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Parasitologia- ENTEROBIOSE Enterobius vermicularis (helminto popularmente conhecido como oxiúros) Ascaris vermicularis (Linneu, 1758) Oxyuris (Rudolphi,1803) Oxyuris vermiculares (Lamarck, 1816) Enterobius (Leach,1853) Enterobius vermicularis (Linneu, 1853) EPIDEMIOLOGIA Prevalência: crianças em idade escolar; pré-escolares; mães cuidadoras das crianças parasitadas. Incidência: países de clima frio e temperado, inclusive nos mais desenvolvidos (menor frequência de banhos, de troca de roupas e ao confinamento em ambientes fechados). Eminentemente doméstico ou de ambientes coletivos fechados (creches, asilos, enfermarias infantis). Parasita mais antigo do novo mundo: 10.000 anos. MORFOLOGIA Nítido dimorfismo sexual, entretanto, alguns caracteres são comuns aos dois sexos: cor branca e serem filiformes (delgados como um fio). Na extremidade anterior, lateralmente à boca, notam-se expansões vesiculosas muito típicas, chamadas "asas cefálicas"(sinal patognomônico). A boca é pequena, seguida de um esôfago também típico: é claviforme, terminando em um bulbo cardíaco. Fêmea: mede cerca de 1cm de comprimento, por 0,4mm de diâmetro. Cauda pontiaguda e longa. A vulva abre-se na porção média anterior, a qual é seguida por uma curta vagina que se comunica com dois úteros; cada ramo uterino se continua com o oviduto e ovário. Macho: Mede cerca de 5mm de comprimento, por 0,2mm de diâmetro. Cauda fortemente recuada em sentido ventral, com um espículo presente; apresenta um único testículo Ovo: Mede cerca de 50micrômetros de comprimento por 20 micrômetros de largura. Apresenta o aspecto grosseiro de um D (um dos lados achatado e o outro é convexo). Possui membrana dupla, lisa e transparente. No momento em que sai da fêmea, já apresenta no seu interior uma larva. Possui uma superfície pegajosa que adere facilmente a vestuários. TRANSMISSÃO O Enterobius vermicularis, ou oxiúros, é transmitido pela rota fecal-oral. Os ovos nas unhas e roupas de cama são ingeridos e se desenvolvem na parte superior do intestino delgado, onde se transformam em adultos antes de habitar o intestino grosso. Heteroinfecção ou primoinfecção: quando ovos presentes na poeira ou alimentos atingem novo hospedeiro. Indireta: quando ovos presentes na poeira ou alimentos atingem o mesmo hospedeiro que os eliminou; Auto-infecção externa ou direta: a criança(frequentemente) ou o adulto(raramente) levam os ovos da região perianal a boca(roer unhas, chupar dedo). É o principal mecanismo responsável pela cronicidade dessa verminose; Auto-infecção interna: parece ser um processo raro no qual as larvas eclodiriam ainda dentro do reto e depois migrariam até o ceco, transformando-se em vermes adultos; Retroinfecção: as larvas eclodem na região perianal (externamente), penetram pelo ânus e migram pelo intestino grosso chegando até o ceco, onde se transformam em vermes adultos. HABITAT: machos e fêmeas vivem no ceco e apêndice. As fêmeas repleta de ovos, são encontradas na região perianal. Em mulheres, às vezes pode-se encontrar na vagina, útero e bexiga. CICLO EVOLUTIVO Os vermes vivem livremente no lúmem do cólon, onde se acasalam. As fêmeas grávidas migram para a região perianal, onde depositam um grande número de ovos (11mil por parasita). Os ovos rapidamente se tornam embrionados em até seis horas após a postura. É do tipo monoxênico (usa apenas uma espécie de hospedeiro para completar o seu ciclo). Após a cópula, os machos são eliminados com as fezes e morrem. As fêmeas, repletas de ovos, se desprendem do ceco e dirigem-se para o ânus (principalmente à noite). Alguns autores suspeitam que elas realizam oviposição na região perianal, mas a maioria afirma que a fêmea não é capaz de fazer postura dos ovos; os mesmos seriam eliminados por rompimento da fêmea, devido a algum traumatismo ou dissecamento (o próprio prurido pode ocasionar esse dissecamento). Como ela se assemelha a um "saco de ovos", com a cutícula extremamente distendida, parece que o rompimento da mesma se toma fácil. Os ovos eliminados, já embrionados, se tomam infectantes em poucas horas (4 à 6) e são ingeridos pelo hospedeiro. No intestino delgado, as larvas rabditóides eclodem (devido à ação anterior do suco gástrico e, agora, duodenal) e sofrem duas mudas no trajeto intestinal até o ceco. Aí chegando, transformam-se em vermes adultos. Um a dois meses depois as fêmeas são encontradas na região perianal. Não havendo reinfecção, o parasitismo extingue-se aí. Resumidamente: Machos e fêmeas no ceco Ovos depositados na região perianal ovos no meio exterior, contaminando alimentos + ovos da região perianal levados a boca pelas mãos ingestão de ovos embrionados eclosão de larvas no intestino delgado migração de larvas até o ceco vermes adultos. Cerca de 30 a 40 dias após a infecção, as fêmeas já estão repletas de ovos. PATOGENIA Na maioria dos casos, o parasitismo passa despercebido pelo paciente. Este só nota que possui o verme quando sente ligeiro prurido anal (à noite, principalmente) ou quando vê o verme (chamado popularmente de "lagartinha") nas fezes. Em infecções maiores, pode provocar enterite catarral por ação mecânica e irritativa. O ceco apresenta-se inflamado e, às vezes, o apêndice também é atingido. A alteração mais intensa e mais frequente é o prurido anal. A mucosa local mostra-se congesta, recoberta de muco contendo ovo e, as vezes, fêmeas inteiras. O prurido ainda provoca perda de sono, nervosismo e, devido à proximidade dos órgãos genitais, pode levar à masturbação e erotismo, principalmente em meninas. A presença de vermes nos órgãos genitais femininos pode levar a vaginite, metrite, salpingite e ovarite. Curiosidade: Fora do Brasil, alguns raros casos de granulomas por ovos de E. vermicularis já foram assinalados, sendo dois no fígado, um no rim e um na próstata. No primeiro, os vermes chegaram ao fígado perfurando a parede cecal e caindo no sistema porta, atingindo aquele órgão; nos dois últimos casos, o caminho foi pela uretra. A perfuração do íleo, pelo parasito, apesar de rara, tem sido relatada IMUNOPATOGENIA O Enterobius vermiculares é um helminto monoxênico, que utiliza o indivíduo apenas como hospedeiro. Dessa forma, ele não gera ativação do sistema imune significante no TGI. A resposta contra o Enterobius vermicularis ativa os eosinófilos, mas é uma resposta muito baixa, o que justifica a ineficácia do hemograma para diagnóstico da enterobiose. A defesa contra muitas infecções por helmintos é mediada pela diferenciação e ativação de células T CD4 imaturas para células Th2, que secretam IL-4 e IL-5, resultando na produção de anticorpos IgE e ativação de eosinófilos e mastócitos. Os fagócitos também podem atacar os parasitas helmintos e secretar substancias microbicidas para matar organismos que são muito grandes para serem fagocitados. QUADRO CLÍNICO O prurido anal é o sintoma mais frequente, sendo a maior parte dos casos, intenso, estimulando o ato de coçar, principalmente a noite, pois é o período de repouso e equilíbrio de temperatura do hospedeiro. A proteína presente na casca dos ovos provoca a reação de intenso prurido na pele. COMPLICAÇÕES Escoriações provenientes de coceiras intensas que envolvem a região perianal e anal, podendo desencadear lesões da mucosa retal. solução de continuidade para infecções secundárias. Vulvovaginite: eventual penetração de femeas pela vulga e vagina. Prurido nasal, crises de urticária, nervosismo, irritabilidade, insônia Colite crônica, resultando em diarreia e perda de peso. “Apendicite crônica”: ainda é discutível, mas quadros de perfuração intestinal com presença de vermes na cavidade peritoneal já foram relatados. MÉTODOS DIAGNÓSTICOS No diagnóstico clínico, o prurido anal noturno e continuado e escoriações perineais podem levar a uma suspeita clínica de enterobiose. No diagnóstico laboratorial: - Hemograma: eosinofilia muito discreta, portante hemograma não é útil para esse diagnóstico. - Exame de fezes não funciona para essaverminose intestinal. (só revela 5 a 10% de casos de parasitismo). O melhor método é o da fita adesiva (transparente) ou método de Graham, que é descrito a seguir: corta-se um pedaço de 8 a 10cm de fita adesiva transparente; coloca-se a mesma com a parte adesiva para fora, sobre um tubo de ensaio ou dedo indicador (nesse último último caso, é perigoso pela possível contaminação do executor do método); apõe-se várias vezes a fita na região perianal; coloca-se a fita sobre uma lâmina de vidro; leva-se ao microscópio e examina-se com aumento de 10 e 40x. Essa técnica deve ser feita ao amanhecer, antes de a pessoa banhar-se, e repetida em dias sucessivos, caso dê negativo. Caso a lâmina não possa ser examinada no mesmo dia, a mesma deverá ser conservada em geladeira, devidamente embalada em papel-alumínio TRATAMENTO Indicado para todas as pessoas infectadas da família e para todos os membros comunitários. Pamoato de Pirantel : 10 mg/kg em dose única, não ultrapassando 1 g, por via oral, preferencialmente em jejum. Eficácia: 80 a 100% de cura; com poucos efeitos adversos, tais como: cefaléia, tonturas e distúrbios gastrointestinais leves. Não deve ser administrado a gestantes e, como lembrança, o paciente deve ser comunicado que o fármaco poderá produzir cor vermelha na urina e fezes. Sugere-se na maioria dos casos a repetição do tratamento, aumentando assim a taxa de cura deste nematódeo intestinal. Benzimidazólicos : Mebendazol: 100mg, 2 vezes ao dia, durante 3 dias, VO, independente da idade do paciente. Eficácia de 90 a 100% de cura, com raros efeitos colaterais. Albendazol: 10 mg/kg, VO, máximo de 400 mg, também independente da idade. Eficácia perto dos 100%. Náuseas, vômitos, diarréia, secura na boca e prurido cutâneo podem surgir após a ingesta, porém é raro o seu acometimento. O Mebendazol trata-se de um anti-helmintico de amplo aspecto que pertence aos derivados benzimidazólicos. Pelo seu mecanismo de ação antiparasitário inibe de forma seletiva irreversível a absorção de glicose provocando depleção dos depósitos de glicogênio nos microtubulos das células tegumentárias e intestinais do parasita. Tudo isso gera imobilidade, paralisia motora e morte dos diferentes nematódeos. De forma geral, o tratamento contra helminto age em 3 lugares: microtubulos (para gerar paralisia motora do verme, ex. albendazol, tiabendazol), nos canais iônicos (para interferir no seu metabolismo, ex pirantel, levamisole, ivemectina) e provocando lesões na cutícula do verme. PREVENÇÃO Tratamento de todas as pessoas parasitadas da família (ou outra coletividade) e repetir o medicamento duas ou três vezes, com intervalo de 20 dias, até que nenhuma pessoa se apresente parasitada; Lavar as mãos e evitar coçar a região perianal A roupa de dormir e de cama usada pelo hospedeiro não deve ser "sacudida" pela manhã, e sim enrolada e lavada em água fervente, diariamente; Corte rente das unhas Aplicação de pomada mercurial na região perianal ao deitar-se Banho de chuveiro ao levantar-se Limpeza doméstica com aspirador de pós, são medidas complementares de utilidade.