A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
26 pág.
[Ações Preventivas] Giovanella   Determinantes.pdf   destacado

Pré-visualização | Página 1 de 9

Determinantes Sociais na Saúde, na Doença e na Intervenção 141
4. DETERMINANTES SOCIAIS NA SAÚDE,
NA DOENÇA E NA INTERVENÇÃO
Antonio Ivo de Carvalho
Paulo Marchiori Buss
A busca da saúde é tema do pensar e do fazer humano desde tem-
pos imemoriais. A luta contra a dor, o sofrimento, a incapacidade e, so-
bretudo, contra a morte sempre mobilizou as energias humanas, as suas
capacidades racionais, as suas emoções, para explicar e assim intervir
nesses fenômenos, sempre fugazes em seu hibridismo de manifestações
objetivas e sensações subjetivas. Ao longo da história humana, sucede-
ram-se marcos explicativos de tais fenômenos, sempre nos limites da com-
preensão humana sobre si e sobre o mundo, e sempre na busca, às vezes
dramática, de ações práticas para neles intervir, seja no mundo físico,
seja no mundo metafísico.
Há muito a luta contra a doença e a busca da saúde saíram do
âmbito privado de vidas individuais e do emprego empírico de conheci-
mentos primitivos. Hoje mobilizam progressivamente refinados saberes,
produzem e distribuem em larga escala conhecimentos científicos e tec-
nológicos, em busca de desvendar os complexos processos biológicos e
sociais envolvidos.
Seguramente o tema da saúde situa-se hoje no topo da agenda pú-
blica global. No centro desse processo, está o conceito da saúde como
uma complexa produção social, em que os resultados para o bem-estar
da humanidade são cada vez mais o fruto de decisões políticas incidentes
sobre os seus determinantes sociais.
Capitulo-4b.pmd 27/11/2009, 09:55141
edu
Realce
 POLÍTICAS E SISTEMA DE SAÚDE NO BRASIL142
DETERMINANTES EM SAÚDE: ANTECEDENTES REMOTOS
A doença é mais antiga que o homem, é tão antiga
como a vida, porque é um atributo da própria vida.
George Rosen
Pode-se dizer que o esforço humano para compreender o processo
saúde-doença e intervir sobre ele desde sempre defrontou-se com a
interveniência de várias classes de fatores determinantes: físicos ou
metafísicos, naturais ou sociais, individuais ou coletivos. Tais fatores com-
binavam-se para fazer predominar ora uma visão ontológica da doença
(doença como uma ‘entidade’ que se apossava do corpo), ora uma visão
funcionalista (doença como um desequilíbrio interno ou externo ao corpo).
Ao longo da história e dos sucessivos modelos de civilização, combina-
ram-se de forma variada esses diversos conceitos, em consonância com os
padrões vigentes de conhecimento e organização social. Diversas tipolo-
gias e periodizações podem ser adotadas, dependendo do aspecto que se
quer enfatizar. Curioso e obrigatório é constatar que o desenvolvimento
dos conhecimentos e práticas de saúde não seguiu uma seqüência linear,
cumulativa, ao longo da história, havendo avanços e retrocessos, idas e
vindas das crenças e dos modelos dominantes. A título de ilustração, vale
lembrar alguns momentos típicos desse processo.
Na Antiguidade Clássica, a vigência da explicação metafísica para
os fenômenos da doença (vontade dos deuses) levava à busca de terapêu-
ticas mágicas (oferendas, poções, sacrifícios), ao mesmo tempo que ti-
nham grande prestígio as práticas de recolhimento, relaxamento, em ge-
ral buscadas nos templos de Asclepius, verdadeiros hospitais do espírito,
com ambiente de penumbra, banhos, repouso e outras medidas em busca
de paz e equilíbrio, num insuspeitado holismo à procura do reencontro
de sua physis que, mais do que ausência de doença, significava integração
com a natureza, beleza exterior e interior, ideal de estética.
Mas é ainda na Idade Clássica, com Hipócrates, que tem início a
lógica do pensamento científico, baseado na observação clínica e da natu-
reza, fundando a tradição da medicina ocidental.
Hipócrates
Quem quiser prosseguir no estudo da ciência da medicina deve proceder assim.
Primeiro deve considerar que efeitos cada estação do ano pode produzir, porque
as estações não são iguais, diferem muito entre si mesmas e nas suas modificações.
Tem que considerar em outro ponto os ventos quentes e os frios, em particular
Na mitologia grega,
Higéia e Panacéia eram
filhas de Asclepius.
Higéia, deusa da saúde
e da higiene (e, depois,
da lua), era associada à
prevenção das doenças
e à manutenção da saú-
de, enquanto o culto de
Panacéia vinculava-se à
busca da cura, com a
intervenção ativa no
processo da doença
por meio de poções etc.
Capitulo-4b.pmd 27/11/2009, 09:55142
Determinantes Sociais na Saúde, na Doença e na Intervenção 143
aqueles que são universais, mostrando bem aqueles peculiares a cada região. Deve
também considerar as propriedades das águas, pois estas diferem em gosto e peso,
de modo que a propriedade de uma difere muito de qualquer outra. Usando esta
prova, deve examinar os problemas que surgem. Porque, se um médico conhece
essas coisas bem, de preferência todas elas, de qualquer modo a maior parte, ele,
ao chegar a uma cidade que não lhe é familiar, não ignorará as doenças locais ou
a natureza daquelas que comumente dominam.
Fonte: Hipócrates, 2005.
Na baixa Idade Média, com o advento do monoteísmo cristão, a ação
divina (agora vingativa e corretiva, não mais dialógica) era responsabilizada
pelos males e doenças, consideradas como punições por pecados, afrontas
e infrações cometidos por pessoas e coletividades perante os rígidos man-
damentos divinos. A terapêutica então era a penitência, eram os castigos,
até a fogueira, por meio dos quais as pessoas deveriam obter a cura expur-
gando seus erros. As epidemias eram combatidas com a busca de bodes
expiatórios individuais e sociais. Esse tipo de obscurantismo certamente
significou um estacionamento – até um retrocesso – do conhecimento e
das práticas sanitárias, que se prolongou até o Renascimento.
Na Europa, com o avanço do Renascimento e com o impulso do
pensamento racional inspirado na desnaturalização do mundo, as gran-
des epidemias, inicialmente consideradas pragas divinas, passaram a ser
objeto de observação e reflexão sistemáticas. Embora ainda muito longe
do conhecimento de microrganismos, a reflexão sobre a causalidade das
doenças passou a se concentrar nos fatores externos. Desenvolveram-se
então diversas teorias na tentativa de explicar o fenômeno do contágio e
da disseminação das doenças, principalmente das epidemias. A mais im-
portante delas foi a teoria dos miasmas, que, embora inconsistente do
ponto de vista científico, atribuía à insalubridade (pestilências) de ambi-
entes físicos a origem dos fenômenos de contágio e difusão de epidemias.
Esse é o momento em que se dá a base de evidência para as primeiras
policies de saúde, dirigidas a medidas coletivas e individuais de proteção à
saúde, ou seja, defesa contra os miasmas.
O advento da modernidade, com seus avanços epistemológicos na
desnaturalização do mundo, com a emergência das trocas mercantis e a
respectiva reestruturação das classes e dos segmentos sociais – e, sobre-
tudo, com a organização de Estados Nacionais sob a égide da mediação
interna e da defesa externa dos interesses das sociedades nacionais –,
trouxe consigo as políticas públicas, ou seja, as ações coercitivas e regula-
tórias do Estado sobre a sociedade, visando ao bem comum.
Capitulo-4b.pmd 27/11/2009, 09:55143
 POLÍTICAS E SISTEMA DE SAÚDE NO BRASIL144
SAÚDE PÚBLICA E VIDA SOCIAL: UMA ASSOCIAÇÃO HISTÓRICA
Além de regulações pontuais no período de guerras ou inovações
na gestão das cidades visando ao abastecimento e ao escoamento de deje-
tos, ocorridas em períodos anteriores, as políticas públicas para a saúde
desenvolveram-se, de maneira organizada e sistemática, a partir do sécu-
lo XVII, durante a consolidação dos Estados Nacionais, quando a popu-
lação passou a ser considerada um bem do Estado, que tinha interesse na
sua ampliação e na sua saúde, já que isso significava um aumento do po-
derio militar.
Pode-se dizer que é nesse momento que o cuidado público com a
saúde nasce e se desenvolve

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.