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SISTEMA DE ENSINO PRESENCIAL CONECTADO SERVIÇO SOCIAL VANESSA SERAFIM FELIPE A GRAVIDEZ NA ADOLESCENCIA E O SERVIÇO SOCIAL: e uma reflexão sobre suas causas e consequências NOVA CRUZ/RN 2016 VANESSA SERAFIM FELIPE A GRAVIDEZ NA ADOLESCENCIA E O SERVIÇO SOCIAL: e uma reflexão sobre suas causas e consequências Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a Unopar – Universidade Norte do Paraná como requisito parcial para a construção do título de Bacharel em Serviço Social. Tutor Orientador: Evandro Dezzoti Dantas NOVA CRUZ 2016 Dedico esse trabalho primeiramente a Deus pela força e a realização desse sonho, aos pais, irmãos, minha filha e esposo , que estiveram ao meu lado, nos apoiaram e me compreendeu ao longo desta trajetória”. AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus por ter me dado sabedoria, garra, força e principalmente por ter concedido a oportunidade de concretizar mais este sonho na minha vida. Aos meus pais, por todo carinho e dedicação, em especial a você mãe, por ter me proporcionado momentos de descontração durante a construção deste trabalho. Sem dúvidas, esses momentos foram imprescindíveis para que eu não entrasse em desespero. Aos meus irmãos, por estar sempre por perto quando mais preciso. À minha filha Maria Valentina,, por me fazer a mãe mais feliz deste mundo. Ao meu esposo por ter me apoiado e compreendido minha ausência em alguns momentos e ter me acompanhado ao longo dessa jornada. Ás minhas amigas da faculdade, Amélia, Fátima, Sérgio, Cristiane, Claudia ,Joyce e Cleide, pelos momentos felizes durante todo o curso. À minha tutora Juliane, pelo carinho, dedicação, abdicação pessoal e que fizeram com que eu quisesse me superar a cada dia. Às minhas supervisoras de estágio por todo carinho, atenção e dedicação. A Claudiana que sempre me ajudou com muita dedicação e paciência todas as horas que precisei, meu muito obrigada. “A família é uma instituição social que independente das variantes de desenhos e formatações da atualidade, “se constitui num canal de iniciação e aprendizado dos afetos e das relações sociais”‟ (MACIEL, 2006) FELIPE, Vanessa Serafim.. A GRAVIDEZ NA ADOLESCENCIA E O SERVIÇO SOCIAL: e uma reflexão sobre suas causas e consequências. 2016. 57 fls Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação de Serviço Social) - Centro de Ciências Empresariais e Sociais Aplicadas, Universidade Norte do Paraná , Nova Cruz/RN 2016 . RESUMO Esse trabalho trata-se de uma reflexão sobre a gravidez na adolescência, enfocando suas causas e consequências na vida da adolescente e de sua família diante de tal realidade. O estudo objetiva analisar quais as causas de uma gravidez precoce e as consequências adquiridas pela mesma, envolvendo neste sentido a relevância do profissional de serviço social na articulação dos processos de informação e acompanhamento das famílias envolvidas neste contexto. O referencial teórico se fez a partir de informações de autores que discorrem sobre o tema, como: Iamamoto, Lessa, Costa, Focault, Netto dentre outros. Foi utilizada como metodologia uma pesquisa bibliográfica envolvendo vários autores, escritores de artigos, publicações de artigos em revistas e sites de pesquisa sobre o tema, que contou com discussões e análises das categorias adolescência, gravidez na adolescência e questão social, especificando e pautando: conceitos e definições sobre adolescência, sexualidade e maternidade na adolescência; questão social com seu conceito e suas repercussões, a gravidez na adolescência como uma de suas expressões, bem como as políticas publicas e direitos voltados aos adolescentes. O cerne deste trabalho foi compreender a problemática que envolve a gravidez na adolescência em sua totalidade através das percepções e narrativas das adolescentes, a partir da pesquisa bibliográfica. Para abordarmos a gravidez na adolescência, faz-se necessário entender o contexto o qual estes adolescentes estão inseridos, dando enfoque primeiramente a família, a qual é a primeira instituição que os indivíduos em geral têm contato, espaço onde adquirem as primeiras experiências e é também o local onde iniciam o processo de aprendizagem. PALAVRAS CHAVES: Adolescência, Serviço social. Gravidez precoce. Causas. FELIPE, Vanessa Serafin .TEENAGE PREGNANCY AND SOCIAL SERVICES: and a reflection on its causes and consequences. 2016. 57 pgs Work Completion of course (Graduate Social Work) - Centre for Applied Business and Social Sciences, University of Northern Paraná, New Cross / RN 2016 ABSTRACT This work it is a reflection on teenage pregnancy, focusing on its causes and consequences on adolescent life and his family at such a reality. The study aims to analyze what are the causes of early pregnancy and the consequences acquired by it, involving in this regard the importance of professional social work in the articulation of information processes and monitoring of the families involved in this context. The theoretical framework was made from information from authors who talk about the topic, as Iamamoto, Lessa, Costa, Focault, Netto and others. Was used as methodology a literature search involving several authors, articles writers, articles published in journals and research sites on the subject, which included discussion and analysis of adolescence categories, teenage pregnancy and social issue, specifying and guiding: concepts and definitions of adolescence, sexuality and motherhood in adolescence; social issue with its concept and its repercussions, teenage pregnancy as one of its expressions, as well as the public policies and rights aimed at adolescents. The core of this work was to understand the issues surrounding teen pregnancy in its entirety through the perceptions and narratives of adolescents from the literature. To approach the teenage pregnancy, it is necessary to understand the context which these teenagers are inserted, by focusing first the family, which is the first institution that individuals often have contact, space where they acquire their first experiences and is also where they initiate the learning process. KEYWORDS: Adolescents, Social work. Early pregnancy. Causes. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................09 2 CAPITULO I - GRAVIDEZ E ADOLESCÊNCIA: Duas categorias em análise.12 2.1 Conceitos e definições sobre adolescência......................................................12 2.2 A Sexualidade na Adolescência .......................................................................17 2.3 A Maternidade na Adolescência.........................................................................20 2.4 A educação sexual necessária..........................................................................24 3 CAPÍTULO II - GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA, QUESTÃO SOCIAL E POLÍTICAS PÚBLICAS.........................................................................................29 3.1 Questão Social: conceito e repercussões........................................................31 3.2 Gravidez na Adolescência como uma das Expressões da Questão Social........37 3.3 Políticas Públicas e direitos voltados aos Adolescentes...................................42 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................51 REFERÊNCIAS......................................................................................................53 1. INTRODUÇÃO Os desafios impostos ao Serviço Social pelas contradições da sociedade capitalista são inúmeros. A sociedade se modifica se reestrutura. A questão social vai se metamorfoseandoapresentando-se em novas expressões. Contemporaneamente a gravidez na adolescência, quando ocorrida em famílias em situação de vulnerabilidade social, pode ser inclusa nas novas expressões da questão social. O presente trabalho tem por objetivo discorrer os significados da gravidez na adolescência, entendendo-a como uma questão de cunho coletivo. Sua idealização surgiu por meio de minhas observações e inquietações enquanto estagiária de Serviço Social no NASF.A temática da adolescência tem se constituído nas últimas décadas num importante objeto de estudo para várias áreas do conhecimento assim como tem despertado também o interesse, ou até, certa preocupação, de alguns segmentos da sociedade, sendo comumente, um alvo focalizado das políticas públicas. Frente à problemática da gravidez na adolescência em decorrência do exercício inadequado da sexualidade, faz-se necessário aprofundar o estudo sobre as implicações da gravidez nesta faixa etária visto que este acontecimento pode ter repercussões que comprometam o futuro de muitas jovens. Por meio deste conhecimento, pretende-se chamar a atenção do quanto à exposição a práticas sexuais não seguras podem ter sequelas biopsicossociais por toda vida. Para tanto, este estudo objetiva realizar uma revisão científica nacional relativa à gravidez na adolescência, com ênfase na análise das implicações deste evento na vida de jovens. O trabalho em questão justifica-se um panorama sobre o conteúdo da pesquisa que se pauta em analisar as causas e consequências da gravidez na adolescência, frente a uma situação que é muito comentada na atualidade que está ligado a educação familiar, planejamento dentre outros fatores, estabelecendo ainda inter-relação com a importância do assistente social no contexto de tal realidade. De acordo com estágio realizado no NASF e as experiências vividas no trabalho, nota se um número elevado de adolescentes grávidas no determinado território observado. De acordo com as observações despertou se um interesse em conhecer os problemas enfrentados pelas adolescentes inseridas nessa situação. Em decorrência desses fatos nota se a importância de conscientizar os sujeitos envolvidos na realidade do tema para que sejam tomadas medidas de prevenção existentes para se evitar que ocorra uma gravidez na adolescência evitando vários transtornos e possíveis consequências na vida futura dos sujeitos. A pesquisa foi desenvolvida, de acordo com o tema proposto, partindo sempre da temática que estava voltada para tentar entender alguns pontos importantes de nossa pesquisa, analisando assim, as influências do assistente social, estabelecendo relações e análises com os estudos desenvolvidos na realização deste trabalho que tinha como ponto referencial entender quais as causas e as consequências de uma gravidez precoce, referenciando nestes aspectos possíveis interferências do serviço social para acompanhar como mediador os problemas enfrentados por todos os envolvidos no processo. É importante mencionar que a maior incidência da gravidez é entre jovens pobres e de menor escolaridade, isso mostra a dificuldade de acesso às informações sobre contracepção e aos insumos contraceptivos. No entanto, o conhecimento sobre métodos contraceptivos não garante seu uso. A maioria das adolescentes pratica a primeira relação sexual sem nenhuma proteção, o que pode ser resultado de um modelo de socialização que nega às mulheres o exercício da sexualidade, fazendo com que as meninas não desenvolvam habilidades para falar de sexo e sintam-se pouco à vontade para abordar o tema com o parceiro, até mesmo sem se prevenir contra as doenças sexualmente transmissíveis O objetivo geral é de abrir espaços de discussão sobre os desafios que o adolescente enfrenta com a gravidez precoce de modo a envolve-lo com o processo decisório, identificando a necessidade de formação de pais, educadores e decisores públicos em saúde dos adolescentes e envolve-los num programa de intervenção apropriada ao problema. Os objetivos Específicos: Fortalecer o poder de decisão do adolescente sobre a sua capacidade de negociação e recusa diante de comportamento de risco e não desejável; Realizar um levantamento bibliográfico das publicações científicas que abordem as consequências sociais da gravidez na adolescência; Promover e valorizar as atividades de educação e de informação dirigida aos adolescentes objetivando aumentar os conhecimentos da biologia reprodutiva e Apresentar um espaço que permita a discussão do problema do adolescente de modo que lá possa ser monitorizado e avaliado os programas de assistência e intervenção no grupo de risco. A metodologia utilizada para a realização do trabalho foi uma pesquisa bibliográfica envolvendo autores que discorrem sobre o tema que foi realizada, a partir concepções de autores que discorrem sobre o tema, além de sites de pesquisa, artigos de revistas etc. Enfatizar a relevância do assistente social para a educação, informação e acompanhamento no seu meio de atuação poderá trazer uma contribuição no que diz respeito à saúde e bem estar favorável ao adolescente, bem como a família e o contexto social que as mesmas estão inseridas. Instigadas pela inquietação de diagnosticar o problema e na tentativa de propor possíveis soluções no intuito de beneficiar a sociedade de modo geral e consequentemente enriquecer nosso trabalho como profissional é que propomos este estudo. Deste modo, espera-se que este TCC tenha o sentido de suscitar uma maior discussão para o Serviço Social, no âmbito da atuação profissional, visto que o debate acerca do tema é escasso e carente de uma maior intervenção. Este trabalho se propõe a dar uma contribuição para a discussão em torno dessa questão Este trabalho foi produzido da seguinte forma: No primeiro capítulo, intitulado “Gravidez e Adolescência: duas categorias em análise” é abordado os conceitos e definições sobre a adolescência, a sexualidade na adolescência, bem como a maternidade como uma possível ocorrência durante esse período. No segundo capitulo abordaremos como demanda para o serviço social na área da saúde a gravidez na adolescência, será apresentado a importância de ter um trabalho preventivo já que o serviço social é uma profissão interventiva e tem como finalidade propor mudanças a fim de trazer transformações na vida dos sujeitos em determinado território á Tem-se então aproximações com as Estratégias Teórico-metodológicas de intervenção do Serviço Social Junto a Adolescentes e Jovens e Desafios Ético-Polítcos. 2 CAPÍTULO I - GRAVIDEZ E ADOLESCENCIA: duas categorias em análise 2.1 Conceitos e definições sobre adolescência A adolescência é um período que, devido sua diversidade de manifestações, desencadeou inúmeros conceitos. Essas manifestações, por sua vez, subsidiaram inúmeras publicações disponíveis: Autores nacionais e estrangeiros lotam as prateleiras das livrarias fornecendo seus conhecimentos sobre o assunto. Assim, a repercussão dos fatores manifestados durante essa fase da vida nas dimensões biológica, psicológica, social e cultural direciona um olhar mais focalizado para os indivíduos que se encontram na fase adolescência. Nesse sentido, são várias as definições da adolescência, sendo que cada cultura possui seu conceito, baseando-se sempre em diferentes idades para definir esse período. Segundo Outeiral (2004, p.08) ressalta que quando falamos em adolescência, precisamos pensar em dois elementos básicos: o primeiro, temos que considerar que existem distintas experiências adolescentes, e essas, dependem dos aspectos psicológicos e sociais de onde vive o adolescente; o segundo, é necessário compreender que a adolescência tem diferentes fases e que estas têm características peculiares. Ainda de acordo com o autor (2004) citado, a adolescência é constituída em duas fases, sendo a primeira, dos dez aos dezesseis anos, e a segunda, dos dezesseis aos vinte anos. Assim, existem três etapas que caracterizam a adolescência, estas estão descritas como: A adolescênciainicial, que vai dos dez aos catorze anos, caracterizada pelas transformações corporais e as alterações psíquicas. A adolescência média, dos catorze aos dezessete anos, que tem como seu elemento central as questões relacionadas à sexualidade, em especial, a passagem da bissexualidade para a heterossexualidade. A adolescência final que varia dos dezesseis ou dezessete a vinte anos. Nesta etapa, o adolescente procura estabilidade social e viabilidade econômica, ocorrem novos vínculos com os pais e novos processos psíquicos do “mundo adulto”. Para Osório (2002, p. 12), a adolescência não é apenas o período em que ocorrem acentuadas modificações, mas aquela etapa evolutiva onde se caracterizao processo de aquisição da individualidade, com todos os comemorativos que assinalam o esforço pessoal para se diferenciar da matriz sociofamiliar de origem e criar o seu próprio universo vivencial. Aberastury e Knobel (2005, p. 10) acrescentam que na psicologia, a adolescência é uma fase marcada por intensos processos conflituosos, com esforço de autoafirmação. É também um período no qual ocorre uma grande absorção de valores sociais e a elaboração de projetos que levam à plena integração. Para a Organização Mundial de Saúde – OMS (1999) revelam a adolescência é um período de mudanças fisiológicas, psicológicas e sociais que separam a criança do adulto, prolongando-se dos 10 aos 20 anos incompletos. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define, em seu artigo 2º, que “se considera criança a pessoa até 12 anos incompletos, e adolescentes aquela entre 12 e 17 anos incompletos”. (ECA, 2009, p. 01). Zagury define a adolescência como: Uma fase de transição entre infância e juventude. Pode ser uma etapa extremamente importante do desenvolvimento, com características próprias, na qual levará a criança a torna-se um adulto. As mudanças corporais que ocorrem são universais, enquanto as psicológicas e sociais variam de cultura para cultura, de grupo para grupo e até de indivíduos de um mesmo grupo (ZAGURY, 2009, p. 25). Paralelamente ao desenvolvimento de mudanças corporais, ocorre também o desenvolvimento à nível social. Nessa perspectiva a adolescência está envolta a um emaranhado de modificações. De acordo com Zagury (2009, p. 26) é neste período que o humor tende a se alterar consideravelmente, pois este está coadunado com esta fase. A essa alteração humorística Tiba (2004, p. 10), classifica como “onipotência pubertária”. Em que o adolescente passa a defender-se como pode diante de novas situações. Completa ainda que no caso de menino, este tende a ficar mais bravo, mal-humorado, contestador, insatisfeito, agressivo, impulsivo; a menina luta mais pelo que considera “seus pontos de vista” e fica enfurecida contra injustiças, principalmente a colegas, a quem defende como ardor. É uma severa vigilante dos castigos aos irmãos, fala muito e chora com facilidade. Nessa perspectiva, a adolescência constitui-se como um período de contradições, de formação da identidade e da autoestima, pois é, a saída do mundo mágico das crianças para a entrada no mundo repleto de responsabilidades e cobranças. Nesta fase há uma busca constante pela identidade pessoal para qual o jovem precisa de tempo. Conforme Zagury (2009, p. 12), na adolescência também se destaca o interesse pelas coisas do mundo, por preocupações sociais. Os jovens adolescentes começam a perceber as diferenças sociais, as carências de determinados segmentos da população. Não é a toa que um grande número de movimentos revolucionários encontra nos jovens seus maiores defensores e até lideres. É o momento do sonho, em que se acreditam como verdadeiro super-heróis, capazes de corrigir injustiças e consertar o mundo. Esta fase é de suma importância para que estes adolescentes mais tarde, se engajem num trabalho em que a preocupação social coexista, tornando-os cidadãos não apenas voltados para o campo da individualidade, mas com o campo da coletividade, visando à melhoria e aperfeiçoamento da sociedade como um todo. O autor supracitado (2009, p.18), completa ainda dizendo que durante essa fase é comum vermos a oposição de obediência às normas e as figuras de autoridade, todas se tornam alvos de contestações. “Aqui se questiona a autoridade do juiz, do padre, do pastor, do professor, do pai, considerando-se que essa noção de autoridade dos adolescentes se atualiza continuamente, sendo o jovem cada vez mais influenciado pelo ambiente” (p. 20). É assim à medida que os vínculos sociais vão se expandindo e se estabelecendo, um conjunto de novas características vai se tornando importante ao adolescente. Para os pais esse período também conduz algumas angústias. Nas muitas palestras e encontros a que venho tendo com os pais, pude perceber que há uma grande, uma enorme ansiedade no que se refere á chegada dessa fase do desenvolvimento. Seja porque tanto a mídia escrita como eletrônica ou os inúmeros livros publicados a respeito parecem difundir uma certa aura ao mesmo tempo mágica e temida a respeito dessa 19 etapa, como pelos relatos de amigos, ou testemunhas pessoais dessas dificuldades, o certo é que existe uma grande expectativa sobre “como será, quando o meu filho for um adolescente (ZAGURY, 2009, p. 20-22). Complementando esta análise a autora citada acima, ressalta que, apesarde muito difícil, é justamente nesse momento que eles precisam do apoio e compreensão da família (muito embora às vezes não pareça dada a onipotência que costumam demonstrar). Conhecer, portanto, o pensamento do adolescente certamente irá auxiliar muito nesse propósito. Outra manifestação importante e inerente ao processo da adolescência é a puberdade, um processo biológico que se peculiariza pelo surgimento de uma atividade hormonal que desencadeia os chamados caracteres sexuais secundários, nos quais levarão à capacitação reprodutiva, ou seja, o amadurecimento sexual. A respeito dessa análise, Tiba discorre: As características sexuais masculinas secundárias surgem geralmente nesta sequência: início do crescimento dos testículos: nascimento de pelos pubianos lisos, pigmentados; início e aumento do pênis; primeiras mudanças de voz; primeira ejaculação; surgimento dos pêlos pubianos encarapinhados, distribuídos em forma de losango com uma das pontas atingindo o umbigo; crescimento máximo; aparecimento dos pêlos axilares; acentuadas mudanças de voz; desenvolvimento da barba. No surgimento das características sexuais femininas secundárias, a sequência é como segue: aumento inicial dos seios; aparecimento dos pêlos pubianos lisos, pigmentados; aparecimento dos pêlos pubianos encarapinhados, distribuídos em forma de triângulo, com borda superior na horizontal; menstruação; crescimento dos pêlos axilares ( TIBA, 2004, p.06). Diferentemente da puberdade, que se constitui apenas em um processo biológico, a adolescência se configura como um fenômeno psicológico e social. Essa maneira de compreendê-la traz importantes elementos de reflexão, pois, sendo um processo psicossocial, a adolescência terá diferentes peculiaridades conforme o ambiente social, econômico e cultural em que o adolescente está inserido. (OUTEIRAL, 2004, p. 16). No que tange a dimensão cultural a adolescência surge no ocidente sob contexto da consolidação do individualismo – cujo marco histórico fundamental é a Revolução Francesa -articulado à constituição dos limites entre as esferas pública e privada da vida social. Nesse novo contexto cultural, a adolescência, apresentando-se como um conceito peculiar e específico de uma cultura em que a liberdade e a autonomia tornaram-se os valores hegemônicos. (FOUCAULT, 2002. p. 17). Nessa perspectiva, conforme destaca Tiba (2004, p.07), “a adolescência é como um segundo parto: o filho nasce da família, para entrar na sociedade”. Esse parto que vai do final da infância ao início da fase adulta começa com iniciadores biológicos e o seu término está relacionado à autossuficiência social. Dessa maneira, a adolescência nada mais é, do queum novo nascimento de características mais elevadas e mais plenamente humanas. Atualmente, os jovens vivem um momento histórico no qual a tensão local e global se manifesta de maneira contundente (BRUNO, 2009, p. 11). Nunca houve tanta integração globalizada e, ao mesmo tempo, nunca foram tão profundos os sentimentos de desconexão. Destaca ainda os autores que as profundas mudanças no mercado de trabalho atingem de maneira particular os jovens contemporâneos. Entretanto, ser adolescente em um mundo dominado pela mídia, especialmente a mídia televisiva, tornou-se um marco desta geração. Elas costumam assistir TV como fonte de entretenimento e estão sempre expostas aos efeitos midiáticos. Como bem trata Aberastury que nos fala que, a produção da indústria cultural assinalando que esta se direciona para o retorno de lucros tendo como base padrões de imagem cultural preestabelecida. A mídia conquista o interesse das massas sem trabalhar o caráter crítico do espectador, influencia as pessoas no modo de agir, de pensar e até no modo de se vestir. Cria as demandas, orienta os costumes e hábitos da sociedade, além de definir estilos, bordões e discussões sociais. A mídia dita às regras, as tendências e os ídolos a serem adorados e seguidos (ABERASTURY, 2005, p. 14). A respeito desse assunto, Chauí ressalta que a produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas, justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las realmente, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as ideias. Para a autora, o espectador é visto como incapaz de pensar a imagem e a mídia faz a mediação entre a imagem e como o espectador deve interpretá-la.( CHAUÍ, 2006, p. 13). Nesse sentido, Quadrado (2008, p. 14) “traz que vivemos em um tempo em que não podemos mais estabelecer a adolescência como uma mera condição de idade”. É preciso entendê-la como uma produção discursiva e heterogênea, uma vez que existem múltiplas formas de ser adolescente devido aos diversos meios sociais. Assim, não existe adolescência como acontecimento biológico, psicológico, homogêneo e estático; existem adolescências múltiplas, mutáveis, heterogênea, (re) construídas a cada momento nos diversos nós da rede social. Desta forma, sob uma perspectiva moderna, não existe conhecimento absoluto, realidade cristalizada, esperando para ser conhecida e domada; um entendimento universal, que se faça fora da história ou da sociedade. No lugar disso, o projeto modernista propõe que o mundo e o conhecimento dele sejam vistos como socialmente construídos. Isso significa pensar que todos nós estamos engajados na construção de significados, em vez de engajados na descoberta de verdades. Desse modo, não existe somente uma realidade, mas várias. O conhecimento não é único, e sim múltiplo, variável, fragmentado e mutável, inscrito nas relações de poder, que lhes determinam o que é considerado como verdade ou falsidade. A verdade é compreendida somente como uma correspondência, uma representação como tal deve ser tomada. Pelo exposto, conceituar e definir adolescência envolve uma gama de aspectos e fatores relacionados às transformações por completa que ocorrem na vida da pessoa, nas quais, para serem compreendidas necessitam a interpretação da totalidade dos aspectos e fatores relacionados nesse processo de transição. 2.2 A Sexualidade na Adolescência Ao se abordar o tema adolescência no contexto contemporâneo é indispensável discutir o fenômeno da gravidez na adolescência que, por sua vez, emerge com outros pontos centrais, tais como sexualidade e gênero, moralidade e relações familiares, nos quais, revela complexidade desse fato social. Comecemos com um resgate histórico sobre o papel feminino, no qual se constituiu perante a sociedade para dedicação única e exclusiva aos cuidados para com o lar e os filhos. Em outrora a posição destinada às mulheres era a de extrema submissão ao marido. A vida reprodutora feminina começava muito próxima da puberdade, devido à única atribuição que lhe era pertinente na época. Nesse contexto, o casamento não se baseava numa escolha afetiva de parceiros e sim muito mais como uma forma de obediência às expectativas familiares e sociais. (SILVA, 2003, p. 10). Fatos que ocorreram na dinâmica social concomitantemente ao fim da II Guerra Mundial subsidiaram transformações consideráveis no que tange a ótica dos valores sociais, impulsionando os jovens a se posicionarem com mais liberdade sobre a prática sexual, ou seja, ao uso do corpo em sua totalidade. Com o advento da pílula anticoncepcional permitiu-se uma separação entre ato sexual e procriação e desse modo houve uma reconfiguração de práticas heterossexuais. (PRIORE, 2011, p. 18). Como nos lembra Silva), foi o movimento feminista dos anos 1970 e 1980 que pôs em pauta o tema da sexualidade feminina. As meninas que vinham sendo educadas para a virgindade (enquanto os meninos eram incentivados a exercer sua sexualidade o quanto antes), culminando num casamento em que exerciam o papel subserviente, passam a reivindicar o prazer e o fim da estrutura social de dominação masculina. (SILVA, 2003, p. 21). Nesse contexto pela a primeira vez as mulheres tiveram coragem de exigir o seu orgasmo. Mesmo com o movimento revolucionário ocorrido em torno da sexualidade a luta ainda não se apresenta totalmente vencida. Ainda hoje é forte o paradigma entre as mulheres que não se sentem a vontade e segura para lutar pelo prazer sexual, seja por timidez ou por medo de parecerem levianas, a verdade é que para muitas a verdadeira revolução sexual ainda não aconteceu. Os homens também não estão isentos desse paradigma que envolve a sexualidade, pois, embora historicamente seja melhor a situação masculina, os homens não vivem o prazer de forma perfeita ou ideal, pois, as pressões sociais sobre o desempenho masculinos são muito fortes. A manutenção constante de um desempenho viril, de potência, pode ser muito difícil e estressante (FONSECA, 2009, p. 20). Sobre o assunto da sexualidade, Foucault (2002, p. 23) acredita que esta deve ser compreendida como “uma invenção social”, um construto histórico que abrange toda uma transformação na sociedade, sendo também um dado histórico/local e não uma condição natural do indivíduo como foi amplamente divulgado pelas ciências de tendência positivista. É possível observarmos que o contexto moderno destinou ao campo da sexualidade discursos que inauguram seus vários sentidos, entendimentos e tratamentos, produzindo uma série de estranhamentos e percepções estereotipadas, as quais são digeridas em conteúdos escolares. Além disso, o apelo sexual da máquina consumista é irresistível. Cada vez mais a sexualidade se estabelece como objeto; cada vez mais o consumismo e a pornografia alimentam os jovens, produzindo uma confusão sobre a prática sexual, como uma verdadeira libertação sexual. Ou seja, cada vez mais e mais se apreende sexo por exclusão. Sobre a sexualidade e o espaço educacional, Ozella,) diz que: Vale acrescentar, que a reflexão sobre a sexualidade traz a tona o tratamento sobre o tema sexo no espaço educacional. Enquanto parte do corpo humano, há toda uma classificação de cada componente; já enquanto ato, há a reiteração de sua função reprodutiva. Ainda que, nas aulas de Ciências e Biologia ensaiem uma exploração do tema, termina-se por cair, numa perspectiva médico – patologizante. É notório que sexo é objeto de estudo da medicina, ou, no máximo, da psicologia ou ainda da sexologia. Perdura a naturalização do pensamento do sexo como apenas mais um aspecto natural da vida humana. Contudo, o sexo se personifica em um processo de inteirações de encontro com a realidade diferente da sua, a procura de uma identidade, em outras palavras, um fato social. (OZELLA, 2003, 181). A sexualidade, portanto, está presente na vida do individuo em um conjunto queenvolve gênero, identidade, orientação, erotismo, envolvimento emocional, amor, reprodução e cultura, se manifestando através de pensamentos fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, práticas, papeis e relacionamentos. Portanto ela não se remete somente ao prazer e a reprodução. (HEILBORN, 2006, p. 28). Desta forma, a sexualidade não se estabelece tão somente no campo da ciência e da biologia. A categoria se emerge também no campo social e cultural, pois, relaciona-se como as pessoas vivem e sentem seus desejos, trocam carinhos, afetos, prazeres, interligados com a identidade de cada indivíduo que se intercambia, se tocam e se chocam. Esta dinâmica está para além da genitalidade e se faz presente na vida do ser humano desde a primeira infância até a velhice. Nessa perspectiva, as concepções sobre sexualidade devem ser abordadas de forma articulada entre os componentes da identidade e gênero, considerando sua construção histórica, social e cultural, pois, elas apresentam uma estreita relação com a formação da identidade dos indivíduos pelo processo civilizatório de cada sociedade. (LOURO, 2005, p. 23). Desse modo, uma educação aliada ao material didático-pedagógico ausente de uma revisão curricular atualizada para questões voltadas ao campo da sexualidade e suas especificidades, embasada numa percepção de igualdade e integração dos seus indivíduos, configura-se um enorme vazio, articulado a uma lacuna que dificulta uma visão positiva da sexualidade. É preciso ir além e, ao mesmo tempo, partir de outros pressupostos, uma vez que a sexualidade é um dos direitos à saúde sexual e reprodutiva. Vale ressaltar que, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (2008), as políticas voltadas para o público são orientadas mais a campanhas sanitárias, cuja finalidade nem sempre é reconhecida pelo o jovem como algo que lhe diz respeito. Em vários casos, o jovem se confunde como um problema que se pretende combater. Alguns dados do IPEA apontam, ainda, um despreparo das instituições de saúde para lidar com essa faixa etária, tornando corriqueiras as dúvidas éticas e a atuação de um controle de sexualidade, transformando o usuário do serviço em origem do problema. Com isso, o poder público tem o desafio de oferecer políticas públicas capazes de alertar para a importância de uma experiência sexual saudável e que esteja com sua atenção voltada não só para doenças sexualmente transmissíveis e gestações indesejadas, mas, ir mais além, de um modo mais simétrico, como algo essencial à vida e ao bem estar. Como já trouxemos, o sexo como um fato social, emerge uma compreensão de sua prática para além do caráter biológico; a sexualidade não se resume apenas em um modelo biológico, ela se constitui em uma dimensão socialmente construída, que contempla as perspectivas físicas, emocionais, psicológicas, culturais e sociais. Vimos que abordar o tema adolescência é levantar discussões não só sobre o tema sexualidade, mas também outros pontos centrais, como a questão que envolve o processo da maternidade ocorrida na adolescência. 2.3 A Maternidade na Adolescência Quando se fala de maternidade leva-nos de imediato a pensar num outro conceito – o de gravidez, os quais, frequentemente são tidos como sinônimos, embora traduzam duas realidades bem diferenciadas entre si, tecidas que são em imaginários diferentes (FIGUEREDO, 2001, p. 19). Sobre o assunto Maldonado, nos explicita que a gravidez refere-se ao período, de mais ou menos 40 semanas, que se compreende entre a concepção e o parto. Informa ainda que é nesta fase que as alterações permeiam nas alterações físicas e hormonais. Sendo que estas acarretam, obviamente, vivências psicológicas particulares.(MALDONADO, 2001,p. 14). Ainda o mesmo autor (2001, p.14) diz que” a maternidade se caracteriza por ser um projeto de longo prazo no qual envolve a suficiente prestação de cuidados e dádiva de amor que possibilita um desenvolvimento sadio e harmonioso à criança recém-nascida”. De acordo com o autor acima, a categoria maternidade está para além de um fato biológico, refere-se a uma vivência inscrita numa dinâmica sócio-histórica que envolve prestação de cuidados e envolvimento afetivo em medidas variáveis, enquanto que gravidez se caracteriza por ser um período de cerca de quarenta semanas entre o momento da concepção e o parto; é uma fase temporalizada, na qual se peculiariza por modificações no corpo, acompanhadas das consequentes vivências psicológicas. A fase temporária caracterizada como gravidez, se apresenta como um momento delicado, no qual exige atenção e, semelhante à adolescência, possuem particularidades próprias. Quando se juntam esses dois momentos, adolescência e gravidez desencadeiam um leque de transformações que ocasionam um emaranhado de mudanças. Vale destacar que o fenômeno da gravidez na adolescência vem se apresentando como um tema relevante na realidade social tanto no Brasil, como no mundo. De acordo com o ultimo levantamento feito pelo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2014), em cada cinco partos no Brasil um deles é de mãe adolescente. Só em 2006, nasceram 22.161 bebês, filhos de mães com menos de 15 anos. Na faixa dos 15 aos 19 anos, chega à 551.093. O porcentual de nascimentos de filhos de adolescentes já alcançou 20,5% do total no país, mas este quantitativo difere entre regiões brasileiras. Como já foi discutido, esse fenômeno não se constitui como um fato novo. Em outrora, a maternidade era por excelência a única posição social pertinente ao gênero feminino. Essa posição social ocorreu com a consolidação da ideia de amor materno na França no século XX, a partir de pressupostos de que a mãe dispunha de uma natural capacidade de afetividade com seus filhos. Essa ideia socialmente consolidada naturalizou-se com o conceito de “instinto materno”, e assim, foram construídas diversas argumentações biológicas e científicas para justificar e normatizar comportamentos (CARNEIRO, 2002, p. 232). Conforme Prenh (2002, p. 32 ) a mulher é biologicamente pré-determinada a gestar e foi criada, desde os tempos primitivos, para cuidar da prole. Enquanto a mulher possuía a função da domesticação e cuidado dos filhos, o marido possuía a função da caça e de outras atividades que exigiam força e velocidade. Reforça ainda que: Essa conjuntura encontrou terreno fértil no campo de produção de gênero, ou seja, as características pertinentes e naturalizadas na mulher como mãe foram ao encontro de interesses masculinos como forma de exercer o poder (PRENH, 2002, p.32). Pressupondo outra versão sobre a mesma teoria, a autora Elisabeth Badinter discorre que: O amor materno é resultado de uma construção social e cultural, nada tendo a ver com instinto, fator sanguíneo ou um determinismo da natureza. Uma mulher pode ser feliz sem ser mãe, e que não existe, por parte dela, uma pulsão irresistível em se ocupar do filho. Neste entendimento, a maternidade não seria um fenômeno inerente à condição feminina, uma etapa onipresente no seu ciclo vital. (BADIENTER, 2001, p. 28). Ao decorrer dos anos e com o surgimento da modernidade, a função da maternidade determinada historicamente para a mulher sofre mudanças, alterando seu posicionamento frente à sociedade. Essas mudanças ocorridas na ótica da maternidade marcam também a estrutura familiar com ampliação da autonomia feminina, as mulheres passaram a dividir com os homens o sustento da casa e a exercer as novas funções. Este exercício profissional da mulher, mãe, esposa e dona de casa passa a exigir, por parte da figura feminina, uma sólida estrutura de personalidade, uma capacidade rápida de decisão e uma grande habilidade para contornar os múltiplos problemas e contratempos que encontra em sua caminhada diária em busca de uma autorrealização dentro e fora do lar. (ARIÉS, 2001, p.27). Nessa perspectiva, Prenh (2002, p. 29) traz que com a desvinculação do exercício sexual da reprodução, o acontecimento de uma gestação se estabelecesse comoum período socialmente determinado pelos os novos arranjos modernos, e dentro desse contexto a gravidez na adolescência se estabelece como um problema. Segundo, a OMS (1999) a gravidez na adolescência devido às suas repercussões sobre a saúde da mãe e do bebê deve ser considerada de alto risco, devido a adolescente não ter sua formação fisiológica completamente desenvolvida, pela ossatura da pelve em processo de desenvolvimento e pelo o útero não preparado para receber e deixar desenvolver um feto. Assim, a gravidez no período da adolescência apresenta mais riscos de complicações que mulheres em idade fértil apropriada. (BRASIL, 1999). Por outro lado, Brandão (2006, p.34), destaca que “a gravidez na adolescência não é de alto risco, contanto que a adolescente tenha um acompanhamento adequado, boa alimentação, cuidados higiênicos necessários e apoio emocional.” Também não é um problema da sociedade moderna, porque em todas as épocas as mulheres engravidaram na adolescência. É um problema da sociedade moderna a gravidez indesejada na adolescência, que ocorre de forma desestruturada. Nesse sentido, a maternidade, pode está associada com o fato de adolescentes, desejarem gestar precocemente, ser mãe pode ser um projeto de vida consagrado, em função das representações sociais da maternidade, que levam à obtenção de reconhecimento e valorização social. Essas jovens podem perceber que a ascensão social através de estudo e trabalho não está garantida, em função de questões contextuais (DADORIAN, 2003, p. 24). Contemplado o assunto, Ariés discorre: A gravidez e a maternidade têm uma repercussão desigual entre as classes sociais. Nas classes economicamente mais favorecidas, observa-se a valorização da formação acadêmica e profissional, devendo a maternidade e/ou a constituição de uma família ser adiados para não comprometer sua futura inserção no mercado de trabalho. Já nas classes populares sem muita perspectiva ao mercado de trabalho, as fontes de gratificação e reconhecimento para a mulher estão ligadas ao desempenho dos papéis de esposa e de mãe ( ARIÉS, 2001, p.32). Desse modo, considerando a amplitude de fatores que envolvem este fenômeno pretendemos compreende-lo a partir da interação de vários pontos de análise. Ressaltando, que várias são as abordagens em torno da temática e que dependendo da orientação teórica e empírica de alguns autores, o tema pode ser abordado de forma simplista com uma única causa. Nesse sentido, superar o discurso fatalista, que sublinha a gravidez na adolescência enquanto problema de saúde pública ou simplesmente um dado demográfico, que o atrela a um discurso conservador e inflexível, é não considerar o jovem, em pleno exercício de sua sexualidade, do seu contexto familiar e sociocultural é simplesmente forjar explicações que concebem a questão da gravidez na adolescência enquanto uma sequência biográfica juvenil dotada de um único sentido. A respeito da análise Heilborn discorre: Transformar a gravidez na adolescência como uma problemática que carrega invariavelmente várias formas de sofrimento é simplificar a questão e defini lá como uma resposta homogênea para todas as jovens e mães que atravessam essa etapa. É preciso então, contextualizar o fenômeno a partir dos próprios sujeitos, situando-os, principalmente em suas estruturas socioeconômicas para que seja possível determinar suas especificidades (HEIBORN, 2006, p.25). Em suma, considerar os fatores familiares, socioeconômicos e culturais do contexto de pertença da adolescente se faz relevante para uma análise mais ampla deste fenômeno. 2.4 A educação sexual necessária Existem várias explicações plausíveis entre as adolescentes para iniciarem a atividade sexual, como testar as transformações ocorridas no seu corpo, capacidade de criar intimidade e de possuir atratividade física, além de adquirir status de ser mais maduro, com autonomia e, com isso, rejeitar as normas e tabus sociais. Segundo Souza, a puberdade é um fenômeno biológico: significa o ponto do desenvolvimento no qual as mudanças da pubescência atingem a maturidade reprodutiva, simbolizada pela primeira menstruação (menarca) no sexo feminino e pela produção de secreção espermática (semenarca) no sexo masculino (SOUZA, 2003, p. 65). Para Matarazzo e Takiut explicita seus pressupostos, a orientação sexual deve ser iniciada nos primeiros anos de vida da criança e deve continuar durante todo o seu processo de crescimento e amadurecimento [...] as sim, o propósito da educação sexual, é indicar a imensa riqueza da sexualidade humana e seu valor, mais do que controlar ou suprimir as suas manifestações(TAKIUT, 2004, p.12). As atitudes e comportamentos relativos à sexualidade relacionam-se diretamente à cultura do indivíduo, que varia de acordo com local, época e circunstância, sendo os papéis sexuais designados ao indivíduo para ele se portar como a determinada sociedade rotula de moral ou certo. Isso influencia diretamente no início da atividade sexual, que estatisticamente, era aos 15 anos para o sexo feminino, e, hoje, é estimada em torno dos 12-13 anos e realizada sem nenhum acompanhamento ou cuidado especial. As atitudes sexuais variam de indivíduo para indivíduo, e o envolvimento numa relação sexual não significa que o adolescente esteja preparado para esta atividade com responsabilidade; da mesma maneira que não está livre de preocupações sobre o seu desempenho sexual, sobre a paternidade, a maternidade, pois, como tudo na vida, são resultados de constante aprendizagem. Portanto, nesta fase de grandes transformações e crises ligadas a comportamentos sexuais e sociais em idade precoce, em que os meios de comunicação preconizam à liberdade sexual, igualdade entre os sexos, estereótipos sexuais, é que o adolescente não associa a atividade sexual com a possibilidade de adquirir uma doença sexualmente transmitida ou engravidar por falta de informações ou de informações ineficientes sobre os métodos contraceptivos. Mas de quem é a responsabilidade por essa educação sexual adequada? Dos pais? Da sociedade? Mídia, televisão, o que transmitem para o adolescente de hoje? Liberalidade, prazer, erotismo... Ele está preparado para assimilar tudo isso sem correr o risco de graves consequências (doenças sexualmente transmissíveis, a hepatite B e gravidez precoce)? E a escola? Qual é o seu papel? Está exercendo a sua função de educadora juntamente com a família e a comunidade? Percebe-se no dia-a-dia da profissão que a educação sexual quando iniciada precocemente na família, traz resultados positivos para a vida futura, principalmente no enfrentamento da crise puberal. Observa-se que os jovens de hoje estão sem rumo, sem orientações, pois os nossos governantes e as instituições citadas fecham os olhos à educação ideal ao adolescente; mas caberia a nós educadores, pais, profissionais da área da saúde nos conscientizarmos e possuirmos a “sensibilidade” de nos unir para ajudar os adolescentes a terem uma educação e prática sexual sem riscos, repressões, culpa e medo. A adolescente que inicia a atividade sexual frequentemente desconhece o período fértil, não reconhece o período de exposição à concepção ocorrendo com isso o aumento da fecundidade, principalmente na zona rural e em regiões mais pobres, em razão da menor instrução. O aumento da fecundidade na adolescência não é um fenômeno tipicamente brasileiro ou mesmo de países em desenvolvimento, ocorrendo também nos países de Primeiro Mundo. Porém, no território brasileiro, esse processo é diferenciado pelo espaço e por grupos sociais, afetando mais as regiões mais pobres, áreas rurais e mulheres com baixa escolarização. Uma gravidez indesejada pela adolescente, pela sua família ou pelo seu companheiro pode ser causada por desinformação dos adolescentes, por estarem na fase das ansiedades, curiosidades, carências sexuais, preocupação com a sua privacidade, sua imagem física, a paixão pelo sexo oposto; também pelo fato de que as jovens possam utilizara gravidez como forma de obter carinho, atenção de seu companheiro ou de sua família. Uma gestante jovem pode apresentar insatisfação, baixa estima, rejeição social, ansiedade, depressão, frustração, evidenciando-se assim, a importância e prioridade de uma educação sexual adequada às suas necessidades básicas, a fim de propiciar ajuda para seus distúrbios físicos e emocionais, bem como para o despreparo familiar, más condições socioeconômicas, e para a continuidade da escolarização; fatores esses, que levam a adolescente à interrupção da gravidez, ou abandono do filho, gerando consequências traumáticas no futuro para ambos. Segundo Souza (2003, p. 12), é preocupante o alto índice de complicações de abortamentos porque, na maioria dos países da América Latina o aborto é ilegal e portanto, realizado na clandestinidade, com más condições técnicas. Lamentavelmente, os serviços de saúde, a nossa sociedade, a família e a escola não estão devidamente preparados para acolherem a gestante adolescente. A partir disto, percebe-se a necessidade de desenvolver uma educação que capacite a população para lidar com a realidade em situações físicas e sociais em que vive. A educação e a escola são instrumentos responsáveis por esse processo e, para isso, são necessárias ações humanas em situações concretas para atuar e/ ou construir condições-conhecimentos que venham saciar as dúvidas e inquietações dos adolescentes sobre suas transformações físicas e biológicas (puberdade), relações sexuais, masturbação, virgindade, homossexualismo, prostituição, gravidez, anticoncepção, doenças sexualmente transmissíveis, aborto, dentre outros. Com isso, poderemos contribuir para uma educação sexual adequada à realidade da nossa sociedade. Caberia ao Estado, à sociedade, à família e à escola oferecer apoio e condições para que se diminua a incidência de gravidez precoce, permitindo que esses adolescentes vivenciem esta fase conturbada sem interromper seus sonhos, seus estudos, e com isso, almejar uma melhor qualidade de vida. Tratar a questão na escola, com professores habilitados, poderia ser uma contribuição significativa para a prevenção e atenuação do problema. Portanto, é através da sociedade, dos meios de comunicação, dos sistemas de ensino, da família, das campanhas de prevenção do governo, enfim, do interesse e da vontade das pessoas, que se poderão proporcionar condições e conhecimentos adequados e necessários aos profissionais e adolescentes para enfrentarem determinadas situações em que ele se depara. Com isso, estaremos construindo uma geração sem índices preocupantes de doenças sexualmente transmissíveis, principalmente a AIDS, gravidez precoce, evasões escolares, desmoronamentos de sonhos e fantasias, e, sim, com uma melhor qualidade de vida, atitudes e comportamentos equilibrados. Conforme Bernardi, alega que, alerta para a direção que algumas propostas de educação sexual têm seguido assentadas numa estratégia pedagógica de “socialização para a apatia, exercitada seja na família, seja na escola, seja nos programas políticos, seja na sociedade em geral. Vivemos numa cultura “sexofóbica e repressiva”(BERNARDI, 2005, p. 09). Essa operação, à qual tem sido dado o nome de “educação sexual”, nada tem a ver com educação, pois não aceita a eventualidade de mudanças, já que parte do princípio de que as regras codificadas de nossa sociedade estão bem como estão e que devemos nos adaptar a elas. Segundo Goldberg (2004, p. 10) “apresenta um caminho para a educação sexual neste país que é pela transformação dos padrões de relacionamento sexual. ”Essa educação somente contribuirá para essa transformação se, em primeiro lugar, for uma prática de autonomia entendida como desenvolvimento de atitudes e valores próprios e da consciência de que cada um pode e deve fazer escolhas pessoais e responder por elas. Em segundo lugar, aponta-se o processo de cooperação e conflito que essa educação deve propiciar, em vez de ser um exercício de individualismo e cordialidade. Em terceiro lugar, propiciar a crítica do presente no sentido de produção de alternativas concretas, ou seja, de ação sobre a realidade. Além desses aspectos, destaca-se o caráter permanente do processo educativo. Assim, o momento da educação sexual formal deve ser um momento de instrumentalização para a vida sexual e não apenas discorrer sobre itens de comportamentos preventivos. Considerando-se esses aspectos, ou pressupostos, para uma educação sexual eficaz no quadro problemático já descrito, fica a questão: quem deverá realizá-la? Considerando-se a baixa taxa de escolaridade das mulheres no país, e enquanto esse fenômeno não for alterado, a escola não parece ser o espaço que deva ser privilegiado, em especial se tal privilégio for a detrimento de outros espaços a ela alternativos. Esses espaços podem ser encontrados na própria comunidade “de risco”, ou seja, onde se encontrem as mulheres adolescentes de nível socioeconômico e escolaridade baixos. Essas mulheres podem, elas próprias, constituir o “espaço educacional” alternativo. Uma das formas mais efetivas de assegurar a participação da comunidade é o emprego de promotores ou agentes comunitários, oriundos da própria população-alvo, treinados para um objetivo específico e que atuem em benefício dessa comunidade em particular. 3 CAPÍTULO II - GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA, QUESTÃO SOCIAL E POLÍTICAS PÚBLICAS. 3.1 Questão Social: conceito e repercussões A expressão “questão social” surgiu na Europa Ocidental, na terceira metade do século XIX, para designar o fenômeno do pauperismo. Nesse contexto, pela primeira vez, a pobreza crescia na proporção em que aumentava a capacidade produtiva do capitalismo. (NETTO, 2008, p. 10). Nessa perspectiva e complementando esta análise, Marx tinha como certo que, no capitalismo, o crescimento da riqueza produz, no pólo oposto, o crescimento do pauperismo, tanto que a isso chamou de lei geral, absoluta da acumulação capitalista. Sua demonstração se baseava em argumentos estritamente técnicos, pois à medida que avançam os progressos tecnológicos e a centralização de capitais, as máquinas passam a ser um elemento mais importante no processo de acumulação que a mão de obra. Daí que, como ele diz: A acumulação capitalista sempre produz, e na proporção de sua energia e de sua extensão, uma população supérflua relativamente, isto é, que ultrapassa as necessidades médias da expansão do capital, tornando-se, desse modo, excedente. (MARX, 1999, p. 747). Nesse sentido, podemos assim vincular o surgimento da questão social com o surgimento da classe trabalhadora e identificá-la no momento em que a contradição fundamental do capitalismo, como modo de produção social, se desenvolve e se revela, evidenciando que, no capitalismo, quem produz a riqueza não a possui, e ainda que, não há espaço para todos no mercado. Parafraseando Marx, Mota (2006, p. 01) discorre que: “A sociedade capitalista é nada mais, nada menos que o terreno da reprodução contínua e ampliada da questão social”. Assim, com o capitalismo, o desenvolvimento das chamadas forças produtivas não acompanhou a elevação nos níveis e condições de reprodução social. E o fenômeno do pauperismo no século XIX passou a fazer parte da agenda de debates da burguesia dirigente quando lamentavelmente para a ordem burguesa que se consolidava, os pauperizados não se conformaram com a sua situação, se estabelecendo, dessa forma, uma ameaça real às instituições sociais vigentes. (NETTO, 2008, p. 12). Nesse sentido, cabe destacar, que a questão social só toma características de “problema” quando, pela a primeira vez, a naturalização da miséria é politicamente contestada. Acrescente-se, ainda, a soma do processo de urbanização com a industrialização, que culminou na combinação dos seguintes determinantes indissociáveis: o empobrecimento agudo da classe trabalhadora; a consciência desta classede sua condição de exploração, onde a luta desencadeada por esse processo, põe esta classe contra os seus opressores a partir dessa consciência. Em face disto, não podemos perder de vista outro elemento, os sujeitos envolvidos nesse processo, aqueles que colocam a questão na cena política, uma vez que, não considerar esses sujeitos é tratar a questão social de forma despolitizada. Nessa perspectiva, a autora Iamamoto define o conceito de questão social: O conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos seus frutos mantém-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade (IAMAMOTO, 2004, p. 27). A autora (2004, p. 28) acima citada discorre ainda “que a questão social é o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, ela é também rebeldia, pois envolve sujeitos que vivenciam estas desigualdades e a ela resistem e se opõem” (p.38). Portanto, a desigualdade ocorrida no século XIX, manifestada nas péssimas condições de moradia, na superpopulação dos bairros operários e consequentemente na piora das condições sanitárias, subsidiou a organização da classe através do movimento operário, com suas lutas na busca de melhores condições de trabalho e proteção social. Assim, a questão social foi se expressando a partir do processo de formação e desenvolvimento da classe operária no cenário político da sociedade e dessa forma, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. (IAMAMOTO, 2004, p. 29). Nesse contexto, o enfretamento da questão social sob a pressão da classe explorada se estabelece como sendo tarefa atribuída ao Estado. Contudo, as mudanças constantes na forma de organizar, produzir e se relacionar em sociedade decorrente do processo de produção do capitalismo vai alterar intrinsecamente o modo de intervenção do Estado. Dentro desse cenário, Pereira (2007, p.21) destaca três modelos de organização durante o século XX, conforme relação estabelecida entre o Estado e a sociedade, trata-se: do Estado Liberal, do Walfare State e do Estado Neoliberal. O autor frisa ainda, que durante esses três momentos distintos, nenhum atingiu o âmago da sociedade capitalista, ou seja, nenhum alterou a importância do trabalho no desenvolvimento dessa sociedade e o fato dela se basear na exploração de uma classe sobre a outra. Nessa perspectiva, para que possamos compreender essa conjuntura, em uma rápida introdução histórica e conceitual, iremos percorrer esses três momentos distintos. O primeiro modelo de organização estatal, o Liberal, nasce junto com o próprio capitalismo. Seu princípio básico de organização estatal é a “teoria da mão invisível” de Adam Smith, na qual preconiza que o mercado se autorregula, não sendo necessário qualquer tipo de intervenção estatal. Pelo contrário, uma possível intervenção estatal só viria a prejudicar o equilíbrio das forças no mercado. As funções do Estado, em sua formatação liberal, estariam limitadas ao zelo pela segurança pública e pelos direitos civis, aqueles direitos necessários à liberdade individual. No modelo liberal, os indivíduos, livremente (através do seu direito à liberdade) e como iguais (direito à igualdade) disputavam no mercado o seu “lugar ao sol” e o fracasso ou a conquista, neste mercado, nada tem a ver com a coletividade, no caso, representada pelo Estado. Contudo, colocar no mercado o poder absoluto de prover e garantir todas as necessidades humanas, e mais, isolar os indivíduos como únicos responsáveis pelo seu sustento, foram ideias que se mostraram ineficazes na prática. O mercado não foi e não é capaz de absorver a todos e, mesmo os que conseguem se inserir ou se incluir, nem sempre adquirem as condições mínimas para subsistência. (LESSA, 2008, p. 17). Desse modo, somando-se à questão social, outros fatores contribuíram para a derrocada do Estado Liberal e à adoção de “medidas sociais” por parte do Estado capitalista. A ameaça do comunismo em escala mundial, a crise econômica pela qual passaram a maioria dos países no período entre guerras e a Grande Depressão, também tiveram papel preponderante nesta mudança de perfil por parte do Estado. Após a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, o mundo capitalista passou a vivenciar uma crise de escalas impressionantes, que combinava queda dos níveis de produção com aumento desenfreado do desemprego. (PEREIRA, 2007, p. 38). Neste contexto catastrófico, ganham espaço ideias como as de John Maynard Keynes, favoráveis aos benefícios da eliminação permanente do desemprego em massa, visto que a renda dos trabalhadores com pleno emprego estimularia as economias em recessão. Era o começo da discussão sobre o novo modelo de organização estatal, o Welfare State, que combinava a doutrina keynesiana com o modelo fordista de produção. Seguindo as ideias de Keynes, ampliam-se as políticas sociais e tem início assim a experiência histórica de um Estado intervencionista que vai efetivar um pacto entre interesses do capital e dos trabalhadores: o chamado consenso pós- guerra. Ou seja, os modernos sistemas de proteção social no século XX surgiram para atenuar as diferenças sociais criadas pelo livre funcionamento dos mercados e causa da produção de desigualdades. Seguindo do financiamento e provisão de um grande número de bens e serviços que os cidadãos não poderiam acessar única e exclusivamente pela renda obtida pelo trabalho, ou quando sem trabalho necessitassem desses bens. Nesse sentido, as políticas keynesianas buscaram gerar o pleno emprego, criar políticas e serviços sociais tendo em vista a criação de demanda e a ampliação do mercado de consumo. Assim, as mudanças na forma de intervenção do Estado no mercado só foram possíveis em função do tripé que funcionava da seguinte maneira: o Estado assumia uma série de obrigações e construía novos poderes institucionais. Passando a investir em educação, saúde, assistência social, previdência, de forma a garantir um tipo de “tranquilidade” para o mercado atuar. Com isso, ampliava o mercado consumidor com a inclusão da classe média e de parte dos trabalhadores e consequentemente aumentava a lucratividade das empresas desoneradas de parte dos custos da reprodução da força de trabalho. Se, por um lado, elas colaboravam com impostos para que o Estado pudesse investir em políticas sociais e garantir o bom funcionamento do mercado e da sociedade, por outro, a subsistência de seus trabalhadores agora também consumidores deixava de ser exclusivamente de seus salários. O Estado passava, agora, a enfrentar diretamente à questão social, através de políticas sociais públicas, inaugurando o modelo de Bem Estar Social, que conforme salienta Pereira, [...] é parte integral do sistema capitalista. Isso que dizer que ele, como um complexo moderno de proteção social, ancorado nos conceitos de seguridade e cidadania social [...] tem a ver com os rumos adotados pelo sistema capitalista, que deixou de ser liberal, nos anos de 1940, por uma questão de sobrevivência, para ser temporariamente regulado (PEREIRA, 2009 p.87). A mesma autora discorre ainda que, nesse contexto: As políticas sociais passou ser vista nas melhores análises marxistas como um fenômeno contraditório, porque ao mesmo tempo em que responde positivamente aos interesses dos representantes do trabalho, proporcionando-lhes ganhos reivindicados na luta constante contra o capital, também atendem positivamente a interesses dos representantes do capital, preservando o potencial produtivo da mão de obra. (PEREIRA, 2009, p.54). Contudo, a implantação do Welfare State nos países capitalistas desenvolvidos representou um avanço, pelo menos no nível ideológico, no que se refere à concepção de cidadania e de direitos sociais. Pois, atribuir ao Estado o dever de garantir aos seus cidadãos o acesso às necessidades mínimas para a subsistência representa uma mudançafundamental na concepção do papel do referido. Se no modelo liberal a regra era que se lutasse e sobrevivesse ou não, no mercado, no Welfare State a premissa era de que o mercado não consegue sobreviver se os trabalhadores não tiverem as mínimas condições de vida e que cabe ao Estado garanti-la. Nessa perspectiva e complementando esta análise, é no final do século XX, sobretudo a partir de 1970, que as transformações se aceleraram e tomam forma de fenômeno mundial global. Diante na crise mundial da economia, as ideias neoliberais começam a ganhar terreno e os estados capitalistas passam a adotar uma série de medidas econômicas visando conter a crise. O Estado vai se configurar como neoliberal. No mundo do trabalho, também ocorre uma série de mudanças. Todas essas mudanças, juntas, demarcaram uma experiência até então nunca vista. Pela primeira vez, o capitalismo conseguiu o feito de se tornar hegemônico ideologicamente. Desse modo, a expressão globalização é utilizada no sentido ideológico, na qual, estivesse o mundo inteiro a um processo de integração econômica sob a égide do neoliberalismo, caracterizado pelo predomínio dos interesses financeiros, pela desregulamentação dos mercados, pelas privatizações das empresas estatais e pelo abandono do Estado de Bem-Estar Social. Nesse contexto, o século XX chega ao o fim com a ideia de que a realidade está dada, e que cabe agora, tentar melhorar as condições que precisem ser melhoradas. E a história a partir de então é de um mundo que perde suas referenciais e desliza para a instabilidade. Acontece uma dupla mudança na classe trabalhadora, por um lado verifica-se uma transformação quantitativa dos trabalhadores inseridos em determinados ramos ou setores da produção, percebe-se uma importante diminuição no número de trabalhadores contratados no setor industrial e uma ampliação quantitativa do emprego do setor terciário, mas, por outro, constatam-se alterações qualitativas na forma de realizar o trabalho relacionado com a desespecialização dos operários e a criação de trabalhadores polifuncionais, conjuntamente com uma requalificação especializada. (MOTTA, 2008, p. 34). Frente a isto, o mercado de trabalho apresenta tendências na classe trabalhadora polarizada, onde pequena parcela possui trabalho estável e a grande maioria em trabalhos precários e a modernização no processo de trabalho implica neste contexto, na redução da demanda de trabalhadores e expulsão da mão de obra do mercado de trabalho. Nesta dinâmica, a exclusão dos trabalhadores do trabalho socialmente protegido gera a sua inclusão na economia de insegura e sem proteção. Os trabalhadores se percebem agora em torno de um vasto número de estatutos trabalhistas e reprodutivos de forma precarizados e desprotegidos. Dessa maneira, surge neste contexto, o que Iamamoto chama de "uma nova pobreza", onde uma ampla gama da população não tem acesso ao mercado de trabalho, e com isso, percebe-se o agravante dessa situação no constante desemprego, no aumento da violência, conflitos por terra e nos trabalhos insalubres e clandestinos. (IAMAMOTO, 2007, p. 58). Assim, a promessa do livre comércio e o desenvolvimento econômico como profícuo á diminuição das desigualdades sociais do cerne neoliberal, se mostra uma falácia, pois o que se manifesta é um aumento cada vez mais elevado da riqueza dos mais ricos e uma diminuição drástica das condições de vida dos mais pobres. Diante desse contexto, Bauman (2005, p.81) acrescenta que: “O mundo proposto é o da fome, pobreza e miséria absoluta, onde 800 milhões de pessoas estão em condições de subnutridas e 4 milhões de pessoas vivendo na miséria”. A pobreza nesse sentido, leva ao processo de degradação social que nega as condições mínimas de vida humana. A soma do resultado fome= miséria, derivam outros fatores que enfraquecem os laços sociais e passam a destruir também, os laços afetivos e familiares. Seguindo essa lógica, na sociedade moderna, tudo é volátil; as relações humanas não são mais tangíveis e a vida em conjunto, familiar, de casais, de grupos de amigos, de afinidades políticas e assim por diante, perde consistência e estabilidade. Medo, exclusão social, produção do mal: são estes os elementos que Bauman (2001, p. 23) considera como “os efeitos colaterais” da modernidade líquida marcada pela globalização. Desse modo, a preferência ao econômico em detrimento do social, tem levado a uma banalização do humano, além da radicalização das necessidades sociais. Ou seja, o aumento do desemprego, a instabilidade do trabalho, perda dos direitos trabalhistas, aumento da pobreza, empobrecimento da classe média, privatização dos serviços sociais, as novas configurações familiares (aumento da monoparentalidade feminina), por exemplo, colocam muitos em situação de extrema vulnerabilidade social de pobreza, exclusão e subalternidade. Nessa perspectiva, a realidade é que os sujeitos da desigualdade encontram-se, em suas vidas cotidianas, carentes de conexão viva com a genericidade humana. Ser genérico, em termos marxianos, entendido como ser consciente, que vive a efetividade humana, ou seja, ser que se relaciona consigo mesmo como gênero vivo, universal e livre. (ANTUNES, 2005, p. 25). Isso porque, sob a ótica do capital, o indivíduo é atravessado pelas determinações classistas que obstaculizam e rompem com a ideia de uma individualidade plena, fundada no bem comum e na satisfação das necessidades humanas. Vale enfatizar que a substância da desigualdade, do consumismo, do individualismo e da mercantilização desenfreada, não está no aprimoramento da técnica, da ciência nem das inovações tecnológicas em si, mas no conjunto das relações sociais que as dirigem, que comandam o trabalho, impedindo os indivíduos de alcançarem as condições sócio-históricas que possibilitem torná-los sujeitos do seu espaço-tempo. Faz-se necessário, portanto, forjar processos que promovam o resurgimento de sujeitos que coloque a ciência, a técnica e todo o desenvolvimento das forças produtivas a serviço da realização das necessidades individuais e coletivas, para, assim, verdadeiramente, se apropriarem com vida e sentido de socialização do patrimônio sociocultural da humanidade. (ANTUNES, 2005, p. 26). Nesse sentido, cresce as desigualdades; há o aumento das lutas cotidianas por um trabalho digno, por acesso a direitos, e serviços no atendimento às necessidades básicas dos cidadãos, além de questionamentos das diferenças étnico-raciais, gênero, diversidade sexual e religiosa. Todas essas questões dão origem aos chamados “novos sujeitos”, “novos usuários” e “novas demandas” Diante da origem das questões supracitadas, algumas indagações emergem. Haveria o surgimento de uma “nova” “questão social”? Seria nova por romper com o período capitalista industrial e por se metamorfosear? Como caracteriza Castel (2005, p. 21) coloca que a “questão social” foi se metamorfoseando e sendo transformada com o passar do tempo, resultado da reestruturação internacional do capitalismo. Logo, isso gerou um grande número de problemas como o desemprego estrutural de longa duração, que marcam uma ruptura na trajetória do salariado e servem de fundamento para o que o autor coloca como a existência de uma “nova questão social ( CASTEL, 2005, p. 21). Esse discurso gerou um acirrado debate no meio acadêmico ao redor do mundo, inclusive no Brasil a partir da década de 1990; quando se deu visibilidade e importância à temática entre os acadêmicos das ciências sociais, em especial entre os profissionais do Serviço Social, que tem a “questão social” como fundamento e justificação do trabalho profissional especializado. Contudo, autores como Iamamoto (2007), Netto (2008), Tiba (2004), Mota (2008) são categóricos em afirmar que não há uma nova “questão social”, já que se mantêm os traços essenciais da “questão social”, surgidos no século XIX, cujo fundamento é o trabalho. Eles não foram superados e permanecem até os dias atuais, só que em sua forma mais radical e alienada:na banalização do humano e invisibilidade do trabalho social. Pois, a “questão social” assume expressões particulares dependendo das peculiaridades de cada formação social e da forma de inserção de cada país na ordem capitalista. Diante disto, sem pretensão de esgotar o debate, o que se percebe é que temos um desafio à enfrentar na conjuntura atual, o de identificar as expressões emergentes da questão social e sua relação com as modalidades de exploração e expropriação dos direitos dos cidadãos. Trata-se, portanto, de discernir as armadilhas do capital para delas se diferenciar, de romper com visões economicistas e politicistas no trato às expressões da questão social e de consolidar estudos e pesquisas que possibilitem o conhecimento profundo da realidade brasileira. Para melhor compreendermos as repercussões das políticas neoliberais que usam como discurso uma assombrosa atribuição de modernidade ao que existe de mais conservador e atrasado na sociedade brasileira: fazer do interesse privado a medida de todas as coisas, obstruindo a esfera pública, anulando a dimensão ética da vida social pela a recusa das responsabilidades e obrigações do Estado. A desigualdade que se encontra no processo de desenvolvimento do país tem sido uma das particularidades históricas recriando aspectos persistentes e, ao mesmo tempo, transformando-a no contexto da globalização. Dessa maneira, considerando a forma multifacetada da questão social, a seguir, trataremos sobre a gravidez na adolescência como uma de suas expressões manifestadas na contemporaneidade, enfatizando os aspectos psicossociais a ela relacionados. 3.2 Gravidez na Adolescência como uma das Expressões da Questão Social A gravidez na adolescência como já foi discutido em um capitulo anterior não é um fato novo. Novo é seu conceito na contemporaneidade que se manifesta devido aos vários fatores sociais que o envolvem como, por exemplo, fatores: econômicos, psicológicos, sociais e educacionais. Desse modo, sua compreensão exige uma visão ampla, que leve em consideração também os diferentes aspectos culturais de cada segmento que interagem em nossa sociedade. (MENEZES, 2006, p. 20). Nesse sentido, ao nível de uma dimensão mais ampliada, onde os contextos individuais e relacionais se inserem, convém assinalar as condições sociais e econômicas da adolescente grávida. Durante a construção deste trabalho, temáticas nos indicaram que as condições sociais de um estatuto socioeconômico baixo, é uma das variantes antecedentes da gravidez na adolescência e que apobreza se apresentaria como o melhor preditor deste fenômeno. A esse respeito Pantoja, afirma: A gravidez na adolescência resultaria da pobreza e levaria a um esforço da mesma, uma vez que a maioria das jovens abandonará os estudos e terá dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Uma menina que nasce e cresce em uma periferia de baixa renda, com poucas perspectivas de estudo, muitas vezes filha de mãe solteira, com pouco ou nenhum exemplo próximo de ascensão econômico-cultural, vislumbra na maternidade, tão valorizada nas classes de baixa renda, uma alternativa para sua vida. (PANTOJA, 2003, p.21). No entanto, a gravidez na adolescência nas classes baixas, representaria uma possibilidade de status social, como tentativa de um reconhecimento social em resposta à situação de pobreza. Permanecendo nessa mesma linha de raciocínio, o mesmo autor ressalta ainda, que, “filhas de mães adolescentes com historia de gravidez na adolescência tem maior probabilidade de serem também elas, mães adolescentes, conforme perspectiva social”. (PANTOJA, 2003, p.22). No que tange sua repercussão no âmbito da saúde, a gravidez na adolescência se torna um grande problema de saúde pública devido os riscos que podem se manifestar na adolescente e no recém-nascido .Uma situação de gravidez da adolescência pode acarretar á jovem riscos elevados de Doença Hipertensiva na Gravidez (DHEG), anemia, maior números de abortos, parto prematuro e maior morbimortalidade no parto e no puerpério. O RN tem risco aumentado de nascer com baixo peso, de sofrer internações frequentes, assim como ter morte subida nos primeiros seis meses de vida. (LOPES, 2008, p. 27). Nessa perspectiva, Figueiredo destaca que: A maternidade na adolescência pode resultar em consequências que são globalmente avaliadas como negativas com potencial de dano futuro, nas quais se situam a diversos níveis: social, educacional, profissional, econômico, físico, saúde e ainda psicológico. (FIGUEIREDO, 2001, p.22) Dessa maneira, pelas consequências avaliadas pelo fenômeno tidas como negativas e por sua relevância na vida dessas adolescentes, é elevada a frequência com que autores verificam em trabalhos empíricos altas taxas de mães adolescentes, sob um contexto de pobreza e precariedade de um ciclo que se auto perpetua. Vale enfatizar ainda referente a este fenômeno, a relevância da reação familiar. Que, conforme Petrini (2005, p. 28) o impacto nas reações familiares é tão intenso que deveríamos pensar em termos de família grávida, e não somente em termos de mulher grávida. Nesse sentido, discutir o tema gravidez na adolescência é abordar obrigatoriamente o tema família em toda sua amplitude. A importância da família é decorrente de sua inegável missão humana e função social, onde esta se torna um sujeito educativo, econômico, associativo e político, como também base de apoio de todos seus membros. Destaca ainda o mesmo autor: A família é considerada uns dos maiores recursos de sustentação para a pessoa e para a sociedade, sendo escolhida como parceria da administração pública e para realização de políticas sociais. Além disso, sondagens de opinião revelam que os jovens brasileiros a julgam como valor essencial. (PETRINI , p. 9-10). É fato que, com a modernidade a liquidez das relações sociais vem crescente se ampliando e, com isso, novas configurações vêm se manifestando. O moderno trouxe consigo, portanto a distância, o estranhamento, a individualidade, a incumplicidade e a instabilidade, tudo que era sólido foi se descompondo. (BAUMAN, 2008, p. 59). Como efeito do novo, estamos vivenciando por exemplo, a crescente falta de tempo por parte dos pais nas funções educativas e afetivas para com seus filhos, que se amplia à medida que se aumenta a exigência do esforço constante de sobrevivência humana cobrado pelo mercado. Isto favorece a permanência dos filhos em um estado de entrega a si próprio. O resultado disto é o distanciamento e o estranhamento entre as partes que atinge a relação familiar. Nessa perspectiva e complementando esta análise, o âmbito familiar é visto como um fator de extrema importância, uma vez que o relacionamento é influenciado por valores e atitudes que são transmitidos e construídos nessas relações. No que tange às atitudes e aos valores, a gravidez na adolescência, pode em algumas situações vezes, desencadear transtornos familiares, principalmente no aspecto emocional. Os pais, geralmente, se sentem decepcionados, traídos ou culpados. Esses sentimentos vêm a reboque de uma postura que se manifesta como incredulidade, pois os pais observam que os adolescentes têm comportamentos, relacionamentos mais ousados e que a gravidez na juventude não é algo esporádico, todavia, acreditam que isso aconteça somente aos filhos dos outros, não com os seus. (OLIVEIRA, 2006, p. 46). Outro aspecto que merece ser abordado é que o diagnóstico da gravidez na adolescência pode oscilar ainda da repressão ao acolhimento familiar. Com a repressão a jovem grávida se julga abandonada, com diminuição da autoestima, como se estivesse em um caminho sem destino e sem soluções e com isso patologias de âmbitos psicológicos podem se desenvolver e agravar mais ainda os aspectos psicossociais durante esse contexto. (PETRINI, 2005). Dados revelam também mais elevada à incidência de Depressão Pós-parto em pacientes que experimentam dificuldades adaptativas à gestação como, por exemplo, nos casos degravidez não desejada, gravidez contrária à vontade do pai, situação civil irregular, gravidez repudiada por familiares, carência social e outros fatores capazes de desestabilizar emocionalmente a relação entre a paciente e sua gravidez. Complementando está análise, Pereira discorre: A depressão tem sido bastante estudada no caso da maternidade na adolescência, não só por ser uma ocorrência esperada devida sua prevalência ser maior em adolescentes que enfrentam situações de carências, mas, sobretudo por reconhecer o potencial adaptativo das jovens que engravidam diante do impacto de um evento ou processo sobre sua vida. ( PEREIRA, 2009, p.31) Outra preocupação referente a este fenômeno gira em torno da fertilidade, pois, geralmente tem-se uma tendência maior que jovens que engravidaram na adolescência tenham um segundo filho ainda neste período. Essa probabilidade se manifesta [...] como sendo mais elevada quanto menor for à idade da mãe na altura do primeiro nascimento de seu filho. (WAISSMAN, 2016, p. 39). Por outro lado, a idade parece não ser o único elemento a ponderar ao averiguar o risco de repetição da gravidez precoce. Segundo os estudos de Bruno, outros elementos colaboram com a repetição da gravidez nessa etapa, sendo estes fatores individuais e psicossociais, como as baixas habilitações escolares, competências cognitivas, ajustamento emocional consumo de substâncias, situação de violência e abuso físico e sexual (BRUNO,2009, p. 31). Ainda nesta mesma linha de raciocínio o autor (2009, p. 32) supracitado destaca ainda, que a maternidade vai implicar para essas adolescentes, mudanças significativas nas suas atividades e estilo de vida, pois, está necessitará desempenhar determinadas tarefas e papeis, mesmo que não estejam preparadas do ponto de vista cognitivo, emocional, social e ao nível do desenvolvimento. Sua relação com pares e grupo de amigos irá traduz-se a partir da maternidade, em menor disponibilidade para atividades de lazer, o que pode acarretar maior insatisfação com a vida por parte dessas adolescentes com história de gravidez Assim, todas essas implicações de eixo psicossocial na gravidez durante a adolescência pode desencadear na interrupção da gestação. Nesse caso, o aborto3se manifesta como a única saída para as adolescentes, e estas arriscam suas vidas quando decidem interromper a gravidez, utilizando-se de quaisquer recursos que tenham a mão, sendo muitas vezes esta decisão solitária e clandestina. Conforme dados da OMS (2006), o medo da gravidez leva muitas adolescentes à solução do aborto clandestino. São 04 milhões de abortos praticados no Brasil por ano, 01 milhão ocorrem entre adolescentes, muitas delas ficam estéreis e cerca de 20% morreram em decorrência do aborto. De acordo o código penal brasileiro, são estabelecidas somente três situações em que a prática do aborto é permitida, a primeira é quando a gestação coloca a vida da mulher em risco, a segunda situação é quando a gravidez é resultado de estupro e por ultimo quando o feto for anencéfalo, ou seja quando este feto possuir má formação do cérebro. Uma pesquisa do Ministério da Saúde (2012) aponta que a ilegalidade do aborto não freia à prática, pois fosse contrário, esse não seria a quinta principal causa de mortalidade materna no país. Em suma, a discussão sobre aborto carrega sobre si um emaranhado de opiniões e posições, nas quais não serão neste momento aprofundadas. Em suma, por tudo aqui já debatido, as adolescentes com história de gravidez na adolescência enfrentam múltiplas variáveis de cunho psicossocial, nas quais conduzem a um período de ansiedade e insegurança devido às aquisições de competências de autodeterminação que exige a prática da maternidade. Essa prática força essas adolescentes envolvidas a amadurecerem antecipadamente e as obriga a abreviar uma etapa de sua vida para assumir uma fase adulta. E, em uma perspectiva de violação, tem sua função social trocada em um prazo de aproximadamente nove meses, para assimilarem e incorporarem esse novo papel. Diante disto, para que possamos compreender de que forma os direitos vêm se constituindo na sociedade, com implementações de inovações, propostas e programas, neste caso, as voltadas para a adolescência e especificamente para a gravidez na adolescência, faz se necessário o conhecimento de políticas do Estado na efetivação dos direitos dos adolescentes. 3.3 Políticas Públicas e direitos voltados aos Adolescentes. As sequelas da proposta neoliberal no âmbito das políticas sociais são claras, como foi colocado no capítulo anterior, tornando-se “políticas cada vez mais focalizadas, mais descentralizadas, mais privatizadas" (IAMAMOTO, 2004, p.36). A proposta de redução do Estado incide diretamente nos direitos sociais dos cidadãos, limitando-se à condição de consumidor. A Carta Constitucional de 1988, fruto do protagonismo da sociedade civil na década de 80, expressa como direito social básico a saúde, a educação, entre outros, sendo estes direitos de todos os cidadãos e dever do Estado à garantia do acesso aos mesmos. Partindo desse pressuposto legal é que discutiremos à partir de agora sobre as referidas políticas voltadas ao publico adolescente, buscando fazer os aportes com a sexualidade e a gravidez na adolescência. Os pressupostos que constituem as bases das políticas sociais destinadas à população jovem vêm mudando de forma significativa nas últimas décadas. Em particular, os anos 1980 e 1990 apresentaram condições favoráveis a mudanças expressivas de enfoque e ação. A promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), bem como a participação de diferentes setores organizados da sociedade em defesa dos direitos desse publico, constitui parte importante destas mudanças, tornadas possíveis dentro do contexto de redemocratização do país. As mudanças no enfoque e ação das políticas sociais teve sua premissa a partir da concretização dos direitos universais, comuns a todos os seres humanos promulgados em 1948. A promulgação dos direitos humanos universais subsidiou a necessidade de medidas especificas dirigida a alguns segmentos mais vulneráveis com violações de seus direitos para a garantia da igualdade. Nesse sentido, para atender demandas especificas criou-se um sistema especial de proteção que destacou alguns sujeitos, como: negros, mulheres, crianças, adolescentes, idosos e portadores de deficiência. Essa medida materializou as diversas convenções firmadas pelas Nações Unidas, obrigando os Estados a implementarem políticas publicas voltadas as diferenças e vulnerabilidades dos sujeitos nos diversos contextos sociais, com vista a redução das desigualdades e á promoção da garantia dos direitos. Sobretudo, aqueles que têm maior dificuldade ao acesso devido á sua condição social. (BRASIL, 2006). Dentro desse cenário, principalmente após a redemocratização do país, a gestão da questão da infância e da adolescência deveria a partir de então ser norteada pela descentralização político-administrativa, pela participação popular, por meio de suas organizações, nas formulações de políticas e no controle das ações nos níveis: municipal, estadual e federal. Em acréscimo ainda esse publico deveriam ser acolhido pelo Conselho Municipal dos direitos da criança e do adolescente que formula e controla a efetivação dos programas definidos, a partir das políticas publicas para este segmento instituído por lei municipal e pelo Conselho Tutelar de Direitos, órgão que aplica as medidas de proteção. (MALFITANO, 2006, p. 11). Nessa perspectiva, o ano de 1990 propõe novos paradigmas de atenção aos segmentos da infância e da adolescência, os quais tem como base preceitos de garantia de direitos preconizados na Convenção Internacional dos Direitos da Criança, da qual o Brasil é signatário. Nessa convenção, estipularam-se normas que visavam à proteção da criança com vistas ao seu desenvolvimento integral, conclamando a família, o Estado e a sociedade a proverem condições adequadas ao desenvolvimento de todas ascrianças e adolescentes, sem qualquer tipo de distinção ou discriminação. Com esse novo direcionamento político em defesa aos direitos das crianças e dos adolescentes, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é promulgado rompendo com o regime anterior, o Código dos Menores de 1979, que estigmatizava as crianças pobres como menores e delinquentes por meio de sua situação irregular. Nesse sentido, com o ECA, esse tratamento se modifica, e todas as crianças e adolescentes passam a ser tratados como sujeitos de direitos, nas diversas condições sociais e individuais. Esse novo direcionamento dá cumprimento aos compromissos internacionais assumidos na Convenção Nacional dos Direitos da Criança das Nações Unidas e regulamenta o artigo nº 227 da Constituição Federal de 1988. A esse respeito Malfitano e Adorno acrescentam: O ECA abandona o termo menor substituindo-o por criança e adolescente, pretendo ser uma lei para toda e qualquer criança e adolescente brasileiro, independente da situação de infração ou abandono, buscando uma mudança cultural que retira da criança pobre o aspecto identificador daquele que requer ações do Estado e pauta o direito de todos enquanto elemento central para o debate. ( MALFITANO, 2006, p.16). Desse modo, marcos ético-legais internacionais e nacionais foram extremamente significativos para a implementação de políticas que de fato efetivassem os direitos desse público. Permanecendo no percurso histórico sob o âmbito das políticas sociais voltadas para o publico adolescente, cabe ressaltar o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher - PAISM, que foi elaborado pelo Ministério da Saúde em 1983, em meio a forças antagônicas. A política de atendimento materno infantil até então vigente foi reelaborada, incorporando as reivindicações do movimento feminista e da sociedade civil como um todo. O PAISM, mais que um programa, é o conjunto de diretrizes para reorganização de assistência à mulher, tendo em vista o dramático quadro epidemiológico da população feminina. A proposta de prática assistencial traçada pelo programa estava voltada para atender a saúde da mulher de forma integral (COSTA, 2002, p. 14). A estratégia política do governo brasileiro de incluir as atividades de contracepção no PAISM atendia, contraditoriamente, às demandas das mulheres e dos movimentos sociais, assim como para administrar e manter sob controle pressões externas e internas presentes no momento em que o programa foi lançado. O objetivo do PAISM, conforme MINISTÉRIO DA SAÚDE (1984) é oferecer atividades de assistência integral clínico-ginecológica e educativa, voltadas para o aprimoramento do controle pré-natal, do parto e do puerpério; a abordagem dos problemas presentes desde a adolescência até a terceira idade; o controle de doenças transmitidas sexualmente, do câncer cervicouterino e mamário, e a assistência para a concepção e contracepção. Como pode ser observado nas bases dessa política de saúde as práticas educativas ganham destaque tendo em vista a valorização da necessidade da mulher se conhecer e assim contribuir mais no autocuidado e na reapropriação do corpo. Além disso, os movimentos de mulheres insistiam que o PAISM incluísse ações definidas de educação sexual e em saúde de ele ser usado como controle populacional (COSTA 2002, p. 16). Apesar de reconhecermos os méritos da luta do movimento de mulheres pelo PAISM no Brasil, assim como a história dos direitos reprodutivos que ressaltam a necessidade de dar visibilidade e legitimidade à defesa da maternidade como opção, não podemos suprimir do debate, a lacuna existente entre o avanço nas definições formais de "direitos reprodutivos" e "cidadania" e a realidade reprodutiva da maciça maioria das mulheres. Do ponto de vista de Giffin (2001, p. 21) sugere que observemos uma estreita relação entre os modelos econômicos que concentram riquezas e que sustentam esses programas e os congressos internacionais que consagram os "avanços" dos direitos reprodutivos. A referida autora ainda adverte que a ideologia que desponta internacionalmente faz uma estreita relação entre o controle populacional com a diminuição da pobreza, entretanto, comprovadamente esta tese com tendências eugenistas e neomalthusianas caem por terra com agravamento das condições de vida da maioria da população. Apesar de todas as tensões e contradições existentes no PAISM não podemos deixar de reconhecer a sua importância ao propor a perspectiva de integralidade na assistência às mulheres. Nessa perspectiva e complementando está análise, no âmbito da saúde do contexto nacional e levando em consideração os devidos processos históricos e sociais, a disposição constitucional de 1988 também estabelece que a saúde seja direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos com acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Com isso, é implementado o Sistema Único de Saúde (SUS), que possibilita o acesso à saúde para todos os brasileiros, sem distinção. (BRASIL, 2005). Nesse direcionamento é criado o PROSAD – Programa Saúde do Adolescente, pela Portaria do Ministério da Saúde nº 980/ GM de 21/12/1989 que se fundamenta, numa Política de Promoção de Saúde, de identificação de grupos de riscos, detecção precoce dos agravos com o tratamento adequado e reabilitação, respeitadas as diretrizes do Sistema Único de Saúde, garantidas pela Constituição Brasileira de 1988. O PROSAD é dirigido a todos os jovens entre 10 e 19 anos e é caracterizado pela integralidade das ações e pelo enfoque educativo preventivo, com o objetivo de promover a saúde integral do adolescente, favorecendo o processo geral de crescimento e desenvolvimento, buscando reduzir a morbi-mortalidade e os desajustes individuais e sociais; normatizar as ações consideradas nas áreas prioritárias; estimular e apoiar a implantação e/ou implementação dos Programas Estaduais e Municipais, na perspectiva de assegurar ao adolescente um atendimento adequado às suas características, respeitando as particularidades regionais e a realidade local; promover e apoiar estudos e pesquisas multicêntricas relativas à adolescência; contribuir com as atividades intra e interinstitucional, nos âmbitos governamentais, visando a formulação de uma política nacional para a adolescência e juventude, a ser desenvolvida nos níveis Federal, Estadual e Municipal. O acesso a esse programa se realizaria prioritariamente através das unidades primárias de saúde, onde deverá haver recursos humanos preparados para esse fim: os profissionais de saúde identificados deverão ser sensibilizados e/ou capacitados, visando à formação de equipes multiprofissionais voltadas para atenção integral do adolescente, assim como essas equipes deverão ser capacitadas e supervisionadas periodicamente. Além das atividades estratégicas colocadas anteriormente o Ministério da Saúde ressalta ainda a necessidade de se promover ações com interfaces com as áreas de educação, cultura, esporte, lazer, trabalho e justiça. As ações educativas no PROSAD ganham relevância a fim de permitir que os adolescentes se reconheçam a si próprio como “protagonistas", observando o contexto familiar, comunitário e cultural, assim como permitir aos pais, educadores e sociedade o conhecimento da adolescência. Já no âmbito da assistência social, o maior avanço, no contexto brasileiro, foi a Lei Orgânica da Assistência Social - LOAS, que regulamenta o direito constitucional no art.nº 203 a assistência social do Estado, independente de contribuição, e garante a proteção especial a adolescência e o amparo aos adolescentes carentes. A LOAS estabeleceu a criação do Sistema Descentralizado e Participativo da assistência social, do qual emergiram ações políticas e programas de assistência social. O intuito foi de fortalecer e ampliar os benefícios assistenciais e políticas compensatórias, como estratégica para reduçãodas vulnerabilidades e agravos de saúde dos jovens. No contexto da educação brasileira, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira – LDB, surge para regulamentar o direito a educação também como direito publico a todo cidadão. Nessa legislação, a educação sexual é prevista como um dos temas transversais a serem incluídos nos Parâmetros Curriculares. Nacionais - PCNs, em todas as áreas do conhecimento, desde ensino fundamental até o médio. Nos PCNs, ao tratar do tema “orientação sexual”, defini-se a sexualidade como algo inerente a vida e a saúde, que se expressa desde cedo no ser humano, colocando a necessidade do tema a ser discutido e orientado no cotidiano da escola. Nessa perspectiva dos direitos sexuais e reprodutivos em 2003 é lançado o Programa Saúde e Prevenção nas escolas. Este Programa resultou da parceria entre Ministério da Saúde, Ministério da Educação, Unesco e Unicef, visando a redução da vulnerabilidade dos adolescentes e jovens às doenças sexualmente transmissíveis – DST, e a gravidez não planejada, com ênfase na promoção da saúde, por meio de ações educativas de prevenção e ampliação desse publico ao preservativo masculino. (BRASIL, 2005). O programa supracitado também visou reforçar a qualificação e a formação continuada de professores do ensino fundamental e médio nestes temas voltados para a adolescência, prevendo a disponibilização de preservativos masculinos a adolescentes e jovens de 13 a 24 anos, matriculados no ensino fundamental e médio da rede pública. Nessa direção, também se destaca o Programa Saúde na Escola -PSE, instituído pelo Decreto Presidencial nº 6.286, de 5 de dezembro de 2007, como proposição de uma política intersetorial entre os Ministérios da Saúde e da Educação, na perspectiva da atenção integral a saúde de crianças, adolescente e jovens do ensino básico publico (educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, educação profissional e tecnológica e na Educação de Jovens e Adultos - EJA, no âmbito das escolas e/ou das unidades básicas de saúde, realizadas pelas as Equipes de Saúde da Família. O PSE visou à integração das políticas setoriais, em que a política de educação em saúde articulasse a saúde e a educação como parte de uma formação ampla para a cidadania e a efetivação dos direitos humanos; permitindo a progressiva ampliação das ações executadas pelos sistemas de educação e saúde, com vista a atenção integral a saúde de crianças, adolescentes e jovens e a educação em saúde; visando promover a articulação de saberes, a participação de alunos, pais, comunidade escolar e sociedade em geral na construção e controle social dessa política. No que tange ao contexto da gravidez na adolescência, o Estado regulamentou a Lei nº 6.202/75 que estabelece a gestante estudantil o direito a receber o conteúdo das matérias escolares em sua residência, a partir do oitavo mês de gestação e durante os três meses após o parto, sendo que este tempo pode vir a ser prorrogado, dependendo da prescrição médica. As avaliações serão realizadas em seu domicilio, e o aproveitamento pode ser avaliado por meio de trabalhos realizados também em sua residência. Este direito precisa ser conhecido, divulgado e cumprido pelas as instituições escolares brasileiras. O documento “Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos: uma prioridade de governo”, lançado em 2005, apresenta as diretrizes do governo para garantir os direitos de homens e mulheres, adultos e adolescentes em relação à saúde sexual e à saúde reprodutiva, focando principalmente o planejamento familiar. A atenção à saúde sexual e à saúde reprodutiva de adolescentes e jovens foi uma das prioridades proposta por este documento, para o período de 2005 à 2007. Esta prioridade se consolida por meio da articulação entre diversas ações, dentre as quais, a ampliação da oferta de métodos anticoncepcionais reversíveis no SUS; a elaboração de manuais técnicos para profissionais da saúde da atenção básica e cartilha educativa sobre atenção integral á saúde adolescentes e jovens. (BRASIL, 2009). Nessa perspectiva e complementando está análise, no ano de 2009 o Ministério da Saúde cria a Caderneta de Saúde do Adolescente (CSA) com o objetivo de monitorar a saúde da população entre 10 e 19 anos e facilitar as ações educativas voltadas para este segmento. A implantação da caderneta ocorreu em etapas e priorizou, no início, os municípios inseridos no Programa Saúde nas Escolas, já que é um instrumento para a saúde e educação dos adolescentes. Há duas guias do material, sendo uma voltada para o público feminino e outra para o masculino, com dicas e temas de interesses variados. Uma das questões abordadas são os direitos e deveres do jovem com incentivo à cidadania. A caderneta traz ainda, aspectos em relação ao autocuidado, nas mais variadas áreas como odontologia, higiene pessoal e doenças sexualmente transmissíveis. Há ênfase na educação sexual, com o objetivo de orientar os jovens sobre as dúvidas mais frequentes e o modo correto de prevenir uma gravidez indesejável assim como as DSTs. Ainda em relação à Caderneta de Saúde do Adolescente, o crescimento, desenvolvimento e a vacinação também recebem especial atenção, mostrando que esses cuidados não devem ser esquecidos na adolescência. Os assuntos são descritos de forma lúdica e linguagem acessível, favorecendo a compreensão não só pela equipe de saúde como, principalmente, pelo jovem e sua família. Contudo, essas análises não podem nos deixar esquecer que apesar dessas transformações positivas e progressistas no escopo legal das políticas publicas na construção e efetivação de novas diretrizes, projetos e programas, reconhecendo a necessidade de atuação junto está parcela da população, ainda verificamos dificuldades para aplicar e interpretar adequadamente a legislação especifica, em especial quando se trata da sexualidade e reprodução na adolescência. Não obstante, torna-se possível afirmar que o fato das dificuldades em torno da interpretação e aplicabilidade da legislação especifica se inicie a partir tanto dos instrumentos legais nacionais quanto dos documentos internacionais que ainda enfatizam os aspectos patológicos relacionados à sexualidade e à reprodução, se omitindo expressivamente aos aspectos positivos do exercício da sexualidade e reprodução nesta fase inerte da vida humana. Cabe ainda ressaltar, que hoje após mais de 20 anos decorridos da aprovação do ECA ainda há muito o que fazer, conforme destaca Fonseca: O fato de o Brasil ter “altos ideais para uma sociedade ideal” sem que se concretizem os caminhos para atingir os princípios promulgados pelas leis de defesa dos direitos, contextualiza a premissa que os direitos humanos em sua forma abstrata pouco significam. (FONSECA, 2001, ,p.84). Essa forma abstrata referente à aplicabilidade dos direitos no Brasil, não poderia ser de outra forma, posto a elevadíssima concentração de renda vigente no país e, consequentemente, a desigualdade e a miséria continuam a afetar perversamente a vida de todos os brasileiros, em especial, a da maioria de nossas crianças, adolescentes e jovens. Dessa maneira é interessante refletirmos sobre a forma como são desenvolvidas as políticas e ações nas diferentes áreas, tais como: a saúde, assistência social, educação, cultura e justiça, questionando seus limites, sua eficiência e suas metodologias, se de fato essas intervenções concretizam á promoção dos direitos dos adolescentes. Para tanto, para que possamos compreender tudo o que até aqui viemos debatendo em face ao fenômeno da gravidez na adolescência, no próximo capitulo, iremos expor o percurso metodológico utilizado para a concretização dessa pesquisa em torno das percepções e as narrativas das adolescentes que vivenciam a gravidez. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente trabalho partiu da necessidade de estudar sobre a gravidez na adolescência e a relação entre maternidade e paternidade a fim de contribuir paraampliação do nosso conhecimento teórico e aprofundamento do estudo sobre o tema. Percebemos esta necessidade após termos vivenciado um período de estágio no NASF e termos contato durante visitas domiciliares realizadas com adolescentes grávidas, em situação de maternidade ou paternidade e seus familiares e visualizarmos os impactos socioeconômicos trazidos por estas vivências para estes adolescentes. Acredita-se que nessa fase da vida, os adolescentes na sua grande maioria, tendem a não pensar nas consequências que certos atos, em especial o ato sexual sem proteção, pode trazer para si e para as pessoas que fazem parte do seu contexto familiar. Ou seja, não percebem que uma gravidez planejada ou não, pode desencadear uma série de questões de ordem econômica e principalmente social que se não forem discutidas no âmbito familiar, escolar etc., podem comprometer todo o recinto familiar Analisando as causas e consequências da gravidez na adolescência e a relevância da Educação Sexual na mesma com ênfase no papel do assistente social, podemos compreender o quanto é importante trabalhar na reflexão da gravidez precoce, pois os jovens apresentam manifestações de sua sexualidade e não devem ser privados de informações que os possibilitem compreenderem tais eventos e a encarar o seu desenvolvimento de forma tranquila e responsável. Portanto este estudo se torna de suma importância para contribuir cientificamente na produção de conhecimento sobre esta temática, estimulando assim novas pesquisas e também mobilização da sociedade como um todo diante desta problemática. Faz-se necessária essa mobilização de toda a sociedade para que, por meio de programas de saúde, possibilite a este grupo da população maior acesso a informações e meios que lhes permitam desenvolver e praticar uma postura crítica, consciente e responsável no exercício da sua sexualidade. Neste sentido, torna-se indispensável trabalhar a sexualidade, principalmente a sexualidade na adolescência, pois se trata de um tabu que ainda perdura em nossa sociedade nos dias atuais, mesmo estando este tema estampado em programas de televisão, músicas, revistas e tantos outros mecanismos, que fazem parte do dia-a-dia e da nossa realidade. Mas, daí nasce o ponto de partida para que haja uma redução da gravidez precoce. E isso não significa que seja tarefa impossível de ser realizada, portanto o Assistente Social, com suas atribuições específicas pode estabelecer uma relação com esta temática. Além do indispensável papel do assistente social, é importante ressaltar o papel da família e das políticas publicas nesse momento, pois são de grande relevância no sentido de amenizar as problemáticas decorrentes desta gravidez que muitas vezes não foi planejada e muito menos desejada por essa adolescente e seu namorado. Assim, os jovens não deixarão de estudar, terão mais facilidade em se qualificar e, por conseguinte, terão um futuro mais promissor. Acredita-se que as possíveis soluções para este problema não cabe somente aos adolescentes e aos programas destinados ao atendimento desta população, mas a sociedade em conjunto, uma vez que não existe uma saída para este problema que não seja coletiva. E o Assistente Social tem sua parcela de contribuição neste processo à medida que trabalha na orientação aos jovens, quanto à Educação Sexual visando à diminuição dos índices de gestação em adolescentes. REFERÊNCIAS ABERASTURY, A. Knobel, M. Adolescência normal. Porto Alegre: Ed. 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