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Iniciação ao Pensar - 2018.2 Seção 1 - Hermenêutica: arte e técnica da interpretação Seção 2 - O Homem na Idade da Técnica Seção 3 - Arte, Cultura e o Movimento do Pensamento Seção 4 - Em busca do tempo perdido • A fronteira entre ciência e metafísica Taiana Teixeira Seção 1 - Hermenêutica: arte e técnica da interpretação Apresentação Caro aluno, nossa aula pretende trabalhar a problemática Hermenêutica. A disciplina Iniciação ao Pensar visa aprimorar a nossa capacidade de pensar, mas o pensador é aquele que sabe que o nosso conhecimento tem uma dimensão essencialmente hermenêutica, isso é, interpretativa. O conhecimento humano nunca se satisfaz com a constatação do “que”: sempre procura o “por que” das coisas. Mas, quando procuramos o por que, entramos no campo da interpretação e não da simples constatação. Nietzsche dizia, de forma provocatória, que não existem fatos, existem interpretações. Por isso, pensar significa ir além do senso comum e perceber que a verdade não se identifica com o que se apresenta como real à evidência sensível. “O senso comum – escrevia Heidegger – possui um olhar e uma escuta próprios, resistentes a tudo aquilo que o coloca em questão”. Para superar o conhecimento do senso comum, é preciso aprender a pensar, se tornar “pensador”. - O pensador não é aquele que colhe a verdade, já pronta, no mundo. A própria imagem do filósofo como amante da sabedoria nada tem a ver com a de um ser de boa vontade que, tranquilo, goza da bem-aventurança da verdade. Como todo amante, ele é um inquieto, um ciumento pronto a decifrar as palavras da amada, a hesitação da sua voz ou a “insignificante” troca de palavras que denuncia o oculto. [...] O amor pela verdade é, pois, desconfiado e inquiridor, sempre pronto a identificar os signos que denunciam a traição do dado. (GARCIA-ROSA, 1998, p. 9) A vida, no seu conjunto, e as palavras que usamos para falar dela são como que enigmas que precisam ser decifrados, e a Hermenêutica é a arte e a técnica da interpretação; sua história começa com os esforços dos gregos para compreender e preservar os seus poetas. A partir da Renascença se afirmam três tipos de técnicas de interpretação que continuam até hoje: a hermenêutica teológica, a filosófica e a jurídica. Não podemos desconsiderar o valor social da hermenêutica, onde as normas reguladoras do convívio devem ser interpretadas por todos, como condição de seu cumprimento e obediência. Quem resgatou a Hermenêutica dentro da tradição ocidental foi o filósofo e teólogo alemão Friedrich Daniel Ernest Schleiermacher (1768-1834). A Hermenêutica de Schleiermacher A Hermenêutica de Schleiermacher é a fundamentação geral das ciências humanas contra a pretensão metodológica positivista (positivismo) das ciências experimentais. Não podemos incorrer no erro de acreditar que as ciências, tanto em sua elaboração teórica quanto em suas aplicações técnicas, estão isentas da influência da ideologia dominante na sociedade. Novamente, podemos recuperar uma provocação de Nietzsche: Por traz de toda lógica e de sua aparente soberania de movimentos existem valorações, ou, falando mais claramente, exigências fisiológicas para a preservação de uma determinada espécie de vida. (NIETZSCHE, 2000, p.11) O cientista não é e não pode ser neutro, pois a prática teórica já demonstra um engajamento, em função de uma escolha previamente determinada. Na apresentação do livro Hermenêutica: Arte e técnica da interpretação, Celso R. Braida observa: Desse modo, estabeleceu-se uma inteligibilidade própria às ciências humanas, compreensiva, distinta daquela das ciências naturais, explicativa, quantitativa e indutiva. Enquanto as ciências explicativas buscam determinar as condições causais de um fenômeno através da observação e da quantificação, as ciências compreensivas visam a apreensão das significações intencionais das atividades históricas concretas do homem. Esse modelo de racionalização, retirado da interpretação de textos, no mesmo movimento que estabelece a apreensão do sentido como essência do método das ciências humanas, delimita o alcance da metodologia das ciências naturais, questionando, acima de tudo, o próprio conceito de objetividade científica. Isso se mostra nas determinantes específicas desse modelo: a inseparabilidade de sujeito e objeto, uma vez que a compreensão hermenêutica se dá pela inserção daquele que compreende no horizonte da história e da linguagem, as quais são aquilo mesmo que deve ser compreendido; o condicionamento de toda expressão do humanismo a um determinado horizonte lingüístico, o que inclui também o resultado da compreensão, portanto, a própria ciência; a circularidade entre o todo e o particular, ou a mútua dependência constitutiva entre a parte e a totalidade, que impossibilita a compreensão por mera indução; e, por fim, a referência a um ponto de vista, ou pré-compreensão, a partir do qual se institui todo o conhecimento, que estabelece a prioridade da pergunta sobre a resposta e problematiza a noção de dado empírico puro. (SCHLEIERMACHER, 2003, pg. 07-08) A hermenêutica é a arte interpretação e da compreensão. Em sua busca por um conhecimento em geral, Schleiermacher estabelece a ponte para a hermenêutica. Ao deslocar a hermenêutica do domínio técnico para o domínio filosófico, ele aponta para o fato que a arte de compreender está conectada com o pensamento e com a fala. Ninguém consegue pensar sem palavras, são elas que completam o pensamento. A clareza do pensamento acontece quando as palavras apropriadas foram empregadas. Do diálogo do indivíduo com o texto a pergunta que surge é: o que significa interpretar e compreender? O círculo hermenêutico A totalidade da linguagem carrega as expressões dessa linguagem. O pensamento do autor tende a incorporar a sua história. Através da memória, a história continua viva, e sempre estará enquanto for contada. A interdependência entre a parte e o todo é o que chamamos de círculo hermenêutico. Ele implica que não podemos compreender a sentença completa até compreender as partes, mas não podemos compreender as partes, o significado específico de uma palavra, até termos compreendido a sentença completa. O ponto de partida para o projeto hermenêutico é o distanciamento. Aristóteles define hermeneia ao se referir à operação da mente que formula juízos que têm a ver com a verdade ou a falsidade das coisas. Podemos concluir que a interpretação é a operação fundamental do intelecto, ao formular um juízo verdadeiro sobre determinada coisa. O exercício hermenêutico é uma busca da verdade. Para que a explicação tenha clareza, se faz necessário uma boa compreensão do fato ou objeto. Uma explicação confusa deriva de uma compreensão deficiente ou incompleta. O processo da compreensão não pode e não deve ser apressado, já que poderá causar prejuízos futuro. Esse é o cuidado que o exercício da hermenêutica exige. Ao nos distanciarmos do problema, teremos condições de olhar para ele de outra perspectiva e, ao nos aproximarmos, ganharemos uma nova perspectiva. Richard Palmer pergunta: Como pode um texto ser compreendido, quando a condição para a sua compreensão é já ter percebido de que o texto fala? A resposta é que, de certo modo, por um processo dialético, há uma compreensão parcial que é usada para compreendermos cadavez mais, tal como ao manusear as peças de um puzzle adivinhamos o que dele falta. Uma obra literária fornece um contexto para a sua própria compreensão; um problema fundamental em hermenêutica é explicar como é que um horizonte individual se pode acomodar ao horizonte da obra. É necessário um certo conhecimento prévio, sem o qual não haverá qualquer comunicação. No entanto, esse conhecimento tem que ser alterado no acto da compreensão. A função de uma interpretação explicativa na interpretação literária pode ser vista neste contexto, como um esforço para colocar os fundamentos numa pré-compreensão que permita compreender o texto. À medida que consideramos estas duas orientações da interpretação (dizer e explicar), a complexidade do processo interpretativo e o modo como ele se baseia na compreensão começam a aparecer. A interpretação como dizer, relembra a natureza da leitura como performance; contudo, mesmo na performance que é ler um texto literário, o actor tem que o compreender. Isto implica explicação; mas aqui, mais uma vez a explicação se fundamenta numa pré-compreensão, de modo a que anteriormente a qualquer explicação significativa ele tem que entrar no horizonte do tema e da situação. Ele tem que, na própria compreensão do texto, agarrar esse texto e ser agarrado por ele. A sua posição neste encontro, a pré-compreensão do material e da situação a que tem que chegar, numa palavra, todo o problema da fusão do seu horizonte compreensivo com o horizonte compreensivo que vem ao encontro dele no texto, nisto consiste a complexa dinâmica da interpretação. É o problema hermenêutico. (PALMER, 2006, pg. 35-36) A dinâmica da interpretação A dinâmica da interpretação é o que possibilita o exercício hermenêutico. Comunicar é historicidade (essencialmente a afirmação da temporalidade da experiência humana). É a experiência do individuo se materializando em um discurso que tem por objetivo erguer uma ponte dialógica entre quem fala e quem escuta de forma oral ou escrita. A compreensão tende a nos orientar em uma determinada situação. Se limitarmos a compreensão à apreensão de um determinado fato, todo o processo existencial presente em sua essência tende a desaparecer. Compreender deriva do ato de interpretar, que é conhecimento, que é a disposição do ser, ou seja, a sua experiência existencial. Através da compreensão do texto, buscamos a possibilidade de ser indicado por ele. Conhecer um texto é conhecê-lo através de quem somos. E o que nós somos? Nós somos todos os livros, diálogos, experiências, lições, vivências e conhecimentos adquiridos ao longo da nossa história. Interpretamos a partir de quem somos, por isso é impossível sermos neutros, mesmo tentando muitas vezes. O segredo da hermenêutica está na mediação operada pela leitura entre o mundo do texto e o mundo do leitor; dela deriva a busca de sentido. O que muitas vezes pretendemos compreender não é o evento, mas a sua significação que permanece. Ao unir as várias hermenêuticas específicas numa hermenêutica universal compreendida como arte da compreensão, Schleiermacher resgata o valor da hermeneia, tão bem compreendida pelos gregos. A hermenêutica é o modelo para a compreensão correta das várias manifestações da vida em sua complexidade. A compreensão sempre será interpretação, já que conhecer é interpretar; mas compreender de forma que nos leve a evitar erros não é uma tarefa fácil. Na teoria hermenêutica, o homem estará sempre relacionado ao seu passado; dessa relação, a hermenêutica moderna encontra a sua fundamentação teórica na história. O significado é histórico. Mudar com o tempo é uma questão de relação, uma perspectiva a partir da qual os fatos são considerados. Um evento ou uma experiência podem alterar de tal modo as nossas vidas que aquilo que anteriormente tinha significado pode deixar de ter e que uma experiência passada aparentemente sem sentido pode tornar-se retrospectivamente significativa. O sentido do todo determina a função e o sentido das partes. E o sentido é algo histórico; é uma relação do todo e das partes encarada por nós de determinado ponto de vista, num determinado tempo, para uma dada combinação de partes. Não é algo acima ou fora da história, mas a parte do um círculo hermenêutico, sempre historicamente definido. (PALMER, 2006, pg. 124) O sentido e o significado são, portanto, contextuais. Dessa forma, mudam com o tempo, é uma questão de relação, determinada por uma perspectiva. Se a interpretação ignorar a história, estará incompleta. A interpretação tem suas regras, e dentre elas o interprete não pode e não deve mergulhar totalmente no seu objeto, mas deve buscar um caminho que seja viável entre o seu horizonte e o projetado pelo texto. A compreensão não pode ser considerada como um mero ato do pensamento, mas como uma transposição e uma nova experiência de mundo, tal qual a nossa experiência de vida. Os caminhos da interpretação Quando falamos de hermenêutica precisamos pensar em três coisas: métodos precisos com regras rigorosas; uma reflexão bem fundamentada do que seja a própria natureza do compreender; e por último, uma espécie de filosofia, como outra via de conhecimento que pretende compreender as condutas científicas melhor do que elas conseguem. É a busca de sentido que é a força motriz do processo de interpretação. Para a construção de uma hermenêutica rigorosa precisamos de regras que apontem para uma nova via do conhecimento. Richard Palmer aponta para trinta teses sobre a interpretação, mas aqui vamos recuperar somente dois elementos, que consideramos fundamentais. 1 - A experiência hermenêutica é dialética. Os frutos desse fato só podem ser colhidos quando a experiência for concebida não como consciência que percebe objetos, mas como compreensão que alarga e ilumina a autocompreensão. 2 - A tarefa da interpretação. É construir uma ponte sobre a distância histórica. Ao interpretar um texto do passado, o intérprete não esvazia a sua mente nem abandona absolutamente o presente; ele o leva e o utiliza para compreender, no encontro dialético do seu horizonte com o horizonte da obra literária. A compreensão não é um conhecimento histórico fora do tempo; situa-se num lugar específico no tempo e no espaço, ou seja, na história. A sua interpretação se reveste de características diferentes à medida que aparece ao leitor. Em resumo, a própria interpretação é histórica, e se tentarmos fazer dela qualquer outra coisa ao acrescentar ou tirar algo, empobrecemos a interpretação e nos empobrecemos com ela. • Chegamos ao fim da nossa seção e algumas coisas precisam ficar bem compreendidas. Primeiro, para que aconteça o exercício hermenêutico, precisamos levar em conta a historicidade. Historicidade não quer dizer concentração no passado, nem tão pouco estarmos presos a ideias do passado; historicidade é essencialmente a afirmação da temporalidade da experiência e do conhecimento humanos. A experiência e o conhecimento são intrinsecamente temporais, dessa forma, eles se constroem com e no tempo.Segundo, o exercício hermenêutico se dá em um processo dialético entre o todo e a parte, cada um dando sentido ao outro; donde podemos concluir que a compreensão é circular (círculo hermenêutico). Terceiro, a hermenêutica tem um objetivo a ser atingido, que é interpretar e compreender melhor um fato ou um texto. A tarefa da interpretação é um processo de construção que se define pelo diálogo com o passado. Por último, o interprete não se encontra fechado em si mesmo, mas aberto para o texto em uma relação de espanto. Contudo, existe também um preço a se pagar por uma filosofia hermenêutica, como observar David Pellauer. O preço a pagar por essa filosofia hermenêutica, percebe Ricoeur, é ter que desistir de qualquer pretensão imediata à universalidade em prol da busca de uma fusão entre contingência e universalidade no exercício da interpretação. Também reconhece que a questão de saber se o conflito de interpretação pode ser finalmente resolvido permanece em aberto. (PELLAUER, 2009, pg. 69) Acredito que o conflito de interpretações não estará resolvido sem diálogo, mas é apenas através dele que será encontrada uma solução. Termino com uma citação de Garcia-Rosa que apresenta a hermenêutica como algo constitutivo do conhecimento humano. Se a palavra fosse unívoca, seríamos máquinas, ou mais rigorosamente ainda, seríamos naturais. O homem surge e instala-se no lugar do desamparo, isto é, no lugar onde não há garantia alguma da verdade do outro. Sem esse desamparo fundamental não haveria intersubjetividade, mas interobjetividade, ausência completa de qualquer coisa que se assemelhasse à inteligência humana. O que funda a subjetividade é a opacidade, a não-transparência e, com ela, a possibilidade da mentira, do ocultamento, da distorção. Pretender uma palavra que elimine o equivoco é pretender uma palavra super-humana. Essa palavra representaria, porém, a morte do homem, seu portador seria sem falta, sem desejo, estaria de posse da garantia plena, mais próximo dos deuses do que dos homens. Que não me tomem por um apologista da mentira, da distorção, do ocultamento. Não pretendo fazer aqui a defesa da má consciência, mas sim desfazer a ilusão da palavra plena, da transparência ingênua ou artificial pretendida pelos positivistas. (GARCIA-ROSA, 1998, p. 38-39) TEXTOS DO PAUL RICOEUR NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA Referências GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método: Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis, Editora Vozes, 1997. HEIDEGGER, Martin. A Caminho da linguagem. Petrópolis, Editora Vozes, 2003. NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. São Paulo, Editora Companhia das Letras, 2000. PALMER, E. Richard. Hermenêutica. Lisboa, Editora 70, 2006. PELLAUER, David. Compreender Ricoeur. Petrópolis, Editora Vozes, 2009. ROSA, Luiz Alfredo Garcia. Palavra e verdade na filosofia antiga e na psicanálise. Rio de Janeiro, Editora Jorge Zahar, 1998. SCHLEIERMACHER, Friedrich D.E. Hermenêutica: Arte e técnica da interpretação. São Paulo, Editora Universitária São Francisco, 4° edição, 2003. SCHMIDT, Lawrence K. Hermenêutica. Petrópolis, Editora Vozes, 3° edição, 2014. Seção 2 - O Homem na Idade da Técnica Apresentação A técnica é a essência do homem e não existem mais dúvidas quanto a isso. Vivemos na idade da técnica; basta olhar para a nossa realidade onde fazemos uso continuo das mais diversas tecnologias como os computadores, celulares, tablets, internet, etc. As tecnologias da informação facilitam o nosso trabalho, estudo, consumo e diversão. Mas nem tudo são benesses; a mesma tecnologia que facilita o trabalho pode gerar o desemprego; a facilidade que temos para conseguir informações pode gerar indiretamente uma desvalorização da mesma. Sempre que a tecnologia se afirma em uma determinada cultura, aqueles que fazem uso delas tendem a se acomodar diante das suas facilidades. O objetivo da nossa reflexão é compreender o que é a “técnica”, assim como definir e explicar a ‘aproximação’ entre técnica e tecnologia. Antes de continuarmos, vamos definir o que seja a “técnica” e “tecnologia”. Segundo o Dicionário de filosofia de Nicola Abbagnano (1999), a tecnologia é “o estudo dos processos técnicos de um determinado ramo de produção industrial ou de mais ramos” (p.942). Já a técnica, (...) compreende qualquer conjunto de regras aptas a dirigir eficazmente uma atividade qualquer. Nesse sentido, técnica não se distingue de arte, de ciência, nem de qualquer processo ou operação capaz de produzir um efeito qualquer: seu campo estende-se tanto quanto o de todas as atividades humanas. (Idem, p.939) Para a maioria das pessoas a sociedade em que vivemos é infinitamente melhor do que aquelas do passado, porém é inegável que gradativamente o homem perde, a cada dia, um pouco da sua noção de humanidade, ao se render as facilidades que a sociedade da informação nos concede. A técnica se tornou um prolongamento da metafísica já que ela podia apresentar a essência no momento que se afirmava na natureza. Compreender o homem em sua relação com a natureza é interpretar a técnica. A ciência foi sempre a representante do mundo e a compreensão do seu passado representa abertura para o futuro. Toda inquietação que define a relação homem/natureza necessariamente precisa passar pelo olhar da técnica. A ciência newtoniana A ciência produzida por Isaac Newton, que se desenvolve nos séculos XVII e XVIII, promete dominar o futuro (Vídeo Teoria do Caos). A ciência newtoniana apresenta a evolução de um sistema mecânico em função das condições de partida, ela inventa o “tempo” e o determinismo. Sua ciência mostra que o futuro não é um objeto misterioso e indomável, na qual se exprimem as forças e caprichos dos deuses. Se você compreender o início, vai compreender o meio e, concomitante, o fim. O futuro se torna previsível. Predizer o futuro é construí-lo antevendo as conseqüências dos seus atos. Como afirma Bruno Jarrosson: A técnica torna-se o braço secular da neurose do domínio. A ideia de domínio vai unir-se ao sistema econômico. Este sistema cria uma troca entre o conforto e a liberdade. O homem renuncia à liberdade do seu horário e de movimento no trabalho para gozar os benefícios da produção em massa. Para um maior domínio numa área – a do conforto, do domínio do futuro - , o homem perde algum domínio noutra: a da disponibilidade, do domínio do seu presente. (JARROSSON, 1998, pg. 16-17) O que Jarrosson nos apresenta é que a técnica nos promete o conforto decorrente do domínio do futuro, mas, por outro lado, o sentido do presente desaparece em decorrência de olharmos sempre para o que não chegou ainda. O tempo do presente desaparece em função do tempo do futuro, um tempo intangível por ser inexistente. O que a história da humanidade nos mostrou é que o domínio da tecnologia não nos garante dominar a história.Os efeitos de nossos atos a longo prazo continuam imprevisíveis. A tecnologia que faz do nosso planeta uma aldeia onde o espaço se contrai em decorrência da velocidade (tanto dos meios de transportes quanto da informação) confirma a sensação de caos e impotência. Ao mesmo tempo, da ciência nasce a tecnologia que é usada para dominar a natureza. Ora aplicando o segundo princípio da termodinâmica, este uso da tecnologia produz sempre resíduos indesejáveis. Cada vez que produzimos alguma coisa que quisemos, produzimos inevitavelmente alguma coisa que não quisemos. Quando me desloco de carro, produzo a deslocação que quis e gases poluentes que não quis. Quando estes efeitos indesejáveis se tornam não desprezáveis como hoje em dia, o homem é obrigado a utilizar a sua própria tecnologia para eliminar esses resíduos. Mais um limite que faz duvidar da capacidade da ciência em solucionar os problemas, em particular os que ele mesma provoca. (Idem, 1998, pg. 23-24) REVISTA CIÊNCIA E VIDA (FILOSOFIA) Nº 79 FEVEREIRO 2013 Não resta dúvida que a constituição da vida é imprevisível. Toda ideia que foi lançada quanto à possibilidade de dominar o futuro se mostrou impossível. Contudo, o nosso dever é trabalhar para transformar o futuro em algo aceitável. Para isso, precisamos compreender o papel do tempo a partir da técnica, para, dessa compreensão, entender como as tecnologias modificaram profundamente a nossa experiência do tempo. A ciência afirma que o tempo existe. O tempo é o tempo. É ele que nos traz a eventualidade e o imprevisto. É ele que tem a capacidade de nos espantar. Nós sabemos que o mundo está contido no tempo que transcorre uniformemente. Newton postulou a existência de um tempo idêntico em toda parte e que passa de forma uniforme. Esse é o tempo objetivo. Mesmo que para cada indivíduo a sua experiência seja subjetiva. O decorrer uniforme do tempo contraria a nossa experiência íntima da duração, mas é fundamental para a vida social. A nossa sensação do tempo não coincide com o decorrer do tempo dito objetivo, para isso usamos um relógio que sincroniza a nossa sensação do tempo com o tempo objetivo. Pelo contrário, no tocante ao espaço, sabemos medir o espaço objetivo a partir da nossa sensação, sem necessitarmos de um metro. O fato de usarmos um relógio e não um metro é significativo. O ajuste no espaço faz-se pela mobilidade, o que é impossível no tempo. Este tempo encaixa perfeitamente na concepção matemática do mundo que então prevalecia, como observa Jarrosson. A técnica enquanto essência do homem A nossa realidade é composta de dois tipos de discursos; de um lado estão os pessimistas quanto ao valor da técnica e das tecnologias; e de outro, aqueles que alimentam um entusiasmo ingênuo quanto a sua função e papel social. Encontrar o equilíbrio requer de nós prudência. Todo o pensamento que é construído de forma apressada tende a gerar um prejuízo. Precisamos interpretar o problema com cuidado e atenção, para não perder de vista o que o fundamenta, ou seja, o homem tem em sua essência a técnica. Quando afirmo que a técnica é a essência do homem, aponto para a sua capacidade de criar e reinventar ferramentas a partir das suas necessidades. Basta olharmos para o processo evolutivo, que encontraremos aliada às necessidades humanas as ferramentas que facilitaram o desenvolvimento da espécie. Essa relação homem, ambiente, necessidade exigiu o uso da criatividade como meio de sobrevivência. O que nos difere dos animais é o instinto. Eles fazem uso apenas dessa condição para viver no mundo, nós, por outro lado, somos providos de razão e sensibilidade. A nossa capacidade de interpretar o mundo possibilita a construção de sentido, ou seja, podemos antecipar, projetar, idealizar e transformar o mundo que nos cerca. Para que isso aconteça temos a técnica. Umberto Galimberti afirma: Nesse sentido, é possível dizer que a técnica é a essência do homem, não só porque, em razão da sua insuficiente dotação instintiva, o homem sem a técnica não teria sobrevivido, mas também porque, explorando essa plasticidade de adaptação que deriva da generalidade e não-rigidez dos seus instintos, pôde alcançar “culturalmente”, por meio de procedimentos técnicos de seleção e estabilização, aquela seletividade e estabilidade que o animal possui “por natureza”. (GALIMBERTI, 2006, pg. 9) A carência biológica do ser humano, no tocante aos instintos (eles não são suficientes para a sua sobrevivência) e sua relação com o mundo, precisa ser compensada e essa compensação é realizada pela técnica. Por meio dela, os procedimentos de interação do homem com o mundo se realizam através de seleção e descarte. Aquilo que funciona bem tende a ser incorporado à nossa vida cotidiana, mas o que não funciona será descartado. Ao delimitarmos, a experiência opera na realidade, e tudo o que não é possível de realização será deixado para trás. Para a construção do real, a técnica escolhe entre cenários possíveis, e o mundo que ela constrói nasce por eliminação dos mundos não acontecidos. A técnica é meio para um fim, mas isso não quer dizer que seja um simples meio; ela é desencobrimento (alétheia), como afirma o filósofo Martin Heidegger. O desencobrimento acontece com propriedade toda vez que o homem se sente chamado a acontecer no mundo. O que a essência da técnica tem a ver com desencobrimento? Tudo. Pois é nele que se funde a produção. Continuação: A técnica O desencobrimento dominante da técnica moderna se afirma pelo explorar. Mas qual seria a diferença entre explorar e acontecer? O explorar toma o agir como um fim em si onde o objetivo final é o lucro; o acontecer é mais profundo, ele possibilita ao homem, através do fazer, dar sentido à sua humanidade. Ao transformar o mundo através das suas ferramentas, o homem não busca apenas uma melhor organização do ambiente, mas prepara novos ambientes a partir da possibilidade da criação. O mundo não é constituído apenas de coisas, mas principalmente de ações, e é nelas que o homem encontra o sentido para a sua existência. A teoria da natureza, proposta pela física moderna, não preparou caminho para a técnica, mas para a essência da técnica moderna. Pois a força de exploração, que reúne e concentra o desencobrimento da disposição, já está regendo a própria física, mesmo sem que apareça, como tal, em sua propriedade. A física moderna é a precursora, em sua proveniência ainda incógnita, da com-posição. A essência da técnica moderna se encobre e se esconde, durante muito tempo ainda, mesmo depois de já se terem inventado usinas de força, mesmo depois de já se ter aplicado a técnica elétrica aos transportes ou descoberto a técnica atômica. Tudo que é essencial, não apenas a essência da técnica moderna se mantém, por todaparte, o maior tempo possível, encoberto. Todavia, a sua regência antecede tudo, sendo o primordial. Os pensadores gregos já o sabiam, ao dizer: o primeiro, no vigor de sua regência, a nós homens só se manifesta posteriormente. O originário só se mostra ao homem por último. Por isso, um esforço de pensamento, que visa a pensar mais originariamente o que se pensou na origem, não é a caturrice, sem sentido, de renovar o passado, mas a prontidão serena de espantar-se com o porvir do princípio. Para a cronologia historiográfica, o início das ciências modernas da natureza se localiza no século XVII, enquanto que a técnica das máquinas só se desenvolveu na segunda metade do século XVIII. Posterior na constatação historiográfica, a técnica moderna é, porém, historicamente anterior no tocante à essência que a rege. (HEIDEGGER, 2002, pg. 25) A técnica não é o resultado da modernidade, ela deriva da predisposição do ser humano em transformar o mundo a partir da sua essência. Dessa relação homem/mundo, o primeiro não pode confiar nos esquemas inatos decorrentes da genética, ele precisa construir os seus esquemas de leitura da natureza, para através deles, compreender o mundo. O que direciona a sua leitura da natureza é a sua objetividade: atingir um objetivo é a finalidade da técnica, contudo, a objetividade só ganha sentido quando a subjetividade é exercitada com clareza e disposição. Efeito da técnica seletiva é um cada vez maior distanciamento do homem em relação ao mundo, que, por sua vez, é captado mais por sinais perceptivos e potencialidade de desenvolvimento intuídas, ainda que não percorridas operacionalmente. Esse distanciamento é a raiz primeira daquilo que a filosofia e a ciência chamam de objetividade, ou seja, a capacidade de abraçar o mundo com um olhar, de olhá-lo de cima, com a possibilidade de intervir a partir do aceno que se dá no seio de uma rede de disposição facilmente calculáveis, porque evidenciada pela seleção anteriormente ocorrida. Isso significa que a objetividade nada mais é que o esquema comprovado da percepção subjetiva, a qual, desprovida de esquemas inatos de resposta à profusão de estímulos que chegam ao mundo, por meio da seleção classifica, diferencia, privilegia, rejeita, criando o esquema do mundo testado pela ação. (GALIMBERTI, 2006, pg. 111) Eu diria que a técnica é a subjetividade se apresentando de forma objetiva com o intuito de transformar a realidade; dessa transformação, a humanidade cumpre o seu papel. Todavia, com a aceleração do tempo por conta das transformações da modernidade, assim como a aceleração da vida através da revolução industrial, a própria experiência do real se modifica e tudo se torna muito rápido. Nessa experiência acelerada que não nos deixa espaço para a reflexão é onde acontecem os erros de interpretação: os pessimistas em relação à técnica e os otimistas exagerados. É fato: a técnica não é neutra. Galimberti observa: Para nos orientar, precisamos antes de tudo acabar com as falsas inocências, com a fábula da técnica neutra, que só oferece os meios, cabendo depois aos homens empregá-los para o bem ou para o mal. A técnica não é neutra, porque cria um mundo com determinadas características com as quais não podemos deixar de conviver e, vivendo com elas, contrair hábitos que nos transformam obrigatoriamente. De fato, não somos seres imaculados e estranhos que às vezes se servem da técnica e às vezes delas prescindem. Pelo fato de habitarmos um mundo em que todas as suas partes estão tecnicamente organizadas, a técnica não é mais objeto de uma escolha nossa, pois é o nosso ambiente, onde fins e meios, escopos e idealizações, condutas, ações e paixões, inclusive sonhos e desejos, estão tecnicamente articulados e precisam da técnica para se expressar. (2006, pg. 08) Continuação: A técnica O que estou tentando mostrar é que a técnica transforma, facilita, dignifica, mas também pode levar o homem a um estado de alienação e angústia. A razão é simples: sempre que a técnica nos dá alguma coisa, nos tira outras. Já que a história não volta atrás, precisamos aprender com os nossos erros, para, através deles, construir outro caminho, onde humanismo e técnica se encontrem. O que mudou foi a nossa maneira de conhecer a realidade. A verdade dos fenômenos está sempre limitada pela velocidade do aparecimento. Quando ocorre a aceleração, a nossa forma de interpretar os fatos também muda, e essa mudança precisa ser bem definida. Primeiro, o tempo lento, analógico e rico de sentido está desaparecendo. Em seu lugar surge o tempo determinado pelo ritmo das máquinas. Segundo, esse tempo veloz não é de todo ruim. Se conseguirmos aprender a lidar com ele, ganharemos novas experiências. Terceiro, a tecnologia e as ciências, ao mudarem a arquitetura do mundo, definem uma nova forma de homem: o que arquiteta a sua realidade através da experiência da aceleração. Novas narrativas surgem no mundo tecnológico. Outras formas de conhecimento se apresentam regidas muitas vezes pela força da convergência, onde som, imagem, escrita se mesclam como a única forma de comunicação. O homem hoje ganha muitas experiências, isso é incontestável, o que está em jogo é a sua capacidade para tirar lições de cada uma delas. O tempo hoje não pára, mas se acelera. Paul Verilio observa: O tempo de que se trata aqui é o da cronologia, o tempo que não pára, que escorre perpetuamente, o tempo linear cotidiano; ora, o que as técnicas da fotosensibilidade trouxeram de novo e que Rodin ainda não havia percebido é que a definição do tempo fotográfico não é mais aquela do tempo que passa, mas, essencialmente, a de um tempo que se expõe, que “faz superfície”, um tempo de exposição que desde então substitui o tempo da sucessão clássica. O tempo da rápida tomada de imagens é portanto, desde sua origem, o tempo-luz. (VERILIO, 1999, pg.110) Hoje existe certo desequilíbrio entre a informação direta de nossos sentidos e a nossa capacidade de interpretá-la. Somos estimulados a todo instante, mas o ritmo atropela aquele tipo de reflexão fundamental para o desenvolvimento do individuo que permite ouvir a voz interior. O desequilíbrio entre informação direta de nossos sentidos e a informação mediatizada das tecnologias avançadas é hoje tão grande que terminamos por transferir nossos julgamentos de valor, nossa medida das coisas, do objeto para a sua figura, da forma para a sua imagem, assim como dos episódios de nossa história para a sua tendência estatística, de onde o grande risco tecnológico de um delírio generalizado de interpretação. (Ibidem, pg. 40) O risco está em perder a capacidade de interpretar o real em sua realidade e se deixar levar pelas aparências das coisas. Todo ato de reflexão precisa de tempo para colocarem pratica a sua dinâmica interna. Se o tempo tende a ser acelerado, a própria reflexão tende a se tornar superficial e limitada por uma necessidade de urgência. A automação absoluta da personalidade humana não apenas tende, aos poucos, a apagar a nossa humanidade, mas, pior, transformar a automação como o único modelo de humanidade. O vídeo da professora Olgária Matos explica bem essa relação entre tempo e subjetividade. Conclusão: A técnica O desenvolvimento da tecnologia conduziu ao decrescimento da capacidade do trabalhador de se realizar enquanto ser humano. Se as relações sociais em determinado período se afirmavam pelo trabalho, nos últimos anos passaram a ser constituídas pelo consumo. A divisão técnica da produção e a sua continua mecanização tendem a fraturar a subjetividade do trabalhador desde o momento que ele passa a confiar mais na sua ferramenta de trabalho (tecnologia) do que em seu próprio talento. O que distingue a era moderna é a alienação em relação ao mundo. O homem conseguiu dominar a natureza através da ciência e da técnica, mas perdeu a capacidade de sentir e perceber esse mundo. Com o desenvolvimento dos meios de transportes ocorre o “encolhimento do espaço” e a abolição da distância; dessa nova experiência do tempo surge um homem preso ao tempo das máquinas. Segundo Hannah Arendt: Os homens vivem agora num todo global e contínuo, no qual a noção de distância, inerente até mesmo à mais perfeita contigüidade de dois pontos, cedeu ante a furiosa arremetida da velocidade. A velocidade conquistou o espaço; e, ainda que este processo de conquista encontre seu limite na barreira inexpugnável da presença simultânea do mesmo corpo em dois lugares diferentes, eliminou a importância da distância, pois nenhuma parcela significante da vida humana – anos, meses ou mesmo semanas – é agora necessária para que se atinja qualquer ponto da terra. (ARENDT, 2004, pg. 262) Com a aceleração do tempo, acontece a contração do espaço e a concomitante abolição das distâncias. A nova relação homem/natureza ganha outro contorno, ou seja, o estranhamento. O ego humano olha para a natureza e só consegue enxergar um adversário. Ao invés de encontrar qualidades objetivas nessa relação, criamos instrumentos com a finalidade de fortalecer o ego dominador daquilo que se tornou o homem moderno, que encontra apenas os seus desejos. A moderna perda da fé não é de origem religiosa – não pode ser atribuída à Reforma nem à Contra-Reforma, os dois grandes movimentos religiosos da era moderna – e seu alcance não se limita de modo algum à esfera religiosa. Além do mais, mesmo que admitíssemos que a era moderna teve início com um súbito e inexplicável eclipse da transcendência, da crença de uma vida após a morte, isto não significa absolutamente que esta perda houvesse lançado o homem de volta ao mundo. Ao contrário, a história demonstra que os homens modernos não foram arremessados de volta a este mundo, mas para dentro de si mesmo. Uma das mais persistentes tendências da filosofia moderna desde Descartes, e talvez a mais original contribuição moderna à filosofia, tem sido uma preocupação exclusiva com o ego, em oposição à alma ou à pessoa ou ao homem em geral, uma tentativa de reduzir todas as experiências, com o mundo e com outros seres humanos, a experiência entre homem e si mesmo. (Ibidem, pg. 265-266) A crítica que faço é justamente no quesito perdas e ganhos. Se, por um lado, as tecnologias nos concedem um determinado tipo de conforto, por outro lado, nosso ego se agigantou de tal forma que a humanidade desaparece em sua característica mais marcante: a necessidade do outro. O utilizável toma o lugar do útil, o outro deixa de ser um fim para se tornar um meio, e a distância física ou existencial constrói uma nova geografia onde o medo se afirma. Basta olharmos para a história que podemos constatar que as modernas tecnologias resultaram, não da evolução daquelas ferramentas que o homem sempre inventou, mas da busca de conhecimento inútil, muitas vezes desprovidas de senso prático. Se compararmos o mundo moderno com o mundo do passado, veremos que a perda da experiência humana acarretada por esta marcha de acontecimentos é extraordinariamente marcante. Não foi apenas, e nem sequer basicamente, a contemplação que se tornou experiência inteiramente destituída de significado. O próprio pensamento, ao tornar-se mera previsão de conseqüências, passou a ser função do cérebro, com o resultado de que se descobriu que os instrumentos eletrônicos exercem essa função muitíssimo melhor do que nós. (Ibidem, pg. 335) ARTIGO REVISTA FILOSOFIA: CIÊNCIA E VIDA O futuro enquanto abertura Agora, a solução jamais estaria na erradicação da tecnologia, ou mesmo na eliminação do pensamento cientifico. Precisamos resgatar a humanidade perdida nos caminhos da história, e para isso precisamos de um novo olhar, onde o homem reconheça o valor do outro através do diálogo. A técnica é uma linguagem. Ela diz algo sobre o mundo, quando materializa uma visão do mundo. A linguagem faz parte da realidade, assim como a técnica. O humanismo pode ser descrito pela diferença entre homem e natureza. Pelo domínio, o homem conhece a natureza, e através do domínio tecnológico o homem ganha poder. Se existe a intima ligação entre homem e técnica, a responsabilidade do homem diante da vida deve nortear esse diálogo. O melhor caminho está em compreender o que seja aprender. Aprender com os erros e reconhecer as nossas limitações individuais já será um bom começo. O processo de evolução nos deixou lições significativas; quem não se adaptou desapareceu. Contudo, se adaptar, no nosso caso, não é aceitar tudo como está, mas buscar melhorar o que precisa ser melhorado, assim como transformar o que precisa ser transformado. Compreender os mecanismos emocionais, ambientais, físicos, que nos levam a aprender e ensinar será a melhor maneira de entender o valor da técnica. A evolução tecnológica não se resume aos usos de determinados equipamentos. Ela altera comportamentos. A banalização tecnológica não transforma apenas o comportamento individual, mas modifica a estrutura de grupos sociais. A mobilidade humana, e aqui falo em todos os sentidos, se dá mediada pelas tecnologias que lhe são contemporâneas. Ao transformar a nossa forma de pensar e agir, muda o nosso modo de comunicação e de conhecimento. Como as tecnologias estão permanentemente em mudança, precisamos encontrar o melhor caminho para podermos aprender o máximo possível do que elas têm para nos ensinar. Porém, partindo do valor da vida individual e coletiva. Todavia, as tecnologias da informação e comunicação rompem com a narrativa contínua e seqüenciada das narrativas orais e dos textos escritos, ao apresentar o fenômeno da descontinuidade.Não existe espaço para narrativas longas. A velocidade determina um novo ritmo do que seja aprender, ensinar, conhecer, interpretar e viver. As riquezas dos detalhes tendem a passar despercebidas já que o olhar não cumpre mais o seu papel. A temporalidade e sua espacialidade fragmentam de tal forma as experiências humanas que por vezes duvidamos do que seja o real. O conhecimento se torna o conhecimento da memória curta ou mesmo “antimemória” (uma ferramenta que toma o lugar da mesma de forma metafórica); um conhecimento sem uma organização central que determine um início. O nosso desafio será compreender esse novo mundo em que uma nova percepção leva a uma nova sensibilidade. Durante toda a história da humanidade a experiência humana foi construída dentro de uma vivência de espaço-tempo. Essa nova arquitetura, onde a geografia pode ser real ou virtual, onde a comunicação redefine o conceito de tempo, a própria existência muda radicalmente. A técnica enquanto meio se torna fim, e o homem enquanto fim se torna meio. É uma triste realidade. A resolução do mundo na sua representação, a dissolução da modalidade espaço-temporal com que até agora o homem fez a experiência do mundo, o enfraquecimento do princípio de individualização, com o conseqüente delírio de onipotência, são só alguns aspectos aqui relembrados para refutar definitivamente aquela teoria tão difundida, ao ponto de parecer óbvia, segundo a qual os instrumentos técnicos seriam neutros e disponíveis para qualquer uso, porque a sua moralidade ou imoralidade, humanidade ou desumanidade, democraticidade ou antidemocraticidade dependeriam exclusivamente de como eles são usados. Essa teoria de neutralidade moral da técnica, além de reduzir a moral à simples consideração do existente, se esquece que as invenções técnicas não são nunca apenas “técnicas”, porque toda técnica comporta uma modalidade de uso que plasma quem a usa, independente do uso que dela faz. Ora, a mídia, colocando-nos em contato não com o mundo, mas com a sua representação, entregando-nos uma presença sem dimensão espaço-temporal, porque retesada na simultaneidade e na pontualidade do instante, modificando o nosso modo de fazer experiência, aproximando de nós o distante e afastando o próximo, familiarizando-nos com o estranho e fornecendo-nos códigos virtuais para a interpretação do mundo real, produzem modificações no homem independentemente das modalidades de uso da própria mídia. (GALIMBERTI,2006, pg. 731) Não seria coerente atribuir às tecnologias da informação o caráter de grande vilã do presente. Sabemos que prejuízos significativos se afirmam diariamente em decorrência de um mau uso, mas não podemos esquecer que elas foram criadas para cumprir um determinado papel. O que acontece é a soma de um desejo alienado de dominar a natureza com o peso de ser subjugado pela tecnologia que criou. A técnica nos deu os meios para agir no mundo, as tecnologias buscaram transformar o mundo no resultado de sua eficiência, e desse resultado a humanidade tende a perder a sua capacidade de agir humanamente. O futuro está aberto enquanto obra da humanidade, mas colocar na tecnologia o único caminho para construí-lo é um risco. Precisamos encontrar o nosso papel no mundo, mas, para isso, precisamos reconhecer os erros do passado e do presente, para, a partir deles, escrever um novo futuro. O que nos faz tão especiais é a nossa capacidade de superação, mas o que nos define é a nossa humanidade. Que o futuro nos reserve um bom lugar para exercê-la corretamente. Referências ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo, Ed. Martins Fontes, 3° edição, 1999. ARENDT, Hannah. A Condição humana. Rio de Janeiro, Editora Forense Universitária, 10° edição, 2004. GALIMBERTI, Umberto. Psiche e techne: O homem na idade da técnica. São Paulo, Editora Paulus, 2006. HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Petrópolis, Editora Vozes, 2002. JARROSSON, Bruno. Humanismo e técnica: O humanismo entre economia, filosofia e ciência. Lisboa, Instituto Piaget, 1998. VERILIO, Paul. O Espaço crítico e as perspectivas do tempo real. São Paulo, Editora 34, 1993. Leitura Complementar - A fronteira entre ciência e metafísica No pensamento grego, ciência e filosofia estavam unidas, elas só se separam na modernidade. A ciência moderna nasce a partir da determinação de um objeto específico de investigação e do controle desse processo. A utilização de métodos rigorosos levou a ciência à construção de um conhecimento sistemático, preciso e objetivo. Através desse método é que as relações universais e necessárias são descobertas, possibilitando, assim, a previsão de acontecimentos e gerando dados que permitem agir na natureza de forma segura. A revolução cientifica moderna tem o seu ponto de partida com Nicolau Copérnico (1473-1543). Em sua obra De revolutionibus orbium coelestium (Sobre o movimento das órbitas celestes, 1543), ele defende, através da representação matemática, um modelo de cosmo em que o Sol é o centro (sistema heliocêntrico), e a Terra apenas mais um astro girando em torno do Sol, rompendo assim com o modelo geocêntrico. Esse foi o fator determinante para a ruptura com o modelo medieval. A influência de Aristóteles foi significativa durante a Idade Média, principalmente com a introdução do seu pensamento no século XII pelos árabes. No entanto é a influência matemática advinda da filosofia de Platão que dará um novo olhar sobre a interpretação e explicação do cosmo. Existiu certa rejeição, na modernidade, do pensamento aristotélico em decorrência da sua relação com o modelo geocêntrico de cosmo. Foi apenas com a difusão do novo saber, a disseminação de livros e, sobretudo, a retomada do vigor de pensadores como Pitágoras, Platão e Euclides que foram abertos caminhos para os grandes sistemas filosóficos do século XVII. Russell observa que: A compreensão da estrutura numérica das coisas conferiu ao homem novos poderes sobre o seu ambiente. De certo modo, tornou o homem mais semelhante a Deus. Os pitagóricos concebiam Deus como o supremo matemático. Se o homem era capaz, em certa medida, de praticar e melhorar as suas habilidades matemáticas chegava mais perto da condição divina. Isto não quer dizer que o humanismo fosse ímpio, nem mesmo contrário à religião estabelecida. Mas mostra que as práticas religiosas correntes tendiam a ser aceitas como questão de rotina, e o que efetivamente aguçou a imaginação dos pensadores foi a velha doutrina pré-socrática. Assim, no campo da filosofia, volta à tona uma tendência neoplatônica. A ênfase no poder humano é uma reminiscência do otimismo de Atenas no apogeu do seu poderio. (RUSSELL, 2001, p. 262) A ciência moderna se desenvolve a partir da influência do humanismo renascentista, esse moldado pela tradiçãopitagórica. Enquanto caráter ilustrativo, precisamos saber que na história intelectual do ocidente, a Renascença foi o período que vai do início do século XV ao fim do século XVI, é a transição da Idade Média para o mundo moderno. A ciência enquanto método empírico e sistemático não existia, e o conhecimento sobre os fenômenos naturais foi dado por Aristóteles. As autoridades condenavam os experimentos científicos como subversivos, e qualquer ataque à ciência aristotélica, como sendo um ataque à própria igreja. Não restam dúvidas que a grande revolução científica começou na esteira do renascimento de antigos modos de pensar, onde o aristotelismo foi derrubado pela visão matemática dos pitagóricos. O conhecimento cientifico como nós conhecemos hoje é recente se comparado com a história da humanidade. Ele possui apenas quatrocentos anos e surgiu no século XVII, com a revolução trazida por outro pensador, Galileu Galilei (1564-1642). Ele contribui para a transformação do ponto de vista metodológico da época ao inverter as prioridades; dessa forma, a ciência moderna surge quando se torna mais importante fortalecer o caráter das observações. Com isso a experiência e a verificação das hipóteses passam a ser os critérios decisivos, ao suplantar os argumentos metafísicos. O Método Científico O que é o método científico? Ele se refere a uma soma de regras básicas para a produção do conhecimento científico; este pode ser novo, ou uma correção, ou mesmo o aumento de incidência de conhecimentos anteriormente existentes. Duas grandes transformações foram fundamentais para a revolução científica (Marcondes, 2000, p.151). 1 - Do ponto de vista da cosmologia: a demonstração da validade do modelo heliocêntrico, empreendida por Galileu; a formação da noção de um universo infinito, a concepção do movimento dos corpos celestes, principalmente da Terra, em decorrência do modelo heliocêntrico. 2 - Do ponto de vista da ideia de ciência: a valorização da observação e do método experimental, uma ciência ativa, que se opõe à ciência contemplativa dos antigos; e a utilização da matemática como linguagem da física. A ciência ativa moderna rompe com a separação antiga entre a ciência (episteme), o saber teórico, e a técnica (téchne), o saber aplicado que integra ciência e técnica, e faz com que os problemas práticos no campo da técnica levem a desenvolvimentos científicos, bem como que hipóteses teóricas sejam testadas na prática, a partir de sua aplicação na técnica. Como podemos observar, surgiu uma nova forma de interpretar o mundo sobre bases cientificas; a linguagem agora é a matemática. A retórica dos antigos não é mais suficiente para explicar o mundo, cabe ao homem de ciência fundamentar sua explicação através de demonstrações rigorosas. A transformação não é apenas de caráter intelectual: a própria forma de viver no mundo muda de forma significativa, assim como o mistério, tão importante para a relação do homem com o mundo, tende a desaparecer, para, em seu lugar, surgir a boa curiosidade cientifica. As transformações produzidas pelas novas ciências foram significativas no tocante à secularização da consciência, na descentralização do cosmos, na geometrização do espaço, e por último, no fortalecimento do pensamento mecanicista. Não existe mais espaço no discurso cientifico para explicações teológicas. No novo modelo, a Terra deixa de ser o centro do universo. O espaço deixa de ter qualidades sagradas e passa a ser quantificável/mensurável. Por último, a ciência moderna compara a natureza e o homem a uma máquina, um conjunto de mecanismo que tem suas leis próprias e que precisam ser descobertas. E ninguém melhor do que Isaac Newton para criar as novas leis que regem a natureza. No prefácio de Princípios matemáticos da filosofia natural, ele escreve: Visto que os antigos (como nos conta Pappus) deram muitíssima importância à mecânica na investigação das coisas naturais, e os modernos, rejeitando as formas substanciais e as qualidades ocultas, empenharam-se por submeter os fenômenos da natureza às leis da matemática, procurei desenvolver a esta no presente tratado, enquanto ela se refere à filosofia. Os antigos distinguiram uma dúplice mecânica: a racional, que precede cuidadosamente por demonstrações, e a prática. À mecânica prática pertencem todas as artes manuais, das quais a mecânica tirou seu nome. Como, porém, os artífices costumam operar com pouco rigor, a mecânica toda se distingue da geometria pelo seguinte: tudo o que é exato refere-se à geometria, ao passo que o que não é pertence à mecânica. Entretanto, os erros não são da arte, mas dos artífices. Quem trabalha com menos rigor é um mecânico imperfeito, e, se alguém pudesse trabalhar com rigor perfeito, seria o mais perfeito de todos. (NEWTON, 1979, p. 03) A filosofia nos permite refletir sobre a nossa relação com a verdade. Se anteriormente ela estava sustentada sobre um discurso metafísico, as ciências modernas mudam completamente essas certezas ao colocar em seu caminho a necessidade da representação matemática. O processo do pensamento não pode ser sustentado pela escolástica (ensino predominante nas universidades medievais, que priorizava a Teologia) e suas especulações metafísicas, mas deve ser regido pela nova linguagem universal, ou seja, as leis da física e da matemática. Continuação: O Método O pensamento científico precisou de um método, e quem criou o método científico foi o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626). Em primeiro lugar, ele pretende instaurar o pensamento científico: essa instauração não significa propor uma opinião para defendê-la, mas uma tarefa que precisa ser realizada. Segundo ele, as ciências devem passar por uma nova forma de indução, que proceda à análise da experiência e a reduza a elementos, de alguma forma, mensuráveis. Nesse caso, a finalidade dos sentidos deve ser apenas julgar a experiência, de sorte que é a própria experiência que faz o julgamento. A sua teoria da indução, tal como exposta no Novum Organum, distingue inicialmente experiência vaga e experiência escriturada. A primeira compreende o conjunto de noções recolhidas pelo observador quando opera ao acaso. A segunda abrange o conjunto de noções acumuladas pelo investigador quando, tendo sido posto de sobreaviso por determinado motivo, observa metodicamente e faz experimentos. Este último tipo constitui o mais importante e o ponto de partida para a constituição das tábuas da investigação, núcleo do método do Bacon. A primeira tábua de investigação é a de presença ou afirmação. Nelas são colocadas todas as etapas de um fenômeno que apresentam as mesmas características. A segunda tábua é aquela onde são constatadas as ausências ou negações. A terceira tábua é a das graduações ou comparações que consistem nas anotações dos diferentes graus de variações no fenômeno em questão. Ao formular a teoria da indução, Bacon nãocriou a ciência moderna, mas foi aquele que construiu as bases para a sua afirmação e valor. A instauração da ciência ‘não se esquece, de modo nenhum, da condição mortal do homem, pois não supõe que a obra possa ser realizada inteiramente por uma só geração, mas exige ser retomada pelas seguintes; ela não procura o conhecimento, com arrogância, nas pequenas células do entendimento humano, mas, com veneração, no universo’. Como dizer melhor o que a ciência se preparava para se tornar, quase no mesmo momento em que Galileu iria desenvolvê-la segundo os mesmos princípios? No entanto, se fosse preciso estabelecer uma preferência, a nossa iria, num ponto, ao físico mais do que ao filósofo, pois Galileu foi capaz de ver, com efeito, que ‘a ciência está escrita em língua matemática’. Bacon está bastante atrasado neste ponto, pois sua crítica do acesso ao conhecimento pelos recursos da lógica se mostra, pelo contrário, excessivamente negativa, sem dúvida em reação contra a escolástica.” (OMNÉS, 1995, p.88) Acredito que não seja necessário que, para se construir um novo método de investigação, precise levar ao chão o método que o antecedeu. A escolástica contribuiu de forma significativa para o desenvolvimento intelectual da humanidade, e como bem observou Roland Omnès, o desenvolvimento cientifico não é obra de uma única geração, mas um projeto da humanidade. O pensamento científico e o pensamento metafísico Como já estudamos nas aulas anteriores, existem várias formas de conhecimento que ainda tentam explicar a realidade que nos cerca, como, por exemplo, as formas de artes, os mitos e a religião. Durante séculos, esses modos de conhecimento se somaram e, em maior ou menor grau, se afirmaram como formas dominantes na organização do pensamento. Já falamos sobre a distinção feita pelos gregos entre o saber mítico e o saber racional, sabemos que eles não conseguiram construir um conhecimento científico independente. A ciência grega se racionalizou ao se separar do mito, mas perdeu também seus vínculos com a prática, ao desenvolver o ideal grego de saber contemplativo. O pouco valor dado à técnica fez com que a ciência grega se afastasse do método experimental ao se vincular à especulação filosófica. O resgate do valor da técnica se deu a partir da Renascença com Leonardo da Vinci, e depois pelos fundadores da ciência moderna: Copérnico, Galileu, Newton, Bacon e Descartes. Contudo, esses grandes pioneiros do pensamento moderno ainda estavam presos à metafísica. A metafísica é classificada por Aristóteles como a ciência primeira; por ter como objeto o objeto de todas as outras ciências, e como princípio um princípio que condiciona a validade de todos os outros. É uma forma de saber que não se submete à verificação. Suas afirmações não podem ser comprovadas empiricamente porque lidam com a suposta natureza das coisas, ou seja, do ser. Muitas teorias científicas são construídas a partir de enunciados metafísicos. Dessa forma, qualquer teoria está inserida em certa epistéme, que institui critérios e valores que norteiam os procedimentos científicos. Mas em um mundo no qual o objeto do conhecimento é a natureza, em que a física e a matemática fundamentam o rigor da observação, aos poucos a metafísica perde seu lugar para as leis da física e o método científico. A modernidade apresenta as atitudes científicas distantes do pensamento metafísico: • Objetividade: procurar as estruturas universais e necessárias. • Método Quantitativo: buscar medidas, padrões, critérios de comparação e de avaliação. • Homogeneidade: buscar leis gerais de funcionamento dos fenômenos. • Generalização: reunir individualidades sob as mesmas leis ou padrões. ● Causalidade: as relações causais só se estabelecem depois da investigação da natureza ou estrutura dos fatos. ● Dinâmica: renovar-se e modificar-se continuamente, evitando que as teorias se transformem em doutrinas Como podemos ler em Chauí (2012, p. 275-276), os fatos estudados pelas ciências não são dados que surgem espontaneamente de nossa experiência cotidiana, mas são construídos pelo trabalho de investigação cientifica. As ciências são um conjunto de atividades intelectuais, experimentais e técnicas, realizadas com base em métodos que permitem que elas sejam rigorosas: ● Separação dos elementos subjetivos e objetivos de um fenômeno. ● Construção de um fenômeno com o objetivo de conhecimento controlável, verificável, interpretável e capaz de ser retificado ou corrigido por novas observações. ● Demonstração e prova dos resultados obtidos durante as investigações. ● Formulação de uma teoria geral sobre o conjunto dos fenômenos observados. O que podemos observar é que a ciência é um método de pensamento e de ação. Ela se distingue do senso comum já que é um conhecimento que se baseia no rigor da racionalidade. O seu conhecimento é eficaz por permitir ao homem não apenas conhecer o mundo, mas dominá-lo e assim transformá-lo. A diferença entre a forma de pensamento metafísico e a forma de pensamento científico é significativa, mesmo que ambas busquem encontrar a verdade. A noção de verdade para o pensamento metafísico será definitiva, pois a essência é permanente. Assim, verdade e essência coincidem, emprestando à teoria uma característica ontológica. Nesse caso, se uma dada teoria é considerada verdadeira, então não há motivo para que se realizem pesquisas, já que a essência já é conhecimento integral e último da realidade. Essa forma de pensar é oposta à busca de novos conhecimentos proposta pelo método científico. Na perspectiva do método científico, os fatos básicos são aceitos convencionalmente, mas podem ser modificados com o avanço da ciência. O mesmo acontecendo com uma teoria: ela será verdadeira, não por se adequar à realidade, mas por explicar certas ocorrências melhor do que outras teorias. Os fatos e as teorias habitam o mesmo mundo, ao passo que são interdependentes. Essa forma de interpretar o mundo é significativa, pois dela será construído todo o edifício da modernidade. O reducionismo cientificista da razão Chegamos à metade da nossa lição, acredito que não existem dúvidas a respeito da diferença entre pensamento metafísico e método científico. A próxima etapa da nossa lição busca mostrar os riscos de confiar cegamente na validade científica como sendo o único método de conhecimento da verdade. A história ocidental atesta que o pensamento científico encontrou suas limitações e se deparou com erros significativos. Alguns filósofos denunciaram o pensamento científico como sendo uma nova metafísica, e a devoção dada a ele como uma experiência quase que teológica. Tentaremos mostrar que pensar de forma nova é um risco e que todo risco é uma abertura para o bem e para o mal, mas, também, que reduzir a razão ao pensamento científico é perigoso. No prefácio da obra A Filosofia do Não: Filosofia do novo espírito científico, Gaston Bachelard escreve: A utilização dos sistemas filosóficos em domínios afastados da sua origem espiritual é sempre uma operação delicada, muitas vezes uma operação falaciosa. Assim transplantados, os sistemas filosóficos tornam-se estéreis ou enganadores; perdem a sua eficácia de coerência espiritual, eficácia tão sensível quando são revividos na sua originalidade real com a fidelidade escrupulosa do historiador, e perde-se também a satisfação de pensar o que nunca será pensado duas vezes. Será pois necessário concluir que um sistema filosófico não deve ser utilizado para outros fins para além dos que elese atribui. Dito isto, o maior erro contra o espírito filosófico seria precisamente o de não ter em conta esta finalidade íntima, esta finalidade espiritual que dá vida, força e clareza a um sistema filosófico. (BACHELARD, 1978, p. 03) Ele aponta para os riscos que ocorrem ao pensamento filosófico quando abre mão do seu papel. Cabe às ciências compreenderem a natureza, mas compete à filosofia construir um juízo de valor para que toda ação decorrente do pensamento científico se apresente dentro de uma perspectiva ética e moral. O homem grego se questionava a respeito da responsabilidade diante da construção do pensamento. Não é porque se pode que se deva. Ele mensurava os prós e os contras para, a partir de um juízo de valor, reconhecer o seu papel diante da vida. A sociedade contemporânea está convencida que só é verdadeiro aquilo que pode ser demonstrado com base em cálculos matemáticos, e atestados pelas análises científicas. Dessa forma, o cálculo e a medida seriam os únicos métodos legítimos cientificamente para adquirir conhecimento sobre a realidade. O perigo não está, de forma alguma, no modelo científico, mas no fato deste se tornar o único modelo. Com o desenvolvimento das ciências, ocorreu também uma quantidade enorme de inovações tecnológicas, com as consequentes modificações da vida privada e pública, gerando assim o sentimento que a finalidade das ciências consiste na ampliação sem limites do desenvolvimento tecnológico e que ele é a solução para todos os problemas da humanidade. Precisamos encontrar o equilíbrio necessário para que o pensamento científico possa dialogar com os valores mais elevados da filosofia. A busca da verdade Karl Popper, na sua obra Conjecturas e Refutações (1972), explica que um dos ingredientes mais importantes da civilização ocidental é a tradição racionalista, herdada dos gregos. É a tradição do livre debate, não uma discussão por si mesma, mas aquela motivada pela busca da verdade. A filosofia helênica e a ciência são os resultados dessa tradição, do esforço para compreender o mundo em que vivemos. Para ele, na ciência, nós buscamos a verdade. A verdade não é dada pelos fatos, mas pelas teorias; uma teoria é verdadeira quando corresponde aos fatos. Essa é uma definição de verdade, mas nós não temos um critério de verdade. Ainda que acreditemos que uma teoria seja verdadeira, jamais poderemos sabê-lo, pois suas conseqüências são infinitas e não temos condições de verificar todas elas. Para Popper, a verdade é um ideal regulador. Ao eliminarmos os erros das teorias anteriores e ao substitui-las por novas teorias, nos aproximamos da verdade. É nesse ponto que sua crítica afirma que não existe uma lei de progresso irrestrito para a ciência, pois ela pode estagnar. O progresso científico conheceu seus obstáculos epistemológicos, ideológicos e econômicos. Isso não quer dizer que não possa se repetir. Para ele o critério de progresso é que uma teoria pode se aproximar mais da verdade que outra teoria. Por vezes, ideias que flutuam nas regiões metafísicas podem ser alcançadas com o desenvolvimento das ciências, e ao entrar em contato com elas, podem se concretizar. Para o futuro da humanidade, o pensamento metafísico deverá dialogar com a ciência. Aquele momento em que a ciência não sabe para onde ir, a metafísica pode apontar um caminho realizável, mesmo que improvável a primeira vista. O pensamento metafísico muitas vezes é um passo de fé, ao ter por base puramente especulações e carente de dados empíricos. Contudo, isso não desacredita de forma alguma o seu valor. A metafísica constitui a “aurora” da ciência propriamente dita. Em A Lógica da pesquisa científica, podemos ler: Encarando a matéria do ponto de vista psicológico, inclino-me a pensar que as descobertas científicas não poderiam ser feitas sem fé em ideias de cunho puramente especulativo e, por vezes, assaz nebulosas, fé que, sob o ponto de vista científico, é completamente destituída de base e, em tal medida, é ‘metafísica’. (POPPER, 2013, pg. 36) Precisamos tomar cuidado para não incorrer no erro de interpretar Popper como um filósofo metafísico. Os programas metafísicos de investigação estão abertos à discussão, podem ser mudados à luz da esperança que os inspira ou mesmo das desilusões. Da mesma forma, existem ideias metafísicas desprovidas de valor para a ciência, por exemplo, aquelas de cunho existencial. O que Popper compreende bem é que a metafísica pode contribuir para o desenvolvimento da ciência, mesmo que a ciência não se resuma a ela. O mais significativo disso tudo é que um pensador como Popper apresenta uma forma de pensar cientificamente que busca resgatar e validar a razão humana. A recuperação da razão metafísica, que é lançada pela nova filosofia da ciência, tem muito que conhecer e ensinar. O curso da ciência Na última parte de nossa aula retornamos a Aristóteles. Estudar a sua filosofia é um projeto atual. É inegável a sua influência na formação do espírito científico que caracteriza a sociedade no século XXI. Aristóteles foi a grande referência e um modelo de pensamento científico até a modernidade. No entanto, precisamos reconhecer que, no domínio do pensamento científico, a maioria das teses são refutações ao seu pensamento. Contudo, Aristóteles continua presente não apenas como uma atitude, mas no vigor das teses por ele defendidas nos campos da metafísica e da ética. A metafísica aristotélica constitui a figura última da racionalidade ao se dirigir aos limites do mundo e do dizer o mundo como quem olha a si mesma, traçando os seus limites. Em sua busca tenta encontrar os limites da razão. Esse limite Aristóteles traçou ao apontar para as diferentes disciplinas teóricas. Isso faz da sua Metafísica um texto sempre atual: Ora, visto andarmos à procura desta ciência, devemos examinar de que causas e de que princípios a filosofia é a ciência. Se considerarmos as opiniões que existem acerca do filósofo, talvez o problema se nos manifeste com maior clareza. Nós admitimos, antes de mais, que o filósofo conhece, na medida do possível, todas as coisas, embora não possua a ciência de cada uma delas por si. Em seguida, quem consiga conhecer as coisas difíceis e que o homem não pode facilmente atingir, esse também consideramos filósofo (porque o conhecimento sensível é comum a todos, e por isso fácil e não-científico). Além disto, quem conhece as causas com mais exatidão, e é mais capaz de as ensinar, é considerado em qualquer espécie de ciência como mais filósofo. E, das ciências, a que escolhemos por ela própria, e tendo em vista o saber, é mais filosofia do que a que escolhemos em virtude dos resultados; e uma [ciência] mais elevada é mais filosofia do que uma subordinada, pois não convém que o filósofo receba leis, mas que as dê, e que não obedeça ele a outro, mas a ele quem é menos sábio. Tais e tantas são, pois, as opiniões que temos sobre a filosofia e os filósofos. E quanto a estes, o conhecimento de todas as coisas encontra-se necessariamente naquele que, em maior grau, possuía ciência universal, porque ele conhece, de certa maneira, todos os [individuais] sujeitos. No entanto, é sobremaneira difícil ao homem chegar a estes conhecimentos universais, porque estão muito para além das sensações. Além disto, entre as ciências mais exatas as que se ocupam predominantemente dos ‘primeiros’; e as que de menos [elementos precisam] são mais exatas do que as que são chamadas ‘por adição’, como a aritmética relativamente à geometria. Porém, a que ensina é a ciência que investiga as causas, porque só os que dizem as causas de cada coisa éque ensinam. (ARISTÓTELES, 1979, pg. 13-14) Compreender a metafísica de Aristóteles associada à sua ética é um desafio para o pensamento do futuro. Aristóteles separa o saber teórico do saber prático, mas deixa uma possibilidade significativa de união ao apontar a responsabilidade do homem a partir das suas escolhas. Se a filosofia em seu caráter teórico visa a constituição de uma situação contemplativa da verdade, no campo da prática a filosofia se expressa no agir. A diferença está que, enquanto no campo do conhecimento teórico não são permitidas alterações, no campo da prática são permitidas. Para ele, a teoria enquanto contemplação é sabedoria, ou seja, uma perícia, uma capacidade de compreender intuitivamente os princípios e as causas das coisas. O saber prático é adquirido ao se converter em ação realizada. A filosofia prática de Aristóteles provoca em quem estuda certo desconforto. Nela não existe a possibilidade de colocar a culpa pelas nossas ações incorretas em alguém ou mesmo em alguma coisa. A constituição de uma disposição de caráter é a possibilidade do ser humano. O esforço de afirmação desse modo de ser é o que dá ao ser humano a sua humanidade. Pensar a ciência moderna e a ciência contemporânea é dialogar com a filosofia aristotélica. A nossa proposta foi apresentar um pensamento crítico aliado à responsabilidade do pensamento. O que constatamos em nossos dias é que a ciência se desenvolveu aliada a uma perda da qualidade das vidas humanas. Continuamente o domínio da natureza acarreta prejuízos àqueles que vivem nesse mundo. Pensar de forma responsável é compreender que o conhecimento tem seus limites, assim como nós temos os nossos deveres. O desenvolvimento da ciência nos levou à sociedade tecnológica. Pensar a sociedade tecnológica é retornar aos gregos com sua noção de Techné. É compreender que nem tudo o que se pode se deve, diante da natureza e da vida humana. Aristóteles nunca foi tão atual como hoje. A experiência existencial não se resume a conhecer a natureza, mas é na relação homem-natureza que construímos um determinado sentido da vida, na esperança, na fé. Se a ciência fosse a única forma de interpretar a realidade não haveria a necessidade da arte (poesia, música, pintura, arquitetura). O humanismo da Renascença, que veremos na próxima aula, nos mostra que para se conhecer a natureza podemos tomar vários caminhos: da arte, da mecânica, das letras, dos números. A linguagem científica da racionalidade matemática tem um valor significativo, mas buscar todo o significado do mundo nela é virar as costas para outras formas essênciais de conhecimento humano. O pensamento científico nunca desejou ser dono da verdade, apenas apresenta ferramentas para alcançá-la. No mais, o humanismo renascentista nos dá, entre outras coisas, um modelo de homem do futuro; aquele homem capaz de fazer uso do pensamento e da sensibilidade, sem comprometer a qualidade de sua busca. Referências ARISTÓTELES: Coleção: Os pensadores (Vol. 1 e 2). São Paulo, Editora Abril Cultural, 1979. BACHELARD, Gaston. Coleção: Os pensadores. São Paulo, Editora Abril Cultural, 1978. CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, Editora Ática, 14º edição, 2012. NEWTON/LEIBNIZ (I): Coleção: Os pensadores. São Paulo, Editora Abril Cultural, 1979. OMNÈS, Roland. Filosofia da ciência contemporânea. São Paulo, Editora Unesp, 1995. POPPER, Karl. A Lógica da pesquisa científica. São Paulo, Editora Cultrix, 2013. RUSSELL, Bertrand. História do pensamento ocidental: A aventura das idéias dos Pré-Socráticos a Wittgenstein. São Paulo, Editora Ediouro, 3° edição, 2001. REALE, Giovanni/ ANTISERI, Dario. História da filosofia: Do romantismo até nossos dias (Vol.03). São Paulo, Editora Paulus, 3º edição, 1991. Seção 3 - Arte, Cultura e o Movimento do Pensamento Introdução A arte sempre esteve presente na história da humanidade como forma de ver, interpretar e reinterpretar o mundo; como forma de estabelecer a comunicação com o meio (a partir da relação sujeito e objeto) e como formação e elevação do espírito – assim como se originava na consagração grega. Também como expressão criativa da sensibilidade, como fenômeno social, ou como instrumento pedagógico-educacional. Pretendemos, pois, que este texto sirva de apoio e referência ao estudante que quer adentrar de forma pessoal no universo das artes, proporcionando argumentos filosóficos, sem perder a transcendência social, histórica e cultural, já que a arte é o resultado de propostas individuais que alcançam sua culminação quando são assumidas como próprias por outros indivíduos, que lhe dão novos e diversos sentidos. A esta forma de entender a arte chamaremos de "concepção humana da arte", que é internamente cambiante e metafórica, como as culturas humanas em seu conjunto. A arte não se basta a si mesma, ela precisa do elemento externo, dos processos e contextos culturais e históricos, especialmente da linguagem, como construção interpretativa e hermenêutica. É preciso saber explicar a arte para situá-la num contexto de sentido, de significação. O que é a Arte? Mas numa perspectiva didática, a primeira ação talvez seja dada pela necessidade de se esclarecer o objeto estudado. Então perguntamos: O que é a arte? O vídeo acima corresponde a uma tentativa de se estabelecer o conceito de arte, mas também, de certo modo já define, mesmo que de forma inicial, o conceito de cultura. É a expressão humana, é o sentimento, o sentido dado, a interpretação. São valores subjetivos e, justamente por isso, sua definição se torna algo difícil. Os conceitos podem ser administrados didaticamente, mas as virtudes emocionais e subjetivas são não-lineares, estão em constate devir e são possuidoras de uma carga de significados próprio. A arte pronuncia o privado, mas também reflete sobre o público – ou melhor, reflete sobre o seu meio por via do particular. Dessa maneira é sempre uma produção do ‘eu’ para o outro. Avaliando o real, a arte também faz parte da cultura ao passo que (re)pensa sobre ela. Vejamos agora, de forma introdutória, o que se define como cultura: De acordo com o primeiro vídeo, a arte está ligada diretamente à observância do fazer humano e, assim sendo, é uma expressão humana. Pareyson afirma que: Certamente a arte é expressão. Mas é necessário não esquecer que há um sentido em que todas as operações humanas são expressivas. Toda operação humana contém a espiritualidade e personalidade de quem toma a iniciativa de fazê-la e a ela se dedica com empenho; por isso toda obra humana é como retrato da pessoa que a realizou. Neste sentido, também a arte tem um caráter expressivo. (PAREYSON, 2001, p. 22) Para Pareyson (Ibidem, p. 21) “ora a arte é concebida como o fazer, ora como um conhecer, ora como um exprimir”. Esse mesmo autor expunha que, na antiguidade, a arte prevalecia como o executar, como o fabricar, como o manual - daí talvez a sua aproximação com a ciência, nas observações de Platão. Dessa maneira, ligada ao fazer, ao fabricar, a arte seria ligada à ideia de técnica. Entretanto, para os gregos à arte foi atribuída a noção de ‘belo’ e, consequentemente,a sensibilidade, e deixou, em parte, de ser toda ação humana do bem fazer. A arte passa a focar na perspectiva da expressão e em questões ligadas ao despertar de sentimentos por ela e através dela. No segundo vídeo, de forma simples, é explicitado o conceito de cultura. Nesse é mostrado principalmente que cultura é a experiência, o saber humano acumulado e organizado que rege a práxis daquele povo. A cultura é a forma de utilização de saberes coletivos. A arte, então, é uma parte da cultura – é uma forma de analisar e representar as vivências daquele tempo e daquele espaço; a arte é, também, nesse caso, uma materialização de experiências culturais de um povo. Os avatares da arte A arte e o ‘belo’ para a filosofia antiga, principalmente para Aristóteles, pode ser definida em cinco instâncias: como manifestação do bem, como manifestação do verdadeiro, como perfeição sensível, como simetria e como perfeição expressiva. Se, por um lado, a filosofia de Platão, no ‘Mundo das ideias’, via a arte simplesmente como cópia do real, para Aristóteles a arte é uma espécie de estado de potência – quanto mais afastado do real, mais reflexivo se torna o homem em produzir possibilidades do real; através da experiência seria possível a purificação, purgação da alma do homem (catarse). Aristóteles adotou a linha oposta a Platão e em sua doutrina de catarse afirmou que as artes proporcionam uma vazão para emoções represadas, que não tem plena vazão natural das condições de vida social [...]. Mas conquanto as conclusões fossem contrárias, o critério era idêntico. Avaliavam-se as artes em função dos seus efeitos de aprimoramento ou aviltamento do caráter do indivíduo como unidade social e dos seus supostos efeitos sobre o próprio organismo social (OSBORNE, 1974, p. 125) A arte é uma convenção cultural, dependente sempre das mudanças e modificações dos contextos culturais nos quais se inscreve. Devemos entender cultura num sentido antropológico, como o conjunto de técnicas produtivas, instituições sociais, costumes e crenças que se transmitem de geração em geração num grupo étnico determinado. Nosso termo arte provem do latim "ars" que traduz a palavra grega "técne". Designa "perícia", "habilidade" empírica, tanto mental como manual, e compreendia atividades diversas como artesanato, medicina, navegação, pesca, estratégia militar, poesia, pintura. Poderia traduzir-se como "maestria", aquele que dominava as atividades humanas como ofícios ou ciências. Hoje se entende mais como "belas artes" (veremos mais adiante) O termo "técne" alcançou seu auge na Grécia do século IV a.C, implicava a aquisição prática de conhecimentos, é como Aristóteles a entende, como uma fusão de pensamento e produção, um refletir e um fazer. Assim, dentro das possíveis operações do pensamento (diánoia), a "técne" como operação produtiva (poietiké), distinguir-se-á das operações práticas e teóricas. Aristóteles situará precisamente na "técne" e na razão o que diferencia o ser humano das outras espécies animais: "Os demais animais vivem fantasias e lembranças, e participam pouco da experiência. Mas o gênero humano dispõe da técne e da razão" (Metafísica I, 1, 980b). Aristóteles e seu mestre Platão foram os primeiros grandes teóricos da técne. A frase "a arte imita a natureza" é uma das características da nossa tradição artística clássica. Por um lado temos a natureza como aquilo que é, por outro, os produtos, o artificial, o que pode ser ou não, o possível. Quando os gregos começam a opor arte à natureza, pensam principalmente na atividade humana em geral, entendida como produção de imagens (mímesis), representação. Tudo isto se dará através de um grande processo cultural, onde a linguagem: verbal e escrita, as formas visuais e o som, aparecerão como diferentes formas intelectuais que irão definindo o que se entende hoje por arte. O Momento da ‘Queda’ A estética surge como ciência no século XVIII, tendo como objeto a arte e o Belo. O alemão Otto Von Baumgarten falava, sobretudo, do Belo enquanto parte da sensibilidade do homem e afirmava que pertenciam à arte as representações confusas, porém claras (ou seja, sensíveis mas perfeitas), e que as representações conceituais pertencem ao conhecimento racional. O termo ‘estética’, para os alemães, significa o que possui a faculdade do sentir, e tudo que é relativo a percepção e a sensação: que possuiu a capacidade de sentir, perceptível, relativo à sensação – significa também a doutrina de todo conhecimento sensível e da percepção. Enquanto teoria da percepção, a Estética se tornou entre o fim do século XVIII e o início do século XIX, uma forma de descrição do real. A arte passou a ser designada como ‘bela arte’ e o conceito de técnica passou a ser incorporado a todo material produzível pela própria técnica – ou seja, objetos com determinada finalidade usual e todos os procedimentos organizados por regras de qualquer atividade humana. A questão é que a Estética foi também encarregada de explicar qualquer contexto relativo à reação a partir de experiências artísticas e todas fundamentadas a partir da questão do gosto e se afastando cada vez mais da concepção grega aristotélica. Produzir reações ao humano passou a ser também uma técnica, como se a arte, a partir daquele momento, adquirisse um caráter de artificialidade – a intenção seria produzir reações. Até mesmo o caráter subjetivo da arte torna-se valor universal, coletivo, e tudo que surge dessa produção começa a parecer um ato mecânico para atender o gosto e não para despertar a sensibilidade. A Revolução Industrial marca a ascensão da classe burguesa, que separa, assim como em épocas antecessoras, a cultura dentro de um dualismo: de um lado quem produz para o dia a dia, para suprir suas necessidades vitais, e de outro aqueles poucos que se dedicam, por meio de privilégios, a se debruçar sobre uma espécie de cultura mais abastada dedicada ao prazer, à elevação do espírito e a verdade. Para estes está reservado o trabalho contemplativo e a fruição da obra de arte. Entretanto, mesmo sendo a pretensão do ideal burguês manter esse status quo, não consegue excluir as classes subordinadas ao acesso à arte e à cultura – afinal, onde não havia melhores condições de vida no trabalho nas fábricas, havia, ao menos, o acesso à arte. Para o burguês a arte serve como importante ferramenta político ideológica e, para o proletário, resta uma arte sem sentido formativo; uma arte comercial e esvaziada, produzida em escala industrial para ocupar o seu ócio e destituída de qualquer valor emancipatório, rica em fugacidade e voltada para entretenimento. A Indústria Cultural e a Arte Emancipatória O termo Indústria Cultural foi criado pelos filósofos alemães judeus Theodor Adorno e Max Horkheimer, quando esses se encontravam exiladosnos Estados Unidos por conta do nazismo. Conheceram o poder ideológico da arte em duas oportunidades: primeiro, no contato com a propaganda nazista veiculada principalmente no cinema alemão e segundo nos EUA, quando conheceram toda a força da publicidade e propaganda comerciais. Esse conceito, dentre outras discussões, afirma que não existe uma cultura espontânea e emancipatória e sim uma produção cultural representativa, que é criada de cima para baixo com o poder reificador de consciências. Uma cultura voltada para as massas. Na contemporaneidade, a arte retoma o seu papel pedagógico e formativo – não mais de formação do espírito, mas aliado à política e à economia. Deixa de ser bildung(formação\formativa) para torna-se Halbbildung (semiformação); um tipo de cultura e arte natimorta, desprovida de qualidade metafísica, mas que atende ideologicamente ao sistema formando uma espécie de inconsciente coletivo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Inconsciente_coletivo) que pode ser medido sempre em níveis mais inferiores de qualidade; uma arte de massa para produzir, atender e criar sociedades massificadas. O professor João Francisco Cabral afirma que: Essa visão permite compreender de que forma age a Indústria Cultural. Oferecendo produtos que promovem uma satisfação compensatória e efêmera, que agrada aos indivíduos, ela impõe-se sobre estes, submetendo-os a seu monopólio e tornando-os acríticos (já que seus produtos são adquiridos consensualmente). http://www.brasilescola.com/cultura/ind ustria-cultural.htm Não se pode negar o potencial educativo e formativo da arte. Por outro lado, o que é oferecido hoje em dia, ou melhor, vendido e consumido, são produções medidas pelo seu conteúdo ideológico e político que se impõem ao indivíduo sob o signo de cultura, fazendo com que se sufoque todo o potencial crítico do cidadão. A maior vitória da Indústria Cultural não é só o seu êxito comercial, mas também fazer com que os indivíduos se alinhem com essas estruturas de controle e pensem que esse tipo de cultura e de arte é o único que cabe na sua estatura social. Dessa maneira, além de consumir uma ideologia, consomem também, indiretamente, elementos que ajudam a construir o seu próprio ‘aprisionamento social’. O ‘belo’ foi substituído pela beleza; A arte deixa de ser atemporal e passa a ser temporal; A arte deixa de ser intuitiva e passa a ser imediata; A arte deixa de ser formativa e passa a ser do consumo e do entretenimento; A arte deixa de ser potência e passa a ser uma representação; A catarse passa a ser o tempo na frente da tv com a mente em stand by. A arte e a Cultura A arte e a cultura em si devem ser também potências e não somente representações. Quando são apenas representações, elas refletem uma vontade específica dominadora e totalitária, que se apresenta ao homem de cima para baixo. A arte é de domínio político e subserviente ao mercado. Na relação para a produção de conhecimento entre sujeito e objeto, a cultura atual transforma o homem em objeto e, dessa maneira, sem sua autonomia e sem consciência social ou de classes, o indivíduo se torna uma presa política. Camuflando as forças de classes, a Indústria Cultural apresenta-se como único poder de dominação e difusão de uma cultura de subserviência. Ela torna-se o guia que orienta os indivíduos em um mundo caótico e que por isso desativa, desarticula, qualquer revolta contra seu sistema. Isso quer dizer que a pseudo felicidade ou satisfação promovida pela Indústria Cultural acaba por desmobilizar ou impedir qualquer mobilização crítica que, de alguma forma, fora o papel principal da arte (como no Renascimento, por exemplo). Ela transforma os indivíduos em seu objeto e não permite a formação de uma autonomia consciente. (CABRAL, Extraído da Internet) A cultura de massa faz com que o sujeito creia que está no domínio e que é livre para consumir o que quiser. No entanto são produzidos padrões de consumo em todas as instâncias sociais: na propaganda, no comércio, no cinema, na televisão, na arte, na música, na educação, na política etc. Na crença de seu pleno domínio sobre o objeto, o indivíduo não se opõe às forças dominantes e o ciclo de controle e consumo se fecha. Lamentavelmente nos dias atuais a arte serve como referência do todo. Se há um esvaziamento social, a arte tende a ser esvaziada, e se o mercado produz sentidos e faz com que se reproduza artisticamente sempre mais do mesmo, por conta de sua redução à mercadoria, a arte assim o fará. Para os filósofos da Escola de Frankfurt, se o problema reside na arte e na cultura, a saída deste problema ainda pertence à arte e a cultura. Toda obra de arte é uma experiência estética e um exercício dialético. É uma experiência estética no que tange a uma análise dessa pelos sentidos e pela produção autônoma de significados e da retomada da experiência subjetiva. É um exercício dialético, pois a contemplação da arte não sugere uma conformidade e sim uma desconstrução contínua – todo olhar sobre a obra de arte pressupõe uma desconstrução para uma reconstrução, realizada de forma inconsciente. Foi através da arte e da cultura que o controle ideológico e político se instaurou na contemporaneidade. Então cabe a toda atividade artística devolver a autonomia e a experiência ao indivíduo, fazendo com que, de certa forma, a emancipação da arte seja, ao mesmo tempo, a emancipação do indivíduo, ou seja, a reconciliação da obra de arte é uma reconciliação do próprio indivíduo. Mas como atingir a esse objetivo e fugir desse controle totalitário e ideológico? [...] que recupere a capacidade de auto-reflexão; que dialogue com indivíduos autênticos, e não com membros de uma massa amorfa. Procedendo dessa maneira, a arte se renova e cumpre seu papel de dimensão social, de conhecimento. Ao que parece, é difícil pensar em uma superação, pois até a arte séria caiu nos ditames da indústria cultural. Se a arte recuperar seu caráter libertador, isso só vai acontecer quando a própria sociedade também mudar, o que parece permanecer apenas uma promessa [...] Adorno nos convida a uma nova leitura da arte. Essa leitura deve ser feita a partir da conciliação entre reflexão e prática. Mesmo parecendo pessimista em seus escritos, Adorno vislumbra um otimismo prático, em que talvez as coisas um dia melhorem. Valorizar a arte que surge entre as camadas mais populares pode representar um misto de resistência e denúncia, desde que elas não sejam integradas pelo interesse econômico da indústria cultural. (AGUIAR, extraidido da internet) O ideal aristotélico da obra de arte como formadora do espírito talvez não seja mais possível na sociedade de consumo, mas pode voltar a criar uma tensão crítica necessária para a vida política e para a produção do conhecimento. A contemplação da obra de arte naturalmente suscita um exercício dialético. A autonomia e a experiência subjetiva, necessários para o processo emancipatório do indivíduo, requerem um exercício dialético na avaliação do sujeito sobre o real, no intuito de vencer o quese proclamou pelos frankfurtianos de ‘Razão Instrumental’. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Raz%C3%A3o_instrumental). A consciência autônoma e a valorização da experiência são a contrapartida, oferecida pela arte, para sua emancipação. Referências ARISTÓTELES. Metafísica. Porto Alegre, Editora Globo, 1969. AGUIAR, Wisley Francisco de, Adorno e a Dimensão Social da Arte, Publicado em: http://www.urutagua.uem.br/015/15aguiar.htm, Pesquisado em: 20/01/2015. CABRAL, João Francisco P. Conceito de Industria Cultural em Adorno e Horkheimer, Publicado em: http://www.brasilescola.com/cultura/industria-cultural.htm, Pesquisado em: 22/01/2015 OSBORNE, Harold. Estética e Teoria da Arte, São Paulo, Editora Cultrix, 2º edição, 1974. PAREYSON, Luigi, Os Problemas da Estética, São Paulo, Editora Martins Fontes, 3° edição, 1997. Seção 4 - Em busca do tempo perdido Introdução Caro aluno, chegamos a nossa última lição. A nossa caminhada até aqui contribuiu de forma significativa para o exercício do pensamento crítico. Nossa última lição apresenta o niilismo, uma forma de pensamento que tem por alvo os valores supremos. Nosso objetivo será mostrar como o niilismo tem causado danos significativos para a humanidade nos últimos anos, representado principalmente pelo discurso pós-moderno. Na filosofia contemporânea chamamos de “pós-modernas” aquelas ideias que, a partir da metade do século XIX, se levantaram contra o humanismo moderno e a filosofia das Luzes. Essa filosofia vai contestar tanto a crítica do humanismo, quanto a crítica do racionalismo. Segundo Luc Ferry, Do mesmo modo que esta rompeu com as grandes cosmologias da Antiguidade e inaugurou uma crítica da religião, os “pós-modernos” vão atacar duas das mais importantes convicções que animavam os Modernos do século XVII ao XIX: aquela segundo a qual o ser humano seria o centro do mundo, o princípio de todos os valores morais e políticos; aquela que considera a razão um formidável poder libertador, e que, graças ao progresso das “Luzes”, seremos, enfim, mais livres e mais felizes. (FERRY, 2010, p. 183) O ponto alto desse pensamento é Nietzsche. Seu pensamento contribuiu de forma significativa com a filosofia moderna ao trazer a poesia para a filosofia, e ao afirmar que o pensamento dionisíaco (que representa o sentimento, a ação, a emoção) deveria sobrepor o pensamento apolíneo (que representa a ordem, a harmonia e a razão). Marcondes observa. A filosofia, segundo ele representada por Sócrates, o “homem de uma visão só”, instaura o predomínio da razão, da racionalidade argumentativa, da lógica, do conhecimento científico, da demonstração. Com isso, o homem perde a proximidade com a natureza e suas forças vitais, que mantinha no período anterior e que encontra sua expressão nos rituais dionisíacos, na dança, na embriaguez. A tragédia expressa esse elemento vital no confronto entre os homens e os deuses, no confronto entre o homem e seu destino, no herói que visa superar seus limites, como Prometeu no ciclo de tragédia de Ésquilo. Dioniso seria assim o deus da música e da embriaguez, o deus que não habita o Olimpo, mas a natureza; a força vital, a alegria, o excesso. O surgimento da filosofia representa o predomínio do que Nietzsche chama o “espírito apolíneo”, derivado de Apolo, o severo deus da racionalidade, da medida, da ordem e do equilíbrio. No período que antecede a filosofia, o “espírito apolíneo” e o “espírito dionisíaco” se contrabalançavam, completando-se mútua e dialeticamente. Com o desenvolvimento da razão filosófica e científica, o espírito apolíneo irá prevalecer, e o espírito dionisíaco, o desejo, a “afirmação da vida”, será progressivamente reprimido. A história da tradição filosófica é a história do triunfo do espírito apolíneo em detrimento do dionisíaco. O advento do cristianismo reforçará essa direção com o espírito do sacrifício e da submissão, com o pecado e a culpa, com o supremo paradoxo do “deus morto”, Cristo, o “crucificado”, como Nietzsche se refere a ele. Nossa cultura seria fraca e decadente devido ao predomínio das “forças reativas” que a construíram. A verdade e a moral são os instrumentos que os fracos inventaram para submeter e controlar os fortes, os guerreiros. A tradição ocidental é o resultado desse processo. (MARCONDES, 2000, p. 243-244) O que Nietzsche desejou foi revelar e criticar esse processo, e se possível restaurar os valores primitivos perdidos. Mas a única forma de restaurar esses “valores” seria derrubando os valores existentes. Com isso ele faz a sua “filosofia do martelo”, atacando os valores que possibilitaram o desenvolvimento do mundo ocidental, inaugurando a sua “filosofia da suspeita”. Filosofia da Suspeita Qual o objetivo da “filosofia da suspeita”? O seu objetivo é desconstruir as ilusões que embalaram o humanismo clássico, desconfiando sempre dos valores morais, metafísicos e transcendentes. Para ela, toda forma de valor elevado esconde por trás de si interesses. Dentro desse pensamento, o alvo preferido de Nietzsche é Sócrates. O motivo é que na filosofia socrática a razão toma a direção da vida, dando a noção de dignidade ao homem. Nietzsche afirma em “Crepúsculo dos ídolos”. Sócrates foi um mal-entendido; a inteira moral-da-melhoria, também a cristã, foi um mal-entendido... A luz do dia mais crua, a racionalidade a todo preço, a vida clara, fria, cautelosa, consciente, sem instinto, oferecendo resistência aos instintos era, ela mesma, apenas uma doença, uma outra doença – e de modo nenhum um caminho de retorno à “virtude”, à “saúde”, à felicidade... Ter de combater os instintos – eis a formula para a décadence: enquanto a vida se intensifica, felicidade é igual a instinto. (NIETZSCHE, 1978, p. 330) O pensamento socrático compreendia que se deixar levar pelos instintos acarretaria prejuízos significativos à vida humana. O homem, cedendo aos apetites, pouco se diferenciaria dos animais, e se ele tem a razão a seu favor, porque abrir mão dela?! A boa convivência em sociedade deveria ser regida pelas leis da civilidade e do bom senso. Mas, isso não surgiu de uma hora para outro, levou tempo. O historiador Will Durant observa. Os atenienses do século V a.C. não eram exemplos de moralidade; o progresso intelectual libertara a muitos das tradições da ética, transformando-os em indivíduos quase amorais. Relativamente à justiça legal, eram tidos em alto conceito, mas raro se mostravam altruísta, a não ser para com os próprios filhos; poucas vezes deixavam-se perturbar pela consciência e jamais sonhavam em amar ao próximo como a si mesmos. (DURANT, 1995, p.230) O autocontrole, a moderação, equidade na fortuna e na adversidade, eram virtudes que os atenienses exaltavam em suas obras, mas poucas vezes praticavam em seu dia a dia. É Sócrates que vai apontar para essa incoerência, ao mostrar que não pode haver separação entre lexis (letra) e práxis (prática). A filosofia socrática emana uma clareza moral fundante para a sociedade ateniense, ela consegue atingir um público amplo, nem espontaneamente intelectual e nem deliberadamente inculta. Através do diálogo ele busca encontrar um consenso, fazendo uso de um pensamento que podemoschamar de moderno para a época. Formar uma criança ou um jovem para a virtude deveria passar pela atividade da Paidéia, que é a mais bela de todas e a mais eficiente. É a esse ponto que eu quero chegar. Como enfrentar a cultura da indiferença, presente em uma sociedade regida pelos falsos valores e pelos vícios de matriz niilista? Quando o homem é reduzido a uma única dimensão, nesse caso ao aqui e agora, alguns valores tendem a se enfraquecer, dentre eles a esperança. Com a perda da esperança vem o desespero e dele a indiferença no tocante à vida. Nesse contexto do “pós-moderno”, todos os homens são reduzidos a meros instrumentos de produção e consumo, esse homem tende a perder a sua essência dentro de um sentido metafísico, nesse caso a alma. Para Giovanni Reale. A morte do homem é uma conseqüência da morte de Deus: se “Deus está morto”, e com ele desaparecem todos os ideais e os valores a estes vinculados, o que resta do homem, que tinha um vínculo estrutural com Deus e com esses ideais e valores? Encontramos a resposta num fragmento de Nietzsche: “O bem do universal exige que se abandone o indivíduo. Mas, preste atenção, esse universal não existe! No fundo, o homem perdeu a fé em seu valor infinito; ou seja, ele concebeu esse todo para poder acreditar no próprio valor” (...) A partir do momento em que se negou Deus e, com Ele, todos os valores espirituais, não se obtém de forma alguma a emancipação total da humanidade; em vez disso, a eliminação de todos os ideais e de todos os valores comporta – contrariamente à tentativa que Nietzsche procura fazer – uma queda no absurdo, a total infelicidade e a loucura, como poderiam demonstrar a própria vida de Nietzsche e seu fim na loucura. A verdadeira pergunta é: como se pode viver, se a vida não tem mais sentido? (REALE, 2011 p. 160-161) A Transvaloração dos Valores Como viver em um mundo que perdeu o seu sentido? A relação entre homem e mundo sempre significou uma busca de sentido; dessa busca, nasce a esperança. Um mundo sem sentido é um mundo sem esperança, onde a angústia e o vazio se externalizam em forma de prazer, vícios e consumo. Sócrates nos ensina o valor do autoconhecimento. Sem harmonia interna, teremos desequilíbrio externo, e é ele que alimenta o vazio existencial do mundo. A transvaloração dos valores, proposta por Nietzsche e presente nos nossos dias, é a inversão dos antigos valores e um deslocamento destes da esfera da transcendência para a esfera da vontade de potência. A vontade de potência nos nossos dias pode ser classificada com a angústia travestida de liberdade em um discurso de felicidade. É incontestável que os valores são uma condição que, ao ser eliminada, torna a vida absurda. O ser humano é impaciente por natureza. Muitas vezes é difícil esperar. Queremos que os nossos desejos sejam satisfeitos o mais rápido possível, e com freqüência nos envolvemos com problemas sem pensar muito bem. É uma fraqueza que deve ser corrigida, mas a nossa sociedade apenas alimenta essa deficiência através dos meios de comunicação de massa. A materialização dos nossos afetos tende a se resumir apenas àquilo que podemos consumir. Sejam eles bens de consumo, relações afetivas curtas, aprendizado sem compromisso, trabalho visando o consumo. O saber dos antigos, ao olhar para o interior do ser humano, compreende que ele possui necessidades que estão além das coisas materiais que o mundo pode lhe oferecer. Toda tentativa de agir no mundo sem sabedoria gera fracasso. Fazer-por-fazer e produzir-por-produzir geram apenas vazio e dor. O verdadeiro problema não é o que fazer, mas o que devemos ser. Ciência => técnica => economia => lucro => alienação A ciência exclui todo o juízo de valor; a técnica é puramente instrumental; o lucro invade todos os campos, transformando os seres humanos naquilo que o capital tem de pior. E como podemos resistir a tamanho mal? Aprendendo com os antigos o valor da sabedoria. A Perda dos Valores A nossa sociedade carece de valores de longo prazo. Hoje tudo se tornou transitório, passageiro ou com data de validade. Pensar em valores exige nos nossos dias uma grande imaginação. A razão disso é que não conseguimos nos apegar a nada. Tudo o que precisamos é ter as nossas necessidades e desejos atendido o mais rápido possível. A cisão no mundo moderno entre a razão e o real, entre humanismo abstrato e vida concreta, teve prejuízos significativos; uma rebelião das paixões dos indivíduos em um mundo que, aos poucos, foi perdendo o seu sentido. O conhecimento se desenvolve através da experiência; ela nos possibilita crescer através do conhecimento; mas quando a experiência se resume à satisfação tudo se torna muito perigoso. No entanto, o caminho que leva ao niilismo não surgiu de uma hora para outra; ele foi sendo construído gradativamente. Segundo Rehfeld podemos reconhecer três caminhos. As ciências, grandemente estimuladas pelo espírito racional do Iluminismo, tomam, nos séculos XVIII e XIX, um ímpeto nunca visto antes. Os princípios da mecânica, que tão bem serviram para a elaboração das leis mais importantes da física clássica, como da lei da gravidade, da termodinâmica e do eletromagnetismo, chegaram a ser considerados fundamentos ontológicos de toda realidade: De postulados muito úteis para determinados trabalhos científicos (não para todos), chegaram a constituir dogmas de fé, em cuja aplicabilidade irrestrita acreditava-se cegamente. O dogma mecanicista substituiu os velhos dogmas religiosos, sem dar-se conta do papel que a fé desempenhava na sua aceitação incondicional e universal, nem na vulnerabilidade que apresentavam à verdadeira crítica cientifica. É evidente que um mecanismo deste tipo excluía toda a realidade divina. (REHFELD, 2008 p.318) Confiar cegamente na razão pode acarretar prejuízos significativos. Ao tomar o lugar da antiga metafísica, o pensamento científico acaba com o encantamento do homem diante da natureza, e essa passa a ser mais um objeto de conhecimento. Na relação do homem grego com a natureza existia encantamento e respeito. A diferença entre a modernidade e a pós-modernidade é que os pensadores modernos procuravam encontrar coerência, ordem e unidade no mundo. Representar o mundo através de leis gerais era o seu objetivo. O mundo de Newton era um universo coerente e regido por leis; Nietzsche interpretava isso como sendo uma perda de tempo. Para ele, nenhuma reunificação das forças caóticas no mundo seria possível, o racionalismo científico moderno é uma ilusão, um modo de retornar às cosmologias antigas. O segundo caminho apontado por Rehfeld foi àquele traçado por Darwin. Outro golpe na consciência religiosa foi desferido por Darwin e pela sua obra. A teoria da evolução proscreveu como contrárias à ciência as lendas bíblicas da criação do mundo, do homem e dos seres vivos. Baseou a evolução das espécies numa impiedosa luta pela sobrevivência, de todos contra todos, num sofrimento infindável. (Ibidem, p. 319) Porúltimo, o terceiro caminho apontado por ele foi o materialismo histórico de Marx e Engels, que reduz todos os fatos importantes da história e culturais da existência humana às leis da produção da sociedade. Uma visão negativa no tocante a religião já estava presente, mas, principalmente no materialismo histórico, se torna um alvo. Muitas vezes o discurso se reproduz se forma tão agressiva em decorrência das limitações da razão iluminista ou do pensamento cientifico. O dano maior está no fato que um discurso do ressentimento que se materializa em uma filosofia da suspeita coloca sob dúvida vários valores da tradição. A tendência é que, em decorrência da perda dos valores, a suposta morte de Deus, tudo o que nos resta são dúvidas e incertezas. O conhecimento do mundo passa a ser feito não mais através das formas racionais, mas pelo desejo direcionado pelas emoções. Os três exemplos citados mostram que, diante do caos que se apresenta em determinadas circunstâncias, o homem, na maioria das vezes, não sabe o que fazer, e quando pensa em fazer alguma coisa é a partir da sua revolta. Dependendo da maneira que interpretamos o mundo, o tempo, o espaço, a natureza, tudo pode ser tomado como sendo um adversário. Lidar com as adversidades requer de nós sabedoria. O Niilismo Com o desenvolvimento do individualismo, o niilismo se fortalece e produz sofrimento e dor. Os valores, que foram imprescindíveis para o desenvolvimento do mundo ocidental (mesmo com suas contradições), se tornam desnecessários. O sentido da vida passa ser a sua falta de sentido, e a angústia materializada em alienação e consumo se tornam o discurso dominante. O homem olha para o mundo e se sente um completo estranho. O abismo construído pelo niilismo, resultado da individualidade extrema, tende a esgotar as forças de resistência da nossa realidade. Somente um discurso ético, que possa gerar ações éticas a partir da renuncia individual em pró de um bem coletivo, pode confrontar tamanha indiferença. Morin observa que: A crise ética da nossa época é, ao mesmo tempo, crise da religação indivíduo/sociedade/espécie. Importa refundar a ética; regenerar as suas fontes de responsabilidade-solidariedade significa, ao mesmo tempo, regenerar o circuito de religação indivíduo-espécie-sociedade na e pela regeneração de cada uma dessas instâncias. Essa regeneração pode partir do despertar interior da consciência moral, do surgimento de uma fé ou de uma esperança, de uma crise, de um sofrimento, de um amor e, hoje, do chamado vindo do vazio ético, da necessidade que vem da deterioração ética. Não se trata, portanto, para nós de encontrar um novo fundamento para a ética, mas, ao mesmo tempo, de dar-lhe novas fontes, novas energias e de regenerá-la no circuito de religação. (MORIN, 2005 p. 29-30) A única forma de propor alternativas ao niilismo é através de valores éticos bem fundamentados pela consciência. Os tempos modernos produziram deslocamentos e rupturas éticas na relação indivíduo/sociedade/espécie. O homem dos nossos dias olha para o outro e enxerga apenas um adversário; olha para a natureza e vê apenas uma oportunidade de dominação; se olha no espelho e sente vazio e solidão. O mundo pós-moderno impõe o seu próprio culto: uma idolatria dos prazeres. Não precisamos nos esforçar muito para enxergar que o mundo não vai bem. A vida desaparece no momento em que a dignidade se torna desnecessária. Ao produzir deslocamento e rupturas, os tempos modernos transformam o homem em um autômato, indiferente, egoísta, e insensível diante da dor e do sofrimento do outro. Essa é a sociedade da indiferença, é a herança do niilismo. Acredito que a melhor solução para esses problemas seja a volta da sabedoria antiga. Mas o que a filosofia dos antigos tinha de especial? Ela reconhecia a finitude do homem diante da natureza e a necessidade de uma educação que transformasse o homem em alguém melhor. Não apenas através do conhecimento, mas também do fortalecimento da alma. O caminho era o caminho da educação e da cultura. Um processo de educação consciente é a única ferramenta capaz de transformar o homem, disciplinando os seus vícios, enaltecendo as suas virtudes, fortalecendo o seu intelecto com informações e conhecimentos, e principalmente, possibilitando e promovendo seu acesso a um plano superior de existência (Cf. Pinto, 2003, p. 19). A Era da Informação A Era da Informação transforma a nossa realidade de fora para dentro, mas a nova experiência do tempo nos transforma de dentro para fora. É esse mundo acelerado que torna um plano superior de existência algo desnecessário. Diante da sua impotência resta ao homem apenas se revoltar. Acredito que talvez seja melhor encontrar sentido na aparente falta de sentido do que se render aos apetites e vícios. Se reduzirmos a filosofia apenas a uma teoria do conhecimento, seu papel fica reduzido às possibilidades desse conhecimento. Mas se a filosofia apontar para caminhos outros, nesse caso, uma experiência da realidade que não se prende apenas ao aqui e agora, o ato de filosofar nos dá uma direção e uma necessidade de sentido. O nosso mundo vive um esgotamento dos valores. Para resgatar os valores, precisamos alimentar no nosso ser a fé, não a “fé” nas coisas do mundo (prazeres, materialismo, poder), mas nos valores mais elevados; somente internalizando-os podemos encontrar forças para lutar em um mundo regido por um relativismo moral. Aristóteles em sua Ética a Nicômaco afirma: A excelência é, portanto, uma disposição do caráter escolhida antecipadamente. Ela está situada no meio e é definida relativamente a nós pelo sentido orientador, principio segundo o qual também o sensato a definirá para si próprio. (Aristóteles, 2009 p.49) Precisamos buscar a excelência em tudo na nossa vida. A realização da nossa humanidade será progredir na direção da melhor possibilidade que uma vida com responsabilidade pode oferecer. A virtude precisa ser fortalecida através de atos virtuosos, valores elevados e uma disposição para compreender e completar o outro naquilo que lhe falta. Se, de um lado, o discurso do mundo contraria aquilo que a sabedoria grega ensinava, talvez resistir seja a nossa única escolha. Mas a resistência precisa ser alimentada diariamente, continuamente e incansavelmente. Se render ao niilismo é um prejuízo, perder a alma é uma tragédia, mas enfrentar o mundo com a alma alimentada pela virtude é vitória. Aqui termina o nosso módulo. Espero que você se sinta incomodado a pensar o mundo com um olhar crítico. Iniciar ao pensar teve o seu primeiro passo, continuar a pensar é uma jornada. Termino com uma frase do Hugo de São Vítor (Didascálicon, p. 227). A leitura pode ser para você um exercício, mas não um propósito. A instrução é boa, mas é dos principiantes. Você, ao contrário, haviaprometido de tornar-se perfeito, e por isso não lhe bastará igualar-se aos principiantes. É necessário que você faça mais. Considere, portanto, onde está, e saberá facilmente aquilo que deve fazer. A ÉTICA PÓS-MODERNA Referências ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo, Editora Atlas, 2009 DURANT, Will. A História da civilização II: Nossa herança clássica. Rio de Janeiro, Editora Record, 3º edição, 1995. FERRY, Luc. Aprender a viver: filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2010. HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. São Paulo, Editora Globo, 22° edição, 2013. MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: Dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro, Ed. Jorge Zahar, 5º edição, 2000. MORIN, Edgar. O Método 6: Ética. Porto Alegre, Editora Sulina, 2005. NIETZSCHE, Friedrich. Coleção: Os pensadores. São Paulo, Editora Abril Cultural, 1978. RUSSELL, Bertrand. História do pensamento ocidental: A aventura das idéias dos Pré-Socráticos a Wittgenstein. São Paulo, Editora Ediouro, 3° edição, 2001. REALE, Giovanni. O saber dos antigos: terapia para os tempos atuais. São Paulo, Edições Loyola, 3º edição, 2011 REHFELD. Walter I. Ensaios Filosóficos. São Paulo, Editora Perspectiva, 2008. VÍTOR, Hugo de São. Didascálicon: Da arte de ler. Petrópolis, Editora Vozes, 2001.