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​​Iniciação ao Pensar - 2018.2 
 
Seção 1 - Hermenêutica: arte e técnica da interpretação 
Seção 2 - O Homem na Idade da Técnica 
Seção 3 - Arte, Cultura e o Movimento do Pensamento 
Seção 4 - Em busca do tempo perdido 
 
• A fronteira entre ciência e metafísica 
 
Taiana Teixeira 
 
 
Seção 1 - Hermenêutica: arte e técnica da interpretação 
Apresentação 
 Caro aluno, nossa aula pretende trabalhar a problemática 
Hermenêutica. A disciplina Iniciação ao Pensar visa 
aprimorar a nossa capacidade de pensar, mas o pensador é 
aquele que sabe que o nosso conhecimento tem uma 
dimensão essencialmente hermenêutica, isso é, 
interpretativa. O conhecimento humano nunca se satisfaz 
com a constatação do “que”: sempre procura o “por que” das 
coisas. Mas, quando procuramos o por que, entramos no 
campo da interpretação e não da simples constatação. 
Nietzsche dizia, de forma provocatória, que não existem 
fatos, existem interpretações. Por isso, pensar significa ir 
além do senso comum e perceber que a verdade não se 
identifica com o que se apresenta como real à evidência 
sensível. “O senso comum – escrevia Heidegger – possui um 
olhar e uma escuta próprios, resistentes a tudo aquilo que o 
coloca em questão”. Para superar o conhecimento do senso 
comum, é preciso aprender a pensar, se tornar “pensador”. 
 
-​​ ​O pensador não é aquele que colhe a verdade, já pronta, no 
mundo. A própria imagem do filósofo como amante da 
sabedoria nada tem a ver com a de um ser de boa vontade 
que, tranquilo, goza da bem-aventurança da verdade. Como 
todo amante, ele é um inquieto, um ciumento pronto a 
decifrar as palavras da amada, a hesitação da sua voz ou a 
“insignificante” troca de palavras que denuncia o oculto. [...] O 
amor pela verdade é, pois, desconfiado e inquiridor, sempre 
pronto a identificar os signos que denunciam a traição do 
dado. (GARCIA-ROSA, 1998, p. 9) 
 
 A vida, no seu conjunto, e as palavras que usamos para 
falar dela são como que enigmas que precisam ser 
decifrados, e a Hermenêutica é a arte e a técnica da 
interpretação; sua história começa com os esforços dos 
gregos para compreender e preservar os seus poetas. A 
partir da Renascença se afirmam três tipos de técnicas de 
interpretação que continuam até hoje: a hermenêutica 
teológica, a filosófica e a jurídica. Não podemos 
desconsiderar o valor social da hermenêutica, onde as 
normas reguladoras do convívio devem ser interpretadas por 
todos, como condição de seu cumprimento e obediência. 
Quem resgatou a Hermenêutica dentro da tradição ocidental 
foi o filósofo e teólogo alemão Friedrich Daniel Ernest 
Schleiermacher (1768-1834). 
 
A Hermenêutica de Schleiermacher 
 A Hermenêutica de Schleiermacher é a fundamentação 
geral das ciências humanas contra a pretensão metodológica 
positivista (positivismo) das ciências experimentais. Não 
podemos incorrer no erro de acreditar que as ciências, tanto 
em sua elaboração teórica quanto em suas aplicações 
técnicas, estão isentas da influência da ideologia dominante 
na sociedade. Novamente, podemos recuperar uma 
provocação de Nietzsche: 
 
Por traz de toda lógica e de sua 
aparente soberania de movimentos 
existem valorações, ou, falando mais 
claramente, exigências fisiológicas 
para a preservação de uma 
determinada espécie de vida. 
(NIETZSCHE, 2000, p.11) 
 
O cientista não é e não pode ser neutro, pois a prática teórica 
já demonstra um engajamento, em função de uma escolha 
previamente determinada. Na apresentação do livro 
Hermenêutica: Arte e técnica da interpretação, Celso R. 
Braida observa: 
 
Desse modo, estabeleceu-se uma 
inteligibilidade própria às ciências 
humanas, compreensiva, distinta 
daquela das ciências naturais, 
explicativa, quantitativa e indutiva. 
Enquanto as ciências explicativas 
buscam determinar as condições 
causais de um fenômeno através da 
observação e da quantificação, as 
ciências compreensivas visam a 
apreensão das significações 
intencionais das atividades históricas 
concretas do homem. Esse modelo de 
racionalização, retirado da 
interpretação de textos, no mesmo 
movimento que estabelece a 
apreensão do sentido como essência 
do método das ciências humanas, 
delimita o alcance da metodologia das 
ciências naturais, questionando, acima 
de tudo, o próprio conceito de 
objetividade científica. Isso se mostra 
nas determinantes específicas desse 
modelo: a inseparabilidade de sujeito e 
objeto, uma vez que a compreensão 
hermenêutica se dá pela inserção 
daquele que compreende no horizonte 
da história e da linguagem, as quais 
são aquilo mesmo que deve ser 
compreendido; o condicionamento de 
toda expressão do humanismo a um 
determinado horizonte lingüístico, o 
que inclui também o resultado da 
compreensão, portanto, a própria 
ciência; a circularidade entre o todo e o 
particular, ou a mútua dependência 
constitutiva entre a parte e a totalidade, 
que impossibilita a compreensão por 
mera indução; e, por fim, a referência a 
um ponto de vista, ou 
pré-compreensão, a partir do qual se 
institui todo o conhecimento, que 
estabelece a prioridade da pergunta 
sobre a resposta e problematiza a 
noção de dado empírico puro. 
(SCHLEIERMACHER, 2003, pg. 07-08) 
 
A hermenêutica é a arte interpretação e da compreensão. 
Em sua busca por um conhecimento em geral, 
Schleiermacher estabelece a ponte para a hermenêutica. Ao 
deslocar a hermenêutica do domínio técnico para o domínio 
filosófico, ele aponta para o fato que a arte de compreender 
está conectada com o pensamento e com a fala. Ninguém 
consegue pensar sem palavras, são elas que completam o 
pensamento. A clareza do pensamento acontece quando as 
palavras apropriadas foram empregadas. Do diálogo do 
indivíduo com o texto a pergunta que surge é: o que significa 
interpretar e compreender? 
 
O círculo hermenêutico 
A totalidade da linguagem carrega as expressões dessa 
linguagem. O pensamento do autor tende a incorporar a sua 
história. Através da memória, a história continua viva, e 
sempre estará enquanto for contada. A interdependência 
entre a parte e o todo é o que chamamos de círculo 
hermenêutico. Ele implica que não podemos compreender a 
sentença completa até compreender as partes, mas não 
podemos compreender as partes, o significado específico de 
uma palavra, até termos compreendido a sentença completa. 
 
O ponto de partida para o projeto hermenêutico é o 
distanciamento. Aristóteles define hermeneia ao se referir à 
operação da mente que formula juízos que têm a ver com a 
verdade ou a falsidade das coisas. Podemos concluir que a 
interpretação é a operação fundamental do intelecto, ao 
formular um juízo verdadeiro sobre determinada coisa. O 
exercício hermenêutico é uma busca da verdade. 
 
Para que a explicação tenha clareza, se faz necessário 
uma boa compreensão do fato ou objeto. Uma explicação 
confusa deriva de uma compreensão deficiente ou 
incompleta. O processo da compreensão não pode e não 
deve ser apressado, já que poderá causar prejuízos futuro. 
Esse é o cuidado que o exercício da hermenêutica exige. Ao 
nos distanciarmos do problema, teremos condições de olhar 
para ele de outra perspectiva e, ao nos aproximarmos, 
ganharemos uma nova perspectiva. Richard Palmer 
pergunta: 
 
Como pode um texto ser 
compreendido, quando a condição 
para a sua compreensão é já ter 
percebido de que o texto fala? A 
resposta é que, de certo modo, por um 
processo dialético, há uma 
compreensão parcial que é usada para 
compreendermos cadavez mais, tal 
como ao manusear as peças de um 
puzzle adivinhamos o que dele falta. 
Uma obra literária fornece um contexto 
para a sua própria compreensão; um 
problema fundamental em 
hermenêutica é explicar como é que 
um horizonte individual se pode 
acomodar ao horizonte da obra. É 
necessário um certo conhecimento 
prévio, sem o qual não haverá 
qualquer comunicação. No entanto, 
esse conhecimento tem que ser 
alterado no acto da compreensão. A 
função de uma interpretação 
explicativa na interpretação literária 
pode ser vista neste contexto, como 
um esforço para colocar os 
fundamentos numa pré-compreensão 
que permita compreender o texto. À 
medida que consideramos estas duas 
orientações da interpretação (dizer e 
explicar), a complexidade do processo 
interpretativo e o modo como ele se 
baseia na compreensão começam a 
aparecer. A interpretação como dizer, 
relembra a natureza da leitura como 
performance; contudo, mesmo na 
performance que é ler um texto 
literário, o actor tem que o 
compreender. Isto implica explicação; 
mas aqui, mais uma vez a explicação 
se fundamenta numa 
pré-compreensão, de modo a que 
anteriormente a qualquer explicação 
significativa ele tem que entrar no 
horizonte do tema e da situação. Ele 
tem que, na própria compreensão do 
texto, agarrar esse texto e ser agarrado 
por ele. A sua posição neste encontro, 
a pré-compreensão do material e da 
situação a que tem que chegar, numa 
palavra, todo o problema da fusão do 
seu horizonte compreensivo com o 
horizonte compreensivo que vem ao 
encontro dele no texto, nisto consiste a 
complexa dinâmica da interpretação. É 
o problema hermenêutico. (PALMER, 
2006, pg. 35-36) 
 
A dinâmica da interpretação 
A dinâmica da interpretação é o que possibilita o exercício 
hermenêutico. Comunicar é historicidade (essencialmente a 
afirmação da temporalidade da experiência humana). É a 
experiência do individuo se materializando em um discurso 
que tem por objetivo erguer uma ponte dialógica entre quem 
fala e quem escuta de forma oral ou escrita. 
A compreensão tende a nos orientar em uma determinada 
situação. Se limitarmos a compreensão à apreensão de um 
determinado fato, todo o processo existencial presente em 
sua essência tende a desaparecer. Compreender deriva do 
ato de interpretar, que é conhecimento, que é a disposição do 
ser, ou seja, a sua experiência existencial. 
Através da compreensão do texto, buscamos a 
possibilidade de ser indicado por ele. Conhecer um texto é 
conhecê-lo através de quem somos. E o que nós somos? 
Nós somos todos os livros, diálogos, experiências, lições, 
vivências e conhecimentos adquiridos ao longo da nossa 
história. Interpretamos a partir de quem somos, por isso é 
impossível sermos neutros, mesmo tentando muitas vezes. O 
segredo da hermenêutica está na mediação operada pela 
leitura entre o mundo do texto e o mundo do leitor; dela 
deriva a busca de sentido. O que muitas vezes pretendemos 
compreender não é o evento, mas a sua significação que 
permanece. 
Ao unir as várias hermenêuticas específicas numa 
hermenêutica universal compreendida como arte da 
compreensão, Schleiermacher resgata o valor da hermeneia, 
tão bem compreendida pelos gregos. A hermenêutica é o 
modelo para a compreensão correta das várias 
manifestações da vida em sua complexidade. A 
compreensão sempre será interpretação, já que conhecer é 
interpretar; mas compreender de forma que nos leve a evitar 
erros não é uma tarefa fácil. 
Na teoria hermenêutica, o homem estará sempre 
relacionado ao seu passado; dessa relação, a hermenêutica 
moderna encontra a sua fundamentação teórica na história. 
O significado é histórico. Mudar com o tempo é uma questão 
de relação, uma perspectiva a partir da qual os fatos são 
considerados. 
Um evento ou uma experiência podem 
alterar de tal modo as nossas vidas 
que aquilo que anteriormente tinha 
significado pode deixar de ter e que 
uma experiência passada 
aparentemente sem sentido pode 
tornar-se retrospectivamente 
significativa. O sentido do todo 
determina a função e o sentido das 
partes. E o sentido é algo histórico; é 
uma relação do todo e das partes 
encarada por nós de determinado 
ponto de vista, num determinado 
tempo, para uma dada combinação de 
partes. Não é algo acima ou fora da 
história, mas a parte do um círculo 
hermenêutico, sempre historicamente 
definido. (PALMER, 2006, pg. 124) 
O sentido e o significado são, portanto, contextuais. Dessa 
forma, mudam com o tempo, é uma questão de relação, 
determinada por uma perspectiva. Se a interpretação ignorar 
a história, estará incompleta. A interpretação tem suas 
regras, e dentre elas o interprete não pode e não deve 
mergulhar totalmente no seu objeto, mas deve buscar um 
caminho que seja viável entre o seu horizonte e o projetado 
pelo texto. A compreensão não pode ser considerada como 
um mero ato do pensamento, mas como uma transposição e 
uma nova experiência de mundo, tal qual a nossa experiência 
de vida. 
 
Os caminhos da interpretação 
Quando falamos de hermenêutica precisamos pensar em 
três coisas: métodos precisos com regras rigorosas; uma 
reflexão bem fundamentada do que seja a própria natureza 
do compreender; e por último, uma espécie de filosofia, como 
outra via de conhecimento que pretende compreender as 
condutas científicas melhor do que elas conseguem. 
É a busca de sentido que é a força motriz do processo de 
interpretação. Para a construção de uma hermenêutica 
rigorosa precisamos de regras que apontem para uma nova 
via do conhecimento. Richard Palmer aponta para trinta teses 
sobre a interpretação, mas aqui vamos recuperar somente 
dois elementos, que consideramos fundamentais. 
 
1 - ​​A experiência hermenêutica é dialética. Os frutos desse 
fato só podem ser colhidos quando a experiência for 
concebida não como consciência que percebe objetos, mas 
como compreensão que alarga e ilumina a autocompreensão. 
 
2 - ​​A tarefa da interpretação. É construir uma ponte sobre a 
distância histórica. Ao interpretar um texto do passado, o 
intérprete não esvazia a sua mente nem abandona 
absolutamente o presente; ele o leva e o utiliza para 
compreender, no encontro dialético do seu horizonte com o 
horizonte da obra literária. A compreensão não é um 
conhecimento histórico fora do tempo; situa-se num lugar 
específico no tempo e no espaço, ou seja, na história. A sua 
interpretação se reveste de características diferentes à 
medida que aparece ao leitor. Em resumo, a própria 
interpretação é histórica, e se tentarmos fazer dela qualquer 
outra coisa ao acrescentar ou tirar algo, empobrecemos a 
interpretação e nos empobrecemos com ela. 
 
• ​ Chegamos ao fim da nossa seção e algumas coisas 
precisam ficar bem compreendidas. Primeiro, para que 
aconteça o exercício hermenêutico, precisamos levar em 
conta a historicidade. Historicidade não quer dizer 
concentração no passado, nem tão pouco estarmos presos a 
ideias do passado; historicidade é essencialmente a 
afirmação da temporalidade da experiência e do 
conhecimento humanos. A experiência e o conhecimento são 
intrinsecamente temporais, dessa forma, eles se constroem 
com e no tempo.Segundo, o exercício hermenêutico se dá 
em um processo dialético entre o todo e a parte, cada um 
dando sentido ao outro; donde podemos concluir que a 
compreensão é circular (círculo hermenêutico). Terceiro, a 
hermenêutica tem um objetivo a ser atingido, que é 
interpretar e compreender melhor um fato ou um texto. A 
tarefa da interpretação é um processo de construção que se 
define pelo diálogo com o passado. Por último, o interprete 
não se encontra fechado em si mesmo, mas aberto para o 
texto em uma relação de espanto. Contudo, existe também 
um preço a se pagar por uma filosofia hermenêutica, como 
observar David Pellauer. 
 
O preço a pagar por essa filosofia 
hermenêutica, percebe Ricoeur, é ter 
que desistir de qualquer pretensão 
imediata à universalidade em prol da 
busca de uma fusão entre contingência 
e universalidade no exercício da 
interpretação. Também reconhece que 
a questão de saber se o conflito de 
interpretação pode ser finalmente 
resolvido permanece em aberto. 
(PELLAUER, 2009, pg. 69) 
 
Acredito que o conflito de interpretações não estará 
resolvido sem diálogo, mas é apenas através dele que será 
encontrada uma solução. Termino com uma citação de 
Garcia-Rosa que apresenta a hermenêutica como algo 
constitutivo do conhecimento humano. 
 
Se a palavra fosse unívoca, seríamos 
máquinas, ou mais rigorosamente 
ainda, seríamos naturais. O homem 
surge e instala-se no lugar do 
desamparo, isto é, no lugar onde não 
há garantia alguma da verdade do 
outro. Sem esse desamparo 
fundamental não haveria 
intersubjetividade, mas 
interobjetividade, ausência completa de 
qualquer coisa que se assemelhasse à 
inteligência humana. O que funda a 
subjetividade é a opacidade, a 
não-transparência e, com ela, a 
possibilidade da mentira, do 
ocultamento, da distorção. Pretender 
uma palavra que elimine o equivoco é 
pretender uma palavra super-humana. 
Essa palavra representaria, porém, a 
morte do homem, seu portador seria 
sem falta, sem desejo, estaria de 
posse da garantia plena, mais próximo 
dos deuses do que dos homens. Que 
não me tomem por um apologista da 
mentira, da distorção, do ocultamento. 
Não pretendo fazer aqui a defesa da 
má consciência, mas sim desfazer a 
ilusão da palavra plena, da 
transparência ingênua ou artificial 
pretendida pelos positivistas. 
(GARCIA-ROSA, 1998, p. 38-39) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TEXTOS DO PAUL RICOEUR NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 
 
 
 
 
 
 
 
 
Referências 
 
GADAMER, Hans-Georg. ​Verdade e Método: Traços 
fundamentais de uma hermenêutica filosófica​​. Petrópolis, 
Editora Vozes, 1997. 
HEIDEGGER, Martin. ​A Caminho da linguagem​​. Petrópolis, 
Editora Vozes, 2003. 
NIETZSCHE, Friedrich. ​Além do bem e do mal​​. São Paulo, 
Editora Companhia das Letras, 2000. 
PALMER, E. Richard. ​Hermenêutica​​. Lisboa, Editora 70, 
2006. 
PELLAUER, David. ​Compreender Ricoeur​​. Petrópolis, 
Editora Vozes, 2009. 
ROSA, Luiz Alfredo Garcia. ​Palavra e verdade na filosofia 
antiga e na psicanálise.​​ Rio de Janeiro, Editora Jorge 
Zahar, 1998. 
SCHLEIERMACHER, Friedrich D.E. ​Hermenêutica: Arte e 
técnica da interpretação​​. São Paulo, Editora Universitária 
São Francisco, 4° edição, 2003. 
SCHMIDT, Lawrence K. ​Hermenêutica​​. Petrópolis, Editora 
Vozes, 3° edição, 2014. 
 
 
 
 
 
Seção 2 - O Homem na Idade da Técnica 
 
Apresentação 
A técnica é a essência do homem e não existem mais 
dúvidas quanto a isso. Vivemos na idade da técnica; basta 
olhar para a nossa realidade onde fazemos uso continuo das 
mais diversas tecnologias como os computadores, celulares, 
tablets, internet, etc. As tecnologias da informação facilitam o 
nosso trabalho, estudo, consumo e diversão. Mas nem tudo 
são benesses; a mesma tecnologia que facilita o trabalho 
pode gerar o desemprego; a facilidade que temos para 
conseguir informações pode gerar indiretamente uma 
desvalorização da mesma. Sempre que a tecnologia se 
afirma em uma determinada cultura, aqueles que fazem uso 
delas tendem a se acomodar diante das suas facilidades. O 
objetivo da nossa reflexão é compreender o que é a “técnica”, 
assim como definir e explicar a ‘aproximação’ entre técnica e 
tecnologia. 
 
Antes de continuarmos, vamos definir o que seja a “técnica” e 
“tecnologia”. Segundo o Dicionário de filosofia de Nicola 
Abbagnano (1999), a tecnologia é “o estudo dos processos 
técnicos de um determinado ramo de produção industrial ou 
de mais ramos” (p.942). Já a técnica, 
 
(...) compreende qualquer conjunto de regras aptas a dirigir 
eficazmente uma atividade qualquer. Nesse sentido, técnica 
não se distingue de arte, de ciência, nem de qualquer 
processo ou operação capaz de produzir um efeito qualquer: 
seu campo estende-se tanto quanto o de todas as atividades 
humanas. (Idem, p.939) 
 
Para a maioria das pessoas a sociedade em que vivemos é 
infinitamente melhor do que aquelas do passado, porém é 
inegável que gradativamente o homem perde, a cada dia, um 
pouco da sua noção de humanidade, ao se render as 
facilidades que a sociedade da informação nos concede. A 
técnica se tornou um prolongamento da metafísica já que ela 
podia apresentar a essência no momento que se afirmava na 
natureza. 
 
Compreender o homem em sua relação com a natureza é 
interpretar a técnica. A ciência foi sempre a representante do 
mundo e a compreensão do seu passado representa abertura 
para o futuro. Toda inquietação que define a relação 
homem/natureza necessariamente precisa passar pelo olhar 
da técnica. 
 
A ciência newtoniana 
A ciência produzida por Isaac Newton, que se desenvolve 
nos séculos XVII e XVIII, promete dominar o futuro (Vídeo 
Teoria do Caos). A ciência newtoniana apresenta a evolução 
de um sistema mecânico em função das condições de 
partida, ela inventa o “tempo” e o determinismo. Sua ciência 
mostra que o futuro não é um objeto misterioso e indomável, 
na qual se exprimem as forças e caprichos dos deuses. Se 
você compreender o início, vai compreender o meio e, 
concomitante, o fim. O futuro se torna previsível. Predizer o 
futuro é construí-lo antevendo as conseqüências dos seus 
atos. Como afirma Bruno Jarrosson: 
 
A técnica torna-se o braço secular da neurose do domínio. 
A ideia de domínio vai unir-se ao sistema econômico. Este 
sistema cria uma troca entre o conforto e a liberdade. O 
homem renuncia à liberdade do seu horário e de movimento 
no trabalho para gozar os benefícios da produção em massa. 
Para um maior domínio numa área – a do conforto, do 
domínio do futuro - , o homem perde algum domínio noutra: a 
da disponibilidade, do domínio do seu presente. 
(JARROSSON, 1998, pg. 16-17) 
 
O que Jarrosson nos apresenta é que a técnica nos 
promete o conforto decorrente do domínio do futuro, mas, por 
outro lado, o sentido do presente desaparece em decorrência 
de olharmos sempre para o que não chegou ainda. O tempo 
do presente desaparece em função do tempo do futuro, um 
tempo intangível por ser inexistente. O que a história da 
humanidade nos mostrou é que o domínio da tecnologia não 
nos garante dominar a história.Os efeitos de nossos atos a 
longo prazo continuam imprevisíveis. A tecnologia que faz do 
nosso planeta uma aldeia onde o espaço se contrai em 
decorrência da velocidade (tanto dos meios de transportes 
quanto da informação) confirma a sensação de caos e 
impotência. 
 
Ao mesmo tempo, da ciência nasce a tecnologia que é 
usada para dominar a natureza. Ora aplicando o segundo 
princípio da termodinâmica, este uso da tecnologia produz 
sempre resíduos indesejáveis. Cada vez que produzimos 
alguma coisa que quisemos, produzimos inevitavelmente 
alguma coisa que não quisemos. Quando me desloco de 
carro, produzo a deslocação que quis e gases poluentes que 
não quis. Quando estes efeitos indesejáveis se tornam não 
desprezáveis como hoje em dia, o homem é obrigado a 
utilizar a sua própria tecnologia para eliminar esses resíduos. 
Mais um limite que faz duvidar da capacidade da ciência em 
solucionar os problemas, em particular os que ele mesma 
provoca. (Idem, 1998, pg. 23-24) 
 
REVISTA CIÊNCIA E VIDA (FILOSOFIA) Nº 79 FEVEREIRO 
2013 
Não resta dúvida que a constituição da vida é imprevisível. 
Toda ideia que foi lançada quanto à possibilidade de dominar 
o futuro se mostrou impossível. Contudo, o nosso dever é 
trabalhar para transformar o futuro em algo aceitável. Para 
isso, precisamos compreender o papel do tempo a partir da 
técnica, para, dessa compreensão, entender como as 
tecnologias modificaram profundamente a nossa experiência 
do tempo. A ciência afirma que o tempo existe. O tempo é o 
tempo. É ele que nos traz a eventualidade e o imprevisto. É 
ele que tem a capacidade de nos espantar. 
Nós sabemos que o mundo está contido no tempo que 
transcorre uniformemente. Newton postulou a existência de 
um tempo idêntico em toda parte e que passa de forma 
uniforme. Esse é o tempo objetivo. Mesmo que para cada 
indivíduo a sua experiência seja subjetiva. O decorrer 
uniforme do tempo contraria a nossa experiência íntima da 
duração, mas é fundamental para a vida social. 
A nossa sensação do tempo não coincide com o decorrer do 
tempo dito objetivo, para isso usamos um relógio que 
sincroniza a nossa sensação do tempo com o tempo objetivo. 
Pelo contrário, no tocante ao espaço, sabemos medir o 
espaço objetivo a partir da nossa sensação, sem 
necessitarmos de um metro. O fato de usarmos um relógio e 
não um metro é significativo. O ajuste no espaço faz-se pela 
mobilidade, o que é impossível no tempo. Este tempo 
encaixa perfeitamente na concepção matemática do mundo 
que então prevalecia, como observa Jarrosson. 
 
A técnica enquanto essência do homem 
A nossa realidade é composta de dois tipos de discursos; 
de um lado estão os pessimistas quanto ao valor da técnica e 
das tecnologias; e de outro, aqueles que alimentam um 
entusiasmo ingênuo quanto a sua função e papel social. 
Encontrar o equilíbrio requer de nós prudência. Todo o 
pensamento que é construído de forma apressada tende a 
gerar um prejuízo. Precisamos interpretar o problema com 
cuidado e atenção, para não perder de vista o que o 
fundamenta, ou seja, o homem tem em sua essência a 
técnica. 
 
Quando afirmo que a técnica é a essência do homem, 
aponto para a sua capacidade de criar e reinventar 
ferramentas a partir das suas necessidades. Basta olharmos 
para o processo evolutivo, que encontraremos aliada às 
necessidades humanas as ferramentas que facilitaram o 
desenvolvimento da espécie. Essa relação homem, 
ambiente, necessidade exigiu o uso da criatividade como 
meio de sobrevivência. 
 
O que nos difere dos animais é o instinto. Eles fazem uso 
apenas dessa condição para viver no mundo, nós, por outro 
lado, somos providos de razão e sensibilidade. A nossa 
capacidade de interpretar o mundo possibilita a construção 
de sentido, ou seja, podemos antecipar, projetar, idealizar e 
transformar o mundo que nos cerca. Para que isso aconteça 
temos a técnica. Umberto Galimberti afirma: 
 
Nesse sentido, é possível dizer que a 
técnica é a essência do homem, não 
só porque, em razão da sua 
insuficiente dotação instintiva, o 
homem sem a técnica não teria 
sobrevivido, mas também porque, 
explorando essa plasticidade de 
adaptação que deriva da generalidade 
e não-rigidez dos seus instintos, pôde 
alcançar “culturalmente”, por meio de 
procedimentos técnicos de seleção e 
estabilização, aquela seletividade e 
estabilidade que o animal possui “por 
natureza”. (GALIMBERTI, 2006, pg. 9) 
 
A carência biológica do ser humano, no tocante aos 
instintos (eles não são suficientes para a sua sobrevivência) 
e sua relação com o mundo, precisa ser compensada e essa 
compensação é realizada pela técnica. Por meio dela, os 
procedimentos de interação do homem com o mundo se 
realizam através de seleção e descarte. Aquilo que funciona 
bem tende a ser incorporado à nossa vida cotidiana, mas o 
que não funciona será descartado. Ao delimitarmos, a 
experiência opera na realidade, e tudo o que não é possível 
de realização será deixado para trás. Para a construção do 
real, a técnica escolhe entre cenários possíveis, e o mundo 
que ela constrói nasce por eliminação dos mundos não 
acontecidos. 
 
A técnica é meio para um fim, mas isso não quer dizer que 
seja um simples meio; ela é desencobrimento (alétheia), 
como afirma o filósofo Martin Heidegger. O desencobrimento 
acontece com propriedade toda vez que o homem se sente 
chamado a acontecer no mundo. O que a essência da 
técnica tem a ver com desencobrimento? Tudo. Pois é nele 
que se funde a produção. 
 
Continuação: A técnica 
O desencobrimento dominante da técnica moderna se 
afirma pelo explorar. Mas qual seria a diferença entre 
explorar e acontecer? O explorar toma o agir como um fim 
em si onde o objetivo final é o lucro; o acontecer é mais 
profundo, ele possibilita ao homem, através do fazer, dar 
sentido à sua humanidade. Ao transformar o mundo através 
das suas ferramentas, o homem não busca apenas uma 
melhor organização do ambiente, mas prepara novos 
ambientes a partir da possibilidade da criação. O mundo não 
é constituído apenas de coisas, mas principalmente de 
ações, e é nelas que o homem encontra o sentido para a sua 
existência. 
 
A teoria da natureza, proposta pela 
física moderna, não preparou caminho 
para a técnica, mas para a essência da 
técnica moderna. Pois a força de 
exploração, que reúne e concentra o 
desencobrimento da disposição, já está 
regendo a própria física, mesmo sem 
que apareça, como tal, em sua 
propriedade. A física moderna é a 
precursora, em sua proveniência ainda 
incógnita, da com-posição. A essência 
da técnica moderna se encobre e se 
esconde, durante muito tempo ainda, 
mesmo depois de já se terem 
inventado usinas de força, mesmo 
depois de já se ter aplicado a técnica 
elétrica aos transportes ou descoberto 
a técnica atômica. Tudo que é 
essencial, não apenas a essência da 
técnica moderna se mantém, por todaparte, o maior tempo possível, 
encoberto. Todavia, a sua regência 
antecede tudo, sendo o primordial. Os 
pensadores gregos já o sabiam, ao 
dizer: o primeiro, no vigor de sua 
regência, a nós homens só se 
manifesta posteriormente. O originário 
só se mostra ao homem por último. Por 
isso, um esforço de pensamento, que 
visa a pensar mais originariamente o 
que se pensou na origem, não é a 
caturrice, sem sentido, de renovar o 
passado, mas a prontidão serena de 
espantar-se com o porvir do princípio. 
Para a cronologia historiográfica, o 
início das ciências modernas da 
natureza se localiza no século XVII, 
enquanto que a técnica das máquinas 
só se desenvolveu na segunda metade 
do século XVIII. Posterior na 
constatação historiográfica, a técnica 
moderna é, porém, historicamente 
anterior no tocante à essência que a 
rege. (HEIDEGGER, 2002, pg. 25) 
 
A técnica não é o resultado da modernidade, ela deriva da 
predisposição do ser humano em transformar o mundo a 
partir da sua essência. Dessa relação homem/mundo, o 
primeiro não pode confiar nos esquemas inatos decorrentes 
da genética, ele precisa construir os seus esquemas de 
leitura da natureza, para através deles, compreender o 
mundo. O que direciona a sua leitura da natureza é a sua 
objetividade: atingir um objetivo é a finalidade da técnica, 
contudo, a objetividade só ganha sentido quando a 
subjetividade é exercitada com clareza e disposição. 
 
Efeito da técnica seletiva é um cada 
vez maior distanciamento do homem 
em relação ao mundo, que, por sua 
vez, é captado mais por sinais 
perceptivos e potencialidade de 
desenvolvimento intuídas, ainda que 
não percorridas operacionalmente. 
Esse distanciamento é a raiz primeira 
daquilo que a filosofia e a ciência 
chamam de objetividade, ou seja, a 
capacidade de abraçar o mundo com 
um olhar, de olhá-lo de cima, com a 
possibilidade de intervir a partir do 
aceno que se dá no seio de uma rede 
de disposição facilmente calculáveis, 
porque evidenciada pela seleção 
anteriormente ocorrida. Isso significa 
que a objetividade nada mais é que o 
esquema comprovado da percepção 
subjetiva, a qual, desprovida de 
esquemas inatos de resposta à 
profusão de estímulos que chegam ao 
mundo, por meio da seleção classifica, 
diferencia, privilegia, rejeita, criando o 
esquema do mundo testado pela ação. 
(GALIMBERTI, 2006, pg. 111) 
 
Eu diria que a técnica é a subjetividade se apresentando de 
forma objetiva com o intuito de transformar a realidade; dessa 
transformação, a humanidade cumpre o seu papel. Todavia, 
com a aceleração do tempo por conta das transformações da 
modernidade, assim como a aceleração da vida através da 
revolução industrial, a própria experiência do real se modifica 
e tudo se torna muito rápido. Nessa experiência acelerada 
que não nos deixa espaço para a reflexão é onde acontecem 
os erros de interpretação: os pessimistas em relação à 
técnica e os otimistas exagerados. É fato: a técnica não é 
neutra. Galimberti observa: 
 
Para nos orientar, precisamos antes de 
tudo acabar com as falsas inocências, 
com a fábula da técnica neutra, que só 
oferece os meios, cabendo depois aos 
homens empregá-los para o bem ou 
para o mal. A técnica não é neutra, 
porque cria um mundo com 
determinadas características com as 
quais não podemos deixar de conviver 
e, vivendo com elas, contrair hábitos 
que nos transformam obrigatoriamente. 
De fato, não somos seres imaculados e 
estranhos que às vezes se servem da 
técnica e às vezes delas prescindem. 
Pelo fato de habitarmos um mundo em 
que todas as suas partes estão 
tecnicamente organizadas, a técnica 
não é mais objeto de uma escolha 
nossa, pois é o nosso ambiente, onde 
fins e meios, escopos e idealizações, 
condutas, ações e paixões, inclusive 
sonhos e desejos, estão tecnicamente 
articulados e precisam da técnica para 
se expressar. (2006, pg. 08) 
Continuação: A técnica 
O que estou tentando mostrar é que a técnica transforma, 
facilita, dignifica, mas também pode levar o homem a um 
estado de alienação e angústia. A razão é simples: sempre 
que a técnica nos dá alguma coisa, nos tira outras. Já que a 
história não volta atrás, precisamos aprender com os nossos 
erros, para, através deles, construir outro caminho, onde 
humanismo e técnica se encontrem. 
O que mudou foi a nossa maneira de conhecer a realidade. 
A verdade dos fenômenos está sempre limitada pela 
velocidade do aparecimento. Quando ocorre a aceleração, a 
nossa forma de interpretar os fatos também muda, e essa 
mudança precisa ser bem definida. Primeiro, o tempo lento, 
analógico e rico de sentido está desaparecendo. Em seu 
lugar surge o tempo determinado pelo ritmo das máquinas. 
Segundo, esse tempo veloz não é de todo ruim. Se 
conseguirmos aprender a lidar com ele, ganharemos novas 
experiências. Terceiro, a tecnologia e as ciências, ao 
mudarem a arquitetura do mundo, definem uma nova forma 
de homem: o que arquiteta a sua realidade através da 
experiência da aceleração. 
Novas narrativas surgem no mundo tecnológico. Outras 
formas de conhecimento se apresentam regidas muitas 
vezes pela força da convergência, onde som, imagem, escrita 
se mesclam como a única forma de comunicação. O homem 
hoje ganha muitas experiências, isso é incontestável, o que 
está em jogo é a sua capacidade para tirar lições de cada 
uma delas. 
O tempo hoje não pára, mas se acelera. Paul Verilio 
observa: 
O tempo de que se trata aqui é o da 
cronologia, o tempo que não pára, que 
escorre perpetuamente, o tempo linear 
cotidiano; ora, o que as técnicas da 
fotosensibilidade trouxeram de novo e 
que Rodin ainda não havia percebido é 
que a definição do tempo fotográfico 
não é mais aquela do tempo que 
passa, mas, essencialmente, a de um 
tempo que se expõe, que “faz 
superfície”, um tempo de exposição 
que desde então substitui o tempo da 
sucessão clássica. O tempo da rápida 
tomada de imagens é portanto, desde 
sua origem, o tempo-luz. (VERILIO, 
1999, pg.110) 
Hoje existe certo desequilíbrio entre a informação direta de 
nossos sentidos e a nossa capacidade de interpretá-la. 
Somos estimulados a todo instante, mas o ritmo atropela 
aquele tipo de reflexão fundamental para o desenvolvimento 
do individuo que permite ouvir a voz interior. 
O desequilíbrio entre informação direta 
de nossos sentidos e a informação 
mediatizada das tecnologias 
avançadas é hoje tão grande que 
terminamos por transferir nossos 
julgamentos de valor, nossa medida 
das coisas, do objeto para a sua figura, 
da forma para a sua imagem, assim 
como dos episódios de nossa história 
para a sua tendência estatística, de 
onde o grande risco tecnológico de um 
delírio generalizado de interpretação. 
(Ibidem, pg. 40) 
O risco está em perder a capacidade de interpretar o real 
em sua realidade e se deixar levar pelas aparências das 
coisas. Todo ato de reflexão precisa de tempo para colocarem pratica a sua dinâmica interna. Se o tempo tende a ser 
acelerado, a própria reflexão tende a se tornar superficial e 
limitada por uma necessidade de urgência. A automação 
absoluta da personalidade humana não apenas tende, aos 
poucos, a apagar a nossa humanidade, mas, pior, 
transformar a automação como o único modelo de 
humanidade. 
O vídeo da professora Olgária Matos explica bem essa 
relação entre tempo e subjetividade. 
 
Conclusão: A técnica 
O desenvolvimento da tecnologia conduziu ao decrescimento 
da capacidade do trabalhador de se realizar enquanto ser 
humano. Se as relações sociais em determinado período se 
afirmavam pelo trabalho, nos últimos anos passaram a ser 
constituídas pelo consumo. A divisão técnica da produção e a 
sua continua mecanização tendem a fraturar a subjetividade 
do trabalhador desde o momento que ele passa a confiar 
mais na sua ferramenta de trabalho (tecnologia) do que em 
seu próprio talento. 
 
O que distingue a era moderna é a alienação em relação ao 
mundo. O homem conseguiu dominar a natureza através da 
ciência e da técnica, mas perdeu a capacidade de sentir e 
perceber esse mundo. Com o desenvolvimento dos meios de 
transportes ocorre o “encolhimento do espaço” e a abolição 
da distância; dessa nova experiência do tempo surge um 
homem preso ao tempo das máquinas. Segundo Hannah 
Arendt: 
 
Os homens vivem agora num todo 
global e contínuo, no qual a noção de 
distância, inerente até mesmo à mais 
perfeita contigüidade de dois pontos, 
cedeu ante a furiosa arremetida da 
velocidade. A velocidade conquistou o 
espaço; e, ainda que este processo de 
conquista encontre seu limite na 
barreira inexpugnável da presença 
simultânea do mesmo corpo em dois 
lugares diferentes, eliminou a 
importância da distância, pois 
nenhuma parcela significante da vida 
humana – anos, meses ou mesmo 
semanas – é agora necessária para 
que se atinja qualquer ponto da terra. 
(ARENDT, 2004, pg. 262) 
 
Com a aceleração do tempo, acontece a contração do 
espaço e a concomitante abolição das distâncias. A nova 
relação homem/natureza ganha outro contorno, ou seja, o 
estranhamento. O ego humano olha para a natureza e só 
consegue enxergar um adversário. Ao invés de encontrar 
qualidades objetivas nessa relação, criamos instrumentos 
com a finalidade de fortalecer o ego dominador daquilo que 
se tornou o homem moderno, que encontra apenas os seus 
desejos. 
 
A moderna perda da fé não é de 
origem religiosa – não pode ser 
atribuída à Reforma nem à 
Contra-Reforma, os dois grandes 
movimentos religiosos da era moderna 
– e seu alcance não se limita de modo 
algum à esfera religiosa. Além do mais, 
mesmo que admitíssemos que a era 
moderna teve início com um súbito e 
inexplicável eclipse da transcendência, 
da crença de uma vida após a morte, 
isto não significa absolutamente que 
esta perda houvesse lançado o homem 
de volta ao mundo. Ao contrário, a 
história demonstra que os homens 
modernos não foram arremessados de 
volta a este mundo, mas para dentro 
de si mesmo. Uma das mais 
persistentes tendências da filosofia 
moderna desde Descartes, e talvez a 
mais original contribuição moderna à 
filosofia, tem sido uma preocupação 
exclusiva com o ego, em oposição à 
alma ou à pessoa ou ao homem em 
geral, uma tentativa de reduzir todas as 
experiências, com o mundo e com 
outros seres humanos, a experiência 
entre homem e si mesmo. (Ibidem, pg. 
265-266) 
 
A crítica que faço é justamente no quesito perdas e ganhos. 
Se, por um lado, as tecnologias nos concedem um 
determinado tipo de conforto, por outro lado, nosso ego se 
agigantou de tal forma que a humanidade desaparece em 
sua característica mais marcante: a necessidade do outro. O 
utilizável toma o lugar do útil, o outro deixa de ser um fim 
para se tornar um meio, e a distância física ou existencial 
constrói uma nova geografia onde o medo se afirma. Basta 
olharmos para a história que podemos constatar que as 
modernas tecnologias resultaram, não da evolução daquelas 
ferramentas que o homem sempre inventou, mas da busca 
de conhecimento inútil, muitas vezes desprovidas de senso 
prático. 
 
Se compararmos o mundo moderno 
com o mundo do passado, veremos 
que a perda da experiência humana 
acarretada por esta marcha de 
acontecimentos é extraordinariamente 
marcante. Não foi apenas, e nem 
sequer basicamente, a contemplação 
que se tornou experiência inteiramente 
destituída de significado. O próprio 
pensamento, ao tornar-se mera 
previsão de conseqüências, passou a 
ser função do cérebro, com o resultado 
de que se descobriu que os 
instrumentos eletrônicos exercem essa 
função muitíssimo melhor do que nós. 
(Ibidem, pg. 335) 
 
ARTIGO REVISTA FILOSOFIA: CIÊNCIA E VIDA 
 
O futuro enquanto abertura 
Agora, a solução jamais estaria na erradicação da tecnologia, 
ou mesmo na eliminação do pensamento cientifico. 
Precisamos resgatar a humanidade perdida nos caminhos da 
história, e para isso precisamos de um novo olhar, onde o 
homem reconheça o valor do outro através do diálogo. 
A técnica é uma linguagem. Ela diz algo sobre o mundo, 
quando materializa uma visão do mundo. A linguagem faz 
parte da realidade, assim como a técnica. O humanismo 
pode ser descrito pela diferença entre homem e natureza. 
Pelo domínio, o homem conhece a natureza, e através do 
domínio tecnológico o homem ganha poder. Se existe a 
intima ligação entre homem e técnica, a responsabilidade do 
homem diante da vida deve nortear esse diálogo. 
O melhor caminho está em compreender o que seja 
aprender. Aprender com os erros e reconhecer as nossas 
limitações individuais já será um bom começo. O processo de 
evolução nos deixou lições significativas; quem não se 
adaptou desapareceu. Contudo, se adaptar, no nosso caso, 
não é aceitar tudo como está, mas buscar melhorar o que 
precisa ser melhorado, assim como transformar o que precisa 
ser transformado. 
Compreender os mecanismos emocionais, ambientais, 
físicos, que nos levam a aprender e ensinar será a melhor 
maneira de entender o valor da técnica. A evolução 
tecnológica não se resume aos usos de determinados 
equipamentos. Ela altera comportamentos. A banalização 
tecnológica não transforma apenas o comportamento 
individual, mas modifica a estrutura de grupos sociais. 
A mobilidade humana, e aqui falo em todos os sentidos, se 
dá mediada pelas tecnologias que lhe são contemporâneas. 
Ao transformar a nossa forma de pensar e agir, muda o 
nosso modo de comunicação e de conhecimento. Como as 
tecnologias estão permanentemente em mudança, 
precisamos encontrar o melhor caminho para podermos 
aprender o máximo possível do que elas têm para nos 
ensinar. Porém, partindo do valor da vida individual e 
coletiva. 
Todavia, as tecnologias da informação e comunicação 
rompem com a narrativa contínua e seqüenciada das 
narrativas orais e dos textos escritos, ao apresentar o 
fenômeno da descontinuidade.Não existe espaço para 
narrativas longas. A velocidade determina um novo ritmo do 
que seja aprender, ensinar, conhecer, interpretar e viver. As 
riquezas dos detalhes tendem a passar despercebidas já que 
o olhar não cumpre mais o seu papel. 
A temporalidade e sua espacialidade fragmentam de tal 
forma as experiências humanas que por vezes duvidamos do 
que seja o real. O conhecimento se torna o conhecimento da 
memória curta ou mesmo “antimemória” (uma ferramenta que 
toma o lugar da mesma de forma metafórica); um 
conhecimento sem uma organização central que determine 
um início. O nosso desafio será compreender esse novo 
mundo em que uma nova percepção leva a uma nova 
sensibilidade. 
Durante toda a história da humanidade a experiência 
humana foi construída dentro de uma vivência de 
espaço-tempo. Essa nova arquitetura, onde a geografia pode 
ser real ou virtual, onde a comunicação redefine o conceito 
de tempo, a própria existência muda radicalmente. A técnica 
enquanto meio se torna fim, e o homem enquanto fim se 
torna meio. É uma triste realidade. 
A resolução do mundo na sua 
representação, a dissolução da 
modalidade espaço-temporal com que 
até agora o homem fez a experiência 
do mundo, o enfraquecimento do 
princípio de individualização, com o 
conseqüente delírio de onipotência, 
são só alguns aspectos aqui 
relembrados para refutar 
definitivamente aquela teoria tão 
difundida, ao ponto de parecer óbvia, 
segundo a qual os instrumentos 
técnicos seriam neutros e disponíveis 
para qualquer uso, porque a sua 
moralidade ou imoralidade, 
humanidade ou desumanidade, 
democraticidade ou 
antidemocraticidade dependeriam 
exclusivamente de como eles são 
usados. Essa teoria de neutralidade 
moral da técnica, além de reduzir a 
moral à simples consideração do 
existente, se esquece que as 
invenções técnicas não são nunca 
apenas “técnicas”, porque toda técnica 
comporta uma modalidade de uso que 
plasma quem a usa, independente do 
uso que dela faz. Ora, a mídia, 
colocando-nos em contato não com o 
mundo, mas com a sua representação, 
entregando-nos uma presença sem 
dimensão espaço-temporal, porque 
retesada na simultaneidade e na 
pontualidade do instante, modificando 
o nosso modo de fazer experiência, 
aproximando de nós o distante e 
afastando o próximo, 
familiarizando-nos com o estranho e 
fornecendo-nos códigos virtuais para a 
interpretação do mundo real, produzem 
modificações no homem 
independentemente das modalidades 
de uso da própria mídia. 
(GALIMBERTI,2006, pg. 731) 
Não seria coerente atribuir às tecnologias da informação o 
caráter de grande vilã do presente. Sabemos que prejuízos 
significativos se afirmam diariamente em decorrência de um 
mau uso, mas não podemos esquecer que elas foram criadas 
para cumprir um determinado papel. O que acontece é a 
soma de um desejo alienado de dominar a natureza com o 
peso de ser subjugado pela tecnologia que criou. A técnica 
nos deu os meios para agir no mundo, as tecnologias 
buscaram transformar o mundo no resultado de sua 
eficiência, e desse resultado a humanidade tende a perder a 
sua capacidade de agir humanamente. 
O futuro está aberto enquanto obra da humanidade, mas 
colocar na tecnologia o único caminho para construí-lo é um 
risco. Precisamos encontrar o nosso papel no mundo, mas, 
para isso, precisamos reconhecer os erros do passado e do 
presente, para, a partir deles, escrever um novo futuro. O que 
nos faz tão especiais é a nossa capacidade de superação, 
mas o que nos define é a nossa humanidade. Que o futuro 
nos reserve um bom lugar para exercê-la corretamente. 
 
 
 
 
Referências 
ABBAGNANO, Nicola. ​Dicionário de Filosofia​​. São Paulo, 
Ed. Martins Fontes, 3° edição, 1999. 
ARENDT, Hannah. ​A Condição humana​​. Rio de Janeiro, 
Editora Forense Universitária, 10° edição, 2004. 
GALIMBERTI, Umberto. ​Psiche e techne: O homem na 
idade da técnica​​. São Paulo, Editora Paulus, 2006. 
HEIDEGGER, Martin. ​Ensaios e conferências​​. Petrópolis, 
Editora Vozes, 2002. 
JARROSSON, Bruno. ​Humanismo e técnica: O 
humanismo entre economia, filosofia e ciência.​​ Lisboa, 
Instituto Piaget, 1998. 
VERILIO, Paul. ​O Espaço crítico e as perspectivas do 
tempo real​​. São Paulo, Editora 34, 1993. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Leitura Complementar - A fronteira entre ciência e metafísica 
No pensamento grego, ciência e filosofia estavam unidas, 
elas só se separam na modernidade. A ciência moderna 
nasce a partir da determinação de um objeto específico de 
investigação e do controle desse processo. A utilização de 
métodos rigorosos levou a ciência à construção de um 
conhecimento sistemático, preciso e objetivo. Através desse 
método é que as relações universais e necessárias são 
descobertas, possibilitando, assim, a previsão de 
acontecimentos e gerando dados que permitem agir na 
natureza de forma segura. 
 
A revolução cientifica moderna tem o seu ponto de partida 
com Nicolau Copérnico (1473-1543). Em sua obra De 
revolutionibus orbium coelestium (Sobre o movimento das 
órbitas celestes, 1543), ele defende, através da 
representação matemática, um modelo de cosmo em que o 
Sol é o centro (sistema heliocêntrico), e a Terra apenas mais 
um astro girando em torno do Sol, rompendo assim com o 
modelo geocêntrico. Esse foi o fator determinante para a 
ruptura com o modelo medieval. 
A influência de Aristóteles foi significativa durante a Idade 
Média, principalmente com a introdução do seu pensamento 
no século XII pelos árabes. No entanto é a influência 
matemática advinda da filosofia de Platão que dará um novo 
olhar sobre a interpretação e explicação do cosmo. Existiu 
certa rejeição, na modernidade, do pensamento aristotélico 
em decorrência da sua relação com o modelo geocêntrico de 
cosmo. Foi apenas com a difusão do novo saber, a 
disseminação de livros e, sobretudo, a retomada do vigor de 
pensadores como Pitágoras, Platão e Euclides que foram 
abertos caminhos para os grandes sistemas filosóficos do 
século XVII. Russell observa que: 
 
A compreensão da estrutura numérica 
das coisas conferiu ao homem novos 
poderes sobre o seu ambiente. De 
certo modo, tornou o homem mais 
semelhante a Deus. Os pitagóricos 
concebiam Deus como o supremo 
matemático. Se o homem era capaz, 
em certa medida, de praticar e 
melhorar as suas habilidades 
matemáticas chegava mais perto da 
condição divina. Isto não quer dizer 
que o humanismo fosse ímpio, nem 
mesmo contrário à religião 
estabelecida. Mas mostra que as 
práticas religiosas correntes tendiam a 
ser aceitas como questão de rotina, e o 
que efetivamente aguçou a imaginação 
dos pensadores foi a velha doutrina 
pré-socrática. Assim, no campo da 
filosofia, volta à tona uma tendência 
neoplatônica. A ênfase no poder 
humano é uma reminiscência do 
otimismo de Atenas no apogeu do seu 
poderio. (RUSSELL, 2001, p. 262) 
 
 
A ciência moderna se desenvolve a partir da influência do 
humanismo renascentista, esse moldado pela tradiçãopitagórica. Enquanto caráter ilustrativo, precisamos saber que 
na história intelectual do ocidente, a Renascença foi o 
período que vai do início do século XV ao fim do século XVI, 
é a transição da Idade Média para o mundo moderno. A 
ciência enquanto método empírico e sistemático não existia, 
e o conhecimento sobre os fenômenos naturais foi dado por 
Aristóteles. As autoridades condenavam os experimentos 
científicos como subversivos, e qualquer ataque à ciência 
aristotélica, como sendo um ataque à própria igreja. Não 
restam dúvidas que a grande revolução científica começou 
na esteira do renascimento de antigos modos de pensar, 
onde o aristotelismo foi derrubado pela visão matemática dos 
pitagóricos. 
 
O conhecimento cientifico como nós conhecemos hoje é 
recente se comparado com a história da humanidade. Ele 
possui apenas quatrocentos anos e surgiu no século XVII, 
com a revolução trazida por outro pensador, Galileu Galilei 
(1564-1642). Ele contribui para a transformação do ponto de 
vista metodológico da época ao inverter as prioridades; dessa 
forma, a ciência moderna surge quando se torna mais 
importante fortalecer o caráter das observações. Com isso a 
experiência e a verificação das hipóteses passam a ser os 
critérios decisivos, ao suplantar os argumentos metafísicos. 
 
 
 
 
O Método Científico 
O que é o método científico? Ele se refere a uma soma de 
regras básicas para a produção do conhecimento científico; 
este pode ser novo, ou uma correção, ou mesmo o aumento 
de incidência de conhecimentos anteriormente existentes. 
Duas grandes transformações foram fundamentais para a 
revolução científica (Marcondes, 2000, p.151). 
1 - Do ponto de vista da cosmologia: a demonstração da 
validade do modelo heliocêntrico, empreendida por Galileu; a 
formação da noção de um universo infinito, a concepção do 
movimento dos corpos celestes, principalmente da Terra, em 
decorrência do modelo heliocêntrico. 
 
2 - Do ponto de vista da ideia de ciência: a valorização da 
observação e do método experimental, uma ciência ativa, 
que se opõe à ciência contemplativa dos antigos; e a 
utilização da matemática como linguagem da física. A ciência 
ativa moderna rompe com a separação antiga entre a ciência 
(episteme), o saber teórico, e a técnica (téchne), o saber 
aplicado que integra ciência e técnica, e faz com que os 
problemas práticos no campo da técnica levem a 
desenvolvimentos científicos, bem como que hipóteses 
teóricas sejam testadas na prática, a partir de sua aplicação 
na técnica. 
 
Como podemos observar, surgiu uma nova forma de 
interpretar o mundo sobre bases cientificas; a linguagem 
agora é a matemática. A retórica dos antigos não é mais 
suficiente para explicar o mundo, cabe ao homem de ciência 
fundamentar sua explicação através de demonstrações 
rigorosas. A transformação não é apenas de caráter 
intelectual: a própria forma de viver no mundo muda de forma 
significativa, assim como o mistério, tão importante para a 
relação do homem com o mundo, tende a desaparecer, para, 
em seu lugar, surgir a boa curiosidade cientifica. 
As transformações produzidas pelas novas ciências foram 
significativas no tocante à secularização da consciência, na 
descentralização do cosmos, na geometrização do espaço, e 
por último, no fortalecimento do pensamento mecanicista. 
Não existe mais espaço no discurso cientifico para 
explicações teológicas. No novo modelo, a Terra deixa de ser 
o centro do universo. O espaço deixa de ter qualidades 
sagradas e passa a ser quantificável/mensurável. Por último, 
a ciência moderna compara a natureza e o homem a uma 
máquina, um conjunto de mecanismo que tem suas leis 
próprias e que precisam ser descobertas. E ninguém melhor 
do que Isaac Newton para criar as novas leis que regem a 
natureza. No prefácio de ​Princípios matemáticos da filosofia 
natural​, ele escreve: 
 
Visto que os antigos (como nos conta 
Pappus) deram muitíssima importância 
à mecânica na investigação das coisas 
naturais, e os modernos, rejeitando as 
formas substanciais e as qualidades 
ocultas, empenharam-se por submeter 
os fenômenos da natureza às leis da 
matemática, procurei desenvolver a 
esta no presente tratado, enquanto ela 
se refere à filosofia. Os antigos 
distinguiram uma dúplice mecânica: a 
racional, que precede cuidadosamente 
por demonstrações, e a prática. À 
mecânica prática pertencem todas as 
artes manuais, das quais a mecânica 
tirou seu nome. Como, porém, os 
artífices costumam operar com pouco 
rigor, a mecânica toda se distingue da 
geometria pelo seguinte: tudo o que é 
exato refere-se à geometria, ao passo 
que o que não é pertence à mecânica. 
Entretanto, os erros não são da arte, 
mas dos artífices. Quem trabalha com 
menos rigor é um mecânico imperfeito, 
e, se alguém pudesse trabalhar com 
rigor perfeito, seria o mais perfeito de 
todos. (NEWTON, 1979, p. 03) 
 
A filosofia nos permite refletir sobre a nossa relação com a 
verdade. Se anteriormente ela estava sustentada sobre um 
discurso metafísico, as ciências modernas mudam 
completamente essas certezas ao colocar em seu caminho a 
necessidade da representação matemática. O processo do 
pensamento não pode ser sustentado pela escolástica 
(ensino predominante nas universidades medievais, que 
priorizava a Teologia) e suas especulações metafísicas, mas 
deve ser regido pela nova linguagem universal, ou seja, as 
leis da física e da matemática. 
 
 
Continuação: O Método 
O pensamento científico precisou de um método, e quem 
criou o método científico foi o filósofo inglês Francis Bacon 
(1561-1626). Em primeiro lugar, ele pretende instaurar o 
pensamento científico: essa instauração não significa propor 
uma opinião para defendê-la, mas uma tarefa que precisa ser 
realizada. Segundo ele, as ciências devem passar por uma 
nova forma de indução, que proceda à análise da experiência 
e a reduza a elementos, de alguma forma, mensuráveis. 
Nesse caso, a finalidade dos sentidos deve ser apenas julgar 
a experiência, de sorte que é a própria experiência que faz o 
julgamento. 
 
A sua teoria da indução, tal como exposta no Novum 
Organum, distingue inicialmente experiência vaga e 
experiência escriturada. A primeira compreende o conjunto 
de noções recolhidas pelo observador quando opera ao 
acaso. A segunda abrange o conjunto de noções acumuladas 
pelo investigador quando, tendo sido posto de sobreaviso por 
determinado motivo, observa metodicamente e faz 
experimentos. Este último tipo constitui o mais importante e o 
ponto de partida para a constituição das tábuas da 
investigação, núcleo do método do Bacon. 
 
 
 
 
 
A primeira tábua de investigação é a de presença ou 
afirmação. Nelas são colocadas todas as etapas de um 
fenômeno que apresentam as mesmas características. A 
segunda tábua é aquela onde são constatadas as ausências 
ou negações. A terceira tábua é a das graduações ou 
comparações que consistem nas anotações dos diferentes 
graus de variações no fenômeno em questão. 
 
 Ao formular a teoria da indução, Bacon nãocriou a ciência 
moderna, mas foi aquele que construiu as bases para a sua 
afirmação e valor. 
 
A instauração da ciência ‘não se 
esquece, de modo nenhum, da 
condição mortal do homem, pois não 
supõe que a obra possa ser realizada 
inteiramente por uma só geração, mas 
exige ser retomada pelas seguintes; 
ela não procura o conhecimento, com 
arrogância, nas pequenas células do 
entendimento humano, mas, com 
veneração, no universo’. Como dizer 
melhor o que a ciência se preparava 
para se tornar, quase no mesmo 
momento em que Galileu iria 
desenvolvê-la segundo os mesmos 
princípios? No entanto, se fosse 
preciso estabelecer uma preferência, a 
nossa iria, num ponto, ao físico mais 
do que ao filósofo, pois Galileu foi 
capaz de ver, com efeito, que ‘a ciência 
está escrita em língua matemática’. 
Bacon está bastante atrasado neste 
ponto, pois sua crítica do acesso ao 
conhecimento pelos recursos da lógica 
se mostra, pelo contrário, 
excessivamente negativa, sem dúvida 
em reação contra a escolástica.” 
(OMNÉS, 1995, p.88) 
 
Acredito que não seja necessário que, para se construir um 
novo método de investigação, precise levar ao chão o 
método que o antecedeu. A escolástica contribuiu de forma 
significativa para o desenvolvimento intelectual da 
humanidade, e como bem observou Roland Omnès, o 
desenvolvimento cientifico não é obra de uma única geração, 
mas um projeto da humanidade. 
 
O pensamento científico e o pensamento 
metafísico 
 Como já estudamos nas aulas anteriores, existem várias 
formas de conhecimento que ainda tentam explicar a 
realidade que nos cerca, como, por exemplo, as formas de 
artes, os mitos e a religião. Durante séculos, esses modos de 
conhecimento se somaram e, em maior ou menor grau, se 
afirmaram como formas dominantes na organização do 
pensamento. 
 
 Já falamos sobre a distinção feita pelos gregos entre o 
saber mítico e o saber racional, sabemos que eles não 
conseguiram construir um conhecimento científico 
independente. A ciência grega se racionalizou ao se separar 
do mito, mas perdeu também seus vínculos com a prática, ao 
desenvolver o ideal grego de saber contemplativo. O pouco 
valor dado à técnica fez com que a ciência grega se 
afastasse do método experimental ao se vincular à 
especulação filosófica. O resgate do valor da técnica se deu 
a partir da Renascença com Leonardo da Vinci, e depois 
pelos fundadores da ciência moderna: Copérnico, Galileu, 
Newton, Bacon e Descartes. Contudo, esses grandes 
pioneiros do pensamento moderno ainda estavam presos à 
metafísica. 
 
 A ​metafísica​ é classificada por Aristóteles como a ciência 
primeira; por ter como objeto o objeto de todas as outras 
ciências, e como princípio um princípio que condiciona a 
validade de todos os outros. É uma forma de saber que não 
se submete à verificação. Suas afirmações não podem ser 
comprovadas empiricamente porque lidam com a suposta 
natureza das coisas, ou seja, do ser. Muitas teorias 
científicas são construídas a partir de enunciados 
metafísicos. Dessa forma, qualquer teoria está inserida em 
certa epistéme, que institui critérios e valores que norteiam os 
procedimentos científicos. Mas em um mundo no qual o 
objeto do conhecimento é a natureza, em que a física e a 
matemática fundamentam o rigor da observação, aos poucos 
a metafísica perde seu lugar para as leis da física e o método 
científico. 
 
 A modernidade apresenta as atitudes científicas distantes 
do pensamento metafísico: 
 
• Objetividade: procurar as estruturas universais e 
necessárias. 
 
• Método Quantitativo: buscar medidas, padrões, critérios de 
comparação e de avaliação. 
 
• Homogeneidade: buscar leis gerais de funcionamento dos 
fenômenos. 
• Generalização: reunir individualidades sob as mesmas leis 
ou padrões. 
● Causalidade: as relações causais só se estabelecem 
depois da investigação da natureza ou estrutura dos 
fatos. 
● Dinâmica: renovar-se e modificar-se continuamente, 
evitando que as teorias se transformem em doutrinas 
 
 Como podemos ler em Chauí (2012, p. 275-276), os fatos 
estudados pelas ciências não são dados que surgem 
espontaneamente de nossa experiência cotidiana, mas são 
construídos pelo trabalho de investigação cientifica. As 
ciências são um conjunto de atividades intelectuais, 
experimentais e técnicas, realizadas com base em métodos 
que permitem que elas sejam rigorosas: 
 
● Separação dos elementos subjetivos e objetivos de 
um fenômeno. 
● Construção de um fenômeno com o objetivo de 
conhecimento controlável, verificável, interpretável e 
capaz de ser retificado ou corrigido por novas 
observações. 
● Demonstração e prova dos resultados obtidos 
durante as investigações. 
● Formulação de uma teoria geral sobre o conjunto dos 
fenômenos observados. 
 
 O que podemos observar é que a ciência é um método de 
pensamento e de ação. Ela se distingue do senso comum já 
que é um conhecimento que se baseia no rigor da 
racionalidade. O seu conhecimento é eficaz por permitir ao 
homem não apenas conhecer o mundo, mas dominá-lo e 
assim transformá-lo. A diferença entre a forma de 
pensamento metafísico e a forma de pensamento científico é 
significativa, mesmo que ambas busquem encontrar a 
verdade. 
 
 A noção de verdade para o pensamento metafísico será 
definitiva, pois a essência é permanente. Assim, verdade e 
essência coincidem, emprestando à teoria uma característica 
ontológica. Nesse caso, se uma dada teoria é considerada 
verdadeira, então não há motivo para que se realizem 
pesquisas, já que a essência já é conhecimento integral e 
último da realidade. Essa forma de pensar é oposta à busca 
de novos conhecimentos proposta pelo método científico. 
 
 Na perspectiva do método científico, os fatos básicos são 
aceitos convencionalmente, mas podem ser modificados com 
o avanço da ciência. O mesmo acontecendo com uma teoria: 
ela será verdadeira, não por se adequar à realidade, mas por 
explicar certas ocorrências melhor do que outras teorias. Os 
fatos e as teorias habitam o mesmo mundo, ao passo que 
são interdependentes. Essa forma de interpretar o mundo é 
significativa, pois dela será construído todo o edifício da 
modernidade. 
 
O reducionismo cientificista da razão 
 Chegamos à metade da nossa lição, acredito que não 
existem dúvidas a respeito da diferença entre pensamento 
metafísico e método científico. A próxima etapa da nossa 
lição busca mostrar os riscos de confiar cegamente na 
validade científica como sendo o único método de 
conhecimento da verdade. 
 
 A história ocidental atesta que o pensamento científico 
encontrou suas limitações e se deparou com erros 
significativos. Alguns filósofos denunciaram o pensamento 
científico como sendo uma nova metafísica, e a devoção 
dada a ele como uma experiência quase que teológica. 
Tentaremos mostrar que pensar de forma nova é um risco e 
que todo risco é uma abertura para o bem e para o mal, mas, 
também, que reduzir a razão ao pensamento científico é 
perigoso. No prefácio da obra A Filosofia do Não: Filosofia do 
novo espírito científico, Gaston Bachelard escreve: 
 
A utilização dos sistemas filosóficos em 
domínios afastados da sua origem 
espiritual é sempre uma operação 
delicada, muitas vezes uma operação 
falaciosa. Assim transplantados, os 
sistemas filosóficos tornam-se estéreis 
ou enganadores; perdem a sua eficácia 
de coerência espiritual, eficácia tão 
sensível quando são revividos na sua 
originalidade real com a fidelidade 
escrupulosa do historiador, e perde-se 
também a satisfação de pensar o que 
nunca será pensado duas vezes. Será 
pois necessário concluir que um 
sistema filosófico não deve ser 
utilizado para outros fins para além dos 
que elese atribui. Dito isto, o maior 
erro contra o espírito filosófico seria 
precisamente o de não ter em conta 
esta finalidade íntima, esta finalidade 
espiritual que dá vida, força e clareza a 
um sistema filosófico. (BACHELARD, 
1978, p. 03) 
 
 Ele aponta para os riscos que ocorrem ao pensamento 
filosófico quando abre mão do seu papel. Cabe às ciências 
compreenderem a natureza, mas compete à filosofia construir 
um juízo de valor para que toda ação decorrente do 
pensamento científico se apresente dentro de uma 
perspectiva ética e moral. O homem grego se questionava a 
respeito da responsabilidade diante da construção do 
pensamento. Não é porque se pode que se deva. Ele 
mensurava os prós e os contras para, a partir de um juízo de 
valor, reconhecer o seu papel diante da vida. 
 
 A sociedade contemporânea está convencida que só é 
verdadeiro aquilo que pode ser demonstrado com base em 
cálculos matemáticos, e atestados pelas análises científicas. 
Dessa forma, o cálculo e a medida seriam os únicos métodos 
legítimos cientificamente para adquirir conhecimento sobre a 
realidade. O perigo não está, de forma alguma, no modelo 
científico, mas no fato deste se tornar o único modelo. 
 
 Com o desenvolvimento das ciências, ocorreu também uma 
quantidade enorme de inovações tecnológicas, com as 
consequentes modificações da vida privada e pública, 
gerando assim o sentimento que a finalidade das ciências 
consiste na ampliação sem limites do desenvolvimento 
tecnológico e que ele é a solução para todos os problemas 
da humanidade. Precisamos encontrar o equilíbrio necessário 
para que o pensamento científico possa dialogar com os 
valores mais elevados da filosofia. 
A busca da verdade 
 Karl Popper, na sua obra Conjecturas e Refutações (1972), 
explica que um dos ingredientes mais importantes da 
civilização ocidental é a tradição racionalista, herdada dos 
gregos. É a tradição do livre debate, não uma discussão por 
si mesma, mas aquela motivada pela busca da verdade. A 
filosofia helênica e a ciência são os resultados dessa 
tradição, do esforço para compreender o mundo em que 
vivemos. 
 
 Para ele, na ciência, nós buscamos a verdade. A verdade 
não é dada pelos fatos, mas pelas teorias; uma teoria é 
verdadeira quando corresponde aos fatos. Essa é uma 
definição de verdade, mas nós não temos um critério de 
verdade. Ainda que acreditemos que uma teoria seja 
verdadeira, jamais poderemos sabê-lo, pois suas 
conseqüências são infinitas e não temos condições de 
verificar todas elas. Para Popper, a verdade é um ideal 
regulador. Ao eliminarmos os erros das teorias anteriores e 
ao substitui-las por novas teorias, nos aproximamos da 
verdade. 
 
 É nesse ponto que sua crítica afirma que não existe uma lei 
de progresso irrestrito para a ciência, pois ela pode estagnar. 
O progresso científico conheceu seus obstáculos 
epistemológicos, ideológicos e econômicos. Isso não quer 
dizer que não possa se repetir. Para ele o critério de 
progresso é que uma teoria pode se aproximar mais da 
verdade que outra teoria. 
 
 Por vezes, ideias que flutuam nas regiões metafísicas 
podem ser alcançadas com o desenvolvimento das ciências, 
e ao entrar em contato com elas, podem se concretizar. Para 
o futuro da humanidade, o pensamento metafísico deverá 
dialogar com a ciência. Aquele momento em que a ciência 
não sabe para onde ir, a metafísica pode apontar um 
caminho realizável, mesmo que improvável a primeira vista. 
 
 O pensamento metafísico muitas vezes é um passo de fé, 
ao ter por base puramente especulações e carente de dados 
empíricos. Contudo, isso não desacredita de forma alguma o 
seu valor. A metafísica constitui a “aurora” da ciência 
propriamente dita. Em A Lógica da pesquisa científica, 
podemos ler: 
 
Encarando a matéria do ponto de vista 
psicológico, inclino-me a pensar que as 
descobertas científicas não poderiam 
ser feitas sem fé em ideias de cunho 
puramente especulativo e, por vezes, 
assaz nebulosas, fé que, sob o ponto 
de vista científico, é completamente 
destituída de base e, em tal medida, é 
‘metafísica’. (POPPER, 2013, pg. 36) 
 
Precisamos tomar cuidado para não incorrer no erro de 
interpretar Popper como um filósofo metafísico. Os 
programas metafísicos de investigação estão abertos à 
discussão, podem ser mudados à luz da esperança que os 
inspira ou mesmo das desilusões. Da mesma forma, existem 
ideias metafísicas desprovidas de valor para a ciência, por 
exemplo, aquelas de cunho existencial. O que Popper 
compreende bem é que a metafísica pode contribuir para o 
desenvolvimento da ciência, mesmo que a ciência não se 
resuma a ela. 
 O mais significativo disso tudo é que um pensador como 
Popper apresenta uma forma de pensar cientificamente que 
busca resgatar e validar a razão humana. A recuperação da 
razão metafísica, que é lançada pela nova filosofia da 
ciência, tem muito que conhecer e ensinar. 
O curso da ciência 
Na última parte de nossa aula retornamos a Aristóteles. 
Estudar a sua filosofia é um projeto atual. É inegável a sua 
influência na formação do espírito científico que caracteriza a 
sociedade no século XXI. Aristóteles foi a grande referência e 
um modelo de pensamento científico até a modernidade. No 
entanto, precisamos reconhecer que, no domínio do 
pensamento científico, a maioria das teses são refutações ao 
seu pensamento. Contudo, Aristóteles continua presente não 
apenas como uma atitude, mas no vigor das teses por ele 
defendidas nos campos da metafísica e da ética. 
 A metafísica aristotélica constitui a figura última da 
racionalidade ao se dirigir aos limites do mundo e do dizer o 
mundo como quem olha a si mesma, traçando os seus 
limites. Em sua busca tenta encontrar os limites da razão. 
Esse limite Aristóteles traçou ao apontar para as diferentes 
disciplinas teóricas. Isso faz da sua Metafísica um texto 
sempre atual: 
Ora, visto andarmos à procura desta 
ciência, devemos examinar de que 
causas e de que princípios a filosofia é 
a ciência. Se considerarmos as 
opiniões que existem acerca do 
filósofo, talvez o problema se nos 
manifeste com maior clareza. Nós 
admitimos, antes de mais, que o 
filósofo conhece, na medida do 
possível, todas as coisas, embora não 
possua a ciência de cada uma delas 
por si. Em seguida, quem consiga 
conhecer as coisas difíceis e que o 
homem não pode facilmente atingir, 
esse também consideramos filósofo 
(porque o conhecimento sensível é 
comum a todos, e por isso fácil e 
não-científico). Além disto, quem 
conhece as causas com mais exatidão, 
e é mais capaz de as ensinar, é 
considerado em qualquer espécie de 
ciência como mais filósofo. E, das 
ciências, a que escolhemos por ela 
própria, e tendo em vista o saber, é 
mais filosofia do que a que escolhemos 
em virtude dos resultados; e uma 
[ciência] mais elevada é mais filosofia 
do que uma subordinada, pois não 
convém que o filósofo receba leis, mas 
que as dê, e que não obedeça ele a 
outro, mas a ele quem é menos sábio. 
Tais e tantas são, pois, as opiniões que 
temos sobre a filosofia e os filósofos. E 
quanto a estes, o conhecimento de 
todas as coisas encontra-se 
necessariamente naquele que, em 
maior grau, possuía ciência universal, 
porque ele conhece, de certa maneira, 
todos os [individuais] sujeitos. No 
entanto, é sobremaneira difícil ao 
homem chegar a estes conhecimentos 
universais, porque estão muito para 
além das sensações. Além disto, entre 
as ciências mais exatas as que se 
ocupam predominantemente dos 
‘primeiros’; e as que de menos 
[elementos precisam] são mais exatas 
do que as que são chamadas ‘por 
adição’, como a aritmética 
relativamente à geometria. Porém, a 
que ensina é a ciência que investiga as 
causas, porque só os que dizem as 
causas de cada coisa éque ensinam. 
(ARISTÓTELES, 1979, pg. 13-14) 
 Compreender a metafísica de Aristóteles associada à sua 
ética é um desafio para o pensamento do futuro. Aristóteles 
separa o saber teórico do saber prático, mas deixa uma 
possibilidade significativa de união ao apontar a 
responsabilidade do homem a partir das suas escolhas. Se a 
filosofia em seu caráter teórico visa a constituição de uma 
situação contemplativa da verdade, no campo da prática a 
filosofia se expressa no agir. A diferença está que, enquanto 
no campo do conhecimento teórico não são permitidas 
alterações, no campo da prática são permitidas. Para ele, a 
teoria enquanto contemplação é sabedoria, ou seja, uma 
perícia, uma capacidade de compreender intuitivamente os 
princípios e as causas das coisas. O saber prático é 
adquirido ao se converter em ação realizada. 
 A filosofia prática de Aristóteles provoca em quem estuda 
certo desconforto. Nela não existe a possibilidade de colocar 
a culpa pelas nossas ações incorretas em alguém ou mesmo 
em alguma coisa. A constituição de uma disposição de 
caráter é a possibilidade do ser humano. O esforço de 
afirmação desse modo de ser é o que dá ao ser humano a 
sua humanidade. Pensar a ciência moderna e a ciência 
contemporânea é dialogar com a filosofia aristotélica. A 
nossa proposta foi apresentar um pensamento crítico aliado à 
responsabilidade do pensamento. 
 O que constatamos em nossos dias é que a ciência se 
desenvolveu aliada a uma perda da qualidade das vidas 
humanas. Continuamente o domínio da natureza acarreta 
prejuízos àqueles que vivem nesse mundo. Pensar de forma 
responsável é compreender que o conhecimento tem seus 
limites, assim como nós temos os nossos deveres. O 
desenvolvimento da ciência nos levou à sociedade 
tecnológica. Pensar a sociedade tecnológica é retornar aos 
gregos com sua noção de Techné. É compreender que nem 
tudo o que se pode se deve, diante da natureza e da vida 
humana. Aristóteles nunca foi tão atual como hoje. 
 A experiência existencial não se resume a conhecer a 
natureza, mas é na relação homem-natureza que 
construímos um determinado sentido da vida, na esperança, 
na fé. Se a ciência fosse a única forma de interpretar a 
realidade não haveria a necessidade da arte (poesia, música, 
pintura, arquitetura). O humanismo da Renascença, que 
veremos na próxima aula, nos mostra que para se conhecer 
a natureza podemos tomar vários caminhos: da arte, da 
mecânica, das letras, dos números. 
 A linguagem científica da racionalidade matemática tem um 
valor significativo, mas buscar todo o significado do mundo 
nela é virar as costas para outras formas essênciais de 
conhecimento humano. O pensamento científico nunca 
desejou ser dono da verdade, apenas apresenta ferramentas 
para alcançá-la. No mais, o humanismo renascentista nos dá, 
entre outras coisas, um modelo de homem do futuro; aquele 
homem capaz de fazer uso do pensamento e da 
sensibilidade, sem comprometer a qualidade de sua busca. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Referências 
ARISTÓTELES: ​Coleção: Os pensadores (Vol. 1 e 2)​​. São 
Paulo, Editora Abril Cultural, 1979. 
BACHELARD, Gaston. ​Coleção: Os pensadores​​. São 
Paulo, Editora Abril Cultural, 1978. 
CHAUI, Marilena. ​Convite à Filosofia​​. São Paulo, Editora 
Ática, 14º edição, 2012. 
NEWTON/LEIBNIZ (I): ​Coleção: Os pensadores​​. São Paulo, 
Editora Abril Cultural, 1979. 
OMNÈS, Roland. ​Filosofia da ciência contemporânea​​. São 
Paulo, Editora Unesp, 1995. 
POPPER, Karl. ​A Lógica da pesquisa científica​​. São Paulo, 
Editora Cultrix, 2013. 
RUSSELL, Bertrand. ​História do pensamento ocidental: A 
aventura das idéias dos Pré-Socráticos a Wittgenstein​​. 
São Paulo, Editora Ediouro, 3° edição, 2001. 
REALE, Giovanni/ ANTISERI, Dario. ​História da filosofia: 
Do romantismo​​ ​até nossos dias (Vol.03).​​ São Paulo, 
Editora Paulus, 3º edição, 1991. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Seção 3 - Arte, Cultura e o Movimento do Pensamento 
Introdução 
​​A arte sempre esteve presente na história da humanidade 
como forma de ver, interpretar e reinterpretar o mundo; como 
forma de estabelecer a comunicação com o meio (a partir da 
relação sujeito e objeto) e como formação e elevação do 
espírito – assim como se originava na consagração grega. 
Também como expressão criativa da sensibilidade, como 
fenômeno social, ou como instrumento 
pedagógico-educacional. 
Pretendemos, pois, que este texto sirva de apoio e 
referência ao estudante que quer adentrar de forma pessoal 
no universo das artes, proporcionando argumentos 
filosóficos, sem perder a transcendência social, histórica e 
cultural, já que a arte é o resultado de propostas individuais 
que alcançam sua culminação quando são assumidas como 
próprias por outros indivíduos, que lhe dão novos e diversos 
sentidos. 
A esta forma de entender a arte chamaremos de 
"concepção humana da arte", que é internamente cambiante 
e metafórica, como as culturas humanas em seu conjunto. A 
arte não se basta a si mesma, ela precisa do elemento 
externo, dos processos e contextos culturais e históricos, 
especialmente da linguagem, como construção interpretativa 
e hermenêutica. É preciso saber explicar a arte para situá-la 
num contexto de sentido, de significação. 
 
O que é a Arte? 
Mas numa perspectiva didática, a primeira ação talvez seja 
dada pela necessidade de se esclarecer o objeto estudado. 
Então perguntamos: O que é a arte? 
 
O vídeo acima corresponde a uma tentativa de se 
estabelecer o conceito de arte, mas também, de certo modo 
já define, mesmo que de forma inicial, o conceito de cultura. 
É a expressão humana, é o sentimento, o sentido dado, a 
interpretação. São valores subjetivos e, justamente por isso, 
sua definição se torna algo difícil. Os conceitos podem ser 
administrados didaticamente, mas as virtudes emocionais e 
subjetivas são não-lineares, estão em constate devir e são 
possuidoras de uma carga de significados próprio. 
 
A arte pronuncia o privado, mas também reflete sobre o 
público – ou melhor, reflete sobre o seu meio por via do 
particular. Dessa maneira é sempre uma produção do ‘eu’ 
para o outro. Avaliando o real, a arte também faz parte da 
cultura ao passo que (re)pensa sobre ela. Vejamos agora, de 
forma introdutória, o que se define como cultura: 
 
De acordo com o primeiro vídeo, a arte está ligada 
diretamente à observância do fazer humano e, assim sendo, 
é uma expressão humana. Pareyson afirma que: 
Certamente a arte é expressão. Mas é 
necessário não esquecer que há um 
sentido em que todas as operações 
humanas são expressivas. Toda 
operação humana contém a 
espiritualidade e personalidade de 
quem toma a iniciativa de fazê-la e a 
ela se dedica com empenho; por isso 
toda obra humana é como retrato da 
pessoa que a realizou. Neste sentido, 
também a arte tem um caráter 
expressivo. (PAREYSON, 2001, p. 22) 
Para Pareyson (Ibidem, p. 21) “ora a arte é concebida como o 
fazer, ora como um conhecer, ora como um exprimir”. Esse 
mesmo autor expunha que, na antiguidade, a arte prevalecia 
como o executar, como o fabricar, como o manual - daí talvez 
a sua aproximação com a ciência, nas observações de 
Platão. Dessa maneira, ligada ao fazer, ao fabricar, a arte 
seria ligada à ideia de técnica. 
Entretanto, para os gregos à arte foi atribuída a noção de 
‘belo’ e, consequentemente,a sensibilidade, e deixou, em 
parte, de ser toda ação humana do bem fazer. A arte passa a 
focar na perspectiva da expressão e em questões ligadas ao 
despertar de sentimentos por ela e através dela. 
No segundo vídeo, de forma simples, é explicitado o conceito 
de cultura. Nesse é mostrado principalmente que cultura é a 
experiência, o saber humano acumulado e organizado que 
rege a práxis daquele povo. A cultura é a forma de utilização 
de saberes coletivos. A arte, então, é uma parte da cultura – 
é uma forma de analisar e representar as vivências daquele 
tempo e daquele espaço; a arte é, também, nesse caso, uma 
materialização de experiências culturais de um povo. 
 
Os avatares da arte 
A arte e o ‘belo’ para a filosofia antiga, principalmente para 
Aristóteles, pode ser definida em cinco instâncias: como 
manifestação do bem, como manifestação do verdadeiro, 
como perfeição sensível, como simetria e como perfeição 
expressiva. 
Se, por um lado, a filosofia de Platão, no ‘Mundo das 
ideias’, via a arte simplesmente como cópia do real, para 
Aristóteles a arte é uma espécie de estado de potência – 
quanto mais afastado do real, mais reflexivo se torna o 
homem em produzir possibilidades do real; através da 
experiência seria possível a purificação, purgação da alma do 
homem (catarse). 
Aristóteles adotou a linha oposta a 
Platão e em sua doutrina de catarse 
afirmou que as artes proporcionam 
uma vazão para emoções represadas, 
que não tem plena vazão natural das 
condições de vida social [...]. Mas 
conquanto as conclusões fossem 
contrárias, o critério era idêntico. 
Avaliavam-se as artes em função dos 
seus efeitos de aprimoramento ou 
aviltamento do caráter do indivíduo 
como unidade social e dos seus 
supostos efeitos sobre o próprio 
organismo social (OSBORNE, 1974, p. 
125) 
 
A arte é uma convenção cultural, dependente sempre das 
mudanças e modificações dos contextos culturais nos quais 
se inscreve. Devemos entender cultura num sentido 
antropológico, como o conjunto de técnicas produtivas, 
instituições sociais, costumes e crenças que se transmitem 
de geração em geração num grupo étnico determinado. 
 
Nosso termo arte provem do latim "ars" que traduz a 
palavra grega "técne". Designa "perícia", "habilidade" 
empírica, tanto mental como manual, e compreendia 
atividades diversas como artesanato, medicina, navegação, 
pesca, estratégia militar, poesia, pintura. Poderia traduzir-se 
como "maestria", aquele que dominava as atividades 
humanas como ofícios ou ciências. Hoje se entende mais 
como "belas artes" (veremos mais adiante) 
 
O termo "técne" alcançou seu auge na Grécia do século IV 
a.C, implicava a aquisição prática de conhecimentos, é como 
Aristóteles a entende, como uma fusão de pensamento e 
produção, um refletir e um fazer. Assim, dentro das possíveis 
operações do pensamento (diánoia), a "técne" como 
operação produtiva (poietiké), distinguir-se-á das operações 
práticas e teóricas. 
Aristóteles situará precisamente na "técne" e na razão o 
que diferencia o ser humano das outras espécies animais: 
"Os demais animais vivem fantasias e lembranças, e 
participam pouco da experiência. Mas o gênero humano 
dispõe da técne e da razão" (Metafísica I, 1, 980b). 
Aristóteles e seu mestre Platão foram os primeiros grandes 
teóricos da técne. A frase "a arte imita a natureza" é uma das 
características da nossa tradição artística clássica. Por um 
lado temos a natureza como aquilo que é, por outro, os 
produtos, o artificial, o que pode ser ou não, o possível. 
Quando os gregos começam a opor arte à natureza, pensam 
principalmente na atividade humana em geral, entendida 
como produção de imagens ​(​mímesis​), representação. 
Tudo isto se dará através de um grande processo cultural, 
onde a linguagem: verbal e escrita, as formas visuais e o 
som, aparecerão como diferentes formas intelectuais que irão 
definindo o que se entende hoje por arte. 
 
O Momento da ‘Queda’ 
A estética surge como ciência no século XVIII, tendo como 
objeto a arte e o Belo. O alemão Otto Von Baumgarten 
falava, sobretudo, do Belo enquanto parte da sensibilidade do 
homem e afirmava que pertenciam à arte as representações 
confusas, porém claras (ou seja, sensíveis mas perfeitas), e 
que as representações conceituais pertencem ao 
conhecimento racional. 
O termo ‘estética’, para os alemães, significa o que possui 
a faculdade do sentir, e tudo que é relativo a percepção e a 
sensação: que possuiu a capacidade de sentir, perceptível, 
relativo à sensação – significa também a doutrina de todo 
conhecimento sensível e da percepção. 
 
Enquanto teoria da percepção, a Estética se tornou entre o 
fim do século XVIII e o início do século XIX, uma forma de 
descrição do real. A arte passou a ser designada como ‘bela 
arte’ e o conceito de técnica passou a ser incorporado a todo 
material produzível pela própria técnica – ou seja, objetos 
com determinada finalidade usual e todos os procedimentos 
organizados por regras de qualquer atividade humana. 
A questão é que a Estética foi também encarregada de 
explicar qualquer contexto relativo à reação a partir de 
experiências artísticas e todas fundamentadas a partir da 
questão do gosto e se afastando cada vez mais da 
concepção grega aristotélica. 
Produzir reações ao humano passou a ser também uma 
técnica, como se a arte, a partir daquele momento, adquirisse 
um caráter de artificialidade – a intenção seria produzir 
reações. Até mesmo o caráter subjetivo da arte torna-se valor 
universal, coletivo, e tudo que surge dessa produção começa 
a parecer um ato mecânico para atender o gosto e não para 
despertar a sensibilidade. 
A Revolução Industrial marca a ascensão da classe 
burguesa, que separa, assim como em épocas antecessoras, 
a cultura dentro de um dualismo: de um lado quem produz 
para o dia a dia, para suprir suas necessidades vitais, e de 
outro aqueles poucos que se dedicam, por meio de 
privilégios, a se debruçar sobre uma espécie de cultura mais 
abastada dedicada ao prazer, à elevação do espírito e a 
verdade. Para estes está reservado o trabalho contemplativo 
e a fruição da obra de arte. 
Entretanto, mesmo sendo a pretensão do ideal burguês 
manter esse status quo, não consegue excluir as classes 
subordinadas ao acesso à arte e à cultura – afinal, onde não 
havia melhores condições de vida no trabalho nas fábricas, 
havia, ao menos, o acesso à arte. 
Para o burguês a arte serve como importante ferramenta 
político ideológica e, para o proletário, resta uma arte sem 
sentido formativo; uma arte comercial e esvaziada, produzida 
em escala industrial para ocupar o seu ócio e destituída de 
qualquer valor emancipatório, rica em fugacidade e voltada 
para entretenimento. 
 
A Indústria Cultural e a Arte Emancipatória 
O termo ​Indústria Cultural foi criado pelos filósofos alemães 
judeus Theodor Adorno e Max Horkheimer, quando esses se 
encontravam exiladosnos Estados Unidos por conta do 
nazismo. Conheceram o poder ideológico da arte em duas 
oportunidades: primeiro, no contato com a propaganda 
nazista veiculada principalmente no cinema alemão e 
segundo nos EUA, quando conheceram toda a força da 
publicidade e propaganda comerciais. Esse conceito, dentre 
outras discussões, afirma que não existe uma cultura 
espontânea e emancipatória e sim uma produção cultural 
representativa, que é criada de cima para baixo com o poder 
reificador de consciências. Uma cultura voltada para as 
massas. 
Na contemporaneidade, a arte retoma o seu papel 
pedagógico e formativo – não mais de formação do espírito, 
mas aliado à política e à economia. Deixa de ser 
bildung​(formação\formativa) para torna-se ​Halbbildung 
(semiformação); um tipo de cultura e arte natimorta, 
desprovida de qualidade metafísica, mas que atende 
ideologicamente ao sistema formando uma espécie de 
inconsciente coletivo 
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Inconsciente_coletivo) que pode 
ser medido sempre em níveis mais inferiores de qualidade; 
uma arte de massa para produzir, atender e criar sociedades 
massificadas. O professor João Francisco Cabral afirma que: 
Essa visão permite compreender de 
que forma age a Indústria Cultural. 
Oferecendo produtos que promovem 
uma satisfação compensatória e 
efêmera, que agrada aos indivíduos, 
ela impõe-se sobre estes, 
submetendo-os a seu monopólio e 
tornando-os acríticos (já que seus 
produtos são adquiridos 
consensualmente). 
http://www.brasilescola.com/cultura/ind
ustria-cultural.htm 
Não se pode negar o potencial educativo e formativo da 
arte. Por outro lado, o que é oferecido hoje em dia, ou 
melhor, vendido e consumido, são produções medidas pelo 
seu conteúdo ideológico e político que se impõem ao 
indivíduo sob o signo de cultura, fazendo com que se sufoque 
todo o potencial crítico do cidadão. 
A maior vitória da Indústria Cultural não é só o seu êxito 
comercial, mas também fazer com que os indivíduos se 
alinhem com essas estruturas de controle e pensem que 
esse tipo de cultura e de arte é o único que cabe na sua 
estatura social. Dessa maneira, além de consumir uma 
ideologia, consomem também, indiretamente, elementos que 
ajudam a construir o seu próprio ‘aprisionamento social’. 
O ‘belo’ foi substituído pela beleza; 
A arte deixa de ser atemporal e passa a ser temporal; 
A arte deixa de ser intuitiva e passa a ser imediata; 
A arte deixa de ser formativa e passa a ser do consumo e do 
entretenimento; 
A arte deixa de ser potência e passa a ser uma 
representação; 
A catarse passa a ser o tempo na frente da tv com a mente 
em ​stand by​. 
 
A arte e a Cultura 
A arte e a cultura em si devem ser também potências e não 
somente representações. Quando são apenas 
representações, elas refletem uma vontade específica 
dominadora e totalitária, que se apresenta ao homem de 
cima para baixo. A arte é de domínio político e subserviente 
ao mercado. Na relação para a produção de conhecimento 
entre sujeito e objeto, a cultura atual transforma o homem em 
objeto e, dessa maneira, sem sua autonomia e sem 
consciência social ou de classes, o indivíduo se torna uma 
presa política. 
Camuflando as forças de classes, a 
Indústria Cultural apresenta-se como 
único poder de dominação e difusão de 
uma cultura de subserviência. Ela 
torna-se o guia que orienta os 
indivíduos em um mundo caótico e que 
por isso desativa, desarticula, qualquer 
revolta contra seu sistema. Isso quer 
dizer que a pseudo felicidade ou 
satisfação promovida pela Indústria 
Cultural acaba por desmobilizar ou 
impedir qualquer mobilização crítica 
que, de alguma forma, fora o papel 
principal da arte (como no 
Renascimento, por exemplo). Ela 
transforma os indivíduos em seu objeto 
e não permite a formação de uma 
autonomia consciente. (CABRAL, 
Extraído da Internet) 
A cultura de massa faz com que o sujeito creia que está no 
domínio e que é livre para consumir o que quiser. No entanto 
são produzidos padrões de consumo em todas as instâncias 
sociais: na propaganda, no comércio, no cinema, na 
televisão, na arte, na música, na educação, na política etc. 
Na crença de seu pleno domínio sobre o objeto, o indivíduo 
não se opõe às forças dominantes e o ciclo de controle e 
consumo se fecha. 
Lamentavelmente nos dias atuais a arte serve como 
referência do todo. Se há um esvaziamento social, a arte 
tende a ser esvaziada, e se o mercado produz sentidos e faz 
com que se reproduza artisticamente sempre mais do 
mesmo, por conta de sua redução à mercadoria, a arte assim 
o fará. 
Para os filósofos da Escola de Frankfurt, se o problema 
reside na arte e na cultura, a saída deste problema ainda 
pertence à arte e a cultura. Toda obra de arte é uma 
experiência estética e um exercício dialético. É uma 
experiência estética no que tange a uma análise dessa pelos 
sentidos e pela produção autônoma de significados e da 
retomada da experiência subjetiva. É um exercício dialético, 
pois a contemplação da arte não sugere uma conformidade e 
sim uma desconstrução contínua – todo olhar sobre a obra 
de arte pressupõe uma desconstrução para uma 
reconstrução, realizada de forma inconsciente. 
Foi através da arte e da cultura que o controle ideológico e 
político se instaurou na contemporaneidade. Então cabe a 
toda atividade artística devolver a autonomia e a experiência 
ao indivíduo, fazendo com que, de certa forma, a 
emancipação da arte seja, ao mesmo tempo, a emancipação 
do indivíduo, ou seja, a reconciliação da obra de arte é uma 
reconciliação do próprio indivíduo. Mas como atingir a esse 
objetivo e fugir desse controle totalitário e ideológico? 
[...] que recupere a capacidade de 
auto-reflexão; que dialogue com 
indivíduos autênticos, e não com 
membros de uma massa amorfa. 
Procedendo dessa maneira, a arte se 
renova e cumpre seu papel de 
dimensão social, de conhecimento. Ao 
que parece, é difícil pensar em uma 
superação, pois até a arte séria caiu 
nos ditames da indústria cultural. Se a 
arte recuperar seu caráter libertador, 
isso só vai acontecer quando a própria 
sociedade também mudar, o que 
parece permanecer apenas uma 
promessa [...] Adorno nos convida a 
uma nova leitura da arte. Essa leitura 
deve ser feita a partir da conciliação 
entre reflexão e prática. Mesmo 
parecendo pessimista em seus 
escritos, Adorno vislumbra um 
otimismo prático, em que talvez as 
coisas um dia melhorem. Valorizar a 
arte que surge entre as camadas mais 
populares pode representar um misto 
de resistência e denúncia, desde que 
elas não sejam integradas pelo 
interesse econômico da indústria 
cultural. (AGUIAR, extraidido da 
internet) 
O ideal aristotélico da obra de arte como formadora do 
espírito talvez não seja mais possível na sociedade de 
consumo, mas pode voltar a criar uma tensão crítica 
necessária para a vida política e para a produção do 
conhecimento. A contemplação da obra de arte naturalmente 
suscita um exercício dialético. A autonomia e a experiência 
subjetiva, necessários para o processo emancipatório do 
indivíduo, requerem um exercício dialético na avaliação do 
sujeito sobre o real, no intuito de vencer o quese proclamou 
pelos frankfurtianos de ‘Razão Instrumental’. 
(​http://pt.wikipedia.org/wiki/Raz%C3%A3o_instrumental​). A 
consciência autônoma e a valorização da experiência são a 
contrapartida, oferecida pela arte, para sua emancipação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Referências 
ARISTÓTELES. ​Metafísica​​. Porto Alegre, Editora Globo, 
1969. 
AGUIAR, Wisley Francisco de, ​Adorno e a Dimensão Social 
da Arte​​, Publicado em: 
http://www.urutagua.uem.br/015/15aguiar.htm​, Pesquisado 
em: 20/01/2015. 
CABRAL, João Francisco P. Conceito de Industria Cultural 
em Adorno e Horkheimer, Publicado em: 
http://www.brasilescola.com/cultura/industria-cultural.htm​, 
Pesquisado em: 22/01/2015 
OSBORNE, Harold​. Estética e Teoria da Arte​​, São Paulo, 
Editora Cultrix, 2º edição, 1974. 
PAREYSON, Luigi, ​Os Problemas da Estética​​, São Paulo, 
Editora Martins Fontes, 3° edição, 1997. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Seção 4 - Em busca do tempo perdido 
 
Introdução 
Caro aluno, chegamos a nossa última lição. A nossa 
caminhada até aqui contribuiu de forma significativa para o 
exercício do pensamento crítico. Nossa última lição 
apresenta o niilismo, uma forma de pensamento que tem por 
alvo os valores supremos. Nosso objetivo será mostrar como 
o niilismo tem causado danos significativos para a 
humanidade nos últimos anos, representado principalmente 
pelo discurso pós-moderno. 
Na filosofia contemporânea chamamos de “pós-modernas” 
aquelas ideias que, a partir da metade do século XIX, se 
levantaram contra o humanismo moderno e a filosofia das 
Luzes. Essa filosofia vai contestar tanto a crítica do 
humanismo, quanto a crítica do racionalismo. Segundo Luc 
Ferry, 
Do mesmo modo que esta rompeu com 
as grandes cosmologias da 
Antiguidade e inaugurou uma crítica da 
religião, os “pós-modernos” vão atacar 
duas das mais importantes convicções 
que animavam os Modernos do século 
XVII ao XIX: aquela segundo a qual o 
ser humano seria o centro do mundo, o 
princípio de todos os valores morais e 
políticos; aquela que considera a razão 
um formidável poder libertador, e que, 
graças ao progresso das “Luzes”, 
seremos, enfim, mais livres e mais 
felizes. (FERRY, 2010, p. 183) 
O ponto alto desse pensamento é Nietzsche. Seu 
pensamento contribuiu de forma significativa com a filosofia 
moderna ao trazer a poesia para a filosofia, e ao afirmar que 
o pensamento dionisíaco (que representa o sentimento, a 
ação, a emoção) deveria sobrepor o pensamento apolíneo 
(que representa a ordem, a harmonia e a razão). Marcondes 
observa. 
A filosofia, segundo ele representada 
por Sócrates, o “homem de uma visão 
só”, instaura o predomínio da razão, da 
racionalidade argumentativa, da lógica, 
do conhecimento científico, da 
demonstração. Com isso, o homem 
perde a proximidade com a natureza e 
suas forças vitais, que mantinha no 
período anterior e que encontra sua 
expressão nos rituais dionisíacos, na 
dança, na embriaguez. A tragédia 
expressa esse elemento vital no 
confronto entre os homens e os 
deuses, no confronto entre o homem e 
seu destino, no herói que visa superar 
seus limites, como Prometeu no ciclo 
de tragédia de Ésquilo. Dioniso seria 
assim o deus da música e da 
embriaguez, o deus que não habita o 
Olimpo, mas a natureza; a força vital, a 
alegria, o excesso. O surgimento da 
filosofia representa o predomínio do 
que Nietzsche chama o “espírito 
apolíneo”, derivado de Apolo, o severo 
deus da racionalidade, da medida, da 
ordem e do equilíbrio. No período que 
antecede a filosofia, o “espírito 
apolíneo” e o “espírito dionisíaco” se 
contrabalançavam, completando-se 
mútua e dialeticamente. Com o 
desenvolvimento da razão filosófica e 
científica, o espírito apolíneo irá 
prevalecer, e o espírito dionisíaco, o 
desejo, a “afirmação da vida”, será 
progressivamente reprimido. A história 
da tradição filosófica é a história do 
triunfo do espírito apolíneo em 
detrimento do dionisíaco. O advento do 
cristianismo reforçará essa direção 
com o espírito do sacrifício e da 
submissão, com o pecado e a culpa, 
com o supremo paradoxo do “deus 
morto”, Cristo, o “crucificado”, como 
Nietzsche se refere a ele. Nossa 
cultura seria fraca e decadente devido 
ao predomínio das “forças reativas” 
que a construíram. A verdade e a 
moral são os instrumentos que os 
fracos inventaram para submeter e 
controlar os fortes, os guerreiros. A 
tradição ocidental é o resultado desse 
processo. (MARCONDES, 2000, p. 
243-244) 
O que Nietzsche desejou foi revelar e criticar esse 
processo, e se possível restaurar os valores primitivos 
perdidos. Mas a única forma de restaurar esses “valores” 
seria derrubando os valores existentes. Com isso ele faz a 
sua “filosofia do martelo”, atacando os valores que 
possibilitaram o desenvolvimento do mundo ocidental, 
inaugurando a sua “filosofia da suspeita”. 
 
Filosofia da Suspeita 
Qual o objetivo da “filosofia da suspeita”? O seu objetivo é 
desconstruir as ilusões que embalaram o humanismo 
clássico, desconfiando sempre dos valores morais, 
metafísicos e transcendentes. Para ela, toda forma de valor 
elevado esconde por trás de si interesses. 
Dentro desse pensamento, o alvo preferido de Nietzsche é 
Sócrates. O motivo é que na filosofia socrática a razão toma 
a direção da vida, dando a noção de dignidade ao homem. 
Nietzsche afirma em “Crepúsculo dos ídolos”. 
Sócrates foi um mal-entendido; a 
inteira moral-da-melhoria, também a 
cristã, foi um mal-entendido... A luz do 
dia mais crua, a racionalidade a todo 
preço, a vida clara, fria, cautelosa, 
consciente, sem instinto, oferecendo 
resistência aos instintos era, ela 
mesma, apenas uma doença, uma 
outra doença – e de modo nenhum um 
caminho de retorno à “virtude”, à 
“saúde”, à felicidade... Ter de combater 
os instintos – eis a formula para a 
décadence: enquanto a vida se 
intensifica, felicidade é igual a instinto. 
(NIETZSCHE, 1978, p. 330) 
O pensamento socrático compreendia que se deixar levar 
pelos instintos acarretaria prejuízos significativos à vida 
humana. O homem, cedendo aos apetites, pouco se 
diferenciaria dos animais, e se ele tem a razão a seu favor, 
porque abrir mão dela?! A boa convivência em sociedade 
deveria ser regida pelas leis da civilidade e do bom senso. 
Mas, isso não surgiu de uma hora para outro, levou tempo. O 
historiador Will Durant observa. 
Os atenienses do século V a.C. não 
eram exemplos de moralidade; o 
progresso intelectual libertara a muitos 
das tradições da ética, 
transformando-os em indivíduos quase 
amorais. Relativamente à justiça legal, 
eram tidos em alto conceito, mas raro 
se mostravam altruísta, a não ser para 
com os próprios filhos; poucas vezes 
deixavam-se perturbar pela 
consciência e jamais sonhavam em 
amar ao próximo como a si mesmos. 
(DURANT, 1995, p.230) 
 
O autocontrole, a moderação, equidade na fortuna e na 
adversidade, eram virtudes que os atenienses exaltavam em 
suas obras, mas poucas vezes praticavam em seu dia a dia. 
É Sócrates que vai apontar para essa incoerência, ao mostrar 
que não pode haver separação entre lexis (letra) e práxis 
(prática). 
A filosofia socrática emana uma clareza moral fundante 
para a sociedade ateniense, ela consegue atingir um público 
amplo, nem espontaneamente intelectual e nem 
deliberadamente inculta. Através do diálogo ele busca 
encontrar um consenso, fazendo uso de um pensamento que 
podemoschamar de moderno para a época. Formar uma 
criança ou um jovem para a virtude deveria passar pela 
atividade da Paidéia, que é a mais bela de todas e a mais 
eficiente. 
É a esse ponto que eu quero chegar. Como enfrentar a 
cultura da indiferença, presente em uma sociedade regida 
pelos falsos valores e pelos vícios de matriz niilista? Quando 
o homem é reduzido a uma única dimensão, nesse caso ao 
aqui e agora, alguns valores tendem a se enfraquecer, dentre 
eles a esperança. Com a perda da esperança vem o 
desespero e dele a indiferença no tocante à vida. 
Nesse contexto do “pós-moderno”, todos os homens são 
reduzidos a meros instrumentos de produção e consumo, 
esse homem tende a perder a sua essência dentro de um 
sentido metafísico, nesse caso a alma. Para Giovanni Reale. 
A morte do homem é uma 
conseqüência da morte de Deus: se 
“Deus está morto”, e com ele 
desaparecem todos os ideais e os 
valores a estes vinculados, o que resta 
do homem, que tinha um vínculo 
estrutural com Deus e com esses 
ideais e valores? Encontramos a 
resposta num fragmento de Nietzsche: 
“O bem do universal exige que se 
abandone o indivíduo. Mas, preste 
atenção, esse universal não existe! No 
fundo, o homem perdeu a fé em seu 
valor infinito; ou seja, ele concebeu 
esse todo para poder acreditar no 
próprio valor” (...) A partir do momento 
em que se negou Deus e, com Ele, 
todos os valores espirituais, não se 
obtém de forma alguma a 
emancipação total da humanidade; em 
vez disso, a eliminação de todos os 
ideais e de todos os valores comporta 
– contrariamente à tentativa que 
Nietzsche procura fazer – uma queda 
no absurdo, a total infelicidade e a 
loucura, como poderiam demonstrar a 
própria vida de Nietzsche e seu fim na 
loucura. A verdadeira pergunta é: como 
se pode viver, se a vida não tem mais 
sentido? (REALE, 2011 p. 160-161) 
 
A Transvaloração dos Valores 
Como viver em um mundo que perdeu o seu sentido? A 
relação entre homem e mundo sempre significou uma busca 
de sentido; dessa busca, nasce a esperança. Um mundo sem 
sentido é um mundo sem esperança, onde a angústia e o 
vazio se externalizam em forma de prazer, vícios e consumo. 
Sócrates nos ensina o valor do autoconhecimento. Sem 
harmonia interna, teremos desequilíbrio externo, e é ele que 
alimenta o vazio existencial do mundo. 
A transvaloração dos valores, proposta por Nietzsche e 
presente nos nossos dias, é a inversão dos antigos valores e 
um deslocamento destes da esfera da transcendência para a 
esfera da vontade de potência. A vontade de potência nos 
nossos dias pode ser classificada com a angústia travestida 
de liberdade em um discurso de felicidade. É incontestável 
que os valores são uma condição que, ao ser eliminada, 
torna a vida absurda. 
O ser humano é impaciente por natureza. Muitas vezes é 
difícil esperar. Queremos que os nossos desejos sejam 
satisfeitos o mais rápido possível, e com freqüência nos 
envolvemos com problemas sem pensar muito bem. É uma 
fraqueza que deve ser corrigida, mas a nossa sociedade 
apenas alimenta essa deficiência através dos meios de 
comunicação de massa. A materialização dos nossos afetos 
tende a se resumir apenas àquilo que podemos consumir. 
Sejam eles bens de consumo, relações afetivas curtas, 
aprendizado sem compromisso, trabalho visando o consumo. 
O saber dos antigos, ao olhar para o interior do ser 
humano, compreende que ele possui necessidades que 
estão além das coisas materiais que o mundo pode lhe 
oferecer. Toda tentativa de agir no mundo sem sabedoria 
gera fracasso. Fazer-por-fazer e produzir-por-produzir geram 
apenas vazio e dor. O verdadeiro problema não é o que 
fazer, mas o que devemos ser. 
Ciência => técnica => economia => lucro => alienação 
A ciência exclui todo o juízo de valor; a técnica é puramente 
instrumental; o lucro invade todos os campos, transformando 
os seres humanos naquilo que o capital tem de pior. E como 
podemos resistir a tamanho mal? Aprendendo com os 
antigos o valor da sabedoria. 
 
A Perda dos Valores 
A nossa sociedade carece de valores de longo prazo. Hoje 
tudo se tornou transitório, passageiro ou com data de 
validade. Pensar em valores exige nos nossos dias uma 
grande imaginação. A razão disso é que não conseguimos 
nos apegar a nada. Tudo o que precisamos é ter as nossas 
necessidades e desejos atendido o mais rápido possível. 
A cisão no mundo moderno entre a razão e o real, entre 
humanismo abstrato e vida concreta, teve prejuízos 
significativos; uma rebelião das paixões dos indivíduos em 
um mundo que, aos poucos, foi perdendo o seu sentido. 
O conhecimento se desenvolve através da experiência; ela 
nos possibilita crescer através do conhecimento; mas quando 
a experiência se resume à satisfação tudo se torna muito 
perigoso. No entanto, o caminho que leva ao niilismo não 
surgiu de uma hora para outra; ele foi sendo construído 
gradativamente. Segundo Rehfeld podemos reconhecer três 
caminhos. 
As ciências, grandemente estimuladas 
pelo espírito racional do Iluminismo, 
tomam, nos séculos XVIII e XIX, um 
ímpeto nunca visto antes. Os princípios 
da mecânica, que tão bem serviram 
para a elaboração das leis mais 
importantes da física clássica, como da 
lei da gravidade, da termodinâmica e 
do eletromagnetismo, chegaram a ser 
considerados fundamentos ontológicos 
de toda realidade: De postulados muito 
úteis para determinados trabalhos 
científicos (não para todos), chegaram 
a constituir dogmas de fé, em cuja 
aplicabilidade irrestrita acreditava-se 
cegamente. O dogma mecanicista 
substituiu os velhos dogmas religiosos, 
sem dar-se conta do papel que a fé 
desempenhava na sua aceitação 
incondicional e universal, nem na 
vulnerabilidade que apresentavam à 
verdadeira crítica cientifica. É evidente 
que um mecanismo deste tipo excluía 
toda a realidade divina. (REHFELD, 
2008 p.318) 
Confiar cegamente na razão pode acarretar prejuízos 
significativos. Ao tomar o lugar da antiga metafísica, o 
pensamento científico acaba com o encantamento do homem 
diante da natureza, e essa passa a ser mais um objeto de 
conhecimento. Na relação do homem grego com a natureza 
existia encantamento e respeito. 
A diferença entre a modernidade e a pós-modernidade é 
que os pensadores modernos procuravam encontrar 
coerência, ordem e unidade no mundo. Representar o mundo 
através de leis gerais era o seu objetivo. O mundo de Newton 
era um universo coerente e regido por leis; Nietzsche 
interpretava isso como sendo uma perda de tempo. Para ele, 
nenhuma reunificação das forças caóticas no mundo seria 
possível, o racionalismo científico moderno é uma ilusão, um 
modo de retornar às cosmologias antigas. 
 O segundo caminho apontado por Rehfeld foi àquele 
traçado por Darwin. 
Outro golpe na consciência religiosa foi 
desferido por Darwin e pela sua obra. 
A teoria da evolução proscreveu como 
contrárias à ciência as lendas bíblicas 
da criação do mundo, do homem e dos 
seres vivos. Baseou a evolução das 
espécies numa impiedosa luta pela 
sobrevivência, de todos contra todos, 
num sofrimento infindável. (Ibidem, p. 
319) 
Porúltimo, o terceiro caminho apontado por ele foi o 
materialismo histórico de Marx e Engels, que reduz todos os 
fatos importantes da história e culturais da existência humana 
às leis da produção da sociedade. Uma visão negativa no 
tocante a religião já estava presente, mas, principalmente no 
materialismo histórico, se torna um alvo. 
Muitas vezes o discurso se reproduz se forma tão agressiva 
em decorrência das limitações da razão iluminista ou do 
pensamento cientifico. O dano maior está no fato que um 
discurso do ressentimento que se materializa em uma 
filosofia da suspeita coloca sob dúvida vários valores da 
tradição. A tendência é que, em decorrência da perda dos 
valores, a suposta morte de Deus, tudo o que nos resta são 
dúvidas e incertezas. O conhecimento do mundo passa a ser 
feito não mais através das formas racionais, mas pelo desejo 
direcionado pelas emoções. 
Os três exemplos citados mostram que, diante do caos que 
se apresenta em determinadas circunstâncias, o homem, na 
maioria das vezes, não sabe o que fazer, e quando pensa em 
fazer alguma coisa é a partir da sua revolta. Dependendo da 
maneira que interpretamos o mundo, o tempo, o espaço, a 
natureza, tudo pode ser tomado como sendo um adversário. 
Lidar com as adversidades requer de nós sabedoria. 
 
O Niilismo 
Com o desenvolvimento do individualismo, o niilismo se 
fortalece e produz sofrimento e dor. Os valores, que foram 
imprescindíveis para o desenvolvimento do mundo ocidental 
(mesmo com suas contradições), se tornam desnecessários. 
O sentido da vida passa ser a sua falta de sentido, e a 
angústia materializada em alienação e consumo se tornam o 
discurso dominante. 
O homem olha para o mundo e se sente um completo 
estranho. O abismo construído pelo niilismo, resultado da 
individualidade extrema, tende a esgotar as forças de 
resistência da nossa realidade. Somente um discurso ético, 
que possa gerar ações éticas a partir da renuncia individual 
em pró de um bem coletivo, pode confrontar tamanha 
indiferença. Morin observa que: 
A crise ética da nossa época é, ao 
mesmo tempo, crise da religação 
indivíduo/sociedade/espécie. Importa 
refundar a ética; regenerar as suas 
fontes de 
responsabilidade-solidariedade 
significa, ao mesmo tempo, regenerar 
o circuito de religação 
indivíduo-espécie-sociedade na e pela 
regeneração de cada uma dessas 
instâncias. Essa regeneração pode 
partir do despertar interior da 
consciência moral, do surgimento de 
uma fé ou de uma esperança, de uma 
crise, de um sofrimento, de um amor e, 
hoje, do chamado vindo do vazio ético, 
da necessidade que vem da 
deterioração ética. Não se trata, 
portanto, para nós de encontrar um 
novo fundamento para a ética, mas, ao 
mesmo tempo, de dar-lhe novas 
fontes, novas energias e de 
regenerá-la no circuito de religação. 
(MORIN, 2005 p. 29-30) 
A única forma de propor alternativas ao niilismo é através 
de valores éticos bem fundamentados pela consciência. Os 
tempos modernos produziram deslocamentos e rupturas 
éticas na relação indivíduo/sociedade/espécie. O homem dos 
nossos dias olha para o outro e enxerga apenas um 
adversário; olha para a natureza e vê apenas uma 
oportunidade de dominação; se olha no espelho e sente 
vazio e solidão. O mundo pós-moderno impõe o seu próprio 
culto: uma idolatria dos prazeres. 
Não precisamos nos esforçar muito para enxergar que o 
mundo não vai bem. A vida desaparece no momento em que 
a dignidade se torna desnecessária. Ao produzir 
deslocamento e rupturas, os tempos modernos transformam 
o homem em um autômato, indiferente, egoísta, e insensível 
diante da dor e do sofrimento do outro. Essa é a sociedade 
da indiferença, é a herança do niilismo. 
Acredito que a melhor solução para esses problemas seja a 
volta da sabedoria antiga. Mas o que a filosofia dos antigos 
tinha de especial? Ela reconhecia a finitude do homem diante 
da natureza e a necessidade de uma educação que 
transformasse o homem em alguém melhor. Não apenas 
através do conhecimento, mas também do fortalecimento da 
alma. 
O caminho era o caminho da educação e da cultura. Um 
processo de educação consciente é a única ferramenta 
capaz de transformar o homem, disciplinando os seus vícios, 
enaltecendo as suas virtudes, fortalecendo o seu intelecto 
com informações e conhecimentos, e principalmente, 
possibilitando e promovendo seu acesso a um plano superior 
de existência (Cf. Pinto, 2003, p. 19). 
 
A Era da Informação 
A Era da Informação transforma a nossa realidade de fora 
para dentro, mas a nova experiência do tempo nos 
transforma de dentro para fora. É esse mundo acelerado que 
torna um plano superior de existência algo desnecessário. 
Diante da sua impotência resta ao homem apenas se 
revoltar. Acredito que talvez seja melhor encontrar sentido na 
aparente falta de sentido do que se render aos apetites e 
vícios. 
Se reduzirmos a filosofia apenas a uma teoria do 
conhecimento, seu papel fica reduzido às possibilidades 
desse conhecimento. Mas se a filosofia apontar para 
caminhos outros, nesse caso, uma experiência da realidade 
que não se prende apenas ao aqui e agora, o ato de filosofar 
nos dá uma direção e uma necessidade de sentido. 
O nosso mundo vive um esgotamento dos valores. Para 
resgatar os valores, precisamos alimentar no nosso ser a fé, 
não a “fé” nas coisas do mundo (prazeres, materialismo, 
poder), mas nos valores mais elevados; somente 
internalizando-os podemos encontrar forças para lutar em um 
mundo regido por um relativismo moral. Aristóteles em sua 
Ética a Nicômaco afirma: ​A excelência é, portanto, uma 
disposição do caráter escolhida antecipadamente. Ela está 
situada no meio e é definida relativamente a nós pelo sentido 
orientador, principio segundo o qual também o sensato a 
definirá para si próprio. (Aristóteles, 2009 p.49) 
Precisamos buscar a excelência em tudo na nossa vida. A 
realização da nossa humanidade será progredir na direção 
da melhor possibilidade que uma vida com responsabilidade 
pode oferecer. A virtude precisa ser fortalecida através de 
atos virtuosos, valores elevados e uma disposição para 
compreender e completar o outro naquilo que lhe falta. 
Se, de um lado, o discurso do mundo contraria aquilo que a 
sabedoria grega ensinava, talvez resistir seja a nossa única 
escolha. Mas a resistência precisa ser alimentada 
diariamente, continuamente e incansavelmente. Se render ao 
niilismo é um prejuízo, perder a alma é uma tragédia, mas 
enfrentar o mundo com a alma alimentada pela virtude é 
vitória. 
Aqui termina o nosso módulo. Espero que você se sinta 
incomodado a pensar o mundo com um olhar crítico. Iniciar 
ao pensar teve o seu primeiro passo, continuar a pensar é 
uma jornada. Termino com uma frase do Hugo de São Vítor 
(Didascálicon, p. 227). 
A leitura pode ser para você um 
exercício, mas não um propósito. A 
instrução é boa, mas é dos 
principiantes. Você, ao contrário, haviaprometido de tornar-se perfeito, e por 
isso não lhe bastará igualar-se aos 
principiantes. É necessário que você 
faça mais. Considere, portanto, onde 
está, e saberá facilmente aquilo que 
deve fazer. 
A ÉTICA PÓS-MODERNA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Referências 
ARISTÓTELES.​ Ética a Nicômaco​​. São Paulo, Editora Atlas, 
2009 
DURANT, Will. ​A História da civilização II: Nossa herança 
clássica​​. Rio de Janeiro, Editora Record, 3º edição, 1995. 
FERRY, Luc. ​Aprender a viver: filosofia para os novos 
tempos​​. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2010. 
HUXLEY, Aldous. ​Admirável mundo novo​​. São Paulo, 
Editora Globo, 22° edição, 2013. 
MARCONDES, Danilo. ​Iniciação à história da filosofia: 
Dos pré-socráticos a Wittgenstein.​​ Rio de Janeiro, Ed. 
Jorge Zahar, 5º edição, 2000. 
MORIN, Edgar. ​O Método 6: Ética​​. Porto Alegre, Editora 
Sulina, 2005. 
NIETZSCHE, Friedrich. ​Coleção: Os pensadores​​. São 
Paulo, Editora Abril Cultural, 1978. 
RUSSELL, Bertrand. ​História do pensamento ocidental: A 
aventura das idéias dos Pré-Socráticos a Wittgenstein​​. 
São Paulo, Editora Ediouro, 3° edição, 2001. 
REALE, Giovanni. ​O saber dos antigos: terapia para os 
tempos atuais.​​ São Paulo, Edições Loyola, 3º edição, 2011 
REHFELD. Walter I. ​Ensaios Filosóficos​​. São Paulo, 
Editora Perspectiva, 2008. 
VÍTOR, Hugo de São. ​Didascálicon: Da arte de ler​​. 
Petrópolis, Editora Vozes, 2001.

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