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Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Sidney Ferreira de Moraes Neto Módulo Endocrinologia Campo Grande 2018 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Resumo de Endocrinologia Problema 1 Síndrome Consumptiva Perda de peso significativa pode ser definida como perda maior que 5,0% do peso habitual no período de 6 a 12 meses. Perda de peso maior que 10,0% é considerada estado de desnutrição associado à deficiência humoral e celular mediada. Variações no tamanho das roupas utilizadas também podem indicar indiretamente o início e a magnitude da perda de peso. Fisiopatologia e Classificação da Perda de Peso Divide-se a base fisiopatológica da perda de peso em três categorias: ➔ Diminuição da ingestão de alimentos, ➔ Metabolismo acelerado ou, ➔ Aumento da perda de energia. A perda de peso pode ser traduzida como um sintoma de desordem multifatorial que inclui alteração ➔ Da ingesta calórica, ➔ Da absorção intestinal, ➔ Da motilidade intestinal, ➔ Do uso de medicamentos e abuso de drogas ou, ➔ Da produção aumentada de substâncias endógenas como fator de necrose tumoral, a interleucina 6, substâncias bombesina-like e fatores liberadores de corticotropina. Outros fatores como náusea e vômito causados pela quimioterapia também são importantes processos associados à perda de peso, bem como dor oncológica e compressões tumorais do trato gastrintestinal, quando provocam disfagia e distensão abdominal. A regulação do apetite sofre alterações com o envelhecimento (“anorexia fisiológica da idade”), há aumento da circulação de colecistocinina, por exemplo, que associada à diminuição do metabolismo basal pode levar à perda de peso importante. A maioria dos homens atinge o máximo de peso corporal ao redor dos 40 anos e as mulheres aos 50 anos. Logo após, ocorre progressiva perda de massa magra corporal, principalmente nas extremidades e estoque de gordura central. Atrofia gordurosa também pode ocorrer gerando aparência caquética. Alguns estudos mostram que há declínio natural da Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 sensibilidade ao paladar e olfato com o aumento da idade, o que pode contribuir para a diminuição de peso. Distúrbios de visão e cognição no idoso também podem contribuir para a diminuição de ingesta calórica. Classifica-se perda de peso em dois grandes grupos: ➔ Perda de peso involuntária com umento ou diminuição do apetite; ➔ Perda de peso voluntária; Perda de peso involuntária com AUMENTO do apetite Esta condição está associada com aumento do gasto energético ou perda de calorias pelas fezes ou urina. Neste caso, a quantidade de calorias ingeridas é insuficiente para suprir o deficit energético. São causas deste tipo de condição: hipertireoidismo, diabetes mellitus (DM) descompensado, síndrome de má absorção, feocromocitoma, aumento importante de atividade física. No hipertireoidismo, a perda de peso está associada com aumento do gasto energético basal e com o deficit na absorção intestinal devido ao aumento da motilidade gastrointestinal. Em idosos com hipertireoidismo, também pode ocorrer a associação desta doença com anorexia. No diabetes mellitus descompensado, principalmente no DM tipo 1, a causa da perda de peso está associada à deficiência de insulina (hormônio anabólico) e à hiperglicemia com glicosúria (diurese osmótica), causando depleção de líquido extra e intracelular (desidratação). No feocromocitoma a atividade adrenérgica exacerbada aumenta a taxa de metabolismo basal. Outra causa não orgânica deste tipo de perda de peso é a baixa condição econômica, que pode resultar em dificuldades para comprar alimentos adequados para a manutenção do equilíbrio calórico. Perda de peso involuntária com DIMINUIÇÃO do apetite Neste grupo de doenças incluíam-se as doenças psiquiátricas como depressão, fase maníaca do distúrbio bipolar, distúrbio de personalidade e paranoia, uso crônico de drogas, doenças como câncer, endocrinopatias, doenças crônicas, doença pulmonar obstrutiva crônica e doenças gastrointestinais. A perda de peso devido ao câncer (síndrome anorexia-caquexia) é comum e ocasionalmente pode ser a única manifestação de tumores ocultos. Qualquer câncer pode evoluir com perda de peso, tanto como primeira manifestação ou manifestação tardia do tumor (tabela 1). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 As malignidades acometem aproximadamente um terço dos pacientes que apresentam síndrome consumptiva. Afecções gastrointestinais benignas, tais como úlcera e colecistite, também têm sido causas de perda de peso em 11,0 a 17,0% dos pacientes investigados. Nos pacientes com vírus da imunodeficiência humana (HIV) positivos ou soro- reagentes a perda de peso é sintoma relativamente comum, mas ao contrário dos cânceres, esta redução de peso está associada primariamente à diminuição da ingestão calórica, já que o gasto energético é igual ao paciente sem a doença. Perda de peso súbita no paciente com HIV geralmente está relacionada à infecção secundária, enquanto que perda gradual geralmente está relacionada à redução de ingesta calórica. Dentre as endocrinopatias, a insuficiência adrenal pode cursar com anorexia, náusea e perda de peso, assim como a hipercalcemia e alguns pacientes com hipertireoidismo, geralmente idoso. Nos pacientes com diabetes mellitus, pode ocorrer a perda de apetite como sintoma da gastroparesia, má absorção intestinal por neuropatia intestinal e insuficiência renal. Diabético tipo um pode também apresentar doença de Addison associada. Pacientes com doenças psiquiátricas frequentemente apresentam perda de peso como critério de diagnóstico, como por exemplo, na depressão maior (perda de mais de 5,0% em um mês). A caquexia pode ser induzida por uso crônico de neuroléptico e deve ser descontinuada neste caso. O uso crônico do álcool, nicotina, opiáceos e estimulantes do sistema nervoso central diminuem o apetite e causam perda de peso. Outro distúrbio psiquiátrico, a anorexia nervosa é classificada como perda de peso voluntária. Nas doenças cardiopulmonares, a perda de peso relaciona-se à insuficiência cardíaca (caquexia cardíaca) ou à doença pulmonar obstrutiva crônica. No entanto, esta perda de peso pode ser ocultada pelo edema concomitante. Doenças neurológicas como o acidente vascular cerebral, demências, esclerose múltipla, Parkinson, podem estar associadas com alteração de motilidade gastrintestinal bem como disfagia, alteração do olfato, paladar (disgeusia), constipação, disfunção Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 esfincteriana e falta de apetite. A doença de Parkinson relaciona-se com anorexia e aumento do gasto energético. Uremia induz anorexia, náusea e vômito, assim como perda de proteína pela urina, por exemplo, na síndrome nefrótica, contribuindo para o balanço negativo calórico. Pacientes em situações de isolamento social tendem a apresentar diminuição do apetite. Nos idosos, o isolamento se refere não apenas ao ato de comer, mas também à dificuldade em comprar e preparar os alimentos. A tabela 2 resume as principais causas de perda de peso involuntária. Diagnóstico Clínico e Diferencial Anamnese Durante investigação etiológica de síndrome consumptiva, é necessário perguntar ao paciente sobre seu apetite, atividade física, como é o padrão da perda de peso (flutuante ou estável), por quanto tempo vem perdendo peso e se a perda é voluntária ou involuntária. Como auxílio no raciocínio diagnóstico para síndromeconsumptiva, Robbins publicou regra mnemônica que consiste em nove “D”s de causas de perda de peso nesta população: Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 ➔ Dentição: alteração na cavidade oral ➔ Disfagia ➔ Distúrbio do paladar (Disgeusia) ➔ Diarreia ➔ Depressão ➔ Doença crônica ➔ Demência ➔ Disfunção (física, cognitiva e psicosocial) ou dependência. ➔ Drogas Outra regra mnemônica para lembrar-se dos diagnósticos diferenciais para perda de peso é MEALS ON WHEELS: ➔ Medication: medicamentos; ➔ Emotional problems: problemas emocionais, principalmente depressão; ➔ Anorexia nervosa, alcoolismo; ➔ Late Life paranóia Swallowing: deglutição; ➔ Oral factors: fatores orais; ➔ No Money: problemas financeiros; ➔ Wandering ou comportamentos alterados; ➔ H: hiper/hipotireoidismo, hiperparatireoidismo, hipoadrenalismo; ➔ Enteric problems: problemas entéricos; ➔ Eating: problemas para se alimentar sozinho; ➔ Low salt, low cholesterol: dieta sem gordura e sal; ➔ Stones, social problems: problemas sociais; A tabela 3 cita alguns medicamentos capazes de induzir perda de peso por alterar o paladar, causar disfagia ou causar anorexia. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Ainda como roteiro da anamnese, deve-se quantificar a Medida de Independência Funcional (MIF) dos pacientes no intuito de avaliar o grau de dependência nas atividades de vida diária (figura 1). O instrumento avalia 18 categorias pontuadas de um a sete e classificadas quanto ao grau de dependência para a realização da tarefa. As categorias são agrupadas em seis dimensões: autocuidados, controle de esfíncteres, transferências, locomoção, comunicação e cognição social. Cada dimensão é analisada pela soma de suas categorias referentes; quanto menor a pontuação, maior é o grau de dependência. Somando-se os pontos das dimensões da MIF obtém-se escore total mínimo de 18 e máximo de 126 pontos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Existem diversos instrumentos validados que poderão auxiliar na avaliação da perda de peso do paciente, tal como Mini Nutritional Assessment (MNA), que avalia o risco de desnutrição em idosos, e inclui a medida de circunferência do braço (valores menores que 22 cm para mulher e 23 cm para homem são sugestivos de deficiência crônica de energia). Exame Físico O exame físico do paciente com perda de peso deve ser detalhado e incluir exame da pele (observar sinais de desnutrição, deficiência vitamina e oligoelementos), cavidade oral, avaliação da tireóide, propedêutica cardiovascular, pulmonar e abdominal, toque retal, palpação de linfonodos, exame neurológico, incluindo o Mini Exame do Estado Mental, medidas antropométricas para cálculo do IMC (kg/m2), além dos sinais vitais. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Exames Complementares Iniciais Para uma avaliação inicial da etiologia em casos em que a história e o exame físico não forem indicativos da causa, os seguintes exames complementares são sugeridos: 1) Hemograma; 2) Eletrólitos; 3) Glicemia; 4) Função renal e hepática; 5) TSH; 6) Sorologia para HIV; 7) Proteína C Reativa; 8) Parasitológico de fezes; 9) Raio-X de tórax; 10)Urina 1; 11)PPD. Embora concentrações de albumina sérica, pré-albumina, transferrina, colesterol e contagem de leucócitos possam ajudar a estabelecer o diagnóstico de desnutrição, suas determinações não contribuem para determinar a causa do problema. Na ausência de alteração no exame físico e nos exames iniciais complementares, deve-se seguir a investigação com exames de rastreamento para câncer, conforme sexo e idade (tabela 4). Marcadores Tumorais Os marcadores tumorais geralmente não são diagnósticos de neoplasias, embora possam contribuir para o diagnóstico15 (tabela 5). O valor diagnóstico do marcador Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 tumoral depende da prevalência da doença na população, podendo auxiliar no diagnóstico diferencial (ex: câncer de células germinativas) e, especialmente, predizer metástases. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Fisiopatologia e Etiologia da Síndrome Consumptiva Fisiopatologicamente, a perda ponderal ocorre como resultado de diminuição do aporte de energia, aumento do gasto energético e perda de energia, podendo culminar em caquexia e suas complicações. Porém, essa divisão é didática, pois, geralmente, ela é multifatorial, principalmente no paciente idoso. Diminuição de aporte de energia: refere-se a jejum digestivo/celular, como anorexia, dificuldade de mastigação e deglutição, falta de acesso à alimentação e saciedade precoce. Aumento do gasto energético: ocorre por catabolismo aumentado desadaptado, por liberação de hormônios e cininas inflamatórias, como nas doenças orgânicas, elou excesso de atividades físicas, como nos maratonistas. Aumento de perdas de energia: pode ocorrer pela pele (febre, sudorese profusa), pela urina (glicosúria, proteinúria) e pelas fezes (esteatorreia), com diminuição da incorporação dos nutrientes, água e sais minerais, podendo se manifestar por poliúria, vômitos e má absorção. As principais causas de emagrecimento, de acordo com a fisiopatologia, estão listadas na Tabela 3. Chama-se a atenção nesta tabela para o caráter multifatorial e perpetuador (ciclo vicioso) que se estabelece em um paciente portador de emagrecimento involuntário. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 El em pacientes oncológicos: geralmente apresentam baixa ingestão alimentar consequente a vários fatores, como perda do olfato, hiporexia, incapacidade de alimentar- se por distúrbios da mastigação e deglutição associados a imunodepressão e quimioterápicos, infecção secundária com disgeusia (alteração do sabor), xerostomia e mucosites secundárias, disfagia, náuseas, vômitos. cólicas e distensões abdominais, ascites, má absorção por mucosa careca ou invasão/ressecção tumoral, saciedade precoce por gastroparesia elou ação de citocinas inflamatórias no centro da fome, dor crônica e depressão. No entanto, a perda de peso nesses pacientes não pode ser atribuída somente à falta de ingesta. A perda ponderai nesses casos está associada ao aumento de consumo de energia com hipercatabolismo e consequente depleção de nutrientes, ambos culminando com balanço energético negativo e emagrecimento, podendo evoluir para caquexia. Os estados hipercatabólicos são caracterizados por consumo de massa magra com graves consequências por conta da trofia muscular de membros e caixa torácica. Entre elas, pode-se citar: ➔ Perda da funcionalidade motora e respiratória, ➔ Fadiga, ➔ Imobilidade no leito, ➔ Predisposição a tromboses, ➔ Embolias e riscos de escaras, ➔ Aumento do trabalho respiratório, ➔ Diminuição da capacidade de tosse e eliminação de secreções pulmonares, ➔ deficit de musculatura lisa com retardo do esvaziamento gástrico (gastroparesia) e aumento da saciedade, ➔ Diminuição do trânsito intestinal. ➔ Perda da estabilidade de resposta cardiovascular, alteração do sistema imunológico com consequente predisposição a infecções (linfopenia e alteração de anticorpos), ➔ Piora do metabolismo (enzimas, cininas, moléculas de expressão, hormônios e membranas), ➔ Piora da reparação tissular. Os mecanismos metabólicos, que tentam preservar a massa magra como um mecanismo de autoproteção como antioxidantes e sinalização celular de síntese proteica, são bloqueados e ultrapassados pela ativação da resposta inflamatória, ou resposta hormonal desadaptada pores· tresse físico ou psíquicodo hipercatabolismo. O insulto catabólico também induz aumento de hormônios catabólicos (adrenalina e cortisol). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 diminuição dos hormônios anabólicos (insulina, GH e testosterona), aumento acentuado da conversão de aminoácidos em glicose pelo fígado pela neoglicogênese, rápida quebra de musculatura com utilização de aminoácidos como fonte de energia (sobretudo com consumo do aminoácido glutamina). canalização anormal de nutrientes (produção excessiva acima das necessidades de glicose), falta de cetose, indicando que a gordura não é a maior fonte de caloria e ausência de resposta do catabolismo ao aporte de nutrientes. A ação catabólica induz caquexia muscular ou doença resultante de demanda aumentada de produção de energia, porém ineficiente, levando a produção predominante de calor (perda de energia). A resposta alterada à insulina e a diminuição da lipase dos tecidos adiposos, induzindo hiperglicemia e hipertrigliceridemia, podem também contribuir para a falta de apetite em pacientes oncológicos. Kayacan et al descrevem que as cininas pró-inflamatórias TNF-alfa, fL· I beta e IL- 6, produzidas por tumores e liberadas também em processos inflamatórios, agem independentemente, induzindo proteólise e lipólise no hipermetabolismo via resistência à insulina nesses pacientes. A proteólise se faz predominantemente via ubiquitina- proteossomo induzida pelo PIF – fator indutor de proteólise (proteolysis inducing factor) e TNF-alfa, associados a aumento de moléculas de adesão celular, lipólise, endotelite com hipoalbuminemia, liberação de proteínas de fase aguada como o VHS (velocidade de hemossedimentação) e PCR (proteína C-reativa). Vários autores concordam que esta pode ser a via final comum que medeia a degradação proteica na caquexia. A lipólise se faz pelo LMF (fator de mobilização de lípides – lipid mobilizing factor). que atua via AMP cíclico por meio dos receptores beta-adrenérgicos. O processo inflamatório induz a liberação de IL· 12 e interferon gama, que agrava a caquexia e os sintomas sistêmicos como mal-estar e anorexia, podendo causar até 42% de redução da carcaça de tecido adiposo. Modelos experimentais sugerem que o consumo desses mediadores pró- inflamatórios seja dirigido predominantemente contra a cadeia pesada da musculatura esquelética. O alvo para a musculatura esquelética traduz perda de massa magra e alterações metabólicas graves. Linfomas liberam IL-6 e TNF-alfa e. quando associados aos outros marcadores de fase aguda, como VHS e proteína C-reativa, t~m relação direta com caquexia e pior prognóstico. Conceitos de Amenorreia Merecem avaliação as pacientes que apresentam sangramento vaginal anormal em duração, frequência ou quantidade. Padrões de sangramento: Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 ➔ Menstruação normal – fluxo menstrual com duração de três a oito dias com perda sanguínea de 30 a 80ml; ciclo com duração de 30 ± 4 dias. ➔ Menstruação anormal – sangramento que ocorre a intervalos de 21 dias ou menos, com mais de sete dias de fluxo e/ou volume total > 80ml. ➔ Amenorreia – ausência completa de menstruação em uma mulher na fase reprodutiva da vida. Pode ser amenorreia primária (ausência de menarca aos 16 anos de idade) ou secundária (ausência de menstruação por mais de seis meses ou, pelo menos, três dos intervalos de ciclos menstruais precedentes em uma mulher que tenha ciclos menstruais normais previamente). ➔ Oligomenorreia – ciclos menstruais com intervalos maiores que 40 dias. ➔ Polimenorreia – ciclos regulares com intervalos de 21 dias ou menos. ➔ Hipermenorreia (menorragia) – sangramento uterino excessivo em quantidade e duração, ocorrendo a intervalos regulares. ➔ Metrorragia – Sangramento uterino geralmente não-excessivo ocorrendo em intervalos irregulares. ➔ Menometrorragia – Sangramento uterino geralmente excessivo e prolongado ocorrendo a intervalos irregulares. ➔ Hipomenorreia – Sangramento uterino regular mas reduzido em quantidade. ➔ Sangramento intermenstrual – Sangramento que ocorre entre ciclos menstruais regulares. Esteroidogênese Ovariana O ovário não só é o depósito das células germinativas, mas também produz e secreta hormônios que são vitais para a reprodução e o desenvolvimento das características sexuais secundárias. Esta seção discute brevemente a biossíntese dos hormônios ovarianos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 No ovário, a maior fonte de produção hormonal é o folículo em maturação. Os componentes do folículo são ➔ As células da teca (androgênios), ➔ As células da granulosa (estrogênios) e, ➔ O oócito primário. As células da teca produzem androgênios e as células da granulosa produzem estrogênios. As outras células do estroma que contribuem para a produção de androgênios podem ser divididas em duas populações de células: ➔ As células intersticiais secundárias (derivadas da teca) e, ➔ As células do hilo. Estas células são as maiores envolvidas na produção de hormônios ovarianos durante a menopausa (ver adiante). Os hormônios ovarianos são derivados do colesterol. As células esteroidogênicas adquirem o colesterol de uma de três fontes. A fonte mais comum é a lipoproteína plasmática carregadora de colesterol, primariamente na forma de lipoproteína de baixa densidade (LDL). Uma fonte menor inclui a síntese de novo a partir do acetato e a liberação das gotas de lipídeos armazenadas (ésteres de colesterol). A estimulação das células ovarianas pelos hormônios tróficos como o FSH e o LH facilitam a captação do colesterol aumentando o número de receptores LDL na superfície celular. A partícula LDL é internalizada e degradada nos lisossomos. O colesterol livre que é liberado do lisossoma é entregue à mitocôndria por um mecanismo desconhecido, possivelmente via microfilamentos e microtúbulos. Então, o colesterol é translocado para a mitocôndria pela proteína reguladora da esteroidogenese aguda (StAR). Assim, a StAR é a etapa limitante e regula a disponibilidade de substrato para a esteroidogênese. Embora alterações agudas na produção de esteroides resultem de mudanças na oferta de colesterol às mitocôndrias, o controle de longo tempo na síntese de esteroides resulta da regulação de expressão gênica. A maioria dos genes envolvidos na esteroidogênese contém no mínimo um elemento de resposta fator-1 esteroidogênico (SF-1) na região promotora. Estes elementos são críticos para a regulação dos genes esteroidogênicos, bem como o desenvolvimento da suprarrenal, ovários e testículos. A importância do SF-1 para a esteroidogênese é destacado em camundongos knockout deficientes neste fator de transcrição com falta de suprarrenais e gônadas. Embora o SF- 1 seja essencial, a expressão específica de cada gene envolve vários outros fatores de transcrição que atuam independentemente ou em conjunto com o SF-1. O passo determinante da velocidade que oferece colesterol para a síntese de esteroides é a reação enzimática da clivagem da cadeia lateral do colesterol (P450scc) Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 (Figura 13-3). Esta reação converte o colesterol para pregnenolona, o precursor dos hormônios esteroides e ocorre na mitocôndria. A pregnenolona é transportada para fora da mitocôndria e as etapas restantes da produção de esteroides ocorrem primariamente no interior do retículo endoplasmático liso (REL). Uma vez que a pregnenolona está formada, o hormônio particular que será sintetizado depende do órgão endócrino e do tipo celular. Por exemplo,a principal fonte de esteroides sexuais na mulher vem das suprarrenais, ovários e da periferia. O tipo específico de hormônio sintetizado é dependente da expressão gênica específica dentro de cada tipo celular. Nas suprarrenais há três zonas: ➔ Glomerulosa (Aldosterona), ➔ Fasciculada (Cortisol) e ➔ Reticular (Androgênios). As células nas diferentes zonas começam com o mesmo hormônio precursor, mas diferem nos seus produtos de secreção. A glomerulosa produz principalmente aldosterona, enquanto cortisol e androgênios são produzidos pelas zonas fasciculada e reticular respectivamente. O principal androgênio produzido pela suprarrenal é o sulfato de desidroepiandrosterona (SDHEA). A diferença na atividade enzimática entre as células das diversas zonas é o que regula a produção hormonal. A zona reticular e a fasciculada carecem de 11B-hidroxilase, necessária para síntese de aldosterona. A zona glomerulosa carece de 17-hidroxilase e 17,20-liase (CYP17), que são necessárias para a síntese de esteroides sexuais. De modo similar, as células ovarianas secretam diferentes hormônios por causa de diferentes atividades enzimáticas. As células intersticiais da teca e as intersticiais secundárias carecem de aromatase e, portanto, são as produtoras de androgênios no córtex ovariano. As células granulosas, por outro lado, carecem de CYP 17 e, por isso, secretam estrogênios, principalmente estradiol, a partir dos androgênios derivados das células da teca na fase proliferativa e progesterona na fase lútea (ver adiante). O tecido adiposo e a pele contribuem significativamente para a concentração plasmática de alguns esteroides sexuais. O tecido adiposo é capaz de sequestrar a maioria dos esteroides devido a sua lipossolubilidade. A gordura também expressa genes capazes de metabolizar esteroides sexuais (i.e., aromatase). A pele contribui significativamente às concentrações plasmáticas de testosterona utilizando o SDHEA e a androstenediona como precursores. Os principais androgênios circulantes incluem SDHEA, androstenediona e testosterona. Durante os anos reprodutivos, os ovários são diretamente responsáveis pela Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 produção de um terço da testosterona. Os restantes dois terços vêm da periferia (l 7í3'" -hidroxiesteroide desidrogenase [HSD] tipos 3 e 5) e são derivados de precursores dos ovários e suprarrenais – notavelmente androstendiona, que é produzida em proporções iguais pelas suprarrenais e ovários. A suprarrenal pode secretar testosterona diretamente, mas sua principal contribuição é derivada da produção de precursores. Por isso os ovários são responsáveis por cerca de dois terços da testosterona circulante. Isso é diferente dos homens nos quais apenas 5% da testosterona circulante é derivada da conversão periférica de androstenediona. Também é estimado que mais de 60% do androgênio mais potente, a di-hidrotestosterona (DHT) nas mulheres, é produzido na pele (5cx-redutase dos tipos 1 e 2) e origina-se da androstenediona. O SDHEA é o principal androgênio produzido pelas suprarrenais. As suprarrenais são responsáveis por mais de 95% dos níveis circulantes de SDHEA. Ainda que seja o androgênio mais abundante circulando pelo organismo, ele contribui minimamente aos níveis séricos de testosterona. Os estrogênios circulantes incluem estrona, sulfato de estrona, estradiol e estriol (gestação). Mais de 95% do estradiol na circulação é produzido no ovário. Em contraste com o estradiol, aproximadamente metade da estrona circulante é secretada pelo ovário, enquanto o restante é derivado de conversão periférica. A androstenediona, precursor mais significativo, é aromatizada no tecido adiposo, folículos pilosos e no fígado à estrona. A estrona também é derivada do estradiol por meio da atividade dal 7í3'" -HSD tipo 2 e do sulfato de estrona (sulfatase esteroidal). Quase todo o estriol é produzido durante a gestação e é secretado pela placenta. Em última análise, a concentração sérica dos esteroides sexuais é ditada pela velocidade de secreção (VS), velocidade de produção (VP) e velocidade de depuração metabólica (VDM), conforme mostrado na Tabela 13-2. A VS dos hormônios sexuais de cada órgão determina a VP do hormônio. Se a VS para um hormônio específico no ovário é igual ao VP, então não há formação extragonadal. Entretanto, se há formação extragonadal, então o VP excede a VS. VDM é o volume de sangue por unidade de tempo depurado do hormônio. A depuração metabólica dos esteroides sexuais é inversamente relacionada com a afinidade da albumina e/ou da globulina ligadora pelo hormônio sexual (SHBG). Antes da excreção, os esteroides são conjugados para torná-los hidrossolúveis. A maior parte da testosterona está ligada a SHBG ( ~ 65%) e em menor extensão à albumina ( ~ 35%); só 1 % (hormônio livre) é ativo e disponível para metabolização. O restante dos androgênios tem afinidade negligenciável pela SHBG. A testosterona livre pode ser convertida em androgênios mais potentes como o DHT ou pode ser metabolizada para androstenediona. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Os metabólitos da androstenediona e DHT são conjugados com sulfato ou glicuronídeos e são excretados na urina. A maioria do estradiol também é ligada, ainda que tenha menor afinidade de ligação do que a testosterona por SHBG (38%) e mais pela albumina (60%); cerca de 2% é livre. O estradiol pode ser conjugado diretamente (16cx-hidroxilado ou 2- hidroxilado) ou é metabolizado para estrona antes da conjugação. O restante dos estrogênios é fracamente ligado a proteínas. A progesterona é metabolizada em vários intermediários antes da conjugação. O glicuronídeo de pregnanediol é o principal metabólito observado na urina. Uma variedade de condições clínicas resulta ou causa alteração nas velocidades normais de secreção, levando a distúrbios no ciclo mentrual. Este capítulo discute a fisiologia normal e trata de vários destes distúrbios hormonais. Fisiologia da Glândula Tireoide Estrutura e Síntese dos Hormônios Tireóideos Os hormônios da tireoide são tironinas iodadas compostas por dois núcleos unidos por uma ligação de éter (Figura 7-5). As células foliculares da glândula tireoide são especializadas em sintetizar a grande proteína precursora tireoglobulina, concentrar o iodo proveniente da circulação sanguínea intracelularmente e expressar um receptor que se liga ao tireotrofina (TSH), o qual promove o crescimento dos tirócitos e suas funções biossintéticas. Metabolismo do Iodo O iodo é um componente estrutural indispensável para os hormônios tireóideos. Por consequência, é um micronutriente essencial consumido na água ou na comida como iodo ou iodeto, que é convertido a iodo no estômago. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda uma ingestão diária dietética de 150 µg para adultos, 200 µg para mulheres grávidas ou lactantes e 50 a 250 µg para crianças. Uma vez que a maior parte do iodo é excretada pelos rins, a excreção urinária de iodo consiste em um excelente indicador da ingestão dietética. Durante milênios, o iodo tem sido retirado do solo em várias regiões montanhosas no mundo inteiro. Por consequência, de acordo com a OMS, a deficiência dietética de iodo, definida como uma ingestão diária de iodo menor do que 100 µg/ dia, afeta cerca de 2 bilhões de pessoas, o que consiste em aproximadamente um terço da população mundial. Quando a ingestão de iodo é menor do que 50 µg/ dia, uma tireoide de dimensões normais não pode manter uma produção hormonal adequada, resultando noaumento das dimensões da glândula (bócio) e, em última instância, em hipotireoidismo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 As consequências de uma deficiência dietética de iodo endêmica são especialmente devastadoras para fetos e crianças em desenvolvimento, os quais necessitam do hormônio tireóideo para o desenvolvimento neurológico e o crescimento normais. Na dieta norte-americana, o iodo é derivado principalmente de sal iodado, conservantes com iodo em alimentos cozidos, laticínios contendo traços de agentes antibacterianos iodóforos utilizados na coleta do leite, corantes alimentícios e frutos do mar. Os tirócitos expressam abundantemente o NIS (transportador de sódio-iodo), que causa vãos nas membranas basais celulares e transporta ativamente o iodo proveniente do sangue. A glândula tireoide concentra e utiliza apenas uma fração do iodo fornecido a ela para a síntese hormonal, e o restante retorna ao poll do líquido extracelular. Consequentemente, a captação fraciona! normal de iodo, a qual pode ser quantificada com um marcador radiativo iodado, é de cerca de 10 a 30% após 24 horas. Devido a seu mecanismo de concentração ativo e à subsequente organificação do iodo intracelular, a reserva intratireoidiana de iodo é bastante grande, 8 a 1 O mg na forma de hormônios tireóideos estocados e tirosinas iodadas. Este iodo proporciona uma reserva no caso de uma deficiência de iodo dietético temporária. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Síntese e Secreção do Hormônio Tireóideo A síntese de T4 e T3 pela glândula tireoide envolve seis etapas principais: 1) Transporte ativo do iodo através da membrana basal para dentro da célula tireóidea (aprisionamento); 2) Oxidação do iodo e iodização dos resíduos de tirosil na tireoglobulina (organificação); 3) ligação de pares de moléculas de tirosina na tireoglobulina para a formação das Iodotireoninas T3 e T4 (pareamento); 4) Pinocitose e proteólise da tireoglobulina com liberação das iodotironinas e iodotirosinas livres para a circulação; 5) Deiodinação das iodotirosinas nas células da tireoide, com conservação e reutilização do iodo liberado; e 6) 5'-deiodínação intratireoidiana do T4 em T3. A síntese do hormônio tireóideo necessita que o NIS, a tireoglobulina e a enzima TPO estejam presentes, funcionais e não inibidas. Este processo é resumido nas Figuras 7-6 e 7-7. Tireoglobulina A tireoglobulina é uma grande molécula de glicoproteína (MW 660.000 kD), composta por duas subunidades, cada uma delas contendo 5.496 aminoácidos. A tireoglobulina possui aproximadamente 140 resíduos de tirosil, porém apenas quatro sítios de tirosil são orientados para a hormonogênese efetiva em cada molécula. O conteúdo de iodo da tireoglobulina pode variar desde 0,1 a 1 %, de acordo com o peso. Na tireoglobulina contendo 0,5% de iodo, por exemplo, existem aproximadamente três moléculas de T4 e uma molécula de T3. O gene da tireoglobulina, que se situa no braço longo do cromossomo 8, contém aproximadamente 8.500 nucleotídeos que codificam o monômero da proteína pré- tireoglobulina, incluindo um peptídeo sinalizador de 19 aminoácidos. O TSH regula a expressão do gene da tireoglobulina. Após a tradução do mRNA tireoglobulina no retículo endoplasmático rugoso (RER), a proteína é glicosilada durante o transporte pelo aparelho de Golgi (ver Figura 7-7), onde os dímeros de tireoglobulina são incorporados às Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 vesículas exocíticas. Essas vesículas fundem-se com a membrana basal das células apicais, das quais são liberadas no lúmen folicular. Ali, na borda apical-coloide, os resíduos de tirosina na tireoglobulina são iodados. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Transporte de Iodo O iodo (I-) é transportado pela membrana dos tirócitos pelo NIS. O NIS ligado à membrana, que retira sua energia de uma Na+ _K+ ATPase, permite que a glândula tireoide humana mantenha uma concentração de iodo livre 30 a 40 vezes mais alta do que a plasmática. A ação do NIS é estimulada fisiologicamente pelo TSH e fisiopatologicamente pelo anticorpo estimulador do receptor de TSH da doença de Graves. Apesar de os tecidos salivar, gástrico e mamário expressarem o NIS e concentrarem iodo em menor quantidade do que a tireoide, esses outros tecidos não armazenam ou organificam o iodo, e suas atividades do NIS não são estimuladas pelo TSH. Grandes quantidades de iodo suprimem tanto a atividade do NIS como a expressão do gene NIS, representando mecanismos de autorregulação do iodo (ver adiante). O íon percloreto (ClO4-) compete com o iodo pelo NIS; o percloreto tem sido utilizado para o tratamento do hipertireoidismo e tem o potencial de ser um inibidor ambiental da função da tireoide. O NIS também pode concentrar o pertecnetato (TcO4-) nas células da tireoide, facilitando o uso do radionuclídeo pertecnetato sódico (99mTcO4-) para a visualização da glândula tireoide e para a quantificação de sua atividade de armazenamento. Na borda apical do tirócito, uma segunda proteína transportadora de iodo, a pendrina, transporta o iodo para a interface membrana-coloide, onde torna-se substrato para a hormoniogênese tireoidiana (ver Figuras 7-6 e 7-7). Mutações no gene da pendrina (PDS ou SLC26A4) que afetam sua função causam síndrome de bócio e perda auditiva adquirida na infância (síndrome de Pendred). Tireoperoxidase A tireoperoxidase (TPO), uma glicoproteína ligada à membrana (MW 102 kD) contendo uma porção heme, catalisa tanto a oxidação do iodo como a ligação covalente do iodo aos resíduos de tirosina da tireoglobulina. A expressão do gene TPO é estimulada pelo TSH. Após ser sintetizada no RER, a TPO é inserida nas membranas cisternas dos RER, das quais ela é transferida para a superfície das células apicais por meio dos elementos do aparelho de Golgi e das vesículas exocíticas. Então, na interface célula- coloide, a TPO facilita tanto a iodinação como a ligação dos resíduos de tirosina na tireoglobulina. lodinação da tireoglobulina No interior da célula tireoide, na interface apical-coloide, o iodo é rapidamente oxidado pelo peróxido de hidrogênio produzido localmente, em uma reação catalisada pela TPO; o iodo ativo resultante é ligado aos resíduos de tirosil na tireoglobulina. O Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 peróxido de hidrogênio necessário provavelmente seja gerado por uma NADPH oxidase na presença de cátions de cálcio, um processo que também é estimulado pelo TSH. A TPO também pode catalisar a iodinação das moléculas de tirosil em outras proteínas além da tireoglobulina, como a albumina ou fragmentos de tireoglobulina; no entanto, não são originados hormônios ativos dessas proteínas. Ligação dos resíduos de iodotirosil na tireoglobulina A ligação dos resíduos de iodotirosil na tireoglobulina também é catalisada pela TPO. Acredita-se que este seja um processo intramolecular que envolve a oxidação de dois resíduos de iodotirosil trazidos por estruturas terciárias e quaternárias de tireoglobulina, sua ligação como um éter de quinol intermediário e a separação do éter de quinol, formando uma iodotironina (ver Figura 7-8). Dentro da molécula de tireoglobulina, duas moléculas de DIT ligam-se para formar o T4, e uma molécula de MIT e uma de DIT ligam-se para formar o T3. Os fármacos tiocarbamato, incluindo o metimazole, o carbimazole e o propiltiuracil (PTU) são inibidores competitivos da TPO. Sua capacidade de bloquear a síntese hormonal da tireoide(Figura 7-9) torna-os úteis no tratamento do hipertireoidismo. Proteólise da Tireoglobulina e secreção do Hormônio da Tireoide O processo de proteólise e secreção da tireoglobulina na hormoniogênese tireoidiana é ilustrado na Figura 7-7. Na membrana apical do tirócito, o coloide é envolto em vesículas por pinocitose, sendo absorvido pela célula. Lisossomos contendo enzimas proteolíticas fundem-se com essas vesículas de coloide; isso ocasiona a liberação de T4 e T3, assim como iodotirosinas inativas, peptídeos e aminoácidos individuais. Os hormônios tireóideos biologicamente ativos T3 e T4 entram na circulação; o DIT e o MIT são deiodizados e seu iodo é conservado. A secreção do hormônio da tireoide é estimulada pelo TSH e inibida pelo iodo em excesso (ver posteriomente) e pelo lítio. Uma pequena quantidade de tireoglobulina intacta é liberada normalmente da célula tireoideana e circula pelo sangue. A concentração sérica de tireoglobulina é acentuadamente aumentada em vários distúrbios da tireoide, incluindo tireoidite, bócio nodular e doença de Graves. Uma vez que a tireoglobulina também é sintetizada na maioria das malignidades originadas do epitélio tireóideo, como os cânceres de tireoide papilar e folicular, ela constitui um marcador tumoral útil. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Deiodinação intratireoidiana O MIT e o DIT formados durante a síntese de hormônio tireóideo são deiodinados pela deiodinase intratireoidiana uma flavoproteína NADPH dependente encontrada na mitocôndria e nos microssomos que age sobre as iodotirosinas MIT e DIT, mas não sobre T3 e T4. A maioria do iodo liberado é reutilizada para a síntese hormonal, e apenas uma pequena parte sai da glândula tireoide (Figura 7-10). A 5' -deiodinase que converte o T4 em T3 nos tecidos periféricos também é encontrada na glândula tireoide. Quando existe deficiência de iodo e nas várias condições de hipertireoidismo, a atividade dessa enzima aumenta a quantidade de T3 secretada pela glândula, aumentando a eficiência metabólica da síntese hormonal. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Anormalidade na Síntese e Liberação do Hormônio da Tireoide Deficiência dietética de Iodo e Defeitos Hereditários Uma dieta com muito pouca quantidade de iodo e defeitos hereditários nos genes codificadores das proteínas necessárias para a biossíntese do hormônio da tireoide (disormonogênese) podem resultar em uma produção hormonal insuficiente. Em resposta ao conteúdo limitado do iodo intratireoidiano ou da produção hormonal, a glândula aumenta as proporções de MIT-para-DIT dentro da tireoglobulina, assim como a proporção da secreção de T3 em relação a T4. O eixo hipotálamo-hipófise- -tireoide também responde à deficiência de hormônio da tireoide por meio do aumento da secreção de TSH. Como consequência, os indivíduos afetados geralmente apresentam um aumento da glândula tireoide (bócio), que pode ser suficiente para compensar a produção ineficiente do hormônio da tireoide; caso contrário, ocorre hipotireoidismo. Recém- nascidos e crianças gravemente afetadas podem sofrer os efeitos irreversíveis da deficiência do hormônio da tireoide sobre o desenvolvimento, resultando em cretinismo. Distúrbios hereditários específicos são descritos com mais detalhes na seção de bócio atóxico, a seguir. Efeitos do excesso de iodo sobre a biossíntese hormonal Apesar de o iodo constituir um substrato essencial para a produção dos hormônios da tireoide, o excesso dessa substância, na verdade, inibe três etapas na produção dos hormônios tireóideos: ➔ A captura do iodo, ➔ A iodinação da tireoglobulina (efeito de Wolff-Chaikoff) e ➔ A liberação dos hormônios da tireoide a partir da glândula. Essas ações inibitórias são transitórias, e a glândula tireoide normal escapa desses efeitos do excesso de iodo após 10 a 14 dias. Esses efeitos autorregulatórios do iodo isolam a função fisiológica da tireoide de oscilações de curta duração na ingestão de iodo. Essas ações decorrentes do excesso de iodo também possuem importantes implicações clínicas, ocasionalmente causando uma disfunção da tireoide induzida pelo iodo e permitindo o tratamento com iodo de certos distúrbios da tireoide. Caso a tireoide seja afetada por uma tireoidite autoimune ou certas formas herdadas de disormonogênese, ela pode ser incapaz de evitar a inibição do funcionamento da glândula induzida pelo iodo, podendo ocorrer o hipotireoidismo. Por outro lado, uma sobrecarga de iodo pode produzir hipertireoidismo (efeito de Jod-Basedow) em alguns pacientes com bócio multinodular, doença de Graves oculta e, raramente, em indivíduos com glândula tireoide com aspecto normal. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Transporte dos Hormônios Tireóideos Ambos os hormônios tireóideos circulam no sangue ligados a proteínas plasmáticas; apenas 0,04% do T4 e 0,4% do T3 não estão ligados a proteínas ou estão livres e, consequentemente, disponíveis para penetração e ação nos tecidos-alvo (Figura 7-11). Existem três proteínas de transporte dos hormônios tireóideos de maior importância: ➔ A TBG; ➔ A transtiretina, anteriormente denominada pré-albumina ligadora de tiroxina (TBPA), e ➔ A albumina. A ligação a proteínas no plasma permite o fornecimento sanguíneo das iodotireoninas, as quais são pouco solúveis em água. Ela também cria uma grande reserva de hormônios tireóideos circulantes com uma meia-vida plasmática estável de sete dias, assegurando a distribuição homogênea dos hormônios da tireoide nos tecidos- alvo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Globulina ligadora de Tiroxina A globulina ligadora de tiroxina (TBG, do inglês thyroxine- -binding globulin) é uma glicoproteína produzida pelo fígado e membro da família SERPIN de antiproteases serinas compostas por uma cadeia única de polipeptídeos de 54-kDa, aos quais estão ligadas quatro cadeias de carboidratos contendo normalmente cerca de 10 resíduos de ácido siálico. Cada molécula de TBG possui um único local de ligação para o T4 ou T3. A concentração sérica de TBG é entre 15 e 30 µg/mL (280 a 560 mmol/L), e sua alta afinidade ligadora pelo T4 ou T3 permite transportar aproximadamente 70% dos hormônios tireóideos circulantes. A TBG e sua ligação com os hormônios da tireoide pode ser alterada por desarranjos congênitos da TBG, algumas situações fisiológicas e fisiopatológicas e vários tipos de fármacos. A deficiência da TBG ocorre em uma frequência de 1:5.000 nascidos vivos, com muitas variantes descritas em vários grupos étnicos e raciais. É um traço recessivo ligado ao X que, por consequência, é expresso com muito mais frequência em indivíduos do sexo masculino. Apesar dos baixos níveis circulantes de T4 e T3 nos indivíduos afetados, os níveis de hormônios livre são normais e esses pacientes permanecem eutireóideos. A deficiência congênita de TBG frequentemente é associada à deficiência da globulina ligadora de corticosteroides. Por outro lado, o excesso de TBG, que é raro, é caracterizado pela elevação dos níveis totais de T4 e T3 no sangue, porém por concentrações normais dos hormônios livres e um estado clínico eutireóideo. A gestação, os tumores secretores de estrogênio e a reposição estrogênica podem aumentar o conteúdo de ácido siálico da molécula de TBG, resultando em uma redução da depuração metabólica e na elevação dos níveis séricos de TBG. Os níveis de TBG podem diminuir nas doençassistêmicas e, devido à clivagem das proteases leucocitárias, sua afinidade ligadora pelos hormônios tireóideos também pode ser reduzida. Ambos os efeitos diminuem as concentrações séricas totais dos hormônios tireóideos em pacientes enfermos (Tabela 7-1). Certos fármacos também podem reduzir (esteroides androgênicos, glicocorticoides, danazol, L-asparaginase) ou aumentar (estrogênios, 5-fluorouracil) as concentrações plasmáticas de TBG. Outros (p. ex., salicilatos, altas doses de fenitoína e furosemida intravenosa) podem ligar-se à TBG, deslocando o T4 e o T3. Nesta circunstância, o eixo hipotálamo-hipófise-tireoide (discutido adiante) preserva as concentrações de hormônios livres, diminuindo os níveis séricos totais de hormônios tireóideos. Similarmente, o estímulo da heparina da lipoproteína lipase libera ácidos graxos livres que deslocam os hormônios da tireoide da TBG. ln vivo, isso pode resultar em concentrações mais baixas Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 dos hormônios da tireoide, ao passo que in vitro (p. ex., amostra sanguínea heparinizada), a heparina aumenta os níveis aferidos de T4 e T3 livres. Transtiretina (pré-albumina ligadora de tiroxina) A transtiretina, um polipetídeo globular de 55 kDa composto por quatro subunidades idênticas de 127 aminoácidos, liga 10% do T4 circulante. Sua afinidade pelo T4 é 10 vezes maior do que pelo T3. A dissociação do T4 e do T3 da transtiretina é rápida, de modo que a transtiretina é uma fonte de T4 rapidamente disponível. O aumento da afinidade da ligação da transtiretina pelo T4 pode ocorrer na forma de uma condição hereditária. Os indivíduos afetados apresentam uma elevação do T4 total, porém níveis normais de T4 livre. A produção ectópica de transtiretina, relatada em pacientes com tumores pancreáticos e hepáticos, também pode ocasionar uma hipertiroxinemia eutireoidea. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Albumina A albumina liga-se ao T4 e ao T3 com menor afinidade em comparação com a TBG ou a transtiretina, porém, suas altas concentrações plasmáticas resultam no transporte de 15% do T4 e do T3 circulantes. As taxas de dissociação rápidas dos hormônios da tireoide da albumina a tornam uma grande fonte de hormônio livre para os tecidos. A hipoalbuminemia, como ocorre na nefrose ou cirrose, está associada a níveis baixos de T4 e T3 totais, mas os hormônios livres encontram-se normais. A hipertiroxinemia familiar disalbuminêmica é um distúrbio autossômico dominante no qual 25% da albumina exibe uma afinidade ligadora de T4 acima do normal. Isso ocasiona um nível de T4 total elevado, porém um nível normal de T4 livre e eutireoidismo. Na maioria dos familiares afetados, a afinidade de ligação do T3 é normal. Uma vez que essas variantes da albumina não ligam-se aos análogos da tiroxina utilizados em vários imunoensaios de T 4 livre, elas ocasionam uma falsa elevação do T4 livre nos indivíduos afetados. Metabolismo dos Hormônios Tireóideos A glândula tireoide normal secreta cerca de 100 nmol de T4 e apenas 5 nmol de T3 diariamente; menos de 5 nmol de T3 reverso metabolicamente inativo (rT3) é produzido (Figura 7-13). A maior parte da reserva plasmática de T3 (80%) é derivada do anel externo periférico ou de 5'-monodeiodinação do T4 nos tecidos externos à glândula tireoide, particularmente o fígado, os rins e o músculo esquelético (Tabela 7-2). Uma vez que o T3 possui maior afinidade de ligação para os receptores nucleares do T3 que afetam a ação do hormônio da tireoide, a 5'-monodeiodinação gera uma iodotironina mais ativa. Por outro lado, a deiodinação do anel interno do T4 (5-deiodinação) produz 3,3' ,5' -tri-iodotironina reversa (rT3), a qual é metabolicamente inerte. As três enzimas deiodinase que catalisam essas reações diferem quanto à localização tecidual, especificidade do substrato e modulação fisiológica e fisiopatológica, conforme apresentado na Tabela 7-2. A 5'-deiodinase tipo 1, a forma mais abundante, é encontrada predominantemente no fígado e nos rins, e em menores quantidades na glândula tireoide, no músculo esquelético e cardíaco e em outros tecidos. A 5'-deiodinase tipo 1 contém um núcleo selenocisteína que é provavelmente o local deiodinante ativo. A principal função da 5' -deiodinase tipo 1 é fornecer T3 para a circulação. Sua atividade encontra-se aumentada no hipertireoidismo e reduzida no hipotireoidismo. Isto é parcialmente responsável pelos níveis de T3 circulantes relativamente mais altos, quando comparados com os níveis de T4, vistos em pacientes hipertireóideos. A enzima é inibida pelo fármaco antitireoidiano tionamida PTU, porém não pelo metimazole e pela droga Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 antiarrítmica amiodarona e pelos radiocontrastes iodinados, como o ipodato sódico. A deficiência dietética de selênio também pode dificultar a conversão do T4 em T3. A deiodinase tipo 2 5' é predominantemente expressa no cérebro e na glândula hipófise, onde mantém um nível constante de T3 intracelular no sistema nervoso central. Esta deiodinase é muito sensível ao T4 circulante, de modo que um T4 baixo rapidamente eleva a concentração desta enzima no cérebro e na hipófise, por meio da alteração da taxa de degradação e inativação de T4. Deste modo, são mantidos o nível de T3 intracelular e suas funções neuronais. Por outro lado, um T4 plasmático elevado reduz os níveis de 5' -deionodase tipo 2, protegendo as células do cérebro do excesso de T3. Consequentemente, esta deiodinase representa um mecanismo pelo qual o hipotálamo e a hipófise podem responder aos níveis circulantes de T4. O rT3 também pode modificar a atividade da 5'-deiodinase tipo 2 no cérebro e na hipófise, e os compostos a-adrenérgicos estimulam a 5'-deiodinase tipo 2 na gordura marrom, porém a significância fisiológica desses efeitos não está esclarecida. A 5'-deiodinase tipo 3 é encontrada nas membranas coriônicas da placenta e nas células gliais do sistema nervoso central, onde inativa o T4 por meio da conversão em rT 3 e inativa o T3 convertendo-o em 3,3' -di-iodotironina (3,3'-T2) (Figura 7-14). Os níveis de deiodinase tipo 3 encontram-se elevados no hipertireoidismo e reduzidos no hipotireoidismo e, sendo assim, podem auxiliar na proteção do feto e do cérebro contra o excesso ou a deficiência de T4. A deiodinase tipo 3 placentária acelera a utilização da tiroxina em gestantes, o que explica parcialmente as necessidades crescentes de tiroxina em mulheres com hipotireoidismo tratado. De maneira geral, as funções das deiodinases são fisiologicamente importantes de três maneiras. Em primeiro lugar, elas permitem a modulação tecidual e celular das ações dos hormônios tireóideos. Em segundo lugar, elas auxiliam o organismo a adaptar-se a estados alterados, incluindo deficiência de iodo ou doenças crônicas. Em terceiro lugar, elas regulam as ações dos hormônios da tireoide no desenvolvimento inicial de muitos vertebrados, incluindo anfíbios e mamíferos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Aproximadamente 80% do T 4 é metabolizado por meio da deiodinação, 35% em T3 e 45% em rT3 (ver Figura 7-13). Orestante é inativado principalmente por glucurodinação no fígado e secreção biliar, e, em menor quantidade, pela sulfatação no fígado ou nos rins. Outras reações metabólicas incluem a deaminação da cadeia lateral da alanina, formando derivados do ácido tiroacético de baixa atividade biológica; ou a descarboxilação ou clivagem da ligação de éter, formando componentes inativos. Como resultado dessas vias metabólicas, aproximadamente 10% do total de 1.000 nmol da reserva deT4 extratireoidiano é degradado a cada dia, e a meia-vida plasmática do T4 é de sete dias. Devido à menor afinidade de ligação do T3 às proteínas plasmáticas, a renovação de sua reserva extratireoidiana bem menor é mais rápida, com uma meia-vida plasmática de um dia. A reserva corporal total de rT 3 é aproximadamente do mesmo tamanho da de T 3, porém o rT 3 possui uma renovação ainda mais rápida, com uma meia-vida plasmática de apenas 0,2 dias. Controle da Função da Tireoide e Ação Hormonal O crescimento e a função da glândula tireoide são controlados pelo eixo hipotálamo-hipófise-tireoide (Figura 7-15) e, conforme previamente discutido, pelo iodo por meio dos elementos de autorregulação. O hipotalâmico tireotrofina TRH estimula as células tireotróficas na adeno-hipófise a produzir o TSH, o qual, por sua vez, promove o crescimento da glândula tireoide e a secreção hormonal. Além disso, as deiodinases na hipófise e nos tecidos periféricos modulam os efeitos dos hormônios da tireoide por meio da conversão específica tecidual do T4 em T3, uma iodotironina mais ativa. Por fim, os efeitos moleculares do T3 nos tecidos individuais são modulados pelo receptor específico de T3 com o qual interage; pela resposta de ativação ou repressão do gene específico que induz; e, de maneira recentemente revelada, pela interação dos receptores de T3 com outros ligantes, receptores intimamente relacionados (p. ex., receptor retinoide X; RXR), e coativadores e correpressores que interagem na modulação da expressão genética. Hormônio liberador de Tireotrofina O hormônio liberador de tireotrofma (TRH) é um tripeptídeo, o piroglutamil-histidil- prolina (pyro-Glu-His-Pro-NH2), sintetizado por neurônios dos núcleos supraóptico e supraventricular do hipotálamo (Figura 7-16). O TRH é armazenado na eminência mediana do hipotálamo e então transportado via sistema venoso porta-hipofisário pela haste hipofisária até a hipófise anterior, onde controla a síntese e a liberação de TSH. O TRH é também encontrado em outros locais do hipotálamo, cérebro e medula espinal, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 onde pode ter funções distintas como neurotransmissor. O gene pré-pró TRH, que codifica uma grande molécula com cinco cópias da sequência progenitora de TRH Glu-His-Pró- Gli, está localizado no cromossomo 3. A expressão do gene TRH é regulada negativamente pelos hormônios da tireoide – tanto o T3 proveniente da circulação como aquele originado da deiodinação do T4 nos neurônios peptidérgicos (ver Tabela 7-2). Na adeno-hipófise, o TRH liga-se a um receptor de membrana específico localizado nas células secretoras de TSH e prolactina, estimulando a síntese e a liberação de seus respectivos hormônios. O receptor de TRH é um membro da família de receptores ligados pela proteína G com sete domínios transmembrana. O TRH liga-se à terceira hélice transmembrana, ativando o seu complexo produtor de monofosfato de guanosina cíclica e a cascata de sinalização de inositol 1,4,5-trifosfato (IP3), a qual libera Ca+2 intracelular e gera 1,2-diacilglicerol, ativando deste modo a proteína quinase C. Essas vias são responsáveis pelo estímulo da liberação de TSH. Elas coordenam a transcrição dos genes codificando as subunidades de TSH e a glicosilação pós-translacional do TSH, a qual é necessária para a atividade biológica completa. A secreção de TSH estimulada pelo TRH é pulsátil, com uma amplitude média do pulso de TSH de 0,6 mU/L a cada 2 horas. Indivíduos normais possuem um ritmo circadiano da liberação de TSH, com o pico máximo circulante entre meia-noite e 04 horas, o que presumivelmente é controlado por um gerador de pulso neuronal hipotalâmico, proporcionando a síntese de TRH. Os hormônios tireóideos exercem uma retroalimentação negativa adicional sobre a produção de TSH ao nível da hipófise por meio de uma diminuição do número de receptores de TRH nos tireotrofos hipofisários. Por consequência, em pacientes com hipertireoidismo, os pulsos de TSH e seu pico noturno encontram-se acentuadamente Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 diminuídos; em pacientes com hipotireoidismo, a amplitude do pulso de TSH e o pico noturno encontram-sebastante elevados. Em experimentos com animais e recém- nascidos humanos, a exposição a baixas temperaturas aumenta a secreção de TRH e TSH. Outros hormônios e fármacos (p. ex., vasopressina e agonistas a-adrenérgicos) estimulam a síntese e a liberação deTRH. Quando o TRH sintético é administrado por via intravenosa em seres humanos em bolo de 200 a 500 µg, ocorre uma elevação imediata de 3 a 5 vezes na concentração sérica de TSH, com um pico após 30 minutos e com duração de 2 a 3 horas (ver Figura 7- 14). Em pacientes com hipotireoidismo primário, nos quais o TSH basal está elevado, ocorre uma resposta exagerada do TSH ao TRH exógeno; e esta resposta está suprimida em pacientes com hipertireoidismo, em casos de terapia de altas doses de tiroxina e em pacientes com hipotireoidismo central. O TRH também é encontrado nas ilhotas pancreáticas, no trato gastrintestinal, na placenta, no coração, na próstata, nos testículos e nos ovários. A produção de TRH nesses tecidos periféricos não é inibida pelo T3; o papel do TRH nesses tecidos permanece desconhecido. Tireotrofina (hormônio estimulador da tireoide) O hormônio estimulador da tireoide (TSH) é uma glicoproteína de 28 kD composta por subunidades ex e í3 ligadas de forma não covalente. A subunidade ex é comum a duas outras glicoproteínas hipofisárias, o hormônio folículo-estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH), e também ao hormônio placentário hCG, ao passo que a subunidade í3 é única para cada glicoproteína hormonal, conferindo propriedades de ligação e atividade biológica específicas. Os genes para as subunidades ex e í3 do TSH estão localizadas nos cromossomos 6 e l, respectivamente. A subunidade ex humana possui um núcleo de apoproteína de 92 aminoácidos e contém duas cadeias de oligossacarídeos; a subunidade í3 de TSH possui um núcleo de apoproteinas de 112 aminoácidos e contém uma cadeia de oligossacarídeos. As cadeias de aminoácidos das subunidades ex e í3 de TSH formam três alças que são entrelaçadas por um nó de cistina (Figura 7-18). A glicosilação ocorre no RER e no aparelho de Golgi, onde os resíduos de glicose, manose e fucose e o sulfato terminal ou ácido siálico estão ligados a um núcleo de apoproteina. Esses resíduos de carboidratos prolongam sua meia-vida plasmática e aumentam sua capacidade de induzir a ativação do receptor de TSH. O TSH controla o crescimento das células da tireoide e a produção hormonal por meio da ligação a um receptor de TSH específico, 1 entre aproximadamente 1.000 localizados na membrana basolateral de cada célula da tireoide. A ligação do TSH ativa Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 tanto o monofosfato de adenosina cíclico (AMPc) como as vias fosfoinositol para a transdução. O gene do receptor de TSH está localizado no cromossomo 14; o produto é uma glicoproteína de cadeia única composta por 764 aminoácidos. O receptor de TSH é um membro da família de receptores ligados pela proteína G, com sete domínios transmembrana, com um ectodomínio envolvido na ligação e uma porção intramembrana e intracelular responsável pela ativação das vias de sinalização que promovem o crescimento das células da tireoide e a síntese e liberação dos hormônios (ver Figura 7- 19). O receptor de TSH está envolvido na patogênesede numerosas formas congênitas e adquiridas de hipotireoidismo e hipertireoidismo. Foram descritos defeitos hereditários que resultam na síntese ou ação deficiente do TSH, incluindo genes mutantes para os fatores de transcrição necessários para a diferenciação do tirotropo hipofisário (POUlFl, PROPl, LHX3, HESXl), receptor do TRH, cadeia B TSH, receptor de TSH e G, o qual faz a transdução do receptor ligador de TSH para a ativação da adenilciclase. Os anticorpos de bloqueio do TSH adquiridos também podem causar hipotireoidismo. A causa mais comum de distúrbio do receptor de TSH que ocasiona hipertireoidismo é a doença de Graves, na qual anticorpos ligam-se e estimulam o receptor de TSH. No entanto, o receptor de TSH está envolvido na etiologia de várias outras formas de hipertireoidismo. Mutações em linhagens germinativas ativadoras do o receptor de TSH podem ocasionar hipertireoidismo familiar, e mutações ativadoras somáticas resultam em adenomas tóxicos. Outras mutações podem levar a ativações aberrantes do receptor de TSH pelo hCG, hormônio glicoproteico placentário que é estruturalmente similar ao TSH no hipertireoidismo gestacional familiar. Efeitos do TSH sobre as células da tireoide O TSH tem várias ações sobre as células da tireoide. A maioria de suas ações é mediada pelo sistema proteína G-adenilciclase-AMPc, porém a ativação do sistema fosfatidilinositol resultando no aumento do cálcio intracelular também está envolvido. As principais ações do TSH incluem: A. Alterações na morfologia das células da tireoide – O TSH induz rapidamente os pseudópodos na borda coloide da célula folicular, acelerando a reabsorção de tireoglobulina. O conteúdo coloide é diminuído ao formarem-se gotículas de coloide intracelular, e a formação de lisossomas é estimulada, aumentando a hidrólise da tireoglobulina e a liberação do hormônio tireóideo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 B. Crescimento celular – As células individuais da tireoide aumentam de tamanho; a vascularização é aumentada; e, em certo período, desenvolve-se o aumento da tireoide ou bócio. C. Metabolismo do iodo – O TSH estimula todas as fases do metabolismo do iodo, desde um aumento na absorção e no transporte do iodo até o aumento da iodinação da tireoglobulina e o aumento da secreção dos hormônios da tireoide e da tireoglobulina. O aumento da expressão de NIS e a estimulação da produção de AMPc medeiam o aumento do tansporte de iodo, e a hidrólise da PIP3 e o aumento do Ca+2 intracelular estimulam a iodinação da tireoglobulina. O efeito do TSH sobre o transporte de iodo por meio da célula é bifásico: inicialmente, ele é diminuído (efluxo de iodo) e, então, após um intervalo de várias horas, a captação de iodo aumenta. O efluxo de iodo pode ser ocasionado pela rápida hidrólise de tireoglobulina com liberação do hormônio e escape do iodo para fora da glândula. A estimulação mediada pelo TSH da captação de iodo pelo tirócito e a secreção de tireoglobulina também ocorrem após a administração de TSH recombinante para o tratamento com iodo radiativo e a monitoração de pacientes com cânceres de tireoide bem diferenciados. D. Outros efeitos do TSH – Outros efeitos incluem aumento da transcrição dos mRNAs para tireoglobulina e TPO; aumento da incorporação do iodo em MIT, DIT, T3 e T4; e aumento da atividade lisossômica, com secreção aumentada de T4 e T3 da glândula. Também ocorre aumento da atividade da 5'-deiodinase tipo l, a qual auxilia na preservação do iodo intratireóideo. O TSH tem efeitos adicionais sobre a glândula tireoide, incluindo o estímulo à captação de glicose, ao consumo de oxigênio e à oxidação da glicose. Existe um turnover acelerado dos fosfolipídeos e a estimulação da síntese dos precursores de purina e pirimidina, com aumento da síntese de DNA e RNA. TSH sérico O TSH intacto e a subunidade a isolada estão presentes no sangue circulante e são detectáveis por meio de imunoensaios em concentrações normalmente entre 0,5 e 4,0 mU/L e 0,5 a 2,0 µg/L, respectivamente. O nível do TSH sérico encontra-se aumentado no hipotireoidismo primário e diminuído na tireotoxicose, tanto endógena como pela ingestão oral excessiva de hormônios tireóideos. A meia-vida plasmática do TSH é de aproximadamente 30 minutos, e a taxa de produção diária é de cerca de 40 a 150 mU/d. A subunidade glicoproteica a com frequência encontra-se desproporcionalmente elevada em pacientes com tumores hipofisários secretores de TSH (ver adiante); também Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 está elevada em mulheres pós-menopáusicas normais devido ao aumento da síntese e da secreção relacionado ao aumento da produção de gonadotrofinas. Controle da secreção hipofisária de TSH Dois principais fatores controlam a síntese e a liberação de TSH: 1) O nível de T3 no interior das células tireotróficas, que regula a expressão do mRNA, a translação do TSH e a liberação do hormônio; e 2) O TRH, que controla a glicosilação pós-translacional e também a liberação. A síntese e a liberação de TSH são inibidas por altos níveis séricos de T 4 e T 3 (hipertireoidismo) e é estimulada por baixos níveis dos hormônios da tireoide (hipotireoidismo). Além disso, certos hormônios e fármacos inibem a secreção de TSH. Tais substâncias incluem a somatostatina, a dopamina e os agonistas da dopamina, como a bromocriptina, e altas doses de glicocorticoides. Doenças graves podem ocasionar inibição da secreção de TSH, podendo ocorrer um aumento rebote do TSH à medida que o paciente se recupera. A intensidade desses efeitos é variável; as substâncias supracitadas suprimem o TSH sérico apenas parcialmente, porém ele permanece detectável. Em contrapartida, o hipertireoidismo acentuado pode suprimir a concentração do TSH abaixo dos limites de detecção até mesmo nos imunoensaios de TSH mais sensíveis. Tumores e outros distúrbios do hipotálamo ou da adeno-hipófise podem afetar a secreção de TRH e TSH, respectivamente. Os distúrbios da hipófise que causam hipotireoidismo são denominados secundários, ao passo que a doença hipotalâmica que resulta em hipotireoidismo é denominada terciária. O diagnóstico diferencial dessas lesões é discutido a seguir (ver Avaliação da Tireoide). Outros estimuladores e inibidores da Tireoide O folículo da tireoide possui um rico suprimento de capilares que carreiam fibras nervosas noradrenérgicas originadas do gânglio cervical superior e fibras nervosas acetilcolina esterase positivas derivadas do nervo vago e dos gânglios tireóideos. As células parafoliculares C secretam calcitonina e o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP). Em experimentos com animais, estes e outros neuropeptídeos modificam o fluxo sanguíneo e a secreção hormonal da tireoide. Além disso, fatores de crescimento como a insulina, fator de crescimento insulin-like-1, proteínas ligadoras do fator de crescimento insulin-like, fator de crescimento epidérmico, fator de crescimento de transformação B1, fatores de crescimento fibroblásticos e seus receptores, assim como fatores autócrinos, como prostaglandinas e citocinas, modificam o crescimento celular da Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 tireoide e a produção hormonal. No entanto, ainda não está clara a importância clínica desses efeitos. Papel das deiodinases periféricas e hipofisárias A 5'-deiodinase hipofisária tipo 2 converte o T4 em T3 no cérebro e na hipófise, consistindo na principal fonte de T3 nos tireotrofos. Sua atividade aumentano hipotireoidismo, inicialmente mantendo um nível intracelular normal de T3 no cérebro, apesar da redução da concentração plasmática de T4. No hipertireoidismo, a redução de sua atividade modera a exposição da hipófise e das células neurais ao excesso do hormônio tireóideo. Em contrapartida, a 5'-deiodinase tipo 1 encontra-se reduzida no hipotireoidismo, conservando o T4, e aumentada no hipertireoidismo, acelerando o metabolismo do T4 e também causando aumento dos níveis séricos de T3 (ver Tabela 7- 2). Autorregulação da Tireoide A autorregulação pode ser defmida como a capacidade da tireoide de modificar sua função, a fim de adaptar-se às alterações da disponibilidade do iodo, independentemente do TSH hipofisário. Assim, os seres humanos podem manter uma secreção normal dos hormônios da tireoide, com ingestões de iodo que variam desde 50 µg a várias miligramas ao dia. Alguns dos efeitos da deficiência de iodo ou de seu excesso foram discutidos anteriormente. A maior adaptação à baixa ingestão de iodo é a síntese preferencial de T 3 em vez de T 4, aumentando a efetividade metabólica do hormônio secretado. Por outro lado, o excesso de iodo inibe várias funções da tireoide, incluindo o transporte de iodo, a formação de AMPc, a geração de peróxido de hidrogênio e a síntese e secreção hormonal. Alguns desses efeitos podem ser mediados pela formação de ácidos graxos iodinados intratireoidianos. A capacidade da tireoide normal de escapar desses efeitos (efeito de Wolff- Chaikof) permite que a glândula continue a secretar hormônios apesar de que este efeito é diferente uma alta ingestão de iodo na dieta É importante observar do efeito terapêutico do iodo no tratamento da doença de Graves. Neste caso, os altos níveis de iodo persistentemente inibem a endocitose da tireoglobulina e a atividade lisossômica, reduzindo a liberação do hormônio da tireoide e reduzindo o nível de hormônios circulantes. Além disso, quantidades farmacológicas de iodo reduzem a vascularização da glândula, o que pode ser benéfico durante a cirurgia da tireoide para doença de Graves. No entanto, este efeito também é transitório, com duração de 10 a 14 dias. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Ações dos Hormônios da Tireoide 1. Receptores dos Hormônios da Tireoide e Mecanismos de Ação Os hormônios da tireoide exercem suas ações por meio de dois mecanismos gerais: 1) Ações genômicas exercidas por meio de interações do T3 com seus receptores nucleares, regulando a atividade genética; e 2) Ações não genômicas mediadas por interações do T3 e T4 com certas enzimas (p. ex., cálcio atpase, adenilato ciclase piruvatoquinase monomérica), transportadores de glicose e proteínas mitocondriais. Os hormônios da tireoide, não ligados no plasma, são transportados intracelularmente por carreadores específicos, incluindo o monocarboxilato transportador 8 (MCT8), o MCTlO e o polipetídeo ânion orgânico transportador (OATPlCl). O OATPlCl é expresso predominantemente nos capilares cerebrais e no plexo coroide, transportando preferencialmente o T4, ao passo que o MCT8 e o MCTlO são expressos em muitos tecidos e transportam tanto o T4 como o T3. Os hormônios tireóideos são transportados através da membrana celular para o citoplasma e subsequentemente para o núcleo, onde o T3 liga-se ao seu receptor específico. As síndromes clínicas associadas a mutações desses transportadores foram reconhecidas recentemente, como a síndrome de Allan- Herndon- -Dudley, na qual uma criança do sexo masculino afetada desenvolve retardo mental, miopatia, um distúrbio do movimento associado à elevação dos níveis séricos de T3 e baixos níveis séricos de T4. O receptor nuclear de T3 é um membro de uma superfamília de receptores nucleares que inclui receptores nucleares de glicocorticoides, mineralocorticoides, estrogênios, progestogênios, vitamina D3 e retinoides. Existem dois genes de receptores de hormônios da tireoide (RHI) em humanos: o RHTa localizado no cromossomo 17 e o RHTB localizado no cromossomo 3. Cada um dos genes possui pelo menos dois produtos de divisão, o RHTa 1 e 2 e RHTB 1 e 2, apesar de acreditar-se que o RHTa2 seja biologicamente inativo. Cada um destes receptores possui um domínio fixador de ligante carboxiterminal e um domínio fixador de DNA localizado centralmente, com dois dedos de cisteína zinco que facilitam sua ligação específica aos elementos de resposta dos hormônios da tireoide (TERs) nos promotores dos genes-alvo e regulam sua transcrição. A concentração dos receptores varia entre os tipos de tecido e seu estágio de desenvolvimento. Por exemplo, o cérebro contém predominantemente o RHTa, o fígado contém principalmente o RHTB e o músculo cardíaco contém ambos. As mutações Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 pontuais no domínio fixador de ligante do gene RHTB demonstraram ser responsáveis pela síndrome de resistência generalizada aos hormônios tireóideos (RGHT). Os RHTs ligam-se aos TERs, os quais geralmente consistem em sequências pareadas específicas de oligonucleotídeos (p. ex., AGGTCA). Os RHTs também podem funcionar como heterodímeros com receptores para outros fatores de transcrição, como os receptores de ácido retinoico e retinoide X. Os TERs geralmente estão localizados na porção superior do local de início das regiões codificadoras dos genes responsivos aos hormônios da tireoide. Naqueles genes positivamente regulados, os RHTs interagem com correpressores (p. ex., correpressor receptor nuclear [NCoR] e o mediador silencioso para o ácido retinoico e os receptores dos hormônios da tireoide [SMRT]) para reprimir a transcrição basal por meio do recrutamento das histonas deacetilases que alteram a estrutura da cromatina próxima. Quando os RHTs ligam-se ao T3, estes complexos correpressores são liberados e os RHTs ligados ao T3 associam-se a complexos coativadores que promovem a acetilação da histona local; eles também associam-se a outro complexo proteico (proteína de interação com o receptor de vitamina D/proteínas associadas ao RHT), o qual recruta a RNA polimerase II e inicia a transcrição do gene. Alguns genes são regulados negativamente pelos RHTs ligados ao T3 como a pré-pró-TRH e os genes das subunidades do TSH a e 13, porém os mecanismos moleculares envolvidos atualmente não são bem compreendidos. Os hormônios da tireoide alteram os níveis de expressão de mRNAs, e suas proteínas geram uma constelação de respostas teciduais específicas (ver Figura 7-21). As ações não genômicas dos hormônios da tireoide têm estado sob suspeita, com base em certas respostas teciduais rápidas que ocorrem antes que a transcrição de RNA possa ocorrer e pelo reconhecimento dos locais de ligação de T3 e T4 fora do núcleo. Por exemplo, recentemente foi demonstrado que os hormônios da tireoide ligam-se à proteína da membrana integrina aVB3, a qual está envolvida na ativação mediada pelos hormônios da tireoide da cascata de MAP quinase e na estimulação da angiogênese. 2. Efeitos fisiológicos dos hormônios tireóideos Os efeitos transcricionais do T 3 caracteristicamente demonstram um intervalo de horas ou dias para alcançar seu efeito total. Estas ações genômicas possuem vários efeitos vitais, incluindo crescimento tecidual, maturação cerebral, aumento da calorigênese e do consumo de oxigênio, assim como outros efeitos específicos sobre o coração, fígado, rins, músculo esquelético e pele. Entretanto, acredita-se que algumas ações do T3 não sejam genômicas, incluindo sua redução da atividade da 5'-deiodinaseSidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 tipo 2 e o aumento do transporte de glicose e aminotecidos. Alguns efeitos específicos dos hormônios da tireoide são resumidos a seguir. Efeitos sobre o desenvolvimento fetal A concentração de iodo pelo tecido tireóideo e o TSH hipofisário aparecem no feto humano com aproximadamente 11 semanas de gestação. Devido à alta concentração placentária de 5-deiodinase tipo 3, a maior parte do T3 e T4 materno é inativada, e uma quantidade muito pequena de hormônios livres alcança a circulação fetal. No entanto, esta pequena quantidade de hormônios livres provenientes da mãe pode ser importante para o desenvolvimento cerebral inicial do feto. Após 15 a 18 semanas de gestação, o feto é dependente de sua própria secreção tireóidea. Apesar de algum grau de crescimento fetal ocorrer na ausência da secreção de hormônio tireóideo fetal, o desenvolvimento cerebral e a maturação esquelética são acentuadamente prejudicados caso o hipotireoidismo congênito não seja diagnosticado e o tratamento com hormônio tireóideo não seja iniciado logo após o nascimento. O hipotireoidismo congênito resulta em cretinismo, cujos achados incluem retardo mental e nanismo. Efeitos sobre consumo de oxigênio, produção de calor e formação de radicais livres O T3 aumenta o consumo de O2 e a produção de calor, em parte devido à estimulação da Na+-K+ ATPase em todos os tecidos exceto cérebro, baço e testículos. Isto contribui para o aumento da taxa metabólica basal (consumo de O2 somático total em repouso) e para o aumento da sensibilidade ao calor no hipertireoidismo – e o efeito oposto no hipotireoidismo. Os hormônios da tireoide estimulam a mitocondriogênese, aumentando a capacidade oxidativa da célula. Eles também induzem alterações na composição da proteína da membrana interna e dos lipídeos da mitocôndria, os quais aumentam o metabolismo oxidativo por meio de efeitos genômicos e não genômicos. A redução da eficiência do metabolismo oxidativo causada pelos hormônios da tireoide também é refletida no aumento de ciclos fúteis dos metabólitos de carboidratos intermediários. Efeitos cardiovasculares O T3 estimula a transcrição do retículo sarcoplasmático Ca+2 ATPase, aumentando a taxa de relaxamento miocárdico diastólico. Ele também aumenta a expressão das formas mais rápidas de isoformas de cadeia pesada de miosina, as a isoformas, o que contribui para o aumento da função sistólica. No miocárdio, o T3 também altera a Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 expressão de diferentes isoformas dos genes de Na+-K+ ATPase, aumenta a expressão dos receptores a-adrenérgicos e reduz a concentração da proteína inibidora Gi a. O T3 também aumenta as taxas de despolarização e repolarização do nodo sinoatrial, aumentando a frequência cardíaca. Por consequência, os hormônios da tireoide apresentam efeitos cronotrófico e inotrófico positivos sobre o coração, os quais, juntamente com o aumento da sensibilidade adrenérgica, são responsáveis pelo aumento da frequência cardíaca e pela contratilidade no hipertireoidismo e pelo efeito contrário no hipotireoidismo. Os hormônios da tireoide também afetam a função diastólica ventricular, reduzem a resistência vascular periférica e aumentam o volume intravascular, o que contribui para aumentar ainda mais o débito cardíaco associado às ações dos hormônios da tireoide. Efeitos simpáticos Os hormônios tireóideos aumentam o número dos receptores B-adrenérgicos no coração e no músculo esquelético, no tecido adiposo e nos linfócitos. Eles também podem amplificar a ação das catecolaminas no sítio pós-receptor. Muitas manifestações clínicas da tireotoxicose parecem refletir o aumento das sensibilidades às catecolaminas. Além disso, a terapia com agentes bloqueadores B-adrenérgicos frequentemente é útil no controle destas manifestações simpaticomiméticas do excesso dos hormônios da tireoide. Efeitos pulmonares Os hormônios da tireoide mantêm respostas ventilatórias à hipoxia e à hipercapnia no centro respiratório do tronco cerebral. Como consequência, em pacientes com hipotireoidismo grave, pode ocorrer hipoventilação. As funções musculares respiratórias também são reguladas pelos hormônios da tireoide, podendo estar enfraquecidas no hipertireoidismo, levando a uma sensação de dispneia. Efeitos hematopoiéticos O aumento da demanda celular por O2 no hipertireoidismo leva ao aumento da produção de eritropoietina e ao aumento da eritropoiese. No entanto, o volume sanguíneo normalmente não está aumentado, devido à hemodiluição e ao aumento da taxa de renovação das células vermelhas. Os hormônios da tireoide aumentam o conteúdo de 2,3-difosfoglicerato dos eritrócitos, permitindo o aumento da dissociação de O2 da hemoglobina e aumentando a disponibilidade de O2 nos tecidos. O efeito contrário ocorre no hipotireoidismo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Efeitos gastrintestinais Os hormônios da tireoide promovem a motilidade visceral, o que pode ocasionar aumento da motilidade e hiperdefecação (i.e., aumento da frequência dos movimentos intestinais) no hipertireoidismo. Por outro lado, ocorre um retardo do trânsito intestinal e constipação no hipotireoidismo. Efeitos esqueléticos Os hormônios da tireoide estimulam a renovação óssea, aumentando a reabsorção do osso, e, em menor intensidade, a formação óssea. Consequentemente, o hipertireoidismo pode estar associado à hipercalciúria e, com menor frequência, à hipercalcemia. Além disso, o excesso crônico do hormônio tireóideo pode ocasionar uma perda mineral óssea clinicamente significativa. Efeitos neuromusculares No hipertireoidismo ocorre aumento da renovação proteica e perda de músculo esquelético, que pode levar a uma miopatia proximal característica. Também ocorre um aumento da velocidade de contração e relaxamento do músculo, clinicamente notado na forma de hiper-reflexia do hipertireoidismo e retardo da fase de relaxamento dos reflexos tendinosos profundos no hipotireoidismo. No hipertireoidismo também é característico um tremor fino distal das mãos. Conforme mencionado acima, os hormônios tireóideos são essenciais para o desenvolvimento e a função normais do sistema nervoso central, e a falha na função normal da tireoide fetal resulta em retardo mental grave. No adulto, a hiperatividade no hipertireoidismo e a lentidão no hipotireoidismo podem ser exacerbadas. Similarmente, os pacientes hipertireóideos podem ser ansiosos ou agitados, ao passo que os pacientes com hipotireoidismo geralmente têm humor deprimido. Efeitos no metabolismo dos lipídeos e carboidratos O hipertireoidismo aumenta a gliconeogênese e a glicogenólise hepática, assim como a absorção intestinal de glicose, podendo ocorrer diminuição da sensibilidade à insulina mediada pelos hormônios da tireoide. Assim sendo, o hipertireoidismo pode piorar o controle glicêmico em pacientes portadores de diabetes melito. A síntese e a degradação do colesterol são aumentadas pelos hormônios tireóideos. Este último efeito é devido, em grande parte, a um aumento do número de receptores da LDL hepática, acelerando o desaparecimento de LDL. Por consequência, os níveis totais de LDL colesterol estão geralmente elevados em pacientes com hipotireoidismo. A lipólise também está aumentada, liberando ácidos graxos e glicerol no plasma circulante. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Efeitos endócrinos Os hormônios da tireoide alteram a produção, a responsividade e a depuração metabólicade vários hormônios. Em crianças com hipotireoidismo, a liberação inadequada de hormônio do crescimento retarda o crescimento longitudinal. O hipotireoidismo pode ocasionar retardo da puberdade por meio de uma secreção inadequada do hormônio liberador de gonadotrofma (GnRH) e das gonadotrofmas em si. Em contrapartida, o hipotireoidismo primário também pode ocasionar a puberdade precoce, talvez como consequência dos níveis muito altos de TSH nos receptores de gonadotrofinas. Em adultos, o hipotireoidismo ocasiona hiperprolactinemia em uma minoria das mulheres afetadas. A menorragia (menstruações prolongadas e abundantes) e a anovulação são comuns em mulheres com hipotireoidismo, sendo que esta última manifestação resulta em infertilidade. A responsividade do eixo hipotalâmico-hipófise- suprarrenal ao estresse encontra-se diminuída em pacientes com hipotireoidismo. Um retardo da depuração metabólica do cortisol tem efeito compensatório no hipotireoidismo. No entanto, inversamente, a restauração do eutireoidismo raramente pode provocar insuficiência suprarrenal, uma vez que o metabolismo do cortisol encontra-se acelerado em pacientes com diminuição das reservas de cortisol, devido a uma doença concomitante que afeta o eixo suprarrenal. No hipertireoidismo, a aceleração da aromatização dos androgênios em estrogênios e o aumento dos níveis da globulina ligadora dos hormônios sexuais contribuem para o surgimento de ginecomastia e para a elevação da testosterona total encontradas nos homens. O hipertireoidismo também pode afetar a regulação normal do GnRH e das gonadotrofinas na ovulação e na menstruação, ocasionando infertilidade e amenorreia, respectivamente. Todos os distúrbios endócrinos que ocorrem na disfunção da tireoide são revertidos pelo tratamento adequado e pela restauração do eutireoidismo. Autoimunidade da Tireoide A autoimunidade está envolvida na patogênese de várias doenças da tireoide, incluindo hipertireoidismo da doença de Graves, hipotireoidismo com tireoidite autoimune ou de Hashimoto, tireoidite silenciosa pós-parto e certas formas de disfunção tireóidea neonatal. A defesa imunológica contra substâncias estranhas ou células neoplásicas envolve os macrófagos que ingerem e digerem o material estranho e apresentam os fragmentos de peptídeos na superfície celular em associação com uma proteína classe II codificada pela região HLA-DR do complexo do gene do MHC; esse complexo é reconhecido por um receptor de célula T em uma célula T CD4 helper, a qual estimula a liberação de citocinas como a interleucina-2 (IL-2). Estas citocinas amplificam a resposta Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 por meio de indução da ativação e proliferação da célula T, indução da atividade da célula killer nas células supressoras CD8 e estimulação da formação de anticorpos contra o antígeno estranho pelos linfócitos B. Por fim, o processo de ativação é silenciado pela ação das células supressoras CD8. As observações iniciais sugeriram a possibilidade de que reações imunológicas poderiam afetar a glândula tireoide. A tireoidite foi induzida por meio da imunização de ratos com tecido tireóideo e adjuvante Freund. Os anticorpos antitireoglobulina foram identificados no soro de pacientes com tireoidite, e um estimulador da tireoide de longa duração, que posteriormente demonstrou ser um anticorpo contra o receptor de TSH, foi encontrado no soro de pacientes com doença de Graves. Existem três principais autoantígenos tireoidianos: a tireoglobulina, a TPO e o receptor de TSH. Autoanticorpos a esses antígenos são marcadores úteis da autoimunidade tireoidiana, porém os mecanismos mediados pelas células-T são importantes para a patogênese das doenças da tireoide. As células da tireoide possuem a capacidade de ingerir antígenos (p. ex., tireoglobulina) e, quando estimuladas pelas citocinas como o gama interferon, expressam moléculas de superfície celular classe II (p. ex., HLA-DR4), as quais apresentam esses antígenos aos linfócitos T. Além dos antígenos e das moléculas classe II, outros fatores, como sinais coestimulatórios das células introdutoras dos antígenos, sem dúvida são necessários para o início da doença autoimune da tireoide. Uma hipótese é de que o processo seja iniciado ou promovido por antígenos externos (p. ex., antígenos infecciosos) que levam a respostas de anticorpos e de imunidade celular por meio de uma reatividade cruzada. Além disso, fatores genéticos claramente podem predispor os indivíduos à autoimunidade da tireoide. A tipagem HLA em pacientes com doença de Graves revela alta frequência de HLA-BS e HLA-DR3 em brancos, HLA-Bw46 e HLA-BS em chineses e HLA-B17 em negros. Nos brancos, a tireoidite atrófica tem sido associada ao HLA-BS, e a tireoidite de Hashimoto com bócio foi associada ao HLA-DRS. Tem sido sugerido que um defeito antígeno-específico geneticamente induzido nos linfócitos T supressores possa ser a base da doença autoimune da tireoide. O aumento da incidência das doenças autoimunes da tireoide em mulheres em idade pós-puberal e pré-menopáusicas, assim como a ocorrência de tireoidite pós-parto implicam um papel dos hormônios sexuais femininos na patogênese da doença autoimune da tireoide. Uma alta ingestão de iodo pode resultar em uma tireoglobulina mais altamente iodinada, a qual é mais imunogênica e favoreceria o desenvolvimento de doenças autoimunes da tireoide. Doses terapêuticas de lítio, utilizado para o tratamento Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 do transtorno bipolar, podem interferir na função das células supressoras, podendo precipitar o desenvolvimento de doenças autoimunes da tireoide. Testes da Função da Tireoide A alta prevalência de disfunção da tireoide e de neoplasias tornam os testes de avaliação de doenças da tireoide uma necessidade diária em praticamente todos os campos da prática médica – seja um pediatra investigando um recém-nascido para hipotireoidismo congênito, um internista considerando uma possível disfunção da tireoide em um paciente com queixas inespecíficas, um ginecologista e obstetra avaliando uma mulher com infertilidade, um cirurgião avaliando um nódulo de tireoide ou praticamente qualquer especialista que esteja considerando a possibilidade de doença da tireoide como causa em potencial para uma queixa ou anormalidade nos exames em seu campo de interesse (p. ex., cardiologista, gastrenterologista, neurologista, psiquiatra, oftalmologista). Devem ser considerados vários tipos de investigação radiológica ou laboratorial para doenças da tireoide. Primeiro, é comum que médicos com um índice de suspeição relativamente baixo para disfunção da tireoide em um paciente em particular excluam sua presença com uma certeza significativa. Para este objetivo, é mais apropriado um teste com alta sensibilidade (i.e., poucos resultados falso-negativos), grande disponibilidade e baixo custo. A concentração sérica de TSH frequentemente desempenha este papel na consideração clínica de hipotireoidismo e hipertireoidismo. Segundo, quando a suspeita de um distúrbio da tireoide é de moderada a alta, de acordo com os resultados clínicos ou de outros exames laboratoriais, é necessário um teste com uma sensibilidade ainda maior para a detecção de distúrbios tireóideos raros, uma vez que este teste pode iniciar a definição da gravidade e da causa subjacente da disfunção da tireoide. Por exemplo, em um paciente com hipotermia, confusão, edema periorbital e hipercolesterolemia, a medição do TSH sérico edo T 4 livre permitiriam a exclusão das formas primária e central de hipotireoidismo; além disso, caso o hipotireoidismo fosse confrrmado, o local da doença responsável estaria definido. Terceiro, quando a disfunção tireóidea é clinicamente óbvia ou bioquimicamente confirmada pelos exames iniciais, algumas vezes são indicados exames mais sofisticados para a identificação da causa subjacente e o planejamento do tratamento adequado. Por exemplo, em uma mulher no período pós- parto com tireotoxicose, podem ser necessárias a medição do T3 sérico, a titulação da imunoglobulina estimulante da tireoide e a captação de radionuclídeo tireóideo, a frm de diferenciar uma doença de Graves de uma tireoidite pós-parto - para as quais são necessárias abordagens terapêuticas diferentes. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Testes dos Hormônios Tireoideos no sangue Medição do TSH sérico Uma vez que a disfunção da tireoide é normalmente originada de distúrbios primários da glândula tireoide, a medição do TSH sérico é o teste mais amplamente utilizado para a determinação da existência de uma disfunção da tireoide. A sensibilidade do eixo hipotálamo-hipófise-tireoide permite que tanto um hipotireoidismo como uma tireotoxicose primários sejam detectados devido a distúrbios primários da tireoide ou a hormônios tireóideos exógenos. Além disso, mesmo disfunções da tireoide de grau leve, nas quais as concentrações séricas dos hormônios tenham se elevado ou decaído significativamente, porém permaneçam na faixa de referência de normalidade (i.e., disfunção tireóidea subclínica ou leve), são identificadas. Os testes de TSH devem ser sensíveis (i.e., capazes de distinguir entre níveis de TSH baixo muito baixo ou indetectável) para serem utilizados para o diagnóstico de tireotoxicose. A orientação da National Academy of Clinical Biochemistry especifica que a sensibilidade, ou o limite inferior de detecção, dos exames de TSH deve ser de 0,02 m U /L. É melhor avaliar e comparar os exames de TSH por este critério quantitativo em vez de por termos como terceira geração ou ultrassensível. Em geral existem dois tipos de imunoensaios utilizados para a medição do TSH (assim como o T4 e o T3) em amostras do soro: IMAs e RIEs. Em uma IMA ou ensaio sanduíche, um anticorpo - geralmente um anticorpo monoclonal de camundongo - dirigido contra um epítopo da molécula de TSH é fIXado em uma matriz sólida, e um segundo anticorpo monoclonal de TSH, o qual liga-se a outro epítopo do TSH, é marcado com um marcador detectável, que pode tratar-se de um radiosótopo, uma enzima colorimetricamente quantificável ou um marcador fluorescente ou quimioluminescente. Em tais IMAs, a concentração de TSH, que liga o estado sólido e os anticorpos marcados, é proporcional à intensidade do sinal emitido pelo marcador, uma vez que o segundo marcador não ligado tenha sido separado. Em contrapartida, nos RIEs convencionais, uma pequena quantidade de um traçador de TSH, o qual foi ligado a uma molécula radiativa, compete pela ligação ao primeiro anticorpo (p. ex., um anticorpo policlonal do coelho anti-humano). Então, um anticorpo ligado ao TSH, tanto na amostra como no traçador, é separado do traçador livre no sobrenadante, utilizando-se uma dentre várias técnicas: um segundo anticorpo dirgido contra o primeiro (p. ex., um anticorpo de cabra anti-imunoglobulina de coelho), polietilenoglicol ou proteína estaftlocócica A. Nos RIEs, a concentração de TSH na amostra é inversamente proporcional à atividade do traçador. Em geral, os RIEs de TSH são menos sensíveis e menos empregados quando comparados com os IMAs. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Existem limitações raras, porém importantes, nos ensaios de TSH sérico como único meio para o diagnóstico de disfunção da tireoide quando a suspeita clínica de hipotireoidismo é alta e em certas situações especiais (Tabela 7-4). Primeiro, o hipotireoidismo central pode ser subestimado. Em pacientes com hipotireoidismo devido a um tumor hipofisário, por exemplo, o TSH sérico geralmente não encontra-se elevado, e sim baixo ou inapropriadamente normal. Como consequência, as medições simultâneas de T4 livre e TSH séricos seriam necessárias para a confirmação ou exclusão do diagnóstico. O hipotireoidismo central também pode ser confirmado pela avaliação da resposta do TSH sérico a uma injeção de TRH. Para realizar este teste, são obtidas amostras de TSH antes e 30 a 60 minutos após a administração intravenosa de 200 µg de TRH. A ausência de uma elevação significativa na concentração sérica de TSH (p. ex., um pico> 7 mU/L) indica um doença hipotalâmica ou hipofisária, ou supressão por hormônio tireóideo exógeno. Uma elevação tardia e modesta pode ser vista em pacientes com doença hipotalâmica e hipotireoidismo terciário. Atualmente, o TRH não está disponível nos EUA. Outra causa de níveis séricos de TSH enganosamente baixos é o tratamento medicamentoso com corticosteroides ou com dopamina em altas doses, ambos inibindo a secreção de TSH (ver Tabela 7-4). Uma segunda limitação de se testar o TSH isoladamente são outras causas não tireoidianas de aumento do TSH, descritos na Tabela 7-4. Medições de T4 e T3 Séricos As concentrações de T4 total e livre (não conjugado) e T3 são mensuráveis por várias técnicas de ensaio automatizadas. As concentrações de hormônios tireóideos totais séricos estão amplamente disponíveis e precisas para a avaliação da maioria dos pacientes com disfunção da tireoide. No entanto, uma limitação desses ensaios é a de que eles podem ocasionar resultados falso-positivos e falso-negativos quando são alteradas as concentrações ou a afinidade de ligação das proteínas plasmáticas ligadoras dos hormônios da tireoide. Por exemplo, gestantes com um aumento da concentração de TBG induzida pelo estrogênio podem ser equivocadamente diagnosticadas como portadoras de hipertireoidismo caso seja realizado apenas um exame de T4 total. Em contrapartida, uma paciente gestante com hipotireoidismo primário pode passar despercebida caso a elevação da concentração de TBG tenha produzido um T4 total dentro da faixa da normalidade. Apesar das reservas, a precisão diagnóstica é alta quando os resultados dos exames de T4 total são interpretados juntamente com os achados dos exames de TSH. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Estes problemas são evitados por meio da medição da concentração da tiroxina livre (T4L) por meio de IMAs de T4 livre ou diálise de equilíbrio ou pela estimativa do indice de tiroxina livre (T4), também denominado taxa de ligação do hormônio da tireoide (THBR). Os exames de T4 livre empregam estratégias para a medição apenas da fração não ligada do T4 nas amostras séricas. Uma abordagem é a do uso de um traçador análogo competitivo da tiroxina, o qual se liga ao anticorpo do exame, mas não às proteínas plasmáticas. Tais testes de T4 livre são bastante precisos na distinção de distúrbios de TBG de anormalidades verdadeiras de T4. No entanto, eles podem ser influenciados de alguma forma por variações do T4 total, podendo ser obtidas leituras erroneamente altas na hipertiroxinemia disalbuminêmica. Levando-se em consideração que eles são suficientemente precisos na maioria das situações, automatizados e baratos, eles são hoje em dia os métodos mais utilizados para a determinação do T 4 livre. A diálise de equilíbrio implica o equilíbrio de uma amostra sérica com atenuação através de uma membrana com poros que permitam a passagemapenas do T4 não conjugado; então o dialisado é examinado quanto a sua concentração de T4, da qual a concentração sérica pode ser deduzida. Apesar de a diálise de equilíbrio ser considerada como padrão-ouro para a determinação do T4 livre, ela é trabalhosa, relativamente dispendiosa e não está amplamente disponível. Como consequência, ela não é o método de escolha de primeira linha para a medição do T4 livre, sendo reservada para circunstâncias especiais. A estimativa do T4 livre por meio do índice de T4 livre implica a medição do T4 total em um IMA convencional e a estimativa da divisão do marcador iodotironina entre: as proteínas plasmáticas e uma matriz com capacidade de ligação praticamente ilimitada para pequenas moléculas (resina, carvão ou talco). O T3 radiomarcado frequentemente é o marcador empregado, apesar de o marcador T4 também poder ser utilizado. O índice de T4 livre é então calculado como o produto do T4 total multiplicado pela porcentagem do marcador iodotironina absorvido pela matriz, a denominada absorção de T3. É importante observar que isto refere-se ao marcador T3 utilizado no exame e não ao nível de T3 na amostra sérica. Quando a concentração de T 4 livre é utilizada isoladamente para o diagnóstico de disfunção da tireoide, existem várias situações nas quais o verdadeiro hipertireoidismo ou hipotireoidismo deve ser distinguido. Em primeiro lugar, existem várias situações nas quais indivíduos eutireóideos podem desenvolver hipertiroxinemia. Tais situações incluem os raros pacientes com enfermidades não tireóideas, anormalidades incomuns das proteínas plasmáticas ligadoras, como a hipertiroxinemia disalbuminêmica familiar (ver adiante), e fármacos que bloqueiam a conversão de T4 em T3 (p. ex., meios de contraste Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 iodados, amiodarona, glicocorticoides e o propranolol). Nessas condições, o hipertireoidismo verdadeiro é excluído por meio de níveis séricos normais de TSH. Por outro lado, também existem condições nas quais a tiroxina livre sérica pode ser subnormal em indivíduos eutireóideos. Fármacos antiepilépticos, como a fenitoína e a carbamazepina, possuem múltiplas ações que reduzem os níveis de T4 total e livre, incluindo inibição da secreção de TSH e aceleração do catabolismo do T4. Entretanto, os níveis séricos normais do TSH e os níveis de T4 na diálise de equilíbrio indicam que, na verdade, esses pacientes são eutireóideos. As concentrações do T3 total e livre também podem ser quantificadas em IMAs específicos. A medição do T3 sérico é utilizada para: 1) Reconhecer pacientes com tireotoxicose por T3, um grau leve de hipertireoidismo no qual o nível sérico de T3 encontra-se elevado associado a níveis normais de T4 sérico; 2) Definir a gravidade do hipertireoidismo e controlar a resposta ao tratamento; e 3) Auxiliar no diagnóstico diferencial de pacientes com hipertireoidismo. Visto que o T 3 é preferencialmente secretado na maioria dos pacientes com doença de Graves e em alguns com bócio nodular tóxico, a proporção T3:T4 sérico (expressa em ng/dL:µg/dL) é normalmente maior que 20 em pacientes com essas condições. A concentração sérica de T3 não é precisa para o diagnóstico de hipotireoidismo, uma vez que frequentemente é mantido um valor normal de T3 em pacientes com hipotireoidismo primário leve a moderado; a estimulação com TSH aumenta a secreção relativa do T3. Como o T3 é ligado à TBG, a concentração sérica total de T3 varia de acordo com os níveis de TBG, apesar de menos do que a de T4 sérica total (Tabela 7-5). O T3 livre sérico pode ser medido por meio de um IMA ou, com maior precisão, pela diálise de equilíbrio. O T3 reverso pode ser medido por RIE; sua concentração sérica em adultos é de aproximadamente um terço da concentração de T3 total. Entretanto, existe pouca ou nenhuma indicação para a medição do rT3. Afirmações prévias de que ele seria útil na diferenciação do hipotireoidismo de alterações dos testes de função tireóidea em enfermidades não tireóideas não demonstraram que os níveis de rT3 são suficientemente precisos para este objetivo. A tireoglobulina pode ser medida no soro por MIA ou RI.E, com sensibilidades de 0,1 ng/mL. Estas são as duas indicações para a medição da tireoglobulina: 1) Detecção de câncer epitelial de tireoide residual ou recidivante (papilar, folicular e carcinoma de células de Hürthle) após uma tireoidectomia (ver seção de manejo do câncer de tireoide); e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 2) Diferenciação da tireotoxicose devido ao hormônio tireóideo exógeno, no qual os níveis de tireoglobulina encontram-se suprimidos de todas as formas de hipertireoidismo endógeno, incluindo as várias formas de tireoidite nas quais esta encontra-se elevada ou normal. Existem várias limitações em potencial para a realização dos IMAs de tireoglobulina. A mais importante delas é a interferência causada pela presença de anticorpos antitireoglobulina circulantes. Isso geralmente leva a valores falsamente baixos nos IMAs de tireoglobulina e valores elevados de RIEs. As determinações de tireoglobulina sérica não são úteis para a diferenciação de nódulos de tireoide malignos ou benignos. Avaliação do Metabolismo do iodo e atividade biossintética da Tireoide As medições da captação de radionuclídeos podem ser úteis na diferenciação entre as causas de tireotoxicose, particularmente quando utilizadas em associação com técnicas de imagem. As determinações da captação de iodo radiativo permitem a avaliação in vivo da captação fraciona! do iodo e o seu turnover pela glândula tireoide. O iodo-123 é o isótopo ideal para este propósito, com uma meia-vida de 13 horas e emissão de raios X mensuráveis de 28-keV e 159-keV de fótons gama sem dano tecidual pelas partículas beta. O 123I – ou, quando ele não estiver disponível, baixa dose do 131I –, administrado por via oral, e a radioatividade sobre a tireoide é quantificada com um medidor 4 a 6 horas após a administração e novamente após 24 horas (Figura 7-25). Esta captação fracional de iodo radiativo (IR) pela tireoide varia de acordo com a ingestão dietética recente de iodo. Em países com uma ingestão de iodo relativamente alta (p. ex., Chile, Brasil), a captação de IR normal é de 5 a 15% em 6 horas e 8 a 30% em 24 horas, ao passo que em áreas de pouca ingestão de iodo e bócio endêmico (p. ex., algumas regiões da Europa e da África subsaariana), a captação de IR de 24 horas pode ser de até 60 a 90%. No hipertireoidismo por doença de Graves, a captação de IR de 24 horas é marcadamente elevada ( 40-95%), apesar de que, se o turnover de iodo for muito rápido, a captação em 5 horas pode ser até maior do que a captação de 24 horas (Figura 7-25). Similarmente, a captação de IR de 24 horas está aumentada em menor intensidade no bócio nodular tóxico (p. ex., 30 a 70%). A tireotoxicose com uma baixa captação de IR tireóidea ocorre em pacientes com vários distúrbios: Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 1) Tireoidite sub aguda e linfocítica (pós- -parto, silenciosa) com liberação inflamatória do hormônio pré- -formado, causando uma tireotoxicose de resolução espontânea; 2) Tireotoxicose iatrogênica ou falsa resultante do excesso medicamentoso de hormônio tireóideo; e 3) Após a ingestão excessiva de iodo por via oral ou intravenosa, como ocorre, por exemplo, no tratamento com amiodarona ou após o uso de agentes radiocontrastantes. Também pode ocorrer umacaptação de IR baixa na porção anterior do pescoço quando houver produção excessiva de hormônio da tireoide em outras partes do corpo, como ocorre nos casos de tecido tireóideo ectópico na base da língua ( tireoide lingual); no mediastino; no struma ovarii, um teratoma ovariano com tecido tireóideo funcionante; e no caso de metástases funcionantes de carcinoma de tireoide após uma tireoidectomia total. O teste de supressão de T3 é uma permutação da captação de IR, a qual raramente é empregada para avaliar se a função da tireoide é autônoma. Quando T3 é administrado a indivíduos normais (75 a 100 µg em doses divididas diariamente durante cinco dias), ele reduz a captação de IR em mais de 50% da linha de base. A falha da supressão indica uma função autônoma da tireoide, como ocorre na doença de Graves ou nos casos de um nódulo de tireoide com funcionamento autônomo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Exames de Imagem com Radionuclídeos O 123I e o tecnécio pertecnetato 99mTc(99mTcO4) são uteis para a determinação da atividade funcional e a morfologia da glândula tireoide. O 123I (200 a 300 µCi) é administrado por via oral, sendo obtidas imagens da tireoide 8 a 24 horas após. O 99mTc04 (1 a 10 mCi), que é aprisionado pelo NIS, porém não é organificado e retido na glândula, é administrado por via intravenosa, e a imagem é obtida mais precocemente do que o normal – em 30 a 60 minutos. As imagens podem ser obtidas com uma câmera gama ou por um escâner retilíneo. O escâner retilíneo se move para frente e para trás sobre a área de interesse e produz uma foto em tamanho real, e as regiões de interesse, assim como nódulos, podem ser demarcadas (Figura 7-26A). A câmera gama possui um colimador, e a imagem é obtida em uma tela fluorescente e registrada sobre um filme ou monitor de computador. A câmera tem uma maior resolução, porém as regiões de interesse devem ser identificadas com um marcador radiativo para correlação clínica (Figura 7-26B). Os exames com radionuclídeos proporcionam informações acerca do tamanho e da forma da glândula tireoide e a distribuição da atividade do marcador no interior da glândula. Isso é útil na diferenciação entre as causas de tireotoxicose; uma glândula aumentada com uma concentração do marcador intensa e homogênea é típica da doença de Graves. Em contrapartida, uma ou mais regiões de atividade do marcador isoladas, especialmente quando corresponderem a um ou mais nódulos palpáveis, com supressão do tecido extranodular são características de um bócio nodular tóxico. Os exames de imagem com radionuclídeos possuem uma função limitada na diferenciação entre nódulos da tireoide benignos ou malignos. Quando um paciente com nódulo de tireoide apresenta uma concentração de TSH suprimida, o exame com radionuclídeo costuma ser apropriado para determinar se o nódulo é quente (ie., funcionante com supressão do tecido tireóideo extranodular). Se este for o caso, o nódulo geralmente pode ser considerado benigno. Uma vez que os nódulos tireóideos benignos e malignos são, na maioria, frios ou hipofuncionantes, esta documentação não é útil, devendo ser realizada uma avaliação citológica em qualquer um dos casos. O exame de corpo inteiro com radionuclídeos é útil no seguimento de pacientes tratados por câncer de tireoide e para a confirmação de que uma massa na língua (tireoide lingual), na linha média do pescoço (dueto tireoglosso), ou no mediastino (bócio subesternal) representa tecido tireóideo ectópico. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Ultrassom da Tireoide O tamanho da glândula tireoide e as características de uma lesão nodular no seu interior são mais bem avaliados por meio de uma ultrassonografia de alta resolução (Figura 7-27). A ecografia pode diferenciar nódulos sólidos de lesões císticas e caracterizar cistos complexos com componentes sólidos e císticos. Certos achados dos nódulos são mais comuns em lesões malignas (p. ex., cápsula nodular irregular e microcalcificações) e outros achados são típicos de lesões benignas (p. ex., um aspecto espongiforme e alterações císticas), porém nenhum desses achados pode ser considerado definitivo. A ecografia pode ser utilizada para monitoração seriada de nódulos com o decorrer do tempo, para orientação de punção aspirativa com agulha fina de nódulos tireóideos e para avaliação de linfonodos regionais em pacientes portadores de câncer de tireoide no pré-operatório e no seguimento a longo prazo. A TC e a RM são úteis em pacientes com doenças da tireoide em situações especiais. Esses exames podem ser necessários para defmir a extensão cervical posterior e subestemal de bócios de grandes dimensões e se existe desvio ou compressão da traqueia. Em pacientes com câncer de tireoide, eles podem ser úteis na identificação de doença metastática fora da região do pescoço (p. ex., pulmões ou fígado). Deve-se ter em mente que a administração de contrastes que contenham iodo para a realização da TC interfere nos exames de imagem subsequentes com iodo radiativo e no tratamento por vários meses. A PET desempenha um papel na localização da doença metastática em pacientes tratados para câncer que possuam uma concentração de tireoglobulina sérica acima de 10 ng/mL. Quando qualquer uma das técnicas descritas é utilizada para outras indicações de documentação de imagem na região cervical, nódulos de tireoide são, com frequência, detectados casualmente. Estudos indicam que a prevalência do câncer de tireoide nos denominados "incidentalomas" é a mesma de nódulos palpáveis, de modo que eles devem ser biopsiados quando forem maiores do que 1,0 a 1,5 cm de diâmetro e monitorados por ecografias seriadas quando menores. Os incidentalomas diagnosticados por PET devem ser extensamente avaliados, uma vez que alguns estudos demonstraram que até dois terços dessas lesões hipermetabólicas tratavam-se de neoplasias. Dosagem de anticorpos Tireóideos A detecção dos anticorpos tireóideos pode ser útil no estabelecimento do diagnóstico de doença autoimune da tireoide. Para estabelecer o diagnóstico de tireoidite auto imune (Hashimoto) em um paciente com bócio difuso ou hipotireoidismo, podem ser empregados os anticorpos séricos anti-TPO ou anticorpos antitireoglobulinas, estes Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 últimos menos sensíveis. Um teste mais antigo, os anticorpos antimicrossomiais "apresentam sensibilidade intermediária. O anti-TPO e anti-tireoglobulinà' podem ser medidos por meio de hemaglutinação, enzimaimunoensaio (Elisa) ou RIE; o RIE é mais sensível, precisamente quantificável, sendo em geral o preferido. Apesar de estes anticorpos serem mais típicos de tireoidite autoimune, eles também são detectados em proporções significativas em pacientes com doença de Graves. Devido a sua alta prevalência na população, especialmente em mulheres, um resultado positivo não exclui a presença de um segundo distúrbio da tireoide (p. ex., câncer em um bócio assimétrico). Os anticorpos estimuladores, ligadores e bloqueadores do receptor de TSH podem ser detectados. A TSI está presente em aproximadamente 90% dos pacientes com doença de Graves e quase nunca é detectada em pacientes não afetados ou naqueles com outros distúrbios autoimunes da tireoide. O teste é realizado por meio do isolamento das imunoglobulinas do paciente em uma amostra de soro, expondo célulastireóideas cultivadas a esses anticorpos, medindo então sua resposta de AMPc em comparação com os padrões de TSI e TSH. Os testes de TSI são utilizados em algumas situações especiais: 1) Gestantes, para a definição do risco de hipertireoidismo neonatal subsequente em seus fetos e recém-nascidos; 2) Diferenciação entre doença de Graves e tireoidite pós-parto em mulheres que estejam amamentando e não podem fazer exames de captação de radionuclídeos; e 3) No diagnóstico de doença de Graves em pacientes eutireóideos com oftalmopatia. O uso do TSI é, às vezes, recomendada para definir se os pacientes com doença de Graves tratada com medicação apresentarão recorrência quando o uso for descontinuado; entretanto, sua precisão prognóstica é limitada para este propósito. As imunoglobulinas ligadoras do receptor de TSH também podem ser detectadas pela demonstração in vitro de que as imunoglobulinas circulantes competem com o TSH marcado radioativamente na ligação a receptores de TSH recombinantes. Trata-se de uma alternativa mais simples e mais sensível para as indicações de TSI descritas anteriormente, porém não distingue entre anticorpos antirreceptores de TSH estimuladores e bloqueadores. Os anticorpos antirreceptores de TSH bloqueadores foram implicados como causa de hipotireoidismo em uma minoria de pacientes hipotireóideos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 em certas populações; eles também podem ser transmitidos por via transplacentar para o feto e inibir a função da tireoide durante a gestação e no período neonatal. Distúrbios da Tireoide Os pacientes com doenças da tireoide geralmente queixam-se de um ou mais dos seguintes sintomas: 1) Aumento das dimensões da tireoide, o qual pode ser difuso ou nodular; 2) Sintomas de deficiência de hormônio tireóideo ou hipotireoidismo; 3) Sintomas de excesso de hormônio tireóideo ou hipertireoidismo; ou 4) Complicações de uma forma específica de hipertireoidismo – doença de Graves – que pode estar presente com uma protrusão acentuada dos olhos (exoftalmia) e, raramente, espessamento da pele na região inferior das pernas (dermopatia tireóidea ou mixedema pré-tibial). Pacientes com nódulos de tireoide, sejam eles benignos ou malignos, frequentemente não apresentam sintomas, assim como pessoas com leves perturbações da função da tireoide. História A história deve incluir a avaliação dos sintomas relacionados às complicações citadas, discutidas com mais detalhes posteriormente. A exposição à radiação ionizante na infância tem sido associada a um aumento da incidência de patologias da tireoide, incluindo câncer. A ingestão de iodo na forma de amiodarona, um antiarrítmico que contém iodo, ou meio de contraste contendo iodo utilizado na angiografia ou TC pode induzir hipotireoidismo. O carbonato de lítio, utilizado no tratamento do distúrbio bipolar, também pode induzir o hipotireoidismo ou a formação de bócio e possivelmente hipertireoidismo. O fato de residir em uma área onde haja baixo conteúdo de iodo na dieta está associado ao surgimento de bócio com deficiência de iodo (bócio endêmico). Apesar de o iodo na dieta geralmente ser adequado em países desenvolvidos, ainda existem mais de 2 bilhões de pessoas com dietas deficientes em iodo nos países em desenvolvimento na África, Ásia e América do Sul e em áreas montanhosas da Europa. Por fim, a história familiar deve ser explorada, com referência particular à existência de bócio, hipertireoidismo, hipotireoidismo ou câncer de tireoide, assim como distúrbios imunológicos como diabetes tipo 1, doença reumatoide, anemia perniciosa, alopécia, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 vitiligo ou miastenia grave, as quais podem estar associadas a um aumento da incidência de doenças autoimunes da tireoide. As neoplasias endócrinas múltiplas tipo 2A (síndrome Sipple) e 2B com carcinoma medular da tireoide são condições autossômicas dominantes. Exame físico O exame físico da tireoide é ilustrado na Figura 7-28. A tireoide é firmemente ligada à traqueia anterior entre o esterno e a cartilagem tireoide; em geral é fácil de visualizar e palpar. O paciente deve tomar um copo de água para uma deglutição confortável. Existem três manobras: 1) Com uma boa iluminação proveniente de trás do examinador, o paciente é instruído a deglutir um gole de água. Observa-se a glândula mover-se para cima e para baixo. Frequentemente podem ser observados aumento e nodularidade da glândula. 2) Procede-se a palpação da glândula anteriormente na deglutição. O polegar posicionado anteriormente ao longo da traqueia permite a localização do istmo e dos lobos, assim como o lobo piramidal, que se estende superiormente a partir do istmo e com frequência é palpado em pacientes com doenças autoimunes da tireoide. 3) A mão direita do examinador é posicionada no ombro esquerdo do paciente, e o polegar direito do examinador é utilizado para palpar o lobo esquerdo quando o paciente faz a deglutição. Isso permite uma apreciação completa do tamanho, da textura e do contorno do lobo. Então, com a mão esquerda, o lobo direito pode ser palpado. Os polegares do examinador devem estar posicionados mediaimente aos músculos esternocleidomastóideos, com o propósito de evitar que sejam confundidos com os lobos tireóideos. Alguns especialistas recomendam que a palpação seja realizada por trás do paciente, utilizando-se três dedos para a palpação de cada lobo enquanto o paciente deglute, porém esta técnica traz a desvantagem de não ser possível visualizar a glândula durante a palpação. Normalmente, a tireoide é quase impalpável, apresenta uma superfície lisa e sua consistência é macia a elástica. A porção bulhar palpável em cada lobo da glândula tireoide normal mede cerca de 2 cm em sua dimensão vertical e de 1 cm em sua dimensão horizontal acima do istmo. O aumento da glândula tireoide é denominado Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 bócio. O aumento generalizado da glândula é chamado de bócio difuso; o aumento irregular ou nodular é denominado bócio nodular. Na tireoidite de Hashimoto, com frequência a glândula encontra-se simetricamente aumentada e firme e apresenta uma superfície bosselada ou fmamente nodular. Na forma atrófica da tireoidite de Hashimoto, a glândula pode ser impalpável. Em pacientes com doença de Graves, a glândula normalmente, porém não sempre, encontra-se simetricamente aumentada e com consistência elástica e suave. Os bócios multinodulares apresentam um ou mais nódulos distintos palpáveis, apesar de tanto os nódulos grandes quanto os pequenos serem frequentemente impalpáveis devido a sua localização e consistência. Dar a palpação da glândula deve ser observada. Em pacientes com doença de Graves, pode ocorrer a auscultação de sopro, podendo ser palpável frêmito sobre a glândula. Também devem ser observados o desvio traqueal ocasionado por um bócio; uma linfadenopatia provavelmente relacionada a um câncer de tireoide; e a distensão das veias jugulares e eritema facial decorrentes da obstrução da circulação por um bócio grande. O contorno da glândula pode ser demarcado na pele do pescoço para medição. Os nódulos podem ser medidos de maneira similar. Assim, alterações do tamanho da glândula ou de nódulos podem ser acompanhados com facilidade. Hipertireoidismo e Tireotoxicose A tireotoxicose é a síndrome clínica que resulta da exposição dos tecidos a altos níveis de hormônios tireóideos circulantes. Como resultado, ocorre uma aceleraçãogeneralizada do processo metabólico. Na maioria das vezes, a tireotoxicose é causada por uma hiperatividade da glândula tireoide, ou hipertireoidismo. Ocasionalmente, a tireotoxicose pode ser causada por outros motivos, como a ingestão excessiva de hormônios da tireoide ou, muito raramente, pela secreção excessiva dos hormônios tireóideos por um tumor ovariano (struma ovarii). As várias formas de tireotoxicose são listadas na Tabela 7-8. Estas síndromes serão discutidas individualmente a seguir. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Bócio Tóxico Difuso (Doença de Graves) A doença de Graves é a forma mais comum de tireotoxicose. O sexo feminino é acometido aproximadamente cinco vezes mais do que o sexo masculino. A doença pode ocorrer em qualquer idade, com pico de sua incidência na faixa etária entre os 20 e os 40 anos (ver seção de Autoimunidade da Tireoide, anteriormente). A síndrome consiste em um ou mais dos seguintes achados: 1) Tireotoxicose, 2) Bócio, 3) Oftalmopatia (exoftalmia) e 4) Dermopatia (mixedema pré-tibial). Etiologia A doença de Graves atualmente é considerada uma doença autoimune de causa desconhecida. Existe uma forte predisposição familiar, de modo que 15% dos pacientes com doença de Graves possuem um familiar próximo com o mesmo distúrbio, e cerca de 50% dos familiares do paciente com doença de Graves apresentam autoanticorpos tireóideos circulantes. Existe uma concordância muito maior da doença de Graves em gêmeos monozigóticos quando comparados com gêmeos dizigóticos, porém, como a taxa de concordância em gêmeos monozigóticos é bem menor do que 100%, devem existir fatores ambientais que exerçam influência. Fatores desencadeantes ambientais incluem estresse, tabagismo, infecção e exposição ao iodo. O estado pós-parto, que pode estar associado a uma função imune alterada, também pode desencadear o desenvolvimento da doença de Graves em mulheres geneticamente suscetíveis. Patogênese Na doença de Graves, os linfócitos T tornam-se sensibilizados aos antígenos no interior da glândula tireoide e estimulam os linfócitos B a sintetizar anticorpos contra esses antígenos. Tal anticorpo é direcionado contra o receptor de TSH na membrana da célula da Tireoide, estimulando o crescimento e a função da glândula tireoide. O anticorpo é denominado anticorpo estimulador da tireoide (TSAb) ou imunoglobulina estimuladora da tireoide (TSI). A presença deste anticorpo circulante é positivamente correlacionada com doença em atividade e com a recorrência da doença após o tratamento com fármacos antitireóideos. Existe uma predisposição genética subjacente, porém não está claro o fator desencadeante inicial do hipertireoidismo. Alguns fatores que podem provocar a resposta imune da doença de Graves são 1) Gestação, sobretudo o período pós-parto; Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 2) Excesso de iodo, particularmente em áreas geográficas de deficiência de iodo, nas quais a falta de iodo pode manter em latência uma doença de Graves; 3) Interferon-alfa, talvez devido à modificação da resposta imune; 4) Infecções virais ou bacterianas; e 5) Estresse psicológico. A patogênese da oftalmopatia pode envolver linfócitos citotóxicos (células killer) e anticorpos citotóxicos sensibilizados a um anígeno comum, como o receptor de TSH que é encontrado nos fibroblastos orbitais, músculo orbital e tecido tireóideo (ver Figura 7-32). As citocinas destes linfócitos sensibilizados podem ocasionar a ativação e a proliferação dos fibroblastos orbitais e dos pré-adipócitos, resultando em quantidades crescentes de gordura retro-orbital e de glicosaminoglicanos, assim como edema dos músculos oculares; isto resulta em proptose (protrusão) dos lobos oculares e diplopia, assim como vermelhidão, congestão e edema conjuntiva! e periorbital ( oftalmopatia ou orbitopatia tireóidea). Por razões desconhecidas, o tabagismo é um potente fator de risco para o desenvolvimento da oftalmopatia tireóidea. A patogênese da dermatopatia tireóidea (mixedema pré-tibial) (Figura 7-33) e da rara inflamação subperiosteal das falanges das mãos e dos pés (osteopatia ou acropatia tireóidea) (Figura 7-34) também pode envolver a estimulação de citocinas linfocitárias de fibroblastos nestes locais. Vários sintomas de tireotoxicose sugerem um estado de excesso de catecolaminas, incluindo taquicardia, tremores, sudorese, retardo palpebral e olhar fuco. No entanto, os níveis circulantes de adrenalina e noradrenalina são normais ou baixos; assim, na doença de Graves, o corpo parece possuir uma sensibilidade aumentada às catecolaminas. Isso em parte pode ser ocasionado por um aumento dos receptores de membrana 13-adrenérgicos mediado pelos hormônios da tireoide em vários tecidos. Achados Clínicos A. Sinais e sintomas Em indivíduos mais jovens, as manifestações mais comuns incluem palpitações, nervosismo, fadigabilidade, hipercinesia, polievacuações, sudorese excessiva, intolerância ao calor e preferência pelo frio. Com frequência há perda acentuada de peso sem perda de apetite. O aumento da tireoide, sinais oculares de tireotoxicose (ver posteriormente) e taquicardia leve comumente ocorrem. A fraqueza muscular e a perda de massa muscular podem ser tão graves a ponto de o paciente não poder levantar-se de uma cadeira sem auxílio. Em crianças, ocorre um rápido crescimento com aceleração da maturação óssea. Em pacientes com mais de 60 anos de idade, predominam as Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 manifestações cardiovasculares e miopáticas; as queixas mais comuns são palpitações, dispneia aos esforços, tremores, nervosismo e perda de peso. Os sinais oculares da doença de Graves foram classificados por Werner conforme demonstrado na Tabela 7-9. Esta classificação é útil na descrição da extensão do comprometimento ocular. No entanto, não é útil para o acompanhamento do progresso da doença, uma vez que uma classe não progride necessariamente para a seguinte. As primeiras letras de cada classe, em inglês, formam a regra mnemônica NO SPECS. A classe 1 envolve a retração da pálpebra superior associada a uma tireotoxicose ativa e normalmente tem resolução espontânea quando a tireotoxicose é adequadamente controlada. A retração palpebral pode ser vista em qualquer forma de tireotoxicose, porque é causada pelo estímulo adrenérgico da pálpebra superior. As classes 2 a 6 representam a doença verdadeiramente infiltrativa, envolvendo os músculos orbitais e os tecidos orbitais e são específicas da doença de Graves. A classe 2 é caracterizada pelo comprometimento dos tecidos moles com edema periorbital, congestão ou vermelhidão da conjuntiva e edema da conjuntiva (quemose). A classe 3 consiste em proptose conforme aferição pelo exoftalmômetro de Hertel. Esse instrumento consiste em dois prismas com uma escala montados sobre uma barra. Os prismas são colocados nas bordas laterais das órbitas, e a distância da borda orbital até a parte anterior da córnea é medida na escala (Figura 7-35). Os limites superiores da normalidade de acordo com a raça estão listados na nota de rodapé da Tabela 7-9. A classe 4 consiste em comprometimento dos músculos extraoculares, o que em geral é causado por fibrose e falha do relaxamento muscular, limitando a função do Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 músculo antagonista. O reto inferior é o músculo mais comumente comprometido no processo inftltrativo. Com a falha do relaxamento, o achado físico mais comum é a limitação em olhar para cima empacientes com comprometimento dos músculos oculares. O segundo músculo mais comumente afetado é o reto medial, alterando os movimentos laterais do olho. A classe 5 é caracterizada pelo comprometimento da córnea (ceratite) devido à incapacidade de fechar completamente os olhos. A classe 6 é a perda da visão ocasionada pelo comprometimento do nervo óptico, provavelmente devido à isquemia do nervo decorrente da compressão dos músculos extraoculares aumentados ao redor. Conforme já observado, a oftalmopatia tireóidea é ocasionada pela infiltração dos fibroblastos orbitais e dos músculos extraoculares por linfócitos e edema devido à reação inflamatória. A órbita é um cone circundado por ossos, e o edema dos músculos extraoculares dentro deste espaço restrito ocasiona proptose do globo ocular e incapacidade de movimentação dos músculos, resultando em diplopia. O aumento dos músculos oculares pode ser demonstrado por meio de ultrassonografia, TC da região orbital ou RM (Figura 7-36). Apesar de apenas um terço dos pacientes apresentarem comprometimento ocular clinicamente, o aumento muscular pode ser detectado por meio de exames de imagem em 90% dos pacientes. A dermatopatia tireoidiana consiste em um espessamento da pele, particularmente sobre a região inferior da tíbia, devido ao acúmulo de glicosaminoglicanos (ver Figura 7- 33). Ela é relativamente rara, ocorrendo em cerca de 2 a 3% dos pacientes com doença de Graves. Em geral está associada a uma oftalmopatia significativa e com títulos séricos bastante altos de TSAb. A pele encontra-se acentuadamente espessada, com uma superfície cutânea em casca de laranja, a qual não pode ser apreendida pelo pinçamento dos dedos. Ocasionalmente a dermatopatia envolve toda a perna, podendo estender-se até os pés. Por fim, o comprometimento ósseo (osteopatia ou acropatia tireóidea), com formação óssea subperiosteal e edema, é particularmente evidente nos ossos metacarpianos (ver Figura 7-34) e apresenta baqueteamento digital. Este também consiste em um achado relativamente raro. Um achado mais comum na doença de Graves é a separação das unhas de seus leitos ungueais (onicólise ou unhas de Plummer), provavelmente causada pelo crescimento rápido das unhas (Figura 7-37). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 B. Achados laboratoriais Os achados laboratoriais do hipertireoidismo são resumidos na Figura 7-38. A combinação de um T4L elevado e um TSH suprimido completa o diagnóstico de hipertireoidismo. Cerca de 5% dos pacientes apresentam um T4L normal e níveis séricos elevados de T3, uma situação denominada tireotoxicose por T3. Além disso, uma doença de Graves muito leve pode ocasionar níveis séricos de T4L e T3 dentro da faixa de normalidade, porém são elevados o suficiente para ocasionarem supressão dos níveis de TSH, uma situação clínica denominada hipertireoidismo subclinico. Caso o T4L e o TSH encontrem-se elevados e a captação de IR também esteja elevada, deve-se considerar um tumor hipofisário secretor de TSH ou síndromes de resistência hipofisária ou generalizada. Pacientes gravemente enfermos podem apresentar níveis séricos de TSH baixos e também níveis baixos de T4L sérico e de T3 (a denominada síndrome do eutireóideo doente). Na condição denominada hipertiroxinemia disalbuminêmica familiar, uma albumina anormal encontra-se presente no soro que se liga preferencialmente ao T 4, e não ao T3. Isso resulta em uma elevação do T4 e do T4IL e, frequentemente, do T4L quando medido pelos ensaios clínicos de T4 livre análogos, porém o T4L geralmente está normal na diálise de equilíbrio, assim como o T3 e o TSH séricos. É importante diferenciar este estado eutireoide do hipertireoidismo verdadeiro. Além da ausência de achados clínicos de hipertireoidismo, níveis séricos normais de T3 e TSH excluem a presença de hipertireoidismo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Caso os sinais oculares estejam presentes, o diagnóstico de doença de Graves pode ser feito sem a necessidade de outros exames. Caso não haja sinais oculares e o paciente seja hipertireóideo com ou sem a presença de bócio, deve ser realizado um teste de captação de IR. Uma captação elevada é típica da doença de Graves. Em contrapartida, uma captação baixa é vista em pacientes com várias formas de hipertireoidismo de resolução espontânea, como na tireoidite subaguda ou na tireoidite silenciosa, também denominadatireoidite pós-parto (ver discussão adiante). Uma baixa captação de iodo radiativo também é encontrada em pacientes saturados de iodo ou que estejam recebendo terapia com T4 - ou raramente em associação com struma ovarii, no qual o tecido tireóideo ectópico encontra-se localizado no interior de um teratoma ovariano. Os autoanticorpos tireóideos - contra a tireoglobulina e o TPO - geralmente encontram-se presentes no soro tanto na doença de Graves como na tireoidite silenciosa, uma variação da tireoidite de Hashimoto, porém o TSAb é relativamente específico para a doença de Graves. Isso pode consistir em um teste diagnóstico útil no paciente que se apresenta com exoftalmia uni ou bilateral sem sinais óbvios ou manifestações laboratoriais de doença de Graves (denominada doença de Graves eutireóidea). O exame com 123I ou tecnécio é útil para a avaliação do tamanho da glândula, assim como a presença de nódulos quentes ou frios. Os exames de TC e RM das órbitas revelam aumento dos músculos extraoculares na maioria dos pacientes com doença de Graves, mesmo quando não existe evidência clínica de oftalmopatia. Em pacientes com oftalmopatia clínica, o aumento dos músculos orbitais pode se acentua. Outras Apresentações A doença de Graves ocasionalmente apresenta-se de maneira incomum ou atípica, na qual o diagnóstico pode não ser óbvio. A atrofia muscular acentuada pode sugerir uma miopatia grave, a qual deve ser diferenciada de um distúrbio neuromuscular primário. A paralisia tireotóxica periódica normalmente ocorre em indivíduos asiáticos do sexo masculino e apresenta-se como um ataque súbito de paralisia flácida e hipopotassemia devido a um aumento do K+ intracelular. A paralisia comumente regride de forma espontânea e pode ser prevenida por meio de suplementação com K+ e bloqueio 13- adrenérgico. A enfermidade é eliminada por tratamento apropriado para tireotoxicose. Pacientes com doença tireocardíaca, sobretudo aqueles acima dos 60 anos de idade, apresentam-se primariamente com sintomas de comprometimento cardíaco – especialmente fibrilação atrial refratária ao tratamento com digoxina – ou com insuficiência cardíaca de alto débito. Cerca de 50% desses pacientes não apresentam Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 evidências de cardiopatia subjacente, e os distúrbios cardíacos são resolvidos com o tratamento da tireotoxicose. Alguns pacientes mais idosos apresentam perda de peso, bócio pequeno, fibrilação atrial lenta e depressão grave, sem nenhum dos achados clínicos de aumento da reatividade às catecolaminas. Estes pacientes calmos apresentam tireotoxicose apática. Por fim, algumas mulheres jovens podem apresentar amenorreia ou infertilidade como sintoma primário. Em todas essas situações, o diagnóstico de hipertireoidismo normalmente pode ser feito com base nos exames clínicos e laboratoriais descritos. Complicações Crise tireotóxica (tempestade tireóidea) consiste na exacerbação aguda de todos os sinais e sintomas da tireotoxicose, com frequência apresentando-se naforma de uma síndrome que pode representar risco de morte (ver Capítulo 24). Ocasionalmente, a tempestade tireóidea pode ser leve e apresentar-se simplesmente como uma reação febril sem causa aparente após uma cirurgia de tireoide em um paciente que foi preparado de modo inadequado. Com maior frequência, ela ocorre em uma forma mais grave após uma cirurgia, tratamento com iodo radiativo ou após o parto em uma paciente com tireotoxicose inadequadamente controlada - ou durante uma enfermidade grave e estressante como diabetes melito descompensado, trauma, infecção aguda, reação grave a fármacos ou infarto do miocárdio. As manifestações clínicas da tempestade tireóidea consistem em hipermetabolismo acentuado e resposta adrenérgica excessiva. A febre varia entre 38ºC a 41 ºC e está associada a fogachos e sudorese. Ocorre taquicardia acentuada, com frequência, com fibrilação atrial e alta pressão de pulso; ocasionalmente ocorre insuficiência cardíaca. Os sintomas do sistema nervoso central incluem agitação, delírio e coma. Os sintomas gastrintestinais incluem náusea, vômito, diarreia e icterícia. Um desfecho fatal associa-se à presença de insuficiência cardíaca e choque. Há algum tempo acreditava-se que a tempestade tireóidea era causada por uma liberação súbita ou depleção das reservas de T 4 e T3 de uma glândula tireotóxica. No entanto, estudos criteriosos revelaram que os níveis séricos de T4 e T3 em pacientes com tempestade tireóidea não encontram-se necessariamente acima dos níveis de pacientes com tireotoxicose sem esta condição. Não existem evidências de que a tempestade tireóidea seja causada pela produção excessiva de T3• Além disso, na tireotoxicose, o número de locais ligadores adrenérgicos para as catecolaminas aumenta, de modo que o coração e os tecidos nervosos possuem uma sensibilidade aumentada às catecolaminas circulantes. Além disso, há uma diminuição da ligação à TBG, com elevação do T 3 e do T 4 livres. Uma teoria para esta Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 situação é que, com aumento dos locais ligadores de catecolaminas, uma enfermidade aguda, infecção ou estresse cirúrgico desencadeia uma descarga de catecolaminas, as quais, em associação com os altos níveis de T 4 e T 3 livres, precipitam o problema agudo. O achado clínico mais proeminente da crise tireotóxica é a hiperpirexia desproporcional aos outros achados. Os achados laboratoriais incluem elevação de T4 sérico, T4L e T3, assim como uma supressão do TSH (ver Capítulo 24). Tratamento da doença de Graves Apesar de mecanismos autoimunes serem responsáveis pela síndrome da doença de Graves, o manejo tem sido largamente dirigido para o controle do hipertireoidismo. Três bons métodos são disponíveis: 1) Tratamento com medicação antitireoidiana, 2) Cirurgia e 3) Tratamento com iodo radiativo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 A. Tratamento com fármacos antitireoidianos (Figura 7-9) Os fármacos antitireoidianos metimazol, carbimazol e PTU agem inibindo a iodinação mediada por TPO da tireoglobulina para a formação de T4 e T3 no interior da glândula tireoide. O PTU, e não o metimazol, bloqueia a conversão periférica do T4 em T3 ; no entanto, este efeito em geral não é considerado clinicamente importante, exceto, talvez, em pacientes com tireotoxicose grave ou tempestade tireóidea. O carbimazole, utilizado no Reino Unido e em partes da Comunidade Britânica, é um derivado do metimazol rapidamente metabolizado em metimazol. Adicionalmente, cada um desses medicamentos pode apresentar efeitos imunossupressivos que podem ser responsáveis pela remissão da doença que alguns pacientes apresentam após 1 a 2 anos de tratamento. De modo geral, a terapia com fármacos antitireoidianos como primeira linha de tratamento é mais útil em pacientes jovens com glândulas pequenas e doença leve. O fármaco é administrado durante 1 a 2 anos, tendo então sua dose ajustada ou descontinuada, a frm de avaliar se o paciente obteve remissão. As remissões, defmidas como uma função tireóidea normal durante um ano após a interrupção da administração do medicamento, ocorrem em 20 a 50% dos pacientes, porém pode não ser duradoura. A terapia com fármacos antitireoidianos geralmente é iniciada com doses maiores. Quando o paciente torna-se bioquímicamente eutireoideo após 4 a 12 semanas, pode-se fazer o tratamento de manutenção com uma dose menor. Devido à possibilidade de hepatotoxicidade grave e potencialmente fatal do PTU, o metimazol é o fármaco de escolha na maioria dos pacientes. O metimazol tem duração mais longa de sua ação, e a administração em dose única diária propicia melhor adesão ao tratamento. O esquema típico inicia com uma dose de metimazol de 10 a 20 mg pela manhã durante um a dois meses; esta dose pode ser reduzida para 5 a 10 mg pela manhã para o tratamento de manutenção. O PTU pode ser considerado em pacientes com reações alérgicas leves ao metimazol, sendo preferido em gestantes no primeiro trimestre devido aos raros efeitos teratogênicos do metimazol no feto. Um esquema comum consiste na administração de PTU, 100 mg a cada 8 horas inicialmente, reduzindo a dose em quatro a oito semanas para 50 a 200 mg uma ou duas vezes ao dia. Os exames laboratoriais mais úteis no controle do tratamento inicial são o T4L sérico e o T3. Os níveis de TSH frequentemente permanecem suprimidos durante várias semanas ou até mesmo meses, não sendo por este motivo uma referência confiável da função da tireoide no início do tratamento. Um método alternativo de tratamento utiliza o conceito de bloqueio total da atividade da tireoide. O paciente é tratado com metimazol até ser alcançado o eutireoidismo (aproximadamente três a seis meses), porém em vez de continuar o ajuste Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 da dose do fármaco, adiciona-se T4 na dose de cerca de 0,1 mg/dia. Então, o paciente continua a receber a combinação de fármaco antitireoidiano e T4 (0,1 mg/dia) por mais 12 a 24 meses. Ao final deste período, ou quando o tamanho da glândula retornar ao normal, os medicamentos são descontinuados. Este tratamento combinado previne o desenvolvimento de hipotireoidismo ocasionado por doses excessivas de fármacos antitireoidianos, porém a frequência das recorrências é a mesma quando é feito o tratamento somente com fármacos antitireoidiano. Ele é mais dispendioso porque são necessários dois medicamentos e pode haver um aumento da frequência de efeitos colaterais. Consequentemente, esta estratégia não é recomendada para a maior parte dos pacientes. 1. Duração do tratamento e outros fatres relacionados às remissões – A duração do tratamento com fármacos antitireoidianos na doença de Graves geralmente é de 12 a 24 meses; alguns pacientes preferem ser tratados, quando necessário, por períodos prolongados (p. ex., décadas), porém isto não é frequente. Uma remissão duradoura ocorre com maior probabilidade nas seguintes situações: 1) Caso a tireoide retorne ao seu tamanho normal, 2) Caso a doença possa ser controlada com uma dose relativamente pequena de fármacos antitireoidianos e 3) Caso os TSAbs não sejam mais detectáveis no soro ao final do período de tratamento. 2. Reações aos fármacos antitireoidianos – As reações alérgicas aos fármacos antitireoidianos podem ser leves, especialmente um RASH (cerca de 5% dos pacientes), ou graves, especialmente a agranulocitose (cerca de 0,5% dos pacientes). O RASH pode ser controlado pela administração de anti-histamínicos e, a menos que se trate de uma reaçãograve, não consiste em uma indicação para a interrupção do tratamento. A agranulocitose requer a interrupção imediata do tratamento, instituição da antibioticoterapia apropriada e mudança para um tratamento alternativo, em geral o iodo radiativo. Normalmente, a agranulocitose manifesta-se por uma dor de garganta grave e febre. Assim, todos os pacientes que recebem fármacos antitireoidianos são orientados a, caso ocorra dor de garganta ou febre, interromper o uso do fármaco, entrar em contato com seu médico e obter uma contagem de leucócitos e diferencial. Caso a contagem de leucócitos seja normal, o medicamento antitireoidiano pode ser retomado. A icterícia colestática com o metimazol, a toxicidade hepatocelular e vasculite com o PTU e a artrite Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 aguda com qualquer um dos fármacos são efeitos colaterais raros e graves, os quais também necessitam interrupção do tratamento medicamentoso. Conforme observado anteriormente, a gravidade da hepatotoxicidade do PTU levou a um alerta por parte do FDA de que o PTU só pode ser utilizado em circunstâncias especiais: em pacientes alérgicos ao metimazol, os quais não são candidatos ao iodo radiativo ou cirurgia, e no primeiro trimestre de gestação. O PTU também pode ser preferido em pacientes com tempestade tireóidea, nos quais a inibição da conversão do T 4 em T 3 pode ser clinicamente importante. B. Tratamento com iodo radiativo Nos EUA, o iodeto sódico 131I é o tratamento preferido para a maioria dos pacientes acima dos 21 anos de idade. Em vários pacientes sem doença cardíaca subjacente, o iodo radiativo pode ser administrado imediatamente em uma dose de 80 a 200 µCi/ g de peso da tireoide estimado com base no exame físico. A dosagem é corrigida para a captação de iodo de acordo com a seguinte fórmula: Após a administração de iodo radiativo, que geralmente é administrado por via oral em uma única cápsula, a glândula encolherá, e o paciente normalmente se tornará eutireóideo em um período de dois a seis meses. Em pacientes mais idosos e naqueles com doença cardíaca subjacente ou outros problemas médicos, tireotoxicose grave ou glândulas grandes (> 100 g), é desejável obter um estado eutireóideo antes do tratamento com 131I, uma vez que podem ocorrer exacerbações ocasionais da função tireóidea nas semanas após a terapia com iodo radiativo. Para este propósito, os pacientes normalmente são tratados com metimazol até que estejam eutireóideos, sendo a medicação então interrompida durante três a sete dias e administrada a terapia com iodo radiativo. O pré-tratamento com metimazole (ou PTU) foi associado a uma redução da efetividade do tratamento com iodo radiativo, o que pode ser superado por meio de um pequeno aumento da dosagem de iodo radiativo. O hipotireoidismo é uma complicação quase inevitável do tratamento com iodo radiativo, desenvolvendo-se em mais de 80% dos pacientes adequadamente tratados. O hipotireoidismo em geral ocorre nos primeiros 6 a 12 meses após o tratamento e consiste no melhor parâmetro de que o paciente não apresentará uma recorrência do Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 hipertireoidismo. Os níveis séricos de T 4 1 e TSH devem ser acompanhados a cada seis a oito semanas e, quando ocorre o hipotireoidismo, é instituída a terapia de reposição com T4, 0,05 a 0,2 mg diárias. Os estudos de seguimento a longo prazo demonstraram que o tratamento com iodo radiativo não causa infertilidade, malformações congênitas ou câncer no decorrer da vida. A doença ocular de Graves consiste em uma contraindicação relativa ao tratamento com iodo radiativo; vários estudos prospectivos demonstraram que o iodo radiativo pode exacerbar os problemas oculares quando são graves na avaliação inicial. Pacientes com hipertireoidismo grave subjacente e pacientes tabagistas são particularmente propensos a uma exacerbação após o tratamento com iodo radiativo. No entanto, a piora potencial pode ser prevenida por meio da administração de prednisona 30 a 60 mg diariamente, durante um a dois meses após o tratamento com iodo radiativo. A prednisona geralmente é utilizada em pacientes com doença de Graves ocular moderada a grave, sobretudo naqueles tabagistas. O hipotireoidismo também pode ocorrer como uma manifestação tardia após um tratamento com fármacos antitireoidianos para a doença de Graves; em tais pacientes, a doença de Graves de exaustão é o provável resultado final da destruição autoimune da tireoide. Assim, todos os pacientes com doença de Graves que não se tornaram hipotireóideos necessitam um acompanhamento por toda a vida, a fim de certificar-se de que continuam eutireóideos. C. Tratamento cirúrgico A tireoidectomia total ou subtotal é o tratamento de escolha para pacientes com glândulas muito grandes ou bócios multinodulares, para pacientes com nódulo maligno ou suspeito concomitante, para pacientes alérgicos ou não aderentes com o tratamento medicamentoso, pacientes que se recusam ao tratamento com iodo radioativo e para gestantes com doença de Graves grave que sejam alérgicas ou desenvolvam reações aos fármacos antitireoidianos. O paciente é preparado com fármacos antitireoidianos até estar eutireóideo (aproximadamente seis semanas). Além disso, duas semanas antes da cirurgia o paciente pode receber uma solução saturada de iodeto de potássio, 5 gotas 2 vezes ao dia. Esse esquema diminui a vascularização da glândula, reduzindo a perda sanguínea durante a cirurgia. É necessário um cirurgião experiente e é recomendada a realização de uma tireoidectomia total, uma vez que, caso seja deixado muito tecido tireóideo, pode haver reaparecimento da doença. O hipoparatireoidismo e a lesão ao nervo laríngeo recorrente Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 ocorrem como complicações cirúrgicas em aproximadamente 1 % dos casos, com taxas inferiores quando o procedimento é realizado por cirurgiões experientes. D. Outras condutas médicas Durante a fase aguda da tireotoxicose, os agentes bloqueadores 13-adrenérgicos são extremamente úteis. Propranolol, 10 a 40 mg a cada 6 horas, ou betabloqueadores de longa ação, como o Inderal LA, nadolol, atenolol ou metoprolol, controlam vários sintomas adrenérgicos, taquicardia, hipertensão e fibrilação atrial. O medicamento é gradualmente retirado à medida que os níveis séricos de T4L e T 3 retornam ao normal. Uma nutrição adequada e repouso são essenciais. Os contrastes colecistográficos ipodato de sódio e ácido iopanoico (indisponíveis nos EUA) demonstraram inibir a síntese e a liberação de hormônios da tireoide, assim como a conversão periférica do T4 em T3. Na dose de 1 g/d, esses fármacos podem auxiliar e restaurar rapidamente o estado eutireóideo em pacientes gravemente enfermos. Eles tornam a glândula saturada de iodo, de modo que não devem ser utilizados imediatamente antes do tratamento com 131I. A colestiramina, 4 g por via oral 3 vezes ao dia, reduz o T4 sérico ligando-se ao T4 ao intestino, podendo ser útil em pacientes com hipertireoidismo grave. Escolha do tratamento A escolha do tratamento varia de acordo com a natureza e a gravidade da doença e os costumes predominantes. Por exemplo, nos EUA, a terapia com iodo radiativo tem sido o tratamento preferido para a maioria dos pacientes, ao passo que na Europa e na Ásia prefere-se utilizar o tratamento medicamentoso com fármacos antitireoidianos. De modo geral, os fármacos antitireoidianos consistem em um tratamento razoável em crianças e adolescentes e para adultos com doença leve e bócios pequenos. Em todos os outros pacientes, o iodo radiativo é o tratamentode escolha. Atualmente, o papel da cirurgia limita-se a pacientes que não aderiram ao tratamento e recusam o tratamento com iodo radioativo, pacientes com bócios grandes e outras circunstâncias incomuns observadas anteriormente. Tratamento das Complicações A. Crise tireotóxica A crise tireotóxica (tempestade tireóidea) necessita de um manejo vigoroso. O propranolol, 1 a 2 mg por via intravenosa lentamente a cada 5 a 10 minutos até um total de 10 mg, ou 40 a 80 mg a cada 6 horas por via oral, é útil no controle das arritmias. Grandes doses de propranolol também possuem a capacidade de bloquear a conversão Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 de T4 em T3. O esmolol, um betabloqueador de ação muito rápida, é administrado em uma dose de 250 a 500 mg/kg/min como dose de ataque, seguido de 50 µg/kg/min com monitoração cardíaca. Em presença de insuficiência cardíaca grave ou asma e arritmia, quando os betabloqueadores podem estar contraindicados, a cuidadosa administração intravenosa de verapamil em uma dose de 5 a 10 mg pode ser eficaz. A síntese hormonal é bloqueada pela administração de PTU, 250 mg a cada 6 horas. Na tempestade tireóidea, o PTU pode ser a medicação preferida em relação ao metimazol, uma vez que o PTU bloqueia a conversão do T4 em T3. Caso o paciente seja incapaz de ingerir a medicação por via oral, o metimazol em uma dose de 60 mg a cada 24 horas ou o PTU, 400 mg a cada 6 horas, pode ser administrado por meio de um supositório retal ou enema. Após a administração de um fármaco antitireoidiano, a liberação hormonal é retardada pela administração oral de uma solução saturada de iodeto de potássio, 10 gotas 2 vezes ao dia. Conforme observado anteriormente, os agentes colecistográficos ipodato sódico (Oragrafin) ou ácido iopanoico (Telepaque) proporcionam uma fonte de iodo e bloqueiam potentemente a conversão do T4 em T3, mas esses medicamentos atualmente não estão disponíveis nos EUA. A administração de hemossuccinato de hidrocortisona ou seu equivalente, 50 mg por via intravenosa a cada 6 horas, normalmente é recomendada, porém seu papel no manejo da tempestade tireóidea é incerto. O tratamento de suporte inclui um cobertor de resfriamento e acetaminofeno para auxiliar no controle da febre. O uso de ácido acetilsalicílico está contraindicado devido a sua tendência de ligação à TBG e deslocamento do T 4, disponibilizando mais T 4 em seu estado livre. Também é importante um suporte de líquidos, eletrólitos e nutrição adequada. O fenobarbital pode ser útil para a sedação, uma vez que ele acelera o metabolismo periférico e a inativação do T4 e do T3• A administração de oxigênio, diuréticos e digoxina está indicada para a insuficiência cardíaca e/ ou fibrilação atrial. Por fim, é essencial tratar a doença subjacente que possa ter precipitado a exacerbação aguda. Como medida extrema (raramente necessária) para o controle da crise tireotóxica, pode ser utilizada uma plasmeferese ou diálise peritoneal para a remoção dos altos níveis de hormônios tireóideos livremente circulantes. B. Oftalmopatia Para a doença leve, manter a cabeça do paciente elevada à noite e administrar diuréticos são ações que podem auxiliar na redução do edema periorbital. Conforme observado, a prednisona iniciada imediatamente após o iodo radiativo em uma dose de 30 a 60 mg/ dia, reduzindo a dose em 1 O mg a cada duas semanas, protege contra a Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 exacerbação da oftalmopatia após o tratamento com 131I. O manejo da oftalmopatia grave devido à doença de Graves envolve a cooperação entre endocrinologista e oftalmologista. Para reações inflamatórias agudas graves, um tratamento de curta duração de altas doses de corticosteroides costuma ser eficaz (p. ex., prednisona, 100 mg diárias por via oral em doses divididas durante 7 a 14 dias, então, em dias alternados, gradualmente diminuindo a dose durante 6 a 12 semanas). Como alternativa, a pulsoterapia com altas doses de metilprednisolona pode ser utilizada Caso o tratamento com corticosteroides não seja efetivo ou caso ocorra uma recorrência após o ajuste da dosagem, a radioterapia externa na região retrobulbar pode ser útil. A dose em geral é de 2.000 cGy em 10 frações, administradas durante duas semanas. As estruturas das lentes e da câmara anterior devem ser protegidas. Nos casos muito graves em que existe risco à visão, pode ser utilizada a descompressão orbital. Um dos procedimentos envolve uma abordagem transantral por meio do seio maxilar, removendo o soalho e as paredes laterais da órbita. Na abordagem anterior alternativa, a órbita é penetrada sob o globo ocular, e partes do soalho e das paredes orbitais são removidas. Ambas as abordagens são efetivas, sendo que a exoftalmia pode ser reduzida em 5 a 7 mm em cada olho com o uso dessas técnicas. Após a regressão do processo agudo, o paciente frequentemente permanece com visão dupla ou anormalidades palpebrais devido à fibrose muscular e contratura ou devido à posição pós-operatória do globo. Este problema pode ser corrigido por meio de uma cirurgia cosmética da pálpebra ou cirurgia de músculo ocular. Curso e prognóstico Em geral, o curso da doença de Graves tratada com fármacos antitireoidianos é de remissões e exacerbações durante um período, a menos que a glândula seja destruída por cirurgia ou iodo radiativo. Apesar de alguns pacientes poderem permanecer eutireóideos durante longos períodos após o tratamento medicamentoso, pelo menos 25% deles desenvolvem hipotireoidismo. O seguimento por toda a vida é indicado para todos os pacientes com doença de Graves. Anorexia Nervosa A anorexia nervosa (AN) é um transtorno alimentar (TA) que se caracteriza por perda de peso autoinfligida, acompanhada por distorção da imagem corporal e alterações hormonais secundárias à desnutrição (amenorreia ou ciclos menstruais irregulares, hipogonadismo hipotalâmico, retardo no desenvolvimento da puberdade e redução do interesse sexual). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 O termo anorexia não é o mais adequado para definir essa síndrome, já que não necessariamente cursa com perda do apetite. O termo alemão Magersucht (busca por magreza) é, do ponto de vista psicopatológico, mais adequado para caracterizar a AN, uma vez que a busca obsessiva pelo controle do peso é o sintoma cardinal da doença. O curso da AN é potencialmente crônico, com graves manifestações psíquicas e clínicas. Por conseguinte, a AN responde pela maior taxa de morbidade e mortalidade entre todos os transtornos psiquiátricos. Mulheres entre 15 e 25 anos são o grupo mais atingido pela AN. Apenas 4 a 6% dos pacientes pertencem ao sexo masculino. Epidemiologia A prevalência de AN é estimada entre 0,5 e 1 o/o da população. Cerca de 90% dos pacientes são do sexo feminino, com maiores taxas entre caucasianos e pessoas das classes sociais média e alta. Nos últimos anos, a crença de que essa seria uma “doença das meninas bem-nascidas” tem sido contestada, em razão do desenvolvimento do quadro em indivíduos de classe social mais baixa. Estima-se que a incidência de casos novos em mulheres jovens seja de cerca de 8 por 100 mil pessoas. Em homens, o índice é menor que 0,5 por 100 mil. Algumas profissões apresentam maior chance para o desenvolvimento de AN, em especial aquelas ligadas à estética e ao corpo, como bailarinas, atletas, profissionais da moda, atrizes e atores, estudantes de nutrição, medicina e psicologia. Para os pacientes do sexo masculino, a prevalência mostra-se crescente, emespecial entre homossexuais. Estudos epidemiológicos ainda são escassos nessa área, podendo haver subestimação dos casos. Ao se considerar os erros diagnósticos, quadros parciais e as migrações diagnósticas, os índices podem ser maiores. Etiopatogenia A etiologia da AN está relacionada a interações de fatores ambientais, psicológicos e fisiológicos, por isso, quanto maior a compreensão da relação entre eles, maiores e melhores serão a prevenção e o tratamento. Fatores psicológicos Existe a descrição clássica do tipo psicológico dos pacientes portadores de AN, que apresentam alta esquiva ao dano e baixa busca por recompensas; grande preocupação com a autonomia, a identidade e a separação; distúrbios perceptuais e da imagem corporal; preocupação excessiva com o peso; distúrbios cognitivos (crenças Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 disfuncionais); acentuada autocrítica, perfeccionismo, sensibilidade a críticas, baixa autoestima e ansiedade interpessoal aumentada; abuso físico e sexual na infância. Obviamente, não contempla todos os casos, mas auxilia na identificação de traços comumente observados em pacientes com AN. Fatores biológicos Muitos estudos têm se voltado para a predisposição biológica hereditária, embora não haja comprovação definitiva. As variáveis biológicas participam da patogenia da AN, não como fatores causais, mas precipitantes, como no caso das mudanças hormonais da puberdade, e fatores mantenedores, como o efeito da desnutrição no estado mental dos pacientes. Ocorre maior concordância de casos de AN entre gêmeos homozigóticos em comparação com heterozigóticos. A agregação familiar da AN revela a presença de fatores biológicos envolvidos na AN, ainda que eles ainda não sejam claramente compreendidos. Na AN, ocorrem mudanças na neurotransmissão, o que pode causar alterações na modulação da fome. Ocorre aumento do nível de cortisol sérico, o que levaria a diminuição do apetite, hipogonadismo hipotalâmico e redução do interesse sexual. Especula-se sobre o papel de diversos neurotransmissores e mediadores da fome (grelina, leptina e peptídeo Y) na patogênese da AN. Influência familiar A ocorrência de TA entre parentes de primeiro grau é 6 a 10 vezes mais frequente em comparação à população geral. O índice de incidência intrafamiliar pode ser compreendido não apenas como um fator hereditário, mas também como aprendizagem comportamental. Dependência de álcool, transtornos afetivos e obesidade também são mais comuns entre familiares de pacientes com TA. Apontam-se a rigidez familiar, as relações parentais disfuncionais e a grande importância dada às aparências como possíveis fatores que influenciam no aparecimento da AN. Cultura O ambiente cultural e a moda são determinantes na patogênese da AN. Os padrões de beleza e de saúde são, atualmente, vinculados à magreza, o que leva a pressões sociais por ideais estéticos esguios e até caquéticos. Conforme mencionado Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 anteriormente, há profissões de risco para o desenvolvimento de TA, como modelos, bailarinas, atletas, atores e estudantes de medicina, nutrição e psicologia. Didaticamente, os principais componentes etiológicos da AN podem ser divididos em três fatores: 1) Fatores predisponentes: sexo feminino, história familiar de TA, baixa autoestima, perfeccionismo e dificuldade de expressar emoções; 2) Fatores precipitantes: dieta, separação e perda, alterações na dinâmica familiar, expectativas irreais na escola, no trabalho ou na vida pessoal e proximidade da menarca; 3) Fatores mantenedores: alterações neuroendócrinas, distorção da imagem corporal, distorções cognitivas e práticas purgativas. Quadro clínico O quadro inicia-se quase sempre após uma dieta. Inicialmente, são evitados alimentos ricos em carboidratos e aqueles considerados “engordativos”. Com o agravamento do TA, o paciente passa a restringir progressivamente sua alimentação, chegando a abolir a ingesta de grupos alimentares e a minimizar o número de refeições. Em geral, o quadro clínico é crônico e associado a sérias complicações clínicas decorrentes da desnutrição e dos métodos compensatórios inadequados (indução de vômitos, uso de laxantes e diuréticos, fórmulas para emagrecer, realização de exercício físico excessivo, uso inadequado de insulina e hormônios da tireoide, amamentação com a intenção de perder peso, sangrias autoinfligidas, etc.). Apesar de ocorrida a perda de peso, o paciente mostra-se constantemente insatisfeito com o resultado obtido, referindo manter-se gordo ou que algumas partes de seu corpo ainda precisam ser reduzidas. A distorção de imagem corporal é um dos mais inquietantes fenômenos da psicopatologia. Há diversas alterações clínicas no decorrer da doença, porém, com a recuperação completa e a manutenção da melhora nutricional, os parâmetros geralmente se normalizam. Diagnóstico O Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Americana de Psiquiatria, atualmente em sua 4ª edição (DSM-IV), distingue dois subtipos de AN baseados na presença ou ausência de sintomas purgativos. Pacientes com AN que apresentam episódio de compulsão alimentar ou utilizam métodos como indução de vômitos, abuso de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 laxantes e diuréticos são considerados do subtipo purgativo. Eles possuem maior comorbidade de quadros ligados à impulsividade, incluindo abuso de substâncias, transtornos de personalidade do cluster B (borderline, histriônico, narcisista e antissocial), labilidade afetiva e maiores índices de suicídio. Além disso, podem apresentar complicações médicas mais graves em razão dos comportamentos purgativos. O subtipo restritivo caracteriza-se pela marcada utilização da restrição alimentar como método para perder peso, sem o uso regular de métodos purgativos. Tal restrição alimentar pode estar acompanhada por atividade física excessiva e uso de anorexígenos (inibidores de apetite, hormônios sintéticos, entre outros). Tanto o DSM-IV quanto a Classificação Estatística Internacional das Doenças Relacionadas à Saúde, em sua 10ª edição (CID-10), reconhecem o baixo peso autoinduzido, perturbações da imagem corporal e alterações hormonais como critérios necessários ao diagnóstico da AN. Os Quadros 2 e 3 relacionam os critérios diagnósticos da AN segundo o DSM-IV e a CID-10. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Comorbidades na anorexia nervosa Comorbidades de eixo I Há muito tempo relacionam-se os TA à depressão, sendo esta a comorbidade mais prevalente nos indivíduos com anorexia nervosa, com taxa aproximada de 40% em pacientes com o subtipo restritivo e de 82% em pacientes com o subtipo purgativo. Algumas das alterações encontradas, como cansaço, irritabilidade, humor disfórico, perda de libido, insônia e dificuldade de concentração, podem ser decorrentes do estado nutricional alterado. Com o ganho de peso, a sintomatologia tende a desaparecer na ausência de real comorbidade. Em segundo lugar, aparecem os transtornos ansiosos, com taxa de 24% para o subtipo restritivo e 71% para os pacientes com AN do subtipo purgativo. A prevalência ao longo da vida de transtorno obsessivo compulsivo (TOC) entre as mulheres com AN varia de 10 a 62%. A dependência de álcool e drogas atinge até 25% dos pacientes com TA. Comorbidades de eixo II Anoréxicos do subtipo purgativo apresentam mais frequentemente transtorno de personalidadedo cluster B, em particular do tipo borderline, ao passo que os transtornos evitativo e anancástico de personalidade (cluster C) apresentam prevalência maior no subtipo restritivo. Curso e evolução As taxas de recuperação da AN são variáveis, estimando-se recuperação completa em torno de 50% dos pacientes. Outros 30% evoluem com alternância entre períodos de melhora e de recidiva da doença. O restante torna-se crônico e refratário, com complicações físicas e psicológicas importantes. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Dentre os transtornos psiquiátricos, a AN apresenta as maiores taxas de morbidade e mortalidade. O índice de mortalidade varia de 5 a 20%. Metade das mortes em pacientes com AN ocorre por suicídio, e o restante decorre de complicações clínicas. Estima-se que a mortalidade em portadores de AN seja 12 vezes maior que aquela observada na população de mesmo sexo e faixa etária. Alguns fatores são preditivos de uma má evolução da doença, como peso muito baixo no início do tratamento, aparecimento tardio do transtorno, presença de comorbidades psiquiátricas, utilização de métodos purgativos, baixo peso na alta hospitalar, relações familiares comprometidas e demora na procura de tratamento. A distorção da imagem corporal tende a permanecer em grande parte dos pacientes anoréxicos, constituindo um desafio para futuros estudos. Tratamento O tratamento da AN requer assistência multidisciplinar. A equipe mínima deve ser composta por nutricionista, psicólogo e médico psiquiatra. A abordagem na AN deve compreender o tratamento de complicações clínicas e comorbidades clínicas e psiquiátricas; promover recuperação cognitiva, volitiva e afetiva, do medo mórbido de engordar e da insatisfação relativa à imagem corporal; envolver a família dos pacientes nas diversas modalidades de tratamentos oferecidos; prevenir recaída e recorrência do quadro alimentar disfuncional; promover recuperação funcional e de autoestima; e desenvolver autorresponsabilização sobre o tratamento. O tratamento da AN pura (cerca de 16% dos casos) é a renutrição criteriosa. No entanto, tendo em vista a existência frequente de comorbidades, o uso de medicações se torna necessário em muitos casos. O uso de medicamentos na AN sem comorbidades ainda necessita de estudos controlados, A fluoxetina pode melhorar o prognóstico de pacientes com AN após terem atingido peso adequado, prevenindo recaídas. A olanzapina tem diminuído a ansiedade e melhorado aspectos psicopatológicos da AN, além de contribuir para o ganho de peso em estudos abertos, no entanto, não há estudos controlados para comprovar tais evidências. A ciproeptadina pode ser utilizada como orexígeno, em razão das suas propriedades anti- histamínicas. Em alguns casos, sintomas depressivos remitem com a melhora nutricional, fazendo parte da sintomatologia decorrente da anorexia. Quando indicado o uso de antidepressivos em virtude de transtorno comórbido, dá-se preferência aos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) pela sua boa eficácia associada a baixas cardio e neurotoxicidade. Deve-se evitar o uso de antidepressivos tricíclicos e inibidores Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 da monoamino-oxidase em razão do potencial de toxicidade, da interação medicamentosa e da incompatibilidade com certos alimentos. A bupropiona também não deve ser usada, já que aumenta o risco de convulsões. Entre os antipsicóticos, podem ser usados olanzapina, clorpromazina e loxapina. Benzodiazepínicos podem ser utilizados por seu efeito ansiolítico, em especial quando administrados antes das refeições. O tratamento da AN depende da gravidade e da cronicidade da parte clínica e comportamental e pode ser sob regime de internação, hospital-dia ou ambulatorial. A indicação de internação é baseada na gravidade do caso e no risco de óbito. Os critérios para a internação dos pacientes devem se basear não apenas no baixo peso, mas na presença de desnutrição grave (peso menor que 75% do esperado de peso/altura); desidratação; distúrbios eletrolíticos; disritmia cardíaca; instabilidade fisiológica; bradicardia; hipotensão e hipotermia ( < 36°C); mudanças ortostáticas (pulso e pressão sanguínea); estagnação do crescimento e desenvolvimento; falha no tratamento ambulatorial; recusa alimentar aguda; descontrole de purgações e compulsões; complicações clínicas da desnutrição e de emergências psiquiátricas (p. ex., ideação suicida e sintomas psicóticos); e diagnóstico de comorbidades que podem interferir no tratamento do TA (p. ex., depressão grave, TOC e disfunção familiar grave). O monitoramento do peso é uma ferramenta importante, porque determina a progressão do paciente. Deve-se estabelecer um protocolo para que um profissional seja responsável pela pesagem do paciente em qualquer regime de tratamento5• O indicador nutricional mais utilizado em adolescentes e adultos é o índice de massa corporal (IMC), calculado pela divisão do peso (kg) pela altura (m) elevada ao quadrado, expresso por kg/m2. A gravidade do quadro de AN pode ser considerada moderada (quando o IMC estiver próximo de 17,5 kg/m2) ou grave (quando o valor for inferior a 15,0 kg/m2). A terapia nutricional deve ser rapidamente iniciada para se ajustar e adaptar o plano alimentar às necessidades clínicas e nutricionais. A realimentação com ingesta oral de alimentos é a primeira escolha para a recuperação do peso e é mais bem-sucedida na recuperação a longo prazo. Em raras circunstâncias, a nutrição parenteral e enteral é necessária. Os riscos associados a uma terapia nutricional agressiva são hipofosfatemia, edema, insuficiência cardíaca, convulsões, aspiração da dieta enteral e morte. O ritmo recomendado de ganho de peso é de 0,5 a 1,0 kg por semana em pacientes ambulatoriais e de 1,0 a 1,5 kg em pacientes internados. Na prática clínica e no atendimento ambulatorial, tem sido observada a existência de uma variação no ganho de peso inerente a cada paciente. Torna-se necessário avaliar a colaboração dos familiares, além das dificuldades individuais de cada paciente. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Durante a fase de realimentação, é necessário o monitoramento clínico para combater a síndrome da realimentação, que é caracterizada por hipofosfatemia, rápida diminuição do potássio e magnésio, intolerância a glicose, disfunção gastrointestinal e arritmias cardíacas. Pode acontecer em pacientes sob regime ambulatorial ou de internação, sendo mais comum neste último grupo. A retenção hídrica pode acontecer durante a realimentação, sendo comum a ocorrência de edemas. Para evitar a síndrome da realimentação, devem ser solicitados, no início do tratamento, os exames anteriormente listados (Quadro 4) e possíveis disfunções precisam ser corrigidas. Recomenda-se a aferição diária das dosagens séricas de potássio, fósforo e magnésio nos primeiros sete dias de tratamento. Após esse período, sugere-se acompanhamento das dosagens séricas três vezes por semana até que o quadro se estabilize. A dieta deve ser iniciada com baixa ingestão calórica e aumentada gradualmente. São fornecidos suplementos de cloreto de potássio, solução de fosfato de sódio, complexo multivitamínico, tiamina e gluconato de zinco. O magnésio não é bem absorvido oralmente; portanto, seus níveis devem ser monitorizados e, se necessário, procede-se à correção parenteral. Se houver desidratação, também deve ser corrigida por via parenteral até a normalização do volume intravascular.A recuperação da AN é longa e, mesmo sem medicamento, o suporte psicológico é essencial para se sustentar a mudança. A restauração clínica e nutricional feita primeiramente torna a terapia psicológica mais efetiva. A restauração do peso não significa a cura da doença, e o ganho ponderal forçado sem suporte psicológico é contraindicado. A psicoterapia de fundamentação cognitivo-comportamental aborda os pensamentos distorcidos e as crenças errôneas, além de tentar melhorar a autoestima. A psicoterapia individual de orientação psicodinâmica tem sido utilizada, embora não exista até o momento nenhuma evidência de que um determinado modelo de psicoterapia em adultos anoréxicos seja superior a outro'. Alterações na dinâmica familiar são mantenedores importantes da AN, de modo que a psicoterapia familiar em adolescentes e adultos jovens ou a terapia de casal são recursos que devem ser utilizados quando possível. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Bulimia Nervosa A bulimia nervosa (BN) caracteriza-se pela compulsão alimentar, ou seja, ingestão de grande quantidade de alimentos em um curto período com a sensação de perda de controle e compensações inadequadas para o controle de peso, como vômitos autoinduzidos, dietas compensatórias, uso de medicamentos (laxantes, diuréticos, inibidores de apetite) e exercícios físicos exagerados. Observa-se excessiva preocupação com o peso e a forma corporal, que invariavelmente afeta sentimentos e atitudes do paciente. De acordo com o DSM-IV, há dois tipos de BN: ➔ O purgativo, no qual o paciente usa como métodos compensatórios laxantes, enemas, diu réticos e vômitos autoinduzidos (80 a 90% dos casos); e ➔ O não purgativo (ou restritivo), no qual o paciente apresenta outros comportamentos compensatórios, como jejum ou excesso de exercícios, mas não apresenta os métodos purgativos citados. Gerald Russell utilizou o termo bulimia nervosa com base nos termos gregos boul (boi) ou bou (grande quantidade) e lemos (fome), que significaria uma fome tão intensa que seria suficiente para devorar um boi. Descreveu a BN em pacientes com peso normal, que haviam apresentado AN no passado e referiam episódios bulímicos e vômitos autoinduzidos. Inicialmente, ele julgou que essa apresentação era uma migração da AN, mas depois considerou que os dois transtornos eram quadros distintos e independentes. Epidemiologia A incidência de BN é de 13 para 100 mil habitantes por ano, com prevalência entre 0,5 a 4% da população. Esses números podem ser maiores se TA sem outra Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 especificação (os chamados quadros parciais) forem considerados e também em populações específicas, como jovens universitários. A prevalência é maior no sexo feminino, com cerca de 90 a 95% de mulheres para 5 a 10% de homens. A maioria das pacientes apresenta peso normal ou está discretamente acima do peso. Não é incomum que o transtorno comece após um período de dieta. O início da doença é mais comum no final da adolescência ou no início da vida adulta, atingindo as diferentes classes sociais. Nos Estados Unidos, há maior prevalência do transtorno em caucasianas e latino-americanas do que nas afro-americanas e nas demais minorias étnicas6. Algumas profissões apresentam mais risco para desenvolvimento do transtorno, como modelos e outros profissionais da moda, jóqueis e atletas. Etiopatogenia Não há uma causa única para a BN, assim como na maioria das doenças psiquiátricas. A etiopatogenia compreende fatores biológicos, psicológicos, socioculturais, familiares e genéticos. Fatores biológicos O papel dos fatores biológicos na bulimia tem recebido atenção considerável nas últimas décadas. Foram detectadas alterações nos neurotransmissores cerebrais, como serotonina e noradrenalina, e também nos peptídeos YY, na leptina e na colecistoquinina. A serotonina atua na saciedade, na escolha do alimento e nos seus padrões alimentares. A colecistoquinina também atua na saciedade e apresenta-se baixa em indivíduos com BN. Fatores psicológicos Os indivíduos com BN apresentam frequentemente pensamento dicotômico, perfeccionismo, importante labilidade emocional, autodestruição, aversão a conflitos e medo de abandono. Outras características comuns entre pacientes com BN são baixa autoestima, maiores dificuldades em verbalizar seus sentimentos e autoavaliação negativa. Experiências traumáticas na infância, incluindo abuso sexual, estão associadas a comportamentos multimpulsivos em pacientes com BN. Fatores socioculturais No mundo ocidental, é bem difundida a crença de que um corpo atrativo facilita o sucesso social e profissional. Existe uma busca desenfreada pela beleza e pela estética Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 corporal perfeita, o que é reforçado pela sociedade moderna. Dessa forma, o estereótipo idealizado da mulher feminina e de sucesso é o de alguém magra. O aumento da prevalência desse transtorno nos países industrializados sustenta a importância desses fatores. Fatores familiares Entre pacientes com BN, há relatos de conflitos intrafamiliares, alterações nas relações interpessoais e sistêmicas, dificuldade de comunicação e falta de coesão no núcleo familiar. Outros fatores desencadeantes dos TA são comentários negativos que pais fazem a respeito do peso dos filhos, comportamento alimentar restritivo dos pais e encorajamento para que seus filhos façam dieta. Fatores genéticos Descreve-se maior prevalência de episódios depressivos e de TA em familiares de primeiro grau afetados pela doença, sugerindo um modelo genético na etiopatogenia da BN. Não há, até o momento, identificação de alteração em um único gene causador da BN, mas estudos apontam associação entre o quadro e alterações no cromossomo 10p. Existe alta taxa de concordância em gêmeos monozigóticos acometidos pelo transtorno em comparação a dizigóticos, sustentando esse modelo de transmissão genética. Quadro Clínico O paciente com BN geralmente descreve grande preocupação com seu peso e sua forma corporal previamente ao transtorno propriamente dito, embora seu peso esteja normal ou discretamente elevado. De forma geral, refere intenso medo de engordar, mas sem o desejo de emagrecer ou buscar ideais de beleza cada vez mais magros, como observado na AN. Assim sendo, inicia-se uma dieta restritiva, eliminando alimentos que julga facilitar o ganho de peso, mas sem haver a restrição desenfreada observada em pacientes anoréxicos. O controle sobre o hábito alimentar se mantém até que, em determinado momento, o paciente sente uma vontade grande de comer e, ao se deparar com algum alimento proscrito de sua dieta, apresenta um descontrole, ingerindo-o em quantidade maior do que a normal em um tempo curto. Fica culpado pela quebra do que estabelecera e também se sente mal fisicamente por conta da grande quantidade ingerida, induzindo o vômito para evitar engordar e aliviar-se física e psiquicamente. Aos poucos, vem a sensação de estar agindo de maneira errada, a ansiedade aumenta, piorando a Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 autoestima e culpando-se por não ter o controle adequado de sua dieta e, por conseguinte, de sua vida. Observa-se a tendência à catastrofização em pacientes com essa doença. Dessa forma, um círculo vicioso é estabelecido, levando ao reinício da dieta, predispondo a novos episódios bulímicos que induzem aos vômitos, assim piorando a ansiedade e a culpa, voltando-se mais uma vez à dieta comotentativa de restabelecer o controle sobre sua vida. A presença dos episódios bulímicos é um ponto fundamental desse transtorno. O episódio pode levar à ingestão de até 14 mil kcal, compondo-se de alimentos doces ou salgados, frios ou à temperatura ambiente e que muitas vezes não são sequer mastigados. O abuso de exercícios físicos com o propósito de compensar os episódios bulímicos pode causar dano a ligamentos e músculos, fraturas ósseas por sobrecarga e até mesmo dano cardiológico. Outros mecanismos compensatórios para os episódios compulsivos da BN são o uso de laxantes ou diuréticos, hormônios tireoidianos, inibidores de apetite, orlistat, maconha e cocaína. Os laxantes são usados como método compensatório em 60% das pacientes com BN. Seu abuso indica maior gravidade do transtorno, grande insatisfação com a imagem corporal, maior hostilidade autodirigida e maior presença de sintomas depressivos. Pode haver relato de irregularidades menstruais, mas a amenorreia é rara. Um subtipo de BN descrito por Laceyl, a bulimia multi-impulsiva, apresenta pelo menos três dos seis comportamentos impulsivos que se seguem, ao longo da vida, além dos episódios bulímicos: tentativas de suicídio recorrentes, autoagressão severa, cleptomania, abuso de álcool, abuso de drogas e promiscuidade sexual. Esses pacientes apresentam mais comportamento parassuicida que os da bulimia sem multi-impulsividade. Diagnóstico Várias questões surgem sobre a validade dos critérios diagnósticos para a BN. Alguns autores consideram arbitrária a frequência exigida para os episódios bulímicos e para os comportamentos compensatórios, argumentando que é inútil excluir os que têm compulsão ou purgação apenas uma vez por semana ou os que não apresentam compulsão alimentar objetiva, mas que purgam regularmente. A psicopatologia desses pacientes é muito próxima à dos pacientes com BN. Pesquisas sobre as questões nosológicas estão sendo realizadas e provavelmente constarão no DSM-V. Os critérios diagnósticos, de acordo com o DSM-IV e a CID-10, são apresentados no Quadro 5. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Complicações clínicas As complicações clínicas são mais frequentes em pacientes com BN que apresentam maior número de episódios compulsivos e práticas purgativas (Quadro 6). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Comorbidades na bulimia nervosa Comorbidades de eixo 1 A comorbidade mais observada na BN é a depressão, com prevalência ao longo da vida variando de 50 a 65%6• Taxas mais elevadas de transtorno bipolar também têm sido encontradas em pacientes com bulimia, atingindo cerca de 14,3%. A prevalência ao longo da vida do uso abusivo de substâncias psicoativas varia de 30 a 60%, sendo a segunda comorbidade mais frequente na BN. As taxas de prevalência para transtorno de ansiedade generalizada variam de 8 a 12%, para o transtorno de pânico é de 11 %, para fobia social, de 17% e cerca de 40% para TOC. Alguns estudos demonstram que o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é significativamente mais comum nos pacientes com BN. Comorbidades de eixo II A prevalência de transtorno de personalidade é significativamente maior na BN que na AN, sobretudo pela alta taxa de transtorno de personalidade cluster B. O transtorno de personalidade borderline é o mais prevalente (25,4% ao longo da vida), seguido do dependente (21 %), histriônico (20%), esquiva (19%), cluster A (12%), obsessivo- compulsivo (1 1 %), narcisista ( 4,8%) e antissocial (4,8%)6. Os pacientes com BN e transtorno de personalidade borderline apresentam maior chance de tentativas de suicídio e maior comportamento suicida. Curso e evolução O curso da bulimia é bastante variável, mas, assim como na anorexia, pode ser crônico e com recaídas. Ainda residem dúvidas quanto ao conceito de remissão, pois alguns autores a consideram mesmo quando o paciente mantém alguns vômitos ocasionais. Uma recuperação favo rável ocorre em cerca de 50 a 70% dos casos. Alguns dos fatores preditivos de mau prognóstico da BN são grande frequência de vômitos no início do tratamento, demora para iniciar tratamento, tempo de doença, comorbidades associadas, tratamentos anteriores com pouca resposta, maior gravidade sintomatológica, início tardio da doença e relacionamentos interpessoais conturbados. Em contraste com as altas taxas de mortalidade nos pacientes com AN, a mortalidade não parece ser elevada na bulimia. Crow et al. 12 observaram que a mortalidade em um estudo longitudinal com 906 pacientes com BN foi de 3,9%. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Tratamento O tratamento da BN, assim como o da AN, deve ser feito por uma equipe multiprofissional, com, no mínimo, atendimentos psiquiátrico, nutricional e psicológico. Os objetivos incluem primeiramente a regularização do padrão alimentar, a suspensão de purgação e a restrição e a orientação nutricional. A psicoterapia com enfoque cognitivo-comportamental é a que tem demonstrado melhores resultados, havendo também boa resposta com a psicoterapia interpessoal. A orientação nutricional abordará a necessidade de ingerir diariamente os diferentes grupos alimentares, mostrará o tamanho adequado das porções em uma refeição, discutirá crenças errôneas a respeito da alimentação e orientará a confecção de diário alimentar. Deve-se orientar a pessoa a ter três principais refeições diárias planejadas e 2 ou 3 lanches entre elas, com ingestão de cerca de 1.500 kcal/dia. Informar sobre as consequências médicas do comportamento bulímico e dos vômitos é parte indispensável do tratamento. O paciente deve ser orientado sobre o risco de complicações dentárias, sangramentos gastrointestinais, arritmias cardíacas e até mesmo parada cardíaca. É necessário também alertá-lo sobre a inadequação do uso dos laxantes e diuréticos, com o objetivo de redução do peso, e quanto aos riscos relacionados ao uso de inibidores de apetite. É muito importante ressaltar que jejuns prolongados facilitam a ocorrência dos episódios bulímicos e vômitos autoinduzidos. Todas as famílias devem ser orientadas, com o objetivo de ensinar aspectos clínicos da BN, discutir alternativas para o padrão alimentar da família e diminuir as ideias de culpa que os parentes porventura possam ter. A terapia familiar é importante, apesar de as evidências serem mais reduzidas do que para pacientes com AN. A farmacoterapia tem sido amplamente pesquisada. O uso de antidepressivos, sobretudo tricíclicos, ISRS e inibidores seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN) é eficaz para o tratamento da BN, diminuindo episódios bulímicos, vômitos autoinduzidos e possíveis sintomas depressivos. O uso do topiramato é mais recente, mas vem mostrando resultados eficazes. Antagonistas narcóticos têm sido estudados como tratamento auxiliar em casos de difícil controle. O ISRS mais utilizado é a fluoxetina, apesar de o uso da sertralina e da fluvoxamina indicar melhora no tratamento da BN. A dose de 60 mg/dia de fluoxetina traz melhores benefícios do que a de 20 mg/dia. Tricíclicos como a imipramina e a desipramina apresentam respostas satisfatórias no tratamento da BN, mas a possibilidade do efeito colateral de voracidade por doces faz com que seu uso não seja indicado nesse caso. Os inibidores da monoamino-oxidase (IMAO) também são eficazes, mas o risco de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 consumo de alimentos que possam desencadear uma crise hipertensivadurante um episódio bulímico faz com que sua indicação não seja preconizada. A melhor resposta no tratamento da BN provém da combinação de terapia cognitivo-comportamental (TCC) com o uso dos medicamentos já citados. De acordo com a gravidade do quadro, o tratamento pode ser feito ambulatorialmente, em hospital-dia ou em regime de internação. Complicações Clínicas de Anorexia e Bulimia Nervosa Os transtornos alimentares (TA) são acompanhados de várias complicações clínicas relacionadas ao comprometimento do estado nutricional e às práticas compensatórias inadequadas para o controle do peso (vômitos, uso de diuréticos, enemas e laxativos). Muitas destas complicações surgem em decorrência do atraso do diagnóstico e do início do tratamento, pois, muitos pacientes escondem os sintomas e/ou recusam o tratamento. A morbidade e mortalidade associadas aos TA são expressivas. A anorexia nervosa (AN) apresenta a maior taxa de mortalidade dentre todos os distúrbios psiquiátricos, cerca de 0,56% ao ano. Este valor é cerca de 12 vezes maior que a mortalidade das mulheres jovens na população em geral. As principais causas de morte são: complicações cardiovasculares, insuficiência renal e suicídio. O exame de um paciente com TA baseia-se na avaliação do estado nutricional e das complicações decorrentes principalmente das práticas purgativas. O exame inclui uma investigação detalhada das alterações relacionadas com a redução do peso corporal, do padrão alimentar atual, da frequência e da gravidade dos métodos de purgação (se presentes) e da intensidade da prática de atividade física. Muita atenção deve ser dada a diferenciação com outros quadros clínicos que incluam sintomas alimentares. Assim, o diagnóstico diferencial do emagrecimento intenso que ocorre na AN inclui as doenças inflamatórias intestinais, o diabetes mellitus, câncer e hipertiroidismo. É importante, naqueles pacientes que relatam episódios de compulsão alimentar (ECA), afastar alterações hipotalâmicas que podem conduzir a síndromes hiperfágicas. No caso de uma lesão hipotalâmica, as alterações da imagem corporal e os comportamentos inadequados para controle do peso estariam ausentes. Na Tabela encontram-se algumas das complicações clínicas que ocorrem na AN e bulimia nervosa (BN), que serão abordadas logo a seguir. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Alterações metabólicas As principais alterações metabólicas observadas em pacientes com TA são a hipercolesterolemia e a hipoglicemia. A hipercolesterolemia é frequente na AN e sua causa não é completamente conhecida. Decorre, provavelmente, da redução dos níveis de T3 e da globulina carreadora de colesterol e/ou da diminuição da excreção fecal de ácidos biliares e colesterol.8 Quarenta por cento dos pacientes com AN apresentam uma elevação do colesterol total (CT), à custa do LDL-colesterol. A hipercolesterolemia Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 observada tem grau leve a moderado, mas níveis de CT de 400-600 mg/dl podem ser encontrados. A hipoglicemia tanto pode ocorrer após jejuns prolongados, como em resposta a um ECA seguido de vômitos, sendo frequentemente assintomática. Cerca de 56% dos pacientes anoréxicos tem glicemia menor que 70 mg/dl. Alterações endócrinas Alterações endócrinas são encontradas tanto em pacientes com AN quanto com BN, porém a observação de uma menor gravidade das complicações nesta última pode ser explicada pela ausência de perda de peso significativa em pacientes com BN. Embora a amenorreia venha a se constituir em um dos critérios diagnósticos para AN, ela pode ocorrer também nos pacientes de peso normal que apresentem BN. O eixo hipotálamo-hipófise-gonadal está alterado mesmo em pacientes com peso adequado, devido à redução na pulsatilidade da gonadorelina [luteinizing hormone releasing hormone (LHRH)] e consequente diminuição dos níveis de hormônio luteinizante [luteinizing hormone (LH)], hormônio folículo estimulante [folliclestimulating hormone (FSH)] e estradiol, resultando em um quadro de hipogonadismo hipogonadotrófico com irregularidade menstrual conduzindo a amenorreia. Apesar do mecanismo da redução desta pulsatilidade ser desconhecido, especula-se que esteja relacionado a concentrações anormais de neurotransmissores cerebrais, principalmente da serotonina. A amenorréia pode preceder ou ser concomitante à perda de peso em até um terço das pacientes; podendo persistir até a recuperação de um peso mínimo saudável. A amenorreia pode ser acompanhada de várias anormalidades: regressão dos ovários para estágios pré-puberais com múltiplos pequenos folículos, regressão do tamanho mamário e, às vezes, perda parcial dos pelos pubianos. O útero, também se encontra diminuído e observam-se mudanças atróficas na parede vaginal levando a dispareunia e diminuição da libido. A infertilidade pode ocorrer, porém ovulações ocasionais podem acontecer. A percentagem de gordura é determinante da menarca (acima de 17% de gordura corporal), sendo a leptina provavelmente o elo entre o tecido adiposo e o eixo gonadal. Foram relatados níveis reduzidos de leptina na AN, uma vez que seus níveis se correlacionam com a massa de tecido adiposo. A leptina foi descoberta em 1994 e consiste de um hormônio polipeptídeo com 167 aminoácidos sendo, um produto do gene “ob” nos adipócitos. Este hormônio parece controlar a função reprodutiva e a ingestão alimentar por ação hipotalâmica. Tem efeito modulador na reprodução e também pode contribuir para anovulação na anorexia nervosa. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Apesar de mais rara, a AN, quando ocorre no sexo masculino, está acompanhada de níveis baixos de testosterona, FSH e LH, associados a uma redução do volume testicular com oligo ou azospermia. Outra característica é a redução da libido que pode persistir mesmo após a recuperação do peso corporal. Na AN, a vasopressina [vasoprossin (AVP)] é liberada mais lentamente ou de forma errática em resposta as alterações osmóticas e uma minoria dos pacientes pode apresentar diabetes insípido parcial, responsivo à administração de AVP. O nível basal de hormônio do crescimento está aumentado na AN e BN, possivelmente sem relevância clínica, pois não há ocorrência dos efeitos anabólicos do mesmo. O mecanismo de elevação do hormônio do crescimento [growth hormone (GH)] permanece sem explicação. Talvez o estímulo para a sua produção decorra da redução da produção do somatomedina C [insulin-like growth factor 1 (IGF-I)] pelo fígado. Na desnutrição, assim como na AN, observam-se níveis diminuídos de IGF-I. Hipercortisolemia, elevação do cortisol livre urinário e alteração do ritmo circadiano do cortisol podem estar presentes tanto em pacientes com baixo peso que apresentam AN quanto em pacientes com peso normal que apresentem BN. Os níveis de corticotropina [adrenocorticotropic hormone(ACTH)] são normais, porém inapropriados para os níveis elevados de cortisol plasmático e urinário. Há ausência de supressão do cortisol basal com baixas doses de dexametasona, o que indica ativação anormal do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, semelhante ao que ocorre nos quadros de depressão endógena, caracterizando um quadro chamado de “pseudocushing”. Em relação ao eixo tireotrófico, há redução dos níveis de tri-iodotironina (T3) e tiroxina (T4), elevação dos níveis de T3 reverso e níveis normais ou pouco diminuídos do hormônio tireoestimulante [thyroid-stimulating hormone (TSH)] como ocorre na chamada Síndrome do Eutiroidiano Doente.13 Há umaresposta exagerada do TSH ao hormônio liberador de tireotrofina [thyrotropin-releasing hormone (TRH)], tal como ocorre na desnutrição. A redução dos níveis de T3, provavelmente ocorre por uma redução na conversão periférica de T4 à T3 como mecanismo adaptativo à desnutrição. Clinicamente, o paciente pode apresentar pele seca e amarelada (hipercarotenemia), constipação, intolerância ao frio, bradicardia, e aumento do tempo de relaxamento do reflexo Aquileu, achado frequente no hipotiroidismo. Alterações ósseas e do crescimento A puberdade e a adolescência são períodos críticos para o desenvolvimento do esqueleto, sendo responsáveis por 15% da estatura final adulta. Determinadas enfermidades que ocorrem nesta época da vida interferirão no ganho de massa óssea, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 sendo incerto que a proliferação óssea possa ocorrer após esta fase crítica do desenvolvimento puberal. Em 50% das mulheres com AN, a densidade mineral óssea está há mais de dois desvios padrões abaixo do normal. Este comprometimento ocorre tanto no osso trabecular quanto no cortical.16,17 A má nutrição reduz a formação nova de osso (“turnover”), que associada à puberdade atrasada decorrente da redução do estrogênio endógeno, ao hipercortisolismo, à diminuição da ingestão de cálcio, proteínas e vitamina D, favorecem à queda da densidade mineral óssea, levando a uma diminuição ou suspensão do crescimento ósseo linear. Quando a AN ocorre na fase precoce da puberdade, pode ocorrer osteopenia ou até mesmo osteoporose irreversível, favorecendo a ocorrência de fraturas patológicas. A osteopenia também pode ocorrer no sexo masculino, em decorrência da diminuição da testosterona. Alterações hidroeletrolíticas Neste grupo se encontra uma das complicações mais frequentes dos TA e de maior risco para o desenvolvimento de arritmias cardíacas: a hipocalemia, que é causada pelo vômito, desnutrição e abuso de medicamentos depletores de potássio (diuréticos e laxantes). Os sintomas incluem fraqueza, confusão, náusea, palpitações, arritmia, poliúria, dor abdominal e constipação. A hipomagnesemia pode acompanhar a hipocalemia em 30% dos casos. A hiponatremia é comum na AN e pode ser uma consequência da grande ingestão de água ou às flutuações do hormônio antidiurético [antidiuretic hormone (ADH)]. A hiperfosfatemia pode ser consequência da desnutrição ou surgir após a realimentação como parte da chamada síndrome de realimentação, que veremos logo a seguir. Os distúrbios do equilíbrio ácido-base ocorrem com maior frequência nos casos de uso de laxativos ou de diuréticos e também com a prática de vômitos autoinduzidos, resultando, respectivamente, em acidose metabólica e alcalose metabólica hipocalêmica. Alterações hematológicas A anemia e a leucopenia são achados frequentes na AN e BN. A anemia pode estar presente em 30% dos casos e é, usualmente, do tipo normocítica e normocrômica. Porém, também pode ocorrer anemia do tipo ferropriva, em decorrência da deficiência de ingestão de ferro ou de sangramento retal por uso excessivo de laxativos; ou a anemia macrocítica por deficit de vitamina B12 ou folato, leucopenia com linfocitose relativa e trombocitopenia. Uma hipoplasia da medula pode ocorrer em pacientes bulímicos, que é secundária ao uso de laxativos contendo fenolftaleína (tóxicos para a medula). Já foi descrito um caso de BN associada à redução dos fatores de coagulação dependentes da vitamina K. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Alterações dos fâneros e alterações visuais Uma pele pálida, seca, sem brilho e, por vezes coberta por uma fina camada de pelos (lanugo) são achados frequentes na AN. O lanugo pode decorrer de uma redução da atividade da enzima 5-alfa redutase e/ou do estado de hipotiroidismo. Pode ser ainda observada uma coloração amarelada da pele, decorrente dos níveis elevados de caroteno. A diminuição dos caracteres sexuais secundários e a perda do contorno do quadril e nádegas são outros achados comuns da AN. Os pelos e cabelos encontram-se ralos, finos e opacos, muitas vezes quebradiços e avermelhados (típicos da desnutrição).24 As unhas podem se encontrar quebradiças e com crescimento lento, favorecendo o desenvolvimento de onicomicoses. Úlceras ou escarificações dorsais da superfície das mãos e a presença de calos nos dedos podem ser observados em decorrência dos vômitos excessivos e foram descritos em 1979, por Gerald Russel. O nome “Sinal de Russel” foi dado a estas lesões que ocorrem como resultado de um trauma na pele, secundário ao uso das mãos como instrumento indutor dos vômitos. As lesões podem aparecer em qualquer lugar do dorso das mãos muito embora se situem mais usualmente na junção metacarpo-falangeana. Podem ser superficiais ou progredirem para calosidade hiperpigmentada com escarificações. Catarata, atrofia do nervo óptico e degeneração da retina podem também acompanhar a inanição. Alterações cardiovasculares A hipotensão arterial pode ser encontrada em até 85% dos pacientes com AN e resulta do estado de depleção crônica de volume circulante. O paciente apresenta sintomas compatíveis com uma hipotensão postural podendo ocorrer até uma franca síncope. Pode ser encontrada bradicardia decorrente da redução do metabolismo em adaptação a inanição, por alterações na conversão do T4 em T3 ou por hiperatividade vagal. A taquicardia pode também ocorrer como resposta à desidratação. A desnutrição decorrente da AN pode conduzir à atrofia do músculo cardíaco e a uma redução da massa ventricular esquerda com consequente desenvolvimento de prolapso mitral. A insuficiência mitral clinicamente significativa é pouco freqüente, raramente sendo necessário tratamento. Várias alterações eletrocardiográficas podem ser encontradas na AN: intervalo QT prolongado, baixa voltagem do complexo QRS, alterações do segmento ST. As ondas T e U podem estar presentes devido a distúrbios eletrolíticos (hipomagnesemia e hipopotassemia). Os pacientes com anorexia nervosa apresentam risco de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 desenvolvimento de morte súbita, principalmente se há hipocalemia e hipoalbuminemia com prolongamento do intervalo QT. A hipocalemia pode induzir o aparecimento de arritmias graves, como torsade de pointes e fibrilação ventricular. Nestes casos estão contraindicados os medicamentos com potencial efeito arritmogênico (fenotiazinas, antidepressivos tricíclicos etc). Ao ecocardiograma, podem-se observar alterações da câmara ventricular esquerda com diminuição da função sistólica, prolapso da válvula mitral e derrame pericárdico, sendo estas alterações reversíveis com o tratamento. É importante aqui ressaltar que, durante o tratamento os pacientes com AN podem apresentar a chamada síndrome de realimentação. Esta síndrome é caracterizada por um colapso cardiovascular após a introdução da alimentação em um paciente desnutrido. Ocorre devido a sobrecarga de ingestão calórica na presença de reduzida capacidade do sistema cardiovascular. Alterações pulmonares O edema pulmonar pode ocorrer secundário à falência cardíaca congestiva na síndrome de realimentação. Observa-se mais raramente o pneumomediastino, secundário à bronco-aspiração em decorrência dos vômitos excessivos. A taquipneia pode decorrer da acidose metabólica (uso de laxantes) e também dos quadros clínicos supracitados. A bradipneia ocorre em resposta à alcalose metabólica decorrente da prática de vômitos. Alterações renais A concentração urinária pode estar reduzida devidoa níveis flutuantes de ADH (alteração hipotalâmica promovendo diabetes insipidus parcial) e da grande ingestão de líquidos de baixa caloria. A redução da osmolaridade da medula renal (denominado de fenômeno da medula lavada), a inanição e a diminuição da ureia levam também a diminuição da concentração urinária. Como consequência da desidratação, pode ocorrer azotemia pré-renal em até 70% dos pacientes com anorexia nervosa. A hipocalemia decorrente das práticas compensatórias pode determinar uma alteração tubular renal, conhecida como nefropatia hipocalêmica. A desidratação crônica e os níveis elevados de oxalato de cálcio favorecem ao desenvolvimento de cálculos renais. O excesso de atividade física pode estar associado com hematúria que se normaliza após a realimentação e hidratação. Alterações gastrointestinais A constipação está entre as manifestações mais frequentes na AN e BN e decorre do uso de laxantes que, se utilizados em longo prazo, podem levar a danos irreversíveis Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 ao cólon intestinal (cólon catártico). Nos pacientes com características purgativas pode se observar eritema do palato, faringe e gengiva e alterações dentárias como erosão do esmalte dentário que fica com aspecto liso e opaco. Os dentes mais acometidos são os incisivos e caninos; as cúspides dentárias podem se apagar reduzindo a altura do dente e há também um aumento da incidência de cáries. O aumento das glândulas parótidas é mais comum na BN. Os alimentos com alto teor de carboidratos podem causar intensa estimulação das glândulas, resultando em uma hipertrofia. A regurgitação contendo ácido gástrico, a alcalose metabólica, a desnutrição e, o aumento do estímulo autonômico secundário a estimulação dos receptores linguais gustativos aumentam a liberação de enzimas proteolíticas pancreáticas contribuindo também para a parotidite. A frequência e a gravidade da hipertrofia se correlacionam com a frequência dos vômitos e ocorre entre 10 %e 50% das pacientes com BN. Geralmente o comprometimento é bilateral e indolor, mas raramente acomete as glândulas submandibulares. A hiperamilasemia acompanha a hipertrofia glandular salivar, desaparecendo com a descontinuidade dos vômitos. A dilatação gástrica pode ocorrer como complicação na fase de realimentação abrupta ou nos casos de ingestão de grandes quantidades de alimentos. Observa-se também um retardo no esvaziamento gástrico tanto nos pacientes com AN quanto BN, os quais se queixam de sensação de plenitude pós – prandial e distensão abdominal. Os vômitos frequentes levam à perda do reflexo da náusea e ao relaxamento do esfíncter esofagiano inferior, dessa forma podem ser induzidos espontaneamente. Os vômitos frequentes também podem levar à esofagite e ao sangramento da mucosa intestinal culminando com uma laceração grave (síndrome de Mallory-Weiss). Infartos entéricos decorrentes da Síndrome da artéria mesentérica superior podem ocorrer na AN.4 A pancreatite aguda é uma rara complicação na BN, podendo ser secundária aos ECA ou ao uso abusivo de diuréticos. Elevações das enzimas hepáticas são descritas no período de realimentação e nos pacientes que utilizam xarope de ipeca como emético. Adenoma Tóxico Um adenoma funcionante hipersecretor de T3 e T4 causa hipertireoidismo. Estas lesões iniciam na forma de um nódulo pequeno e de funcionamento autônomo que aumenta lentamente suas dimensões, produzindo quantidades excessivas de hormônios da tireoide. Isso suprime gradualmente a secreção endógena de TSH, resultando em uma redução da função do lobo glandular contralateral (Figura 7-39). O paciente típico é um indivíduo com mais idade (geralmente > 40 anos de idade) no qual se verificou crescimento recente de um nódulo de tireoide antigo. São observados sintomas de perda Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 de peso, fraqueza, dispneia, palpitações, taquicardia e intolerância ao calor. A oftalmopatia infiltrativa nunca está presente. O exame físico revela um nódulo definido unilateral, com muito pouco tecido tireóideo no lado contralateral. Os exames laboratoriais em geral revelam uma supressão do TSH e uma elevação dos níveis séricos de T3, frequentemente com apenas uma elevação limítrofe dos níveis de T4L. A cintilografia revela que o nódulo é quente, com diminuição ou ausência da função do lobo contralateral. Os adenomas tóxicos geralmente são adenomas foliculares benignos e quase nunca são malignos. O tratamento com iodo radiativo costuma ser eficaz e atrativo, uma vez que o lobo contralateral pode ser poupado dos efeitos destrutivos da radiação, e o paciente pode permanecer eutireoideo. O tratamento com iodo radiativo em dose de 20 a 30 mCi normalmente é necessário para destruir a neoplasia benigna. Caso sejam utilizados fármacos antitireoidianos no pré-tratamento do paciente, é importante que o TSH sérico permaneça baixo de modo que o lobo contralateral não seja estimulado a absorver o iodo radiativo. A cirurgia é uma opção caso o nódulo seja muito grande e esteja causando sintomas obstrutivos como disfagia, pressão no pescoço ou dificuldades respiratórias. Os fármacos antitireoidianos podem ser utilizados para normalizar a função da tireoide antes do iodo radiativo ou da cirurgia, mas não são uma boa solução a longo prazo, uma vez que, ao contrário da situação da doença de Graves, as remissões não ocorrem. Bócio Tóxico Multinodular Este distúrbio geralmente ocorre em pacientes idosos com bócio multinodular eutireoideo de longa duração. O paciente apresenta taquicardia, insuficiência cardíaca ou arritmia e ocasionalmente perda de peso, nervosismo, fraqueza, tremores e sudorese. O exame físico revela um bócio multinodular que pode ser pequeno ou bastante grande, podendo até mesmo estender-se para a região subesternal. Os exames laboratoriais revelam uma supressão do TSH e uma elevação dos níveis séricos de T3, com uma elevação menos pronunciada do T4. O exame com radiocontraste pode revelar múltiplos nódulos funcionantes na glândula ou ocasionalmente uma distribuição irregular do iodo radiativo. O hipertireoidismo em pacientes com bócios multinodulares de longa duração pode ser precipitado pela administração de doses farmacológicas de fármacos que contenham iodo (denominado fenômeno de Jod-Basedow ou hipertireoidismo induzido por iodo). A fisiopatologia do hipertireoidismo induzido por iodo é desconhecida, porém provavelmente envolve a incapacidade de alguns nódulos tireóideos de adaptar-se a uma carga de iodo, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 tendo como resultado um excesso de produção hormonal. Este é um dos mecanismos para o desenvolvimento do hipertireoidismo após a administração do antiarrítmico que contém iodo, a amiodarona (ver adiante). O manejo do bócio nodular tóxico pode ser difícil, uma vez que os pacientes frequentemente são mais idosos e apresentam comorbidades associadas. O controle deste estado hipertireóideo com fármacos antitireoidianos seguido de iodo radiativo é o tratamento de escolha. Caso o bócio seja muito grande, pode ser realizada uma tireoidectomia se o paciente for um bom candidato à cirurgia. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Problema 2 Anatomia A relação anatômica das zonas fetal e definitiva é mantida até o nascimento, momento no qual a zona fetal gradualmente desaparece, com uma consequente redução no peso adrenocortical nos três meses após o nascimento. Durante os próximos três anos, o córtex suprarrenal adultodesenvolve-se a partir de células da camada externa do córtex e diferencia-se nas três zonas adultas: glomerulosa, fasciculada e reticular. As glândulas suprarrenais adultas, com um peso combinado de 8a10 g, situam-se no retroperitônio acima ou medialmente aos polos superiores dos rins (Figura 9-1). Uma cápsula fibrosa circunda a glândula; o córtex é responsável por 90% do peso suprarrenal e a medula interna é responsável por aproximadamente 10%. O córtex suprarrenal é ricamente vascularizado e recebe seu suprimento arterial principal de ramos da artéria frênica inferior, artérias renais e aorta. Estas pequenas artérias formam um plexo arterial entre a cápsula e penetram por um sistema sinusoidal que, por sua vez, penetra no córtex e na medula, drenando para uma única veia em cada glândula. A veia suprarrenal direita drena diretamente para a face posterior da veia cava; a veia suprarrenal esquerda penetra na veia renal esquerda. Estas características anatômicas são responsáveis pelo fato de ser relativamente mais fácil cateterizar a veia suprarrenal esquerda do que a veia suprarrenal direita. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Anatomia microscópica Histologicamente, o córtex adulto é composto por três zonas: uma zona glomerulosa externa, uma zona fasciculada e uma zona reticular interna (Figura 9-2). No entanto, as duas zonas internas aparentemente funcionam como uma unidade (ver adiante). A zona glomerulosa, que produz aldosterona e constitui aproximadamente 15% do volume cortical adulto, é deficiente em atividade da 17cx-hidroxilase e, desse modo, não pode produzir cortisol ou androgênios. A zona glomerulosa carece de uma estrutura bem definida, e as pequenas células pobres em lipídeos encontram-se esparsas abaixo da cápsula suprarrenal. A zona fasciculada consiste na camada mais espessa do córtex suprarrenal, sendo responsável por 75% do córtex e produz cortisol e androgênios. As células da zona fasciculada são maiores e contêm mais lipídeos, sendo denominadas células claras. Estas células estendem-se em colunas a partir da estreita zona reticular para a zona glomerulosa ou para a cápsula. A zona reticular interna circunda a medula e também produz cortisol e androgênios. As células compactas dessa zona estreita são deficientes em um conteúdo lipídico significativo, porém contêm grânulos de lipofucsina. As zonas fasciculada e reticular são reguladas pelo ACTH; o excesso ou a deficiência deste hormônio altera sua estrutura e função. Assim, ambas as zonas sofrem uma atrofia quando existe deficiência de ACTH; quando o ACTH está presente em excesso, ocorre hiperplasia e hipertrofia destas áreas. Além disso, a estimulação crônica com ACTH leva a uma depleção gradual dos lipídeos das células claras da zona fasciculada na junção das duas zonas; estas células ficam com a aparência característica das células reticulares compactas. Com o estímulo excessivo crônico, as células reticulares compactas estendem-se para fora e podem alcançar a cápsula externa. Acredita-se que as células da zona fasciculada podem responder agudamente ao estímulo do ACTH com um aumento da produção de cortisol, enquanto as células reticulares mantêm uma secreção de glicocorticoide basal que é induzida pelo estímulo prolongado de ACTH. Biossíntese de Cortisol e Androgênios Suprarrenais Esteroidogênese Os principais hormônios secretados pelo córtex suprarrenal são o cortisol, os androgênios e a aldosterona. Os átomos de carbono na molécula esteroide são numerados conforme demonstrado na Figura 9-3, e as principais vias biossintéticas e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 intermediários hormonais estão ilustrados nas Figuras 9-4 e 9-5. O esquema de síntese esteroidogênica suprarrenal foi esclarecido por análises das enzimas esteroidogênicas. A maioria dessas enzimas pertence à família das oxigenases do citocromo P450. Na mitocôndria, o gene CYP11A, localizado no cromossomo 15, codifica a P450scc, a enzima responsável para a clivagem da cadeia lateral de colesterol. O CYP11B1, um gene localizado no cromossomo 8, codifica o P450cll, outra enzima mitocondrial, a qual media a 1113-hidroxilação na zona reticular e na zona fasciculada. Esta reação converte o 11- desoxicortisol em cortisol e a 11-desoxicorticosterona (11-DOC) em corticosterona. Na zona glomerulosa, o CYP11B2, também localizado no cromossomo 8, codifica a enzima P450aldo, também como conhecida como aldosterona sintetase. A P450aldo media a 11B-hidroxilação, a 18-hidroxilação e a 18-oxidação para converter a 11-DOC em corticosterona, 18-hidroxicorticosterona e aldosterona, respectivamente. No retículo endoplasmático, o gene CYP17, localizado no cromossomo 10, codifica uma única enzima, a P450c17, a qual media tanto a atividade da 17 a-hidroxilase e a atividade da 17,20-liase, e o gene CYP21A2 codifica a enzima p450c21, a qual media a 21- hidroxilação da progesterona e a 17-hidroxiprogesterona. A 313-hidroxiesteroide desidrogenase: as atividades da d 5'4-isomerase são mediadas por uma única enzima microssomal não P450. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 A. Zonas e esteroidogênese Devido às diferenças enzimáticas entre a zona glomerulosa e as duas zonas internas, o córtex suprarrenal funciona como duas unidades separadas, com diferentes regulações e produtos secretores. Assim, a zona glomerulosa, a qual produz aldosterona, não possui atividade de 17a- hidroixilase e não pode sintetizar a 17a- hidroixipregnenolona e 17a- hidroixiprogesterona, as quais são precursoras do cortisol e dos androgênios suprarrenais. A síntese de aldosterona por esta zona é primariamente regulada pelo sistema renina-angiotensina e pelo potássio. A zona fasciculada e a zona reticular (ver Figura 9-4) produzem cortisol, androgênios e pequenas quantidades de estrogênios. Estas zonas, reguladas principalmente pelo ACTH, não expressam o gene CYP11B2 (codificando a P450aldo) e, portanto, não podem converter a 11-DOC em aldosterona. B. Captação e síntese de colesterol A síntese de cortisol e androgênios pela zona fasciculada e reticular inicia com o colesterol, assim como a síntese de todos os hormônios esteroides. As lipoproteínas plasmáticas são uma fonte importante de colesterol suprarrenal, apesar de ocorrer a síntese no interior da glândula a partir do acetato. A LDL é responsável por aproximadamente 80% do colesterol fornecido à glândula suprarrenal. Uma pequena reserva de colesterol livre está disponível no interior da glândula para a síntese rápida de esteroides quando a suprarrenal for estimulada. Quando ocorre o estímulo, também ocorre um aumento da hidrólise dos ésteres de colesteril armazenados, aumento da captação das lipoproteínas plasmáticas e aumento da síntese de colesterol no interior da glândula. A resposta aguda a um estímulo esteroidogênico é mediada pela proteína reguladora esteroidogênica aguda (StAR). Essa fosfoproteína mitocondrial potencializa o transporte do colesterol a partir da membrana mitocondrial externa para a interna. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Mutações do gene StAR resultam em uma hiperplasia suprarrenal lipoide congênita com deficiências severas de cortisol e aldosterona ao nascimento. C. Metabolismo do colesterol A conversão do colesterol em pregnenolona é a etapa limitadora na esteroidogênesesuprarrenal e o principal local de ação do ACTH na suprarrenal. Esta ocorre na mitocôndria e envolve duas hidroxilações e então a clivagem da cadeia lateral do colesterol. Uma enzima, a CYP11A, media este processo; cada etapa requer oxigênio molecular e um par de elétrons. Este último é doado pela NADPH à adrenodoxina- redutase (ferredoxina redutase), uma flavoproteína, e então à adrenodoxina, uma proteína ferro-sulfúrica, e finalmente à CYPl IA. A adrenodoxina redutase e a adrenodoxina também estão envolvidas na ação da CYP11B2 (ver anteriormente). O transporte de elétrons para o citocromo P450 microssomial envolve a P450 redutase, uma flavoproteína diferente da adrenodoxina redutase. A pregnenolona é transportada para fora da mitocôndria antes que ocorra nova síntese de esteroides. D. Síntese de cortisol A síntese de cortisol é realizada por meio da 17a.-hidroxilação da pregnenolona pela CYP17 no interior do retículo endoplasmático liso, a fim de formar a 17a- hidroxipregnenolona. Este esteroide é então convertido em 17a-hidroxiprogesterona após a conversão de sua ligação dupla 5,6 em uma ligação dupla 4,5 pelo complexo de enzimas 3B-hidroxiesteroide-desidrogenase: ∆5'4-oxosteroide isomerase, o qual também está localizado no retículo endoplasmático liso. Uma via alternativa, porém aparentemente menos importante na zona fasciculada e reticular é a da pregnenolona em progesterona em 17a-hidroxiprogesterona (ver Figura 9-4). A etapa seguinte, novamente microssomal, envolve a 21-hidroxilação pela CYP21A2 da 17a-hidroxiprogesterona para formar o 11-desoxicortisol; esse composto é futuramente hidroxilado no interior da mitocôndria pela 11B-hidroxilação (CYP11B2) para formar o cortisol. A zona fasciculada e a zona reticular também produzem a 11-DOC, a 18- hidroxidesoxicorticosterona e a corticosterona. No entanto, conforme observado anteriormente, a ausência da enzima mitocondrial CYP11B2 previne a produção de aldosterona por estas zonas do córtex suprarrenal (Figura 9-5). A secreção de cortisol em condições normais (i. e., sem estresse) varia entre 8 e 25 mg/dia (22-69 µmol/dia) com uma média de aproximadamente 9,2 mg/dia (25 µmol/dia) - taxas inferiores aos cálculos prévios. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 E. Síntese de androgênios A produção de androgênios suprarrenais a partir da pregnenolona e da progesterona necessita de uma 17a.-hidroxilação prévia (CYP 17) e, desse modo, não ocorre na zona glomerulosa. A principal produção quantitativa de androgênios ocorre por meio de conversão da 17a-hidroxipregnenolona em um composto de 19 carbonos (esteroides C-19), DHEA e seu conjugado sulfatado, o sulfato de DHEA. Assim, a 17a- hidroxipregnenolona é submetida à remoção de sua cadeia lateral de dois carbonos na posição C17 pela 17,20-desmolase (CYP17), deixando o DHEA com um grupo cetônico em C17. O DHEA é então convertido a sulfato de DHEA por uma sulfoquinase suprarrenal reversível. O outro grande androgênio suprarrenal, a androstenediona, é produzido principalmente a partir do DHEA, mediado pelo CYP17, e possivelmente a partir da 17a- hidroxiprogesterona, também pelo CYP17. A androstenediona pode ser convertida em testosterona, apesar de a secreção suprarrenal deste hormônio ser mínima. Os androgênios suprarrenais, o DHEA, o sulfato de DHEA e a androstenediona possuem uma atividade androgênica intrínseca mínima, e eles contribuem para a androgenicidade por meio de sua conversão periférica em androgênios mais potentes: a testosterona e a di-hidrotestosterona. Apesar de o DHEA e o sulfato de DHEA serem secretados em grandes quantidades, a androstenediona é qualitativamente mais importante, uma vez que ela é prontamente convertida perifericamente em testosterona. Devemos ressaltar que estudos recentes identificaram a síntese de hormônios esteroides nos tecidos nervoso e cardíaco, onde aparentemente agem como fatores parácrinos ou autócrinos. As enzimas esteroidogênicas (p. ex., a 3B-hidroxiesteroide desidrogenase e a aromatase) são expressas em vários tecidos. Regulação da Secreção A. Secreção de CRH e ACTH O ACTH é o hormônio trófico da zona fasciculada e reticular e o principal regulador de cortisol e da produção de androgênios suprarrenais, apesar de outros fatores produzidos na suprarrenal, incluindo neurotransmissores, neuropeptídeos e óxido nítrico também desempenham uma função. Por sua vez, o ACTH é regulado pelo hipotálamo e pelo sistema nervoso central por meio de neurotransmissores e hormônio liberador de corticotrofina (CRH) e arginina vasopressina (AVP). O controle neuroendócrino da secreção de CRH e ACTH envolve três mecanismos. B. Efeitos do ACTH sobre o córtex suprarrenal A administração de ACTH leva à rápida síntese e secreção de esteroides; os níveis plasmáticos desses hormônios elevam-se em minutos. O ACTH aumenta a síntese de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 RNA, DNA e proteínas. A estimulação crônica causa hiperplasia e hipertrofia adrenocortical; ao contrário, a deficiência de ACTH resulta em uma redução da esteroidogênese e é acompanhada de uma atrofia adrenocortical, redução do peso da glândula e redução do conteúdo proteico e de ácidos nucleicos. C. ACTH e esteroidogênese O ACTH liga-se a receptores de membrana de alta afinidade, ativando desse modo a adenilciclase e aumentando a adenosina cíclica monofosfato, a qual, por sua vez, ativa as fosfoproteína quinases (Figura 9-6), incluindo a StAR. A ação do ACTH resulta em um aumento da formação do colesterol livre como consequência do aumento da atividade da estearase do colesterol e redução da sintetase de ésteres de colesteril, assim como um Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 aumento da captação de lipoproteínas pelo córtex suprarrenal. Este processo estimula a etapa limitadora de entrega de colesterol na enzima de clivagem da cadeia lateral (P450cc ou CYP11A1) para a conversão em ∆5-pregnenolona, iniciando a esteroidogênese. D. Controle neuroendócrino A secreção de cortisol é intimamente regulada pelo ACTH e os níveis plasmáticos de cortisol se equivalem aos de ACTH (Figura 9-7). Existem três mecanismos de controle neuroendócrino: 1) Secreção episódica e ritmo circadiano de ACTH, 2) Responsividade ao estresse do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal (HHSR), e 3) Inibição por retroalimentação pelo cortisol da secreção de ACTH. 1. Ritmo circadiano – O ritmo circadiano é baseado em secreções episódicas; ele é resultante de eventos no sistema nervoso central os quais regulam o número e a magnitude dos episódios secretórios de CRH e ACTH. A secreção de cortisol é baixa no fmal da noite e continua a diminuir nas primeiras horas de sono, quando os níveis plasmáticos de cortisol podem ser indetectáveis. Durante a terceira e a quinta horas de sono há um aumento da secreção; porém os maiores episódios secretórios iniciam entre a sexta e a oitava horas de sono (ver Figura 9-7) e então iniciam um declínio à medida que ocorre o despertar. Aproximadamente metade do cortisol diário total é secretado durante esse período. A secreção de cortisol declina gradualmente durante o dia, com menos episódios secretórios com magnitude menor; no entanto, há um aumento da secreção de cortisol em resposta à alimentação e exercícios. Apesar de este padrão geral ser consistente, existe uma variabilidade intra e interindividual, e o ritmo circadiano pode ser alterado por mudanças no padrão de sono, exposição à luz e ao escuro e momentos de alimentação. O ritmo tambémé alterado por 1) Estresses físicos como enfermidades graves, cirurgia, trauma ou desnutrição; 2) Estresse fisiológico, incluindo ansiedade severa, depressão endógena e a fase maníaca da psicose maníaco-depressiva; 3) Distúrbios do sistema nervoso central e da hipófise; 4) Síndrome de Cushing; 5) Doença hepática e outras condições que afetem o metabolismo do cortisol; 6) Insuficiência renal crônica; e 7) Alcoolismo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 A cipro-heptadina inibe o ritmo circadiano, possivelmente devido a seus efeitos antisserotoninérgicos, enquanto outros fármacos em geral não apresentam outros efeitos. 2. Resposta ao estresse – A secreção de cortisol e ACTH plasmático também são caracteristicamente responsivos ao estresse físico. Assim, o ACTH plasmático e o cortisol são secretados dentro de poucos minutos após o início de estresses como cirurgia e hipoglicemia, e essas respostas abolem a periodicidade circadiana caso o estresse seja prolongado. As respostas ao estresse originam-se no sistema nervoso central e aumentam a CRH hipotalâmica e consequentemente a secreção hipofisária de ACTH. A responsividade ao estresse do ACTH e cortisol plasmático é abolida por uma administração prévia em altas doses de glicocorticoides e na síndrome de Cushing espontânea; pelo contrário, a responsividade da secreção de ACTH é potencializada após uma suprarrenalectomia. A regulação do eixo HHSR é ligada à regulação do sistema imune. Por exemplo, a interleucina-1 (IL-1) estimula a secreção de ACTH e o cortisol inibe a síntese de IL-1. 3. Retroalimentação inibitório – O terceiro grande regulador da secreção de ACTH e cortisol é a retroalimentação inibitória pelos glicocorticoides da secreção de CRH, ACTH e cortisol. A retroalimentação inibitória de glicocorticoide ocorre na hipófise e no hipotálamo e envolve dois mecanismos distintos – retroalimentação inibitória rápida e lenta. A retroalimentação inibitória rápida da secreção de ACTH é taxa-dependente; isto é, depende da taxa de aumento de glicocorticoides, porém não da dose administrada. Esta fase é rápida (em minutos) e transitória (duração< 10 minutos), sugerindo mediação de um mecanismo de receptores de glicocorticoides não citossólicos. A retroalimentação inibitória lenta é tempo e dose-dependente. Com a administração continuada de glicocorticoides, os níveis de ACTH continuam a reduzir e tornam-se sem reposta ao estímulo, resultando em uma supressão da liberação do CRH e ACTH e atrofia da zona fasciculada e reticular. A supressão do eixo HHSR causa uma falha na resposta ao estresse e aos estímulos. A retroalimentação lenta aparentemente atua por meio do mecanismo de receptor clássico (ver adiante). E. Efeitos do ACTH na regulação da produção de androgênio A produção de androgênios suprarrenais em adultos também é regulada pelo ACTH; o DHEA e a androstenediona exibem uma periodicidade circadiana em coordenação com o ACTH e o cortisol. Além disso, as concentrações plasmáticas de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 DHEA e androstenediona aumentam rapidamente com a administração de ACTH e são suprimidas pela administração de glicocorticoides. O sulfato de DHEA, devido a sua taxa de clearence metabólico lenta, não exibe um ritmo diurno. A existência de um hormônio da adeno-hipófise, o qual regula a secreção de androgênio suprarrenal há muito vem sendo preconizada, porém sem comprovação. Circulação do Cortisol e Androgênios Suprarrenais O cortisol e os androgênios suprarrenais circulam ligados a proteínas plasmáticas. A meia-vida plasmática do cortisol (60-90 minutos) é determinada pela extensão da ligação plasmática e pela taxa de inativação metabólica. Proteínas ligadoras do plasma O cortisol e os androgênios suprarrenais são secretados em um estado livre; no entanto, esses hormônios ligam-se a proteínas plasmáticas ao entrar na circulação. O cortisol liga-se principalmente à globulina ligadora de corticosteroides (CBG, transcortina) e em menor proporção à albumina, enquanto os androgênios ligam-se principalmente à albumina. Os esteroides ligados são biologicamente inativos; a fração livre ou sem ligação é ativa. As proteínas plasmáticas podem proporcionar uma reserva de cortisol circulante pela glândula; visto que não existem proteínas ligadoras na saliva, o cortisol salivar reflete o cortisol livre. Cortisol Livre e Ligado Em condições normais, aproximadamente 10% do cortisol circulante é livre, cerca de 75% é ligado à CBG e o restante é ligado à albumina. O nível plasmático de cortisol livre é de aproximadamente 1 µg/ dL, e é este cortisol biologicamente ativo que é regulado pelo ACTH. A. Globulina ligadora de Corticosteroides A globulina ligadora de corticosteroides (CBG) possui um peso molecular de aproximadamente 50.000, é produzida pelo fígado e liga-se ao cortisol com grande afinidade. A CBG no plasma tem uma capacidade de ligação de aproximadamente 25 µg/ dL. Quando as concentrações de cortisol plasmático totais elevam-se acima deste nível, a concentração livre eleva-se rapidamente e excede sua fração normal de 10% do cortisol total. É comum outros esteroides endógenos não afetarem significativamente a ligação do cortisol à CBG; uma exceção é o período final da gestação, quando a progesterona pode ocupar cerca de 25% dos locais de ligação da CBG. Os esteroides sintéticos não ligam-se Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 significativamente à CBG – com exceção da prednisolona. Os níveis de CBG encontram- se elevados nos estados de excesso de estrogênio (gestação; uso de estrogênios ou contraceptivos orais), hipertireoidismo, diabetes, certos distúrbios hematológicos e de forma genética. As concentrações de CBG encontram-se reduzidas na deficiência familiar de CBG, hipotireoidismo e estados de deficiência de proteínas como doença hepática severa ou síndrome nefrótica. B. Albumina A albumina possui uma capacidade muito maior para a ligação do cortisol, mas com uma afinidade menor. Normalmente, liga aproximadamente 15% do cortisol circulante, e essa proporção aumenta quando as concentrações totais de cortisol excedem a capacidade de ligação da CBG. Os glicocorticoides sintéticos são extensamente ligados à albumina (p. ex., 75% da dexametasona no plasma é ligada à albumina). C. Ligação ao androgênio A androstenediona, o DHEA e o sulfato de DHEA circulam fracamente ligados à albumina. No entanto, a testosterona é fortemente ligada a uma globulina específica, a globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG). Metabolismo do Cortisol e Androgênios Suprarrenais O metabolismo desses esteroides é capaz de torná-los inativos e aumentar sua solubilidade em água, assim como sua conjugação subsequente com os grupos glicuronida ou sulfato. Estes metabólitos conjugados inativos são mais rapidamente excretados pelos rins. O fígado é o principal local de catabolismo e conjugação esteroide e 90% destes esteroides metabolizados são excretados pelos rins. Conversão e excreção de cortisol O cortisol é extensamente modificado antes de sua excreção na urina; menos de 1 % do cortisol secretado aparece sem alterações na urina. A. Conversão hepática O metabolismo hepático do cortisol envolve várias conversões metabólicas dentre as quais a mais importante (quantitativamente) é a inativação irreversível do esteroide pelas ∆4-reductase, a qual reduz a ligação dupla 4,5 do anel A. O di-hidrocortisol, o produto dessa reação, é convertido em tetra-hidrocortisol por uma 3-hidroxiesteroide Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020- 2018 desidrogenase. O cortisol também é convertido extensivamente pela 11B-hidroxiesteroide desidrogenase em uma cortisona biologicamente inativa, que é então metabolizada pelas enzimas descritas acima formando a tetra-hidrocortisona. O tetra-hidrocortisol e a tetra- hidrocortisona podem ser alterados a fim de formar os ácidos cortoicos. Essas conversões resultam na excreção de quantidades aproximadamente iguais de cortisol e metabólitos de cortisona. O cortisol e a cortisona também são metabolizados em cortois e cortolonas e em menor extensão por meio de outras vias (p. ex., 6B-hidroxicortisol). B. Conjugação hepática Mais de 95% dos metabólitos de cortisol e cortisona são conjugados pelo fígado e entram novamente na circulação a fim de serem excretados na urina. A conjugação é feita principalmente com o ácido glicurônico na posição 3a-hidroxil. C. Variações no clearence e metabolismo O metabolismo do cortisol é alterado por várias circunstâncias. Ele é reduzido em crianças e idosos. Encontra-se diminuído na doença hepática crônica, levando a uma redução da excreção renal dos metabólitos de cortisol; no entanto, o nível de cortisol plasmático permanece normal. O hipotireoidismo reduz tanto o metabolismo como a excreção; por outro lado, o hipertireoidismo acelera estes processos. O clearence do cortisol pode encontrar-se reduzido na desnutrição e anorexia nervosa e também está diminuído na gestação devido aos níveis elevados de CBG. O metabolismo do cortisol e 6B-hidroxicortisol está aumentado no recém-nascido, na gestação, na terapia estrogênica e em pacientes com doença hepática ou enfermidades crônicas severas. O metabolismo do cortisol por esta via também está aumentado por fármacos que induzem as enzimas microssomais hepáticas incluindo os barbitúricos, fenitoína, mitotano, aminoglutetimida e rifampicina. Estas alterações geralmente têm importância fisiológica menor, uma vez que os níveis de cortisol livre permanecem relativamente estáveis nestas condições. No entanto, eles resultam em uma redução da excreção dos metabólitos urinários de cortisol medidos como 17-hidroxicorticosteroides. Estas condições e fármacos possuem uma influência maior sobre o metabolismo de glicocorticoides sintéticos e podem resultar em níveis plasmáticos inadequados do glicocorticoide administrado devido ao clearence e metabolismo rápidos. D. Ciclo cortisol-cortisona A aldosterona é o principal mineralocorticoide no controle do intercâmbio do sódio e potássio no néfron distal. Receptores de mineralocorticoides nos rins são responsáveis Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 por esse efeito, e as sensibilidades dos receptores de glicocorticoides e mineralocorticoides para o cortisol in vitro são similares. Pequenas alterações na aldosterona afetam o intercâmbio de sódio e potássio enquanto o cortisol livre e biologicamente ativo não, ainda que o cortisol circule em concentrações muito maiores. Este paradoxo aparente é explicado por uma enzima intracelular – 11B-hidroxiesteroide desidrogenase tipo 2 (11B-HSD2) – a qual metaboliza o cortisol em uma cortisona inativa e protege o receptor mineralocorticoide da ligação ao cortisol (Figura 9-8). No entanto, quando o cortisol circulante é extremamente alto (como na síndrome de Cushing severa), esse pré-receptor do metabolismo do cortisol é superado e o receptor do mineralocorticoide é ativado pelo cortisol, resultando em uma expansão de volume, hipertensão e hipocalemia. O ingrediente ativo do alcaçuz (ácido glicirrízico) inibe a 11B- HSD2 e proporciona ao cortisol um livre acesso ao receptor mineralocorticoide desprotegido nos rins, ocasionando hipocalemia e hipertensão. Além disso, alguns tecidos podem converter a cortisona inativa em cortisol com a isoforma denominada 11B- hidroxiesteroide desidrogenase tipo 1 (11B-HSD1). A pele expressa esta enzima, explicando porque o creme de cortisona pode ser efetivo. Além disso, o fígado expressa a 11B-HSD1 e pode ativar a cortisona em cortisol, completando dessa maneira o ciclo cortisol-cortisona, de modo que os rins inativam o cortisol em cortisona e o fígado pode reativar a cortisona em cortisol. A expressão da 11B-HSD1 no tecido adiposo pode contribuir para a obesidade abdominal vista na síndrome metabólica sem hipercortisolismo bioquímico. Conversão e excreção de androgênios suprarrenais O metabolismo dos androgênios suprarrenais resulta em degradação e inativação ou na conversão periférica destes androgênios fracos em seus derivados mais potentes testosterona e di-hidrotestosterona. O DHEA é prontamente convertido na suprarrenal em sulfato de DHEA, o androgênio suprarrenal secretado em maior quantidade. O DHEA secretado pela glândula também é convertido em sulfato de DHEA pelo fígado e rins, ou pode ser convertido em ∆-androstenediona. O sulfato de DHEA pode ser excretado sem nenhuma outra metabolização; no entanto, tanto ele como o DHEA também são metabolizados em 7a e 16a derivados hidroxilados e por uma 17B redução em ∆5- androstenediol e seu sulfato. A androstenediona é convertida em testosterona ou por uma redução de sua ligação dupla 4,5 em etiocolanolona ou androsterona, a qual pode ser convertida por uma redução 17a em etiocolanediol e androstanediol, respectivamente. A testosterona é convertida em di-hidrotestosterona em tecidos sensíveis a androgênios por uma redução 5B e, por sua vez, é principalmente metabolizada por uma 3a redução em Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 androstenediol. Os metabólitos destes androgênios são conjugados como glucuronídeos ou sulfatos e excretados na urina. Efeitos Biológicos dos Esteroides Suprarrenais Glicocorticoides Apesar de os glicocorticoides serem chamados assim originalmente por causa da sua influência sobre o metabolismo da glicose, eles atualmente são definidos como esteroides que exercem efeitos pela ligação a receptores citosólicos específicos que mediam as ações destes hormônios. Estes receptores de glicocorticoides estão presentes em praticamente todos os tecidos e a interação glicocorticoide-receptor é responsável pela maioria dos efeitos conhecidos destes esteroides. Alterações na estrutura dos glicocorticoides levaram ao desenvolvimento de compostos sintéticos com maior atividade glicocorticoide. A atividade aumentada desses compostos é ocasionada pelo aumento da afmidade pelos receptores de glicocorticoides e retardo do clearence plasmático, o que aumenta a exposição tecidual. Além disso, muitos desses glicocorticoides sintéticos possuem efeitos mineralocorticoides desprezíveis e não ocasionam retenção de sódio, hipertensão e hipocalemia. Esta seção descreve os mecanismos moleculares da ação dos glicocorticoides e os efeitos sobre as funções metabólicas e os tecidos individuais. Mecanismos moleculares A ação glicocorticoide é iniciada por meio da entrada do esteroide na célula e sua ligação às proteínas receptoras de glicocorticoides. O complexo receptor de glicocorticoides citoplasmático mais abundante inclui duas subunidades de 90-kDa da Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 proteína de choque de temperatura (hsp) 90. Após a ligação, as subunidades de hsp90 dissociam-se e os complexos formados por hormônio ativado-receptor entram no núcleo e interagem com os locais de aceitação de cromatina nuclear. O domínio ligador de DNA do receptor é uma região rica em cisteína que, quando ocorre a quelação de zinco, assume uma conformação chamada dedo de zinco. O complexo receptor-glicocorticoide age por meio de dois mecanismos:1) Ligação a locais específicos no DNA nuclear, os elementos reguladores de glicocorticoides; e 2) Interação com outros fatores de transcrição como o fator nuclear Kb, um importante regulador dos genes de citocinas. Isso resulta em uma expressão alterada de genes específicos e na transcrição de mRNAs específicos. As proteínas resultantes provocam a resposta glicocorticoide, a qual pode ser estimulatória ou inibitória dependendo do gene específico e do tecido afetado. Apesar de os receptores glicocorticoides serem similares em muitos tecidos, as proteínas sintetizadas, em resposta aos glicocorticoides, variam amplamente e são o resultado da expressão de genes específicos em diferentes tipos de células. Os mecanismos responsáveis por esta regulação específica são desconhecidos. Análises de clones de DNAs complementares para receptores de glicocorticoides humanos revelaram uma sequência de aminoácidos com homologia acentuada entre os receptores de glicocorticoides e receptores de outros hormônios esteroides (p. ex., mineralocorticoides, estrogênio, progesterona), assim como com o hormônio tireóideo e o oncogene v-erb-A. Apesar do domínio de ligação de esteroide do receptor de glicocorticoide conferir especificidade para a ligação ao glicocorticoide, glicocorticoides como o cortisol e a corticosterona ligam-se ao receptor de mineralocorticoide com uma afinidade igual à da aldosterona. A especificidade do receptor de mineralocorticoide é mantida pela expressão da 11B-HSD em tecidos classicamente sensíveis aos mineralocorticoides – o ciclo cortisol-cortisona (ver anteriormente). Apesar dos complexos glicocorticoides-receptores e de sua regulação subsequente da expressão genética serem responsáveis pela maioria dos efeitos dos glicocorticoides, outros efeitos podem ocorrer por meio dos receptores de membrana do plasma. Agonistas e antagonistas dos glicocorticoides O estudo dos receptores de glicocorticoides levou à definição de agonistas e antagonistas de glicocorticoides. Esses estudos também identificaram vários esteroides com efeitos mistos denominados agonistas parciais, antagonistas parciais ou Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 agonistas-antagonistas parciais. Além disso, novos receptores de ligação de glicocorticoides estão sendo desenvolvidos e que possuem mais seletividade em termos de ligação de receptores ou transcrição de genes específicos. A. Agonistas Em humanos, o cortisol, os glicocorticoides sintéticos (p. ex., prednisolona, dexametasona), a corticosterona e a aldosterona são agonistas dos glicocorticoides. Os glicocorticoides sintéticos possuem uma afinidade substancialmente maior para o receptor de glicocorticoide, e estes apresentam uma maior atividade glicocorticoide do que o cortisol quando presentes em concentrações equimolares. A corticosterona e a aldosterona possuem uma afinidade substancial pelo receptor de glicocorticoide; no entanto, suas concentrações plasmáticas normalmente são muito menores do que o cortisol e estes esteroides não apresentam efeitos glicocorticoides fisiológicos significativos. B. Antagonistas Os antagonistas dos glicocorticoides ligam-se aos receptores de glicocorticoides, porém não provocam os eventos nucleares necessários para ocasionar uma resposta glicocorticoide. Estes esteroides competem com os esteroides agonistas, como o cortisol pelos receptores, e inibem as respostas agonistas. Outros esteroides possuem uma atividade agonista parcial quando sozinhos (i.e., provocam uma resposta glicocorticoide parcial). No entanto, em concentrações suficientes, eles competem com esteroides agonistas pelos receptores e assim inibem competitivamente as respostas agonistas; isto é, estes agonistas parciais podem funcionar como antagonistas parciais na presença de glicocorticoides mais ativos. Esteroides como a progesterona, o 11-desoxicortisol, DOC, testosterona e 17B-estradiol possuem efeitos antagonistas ou agonistas parciais; no entanto, a função fisiológica desses hormônios na ação glicocorticoide provavelmente é desprezível, uma vez que circulam em baixas concentrações. O agente antiprogestacional mifepristona tem propriedades glicocorticoides antagonistas substanciais e tem sido usado para bloquear a ação glicocorticoide em pacientes com síndrome de Cushing. Metabolismo intermediário (Tabela 9-2) Os glicocorticoides, de modo geral, inibem a síntese de DNA. Além disso, eles inibem a síntese de RNA e proteínas e aceleram o catabolismo proteico na maioria dos tecidos. Estas ações fornecem substrato para o metabolismo intermediário; no entanto, o Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 catabolismo acelerado também é responsável pelos efeitos deletérios dos glicocorticoides nos músculos, ossos, tecido conjuntivo e tecido linfático. Em contraste, a síntese de RNA e proteínas é estimulada no fígado. A. Metabolismo hepático da glicose Os glicocorticoides aumentam a gliconeogênese hepática pelo estímulo das enzimas gliconeogênicas fosfoenolpiruvato carboquinase e glicose-6- -fosfatase. Eles possuem um efeito permissivo, de modo que aumentam a responsividade hepática ao hormônio gliconeogênico glucagon e também aumentam a liberação de substratos para a gliconeogênese a partir dos tecidos periféricos, particularmente os músculos. Este último efeito pode ser potencializado pela redução induzida por glicocorticoides na captação de aminoácidos e síntese de proteínas. Os glicocorticoides também aumentam o glicerol e a liberação de ácidos graxos com a lipólise e com o aumento da liberação de lactato muscular. Eles potencializam a síntese de glicogênio hepático, assim como seu armazenamento por meio do estímulo da atividade da glicogênio-sintetase e, em menor intensidade, por meio da inibição da quebra de glicogênio. Estes efeitos são insulino- dependentes. B. Metabolismo periférico da glicose Os glicocorticoides também alteram o metabolismo de carboidratos pela inibição da captação periférica de glicose no músculo e no tecido adiposo. Este efeito e os outros descritos anteriormente podem resultar em um aumento da secreção de insulina em estados de excesso crônico de glicocorticoides. C. Efeitos sobre o tecido adiposo No tecido adiposo, o efeito predominante é o aumento da lipólise com liberação de glicerol e ácidos graxos livres. Isso deve-se parcialmente à estimulação direta da lipólise pelos glicocorticoides, porém também existe uma contribuição da redução da captação de glicose e potencialização pelos glicocorticoides dos efeitos dos hormônios lipolíticos. Apesar dos glicocorticoides serem lipolíticos, o aumento da deposição de gordura é uma manifestação clássica do excesso de glicocorticoides. Esse paradoxo pode ser explicado pelo aumento do apetite causado pelos altos níveis destes esteroides e pelos efeitos lipogênicos da hiperinsulinemia que ocorre neste estado. O motivo para a deposição e distribuição anormal de gordura nos estados de excesso de cortisol é desconhecido. Nestas circunstâncias, a gordura classicamente deposita-se de modo central na face, área cervical, tronco e abdome; as extremidades geralmente são poupadas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 D. Resumo Os efeitos dos glicocorticoides sobre o metabolismo intermediário podem ser resumidos como a seguir: Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 1) Os efeitos são mínimos no estado de saciedade. No entanto, durante um jejum, osglicocorticoides contribuem para a manutenção dos níveis plasmáticos de glicose por meio do aumento da gliconeogênese e redução da captação de glicose pelo tecido adiposo. 2) A produção de glicose hepática é potencializada, assim como a síntese hepática de RNA e proteínas. 3) Os efeitos sobre o músculo são catabólicos (i. e., diminuição da captação e metabolismo de glicose, redução da síntese de proteínas e aumento da liberação de aminoácidos). Isso fornece substratos aminoácidos para a gliconeogênese do fígado. 4) No tecido adiposo, a lipólise é estimulada. Isso aumenta a liberação de ácidos graxos para o fígado, onde seu metabolismo proporciona energia para a gliconeogênese. 5) Na deficiência de glicocorticoides, pode ocorrer hipoglicemia, enquanto nos estados de excesso de glicocorticoides pode haver hiperglicemia, hiperinsulinemia, consumo muscular e ganho de peso com distribuição anormal de gordura. Efeitos e funções sobre outros Tecidos A. Tecido conectivo O excesso de glicocorticoides inibe os fibroblastos, leva à perda de colágeno e tecido conectivo e resulta em redução da espessura da pele, equimoses, formação de estrias violáceas e má cicatrização dos tecidos. B. Ossos A função fisiológica dos glicocorticoides sobre o metabolismo ósseo e homeostasia do cálcio é desconhecida; no entanto, em excesso, eles apresentam um efeito deletério importante. Os glicocorticoides inibem diretamente a formação óssea por meio da redução da proliferação celular e a síntese de RNA, proteínas, colágeno e hialuronato. Inicialmente, doses suprafisiológicas de glicocorticoides também estimulam a reabsorção óssea, ao menos em parte por meio de interferência na via do receptor ativador do fator nuclear kappa B (RANK)-ligador/RANK/osteoprotegerina. Isso leva à osteólise e ao Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 aumento dos marcadores bioquímicos de turnover ósseo. Além disso, os glicocorticoides podem potencializar as ações pré-reabsortivas do PTH e 1,25-di-hidroxicolecalciferol (1,25[OH]2D3) sobre o osso e isto pode contribuir para a reabsorção óssea em geral. No entanto, cronicamente o principal efeito para a promoção da perda óssea é o impacto negativo sobre a formação óssea. C. Metabolismo do cálcio Os glicocorticoides também possuem outros efeitos sobre a homeostasia mineral. Eles reduzem acentuadamente a absorção intestinal de cálcio, com uma tendência à redução do cálcio sérico. Teoricamente, isso promove um estado de hiperparatireoidismo secundário a fim de manter o cálcio sérico dentro da faixa da normalidade. No entanto, elevações crônicas nos níveis de PTH intacto são de difícil demonstração em pacientes que encontram-se em terapia com glicocorticoides. O mecanismo de redução da absorção do cálcio intestinal provavelmente é devido ao antagonismo da ação da l,25(OH)2D no intestino. Ela não é causada por uma redução da síntese ou dos níveis séricos dos metabólitos ativos de vitamina D; na verdade, os níveis de l,25(0H)2D são normais ou até mesmo aumentados na presença de um excesso de glicocorticoides. O aumento da síntese de l,25(OH)2D, nesse caso, pode resultar da redução dos níveis séricos de fósforo (ver adiante), aumento da secreção de PTH, estímulo direto pelos glicocorticoides a lcx- hidroxilase renal e/ou redução da responsividade das células-alvo (intestino). Os glicocorticoides aumentam a excreção urinária de cálcio e a hipercalciúria é um achado frequente do excesso de cortisol. Eles também reduzem a reabsorção tubular de fosfato, levando à fosfatúria e à redução das concentrações séricas de fósforo. Assim, os glicocorticoides em excesso resultam em um balanço negativo de cálcio, com redução da absorção de cálcio e aumento da excreção urinária de cálcio. Os níveis séricos de cálcio são mantidos à custa da reabsorção óssea. A redução da formação óssea e o aumento da reabsorção resultam em uma osteoporose incapacitante a qual frequentemente consiste em uma complicação do excesso de glicocorticoides, iatrogênico ou espontâneo. D. Crescimento e desenvolvimento Os glicocorticoides aceleram o desenvolvimento de vários sistemas e órgãos nos tecidos fetais e em diferenciação, apesar de os mecanismos não serem esclarecidos. Conforme discutido anteriormente, os glicocorticoides geralmente são inibidores, e estes efeitos estimulatórios podem ser causados por interações com outros fatores de crescimento. Exemplos desses efeitos promotores do desenvolvimento são o aumento da Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 produção de surfactante no pulmão fetal e o desenvolvimento acelerado dos sistemas enzimáticos hepático e gastrintestinal. E. Células sanguíneas e função imunológica 1. Eritrócitos – Os glicocorticoides têm pouco efeito sobre a eritropoiese e a concentração de hemoglobina. Apesar de poder ocorrer uma policitemia e anemia leve na doença de Cushing e doença de Addison, respectivamente, estas alterações provavelmente são secundárias ao metabolismo androgênico alterado. 2. Leucócitos – Os glicocorticoides influenciam o movimento e a função dos leucócitos. Dessa forma, a administração de glicocorticoides aumenta o número de neutrófilos/leucócitos polimorfonucleares (NPM) intravasculares por meio do aumento da liberação de NPM a partir da medula óssea., aumentando a meia-vida circulante dos NPM e reduzindo o movimento dos NPM para fora do compartimento vascular. A administração de glicocorticoides reduz o número de linfócitos, monócitos e eosinófilos circulantes, principalmente por meio do aumento de seu movimento para fora da circulação. O inverso é visto na insuficiência suprarrenal (i.e., neutropenia, linfocitose, onocitose e eosinofilia). Os glicocorticoides também reduzem a migração das células inflamatórias (NPM, linfócitos e monócitos) para os locais de lesão, sendo este provavelmente um importante mecanismo das ações anti-inflamatórias e uma suscetibilidade aumentada às infecções que ocorrem após a administração crônica. Os glicocorticoides também reduzem a produção de linfócitos e as funções de mediação e efetividade destas células. 3. Efeitos imunológicos – Os glicocorticoides influenciam vários aspectos da resposta imunológica e inflamatória, incluindo a mobilização e função dos leucócitos, conforme discutido anteriormente. Eles inibem a fosfolipase A2, uma enzima-chave na síntese de prostaglandinas. Esta inibição é mediada por uma classe de peptídeos denominada lipocortinas ou anexinas. Os glicocorticoides também afetam a liberação de substâncias efetivas como a linfocina IL-1, o processador antigênico, a produção e o clearence de anticorpos, e outras funções derivadas da medula óssea e do timo dos linfócitos. Em contrapartida, o sistema imune afeta o eixo HHSR; a IL-1 estimula a secreção de CRH e ACTH. Apesar de tradicionalmente usados como agentes anti- inflamatórios e/ ou imunossupressivos, os glicocorticoides, especialmente em baixas doses, também possuem efeitos estimulatórios e permissivos sobre a resposta inflamatória a uma lesão. F. Função cardiovascular Os glicocorticoides podem aumentar o débito cardíaco e também aumentam o tônus vascular periférico, possivelmente por meio da potencialização dos efeitos de outros Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 vasoconstritores (p. ex., catecolaminas). Os glicocorticoides também regulam a expressão dos receptores adrenérgicos. Assim, pode ocorrer um choque refratário quando um indivíduo deficiente em glicocorticoide é submetidoa um estresse. O excesso de glicocorticoides pode causar hipertensão independentemente de seus efeitos mineralocorticoides. Apesar da incidência e da causa precisa deste problema não serem esclarecidas, é provável que o mecanismo envolva o sistema renina-angiotensina; os glicocorticoides regulam o substrato de renina, o angiotensinogênio, o precursor da angiotensina I. G. Função renal – Estes esteroides afetam o balanço de água e eletrólitos por meio de ações mediadas pelos receptores de mineralocorticoides (retenção de sódio, hipocalemia e hipertensão) ou via receptores de glicose (aumento da taxa de filtração glomerular devido ao aumento do débito cardíaco ou devido a efeitos renais diretos sobre o sal e a retenção de água). Assim, corticoides como a betametasona ou a dexametasona, os quais possuem pouca atividade mineralocorticoide, aumentam a excreção de sódio e água. Indivíduos deficientes em glicocorticoides apresentam redução das taxas de filtração glomerular e são incapazes de excretar uma carga de água. Isso pode agravar-se pelo aumento da secreção de ADH, o que pode ocorrer na deficiência de glicocorticoides. H. Função do sistema nervoso central Os glicocorticoides prontamente penetram no cérebro e, apesar de sua função fisiológica no sistema nervoso central ser desconhecida, seu excesso ou sua deficiência podem alterar profundamente o comportamento e a função cognitiva. 1. Excesso de glicocorticoides – Em excesso, os glicocorticoides inicialmente causam euforia; no entanto, com a exposição prolongada ocorre uma variedade de anormalidades psicológicas, incluindo irritabilidade, labilidade emocional e depressão. O comportamento hipercinético ou maníaco é menos comum; psicoses declaradas ocorrem em um pequeno número de pacientes, particularmente naqueles com um distúrbio bipolar subjacente. Muitos pacientes observam alterações em suas funções cognitivas, mais frequentemente no que diz respeito à memória e à concentração. Outros efeitos centrais incluem aumento do apetite, redução da libido e insônia, com redução do sono REM e aumento do sono estágio II. 2. Redução de glicocorticoides – Pacientes com doença de Addison são apáticos e deprimidos e tendem a ser irritáveis, negativistas e reclusivos. Eles apresentam redução do apetite, porém aumento da sensibilidade dos mecanismos do paladar e olfato. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 I. Efeitos sobre outros hormônios 1. Função da tireoide – O excesso de glicocorticoides afeta a função da tireoide. A síntese e a liberação de TSH são inibidas pelos glicocorticoides, e a responsividade do TSH ao TRH frequentemente é subnormal. Apesar de os níveis basais habitualmente serem normais, a concentração de TSH pode ser agudamente baixa em pacientes tratados com glicocorticoides em doses moderadas a altas. As concentrações séricas de tiroxina total (T4) em geral são baixas devido a uma redução da globulina ligadora de tiroxina, porém os níveis de T4 livre são normais. As concentrações de T3 total e livre (tri- iodotironina) podem ser baixas uma vez que o excesso de glicocorticoides reduz a conversão de T4 em T3 e aumenta a conversão reversa em T3. Apesar destas alterações, as manifestações de hipotireoidismo não são aparentes. 2. Função gonadal – Os glicocorticoides também afetam as gonadotrofmas e a função gonadal. No sexo masculino, eles inibem a secreção de gonadotrofinas, conforme evidenciado pela redução da responsividade à administração de GnRH e concentrações plasmáticas de testosterona total subnormais. No sexo feminino, os glicocorticoides também suprimem a responsividade do LH ao GnRH, resultando em supressão do estrogênio e progesterona com inibição da ovulação e amenorreia. J. Outros efeitos 1. Ulcera péptica – O papel do excesso de esteroides na produção ou reativação da úlcera péptica é controverso. No entanto, aparentemente existe um modesto efeito indepen – dente dos glicocorticoides na promoção da úlcera péptica (risco relativo de aproximadamente 1,4), e quando este efeito é combinado com o efeito de fármacos anti- inflamatórios não esteroides existe uma interação sinérgica a qual aumenta consideravelmente o risco. 2. Efeitos oftalmológicos – A pressão intraocular varia de acordo com glicocorticoides circulantes e é coincidente com a variação circadiana dos níveis plasmáticos de cortisol. Além disso, o excesso de glicocorticoide aumenta a pressão intraocular em pacientes com glaucoma de ângulo aberto. O tratamento com glicocorticoide também pode ocasionar a formação de catarata. A coriorretinopatia serosa central, um acúmulo do descolamento subrretiniano, também pode complicar o excesso de glicocorticoide endógeno ou exógeno. Androgênios Suprarrenais A atividade biológica direta dos androgênios suprarrenais (androstenediona, DHEA, sulfato de DHEA) é mínima, e funcionam primariamente como precursores da conversão Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 periférica dos hormônios androgênicos ativos, a testosterona e a di-hidrotestosterona. Assim, o sulfato de DHEA secretado pelos androgênios suprarrenais é submetido a uma conversão limitada a DHEA; este DHEA perifericamente convertido e aquele secretado pelo córtex da suprarrenal podem ser convertidos nos tecidos periféricos em androstenediona, o precursor imediato dos androgênios ativos. Efeitos no sexo masculino Em indivíduos do sexo masculino com função gonadal normal, a conversão da androstenediona suprarrenal em testosterona é responsável por menos de 5% da taxa de produção desse hormônio, de modo que o efeito fisiológico é desprezível. Em homens adultos, a secreção excessiva de androgênios suprarrenais não possui consequências clínicas; no entanto, ocasiona em meninos aumento do pênis e desenvolvimento precoce das características sexuais secundárias. Efeitos no sexo feminino No sexo feminino, a suprarrenal contribui substancialmente para a produção total de androgênios por meio da conversão periférica da androstenediona em testosterona. Na fase folicular do ciclo menstrual, os precursores suprarrenais são responsáveis por dois terços da produção de testosterona e pela metade da produção de di-hidrotestosterona. Na metade do ciclo, a contribuição ovariana aumenta e os precursores suprarrenais são responsáveis por apenas 40% da produção de testosterona. Em mulheres, a função suprarrenal anormal como ocorre na doença de Cushing, no carcinoma suprarrenal e na hiperplasia suprarrenal congênita resulta em secreção excessiva de androgênios suprarrenais e sua conversão periférica em testosterona resulta em um excesso de androgênio, manifestada por acne, hirsutismo e virilização. Avaliação Laboratorial O cortisol e os androgênios suprarrenais são medidos por exames plasmáticos específicos. Certos exames urinários, particularmente a medição do cortisol urinário livre em 24 horas, também são úteis. Além disso, as concentrações plasmáticas de ACTH podem ser determinadas. Os exames dos esteroides plasmáticos comumente usados para a avaliação das concentrações hormonais totais são influenciados por alterações nas proteínas ligadoras do plasma. Além disso, como as concentrações plasmáticas de ACTH e dos hormônios suprarrenais flutuam acentuadamente, as medições plasmáticas isoladas com frequência não são confiáveis. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Assim, os níveis plasmáticos devem ser interpretados cuidadosamente e em geral são obtidas informações diagnósticas mais específicas por meio da realização de testes dinâmicos (estimulação e supressão) ou outrostestes que reflitam a taxa secretória de cortisol. ACTH Plasmático A. Métodos de medição As medições de ACTH plasmático são extremamente úteis para o diagnóstico de disfunções hipofisárias-suprarrenais. Os valores normais de ACTH plasmático, usando-se um exame imunorradiométrico sensível (IRMA) ou quimioluminescente (ICMA) variam entre 9 a 52 pg/mL (2- 11,1 pmol/L). B. Interpretação Os níveis de ACTH plasmático são mais úteis na diferenciação de causas hipofisárias de causas suprarrenais nas disfunções suprarrenais conforme a seguir: 1) Na insuficiência suprarrenal devido a uma doença suprarrenal primária, os níveis de ACTH plasmático encontram-se elevados. Ao contrário, na deficiência de ACTH hipofisário e no hipoadrenalismo secundário, os níveis plasmáticos de ACTH são inapropriadamente normais ou menores de 10 pg/mL (2.2 pmol/L). 2) Na doença de Cushing devido a tumores suprarrenais primários secretores de glicocorticoides, o ACTH plasmático está suprimido, e valores menores de 5 pg/ mL (1,1 pmol/l) são diagnósticos. Em pacientes com doença de Cushing (hipersecreção hipofisária de ACTH), os níveis plasmáticos de ACTH são inadequadamente normais ou elevados. 3) Os níveis de ACTH no plasma em geral são acentuadamente elevados na síndrome de ACTH ectópico, porém existe uma quantidade significativa de sobreposição com os valores encontrados na doença de Cushing. Além disso, valores abaixo do esperado podem raramente ser observados na síndrome de ACTH ectópico quando for usado um ensaio imunorradiométrico (IRMA) de dois sítios; esse exame pode não detectar precursores de ACTH de alto peso molecular que podem ser produzidos na síndrome do ACTH ectópico. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 4) Os níveis plasmáticos de ACTH também encontram-se elevados em pacientes com as formas comuns de hiperplasia suprarrenal congênita e são úteis no diagnóstico e manejo destes distúrbios. Cortisol Plasmático A. Métodos de aferição Os métodos de aferição mais comuns do cortisol plasmático são o radioimunoensaio, enzimaimunoensaio (Elisa), cromatografia líquida de alta performance (HPLC) e cromatografia líquida de espectroscopia de massa (LC/MS/MS). Esses métodos medem o cortisol total (ligado e livre) no plasma. Os fármacos e medicações mais comumente usados não interferem nesse exame. Em contraste com os radioimunoensaios, o HPLC e LC/MS/MS não demonstram reação cruzada com glicocorticoides sintéticos. B. Interpretação A utilidade diagnóstica de concentrações de cortisol plasmático isoladas é limitada pela natureza episódica da secreção de cortisol e suas elevações durante um estresse. Conforme explicado a seguir, são obtidas melhores informações com exames dinâmicos do eixo HHSR. 1) Valores normais – Os níveis normais de cortisol plasmático variam de acordo com o método usado e o momento do dia quando da obtenção da amostra. Com o radioimunoensaio, os níveis às 8 horas variam entre 3 a 20 µg/dL (80- 550 nmol/L), com média entre 10 a 12 µg/dL (275,9-331,1 nmol/L). Valores obtidos posteriormente durante o dia são mais baixos e às 16 horas são aproximadamente a metade dos valores da manhã. Entre as 22 e 2 horas, as concentrações plasmáticas de cortisol avaliadas por esses métodos habitualmente são menores de 3 µg/dL (80 nmol/L). 2) Níveis durante o estresse – A secreção de cortisol aumenta em pacientes agudamente enfermos, durante a cirurgia e após um trauma. As concentrações plasmáticas podem ser acima de 40 a 60 µg/dL (1.100-1.655 nmol/L). 3) Estados de elevação de estrogênio – As concentrações plasmáticas de cortisol total também encontram-se elevadas com o aumento da capacidade ligadora de CBG, o que ocorre mais comumente quando os níveis de estrogênio circulante são altos (p. ex., durante a gestação e quando estão sendo usados Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 estrogênios exógenos ou contraceptivos orais). Nessas situações, o cortisol plasmático pode alcançar níveis 2 a 3 vezes o normal. 4) Outras condições – Os níveis de CBG podem encontrar-se aumentados ou reduzidos em outras situações, conforme discutido anteriormente nas seções sobre circulação e metabolismo. As concentrações de cortisol plasmático total também podem estar aumentadas na ansiedade severa, depressão endógena, desnutrição, anorexia nervosa, alcoolismo e doença renal crônica. Cortisol salivar O cortisol na saliva encontra-se em equilíbrio com o cortisol livre e o biologicamente ativo no sangue. As concentrações de cortisol salivar não são afetadas por alterações nas proteínas séricas ligadoras de cortisol, pelo fluxo ou composição salivar e são estáveis em temperatura ambiente durante vários dias. As medições do cortisol salivar podem ser obtidas de amostras salivares ambulatoriais no final da noite, as quais são usadas como meio de estabelecer a presença ou ausência de síndrome de Cushing. O cortisol salivar também pode ser usado para obter níveis de cortisol livre precisos em pacientes com proteínas séricas ligadoras anormais. A. Métodos de aferição Podem ser obtidas amostras de saliva facilmente no domicílio usando-se várias técnicas, incluindo o uso de um dispositivo de amostragem comercialmente disponível ou por coleta passiva. Os mesmos métodos são empregados para a aferição do cortisol plasmático, Elisa, HPLC e LC/MS/MS, para a aferição das concentrações de cortisol salivar. B. Interpretação 1) Valores normais – Os valores de referência para as concentrações salivares de cortisol no fim da noite são dependentes da técnica usada para a dosagem, porém com o radioimunoensaio e o Elisa, o nível normal de cortisol salivar à meia-noite geralmente encontra-se abaixo de 0,15 µg/dL (4 nmol/L). 2) Utilidade diagnóstica – Como nas medições isoladas de cortisol plasmático, as concentrações de cortisol salivar aleatoriamente obtidas são de uso limitado. No entanto, o cortisol plasmático e o salivar em indivíduos normais alcançam o nadir entre as 22 e 2 horas. Pacientes com doença de Cushing não alcançam o Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 nadir neste momento, e vários estudos demonstraram que um cortisol salivar elevado ao final da noite consiste em um teste diagnóstico sensível e específico para a síndrome de Cushing. Cortisol Livre Plasmático Este exame mede a fração livre ou biologicamente ativa do cortisol plasmático e, desse modo, não é influenciado por alterações na globulina ligadora de corticosteroides e na albumina sérica. Os melhores métodos atuais envolvem a diálise de equilíbrio a fim de separar os hormônios livres e os ligados seguidos da aferição da fração livre por radioimunoensaio. Em pacientes com albumina sérica e CBG normais, o cortisol livre correlaciona-se adequadamente com os níveis de cortisol total; no entanto, em pacientes com distúrbios nas proteínas plasmáticas ligadoras, esta correlação é perdida. Apesar de este exame não ser de uso comum, é importante na avaliação da função suprarrenal em pacientes com enfermidades graves. Nestes pacientes, a medição do cortisol plasmático total e sua resposta ao ACTH superestimou o número de pacientes com insuficiência suprarrenal, em especial nos pacientes mais severamente enfermos os quais apresentam com frequência hipoalbuminemia e níveis subnormais de globulina ligadora de corticosteroide. Corticoides Urinários A. Cortisol livre 1) Métodos de aferição – A dosagem de cortisol livre excretado na urina é um método excelente para o diagnóstico de doença de Cushing. Normalmente, menos de 1 % do cortisol secretado éexcretado sem alterações na urina. No entanto, em estados de excesso de secreção, a capacidade ligadora de CBG é excedida, ocasionando uma elevação do cortisol plasmático livre, assim como sua excreção urinária. O cortisol livre urinário é medido em uma coleta de urina de 24 horas por HPLC, radioimunoensaio e por LC/MS/MS. 2) Valores normais – O HPLC e o LC/MS/MS proporcionam a medição mais específica de cortisol e atualmente são os procedimentos de escolha. A faixa de normalidade para o cortisol livre urinário medido por HPLC ou LC/MS/MS é entre 5 a 50 µg/24 horas (14-135 nmol/24 horas). 3) Utilidade diagnóstica – Este método é particularmente útil na diferenciação entre uma obesidade simples e uma síndrome de Cushing, porque os níveis de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 cortisol livre urinário não estão elevados na obesidade como estão os níveis de 17-hidroxicorticosteroides (ver adiante). Os níveis podem encontrar-se elevados nas mesmas condições que elevam o cortisol plasmático (ver anteriormente), incluindo uma leve elevação durante a gestação. Este teste não é útil para a insuficiência suprarrenal visto que carece de sensibilidade em níveis baixos e porque a baixa excreção de cortisol frequentemente é encontrada em indivíduos normais. B. 17-hidroxicorticosteroides Estes esteroides urinários são de interesse histórico e não devem ser medidos atualmente devido à maior utilidade das medições do cortisol plasmático e cortisol urinário livre. Testes de supressão de dexametasona A. Teste de baixa dose Este procedimento é usado para estabelecer a presença de doença de Cushing, não importando sua causa. A dexametasona, um glicocorticoide potente, normalmente suprime a liberação hipofisária de ACTH com uma queda no cortisol urinário e plasmático, avaliando deste modo a retroalimentação inibitória do eixo HHSR. Na síndrome de Cushing, este mecanismo é anormal e a secreção de esteroides não é suprimida de maneira normal. A dexametasona na dosagem usada não interfere na medição do cortisol plasmático e urinário. O teste de supressão de dexametasona de 1 mg durante a noite é comumente usado como teste de rastreamento para a doença de Cushing. A dexametasona, 1 mg por via oral, é administrada em dose única às 23 horas, e na manhã seguinte é obtida uma amostra do plasma para a determinação do cortisol. A doença de Cushing provavelmente será excluída caso o nível de cortisol plasmático ou sérico for menor de 1,8 µg/mL (50 nmol/L). A utilização desses critérios leva a uma sensibilidade muito alta, mas também tem taxa de falso-positivo aumentada, resultando em uma especificidade de 80 a 90%. Dos pacientes com síndrome de Cushing, 80 a 90% apresentam respostas anormais. Os resultados falso-negativos são mais comuns no hipercortisolismo leve e também podem ocorrer em pacientes nos quais o metabolismo de dexametasona é anormalmente lento, visto que os níveis plasmáticos de dexametasona nesses pacientes são mais altos do que aqueles normalmente alcançados e resultam em uma supressão aparentemente normal do cortisol. A medição simultânea da dexametasona plasmática e dos níveis de cortisol identifica esses pacientes. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Os resultados falso-positivos ocorrem em pacientes hospitalizados e cronicamente enfermos. A enfermidade aguda, a depressão, a ansiedade, o alcoolismo, os estados de elevação do estrogênio e a uremia também podem ocasionar resultados falso-positivos. Pacientes em uso de fenitoína, barbitúricos e outros indutores das enzimas microssomais hepáticas podem apresentar um metabolismo acelerado da dexametasona e falhar na obtenção de níveis plasmáticos adequados para suprimir o ACTH. B. Testes de altas doses O teste de supressão com altas doses de dexametasona historicamente tem sido usado para a diferenciação da doença de Cushing (hipersecreção hipofisária de ACTH) de ACTH ectópico e tumores suprarrenais. Este raciocínio foi baseado no fato de que em alguns pacientes com doença de Cushing, o eixo HHSR é suprimível com doses suprafisiológicas de glicocorticoides, enquanto a secreção de cortisol é autônoma em pacientes com síndrome de ACTH ectópico. Infelizmente, as exceções a esta regra são tão comuns de modo que o teste de supressão de altas doses de dexametasona deve ser interpretado com extrema cautela. 1) Teste noturno de supressão de altas doses de dexametasona – Após uma amostragem basal de cortisol pela manhã, uma única dose de dexametasona de 8 mg por via oral é administrada às 23 horas e o cortisol plasmático é medido às 8 horas na manhã seguinte. Geralmente, os pacientes com doença de Cushing suprimem os níveis de cortisol plasmático em menos de 50% em relação aos valores basais - em contraste com pacientes com síndrome de ACTH ectópico, os quais falham na supressão a este nível. Pacientes com tumores suprarrenais produtores de corticosol também não fazem a supressão: sua secreção de cortisol é autônoma, e a secreção de ACTH é suprimida pelos altos níveis endógenos de cortisol. 2) Teste de supressão de dexametasona de alta dose de dois dias – Este teste é realizado com a administração de dexametasona, 2 mg por via oral a cada 6 horas durante dois dias. As amostras urinárias de 24 horas são coletadas antes e no segundo dia de administração de dexametasona. Pacientes com doença de Cushing apresentam uma redução da excreção urinária de cortisol para menos de 50% dos valores basais, enquanto aqueles com tumores suprarrenais apresentam pouca ou nenhuma redução da secreção do cortisol urinário. No entanto, alguns pacientes com neoplasias com secreção ectópica de ACTH suprimem a secreção de esteroides com altas doses de dexametasona, e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 alguns pacientes com doença de Cushing ACTH-dependente hipofisário falham na supressão a estes níveis. A sensibilidade e especificidade diagnóstica, assim como a acurácia do teste de supressão de dexametasona de altas doses é de apenas aproximadamente 80%. Uma melhor especificidade e acurácia podem ser alcançadas pela utilização de diferentes critérios. No entanto, tornou-se cada vez mais claro que o teste de supressão de altas doses de dexametasona, não importando o critério empregado, não é capaz de distinguir com certeza uma hipersecreção de ACTH hipofisária de uma não hipofisária. Atualmente, o único teste bioquímico com acurácia diagnóstica alta o suficiente para diferenciar as causas é a amostragem de ACTH do seio pétreo inferior. Síndrome de Cushing O excesso crônico de glicocorticoides, seja qual for a sua causa, leva a uma constelação de sintomas e achados físicos conhecidos como síndrome de Cushing. Com maior frequência é iatrogênica, sendo resultante do tratamento crônico com glicocorticoides. A síndrome de Cushing espontânea é causada por anormalidades da hipófise ou glândula suprarrenal ou pode ocorrer como consequência da secreção de ACTH ou CRH por tumores não hipofisários (síndrome do ACTH ectópico; síndrome do CRH ectópico) (Figura 9-12). A doença de Cushing é defmida como um tipo específico da síndrome de Cushing devido à secreção hipofisária excessiva de ACTH por um tumor hipofisário. Esta seção abordará os vários tipos de síndrome de Cushing espontânea e discute seu diagnóstico e tratamento. Classificação e incidência A síndrome de Cushing é convenientemente classificada como ACTH-dependente ou ACTH-independente (Tabela 9-10). Os tipos ACTH-dependentes da síndrome de Cushing – síndrome de ACTH ectópico e doença de Cushing – são caracterizados por uma hipersecreção crônica de ACTH,a qual resulta em hiperplasia da zona fasciculada e reticular da suprarrenal e, desse modo, aumento da secreção de cortisol, androgênios e DOC. A síndrome de Cushing ACTH-independente pode ser causada por uma neoplasia suprarrenal primária (adenoma ou carcinoma) ou hiperplasia suprarrenal nodular. Nesses casos, o excesso de cortisol suprime a secreção hipofisária de ACTH. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 A. Doença de Cushing Este é o tipo mais frequente de síndrome de Cushing e é responsável por aproximadamente 80% dos casos relatados. A doença de Cushing é muito mais comum em mulheres do que em homens (proporção entre o sexo feminino e o masculino de aproximadamente 5:1) e a idade ao diagnóstico varia entre os 20 e os 40 anos de idade, porém pode variar desde a infância até os 70 anos de idade. B. Hipersecreção ectópica de ACTH Este distúrbio é responsável por aproximadamente 10% dos pacientes com síndrome de Cushing ACTH-dependente. A produção de ACTH por parte de um tumor de origem não hipofisária pode resultar em um hipercortisolismo severo, porém muitos desses pacientes não apresentam os achados clássicos de excesso de glicocorticoides. Isso presumivelmente reflete o caráter agudo do curso clínico da síndrome de ACTH ectópico. A apresentação clínica da secreção ectópica de ACTH é mais frequentemente vista em pacientes com tumores de origem torácica. O carcinoide brônquico e o carcinoma pulmonar de pequenas células são responsáveis por aproximadamente 50% dos casos dessa síndrome. O prognóstico em pacientes com síndrome de ACTH ectópico geralmente é ruim e em grande parte é relacionado ao tumor primário. Indivíduos com síndrome de ACTH ectópico decorrente de um carinoma pulmonar de pequenas células apresentam uma sobrevida média menor de 12 meses. A síndrome de ACTH ectópico também pode apresentar-se de uma maneira idêntica à doença de Cushing clássica e representa um dilema diagnóstico desafiador. Uma grande variedade de tumores podem produzir ACTH ectópico e podem ser radiologicamente inaparentes no momento da apresentação. A síndrome de ACTH ectópico é mais comum em homens, e a idade de pico de incidência é entre 40 e 60 anos de idade. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 C. Tumores suprarrenais primários Tumores suprarrenais primários causam aproximadamente 10% dos casos de síndrome de Cushing. A maioria destes pacientes apresenta adenomas adrenocorticais benignos. Os carcinomas adrenocorticais são incomuns, com uma incidência de aproximadamente dois por milhão por ano. Tanto os adenomas como os carcinomas adrenocorticais são mais comuns em mulheres. A secreção autônoma de cortisol sem os achados clássicos de síndrome de Cushing ocorre em aproximadamente 5% dos pacientes com incidentalomas suprarrenais (ver adiante). D. Síndrome de Cushing da infância A doença de Cushing é mais comum na população adolescente do que em crianças. A maioria dos casos pediátricos ocorre em pacientes acima dos 10 anos de idade com uma distribuição igual entre os sexos. A doença de Cushing permanece como a causa mais comum sendo responsável por mais de 80% dos casos. A doença suprarrenal primária é responsável por 10 a 15% adicionais de todos os casos pediátricos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Patologia A. Adeno-hipófise 1) Adenomas hipofisários – Os adenomas hipofisários estão presentes em mais de 90% dos pacientes com doença de Cushing. Estes tumores geralmente são menores do que os secretores de GH ou PRL; 80 a 90% são menores de 10 mm de diâmetro. Um pequeno grupo de pacientes apresenta tumores maiores(> 10 mm); estes macroadenomas frequentemente são invasivos, ocasionando extensão para fora da sela túrcica. Os tumores hipofisários malignos ocorrem raramente. Os microadenomas são localizados no interior da adeno-hipófise; eles não são encapsulados, porém são circundados por um anel de células normais da adeno-hipófise comprimidas. Com as colorações histológicas rotineiras, estes tumores são compostos de camadas compactas de células basofílicas bem granuladas em um arranjo sinusoidal. O ACTH, a í3-lipotropina (LPH) e a í3- endorfina foram demonstrados nessas células tumorais por métodos de imunocitoquímica. Tumores maiores podem parecer cromofóbicos ao estudo histológico rotineiro; no entanto, eles também contêm ACTH e seus peptídeos relacionados. Esses adenomas secretores de ACTH geralmente demonstram alterações de Crooke (uma zona de hialinização perinuclear que é resultante da exposição crônica das células corticotróficas ao hipercortisolismo). A microscopia eletrônica demonstra grânulos secretórios que variam em tamanho entre 200 a 700 nm. O número de grânulos varia entre as células individualmente; eles podem estar dispersos no citoplasma ou concentrados ao longo da membrana celular. Um achado típico desses adenomas é a presença de feixes de microftlamentos perinucleares (7 mm de diâmetro em média) circundando o núcleo; estes são reponsáveis pelas alterações hialinas de Crooke visíveis à microscopia de luz. 2) Hiperplasia – A hiperplasia de células corticotróficas foi relatada raramente em pacientes com doença de Cushing. 3) Outras condições – Em pacientes com tumores suprarrenais ou síndrome de ACTH ectópico, os corticotrofos hipofisários demonstram alterações hialinas de Crooke proeminentes e microftlamentos perinucleares. O conteúdo de ACTH das células corticotróficas é reduzido consistentemente com sua supressão por secreção excessiva de cortisol presente nestas condições. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 B. Hiperplasia adrenocortical A hiperplasia bilateral do córtex suprarrenal ocorre com a hipersecreção crônica de ACTH. Foram descritos dois tipos: hiperplasia nodular simples e bilateral. 1) Hiperplasia adrenocortical simples – Em geral, essa condição é causada pela doença de Cushing. O peso suprarrenal combinado (normal de 8-10 g) encontra-se modestamente aumentado, variando entre 12 a 24 g. Ao estudo histológico, existe uma hiperplasia igual das células compactas da zona reticular e das células claras da zona fasciculada; consequentemente, a largura do córtex é aumentada. A microscopia eletrônica revela achados ultraestruturais normais. Quando os níveis de ACTH estão muito altos como no caso de uma síndrome de ACTH ectópico, as suprarrenais frequentemente são aumentadas, com peso combinado de 50 g ou mais. O achado microscópico característico consiste em uma hiperplasia acentuada da zona reticular; colunas de células reticulares compactas expandem-se pela zona fasciculada e na zona glomerulosa. As células claras da zona fasciculada encontram-se acentuadamente reduzidas. 2) Hiperplasia nodular bilateral – A hiperplasia nodular bilateral com doença de Cushing tem sido identificada como uma consequência morfológica de vários distúrbios fisiopatológicos incomuns. A hipersecreção de ACTH de longa duração – hipofisária ou não – pode resultar em um aumento nodular da glândula suprarrenal. Esses nódulos focais frequentemente são confundidos com neoplasias suprarrenais e levaram a cirurgias suprarrenais unilaterais desnecessárias e malsucedidas. Ocasionalmente, durante um período, esses nódulos podem tornarem-se autônomos ou semiautônomos. A remoção da neoplasia secretora de ACTH resulta em regressão dos nódulos suprarrenais assim como na resolução do hipercortisolismo, a menos que os nódulos já tenham desenvolvido uma autonomiasignificativa. Vários tipos de hiperplasia suprarrenal nodular ACTH-independente foram descritos. A hiperplasia suprarrenal ACTH-independente macronodular (e ocasionalmente um tumor adrenocortical unilateral) pode estar sob o controle de receptores hormonais anormais ou ectópicos. A regulação aberrante da produção de cortisol e o crescimento suprarrenal foram demonstrados em alguns desses pacientes sendo mediados por uma expressão suprarrenal anormal de receptores para uma variedade de hormônios. A expressão melhor caracterizada aparentemente é a expressão do polipeptídeo insulinotrófico glicose-dependente (GIP), cuja expressão suprarrenal resulta na Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 modulação da produção de cortisol após uma flutuação pós-prandial fisiológica de níveis endógenos de GIP, causando um estado de síndrome de Cushing dependente de alimentos. Outros receptores anormais descritos em associação com o hipercortisolismo endógeno incluem a vasopressina, agonistas beta-adrenérgicos, gonadotrofina coriônica humana-LH, serotonina, angiotensina e leptina. A identificação de receptores suprarrenais anormais suscita a possibilidade de novas abordagens farmacológicas para o controle do hipercortisolismo através da supressão das ligandinas endógenas ou por meio do bloqueio do receptor anormal com antagonistas específicos. Outra causa incomum de síndrome de Cushing associada à hiperplasia suprarrenal nodular bilateral foi denominada doença adrenocortical nodular pigmentada primária. Trata-se de um distúrbio familiar com herança autossômica dominante em geral apresentando-se durante a adolescência ou em adultos jovens. Esse distúrbio é associado a condições incomuns como mixomas (cardíacos, cutâneos e mamários), pigmentação cutânea em manchas, hiperatividade endócrina, precocidade sexual, acromegalia e schwannomas – o complexo de Carney. Mutações ativadoras na proteónoquinase A recentemente demonstraram estar presente em vários desses pacientes. De modo interessante, as glândulas suprarrenais nesta síndrome com frequência são pequenas ou de tamanho normal, com múltiplos nódulos negros ou marrons com atrofia cortical intranodular. Por fim, na síndrome de McCune-Allbright, mutações ativadoras de GSa levam a uma esteroidogênese constitutiva nos nódulos suprarrenais portadores da mutação. C. Tumores suprarrenais Tumores suprarrenais causadores de síndrome de Cushing são independentes da secreção de ACTH e tratam-se de adenomas ou carcinomas. 1) Adenomas suprarrenais secretores de glicocorticoides – Estes adenomas são encapsulados, pesam entre 10 e 70 g e variam em suas dimensões entre 1 e 6 cm. Microscopicamente, predominam células claras da zona fasciculada, apesar de serem encontradas células típicas da zona reticular. 2) Carcinomas suprarrenais – Os carcinomas suprarrenais geralmente são maiores de 4 cm no momento de seu diagnóstico e ocasionalmente pesam mais de 1 kg. Eles podem ser palpáveis na forma de massas abdominais. Macroscopicamente, eles são encapsulados e altamente vascularizados; é comum a ocorrência de necrose, hemorragia e degeneração cística, podendo estar presentes áreas de calcificação. O aspecto histológico desses carcinomas Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 varia consideravelmente; eles podem parecer benignos ou podem exibir um pleomorfismo considerável. A invasão vascular ou capsular é um sinal preditivo de comportamento maligno, sendo sinal de extensão local. Esses carcinomas invadem estruturas locais (rins, fígado e retroperitônio) e metastatizam-se hematogenicamente para o fígado e o pulmão. 3) Córtex suprarrenal não comprometido – O córtex contíguo ao tumor e o da glândula contralateral ficam atróficos em presença de adenomas e carcinomas suprarrenais funcionantes. O córtex é marcadamente fino, enquanto a cápsula é espessa. Histologicamente, a zona reticular é praticamente ausente; o córtex restante é composto de células fasciculadas claras. A arquitetura da zona glomerulosa é normal. Etiologia e Patogênese A. Doença de Cushing As causas e a história natural da doença de Cushing são revisadas no Capítulo 4. Evidências atuais são consistentes com a teoria de que adenomas de células corticotróficas de surgimento espontâneo consistem na causa primária e que a consequente hipersecreção de ACTH e o hipercortisolismo levam às anormalidades endócrinas características e disfunção hipotalâmica. Isto é apoiado por evidências que demonstram que a remoção seletiva desses adenomas por meio de microcirurgia hipofisária reverte as anormalidades e é seguido de um retorno à normalidade do eixo HHSR. Além disso, estudos moleculares demonstraram que quase todos os adenomas corticotróficos são monoclonais. Apesar de esses adenomas hipofisários primários serem responsáveis pela grande maioria dos casos, foram descritos alguns pacientes nos quais a doença hipofisária encontrava-se limitada a uma hiperplasia das células corticotróficas; isso pode ser secundário à secreção excessiva de CRH por um gangliocitoma benigno e raro. B. Síndrome do ACTH ectópico e síndrome de CRH ectópico A síndrome de ACTH ectópico ocorre quando tumores não hipofisários sintetizam e hipersecretam ACTH biologicamente ativo. Os peptídeos 13-LPH e 13-endorfina também são sintetizados e secretados, assim como fragmentos inativos de ACTH. A produção de CRH foi demonstrada em tumores ectópicos secretores de ACTH, porém não está esclarecido se o CRH desempenha uma função na patogênese. Foram relatados poucos casos nos quais tumores não hipofisários produziram apenas CRH. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 A síndrome do ACTH ectópico ocorre predominantemente em apenas alguns tipos de tumores; tumores carcinoides do pulmão e carcinoma de pequenas células do pulmão causam metade dos casos. Outros tumores causadores dessa síndrome originam-se de tumores neuroendócrinos, timo, vísceras, ovários, ilhotas pancreáticas ou carcinomas medulares de tireoide. Vários outros tipos de tumor foram relatados como causadores da síndrome de ACTH ectópico, porém são bastante raros. C. Tumores suprarrenais Adenomas e carcinomas suprarrenais produtores de glicocorticoides surgem espontaneamente. Eles não estão sob controle hipotalâmico-hipofisário e secretam esteroides adrenocorticais de maneira autônoma. Raramente, adenocarcinomas suprarrenais desenvolvem-se em um cenário de hipersecreção crônica de ACTH em pacientes com doença de Cushing e hiperplasia suprarrenal nodular ou hiperplasia suprarrenal congênita. Fisiopatologia A. Doença de Cushing Na doença de Cushing, a hipersecreção de ACTH é aleatória e episódica e causa hipersecreção de cortisol na ausência de ritmo circadiano normal. A retroalimentação inibitória do ACTH (secretado de um adenoma hipofisário) pelos níveis fisiológicos de glicocorticoides é suprimido; assim, a hipersecreção de ACTH persiste apesar da secreção elevada de cortisol e resulta em um excesso crônico de glicocorticoides. A secreção episódica de ACTH e cortisol resulta em níveis plasmáticos variados que ocasionalmente podem encontrar-se dentro da normalidade. No entanto, a elevação do cortisol urinário livre ou a demonstração dos níveis noturnos séricos ou salivares de cortisol, elevados devido à ausência da variabilidade diurna, confirmam a hipersecreção de cortisol (ver seções de avaliação laboratorial e diagnóstico de síndromede Cushing). O aumento geral da secreção de glicocorticoides causa as manifestações clínicas da síndrome de Cushing. De modo geral, a secreção de ACTH e í3-LPH não são elevadas o suficiente a ponto de causar hiperpigmentação. 1) Anormalidades da secreção de ACTH – Apesar da hipersecreção de ACTH, a responsividade ao estresse está ausente; estímulos como hipoglicemia ou cirurgia falham em elevar a secreção de ACTH e cortisol. Isso provavelmente é ocasionado pela supressão da função hipotalâmica e da secreção de CRH Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 devido ao hipercortisolismo, resultando na perda do controle hipotalâmico da secreção de ACTH. 2) Efeito do excesso de cortisol – O excesso de cortisol não inibe somente a função hipofisária e hipotalâmica normal, afetando a liberação de ACTH, TSH, GH e gonadotrofina, como também resulta nos efeitos do excesso de glicocorticoides descritos em secções prévias e posteriormente na seção de características clínicas. 3) Excesso de androgênio – A secreção de androgênios suprarrenais também é aumentada na doença de Cushing, e os graus de excesso de androgênios igualam-se ao do ACTH e do cortisol. Assim, os níveis plasmáticos de DHEA, sulfato de DHEA e androstenediona podem estar moderadamente elevados na doença de Cushing; a conversão periférica desses hormônios em testosterona e di-hidrotestosterona levam ao excesso de androgênio. Em mulheres, isso causa hirsutismo, acne e amenorreia. Em homens com doença de Cushing, a supressão do cortisol sobre a secreção de LH reduz a secreção de testosterona pelo testículo, diminuindo a libido e causando impotência. O aumento da secreção suprarrenal de androgênio é insuficiente para compensar a produção de testosterona gonadal diminuída. B. Síndrome de ACTH ectópico A hipersecreção de ACTH e cortisol habitualmente é maior em pacientes com síndrome do ACTH ectópico do que em pacientes com doença de Cushing. A hipersecreção de ACTH e cortisol é aleatória e episódica e frequentemente os níveis estão bastante elevados. Em geral, a secreção de ACTH por tumores ectópicos não é sujeita à retroalimentação negativa; isto é, a secreção de ACTH e cortisol não é suprimível com doses farmacológicas de glicocorticoides (ver seção sobre diagnóstico, posteriormente). Os níveis plasmáticos, taxas de secreção e excreção urinária do cortisol, androgênios suprarrenais e DOC com frequência apresentam-se acentuadamente elevados; apesar disso, os achados típicos da síndrome de Cushing podem estar ausentes, presumivelmente devido ao início rápido do hipercortisolismo, anorexia e outras manifestações da doença maligna associada. Os achados do excesso de mineralocorticoides (hipertensão e hipocalemia) frequentemente estão presentes e têm sido atribuídos ao aumento da secreção de DOC e dos efeitos mineralocorticoides do Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 cortisol. Com a secreção ectópica de CRH, são observadas a hiperplasia corticotrófica hipofisária e a hipersecreção de ACTH juntamente com uma resistência à retroalimentação negativa do cortisol. C. Tumores suprarrenais 1) Secreção autônoma – Os tumores suprarrenais primários, tanto adenomas como adenocarcinomas, hipersecretam o cortisol de maneira autônoma. Os níveis circulantes de ACTH plasmático são suprimidos, resultando em uma atrofia cortical da suprarrenal que não está comprometida. A secreção é aleatoriamente episódica, e é comum estes tumores não responderem à manipulação do eixo hipotalâmico-hipofisário com agentes farmacológicos como a dexametasona e a metirapona. 2) Adenomas suprarrenais – Os adenomas suprarrenais causadores de síndrome de Cushing geralmente apresentam-se somente por meio de manifestações clínicas de excesso de glicocorticoides, uma vez que é comum eles secretarem apenas cortisol. Assim, a presença de excesso de androgênios ou de mineralocorticoides deve sugerir que o tumor seja um carcinoma adrenocortical. 3) Carcinomas suprarrenais – Os carcinomas suprarrenais frequentemente hipersecretam vários esteroides adrenocorticais e seus precursores. O cortisol e os androgênios são os esteroides mais frequentemente secretados em excesso; o 11-desoxicortisol frequentemente encontra-se elevado e pode haver um aumento da secreção de DOC, aldosterona ou estrogênios. O cortisol plasmático e o cortisol livre urinário com frequência estão acentuadamente aumentados; o excesso de androgênios em geral é ainda maior do que o do cortisol. Assim sendo, altos níveis de DHEA, sulfato de DHEA e testosterona acompanham o excesso de cortisol. De modo geral, as manifestações clínicas de hipercortisolismo são severas e rapidamente progressivas nesses pacientes. Em mulheres, os achados de excesso de androgênio são proeminentes; ocasionalmente pode ocorrer virilização. A hipertensão e a hipocalemia são frequentes e resultam mais comumente dos efeitos mineralocorticoides do cortisol; com menos frequência, a hipersecreção de DOC e aldosterona também contribuem. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Características clínicas (Tabela 9-11) A. Sinais e sintomas 1) Obesidade – A obesidade é a manifestação mais comum e o ganho de peso, em geral, o primeiro sintoma. Ela é classicamente central, afetando principalmente a face, o pescoço, o tronco e o abdome, não comprometendo relativamente as extremidades. A obesidade generalizada com acentuação central é igualmente comum, particularmente em crianças. O acúmulo de gordura na face leva a uma típica fácies de lua, que encontra-se presente em 75% dos casos e é acompanhada por pletora facial na maioria dos pacientes. O acúmulo de gordura ao redor do pescoço é proeminente nos depósitos de gordura supraclaviculares e dorsocervical; este último é responsável pelo achado de giba de búfalo. A obesidade está ausente em alguns pacientes que não ganham peso; no entanto, eles podem apresentar uma redistribuição central da gordura e um aspecto facial típico. 2) Alterações cutâneas – As alterações cutâneas são frequentes, e sua presença deve levantar uma suspeita do excesso de cortisol. A atrofia da epiderme e de seu tecido conjuntivo subjacente causa diminuição da espessura (um aspecto transparente da pele) e pletora facial. O surgimento de equimoses após um trauma mínimo encontra-se presente em aproximadamente 40% dos casos. Estrias ocorrem em 50% dos casos, porém são bastante incomuns em pacientes acima dos 40 anos de idade. Estas geralmente apresentam uma coloração vermelho purpúrea, depressão abaixo da superfície cutânea devido à perda do tecido conectivo subjacente e mais largas (frequentemente entre 0,5 - 2 cm) quando comparadas com as estrias róseas e brancas que podem ocorrer com a gestação ou rápido ganho de peso. Estas estrias mais comumente são abdominais, porém também podem ocorrer na região das mamas, quadris, nádegas, coxas e axilas. A acne apresentando-se na forma de lesões pustulares ou papulares pode ser resultante do excesso de glicocorticoides ou hiperandrogenismo. Lesões de menor gravidade e abrasões podem cicatrizar lentamente e ocasionalmente as incisões cirúrgicas podem sofrer deiscência. As infecções fúngicas mucocutâneas são frequentes, incluindo a tinea versicolor, comprometimento ungueal ( onicomicose) e candidíase oral. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 A hiperpigmentação da pele é rara na doença de Cushingou nos tumores suprarrenais, porém é comum na síndrome do ACTH ectópico. 3) Hirsutismo – O hirsutismo está presente em aproximadamente 80% das pacientes do sexo feminino devido à hipersecreção de androgênios suprarrenais. O hirsutismo facial é mais comum, porém o crescimento aumentado de pelos também ocorre no abdome, mamas, tórax e parte superior das coxas. A acne e a seborreia em geral acompanham o hirsutismo. A virilização é incomum exceto nos casos de carcinoma suprarrenal, a qual ocorre em aproximadamente 20% dos pacientes. 4) Hipertensão – A hipertensão é uma característica clássica da síndrome de Cushing espontânea; ela está presente em 75% dos casos e a pressão arterial diastólica é maior do que 100 mmHg em mais de 50% dos casos. A hipertensão e suas complicações contribuem em grande parte para as taxas de morbidade e mortalidade na síndrome de Cushing espontânea. 5) Disfunção gonadal – Este é um resultado muito comum da elevação dos androgênios (no sexo feminino) e do cortisol (no sexo masculino e em menor intensidade no sexo feminino). A amenorreia ocorre em 75% das mulheres pré- menopáusicas e frequentemente é acompanhada por infertilidade. A redução da libido é frequente no sexo masculino e alguns ainda apresentam redução dos pelos corporais e testículos de consistência amolecida. 6) Distúrbios do sistema nervoso central e psicológicos – Os distúrbios psicológicos ocorrem na maioria dos pacientes. Sintomas de intensidade leve consistem em labilidade emocional e aumento da irritabilidade. Ansiedade, depressão, má concentração e memória ruim também estão presentes. A euforia é frequente e ocasionalmente os pacientes manifestam comportamento maníaco. Ocorrem distúrbios do sono na maioria dos pacientes, com insônia ou acordar precoce pela manhã. Vários distúrbios psicológicos ocorrem em alguns pacientes e incluem depressão severa, psicose com alucinações e paranoia. Alguns pacientes cometem suicídio. Foi observada a perda de volume do cérebro a qual é, pelo menos, parcialmente reversível após a correção do hipercortisolismo. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 7) Fraqueza muscular – Ocorre em aproximadamente 60% dos casos; com mais frequência é proximal e mais proeminente nas extremidades inferiores. O hipercortisolismo está associado a uma diminuição da massa muscular magra e das proteínas corporais totais. 8) Osteoporose – Devido aos efeitos profundos dos glicocorticoides sobre o esqueleto, pacientes com síndrome de Cushing frequentemente apresentam evidências de osteopenia e osteoporose significativas. Os pacientes podem apresentar múltiplas fraturas de fragilidade – nos pés, costelas ou vértebras. A dor nas costas pode ser a queixa de apresentação. As fraturas de compressão da coluna são demonstradas radiograficamente em 15 a 20% dos pacientes. Na verdade, a osteopenia sem causa aparente em qualquer adulto jovem ou de meia-idade sempre deve indicar uma avaliação para síndrome de Cushing, mesmo na ausência de quaisquer outros sinais ou sintomas de excesso de cortisol. Apesar de a necrose avascular do osso ter sido associada com a administração exógena de glicocorticoides, esse problema raramente é observado em pacientes com hipercortisolismo endógeno, sugerindo um papel para os distúrbios subjacentes em pacientes para os quais foram prescritos glicocorticoides. 9) Litíase renal – Cálculos secundários à hipercalciúria induzida por glicocorticoides ocorrem em aproximadamente 15% dos pacientes, e a cólica renal pode ocasionalmente ser o sintoma de apresentação. 10)Sede e poliúria – A poliúria raramente é ocasionada devido à hiperglicemia, porém pode ser causada pela inibição de glicocorticoide pela secreção de vasopressina (hormônio antidiurético) e pelo aumento direto do clearence renal de água pelo cortisol. 11)Desaceleração do crescimento - Mais de 95% das crianças demonstram redução do crescimento linear. O ganho de peso que acompanha uma diminuição do crescimento linear deve indicar uma avaliação imediata para síndrome de Cushing. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 B. Achados laboratoriais Exames laboratoriais de rotina são descritos aqui. Exames específicos para o estabelecimento do diagnóstico de síndrome de Cushing são discutidos na seção sobre diagnóstico. É comum a ocorrência de níveis de hemoglobina, hematócrito e da contagem da linhagem celular vermelha em níveis normais altos; a policitemia é rara. A contagem de leucócitos totais geralmente é normal; no entanto, tanto a porcentagem de linfócitos como a contagem total de linfócitos podem ser subnormais. Os eosinófilos também se encontram diminuídos, e a contagem total de eosinófilos abaixo de 100/µL encontra-se presente na maioria dos pacientes. Os eletrólitos séricos, com raras exceções, são normais na doença de Cushing; no entanto, ocorre alcalose hipocalêmica quando existe uma hipersecreção acentuada de esteroides na síndrome de ACTH ectópico ou adenocarcinoma adrenocortical. Apesar de a hiperglicemia em jejum ocorrer em apenas 10 a 15% dos pacientes, a intolerância à glicose é um achado relativamente comum, ocorrendo em 60% dos pacientes. A maioria dos pacientes apresenta hiperinsulinemia secundária e testes anormais de tolerância à glicose. O cálcio sérico é normal; o fósforo sérico é normal-baixo ou levemente reduzido. A hipercalciúria ocorre em 40% dos casos. C. Exames de imagem As radiografias de rotina podem revelar cardiomegalia devido à doença cardíaca aterosclerótica ou hipertensiva ou alargamento mediastinal devido ao acúmulo de gordura central. Fraturas de compressão vertebral, fraturas de costelas e cálculos renais podem estar presentes. D. Achados eletrocardiográficos Alterações hipertensivas, isquêmicas e eletrolíticas podem ocorrer no eletrocardiograma. Achados sugestivos de uma causa específica A. Doença de Cushing A doença de Cushing apresenta um quadro clínico característico; predominância do sexo feminino, início geralmente entre os 20 e os 40 anos de idade e uma progressão lenta ao longo de vários anos. A hiperpigmentação e a alcalose hipocalêmica são raras; Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 manifestações androgênicas são limitadas à acne e ao hirsutismo. A secreção de cortisol e androgênios suprarrenais está apenas moderadamente aumentada. B. Síndrome do ACTH ectópico (carcinoma) Em contraste, esta síndrome ocorre predominantemente no sexo masculino, com a maior incidência entre os 40 e os 60 anos de idade. As manifestações clínicas de hipercortisolismo frequentemente são limitadas à fraqueza, hipertensão e intolerância à glicose; o tumor primário em geral é aparente. Hiperpigmentação, hipocalemia e alcalose são comuns, assim como a perda de peso e anemia. O hipercortisolismo tem início rápido, e a hipersecreção de esteroides frequentemente é severa, com níveis de glicocorticoides, androgênios e DOC igualmente elevados. C. Síndrome de ACTH ectópico (tumor benigno) Uma minoria de pacientes com síndrome de ACTH ectópico devido a tumores mais benignos, especialmente carcinoides brônquicos, apresentam curso de progressão mais lenta, com achados típicos da síndrome de Cushing. Estes pacientes podem ser clinicamente idênticos àqueles com doença de Cushing hipofisária-dependente, e o tumor causador pode não ser aparente. Hiperpigmentação, alcalose hipocalêmica e anemia estão presentes em frequência variável. Pode surgir confusão,já que a maioria dos pacientes com tumores ectópicos ocultos podem apresentar uma dinâmica de esteroides e de ACTH típicas de doença de Cushing (ver abaixo). D. Adenomas suprarrenais O quadro clínico em pacientes com adenomas suprarrenais habitualmente é o de excesso isolado de glicocorticoides, e efeitos androgênicos, como o hirsutismo, estão ausentes. O início é gradual e o hipercortisolismo é leve a moderado. Os androgênios plasmáticos em geral estão em níveis normais baixos ou subnormais. E. Carcinomas suprarrenais De modo geral, os carcinomas suprarrenais apresentam um surgimento rápido do quadro clínico de excesso de secreção de glicocorticoides, androgênios e mineralocorticoides e são rapidamente progressivos. Elevações acentuadas tanto do cortisol como dos androgênios são comuns; a hipocalemia é comum, assim como a dor abdominal, massas palpáveis e metástases pulmonares e hepáticas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Diagnóstico A suspeita clínica de síndrome de Cushing deve ser confirmada por meio de exames bioquímicos. Inicialmente, uma avaliação geral do paciente, no que diz respeito à presença de outras enfermidades, drogas, álcool ou problemas psiquiátricos, deve ser realizada, uma vez que esses fatores podem confundir a avaliação. Na maioria dos casos, o diagnóstico diferencial bioquímico da síndrome de Cushing pode ser facilmente realizado de modo ambulatorial (Figura 9-14). A. Teste de supressão de dexametasona O teste noturno de 1 mg de dexametasona consiste em um exame de rastreamento útil em pacientes com suspeita de hipercortisolismo. O exame emprega a administração de 1 mg de dexametasona ao deitar (23 horas), com determinação do cortisol plasmático no início da manhã seguinte. Indivíduos normais devem suprimir o cortisol plasmático para menos de 1,8 µg/dL (50 nmol/L) após o teste noturno de 1 mg. Apesar de um nível de menos de 5 µg/dL ter sido usado no passado, foram descobertos vários resultados falso-negativos com a adoção desse critério. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Os resultados falso-negativos podem ocorrer em alguns pacientes com hipercortisolismo leve e uma sensibilidade incomum da retroalimentação negativa aos glicocorticoides e naqueles com hipercortisolismo intermitente. Esse teste deve ser usado apenas como ferramenta de rastreamento para a consideração de uma síndrome de Cushing, e a confirmação bioquímica deve ser baseada em exames bioquímicos adicionais. Os resultados falso-positivos com o teste noturno de supressão de dexametasona de 1 mg podem ser causados por pacientes que estão recebendo fármacos que acelerem o metabolismo da dexametasona (fenitoína, fenobarbital, rifampicina). Os resultados falso- positivos também ocorrem em pacientes com insuficiência renal, depressão, alcoolismo ou em pacientes submetidos a um evento estressante ou enfermidade severa. B. Cortisol urinário livre Outro exame na confirmação da síndrome de Cushing é a determinação do cortisol urinário livre medido por HPLC ou LC/MS/MS em uma amostra de urina de 24 horas. Esses métodos são altamente precisos e específicos. Fármacos comumente usadas e outras medicações não interferem; no entanto, a carbamazepina e o fenofibrato podem ocasionar resultados falsamente elevados com o HPLC, uma vez que elas interferem com o cortisol. O cortisol urinário livre geralmente é menor do que 50 µg/24 horas (< 135 nmol/24 horas) quando medidos por HPLC ou LC/MS/MS. As determinações de cortisol urinário livre proporcionam uma discriminação clara entre pacientes com hipercortisolismo e pacientes obesos sem síndrome de Cushing, apesar de poderem ocorrer exceções. Menos de 5% dos indivíduos obesos apresentam elevações leves do cortisol urinário livre. O principal problema do cortisol urinário livre é a sua baixa sensibilidade para a detecção de pacientes com hipercortisolismo leve (sensibilidade < 75% ). Consequentemente, esta modalidade não deve ser usada de forma isolada para excluir a síndrome de Cushing. C. Cortisol sérico e salivar noturno A ausência de um ritmo diurno tem sido considerada a marca registrada do diagnóstico da síndrome de Cushing. Em geral, o cortisol é secretado ocasionalmente com um ritmo diurno semelhante à secreção de ACTH. Os níveis em geral são maiores no início da manhã e decrescem de forma gradual durante o dia, alcançando seu nadir no final da noite entre 23 horas e meia-noite. Vários estudos demonstraram que um cortisol plasmático elevado à meia-noite (> 5,2-7,0 µg/dL [140-190 nmol/L]) é altamente preciso Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 na diferenciação de pacientes com síndrome de Cushing de indivíduos normais e de pacientes com pseudossituações de Cushing como depressão ou alcoolismo. Como a obtenção de tais níveis de cortisol é pouco prática de modo ambulatorial, a medição do cortisol salivar proporciona meios mais simples e mais convenientes de testar a secreção noturna de cortisol. A saliva pode ser facilmente obtida no domicílio do paciente por meio de uma variedade de técnicas. As referências variam para as concentrações de cortisol salivar noturno e são dependentes do teste empregado; entretanto, usando um radioimunoensaio, indivíduos normais devem apresentar valores menores de 0,15 µg/dL (4 nmol/L). Problemas diagnósticos Um grande problema diagnóstico é a diferenciação entre pacientes com síndrome de Cushing leve daqueles com hipercortisolismo leve fisiológico devido a condições classificadas como pseudo-Cushing. Essas situações incluem a fase depressiva de um distúrbio afetivo, alcoolismo, abstinência decorrente de uma intoxicação alcoólica ou distúrbios alimentares como anorexia e bulimia nervosa. Estas condições podem apresentar características bioquímicas de uma síndrome de Cushing, incluindo elevações do cortisol urinário livre, interrupções do padrão diurno normal da secreção de cortisol e falta de supressão do cortisol após o teste de supressão com 1 mg de dexametasona à noite. Apesar da anamnese e o exame físico poderem fornecer indícios específicos para o diagnóstico apropriado, a confirmação bioquímica definitiva pode ser difícil e pode necessitar de repetição dos exames. Outro estudo para distinguir uma síndrome de Cushing leve de um pseudo-Cushing é o uso de supressão com dexametasona seguido pela estimulação com CRH. Esse exame apresenta a vantagem de uma resposta diferente em pacientes com síndrome de Cushing e pseudo-Cushing tanto à dexametasona como pelo CRH por meio da combinação desses exames para proporcionar uma maior acurácia no diagnóstico. Esse estudo envolve a administração de dexametasona, 0,5 mg a cada 6 horas por oito doses, seguida imediatamente por um teste de estimulação de CRH, iniciando 2 horas após o término da supressão de baixa dose com dexametasona. Uma concentração plasmática de cortisol acima de 1,4 µg/dL (38,6 nmol/L) medida 15 minutos após a administração de CRH identifica corretamente a maioria dos pacientes com síndrome de Cushing. Após a administração de altas doses de dexametasona, pacientes com pseudo- Cushing não apresentam uma elevação no cortisol ou do ACTH em resposta ao CRH. No entanto, atualmente é reconhecido que alguns pacientes com pseudo-Cushing (p. ex., Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 anorexia nervosa) podem apresentar testes de supressão de CRH com dexametasona anormais. Diagnóstico diferencial O diagnóstico diferencial da síndrome de Cushing geralmente é difícile sempre deve ser realizado com a orientação de um endocrinologista. A introdução de vários avanços tecnológicos, incluindo IRMAs ou ICMAs específicos para ACTH, teste de estimulação com CRH, amostragem do seio petroso inferior (IPSS), TC e RM das glândulas suprarrenais e hipófise proporcionaram meios de realizar um diagnóstico diferencial preciso. A. ACTH plasmático Inicialmente, o diagnóstico diferencial para síndrome de Cushing deve distinguir entre a síndrome de Cushing ACTH-dependente (neoplasia secretora de ACTH hipofisária ou não hipofisária) e hipercortisolismo ACTH-independente. A melhor maneira de distinguir estas formas de sí.ndrome de Cushing é a medição do ACTH plasmático por IRMA ou ICMA. O desenvolvimento desse teste sensível e específico tornou possível identificar com segurança pacientes com síndrome de Cushing ACTH-independente. O nível de ACTH é menor de 5 pg/mL (1,1 pmol/L) e exibe uma resposta atenuada ao CRH (pico de resposta < 1 Opg/mL [2,2 pmol/L]) em pacientes com neoplasias suprarrenais produtoras de cortisol, hiperplasia suprarrenal cortical bilateral autônoma e síndrome de pseudo-Cushing. Pacientes com neoplasias secretoras de ACTH geralmente apresentam níveis de ACTH maiores de 10 pg/mL (2,2 pmol/L) e frequentemente acima de 52 pg/mL (11,5 pmol/ L). O principal desafio no diagnóstico diferencial da síndrome de Cushing ACTH- dependente é a identificação da origem do tumor secretor de ACTH. A grande maioria desses pacientes (90%) apresenta um tumor hipofisário, enquanto outros possuem uma neoplasia não hipofisária. Os exames diagnósticos necessários para a diferenciação destas duas entidades devem possuir uma sensibilidade, especificidade e acurácia próximas da perfeição. Apesar de os níveis plasmáticos de ACTH serem normalmente maiores em pacientes com ACTH ectópico quando comparados com aqueles portadores de síndrome de Cushing ACTH-dependente hipofisária, existe uma considerável sobreposição entre estas duas entidades. Muitos dos tumores ectópicos secretores de ACTH são radiologicamente ocultos no momento de apresentação e podem não se tornarem clinicamente aparentes durante vários anos após o diagnóstico inicial. No entanto, uma resposta exacerbada do ACTH à administração de CRH é mais Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 frequentemente encontrada na síndrome de Cushing hipofisária em comparação com a síndrome de ACTH ectópico. B. RM de Hipófise Quando existe uma síndrome de Cushing ACTH-dependente, a RM da glândula hipófise com gadolínio deve ser realizada e identificará um adenoma em pelo menos 50 a 60% dos pacientes. Caso o paciente possua achados laboratoriais clássicos de hipercortisolemia ACTH-dependente e uma lesão hipofisária inequívoca na RM, a probabilidade de doença de Cushing é de 98 a 99%. No entanto, deve ser enfatizado que aproximadamente 10% da população na faixa etária entre os 20 e os 50 anos de idade apresentará tumores incidentais de hipófise demonstráveis pela RM. Assim sendo, alguns pacientes com síndrome de ACTH ectópico possuirão evidências radiográficas de uma lesão hipofisária. C. Supressão de altas doses de dexametasona Tradicionalmente, o teste de supressão de altas doses de dexametasona tem sido utilizado no diagnóstico diferencial de síndrome de Cushing. No entanto, a precisão diagnóstica desse procedimento é de apenas 70 a 80%, o que na verdade é menos do que a probabilidade pré-exame de doença de Cushing - em média 90%. Como resultado, este exame não é mais recomendado. D. Amostragem do seio petroso inferior O método mais definitivo de distinguir com precisão entre uma síndrome de Cushing ACTH-dependente hipofisária e não hipofisária é o emprego de IPSS bilateral simultânea com estimulação com CRH, e este procedimento é o próximo passo na avaliação de pacientes com síndrome de Cushing ACTH-dependente quando a RM não revela um adenoma definido. Esse exame aproveita-se dos meios pelos quais os hormônios hipofisários alcançam a circulação sistêmica. O sangue deixa o lobo anterior da hipófise e drena para os seios cavernosos, os quais se esvaziam para o interior dos seios petrosos inferiores e, subsequentemente, para o bulbo e veia jugular. A medição simultânea do seio petroso inferior e do ACTH periférico antes e depois da estimulação com CRH pode confirmar definitivamente a presença ou ausência de um tumor hipofisário secretor de ACTH. Uma proporção entre o seio petroso inferior e a periferia (IPS-P) maior de 2,0 antes do CRH e acima de 3,0 após o CRH é consistente com um tumor secretor de ACTH, e uma proporção IPS-P menor do 1,8 apoia o diagnóstico de ACTH ectópico. Variantes anatômicas podem causar exames falso-negativos; no entanto, medições Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 simultâneas de PRL podem ser usadas para construir uma proporção PRL-ACTH normalizada, a qual pode eliminar falso-negativos causados por variantes anatômicas. A IPSS com estimulação de CRH não necessita de um radiologista intervencional com experiência. No entanto, em mãos experientes, o procedimento proporcionou uma acurácia diagnóstica próxima dos 100% na identificação da origem da síndrome de Cushing ACTH-dependente. E. ACTH ectópico oculto Caso o exame IPSS seja consistente com um tumor secretor de ACTH não hipofisário, é necessária uma pesquisa de um tumor secretor de ACTH ectópico oculto. Visto que a maioria destas lesões localiza-se no tórax, uma TC de alta resolução do tórax pode ser útil; a RM do tórax pode apresentar uma sensibilidade ainda maior para descobrir tais lesões, as quais em geral consistem em pequenos tumores carcinoides brônquicos. Infelizmente, a utilização de um exame com um análogo da somatostatina marcado radioativamente (cintilo grafia com acetato de octreotide) obteve resultados inconclusivos na localização desses tumores. F. Procedimentos localizadores suprarrenais A TC e a RM são usadas para definir lesões suprarrenais. Seu uso primário serve para localizar tumores suprarrenais em pacientes com síndrome de Cushing ACTH- independente. A maioria dos adenomas excedem 2 cm de diâmetro; os carcinomas geralmente são muito maiores. Obesidade Definição As categorias obesidade e excesso de peso foram defmidas por meio da avaliação de dados obtidos em estudos longitudinais, associando um determinado peso a futuros efeitos adversos à saúde. A medida de gordura corporal atualmente aceita é o índice de massa corporal (IMC), que é determinado dividindo-se o peso (em quilogramas) pela altura ao quadrado (em m). Para adultos: 1) IMC < 18,5 kg/m2 é considerado baixo peso, 2) De 18,5 a 24,9 kg/m2 é considerado peso saudável, 3) Um valor entre 25 e 29,9 kg/m2 indica sobrepeso, e 4) Um IMC > 30kg/m2 caracteriza obesidade. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 No caso de crianças e adolescentes, um IMC entre os percentis 85 e 95 para idade e sexo é considerado indicador de risco de sobrepeso, enquanto um IMC > 95º percentil é considerado sobrepeso ou obesidade. Entretanto, o IMC não considera por todas as diferenças étnicas existentes em termos de estrutura esquelética ou musculatura. O tamanho da estrutura do corpo varia dramaticamente de acordo com a raça/etnia, de modo que podemos observar desde os adultos de pequena estatura do leste asiático até os nativos de maior compleição corporal das ilhas do Pacífico. Além disso, os pontos de corte convencionais para excesso de peso (IMC > 25 kg/m2 ) e obesidade (IMC > 30kg/m2 ) não correspondem ao risco metabólico absoluto ou relativo em todos os grupos étnicos. Como resultado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a International Obesity Task Force propuseram um ponto de corte de IMC mais baixo para definir a obesidade para adultos da Ásia do Sul e do Leste Asiático: 23 kg/m2 para excesso de peso e 25 kg/m2 para obesidade. Prevalência e projeções Pesquisas nacionais realizadas pelo Centers for Disease Control and Prevention, nos EUA, detectaram um aumento significativo da prevalência do excesso de peso e da obesidade ao longo dos últimos 30 anos. Nos anos de 2003 e 2004, segundo dados da National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), 32,2% dos indivíduos adultos eram obesos. A tendências apresentadas pelos adultos foram acompanhadas por meio de diversas repetições da NHANES, e esses estudos demonstraram que o percentual de excesso de peso ou obesidade subiu de 47%, no período de 1976 a 1980, para 66,2%, no período de 2003 a 2004. Constatou-se ainda que a prevalência da obesidade sofreu um aumento maior que o dobro, passando de 15 para 32,9% no geral. A prevalência da obesidade foi de 45% entre os negros não hispânicos, 36,8% entre os mexicano-americanos e 30,6% entre os brancos não hispânicos. As tendências de obesidade têm sido mais visíveis entre crianças e adolescentes, apresentando aumentos de taxas equivalentes a 2 a 3 vezes durante as últimas três décadas, em todos os grupos de faixas etárias. Na NHANES de 2003 a 2004, um total de 17,l % das crianças e adolescentes dos EUA apresentavam excesso de peso (IMC > 95° percentil). Entre as crianças com 2 a 5 anos de idade, a prevalência da obesidade aumentou de 5%, no NHANES de 1976 a 1980, para 12,4%, no NHANES de 2003 a 2006. Similarmente, a prevalência na faixa etária dos 6 a 11 anos aumentou de 6,5 para 17%, enquanto, na faixa etária de 12 a 19 anos, a prevalência aumentou de 5 para 17,6%, segundo a pesquisa nacional mais recente. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Embora os EUA liderem a maioria dos países, apresentando alta prevalência de excesso de peso e obesidade, essas condições estão se tornando mais prevalentes em todo o mundo, inclusive nos países em desenvolvimento. Na China, a prevalência do sobrepeso entre adultos aumentou de 14,6 para 21,8% no período de 1992 a 2002. Os maiores aumentos foram observados entre os homens, moradores urbanos e grupos com alto poder aquisitivo. Na Índia, no período de 2003-2005, a prevalência do excesso de peso variou de 9,4% entre os homens da zona rural a 38,8% entre as mulheres da zona urbana. Globalmente, segundo uma análise combinada, estimava-se, em 2005, 937 milhões (95% do IC, 922-951 milhões) de indivíduos adultos com sobrepeso e 396 milhões (388-405 milhões) de adultos obesos. Utilizando projeções conservadoras, estimou-se que, no ano 2030, haveria 1,35 bilhões de adultos com excesso de peso e 573 milhões de indivíduos obesos, sem ajustes para tendências seculares. Os autores do estudo alertaram que, se as tendências seculares recentes permanecerem inalteradas, os números absolutos podem totalizar 2,16 bilhões de indivíduos com sobrepeso e 1,12 bilhões de adultos obesos. Na população dos EUA, as projeções antecipam que, em 2030, 86,3% dos adultos apresentarão sobrepeso ou obesidade (51,1 %), com as mulheres negras (96,9%) e os homens méxico-americanos (91,1 %) sendo os mais afetados. Segundo as estimativas de Wang e colaboradores, em 2048, todos os adultos americanos poderiam apresentar sobrepeso ou obesidade, enquanto as crianças apresentariam uma prevalência de sobrepeso (IMC > percentil 95) quase duas vezes maior (30%). Possíveis explicações para as maiores taxas de obesidade Várias hipóteses foram propostas para explicar a rápida elevação da incidência de sobrepeso/obesidade tanto nos países desenvolvidos como nos países emergentes. As explicações simples começam pelas mudanças comportamentais de estilo de vida, sobretudo a falta de atividade física regular e o aumento da ingestão calórica, que modificam equilíbrio do balanço energético. A realidade dos fatores que promovem a epidemia de obesidade é nitidamente mais complexa e envolve múltiplas camadas de determinantes, incluindo as regras e os valores sociais, os diversos setores de influência (desde o governo, passando pela mídia, até a indústria de alimento/entretenimento), os cenários comportamentais (incluindo ambiente de trabalho/casa/vizinhança), bem como os fatores individuais (que englobam fatores genéticos, socioeconômicos, culturais e psicossociais). Em uma recente análise de rede social da coorte de Framingham, pesquisadores descobriram que o status do peso corporal (ganho, perda ou estabilidade) Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 de um indivíduo era altamente influenciado por seus amigos e familiares, estendendo-se para três graus de separação. Para conter significativamente a epidemia de obesidade em nível global, será necessário adotar uma abordagem multifacetada. Fisiopatologia e Genética da Obesidade Regulação da ingestão de alimentos e do gasto energético A obesidade consiste em um aumento da energia armazenada como gordura, que ocorre quando a ingestão calórica excede o gasto calórico. Ainda está pouco esclarecido quais são as causas desse desequilíbrio; contudo, avanços recentes de nosso conhecimento acerca dos sistemas fisiológicos responsáveis pela manutenção dos estoques de energia em resposta ao acesso variável à nutrição e às demandas para gastos energéticos forneceram algum conhecimento sobre a fisiopatologia da obesidade. O sistema fisiológico que controla a ingestão de alimentos e o gasto energético é constituído de: 1) Sinais aferentes de curta e longa duração, que permitem perceber o status energético do indivíduo; 2) Centros cerebrais integradores, mais significativamente no hipotálamo, onde o nível de resposta eferente é determinado; e 3) Sinais eferentes, incluindo aqueles reguladores da intensidade da fome e do nível de gasto energético. Um conceito equivocado comum é o de que esse sistema fisiológico se destina a prevenir a obesidade. Em vez disso, o papel essencial desse sistema consiste em prevenir a inanição (i.e., garantir que a ingestão calórica seja adequada para compensar as necessidades energéticas do metabolismo basal, atividade física, crescimento e reprodução). Como resultado, esse sistema fisiológico é mais fortemente influenciado no sentido de prevenir a deficiência energética do que o armazenamento excessivo. Informando ao cérebro o status energético: Leptina e sinais gastrintestinais de curta duração Leptina A leptina constitui o principal sinal aferente que permite ao cérebro perceber os níveis das reservas energéticas. Descoberta em 1994, essa proteína citocina-símile composta por 167 aminoácidos é liberada pelos adipócitos. Sob condições basais, os níveis séricos de leptina circulante estão correlacionados com a massa gorda (r = 0,8) e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 diminuem após a perda de peso. A queda dos níveis de leptina informa ao cérebro da diminuição de gordura armazenada e resultante de um equilíbrio energético negativo. Em consequência, são produzidos efeitos compensatórios sobre o apetite e o gasto energético, com o objetivo de repor os estoques e reestabelecer o equilíbrio energético. O papel da leptina é melhor compreendido a partir da observação do fenótipo dos raros casos de indivíduos com deficiência total de leptina. Apesar do início precocee do desenvolvimento de uma obesidade extremamente grave, os pacientes com essa condição exibem comportamentos e sinais fisiológicos de inanição. Isso inclui hiperfagia, função imune diminuída e hipogonadismo hipogonadotrófico. Esse último efeito reflete a deficiência do sinal da leptina que informa ao cérebro sobre a disponibilidade de reservas energéticas em quantidade suficiente para a reprodução. A reposição hormonal de pacientes com deficiência de leptina corrige todas essas anormalidades, abolindo a hiperfagia e conduzindo à normalização do peso e à maturação do eixo reprodutivo. A ação da leptina é mediada pelo receptor da leptina (LepR). Esse receptor é um membro da família de receptores de citocina de classe 1, que também inclui os receptores do hormônio de crescimento, prolactina e eritropoietina. Esses receptores possuem um domínio transmembrana único e se homodimerizam mediante ligação ao ligante. A ligação da leptina ao LepR resulta na fosforilação de uma quinase receptor-associada – a JAK2 – seguida do recrutamento e fosforilação da molécula transdutora de sinal e ativadora da transcrição STAT3. Quando ativada, a STAT3 sofre dimerização e translocação para o núcleo, onde ativa a transcrição dos genes-alvo. O LepR é expresso em quase todos os tecidos; contudo, somente uma das cinco isoformas existentes – LepRb – contém o domínio de recrutamento da STAT3. Essa isoforma é especificamente expressa nas regiões cerebrais responsivas à leptina. Em resumo, a leptina atua como sinal de longa duração do equilíbrio energético, mantendo o cérebro informado sobre as alterações ocorridas nos níveis de energia armazenada sob a forma de gordura. A percepção de uma redução dos níveis de leptina aumenta a ingestão de alimentos, bem como minimiza o gasto energético. Os níveis de leptina não são alterados pelas refeições, e a leptina não altera agudamente o tamanho das refeições. Sinais provenientes do trato gastrintestinal Além da leptina, que representa um sinal de adiposidade de longa duração, diversos hormônios (a maioria dos quais secretada pelo sistema gastrintestinal [GI]) estão envolvidos na regulação de curta duração do apetite (i.e., em resposta à refeição) (Tabela 20-1). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Esses hormônios atuam na saciação (a sensação de plenitude que contribui para a decisão de parar de comer), e não na saciedade (o prolongamento do intervalo até o reaparecimento da fome ou da vontade de comer). Foi demonstrado que alguns desses hormônios atuam nos mesmos centros cerebrais que a leptina. Uma secreção alterada ou uma resposta modificada a esses hormônios GI pode contribuir diretamente para a patogênese ou manutenção da obesidade. A colecistoquinina (CCK) é secretada na circulação sanguínea pelas células duodenais I. Essa secreção é estimulada pela presença de gordura e proteína no duodeno. A CCK estimula a motilidade intestinal, a contração da vesícula biliar, a secreção de enzimas pancreáticas, o esvaziamento gástrico e a secreção ácida. A CCK atua localmente, estimulando os nervos sensoriais vagais via receptor de CCK 1 (CCK-lR) e informa ao cérebro que gordura e proteínas estão sendo processadas para, em breve, serem absorvidas. Essa mensagem é transmitida ao hipotálamo através do rombencéfalo. Os níveis de CCK circulante aumentam após as refeições e a infusão de um agonista de CCK-1R (CCK33), a níveis pós-prandiais, suprime a ingestão de alimentos. Ao contrário, a infusão de um antagonista de CCK-lR aumenta a ingestão calórica. A CCK também é um mediador proximal de um processo de saciação mais amplo, atenuando as alterações induzidas pelas refeições dos hormônios GI mais distais, como a grelina e o peptídeo YY (PYY). O peptídeo 1 similar ao glucagon (GLPl) é um peptídeo composto por 30 aminoácidos, derivado do gene do pró-glucagon. O GLPl é secretado na circulação sanguínea pelas células L intestinais do íleo e cólon, em resposta à presença de nutrientes no lúmen. A meia-vida desse peptídeo é bastante curta (2 minutos) e sua degradação é mediada pela dipeptidil peptidase-4. O GLPl aumenta a secreção de insulina de modo glicose-dependente, diminui a secreção de glucagon, aumenta a massa de células B, inibe o esvaziamento gástrico e reduz a ingestão de alimentos. Considera-se Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 que o GLPl sinaliza através do rombencéfalo ao estimular seu receptor (GLPlR) junto ao nervo vago. O PYY, um peptídeo constituído por 36 aminoácidos, é liberado na circulação sanguínea pelas células L endócrinas intestinais, que estão localizadas na porção distal do intestino (íleo e cólon), após a ingestão alimentar e em resposta à presença de gordura no lúmen. O PYY-36, que constitui a principal forma do PYY circulante, liga-se ao receptor NPY-Y2 hipotalâmico e reduz a ingestão de alimentos. Após uma refeição-teste, indivíduos obesos apresentam níveis de PYY menores do que indivíduos não obesos do grupo-controle. A grelina, um peptídeo octanoilado composto por 28 aminoácidos, é secretada na corrente sanguínea pelas células endócrinas que revestem o fundo gástrico. A secreção da grelina é estimulada pelo jejum, aumenta durante o período pré-prandial e é suprimida pela ingestão de alimentos. Trata-se de um peptídeo orexígeno, que aumenta a ingestão alimentar quando administrado perifericamente, e atua em parte por modulação direta da atividade dos neurônios de NPY (neuropeptídeo Y)/ AGRP (peptídeo agouti-associado) no núcleo arqueado do hipotálamo. Integração central dos sinais de homeostase energética O principal desafio de adaptar a ingestão alimentar ao gasto energético consiste na disponibilidade intermitente da primeira e nos níveis contínuos e variáveis do segundo, necessários a sobrevida, crescimento e reprodução do indivíduo. De acordo com o modelo que prevalece atualmente, a concentração dos sinais de adiposidade circulantes, sobretudo da leptina, influencia a resposta aos sinais de saciação de curta duração e proporciona, dessa forma, uma ingestão energética suficiente para manter um nível constante de energia armazenada. Estudos genéticos, realizados em camundongos e em seres humanos, destacaram várias populações e circuitos neuronais críticos que traduzem a informação fornecida pelos sinais hormonais circulantes aferentes em respostas neurais reguladoras do apetite e do gasto energético. O hipotálamo é o lócus primário de integração dos sinais periféricos que influenciam o equilíbrio energético (Figura 20-1). Especificamente, dois grupos adjacentes de neurônios localizados no núcleo arqueado (NAH), caracterizados pela produção de neuromediadores específicos, atuam como sítio primário cerebral de recepção de sinais humorais que refletem o status energético corporal. Os neurônios de AGRP/NPY são orexígenos. Esses neurônios são inibidos pela leptina e sua atividade também é modulada por hormônios GI, entre os quais a grelina e o PYY. Os neurônios de pró- opiomelanocortina (POMC) são anorexígenos, sendo ativados pela leptina. Nesses Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 neurônios, o POMC é processado por proteases específicas (proconvertases 1e2) a um neuropeptídeo anorexígeno denominado hormônio estimulador de cx-melanócito (cx- MSH). As interações entre esses neurônios junto ao NAH permitem uma comunicação cruzada e resultam na modulação do débito neuronal. Esses neurônios de primeira ordem envia projeções para os neurônios de segunda ordemlocalizados em outras regiões do hipotálamo, especificamente no núcleo paraventricular (NPV) e na área hipotalâmica lateral (AHL), bem como para o rombencéfalo. Tanto o a-MSH como o AGRP atuam em um receptor comum – o receptor da melanocortina-4 (MC4R) - expresso nos neurônios do NPV. O a-MSH liga-se e ativa o MC4R, enquanto o AGRP inibe os neurônios que possuem esse receptor. Então, os neurônios que possuem MC4R inervam neurônios de outras áreas do hipotálamo e do tronco encefálico para produzir, de maneira integrada, a inibição do apetite e o aumento do gasto energético. Resistência à leptina na obesidade Enquanto a leptina recombinante pode corrigir os casos excepcionalmente raros de obesidade decorrente da deficiência genética de leptina, todos os demais pacientes obesos apresentam níveis de leptina proporcionais às suas massas gordas. Além disso, a aplicação de injeções de leptina recombinante em pacientes obesos não resulta em perda de peso. Sendo assim, embora apresentem concentrações elevadas de leptina (que deveriam reduzir a ingestão alimentar e a gordura corporal), os pacientes obesos parecem ser insensíveis ou resistentes a esse hormônio. Foi demonstrado que tanto fatores genéticos como ambientais contribuem para a Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 resistência à leptina, tendo sido sugerida a participação de várias alterações específicas na via efetora descendente da leptina na resistência a leptina associada a obesidade. A compreensão da natureza dessa resistência pode permitir o desenvolvimento de novos tratamentos para a obesidade; contudo, é provável que sua base molecular seja heterogênea e distinta para cada paciente. Genética da obesidade Uma ingestão calórica excessiva e a tendência a um estilo de vida mais sedentário, sem dúvida, devem ser responsáveis pela maior prevalência da obesidade; no entanto, indivíduos expostos às mesmas pressões ambientais apresentam níveis distintos de vulnerabilidade. De fato, estudos de genética epidemiológica, como os estudos sobre irmãos gêmeos e sobre adoção, implicaram fatores genéticos na suscetibilidade à obesidade. Esses estudos revelaram que os fatores genéticos respondem por 40 a 70% da variação do IMC observada na população, sendo que a hereditariedade da obesidade aumenta de acordo com seu grau de severidade. Com isso, a ênfase dada até então para a questão da obesidade humana ter ou não um componente genético passou para quantas e quais variantes genéticas constituem a base dessa suscetibilidade. Enquanto a maioria dos genes que contribuem para a predisposição à obesidade continua desconhecida, já foram descritas variantes genéticas comuns (com pequenos efeitos sobre o IMC ao nível da população) e defeitos em genes isolados (causadores de formas mendelianas de obesidade). Estudos extensos e abrangentes de associação baseados em varredura de genoma (Genome Wide Association Study) revelaram que algumas variantes genéticas comuns estão associadas à obesidade (Tabela 20-2). Essas variantes são genes próximos que são expressos no sistema nervoso central, sugerindo um possível papel para uma alteração das vias regulatórias centrais na patogênese da obesidade. Entretanto, como essas variantes não estão localizadas nas regiões codificadores de proteínas desses genes, o mecanismo exato pelo qual predispõem à obesidade ainda precisa ser elucidado. É ainda mais relevante salientar que tanto o efeito individual como os efeitos combinados dessas variantes comuns explicam somente uma pequena fração da variabilidade herdada nos casos de obesidade (10 a 20% ), sugerindo que variantes raras podem contribuir de modo mais significativo para a predisposição genética a essa condição. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 De fato, foram descobertos alguns defeitos genéticos isolados causadores da obesidade humana. Esses defeitos proporcionaram maior conhecimento sobre a predisposição genética e a fisiopatologia da obesidade. Certas mutações podem causar obesidade como parte de uma síndrome complexa, na qual fenótipos associados ao desenvolvimento são proeminentes (Tabela 20-3). Entretanto, a maioria dos defeitos genéticos isolados causadores de formas mendelianas de obesidade afetam genes do sistema leptina-melanocortina (Tabela 20-4). A descrição de pacientes com essas mutações não só trouxe conhecimento sobre a predisposição genética à obesidade como também confirmou o papel crítico do sistema leptina-melanocortina hipotalâmico no equilíbrio energético humano. As mutações que afetam a leptina e o LepR causam uma grave obesidade associada a hipogonadismo hipogonadotrófico. Mutações na POMC causam obesidade grave, em decorrência da ausência da síntese hipotalâmica de a-MSH, bem como insuficiência suprarrenal neonatal, causada pela falta de produção de ACTH na adeno-hipófise. Essas síndromes recessivas são extremamente raras. Em contraste, as mutações no MC4R constituem a causa genética mais comum de obesidade grave (2,5% dos casos). Pacientes portadores de tais mutações não apresentam características clínicas ou biológicas específicas que os diferencie de outros pacientes com obesidade grave. O teste genético constitui o único método confiável disponível para identificação desses pacientes. Esse tipo de teste não é recomendado atualmente, uma vez que a presença ou a ausência de uma dessas mutações não acarreta implicações específicas no manejo clínico desses pacientes. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Fatores de Risco 1000 dias Nenhuma revisão sistemática focou sobre os fatores riscos para obesidade infantil nos primeiros 1000 dias, ou seja, do nascimento até 2 anos de idade, o que pode ser muito importante para entender as origens da obesidade e informar para futuras pesquisas quais as prioridades e os esforços para prevenção de obesidade infantil. Os principais fatores de riscos associados a posterior excesso de peso infantil são: ➔ IMC materno pré-gestação elevado; ➔ Ganho de peso materno em excesso durante gestação; ➔ Exposição pré-natal ao tabaco; ➔ Grande peso ao nascimento; ➔ Ganho de peso infantil elevado/rápido; Um pequeno número de estudos sustentaram os seguintes fatores de risco: ➔ Diabetes gestacional; ➔ Atendimento infantil; ➔ Fraca relação materno-infantil; ➔ Baixo nível socioeconômico; ➔ Sono infantil reduzido; ➔ Uso inadequado de mamadeira; ➔ Introdução de alimentos sólidos antes dos 4 meses; ➔ Exposição infantil a antibióticos; Dentre todos os fatores de risco, apenas Ganho de peso materno em excesso durante gestação, Grande peso ao nascimento e Ganho de peso infantil elevado/rápido foram consistentemente relacionados com posterior obesidade infantil. Consequências da Obesidade para a Saúde Mecanismos subjacentes às complicações da obesidade O tecido adiposo como órgão endócrino O impacto da obesidade na saúde pública deve-se às consequências psicológicas, comportamentais e médicas desse aumento crônico da massa de tecido adiposo. Os mecanismos fisiopatológicos por trás das complicações da obesidade incluem as respostas psicológicas e comportamentais à imagem projetada em uma sociedade na qual a obesidade é considerada esteticamente pouco atraente, os efeitos mecânicos do aumento da massa adiposa sobre as articulações que sustentam o peso, bem como sobre outros órgãos, e as consequências metabólicas do aumento da concentração de ácidos graxos livres circulantes (AGLs).Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Atualmente, sabe-se que a função do adipócito não consiste apenas no armazenamento inerte de energia sob a forma de triglicerídeos e na liberação de ácidos graxos livres e glicerol durante os períodos de maior necessidade energética. Em adição à leptina já descrita, que mantém o cérebro informado sobre o nível das reservas energéticas, os adipócitos secretam numerosos fatores conhecidos como adipocinas. As adipocinas podem atuar na fisiopatologia da obesidade e em suas complicações (Figura 20-2). A adiponectina, por exemplo, é uma abundante proteína plasmática, estruturalmente relacionada à família de moléculas lq do complemento, que é secretada de modo exclusivo pelo tecido adiposo. A adiponectina circula no soro sob a forma de diversos multímeros, os quais variam desde trímeros de baixo peso molecular até dodecâmeros de alto peso molecular (HMW, high molecular weight). Os níveis de adiponectina circulante apresentam correlação negativa com a massa gorda e estão reduzidos na obesidade. Essa proteína melhora a sensibilidade à insulina de todo o corpo por meio de suas ações receptor-mediadas sobre os músculos e o fígado. Especificamente, a adiponectina estimula a oxidação dos ácidos graxos e a captação da glicose no músculo esquelético, além de suprimir a produção hepática de glicose. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Adicionalmente, vários fatores secretados pelo tecido adiposo, sobretudo no contexto da obesidade, são citocinas pró-inflamatórias. A obesidade atualmente é considerada um estado inflamatório crônico de baixa intensidade. Essas moléculas inflamatórias exercem seus efeitos através de vias parácrinas e endócrinas. Embora a princípio se pensasse que esses fatores eram secretados pelos adipócitos, a maioria, na verdade, é produzida por outras células, como os macrófagos infiltrantes do tecido adiposo de indivíduos obesos. O fator de necrose tumoral-a (TNF-a, tumor necrosis fator- a) foi o primeiro fator derivado de adipócitos sugerido como representante da ligação entre adiposidade e a resistência insulínica associada ao diabetes tipo 2. Liberada por macrófagos que infiltram o tecido adiposo em expansão na obesidade, essa citocina foi significativamente implicada na patogênese da resistência à insulina, comprometendo diretamente a sinalização da insulina em hepatócitos e adipócitos. Outras adipocinas envolvidas na inflamação associada à obesidade são a interleucina-6 (IL-6), a proteína quimiotática de monócitos-1 (MCP-1, monocyte chemoattractant protein-1), o inibidor do ativador de plasminogênio-1 (PAI-1, plasminogen-activated inhibitor-1) e o fator estimulador de colônias (CSF, colony- stimulatingfactor). Complicações metabólicas da obesidade Resistência à insulina e diabetes tipo 2 A hiperinsulinemia está caracteristicamente associada à obesidade. Essa hiperinsulinemia tem ligação com a resistência à insulina (i.e., diminuição da utilização da glicose estimulada pela insulina, que aumenta proporcionalmente com a massa gorda). Uma das principais consequências da resistência insulínica associada à obesidade é a necessidade de um aumento na secreção de insulina. Enquanto a maioria dos indivíduos obesos secreta insulina em quantidade suficiente para a adaptação ao estado insulino- resistente, essa carga aumentada sobre as células í3 pancreáticas produtoras de insulina aumenta a suscetibilidade a falência e resulta no diabetes tipo 2 (DMT2) em indivíduos geneticamente predispostos. De fato, mais de 80% dos pacientes com DMT2 são obesos. Comparado ao observado em indivíduos de peso corporal normal, um IMC maior que 40 (obesidade de classe 3) em indivíduos com menos de 55 anos de idade aumenta o risco de DMT2 em 18,l vezes para homens e em 12,9 vezes para mulheres. A classificação de sobrepeso (IMC = 25-30) aumenta a prevalência do DMT2 em 3 a 4 vezes para indivíduos de ambos os sexos que tenham menos de 55 anos de idade. Os riscos relativos associados ao peso corporal excessivo são mais fracos em pacientes idosos, porém continuam presentes Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 (p.ex., cerca de duas vezes maiores em caso de sobrepeso, e 3 a 6 vezes maiores em casos de obesidade de classe 3). A maior taxa de incidência do DMT2 constitui o principal problema de saúde associado ao aumento das taxas de obesidade. Os resultados previstos para a saúde, como doença cardíaca precoce, doença vascular periférica, insuficiência renal e cegueira, são profundamente alarmantes e colocam essa questão na lista de prioridades e urgências contemporâneas de saúde pública. Alguns estudos recentes estimaram que a atual geração de jovens americanos será a primeira a exibir expectativas de vida mais curtas que a dos pais, devido ao impacto da obesidade sobre o DMT2. Dislipidemia A obesidade está associada a uma dislipidemia caracterizada pelo aumento nos níveis de colesterol de lipoproteína de densidade muito baixa (VLDL, very low density lipoprotein), triglicerídeos e colesterol total, bem como pela redução dos níveis de colesterol de lipoproteína de alta densidade (HDL, high density lipoprotein) e aumento da concentração de partículas de lipoproteína de baixa densidade (LDL, low density lipoprotein) pequenas e densas. A diferença de concentrações séricas de triglicerídeos existente entre indivíduos com IMC menor que 21 e aqueles com IMC maior que 30 é de aproximadamente 65 mg/dL para mulheres e 62 a 118 mg/dL para homens (dependendo da idade). No caso do HDL-colesterol, cada alteração de 1 unidade no IMC está associada a uma redução de HDL-colesterol de 1,1 mg/dL em homens jovens e de 0,7 mg/dL em mulheres jovens. Foi demonstrado que todos os componentes dessa dislipidemia associada à obesidade são aterogênicos e exercem um papel importante tanto no desenvolvimento da aterosclerose como da doença cardiovascular (DCV) entre indivíduos obesos. A perda de peso e a atividade física, mesmo quando não normalizam o peso corporal, podem melhorar esse estado dislipidêmico e, assim, reduzir o risco de DCV. Além disso, sempre que necessário, indivíduos obesos devem ser submetidos a uma intensa terapia de redução de lipídeos. A Síndrome Metabólica O conceito de síndrome metabólica foi introduzido em 1923 por Kylin, que descreveu o agrupamento da hipertensão, hiperglicemia e gota como uma síndrome. Reaven e colaboradores redefiniram esse conceito para síndrome da resistência à insulina, que consistia no agrupamento da intolerância à glicose, níveis de triglicerídeos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 elevados, níveis de HDL-colesterol baixos e hipertensão. As duas características mais consistentes dos indivíduos que apresentam essa síndrome são a resistência à insulina e a obesidade abdominal. Há fortes evidências epidemiológicas e fisiopatológicas que ligam a adiposidade visceral à resistência à insulina e ao diabete, com dislipidemia, hiperinsulinemia e fibrinólise diminuída como os possíveis mediadores da relação existente entre gordura visceral e diabetes tipo 2 e risco de doença cardiovascular. A tentativa primeira de criar uma definição para essa constelação de distúrbios metabólicos foi empreendida pela OMS. Para ser classificado como portador da síndrome metabólica, um indivíduo com intolerância à glicose ou resistência à insulina deveria atender a pelo menos dois dos seguintes critérios: triglicerídeos elevados, HDL-colesterolbaixo, IMC ou proporção cintura-quadril elevados, hipertensão ou microalbuminúria. A tentativa seguinte de estabelecer uma defmição clínica foi realizada pelo National Cholesterol Education Program (NCEP)-Adult Treatment Panel III, em 2001. Nesse caso, a síndrome metabólica era definida pelo cumprimento de três ou mais dos seguintes critérios: níveis de glicose em jejum elevados, triglicerídeos elevados, HDL baixo, pressão arterial ou circunferência da cintura aumentadas. Por fim, mais recentemente, a International Diabetes Federation (IDF) propôs a adoção de critérios mais aprimorados que requerem obesidade abdominal central, mais dois critérios propostos pelo NCEP. Os critérios do IDF foram os primeiros a considerar a heterogeneidade do tamanho corporal entre os diferentes grupos étnicos. O comitê recomendou a adoção de diferentes pontos de corte de circunferência da cintura de acordo com a etnicidade, com uma definição revisada para sul-asiáticos, chineses e japoneses indicando pontos de corte de circunferência da cintura similares para homens(> 90 cm) e mulheres(> 80 cm), comparativamente aos pontos de corte para os europeus(> 94 cm para homens e> 80 cm para mulheres). Mais recentemente, a utilidade da síndrome metabólica foi questionada, dada a inexistência de opções de tratamento disponíveis e a que cada fator de risco cardiometabólico (p.ex., controle da pressão sanguínea) é tratado individualmente. Fisiopatologia – Fisiopatologia A obesidade visceral ou central (abdominal) é caracterizada por uma distribuição da gordura corporal do tipo andróide, ou seja, conhecida como corpo em formato de “maçã”, representando o aspecto principal da SM. Ao contrário da gordura subcutânea, o acúmulo de gordura visceral, que pode ser facilmente estimado pela medida da circunferência da cintura, está relacionado a diversos problemas metabólicos plasmáticos, característicos da SM: ➔ Hipersensibilidade aos glicocorticoides; Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 ➔ Elevados níveis plasmáticos de glicose que induzem o pâncreas a liberar excesso de insulina (hiperinsulinemia) que, a longo prazo, culmina com resistência à insulina e diabetes mellitus tipo II; ➔ Aumento da secreção de angiotensina que pode aumentar o risco de hipertensão; - Aumento da secreção de interleucina-6 (IL-6), citocina inflamatória; ➔ Aumento de triglicerídeos (TG) que pode comprometer a viscosidade sanguínea, aumentando o risco cardiovascular; ➔ Redução do colesterol HDL, fundamental para realizar o transporte reverso do colesterol e que apresenta também efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e vasodilatadores (aumenta a síntese de óxido nítrico pelo estímulo da isoforma endotelial da enzima sintase do óxido nítrico – eNOS). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 Complicações Cardiovasculares O risco aumentado de doença cardiovascular foi associado à adiposidade visceral através de diversos mecanismos, entre os quais inflamação, trombose, hiperglicemia, dislipidemia aterogênica e adipocinas (hormônios e proteínas exclusivamente secretadas pelo tecido adiposo). A obesidade foi implicada como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de hipertensão, insuficiência cardíaca e doença cardíaca coronariana. Outras condições cardiovasculares associadas à obesidade incluem doença arterial periférica e fibrilação atrial. A hemodinâmica alterada da obesidade, como consequência das elevações no volume sanguíneo total, pressão arterial sistêmica e débito cardíaco, aumenta a carga de trabalho cardíaca e pode exercer efeitos adversos sobre a estrutura e a função cardiovasculares. Indivíduos com sobrepeso desenvolvem hipertrofia e dilatação ventricular esquerda, bem como aumento do átrio esquerdo. Essas anormalidades estruturais aumentam o risco de insuficiência cardíaca e fibrilação atrial. No Framingham Heart Study, cada aumento de 1 unidade do IMC promoveu aumentos de 5% em homens e de 7% em mulheres no risco de insuficiência cardíaca. Entretanto, diversos estudos recentes também descobriram um paradoxo obesidade/doença cardiovascular, em que indivíduos com sobrepeso ou obesidade com insuficiência cardíaca ou doença cardíaca preexistente apresentam menor risco de mortalidade do que aqueles com peso baixo ou normal. Esses achados sugerem que possivelmente ou obesidade contam com reservas metabólicas para resistir às elevadas demandas catabólicas, como aquelas observadas na insuficiência cardíaca. Complicações pulmonares A obesidade pode causar hipoventilação alveolar, aumentar o volume sanguíneo pulmonar e produzir efeitos mecânicos sobre o sistema respiratório. A apneia obstrutiva do sono (AOS) está associada à obesidade, bem como a outros aspectos da síndrome metabólica, entre os quais o fator mais fortemente correlacionado é a hipertensão. A obstrução intermitente das vias aéreas superiores resulta em hipoxia, estimulação do sistema nervoso simpático e inflamação das vias respiratórias. Pacientes com apneia do sono apresentam aumento no risco de desenvolver hipertensão sistêmica e pulmonar, insuficiência cardíaca, arritmias, infarto do miocárdio e mortalidade geral. Os mecanismos implicados no desenvolvimento da doença cardiovascular na apneia obstrutiva do sono incluem o aumento do estresse oxidativo e inflamação que causam disfunção endotelial. Enquanto a perda de peso pode melhorar a AOS e os aspectos metabólicos associados, as terapias mecânicas utilizadas no tratamento da apneia do sono com a pressão positiva Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 constante nas vias aéreas parece não melhorar a hipertensão nem os demais aspectos metabólicos. Complicações Gastrintestinais A doença do fígado gorduroso não alcoólica (NAFLD) é comum ente observada em casos de resistência à insulina ou obesidade e inclui um espectro de doenças hepáticas que varia da esteatose à esteato-hepatite não alcoólica, fibrose avançada e, raramente, cirrose. A gordura acumula-se no fígado, recrutando células inflamatórias e desenvolvendo fibrose. A prevalência da NAFLD na obesidade é de 50 a 85%. Além da obesidade, outros fatores de risco associados a essa doença são idade avançada, adiposidade visceral, dislipidemia aterogênica e hipertensão. A NAFLD constitui a principal causa de doença hepática crônica nos EUA, onde se estima que aproximadamente 1/3 da população adulta apresente NAFLD, em função das elevadas taxas de obesidade. A NAFLD foi observada em crianças e adolescentes com sobrepeso, apresentando uma prevalência estimada de 6 a 23% em amostras tomadas com base na população nos EUA. Entre as crianças, parece haver uma clara predominância masculina da doença, sugerindo o envolvimento de mecanismos fisiopatológicos distintos para a NAFLD entre adultos e crianças. Critérios histológicos foram propostos para distinguir as formas adulta (tipo 1) e pediátrica (tipo 2) dessa doença. Em um grande estudo realizado com crianças alemãs, observou-se que os três fatores principais a contribuir para a NAFLD, segundo a análise de componentes principais, eram os seguintes: resistência à insulina/adiposidade visceral, distribuição da gordura corporal/PCR e, por frm hormônio esteroide sexual. Outras complicações GI da obesidade abdominal são a doença do refluxo gastroesofágico e a hérnia de hiato. Essas duas condições podem causar alterações erosivas na mucosa da região inferior do esôfago, aumentando o risco de desenvolver esôfago de Barrett. Reprodução e complicações ginecológicas A obesidadefoi associada à infertilidade feminina e masculina. Nas mulheres, a síndrome dos ovários policísticos (SOP) constitui a principal causa de infertilidade feminina associada à obesidade. Mulheres com SOP apresentam disfunção ovulatória e hiperandrogenemia. A SOP é revisada com mais detalhes no Capítulo 13. Nos homens, a obesidade pode causar diminuição da contagem e da motilidade dos espermatozoides. As alterações hormonais decorrentes da obesidade e os distúrbios metabólicos associados podem acarretar o comprometimento da produção de espermatozoides. A obesidade Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 também está associada à disfunção erétil via mecanismos pró-inflamatórios e níveis de testosterona reduzidos. Câncer Vários tipos de câncer foram associados à obesidade, entre os quais câncer de mama, câncer endometrial, câncer colorretal, câncer de próstata e carcinomas de células renais. Os supostos mecanismos para o desenvolvimento de câncer de mama e câncer endometrial incluem níveis circulantes mais altos de estrogênio não equilibrados e hiperandrogenismo ovariano, que produzem níveis maiores de testosterona e níveis menores de hormônio luteinizante. A relação existente entre obesidade e câncer de cólon é mais forte nos homens do que nas mulheres. Características Clínicas do Diabetes Melito As principais características clínicas dos dois maiores tipos de diabetes melito estão listadas para comparação na Tabela 17-10. Diabetes tipo 1 Os pacientes com diabetes tipo 1 apresentam sintomas e sinais relacionados com hiperglicemia e hipercetonemia. A gravidade da deficiência de insulina e a agudeza com a qual o estado catabólico se desenvolve determina a intensidade do excesso osmótico e cetótico. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 A. Sintomas O aumento da micção é uma consequência da diurese osmótica secundária à hiperglicemia sustentada. Isto resulta em uma perda de glicose, bem como de água livre e eletrólitos na urina. A enurese noturna em função da poliúria pode sinalizar a instalação de diabetes em crianças muito pequenas. A sede é uma consequência do estado hiperosmolar, assim como a visão borrada, que frequentemente se desenvolve conforme o cristalino e a retina são expostos aos fluidos hiperosmolares. A perda de peso, a despeito de apetite normal ou aumentado, é uma característica comum do diabetes tipo 1 quando se desenvolve subagudamente em um período de semanas. A perda de peso inicialmente ocorre por causa da depleção de água, glicogênio e depósitos de triglicerídeos. A perda de peso crônica devido à redução de massa muscular ocorre à medida que os aminoácidos são desviados para formar glicose e corpos cetônicos. O volume plasmático reduzido produz tontura e fraqueza por hipotensão postural ao ficar de pé ou sentado. A perda de potássio corporal e o catabolismo geral das proteínas musculares contribuem para a fraqueza. Parestesias podem estar presentes no momento do diagnóstico do diabetes tipo 1, particularmente quando a instalação é subaguda. Elas refletem uma disfunção temporária dos nervos sensitivos periféricos e geralmente desaparecem à medida que a reposição de insulina restaura os níveis glicêmicos para próximo do normal; assim, a sua presença sugere neurotoxicidade por hiperglicemia sustentada. Quando a deficiência de insulina é grave e de início agudo, os sintomas acima progridem de forma acelerada. A cetoacidose exacerba a desidratação e a hiperosmolalidade por produzir anorexia, náusea e vômitos, interferindo na reposição oral de fluidos. Ocorre comprometimento da consciência quando a osmolalidade plasmática excede 330 mOsm/kg (normal, 285-296 mOsm/kg). Com a progressão da acidose para um pH de 7,1 ou menos, ocorre respiração profunda com frequência ventilatória rápida (respiração de Kussmaul) à medida que o corpo tenta eliminar o gás carbônico. Com a piora da acidose (para um pH de 7,0 ou menos) o sistema cardiovascular pode ser incapaz de manter a vasoconstricção compensatória; pode ocorrer colapso vasocirculatório grave. B. Sinais O nível de consciência do paciente pode variar dependendo do grau de hiperosmolalidade. Quando a deficiência de insulina se desenvolve de forma relativamente lenta e há ingestão suficiente de água para permitir a excreção renal de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 glicose e a diluição adequada da concentração de cloreto de sódio extracelular, os pacientes permanecem relativamente alertas e os achados físicos podem ser mínimos. Quando ocorrem vômitos em resposta à piora da cetoacidose, a desidratação progride e os mecanismos compensatórios tomam-se inadequados para manter a osmolalidade plasmática abaixo de 330 mOsm/kg. Nestas circunstâncias, pode ocorrer estupor ou mesmo coma. A evidência de desidratação em um paciente estuporoso com respiração profunda e rápida e o odor frutado do hálito de acetona sugere o diagnóstico de cetoacidose diabética. A hipotensão postural indica um volume de plasma depletado; hipotensão em posição de decúbito é um grave sinal prognóstico. A perda de gordura subcutânea e o desgaste muscular são características de um desenvolvimento lento de deficiência de insulina. Em pacientes ocasionais com início lento, insidioso de deficiência de insulina, a gordura subcutânea pode ser considerada depletada. Um fígado aumentado, xantomas eruptivos na superfície flexora dos membros e nas nádegas, e lipemia retinais indicam que a deficiência crônica de insulina resultou em quilomicronemia, com elevação dos triglicerídeos circulantes, geralmente para mais de 2.000 mg/dL. Diabetes tipo 2 Os pacientes com diabetes tipo 2 geralmente têm deficiência de insulina menos grave do que os pacientes com tipo 1 e os sintomas e sinais na apresentação refletem esta diferença. A. Sintomas Muitos pacientes com diabetes tipo 2 têm uma instalação insidiosa da hiperglicemia e podem ser relativamente assintomáticos no início. O diagnóstico pode ser feito apenas após a glicosúria ou a hiperglicemia serem notadas durante estudos laboratoriais de rotina. Infecções cutâneas crônicas são comuns. Pruridos generalizados e sintomas de vaginite por cândida são frequentemente a queixa inicial de mulheres com diabetes tipo 2. Homens podem se queixar de uma erupção pruriginosa do prepúcio. Alguns pacientes podem permanecer sem diagnóstico por muitos anos e a apresentação inicial pode ocorrer por causa de complicações como o distúrbio visual devido à retinopatia, ou dor no pé ou infecção por uma neuropatia periférica. Os pacientes com uma deficiência de insulina mais grave têm os sintomas clássicos de poliúria, sede, visão borrada, parestesias e fadiga. Isso é verdade em indivíduos que consomem grandes quantidades de fluidos ricos em carboidratos em resposta à sede. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 B. Sinais Muitos pacientes são obesos ou têm sobrepeso. Mesmo aqueles pacientes que não têm um sobrepeso significante com frequência têm uma distribuição de gordura característica com mais gordura na parte superior do corpo (particularmente no abdome, tórax, pescoço e face) e relativamente menos gordura nos apêndices, que podem ser bastante musculosos (o obeso metabólico). Esta distribuição centrípeta da gordura tem sido chamada androide e é caracterizada por uma circunferência da cintura aumentada. Ela difere de uma forma mais centrífuga ginecoide da obesidade, na qual a gordura é localizada mais nos quadris e coxas e menos nas partes superiores do tronco.Uma maior circunferência da cintura aumenta o risco de diabetes para qualquer índice de massa corporal (IMC). Portanto, em pacientes com síndrome metabólica, uma circunferência da cintura acima de 102 cm em homens e 88 cm em mulheres está associada a um maior risco de diabetes. A IRM e a TC revelam que estes pacientes com aumento da circunferência da cintura têm acúmulo de gordura nas distribuições omental e mesentérica. Esta gordura visceral correlaciona-se com resistência à insulina, enquanto a gordura predominantemente nos tecidos subcutâneos do abdome tenha pouca, se houver, associação com a insensibilidade à insulina. Alguns pacientes, especialmente os obesos, podem ter acantose nigricans – pele hiperpigmentada, hiperceratótica nas axilas, virilha e dorso do pescoço. Este sinal está associado com resistência significativa à insulina. A hipertensão pode estar presente especialmente em pacientes obesos. Xantomas eruptivos na superfície flexora dos membros e nas nádegas e lipemia retinais devido à hiperquilomicronemia podem ocorrer em pacientes com diabetes tipo 2 não controlada que também têm a forma familiar de hipertrigliceridemia. Em mulheres, a vaginite por candida com uma área vulvar inflamada, avermelhada, e uma secreção profusa esbranquiçada pode indicar a presença de diabetes. Em homens, a infecção por cândida no pênis pode ocasionar um aspecto avermelhado do pênis e/ou prepúcio com pápulas brancas com erosão e uma secreção branca. O paciente ocasional que tem diabetes não diagnosticado por algum tempo pode apresentar retinopatia ou neuropatia periférica. Os pacientes podem apresentar também coma hiperglicêmico hiperosmolar – desidratação profunda, hipotensão, letargia ou coma sem respiração de Kussmaul. Hipotireoidismo O hipotireoidismo consiste em uma síndrome clínica resultante da deficiência dos hormônios tireóideos, o que, por sua vez, ocasiona uma redução dos processos metabólicos. O hipotireoidismo, quando ocorre na infância, resulta em uma redução Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 acentuada do crescimento e do desenvolvimento, com sérias consequências permanentes, incluindo retardo mental. Quando o hipotireoidismo ocorre na idade adulta, causa uma redução generalizada do metabolismo, com diminuição da frequência cardíaca, diminuição do consumo de oxigênio e depósito de glicosaminoglicanos nos espaços intracelulares, particularmente na pele e nos músculos, produzindo, em casos extremos, o quadro clínico de mixedema. Os sinais e sintomas de hipotireoidismo em adultos são reversíveis com tratamento. Etiologia e incidência (Tabela 7-6) O hipotireoidismo pode ser classificado como: 1) Primário (falência da tireoide) (o mais comum), 2) Secundário (devido à deficiência hipofisária de TSH), ou 3) Terciário (devido à deficiência hipotalâmica de TRH). Ou pode ser causado por 4) resistência periférica à ação dos hormônios tireóideos. O hipotireoidismo também pode ser classificado como tendo bócio ou não, porém esta classificação provavelmente seja insatisfatória, uma vez que a tireoidite de Hashimoto (tireoidite autoimune) pode produzir hipotireoidismo com ou sem bócio. A incidência das várias causas de hipotireoidismo varia de acordo com fatores geográficos e ambientais, como a ingestão de iodo e de subtâncias bociogênicas, as características genéticas da população e a distribuição etária da população (pediátrica ou adulta). As causas do hipotireoidismo, listadas na ordem aproximada de sua frequência nos EUA, são apresentadas na Tabela 7-6. A tireoidite de Hashimoto é a causa mais comum de hipotireoidismo no mundo desenvolvido. Em pacientes mais jovens, há maior probabilidade de estar associado à formação de bócio; em pacientes mais idosos, a glândula pode estar totalmente destruída pelo processo imunológico, e o único sinal da doença é um teste de anticorpos TPO persistentemente positivo. Similarmente, o estágio terminal da doença de Graves pode ser o hipotireoidismo ocorrendo de forma espontânea ou após o tratamento ablativo com iodo radiativo ou tireoidectomia. A glândula tireoide envolvida em uma doença autoimune é particularmente suscetível à ingestão excessiva de iodo (p. ex., ingestão de cápsulas de alga marinha, preparações para tosse que contenham iodo ou o fármaco antiarrítmico amiodarona) ou à administração intravenosa de meios de contraste radiográficos que contenham iodo. Grandes quantidades de iodo bloqueiam a síntese de hormônios da tireoide por meio do efeito de Wolff- -Chaikoff (ver anteriormente), produzindo hipotireoidismo induzido pelo iodo associado a um bócio naquele paciente com uma glândula tireoide anormal; a glândula normal escapa do efeito de Wolff-Chaikoff, ou bloqueio de iodo, porém, por Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 razões desconhecidas, a autoimunidade torna a glândula mais sensível aos efeitos inibidores do iodo. O hipotireoidismo pode ocorrer durante a fase tardia de uma tireoidite subaguda ou tireoidite silenciosa; esta geralmente é transitória, porém pode ser permanente, em especial no caso da tireoidite silenciosa, na qual o hipotireoidismo permanente ocorre em 25% dos pacientes. A deficiência de iodo não é uma causa de hipotireoidismo nos EUA, porém ainda é frequentemente vista em países em desenvolvimento, sendo a causa mais comum de hipotireoidismo no mundo inteiro. Certos fármacos podem bloquear a síntese hormonal e produzir hipotireoidismo associado ao bócio; atualmente as causas farmacológicas mais comuns de hipotireoidismo (além do iodo) são o carbonato de lítio, utilizado para o tratamento do distúrbio bipolar, e a amiodarona. O tratamento crônico do hipertireoidismo com os fármacos antitireoidianos PTU e metimazole apresentam os mesmos efeitos. O interferon-alfa, utilizado para o tratamento de pacientes com hepatite C e outros distúrbios, pode ocasionar uma alteração na imunidade que resulta em hipotireoidismo devido à tireoidite de Hashimoto. Erros inatos da síntese dos hormônios da tireoide, denominados disormonogênese tireóidea, são resultantes de deficiências genéticas nas enzimas necessárias para a biossíntese hormonal. Esses efeitos podem ser completos, resultando em uma síndrome de hipotireoidismo congênito grave (cretinismo) associada ao bócio; ou parcial, resultando em um bócio com hipotireoidismo leve. Pelo menos cinco anormalidades biossintéticas separadas foram relatadas: 1) Transporte inadequado de iodo; 2) Tireoperoxidase deficiente com deficiência da oxidação do iodo e falha na incorporação do iodo à tireoglobulina; 3) Deficiência na ligação das tirosinas iodadas em tri-iodotironina ou tetraiodotironina; 4) Ausência ou deficiência de iodotirosina deiodinase, de modo que o iodo não é conservado no interior da glândula; e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2018 5) Produção excessiva da iodoproteína metabolicamente inativa pela glândula tireoide (ver Figura 7-6). Esta última pode envolver uma síntese de tireoglobulina deficiente ou anormal. As deficiências hipofisárias e hipotalâmicas como causa de hipotireoidismo são bastante raras e geralmente estão associadas a outros sinais e sintomas de insuficiência hipofisária (Capítulo 4). A resistência periférica aos hormônios da tireoide é discutida adiante. Patogênese A deficiência dos hormônios da tireoide afeta praticamente todos os tecidos corporais, de modo que os sintomas são múltiplos. Patologicamente, o achado mais característico é o acúmulo de glicosaminoglicanos