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Anumerismo: a incapacidade de compreender números

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1 
 
Anumerismo 
Milhões e bilhões: bobagem! É tudo a mesma coisa... 
Roberto de Castro Neves1 
 
O professor fala sobre o universo e vaticina sobre o desaparecimento do sol. 
 
Assustado, um aluno o interrompe: 
 
– Professor, poderia repetir: dentro de quantos anos mesmo o senhor disse que o sol 
irá desaparecer? 
 
– Eu disse “em bilhões de anos”. 
 
– Ah, que susto! Eu tinha entendido o senhor dizer “em milhões de anos”. 
 
Chama-se anumerismo a incapacidade de compreender o significado dos números. 
Não seria correto dizer que o anumerismo está para os números assim como o 
analfabetismo está para as palavras. É mais que isso. 
 
Saber ler ou escrever números – e até fazer operações com eles – não garante que 
saibamos o que eles significam, assim como conhecer cores não nos assegura a 
compreensão de uma pintura. 
 
Seria mais adequado dizer que o anumerismo está para os números assim como a 
semântica está para as palavras. Ainda não é a comparação perfeita, mas me parece 
a melhor. 
 
 
1 Consultor empresarial e autor de vários livros da área de comunicação, entre eles Comunicação 
Empresarial Integrada. 
 
 
2 
 
Essa incompreensão é um problema. O anumerismo é uma enorme barreira para a 
comunicação, porque anula a condição do receptor de captar e de processar certas 
mensagens. 
 
Por exemplo, como é possível comunicar um plano de governo ou empresarial ou 
mesmo doméstico para quem diz: “Ah, esse negócio de números não é o meu forte”? 
 
O leitor já deve ter ouvido confissão semelhante de homens públicos – seja na 
empresa, seja em casa. Às vezes, o reconhecimento da incapacidade não é explícito, 
mas se demonstra por atitudes, por decisões, por iniciativas. 
 
Não faz muito tempo, a título de indenização, uma juíza condenou o Banco da 
Amazônia a pagar US$ 81 bilhões a uma pequena empresa privada. Esse valor – em 
torno de 10% do PIB nacional – daria para comprar 25 empresas do porte da Vale 
do Rio Doce. 
 
Indagada sobre o valor da sentença, a juíza declarou: “Eu também achei que era 
muito dinheiro. Mas tenho de me ater aos autos. Eu não sou técnica”. 
 
Durante a chamada CPI dos bancos, o país assistiu, pela televisão, a senadores 
constrangidos se atrapalhando com grandezas, com percentuais e os malditos zeros 
à direita. 
 
O estrago causado pelo anumerismo é diferente daquele que resulta do não 
entendimento do significado de uma obra de arte. Esta última pode – quando muito 
– implicar um problema para artistas, marchands, enfim, para quem vive nesse 
mercado. Poder-se-ia até aceitar que o grande prejudicado dessa incapacidade fosse 
o próprio leigo. Afinal, ele deixa de ter acesso a um prazer muito especial: o estético. 
 
Entretanto, o estrago que você faz na sociedade – e em outros segmentos menores 
– por não saber ler e compreender um trabalho artístico é infinitamente menor do 
que não saber ler e compreender alguns conceitos elementares que envolvam 
 
 
3 
 
números, como no exemplo da meritíssima e de suas excelências: os nobres 
senadores. 
 
Então, para quem o anumerismo é problema? Para tudo e para todos. A começar, 
para os governos – quaisquer que sejam eles e em qualquer lugar que estejam. 
 
Quantas pessoas são capazes de entender a diferença entre gastar milhões ou 
bilhões de dólares em um projeto de governo? Essa incapacidade é um problema 
universal, mas, no Brasil, por várias razões – e entre elas o longo período vivido de 
inflação altíssima –, assumiu proporções maiores. 
 
A desordem dos preços relativos não permitia que as pessoas construíssem 
referências. A atitude bem brasileira de comprar a prazo pagando juros extorsivos 
porque “o que eu ganho por mês dá para pagar a prestação” é uma sequela do 
anumerismo e é um problema para o governo, para as empresas e, principalmente, 
para os próprios devedores. 
 
A nostalgia dos tempos da inflação exemplificada no queixume “pelo menos a gente 
tinha aumento todo mês” é outra derivada. Em suma, fica difícil para os governos 
justificarem medidas importantes para a sociedade, tais como cortes de gastos e 
aumento de impostos. 
 
Por outro lado, os projetos mirabolantes para acabar com essa ou aquela mazela 
social encontram fácil aceitação. Os demagogos aproveitam-se do anumerismo 
generalizado. 
 
Interessante é que, enquanto a erradicação do analfabetismo tem sido um objetivo 
de todos os governos em todo o mundo, o anumerismo, possivelmente mais grave 
que o primeiro, não merece nenhuma atenção das autoridades nem de nenhuma 
Organização Não Governamental (ONG). 
 
 
 
4 
 
Não tem ainda status de chaga social, apesar de já ter sido a causa de decisões 
erradas tomadas por homens públicos – muitas das quais resultaram em golpes de 
Estado, revoluções, guerras, tudo com um enorme custo para a humanidade. 
É um problemaço para as empresas. 
 
Os exemplos não ficam apenas na questão da inadimplência acima mencionada. A 
atividade de marketing em uma população de consumidores em que grassa o 
anumerismo é de alto risco. Nesses ambientes, convencer e enganar estão muito 
próximos. 
 
No outro lado da casa, profissionais de relações públicas de empresas falam com 
interlocutores – jornalistas, congressistas, formadores de opinião, autoridades – que 
também fazem confusão entre milhões e bilhões. Mas a pior notícia vem de dentro 
de casa: os próprios empregados sofrem de anumerismo. 
 
Mesmo em grandes empresas, mesmo entre os altos salários, no topo, há quem 
considere que os números não são seu forte e deixe essas questões áridas e 
maçantes exclusivamente para os financeiros da empresa. 
 
O problema já começa nos processos de admissão, quando se atribui mais valor aos 
conhecimentos de inglês e espanhol do que à habilidade de entender os números. 
 
Com isso, em tempos de vacas magras, quando chega a hora de apertar o cinto, o 
esforço da comunicação interna não chega a lugar nenhum. 
 
O anumerismo não tem preferência de sexo, nível educacional, cultural ou de renda. 
Um sertanejo analfabeto pode saber lidar melhor com números que um herdeiro da 
tradicional burguesia paulista formado na Universidade de São Paulo (USP) e que 
fala cinco idiomas. 
 
TERESA CRISTINA
Realce
 
 
5 
 
Uma empregada doméstica pode saber administrar melhor seu ordenado que a 
patroa ou o patrão seus orçamentos domésticos. Mas a má notícia é que o mal ataca 
a grande maioria das pessoas. Fazer o quê? 
 
Como sempre, o ponto de partida é ter consciência do problema – sobretudo os 
comunicadores. Eles precisam saber que essa deficiência é um dado da realidade e 
levar isso em consideração em seus programas. Grandes campanhas morreram na 
praia porque os estrategistas esquecerem este detalhe: as pessoas não sabem 
compreender números. 
 
O trabalho deve começar dentro de casa, em um universo onde se tem mais 
controle. É necessário educar amplamente a população e evitar que a questão dos 
números se departamentalize, ou seja, que vire “problema do departamento 
financeiro”. 
 
Além disso, precisamos considerar a habilidade como condição de progresso e de 
ingresso na empresa. Para a sociedade, infelizmente, não existe solução de curto 
prazo. 
 
O que poderia ser feito – para benefício das próximas gerações – é incluir a velha 
matemática e noções de contabilidade em toda a cadeia escolar: do maternal à 
faculdade – sobretudo nas chamadas ciências humanas. Outra possibilidade seria 
estabelecer o numerismo como pré-requisito em todos os concursos públicos. 
 
Acredite: se a maioria das pessoas soubesse entendero significado dos números, o 
mundo seria melhor – pelo menos para os comunicadores. 
 
 
Disponível em: http://www.aberje.com.br/revista/antigas/rev_41_artigo.htm. 
Acesso em: 16 out. 2013.