NUNCA+LHE+PROMETI+UM+JARDIM+DE+ROSAS
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NUNCA+LHE+PROMETI+UM+JARDIM+DE+ROSAS

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NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS

hannah green
romance e psicanálise
2? EDIÇÃO
COLEÇÃO ROMANCE E PSICANÁLISE
Volume 1 - A HORA DE CINQÜENTA MINUTOS
Uma coletânea de Contos Psicanalíticos Verídicos
de Robert Lindner
Volume 2 - A VIDA ÍNTIMA DE UMA ESQUIZOFRÊNICA
Operalores e Coisas
de Bárbara Brien
Volume 3 - O HOMEM DOS DADOS de Luke Rhinehart
Volume 4 - O FILHO DO AMOR
Um auto-retrato de Mary Hanes
Volume 5 - NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS de Hannah Green
NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS
Av. Paulista, n° 2518 - Térreo
Telefone: (0xx11) 3258-8599
emporiopaulista@terra.com.br

HANNAH GREEN
NUNCA LHE PROMETI
UM JARDIM DE ROSAS
Coleção Romance e Psicanálise
Direção
Jayme Salomão
IMAGO EDITORA LTDA.
Rio de Janeiro

Título original I NEVER PROMISED VOU A ROSE GARDEN. Traduzido da edição publicada nos E.U.A. em 1964 por The New American Library, Inc., Nova Yorque. Copyright (c) 1964 by Hannah Green
Editoração
Coordenador: Pedro Paulo de Sena Madureira
Tradução: Jayme Benchimol
Revisão tipográfica: Maria Beatriz Nascimento Gomes
Capa: Renato Sérgio Brando
1974
Direitos para a língua portuguesa adquiridos
por IMAGO EDITORA LTDA., Av. N. S. de Copacabana
330 - 10? andar - Tel.: 255-2715, Rio de Janeiro,
que se reserva a propriedade desta tradução.
Impresso no Brasil Printed in Brazil

PARA MINHAS MÃES

O carro percorria uma bela região de campos e fazendas, em pleno outono, atravessando curiosos e antigos vilarejos cujas árvores de troncos retorcidos davam, com suas tonalidades vivas, um colorido pitoresco às ruas. Seus ocupantes falavam pouco. Dos três, o pai parecia o mais cansado. Vez por outra, interrompia o pesado silêncio com migalhas de conversa, coisas casuais, sem importância, que mesmo a ele exasperavam. Voltou-se, uma vez, para o rosto da menina refletido no espelho retrovisor e perguntou: - Você sabe, não sabe, que eu não passava de um tolo quando me casei, um tolo consumado? Não tinha a menor noção de como educar uma criança, do que significava ser um pai. Defendia-se, e sua defesa também era em parte uma agressão. A menina continuou calada. A mãe sugeriu então que parassem para tomar um café e, num esforço desesperado para melhorar o clima de tensão, disse que parecia realmente que estavam fazendo uma viagem de férias, em pleno outono, com sua filha adorável, e numa região maravilhosa.
Encontraram um restaurante à beira da estrada e pararam. A menina saltou ligeira, e encaminhou-se para o motel, nos fundos do prédio. Tão logo se afastou do carro, os olhos dos pais se voltaram sobressaltados: - Deixe, ela está bem! - tranqüilizou o pai.
- Esperamos ou entramos logo? - perguntou em voz alta a mãe, falando consigo mesma. Dos dois, ela era a mais analítica. Antecipava-se às coisas, planejando tudo minuciosamente - como agir e o que dizer - enquanto o marido se deixava guiar, não só por comodismo, mas também porque geralmente era ela quem tinha razão. Naquele momento sentia-se confuso e só. Deixou-a entregue a seus planos e especulações, inclusive porque era assim que ela se consolava. Ele preferiu se manter em silêncio.
- Ficando no carro - dizia ela - estaremos ao alcance dela, caso precise de nós. Se ela sai e não nos vê... Por outro lado, devemos mostrar que confiamos nela. É importante que sinta que confiamos nela...

Decidiram finalmente entrar no restaurante, procurando aparentar a maior descontração possível. Sentaram-se numa mesa junto às vidraças, de onde podiam avistá-la dobrando a esquina do prédio, vindo em sua direção. Procuravam observála como se fosse uma desconhecida, filha de alguma outra pessoa a quem tivessem sido apresentados naquele instante, uma Déborah que não era a deles. Estudaram com atenção o corpo adolescente e desgracioso: julgaram-no bom. O rosto era inteligente e vivo, embora, para dezesseis anos, sua fisionomia ainda fosse excessivamente infantil.
Estavam habituados à sua precocidade meio tristonha, mesmo não a reconhecendo no rosto familiar que agora procuravam tratar como estranho. O pai pensou com seus botões: "Como é que desconhecidos podem ter certeza? Ela é nossa... sempre foi nossa. Eles não a conhecem. Trata-se de um erro - só pode ser um erro!"
A mãe, por sua vez, disse a si mesma observando a filha: "Minha expressão. .. não deve estar aparentando nada de anormal, nenhuma ruga - uma expressão ideal." E sorriu satisfeita. No fim da tarde, pararam em outra cidadezinha e jantaram no melhor restaurante, numa atitude de desafio e aventura, pois não estavam vestidos de forma conveniente. Terminado o jantar, foram a um cinema. Déborah parecia contentíssima com a noitada. Brincaram durante o jantar e durante o filme todo; depois, caminhando sob a noite densa da região, conversaram sobre outras viagens, congratulando-se mutuamente cada vez que recordavam algum detalhe engraçado de outras férias. Encostaram num motel para dormir, e Déborah ficou num quarto só para ela, privilégio cuja importância nem mesmo os pais que tanto a amavam podiam avaliar.
Já no quarto, sentados frente a frente, Jacob e Esther Blau perscrutavam o íntimo de cada um, perguntando-se por que, agora que estavam a sós, não conseguiam despojar-se de suas poses, respirar livremente, relaxar, e criar um clima de paz e espontaneidade. No quarto vizinho, separados apenas por uma delgada parede, podiam escutar a filha trocando de roupa para se deitar. Eram incapazes de se confessar, mesmo com os olhos, que passariam a noite em alerta, interrogando cada ruído que não fosse o de sua respiração - qualquer ruído que pudesse
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significar. . . perigo.- Apenas uma vez, antes de se deitarem para a vigília noturna, Jacob deixou cair a máscara, e sussurrou, com voz áspera, no ouvido da mulher: - Por que a estamos mandando embora?
- Os médicos acham que ela deve ir - respondeu Esther, também num sussurro, estendida rigidamente sobre a cama, com os olhos pregados na parede.
- Os médicos!. . . - Jacob jamais quisera envolvê-los no problema, mesmo no início.
- O lugar é bom - afirmou a mulher, elevando um pouco a voz.
- Eles chamam aquilo de hospital psiquiátrico, mas é um lugar, Teca, um lugar onde imprensam as pessoas. Como pode ser bom para uma menina - quase uma criança!
- Deus do Céu, Jacob - exclamou - quanto já nos custou tomar essa decisão? Se não tivermos confiança nos médicos, a quem vamos pedir conselhos, em quem confiar? O Dr. Lister diz que é a única forma de ajudá-la agora. Temos que tentar! - insistiu e voltou resolutamente a fixar os olhos na parede.
Ele se calou. Rendia-se mais uma vez à mulher, tão ágil no uso das palavras. Deram-se boa noite; fingiam dormir, respirando pesadamente para enganar um ao outro, enquanto os olhos ardiam vigilantes devassando a escuridão.
No quarto vizinho, Déborah deitou-se disposta a dormir. O reino de Yr possuía uma espécie de zona neutra chamada o Quarto Nível. Só por acaso é que se podia alcançá-la. Fórmulas e atos de vontade eram inúteis. No Quarto Nível não havia emoções para afligi-la, nenhum passado e nenhum futuro contra o qual lutar. Nem memória. Perdia-se a posse de si mesmo. Nada, exceto fatos mortos que sobrevinham espontaneamente quando ela os desejava, despojados de emoção ou sentimento.
Deitada na cama, subiu ao Quarto Nível. O futuro deixou de preocupá-la. As pessoas no quarto ao lado eram, supostamente, seus pais. Muito bem. Só que agora faziam parte de um mundo fantasmagórico, que pouco a pouco se desvanecia. Ela transitava sem dificuldade para um mundo novo, onde não se conheciam preocupações. Abandonar o mundo antigo eqüivalia a também abandonar os labirintos do reino de Yr, o Coletor de

Outros, o Censor, e todos os deuses Yri. Revolveu-se na cama e mergulhou num sono profundo, sem sonhos, repousante.
Reiniciaram a viagem na manhã seguinte. O carro já se afastava do hotel, penetrando no dia luminoso, quando ocorreu a Déborah que talvez aquela viagem pudesse durar para sempre, e que a sensação maravilhosa de calma e liberdade que sentia, fosse uma nova dádiva dos
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