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UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA CURSO DE TURISMO ANDRE SOUSA GOULART FESTIVAIS DE MÚSICA E TURISMO Rio de Janeiro 2016 Andre Sousa Goulart FESTIVAIS DE MUSICA E TURISMO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Turismo da Universidade Veiga de Almeida Prof. Orientador Nylvando F. F. Oliveira Jr. Rio de Janeiro 2016 Andre Sousa Goulart FESTIVAIS DE MÚSICA E TURISMO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Turismo da Universidade Veiga de Almeida Aprovado em ___ de ________________ de ______. BANCA AVALIADORA ________________________________________________________ Prof. Nylvando F. F. Oliveira Jr. – Orientador _________________________________________________________ Profª. Ana Luisa Verdejo Nuñes ________________________________________________________ Prof. José Carlos de Souza Dantas Rio de Janeiro 2016 À um ídolo, Nylvando F. F. Oliveira Jr. À mim mesmo, Andre Sousa Goulart À Deus, Lana Del Rey AGRADECIMENTOS Aos meus pais, por terem me dado a oportunidade de viver criativamente toda a minha vida, e a todo o conhecimento que me proporcionaram a compreensão de mim mesmo como um ser humano preso no tempo e gravidade. Aos meus amigos, que me trazem felicidade e conforto nos momentos mais conturbados dessa grande montanha-russa que é a vida, especialmente aos que fiz ao longo desses 4 anos de jornada. Aos meus professores, aqueles que sabem que são especiais, que sabem o que estão fazendo. Aqueles que se preocupam em construir conhecimento, caráter, opiniões e juízo na cabeça de seus alunos. Vocês são os melhores, e merecem todo o respeito e admiração do mundo, por serem mentores de toda uma geração. A Professora Ana Luisa, que desde o início me tratou de forma especial. Obrigado pela orientação, pelas palavras, pelo carinho e por acreditar em mim. Sou especialmente grato pelas críticas, que ao contrário de tantas outras que eu já ouvi ao longo da vida, soaram como elogios aos ouvidos quem precisava de orientação. A todos os autores, compositores e artistas que colorem a minha vida com experiências e conhecimentos traduzidos em forma de arte, onde consegui enxergar as infinitas possibilidades que a vida nos oferece, e que eu posso ser quem eu quiser, num mundo onde a maioria quer ser igual a outros. “I know if destiny is kind, I’ve got the rest on my mind.” (The Killers, For Reasons Unknown) RESUMO Esta monografia apresenta a importância dos Festivais de Música e sua vasta relação com o Turismo e suas atividades. Tem como objetivo apontar os impactos causados por megaeventos e analisar influências econômicas e socioculturais que estes festivais resultam em determinada localidade em relação à atividade turística. Também será apresentada a herança deixada por eventos de tal magnitude, desde melhorias duradouras nas infraestruturas turísticas até legados culturais históricos em alguns dos maiores países do mundo. Abordará a visibilidade em níveis mundiais, principalmente quando realizados de maneira bem-sucedida, e a grande importância do estimulo e incentivo à cultura. Será realizado um estudo de caso em relação ao Rock In Rio, um dos grandes festivais recorrentes no Brasil. Palavras-chave: Megaeventos; Festivais de música; Rock in Rio; ABSTRACT This paper presents the importance of music festivals and its vast relation to tourism and its activities. It aims to point out the impacts of mega-events and analyze socioeconomic and cultural influences that these festivals result in particular locality in relation to tourism. It will also be presented the legacy of such magnitude events, from lasting improvements in tourist infrastructure to historical cultural legacy in some of the largest countries in the world. Address visibility in global levels, especially when carried out in a successful manner, and the great importance of stimulation and encouragement to culture. There will be a case study in relation to the Rock in Rio, a major recurring festivals in Brazil. Keywords: mega-events; music festivals; Rock in Rio; LISTA DE ILUSTRAÇÕES Imagem 1 – Interação entre Turismo, Festivais de Música e Região receptora.…..….14 Imagem 2 – Sede do Bayreuth Festival em 1882........................................................28 Imagem 3 - Primeiro panfleto do Newport Jazz Festival em 1954...............................28 Imagem 4 - Multidão de Woodstock............................................................................29 Imagem 5 – Condições precárias em Woodstock.......................................................29 Imagem 6 - Cidade do Rock em 1985.........................................................................34 Imagem 7 - Rock in Rio no Maracanã em 1991...........................................................34 Imagem 8 - Nova Cidade do Rock...............................................................................35 Imagem 9 - Stand de Patrocinadores no Rock in Rio...................................................37 Imagem 10 - Produtos licenciados Rock in Rio...........................................................37 LISTA DE SIGLAS E ABREVIAÇÕES Embratur > Instituto Brasileiro de Turismo ICCA > International Congress and Convention Association MTur > Ministério do Turismo RioTur > Secretaria de Turismo do Rio de Janeiro UFF > Universidade Federal Fluminense SUMÁRIO INTRODUÇÃO………………………………………………………………...……………12 CAPÍTULO 1: CONCEITOS E DEFINIÇÕES 1.1 – Turismo e suas segmentações………………………………………….……..…15 1.2 – Planejamento…………………………………….……………………….…………19 1.3 – Eventos……………………………………………………………………………….22 CAPÍTULO 2: MEGAEVENTOS E FESTIVAIS DE MÚSICA 2.1 – Megaeventos....................................................................................................24 2.2 – Festivais de Música..........................................................................................27 2.3 – Impactos Econômicos.....................................................................................30 2.4 – Impactos Socioculturais..................................................................................30 CAPÍTULO 3: ESTUDO DE CASO ROCK IN RIO 3.1 – História e Eventos............................................................................................33 3.2 – Impactos na Cidade.........................................................................................36 3.3 – Compromissos Sociais...................................................................................39 FUTURAS PERSPECTIVAS E CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................42 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................................43 12 INTRODUÇÃO Os Festivais de Música são Megaeventos muito populares ao redor do planeta, contando sempre com inúmeros espectadores à procura de entretenimentomusical ao vivo, reunidos em uma mesma região para prestigiar essa segmentação de eventos de valores únicos e experiências mágicas. Rico em cultura, um festival de música reúne diversos artistas, sejam eles regionais ou internacionais, numa mistura de talentos que atraem a massa de visitantes de diversas localizações, de acordo com a magnitude do evento, e alvejando o público alvo de diferentes estilos musicais. A globalização cultural através da música se encontra presente e latejante nesses espetáculos musicais, que por si só, se tornam uma atividade que contribui culturalmente nas regiões onde são realizados. Com o grande fluxo de pessoas se locomovendo de diferentes localidades para comparecer a determinada região em uma determinada data, o turismo se torna substancial e essencial em relação à essa atividade, onde são consumidos serviços turísticos desde antes até após o evento, sendo primordial para o acontecimento e desenvolvimento dos festivais de música. Esta pesquisa acadêmica vem justamente estudar e apontar a atividade turística e suas relações com estes Megaeventos, que agregam tanto valor às localidades onde são realizados, nas mais diversas categorias culturais, econômicas, sociais e propriamente turísticas. A fomentação do turismo na localidade onde são realizados os festivais são beneficiadas de muitas maneiras positivas e garantem enormes oportunidades de captação de turistas no momento do evento, após, e durante a próxima edição que por ventura possa vir a acontecer. Por isso, é importante o estudo de planejamento tanto em relação ao evento, em relação ao turismo local que virá a ser beneficiado devido o fluxo de pessoas. Deve ser, acima de tudo, sustentável, em toda a sua grandeza e magnitude, desde sua preocupação com a proteção à natureza, à cultura local, as pessoas, até em relação ao turismo, sendo ele feito desde as menores proporções, como cita Matias (2009): A fase mais importante na criação de um evento verde é a fase do planejamento. É nessa etapa que as decisões serão previstas, portanto, a opção de realizar um evento sustentável deve ser definida no briefing, levantando todas as necessidades para atingir o objetivo da sustentabilidade 13 e, a partir desses levantamentos, estabelecer estratégias e ações necessárias para sua execução. Na atualidade, esses eventos já acontecem com toda essa estrutura de planejamento necessária para que ocorra de uma maneira saudável para todos os envolvidos, mas seu desenvolvimento não vem de hoje. Alguns dos maiores festivais de música da história tiveram falhas no planejamento, acarretando alguns empecilhos em suas execuções. A convergência da sustentabilidade com o evento leva o sucesso do mesmo, resultando em todos os impactos positivos possíveis em todas as áreas exploradas. Áreas estas, que serão dissecadas ao decorrer do documento, estudando os reflexos de tais eventos na sociedade onde ele se realiza, e explorando os devidos pontos onde o turismo atua e se desenvolve em níveis físicos, culturais e sociais nas regiões receptoras em determinadas fases dos Festivais de Música. Estes eventos se tornaram de grande importância para o desenvolvimento de ramos sociais e econômicos, principalmente na infraestrutura dos núcleos receptores, que devem estar preparados devidamente para o sucesso do evento, e, eventualmente, acrescentando valores e deixando legados, que, posteriormente, serão de benefício para os moradores e para uma futura demanda turística no local, criando oportunidades para o desenvolvimento de novas atividades e segmentações anteriormente não exploradas na região receptora. Estes legados que serão pré-dispostos para posterioridade se revelam de inúmeras maneiras diferentes, podendo eles serem melhorias no transporte urbano, nos meios de hospedagem, na saúde pública e privada, escolaridade, na revalorização do patrimônio cultural, entre muitos outros. Conforme a cidade vai se desenvolvendo em visão das necessidades turísticas, mais valor e auto estima são depositados na sociedade que ali vive. Sendo assim, o estudo se baseia na interligação entre os Megaeventos, o Turismo, e a região onde os dois vem a se conectar de forma profissional, como mostrado na figura a seguir: 14 Para o desenvolvimento deste documento foram realizadas pesquisas bibliográficas de fontes especializadas, artigos de revistas e matérias de sites online. Encontra-se dividido em três capítulos, onde: o primeiro fala sobre os conceitos e definições dos temas abordados; o segundo trata sobre megaeventos e festivais de música; o terceiro sobre um estudo de caso do Rock in Rio, um dos maiores festivais do Brasil e do mundo realizado inicialmente no Rio de Janeiro e replicado em outras cidades globais mundo afora. Festivais de Música Turismo Região receptora 15 CAPÍTULO 1: CONCEITOS E DEFINIÇÕES 1.1 Turismo e suas segmentações Os seres humanos sempre são motivados pela natureza do ser, devido à curiosidade, a experimentar e descobrir. Numa tentativa de tentar entender o mundo, entender a si mesmo, ou procurar o lugar aonde pertencem, pessoas se deslocam de suas áreas de conforto em diferentes localidades à procura de novas experiências, algo a acrescentar à sua história pessoal, adquirir conhecimentos sobre a vida, sobre o planeta em que vivem, sobre outras culturas e outras pessoas, satisfazer seus desejos e vivenciar momentos únicos que acrescentem valor à sua existência. Este movimento de pessoas causa um fenômeno social, econômico e cultural, e aliado à essa necessidade viver, e não apenas sobreviver, se encontra o Turismo. Estes fenômenos sociais são objeto de estudo para várias áreas sociológicas, onde cientistas estudam as relações humanas e as estruturas que caracterizam conflitos sociais, construção de identidades e formação de opiniões. O turismo, desde o início, atua como protagonista de tais movimentos, gerando o intercâmbio entre culturas e estando presente no desenvolvimento de vários países, seja ele econômico ou social. Embasado nos estudos de leitura do autor Luiz Renato Ignarra (1999) este deslocamento de pessoas existe desde os primórdios da humanidade, e ocorrem por diferentes motivos. Nos séculos XV e XVI as nações portuguesas e espanholas se empenharam a descobrir um novo trajeto até o outro lado do continente, com objetivo de lucrar com o comércio de especiarias. Assim, se deram início as Grandes Navegações e consequentemente, às grandes descobertas do milênio devido ao interesse no turismo de negócios. Na tradição cristã, os Três Reis Magos percorreram um extenso caminho, vindos do Leste, seguindo uma estrela até encontrarem o menino Jesus Cristo, à quem deram especiarias como ouro, incenso e mirra. Este, sendo um exemplo de motivação ao turismo religioso, no qual fez parte da história do catolicismo, junto com tantas outras peregrinações movidas pela fé. Já as viagens concebidas com intuitos de saúde são atividades muito antigas na história da humanidade, em várias culturas diferentes. Tratamentos medicinais eram motivo de deslocamento de pessoas à procura da água do mar, como os 16 famosos banhos Romanos e Turcos, que ficaram famosos ao longo dos anos por trazerem propriedades revitalizantes e curas espirituais. Estes são apenas alguns dos motivos dos quais as viagens acabaram tendo um papel importante desde os tempos mais antigos, sendo eles à interesse de negócios, aventuras, religião, saúde, entre muitos outros. Maso estudo a seguir foca em um tipo específico de viagem, o tipo que se concretiza pela vontade de conhecer um lugar diferente, a viagem de lazer. De acordo com Dumazedier (1973, o.34) o significado de lazer é: Conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se ou entreter-se ou ainda para desenvolver sua formação desinteressada, sua participação social voluntária, ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das ocupações profissionais, familiares e sociais. Livre de ocupações profissionais, as pessoas têm tempo para praticar o lazer em suas vidas, tendo a oportunidade de interagir de maneira saudável com a sociedade. O lazer também vem sendo estudado em diversos contextos por várias áreas, por exemplo: Sociologia, Antropologia, Psicologia Comunicação Social, Turismo, etc. Gomes (2004, p.125) que estuda fenômenos culturais, aponta que lazer está ligado diretamente com a cultura, como cita a seguir: Uma dimensão da cultura construída por meio da vivência lúdica das manifestações culturais em um tempo/espaço conquistado pelo sujeito ou grupo social, estabelecendo relações dialéticas com as necessidades, os deveres e as obrigações, especialmente com o trabalho produtivo. Já para outro estudioso da área, Marcellino (1995, p.31) incita que a forma de apreciar o tempo de lazer se diferencia pela satisfação da qual a pessoa usufrui de determinada atividade: ... cultura, compreendida no seu sentido mais amplo, vivenciada (praticada ou fruída) no tempo disponível. O importante como traço definidor é o caráter desinteressado dessa vivência. Não se busca, pelo menos fundamentalmente, outra recompensa além da satisfação provocada pela situação, A disponibilidade de tempo significa possibilidade de opção pela atividade contemplativa. Visto que o lazer é essencial e substancial para a cultura de uma comunidade e um direito social para o bem-estar dos seres humanos, presente na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição Federal Brasileira de 1988, é um fenômeno que acontece a partir do tempo livre e de como as pessoas o utilizam, 17 gerando melhoria na qualidade de vida de quem o pratica com sabedoria (ISAYAMA, 2002). Aliado ao deslocamento e permanência de pessoas para desfrutar seu tempo de lazer em uma localidade diferente do seu local de residência, encontra-se o turismo. Desde o início dos seus estudos, existem várias definições de turismo. Em 1911 foi criada a primeira concepção do que é turismo, segundo Barreto, pelo economista austríaco Hermann bom Schullern, que definiu como “o conceito que compreende todos os processos, especialmente os econômicos, que se manifestam na chegada, permanência e na saída do turista de um determinado município, país ou estado. ” Segundo Ignarra, com o passar do tempo e o desenvolvimento dos meios de transporte (ferroviário, rodoviário, aéreo, etc.) o turismo se tornou substancial para a sociedade, ganhando um grande impulso. E com o objetivo de lucrar, agências de turismo se formaram para atender a demanda que começou conforme o desenvolvimento da humanidade, surgindo assim outras definições mais atualizadas, como por exemplo, a de Fernandes (2010, p.26): O turismo é o movimento de ida e volta de pessoas para outros locais que não os de suas residências habituais, dentro ou fora do planeta Terra, com permanência temporária, motivado por diferentes razões, tais como lazer, entretenimento, visita à parente e amigos, saúde, estudo, cultura, preservação ambiental e negócios. Mesmo que a primeira definição de turismo tenha dado relevância para a dimensão econômica que a atividade provém, o turismo não é apenas isso. Essa reflexão dos impactos econômicos se deu principalmente porque era um campo estudado principalmente por estudiosos das ciências econômicas, que buscavam interpretar o turismo apenas como atividade econômica. Hoje em dia, professores de universidades lutam contra a denominação de “indústria do turismo”, visto que esse não é voltado somente para negócios e realizações economicamente perecíveis. Em uma visão mais abrangente, Barreto (1995, p.2) cita: Turismo é movimento de pessoas, é um fenômeno que envolve, antes de mais nada, gente. É um ramo das ciências sociais e não das ciências econômicas, e transcende toda a esfera das meras relações da balança comercial. Aberto o leque para interpretações, o Turismo nos dias de hoje abrange várias áreas de atuação e inúmeras segmentações de mercado a seguem. O estudo 18 apresentado tem como foco essa magnífica segmentação do turismo, o turismo de lazer. As pessoas que se deslocam de seus locais de residência em função do turismo de lazer, tem primeiramente o incentivo do próprio ser humano, uma vez que eles se deslocam para entrar em contato com outros seres humanos, em um lugar onde a cultura e a sociedade se diferencia do plano em que estão acostumados a viver e conviver. Com essa visita, são geradas múltiplas inter-relações com toda a comunidade (de uma forma geral) e de sua cultura diferenciada, o que desperta a curiosidade e incitam a vontade do turista de vivenciar da melhor maneira possível essa incrível experiência. De acordo com Barreto (1995, p.2), quanto mais os seres humanos se concentrarem nas grandes cidades, mais haverá essa necessidade de um turismo de lazer, para se livrar do estresse urbano e aproveitar a vida de maneira mais saudável: A tendência da humanidade é a de se concentrar nas grandes cidades, o que torna esses núcleos humanos muitas vezes fonte de violência e neurose urbanas. Dado esse quadro, o lazer é necessário, mas não suficiente. O turismo, permitindo ao indivíduo que se distancie de seu meio e de seu cotidiano, torna-se cada vez mais uma necessidade par ao bem-estar humano. Enquanto são bens de consumo e possibilidades de vivência, o turismo e o lazer são muitas vezes assimilados como a mesma coisa pela sociedade (ARAÚJO, ISAYAMA, SILVA, 2008), porém é importante frisar que são conceitos diferentes. O turismo por si só, pode e deve ser considerado uma atividade de lazer, ao mesmo tempo que também é considerado um segmento do mesmo. No entanto, lazer não se baseia unicamente em turismo, é apenas uma de suas infinitas possibilidades. Baseado nos estudos de Ignarra (1999), com o passar do tempo e o desenvolvimento dos meios de transporte (ferroviário, rodoviário, aéreo, etc.) o turismo se tornou substancial para a sociedade, ganhando um grande impulso, e evoluindo como consequência dos aspectos relacionados à produtividade empresarial, ao poder de compra das pessoas e ao bem-estar resultante da restauração da paz no mundo (RUSCHMANN, 1997). Assim, o turismo foi presente no desenvolvimento de vários países capitalistas, e com a revolução industrial, o tempo de lazer livre entre as jornadas de trabalho capitalistas foi assimilado ao turismo, se tornando uma opção de lazer. Assim, com o objetivo de lucrar, agências 19 de turismo se formaram para atender a demanda, que cresceu e vem crescendo conforme o desenvolvimento da humanidade. A medida que o Turismo se consolidou com negócio ou comércio em crescimento, do ponto de vista econômico, o campo de pesquisa e educação voltado a essa atividade se estendeu pelo mundo, não só em função do potencial turístico na economia, mas também pelos seus impactos sociais, culturais e ambientais. (Knupp, 2015, p.18) Compreendida a importância econômica que se deu ao turismo, ampliou-se a área de estudo para o aprimoramento e o desenvolvimento do turismoe da experiência do turista. 1.2 Planejamento Nesta experiência de locomoção de um grupo de pessoas, existem infinitas possibilidades de acontecimentos que podem ocorrer, seja ele para benefício ou maleficio, seja do viajante ou do local receptor. Para que o turista seja servido com conforto e segurança, são necessários parâmetros que possam ser controlados, afim de proporcionar uma experiência turística de ótima qualidade, tanto para o turista quanto para a cidade turística. Com o crescimento do turismo no mundo globalizado e a necessidade de lazer do ser humano, foram aprofundadas as pesquisas em relação ao mesmo. Tendo em visão a ética do turismo, e não somente a visão empresarial de obter lucro, é necessário um planejamento prévio de ações futuras para que a experiência prometida se concretize com qualidade e excelência. Infelizmente, existem casos impensados de turismo em que o planejamento com relação às outras partes que não sejam econômicas não foi planejado, como cita Petrocchi: “O destino se expande sem planejamento e os empresários, como regra geral, atuam de maneira individualizada, escolhendo a prática da concorrência em detrimento da cultura da cooperação. ” (2009 p.12) Este tipo de visão empresarial afeta negativamente, não só o turismo, mas toda a sociedade, onde apenas os que lucram saem ganhando, enquanto os que consomem são pobremente contentados, com efeitos negativos em seu entorno. Situações como esta impedem o turismo local de progredir. Novamente segundo Petrocchi (2009 p.21) 20 O planejamento do turismo deve considerar todas as formas possíveis de contribuição ao bem-estar dos moradores e desenvolvimento integral do destino. Porque o turismo não é um fim em si mesmo e nos núcleos receptores existem as aspirações da sociedade e outras atividades econômicas. Da parte dos prestadores de serviços turísticos, o planejamento abrange grandes dimensões, como diz Ruschmann (2006 p.18): A discussão, antes centrada na necessidade do ato de planejar, passa então a abordar outras questões que envolvem não mais só o processo de planejamento, mas também aspectos da sua implementação eficaz, tais como a definição de políticas de turismo, os aspectos ambientais do uso turístico dos atrativos, as mudanças nos valores da sociedade e a importância da participação das comunidades. Já pelo ponto de vista do turista, também deve haver planejamento em relação à sua viagem, como cita Ruschmann: ...no planejamento de uma viagem turística, os objetivos são traçados: viajar para onde (destinação); quando a viagem poderá ser realizada (disponibilidade social, férias, final de semana prolongado etc.); quanto tempo dispõe para executá-la (dias, semanas, meses), como realizá-la (transporte: avião, ônibus, trem, carro etc.; hospedagem: hotel, casa alugada, pensões, pousadas etc.). Portanto, esses objetivos traduzem uma estrutura espaço- temporal, antes mesmo do deslocamento acontecer. Segundo Petrocchi “O turismo constitui-se em uma experiência. Seus serviços básicos são o transporte, a hospedagem e o lazer e/ou outros motivos para a viagem.” (2009, p.2). Uma cidade que pretenda ser um núcleo receptor turístico necessita da estrutura básica não somente para seus cidadãos locais, mas também para o turista. Além da infraestrutura básica, como redes de esgoto, transporte e comércio, a região que receberá turistas deve contar com mais elementos para ser produtor de serviços turísticos, como cita Ruschmann: “Sumariamente, os elementos básicos do espaço turístico são: oferta turística, demanda de serviços, transportes e de infraestrutura; poder de decisão de informação; sistema de promoção e de comercialização. ” (2006, p.37) Estes turistas que se deslocam de diferentes localidades acabam utilizando de várias maneiras a infraestrutura da cidade, estado ou país, que, caso não esteja preparada para tal, pode acabar se desgastando ou interferindo no bom funcionamento de cada cidade. Para estes serviços criados especialmente para turistas, Ignarra cita: “O turista para poder usufruir de um atrativo turístico necessita 21 consumir uma série de serviços. Alguns destes por atenderem exclusivamente ou preferencialmente turistas são classificados como turísticos” (1999, p.54). Muitas vezes, esses investimentos em infraestrutura turística é um dos motivos que influenciam o turista a conhecer melhor a região, e desperto o interesse pela cidade, existe a possibilidade de que os turistas que permanecem somente por alguns dias para comparecer em eventos tenham vontade de voltar para experimentar o turismo de lazer abrangente em toda a cidade, fomentando o turismo. O investimento nessas áreas de serviços turísticos deve crescer, consequentemente, junto com o crescimento da demanda, como cita Matias (2010, p.54): O retorno trazido pela atividade turística em termos econômicos é bastante considerável para a economia dos países, cabendo, portanto, aos poderes público e privado, investirem na infraestrutura dos diversos destinos e financiares ações promocionais com o objetivo de atrair os turistas que anualmente circulam pelo mundo. Esta gestão de serviços turísticos deve ser desenvolvida com base em estratégias de sustentabilidade. Sustentabilidade que, hoje, é vista como a esperança do futuro. Para César (2011, p.10): Quando se planeja o turismo em um núcleo receptor, devem ser levados em conta alguns elementos fundamentais: atrativos, equipamentos e serviços, a infraestrutura e a superestrutura. Além desses componentes, faz-se cada vez mais necessário ir ao encontro de uma abordagem responsável em relação aos efeitos ambientais (entendidos amplamente), buscando a valorização da comunidade local. Com o decorrer do tempo, as atividades tendem a se adequar à sustentabilidade, como cita Fabricio (2015, p.16) O ser humano se encontra em constante busca por melhora da sua qualidade de vida, e, nas últimas décadas, a sociedade tem empreendido esforços para a mudança de atitudes na interação com o meio ambiente, que passou a ser considerado patrimônio essencial para a vida humana. A sustentabilidade em si não deve ser pensada apenas com intuito da preservação natureza, mas também em todas as áreas que o serviço turístico está envolvido. De acordo com Oliveira (2013, p.12) Pode-se agora chegar a uma definição operacional de turismo sustentável: turismo praticado de uma forma que (1) promova a qualidade de vida das populações residentes no local de destino; (2) respeite a sociodiversidade da comunidade receptora, por meio da conservação da herança cultural das 22 populações locais; e (3) conserve os recursos naturais e paisagísticos desse local. Ainda em seu livro “Turismo e Planejamento Sustentável”, Doris faz uma citação à Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1987 (World commission on environment and development 1987): “Como desenvolvimento sustentável do turismo considera-se ‘aquele que atende as necessidades dos turistas atuais, sem comprometer a possibilidade do usufruto dos recursos pelas gerações futuras.’” Dito isto, é essencial que em todas as atividades turísticas haja a consciência coletiva do turismo sustentável, para que gerações futuras possam vir a usufruir do mesmo sem perda de qualidade, tornando assim uma fonte de renda sustentável e criando oportunidades futuras de utilização para outras finalidades, não só em relação à natureza e ao ecossistema, mas também a todo o cenário turístico e não-turístico dentro do núcleo receptor. Já em relação aos turistas, é necessária uma educação ambiental, queseria, segundo Mousinho (2003, p.3) Processo em que se busca despertar a preocupação individual e coletiva para a questão ambiental, garantindo o acesso à informação em linguagem adequada, contribuindo para o desenvolvimento de uma consciência crítica e estimulando o enfrentamento das questões ambientais e sociais. Desenvolve-se num contexto de complexidade, procurando trabalhar não apenas a mudança cultural, mas também a transformação social, assumindo a crise ambiental como uma questão ética e política. Esta educação ambiental, posta em prática no turismo, é a consciência da preservação, onde o comportamento que antes era nocivo ao meio ambiente e consequentemente à preservação da atividade turística, se torna um comportamento motivado à proteção da natureza e do patrimônio local. 1.3 Eventos Os eventos são uma segmentação importantíssima do mercado turístico. Eles assumem grande parte do desenvolvimento turístico internacional, de acordo com International Congress and Convention Association (ICCA), que relata o desempenho desta atividade. Desde os tempos antigos, os eventos eram de suma importância no papel da sociedade, onde pessoas se deslocavam de uma localidade para outra a fim de se 23 reunir para tratar de um interesse comum a todos. Dentre os primeiros registros, cita Matias (2013, p.3): Os primeiros registros que identificaram esses deslocamentos, que podem ser considerados como origens do Turismo, mais especificamente do Turismo de Eventos, foram os primeiros Jogos Olímpicos da Era Antiga, datados de 776 a.C. Desde então, com esse deslocamento de pessoas para comparecer a um evento, se desenvolvem recursos de hospitalidade, transporte e espaços para conceber esses eventos, com finalidade de receber esses turistas de forma mais prática. Assim como os motivos para os turistas viajarem, como citados anteriormente, os eventos também têm suas segmentações, focando em áreas de interesse para atrair certo tipo de público. Na Idade Média, por exemplo, os eventos têm importância significativa para o seu próprio desenvolvimento no futuro, tendo em vista suas segmentações limitadas aos interesses da época, como cita Matias (2013, p.5): Para o Turismo de Eventos, a Idade Média foi bastante significativa, pois praticamente plantou as bases para o desenvolvimento desse tipo de turismo. Foi marcada por uma série de eventos religiosos (concílios e representações teatrais) e comerciais (feiras comerciais), que causaram o deslocamento de um grande número de pessoas, como membros do clero, mercadores e outros. Com o passar do tempo e o desenvolvimento do turismo e a melhoria das condições de viagem em relação aos transportes e hospedagem, o mercado de eventos evoluiu e se expandiu, ganhando espaço em outros segmentos, como o cultural, social, corporativo e esportivo. De acordo com Britto e Fontes (2002), estes segmentos podem ser divididos em áreas de interesse, com ênfase no intuito do evento e o público alvo. Eles podem ser de interesse Artístico, Científico, Cultural, Educativo, Político, Governamental, Empresarial, Lazer, Social, Desportivo, Religioso, Beneficente e Turístico. Devido ao deslocamento, permanência e saída de pessoas de um determinado lugar para o comparecimento em um evento, o turismo se torna um importante aliado a esse acontecimento. Ainda, segundo Britto e Fontes (2002, p.30), o turismo de eventos seria “o segmento do turismo que cuida de vários tipos de eventos que se realizam dentro de um universo amplo e diversificado. ” 24 O papel do turismo aliado a esses eventos é aumentar a visibilidade do evento, ao mesmo tempo que divulga e fomenta o mercado turístico local, com o uso de toda a infraestrutura turística criada ou alterada para este propósito. Atualmente, o turismo de eventos constitui uma parte importante da economia internacional. Passagens aéreas, hospedagem e meios de transporte são algumas das muitas despesas que um turista proporciona ao viajar. Em seu livro “Planejamento, Organização e Sustentabilidade em Eventos”, Matias (2011, p.28) cita como este segmento é importante economicamente e socialmente para um país: Outro estudo que comprova a importância econômica e social da atividade de eventos, principalmente relacionada aos eventos internacionais no Brasil, foi realizado pelo Ministério do Turismo (MTur) e pelo Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur) entre setembro de 2007 e janeiro de 2008. Nesse estudo foram selecionados seis eventos internacionais que aconteceram em Foz do Iguaçu, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, que tiveram um total de 4.688 participantes, rendendo ao país US$ 8.575.286. CAPÍTULO 2: MEGAEVENTOS E FESTIVAIS DE MÚSICA 2.1 – Megaeventos Com uma dimensão significantemente maior, Megaeventos são uma segmentação do mercado de Eventos, e têm igualmente o turismo como seu maior aliado, porém em proporções mais amplas. Vários estudiosos da área têm diferentes definições do termo Megaevento e suas diferentes características. De acordo com Da Costa e Miragaya (2008, p. 36), é um evento de “curta duração, porém, de preparação longa e por vezes intermitente, sempre operando em escala de milhões de participantes.” Deste ponto de vista, pode-se perceber que a magnitude do evento move milhões de pessoas em grande escala, criando um turismo de massa de curto prazo. Para isso, o local escolhido, de acordo com a abrangência do evento, deve contar com estrutura e planejamento da cidade e do turismo receptor, desde incentivar e dar motivação ao turista até o momento pós viagem. Já Roche (1994, p.19) define Megaeventos como: “um acontecimento de curta duração, com resultados permanentes por longo tempo nas cidades e/ou países que o sediam e está associado à criação de infraestrutura e comodidades para o evento”. 25 Já englobando a visão de infraestrutura que o núcleo receptor necessita e desenvolve conforme o crescimento do turismo, como citado anteriormente, Roche já abrange em sua definição a necessidade da estrutura para receber um evento de tal porte. Para que um Megaevento seja possível e realizável, as cidades que os recebem, geralmente cidades globais, devem ter um preparo prévio, um planejamento bem estruturado em diferentes áreas, com uma infraestrutura e prestação de serviços adequada, em relação à mobilidade urbana, segurança, acessibilidade, energia, telecomunicações e tecnologias de informação. (Marcellino, 2014, p.20) Essa adequação da infraestrutura, em prol da organização da cidade para o recebimento de um evento deste porte, desenvolve consequentemente não somente a infraestrutura turística, mas também outros aspectos da cidade que não são especificamente turísticos, e que acabam sendo benefícios para os moradores locais, criando consequências de longa duração para a cidade que se responsabiliza pelo evento. Estes benefícios e pontos positivos com relação à infraestrutura da cidade pela realização de Megaeventos são chamados de Legados. Os Legados têm um grande histórico no desenvolvimento de cidades, principalmente as que realizaram um Megaevento esportivo, que são de maior popularidade atualmente. Como exemplo, a cidade de Londres sediou três eventos Olímpicos e Paraolímpicos, em diferentes épocas de sua história. No momento da segunda Olimpíada sediada pela cidade, em 1948, estava em acontecimento a Segunda Guerra Mundial, onde tiveram um momento de muitas dificuldades para ser responsável por tal evento. Porém, em 2012, o evento foi realizado de forma bem-sucedida, tendo a oportunidade de mostrar ao mundo como tiveram capacidadede sediar novamente um Megaevento Esportivo. Esta oportunidade proporcionou revitalizações nas áreas que sofreram de alguma maneira com as fatalidades da Segunda Guerra, trazendo para a cidade um papel de superação e deixando um legado para os moradores e visitantes futuros. De acordo com Marcellino (2014, p.20): Nesse sentido, os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos são mais do que a realização das várias competições esportivas, cada uma com suas especificidades na preparação e realização. Eles articulam também outros eixos tangíveis (infraestrutura, mobilidade urbana, aeroporto, segurança, acessibilidade, energia, telecomunicações, tecnologias para controle de doping, alfândega) e intangíveis (educação, cultura, integração federativa na 26 passagem da tocha e bandeira olímpica pelo país, etc.) fundamentais par ao desenvolvimento das atividades. O legado que é construído não somente com base na infraestrutura local, mas também nos eixos intangíveis, como citados, que devem ser propriamente aproveitados além dos Megaeventos, e sua manutenção e funcionamento devem continuar principalmente após sediar o mesmo. Este período após o evento é chamado de momentum legado, que, de acordo com Iain MacRury (2008) refere-se à capacidade da cidade e da economia regional continuarem avançando no seu desenvolvimento imediatamente depois da realização do megaevento, integrando força ao processo de transformação de uma cidade, uma região e um país. Como exemplos, é possível citar as Olimpíadas e Paraolimpíadas 2016 que ocorreram no Rio de Janeiro. A cidade olímpica passou por transformações consideráveis, onde enormes investimentos foram feitos em mobilidade urbana e estruturas olímpicas, enquanto questões relacionadas ao meio ambiente e saneamento não foram resolvidas. Algumas obras mudaram completamente a cara da cidade, favorecendo e estimulando o turismo. Áreas como o Porto Maravilha foram completamente reinventadas, trazendo inovações em tecnologia e transporte urbano, segurança e construções arquitetônicas que para sempre serão um legado da cidade do Rio de Janeiro. O sucesso das Paraolimíadas em Pequim, 2008, trouxe um tipo diferente de legado para a sociedade chinesa. A oportunidade de mudar o tabu referente aos deficientes na cultura chinesa acabou se tornando uma ferramenta educacional, onde, antigamente, os deficientes eram vistos como pessoas inúteis. “Agora, o chineses começam a vê-los como pessoas que enfrentam desafios. Acredito que a atitude dos cidadãos em relação a pessoas com deficiência melhorou rapidamente nos últimos anos. ” Disse Guan Zhixun, professor da Faculdade de Esportes e Saúde da Universidade de Zhejiang, em entrevista à BBC Brasil. Este tipo de legado acrescenta valores sociais e culturais que muitas vezes são mais importantes que mudanças físicas e estruturais na cidade e país. Essa conscientização absolutamente mudou a postura dos chineses e agregou conhecimento à sociedade. Muitas vezes, esses investimentos que se tornam legados para as cidades que hospedam um megaevento, sejam eles turísticos ou não, é um dos motivos que influenciam o turista a conhecer melhor a região e desperta o interesse pela cidade, existindo a possibilidade de que os turistas que permanecem somente por alguns dias 27 para comparecer ao evento tenham vontade de voltar para experimentar o turismo abrangente em toda a cidade, estado ou país, fomentando o turismo. Esta visibilidade que o megaevento proporciona ao seu local receptor em níveis internacionais traz imensos benefícios à fomentação da atividade turística, possibilitando novos empreendimentos em função de suprir as necessidades e acrescentar valores e serviços à demanda turística. Além da empregabilidade originada pelo megaevento, Marcellino cita “Desta forma, o número de empreendimentos e iniciativas voltados à prestação de serviços deve crescer consideravelmente, assim como a quantidade de novos produtos. ” (2014, p. 97). A inovação está sempre ligada ao empreendedorismo, e as oportunidades nesse quesito se potencializam devido a abrangência do público que se é possível atingir. 2.2 – Festivais de Música A Grécia Antiga, onde nasceram e foram consagrados os famosos Jogos Olímpicos, foram criados os alicerces para dar continuidade ao segmento de Megaeventos. Lá, os gregos iniciaram a tradição com os Jogos Píticos, em homenagem ao Deus Apolo. Neste evento se destacavam as grandes apresentações esportivas, teatrais e musicais, todas de caráter competitivo, onde são constatadas as primeiras apresentações musicais para o público em massa. Com o tempo, este fenômeno se fragmentou em 3: Jogos Olímpicos, Nemeus e Ístimicos, formando assim os Jogos Helênicos. Mais afrente, na Idade Média, foi onde surgiram os primeiros festivais com o intuito de entretenimento. O alemão Richard Wagner, em 1876, criou o Bayreuth Festival, com a intenção de apresentar suas composições para o público, na Alemanha, e acabou atraindo pessoas de diversos lugares, como por exemplo, Dom Pedro II, que saiu do Brasil em uma viagem para comparecer a primeira edição do concerto de Wagner. Desde o começo, o turismo já se via presente. Este festival reside até os dias de hoje na Alemanha sendo um grande sucesso, onde existe uma demanda de 500 mil ingressos para apenas 58 mil disponíveis. 28 Sede do Bayreuth Festival em 1882 Fonte: wikipedia.org Com o desenvolvimento da tecnologia de gravação e reprodução de áudio, a indústria da música se expandiu e começou a se propagar em massa. O Jazz foi o primeiro ritmo musical que ganhou um festival com diversas atrações, no formato em que conhecemos hoje. Nos EUA, em Rhode Island, foi realizado o Newport Jazz Festival, em 1954, trazendo grandes nomes da música em suas primeiras edições, como Billie Holiday e Ella Fitzgerald, enquanto na Europa, em 1967, também foi realizado o Montreux Jazz Festival. Primeiro panfleto do Newport Jazz Festival em 1954 Fonte: whatsupnewp.com O grande marco inicial dessa imensa atividade cultural na idade moderna se deu em Nova York, em 1969, conhecido como Festival de Música de Woodstock. Trinta e dois músicos se apresentaram em “3 dias de Paz & Música” em um final de semana chuvoso. 29 Multidão de Woodstock Fonte: woodstock.com Como o mais famoso festival de música já concebido pela humanidade, o Woodstock Music & Art Fair, teve seus ingressos vendidos a 18 dólares em lojas de discos e via correios, ou 24 dólares no dia do evento. A estimativa era de 50 mil pessoas, mas a realidade foi de 500 mil. O espetáculo tomou proporções extraordinárias, e devido à falta de planejamento na época, ocorreram problemas relacionados à multidão, como congestionamentos gigantescos nas ruas, falta de primeiros-socorros e saneamento básico para o público, mau tempo, racionamento de comida e condições precárias de higiene. Mas nada que pudesse parar o momento mágico que estava a acontecer. Condições precárias em Woodstock Fonte: hagah.com.br O que definitivamente marcou o festival no país foi uma mensagem de paz. Nos EUA, em 1969, os protestos contra a Guerra do Vietnã se intensificam, enquanto ocorriam escândalos envolvendo políticos e suas “famílias”. Fazendo novas vítimas, 30 as sequelas da guerra e a violência tomavam o país, e a juventude estava cada vez mais desiludida com o clima de “e agora, como será o futuro? ” que predominava. Foi nesse cenário conturbado que o festival de Woodstock fez sua história. O evento se tornou um “símbolo de revolta pacífica dajuventude” que era mais do que necessário não só naquela época, mas também em todas as gerações a frente. Em meio a todo o caos de um país, o festival proporcionou uma ideologia de paz por meio da expressão da arte da música para todos os jovens, e intensificou uma corrente cultural de música, cultura e livre-arbítrio. Poucos festivais dessa época tiveram continuidade ou sucesso para se desenvolver, até o final do século XX, onde grandes nomes como Coachella, Lollapalooza, Tomorrowland, Rock in Rio e outros surgiram para a reinauguração dos megaeventos musicais. Hoje, apenas na Europa, existem cerca de 450 festivais de música, sendo mais de 100 na Alemanha, e outros incontáveis ao redor do mundo, se expandindo cada vez mais, com seus diferentes tipos de estilo e público, criando experiências culturais únicas e dignas de um mundo globalizado. 2.3 – Impactos Econômicos Festivais são uma importante atividade da atividade humana que contribui muito para nossa vida social e cultural. Também estão cada vez mais ligados ao turismo, afim de trazer atividade empresariais e lucros para suas cidades anfitriãs. (Allen, 2008, p. 6) Atualmente, os Festivais de Música ao redor do mundo movimentam quantias enormes de dinheiro, em níveis locais, regionais e nacionais. Devido ao deslocamento, permanência e saída de pessoas de um determinado lugar para o comparecimento a este Megaevento, o turismo se torna um importante aliado a esse acontecimento, e atualmente, o turismo de eventos constitui uma parte importante da economia internacional. Passagens aéreas, hospedagem e meios de transporte são algumas das muitas despesas que um turista proporciona ao viajar. Na magnitude de um megaevento, com milhares de pessoas se deslocando de diversas partes do país e do mundo, gera uma imensa renda fornecida para o local receptor. Esta movimentação contribui principalmente para a comunidade onde é sediada o evento. Devido a esse potencial econômico, é de fato que os impactos são benéficos à 31 comunidade local, mesmo quando não estão envolvidas no processo, tendo progresso em infraestruturas e regeneração urbana, como citados anteriormente. A potencialização da economia comove o governo. Com o crescimento da segmentação de eventos e festivais, os governos passaram a dar mais apoio aos mesmos para benefício da cidade, estado e até mesmo país onde acontecem estes festivais. Segundo Johnny Allen “...eventos de grande porte em diversas partes do mundo passaram a ser ... desejáveis devido à sua capacidade de trazer benefícios econômicos com a promoção do turismo...”. Mas não é somente o investimento público que se interessa pelos pontos positivos agregados ao evento. Devido à magnitude do evento e a grande massa de pessoas são atraídas para participar do mesmo, as grandes empresas procuram dar importância, apoio e patrocínio, como uma maneira de atingir o público alvo desejado expondo a marca em apoio à cultura, ganhando assim, exposição na mídia. De acordo com estudos do Conselho de Artes inglês, os festivais artísticos geram um impacto econômico maior que o de outras atividades turísticas, pois os turistas que frequentam estes festivais costumam passar mais tempo na localidade, contribuindo de forma mais intensa para a economia local, além de fidelizar os visitantes, trazendo-os de volta num próximo festival devido à satisfatória experiência. Estes visitantes que são fidelizados são a chave para o real benefício do turismo local. O interesse despertado pela viagem para o comparecimento no evento e a expectativa de voltar ao local sem a realização do mesmo é a oportunidade que se é esperada para o desenvolvimento do núcleo receptor turístico. Como cita Petrocchi: “Para que o destino turístico seja bem sucedido, é preciso estar comprometido com a missão de atrair, encantar e manter o turista como clientes.”. A importância do turismo em relação aos Festivais de Música gera uma oportunidade das empresas e moradores locais de se adaptarem à demanda e desenvolverem negócios, como empreendedores. Dada a importância econômica que o turismo impacta em meio aos festivais de música, serviços turísticos podem e devem investir no crescimento esporádico para atender à necessidade dessa nova demanda. Esta oportunidade também é aproveitada pela comunidade quando há geração de empregos que estes festivais proporcionam. Mão de obra assalariada é de grande ajuda nas comunidades, principalmente as mais carentes, e ainda integra os próprios cidadãos, envolvendo-os no processo de organização do evento. 32 Além destes Megaeventos ajudarem a fomentar o turismo local, estes benefícios podem ser ampliados se estudados e planejados com este intuito. Um Festival que é realizado em uma data de baixa temporada em um destino turístico ajuda a fomentar e evitar a sazonalidade. 2.4 – Impactos Socioculturais Apesar de os festivais poderem ser vistos como um tipo de produto do turismo de eventos, não podemos considerar somente essa perspectiva. Há que igualmente observar os festivais do ponto de vista do desenvolvimento comunitário, uma vez que os festivais criam o potencial para uma série de impactos sociais na comunidade anfitriã. Esses impactos sociais afetam a vida quotidiana dos residentes e trazem mudanças para o estilo de vida, valores, interações sociais e identidade do lugar. (Bramão e Azevedo, 2015, p.26) Apesar dos festivais de músicas serem hospedados pela principal justificativa do retorno econômico que o mesmo proporciona, tanto em relação individual como em relação ao turismo e à comunidade, não se pode negar a existência de impactos socioculturais. Visto que os Festivais de Música abrem espaço para um grande desenvolvimento da economia da cidade onde é sediado, acaba criando junto um potencial de grande impacto social na comunidade. As mudanças, por mais que não sejam instantâneas, acabam agregando transformações no estilo de vida da sociedade, fazendo-as repensar seus valores para com seu local de origem, o que acaba por impactar na identidade do local. Isso não necessariamente deve ser algo ruim, pois de acordo o planejamento dos organizadores e com a aceitação e participação da comunidade no evento, acaba por realizar impactos em sua grande maioria positivos, fortalecendo os laços sociais da comunidade, socializando, celebrando e se entretendo em meio a esse grande festival de música e cultura. De acordo com a leitura do livro “Organização e Gestão de Eventos”, de Johnny Allen (2008), um dos principais impactos se apresentam é o aumento e fortalecimento da autoestima da comunidade local. Os moradores estão dispostos a passar pela “turbulência” temporária que os festivais de música causam em suas áreas de residências pois dão valor ao entretenimento e esperam melhoras na infraestrutura local a longo prazo. 33 A regeneração urbana, a revalorização do patrimônio da cidade e a melhoria de sua imagem são os principais impactos positivos que aumentam a qualidade de vida urbana da população residente em relação aos festivais de música. Alguns impactos negativos que podem ocorrer podem ser citados da história de Woodstock, anteriormente, como congestionamento do tráfego, vandalismo, etc. Impactos que, seja por falta de estrutura ou planejamento, ou por falta de preparo da comunidade, geralmente são esvaídos com o fim do festival. Minimizar estes impactos negativos é obrigação para se ter um evento sustentável, onde se tenha pretensão de que aconteça novamente ou apenas manter a saúde do espaço onde foi realizado para que possa ser usado para outros meios no futuro. Osorganizadores, como responsáveis, devem se manter informados sobre a opinião da comunidade local para avaliar os impactos, sejam eles positivos ou negativos. Devem ser feitas pelos organizadores projetos de comunicação social que informem aos moradores locais, que são os maiores potenciais de demanda, os impactos negativos que eventualmente possam ocorrer durante toda a realização do megaevento, para que assim, os impactos negativos e desconfortos que possam vir a ocorrer não serem tão negativamente aceitos pelas pessoas que vivem aos arredores do evento. CAPÍTULO 3: ESTUDO DE CASO ROCK IN RIO 3.1 – História e Eventos O Rock in Rio é um dos maiores e melhores festivais de música e entretenimento do mundo na atualidade. Com atrações de qualidade e infraestrutura impecável, é um evento que movimenta a indústria turística, fonográfica e econômica do Rio de Janeiro desde sua primeira edição. Começando sua história em 1985, o Rock in Rio teve sua primeira edição na cidade de onde se origina o nome, Rio de Janeiro. Foi realizado na Cidade do Rock, uma área de 50.000 m² construída especialmente para o evento, que reuniu 1 milhão 380 mil espectadores em dez dias de música e emoção. Desde então, o Rock in Rio reúne em perfeita sincronia o poder das marcas, as forças da mídia e da música em 34 uma linguagem universal que mobiliza, conscientiza e emociona não só o Rio de Janeiro, mas também todo o mundo. Cidade do Rock em 1985 Fonte: rioecultura.com.br Em sua segunda edição, realizada em 1991, foi concretizado no maior estádio de futebol do Brasil, o Estádio Jornalista Mário Filho, popularmente conhecido como Maracanã. Desta vez, com o avanço da tecnologia de comunicação, a transmissão do festival foi assistida por 580 milhões de espectadores em 55 países ao redor do mundo, porém, foi a edição que obteve o menor público de todo o festival. Rock in Rio no Maracanã em 1991 Fonte: ambrosia.com.br 35 Em 2001, o festival se transformou em um grande movimento chamado Por Um Mundo Melhor, ao reunir 1 milhão 235 mil pessoas na cidade do rock e promovendo uma ação de comunicação inédita. 3522 emissoras de rádio e televisão no Brasil se silenciaram por três minutos, com o intuito de promover a campanha Por Um Mundo Melhor. Foi o maior movimento de comunicação do mundo realizado na época. Em 2004, o maior festival do Brasil consegue chegar à Europa, tendo três edições de sucesso em Portugal (2004, 2006 e 2008) e também uma edição em Madrid, na Espanha, em 2008, simultaneamente com a de Portugal. Neste ano, a preocupação do evento foi em relação as alterações climáticas no planeta Em 2011, após dez anos desde a terceira edição, acontece novamente o Rock in Rio na cidade do Rio de Janeiro. O espaço da Cidade do Rock foi reformado para que futuramente seja sempre utilizado o mesmo espaço para o megaevento. Segundo Roberto Medina, proprietário da empresa ArtPlan, que é responsável pela produção e idealização do Rock In Rio, "Com o novo local, que também ganhará o nome de Cidade do Rock, o Rock in Rio poderá acontecer a cada dois anos, da mesma forma que é o Rock in Rio Lisboa. O espaço não servirá apenas para o festival, será multiuso e poderá abrigar outros shows e eventos". Nova Cidade do Rock Fonte: extra.globo.com O Rock in Rio volta a se realizar simultaneamente em Lisboa e Madrid no ano de 2012, e em 2014 novamente em Lisboa. Em 2013, o evento ocorre novamente na Cidade do Rock, onde reuniu cerca de 95 mil pessoas. 36 Em 2015, o Rock in Rio foi realizado pela primeira vez nos Estados Unidos, em Las Vegas, Nevada, contando com 170 mil espectadores. No mesmo ano, para a comemoração de 30 anos do festival, foi realizada simultaneamente a última edição atual do Rock in Rio no Rio de Janeiro, novamente na Cidade do Rock, onde foram comprados mais de 10 mil ingressos antes mesmo de qualquer banda ser anunciada para o festival. 3.2 – Impactos Todo esse sucesso se deve a um conjunto de fatores de planejamento, contando com a grandiosidade do evento, as atrações, a beleza arquitetônica do espaço, a infraestrutura impecável, o cuidado com o conforto e a segurança dos participantes. Mais que um festival, é um projeto de comunicação completo que gera um fantástico retorno de vendas e visibilidade para as marcas parceiras. Grandes marcas lutam entre si para patrocinar tal evento, que é um grande veículo de exposição para atingir-se o público alvo de diferentes setores do mercado. Grandes marcas como Volkswagen, Coca-Cola, Heineken, Trident, etc. são expostas ao público em stands no próprio evento, incentivando a cultura e ganhando seu próprio benefício. Em 2001, o McDonalds vendeu em apenas um dia 58 mil hambúrgueres, sendo seu recorde de vendas até o momento atual. Só nesta terceira edição do Rock in Rio rendeu para a cidade do Rio de Janeiro mais de 350 milhões de dólares, e a cada nova edição o retorno de mídia sempre supera expectativas, se tornando um forte instrumento de mobilização e comunicação por um mundo melhor. Em 2013, segundo a ArtPlan, o festival movimentou de cerca de 1 bilhão de reais no Rio de Janeiro e teve seu recorde de seguidores nas Redes Sociais. A exposição na mídia é o principal retorno econômico que as grandes empresas recebem ao incentivar o projeto Rock in Rio. Megaeventos como este, nos dias atuais, repercutem na mídia antes, durante e depois do acontecimento, com suas informações e publicidades percorrendo meios de comunicação em massa de maneiras cada vez mais interligadas. Nas redes sociais, recordes estão sendo quebrados com mais de 11 milhões de seguidores, enquanto nos palcos são apresentadas 1.200 horas de música transmitidas ao vido ao redor do mundo por meio da TV e da internet para aproximadamente 1 bilhão de espectadores. Por isso, esta 37 estrutura de marketing se esforça ao máximo para estar presente em todos os lugares que possibilitem divulgar o produto e dar visibilidade as marcas patrocinadoras. Stand de Patrocinadores no Rock in Rio Fonte: propmark.com.br Neste âmbito estão incluídos os produtos estampados com a marca Rock in Rio, que hoje são comercializadas abundantemente devido ao sucesso do festival. Estes produtos oficiais que podem ser encontrados em lojas online são mais uma oportunidade da marca se tornar presente, onde, atualmente, 42 empresas aproveitam todo o merchandising da marca para disponibilizar uma grande variedade de produtos em conjunto com a marca Rock in Rio. Produtos licenciados Rock in Rio Fonte: rockinrio.com 38 Consequentemente, os impactos econômicos são extraordinários. Com o eminente sucesso do festival, mais de US$ 530 milhões foram investidos apenas na marca. Com estes produtos circulando ao redor do mundo, o Rio de Janeiro se torna cada vez mais conhecido como um destino turístico, se tornando digno de reconhecimento internacional. Ainda fomentando economicamente a sociedade, mais de 148 mil empregos foram gerados ao longo dos 30 anos do festival, fomentando a economia dos locais onde é realizado. Desde sua primeira edição, o Rock in Rio agregou um grande valor cultural à Cidade Maravilhosa. Além de todos os atrativos naturais presentes, o festival conseguiu de maneira formidável acrescentar um valor cultural espetacular à cidade, formando um dos maiores festivais do mundo com o próprio nome da cidade anfitriã. Um veículo de mídia capaz de fomentar a imagem turística da cidade em função de uma manifestação social à níveis religiosos. Esta imagemvem crescendo conforme o sucesso do festival, hoje conhecido mundialmente, incitando essa imagem digna dos cariocas em relação a importância da música, e também trazendo uma revitalização da imagem do mesmo, com uma ideia de juventude e modernidade, que mantém acesa a chama da cidade do Rio de Janeiro, cada vez mais vista como um destino turístico consagrado mundialmente. Diferentemente de outros festivais de música, o Rock in Rio já propaga o nome da cidade do Rio de Janeiro por todo o lugar que passa. Esta propaganda fomentada por milhões de reais, seja ela aonde for, carrega com sigo a cara do Rio de Janeiro, um cartão de visita apontado diretamente para a cultura musical, que é bastante presente em todo o território do país e especialmente significante na cidade do Rio. Esse conceito de divulgação da cidade ocorre de mão dupla, visto que o sucesso que o Rio de Janeiro sempre fez como uma cidade global, mesmo antes dos megaeventos, se encontra com o festival de ótima qualidade, revitalizando não só a imagem do rio, como toda a sua história. De acordo com dados da pesquisa quantitativa realizada por alunos da UFF sobre o perfil e o impacto econômico do turista no Rock in Rio 2013, que tem como objetivo identificar os principais aspectos da viagem realizada pelos participantes do festival no Rio de Janeiro, é possível tirar algumas conclusões sobre os números apresentados. 39 Entre pesquisa sobre gênero e faixa etária, o estudo indica que dentre os participantes propriamente brasileiros, apenas 6,7% residem na cidade do Rio de Janeiro, enquanto uma grande maioria de turistas vêm de estados vizinhos, como São Paulo e Minas Gerais. Pode-se perceber que a atividade turística é muito fomentada dentro do próprio país com o acontecimento do festival. Já em relação aos turistas estrangeiros, são apenas 2%, onde a maioria são de países latinos, mas também tendo uma porcentagem significante de Americanos, Canadenses, Alemães e outros. Cerca de 29,7% dos participantes da edição de 2013 do Rock in Rio compareciam pela primeira vez a cidade do Rio de Janeiro, e de acordo com a pesquisa, 98,6% do total de participantes pretende, em algum momento, retornar à Cidade Maravilhosa. Em questão de serviços turísticos, cerca de 51% do público do festival ficou hospedado em hotéis, pousadas, albergues e apartamentos ou casas alugadas, ocupando significativamente grande parte da rede hoteleira na cidade. Dentre os dias hospedados na cidade, os turistas, em sua grande maioria, visitaram pontos turísticos e tiraram um tempo para curtir o visual paradisíaco das praias da cidade. Muitos também frequentaram casas noturnas e fizeram compras em shopping centers. O maior descontentamento dos participantes em relação à cidade do Rio foram os preços altos, seguidas por limpeza urbana, segurança e a falta de informações e sinalizações turísticas. Em contrapartida, a hospitalidade do povo carioca e a qualidade dos meios de hospedagem foram tópicos avaliados com excelência. Toda essa informação realizada pela pesquisa quantitativa é extremamente importante para os organizadores do evento e para a organização turística da cidade, como instrumento de pesquisa para obter o máximo de desempenho da relação entre a cidade, o festival e o turismo, visando potencializar os efeitos positivos e minimizar os negativos. 3.3 – Compromissos Sociais É interessante observar o contraste que o cenário da música brasileira vem passando ao longo dos anos. Na ditadura militar, que ocorreu na década de 60, os artistas musicais se destacaram usando sua arte como uma ferramenta de comunicação para lutar contra a opressão, sendo alguns presos, torturados e exilados por transmitiram suas ideias de revolução para a nação. 40 Hoje em dia, com a liberdade de expressão e o livre arbítrio que o capitalismo proporciona, o Brasil agora é palco de um dos maiores festivais de música do mundo. E a música, que sempre esteve presente como um veículo de comunicação poderosíssimo que promove mudanças com ar de esperança, hoje não é diferente. O Rock in Rio, no auge do seu sucesso em seu terceiro festival, em 2001, iniciou um projeto que mudaria para sempre o conceito do festival, unindo o poder da música com questões socioculturais. Além do entretenimento musical, a missão do Rock in Rio agora é mudar o mundo. A marca que se tornou famosa e prestigiada como festival ao redor do mundo criou um movimento social de pessoas que não só acreditam, mas estão dispostas a construir um mundo melhor. Inicialmente, o projeto sócio ambiental Por Um Mundo Melhor assumiu o compromisso de contabilizar e compensar as emissões de gases com efeito estufa relacionadas ao acontecimento do festival e de promover importantes ações em defesa do meio ambiente dentro e fora da Cidade do Rock, em todos os países em que futuramente venham a se realizar o festival. Em 2008, os objetivos do projeto se voltaram para as alterações climáticas no planeta, contando com projetos de conscientização e mobilização da população mundial, campanhas para a redução de emissão de gazes na atmosfera e incentivo ao transporte público, tendo reconhecimento internacional ao ser premiado com o Energy Globe Awards. Na prática, foi inaugurado o Bosque da Música, em Madrid, com o plantio de 25 mil mudas de árvores para compensar a emissão de gases que foram inevitáveis desde o primeiro evento do festival. Além disso, 400 painéis solares foram implementados em 20 escolas, aproximadamente £1.217.000 foram doados para projetos sociais de auxílio à infância e um leilão de guitarras de artistas famosos foi realizado, onde a renda foi revertida para o plantio de árvores. Recentemente, o último projeto que está sendo posto em prática foi o Amazonia Live. Um festival transmitido para todo o mundo, com o intuito de plantar mais de um milhão de árvores e chamar atenção para o desmatamento da Amazônia, onde em um minuto, uma área de 36 campos de futebol é devastada. O projeto conta com a ajuda de vários países, como Portugal, Reino Unido, Holanda, Espanha e Rússia, além de pedir o apoio da população, sendo possível contribuir no próprio site com uma quantia de R$5,50 par ao plantio de uma árvore. Em 2013, o Rock in Rio recebeu sua primeira certificação de norma internacional no âmbito da gestão sustentável, o ISO 20121. Foi o primeiro evento a 41 conceber a norma na américa latina, sendo reconhecido como uma marca que desenvolve ações de compromisso na construção de um mundo melhor, tendo responsabilidade sobre seus impactos, minimizando os negativos e potencializando os positivos nos âmbitos ambientais, econômicos e sociais. É uma certificação digna de um dos maiores eventos de música e entretenimento do mundo. Esta certificação, por si só, é um incentivo às empresas privadas a apoiar e patrocinar a marca do Rock in Rio. Estas empresas procuram associar sua marca a projetos que trazem este modelo de negócio, que visa o crescimento econômico a longo prazo junto com o progresso social e o cuidado ambiental. Isto acaba dando visibilidade para estas mesmas empresas no mercado. Hoje, o Rock in Rio conta com um plano de sustentabilidade que tem como compromisso melhorar cada vez mais o festival, de maneira sustentável, respeitando sempre o meio ambiente e mantendo a certificação da norma ISO 20121 em todas as edições do festival, independentemente de onde ocorra, sempre cumprindo os parâmetros mais exigentes das práticas de sustentabilidade. Com as palavras de Roberta Medina (2015, p.3), esse parágrafo define o que move o projeto Rock in Rio: “Temos que assumir nãosó as nossas próprias responsabilidades, mas um compromisso coletivo, enquanto cidadãos e profissionais, em cada atividade do nosso dia-a-dia, na busca e construção de um mundo mais sustentável. O desafio é nos mantermos interessados, comprometidos e persistentes em relação às nossas opções e alternativas para que mesmo em momentos onde pareçamos estar falando sozinhos, a gente não desista. ” Mesmo que por projetos menores, o festival também busca incentivar programas que visam a sustentabilidade. O programa Lixo Zero, criado pela prefeitura em parceria com a Guarda Municipal do Rio de Janeiro busca efetivar a Lei de Limpeza Urbana (3273/2001), conscientizando a população da importância de não jogar lixo fora da lixeira. O Rock in Rio, com o objetivo de conscientizar e preservar a Cidade do Rock, vem promovendo o conhecimento dessa lei em seus eventos recorrentes. Também como incentivo ao uso de transporte público, em 2013, o evento serviu como teste do novo sistema de ônibus BRTs, utilizando frotas de ônibus especiais para o transporte até a Cidade do Rock, usando uma faixa exclusiva nas avenidas, e contando com um programa de tráfego novo que não permitia que carros, táxis e vans se aproximassem do evento para evitar o congestionamento. Vários outros pequenos detalhes também são postos em prática, como utilizar energia de 42 forma racional, uso eficiente da água, optar por fornecedores com certificações e selos de qualidade, etc. FUTURAS PERSPECTIVAS E CONSIDERAÇÕES FINAIS Mesmo não sendo ações voltadas para a atividade turística, movimentos como Por Um Mundo Melhor acabam promovendo o turismo sustentável. Porque, a princípio, a sustentabilidade se conecta a todas as áreas envolvidas num projeto, sendo uma ideia que se propaga de várias maneiras diferentes em cada caso que é aplicada, e que acaba resultando em impactos positivos de preservação em outras áreas que de alguma forma estejam interligadas, tornando-se um tema interdisciplinar. A educação ambiental que o festival proporciona aos turistas é um exemplo importante da conscientização da população em relação aos danos que os seres humanos vem causando à natureza, e essa educação tende a se repercutir cada vez mais, tornando a atividade turística do festival uma atividade saudável e sustentável. O turismo, como principal aliado deste festival, tem um grande importância para seu acontecimento, e certamente é beneficiado em inúmeros segmentos que se agregam ao acontecimento do festival. Com o incentivo do governo e da iniciativa privada os Festivais de Música podem realmente mudar o mundo. Megaeventos como os festivais de música são um segmento que movem multidões e estão em constante crescimento ao redor do mundo. Com essa visão ampla de possibilidades que são postas em prática por meio de projetos sociais, eles podem trazer imensos benefícios para o mundo de inúmeras maneiras diferentes, e sempre tendo o Turismo como seu principal aliado. O Rock in Rio é um exemplo de empreendimento, que explora o melhor da música. Por isso é tão importante o incentivo à arte, em projetos como a Lei Rouanet, para o Brasil e para o Mundo. A arte é um instrumento que transmite pensamentos e ideias que ajudam no crescimento pessoal de cada pessoa, e consequentemente, do mundo inteiro. Esse empreendimento sustentável que procura produzir resultados positivos e não visa apenas retorno econômico é o tipo de projeto que o mercado necessita para o futuro. Com incentivo e planejamento correto, os Festivais de Música podem, de fato, tornar o mundo um lugar melhor. 43 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALLEN, Johnny. Organização e gestão de eventos. 3ª Edição – 2008. Editora Campus. Arts festivals and the visitor economy -Their contribution and their potential in the West Midlands region, Arts Council England - 2010. AZEVEDO, Marta e BRAMÃO, Ricardo. Festivais de música em Portugal. 1ª Edição – 2015. Editora Compendium. BARRETTO, Margarita. 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