g/kWh. Em função destas limitações, utiliza-se este tipo somente para a desinfecção de águas potáveis ou de uso farmacêutico. c) Por irradiação de uma corrente de ar atmosférico: a irradiação do ar atmosférico por radiação UV-C com comprimento de onda de 185 nm transforma uma parte do Oxigênio diatômico em Ozônio. A irradiação se dá em lâmpadas fluorescentes de vapor de mercúrio similares às usadas para a desinfecção por UV, porém com uma linha de radiação óptica pronunciada no comprimento de onda de 185 nm. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 105 Trata-se de equipamentos extremamente simples e econômicos, tanto do ponto de vista de investimento como do de custo operacional. A produção de Ozônio é limitada por motivos práticos a até 50 g/h, a produtividade é de 4,0 – 5,0 g/kWh. Em função da excelente relação custo-benefício, este tipo de equipamento tem sido usado com sucesso nas mais diversas aplicações: desinfecção de águas e esgotos, tratamento de águas industriais, de resfriamento, água de piscina etc. Dosagem requerida Diferentes aplicações requerem dosagens distintas de Ozônio. Mais que em qualquer outro sistema de tratamento, a aplicação da ozonização requer um conhecimento preciso da qualidade da água a ser tratada para o estabelecimento da dosagem adequada de Ozônio e para a definição de quaisquer outros pré- tratamentos necessários. A presença simultânea de vários contaminantes tem que ser considerada; além disso, condições físicas tais como temperatura, pH e tempo de residência afetam a operação do sistema. Formas de aplicação do Ozônio O Ozônio deve ser posto em contato com o meio aquoso sob a forma de bolhas de gás de menor tamanho possível. Para tanto, existem diversos sistemas utilizados isolada ou conjuntamente: • Injeção por meio de difusores; • Injeção por meio de ejetores; • Injeção por meio de circuitos de injeção. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 106 O tempo de residência necessário à aplicação é obtido pelo uso de tanques de contato ou reatores. Em baixas concentrações de Ozônio, tais como as utilizadas no tratamento de água potável (até 1,5 mg/l), estes podem ser construídos em PVC ou PP. Contudo, nas aplicações que requerem altas concentrações, o material de construção do reator tem que ser resistente à alta corrosividade do Ozônio, requerendo o uso de materiais nobres tais como o aço inoxidável ou vitrificado. Neste caso há também a necessidade de sistemas de destruição do ozônio residual que escapa do reator pelo respiro. Como vantagens deste processo de desinfecção, temos: Efetivo: todos os micro-organismos são suscetíveis à desinfecção por Ozônio; Conveniente: além da desinfecção, elimina contaminantes orgânicos, metais oxidáveis, reduz a dureza; Ozônio não adiciona nada à água, exceto Oxigênio; Econômico: apresenta baixo custo de capital e custos operacionais baixos; Simples: instalação e operação descomplicadas. Radiação UV A Radiação Ultravioleta (R-UV) é a parte do espectro eletromagnético referente aos comprimentos de onda entre 100 e 400nm. De acordo com a intensidade que a R-UV é absorvida pelo oxigênio e ozônio e também pelos efeitos fotobiológicos, costuma-se dividir a região UV em três intervalos: • UV-C (Comprimento de onda entre 100nm e 280nm) • UV-B (Comprimento de onda entre 280nm e 315nm) • UV-A (Comprimento de onda entre 315nm e 400nm) SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 107 Instalação Industrial de Desinfecção de Água por Radiação Ultravioleta Fonte: http://www.naturaltec.com.br/Ultravioleta-UV-Desinfeccao-Agua-Reuso.html Modelos de Fonte Artificial de Radiação Ultravioleta As lâmpadas de baixa pressão de vapor de mercúrio (monocromáticas) emitem de 80 a 90% da energia no comprimento de onda de 253,4 nm. Deve ser observado que a energia emitida no comprimento de onda de 253,4 nm representa de 30 a 50% da potência nominal da lâmpada. O restante da energia é emitido em outros comprimentos de onda e dissipado na forma de calor. A potência nominal é indicativa do consumo de energia, não da energia emitida. As potências variam de 11 a 325W. As lâmpadas de média pressão de vapor de mercúrio (policromáticas) emitem espectro mais amplo, variando de 180 a 1370 nm. A potência nominal varia de 2 a 9,6kW. Com isso, o tempo de exposição e o número de lâmpadas são muito menores do que os utilizados nas unidades que empregam as lâmpadas de baixa pressão de vapor de mercúrio. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 108 Desinfecção A desinfecção é a redução na concentração de microrganismos patogênicos para níveis não infecciosos. Os raios emitidos pelas lâmpadas UV causam a destruição dos microrganismos patogênicos de modo a prevenir o alastramento de doenças presentes na água e no ar, provocando a queima da membrana de proteção da célula destes organismos, inativando-os. “Microrganismo" é um termo amplo que inclui vários grupos de germes que provocam doenças. Diferem em forma e ciclo de vida, mas são semelhantes em seu pequenotamanho e simples estrutura relativa. Os cinco maiores grupos são vírus, bactérias, fungos, algas e protozoários. Focando-se numa célula básica de bactéria, interessa-nos a parede da célula, a membrana citoplasmática e o ácido nucleico. O alvo principal da desinfecção por luz ultravioleta é o material genético - ácido nucleico. Os micróbios são destruídos por ultravioleta quando a luz penetra através da célula e é absorvida pelo ácido nucleico. A absorção da luz ultravioleta pelo ácido nucleico provoca um rearranjo da informação genética, que interfere com a capacidade de reprodução da célula. Os microrganismos são, portanto, inativados pela luz UV como resultado de um dano fotoquímico ao ácido nucleico. A desinfecção atinge vários níveis de redução: 1 log ............ 90% 2 log ............ 99% 3 log ............ 99,9% 4 log ............ 99,99% 5 log ............ 99,999% A esterilização ocorre quando se dá a total eliminação de microrganismos patogênicos abaixo de um nível de medição especificado. A esterilização é SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 109 definida como uma redução de contaminantes igual ou superior a 8 logs ou 99,999999%. A radiação UV pode ser usada em: Desinfecção de água para abastecimento: municipal, hospitais, consultórios odontológicos, escolas, quartéis, centros comunitários, hotéis, residências, piscinas, poços artesianos, água da chuva para fins não potáveis; Desinfecção de efluentes: esgotos sanitários de condomínios, residências, indústrias e municípios; Comercial: aquicultura, hidroponia, laboratórios, aquários, piscinas, restaurantes e padarias; Industrial: farmacêutica, água mineral, bebidas, eletrônica, alimentícia, têxtil, cosméticos, gráfica etc.; Proteção para outras tecnologias de tratamento de água: membranas (osmose reversa e ultrafiltração), resinas de deionização, filtros de carvão ativado. Aplicações de UV no ar: exaustão de tanques, ar comprimido estéril, dutos de ar condicionado e ambientes com contaminação. Tratamento para Sólidos Orgânicos Dissolvidos Troca Iônica O tratamento de água, seja para uso humano ou uso industrial, requer tratamentos ou filtrações variáveis, de acordo com a necessidade. Alguns usos industriais exigem tratamentos mais cuidadosos e completos que o tratamento para uso humano (potabilidade). Empresas como a indústria farmacêutica demandam água de alta qualidade e necessitam de água de alta pureza com um polimento final e tirando todos os sais presentes. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 110 Em alguns casos, é preciso retirar um metal pesado específico, dificilmente conseguido com tratamento usual. Água de caldeira, por exemplo, precisa de retirada de dureza (cálcio e magnésio) que poderia entupir a tubulação e reduzir a capacidade de funcionamento. Para estas aplicações mais específicas, desenvolveram-se as resinas de troca iônica (aniônica e catiônica) que retiram estes íons da água, seletivamente. Resinas de troca iônica são grânulos que têm em sua estrutura molecular radicais ácidos ou básicos passíveis de troca por outros íons em solução. Os íons positivos ou negativos fixos nestes radicais são substituídos pelos íons contaminantes na solução. A operação de troca iônica é a troca entre estes íons presentes (contaminantes) e íons sólidos presentes na resina. As resinas de troca iônica podem ser tipo gel ou macroporos. A estrutura molecular é obtida por polimerização e a diferença apenas em porosidade. O tipo gel tem porosidade reduzida à distância intermolecular (microporo) e o tipo macroporo é formada adicionando-se uma substância que produz o efeito. As resinas de troca iônica podem ser monofuncionais, se tiverem apenas um tipo de radical, ou polifuncionais, se a molécula tiver vários tipos de radicais intercambiáveis. Resinas catiônicas de ácido forte: são produzidas por sulfonação do polímero com ácido sulfúrico, o grupo funcional é o ácido sulfônico, -SO3H. Estas resinas trabalham em qualquer pH, separam todas os sais e requerem uma quantidade elevada de regenerante. Esta resina é escolhida para quase todas as aplicações de abrandamento de água. A resina catiônica forte (em ciclo sódio), habitualmente utilizada nos abrandadores, pode remover ferro e manganês quando presentes sob a forma iônica (dissolvida). No entanto, só se deve utilizar este método se as SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 111 concentrações presentes forem reduzidas, tendo sempre o cuidado de eliminar qualquer contato com o ar (para evitar formação de precipitados). O sistema deve ser regenerado antes que atinja a exaustão da capacidade de troca iônica do leito de resinas. Existem dados de fabricantes que colocam o limite em 5ppm de ferro dissolvido (ou de ferro mais manganês). Resinas catiônicas de ácido fraco: O grupo funcional é um ácido carboxílico - COOH, presente em um dos componentes, principalmente o ácido acrílico ou metacrílico. Este tipo de resina é altamente eficiente e não precisa de uma quantidade elevada de regenerante, estas resinas têm uma menor capacidade de troca iônica devido à variação na velocidade do fluxo a baixas temperaturas. Resinas aniônicas de base forte: São obtidas a partir da reação de estireno-DVB com aminas terciárias. O grupo funcional é um sal de amônio quaternário. Os dois grupos principais destas resinas podem ser Tipo 1 (tem três grupos metilo) e tipo 2 (um grupo etanol substitui um dos grupos metil). Resinas aniônicas de base fraca: Resinas funcionalizadas com grupos de amina primária (NH4), secundária (NHR) e terciária (NR2). Podem ser aplicadas na adsorção de ácidos fortes com boa capacidade, mas sua cinética é lenta. Resinas Quelantes são seletivas, mas são pouco utilizadas por serem custosas e cineticamente lentas. Resinas catiônicas e aniônicas fortes de leitos mistos • polimento final da água desmineralizada; • reter os cátions e os ânions que passam pelo sistema de osmose reversa; • garantir os limites de especificações da água para caldeiras. Abrandador e Abrandamento de Água Equipamentos utilizados para redução dos teores de cálcio e/ou magnésio em água dura. O processo parcial de troca iônica, denominado de abrandamento, é SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 112 obtido quando a água bruta (potável) passa em um leito de resina catiônica forte, no ciclo sódio. Os íons cálcio e magnésio, Ca2+ e Mg2+, solúveis na água, são retidos no grupamento do ácido sulfônico e os íons sódio (Na+), da resina, liberados para a água. Quando todos os íons sódio presos ao grupamento do ácido sulfônico foram trocados por cálcio e magnésio, a resina se encontra no estado saturado e necessita, então, ser regenerada. A regeneração das resinas do abrandamento compreende quatro estágios: • Exaustão: saturação da resina com íons cálcio e magnésio; • Expansão: contralavagem do leito saturado da resina, expandindo-a até a parte superior do vaso. A finalidade da expansão ou contralavagem é soltar as impurezas sólidas presas aos cristais e descompactação; • Regeneração: é a rejeição dos íons de cálcio e magnésio (Ca2+ e Mg2+) captados da água, por meio da passagem de uma salmoura a 10% substituídos por íons de sódio que voltam a se prender ao grupamento do ácido sulfônico; • Enxágue: o enxágue lento completa a regeneração da resina e o enxágue rápido final remove todo o excesso da salmoura regenerante do leito. As resinas de troca iônica são utilizadas há décadas em processos de desmineralização de água, abrandamento,polimento de condensado, pré- tratamento de água para caldeiras, processos industriais etc. Resinas trocadoras se deterioram naturalmente com o uso, mas o processo pode ser acelerado por agentes externos tais como oxidantes ou outros contaminantes. Práticas inadequadas de operação também podem acelerar a deterioração da resina e diminuem a qualidade da água produzida. Uma resina responsável pela troca iônica pode ter sua durabilidade ou sua vida útil muito acima de 10 anos, porém, isto só acontece se o projeto e a operação dos sistemas sejam efetuados de maneira adequada, caso contrário, haverá um SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 113 decaimento da vida útil desta resina, causando inconvenientes financeiros e operacionais. Para o cálculo da resina, da quantidade e do sistema de regeneração, é preciso conhecer a água que se vai tratar e a finalidade ou uso a que se destina. Estas são as condições para optimização do uso da resina destinada para tratamento, pois de acordo com a demanda de grandes volumes de líquidos a tratar, não só quantidade bem como o tipo de resina, são determinantes para o bom funcionamento do sistema. Osmose Reversa A osmose é um fenômeno encontrado na natureza, que consiste na difusão entre duas soluções de concentrações salinas diferentes, através de uma membrana semipermeável. Membranas deste tipo são tecidos que permitem a difusão preferencial da água e retêm sais minerais nela dissolvidos, assim como coloides e bactérias. Um sistema de osmose direta, contendo dois compartimentos separados por membrana semipermeável, onde se encontra uma solução diluída em um dos compartimentos e água salina no outro. Imediatamente, observa-se, um fluxo preferencial da solução diluída difundindo-se através da membrana, reduzindo a concentração salina da água, encontrada no outro compartimento. A passagem da água pura, através da membrana semipermeável, provoca um aumento no volume da água salinizada, com a formação de uma coluna de água. Este efeito físico é decorrente da pressão exercida sobre a membrana, no lado da água salinizada. A pressão corresponde à altura da coluna, que em situação de equilíbrio interrompe a difusão da água pura para água salinizada, entrando então os sistemas em equilíbrio. Esta pressão hidrostática de equilíbrio é denominada pressão osmótica da solução salina em questão. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 114 Na osmose reversa, o fluxo de água no sistema é invertido. A água salina é pressurizada além da pressão osmótica natural e bombeada através da membrana semipermeável. A membrana comporta-se como uma peneira molecular, rejeitando seletivamente quase todas as moléculas dissolvidas e permitindo somente a passagem de água pura. A osmose reversa tem a capacidade de separar a água de seus contaminantes, tais como: sólidos dissolvidos, coloides, sólidos suspensos, bactérias, vírus e matéria orgânica. Mecanismo de Funcionamento O mecanismo mais aceito, dentre outros, é o da solubilização e difusão molecular. Cada molécula da solução a tratar se dissolve na membrana, segundo leis de distribuição e equilíbrio, se difundindo através dela, em função dos diferenciais de concentração e pressão, existentes em cada lado da membrana. Portanto, o bom funcionamento da osmose reversa é em função dos gradientes de concentração e pressão entre a água salinizada (denominada rejeito) e a água produzida (denominada permeado). Tipos de Membranas utilizadas Existem vários tipos de membranas, podendo ser citados o Acetato de Celulose, as Poliamidas Aromáticas-Aramidas e as Poliamidas Hidrazidas (por serem fibras finas e ocas, possuem uma estrutura mais fechada, possibilitando trabalhar com água do mar com salinidade de 45.000 ppm), a Poliamida de composição avançada e as Polisulfonas. Algumas circunstâncias podem alterar o desempenho e o tempo de vida das membranas utilizadas como osmose reversa, por exemplo: pH da água: a variação de pH nas faixas fortemente ácidas ou fortemente alcalinas afeta as diferentes membranas utilizadas. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 115 Temperatura: As membranas de acetato de celulose se hidrolizam, quando a temperatura da água excede 30º. Compactação ou Deformação Física: estes problemas podem acontecer nas membranas quando as pressões de bombeamento da água bruta excedem 90 kgf/cm2. Cloro livre: sendo o cloro livre um agente oxidante energético, ele pode afetar a maioria das membranas, sendo nestes casos, necessária a decloração da água bruta. Fouling: É produzido no interior da membrana, pela associação de sólidos suspensos e material biológico. Seria adequado evitá-lo, utilizando cloração e posterior decloração da água bruta e filtrando em malha de 0,2 µm. Incrustações: na malha de membrana, a água bruta precipita dureza temporária, carbonato de cálcio e hidróxido de magnésio e dureza permanente, sulfato de cálcio. A dureza temporária é impedida de precipitar, trabalhando-se com valores de pH da água bruta, entre 4,5 - 5,0. A dureza permanente é impedida de precipitar, dosando-se continuamente um anti-incrustante específico para sulfato de cálcio. Os produtos químicos adequados à aplicação em sistemas de osmose reversa são: Acidulantes/alcalinizantes, Inibidores de depósitos, Biocidas e Sequestrante de cloro. Eletrodiálise Eletrodiálise é uma técnica eletroquímica que utiliza membranas de troca iônica para remoção de íons pela aplicação de um campo elétrico. É uma operação unitária na qual a separação parcial dos componentes de uma solução iônica é induzida por uma corrente elétrica em função da quantidade de íons dissolvidos no meio. SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 116 O seu princípio baseia-se numa série de membranas catiônicas e aniônicas arranjadas alternadamente entre dois eletrodos. Cada membrana é separada uma da outra por espaçadores formando compartimentos individuais. Quando uma solução iônica é bombeada através desses compartimentos sob efeito de uma diferença de potencial entre os eletrodos, os cátions migrarão para o cátodo, atravessando a membrana catiônica e em seguida serão retidos pela membrana aniônica. Esta técnica vem encontrando grande crescimento de aplicação no polimento de água pré-desmineralizada por troca iônica (cátion+ânion) ou por osmose reversa, em substituição ao leito misto de troca iônica. Trata-se de uma tecnologia de separação que, em geral, não envolve mudança de fase, o que significa uma economia no consumo de energia, principalmente se comparada aos processos tradicionais. A dessalinização de águas através da eletrodiálise ocorre devido a uma diferença de potencial elétrico nas superfícies de membranas bipolares. Esse tipo de membrana promove eletricamente a difusão acelerada de cátions e ânions através das superfícies das membranas gerando durante o processo dois efluentes: um com elevada concentração de sais (água concentrada) e outro com uma baixa concentração de sais (água diluída ou dessalinizada). As vantagens deste processo são o fato de serem operações contínuas, que não necessitam de regenerações periódicas, nem consomem produtos químicos, sendo de fácil manuseio e instaladas em ambientes fechados. Há diversas soluções para a descontaminação do meio poluído pelos efluentes industriais; algumas são mais radicais e definitivas do que outras, porém mais dispendiosas e complexas, uma vez que a contaminação pode possuir características distintas e atingir meios variados.SISTEMAS E TRATAMENTO DE EFLUENTES 117 Nesse caso, cabe ao profissional responsável decidir qual método será mais adequado para ser adotado para a manutenção do ambiente atingido pelos excedentes contaminantes despejados.