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CAPÍTULO UM QUESTÕES EPISTEMOLÓGICAS A teoria do conhecimento, ou epistemologia, é o ramo da filosofia que trata das questões filosóficas sobre o conhecimento e a racionalidade. Os epistemólogos estão pri- mariamente interessados nas questões sobre a natureza do conhecimento e nos princípios que governam a crença racional. Eles estão menos focados em decidir se há conhecimento ou crença racional em casos reais, específicos. Assim, por exemplo, não é tarefa do epis- temólogo determinar se é agora razoável crer que exista vida em outros planetas. Este é primariamente o trabalho de astrônomos e cosmólogos. A tarefa dos epistemólgos é tentar desenvolver uma teoria geral estabelecendo as condições sob as quais as pessoas têm co- nhecimento e crenças racionais. Pode-se então aplicar essa teoria mais geral ao caso espe- cífico da crença em vida em outros planetas, mas fazê-lo é ir além das questões epistemo- lógicas centrais. Embora no curso do exame das questões filosóficas seja costumeiro pen- sar sobre muitos exemplos específicos, isso serve principalmente para ilustrar as questões gerais. O objetivo deste capítulo é identificar algumas das questões teóricas centrais de que trata a epistemologia. Uma boa maneira de começar é olhar para as coisas que ordinariamente dizemos e pensamos acerca do conhecimento e da racionalidade. Sistematizando-as e refletindo sobre elas chegaremos a um conjunto de questões e enigmas. Assim, começaremos expondo de uma maneira sistemática algumas idéias comumente (mas não universalmente) sustentadas acerca do que nós conhecemos e de como nós conhecemos essas coisas. Chamaremos a essa coleção de idéias de Perspectiva Standard. Neste capítulo identificaremos algumas das alegações centrais da Perspectiva Standard. Dos capítulos 2 até 5 tentaremos descrever em detalhe as implicações da Perspectiva Standard e expor suas respostas a algumas das questões centrais. Então, dos capítulos 6 até 9 nos voltaremos para diversos desafios e ob- jeções à Perspectiva Standard. Assim, o objetivo geral deste livro é proporcionar um me- lhor entendimento das perspectivas do senso comum acerca do conhecimento e da raciona- lidade e ver em que extensão aquelas perspectivas podem suportar a crítica. I. A PERSPECTIVA STANDARD No curso comum dos eventos, as pessoas alegam conhecer muitas coisas, e elas a- tribuem aos outros numa variedade de casos. Daremos exemplos abaixo. As alegações de conhecimento com as quais nós estamos preocupados não são irrefletidas ou esquisitas. Antes, elas são juízos sensatos e ponderados. Assim, a lista que segue reflete um conjunto de pensamentos acerca do conhecimento e da racionalidade ao qual muitas pessoas prova- velmente chegariam se elas refletissem honesta e cuidadosamente acerca do tópico. Você pode não concordar com cada detalhe da perspectiva a ser descrita, mas é justo dizer que ela captura acuradamente o senso comum reflexivo. A. O Que Nós Conhecemos A maioria de nós pensa que conhecemos muitas coisas. A lista seguinte identifica algumas categorias gerais dessas coisas e dá exemplos de cada uma. As categorias podem se sobrepor e elas estão longe de serem precisas. Ainda assim, elas nos dão uma boa idéia dos tipos de coisas que nós podemos conhecer. a. Nosso meio-ambiente imediato: “Há uma cadeira aqui.” “O rádio está ligado.” b. Nossos próprios pensamentos e sentimentos: “Estou animado com o novo semestre.” “Eu não estou ansioso para preencher meus formulários de imposto.” c. Fatos do senso comum acerca do mundo: “A França é um país da Europa.” “Muitas árvores deixam cair suas folhas no outono.” d. Fatos científicos: “Fumar cigarros causa câncer de pulmão.” “A terra gira em torno do sol.” e. Estados mentais dos outros: “Meu vizinho quer que sua casa seja pintada.” “Aquela pessoa ali que está rindo muito achou a piada que ela recém ouviu engraçada.” f. O passado: “George Washington foi o primeiro presidente dos Estados Unidos.” “O presidente Kennedy foi assassinado.” g. Matemática: “2 + 2 = 4” “5 . 3 = 15” h. Verdades conceituais: “Todos os solteiros são não-casados.” “Vermelho é uma cor.” i. Moralidade: “A tortura gratuita de crianças é errada.” “Não há nada de errado em tirar uma folga do trabalho de vez em quando.” j. O futuro: “O sol nascerá amanhã.” “Os Chicago Cubs não ganharão a World Series no próximo ano.”1 k. Religião: “Deus existe.” “Deus me ama.” Existem, naturalmente, muitas coisas destas categorias que nós não conhecemos. Alguns fatos acerca do passado distante estão irrecuperavelmente perdidos. Alguns fatos acerca do futuro estão, ao menos por enquanto, além de nós. Algumas das áreas de conhe- cimento da lista são controversas. Você pode ter dúvidas acerca de nosso conhecimento nas áreas da moralidade e da religião. Ainda assim, a lista proporciona uma exemplificação adequada dos tipos de coisas que nós tipicamente alegamos conhecer. Assim, a primeira tese da Perspectiva Standard é PS1. Nós conhecemos uma grande variedade de coisas das categorias (a) – (k). B. Fontes de Conhecimento Se (PS1) está correta, então existem algumas maneira pelas quais nós chegamos a conhecer as coisas que ela diz que conhecemos; existem algumas fontes para o nosso co- 1 Os fãs dos Cubs podem não gostar deste exemplo. Mas aqueles que acompanham beisebol sabem que, não importa o que aconteça, os Cubs nunca vencem. Nem o Boston Red Sox. nhecimento. Por exemplo, se nós conhecemos alguma coisa acerca do nosso meio- ambiente imediato, então a percepção e a sensação jogam um papel central na aquisição desse conhecimento. A memória obviamente é crucial para o nosso conhecimento do pas- sado e também para certos aspectos do nosso conhecimento de fatos correntes. Por exem- plo, meu conhecimento de que a árvore que vejo através de minha janela é um bordo de- pende de minha percepção da árvore e de minha lembrança de como os bordos se parecem. Outra fonte de boa parte de nosso conhecimento é o testemunho das outras pessoas. O tes- temunho não se restringe aqui às declarações feitas por testemunhas sob juramento. Ele é muito mais amplo do que isso. Ele inclui o que as outras pessoas dizem a você, incluindo o que eles dizem a você na televisão ou em livros e jornais. Três outras fontes de conhecimento merecem também uma breve menção aqui. Se a percepção é a nossa consciência das coisas externas através da visão, da audição e dos ou- tros sentido, então a percepção não dá conta do nosso conhecimento de nossos próprios estados internos. Você pode agora saber que se sente sonolento, ou que está agora pensan- do acerca do que irá fazer no final de semana. Mas isso não ocorre por meio da percepção no sentido recém estabelecido. Ocorre, antes, por meio da introspecção. Assim, está é outra potencial fonte de conhecimento. Além disso, algumas vezes nós conhecemos coisas por raciocínio ou inferência. Quando nós conhecemos alguns fatos e vemos que aqueles fatos sustentam algum outro fato, nós chegamos a conhecer esse outro fato. O conhecimento científico, por exemplo, parece surgir de inferências a partir de dados observacionais. Finalmente, parece que conhecemos algumas coisas simplesmente porque nós po- demos “ver” que elas são verdadeiras. Isto é, nós temos a habilidade de pensar acerca das coisas e de discernir algumas verdades simples. Embora isso seja matéria de alguma con- trovérsia, nosso conhecimento de aritmética elementar, de lógica simples e de verdades conceituais parece cair nessa categoria. Por falta de um termomelhor, nós iremos dizer que conhecemos essas coisas por meio de insight racional. Nossa lista das fontes de conhecimento, então, se parece com isto: a. Percepção b. Memória c. Testemunho d. Introspecção e. Raciocínio f. Insight racional Sem dúvida, em muitos casos nosso conhecimento depende de alguma combinação dessas fontes. A Perspectiva Standard sustenta que nós podemos ganhar conhecimento dessas fontes. Ela não diz que essas fontes são perfeitas. Sem dúvida, elas não são. Algumas vezes nossas lembranças estão equivocadas. Algumas vezes nossos sentidos nos enganam. Al- gumas vezes nós raciocinamos mal. Ainda assim, de acordo com a Perspectiva Standard, nós podemos obter conhecimento usando essas fontes. Se a lista de fontes de conhecimento deveria ser expandida é matéria de alguma controvérsia. Talvez algumas pessoas acrescentassem insight religioso ou místico à lista. Talvez outras pensassem que existissem formas de percepção extra-sensorial que devêsse- mos acrescentar. Entretanto, estas são questões sobre as quais há maior desacordo. Acres- centá-las à lista, assim, pode fazer a lista parecer menos com alguma coisa que mereça o nome de “Perspectiva Standard”. Assim, nós não as acrescentaremos aqui. Outros podem querer acrescentar a ciência à lista das fontes de conhecimento. Embora possa não ser obje- tável fazê-lo, a ciência é provavelmente melhor vista como uma combinação de percepção, memória, testemunho e raciocínio. Assim, pode não ser necessário acrescentá-la à lista. Assim, a segunda tese da Perspectiva Standard é PS2. Nosso fontes de conhecimento primárias são (a) – (f). A Perspectiva Standard, então, é a conjunção de (PS1) e de (PS2). II. DESENVOLVENDO A PERSPECTIVA STANDARD Numerosas questões surgem quando refletimos acerca da Perspectiva Standard. Essas questões constituem o objeto primeiro da epistemologia. Esta seção identifica algu- mas dessas questões. Se alguns casos caem na categoria de conhecimento e outros são dela excluída, en- tão deve haver alguma coisa que diferencie esses dois grupos de coisas. O que é que dis- tingue o conhecimento da falta de conhecimento? O que é preciso para conhecer alguma coisa? Isto leva à primeira questão: Q1. Sob que condições uma pessoa sabe que alguma coisa é verdadeira? Pode-se pensar que é uma questão de quão segura uma pessoa se sente sobre algu- ma coisa ou de se existe um acordo geral sobre o assunto. Como veremos, estas não são boas respostas para (Q1). Alguma coisa mais distingue o conhecimento de seu oposto. (Q1), afinal de contas, é surpreendentemente difícil, controversa e interessante. Produzir uma resposta para ela envolve pensar em algumas questões difíceis. Esse será o foco dos capítulos 2 e 3. De acordo com muitos filósofos, uma condição importante para o conhecimento é a crença racional ou justificada. Conhecer alguma coisa requer algo como ter uma boa razão para crer nela, ou chegar a crer nela da maneira correta, ou alguma coisa do tipo. Você não conhece uma coisa se está apenas adivinhando, por exemplo. Isto nos leva a uma segunda questão, uma que tem sido central para a epistemologia por muitos anos: Q2. Sob que condições uma crença é justificada (ou razoável ou racional)? E isto nos levará a questões adicionais acerca das fontes de conhecimento alegadas. Como essas faculdades nos tornam aptos a satisfazer as condições para o conhecimento? Como elas podem produzir a justificação epistêmica? Esse será o foco dos capítulos 4 e 5, bem como de partes dos capítulos 7-9. Nossas crenças obviamente jogam um papel central na determinação de nosso comportamento. Você irá se comportar de maneira muito diferente em relação ao seu vizi- nho se acreditar que ele seja um amigo confiável ao invés de um inimigo desonesto. Dada a habilidades das crenças de afetar o nosso comportamento, parece claro que as suas cren- ças podem afetar a sua vida e a vida dos demais. Dependendo da sua carreira e da extensão na qual os outros dependem de você, você pode ter a obrigação de conhecer certas coisas. Por exemplo, um médico deve conhecer os últimos desenvolvimentos em sua especialida- de. Algumas vezes, entretanto, o conhecimento pode ser uma coisa ruim, como quando al- guém fica sabendo da deslealdade de um aparente amigo. Estas considerações sugerem que questões práticas e morais interagem com questões epistemológicas de maneiras que mere- cem exame. Assim, Q3. De que maneiras, se alguma há, as questões epistemológicas, práticas e morais afetam umas às outras? Trataremos dessa questão no capítulo 4. III. DESAFIOS Á PERSPECTIVA STANDARD A cuidadosa reflexão filosófica sobre as questões até agora listadas, a ser desenvol- vida nos capítulos 2-5, resultará na exposição detalhada daquilo a que conduz a Perspecti- va Standard. Entretanto, como se evidenciará ao prosseguirmos, há razões para perguntar- mos se essa perspectiva do senso comum é realmente correta. Nós daremos a essas razões e às visões alternativas sobre o conhecimento e a racionalidade associadas com elas a devida atenção nos capítulos 6-9. As idéias centrais por detrás dessas dúvidas são as bases para as questões restantes acerca da Perspectiva Standard. A. A Perspectiva Cética Os advogados da Perspectiva Standard sustentam que nós conhecemos muito me- nos do que a Perspectiva Standard diz que nós conhecemos. O ceticismo constitui um tra- dicional e poderoso desafio filosófico à Perspectiva Standard. Os céticos pensam que a Perspectiva Standard é demasiado caridosa e auto-indulgente. Eles pensam que a nossa asserção confiante de que conhecemos muitas coisas resulta de uma autoconfiança presun- çosa que é inteiramente injustificada. Como nós veremos, alguns argumentos céticos re- pousam sobre possibilidades aparentemente bizarras: talvez você esteja apenas sonhando que vê e ouve as coisas que você está vendo e ouvindo; talvez a sua vida seja algum tipo de realidade artificial gerada por computador. Outros argumentos céticos não repousam sobre hipóteses estranhas como essas. Mas todas elas desafiam as nossas confortáveis visões do senso comum. Estas considerações conduzem a um novo conjunto de questões epistemoló- gicas: Q4. Nós realmente temos algum conhecimento? Há alguma boa resposta aos argu- mentos dos céticos? (Q4) questiona se, com efeito, as condições formuladas em resposta a (Q1) são de fato satisfeitas. Os advogados da Perspectiva Cética sustentam que a resposta para cada uma das questões de (Q4) é “Não.” Eles estão inclinados a negar tanto (SV1) quanto (SV2). B. A Perspectiva Naturalista A metodologia tradicionalmente utilizada pelos epistemólogos é primariamente a análise conceitual ou filosófica: pensar rigorosamente acerca de como são o conhecimento e a racionalidade, freqüentemente utilizando exemplos hipotéticos para ilustrar as questões. Entretanto, pode-se perguntar se não faríamos melhor estudando alguma dessas questões cientificamente. Muitos filósofos recentes têm dito que faríamos. Chamaremos a essa pers- pectiva de Perspectiva Naturalista porque ela enfatiza o papel da ciência natural (ou empí- rica ou experimental). Assim, uma maneira pela qual a Perspectiva Naturalista desafia a Perspectiva Standard tem a ver com a metodologia utilizada para sustentar as teses (SV1) e (SV2) da Perspectiva Standard. A Perspectiva Naturalista conduz a um segundo tipo de desafio à Perspectiva Standard. Há um corpo de pesquisa acerca das maneiras pelas quais as pessoas pensam e raciocinam que é perturbador. Ele mostra, ou ao menos parece mostrar, erros e confusõessistemáticos e generalizados na maneira como nós pensamos e raciocinamos. Quando con- frontadas com os resultados dessas pesquisa, algumas pessoas se perguntam se algo como a Perspectiva Standard pode estar correta. Estas considerações conduzem ao nosso próximo conjunto de questões: Q5. De que maneiras, se alguma há, os resultados em ciência natural, especialmente na psicologia cognitiva, influenciam nas questões epistemológicas? Os recentes resultados empíricos solapam a Perspectiva Standard? C. A Perspectiva Relativista Outro desafio à Perspectiva Standard emerge de considerações de relativismo e di- versidade cognitiva. Para ver as questões envolvidas aqui, note que as crenças das pessoas e suas políticas de formação de crenças diferem amplamente. Por exemplo, algumas pesso- as estão dispostas a crer na base de pouca evidência. Algumas parecem demandar muita evidência. As pessoas diferem também em suas atitudes em relação à ciência. Algumas pessoas crêem fortemente no poder da ciência. Elas pensam que os métodos da ciência proporcionam a única maneira razoável de aprender acerca do mundo que nos cerca. Elas ás vezes consideram aos demais como irracionais por crer em coisas tais como astrologia, reencarnação, PES, e outros fenômenos ocultos. Defensores destas crenças ás vezes acu- sam seus críticos de fé cega e irracional na ciência. As pessoas também diferem ampla- mente sobre questões políticas, morais e religiosas. Pessoas aparentemente inteligentes po- dem se encontrar em sério desacordo umas com as outras sobre essas questões. Não há dú- vida, então, de que as pessoas discordam, com freqüência veementemente, acerca de um grande número de coisas. O fato de que haja todo esse desacordo leva algumas pessoas a perguntar se em ca- da caso (ao menos) uma das partes da disputa deva estar sendo desarrazoada. Um pensa- mento confortador para muitos é o de que há lugar para um desacordo razoável, ao menos sobre certos tópicos. Isto é, duas pessoas podem ter diferentes pontos de vista e ainda as- sim serem razoáveis ao manter suas próprias perspectivas. Defensores da Perspectiva Rela- tivista estão inclinados a conceder espaço para muito desacordo razoável, enquanto que os defensores da Perspectiva Standard parecem estar mais inclinados a pensar que uma das partes (ao menos) deve estar errada em toda disputa. Estas considerações sobre a diversidade cognitiva e a possibilidade de desacordos razoáveis provocam as seguintes questões que têm a ver com o relativismo epistemológico: Q6. Quais são as implicações epistemológicas da diversidade cognitiva? Existem standards universais de racionalidade, aplicáveis a todas as pessoas (ou a todos os pensa- dores) todas as vezes? Sob que circunstâncias as pessoas racionais podem discordar entre si? As questões levantadas de (Q1) até (Q6) estão entre os problemas centrais da epis- temologia. Os capítulos que seguem tratam delas. CAPÍTULO DOIS A ANÁLISE TRADICIONAL DO CONHECIMENTO O objetivo dos capítulos imediatamente seguintes é tentar esclarecer o que exata- mente diz e quais as implicações da Visão Standard. Ao fazer isso não colocaremos em questão a verdade da Visão Standard. Assumiremos que ela está basicamente correta, re- servando a discussão dos desafios à nossa visão do senso comum para mais tarde. I. TIPOS DE CONHECIMENTO A Visão Standard diz que nós temos uma boa quantidade de conhecimento e diz al- guma coisa sobre as fontes desse conhecimento. Um aspecto central de esclarecer exata- mente aonde leva a Visão Standard é esclarecer exatamente o que ela toma como conheci- mento. A Visão Standard diz que nós temos conhecimento, mas o que é conhecimento? A. Alguns dos Principais Tipos de Conhecimento Nós usamos as palavras “conhece”/”sabe” e “conhecia”/”sabia” em uma variedade de tipos de sentenças diferentes de maneiras importantes. Eis aqui alguns exemplos: 1 a. Conhecer um indivíduo: S conhece x. “O professor conhece J. D. Salinger.” b. Saber quem: S sabe que é x. “O estudante sabem quem é J. D. Salinger.” c. Saber se: S sabe se p. “O bibliotecário sabe ser há um livro de J. D. Salinger na biblioteca.” d. Saber quando: S sabe quando A irá acontecer (ou aconteceu). 1 Os exemplos seguintes mostram padrões gerais de vários tipos de enunciados, com um exemplo mostrando como cada padrão poderia ser preenchido. Os padrões fazem uso de variáveis que podem ser substituídas por termos específicos. Seguindo as práticas standard, “S” é usada como uma variável a ser substituída por um “O editor sabe quando o livro de J. D. Salinger será publicado.” e. Saber como: S sabe como A. “J. D. Salinger sabe como escrever.” f. Saber fatos: S sabe p. “O estudante sabe que J. D. Salinger escreveu O Apanhador no Campo de Centeio.” Esta lista está longe de ser completa. Nós poderíamos acrescentar sentenças usando expressões tais como “sabe qual”, “sabe porque”, e assim por diante. Mas a lista que temos já será suficiente para destacar as principais questões a serem feitas aqui. B. Todo Conhecimento é Conhecimento Proposicional? Sentenças “sabe que” descrevem que uma pessoa conhece um certo fato ou propo- sição. Essas sentenças são ditas expressar conhecimento proposicional. 2 Uma idéia inici- almente plausível sobre a conexão entre essas várias maneiras em que a palavra “sabe” é usada é que “sabe que” é fundamental e que as outras podem ser definidas em termos dela. Para ver porque o conhecimento proposicional é mais fundamental dos que os outros, con- sidere como alguns dos outros tipos poderiam ser explicados em termos dele. Considere (c), “saber se.” Suponha que seja verdadeiro que 1. O bibliotecário sabe se há um livro de J. D. Salinger na biblioteca. Se (1) é verdadeiro, então, se há um livro de J. D. Salinger na biblioteca, o bibliote- cário sabe que há. Se, por outro lado, não há um livro dele na biblioteca, então o bibliote- cário sabe que não há. Qualquer que seja a proposição efetivamente verdadeira – a propo- sição de que há um livro ou a proposição de que não há – o bibliotecário a conhece. Assim, dizer (1) é uma maneira resumida de dizer nome ou a descrição de uma pessoa, “x” é usada como a variável a ser substituída por uma sentença completa que expresse um fato ou o significado de um fato (uma proposição), e “A” por uma descrição de uma ação. 2 Para uma discussão de qual é exatamente o significado da palavra “proposição,” veja a seção III, parte A1 deste capítulo. 2. Ou o bibliotecário sabe que há um livro de J. D. Salinger na biblioteca ou o bi- bliotecário sabe que não há um livro de J. D. Salinger na biblioteca. 3 Nesse aspecto, o bibliotecário difere de um cliente que não sabe se há um livro de Salinger ali. O cliente não sabe que há um livro ali e ele não sabe que não há um livro ali. A questão recém destacada sobre (1) pode ser generalizada. Para qualquer pessoa e para qualquer proposição, a pessoa sabe se a proposição é verdadeira apenas no caso da pessoa saber que ela é verdadeira ou da pessoa saber que ela não é verdadeira. Uma pessoa que não sabe se ela é verdadeira não sabe nem que ela é verdadeira nem que ela não o é. Nós podemos expressar a questão sobre a conexão entre (1) e (2) em termos de uma definição geral, usando a letra “S” para representar um sujeito epistêmico em potencial e “p” para representar uma proposição: D1. S sabe se p = df. Ou S sabep ou S sabe p.4 A definição (D1) ilustra uma importante ferramenta metodológica: definições. Uma definição é correta apenas se os dois lados são equivalentes. Para verificar se os dois lados são equivalentes, você considera os resultados de preencher com instâncias específicas as variáveis ou guardadores de lugar. No caso de (D1), você preenche S com o nome de uma pessoa e substitui p por uma sentença expressando alguma proposição. Se a definição é correta, em todos os casos assim os dois lados concordarão: se o lado esquerdo é verdadei- ro – se a pessoa sabe se a proposição é verdadeira – então o lado direito também será ver- dadeiro – ou a pessoa sabe que ela é verdadeira ou a pessoa sabe que ela não é verdadeira; se, por outro lado, o lado esquerdo não é verdadeiro – se a pessoa não sabe se a proposição é verdadeira – então o lado direito também não será verdadeiro. (D1) parece passar por es- se teste: os dois lados da definição coincidem. Assim, nós podemos explicar “saber se” em termos de “saber que.” 3 É importante entender a diferença entre (2) e 2a. O bibliotecário sabe que ou há um livro de Salinger na biblioteca ou não há um livro de Salinger na biblioteca. (2a) é verdadeira; (2a) descreve o conhecimento de uma disjunção (um enunciado “ou”) e qualquer um pode ter este conhecimento. Mas o bibliotecário precisa possuir um conhecimento especial se (2) é verdadeira. Ele deve saber qual dos disjuntos (as partes do enunciado “ou”) é verdadeiro. Também é possível definir alguns dos outros tipos de conhecimento em termos de conhecimento proposicional. As definições são mais complicadas, mas as idéias são ainda bastante claras. Considere “saber quando.” Se você sabe quando algo aconteceu (ou irá a- contecer), então há alguma proposição expressando o momento em que aquilo aconteceu (ou irá acontecer) tal que você sabe que essa proposição é verdadeira. Assim, dizer 3. O editor sabia quando o livro de J. D. Salinger seria publicado. é dizer que o editor sabia, com respeito a um momento do tempo em particular, que o livro de J. D. Salinger seria publicado nesse momento, e.g., ele sabia que seria publicado em 1950 ou que seria publicado em 1951, etc. Aqueles que sabiam menos que o editor não estavam nessa posição. Para eles, não havia um momento tal que eles conhecessem a pro- posição de que o livro seria publicado naquele momento. Novamente, nós podemos generalizar a idéia e expressá-la como uma definição: D2. S sabe quando x acontece = df. Há alguma proposição dizendo que x acontece em algum momento em particular e S conhece essa proposição. (Há alguma proposição, p, onde p é da forma “x acontece em t” e S conhece p.) Mais uma vez, nós temos uma maneira de explicar um tipo de conhecimento – sa- ber quando – em termos de conhecimento proposicional. É provável que abordagens simi- lares irão funcionar para saber qual, saber porque, e numerosas outras sentenças sobre o conhecimento. O caso em favor do conhecimento proposicional ser fundamental parece muito forte. Entretanto, é improvável que todas as coisas que nós digamos usando a palavra “sabe”/”conhece” possam ser expressas em termos de conhecimento proposicional. Con- sidere o primeiro item de nossa lista: “S conhece x.” Você pode pensar que conhecer al- guém ou alguma coisa é ter conhecimento proposicional de alguns fatos sobre essa pessoa ou coisa. Assim, nós podemos propor 4 “p” significa “não-p”, ou a negação de p. A negação de “Há um livro de Salinger na biblioteca” é “Não é o caso de que haja um livro de Salinger na biblioteca.” D3. S conhece x = df. S tem conhecimento proposicional de alguns fatos sobre x (i.e., para alguma proposição p, p é sobre x, e S conhece p). É provável que alguém que você conheça seja alguém sobre quem você conheça alguns fatos. Mas conhecer alguns fatos sobre uma pessoa não é suficiente para conhecer a pessoa. J. D. Salinger é um autor recluso, mas bem conhecido. Muitas pessoas sabem al- guns fatos sobre ele: elas sabem que ele escreveu O Apanhador no Campo de Centeio. Elas podem saber que ele não interage com uma grande quantidade de pessoas. Desse modo e- las conhecem fatos sobre ele, mas elas não o conhecem. Assim, conhecer uma pessoa não é o mesmo que conhecer alguns fatos sobre a pessoa. Isso mostra que a definição (D3) não é correta. Isso também ilustra outra questão metodológica importante. O exemplo mostra que (D3) não é correta porque ela é um con- tra-exemplo para (D3): um exemplo mostrando que os lados da definição nem sempre con- cordam – um lado pode ser verdadeiro enquanto o outro é falso. Um contra-exemplo bas- tante claro refuta a definição proposta. Ao revisar uma definição em resposta aos contra- exemplos, é possível obter um melhor entendimento dos conceitos sob discussão. 5 O contra-exemplo a (D3) mostra, não apenas que (D3) é falsa, mas também que não está sequer no caminho correto. Nós não podemos fazer algumas pequenas mudanças a fim de consertar as coisas. Não irá ajudar que S conhecesse muitos fatos sobre x, ou que S co- nhecesse fatos importantes sobre x. Você pode ter esse tipo de conhecimento proposicional e ainda assim não conhecer a pessoas. Conhecer x não é uma questão de conhecer fatos sobre x. Ao invés, é uma questão de estar familiarizado com x – ter encontrado x e talvez recordar esse encontro. Não importa quantos fatos você conheça sobre uma pessoa, não se segue daí que você conheça essa pessoa. Conhecer uma pessoa ou uma coisa é estar famili- arizado com essa pessoa ou coisa, ao invés de ter conhecimento proposicional sobre a pes- soa ou coisa. Desse modo, nem todo saber é saber proposicional. Considere a seguir “saber como.” Suponha que exista um hábil esquiador que, após um sério acidente que o deixa inapto para esquiar, se torna um treinador de esqui de suces- so. Seu sucesso como esquiador é em larga medida o resultado do fato de que ele é anor- malmente bom em explicar as técnicas de esqui aos estudantes. O treinador sabe como es- 5 A metodologia usada aqui será importante na seqüência. Um teste importante de uma definição proposta é que não hajam contra-exemplos para ela. quiar? A resposta parece ser “Sim.” Uma explicação plausível disso apela para a seguinte definição: D4a. S sabe como A = df. Se a é um passo importante para fazer A, então S sabe que a é um passo importante para fazer A. 6 Isso parece mostrar que “saber como” pode ser definido em termos de conhecimen- to proposicional. Entretanto, outros exemplos sugerem uma idéia diferente. Considere uma criança jovem que começa a esquiar e o faz com sucesso, sem qualquer treinamento ou entendi- mento intelectual do que ela está fazendo. Ela também sabe como esquiar, mas ela parece carecer do conhecimento proposicional relevante. Ela não tem qualquer entendimento consciente explícito dos vários passos. Ela simplesmente é apta para fazê-lo. Este exemplo sugere que há um segundo significado da expressão “sabe como.” A seguinte definição captura esse segundo significado: D4b. S sabe como A = df. S está apto para A. O ex-esquiador sabe como esquiar no sentido (D4a), mas não no sentido (D4b). Exatamente o inverso é verdadeiro do jovem prodígio. Desse modo um tipo de conheci- mento prático [knowhow] é conhecimento proposicional, mas não o outro tipo. C. Conclusão A tentativa de explicar todos os diferentes tipos de conhecimento emtermos de co- nhecimento proposicional fracassa. A conclusão mais razoável parece ser a de que há (ao menos) três tipos básicos de conhecimento: (1) conhecimento proposicional, (2) conheci- mento por intimidade [acquaintance] ou familiaridade, e (3) conhecimento de habilidade (ou conhecimento de procedimento). Ainda que não possamos explicar todo conhecimento em termos de conhecimento proposicional, o conhecimento proposicional tem um status especial. Nós podemos expli- car vários outros tipos de conhecimento nos seus termos. Além do mais, muitas de nossas mais intrigantes questões sobre o conhecimento se revelam questões sobre o conhecimento proposicional. Será ele o foco deste livro. E o objetivo desta seção é principalmente escla- recer qual é o tipo de conhecimento que é o tópico de nosso estudo. É o conhecimento pro- posicional ou conhecimento de fatos. II. CONHECIMENTO E CRENÇA VERDADEIRA O que é necessário para conhecer um fato? O que é conhecimento proposicional? Estas são as questões levantadas por (Q1) no Capítulo 1. Começaremos nosso exame des- sas questões com uma resposta simples e inadequada. Tentaremos então desenvolver essa resposta. A. Duas Condições para o Conhecimento É fácil aparecer com duas condições para o conhecimento: a verdade e a crença. É claro que o conhecimento requer a verdade. Isto é, você não pode conhecer alguma coisa a menos que ela seja verdadeira. Jamais pode estar correto dizer “Ele sabe isso, mas isso é falso.” Você não pode saber que Thomas Jefferson foi o primeiro presidente dos Estados Unidos. A razão pela qual você não pode saber isto é que ele não foi o primeiro presidente norte-americano. As pessoas podem estar seguras sobre coisas que não são verdadeiras. Você pode estar seguro de que Jefferson foi o primeiro presidente norte-americano. Você pode até mesmo pensar que se lembra de ter aprendido isso no colégio. Mas você está enganado a esse respeito. (Ou o seu professor cometeu um grande engano.) Você pode até mesmo ale- gar saber que Jefferson foi o primeiro presidente norte-americano. Mas ele não foi, e você não sabe que ele foi. Isto é assim porque o conhecimento requer a verdade. Você conhece uma proposição apenas se ela é verdadeira. Há uma objeção possível à alegação de que o conhecimento requer a verdade. Ela é ilustrada pelo seguinte exemplo: Exemplo 2.1: A História de Suspense 6 Esta definição pode necessitar de algum refinamento Você estava lendo uma história de suspense. Todas as pistas apresentadas até o úl- timo capítulo indicavam que o mordomo era o culpado. Você estava seguro de que o mor- domo cometera o crime é ficou surpreso quando foi revelado na cena final que o contador era o culpado. Após terminar o livro você diz: 4. Eu sabia o tempo todo que o mordomo havia cometido o crime, mas resultou que ele não o havia cometido. Se você está certo quando diz (4), então é possível conhecer coisas que não são verdadeiras. Você pode saber que o mordomo cometeu o crime, mas não é verdade que o mordomo o cometeu. Entretanto, ainda que as pessoas algumas vezes digam coisas tais como (4), é claro que tais coisas não são literalmente verdadeiras. Você não pode saber o tempo todo que o mordomo cometeu o crime. O que era verdade o tempo todo era que vo- cê estava seguro que o mordomo o havia cometido, ou algo assim. Ao dizer (4) você ex- pressa, de uma maneira levemente enfeitada, que foi surpreendido pelo final. Mas (4) não é verdadeira, e não mostra que pode haver conhecimento sem verdade. Uma segunda condição para o conhecimento é a crença. Se você conhece alguma coisa, então você deve acreditar nela ou aceitá-la. Se você nem mesmo pensa que alguma coisa é verdadeira, então você não a conhece. Nós estamos usando “crença” em um sentido amplo aqui: toda vez que você assume alguma coisa como verdadeira, você acredita nela. Assim, acreditar inclui tanto a aceitação hesitante quanto a aceitação inteiramente confian- te. Uma boa maneira de pensar nisto é notar que quando você considera um enunciado, vo- cê pode adotar quaisquer de três atitudes diante dele: crer, descrer ou suspender o juízo. Como uma analogia, imagine-se forçado a dizer uma de três coisas sobre um enunciado: “sim”, “não” ou “sem opinião.” Você dirá “sim” em uma variedade de casos, incluindo a- queles nos quais você está inteiramente confiante em um enunciado e aqueles nos quais você simplesmente pensar que o enuncia é provavelmente verdadeiro. Você dirá “não” quando pensar que o enunciado é definitiva ou provavelmente falso. E usará “sem opinião” nos casos restantes. Da mesma forma, tal como nós estamos usando o termo aqui, “crença” se aplica a uma variedade de atitudes. Ela é contrastada com a descrença, a qual envolve uma variedade semelhante, e com a suspensão de juízo. É claro, então, que o conhecimento requer a crença. Se você nem mesmo pensa que um enunciado é verdadeiro, então você não sabe que ele é verdadeiro. Há, entretanto, uma objeção a esta alegação que merece consideração. Nós falamos algumas vezes de maneiras que contrastam conhecimento e crença, sugerindo que quando você conhece alguma coisa você não acredita nela. Para ver isto, considere o seguinte exemplo: Exemplo 2.2: Saber o seu nome Você tem um amigo chamado “John” e pergunta a ele: “Você acredita que seu no- me seja „John‟?” Ele responde: 5. Eu não acredito que meu nome seja “John”; eu sei que ele é. Ao dizer (5), John parece estar dizendo que esse é um caso de conhecimento e não um caso de crença. A sugestão é que se ela é uma crença, então não é conhecimento. Se ele está certo, então a crença não é uma condição para o conhecimento. Entretanto, mais uma vez, essa aparência é enganadora. John seguramente aceita o enunciado de que o nome dele é “John.” Ele não rejeita o enunciado ou não tem opinião sobre ele. Quando ele diz (5), a questão é que ele não acredita simplesmente que o nome dele é “John”; ele pode dizer alguma coisa mais forte – que ele sabe disto. E uma das ma- neiras pelas quais nós tipicamente procedemos em conversações é evitando dizer uma coi- sa mais fraca ou modesta quando a mais forte é também verdadeira. Se seu amigo dissesse a você, “Eu acredito que meu nome seja „John,‟” isto sugeriria, mas não diria literalmente, que ele não sabe disto. Há muitos outros exemplos do mesmo fenômeno. Suponha que vo- cê esteja extremamente cansado, tendo trabalhado duro por muito tempo. Alguém pergunta se você está cansado. Você pode responder dizendo alguma coisa como: 6. Eu não estou cansado; estou exausto. Tomado literalmente, o que você diz é falso. Você está cansado. A questão do seu proferimento é enfatizar que você não está meramente cansado; você está exausto. A mesma coisa ocorre em (5). Ao dizer (5), John não está realmente dizendo que ele não a- credita no enunciado. Assim esse exemplo não é um contra-exemplo à tese de que o co- nhecimento requer a crença. Nós encontramos agora duas condições para o conhecimento. Para conhecer algu- ma coisa, você precisa acreditar nela e ela precisa ser verdadeira. B. Conhecimento como Crença Verdadeira As idéias recém apresentadas podem sugerir que o conhecimento seja crença ver- dadeira; isto é, Tb. S sabe p = df. (i) S crê p, e (ii) p é verdadeira. Uma breve reflexão deveria tornar claro que (TB) é um equívoco. São muitas as vezes em que uma pessoa tem uma crença verdadeira mas não tem conhecimento. Eis aqui um contra-exemplo simples para (TB):Exemplo 2.3: Predições corretas Nova York está jogando contra Denver em um próximo Superbowl. Os especialis- tas estão divididos sobre quem irá vencer, e os times estão igualmente ranqueados. Você tem um palpite de que Denver irá vencer. Quando o jogo é finalmente realizado, seu palpi- te se revela correto. Assim, você acreditou que Denver venceria e sua crença era verdadei- ra. No exemplo 2.3 você acredita que Denver vencerá e isto é verdadeiro. Mas você não sabia que Denver iria vencer. Você simplesmente teve um palpite que se revelou corre- to. Alguns irão dizer que o fato da crença do exemplo 2.3 ser sobre o futuro arruína o exemplo. Mas nós podemos facilmente eliminar esta característica sem eliminar a questão. Suponha que você não assista ao jogo mas, ao invés, vá assistir a um filme longo. Quando você sai do cinema, você sabe que o jogo acabou. Você tem agora uma crença sobre o pas- sado, a saber, que Denver venceu. E você está certo. Mas agora não há complicações que tenham a ver com crenças sobre o futuro. As objeções a (TB) não estão limitadas aos casos de palpites felizes. Outro tipo de exemplo ilustrará o coração do problema com (TB). Exemplo 2.4: O Planejador de Piqueniques Pessimista Você tem um piquenique marcado para sábado e ouve uma previsão do tempo que diz que as chances de chova no sábado são de pouco mais de 50%. Você é um pessimista, e com base nesse boletim você acredita confiantemente que irá chover. E então chove. As- sim, você teve uma crença verdadeira de que choveria. Você teve uma crença verdadeira de que choveria, mas carecia de conhecimento. (Quando a chuva começa, você pode dizer “Eu sabia que ia chover,” mas você não sabia disto realmente.) A razão pela qual você não sabia nesse caso não é que você estava adivi- nhando. Sua crença está baseada em alguma evidência – o boletim do tempo – e assim não é simplesmente um palpite. Mas esta base não é boa o suficiente para o conhecimento. O que você precisa para o conhecimento é alguma coisa como razões muito boas ou uma ba- se mais confiável, não apenas um boletim do tempo potencialmente inexato. Os filósofos freqüentemente dizem que o que é necessário para o conhecimento, a- lém da crença verdadeira, é a justificação para a crença. Exatamente o que vem a ser justi- ficação é uma questão de considerável controvérsia. Nós passaremos um bom tempo mais tarde neste livro examinado essa idéia. Mas, por enquanto, será suficiente notar que nos exemplos de conhecimento que nós apresentamos no Capítulo 1 os crentes tinham razões extremamente boas para suas crenças. Em contraste, nos contra-exemplos para (TB) você não tinha razões muito boas e poderia facilmente ter estado errado. O que está faltando, então, nos contra-exemplos para (TB) e está presente nos exemplos de conhecimento que nós descrevemos é a justificação. Isto nos leva à Análise Tradicional do Conhecimento. III. A ANÁLISE TRADICIONAL DO CONHECIMENTO A Análise Tradicional do Conhecimento (a ATC) é formulada na seguinte defini- ção: ATC. Se sabe p = df. (i) S crê p, (ii) p é verdadeira, (iii) S está justificado em crer p. Algo nessa linha pode ser encontrado em várias fontes, talvez tão antigas quanto Sócrates. No diálogo Mênon de Platão, Sócrates diz: Pois estas (as opiniões certas), da mesma forma, enquanto permanecem, valem um tesouro e só produzem o que é bom; mas não consentem em permane- cer muito tempo na alma do homem, e não demoram muito a escapar, a fugir, o que faz com que não tenham muito valor até o instante em que o homem as a- marra, as encadeia por um raciocínio de causalidade.(...) E assim, quando as opi- niões certas são amarradas, transformam-se em conhecimento, em ciência, e, como ciência, permanecem estáveis.. 7 De acordo com uma interpretação possível dessa passagem, estar apto a dar “uma explicação” de uma opinião é ter uma razão ou justificação para essa opinião. E uma idéia na passagem é que isto é necessário a fim de haver conhecimento. 8 Nós iremos ignorar a alegação adicional de que o conhecimento é menos propenso a “escapar” da mente de al- guém do que outras crenças. Idéias semelhantes podem ser encontradas na obra de muitos outros filósofos con- temporâneos. Por exemplo, Roderick Chisholm propôs uma vez que uma pessoa conhece uma proposição apenas no caso de acreditar nesta, de ser esta verdadeira, e de ser a propo- sição “evidente” para a pessoa. E esta última condição é entendia em termo de quão razoá- vel é para a pessoa crer na proposição. 9 Nos voltamos agora para um exame mais completo dos três elementos da ATC. A. Crença Crer em alguma coisa é aceitá-la como verdadeira. Quando você considera qual- quer enunciado, você se enfrenta com um conjunto de alternativas: você pode acreditar nele, pode descrer dele, ou pode suspender o juízo sobre ele. Recorde que nós estamos to- mando a crença como incluindo uma variedade de atitudes mais específicas, incluindo a aceitação hesitante e a convicção total. A descrença inclui uma variedade correspondente de atitudes negativas em relação a uma proposição. A qualquer momento, se você conside- rar uma proposição, irá terminar adotando uma dessas três atitudes. 10 7 Em Mênon-Banquete-Fedro, tradução de Jorge Paleikat (Rio de Janeiro: Ediouro), p. 72. 8 Uma idéia semelhante é apresentada em outro diálogo, o Teeteto, em Teeteto-Crátilo, tradução de Carlos Alberto Nunes (Belém: Universidade Federal do Pará, 1988). 9 Roderick Chisholm, Theory of Knowledge (Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1966), p. 23. 10 Há uma maneira alternativa de pensar nestas questões. Ao invés de dizer que há três opções, você pode dizer que pode crer numa proposição num grau maior ou menor. Você pode pensar nesses três graus de cren- ça como arranjados ao longo de uma escala. Quando você aceita uma proposição com absoluta convicção, você crê nela no mais alto grau. Quando você rejeita total e completamente uma proposição, você tem o me- Para os presentes propósitos, pense em descrer de uma proposição como sendo a mesma coisa que crer na negação (ou recusa) dessa proposição. Assim, Descrer que Geor- ge Washington foi o primeiro presidente norte-americano é o mesmo que crer que não é o caso que George Washington foi o primeiro presidente norte-americano. Suspender o juízo sobre a proposição é nem crer nem descrer dela. 11 Uma questão adicional sobre a crença merece menção aqui. Suponha que a uma criança francesa seja ensinado que George Washington foi o primeiro presidente dos Esta- dos Unidos. Então, se torna verdadeiro que 7. Pierre acredita que George Washington foi o primeiro presidente dos Estados Unidos. A coisa notável aqui é que (7) pode ser verdadeira mesmo que Pierre não fale uma palavra de português. Ele não tem de entender a sentença portuguesa “George Washington foi o primeiro presidente dos Estados Unidos.” Presumivelmente, ele expressaria sua cren- ça usando o equivalente francês dessa sentença. A contraparte brasileira de Pierre, Pedro, pode acreditar no que Pierre acredita. Então, 8. Pedro acredita que George Washington foi o primeiro presidente dos Estados Unidos. Pedro, podemos supor, não fala uma palavra de francês. Assim Pedro e Pierre acre- ditam na mesma coisa, ainda que não haja uma sentença que ambos aceitem. Como pode ser isto? Uma maneira de entender essas questões é como segue. Sentenças são usadas para expressar certos pensamentos ou idéias. Os filósofos usam a palavra proposição para se referir a esses itens. A sentença portuguesa que Pedro usa e a sentençafrancesa que Pierre usa expressam a mesma proposição. A crença é fundamentalmente uma relação com uma proposição. Assim, (7) pode ser verdadeira porque Pierre acredita na proposição relevante nor grau possível de crença nela. E, nos casos usuais, o seu grau de crença fica em algum lugar intermediário. A suspensão de juízo fica exatamente no meio. 11 Se você nunca sequer considerou uma proposição, então você nem crê nem descrê dela, mas tampouco suspende o juízo. Talvez a suspensão do juízo seja mais bem caracterizada como considerar uma proposição sem nem crer nem descrer dela. sobre George Washington; (8) é verdadeira porque Pedro acredita na mesma proposição. Mas eles usariam diferentes sentenças para expressar essa proposição. Existem, então, duas questões importantes a extrair disto: as sentenças diferem das proposições que são usadas para expressá-las e a crença é fundamentalmente uma atitude que se toma em relação a proposições. 12 B. Verdade O segundo elemento da ATC é a verdade. As pessoas dizem coisas muito complica- das e obscuras sobre a verdade, mas a idéia fundamental é muito simples. A questão aqui não é sobre que coisas são de fato verdadeiras. Antes, a questão agora é sobre o que é para alguma coisa ser verdadeira. Uma resposta simples e amplamente aceita está contida na teoria da correspondência da verdade. A questão central da teoria da correspondência é expressa no seguinte princípio: TC. Uma proposição é verdadeira se e somente se ela corresponde aos fatos (sse o mundo é da maneira que a proposição diz que ele é). Uma proposição é falsa sse ela fracas- sa em corresponder aos fatos. 13 A idéia aqui é extraordinariamente simples. Ela se aplica ao nosso exemplo sobre George Washington da seguinte maneira. A proposição de que George Washington foi o primeiro presidente norte-americano é verdadeira apenas no caso dela corresponder aos fatos tais como eles efetivamente são. Em outras palavras, ela é verdadeira apenas se Ge- orge Washington foi o primeiro presidente norte-americano. A proposição é falsa se ele não foi o primeiro presidente norte-americano. O princípio se aplica de maneira análoga às outras proposições. Será útil descrever algumas conseqüências da TC e mencionar algumas coisas que não são conseqüências da TC. 12 Há questões difíceis sobre exatamente que tipos de objetos são as proposições. Nós podemos ignorar com segurança tais questões aqui. 13 O termo “sse” abrevia “se e somente se.” Sentenças da forma “p sse q” são verdadeiras apenas no caso dos valores de verdade de p e de q concordarem, isto é, apenas se ambos forem verdadeiros ou se ambos forem falsos. 1) Se uma proposição é verdadeira ou falsa não depende de maneira alguma do que alguém crê sobre ela. Por exemplo, nossas crenças sobre George Washington não têm rela- ção com o valor de verdade (i.e., a verdade ou a falsidade) da proposição de que George Washington foi o primeiro presidente norte-americano. Os fatos reais do caso determinam seu valor de verdade. 2) A verdade não é “relativa.” Nem uma única proposição pode ser “verdadeira pa- ra mim mas não verdadeira para você.” Eu posso crer numa proposição na qual você des- crê. De fato, isto é quase certamente o caso. Quaisquer duas pessoas irão quase certamente discordar sobre alguma coisa. Entretanto, se há uma proposição sobre a qual elas discor- dam, então o valor de verdade dessa proposição é determinado pelos fatos. 3) A (TC) não legitima qualquer tipo de dogmatismo ou atitude intolerante em rela- ção às pessoas que discordam de você. Algumas pessoas dispensam sem consideração qualquer um que discorde delas. Esta é uma maneira vil e desarrazoada detratar os outros. Entretanto, se você discorda sobre alguma coisa, então, trivialmente, penso que eu estou certo e você errado. Se, por exemplo, você pensa que Thomas Jefferson foi o primeiro pre- sidente e eu penso que foi, ao invés, George Washington, então penso que você está errado sobre isto e você pensa que eu estou errado sobre isto. Seria precipitado de minha parte ge- neralizar deste caso e tirar quaisquer conclusões sobre suas outras crenças. Mas quando você discorda de mim, eu penso que você está errado. Se você não é dogmático, reconhece sua própria falibilidade. Você está aberto a mudar de idéia se nova informação vem à tona. Existem circunstâncias nas quais pode ser rude dizer aos outros que você pensa que eles estão errados. E possivelmente o mero fato de os outros discordarem proporciona alguma razão para que você reconsidere seus pontos de vista. 14 4) A (TC) não implica que as coisas não possam mudar. Considere a proposição de que George Washington é o presidente dos Estados Unidos. Esta proposição é falsa. Mas, parece, ela costumava ser verdadeira. O que a (TC) diz sobre isto? Há algumas coisas para pensar sobre isso, e um exame completo delas entraria em tecnicidades que não são importantes para os nossos presentes propósitos. Uma boa abor- dagem diz que uma sentença tal como “George Washington é o presidente dos Estados U- nidos” expressa uma proposição diferente em momentos diferentes. A proposição expressa lá em 1789 é verdadeira. A proposição que ela expressa em 2005 – a proposição de que George Washington é o presidente dos Estados Unidos em 2005 – é falsa. Nós podemos dizer que a sentença pode ser usada para expressar uma série de proposições acerca de momentos específicos. Nós podemos pensar numa proposição que diz que uma certa coisa tem uma certa propriedade em um momento como uma predecessora de uma proposição que diz que essa mesma coisa tem essa mesma propriedade num momento ligeiramente posterior. Assim, quando as coisas mudam, por exemplo, quando nós temos um novo pre- sidente, uma proposição datada é verdadeira e sua proposição sucessora é falsa. Não há problema para a (TC), desde que sejamos cuidadosos acerca das proposições em questão. 5) Algo semelhante se aplica à considerações sobre localização. Suponha que al- guém no Maine esteja falando ao telefone com alguém na Flórida. A pessoa no Maine diz: 9. Está nevando. A pessoa na Flórida diz: 10. Não está nevando. Esses falantes não discordam sobre nada. Mas o que deveríamos dizer, então, sobre o valor de verdade da proposição de que está nevando? Ela é verdadeira ou falsa? Mais uma vez, há uma variedade de maneiras de pensar sobre isso. Para os presen- tes propósitos, uma boa abordagem será dizer que com uma sentença como (9) a pessoa expressa uma proposição que pode ser mais claramente mostrada pela sentença 9a. Está nevando aqui (no Maine). Da mesma forma, a pessoa na Flórida que diz (10) diz alguma coisa que é mais cla- ramente mostrada em 10a. Não está nevando aqui (na Flórida). 14 Este tópico será discutido em detalhe no capítulo 9. Nós podemos assumir que ambas as proposições são verdadeiras. Sua verdade é ob- jetiva, pois ela depende das condições climáticas dos dois lugares. 6) Existem enigmas sobre as sentenças tais como 11. O iogurte tem bom sabor. Exatamente o que a (TC) diz sobre elas depende em larga medida do que essas sen- tenças significam. Uma possibilidade é a de que cada falante usa (11) para dizer “Eu gosto do sabor do iogurte.” Se este é o caso, então pessoasdiferentes usam (11) para expressar proposições diferentes, cada proposição sendo sobre aquilo de que o falante gosta. Se uma pessoa que gosta do sabor do iogurte diz (11), então a proposição que a pessoa expressa é verdadeira. Se a pessoa não gosta de iogurte, então a pessoa expressa uma proposição que não é verdadeira. Não é óbvio que (11) diga alguma coisa sobre as preferências individuais. Pode ser que ela diga alguma coisa como “A maioria das pessoas gosta do sabor do iogurte.” Se isto é o que ela diz, então ela não expressa diferentes proposições quando dita por diferentes pessoas. Ela expressa uma proposição sobre o gosto da maioria, e essa proposição é verda- deira se a maioria das pessoas gosta de iogurte e não verdadeira se ela não gosta. De acordo com outra interpretação, (11) diz que o iogurte satisfaz algum standard de sabor que é independente do que as pessoas gostam ou não gostam. Isto supõe algum tipo de “objetividade” sobre o sabor. Nesta perspectiva, (11) poderia ser verdadeira mesmo que dificilmente alguém de fato goste do sabor do iogurte. Você pode achar essa perspecti- va estranha; é difícil entender aonde leva o bom sabor objetivo. O que é crucial para os presentes propósitos é notar que, qualquer que seja a inter- pretação correta de (11), não há problema para a (TC). A proposição expressa por (11) irá variar de um falante para outro se a primeira opção é correta, mas não nos outros casos. Em todo os casos, entretanto, o valor de verdade que a(s) proposição(ões) expressa(m) de- pende dos fatos relevantes. Neste caso, os fatos relevantes são ou aquilo de que o falante ou a maioria das pessoas gosta ou não gosta, ou os fatos objetivos sobre o bom sabor. Não há necessidade para nós de resolver as disputas sobre a interpretação correta das sentenças tais como (11). Essa questão complicada pode ser deixada para aqueles que estudam estética. A questão crucial para os presentes propósitos é que, qualquer que seja a interpretação correta, não há aqui uma boa objeção para a (TC). 7) A (TC) não implica que nós não possamos saber o que é “realmente” verdadeiro. Algumas pessoas reagem à (TC) dizendo alguma coisa como isto: De acordo com a (TC), a verdade é “absoluta” e o que é verdadeiro de- pende de como as coisas são no mundo objetivo. Uma vez que este mundo é ex- terno a nós, nunca podemos realmente saber o que é verdadeiro. No máximo, nós podemos saber o que é “subjetivamente” verdadeiro. Esta verdade subjetiva de- pende de nossas próprias perspectivas sobre o mundo. A verdade absoluta deve estar sempre além de nossa compreensão. Nós discutiremos amplamente o ceticismo nos Capítulos 6 e 7. Boa parte da epis- temologia é um esforço para responder a ele. Por enquanto é suficiente notar duas ques- tões. Primeiro, do mero fato de que o que é verdadeiro é dependente de um mundo objetivo que existe independentemente de nós, não se segue que nós não possamos saber como é esse mundo. Logo, se há aí algum argumento forte para o ceticismo, ele repousa numa premissa situada além de qualquer coisa dita no parágrafo precedente. Mais tarde nós ire- mos considerar como um tal argumento poderia ser formulado. Segundo, através de vários dos próximos capítulos nós assumiremos, assim como a Perspectiva Standard o faz,que nós conhecemos coisas. Esta não é uma questão de prejul- gar as questões associadas ao ceticismo. Ao invés, nós estamos examinando quais são a natureza e as conseqüências da Perspectiva Standard. A Perspectiva Cética receberá uma consideração justa nos Capítulos 6 e 7. 8) Há uma questão muito enigmática associada com a teoria da correspondência da verdade. Considere uma sentença tal como 12. Michael é alto. Suponha que alguém afirme (12) em um contexto conversacional normal tal como o seguinte: você está a ponto de pegar Michael no aeroporto. Você sabe que ele é um ho- mem adulto, mas não sabe como ele se parece. Foi dada a você uma descrição da qual (12) é uma parte. Nestas circunstâncias, se Michael tem de fato 6‟4”, então (12) expressa uma verdade. Se Michael tem 4‟10”, então (12) diz alguma coisa falsa. Se Michael tem cerca de 5‟10”, então será difícil dizer ser (12) expressa uma verdade ou uma falsidade. Essa altura parece ser um caso caso-limite de ser alto (para um homem adulto). De acordo com uma perspectiva amplamente aceita sobre estas questões, a palavra “alto” simplesmente não tem um significado preciso. O problema que nós temos na situa- ção final, quando Michael tem 5‟10”, não é que não sabemos o suficiente sobre a situação. Nós podemos saber tudo que há para saber sobre a altura de Michael, a altura média de homens adultos, e tudo mais o que seja relevante. Nesta perspectiva, (12) simplesmente é um caso-limite. Simplesmente não há limites exatos para a altura à qual a palavra “alto” se aplica. Em outras palavras, “alto” é uma palavra vaga. Muitas outras palavras são vagas, incluindo “saudável”, “rico”, e “sábio”. A vagui- dade causa numerosos problemas para a compreensão de como exatamente funciona a lin- guagem. Afortunadamente, nós podemos ignorar em larga medida aquelas questões en- quanto seguimos as questões epistemológicas que são o nosso foco. Entretanto, questões concernentes à vaguidade surgirão de tempos em tempos, e assim é importante ter alguma compreensão da idéia. Além do mais, a existência de sentenças vagas pode ter alguma implicação na ade- quação da (TC). Recorde a distinção entre as sentenças e as proposições que elas expres- sam. Como foi recém notado, a vaguidade é uma característica das sentenças. A sentença (12), parece, é vaga. Mas considere agora a proposição que (12) expressa numa ocasião em particular, tal como a recém descrita. Se essa proposição é vaga, ou indefinida em seu valor de verdade, então a (TC) precisa de revisão. A (TC) diz que toda proposição é ou verdadei- ra ou falsa, dependendo de se ela corresponde à maneira como é o mundo. Porém, se há proposições vagas, então há proposições que correspondem parcialmente à maneira como é mundo. Poder-se-ia dizer que há um terceiro valor de verdade – o indeterminado – em adi- ção aos dois originais – o verdadeiro e o falso. Poder-se-ia mesmo dizer que há uma ampla variedade de valores de verdade, que a verdade vem em graus. Estas são questões comple- xas que não podem ser resolvidas facilmente. Não tentaremos resolvê-las aqui. É suficiente compreender que a (TC) requer modificação a fim de lidar com a vaguidade. C. Justificação O terceiro e último elemento da ATC é a justificação. A justificação (ou racionali- dade ou razoabilidade) será o foco de uma grade parte deste livro. Esta seção introduzirá algumas idéias preliminares. A justificação é algo que vem em graus – você pode ter mais ou menos dela. Con- sidere de novo o exemplo 2.4, no qual você de maneira pessimista acreditava que ia chover no dia de seu piquenique com base em uma previsão que dizia que as chances de chover eram levemente maiores do que a metade. Aqui você tem alguma justificação para pensar que irá chover. Não é como se você simplesmente tivesse inventado sem nenhuma razão. Mas as suas razões estão longe de serem boas o suficiente para dar conhecimento a você. Assim, o que a cláusula (iii) da ATC requer é uma justificação muito forte. Nas circunstân- cias descritas, você não a tem para a crença de que irá chover. Se chega o dia do piqueni- que e você olha pela janela e vê chuva, então você tem uma justificação forte o suficiente para a crença de que choverá. Sob aquelas circunstâncias você satisfará a cláusula (iii) da ATC. Assim a clausulo (iii) deveria ser lida como requerendo justificação forte ou justifi- caçãoadequada. Isto pode ser um pouco impreciso, mas servirá por enquanto. Você pode estar justificado em crer nalguma coisa sem de fato acreditar nela. A cláusula (iii) da ATC não implica (i). Para ver como isto funciona, considere o seguinte exemplo: Exemplo 2.5: O Exame do Sr. Inseguro O Sr. Inseguro acabou de fazer um exame. O professor olha rapidamente para suas respostas e diz que elas parecem boas e que as notas estarão disponíveis no dia seguinte. O Sr. Inseguro estudou muito, fez e se deu bem nos exercícios, achou as questões do exame semelhantes aos exercícios que ele havia estudado, e assim por diante. Ele tem excelentes razões para pensar que ele passou no exame. Mas o Sr. Inseguro é inseguro. Ele nunca a- credita que se deu bem e não acredita que se deu bem neste exame. Ainda que o Sr. Inseguro não acredite ter passado no exame, ele está justificado em crer que passou no exame. Assim a condição (iii) da ATC está satisfeita, mas não a condi- ção (i). Estar justificado em crer numa proposição é, grosso modo, ter o que é requerido para ser altamente razoável acreditar nela, quer de fato se acredite nela ou não. O que está justificado para uma pessoa pode não estar justificado para outra. Você tem muitas crenças justificadas sobre a sua vida privada. Seus amigos e conhecidos podem ter pouca ou nenhuma justificação para crenças sobre tais questões. E o que está justificado para um indivíduo muda ao longo do tempo. Uma modificação do exemplo 2.4 ilustrará isto. Uma semana antes do piquenique você pode não ter justificação para crer na proposi- ção de que irá chover no sábado. Mas na manhã de sábado você pode adquirir ampla justi- ficação para essa proposição. É importante não confundir estar justificado em crer nalguma coisa com estar apto a mostrar que se está justificado em crer nessa proposição. Em muitos casos nós podemos explicar porque uma crença está justificada; nós podemos formular nossas razões. Entre- tanto, há exceções para isto. Por exemplo, uma criança pode ter muitas crenças justificadas mas ser inapta para articular uma justificação para elas. IV. CONHECIMENTO VERDADEIRO E CONHECIMENTO APARENTE Uma questão adicional sobre a Perspectiva Standard merece especial atenção. As coisas que as pessoas consideram como conhecimento diferem numa variedade de manei- ras. Para tomar alguns exemplos simples, talvez as pessoas de tempos antigos dissessem que, entre as coisas que elas sabiam, estivesse o fato de que a Terra fosse plana. Talvez e- les tivessem dito saber que a terra era o centro do universo (com todas as coisas em órbita em torno dela). Pode ter havido uma ampla concordância em tempos antigos de que eles tinham conhecimento nestes casos. Nós podemos conceder, para o bem do argumento, que os antigos pensavam que eles sabiam que a terra fosse o centro do universo. (Se você não gosta deste exemplo em particular, substitua-o por outro que ilustre a mesma idéia.) Nós podemos mesmo conceder que eles estavam muito bem justificados em crer que eles tivessem conhecimento deste fa- to. Nós podemos dizer que eles tinham conhecimento aparente. Não obstante, eles careci- am de conhecimento verdadeiro. Ainda que as proposições em questão pudessem muito razoavelmente ter aparecido na lista das coisas conhecidas no primeiro capítulo de um dis- tante ancestral deste livro, as proposições seriam falsas. A Terra não é e nunca foi plana. Ela não é e nunca foi o centro do universo. Eles pensaram, talvez com justificação, que e- les tinham conhecimento, mas eles estavam enganados. 15 15 Neste ponto você pode observar que nós podemos estar numa situação com a dos antigos, na qual nossas alegações estão equivocadas. Nós iremos tratar desta questão quando considerarmos a Perspectiva Cética. Outra questão merece atenção aqui. Pode ser que as alegações daqueles que fossem mais falantes, mais carismáticos, ou mais poderosos fossem mais freqüente e amplamente consideradas como itens de conhecimento. Isto pode ser aflitivo para aqueles que estão longe do poder, especialmente quando eles têm uma justificação para perspectivas compe- tidoras. Entretanto, questões sobre o que determina o que será contado como conhecimen- to, e como os poderosos fazem para impor suas perspectivas sobre os outros não estão no foco deste livro. Nosso tópico é o conhecimento verdadeiro, não o conhecimento aparen- te. 16 V. CONCLUSÃO A (Q1) do capítulo 1 perguntou o que é preciso para se ter conhecimento. Este capí- tulo introduziu uma resposta a essa questão baseada na Análise Tradicional do Conheci- mento de acordo com a qual o conhecimento é crença verdadeira justificada. Esta análise tem uma longa história. Ela parece se encaixar bem na Perspectiva Standard. Os exemplos de conhecimento endossados pela Perspectiva Standard parecem ser casos de crença ver- dadeira justificada. E casos nos quais nós carecemos de conhecimento parecem ser caso nos quais nós carecemos de um destes três fatores. Há, entretanto, uma objeção significativa a ATC. Nos voltaremos em seguida a ela. 16 É possível que algo da atratividade da Perspectiva Relativista, mencionada no capítulo 1, resulte da confu- são entre o conhecimento aparente e o conhecimento verdadeiro. CAPÍTULO TRÊS MODIFICANDO A ANÁLISE TRADICIONAL DO CONHECIMENTO I. UMA OBJEÇÃO À ANÁLISE TRADICIONAL Recorde que a Análise Tradicional do Conhecimento, a ATC, diz que o conheci- mento é crença verdadeira justificada. Esta análise é correta apenas no caso de que em todos os exemplos possíveis, se uma pessoa conhece alguma proposição, então a pessoa tem uma crença verdadeira justifi- cada nessa proposição, e, se a pessoa tem uma crença verdadeira justificada, então a pessoa tem conhecimento. Desafortunadamente para a ATC, há contra-exemplos provocantes dos segundo tipo – casos de crença justificada verdadeira que claramente não são casos de co- nhecimento. O primeiro filósofo a argumentar explicitamente contra a ATC da maneira a ser dis- cutida aqui foi Edmund Gettier. Seu breve ensaio “Is Justified True Belief Knowledge?” talvez seja o mais amplamente discutido e freqüentemente citado texto de epistemologia em muitos anos. 1 Gettier apresentou dois exemplos, cada um deles mostrando que alguém poderia ter uma crença justificada verdadeira que não é conhecimento. Outros filósofos têm descrito casos adicionais estabelecendo o mesmo ponto. A. Os Contra-exemplos Nesta seção examinaremos três exemplos, todos desenhados para ilustrar um pro- blema na ATC. A ponto por trás de todas as objeções é a mesma, mas os diferentes exem- plos ajudam a tornar a questão mais clara. O primeiro exemplo é uma versão modificada de um dos exemplos originalmente apresentados por Gettier. Exemplo 3.1: O Caso das Dez Moedas Smith está justificado em crer: 1. Jones é o homem que ficará com o emprego e Jones tem dez moedas em seu bol- so. A razão para Smith estar justificado em crer em (1) é que ele acabou de ver Jones esvaziar seus bolsos, contar cuidadosamente suas moedas, e então colocá-las novamente no bolso. Smith também sabe que Jones é extremamente bem qualificado para o emprego e ouviu o chefe dizer à secretária que Jones havia sido selecionado. Com base em (1), Smith deduz corretamente e crê noutra proposição: 2. O homem que ficará com o emprego tem dez moedas em seu bolso. Smith está justificado em crer em (2) ainda que (1) seja falsa. A despeito da evi- dência de Smith, (1) não é verdadeira no final das contas.O chefe falou errado quando dis- se que Jones ficaria com o emprego. De fato, o emprego está indo para o sobrinho do vice- presidente da companhia, Robinson. Coincidentemente, Robinson acontece de Robinson também ter dez moedas em seu bolso. Neste exemplo (2) é verdadeira ainda que (1) seja falsa. Smith estava justificado em crer em (1), deduziu corretamente (2) a partir de (1) e, como resultado, acreditou nela. As- sim, Smith também estava justificado em crer em (2). E (2) é verdadeira. Assim, a crença de Smith em (2) está justificada e é verdadeira. Mas claramente Smith não sabe (2). É ape- nas uma coincidência que ele esteja correto sobre (2). Exemplo 3.2: O Caso Nogot/Havit 2 Smith sabe que Nogot, que trabalha em seu escritório, estava dirigindo um Ford, tem documentos de propriedade de um Ford, é geralmente honesto, etc. Nesta base ele crê: 3. Nogot, que trabalha no escritório de Smith, possui um Ford. 1 Analysis 23 (1963): 121-3. Smith ouve no rádio que um concessionário Ford local está promovendo um con- curso. Qualquer um que trabalhe no mesmo escritório que o dono de um Ford é elegível para entrar numa loteria cujo ganhador receberá um Ford. Smith decide se inscrever, pen- sando ser elegível. Afinal de contas, ele pensa que (3) é verdadeira, e assim ele conclui que: 4. Há alguém que trabalha no (meu) escritório de Smith que possui um Ford. (Há ao menos um dono de Ford no escritório de Smith.) Resulta que Nogot finge ter um Ford e (3) é falsa. Entretanto, (4) é verdadeira por- que uma outra pessoa ignorada por Smith, Havit, trabalha em seu escritório e possui um Ford. Assim, Smith tem uma crença justificada verdadeira em (4), mas não sabe (4). É apenas uma feliz coincidência, resultante de Havit tê-lo, que o torna correto sobre (4). Exemplo 3.3: A Ovelha no Campo 3 Tendo ganhado um Ford em um concurso, Smith sai para um passeio no interior. Ele olha para um campo próximo e vê o que se parece exatamente como uma ovelha. As- sim, ele crê justificadamente: 5. Esse animal no campo é uma ovelha. O filho de Smith está no banco traseiro lendo um livro e não está olhando a paisa- gem. O filho pergunta se há alguma ovelha no campo em que estão passando. Smith diz “Sim,” acrescentando: 6. Há uma ovelha no campo. 2 Este exemplo está baseado em um apresentado por Keith Lehrer em “A Quarta Condição para o Conheci- mento: Uma Defesa,” The Review of Methaphysics 24 (1970): 122-8. Veja p. 125. 3 Um exemplo como este foi apresentado por Roderck Chisholm em Theory of Knowledge, 2ª. Ed. (Englewo- od Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1977), p. 105. Smith está justificado pelo que ele vê em pensar que (5) é verdadeira. (6) se segue de (5), assim ele também está justificado em crer em (6). Resulta que (5) é falsa. O que Smith vê é um cão sheep dog (ou a estátua de uma ovelha, ou qualquer outra coisa que se pareça perfeitamente com uma ovelha). Mas ocorre que (6) é verdadeira de qualquer maneira. Adiante no campo, mas fora de vista, há uma ovelha. Assim, Smith tem uma crença justificada em (6), e ela é verdadeira. Mas ele não a sabe. É apenas por sorte que ele está correto sobre (6) Deveria ser observado que os detalhes dos exemplos podem ser modificados para fortalecer a sustentação da crença de Smith na proposição falsa em cada caso. Por exem- plo, você pode acrescentar o que queira para sustentar a crença dele de que Nogot possui um Ford. Nogot pode mostrar a ele suas chaves com a insígnia de um Ford e vestir uma camiseta da Ford, etc. Não importa o quanto você acrescente ao caso, permanece possível que Nogot esteja fingindo ser o proprietário de um Ford. E uma vez que isto é possível, permanece possível construir um caso no qual seja coincidentemente verdadeiro que al- guém no escritório possua um Ford. Observações semelhantes se aplicam aos outros e- xemplos. Meramente requerer razões mais fortes para uma crença estar justificada não evi- tará as objeções. B. A Estrutura dos Contra-exemplos Os exemplos 3.1-3.3 partilham de uma estrutura comum. Em cada caso, Smith tem alguma evidência básica que sustenta fortemente alguma proposição. É o tipo de evidência que a Perspectiva Standard conta como boa o suficiente para o conhecimento. Ele crê nes- sa proposição e então tira uma outra conclusão dela. Em cada exemplo, a sentença nume- rada em ímpar descreve a proposição na qual Smith acredita: 1. Jones é o homem que ficará com o emprego e Jones tem dez moedas em seu bol- so. 3. Nogot, que trabalha no escritório de Smith, possui um Ford. 5. Esse animal no campo é uma ovelha. As sentenças numeradas em par descrevem as conclusões que Smith tira do primei- ro passo: 2. O homem que ficará com o emprego tem dez moedas em seu bolso. 4. Há alguém que trabalha no (meu) escritório de Smith que possui um Ford. (Há ao menos um dono de Ford no escritório de Smith.) 6. Há uma ovelha no campo. A proposição numerada em ímpar é falsa em cada caso. Ainda assim, dada a evi- dência, é extremamente razoável para Smith acreditar nela. Ela é uma crença justificada. E a conclusão final se segue logicamente do passo anterior. A conclusão final é, em cada ca- so, verdadeira. Com efeito, a conclusão final é verdadeira “por coincidência.” Simplesmen- te acontece que a pessoa que ficará com o emprego tem dez moedas, que há um dono de Ford no escritório, e que há uma ovelha no campo.Assim Smith tem razões muito boas pa- ra crer no primeiro passo e segue princípios lógicos perfeitamente bons ao derivar o segun- do passo. Logo, ele tem uma crença justificada verdadeira em cada uma das conclusões finais. Mas em cada caso a verdade dessa conclusão está desconectada da evidência origi- nal. Smith não tem conhecimento, ainda que ele tenha crenças verdadeiras justificadas. Estabelecer a estrutura dos exemplos ajuda a destacar dois princípios importantes sobre os quais eles repousam. Um princípio permite que a pessoa possa estar justificada em crer nas proposições numeradas em ímpar ainda que elas sejam falsas. Nós podemos for- mular este como o Princípio da Falsidade Justificada, ou (FJ): FJ. É possível para uma pessoa estar justificada em crer numa proposição falsa. O segundo princípio importante é o que diz que a segunda proposição está justifi- cada porque ela é deduzida da primeira. Este é o Princípio da Dedução Justificada, ou (DJ): DJ. Se S está justificado em crer em p, e p acarreta q, e S deduz q de p e aceita q como um resultado desta dedução, então S está justificado em crer em q. Se os três exemplos recém descritos são possíveis e estes dois princípios são verda- deiros, então a ATC está errada. Os exemplos podem ser estranhos, mas eles são claramen- te possíveis. Coisas como esta podem acontecer e acontecem. Os dois princípios parecem corretos. Logo, parece que nós temos um caso forte contra a ATC. Como nós veremos, en- tretanto, algumas pessoas têm tentado defender a ATC rejeitando os princípios. Para formular um exemplo no estilo-Gettier, então, primeiro se tem de encontrar um caso de crença falsa justificada. Se a (FJ) é correta, existem tais casos. Identifica-se en- tão alguma verdade que se segue logicamente dessa falsidade. Sempre haverá tais verda- des. O exemplo prossegue com o crente tendo deduzido esta verdade da crença falsa justi-ficada. Se a (DJ) é correta, a crença resultante será uma crença verdadeira justificada que não é conhecimento. Parece, portanto, que os exemplos de estilo-Gettier mostram que a ATC é incorreta. II. DEFENDENDO A ANÁLISE TRADICIONAL Você pode ter algumas apreensões sobre os exemplos de estilo-Gettier. Usualmen- te, as dúvidas estão baseadas na idéia de que a pessoa do exemplo não está justificada em crer na proposição final e, logo, não tem realmente uma crença verdadeira justificada. 4 E esta idéia repousa na rejeição de um ou outro dos dois princípios recém formulados. 5 Nesta seção examinaremos a plausibilidade destas respostas aos exemplos. A. Rejeitando a (FJ) Uma maneira de defender a ATC é rejeitar a (FJ). Você pode pensar que, se uma proposição é falsa, então uma pessoa que creia nela não deve ter razões boas os suficiente para essa crença. Se esta idéia está correta, ela proporciona uma defesa da ATC da seguinte maneira. Ela implica que, em cada um de nossos exemplos, Smith não está justificado em 4 É possível argumentar que Smith tem conhecimento das proposições numeradas em par de cada um dos exemplos. Mas esta é uma abordagem que quase nenhum filósofo tomou. A reflexão cuidadosa acerca destes casos produz um veredicto quase unânime sobre deles. Você não pode ter conhecimento quando a sua crença é verdadeira coincidentemente, como é o caso em todos estes exemplos. 5 É possível argumentar que em nossos exemplos as razões de Smith simplesmente não são razões muito bo- as. Mas, como foi notado ao final da seção IA, podem-se tornar as razões de Smith tão fortes quanto se quei- ra. Nenhuma resposta nessa linha parece promissora. crer na proposição falsa. Se Smith não está justificado em crer na proposição falsa (a nu- mera em ímpar), então ele não está justificado em crer no que ele deduz dela. Logo, sua crença na proposição numerada em par também não está justificada. Como um resultado, os exemplos de estilo-Gettier não são casos de crenças verdadeiras justificadas (porque e- les não são casos de crenças justificadas) e, logo, eles não refutam a ATC. Considere como esta resposta se aplica no caso Nogot/Havit. O crítico argumenta que, a despeito da evidência, Smith não está justificado em crer na proposição (3), de que Nogot possui um Ford. A razão para isto é que (3) é falsa e, logo, a evidência de Smith não deve ser boa o suficiente. De forma mais geral, o crítico diz, uma pessoa nunca pode estar justificada em crer numa proposição falsa. A (FJ) está errada. Uma vez que as razões de Smith para crer em (3) podem ser extremamente fortes, esta é uma resposta implausível. Além do mais, dada uma suposição muito sensata, rejeitar a (FJ) implica que dificilmente alguém alguma vez esteja justificado em crer em alguma coisa! Para ver porque é assim, considere qualquer exemplo no qual uma pessoa tenha o que a Perspectiva Standard considera como sendo uma crença justificada. Suponha que não haja nada de estranho sobre o caso, e que as coisas sejam exatamente como as pessoas acreditam que elas sejam. Chame isto de “O Caso Típico.” Agora, é sempre possível cons- truir um exemplo que é uma variação do Caso Típico. Nesta variante, a pessoa tem exata- mente a mesma evidência mas a proposição em questão é, não obstante, falsa. Chame esta variante de “O Caso Incomum.” Para preencher os detalhes do Caso Incomum, será neces- sário acrescentar com esforço incomum ilusões e coisas parecidas. Embora tais coisas se- jam incomuns, elas são possíveis. O ponto chave a observar é que tanto no Caso Típico quanto no Caso Incomum o crente tem exatamente as mesmas razões para crer exatamente na mesma coisa. Assim, ou o crente está justificado em ambos os casos ou não está justifi- cado em ambos os casos. Se a (FJ) é falsa, então a crença não está justificada no Caso In- comum (porque ela é falsa). Mas então ela também não está justificada no Caso Típico, já que as razões são as mesmas. Isto pode ser feito para virtualmente qualquer crença alega- damente justificada e, assim, se a (FJ) é falsa, virtualmente nenhuma crença esta justifica- da. O raciocínio recém exposto depende do Princípio da Mesma Evidência, ou (ME): ME. Se em dois exemplos possíveis não há diferença alguma na evidência que uma pessoa tem para alguma proposição, então, ou a pessoa esta justificada em crer na proposição em ambos os casos, ou a pessoa não está justificada em crer na proposição em ambos os casos. A (ME) é um princípio extremamente plausível. Se a (ME) é verdadeira e a (FJ) é falsa, então virtualmente nada está justificado. E isso viola a nossa suposição básica (por enquanto, ao menos) de que nós conhecemos coisas. Assim, a primeira defesa da ATC não é boa. 6 Alguns leitores podem ainda pensar que rejeitar a (FJ) é correta. Recorde, entretan- to, que a questão do atual capítulo é ver quais são as conseqüências da Perspectiva Stan- dard. A Perspectiva Standard sustenta que nós conhecemos muitas coisas, e rejeitar a (FJ) implica em que dificilmente alguma coisa está justificada e, logo, que dificilmente alguma coisa é conhecida. Assim, rejeitar a (FJ) requer a rejeição da Perspectiva Standard. Em ou- tras palavras, a (FJ) é uma conseqüência da Perspectiva Standard. Logo, rejeitá-la está fora de questão neste estágio de nossa investigação. Retornaremos a este tópico quando exami- narmos a Perspectiva Cética. B. Rejeitando a (DJ) Recorde que os exemplos Gettier dependem tanto da (DJ) quanto da (FJ). A (DJ) diz que a justificação pode ser transferida através da dedução. Uma segunda base possível para defender a análise tradicional desses contra-exemplos é rejeitar a (DJ). A idéia é que quando você raciocina apropriadamente desde verdades justificadas, o resultado está justi- ficado, mas quando você raciocina apropriadamente desde falsidades justificadas, o resul- tado não está justificado. Em outras palavras, se você começa com uma crença verdadeira justificada e tira apropriadamente uma conclusão dela, então a crença resultante está justi- ficada. Entretanto, se você começa com uma crença falsa justificada – lembre, você está aceitando a (FJ) – e tira corretamente uma conclusão dela, então a crença resultante não está justificada. Logo, nesta perspectiva, em cada um dos casos Gettier a pessoa está justi- ficada em crer no primeiro passo – a proposição numerada em ímpar – mas não está justifi- cada em crer na conseqüência tirada dela. Portanto, os advogados desta perspectiva rejei- tam a (DJ). 6 No capítulo 5 examinaremos algumas teorias que rejeitam a (ME). Entretanto, de acordo com essas teorias, a (FJ) é verdadeira e a ATC é refutada pelos exemplos de estilo-Gettier. Esta perspectiva também requer a rejeição da (ME). Imagine um exemplo como qualquer um dos casos no estilo-Gettier mas no qual não esteja acontecendo nenhum enga- no e o primeiro passo seja de fato verdadeiro. Tirar a conclusão final, sob aquelas circuns- tâncias, está justificado. Mas, de acordo com a atual proposta, ela não está justificada nos casos Gettier. Ainda assim, a pessoa tem exatamente as mesmas razões em cada caso. Isto é implausível. Considere cuidadosamente o que alguém que rejeita a (DJ) estaria dizendo sobre Smith em cada um dos casos Gettier. O crítico diria de Smith, “Sim, Smith está justificado em crer que Nogot, que trabalha em seu escritório, possui um Ford. E é verdade que ele pode deduzir disto que alguém que trabalha em seu escritório possui um Ford. Mas, não obstante, ele não está justificado em crer nessa conclusão.” Isto parece absurdo. Nós po-demos sensatamente perguntar que atitude Smith estaria justificado em tomar em relação à proposição de que alguém em seu escritório possui um Ford. Seria razoável para ele crer que Nogot possui um Ford mas negar ou suspender o juízo sobre se alguém possui um Ford? É claro que não. Mas isso é o que a rejeição da (DJ) parece recomendar. Rejeitar a (DJ) simplesmente não é uma boa maneira de defender a ATC dos exemplos de Gettier. Estas tentativas de defender a ATC dos exemplos de estilo-Gettier fracassam. Nos voltamos em seguidas às respostas de acordo com as quais o conhecimento requer alguma coisa além da crença verdadeira justificada. III. MODIFICANDO A ANÁLISE TRADICIONAL Uma idéia plausível é a de que você não pode ter conhecimento se a sua crença de- pende de uma proposição falsa. Nesta seção consideraremos alguns esforços para formular mais claramente esta idéia. A. A Teoria Sem Bases Falsas Uma maneira pela qual a justificação de uma crença pode depender de uma falsida- de é se há uma proposição falsa entre as bases ou razões para a crença. Michael Clark pro- pôs uma solução ao problema de Gettier fazendo uso desta idéia. 7 Clark sugere a seguinte descrição Sem Bases Falsas do conhecimento. Ele acrescenta uma quarta condição as três da ATC: SBF. S sabe p = df. (i) S crê p, (ii) p é verdadeira, (iii) S está justificado em crer p; (iv) Todas as bases de S para crer p são verdadeiras. A idéia aqui é diferente – e melhor – da proposta discutida na seção II, de acordo com a qual as crenças que têm bases falsas não são sequer justificadas. Aqui a idéia é que ter todas as bases verdadeiras é uma condição adicional para o conhecimento, mas não para a justificação. Logo, os defensores de (SBF) concordam que as vítimas dos exemplos Get- tier estão justificadas em suas crenças. Isto é o que os críticos anteriormente discutidos ne- gavam. Ao invés, esta resposta diz que o conhecimento não pode depender de quaisquer bases falsas. Em cada um dos exemplos precedentes Smith tem uma base falsa para a sua crença final. Assim, (SBF) parece evitar os contra-exemplos de estilo-Gettier. A (SBF) funcionara desde que (a) em todos os casos Gettier o crente tenha uma base falsa, e (b) não existam casos de conhecimento nos quais o crente tenha uma base fa- las. Existem razões para duvidar de cada um destes pontos. Considere primeiro (a). Existem casos de estilo-Gettier nos quais a pessoa não dá explicitamente um passo falso em seu raciocínio. Como veremos, estes podem ser casos Gettier nos quais o crente não tem uma base falsa. Nós podemos usar uma versão revisada do caso Nogot/Havit para ilustrar o ponto: Exemplo 3.4: O Caminho Alternativo 8 Smith observa que Nogot está dirigindo um Ford, tem os documentos de proprieda- de, e assim por diante. Mas, ao invés de tirar a conclusão sobre Nogot, Smith tira a seguin- te conclusão: 7. Há alguém que trabalha no escritório de Smith que dirige um Ford, tem docu- mentos de propriedade de um Ford, etc. 7 “Knowledge and Grounds: A Comment on Mr. Gettier’s Paper,” Analysis XXIV (1963): 46-48. Com base em (7), Smith tira a mesma conclusão final de antes: 4. Há alguém que trabalha no escritório de Smith que possui um Ford. A diferença entre os dois exemplos é que na versão original Smith explicitamente raciocinava dando um passo falso para chegar à sua conclusão verdadeira, e na nova versão ele toma um caminho alternativo para chegar à mesma conclusão. Na versão original do exemplo, o pensamento de Smith era: N. Nogot, que trabalha no escritório de Smith, dirige um Ford, tem os documentos de propriedade de um Ford, etc. 3. Nogot, que trabalha no escritório de Smith, possui um Ford. 4. Há alguém que trabalha no escritório de Smith que possui um Ford. (N) é verdadeira, (3) é falsa, e (4) é verdadeira. Assim, este caminho para (4) passa por uma falsidade. Mas no segundo caso Smith substitui (3) por (7). O pensamento de Smi- th vai agora: N. Nogot, que trabalha no escritório de Smith, dirige um Ford, tem os documentos de propriedade de um Ford, etc. 7. Há alguém que trabalha no escritório de Smith que dirige um Ford, tem os do- cumentos de propriedade de um Ford, etc. 4. Há alguém que trabalha no escritório de Smith que possui um Ford. (N) e (4) ainda são verdadeiras, mas agora o passo intermediário, (7), também é verdadeiro. Assim, nesta versão do exemplo, Smith não raciocina através de uma falsa proposição. Ainda assim, Smith não sabe (4). É ainda um caso Gettier. Logo, nem todos os exemplos dependem de que uma pessoa derive uma verdade de uma falsidade. É verdade que no exemplo 3.4 ainda há uma falsidade “nas vizinhanças.” A propo- sição (3), Nogot possui um Ford, é falsa, e isto parece importar. Você poderia até mesmo pensar que (3) é parte das bases de Smith, ainda que ele não pensa explicitamente sobre 8 Um exemplo tal como este foi apresentado em Richard Feldman, “Na Alleged Defect in Gettier Counterex- amples,” Australasian Journal of Philosophy 52 (1974): 68-69. ela. Logo, nós estamos em em face de uma questão. No exemplo 3.4, (3) é ou não é parte das bases de Smith? Nós podemos pensar naquilo que é incluído nas bases de uma crença numa maneira mais ampla ou mais estrita. A formulação estrita é assim: B1. As bases de uma crença incluem apenas aquelas outras crenças que são passos explícitos na cadeia de inferências que levam à crença. Se a cláusula (iv) de (SBF) faz uso desta formulação das bases, então é exemplo 3.4 refuta a teoria. Ele é um caso Gettier no qual passos explícitos do raciocínio não incluem falsidades. Isto sugere que Clark estaria melhor apelando para uma formulação mais ampla das bases de uma crença, uma formulação de acordo com a qual as bases incluem mais do que os passos explícitos do raciocínio. Por exemplo, ele pode propor: B2. As bases de uma crença incluem todas as crenças que jogam qualquer papel na formação da crença, incluindo as “suposições de base” [background assumptions] e pres- suposições. Se Clark usa (B2) para explicar a cláusula (iv) de sua descrição do conhecimento, então o exemplo 3.4 não a refuta. Isto porque há uma suposição de base falsa no exemplo, a saber, (3). Assim, apelando para (B2),Clark poderia argumentar plausivelmente que a condição (iv) de (SBF) não está satisfeita no exemplo 3.4 e, logo, sua teoria produz aqui o resultado correto: ela diz que Smith não sabe que alguém em seu escritório possui um Ford. O problema com esta resposta é que a teoria enfrenta agora uma objeção diferente. Como foi notado ante nesta seção, (SBF) funciona apenas se não houver casos de conhe- cimento nos quais haja falsidades entre as bases que a pessoa usa. Entretanto, é claro que pode haver conhecimento mesmo quando algumas das bases usadas por alguém sejam fal- sas. Isto é verdadeiro tanto na formulação mais-inclusiva quanto na formulação menos- inclusiva das bases, mas ela é especialmente óbvia quando a bases incluem crenças de base [background beliefs] e pressuposições. Os exemplos seguintes ilustram o ponto: Exemplo 3.5: O Caso das Razões Extras Smith tem dois conjuntos de razões independentes para pensar que alguém em seu escritório possui um Ford. Um conjunto tem a ver com Nogot. Nogot diz que ele possui um Ford e assim por diante. Como sempre, Nogot está simplesmente fingindo. Mas Smith também tem razões igualmente fortes que tem a vercom Havit. E Havit não está fingindo. Havit possui um Ford, e Smith sabe que ele possui um Ford. Neste exemplo, Smith sabe que alguém em seu escritório possui um Ford. Isto por- que suas razões que têm a ver com Havit são boas o suficiente para dar a ele conhecimento. Ainda assim, uma de suas razões, aquela que tem a ver com Nogot, é falsa. Isto mostra que você pode ter conhecimento mesmo que haja alguma falsidade em algum lugar do cenário. Esta objeção é decisiva. Ela mostra que a condição de Clark é muito forte. 9 Logo, a maneira de Clark de remendar a ATC não funciona. Se ele usa (B1), então o exemplo 3.4 a refuta. Se ela usa (B2), então o exemplo 3.5 a refuta. O simples fato de que haja uma falsidade entre as razões para a crença de alguém não mostra que ele carece de conhecimento. B. A Teoria Sem Anuladores Existe outra maneira pela qual os filósofos têm tentado explicar o que é para a justi- ficação de uma crença depender de uma proposição falsa. Uma característica notável dos casos Gettier é que pode haver uma proposição verdadeira tal que, se o crente souber sobre ela, ele não acreditará (ou não estará justificado em acreditar) na proposição em questão. Com efeito, então, a justificação do crente depende da negação desta verdade. 10 Nós podemos aplicar este pensamento aos nossos exemplos. No exemplo 3.1, se Smith compreendesse que Jones não ficaria com o emprego (o que é verdade), então ele não acreditaria que o homem que ficaria com o emprego tem dez moedas em seu bolso (ou ele não mais teria qualquer boa razão para crer nisto). Nos exemplos 3.2 e 3.4, se Smith compreendesse que Nogot não possui um Ford, então, dado o restante do exemplo, ele não mais teria qualquer boa razão para crer que alguém no escritório possui um Ford. NO e- xemplo 3.3, se Smith compreendesse que a coisa para a qual ele estava olhando não era 9 Observe que esta objeção funciona quer você use (B1) ou (B2). uma ovelha , então ele não mais estaria justificado em crer que uma ovelha estivesse no campo. (Em contraste, no exemplo 3.5 ele continuaria a crer que alguém no escritório pos- sui um Ford , ainda que ele ficasse sabendo que Nogot não possui um.) Logo, em cada exemplo Gettier (exemplos 3.1-3.4), há uma proposição falsa na qual Smith efetivamente acredita. Se ele não acreditasse nela, e ao invés acreditasse justifi- cadamente na sua negação (que é verdadeira), então ele deixaria de acreditar, ou deixaria de ter justificação para acreditar, na proposição Gettier. Essa proposição verdadeira é dita anular [defeat] a justificação de Smith. E a idéia é que alguém tem conhecimento quando não há verdades que anulem e a sua justificação. Logo, a proposta é acrescentar a ATC o requerimento de que não exista anulador: SA. S sabe p = df. (i) S crê p, (ii) p é verdadeira, (iii) S está justificado em crer p; (iv) Não há uma proposição verdadeira t tal que, se S estivesse justificado em crer t, então S não estaria justificado em crer p. (nenhuma verdade anula a justificação de S para p.) (SA) parece lidar corretamente com todos os exemplos considerados até aqui. Desafortunadamente, há problemas para a teoria sem anuladores. Eis aqui dois. Exemplo 3.6? O Caso do Rádio Smith está sentado em seu estúdio com o rádio desligado e Smith sabe que ele está desligado. Na ocasião, a Rádio Classic Hits 101 está tocando a grande música do grande Neil Diamond, “Girl, You’ll Be a Woman Soon.” Se Smith estivesse com o rádio ligado e sintonizado nessa estação, Smith teria ouvido a canção e saberia que ela está tocando. Pode não ser imediatamente óbvio porque isto coloca um problema, mas ele coloca. No exemplo 3.6 Smith sabe: 8. O rádio está desligado. 10 Para uma defesa de uma perspectiva nestas linhas, veja Peter Klein, “Knowledge, Causality, and Defesea- bility,” Journal of Philosophy 73 (1976): 792-812. As condições (i)-(iii) da ATC estão satisfeitas. Mas (iv) está satisfeita. Isto é, há al- guma proposição verdadeira tal que, se Smith estivesse justificado em crer nela, então ele não estaria justificado em crer (8)? Uma proposição verdadeira nesta história é 9. A Rádio Classic Hits 101 está tocando “Girl, You’ll be a Woman Soon.” Suponha que Smith estivesse justificado em crer (9). Em qualquer caso típico há muitas maneiras pelas quais ele poderia estar justificado em crer (9). A maneira mais pro- vável seria que o rádio estivesse ligado. Naturalmente, ele poderia ter ficado sabendo sobre (9) por ter alguém ligado e dito a ele, ou por ter recebido um e-mail alertando-o sobre as novidades. Mas suponha que em nosso exemplo estas outras maneiras não estejam dispo- níveis. Em nosso exemplo, se Smith estivesse justificado em crer (9), então ele seu rádio estaria ligado e ele teria ouvido a música. Mas, se esse fosse o caso, então Smith não esta- ria justificado em crer que o rádio está desligado. Assim, a condição (iv) não está satisfeita. Há uma proposição verdadeira, (9), tal que se Smith estivesse justificado em crer nela, en- tão Smith não estaria justificado em crer (8). Em certo sentido (ou talvez em vários senti- dos), Smith tem sorte de não saber (9). De um lado, isso o habilita a saber (8). De outro, Smith não tem de ouvir a música. Este exemplo pode confundir. Isso ocorre em larga medida porque sentenças que dizem que se uma coisa fosse ocorrer, então uma outra coisa seria verdadeira causam con- fusão. Estas sentenças são chamadas de condicionais subjuntivos. Aplicado a este caso, o condicional se refere ao que seria o caso se Smith estivesse justificado em crer (9). A me- lhor maneira de determinar isto é considerar como Smith iria chegar a estar justificado em crer (9). Nas circunstâncias descritas, a maneira é que Smith teria o rádio ligado, sintoniza- do na Rádio Classic Hits 101, e teria ouvido a música no rádio. Assim, se esse fosse o ca- so, Smith não estaria justificado em crer que o rádio está desligado. E isto é o que causa problemas para (SA). Esta diz que Smith não sabe (8) se existir alguma outra verdade tal que se ele estivesse justificado em acreditar nela ele não estaria justificado em crer (8). Mas (9) é exatamente uma tal verdade. Uma vez que você veja como o exemplo 3.6 funciona, é fácil gerar exemplos adi- cionais que sigam as mesmas linhas. A questão subjacente é muito simples, embora sur- preendente. É que alguém pode conhecer alguns fatos e pode haver outros fatos tais que, se ele conhecesse estes outros fato, então ele não conheceria os fatos originais. Isto porque, se alguém estivesse em posição de conhecer os últimos fatos, então ele não estaria em posição de conhecer os fatos anteriores. E, em alguns casos, se alguém conhecesse os últimos fatos, então os fatos anteriores sequer seriam verdadeiros. A versão atual da teoria sem anulado- res diz que quando existem tais fatos, carece-se de conhecimento. Uma vez que tipicamen- te existirão tais fatos, a teoria implica que conhecemos muito pouco. Há outra maneira pela qual a ignorância de algumas verdades pode nos ajudar a co- nhecer coisas. (SA) também tem um problema como estes casos. Eis aqui um de tais e- xemplos. Exemplo 3.7: O Caso Grabit 11 Black vê o seu estudante Tom Grabit enfiar uma fita no bolso de seu casaco e se esgueirar para fora da biblioteca. Ela sabe que Tom pegou a fita. Agora, imagine que o crime de Tom é relatado à mãe de Tom em seu quarto no hospital psiquiátrico. E ela retru- ca que Tom não o fez, que foi Tim,o irmão gêmeo dele.E imagine ainda que ele não tem irmão gêmeo, que esta é apenas outra das ilusões dela. Black ignora tudo isto. Por que isto é um problema? Considere esta verdade: 10. A mãe de Tom disse que o irmão gêmeo de Tom, Tim, pegou a fita. Note que a própria (10) é verdadeira, ainda que aquilo que a Mãe de Tom diga seja falso. Se Black estivesse justificada em crer apenas nesta verdade – mas não no restante da história sobre ela – essa iria anular a justificação de Black. Ela é um anulador enganoso. Mais uma vez, isto pode parecer confuso. Mas a idéia é relativamente simples. Se nós podemos conhecer coisas comuns, então pode haver outras verdades tais que se nós tivéssemos sabido delas, elas solapariam nossa justificação para a coisa que conhecemos. Mas alguns destes anuladores são enganosos. Isto é, nós de fato conhecemos coisas, mas não as conheceríamos se tivéssemos sabido sobre estes anuladores. Nós temos sorte de não sabermos sobre os anuladores. O testemunho da Senhora Grabit é assim. Observe que no caso de Tom Grabit, diferentemente dos verdadeiros casos Gettier, as coisas são exatamen- te como Black pensa que elas são. Black é afortunada por ser ignorante das divagações da 11 Uma versão levemente modificada deste exemplo apareceu primeiro em Keith Lehrer, “Knowledge, Truth and Evidence,” Analysis XXV (1965): 168-175. mãe demente. Black teria perdido a sua justificação para a sua crença sobre Tom se ela soubesse sobre elas. Assim, esta versão da teoria sem anuladores não funcionará. Há muitas outras pos- síveis variações de (SA), e talvez algumas versões evitem os exemplos considerados aqui. As outras variações acrescentam mais complexidade à análise, e existem ainda mais estra- nhos contra-exemplos propostos contra elas, mas não as acompanharemos aqui. 12 D. Uma Proposta Modesta É seguro dizer que não existe uma solução amplamente aceita para o problema de Gettier levantado a ATC. As defesas da ATC discutidas na seção II são inadequadas e as modificações consideradas nesta seção enfrentam sérios problemas. O problema Gettier permanece irresolvido. Resta verdadeiro, entretanto, que em todos os casos Gettier há uma proposição falsa envolvida que os torna casos nos quais as pessoas careçam de conhecimento. De alguma forma, a justificação depende dessa falsidade. Nós podemos destacar este ponto dando ao menos um modesto passo em direção à solução do problema. O elemento chave em todos os casos de estilo-Gettier é que, em algum sentido, a crença central “depende essencialmente de uma falsidade.” A idéia de dependência essen- cial é razoavelmente clara. Por exemplo, no Caso da Ovelha no Campo, a crença de Smith de que há uma ovelha no campo depende essencialmente da proposição de que o que ele vê é uma ovelha. No Caso das Razões Extras, Smith tem duas linhas de pensamento indepen- dentes que levam à mesma conclusão. Uma linha de pensamento, que se refere a Nogot, depende de uma proposição falsa. A outra linha de pensamento, a que envolve havit, não depende de nada falso. Neste caso, a crença de Smith de que alguém possui um Ford não depende essencialmente da falsidade. Isto porque há uma linha justificatória que ignora a falsidade. É por isso que pode haver conhecimento numa tal situação, ainda que o raciocí- nio envolva uma proposição falsa. Ele não depende essencialmente dessa falsidade. O Caso do Caminho Alternativo e outros casos nos quais a crença não depende di- retamente da falsidade também ajudam a destacar a idéia da dependência essencial sobre uma falsidade. Nestes casos, Smith não raciocina explicitamente por meio de uma proposi- 12 Para uma discussão destas alternativas, veja Robert Shope, The Analysis of Knowing (Princeton, N.J.: Prin- ceton University Press, 1983), capítulo 2. ção falsa. Entretanto, há uma dependência implícita sobre uma proposição falsa. Tipica- mente, as coisas das quais alguém depende incluirão coisas que, se pressionado, ele iria dizer que são relevantes. A idéia da dependência essencial admitidamente não é completamente clara. Entre- tanto, ela nos dá uma definição de conhecimento que funciona, com a qual nós podemos ir adiante. A definição, então, é DEF. S sabe p = df. (i) p é verdadeira. (ii) S crê p. (iii) S está justificado em crer p. (iv) A justificação de S para p não depende essencialmente de qualquer fal- sidade. Ao acrescentar a cláusula (iv), (DEF) faz uma modificação importante na ATC. Não obstante, ele retém o coração da perspectiva tradicional, pois ela retém a idéia de que o co- nhecimento requer a crença verdadeira justificada. Ela simplesmente acrescenta uma con- dição extra. Uma questão chave referente à (DEF), assim como à perspectiva tradicional na qual ela está baseada, tem a ver com o conceito de justificação. Nos voltaremos a isso em detalhe no capítulo 4. Na seqüência examinaremos as perspectivas de alguns filósofos que pensam que nenhuma modificação relativamente pequena da ATC irá produzir uma análise correta do conhecimento. Eles pensam que uma formulação inteiramente diferente é prefe- rível. Nós examinaremos suas perspectivas no capítulo 5. IV. CONCLUSÃO A resposta tradicional para (Q1), que perguntava quais são as condições para o co- nhecimento, foi que o conhecimento é crença verdadeira justificada. A ATC é uma análise do conhecimento elegante e atraente, mas os exemplos Gettier mostram que ela não é completamente satisfatória. A moral disto é que o conhecimento requer a crença verdadeira justificada e mais alguma coisa – há uma quarta condição para o conhecimento. Dizer exa- tamente qual é essa quarta condição se revela notavelmente difícil. A teoria sem bases fal- sas e a teoria sem anuladores não têm sucesso. O que parece ser crucial é que a justificação não dependa essencialmente de alguma coisa falsa. Embora esta idéia não tenha sido for- mulada em todos os detalhes, ela nos dá uma formulação útil do conhecimento. Logo, nos- sa resposta para (Q1) é que o conhecimento requer crença verdadeira justificada que não dependa essencialmente de uma falsidade. CAPÍTULO QUATRO TEORIAS EVIDENCIALISTAS DO CONHECIMENTO E DA JUSTIFICA- ÇÃO Se alguma coisa como a versão modificada de Análise Tradicional do Conhecimen- to proposta no capítulo 3 é correta, então a justificação é uma condição necessária crucial para o conhecimento. Além do mais, a justificação é um conceito interessante e enigmático por si mesma. Ela será o foco deste capítulo e daquele que segue. O presente capítulo cobre uma formulação da justificação tradicional e amplamente aceita. O próximo capítulo intro- duzirá formulações da justificação (e do conhecimento) mais recentes e bastante diferentes. Para ajudar a enfocar claramente as questões centrais, será melhor usar um exemplo no qual duas pessoas acreditam na mesma coisa, mas uma está justificada nessa crença e a outra não. Exemplo 4.1: O Roubo Alguém invadiu a casa de Art e roubou uma valiosa pintura. O policial Careful in- vestiga o caso e termina com a evidência conclusiva de que Filcher cometeu o crime. Care- ful encontra a pintura na posse de Filcher, encontra as impressões digitais de Filcher na cena do crime, e assim por diante. Careful acaba acreditando: 1. Filcher roubou a pintura. Enquanto isso, Hasty também ouviu sobre o roubo. Acontece que Hasty mora ao lado de Filcher e tem tido alguns problemas com ele. Hasty detesta Filcher e o culpa por muitas das coisas ruins que acontecem. Hasty tem uma vaga idéia de que Filchertrabalha com comércio de arte mas não tem qualquer conhecimento específico sobre o que ele faz. Sem mais nada em que se basear, Hasty também crê (1). A Perspectiva Standard sustenta que no exemplo 4.1 Careful está inteiramente jus- tificado em crer (1) mas Hasty não está. Se você precisa acrescentar algo mais à história para se convencer daquelas avaliações, pode fazer os acréscimos. Entretanto, o exemplo deveria ser bastante persuasivo tal como está. O objetivo do presente capítulo é descrever de uma maneira sistemática e útil o que distingue a crença de Careful da crença de Hasty e, mais geralmente, identificar as caracte- rísticas gerais que distinguem as crenças justificadas das crenças injustificadas. Há muitas diferenças entre a crença de Careful e a crença de Hasty que são irrelevantes para este pro- jeto. Por exemplo, a crença de Hasty é sobre seu vizinho, mas a crença de Careful não é sobre seu (de Careful) vizinho. Isto é verdade, mas não é o que faz com que uma esteja jus- tificada e a outra não esteja. Crenças sobre a vizinhança podem estar justificadas, e não é sequer remotamente plausível que isto tenha alguma importância em termos de justifica- ção. Em geral, nada sobre aquilo de que trata uma crença provavelmente será, por si só, de algum valor para responder a questão, pois as pessoas podem ter tanto crenças justificadas quanto crenças injustificadas sobre praticamente qualquer tópico. Qual é, então, a diferen- ça? 1 Ao pensar sobre esta questão será útil ter em mente a seguinte idéia. Se uma crença está justificada ou injustificada, seu status epistêmico é um fato avaliativo sobre a crença. A reflexão sobre isto sugere que o status epistêmico deve depender de outros fatos não- epistêmicos. Pode ser mais fácil entender a idéia considerando primeiro uma analogia. Su- ponha que uma professora devolva um conjunto de trabalhos avaliados para os estudantes de sua turma. Ela diz que um trabalho está excelente e dá a ele uma nota muito alta. Ela diz que outro trabalho está ruim e dá a ele uma nota baixa. A professora então atribui então certas propriedades avaliativas a estes trabalhos. Estas são propriedades que se referem à qualidade dos trabalhos. (Embora não seja crucial para a discussão que se segue, suponha que haja uma verdade objetiva sobre a qualidade de cada trabalho.) A qualidade do traba- lho é depende de outras características do trabalho. Por exemplo, palavras mal escritas di- minuem a qualidade do trabalho, assim como também o fazem sentenças gramaticalmente erradas. Talvez estar escrito claramente aumente sua qualidade. Há vários outros fatores que entram na avaliação. Estes fatores envolvem as propriedades descritivas dos trabalhos. A idéia chave a entender é que, se existe uma diferença avaliativa nos trabalhos, então de- ve haver uma diferença descritiva. Em outras palavras, se não há diferença descritiva, en- tão também não há diferença avaliativa. O princípio seguinte captura a idéia: Necessariamente, se dois trabalhos têm as mesmas propriedades descritivas, então eles têm as mesmas propriedades avaliativas. 1 Isto é ás vezes descrito como sendo a tese da superveniência – as propriedades ava- liativas dos trabalhos sobrevêm às suas propriedades descritivas, ou dependem delas. A plausibilidade da tese da superveniência sobre os dois trabalhos pode ser apreci- ada considerando a situação de um estudante que tira uma nota baixa. Suponha que um tal estudante pergunte à professora sobre o que tornou seu trabalho inferior ao trabalho de um colega que ficou com uma nota mais alta. Seguramente haveria algo de errado com um professor que respondesse ao seu estudante, “Não há diferença descritiva entre os dois tra- balhos. Eles são exatamente iguais de todas as maneiras descritivas. Ocorre simplesmente que, infelizmente, o seu trabalho não é tão bom quanto aquele.” Este estudante pode re- clamar apropriadamente que, se o seu trabalho não é tão bom quanto o outro, deve haver alguma coisa sobre os dois trabalhos que revele esta diferença avaliativa. Uma coisa semelhante é verdadeira em epistemologia. Estar justificada ou injustifi- cada é uma propriedade epistêmica avaliativa de uma crença. Fatos sobre as causas de uma crença, sobre se ela é verdadeira, sobre se outras pessoas também acreditam na mesma coi- sa, são fatos não-avaliativos sobre a crença.Além disso, fatos sobre que experiências uma pessoa está tendo, sobre que outras coisas a pessoa acredita, e assim por diante, são todos fatos não-epistêmicos. Os fatos epistêmicos avaliativos dependem destes outros fatos. Lo- go, se uma crença está justificada e outra não está, deve haver alguma diferença não- avaliativa entre as duas crenças que de conta dessa diferença avaliativa. Esta idéia pode ser sumariada no seguinte princípio da superveniência epistêmica: Necessariamente, se duas crenças têm as mesmas propriedades não-epistêmicas, então elas têm as mesmas propriedades epistêmicas. (Se duas crenças são exatamente i- guais não-epistemicamente, então, ou ambas estão justificadas ou ambas não estão justifi- cadas, ou elas estão justificadas no mesmo grau.) Os defensores de todas as teorias da justificação que serão considerados neste e no próximo capítulos concordam com esta tese. A diferença entre as várias teorias se refere a que propriedades determinam o status epistêmico, ou quais fatos descritivos fazem dife- rença epistêmica. I. EVIDENCIALISMO A nossa questão acerca do exemplo 4.1 se referia ao que tornou Careful justificado em crer (1), mas Hasty injustificado em crer nessa proposição. Pode parecer que a resposta à nossa questão seja bastante simples: Careful tem boas razões, ou evidências, para crer (1) enquanto Hasty não as tem. É a posse de evidência que é a marca de uma crença justifica- da. Nós chamamos a isto teoria evidencialista da justificação, ou evidencialismo. Ainda que o evidencialismo esteja correto, tal como formulado até aqui ele não é uma teoria bem-desenvolvida. Os filósofos que concordam que a justificação seja uma questão de se ter boas razões diferem acentuadamente acerca do que está implicado em se ter boas razões. Há, então, mais a ser feito para desenvolver uma descrição satisfatória da justificação. As questões se tornarão mais claras na medida em que examinarmos a idéia mais cuidadosamente. A. Avaliações Epistêmicas Em um famoso ensaio, “The Ethics of Belief,” publicado em 1877, William K. Clifford descreve o seguinte exemplo: Exemplo 4.2 O Dono de Barco Negligente Um dono de barco negligente decide, sem fazer quaisquer checagens cuidadosas, que seu barco tem condições de navegabilidade. O barco lança velas, e então afunda. Mui- tas vidas são perdidas, em larga medida porque o dono do barco acreditou que seu barco tinha condições de navegabilidade sem se importar em checar isto. 2 Clifford tira uma conclusão dura sobre este dono de barco. E elaborando este e- xemplo e alguns outros, ele formula uma conclusão geral que merece um exame. Essa con- clusão é a tese de Clifford, (C): C. É errado sempre, em qualquer lugar, e para qualquer um, crer em qualquer coisa a partir de evidência insuficiente. 3 2 3 Há questões óbvias para fazermos a respeito, mais notadamente, “O que conta co- mo uma evidência insuficiente?” Nós podemos contornar esta questão por enquanto, assu- mindo apenas o seguinte: se uma pessoa tem mais e melhor evidência para a conclusão de que a proposição p é falsa do que para a conclusão de que a proposição p é verdadeira, en- tão essapessoa tem evidência insuficiente para crer que p seja verdadeira. Talvez Clifford pense que ter evidência suficiente requeira ainda mais, alguma coisa como uma evidência muito forte. Mas nós podemos colocar uma questão referente a (C) usando essa condição mais fraca. Ao discutir e defender (C), Clifford escreve: Não é apenas o líder de homens, o estadista, o filósofo, ou o poeta, que têm esse dever imperioso para com a humanidade. Qualquer camponês que apre- sente suas lentas e raras sentenças no bar de sua vila, pode ajudar a matar ou a manter vivas as superstições fatais que amarram sua raça. Qualquer esposa dili- gente de um artesão pode transmitir às suas crianças crenças que podem manter a sociedade unida ou fazê-la em pedaços. Nenhuma simplicidade de espírito, ne- nhuma obscuridade de classe [obscurity of station], pode escapar ao dever uni- versal de questionarmos tudo aquilo em que acreditamos. 4 Sua idéia é que, ao crer a partir de evidência insuficiente, ajuda-se a manter vivas as “superstições fatais” e que, ao fracassar em seguir as evidências que se tem, a sociedade é dividida (“feita em pedaços”). Embora as alegações de Clifford possam parecer um tanto extremas, talvez haja algum mérito em seu tese. Alguns críticos podem objetar a tese de Clifford com base em que uma pequena quantidade de evidência, especialmente nos casos em que uma decisão deve ser tomada rapidamente, pode tornar a crença aceitável. Eis aqui um exemplo projetado para ilustrar o ponto. Exemplo 4.3: Dores no Peito Você está pronto para sair de férias. Pouco antes da hora da partida, você sente al- gumas leves dores no peito. Você sabe que tais dores estão tipicamente associadas com in- digestão, mas elas podem ser sinais de problemas cardíacos. Preocupado com que possa ser um problema sério, você chama seu médico. Esta é uma ação sensata. Ainda assim, a evidência que você tem é bastante fraca. Você não tem evidência para acreditar que possa ter um problema médico sério. Por isso, 4 pode-se concluir que a tese de Clifford está errada. Algumas vezes uma pequena evidência é boa o suficiente. Clifford tem uma boa resposta para esta objeção. (C) não é uma tese sobre quanto é errado agir. Ela é uma tese sobre quanto é errado ter uma crença. Assim, se este exemplo causa algum problema para (C), o exemplo deve ser um no qual ter uma crença não é erra- do, ainda que não se tenha evidência suficiente para ela. Se a situação é como aquela recém descrita, seria errado concluir que você tem problemas cardíacos (se os sintomas descritos são as únicas razões que você tem para pensar isto). Você está absurdamente indo muito além da sua evidência se você acredita nisso. Mas você tem evidência suficiente para acre- ditar numa proposição diferente, a saber, que existe uma possibilidade de que você tenha problemas cardíacos. Além do mais, esta crença proporciona uma boa razão para tomar uma ação preventiva. Não há nada de errado com esta crença ou com a ação baseada nela. Assim, distinguir uma crença da ação relacionada com ela, e distinguir a proposição de que existe uma chance de que você tenha problemas cardíacos da proposição de que você tem problemas cardíacos, proporciona tudo o que é necessário para escapar desta objeção. No entanto, existem algumas outras objeções à tese de Clifford que são mais efeti- vas. Exemplo 4.4: O Rebatedor Otimista Um jogador de beisebol da primeira divisão vai rebater numa situação crucial. Este jogador é um bom rebatedor: ele acerta em cerca de um terço das vezes em que tenta reba- ter. Ainda assim, ele erra mais freqüentemente do que acerta. Como muitos outros jogado- res da primeira divisão, ele é extremamente confiante: a cada vez que ele vai rebater ele acredita que vai acertar. Este tipo de confiança, podemos supor, é de auxílio. Os jogadores se dão melhor quanto estão confiantes (acreditam que terão sucesso) e se dão mal quando perdem sua confiança. Os detalhes do exemplo 4.4 sugerem que não é errado para o rebatedor acreditar que ele acertará. De fato, parece muito melhor para ele acreditar nisto. Ainda assim, ele não tem “evidência suficiente” para a proposição de que ele acertará. Exemplo 4.5: A Recuperação Uma pessoa tem uma doença séria, da qual poucas pessoas se recuperam. Mas esta pessoa não está disposta a se entregar à sua doença. Ela está segura de que ela será um dos afortunados. E a confiança ajuda: Aqueles que são otimistas tendem a se dar um pouco me- lhor, ainda que, desafortunadamente, a maioria deles tampouco se recupere. A tese de Clifford diz que é errado para o paciente acreditar que ele irá se recupe- rar. E este juízo pare ser muito cruel. Imagine criticar o esperançoso paciente, alegando que ele está errado em ser otimista. Se o otimismo ajuda, é difícil achar que é errado para ele ser otimista. Estes exemplos parecem mostrar que há casos nos quais não é errado acreditar em alguma coisa, ainda que não se tenha boa evidência para ela. Ainda assim, Clifford pode estar certo em pensar que todo caso de crença a partir de evidência insuficiente tem uma característica ruim: ela corre o risco de encorajar maus hábitos de pensamento. Entretanto, (C) depende da idéia de que este fato sempre supera outras considerações. Os exemplos recém considerados mostram outra coisa. Algumas vezes o benefício de se acreditar a par- tir de evidência insuficiente supera os danos potenciais. Você pode pensar que está divido sobre estes casos. Por um lado, a performance passada sugere que o rebatedor do exemplo 4.4 não irá acertar. Isto parece indicar que há alguma coisa de errada com a crença de que ele irá acertar desta vez. Por outro lado, o fato de que acreditar que ele irá acertar tende a melhorar sua performance sugere que não é er- rado para ele pensar que irá acertar. Afinal de contas, esta crença ajuda sua performance, da mesma forma como o faz a concentração, o manejo correto do taco, e, talvez, coçar-se e cuspir. Considerações semelhantes se aplicam ao exemplo 4.5. As estatísticas sobre a recu- peração da doença sugerem que há alguma coisa errada com a crença de que o paciente se recuperará. A crença “ignora os fatos” [“flies in the face of the facts”]. Ainda assim, esta é a sua melhor chance de se recuperar. Como nós podemos condenar uma pessoa por tentar? Uma boa maneira de resolver estes aparentes conflitos é dizer que há duas (ou mais) noções diferentes de incorreção sob consideração aqui. Uma noção se refere à mora- lidade (ou à prudência, ou ao auto-interesse). A outra é mais intelectual ou epistemológica. Uma coisa plausível de se dizer é que nestes exemplos as crenças estão moralmente corre- tas mas epistemicamente incorretas. Nós não precisamos entrar em qualquer discussão de- talhada a respeito da moralidade aqui. Será suficiente dizer que, tipicamente, o comporta- mento é imoral quando ele tem efeitos ruins sobre os outros (ou sobre si mesmo) e não há benefício compensatório. Acreditar a partir de evidência insuficiente pode ter os efeitos ruins que Clifford observa. No entanto, nos exemplos 4.4 e 4.5 há evidentes ganhos com- pensatórios. A tese de Clifford é completamente geral. Ele diz “Em todo lugar e sempre” é errado crer a partir de evidência insuficiente. Se a tese de Clifford é sobre moralidade, co- mo ela parece ser, então ela é incorreta. Simplesmente não é imoral ter crenças otimistas e benéficas nestas circunstâncias. Logo, é provável que Clifford tenha ido longe demais ao afirmar (C) de modo geral. Algumas vezes não é moralmente errado crer a partir de evi- dência insuficiente. No entanto, pensarsobre estes exemplos e a tese de Clifford pode nos ajudar a en- focar as questões epistemológicas mais centrais. Suponha que uma pessoa interessada uni- camente em alcançar a verdade esteja na posição das pessoas de nossos exemplos eu esteja formando uma crença sobre aquelas pessoas baseada exatamente na evidência que elas têm. Uma tal pessoa iria colocar de lado preocupações de auto-interesse tais como ganhar o jogo ou se recuperar de uma doença. (Você pode pensar numa pessoa que está fazendo a- postas nos resultados e está interessada apenas em ganhar as apostas.) Essa pessoa iria es- tar interessada apenas no que de fato é verdadeiro. O que essa pessoa iria acreditar nessa situação? É claro que um tal crente desinteressado não acreditaria que o rebatedor acertará ou que o paciente se recuperará. Você pode destacar este ponto dizendo que, nestas situa- ções, com a evidência tal como foi descrita, haveria algo errado em crer nestas coisas. Mas este não é um problema moral. É um problema de racionalidade ou de razoabilidade. Em outras palavras, é epistemicamente errado acreditar nestas coisas nas situações descritas. A idéia chave a se tirar disto é que nós podemos avaliar as crenças de duas manei- ras. Nós podemos avaliá-las moralmente 5 – elas são benéficas? Elas causam algum dano significativo? Nos dois exemplos, as crenças são benéficas (quando sustentadas pelo reba- tedor ou pelo paciente). Elas ganham, portanto, uma avaliação moral favorável. Nós pode- mos também avaliar as crenças epistemicamente. Neste ponto de vista sobre epistemologia em discussão aqui, isto é determinado por se elas vão contra a evidência. Se Clifford tives- se dito que é epistemicamente errado crer a partir de evidência insuficiente, ele teria afir- mado um ponto de vista que muitos filósofos tomam como correta. Mas sua alegação sobre a moralidade está equivocada. A discussão de Clifford nos ajuda e enfocar a noção de alguma coisa ser epistemi- camente errada. É sobre esta avaliação que trata a condição de justificação da ATC. Uma crença epistemicamente justificada é uma crença que é avaliada favoravelmente de um ponto de vista epistemológico, não importa qual seja o seu status moral ou prudencial. B. Formulando o Evidencialismo A idéia central do evidencialismo pode ser estabelecida desde o seguinte princípio evidencialista da justificação EJ. Crer p está justificado para S sse a evidência de S em t sustenta p. Uma versão de (EJ) que cobre outras atitudes também é possível. Ela diz que a ati- tude justificada – a crença, a descrença ou a suspensão do juízo – é aquela que se encaixa na evidência. Uma teoria evidencialista completamente desenvolvida diria alguma coisa sobre aquilo em que consiste a evidência de uma pessoa e sobre o que é para essa evidên- cia sustentar uma crença em particular. Em geral, os evidencialistas dirão que a evidência que a pessoa tem num dado mo- mento consiste em toda a informação de que a pessoa dispõe naquele momento. Isto inclui- rá as lembranças que a pessoa tem e as outras crenças justificadas que ela tem. Quando os evidencialistas falam de uma pessoa “tendo evidência,” eles não querem dizer a mesma coisa que uma pessoa discutindo questões legais pode querer dizer com a mesma expres- são. Suponha que um certo documento seja um item crucial num caso. Você tem essa coisa entre suas posses, mas você não sabe nobre ela. No sentido legal de “ter evidência,” você pode ter a evidência relevante. Mas no sentido pretendido aqui, ela, e os fatos sobre ela, não são parte da sua evidência. A evidência que você tem consiste na informação que está disponível, em um sentido difícil-de-especificar, para o seu uso. A idéia chave, então, é que a evidência que uma pessoa tem consiste nos dados que a pessoa dispõe para formar crenças, não no itens que a pessoa possui fisicamente. Para ser verdade que a evidência de uma pessoa sustenta uma proposição, deve o- correr que a evidência total da pessoa, ao ser avaliada, sustente essa proposição. É possível ter alguma evidência que sustente uma proposição e alguma evidência que sustente a nega- ção dessa proposição. Se estes dois corpos de evidência têm o mesmo peso, e a pessoa não tem outra evidência relevante, então a evidência total da pessoa é neutra e a suspensão de 5 juízo sobre a proposição é a atitude justificada. Se uma porção da evidência é mais forte do que a outra, então a atitude correspondente é aquela justificada. Em todos os casos, é a evi- dência total que determina qual a atitude é a justificada. Chame a isto de condição de evi- dência total. Há uma distinção, até agora não mencionada, que é importante para o evidencia- lismo. Uma analogia com a ética tornará clara a distinção. Uma pessoa pode fazer a coisa eticamente correta pelas razões erradas. Por exemplo, suponha que uma pessoa rica seja solicitada a dar algum dinheiro para a caridade e concorda em transferir os fundos eletroni- camente. A instituição de caridade dá a ela o número da conta de modo a que ela possa transferir o dinheiro. Armado com esta informação, a pessoa decide pegar dinheiro da ins- tituição de caridade ao invés de dar dinheiro a ela. Entretanto, por engano ela aperta o bo- tão errado e transfere dinheiro para a instituição de caridade. Ela faz a coisa certa, mas a faz por engano. Sua ação é correta, mas não é “bem intencionada” ou “bem motivada.” Ela é condenável por seu caráter e suas motivações, ainda que ela tenha feito a coisa certa. Há um análogo epistemológico deste exemplo. Suponha que você tenha boas razões para crer em alguma coisa e você crê nela. No entanto, você acredita nela, não com base naquelas boas razões, mas por causa de uma predição astrológica ou como resultado de er- ro lógico. Você acredita na coisa certa pelas razões erradas. Em tais casos, acreditar nessa proposição de fato está de acordo com a sua evidência e, assim, de acordo com (EJ), crer é a atitude justificada. Mas ela é uma crença epistemicamente “má.” Você não está agindo corretamente, falando epistemicamente, ao manter essa crença. Estes exemplos mostram que existem duas idéias relacionadas de justificação que nós precisamos distinguir. Uma está apropriadamente formulada em (EJ). É o análogo e- pistêmico da ação que de fato é boa, i.e., a melhor coisa a fazer, dada a situação. Há muitas maneiras diferentes de expressar esta idéia: S está justificado em crer p. Crer p é justificado para S. S tem uma justificação para crer p. Nenhuma desta implica que S de fato creia p. Elas implicam apenas que S tem o que é necessário para tornar a crença em p epistemicamente apropriada. O segundo tipo de justificação é o análogo epistemológico da idéia de fazer a coisa certa pelas razões certas. Esta é a idéia de uma crença “bem-formada” ou “bem-fundada.” Nós expressamos tipicamente esta idéia dizendo coisas tais como A crença de S em p está justificada. A crença de S em p está bem fundada. S crê justificadamente p. As sentenças destas formas implicam que S creia p e que S o faz pelas razões cer- tas. Eis aqui uma formulação mais precisa deste conceito: CJ. A crença de S de que p no momento t está justificada (bem fundada) sse (i) crer p é justificado para S em t; (ii) S crê p na base de evidência que sustenta p. 6 A cláusula (ii) de (CJ) pretende capturar a idéia de crer com base em razões certas. Chame a isto de condição embasadora. Uma versão generalizada de (CJ) aplicada à des- crença e à suspensão de juízo também poderia ser desenvolvida.O evidencialismo afirma tanto (EJ) quanto (CJ). Ele sustenta que a atitude justifi- cada em relação a uma proposição para uma pessoa em qualquer momento é a atitude que corresponde à evidência total da pessoa naquele momento. E uma crença (ou uma outra atitude) está de fato justificada (bem-fundada) dado que ela corresponda à evidência da pessoa e que a crença seja mantida com base em evidência que realmente a sustente. C. Duas Objeções ao Evidencialismo C1. Objeção 1: Irresponsabilidade Epistêmica Exemplo 4.6: A hora do filme Um professor e a sua esposa estão indo ao cinema ver Star Wars, Episódio 68. O professor tem em suas mão o jornal do dia, o qual contém a lista do filmes em cartaz e seus horários. Ele lembra que o jornal de ontem dizia que Star Wars, Episódio 68 estava pas- sando às 8:00 horas. Sabendo que os filmes usualmente são exibidos no mesmo horário todos os dias, ele crê que o filme será exibido hoje também às 8:00 horas. Ele não olha no jornal de hoje. Quando eles chegam ao cinema, descobrem que o filme começou às 7:30 horas. Quando eles reclamam na bilheteria sobre a mudança, é dito a eles que a hora certa estava indicada no jornal de hoje. A esposa do professor diz que ele deveria ter olhado no jornal de hoje e que ele não estava justificado em pensar que o filme começaria às 8:00 ho- ras. Este exemplo é projetado para ser um contra-exemplo tanto para (EJ) quanto para (CJ). Restringiremos a nossa discussão a (CJ), mas as questões destacadas poderiam facil- mente ser revisadas para ser aplicadas a (EJ). Uma vez que o professor foi desleixado ao não olhar o jornal de hoje, ele perdeu alguma evidência sobre quando o filme começaria. Como resultado, é verdade que 2. Acreditar que o filme começaria às 8:00 horas corresponde à evidência que o professor efetivamente tinha (quando ele estava dirigindo para o cinema), e ele baseou sua crença nesta evidência. Dado (2), (CJ) tem o resultado de que sua crença estava justificada (bem fundada). No entanto, os críticos do evidencialismo (e a esposa do professor) dizem que 3. A crença do professor de que o filme começaria às 8:00 horas não estava justifi- cada (porque ele deveria ter olhado o jornal e, desse modo, arranjado mais evidência, a qual não teria sustentado essa crença.) Assim, (CJ) está errada, uma vez que ela implica que esta crença está justificada. Este exemplo depende de um princípio de acordo com o qual a justificação depende em parte de evidência que se deveria ter tido. Chame a isto de Principio Consiga a Evidên- cia (PCE): PCE: Se a evidência corrente de S sustenta p, mas S deveria ter tido evidência adi- cional, e esta evidência adicional não sustentaria p, então a crença de S em p não está justi- ficada. 6 O (PCE) pode parecer sensato, e é fácil ver porque os críticos do evidencialismo poderiam ser persuadidos pelos exemplos, tais como o exemplo 4.6, que apelam para ele. Aplicado a este exemplo o (PCE) implica que a crença do professor não estava justificada uma vez que ele tinha evidência prontamente disponível, e ele deveria ter olhado para esta evidência, e esta evidência adicional não sustentaria sua crença sobre a hora do filme. 7 No entanto, os evidencialistas têm uma boa resposta para esta objeção. Nós deverí- amos distinguir a justificação epistêmica de outras questões. A questão relevante para o evidencialismo, e para as teorias da justificação epistêmica de um modo geral, é “O que S deveria crer agora, dada a situação na qual ele de fato está?” Aplique esta questão ao e- xemplo 4.6. Enquanto o professor está dirigindo para o cinema, seria inteiramente irracio- nal para ele fazer qualquer coisa além de crer que o filme começa às 8:00 horas. Afinal de contas, ele sabe que o filme começou às 8:00 horas ontem e que os cinemas usualmente exibem os filmes no mesmo horário todas as noites. Ele não tem razão alguma para pensar que o filme começa em qualquer outro horário que nas às 8:00 horas. Seria inteiramente irracional para ele crer que o filme começa às 7:30 horas. Assim, dada a situação na qual ele efetivamente está, esta é a atitude justificada. O evidencialismo produz exatamente o resultado correto neste caso. É importante distinguir algumas questões relacionadas. Essa recém discutida tem a ver com o que é razoável crer dada a situação na qual efetivamente se está. Outras questões têm a ver com se se deveria conseguir mais evidência (ou se colocar numa situação dife- rente). Suponha que seja verdade que o professor deveria ter olhado o jornal de hoje. Ele se confundiu e não fez isso. Ainda assim, a questão se mantém, a saber, dado que ele foi ne- gligente e não fez o que deveria ter feito, o que é mais razoável para ele acreditar? A res- posta é que é mais razoável para ele acreditar que o filme começa às 8:00 horas. De manei- ra geral, é mais razoável crer no que é sustentado pela evidência que se dispõe. Uma vez que não se sabe o que a evidência que não se tem iria sustentar, seria irracional ser guiado por essa evidência. Assim, o (PCE) está equivocado. Mesmo que se devesse conseguir mais evidência, a coisa a fazer em qualquer dado momento é ser guiado pela evidência que se tem. No exemplo, talvez tivesse sido uma boa idéia olhar o jornal do dia. No entanto, an- tes de tirar essa conclusão vale a pena observar que é quase sempre possível ser mais cui- dadoso e procurar por mais evidência. O professor tinha uma boa razão para pensar que o 7 filme começaria às 8:00 horas e para acreditar que o jornal diria isto. Vendo retrospectiva- mente, é fácil criticá-lo. Mas se ele deveria ter checado o jornal de hoje, então talvez ele devesse ter checado também os horários dos filmes on-line, ou devesse ter ligado para o cinema para confirmar o que o jornal dissera. Talvez ele devesse ter ligado uma segunda vez para que alguém confirmasse o que lhe fora dito na gravação ouvida durante a primeira chamada. Checagens adicionais são sempre possíveis. Dependendo da seriedade da situa- ção, a probabilidade de que novas informações sejam úteis, e outros fatores, é às vezes de seu interesse fazer alguma checagem adicional. No entanto, seguramente não é sempre sensato ficar checando. Mas tudo isto é independente da razoabilidade de crer no que ele crê dada a situação na qual ele efetivamente se encontrava. C2. Objeção : Lealdade Exemplo 4.7: A Acusação Um bom amigo é acusado de um crime, e você está ciente de alguma evidência in- criminadora. Você também conhece bem o seu amigo e tem evidência de que seu caráter não permitiria que ele cometesse um tal crime. Seu amigo está terrivelmente perturbado pelas acusações levantadas contra ele, e ele pede auxílio a você. Por lealdade a seu amigo, e dada a qualidade mista da sua evidência, você crê que seu amigo não é culpado. Esta é uma reação louvável. Ela mostra lealdade em relação a um amigo em difi- culdades. Pode-se ser tentado a dizer que crer que seu amigo não é culpado está justificado, ainda que sua evidência não sustente essa crença. É plausível, talvez, dizer que as questões de lealdade e amizade têm precedência aqui, e que é melhor para você ir contra a evidência neste caso. Isto pode parecer ser um problema para o evidencialismo, uma vez que o evi- dencialismo diz que a evidência sozinha determina o que está justificado. Ele desconsidera inteiramente as considerações de lealdade, de amizade, e outras do mesmo tipo. Isto, você pode pensar, é um equívoco.A resposta evidencialista aponta para um ponto discutido antes neste capítulo. A epistemologia de modo geral, e o evidencialismo em particular, tratam da natureza da crença racional. Elas não levantam questões sobre a moralidade. A atitude racional neste caso é, como o evidencialismo afirma, suspender o juízo, ou talvez crer que seu amigo seja culpado. Este pode ser um caso no qual uma pessoa moralmente boa irá colocar a raciona- lidade de lado. Mas essa é uma outra questão. Os fatos não colocam em dúvida o veredicto do evidencialismo sobre qual seja a atitude epistemicamente racional neste exemplo. 8 Logo, o evidencialismo é capaz de resistir estas objeções iniciais. Questões difíceis permanecem. Lembre da lista de coisas que a Perspectiva Standard diz que nós conhece- mos. Existem questões difíceis sobre qual seja exatamente a nossa evidência para estas coi- sas e como essa evidência chega a proporcionar sustentação para as nossas crenças. Nos voltaremos em seguida para essas perspectivas sobre como estas coisas funcionam. Estas não são alternativas ao evidencialismo. Elas são, ao invés, algumas maneiras pelas quais os detalhes do evidencialismo poderiam ser formulados. Nós usaremos um dos mais famosos argumentos da história da filosofia como um caminho para começar a discussão destas questões: o Argumento do Regresso Infinito. II. O ARGUMENTO DO REGRESSO INFINITO Enunciados do Argumento do Regresso Infinito são muito antigos – alguns o atri- buem a Sexto Empírico (século III), outros a Aristóteles (quarto século A.C.). O argumento começa com a observação de que o que torna uma crença justificada, ao menos num caso típico, são outras crenças ou razões. Isto parece ser simplesmente um enunciado do próprio evidencialismo. Mas se você pensar sobre isto por um momento, você notará que um pro- blema aparece. Se uma crença está baseada em algumas razões, mas aquelas razões não têm uma base elas próprias, então parece como se o que depende daquelas razões não este- ja mais bem justificado do que uma crença para a qual não se têm razões algumas. Por e- xemplo, se, como no exemplo 4.1, Hasty inventasse do nada uma história completa sobre como Filcher roubou a pintura, ele poderia ser capaz de citar esta história como sua “ra- zão” para crer (1). Mas se ele não tiver nenhuma boa razão para crer na história que susten- ta, então, ao final, ele não tem nenhuma boa razão para crer (1). Em resumo, parece que você precisa de razões para as suas razões se a sua crença for justificada. E isto parece ser um problema. Há um regresso ameaçando: você precisa de razões para suas razões, e pre- cisa de razões para aquelas razões, e assim por diante. Mas não parece que qualquer um de nós disponha alguma vez desse suprimento infinito de razões. 8 O problema recém colocado tem tido um papel central na epistemologia, tanto por- que ele tem sido influente historicamente quanto porque ele é útil para organizar as teorias na base de como elas respondem a ele. Alguma terminologia será de ajuda na discussão que segue. Parece que, por uma questão de lógica, existem duas possibilidades a propósito das crenças justificadas: ou toda crença justificada está justificada porque ela é sustentada por algumas outras crenças, ou então existem algumas crenças justificadas que não depen- dem de outras crenças. Crenças do último tipo são ditas serem crenças justificadas básicas. Outros termos para a mesma categoria são crenças imediatamente justificadas e crenças não-inferencialmente justificadas. Nós podemos formular isto como uma definição formal: JB. B é uma crença básica justificada = df. B é justificada, mas não é justificada com base em qualquer outra crença. Crenças justificadas Não-básicas (crenças mediatamente justificadas, crenças infe- rencialmente justificadas) então, são crenças justificadas com base em outras crenças. Outra idéia útil é a de uma cadeia de razões ou de uma cadeia de evidências. Esta é uma seqüência estruturada de crenças, cada uma das quais é justificada por suas predeces- soras. É importante observar que uma cadeia de evidências não precisa ter apenas uma úni- ca proposição em cada ligação ou nível. Por exemplo, ao traçar a cadeia de evidências as- sociada com a crença de Careful em (1), nós podemos ter os fatos sobre as impressões digi- tais e a posse das pinturas como razões para (1). Haverá razões adicionais para cada uma destas, talvez envolvendo os resultados dos testes das impressões digitais e coisas do gêne- ro. Parece haver um número limitado de maneiras pelas quais as cadeias de evidências podem ser estruturadas. Uma possibilidade é que elas sejam infinitamente longas – para cada passo existe uma razão anterior. Outra possibilidade é que elas dêem voltas ou façam círculos – se você rastrear as razões de uma crença, eventualmente encontrará de novo essa mesma crença. Outra possibilidade é que as cadeias de evidências tenham de fato um co- meço. No começo de qualquer cadeia de evidências estão as crenças justificadas básicas. Uma possibilidade final é que as cadeias de evidências sejam rastreadas até crenças que simplesmente não estejam justificadas. Este é um conjunto intrigante de opções. Nenhuma delas parece inteiramente satis- fatória. Como poderia haver uma série infinita de crenças justificadas? Como poderia uma crença ser justificada se ela remonta a si mesma? Esse parece um raciocínio circular fla- grantemente objetável. Como poderia uma crença ser justificada sem a sustentação de ou- tras crenças – como poderia haver crenças justificadas básicas? Como as crenças poderiam ser justificadas se elas remontam a crenças que não são elas próprias justificadas? Qual- quer descrição das cadeias de evidências parece pouco prometedora. Nós podemos formular estas considerações em um argumento preciso. O principal valor de formular este argumento é que ele torna explícita uma variedade de idéias e de suposições envolvidas nas considerações recém avançadas. Além do mais, as teorias sobre a justificação podem ser adequadamente agrupadas de acordo com a maneira como elas respondem a este argumento. Argumento 4.1: O Argumento do Regresso Infinito 1-1. Ou existem crenças justificadas básicas ou toda crença justificada em uma ca- deia de evidências que ou (a) termina com uma crença injustificada (b) é um regresso infinito de crenças (c) é circular 1-2. Porém, as crenças baseadas em crenças injustificadas não são elas próprias jus- tificadas, e assim nenhuma crença justificada poderia ter uma cadeia de evidência que ter- minasse em uma crença injustificada (isto é, não (a)). 1-3. Nenhuma pessoa poderia ter uma série infinita de crenças, e assim nenhuma crença justificada poderia ter uma cadeia de evidências que fosse um regresso infinito de crenças (isto é, não (b)). 1-4. Nenhuma crença poderia ser justificada por ela mesma, e assim nenhuma cren- ça justificada poderia ter uma cadeia de evidências que fosse circular (isto é, não (c)). 1-5. Existem crenças justificadas básicas (1-1) – (1-5). Este argumento é válido. Isto é, se as premissas do argumento estão corretas, então a conclusão também deve estar correta. Se o argumento está de algum modo errado, então ele deve ter uma premissa falsa. Logo, ou nós precisamos aceitar a conclusão de que exis- tem crenças justificadas básicas, ou então não devemos rejeitar uma das premissas. As teo- rias em epistemologia podem ser classificadas em parte pelo que elas dizem sobre este ar- gumento: Fundacionismo: O argumento é sólido. Existem crenças justificadas básicas, e elas são os fundamentos sobre o qual todasas outras crenças justificadas repousam. Coerentismo: O argumento erra na premissa (1-4). A justificação para uma propo- sição pode ser uma outra, que é ela mesma justificada por ainda outras. De forma geral, a crença de uma pessoa está justificada quando ela se encaixa com as outras crenças da pes- soa de uma maneira coerente. Logo, uma crença é justificada pelo sistema inteiro do qual ela é uma parte. Por isso, uma crença é parcialmente justificada por ela mesma, e (1-4) é falsa. Ceticismo: Uma vez que nem o fundacionismo e nem o coerentismo são plausíveis, e não há nada de errado com o argumento, ele deve estar errado desde o início ao assumir que existam crenças justificadas. Não podem haver quaisquer crenças justificadas. Outras respostas ao argumento são possíveis. Alguns filósofos têm dito que as ca- deias de evidências terminam em crenças que não são justificadas, e assim eles rejeitam (1- 2). Outros têm dito que cadeias infinitas de razões são possíveis. E assim, eles rejeitam (1- 3). Nós não consideraremos tais perspectivas aqui. Por muito tempo, o fundacionismo foi a perspectiva predominante e a questão cen- tral foi se os fundacionistas dispunham de alguma maneira plausível de defender o seu ponto de vista contra o ceticismo. Boa parte deste trabalho envolveu esclarecer quais eram exatamente as implicações do fundacionismo – explicar exatamente que tipo de coisa é uma crença básica. Em anos mas recentes, muitos filósofos rejeitaram o fundacionismo e alguns aceitaram o coerentismo. O fundacionismo e o coerentismo são o foco do restante deste capítulo. III. O FUNDACIONISMO CARTESIANO O Fundacionismo envolve duas alegações fundamentais: F1. Existem crenças justificadas básicas F2. Todas as crenças justificadas não-básicas são justificadas em virtude de sua re- lação com as crenças justificadas básicas. Estas afirmações colocam as seguintes questões aos fundacionistas: QF1. Sobre que tipo de coisas tratam as nossas crenças justificadas básicas? Quais crenças são justificadas e básicas? QF2. Como são justificadas essas crenças básicas? Se elas não são justificadas por outras crenças, como elas se tornam justificadas? QF3. Que tipo de conexão uma crença não-básicas deve ter com uma crença básica a fim de estar justificada? Diferentes versões do fundacionismo podem ser identificadas por suas respostas a estes questões. A. A Idéia Principal do Fundacionismo Cartesiano René Descartes foi um filósofo do século XVII extremamente influente. Ele é bas- tante conhecido como um defensor de uma versão em particular do fundacionismo. No en- tanto, é difícil extrair de seus escritos a versão do fundacionismo freqüentemente atribuída a ele. 9 Chamaremos o ponto de vista a ser discutida de fundacionismo cartesiano, e em al- guns lugares introduziremos aspectos deste ponto de vista dizendo “O ponto de vista carte- siano é ...”, ainda que seja improvável que Descartes de fato concordasse com todos os as- pectos do ponto de vista a ser descrito. Os fundacionistas cartesianos respondem à (QF1) escolhendo como crenças bási- cas as nossas crenças sobre os nossos próprios estados mentais. As proposições que des- crevem o que alguém parece ver, o que alguém pensa, o que alguém sente, etc. são básicas. Descartes parece ter pensado que as crenças básicas são fossem crenças fossem, em algum sentido, indubitáveis ou livres de toda possibilidade de erro. Ele observou que a sua própria crença de que você existe não pode estar errada, e isto pareceu colocá-la na classe das crenças básicas. O restante do que nós sabemos, de acordo com o fundacionismo cartesia- no, é o que nós podemos deduzir das nossas crenças básicas. Assim, se nós temos conhe- cimento do mundo ao nosso redor, é porque nós podemos deduzir as coisas que nós conhe- cemos a partir destas crenças básicas. B. Uma Formulação Detalhada do Fundacionismo Cartesiano É importante entender apropriadamente as crenças que Descartes conta como bási- cas. Considere uma sentença tal como: 4. René parece ver uma árvore. Podem não haver de fato coisas do tipo que René parece ver. (4) descreve simples- mente como as coisas parecem para ele. As coisas podem parecer dessa maneira quando ele realmente vê uma árvore. Mas elas também podem parecer dessa maneira em outras circunstâncias, tais como quando ele está sonhando ou tendo uma ilusão. (4) simplesmente descreve seu estado mental interno. Descartes pensa na sensação de dor de uma maneira análoga. Pode-se “sentir dor” mesmo quando nada esteja acontecendo com a parte do cor- po que parece estar sendo machucada. Em geral, então, a resposta de Descartes para (QF1) diz que as crenças básicas in- cluem as crenças sobre os estados mentais – crenças sobre como as coisas se parecem ou soam para você, do que você parece se lembrar, etc. Estas crenças são crenças de aparên- cia e os estados internos que elas descrevem são as aparências. É importante compreender que as crenças de aparência não estão limitadas às crenças sobre como as coisas se pare- cem. Elas incluem crenças sobre como elas soam, que gosto elas têm, como elas são senti- das e como elas cheiram. Além disso, crenças sobre o que você parece se lembrar e talvez crenças sobre o que você mesmo acredita estão incluídas. Em geral, crenças de aparência são crenças sobre os atuais conteúdos de sua própria mente. As crenças de aparência por si mesmas não implicam nada sobre o que está no mundo fora da própria mente de uma pessoa. Em outras palavras, por si mesmas elas não implicam nada sobre o mundo externo. Em princípio, você poderia ter o mesmo estado in- terno em um sonho, numa alucinação, ou com a percepção normal. Tal como os filósofos usam a expressão mundo externo, então, ela se refere a tudo o que está fora da própria mente de uma pessoa. Assim, as suas próprias experiências e as suas crenças sobre elas es- 9 tão dentro de sua mente. Tudo o mais, desde sua perspectiva, é parte do mundo externo. Logo, as coisas nas mentes de seus amigos e vizinhos são, desde sua perspectiva, parte do mundo externo. Há uma distinção que vale observar aqui. Você poderia tomar “Me parece que p” significando “Eu creio que p.” De forma semelhante, você poderia tomar (4) significando que René acredita que ele vê uma árvore. Não é isto o que nós queremos dizer. Em vez dis- so, nós queremos dizer que seu estado mental é o de parecer ver uma árvore. A imagem diante de sua mente é do “tipo-árvore.” Tal como nós entendemos (4), Descartes acredita- ria (4), e ela seria verdadeira, se ele tivesse uma imagem tipo-árvore diante de sua mente que ele soubesse ter sido artificialmente induzida em algum tipo de experimento psicológi- co. Num tal caso ele poderia dizer, “Me parece ver uma árvore, mas eu não creio que real- mente veja uma árvore.” Uma interpretação da resposta do fundacionismo cartesiano à (QF2) se baseia na idéia de que as crenças básicas são crenças em proposições das quais não se pode duvidar. Elas são ditas serem indubitáveis. Em outras palavras, as crenças básicas são crenças de aparência das quais não se pode duvidar, ou descrer. Talvez quando uma imagem tipo- árvore esteja diante de sua mente, você não possa evitar crer que lhe pareça ver uma árvo- re. Se esta é a idéia por detrás da resposta à (QF2), então a resposta geral parece ser que as crenças básicas estão justificadas porque elas são crenças em proposições que, dadas as circunstâncias, somos incapazes de duvidar. Mas esta nãoé uma boa resposta à (QF2). A inabilidade em duvidar de uma proposição não torna epistemicamente justificada a crença nela. Isto pode, ao invés, ser o resultado de uma limitação psicológica. Suponha que uma pessoa seja tão dependente psicologicamente do amor de sua mãe que ela não possa duvi- dar que sua a ame. Isto não torna a crença epistemicamente justificada. A pessoa pode ter muitas boas razões para crer diferentemente, mas carecer da capacidade de acreditar no que suas razões sustentam. Assim, a inabilidade de duvidar não torna alguma coisa justificada e, logo, não podem explicar porque ela é uma crença justificada básica. Há um outro tema nos escritos de Descartes. Ele sugere que crenças sobre os nos- sos próprios estados internos são crenças que não poderiam estar erradas. A idéia é que se ele acredita numa coisa tal como (4), então ele não poderia estar errado sobre isso. Ele po- deria estar errado sobre se há realmente uma árvore ali, mas não sobre se parece como se houvesse uma árvore ali. De maneira geral, a idéia é que as crenças básicas estão justifica- das porque elas são crenças em proposições sobre as quais nós não podemos estar errados. Em outras palavras, nós somos infalíveis a esse respeito. Assim, nós iríamos tomar a res- posta do fundacionismo cartesiano à (QF2) como sendo que as crenças básicas estão justi- ficadas porque nós não podemos estar errados. Considere a seguir o que é comumente tomado como sendo a resposta de Descartes à (QF3). Ele aparentemente pensou que tudo o mais que está justificado deve ser deduzido das crenças justificadas básicas. Logo, ele sustentou que para tornar justificadas as crenças sobre o mundo externo você deve combinar as crenças básicas de maneira que garantam a verdade daquelas crenças sobre o mundo. Uma vez que enunciados sobre como as coisas se parecem não têm uma tal garantia, esta é uma tarefa difícil. A abordagem do próprio Descartes se deu da seguinte maneira. 10 Ele alegou que certas crenças elementares sobre questões lógicas e conceituais também fossem básicas. Talvez sua idéia fosse que proposi- ções elementares sobre estas questões fossem aquelas que nós simplesmente podemos ver que são verdadeiras ao refletir sobre elas. Os exemplos podem ser a proposição de que qualquer coisa é idêntica a si mesma ou a proposição de que se a conjunção P e Q é verda- deira, então P é verdadeira. Sem examinar esta questão em detalhe aqui, será suficiente i- dentificar esta classe de crenças básicas com as verdades elementares da lógica e atribuir a Descartes o ponto de vista de que as nossas crenças nestas proposições também são crenças justificadas básicas. A maneira de Descartes argumentar que algumas crenças sobre o mundo externo estão justificadas, dadas suas respostas para (QF1), (QF2) e (QF3), foi argumentar que as verdades elementares da lógica incluíam proposições na base das quais ele estava apto a provar conclusivamente que Deus existe e que Deus não iria ou não poderia ser um enga- nador. Porém, se nossas crenças de aparências estivessem erradas, então Deus seria um en- ganador. Usando esta conclusão combinada com suas crenças de aparência, ele derivou um grande número de crenças sobre o mundo externo. Desta maneira, ele concluiu que nós te- mos conhecimento de muitos fatos do mundo. O fundacionismo cartesiano, então, é o ponto de vista caracterizado pelas três ale- gações seguintes, as quais compreendem respostas às três questões para os fundacionistas: AF1. Crenças sobre os estados mentais próprios de uma pessoa (crenças de aparên- cia) e crenças sobre verdades elementares da lógica são crenças justificadas básicas. 10 AF2. Crenças justificadas básicas estão justificadas porque nós não podemos estar errados sobre elas. Nós somos “infalíveis” em tais questões. AF3. O restante de nossas crenças justificadas (e.g., nossas crenças sobre o mundo externo) está justificado porque elas podem ser deduzidas de nossas crenças básicas. C. Três Objeções ao Fundacionismo Cartesiano C1. Nós Não Somos Infalíveis Quanto Aos Nossos Próprios Estados Mentais A combinação de (AF1) e (AF2) pode ser refutada se puder ser mostrado que nós não somos infalíveis quanto aos nossos próprios estados mentais. O exemplo seguinte mos- tra que há uma boa razão para pensar que nós podemos estar errados mesmo sobre estas questões. Exemplo 4.8: A Frigideira Você está caminhando em direção a um balcão que tem uma frigideira sobre ele. Foi dito a você para ser cuidadoso uma vez que a frigideira está muito quente. À medida que você se aproxima do balcão, tropeça e estica sua mão para deter a queda. Desafortuna- damente, sua mão vai direto para a frigideira. Você imediatamente a retira, pensando: 5. Eu estou tendo agora uma sensação de extremo calor. De fato, como você logo nota, a frigideira não está realmente quente. Você não sen- tiu calor algum. 11 É alegado que neste tipo de exemplo você acredita (5), que (5) é uma proposição sobre o seu próprio estado mental corrente, e que (5) é falsa. Se tudo isto está correto, en- tão você não é infalível acerca de seus próprios estados mentais. Para avaliar este exemplo, é importante ser cuidadoso sobre o que (5) diz exata- mente. A palavra sensação é ambígua. Ela pode ser usada de maneira que implique que exista realmente uma coisa externa que esteja sendo sentida. Ela também pode ser usada para se referir a um estado puramente interno. De acordo com o primeiro uso, (5) é verda- deira apenas se há de fato um contato com uma coisa muito quente. Assim entendida, (5) não expressa o tipo de crença que os fundacionistas cartesianos alegam ser básica. Ela não é sobre o estado mental próprio de uma pessoa. Ao invés, ela é sobre as causas externas à mente da experiência corrente. Nesta interpretação, (5) diz que uma coisa extremamente quente está causando a atual sensação de calor. A segunda interpretação de (5) a toma como sendo somente sobre o seu estado in- terno. Ela diz apenas que você está tendo uma sensação ardente, que você sente calor. Ela nada diz sobre qualquer fonte externa desta sensação. Este é o tipo de crença que os carte- sianos têm em mente como básica. Desafortunadamente para o fundacionismo cartesiano, a objeção parece funcionar quando (5) é interpretada desta segunda maneira. Poder-se-ia ar- gumentar plausivelmente que não apenas você tem a crença incorreta grosso modo equiva- lente à “Eu toquei uma coisa muito quente.” Você equivocadamente pensa que está tendo a sensação ardente. Se o exemplo é possível quando entendido desta segunda maneira, então nós realmente podemos estar equivocados sobre as nossas experiências. Isto é um proble- ma para o fundacionismo cartesiano. E o exemplo parece possível. O que impede as pesso- as de cometerem equívocos sobre suas experiências? Há coisas que os defensores do fundacionismo cartesiano poderiam dizer em res- posta a este exemplo. 12 Por exemplo, a objeção requer que seja possível que as expectati- vas afetem as nossas crenças sobre as nossas sensações. Isso de fato parece possível. No entanto, pode ocorrer que as expectativas também afetem as próprias sensações. Isto é, se este tipo de coisa fosse ocorrer, talvez a pessoa efetivamente sentisse uma sensação de ca- lor por um momento. Se isto é o que acontece, então a crença não seria absolutamente fal- sa. Logo, aquilo em que os proponentes do exemplo confiam é que a expectativa e a ante- cipação afetam o que você crê sobre uma sensação, mas não afeta a sensação ela mesma. Se ela altera a sensação, então afinal de contas você não se engana acerca de seu estado interno.Ainda assim, para defender o fundacionismo cartesiano deve-se argumentar que as expectativas devem afetar sempre, ou tanto a sensação quanto a crença, ou nenhum deles. É difícil ver porque isso seja verdadeiro. Além do mais, um fundacionista cartesiano que usasse esta réplica teria uma descrição bastante enigmática do que acontece no exemplo. Há um momento de compreensão no exemplo, o ponto no qual você compreende que a fri- gideira não está quente. Mas se você realmente está tendo uma sensação de calor quando 11 12 você pensa que está, o que é exatamente que faz a sua sensação (e a sua crença) mudar? Por que você decide que ela está errada? Afinal de contas, a réplica diz que as coisas de fato parecem como você pensa que elas são. O crítico do cartesianismo, em contraste, tem uma descrição plausível do momento de compreensão. Após um momento, você compre- ende que não se sente da maneira que pensava se sentir. Suas crenças mudam, mas não a sua sensação. Você se equivocou sobre sua sensação. Outro exemplo aponta para a mesma conclusão. Em um de tais exemplos, é dito a uma pessoa que a coceira é um caso moderado de dor. 13 A pessoa sente uma coceira, acre- dita que ela está sentindo uma coceira, e infere que ela está portanto sentindo uma dor. No entanto, esta conclusão é equivocada. Coceiras não são dores, e ela não está tendo uma sensação de dor. Mais uma vez, nós não somos infalíveis a esse respeito. Estes exemplos refutam qualquer versão do fundacionismo que implique que todas as crenças sobre as próprias sensações de uma pessoa sejam verdadeiras; Talvez o funda- cionismo cartesiano implique isto. Mas uma forma modificada da teoria, a ser discutida mais tarde neste capítulo, evita este resultado. Há uma razão adicional para não aceitar (AF2). É muito difícil ver porque o fato (se ele é um fato) de que você não possa estar enganado sobre alguma coisa seja um fato justi- ficador. Suponha que uma proposição não pudesse ser falsa. Ela é uma lei da lógica, ou talvez uma lei da natureza, que é verdadeira. Se você acredita nessa proposição, então a sua crença não pode estar errada. Mas a sua crença poderia ser um mero palpite feliz ou o re- sultado de uma série que erros que aconteceu de conduzir a uma crença verdadeira. Se vo- cê soubesse que não poderia estar errado, isso proporcionaria a você uma razão. Mas se você não sabe disso, não é claro porque esse fato torne a sua crença justificada. Assim, (AF2) implica que, se uma crença não pode estar errada, então ela está justificada. E isto parece, sob reflexão, estar errado. A nossa falibilidade acerca de nossos próprios estados mentais não é o único pro- blema para o fundacionismo cartesiano. Nos voltamos agora para um segundo problema. C2. Crença Sobre Estados Internos São Incomuns O fundacionismo cartesiano diz que toda a justificação parte das crenças básicas justificadas, crenças que são sobre os nossos próprios estados internos. Mas em circunstân- cias ordinárias nós não formamos crenças sobre os nossos estados internos. Quando olha ao redor da sala, via de regra você não crê em coisas tais como “Eu pareço estar vendo al- guma coisa com o formato de uma cadeira ali” e então infere “Há uma cadeira ali.” Você simplesmente crê “Há uma cadeira logo ali.” Considere também o exemplo com o qual nós começamos o capítulo. Nesse exemplo Careful acreditava que Filcher roubara uma pintura. O fundacionismo consideraria estar esta crença bem fundada somente se Careful tivesse baseado sua crença, em última instância, sobre seus próprios estados mentais atuais. Quase não é possível imaginar Careful fazendo isto. Ele poderia formar crenças sobre os sons e imagens diante de sua mente, inferir deles algumas coisas sobre a existência e a natureza de um crime e, então, em última instância, inferir que Filcher roubou a pintura. Mas esta seria uma cadeira de raciocínio complexa e tediosa. Dificilmente alguém alguma vez fez algo assim. Logo, o fundacionismo cartesiano parece estar sujeito à seguinte objeção: Argumento 4.2: O Argumento de que As Crenças Sobre Estados Internos são Raras 2-1. As pessoas raramente baseiam suas crenças sobre o mundo externo em crenças sobre seus próprios estados internos. 2-2. Se o fundacionismo cartesiano é verdadeiro, então as crenças sobre o mundo externo estão bem fundadas somente se elas estão baseadas em crenças sobre os próprios estados internos de uma pessoa. 2-3. Se o fundacionismo cartesiano é verdadeiro, então as pessoas raramente têm crenças bem-fundadas sobre o mundo externo. (2-1), (2-2) 2-4. Não é verdade que as pessoas apenas raramente têm crenças bem-fundadas so- bre o mundo externo. (A Perspectiva Standard) 2-5. O fundacionismo cartesiano não é verdadeiro. (2-3), (2-4) Este é um argumento perturbador para os fundacionistas cartesianos. A premissa (2-1) parece ser uma descrição acurada da maneira pela qual nós formamos crenças. A premissa (2-2) é uma conseqüência clara do fundacionismo cartesiano. A premissa (2-4) é uma conseqüência clara da Perspectiva Standard, que por enquanto nós estamos assumin- do como verdadeira. A conclusão se segue destas premissas. Os fundacionistas cartesianos podem defender seu ponto de vista somente se ele puderem encontrar uma maneira de re- jeitar uma destas premissas, e (2-1) parece ser o melhor candidato. Outras versões do fun- 13 dacionismo podem evitar a objeção propondo uma nova resposta para (QF1). Antes de nos voltarmos para aquelas teorias, será útil considerarmos se há qualquer razão plausível para rejeitar a premissa (2-1) deste argumento. O que é claramente verdadeiro, e o que é oferecido para sustentar a premissa (2-1), é a observação de que ao longo do dia nós não consideramos conscientemente proposição sobre os conteúdos de nossas mentes. Nós não formamos conscientemente pensamentos tais como “Eu estou agora parecendo ver alguma coisa com o formato de uma cadeira” ou “Eu estou agora parecendo ouvir alguma coisa como o som de um sino.” No entanto, há razões para pensar que em qualquer momento nós temos muito mais crenças do que aque- las que nós conscientemente consideramos nesse momento. Ao menos três categorias de tais crenças se apresentam. A primeira categoria consiste em crença que estão armazenadas na memória. Presumivelmente, você tinha um momento atrás crenças sobre o seu próprio nome, quem é o presidente, e assim por diante. Você não estava pensando sobre aquelas questões naquele momento. Assim, crenças armazenadas formam uma classe de crenças que existem sem serem consideradas conscientemente. Uma segunda possível categoria de crenças não-conscientes é a de crenças que aju- dam a explicar o comportamento. Suponha que você caminhe por uma sala e perceba que a luz não está ligada. Você quer ler, e assim caminha até o interruptor mais próximo e o a- ciona. Se perguntado sobre o seu comportamento, você pode dizer que queria ligar a luz e acreditava que o interruptor controlava a luz. Esta explicação parece boa, mesmo que você não tenha dito para si mesmo algo como “Este interruptor aciona esta luz.” Esta crença não precisa ter sido conscientemente formulada. Não obstante, você teve essa crença e ela jo- gou um papel em seu comportamento. Uma última possível categoria de crenças não-conscientes consiste em crenças que são inteiramente óbvias uma vez consideradas, mesmo que você nãotenha pensado sobre elas anteriormente. Suponha que alguém diga a você que George Washington nunca visi- tou a Disneylândia. Você pode nunca ter pensado sobre isso antes. Mas dificilmente isso soa como novidade para você. Dado tudo o mais que você sabe, isso é óbvio. Talvez isto sugeria que você já acreditava nisso, embora não de uma maneira consciente. Todos estes exemplos são difíceis, e eles levantam questões difíceis sobre o que é crer em alguma coisa. Resta ser visto é se eles podem ajudar os defensores do fundacio- nismo cartesiano. Um defensor deste aspecto do fundacionismo cartesiano, Timothy Mc- Grew, propôs que essas crenças sobre os nossos próprios estados conscientes constituem outra categoria de crenças não-conscientes. McGrew diz que “a consciência [awwareness] de estímulos visuais, táteis e auditivos é freqüentemente subconsciente, mas não como conseqüência irrelevante para a justificação de crenças empíricas.”14 A idéia dele parece ser que nós temos o como uma consciência subconsciente das características de nossas ex- periências, que portanto temos crenças subconscientes sobre estas características, e que es- tas são as crenças básicas que justificam as nossas crenças sobre o mundo externo. Se ele está certo sobre a existência destas crenças, então a premissa (2-1) do Argumento de que As Crenças Sobre Estados Internos são Raras é falsa. A posição de McGrew tem algum mérito. Existem, entretanto, razões para questio- ná-la. Para citar uma, haver a “consciência do estímulo” é diferente de se ter crenças sobre o estímulo. Dizer que nós estamos conscientes de certos estímulos é dizer que nós temos uma experiência consciente daqueles estímulos.. Logo, se você caminha por uma sala e vê uma cadeira, então você tem uma experiência perceptiva com certas características. Você está consciente de certos estímulos. Mas não se segue daí que você forma uma crença de que você está experimentando aqueles estímulos. Uma tal crença pareceria envolver um tipo de monitoramento das experiências de uma pessoa que nós não fazemos ordinariamen- te. Além do mais, nos exemplos de crenças não-conscientes antes mencionadas é ao menos tipicamente o caso que o crente reconhecerá as crenças se perguntado sobre elas. Mas as crenças de aparência não são absolutamente assim. É freqüentemente difícil fazer as pessoas pensarem em tais questões. Muitos estariam inclinados a dizer que não têm tais crenças senão em circunstâncias extraordinárias nas quais devem consideram a possibili- dade de alucinações, de ilusões perceptivas e coisas do gênero. Isto lança algumas dúvidas sobre a idéia de que as pessoas estejam, não obstante, rotineiramente formando crenças so- bre estas questões. Por fim, a descrição de McGrew torna a justificação dependente de detalhes de nos- sos sistemas psicológicos de uma maneira peculiar. Um exemplo ilustrará isto. Suponha que duas pessoas caminhem numa sala em que há uma cadeira claramente visível. Ambas olham em direção à cadeira e formam a crença de que a cadeira está presente. Por fim, su- ponha que uma delas forma a crença subconsciente de que ele parece ver uma cadeira, en- quanto que a outra pula esse passo e vai diretamente da experiência para a crença de que há uma cadeira ali. A proposta de McGrew aparentemente tem o resultado de que o primeiro 14 está justificado em crer que há uma cadeira ali, mas não o último. É difícil crer que esta diferença psicológica subconsciente possa fazer diferença para a justificação. Estas considerações não refutam definitivamente a sugestão de McGrew. As ques- tões dependem em parte das difíceis questões sobre a natureza de crença e da maneira co- mo nós processamos informação. Ainda assim, elas são significantes o suficiente para tor- nar razoável procurar por um versão melhor do fundacionismo. C3. A Dedução É Muito Restritiva A objeção final ao fundacionismo cartesiano é a mais decisiva. Ela concerne à (AF3), ao requisito de que crenças justificadas não-básicas sejam dedutíveis das crenças básicas. Suponha, para fins argumentativos, que hajam respostas satisfatórias para as obje- ções consideradas até aqui e que (AF1) e (AF2) estejam corretas. Logo, nós estamos assu- mindo para fins argumentativos que, por exemplo, quando você caminha por uma sala vo- cê tem um bom número de crenças justificadas sobre como as coisas parecem para você. Nós podemos acrescentar que você tem um bom estoque de crenças justificadas sobre as suas memórias de aparência e sobre outros aspectos de seus estados mentais correntes. Se as suas crenças sobre o mundo externo estão justificadas, dada (AF3), você deve estar apto a deduzir desta coleção de crenças básicas coisas tais como que há uma cadeira na sala, que as luzes estão ligadas, e assim por diante. Aplicando as mesmas considerações ao e- xemplo 4.1, se Careful está justificado em crer que Filcher roubou a pintura, então esta conclusão deve ser dedutível da combinação das crenças de aparência de Careful. No en- tanto, este requisito simplesmente não está satisfeito. Dizer que as proposições sobre o mundo externo podem ser deduzidas das proposi- ções de aparência é dizer que não é sequer possível para as proposições de aparência serem verdadeiras se as proposições sobre o mundo externo forem falsas. Desafortunadamente, é possível. É possível ter um sonho ou uma alucinação na qual você tem experiências exata- mente como aquelas que você tem quando entra no quarto. Careful poderia ter tido as ex- periências que ele teve como resultado de algum elaborado esquema pelo qual Filcher seria incriminado pelo crime. Em geral, nenhum conjunto de proposições garante logicamente quaisquer proposições sobre o mundo externo em particular. A condição da dedução de (AF3) é muito restritiva. D. Conclusões Sobre o Fundacionismo Cartesiano É claro que o fundacionismo cartesiano não é uma teoria satisfatória, dada a verda- de da Perspectiva Standard. Existem os seguintes problemas: 1. Crenças sobre os estados mentais próprios de uma pessoa não são imunes ao er- ro. Assim, se as crenças sobre eles são básicas, o que quer que as torne justificadas tem a ver com alguma outra coisa que não esta propriedade. Nós precisamos de uma explicação diferente daquilo que torna as crenças básicas justificadas. Assim, (AF2) precisa ser revi- sada. 2. Nem todas as crenças sobre os estados mentais próprios de uma pessoa são cren- ças básicas justificadas. Crenças sobre os estados mentais próprios de uma pessoa podem ser derivadas de outras crenças e, logo, não-básicas. Crenças sobre eles podem ser injusti- ficadas. 3. As coisas que o fundacionismo cartesiano conta como básicas são as coisas nas quais nós absolutamente não acreditamos em circunstâncias ordinárias. Parece que o ponto de partida das nossas crenças são as observações ordinárias do mundo e não a introspec- ção. Assim, (AF1) precisa ser revisada. (Naturalmente, este ponto é controverso.) 4. Muito do que nós conhecemos (de acordo com a Perspectiva Standard) não pode ser deduzido do que é básico. Isto é claramente verdadeiro se as nossas crenças básicas fo- rem crenças sobre os nossos próprios estados internos. Mas mesmo que nós tomemos juí- zos espontâneos sobre o mundo como sendo básicos, muito do que nós conhecemos vai além do que pode ser deduzido disso. Antes de examinarmos uma versão do fundacionismo que tenta fazer as mudanças que estes pontos sugerem, será útil considerar a outra abordagem à justificação que tem sido influente na história da filosofia, o coerentismo. IV. O COERENTISMO A. A Idéia Central do Coerentismo A idéia centraldas teorias coerentistas da justificação é que toda crença justificada é justificada em virtude de suas relações com outras crenças. Em outras palavras, não exis- tem crenças fundacionais ou básicas. Assim, os coerentistas rejeitam a premissa (1-4) do Argumento do Regresso Infinito, o passo do argumento do regresso que rejeita cadeias cir- culares de evidências. Isto não porque eles pensem que você pode justificar uma crença com outra, essa segunda por uma terceira, e então justificar a terceira pela primeira. Em vez disso, a idéia deles é que a justificação é uma questão mais sistemática e holística, que cada crença é justificada pela maneira como ela se encaixa no sistema inteiro de crenças. Logo, os coerentistas endossam as duas seguintes idéias centrais: C1. Apenas crenças podem justificar outras crenças. Nada além de uma crença po- de contribuir para a justificação. C2. Cada crença justificada depende em parte de outras crenças para a sua justifica- ção. (Não há crenças justificadas básicas.) 15 Os coerentistas pensam que uma crença está justificada quando ela coere com, ou se encaixa bem com, as outras crenças de uma pessoa. Esta idéia tem uma considerável força intuitiva, como é destacado pelos seguintes exemplos. Exemplo 4.9: O Cabelo Que Cresce Harry tem geralmente uma atitude muito prática no que concerne à efetividade de medicamentos. Ele sempre quer ver a evidência antes de acreditar que eles funcionam. Ele rejeita alegações despropositadas baseadas em testemunhos individuais. Ele sensatamente duvida das alegadas curas milagrosas alardeadas nos anúncios. Mas Harry está começando a perder seu cabelo e está muito chateado com isto. Certo dia ele ouve alguém dizer que Miraclegro cura a calvície, e acredita nisso. Deve parecer a você que a crença de Harry de que 6. Miraclegro cura a calvície não está justificada. E o que é particularmente notável é que a crença é muito in- congruente para Harry. Você poderia dizer que ele deveria pensar melhor [know better] ao invés de crer numa tal coisa. E, de fato, ele pensa melhor, pois seus próprios princípios di- zem a ele para não crer (6) nestas circunstâncias. Os coerentistas concordariam. Eles diri- am que esta crença é incoerente para ele – ela não se encaixa co as outras crenças dele. Harry aceita algo como P. Um tratamento médico é efetivo somente se existe boa evidência clínica mos- trando que ele é efetivo, e não há boa evidência clínica de que Miraclegro seja efetivo. Ainda assim, Harry crê (6) na ausência da evidência necessária. Podemos ver um tipo de incoerência em seu sistema. A crença sobre Miraclegro se destaca como a crença “ruim” de seu sistema. O exemplo 4.9 ilustra uma maneira pela qual uma crença pode fracassar em coerir com as outras crenças de uma pessoa. Ela é uma crença individual que viola os próprios princípios gerais do crente. Outro exemplo ilustra outra maneira pela qual uma crença pode fracassar em coerir. Exemplo 4.10: Os Galhos Que Caem da Árvore A família de Storm possui dois carros – um mais novo e uma lata velha. Todas as noites os carros ficam estacionados na rua. Uma noite ocorre uma forte tempestade de neve e uma grande quantidade de neve se forma sobre os galhos das árvores, fazendo com que os ramos se quebrem e caiam. Há uma árvore que se estende sobre a rua. Storm ouve o som de um ramo batendo num carro na rua. Storm acredita que o ramo deve ter atingido a lata velha. O exemplo 4.10 é semelhante ao exemplo 4.9 já que algum tipo de pensamento po- sitivo está envolvido. No entanto, no exemplo 4.10 Storm pode não estar violando qualquer princípio geral que ele aceite. A menos que ele tenha outras crenças sobre a localização específica do cardo e o som do ramo, sua crença sobre o carro é simplesmente jogada den- tro do sistema sem qualquer coisa para sustentá-la. Nós podemos dizer que no exemplo 4.10 a crença de Storm carece de coerência positiva. Não há um apoio positivo para ela no sistema. Em contraste, no exemplo 4.9 a crença de Harry tinha uma coerência negativa: ela estava em conflito com o restante do sistema. Para uma crença ser justificada, de acordo com o coerentismo, ela não deve ser como nenhum destes casos. No entanto, estas conside- 15 rações não conduzem a uma descrição precisa do que seja a coerência. Nada dito até aqui se constitui numa explicação clara de que tipo de conflito com outras crenças exclui a coe- rência nem de que tipo de sustentação interna é necessário para a coerência. Além do mais, como ficará claro na próxima seção, há uma questão importante sobre exatamente com o que é que uma crença deve coerir a fim de estar justificada de acordo com os standards coerentistas. Uma formulação inicial do coerentismo, então, é a seguinte: TC. S está justificado em crer p sse p coere com o sistema de crenças de S. Para desenvolver uma teoria coerentista razoavelmente precisa, os coerentistas de- vem tratar de duas questões QC1. O que conta como o sistema de crenças de S? QC2. O que é para uma crença coerir com o sistema de crenças? Para ver a força destas questões, suponha que os coerentistas façam duas suposi- ções: S1. O sistema de crenças de S = tudo que S crê. S2. Uma proposição coere com um sistema de crenças desde que ela se siga logi- camente da conjunção de tudo que está no sistema. A aplicação de (S1) e (S2) à (TC) produz a seguinte teoria coerentista: TC1. S está justificada em crer p sse p se segue logicamente da conjunção de tudo que S crê. Um momento de reflexão revela que (TC1) tem a conseqüência absurda de que qualquer coisa em que qualquer um acredita está justificado. O argumento para isto é sim- ples. Suponha que S creia p. A conjunção de tudo o que S acredita era então ser uma longa conjunção, um conjunto que tem o próprio p como um de seus elementos. Uma lei da lógi- ca simples é que uma conjunção implica cada um dos elementos da conjunção. Logo, se S crê p, q, r, s, e assim por diante, então a conjunção de tudo em que S acredita será a longa proposição “p e q e r e s ...” Trivialmente, esta conjunção implica p. De acordo com (TC1), se segue que a crença de S de que p está justificada, não importando o que seja p e não im- portando o quão bem ela se encaixe com o restante das crenças de S. De acordo com esta teoria, então, as crenças de Harry no exemplo 4.9 e de Storm no exemplo 4.10 estão justifi- cadas. Isto é exatamente o que o coerentismo supostamente iria evitar. Os coerentistas pre- cisam de alguma coisa melhor do que (CT1). Ao tentar desenvolver uma versão melhor do coerentismo, é importante manter em mente o seguinte ponto. Suponha, para fins argumentativos, que nós tenhamos um enten- dimento razoavelmente claro da idéia de um sistema coerente de crenças. Usando esta idéi- a, nós podemos formular a seguinte proposta: TC2. S está justificado em crer p sse o sistema de crenças de S é coerente e inclui uma crença em p. A idéia por trás da (TC2) é que crenças justificadas são crenças que compõem sis- temas coerentes e crenças injustificadas são componentes de sistemas que não são coeren- tes. Dada uma idéia razoavelmente clara do que é a coerência, (TC2) seria uma proposta razoavelmente clara. No entanto, (TC2) não é nem um pouco plausível. Pode haver alguma coisa desejá- vel em se ter sistemas coerentes de crenças. No entanto, pouco de nós alcançam isto. Todos nós cometemos alguns enganos, sucumbimos ao pensamento positivo, fracassamosem compreender as conseqüências de nossas crenças. Existem, em todos os casos realistas, al- gumas crenças que tornam nossos sistemas incoerentes ao menos em algum grau. De acor- do com (TC2), se esse é o caso, então nenhum de nós jamais está justificado em coisa al- guma. Considere a sua crença de que você existe. Mesmo que você esteja cometendo al- guns grandes enganos em outras questões, isto é algo em que você está justificado em crer. De acordo com (TC2), essa crença está justificada somente se você acredita que você exis- te e o seu sistema de crenças é coerente. Como notado, se você se parece com um ser hu- mano normal no que diz respeito às suas crenças, então o seu sistema de crenças não é coe- rente. Por isso, de acordo com (TC2) a sua crença de que você existe não está justificada. O problema com (TC2) pode ser colocado de uma maneira mais geral. Ela diz que todas as crenças de um sistema coerente estão justificadas e todas as crenças de um sistema não-coerente não estão justificadas. Qualquer sistema de crenças individual ou é coerente ou não é coerente. Assim a teoria implica que, para cada indivíduo, ou todas as suas cren- ças estão justificadas ou nenhuma delas está justificada. Uma vez que, de fato, qualquer pessoa real fica aquém de um sistema coerente, a teoria implica em que nenhuma pessoa real tenha qualquer crença justificada. No entanto, a verdade sobre cada um de nós não é tão extrema. Cada um de nós tem algumas crenças justificadas e algumas crenças injustifi- cadas. (TC2) não pode dar conta deste simples fato. Uma versão do coerentismo precisa ser mais seletiva do que o é (TC2) a fim de ter sucesso. Dizer que o grau em que uma crença está justificada depende do nível de coerência do sistema inteiro do crente não irá resolver o problema. Suponha que o seu sistema de crença seja, como um todo, moderadamente coerente. A presente proposta produziria o re- sultado de todas as suas crenças também estão moderadamente justificadas. Isto fracassa em distinguir apropriadamente entre a suas crenças bem-justificadas e as suas especulações desenfreadas. É claro, então, que os coerentistas precisam de novas e melhores respostas para (QC1) e (QC2). De alguma forma, o coerentismo tem de ser formulado de uma maneira que o habilite a identificar algumas crenças como justificadas e algumas como injustifica- das. B. Uma Versão do Coerentismo A coerência, o que quer que seja ela exatamente, é uma propriedade que um siste- ma de crenças pode ter num maior ou menor grau. Um sistema de crenças pode ser mais coerente do que outro. Os filósofos têm proposto várias coisas que aumentam ou diminuem a coerência. 16 É mais fácil compreender estas idéias considerando sistemas de crenças que são muito semelhantes, com apenas algumas diferenças introduzidas para realçar os fatores que afetam a coerência. Por exemplo, suponha duas pessoas, cada uma das quais creia nu- ma grande número de proposições – p, q, r, e assim por diante. Vamos supor que não exis- tam conflitos lógicos entre as proposições em que estas pessoas acreditam. Isto é, é ao me- nos possível que todas as suas crenças sejam verdadeiras. E então suponha que uma das pessoas forma a crença de que p é falsa, e a pessoa simplesmente acrescente essa crença em seu sistema. Agora há uma contradição no sistema de crenças. Ela inclui tanto a crença em p quanto a crença em p. Estas não podem ser ambas verdadeiras. Agora o sistema contém uma inconsistência. E isto o torna menos coerente. As inconsistências não preci- sam se tão óbvias quanto a recém descrita. Uma pessoa poderia crer em várias proposições e fracassar em compreender que elas implicam a negação de uma outra proposição em que ela acredita. Este sistema também é inconsistente, embora a inconsistência não seja tão os- tensiva. Em qualquer caso, a inconsistência diminui a coerência. Uma coisa que aumenta a coerência de um sistema é o fato de que ele contenha crenças que se constituam em explicações de outras crenças do sistema. Suponha que o jardineiro #1 creia que todas as plantas de seu jardim estejam murchas e que não chove há muito tempo. Suponha que o jardineiro #2 creia nestas coisas e também creia que as plan- tas murcham quando não recebem água por muito tempo. (Talvez o jardineiro #2 também creia que a chuva proporciona água para as plantas.) O jardineiro #2 tem um sistema de crenças mais rico e desenvolvido. A riqueza vem em parte da forma como ele articula em conjunto crenças que estão isoladas uma da outra no sistema de crenças do jardineiro #1. Haver este tipo de conexões é freqüentemente pensado aumentar a coerência de um siste- ma de crenças. Talvez ter crenças individuais que conflitem com os princípios gerais de uma pes- soa também diminua o valor da coerência do sistema de crenças da pessoa. Nós diremos que fatores tais como estes determinam o valor da coerência de um sistema de crenças. Isto não constitui uma descrição completa dos valores da coerência, mas proporciona alguma explicação da idéia. Os coerentistas podem fazer uso dos valores da coerência de um sistema de crenças para formular uma versão do coerentismo que con- torne as dificuldades iniciais cobertas na seção anterior. 17 Nós podemos formular a teoria desta maneira: TC3. S está justificado em crer p sse o valor da coerência do sistema de crenças de S seria maior se ele incluísse a crença em p do que se não incluísse essa crença. As implicações pretendidas de (TC3) podem ser mais bem vistas considerando duas situações, uma na qual a pessoa já acredita na proposição e uma na qual a pessoa não acre- dita nela. Se a pessoa crê na proposição, então o valor de coerência do sistema tal como ele 16 17 é atualmente pode ser comparado o seu valor da coerência obtido com a remoção da crença do sistema. Se a remoção da crença diminui o valor de coerência do sistema, então a crença nessa proposição está justificada. Se a pessoa ainda não crê na proposição, então o valor da coerência do sistema atual pode ser comparado com o valor do sistema que seria formado se a crença fosse acrescentada. (TC3) diz que quando a versão do sistema coma crença tem um valor mais alto do que a versão sem ela, então a crença está justificada. De acordo com (TC3), nós diremos que uma crença coere com um sistema de crenças quando ela aumenta o valor da coerência desse sistema. Logo, (TC3) preserva a idéia de que uma crença está justificada quando ela coere com o sistema de crenças de uma pessoa. (Tc3) pode lidar razoavelmente bem com os exemplo 4.9 e 4.10. No exemplo 4.9, Harry tinha uma crença geral sobre os tratamentos efetivos e uma crença específica sobre Miraclegro que não se encaixavam bem. Intuitivamente, a crença sobre Miraclegro era o bandido. É plausível sustentar que o sistema de crenças de Harry seria mais coerente se essa crença fosse descartada. Assim, (TC3) dá o resultado correto de que ela não está justi- ficada. NO exemplo 4.10, Storm tem uma crença que está desconectada de suas outras crenças. Assim, talvez seu sistema ganhasse em coerência ao descartá-la. Mais uma vez, (TC3) parece ter os resultados corretos neste caso. Existem, entretanto, detalhes incômodos que necessitam ser desenvolvidos por (TC3). Considere mais uma vez Harry no exemplo 4.9. Harry tem uma crença injustifica- da em (6), a proposição de que Miraclegro cura a calvície. Intuitivamente, nós julgamos que seu sistema de crenças seria mais coerente se ele descartasse esta crença. (TC3) avalia a justificação olhando parao que aconteceria com o valor da coerência do sistema se só esta crença fosse descartada. O problema com isto é que Harry pode muito bem crer em numerosas outras proposições que estão conectadas com (6) de maneiras cruciais. Por e- xemplo, se ele tivesse acabado de comprar um pouco de Miraclegro, então ele poderia crer 7. Eu acabo de comprar alguma coisa que cura a calvície. Se nós avaliarmos a justificação de (6) olhando para ver o que acontece com o sis- tema se apenas ela for descartada, então nós avaliaremos o valor da coerência do sistema de Harry no caso dele parar de crer (6) mas continuar a crer (7). Ele pode também acreditar em muitas outras proposições estreitamente relacionadas com (6). Por exemplo, ele pode acreditar 8. Miraclegro cura a calvície mas a tinta spray não a cura. Seu sistema pode perder coerência se ele continuar a acreditar coisas como (7) e (8) mas descartar (6). Devido às suas conexões com outras crenças, então, descartar apenas (6) pode diminuir a coerência, ainda que crer (6) não seja justificado. Por isso, não é claro que (TC3) de fato lide apropriadamente com este exemplo. O fato de que qualquer crença, mesmo que ela não seja justificada, possa ainda assim ter conexões lógicas com muitas ou- tras crenças, coloca um difícil problema para os coerentistas. Não é claro como revisar o coerentismo para evitar este problema. Há um outro problema que os advogados da (TC3) devem enfrentar. Considere a crença justificada de Harry em (P), a proposição que diz que tratamentos não funcionam sem evidência clínica de sua efetividade e que não há evidência efetividade de Miraclegro (para a calvície). Os coerentistas dizem que o sistema de Harry seria mais coerente se ele descartasse (6) de seu sistema. Ignore o problema recém discutido e suponha que isto seja verdade. No entanto, também é verdade que ele poderia ganhar alguma coerência descar- tando (P) de seu sistema. Isto porque (P) também contribui para a incoerência revelada por seu sistema. Por isso, (TC3) implica que sua crença no princípio também não está justifi- cada. De modo geral, quando o sistema corrente de uma pessoa é incoerente porque duas crenças estão em conflito, há um aumento na coerência pelo descarte de qualquer uma de- las. A teoria parece implicar que nenhuma delas está justificada. Ainda assim, isso não precisa ser o caso, como o exemplo 4.9 ilustra. Uma melhor versão do coerentismo abrirá de alguma forma a possibilidade de que uma das crenças conflitantes, ou um grupo de gru- pos conflitantes de crenças, esteja justificado. Talvez os coerentistas possam apresentar alguma maneira de lidar com este problema. Os dois problemas recém discutidos seguramente não mostram que o coerentismo está errado. Eles apenas mostram que existem problemas difíceis para os coerentistas re- solverem. Talvez eles possam resolvê-los especificando de uma maneira melhor o sistema de crenças com o qual uma crença deve ser coerente a fim de estar justificada. Por exem- plo, em alguns dos exemplos uma característica chave é que uma crença é sustentada mais como um tipo de pensamento positivo do que como um esforço para alcançar a verdade. Os coerentistas poderiam definir a justificação em termos de coerência com este subsiste- ma direcionado-para-a-verdade. 18 Possivelmente alguma de tais descrições evitará os pro- blemas considerados até aqui. Existem algumas outras objeções ao coerentismo que pretendem ir ao coração da teoria. Alguns críticos argumentam que a idéia coerentista central está errada. Eles argu- mentam que a justificação não é inteiramente uma questão de como as nossas crenças se articulam conjuntamente. Nos voltamos a seguir para duas objeções que tentam capitalizar este ponto. C. Objeções ao Coerentismo C1. A Objeção dos Sistemas Alternativos Eis aqui o enunciado de uma objeção ao coerentismo comumente expressa: De acordo com a teoria da coerência da justificação empírica (...) o sis- tema de crenças que constitui o conhecimento empírico está epistemicamente justificado somente em virtude de sua coerência interna. Mas um tal apelo à coe- rência não irá jamais sequer começar a selecionar um único sistema de crenças justificadas já que, em qualquer concepção plausível da coerência, haverão inú- meros, provavelmente infinitos, sistemas de crenças diferentes e incompatíveis que são igualmente coerentes. 19 Eis aqui uma maneira de descrever esta objeção. 20 Considere a objeção de que A- braham Lincoln foi assassinado. Se, como os críticos argumentam, existem muitos siste- mas de crenças diferentes e incompatíveis, haverá alguns sistemas que incluem esta crença e outros que incluem e a sua negação. Se essa crença é parte de seu atual sistema, você po- de imaginar um sistema que substitua tudo o que a sustenta ou o que se segue dela por pro- posições diferentes. Ao construir cuidadosamente o novo sistema, você poderia chegar a um sistema tão coerente quanto o é o seu sistema corrente. Logo, se existem todos estes diferentes sistemas coerentes, então você pode fazer qualquer crença que você queira estar justificada simplesmente por selecionar apropriadamente o restante de suas crenças. Isso não pode estar certo. Eis aqui um enunciado mais formal do argumeto: Argumento 4.3: O Argumento dos Sistemas Alternativos 18 19 20 3-1. Se a (TC) é verdadeira, então uma crença está justificada sse ela coere com o sistema de crenças do crente. 3-2. Uma pessoa pode fazer qualquer crença selecionada coerir com seu sistema de crenças ao ajustar apropriadamente o restante do sistema para fazê-la se encaixar nele. 3-3. Se a (TC) é verdadeira, então uma pessoa pode tornar justificada qualquer crença selecionada ao ajustar apropriadamente o restante de suas crenças. (3-1), (3-2) 3-4. Mas não é o caso que se pode tornar justificada qualquer crença selecionada ao ajustar-se o restante das crenças. 3-5. A (TC) não é verdadeira. (3-3), (3-4) Há boas razões para duvidar que esta seja uma boa objeção ao coerentismo. 21 Um problema com este argumento é que (3-2) é falsa. As pessoas simplesmente não têm tanto controle sobre suas crenças. Mas este não é o maior problema com o argumento. Considere mais uma vez a crença sobre Lincoln com a qual começou esta subseção. Os coerentistas não estão comprometidos com a absurda conclusão de que você já está jus- tificado em crer tanto que Lincoln foi assassinado quanto que ele não o foi. Nem estão comprometidos com a idéia de que você tem o poder de ajustar as suas crenças para cons- truir um sistema coerente em torno de cada uma destas opções. Os coerentistas não estão empacados com a alegação implausível de que nós podemos formar nossas crenças à von- tade. Eles estão comprometidos com a idéia de que alguém poderia ter a crença de que Lincoln foi assassinado, e de que esta crença poderia ser coerente com seu sistema de cren- ças, e de que, portanto, esta crença poderia estar justificada. Eles também estão comprome- tidos com a conclusão de que uma pessoa poderia ter a crença de que Lincoln não foi as- sassinado, de que esta crença poderia também ser coerente com um sistema diferente que ele tivesse, e de que, portanto, sua crença também poderia estar justificada. Longe de se falsa, entretanto, esta conclusão parece perfeitamente correta. Crenças conflitantes, em sis- temas alternativos, podem estar justificadas. As pessoas que têm diferentes experiências e que aprenderam coisas diferentes poderiam crer justificadamente em coisas muito diferen- tes. Pode haver algumas pessoas que tenham aprendido coisas incomunse que, como resul- tado, têm uma crença justificada de que Lincoln não foi assassinado. Não há uma boa ob- jeção ao coerentismo aqui. 21 O Argumento dos Sistemas Alternativos é suposta estar trabalhando sobre a idéia de que o coerentismo de alguma forma está empacado com o resultado de que sistemas alter- nativos de crenças podem estar justificados, sem bases coerentistas para escolher entre e- les. Pode acontecer, entretanto, que este compromisso não seja implausível. Seguramente pessoas em circunstâncias diferentes podem ter sistemas de crenças inteiramente diferentes e completamente justificados que diferem grandemente um do outro. Por exemplo, uma pessoa vivendo na Idade Média poderia ter um conjunto de crenças coerente e completa- mente justificado radicalmente diferente de sua contrapartida moderna. A idéia por detrás desta objeção ao coerentismo está equivocada. 22 C2. A Objeção do Isolamento Como nós temos visto, a idéia chave do coerentismo é a de que se uma crença está justificada, isto depende somente das outras crenças do crente. Se somente as crenças justi- ficam, então a experiência não tem importância. E isso não está certo. Reconsidere o e- xemplo 4.1, no qual Hasty acredita que Filcher seja culpado simplesmente por não gostar dele. Se somente as outras crenças de Hasty tivessem importância, então, de acordo com o coerentismo, esta crença estaria justificada se ele, ao invés de apenas crer que Filcher seja o culpado, também acreditasse numa história mais longa sobre ele. De forma semelhante, no exemplo 4.10 Storm ouve galhos de árvore caindo sobre o carro. Suponha que o pensa- mento positivo dele o fizesse acrescentar crenças no sentido de que o som de coisas que- bradas fosse do tipo que apenas um carro velho iria produzir, de que o carro velho estava bem embaixo de um galho, etc. A menos que haja algum input no sistema que justifique estas outras crenças, ele não está justificado em sua crença. Meramente inventar uma histó- ria mais longa não irá conduzir à justificação. Ele precisa de alguma forma dar conta dos “dados da experiência.” O coerentismo parece omitir isto. Outros exemplos tornam o ponto mais agudo, embora haja um ar de irrealidade em torno deles. Há casos nos quais as crenças de uma pessoa estão desligadas da realidade, em que elas não estão conectadas com a sua experiência do mundo. Considere o seguinte e- xemplo: Exemplo 4.11: O Estranho Caso de Magic Feldman 22 O professor Feldman é um professor de filosofia baixinho entusiasmado por bas- quete. Magic Johnson (MJ) foi um fantástico jogador profissional de basquete. Nós pode- mos supor que, enquanto jogava um jogo, MJ tinha um sistema de crenças coerente com- pleto. Magic Feldman (MF) é um personagem possível, embora inusual, que é uma combi- nação do professor e do jogador de basquete. MF tem uma imaginação notável, tão notável que, enquanto ele dá aulas de filosofia, pensa estar jogando basquete. De fato, ele tem exa- tamente as crenças que MJ tem. Uma vez que o sistema de crenças de MJ era coerente, o sistema de crença de Mf também é coerente. De acordo com o coerentismo, as crenças de MF estão justificadas porque elas for- ma um sistema coerente. No entanto, suas crenças estão radicalmente desligadas da reali- dade. Não é que elas simplesmente sejam falsas. Ainda pior, elas não levam em considera- ção nem mesmo a natureza de suas próprias experiências. Suas experiências – o que ele vê e sente – são as experiências de um professor. Suas crenças são as de uma pessoa numa situação inteiramente diferente. Longe de estarem justificadas, elas são uma fantasia ab- surda. Este argumento pode ser formulado como segue: Argumento 4.4: O Argumento do Isolamento 4-1. Se a (TC) é verdadeira, então em todos os casos possíveis uma crença está jus- tificada sse ele coere com o sistema de crenças do crente. [Definição de coerentismo] 4-2. Sistema de crenças de MF = sistema de crenças de MJ. [Suposição do exem- plo] 4-3. A crença de MJ de que ele está jogando basquete coere com o seu sistema de crenças. [Suposição do exemplo] 4-4. A crença de MF de que ele está jogando basquete coere com o seu sistema de crenças. (4-2), (4-3) 4-5. Se a (TC) é verdadeira, então a crença de MF de que ele está jogando basquete está justificada. 94-1), (4-4) 4-6. Mas a crença de MF não está justificada. [Suposição do exemplo] 4-7. A (TC) não é verdadeira. (4-5), (4-6) Há uma outra maneira de destacar o mesmo ponto. Se somente outras crenças po- dem justificar uma crença, então, já que MF e MJ têm as mesmas crenças, MJ não tem coi- sa alguma para justificar suas crenças que MF também não tenha. Assim, MJ não pode es- tar mais bem justificado do que MF. Mas ele está. A razão para isto é que parte do que de- termina o que está justificado é o caráter da experiência de uma pessoa. Os coerentistas podem responder que MF não é possível. Dever ser concedido que o exemplo é muito inusual. Ainda assim, é suficiente para destacar um ponto importante acerca do coerentismo: ele omite de sua descrição da justificação uma coisa que parece ab- solutamente central: a experiência de uma pessoa. Além do mais, os críticos não precisam recorrer a exemplos bizarros como o de MF a fim de destacar o ponto. Exemplo 4.12: O Experimento Psicológico Lefty e Righty estão num experimento psicológico. Eles são pessoas extremamente semelhantes, com todas as mesmas crenças relevantes. O experimento é um no qual eles olham uma imagem num monitor e formam crenças sobre o que eles vêem. É-lhes dito que eles irão ver duas linhas no monitor e formarão uma crença sobre qual é a mais comprida. Ambos são levados a crer que a linha da direita é a mais comprida. As linhas aparecem en- tão nos monitores e ambos crêem que a linha da direita é a mais comprida. No entanto, as expectativas estão jogando um papel. De fato, para um dele, Lefty, a linha da esquerda é que é a mais comprida, e ela parece assim. Lefty simplesmente ignora o caráter da sua ex- periência e forma sua crença inteiramente com base no que ele foi levado a crer. Os críticos argumentam que como a linha se parece faz alguma diferença para o que está justificado para Lefty. Lefty pensa que a linha da direita é a mais comprida, mas ele não presta atenção para como a linha de fato se parece, ainda que a informação esteja bem ali diante de sua mente. O coerentismo implica em que ele esteja justificado em crer que a linha da direita é a mais comprida uma vez que essa crença está sustentada por suas crenças anterior e ele não tem outras crenças que a anulem. Ainda assim, Lefty tem a evi- dencia experimental – a maneira como a linha se parece – que conta contra esta crença. O coerentismo deixa isto inapropriadamente fora do cenário. Ele diz que somente importa aquilo em que Lefty acredita. Ele dá uma descrição incorreta deste exemplo mais realista. Alguns defensores do coerentismo podem responder que as crenças de uma pessoa devem se conformar às suas experiências. Se for assim, então os exemplos 4.11 e 4.12 não são nem mesmo possíveis. No entanto, se esse é o caso, então ocorre que um elemento fundamental do fundacionismo está afinal de contas correto – estas crenças sobre a experi- ência parecem ser em algum sentido “infalíveis” ou “incorrigíveis.” Nós temos de estar certos sobre elas. Assim, se você rejeita este argumento contra o coerentismo nestas bases, você parece estar apelando para uma idéia fundacionista. Isto sugere que seria uma boa idéia reconsiderar o fundacionismo num esforço para chegar a umaversão que evite as dificuldades do fundacionismo cartesiano. D. Conclusões Sobre o Coerentismo 1. A idéia central do coerentismo pode ser dada em duas alegações caracteristica- mente coerentistas: A1. Somente crenças podem justificar outras crenças. Nada além de uma crença pode contribuir para a justificação. A2. Toda crença justificada depende em parte de outras crenças para a sua justifi- cação. (Não existem crenças justificadas básicas.) 2. Nós ainda não encontramos uma maneira adequada de formular a teoria coeren- tista. Entre os problemas para os coerentistas estão estes: (a) distinguir sensatamente entre as crenças efetivas para caracterizar algumas como justificadas e algumas como injustifi- cadas; (b) dizer o que é efetivamente a coerência. 3. Muitos críticos pensam que (A1) tenha sido refutada pelo Argumento do Isola- mento. Esse argumento mostra que a experiência tem importância para a justificação. FELDMAN, Richard. Epistemology. Upper Saddle River, NJ: Prentice-Hall, 2004. TEORIAS NÃO-EVIDENCIALISTAS DO CONHECIMENTO E DA JUSTIFICAÇÃO As teorias discutidas no Capítulo 4 dão conta da justificação considerando a idéia evidencialista de que a justificação é um problema de ajustar uma crença com uma evidência. Embora nenhuma objeção decisiva ao evidencialismo tenha surgido em nossa discussão, muitos epistemologistas contemporâneos rejeitam essa visão. Ninguém nega que, freqüentemente, a evidência é importante à justificação e nenhum epistemólogo dotado de sensibilidade instaria as pessoas a desconsiderar suas evidências quando forem formar crenças. Ao contrário, eles pensam que fazer a crença ajustar-se à evidência é somente parte da história. A história toda, pensam eles, inclui considerações sobre o processo que inicia e sustenta as crenças. Quatro teorias desse gênero serão examinadas neste capítulo1. I. A TEORIA CAUSAL A. Idéia Principal O primeiro substituto proposto para o TAK é a teoria causal do conhecimento. Alvin Goldman foi um dos primeiros proponentes dessa visão2. A fim de examinar a idéia, pense primeiramente em qualquer dispositivo que receba e processe informações sobre o seu entorno. Dispositivos familiares tais como termômetros e barômetros servem de exemplo. A temperatura envolvendo o termômetro e a pressão do ar em torno do barômetro deixam os dispositivos de medição em estados ou condições particulares. Às vezes, dizemos metaforicamente que o termômetro “sabe” que temperatura está fazendo. De certa forma, nós agimos como termômetros. Quando estamos na presença de um objeto vermelho com nossos olhos abertos e luz suficientemente disponível, vemos um objeto vermelho e cremos que há algo vermelho diante de nós. Há um processo causal iniciando com a luz refletindo do objeto vermelho até os nossos olhos, passando por nosso sistema perceptivo [perceptual] e culminando na crença de que há um objeto vermelho em nossa presença. A idéia principal da teoria causal constitui-se em que quando um fato no mundo conduz a crença nesse fato, trata-se de um caso de conhecimento. Quando uma pessoa possui uma crença que não está causalmente conectada com o fato associado, não há conhecimento. Esta idéia central necessita elaboração e clarificação, mas ela verdadeiramente parece ter alguma plausibilidade inicial. Podemos primeiramente formular a idéia do seguinte modo: C. S sabe que p se a crença de S em p é causada pelo fato de p. 1 Uma outra teoria desse tipo, a teoria das alternativas relevantes, será discutida no fim do Capítulo 7. 2 Alvin Goldman, “A Causal Theory of Knowing”, Journal of Philosophy 64 (1967): 357-72. Veja também David Armstrong, Belief, Truth and Knowledge (London: Cambridge University Press, 1973). Capítulo Cinco A teoria causal preserva a implicação de TAK de que o conhecimento requer crença verdadeira. Suponha que você crê que p, mas essa crença é falsa. Se p não é verdadeiro, então não há o fato p e logo não poderia ser que o fato p tenha causado sua crença em p. E se você não crê que p, então, obviamente, não é o caso que o fato p causa sua crença em p. Dessa forma, as condições de verdade e crença são mantidas por essa teoria. Mas a condição de justificação é substituída pela necessidade de conexão causal. Goldman conclui o ensaio em que ele defende esta teoria dizendo que ela “voa no rosto de uma bem estabelecida tradição na epistemologia, a visão de que questões epistemológicas são questões de lógica ou justificação, e não questões causais ou genéticas”3. Sua idéia, portanto, é a de que se você possui conhecimento isso não depende no que sejam as suas razões, mas sim em qual é a causa de sua crença. Assim, um aspecto chave da teoria constitui no fato que ela elimina a condição de justificação de TAK e a quarta condição designada em lidar com os exemplos de Gettier e as substitui pela condição da conexão causal. Conforme examinamos essa teoria, procuraremos verificar se esta substituição é uma boa idéia. Para constatar os méritos da teoria causal, observemos o quão bem ela lida com exemplos comuns. Consideremos, primeiramente, alguns casos em que uma pessoa possui uma crença verdadeira que não é conhecimento. Suponha que você tenha que sair da cidade no dia em que foi marcado um picnic. Na hora do picnic, sem ter escutado qualquer notícia sobre o tempo em sua cidade, você forma a crença de que está chovendo. Você tem essa crença somente como o resultado de sua disposição mesquinha: não quer que outros tenham um bom momento que você deverá faltar. E suponha que aconteça de você estar certo. Nesse caso, você possui uma crença verdadeira de que está chovendo em sua cidade, mas falta-lhe o conhecimento. E, exatamente como a teoria causal teria sustentado, não há conexão causal entre o fato de que está chovendo e sua crença. Logo, a teoria causal responde a esse caso de forma perfeitamente correta. Por outro lado, se você acreditou que estava chovendo porque seus amigos ligaram para você e lhe disseram que estava chovendo, e eles viram a chuva, então haveria uma conexão causal partindo da chuva, passando por seus amigos, e chegando até você. Assim sendo, você teria conhecimento. Ainda, a teoria responderia de forma igualmente correta ao caso. E, claro, se você mesmo vira a chuva, haveria uma conexão causal e você teria conhecimento. Esses simples casos parecem funcionar muito bem. Mesmo alguns casos mais complicados funcionam bem com a teoria causal. Considere os casos de Gettier, tais como o Exemplo 3.3, no qual Smith crê que há uma ovelha no campo. A crença de Smith é verdadeira, mas a presença da ovelha não contribui causalmente a essa crença. A crença remonta ao cachorro (no exemplo, Smith poderia confundir a ovelha com algo que lembra uma ovelha, tal como um cachorro ou uma estátua...). Assim, parece que a teoria causal considera apropriadamente isso também. B. Desenvolvendo a Teoria Causal: Teoria de Goldman Para analisar os méritos e os problemas da teoria causal, é melhor examinar uma versão específica dela. Abaixo está o que Goldman propôs4: C*. S sabe que p se e somente se o fato p está causalmente conectado de forma apropriada com a crença em p de S. 3 “A Causal Theory of Knowing”, p. 372. 4 “A Causal Theory of Knowing”, p. 369. Há exemplos ingênuos, mas convincentes, que deixam claro por que Goldman inclui a necessidade da crença e do fato estarem conectados “de forma apropriada”. Isto pode ser mais bem visto considerando o seguinte exemplo envolvendo uma conexão inapropriada. Exemplo 5.1: A batida na cabeçaGerald caiu da escada e bateu a cabeça. A batida na sua cabeça abalou seu cérebro de tal maneira que ele passou a formar uma variedade de crenças estranhas. Entre outras coisas, ele crê que comer alface causa obesidade, que o Chicago Cubs ganhará o campeonato mundial e que ele recém caiu da escada. De fato, ele não possui lembrança da sensação de ter caído. Esta crença, como cada uma das outras duas mencionadas, constitui simplesmente um resultado direto da batida na cabeça. Neste exemplo, Gerald crê 1. Eu, Gerald, recém caí da escada. Gerald crê que (1), e há uma conexão causal entre o fato que (1) e a crença de Gerald que (1). Ainda, claramente, Gerald não sabe que (1) se ele chega a essa crença dessa forma. De algum jeito, como acontece nos casos de Gettier, ele acabou, afortunadamente (em um certo sentido), chegando a uma crença verdadeira. Goldman diz que embora haja uma conexão causal entre o fato e a crença nesse exemplo, a conexão nesse tipo de caso não é uma conexão apropriada. Este exemplo ilustra por que (C*) é melhor que (C). Goldman dá os seguintes exemplos de conexões causais apropriadas entre fatos e crenças: percepção, memória e reconstrução apropriada de cadeias causais5. Os primeiros dois são relativamente fáceis de entender: se ver uma árvore faz você crer que há uma árvore em frente a você, há aí uma conexão apropriada e você possui conhecimento. Se a memória faz você reter essa crença, você ainda possui conhecimento. Alguns casos são mais complexos e envolvem reconstruções mentais da cadeia causal [causal chains, creio que o plural refere-se ao sentido de “elos” para a palavra chains]. Exemplo 5.2: A árvore que está faltando Smith retorna para casa e vê uma pilha de serragem e pedaços de madeira no local onde normalmente havia uma grande árvore. Ele recorda que a árvore estava doente e que ele recebera uma notícia informando que o serviço municipal do meio-ambiente iria derrubá-la. Logo, ele infere, e portanto passa a saber, que a árvore fora derrubada. Nesse caso, Smith não percebeu a árvore sendo cortada e ele não lembra que ela fora cortada. Mas ele sabe que ela foi cortada. A teoria de Goldman trata desse fato permitindo conexões apropriadas entre o fato e a crença quando a crença resulta da reconstrução apropriada da cadeia causal que conduz do fato 5 “A Causal Theory of Knowing”, pp. 369-70. para a crença. Smith é capaz de reconstruir, de uma forma sensível, a cadeia causal envolvida e, portanto, tem conhecimento. Nesse caso, existe uma cadeia causal que conduz da derrubada da árvore para a presença de pedacinhos de madeira e serragem e para a crença de que a árvore foi derrubada. Porque ele pode reconstruir a cadeia causal a partir da árvore sendo derrubada até a sua crença, Goldman conta com que essa seja uma reconstrução apropriada de uma cadeia causal e então ela é, de fato, uma conexão causal apropriada. Sua teoria implica, corretamente, que há conhecimento nesse caso. Outras reconstruções de cadeias causais apropriadas diferem ligeiramente dessa em questão. Suponha que a Sra. Black vê fogo na lareira e acredita que há fumaça saindo pela chaminé. A fumaça saindo da chaminé não causa sua crença de que há fumaça saindo da chaminé. O fogo causa igualmente a fumaça que sai pela chaminé quanto sua crença nisso. Nesse caso, então, existe algo, a saber, o fogo, que conduz tanto a um outro fato – a fumaça saindo da chaminé – como a crença da Sra. Black nesse fato. Em outras palavras, existe uma causa comum do fato e sua crença no fato. Goldman diz que quando uma pessoa reconstrói uma cadeia causal como essa corretamente, o fato e a crença são casualmente conectados de uma forma apropriada e, em sua análise, a condição causal é satisfeita. Logo, a teoria implica, corretamente mais uma vez, que ela sabe que existe fumaça saindo da chaminé. A idéia de Goldman é inteligente e inovadora. Ela trata com vários problemas comuns de maneira efetiva. Ela também trata com muitos exemplos do tipo Gettier de uma boa forma. Tipicamente, nesses exemplos, não há conexão causal, ou ainda, não há conexão causal apropriada, entre fato que p e crença em p. Entretanto a teoria causal não está livre de sérios problemas. Nós trataremos disso mais tarde. C. Quebra-cabeças e Problemas para a Teoria Causal C1. Conhecendo Generalizações. A teoria causal funciona melhor quando restringimos nossa atenção ao conhecimento de fatos específicos observáveis no mundo. Mas a Visão Padrão [Standart View] implica que nós sabemos mais do que isso. Por exemplo, ela permite que nós possamos ter conhecimento de generalizações tais como 1. Todos os homens são mortais. O problema é que generalizações não parecem ser causas. (2) não causa a crença em (2), assim não existe conexão causal, e portanto não há uma conexão causal apropriada entre esse fato e sua crença nele. É crer em instâncias específicas da mortalidade (e outras informações) que causa a crença. Logo, como você pode saber (2), de acordo com a teoria causal de Goldman?6 C2. Casos de Super-determinação Exemplo 5.3: Veneno e ataque do coração 6 Goldman tinha conhecimento desse problema e apresentou uma solução a ele em “A Causal Theory of Knowing”, pp. 368-69. Não consideraremos a correção dessa resposta aqui. Edgar sabe que Allan tomou uma dose fatal de veneno que não possui qualquer antídoto. Um tempo suficiente passou, a ponto de Edgar saber que Allan faleceu. Mas Allan não morreu por causa do veneno; ao invés, bastante triste pelo que tinha feito, Allan teve um ataque do coração. A reconstrução da cadeia causal de Edgar não está correta. Esse caso é um problema para a teoria de Goldman porque Edgar realmente sabia que Allan havia morrido, mas não havia reconstruído o fato com a cadeia causal apropriada. Nesse caso, Edgar sabia algo – que Allan tomara uma dose fatal – que era causa suficiente para Allan estar morto. Nessas bases, Edgar pode saber que Allan está morto. Não é requerido que essa seja, verdadeiramente, a causa da morte de Allan. Você pode saber que algo aconteceu mesmo se você está errado sobre de que maneira esse algo aconteceu. Você não precisa reconstruir a cadeia causal apropriada7. Esse é um sério problema para a teoria causal. Para reparar a teoria, seria necessário dizer que existe uma cadeia causal apropriada entre um evento e uma crença nos casos em que a pessoa acredita que o evento realizou-se porque ela, justificadamente, crê que alguma coisa causalmente suficiente para o evento ocorrera. Mas isso traz a idéia de justificação (e evidência) de volta à teoria de Goldman na forma exata que ele buscava evitar. A verdade é que conhecimento não requer apenas que exista uma conexão causal entre um evento e a crença da sua ocorrência. Conhecimento requer crença justificada. C3. Percepção e Evidência Exemplo 5.4: O caso de Trudy e Judy Trudy e Judy são irmãs gêmeas idênticas. Smith vê uma delas e, sem uma boa razão, forma a crença de que vê Judy. Isso é verdade e esse é um caso de percepção. Ele reconstrói de uma maneira apropriada a cadeia causal entre a presença de Judy e a crença. Ele sabe sobre Trudy, mas imprudentemente descarta a possibilidade que ela seja a pessoa que ele está olhando8. Esse é também um sério problema para a teoria causal. Aqui, existe uma conexão causal entre o fato e a crença nesse caso. Todavia, não existe conhecimento. E a razão é que as razões para crer que a cadeia causal é assim mesmo não são boas. A mera existência de conexão causal não é boa o suficiente. Um teórico causal poderiadesenvolver a teoria de maneira que ela concorde apropriadamente com esse caso. A idéia consistiria em requerir àquele que acredita [believer] que ele esteja seguro [warranted] ou justificado na reconstrução de forma apropriada da cadeia causal. Smith não está justificado nesse caso, uma vez que ele não tem boas razões para pensar que ele vê Judy ao invés de Trudy. Mas a crença nesse caso é apenas a crença perceptual – Smith apenas vê uma pessoa e forma a crença de que é Judy. É exatamente como no caso em que ele vê uma mesa e forma a crença de que aquilo que ele vê é uma mesa. Se nós dizemos que ele precisa de crenças garantidas [warranted] sobre a história causal no caso de Judy e Trudy, então o mesmo deveria ser requerido no caso em que ele forma a crença verdadeira de que existe uma mesa a sua frente. O resultado dessas considerações é que nenhuma boa versão da teoria causal será 7 8 diferente da TAK da maneira como Goldman a propõe (a TAK). Existe um dilema para os teóricos causais: requerer ou não requerer "evidência explícita" nos casos de percepções. Se não requererem, então o caso de Trudy e Judy é um contra-exemplo porque existe uma conexão causal em que aquele que crê reconstruiu corretamente embora injustificavelmente [unjustifiably]. Mas se, por outro lado, os teóricos requererem "evidência explícita" sobre os casos de percepção, o que acontece é que a teoria causal se torna algo não muito diferente da TAK. A diferença central é que ela adiciona a condição de conexão causal [the causal connection condition], a qual o Exemplo 5.3 mostra ser um erro. D. Conclusões sobre a Teoria Causal A idéia que conhecimento pode ser analisado em termos de conexões causais mais do que uma justificação é uma idéia interessante, mas isso parece que não funciona muito bem quando é considerado em detalhes. É verdade que, freqüentemente, existe uma conexão causal entre fatos que conhecemos e nossas crenças nesses fatos. Mas nós podemos ter conhecimento sem que haja tal conexão causal, como nos mostram os Exemplos 5.2 e 5.3, e nós ainda temos falta de conhecimento mesmo quando existe uma conexão causal, como mostra o Exemplo 5.4. II. RASTREANDO A VERDADE A. A Idéia Geral Evoquemos de novo a idéia utilizada para introduzir a teoria causal: termômetros "sabem" o qual é a temperatura desde que eles respondam à temperatura de uma forma regular. A teoria causal não faz uso pleno dessa idéia. O que é verdadeiro sobre o termômetro não é apenas que estando 50° causa ao termômetro que o mesmo indique “50°”. Quando faz essa temperatura, o termômetro diz que é essa temperatura, e quando não faz tal temperatura ele nos diz que não é essa temperatura. Algo análogo é verdadeiro nas pessoas que sabem sobre o mundo em volta delas. Considere, por exemplo, uma dona de um cachorro e seu cachorro, Rex. Quando Rex está no quarto com ela, ela acredita que ele está lá. Rex faz sua presença ser sentida, e ela é receptiva a essa maneira com que o cachorro age para ser sentido. Quando ele não está no quarto, ela acredita que ele não está no quarto. Sua crença sobre esse tópico “rastreia a verdade”, em alguns aspectos é como a maneira que o termômetro rastreia a temperatura. Uma idéia, então, é que aqueles que conhecem são “rastreadores da verdade”. Robert Nozick foi um precursor dessa teoria9. A idéia de rastrear a verdade como uma base de conhecimento é a seguinte: uma pessoa que conhece uma proposição, o conhecedor, é uma pessoa que rastreia a sua verdade. Assim como o leitor do termômetro rastreia a temperatura, as atitudes do conhecedor ao encontro de uma proposição refletem o valor de verdade da proposição. Essa idéia é expressa na seguinte definição: TT. S sabe que p se e somente se (i) p é verdadeiro, (ii) S acredita em p, (iii) a atitude de S ao encontro de a p rastreia o valor de verdade de p: Quando p não é verdadeiro; S não 9 acredita em p; e quando p é verdadeiro, S acredita em p10. Assim como a teoria causal, a teoria do rastreamento da verdade retém da TAK a idéia de que conhecimento requer crença verdadeira. Mas ela substitui a condição de justificação e a condição de Gettier pela requisição de rastreamento. A teoria de rastreamento funciona bem para alguns casos simples. Alguém que trabalha no escritório sabe que seu computador está ligado agora, mas se ele estivesse desligado a pessoa acreditaria que ele está desligado. Suas crenças sobre a condição do computador rastreiam a sua condição atual. Ele não sabe se sua vizinha está ou não em casa, mesmo assim ele pensa que ela está. Mas esse pensamento é baseado na vaga junção de tendências gerais. Mesmo se ela estivesse fora, ele ainda pensaria que ela está em casa. Sua crença não rastreia a localização dela. O Princípio (TT) tem resultados corretos [right] para vários outros casos. Ele parece ter resultados certos nos casos que causaram problemas para a teoria causal. A teoria pode ainda lidar com alguns casos do tipo Gettier de uma maneira bastante efetiva. Por exemplo, em um dos casos Smith não sabia que alguém no seu trabalho possuía um Ford. Ele baseou sua crença na evidência Nogot, mas sua crença era verdadeira por causa de Havit. Entretanto, se sua crença fosse falsa, talvez porque Havit vendera seu Ford, Smith ainda teria tido a evidência de Nogot e ainda teria acreditado que alguém no trabalho tivesse um Ford. Então, se a proposição que alguém no trabalho possui um Ford fosse falsa, ele poderia acreditar nela de qualquer forma. Ele não foi um rastreador da verdade para essa proposição, e logo, acordando com (TT), não possui conhecimento. B. Desenvolvendo a Teoria do Rastreamento: Teoria de Nozick Nozick argumentou que uma teoria ao longo das linhas de (TT) não é muito correta e que ela precisa de alguns “refinamentos e epiciclos”11. Ele está absolutamente correto sobre isso. Ele apresenta exemplos, tais como o que se segue, para mostrar a razão dessas necessidades: Exemplo 5.5: Conhecimento com Sorte [“sortudo”?] Black está trabalhando duro em seu escritório. De tempos em tempos, ela levanta a cabeça para esticar o pescoço. Em uma dessas ocasiões ela dá uma olhada pela janela em direção a rua. Justo nesse momento ela vê um assalto na rua. Ela tem uma clara visão do evento. Ela é uma testemunha. Nesse caso, Black sabe que um assalto aconteceu. A condição de rastreamento ainda não é satisfeita. Poderia facilmente acontecer que Black não tivesse dado uma olhada pela janela no momento crítico. Nesse caso, o assalto ainda teria acontecido, embora ela não acreditasse nisso. Ela não é uma rastreadora da verdade para a proposição de que o assalto está acontecendo. Assim, o exemplo 5.5 é um contra-exemplo para (TT). Black tem conhecimento embora não seja uma rastreadora da verdade. 10 11 Outro exemplo ilustra um ponto similar. Exemplo 5.6: O caso da avó12 Uma velha e fraca avó vê seu neto Johnny brincando alegremente diante dela. Ela sabe que ele está bem e que está brincando alegremente. Mas supondo que Johnny estivesse doente. A família poderia dizer para a avó que Johnny está bem e que está brincando alegremente, mas que ele o faz na casa de um amigo. Eles não querem deixar a avó preocupada. Logo, se Johnny estivesse doente, ela ainda assim poderia ter a crença de que ele está bem. A avó não rastreou a verdade. No entanto, ela tem conhecimento, uma vez que ela de fato o vê. Nozick tem uma proposta de como pôr em ordem a situação13. Ele sugere que o que está errado nessescasos é que existe uma troca nos métodos em função da qual a pessoa passa a acreditar. Simplificando um pouco, nós podemos atribuir a seguinte visão para ele: TT*. S sabe que p se e somente se (i) p é verdadeiro, (ii) S acredita em p, (iii) S utiliza um método M para formar a crença em p, e (iv) quando S utiliza o método M para formar crenças sobre p, as crenças de S sobre p rastreiam a verdade de p14. A idéia é que para conhecer uma proposição, você deve ser um rastreador da verdade da proposição quando você adere ao mesmo método para formar a crença sobre ela. No “caso da avó”, ela de fato utiliza o “olhar-ele” como o seu método. Como está dito no exemplo, se o neto não estivesse bem e lhe dissessem que ele está bem, ela estaria então utilizando um método diferente. O fato de que esse método diferente conduzir-lhe-ia a uma falsa crença não é importante quando (TT*) é aplicado ao caso. Para aplicar (TT*), precisamos considerar o que aconteceria se o neto não estivesse bem e a avó fosse utilizar o método de olhar-ele para chegar a sua crença. Presumivelmente, sob essas circunstâncias, ela veria que o neto está doente e não acreditaria que ele está bem. Assim, se ela adere a esse método, ela obtém dados certos. Logo, isso se relaciona com o Exemplo 5.6. C. Problemas à Teoria do Rastreamento C1. Rastrear não é necessário ao conhecimento. Considere novamente o Exemplo 5.5, o caso do “Conhecimento Sortudo” *Lucky knowledge]. Esse é um exemplo em que Black realmente tem um conhecimento, mas ela poderia facilmente ter deixado de ter conhecimento, pois Black poderia facilmente ter olhado pela janela em um momento ligeiramente diferente. Nesse caso, a condição (iii) de (TT) não é satisfeita. Defensores da teoria podem pensar que (iv) da análise revisada. (TT*), é satisfeita. Contudo, isso não parece estar correto. Se o método em questão é “olhar pela janela”, então a análise revisada não é melhor que a original. A questão-chave é se a condição (iv) é satisfeita nesse caso. Essa condição, aplicada ao exemplo, produz: 12 13 14 Quando Black utiliza o método de olhar pela janela para formar crenças sobre se há um assalto acontecendo, suas crenças rastreiam a verdade (isto é, se houvesse um assalto, tipicamente ela acreditaria que estaria acontecendo um; e se não houvesse um assalto, tipicamente ela não acreditaria que estivesse ocorrendo um). Se nós apenas adicionássemos um detalhe menor à história, seria fácil ver que essa condição não necessita ser verdade mesmo se Black de fato sabe que o assalto ocorrera. Suponha que Black tenha uma visão de somente parte da rua em sua janela. Há uma grande parte que ela não pode ver. Em nosso exemplo, o método de Black, olhar a rua, permitiu a ela saber que um assalto acontecera. Mas ele poderia facilmente ter falhado, isto é, ele poderia tê-la levado a crer que não há nenhum assalto mesmo se tivesse havido um. Teria acontecido isso se o assalto tivesse ocorrido em um lugar ligeiramente diferente, fora de sua visão. Logo, o método que ela usou – olhar a rua – não é assim tão adequado para formar a crença correta sobre se há ou não um assalto na rua15. Ela não rastreia a verdade mesmo quando ela utiliza esse método. Assim a teoria induz que ela não sabe que há um assalto acontecendo mesmo quando ela o vê claramente. Este é um resultado equivocado. Essa é uma poderosa objeção à teoria do rastreamento do conhecimento. Ela mostra que uma pessoa pode ter conhecimento sem ser um rastreador da verdade, mesmo se ela adere ao mesmo método para formar uma crença sobre essa proposição. Talvez o exemplo não seja inteiramente decisivo dado que não está tão claro o quanto vale usar o mesmo método. Talvez um defensor da teoria dissesse que quando Black olha para a rua e não vê um assalto, o método de formar crenças difere do método utilizado quando ela vê o assalto. Deixando de haver qualquer idéia clara sobre no que exatamente conta utilizar o mesmo método, torna-se difícil estar certo sobre isso. Ao menos, assim, essa objeção mostra que a teoria não é clara nesse ponto crucial. C2. Distinções Absurdas. Outra objeção é devida a Saul Kripke16: Exemplo 5.7: O celeiro falso Smith está dirigindo em uma estrada de terra. Ele vê muitos celeiros de várias cores, olha para um e acredita 3. Eu vejo um celeiro Ele também acredita, baseado no que vê, que: 4. Eu vejo um celeiro vermelho As duas crenças são verdadeiras, assim como ele acredita. Entretanto, era desconhecido para Smith que recentemente alguns celeiros foram inteiramente tomados por fogo e os moradores locais ergueram fachadas de celeiros para recepcionar os turistas. Portanto, muitas coisas que ele tomou como sendo celeiros, de fato, não eram. Um detalhe final: nenhum dos celeiros falsos é vermelho por causa do material de que os celeiros falsos são feitos, que reagem de forma não favorável a 15 16 tinta vermelha. Os filósofos estão divididos sobre se Smith sabe ou não que está vendo um celeiro nessa situação. Alguns pensam que a presença dessas fachadas na vizinhança faz que ele tenha uma falta de conhecimento. Outros negam isso. Mas virtualmente qualquer um concordaria que ele ou sabe ambas, (3) e (4), ou não sabe nenhuma delas. É completamente não plausível sustentar que ele sabe uma e não a outra. Isso é exatamente a conseqüência que (TT*) parece ter. Aqui está o porquê da teoria do rastreamento ter tais implicações peculiares. Para testar se Smith sabe ou não essas proposições, a teoria nos obriga a considerar se o método de Smith para formar crenças sobre os celeiros rastreia a verdade das proposições, isto é, se de forma confiável consegue a resposta correta. Seu método de identificar celeiros parece não ser confiável. Isso se dá porque ele poderia acreditar que existe um celeiro mesmo se o que ele viu lá foi um celeiro falso. A presença de celeiros falsos na vizinhança faz dessa possibilidade algo realista e, logo, faz dele alguém incapaz de ser um rastreador da verdade para (3). Em contraste, seu método para decidir sobre (4) é extremamente confiável. Porque não existem falsos celeiros da cor vermelha, e ele pode distinguir o vermelho das outras cores, quando ele está vendo um celeiro vermelho ele pensa que ele de fato está vendo, e quando ele não está vendo um celeiro vermelho, ele pensa que não está vendo. Então Smith rastreia a verdade para (4) de uma maneira muito melhor do que ele rastreia para (3). Assim, a teoria implica que ele sabe que ele vê um celeiro vermelho lá, mas não sabe que vê um celeiro. Esse é um resultado inaceitável. Se você pensa que a presença de celeiros falsos na vizinhança arruína seu conhecimento, então você pensa que Smith não conhece nem (3) nem (4). Se você pensa que a presença de celeiros falsos não arruína seu conhecimento, então você pensa que ele conhece (3) e (4). De qualquer forma, esse é um erro para a teoria do rastreamento. D. Conclusões sobre a Teoria do Rastreamento Apesar do seu apelo inicial, a teoria do rastreamento não funciona. Conhecer não equivale a rastrear a verdade. Uma grande parte da razão para isso é que a verdade é independente da qualidade das razões daquele que rastreia. Na objeção final, recém considerada, uma circunstância não corriqueira faz com que você seja apto para rastrear uma proposição, mas não outra. Entretanto, suas razões para as duas proposições são igualmente boas. Mais uma vez, parece que o conhecimento depende de razões de uma forma que a teoria do rastreamento falha em reconhecer. III. CONFIABILISMOA. A Idéia Principal O confiabilismo é de certa forma similar a teoria do rastreamento, embora existam diferenças importantes. O confiabilismo é freqüentemente formulado como uma teoria de justificação, e não como uma teoria do conhecimento. Assim, confiabilistas podem concordar que conhecimento é crença verdadeira justificada (mais, algo para concordar com os casos do tipo Gettier). Nesses pontos, eles concordam com os defensores das teorias evidencialistas discutidas anteriormente. Contudo, os confiabilistas interpretam a condição de justificação de um modo bastante diferente destes teóricos. Os confiabilistas negam que a justificação seja basicamente um problema de ter boas evidências. Mais precisamente, dizem eles, a justificação depende da acurácia (ou confiabilidade) vigente nos processos ou métodos utilizados para formar crenças. Nós examinaremos essa idéia nessa seção. O mais influente proponente do confiabilismo é Alvin Goldman. Como parte da sua explicação e defesa dessa teoria, ele escreve: ... quais tipos de causas conferem justificabilidade? Podemos ganhar discernimento nesse problema revendo alguns processos errados da formação de crenças, i.e., processos nos quais as crenças resultantes seriam classificadas como não justificadas. Aqui temos alguns exemplos: razão confusa, desejos, confiança em afeição emocional, mero pressentimento ou adivinhação, e generalização precipitada. O que esses processos incorretos têm em comum? Elas dividem a característica da não-confiabilidade: eles tendem a produzir erro na maior parte do tempo. Contrastando, quais espécies de processos formadores de crenças são de justificação intuitivamente conferidora [intuitively justification conferring]? Eles incluem processos perceptuais padrão, lembrar, boas razões e introspecção. O que esses processos parecem ter em comum é a confiabiildade: as crenças que eles produzem freqüentemente são verdadeiras. Minha proposta positiva, então, é essa. O status “justificacional” (de justificação) da crença é uma função do confiabilismo dos processos que a causam, onde (como primeira aproximação) confiabilismo consiste na tendência de um processo em produzir mais crenças verdadeiras do que falsas17. O que Goldman diz aqui é persuasivo. Raciocínio confuso, desejos e adivinhação realmente resultam em crenças não justificadas. E eles realmente parecem dividir a propriedade de serem não confiáveis, dessa forma, eles nos levam freqüentemente a crenças falsas. Em contraste, percepção, memória e boas razões resultam, de fato, em crenças justificadas. E esses processos parecem dividir a propriedade de serem confiáveis, no que eles tipicamente levam a crenças verdadeiras. A idéia de que o confiabilismo é que se constitui como central à justificação nos parece, assim, de útil consideração. B. Desenvolvendo o Confiabilismo: Teoria de Goldman B1. Definições recursivas. Antes de começar com a teoria de Goldman, será proveitoso comentar rapidamente de que maneira algumas teorias são formuladas. As pessoas freqüentemente se preocupam com definições sendo circulares. Considere a seguinte proposição: J. S está justificado em crer que p se e somente se S está justificado em crer que a fonte de S para p é confiável. Isso não é aceitável. Explicitamente utiliza-se a idéia de justificação na tentativa de explicar ou definir justificação. Algumas propostas que podem parecer similarmente objetáveis são, de fato, significativamente diferentes. Essas são definições recursivas. Suponha que nós afirmemos que existam duas maneiras de ser um cidadão: passar no teste de cidadania ou ser filho de um cidadão. Nós poderíamos 17 redigir essas duas maneiras como se fossem uma definição ou uma declaração das condições para a cidadania: Z. S é cidadão se e somente se (1) S passou no teste de cidadania, ou (2) S é um filho de um cidadão. Em (Z) o conceito de cidadão parece ser utilizado para escrever o que é ser um cidadão. Entretanto, (Z) não é questionavelmente circular. Uma razão para isso é que é possível reformular (Z) de forma que ele não tenha essa característica. A maneira para fazer isso é substituir (2) por “S é um descendente de alguém que passou no teste de cidadania”. Outra forma de pensar sobre isso é que a cláusula (1) especifica uma maneira de adentrar a classe dos cidadãos. Esse é o “caso base”. A cláusula (2) especifica uma relação para alguém que já faz parte da classe de cidadãos incluir outra pessoa nessa classe também. A teoria de Goldman, que será apresentada a seguir, providenciará uma explicação recursiva da justificação. Ela nos dará uma cláusula base e uma relação para crenças que satisfazem essa condição que igualmente produz a crença justificada. A proposta não é circular. B2. Detalhes da Teoria de Goldman. É fácil apresentar uma formulação inicial do confiabilismo e é igualmente fácil constatar que essa formulação inicial deve ser modificada no sentido de apreender corretamente a idéia central. Considere: R. S justificadamente acredita que p se e somente se a crença de S em p é causada por um processo confiável. Geralmente, um processo é confiável quando ele conduz a crenças verdadeiras. Há certa indefinição sobre o quão exatamente confiável um processo deve ser para que a condição em (R) seja satisfeita, mas isso não é base para criticismo. De fato, confiabilistas podem plausivelmente afirmar que uma crença é justificada enquanto o processo causal que leva até ela é confiável: quanto mais confiável o processo, mais justificada é a crença. Para que uma crença esteja suficientemente justificada para satisfazer a condição de justificação de conhecimento, o processo que a causa deve ser bastante confiável. Isso se compara aos evidencialistas quando reclamam a necessidade de uma evidência bastante forte. Em ambos os casos, não há uma delimitação exata especificada. Infelizmente, as coisas são mais complicadas do que (R) sugere. Uma complicação surge do fato que algumas crenças resultam de inferências de outras crenças. É possível que uma inferência perfeitamente boa conduza a uma crença falsa. Isso pode acontecer quando as premissas da inferência são falsas. Considere, assim, o processo de fazer certo tipo de inferência, por exemplo, inferir Q das premissas P e se P, então Q. Esse é um bom raciocínio. Provavelmente, as crenças formadas a partir desse processo podem ser justificadas. Contudo, raciocinar dessa maneira pode acabar por levar a muitas crenças falsas. Pode ser esse o caso se uma pessoa utiliza freqüentemente esse modelo de inferência, começando com premissas que são falsas. Raciocinar da forma descrita acima nem sempre conduz à verdade. Com efeito, isso pode nem mesmo normalmente conduzir a verdades se acontece dessa forma ser aplicada mais freqüentemente a crenças falsas. Mas sempre que as premissas das quais o processo inicia forem verdadeiras supõe-se chegar a verdades. Goldman diz que um processo assim é condicionalmente confiável: ele normalmente (ou sempre) dá origem a crenças verdadeiras quando as crenças que iniciam o processo são verdadeiras. Ele chama os processos que começam com algumas crenças e dão origem a novas crenças de processos dependentes de crença na formação de crenças [belief-dependent belief-forming processes] e processos que não iniciam com crenças processos independentes de crença na formação de crenças [belief- independent belief-forming processes]. Certos processos perceptuais básicos podem ser independentes de crenças. Nesses casos, uma experiência particular causa uma crença, sem outras crenças cumprirem qualquer função. Todas essas idéiasparticipam na formulação da teoria confiabilista de Goldman: R*. i. Se a crença de S em p no momento t resulta de um processo independente de crença [belief-independent process] que é confiável, então a crença de S em p no momento t está justificada. ii. Se a crença de S em p no momento t resulta de um processo dependente de crença [belief- dependent process] que é condicionalmente confiável e as crenças sobre as quais o processo opera são elas mesmas confiáveis, então a crença de S em p no momento t é justificada. iii. O único modo em que as crenças podem ser justificadas é satisfazendo as condições em (i) e (ii). O confiabilismo, como está formulado em (R*), parece contrastar com as teorias evidencialistas em alguns pontos significantes. Embora confiabilistas e evidencialistas possam concordar em muitos casos, eles diferem mais nitidamente quando tratam das crenças que satisfazem a cláusula (i) de (R*). Essas diferenças aparecerão mais claramente ao considerarmos as objeções ao confiabilismo. O que deve ser notado por hora é que o confiabilismo parece ter algo razoavelmente claro e compreensível a dizer sobre por que crenças perceptuais [perceptual beliefs] são justificadas. Fundacionalistas despretensiosos foram duramente pressionados a explicar por que a crença de uma pessoa de que ela esteja vendo algo vermelho é justificada quando ela forma essa crença como o resultado de ver algo vermelho. Talvez a resposta definitiva alcançada – envolvendo fundamentar corretamente a crença na experiência – seja satisfatória, mas vale a pena comparar isso ao que os confiabilistas podem dizer. A visão confiabilista é de que o processo de formação de crenças envolvido em formar essa crença é bastante confiável. Isso parece estar certo. As pessoas não comentem erros freqüentes sobre a cor de objetos de tamanho médio em plena vista. O processo perceptual em funcionamento surge assim de forma altamente confiável. O confiabilismo também parece possuir resultados corretos nos casos em que a teoria do rastreamento errou. Essa teoria requer que o método que se usa para formar uma crença permita rastrear a verdade dessa mesma proposição. Em contraste, o confiabilismo requer geralmente que o método seja uma forma confiável de formar crenças. De forma argumentada, os métodos utilizados nos exemplos que causaram dificuldades à teoria do rastreamento são geralmente confiáveis e assim eles não parecem abalar o confiabilismo. C. Objeções ao Confiabilismo C1. A Objeção do Cérebro dentro de um Tonel. Um exemplo que cumpre um papel mais importante nas discussões do ceticismo impõe um problema para o confiabilismo. Uma versão antiga do exemplo consiste em um gênio maligno que controla as experiências das pessoas. Uma versão contemporânea do exemplo consiste em um cérebro dentro de um tonel18. O cérebro no tonel é um cérebro humano perfeitamente normal, exceto que todos os estímulos que chegam ao cérebro são resultados de impulsos gerados por computador. O cérebro pensa que está vivendo uma vida normal. Ele pensa que faz parte de um corpo, que o está navegando ao redor do mundo etc. Tudo isso é errado. Contudo, o cérebro raciocina de uma forma perfeitamente aceitável a partir das experiências que ele tem. De fato, podemos assumir que o cérebro tem experiências exatamente como aquelas que uma pessoa normal (possuidora de corpo, que navega o cérebro ao redor do mundo) tem. Exemplo 5.8: O Cérebro dentro de um Tonel Brian é uma pessoa normal com crenças acuradas e bem justificadas sobre o mundo a sua volta. Brain é uma duplicata mental de Brian. Brain tem experiências assim como as de Brian. E as crenças de Brain são análogas as de Brian. Quando Brian acredita que ele, Brian, está comendo um sundae quente, Brain acredita que ele, Brain, está comendo um sundae quente. Quando Brian acredita que ele, Brian, está passeando no parque, Brain acredita que ele, Brain, está passeando no parque. Quando Brian acredita que ele, Brian, está vendo um objeto brilhante vermelho, Brain acredita que ele, Brain, está vendo um objeto brilhante vermelho. Brian está certo sobre cada uma dessas coisas, como ele geralmente está. Pobre Brain, está sempre errado. Vale a pena notar as potenciais implicações céticas desse exemplo. Alguns filósofos argumentam que você não pode definir se você é como Brian ou como Brain e por isso você não pode conhecer coisas tais como as proposições mencionadas no exemplo. Nós nos remeteremos a este argumento quando voltarmos ao ceticismo, no Capítulo 6. Contudo, dada a Visão Padrão [The Standart View], Brian pode saber aquelas coisas. Crenças como aquelas são, portanto, justificadas. Assim, o confiabilismo parece ter exatamente o mesmo resultado correto com respeito a Brian. Os processos formadores de crença de Brian são extremamente confiáveis19. (R*) implica, corretamente, que suas crenças são justificadas. O problema está em Brain. Brain é tão razoável quanto Brian. De fato, ele acredita em coisas comparáveis por razões comparáveis (a Brian). As crenças de Brain parecem ser igualmente bem justificadas. Contudo, os processos que Brain utiliza para formar suas crenças rotineiramente levam a crenças falsas. Parece seguir que os processos de Brain não são confiáveis. Se assim for, (R*) tem um resultado errado aqui. Isso implica que as crenças de Brain são injustificadas, quando, de fato, elas são justificadas. Isso parece ser ruim para o confiabilismo. Note que a afirmação sobre Brain não é de que ele tem conhecimento. Ele não tem. Quase todas suas crenças são falsas, então elas não são casos de conhecimento20. Mas ele está justificado nas suas 18 Stewart Cohen levanta essa objeção in “Justification and Truth”, Philosophical Studies 46; 279-95. Veja especialmente pp. 281f. Veja também Richard Foley, “What’s Wrong with Reliabilism?” Monist 68 (1985): 188-202. 19 Aqui, uma assunção é de que os processos pelos quais Brian forma as crenças simples sobre o mundo a sua volta são processos independente-de-crenças [belief-independent process] cobertos pela cláusula (i) de R*. 20 Dependendo dos detalhes do exemplo, pode resultar que algumas das crenças de Brain sobre o mundo externo são verdadeiras. Por exemplo, Brain pode ser alimentado por uma “experiência da árvore” e ele pode pensar que há uma crenças, tal como Brian o está. O mesmo tipo de coisas pode acontecer em casos menos extremos. Suponha que o processo de visão das cores de alguém está danificado, então ela não é confiável ao formar crenças sobre certas cores. Mas o assunto não é discutido na presença dessa pessoa, ninguém a corrige, e ela tem toda a razão para pensar que esse processo funciona bem. Então ela é justificada em suas crenças, ainda que o processo não seja confiável. Esses casos sugerem que confiabilidade não é necessária para justificação. Não ajudará aos confiabilistas dizer que se alguém, justificadamente, acredita que o processo que utiliza é confiável, então sua crença é justificada. Isso introduziria um tipo de circularidade objetável dentro da teoria. C2. Confiabilidade Acidental ou Desconhecida. Em alguns casos, alguém utiliza um processo confiável, mas não tem nenhuma razão para pensar que ele é confiável. A crença deveria parecer para esse alguém como um mero palpite. O próprio Goldman menciona duas variedades desse tipo de caso. Em um tipo, a pessoa não tem nenhuma razão para crer que certo processo é confiável, ainda que, de fato, ele seja. No segundo tipo, a pessoa tem razão para crer que o processo não é confiável, ainda que ele seja confiável. Goldman diz que o segundo tipo de caso é "pior" que o primeiro, e ele propõeuma modificação da sua análise para lidar com isso. A modificação envolve uma mudança na cláusula (i) na sua análise. Ele propõe: i*. Se a crença de S em p em um tempo t resulta de um processo cognitivo confiável e não existe nenhum processo confiável ou condicionalmente confiável disponível para S o qual, se fosse ele utilizado por S como adição ao processo utilizado de fato, teria como resultado que S não acreditaria em p em um tempo t, então a crença de S em p em um tempo t é justificada21. A idéia por trás de (i*) é adicionar a condição de “não derrotador” [no defeater] à justificação. Suponha que alguém forma uma crença como resultado de um processo o qual a pessoa tem razão para pensar que não é confiável. A pessoa então tem disponível um processo racional alternativo, um processo fazendo uso desse fato. Se a pessoa fizesse uso desse processo, poderia terminar por não manter a crença original. Grosseiramente, ela pensaria: Eu acabei crendo em p como resultado de um processo não- confiável. Ela pararia então de crer em p. Aparentemente, esse é um processo confiável22. Portanto, existe um processo derrotador confiável para a crença original e isso permite mostrar que ela não é justificada. Logo, é assim como Goldman trataria com exemplos nos quais alguém utiliza um processo que realmente é confiável, mas esse alguém tem razões para pensar que não é confiável. Embora o ponto seja altamente contraverso, vamos supor que ele funciona satisfatoriamente. Considere de novo casos nos quais alguém não tem idéia, em quaisquer dos modos, se o processo é ou não confiável. Nesse tipo de caso, esse alguém não parece ter um processo derrotador para a crença. Ele não tem uma linha confiável de raciocínio que o levaria a rejeitar a crença. Uma instância largamente discutida desse tipo de exemplo foi proposta por Laurence BonJour. árvore próxima. Se de fato, há uma árvore próxima, a crença de Brain será verdadeira. Brain é nesse exemplo uma vítima de um caso tipo-Gettier. 21 “What is justified belief?” p. 20. 22 Há um quebra-cabeça difícil aqui. Como você mede a confiabilidade de um processo que resulta em suspensão de julgamento? Exemplo 5.9: Clarividência Norman, sob certas condições que normalmente preenche, é um clarividente absolutamente confiável com respeito a certos tipos de problemas. Ele não possui qualquer evidência ou razão de qualquer ordem a favor ou contra as possibilidades gerais de tal poder cognitivo, ou a favor ou contra a tese que ele possui essa capacidade. Um dia, ele forma a crença de que o presidente do país está em Nova York, apesar dele não ter evidências seja a favor ou contra essa crença. Com efeito, a crença é verdadeira e resulta de seu poder clarividente, sob circunstâncias as quais são completamente confiáveis23. BonJour crê que a crença de Norman não está justificada mesmo que tenha resultado de um processo confiável e Norman não tenha disponível um processo derrotador para ela. Alguns filósofos vêm nisso uma séria objeção ao confiabilismo. Talvez, seja. Contudo, há algumas linhas de resposta abertas aos confiabilistas. Considere como isso ocorre para a pessoa no exemplo de BonJour. Aparentemente, o pensamento de que o presidente do país está em Nova York surgiu de repente para ela. Dada a descrição do caso, ela não tem razão para pensar que tais pensamentos são geralmente verdadeiros. Suponha que ela pense sobre por que ela tem esse pensamento aparentemente rotativo sobre a localização do presidente. Ela pode pensar: “isso é muito peculiar. Eu não tenho razão para crer nisso. Essa idéia simplesmente apareceu na minha cabeça, parecendo vir do nada”. Isso poderia levá-la a parar de ter a crença. E talvez essa sorte de raciocínio conte como o tipo de processo derrotador introduzido por (i*). Não está claro, assim, se o exemplo de BonJour constitui um sério problema para o confiabilismo. Em parte, isso se dá pela falta de clareza na idéia de um processo cognitivo disponível. Porém, há outra lacuna que se apresenta potencialmente mais perturbante. C3. Generalidade. A discussão das primeiras duas objeções a (R*) fez uso nos exemplos de asserções não declaradas sobre os processos envolvidos na formação de crenças24. Por exemplo, na objeção ao cérebro em um motel, assumiu-se que o processo que Brian usou era confiável e que o de Brain não era. E há algo acerca dessa aceitação. Mas é verdade também que cada um deles está pensando do mesmo modo; cada um forma uma crença análoga na base de uma experiência análoga. Talvez, então, eles estejam utilizando o mesmo processo. Se estão, e se esse processo é genericamente confiável, então (R*) implica que ambos estão justificados em suas crenças, e se o processo não é confiável, então que eles não estão. Por que haveríamos de pensar que os processos que eles utilizaram diferem em confiabilidade? Na discussão do exemplo de BonJour, assumimos que o processo relevante fora a “clarividência” e que fora dito que ele era confiável. Mas poderíamos também ter descrito o processo como “formador de uma crença de um jeito que não se tenha razão para crê-la” e que isso parece ser não confiável. Por que haveríamos de pensar que ele utilizara antes o processo confiável do que esse não confiável? Isso poderia parecer agir em favor de (R*), pois sugere que os confiabilistas possam encontrar modos de descrever os processos que os habilitam evitar os contra-exemplos propostos. Contudo, a 23 Laurence BonJour, The Structure of Empirical Knowledge (Cambridge: Harvard University Press, 1985), p. 41. 24 O caso levantado aqui é discutido com maiores detalhes in Richard Feldman, “Reliability and Justification”, Monist 68 (1985): 159-74. resposta esconde um problema. O problema que há muitas formas diferentes de caracterizar o processo que se utiliza em qualquer caso. Naquilo que foi apresentado aqui, não há um modo sistemático de determinar qual padrão geral a considerar na avaliação de cada exemplo. Como resultado, a teoria simplesmente não é detalhada bem o suficiente para avaliar. Não sabemos que implicações isso tem para cada exemplo. Além disso, quando pensamos mais cuidadosamente sobre os vários tipos de processos, problemas aparecem. Na passagem citada no começo desta seção, Goldman menciona como processos não confiáveis coisas como: P1. Exame breve e apressado em contraste com: P2. Observação lenta e detalhada e ele diz que: P3. Ver objetos distantes é menos confiável que P4. Ver objetos próximos. Mas isso não funcionará. Se esses são os processos a considerar na avaliação de crenças sob os padrões confiabilistas, então a teoria possui resultados totalmente insatisfatórios. Ela implicará que todas as crenças resultantes de um daqueles processos são igualmente confiáveis. Isto é, se (P1) não é confiável, então todas as crenças resultantes dele não são justificadas. Se (P2) é confiável, então todas as crenças resultantes dele são justificadas. Se (P3) é menos confiável que (P4), então todas as crenças formadas por (P3) são menos justificadas que qualquer crença formada por (P4). Mas nenhum desses resultados está correto. Pelo processo (P1), uma pessoa poderia vir a saber que há uma cadeira no quarto, uma árvore na quadra etc. Essas são todas crenças bem justificadas. Alguém poderia usar (P2) para chegar à conclusão que uma pessoa em particular é um calouro, mas sem estar justificada em formular essa conclusão. Outrasvezes, observação lenta e detalhada produz crenças justificadas. A partir de (P3), uma pessoa fica sabendo que há uma estrela em certo lugar do céu, e em algumas vezes, ver coisas próximas não produz justificação, como quando novatos identificam árvores. Assim, o que resulta de (P4) é mais bem justificado do que aquilo que resulta de (P3). Essas classificações não funcionam. O ponto chave é que cada tipo de processo produz crenças de todos os diferentes níveis de justificação. Aqui está uma proposição mais sistemática do problema. Confiabilidade, como os confiabilistas entendem isso, constitui uma propriedade de processos que acontecem repetidamente. O processo específico que causa uma crença particular acontece somente uma vez, mas é um modo de processo ou uma instância de um tipo de processo. O processo específico é considerado um “processo token” e as categorias gerais, “processos types”. Cada token constitui-se numa instância de vários types. Suponha que você olhe pela janela uma noite e veja um poste de rua. O processo que ocorre é um caso de formar uma crença sobre o que você sobre as bases da (i) percepção, (ii) visão, (iii) visão à noite, (iv) visão de um objeto brilhante à noite, e assim por diante. Esses types podem variar em confiabilidade. Por exemplo, (iii) é menos confiável que (iv). A teoria confiabilista diz que uma crença em particular é justificada no mesmo grau em que seu processo é confiável. Porém, há todos esses diferentes processos types associados com a crença de que você vê um poste de rua. Qual é aquele cuja confiabilidade determina o quão bem justificada está a crença? Será que a crença de que você vê um poste de rua não está bem justificada porque é uma instância de (iii) ou ela estaria mais bem justificada porque é uma instância de (iv)? Se o confiabilismo é para ser uma boa teoria, deveria haver um modo sistemático de responder questões como essa. É fácil para um confiabilista olhar para um caso específico, tal como esse último, decidir primeiro que a crença é justificada, e então responder que o processo é o (iv) e assim que a teoria chega ao resultado correto. Mas alguma teoria mais geral é necessária. Assim, cada crença é causada por um processo único que recai em muitas categorias ou types. Se o confiabilismo é para ser uma boa teoria, para cada crença ele precisa identificar de uma forma sistemática um desses types como aquele cuja confiabilidade conta para determinar se a crença é justificada. Vamos denominar o type para cada token cuja confiabilidade determina quão bem justificado ele é de “type relevante” para aquela crença. Nós ainda não levamos em conta o que sejam esses types. Usando a idéia da type relevante, podemos definir a cláusula base da teoria confiabilista de Goldman mais claramente. Qual seja: i**. Se a crença de S em p em um tempo t resulta de um processo token independente de crença cuja type relevante é confiável, então a crença de S em p em um tempo t é justificada. (Poderíamos aplicar isso às análises revistas que Goldman faz, mas ignoraremos essa complicação). E agora, o problema para os confiabilistas é o de dar conta das types relevantes de modo que isso faça a teoria obter resultados plausíveis. Na tentativa de lidar com essa questão, os confiabilistas enfrentam um problema sério. A teoria possui a implicação de que todas as crenças que resultam do mesmo processo type são igualmente bem justificadas. Elas são todas tão bem justificadas quanto o processo é confiável. Mas qualquer processo que você possa pensar, ao menos qualquer processo comum que você possa pensar, produzirá algumas crenças justificadas e algumas crenças não justificadas. Para sustentar essa objeção, considere outro exemplo. Suponha que um juiz de baseball está apitando lances válidos e não válidos (“o lance valeu!”; “o lance não valeu!”). Há decisões óbvias e outras mais difíceis. Se o juiz utiliza o mesmo processo em todos os casos, então todas as suas crenças sobre os lançamentos são igualmente justificadas. Isso parece ser um procedimento imperfeito, pois algumas vezes está claro se um lançamento valeu e algumas vezes, não [exemplo do juiz de baseball]. Para que o confiabilismo funcione, é preciso haver algum modo de distinguir o processo utilizado nos casos claros do processo utilizado nos casos não claros. Outro exemplo pode tornar o problema mais claro. Suponha que uma pessoa olha para as folhas de uma árvore e, com base no formato das folhas, corretamente crê que a árvore é um bordo [maple]. Poderíamos dizer que o processo type que ocorre aí é um processo “folha de formato de bordo para uma árvore de bordo”, isto é, o processo pelo qual o formato característico da folha de bordo conduz à crença na árvore de bordo. Esse processo é bastante confiável – toda vez que uma pessoa julgue que uma árvore seja um bordo com base naquele formato, ela está certa. Nenhuma outra folha parece com aquela. Assim, o confiabilismo parece afirmar que a pessoa está justificada em crer que a árvore é um bordo. Mas o processo que a pessoa utilizou para formar a crença na árvore de bordo é o mesmo que se utiliza para formar crenças em carvalhos e pinos, isto é, um processo identificador de árvores? Obviamente, a identificação de árvores é somente um caso especial de identificação de plantas, assim o processo em questão é realmente o processo mais geral de identificação de plantas. Há, assim, muitos outros processos e é totalmente indefinível quais utilizaríamos na determinação de uma crença para confiabilidade e justificação. Conforme você reflete sobre esses exemplos, você começa a perceber que críticos e defensores do confiabilismo estão apenas elaborando, para cada caso, uma descrição do processo que os conduz aos resultados que eles desejam. Não há nenhuma teoria geral aqui. O problema da generalidade [the generality problem] é, correntemente, um problema insolúvel para os confiabilistas. Alguns filósofos pensam que há boas respostas e, de qualquer maneira, certamente não é possível provar o contrário25. Mas faltando uma boa solução, tem-se razão em duvidar dos méritos dessa teoria. D. Conclusão sobre o Confiabilismo Quaisquer conclusões formuladas sobre o confiabilismo serão prontamente controversas. Alguns filósofos acreditam que objeções, tais como aquela do cérebro num tonel, expõem uma falha fundamental no confiabilismo. Simplesmente não é o caso, argumentam esses filósofos, que a confiabilidade seja necessária para a justificação. Contudo, confiabilistas não ficam sem possíveis respostas a isso. Observe que a objeção repousa na assunção de que Brain utiliza um processo não confiável para formar suas crenças porque suas crenças são nitidamente falsas. Entretanto, não é necessário que se avalie a confiabilidade de um processo dessa forma. Talvez o processo que Brain use conte como confiável porque é o mesmo processo que nós utilizamos, e nosso processo é confiável26. Além do mais, qualquer apreciação das implicações do confiabilismo em casos específicos passa por alguma solução para o problema da generalidade, e isso também é uma questão de contínua controvérsia. É seguro dizer, ao menos, que os confiabilistas têm problemas difíceis a resolver. Um ponto final merece menção. No Capítulo 3, discutimos O Mesmo Princípio de Evidência. O confiabilismo parece ser inconsistente com esse princípio, apesar dos quebra-cabeças sobre como os processos são identificados e a confiabilidade é medida deixarem isso não tão óbvio. Parece claro que um processo que é confiável em uma situação pode ser não confiável em outra. Se de fato isso é possível, então o confiabilismo implicará que dois crentes que se encontram no mesmo estado interno,isto é, duas pessoas que crêem na mesma coisa pelas mesmas razões, possam ter crenças que diferem na justificação. É essa implicação do confiabilismo que o exemplo do cérebro num tonel explora. Alguns filósofos crêem que qualquer teoria de justificação que viole O Mesmo Princípio de Evidência deve estar errada. Mas os confiabilistas estão aptos a pensar que a confiança nesse princípio é um engano. Alguns confiabilistas julgam que uma vantagem de sua teoria manifesta-se em conexão com o ceticismo. Voltaremo-nos, em breve, a esse tópico no Capítulo 7. 25 Para uma defesa do confiabilismo da objeção levantada aqui, veja William Aston, “How to Think About Reliability”, Philosophical Topics, (Spring, 1995): 3-29. E para uma réplica a Alston, veja Earl Conee e Richard Feldman, “The Generality Problem for Reliabilism”, Philosophical Studies 89 (1998): 1-29. 26 Para discussões desse caso, veja Ernest Sosa, Virtue Epistemology, Capítulo 7, in Blackwell Great Debates: Epistemology: Internalism versus Externalism (forthcoming). IV. FUNÇÃO ADEQUADA [Apropriada] A. A Idéia Geral Voltamo-nos agora para uma teoria não-evidencialista final. A idéia geral dessa teoria é a de que crença é justificada quando ela resulta de um funcionamento adequado do sistema cognitivo daquele que acredita. Para entender o significado dessa idéia, será proveitoso primeiro considerar alguma coisa não relacionada à cognição e a formação de crença. Por exemplo, considere o coração. É razoável dizer que existe um modo que é 'suposto' que o coração de um ser humano funcione. Ele deveria bater em uma taxa e em um intervalo, ele deveria bombear sangue para todo o corpo de maneira que vá ao encontro das necessidades do corpo. Não há necessidade de supor que a função adequada do coração é o resultado de alguém que decide o que o coração supostamente faz. É, ao contrário, um fato biológico sobre seu papel para o mantenimento da vida. Com certeza, alguns teístas dirão que a função adequada do coração é, verdadeiramente, o resultado de um projeto intencional, mas não precisamos fazer essa suposição [assumption] aqui. Se a função própria do coração é determinada por Deus ou pela 'Mãe Natureza' não é crucial por agora. O que é crucial é que existe algo tal como o coração que funciona adequadamente. A mesma idéia da função adequada transpõe-se para a questão da cognição [carries over to cognition as well]. Existe uma forma a qual os sistemas cognitivos humanos são 'supostos' a funcionar. Isso não é dizer que nós estamos supostos a acreditar em proposições específicas. Isso é apenas dizer que nós estamos supostos a ir, sobre formar crenças, em certas direções. Nós somos projetados para utilizar a percepção e a memória. Nós somos projetados para fazer certos tipos de inferências. Quaisquer coisas específicas que nós acreditamos dependerão das especificações das nossas próprias circunstâncias. Claro, às vezes nossos sistemas não funcionarão muito bem, assim como o coração de alguém pode não funcionar sempre de maneira adequada. A teoria da função adequada sustenta que quando o sistema cognitivo de alguém produz uma crença, essa crença é justificada se e somente se o sistema esteve funcionando adequadamente ao produzi-la. A função adequada é plausivelmente pensada como sendo uma propriedade descritiva complexa do sistema. Portanto, se a justificação pode ser explicada nesses termos, então nós teremos um relato das condições descritivas sob as quais uma crença tem a propriedade avaliativa de ser justificada. Enquanto o confiabilismo sustentou que a justificação conta com a confiabilidade do processo que produziu a crença, a teoria da função adequada sustenta que ela conta com o funcionamento adequado do sistema. B. Formulando a Teoria da Função Adequada: Teoria de Plantinga Um defensor destacado da teoria da função adequada é Alvin Plantinga. Ele escreveu extensivamente sobre o tópico e a discussão seguinte apenas tocará superficialmente nessa visão. Plantinga formula sua teoria claramente e concisamente nessa seguinte passagem: ...uma crença tem garantia [warrant] para mim somente se (1) ela foi produzida em mim por faculdades cognitivas que estão trabalhando adequadamente (funcionando como deveriam, sem estarem sujeitas a disfunções cognitivas) em um ambiente cognitivo que é apropriado para os meus tipos de faculdades cognitivas, (2) o segmento do plano do projeto que governa a produção dessa crença visa à produção de crenças verdadeiras, e (3) existe uma probabilidade estatística alta de que uma crença produzida sob essas condições seja verdadeira27. Diversos comentários preliminares são demandados. 1) Plantinga fala sobre garantia [warrant] no lugar de 'justificação' na passagem citada. Nós tomaremos esses termos como equivalente, embora Plantinga possa ter estado interessado em analisar um conceito de alguma forma diferente de justificação. Talvez fosse melhor dizer que nós estamos adaptando as idéias de Plantinga à teoria da justificação. 2) Na passagem citada aqui, Plantinga diz que uma crença possui garantia 'apenas se' as condições que ele menciona são satisfeitas. Ele não está dizendo que as condições são suficientes para a garantia. Mas em outro momento ele diz que elas são suficientes28. 3) Plantinga inclui na cláusula (1) dessa descrição a idéia de que o sistema precisa estar em um ambiente que é 'apropriado' ou conveniente para tal sistema. Um exemplo ilustrará por quê. Suponha um coração humano que foi removido de uma pessoa e posto em uma águia. Muito provavelmente, as coisas não funcionarão muito bem. Mas é difícil dizer como se supõe que um coração humano vai funcionar nessas condições. Não foi projetado para estar lá. Seria um tanto peculiar dizer que ele funciona mal. Similarmente, de acordo com a teoria de Plantinga, o sistema cognitivo humano é projetado para funcionar em certos tipos de ambientes. Ele (o sistema cognitivo) produz crenças justificadas quando ele funciona adequadamente naqueles ambientes (satisfeitas também as outras condições). Ele não produz crenças justificadas em outro lugar. Particularmente, talvez, ele não seja projetado para funcionar em cérebros em tonéis ou em outro ambiente radicalmente manipulado. 4) Plantinga adiciona na sua cláusula (2) o requerimento de que ‘o segmento do plano do projeto que governa a produção dessa crença visa à produção de crenças verdadeiras'. Isso levanta difíceis questões, algumas das quais surgirão brevemente em uma discussão crítica da teoria. A idéia por trás desses requerimentos é como se segue: podemos assumir que nosso sistema cognitivo é suposto a funcionar de uma forma que nos torna mais aptos a sobreviver, ou talvez, aumente as chances de passarmos adiante nossos genes. Por mais exato que entendamos isso, parece claro que não fomos projetados para formar apenas crenças epistemologicamente razoáveis. Para mencionar um exemplo, parece ser completamente natural – parte do nosso plano do projeto – ter crenças favoráveis sobre nossos filhos. Um tipo de preconceito precisa ser incorporado. Mas crenças que resultam desse tipo de características não são sempre epistemologicamente justificadas. Outro exemplo envolve otimismo. Nós precisaríamos ser projetados para ser extremamente otimistas em algumas circunstâncias. Tais crenças não são resultado de um mau funcionamento, mas elas não são epistemologicamente justificadas. A idéia de Plantinga é separar as partes diferentes do nosso sistema naquelas que são aspiradas a adquirir crenças verdadeiras sobre o mundo a nossa volta e em partes que aspiram algo diferente. Justificação resulta apenas de partes que aspiram àverdade29. 5) Muito aproximadamente, a condição final da descrição de Plantinga é um tipo de condição de confiabilidade geral. Suponha alguém que esteja, de fato, em uma situação de projetar um agente 27 Alvin Plantinga, Warrant and Proper Function (New York University Press, 1993), p. 59. 28 Warrant and Proper Function, pp. 22-23, 267. 29 É possível que isso leve a um problema para a teoria da função adequada análogo ao problema da generalidade que o confiabilismo enfrenta. Plantinga argumenta de outra forma. Veja Warrant and Proper Function, pp. 35-36. cognitivo. Se você quiser, imagine alguém projetando um robô e assuma que o robô tenha crenças sobre o mundo o qual ele está. Suponha, além disso, que o projetista é totalmente inapto e constrói um robô com um sistema que uniformemente obtenha coisas erradas. O robô, então, poderia formar crenças a partir da maneira como foi projetado – ele funciona adequadamente –, mas ele não obtém nada corretamente. Intuitivamente, esse robô mal desenhado não tem crenças justificadas, ainda que as cláusulas (1) e (2) da descrição de Plantinga sejam satisfeitas. A cláusula (3) pretende tratar com esse tipo de caso. Podemos resumir a teoria da função adequada na seguinte formulação breve: PF. A crença de S em p é justificada se e somente se (i) a crença de S em p resulta de um funcionamento adequado do sistema cognitivo de S em um ambiente conveniente, (ii) o segmento do sistema que produz a crença visa à verdade, e (3) o sistema global geralmente produz crenças verdadeiras quando em um ambiente conveniente. Como o confiabilismo, a teoria da função adequada pode, plausivelmente, originar um dos resultados que causaram problemas para o fundacionismo moderado *“modesto”, modest foundationalism]. Fundacionistas moderados foram severamente pressionados a explicar exatamente por que crenças perceptuais eram justificadas. A teoria parou, em nossa discussão, fazendo uso da idéia de que algumas crenças são 'adequadamente baseadas' na experiência. A teoria da função adequada pode dizer em vez disso que nós somos projetados para formar estas crenças com base nas nossas experiências. Isto é, quando vemos algo vermelho, somos projetados para acreditar que existe algo vermelho antes de nós. Similarmente para outras crenças. Diferente do coerentismo, a teoria da função adequada proporciona às experiências um papel proveitoso a respeito da justificação. Como já notado, algumas crenças são repostas às experiências, e quando as respostas são como elas são projetadas para ser, a crença é justificada. A teoria de Plantinga é original e interessante, mas também tem problemas. A próxima sessão examina alguns deles. C. Objeções à Teoria da Função Adequada [apropriada, proper] C1. Confiabilismo acidental. Um dos problemas para o confiabilismo, dada uma consideração intuitiva de types relevantes [intuitive account of relevant types], é o problema do confiabilismo acidental. O problema nasce porque um processo de formação de crença pode ser acidentalmente confiável. As crenças que o processo produz não são confiáveis, ainda que o confiabilismo pareça dar a entender que elas sejam. O próprio Plantinga oferece esse tipo de objeção ao confiabilismo. Ele se serve de expressivos exemplos, e aqui há um que ele apresenta: Exemplo 5.10: Raios Cósmicos Suponha que eu seja atingido por uma explosão de raios cósmicos, resultando na infeliz má função subseqüente. Toda vez que eu ouço a palavra “[prime]”, em qualquer contexto, eu formo a crença, com respeito à escolha aleatória de um número natural menor que 100 mil, que isso não é um [prime]. Aí, você diz “Paliçadas do Pacífico é uma excelente [prime+ área residencial” ou “Uma boa costela [Prime rib] é o pedaço que eu mais gosto”...; eu formo a crença, com respeito à escolha aleatória de um número natural entre 1 e 100 mil, que isso não boa [that is not prime]. O processo ou mecanismo em questão é, de fato, confiável (dado a vasta preponderância de [non-primes]...), mas minha crença – a saber, que 41 não é primo [prime] – tem pouco ou nenhum estatuto epistêmico positivo. O problema não é simplesmente que a crença é falsa; o mesmo vale para minha crença (verdadeira) que 631 não é primo [prime], se ela formada desse modo. Assim, formação de crença confiável não é suficiente para o estatuto epistêmico positivo30. Considere como a teoria de Plantinga lida com esse exemplo. Alguém poderia pensar que a requisição da função apropriada [adequada, proper function] torna impossíveis crenças produzidas dessa forma de serem garantidas [warranted]. Certamente, nós não temos que raciocinar desse jeito. Mas a teoria de Plantinga supõe dar conta da idéia geral de justificação e, portanto, supõe-se igualmente que ela seja aplicada a outros seres em possíveis exemplos. (O exemplo que Plantinga utiliza contra o confiabilismo é, obviamente, meramente possível também.) Suponha, então, que um designer não tão competente de sistemas cognitivos, ou alguém sofrendo de alguma sorte de confusão séria, projeta um robô que, geralmente, possui crenças razoáveis e acuradas, mas que também construiu no sistema um segmento incomum que funciona exatamente como aquele que Plantinga descreve em seu exemplo. O robô forma crenças do mesmo jeito que Plantinga descreve. A crença realmente resulta da função adequada [apropriada, proper] do sistema dentro das suas circunstâncias planejadas, ele visa à verdade e o sistema é geralmente confiável. Parece que esse é um problema tanto para (PF) como para o confiabilismo. Claro, o exemplo envolve designers zonzos de sistemas cognitivos e se torna, conseqüentemente, um tanto irreal. Mas isso não pesa contra o exemplo. C2. Função Adequada e Boa Função. Há uma diferença entre uma coisa funcionando como foi projetada para funcionar e seu bom funcionamento. Um sistema pobre pode funcionar como projetado e ainda não funcionar muito bem. Pode-se notar isso mais claramente quando consideramos coisas que foram projetadas por agentes conscientes. Suponha que algumas pessoas produziram um carro pouco potente. Eles verificam que ele acelera bastante devagar. Eles poderiam dizer, por um lado: O carro está funcionando de acordo com o que foi projetado. Não há maus funcionamentos. Ele está fazendo exatamente o que se esperava que ele fizesse (dado o modo que ele foi projetado). Mas, por outro lado, eles poderiam dizer: O carro não funciona muito bem. Ele acelera muito lentamente. Em outras palavras, ele funciona adequadamente (como projetado), mas não muito bem. Se há de fato uma distinção entre função adequada e boa função, então há um problema na teoria de justificação epistêmica da função adequada [proper function]. Se um sistema forma crenças justificadas quando funciona adequadamente depende se o sistema foi bem projetado. Se ele foi um sistema bem 30 Alvin Plantinga, Warrant: The General Debate (New York: Oxford University Press, 1993), p. 265. projetado, então crenças justificadas resultarão de função adequada. Mas se ele não é bem projetado, então poderá haver uma divergência. Por conseguinte, será útil considerar um sistema que não foi bem projetado. Imagine a situação na qual você forma uma certa crença com base em alguma evidência. Você esboça uma inferência, talvez automaticamente. Um crítico indica que sua conclusão não está justificada porque não é muito bem suportada pelas premissas. Suponha que você responda, “bem, poderia ser melhor se nós formássemos crenças diferentemente. Mas nós não fazemos. É assim que nós raciocinamos.Nosso sistema foi projetado desse jeito. Assim, minha crença está justificada.” Pode ser verdade que você não está funcionando mal quando você traça a má inferência, exatamente como o pobre carro projetado não está funcionando mal quando acelera lentamente. Talvez, esse seja o jeito que nós formamos crenças. Mas daí não se segue que sua crença seja uma crença justificada. Não se segue que isso seja bom funcionamento. Para tornar esse tipo de caso em uma objeção à teoria de Plantinga, nós precisamos somente acrescentar que a má inferência específica é parte de um sistema geralmente confiável. Assim, vamos acrescentar essa assunção. A objeção a (PF) constitui-se em que é inteiramente uma questão contingente se nós temos crenças justificadas quando nosso sistema funciona adequadamente. Se nós somos inteiramente bem projetados, então talvez, de fato, nós tenhamos crenças justificadas toda vez que nós funcionamos adequadamente. Mas funcionar como projetado não é o que conta para justificação. Tivesse nosso sistema sido não tão bem projetado, logo funcionar como projetado não produziria crenças justificadas, mesmo se a condição geral de justificação é satisfeita. Esse ponto leva a uma objeção correlata [related objection]. Suponha que haja uma falha no nosso projeto, falha que nos leva a formar crenças erradas em certas situações. Suponha, além disso, que algumas pessoas possuam a habilidade de superar essas falhas e funcionem melhor do que aquilo para o que elas foram projetadas. Por exemplo, há uma alguma razão para pensar que as pessoas não são muito bem projetadas para realizar certos tipos de raciocínio probabilístico. Nós utilizamos vários atalhos e simplificações que são convenientes, mas não completamente corretos31. Mas suponha que algumas pessoas ajam de forma a atuar melhor do que o projeto prevê; elas imaginam um modo de aperfeiçoar as tendências internamente construídas. Se função adequada é funcionar como projetado, então a pessoa que aperfeiçoa o projeto não está funcionando com projetado. A teoria, portanto, possui a implicação implausível de que as crenças dessa pessoa não estão justificadas. Alguém poderia estar inclinado a dizer que a pessoa que aperfeiçoa o projeto está funcionando adequadamente. Mas para afirmar isso, esse alguém deve atribuir à palavra “adequado” outra interpretação que aquela prevista para o termo. Uma possibilidade seria dizer que um sistema cognitivo está funcionando adequadamente quando ele forma crenças que são sustentadas pela evidência disponível para o sistema. A teoria da função adequada foi designada para ser rival ao evidencialismo, e não uma variante terminológica dele. Assim, isso parece ser uma abordagem pouco promissora. Sem dúvida, defensores da teoria da função adequada poderiam produzir respostas a essas objeções que, ao menos, valem a pena ser consideradas. Mas é justo dizer que mudanças significativas da teoria foram feitas32. 31 Consideraremos alguns resultados correlatos no Capítulo 8. 32 Para mais discussões sobre a teoria, veja Jon Kvanvig, Ed. Warrant in Contemporary Epistemology: Essays in Honor of Plantinga’s Theory of Knowledge (Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 1996). D. Conclusões sobre a Teoria da Função Adequada Simplificando significativamente, a teoria da função adequada sustenta que uma crença está justificada desde que ela resulte do funcionamento adequado do sistema cognitivo daquele que acredita [forma crenças, believer], onde se assume que o sistema esteja funcionando do jeito que foi projetado para funcionar, do jeito que se supõe funcionar. Algumas das conclusões sobre a teoria delineadas nesta seção são 1) A teoria parece possuir algumas vantagens sobre as teorias evidencialistas no que diz respeito a sua noção de crenças básicas33. 2) Uma variação do exemplo que Plantinga utiliza para criticar o confiabilismo parece aplicar-se a sua própria teoria. 3) Há uma diferença entre funcionar como projetado e funcionar bem. A teoria da função adequada faz uso da primeira noção para definir justificação. Se focamos somente em seres bem projetados, então funcionar como projetado e funcionar bem coincidem. Mas onde um ser não é bem projetado, onde sua função adequada não é tão boa, a teoria possui a implicação equivocada de que ele forma crenças justificadas quando se acomoda a esse projeto imperfeito. A condição geral de confiabilidade que é incluída na teoria não resolve esse problema. V. CONCLUSÕES Neste capítulo, examinamos quatro considerações não-evidencialistas sobre a justificação e o conhecimento. Ignorando os detalhes, as teorias podem ser resumidas da seguinte forma: 1. A teoria causal sustenta que uma crença verdadeira é caso de conhecimento quando o fato que dá origem à crença está causalmente conectado à crença de um modo conveniente. 2. A teoria do rastreamento sustenta que uma pessoa possui conhecimento de uma proposição particular quando as suas crenças sobre a proposição rastreiam a verdade dela (considerando que a pessoa utilize o mesmo método de formação de crença). 3. O confiabilismo sustenta que uma crença está justificada uma vez que ela resulte de um processo de formação de crença que confiavelmente conduza a crenças verdadeiras. 4. A teoria da função adequada sustenta que uma crença está justificada uma vez que ela resulte de função adequada do sistema cognitivo daquele que acredita [forma a crença, believer]. Cada uma dessas teorias incorre em sérias dificuldades. Pode haver conhecimento sem conexões causais e pode haver conexões causais sem conhecimento. As pessoas podem ter conhecimento sem seres rastreadoras da verdade e podem ser rastreadoras da verdade sem terem conhecimento. Crenças 33 Vale a pena considerar como isso se compara ao fundacionismo moderado com respeito a crenças não-básicas e o problema do ceticismo a ser tratado no Capítulo 7. justificadas podem resultar de processos geralmente confiáveis e processos confiáveis pode prover crenças não justificadas (dado assunções oportunas sobre quais processos são relevantes). E sistemas cognitivos funcionando adequadamente podem ter crenças não justificadas, enquanto sistemas que não estão funcionando adequadamente podem ter crenças justificadas. Há, certamente, modos de modificar e aperfeiçoar as teorias consideradas neste capítulo. É possível que versões das teorias possam ser desenvolvidas que escapem dos problemas mencionados. Contudo, é plausível pensar que o que dá errado nessas teorias é que elas reduzem o papel das razões, justificação e evidência acerca do conhecimento. Se esse é o caso, então um fundacionismo moderado emerge como a mais plausível das teorias apresentadas. Cada uma das teorias neste capítulo, assim como o fundacionismo modesto, parece dar sustentação à The Standart View. Teóricos causais dirão que as crenças que The Standart View identifica como conhecimento são crenças que têm os tipos corretos de conexões causais com os fatos a que elas estão relacionadas. Teóricos do rastreamento poderiam argumentar que nós rastreamos a verdade dessas proposições. Confiabilistas reivindicarão que nossas crenças nessas proposições são causadas por processos confiáveis e teóricos da função adequada reivindicarão que as crenças resultam do funcionamento adequando de nossos sistemas cognitivos. Como vimos no capítulo 4, os fundacionistas moderados dirão que as nossas crenças básicas constituem respostas adequadas as nossas experiências e o resto que nós conhecemos (de acordo com The Standart View) parte dessas crenças básicas justificadas através de boasinferências. Todas essas visões, por essas razões, parecem conferir algum suporte a The Standart View. Nos capítulos seguintes, examinaremos uma série de objeções a The Standart View. Essas objeções serão, em regra, formuladas para serem aplicadas mais diretamente ao fundacionismo moderados. Contudo, em pelo menos alguns casos, as objeções podem ser reformuladas, assim elas podem ser aplicadas a essas outras visões [given one of these other views]. Voltemo-nos, agora, a estas objeções.