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PERÍCIA E ARBITRAGEM CONTÁBIL AULA 2 Prof. Tassiani Aparecida dos Santos 2 CONVERSA INICIAL Olá alunos, vamos iniciar a nossa segunda aula do curso Perícia e Arbitragem Contábil! O objetivo desta aula é introduzi-los nos aspectos normativos da perícia contábil, em especial em relação a atividades e procedimentos do perito-contador e do assistente técnico. Como veremos adiante, há muitas normas e regras que devem ser seguidas pelo profissional perito, em especial no que tange ao trato com a justiça, ou seja, em sua função judicial. Portanto, esta segunda aula do curso oferecerá subsídios para que os nossos alunos compreendam quais aspectos normativos devem ser atentados pelo perito na execução em sua atividade. Iniciaremos nossa aula abordando os aspectos interpessoais, interprofissionais e transdisciplinares do profissional perito, e trataremos da fiscalização do prazo que o profissional está sujeito a cumprir. O Tema 2 versa sobre a alçada do perito, suas atribuições e limitações. Em seguida, o Tema 3 trata das normas relativas à indicação do assistente técnico, bem como suas funções e diferenciações para o profissional perito indicado pelo magistrado. O Tema 4 explicita a problemática dos honorários periciais, diferenciando entre perito-contador e assistente técnico nas funções judiciais e extrajudiciais. E por fim, o Tema 5 aborda a função e o ônus da prova pericial. Ufa! Muito assunto, não? Então, mãos à obra! CONTEXTUALIZANDO A nossa segunda aula do curso de Perícia e Arbitragem Contábil versará sobre aspectos normativos da profissão. Na prática de sua atividade profissional, o perito se vê cercado de normas, regras e diretrizes que deve seguir no decorrer de seu cotidiano profissional. Essas normatizações advêm de diversas esferas e órgãos, como do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e das diversas legislações, como o Código de Processo Civil (CPC). Como o profissional perito-contador ou assistente técnico deve conduzir o tratamento de suas atividades no âmbito judicial? E no âmbito extrajudicial? Como o profissional se comunica com a justiça? Quais são seus deveres e direitos, em relação a prazos, alçadas e no exame da prova pericial? E em relação aos honorários, como é feita a determinação? 3 Essas e outras questões devem ser refletidas de antemão; a partir de agora, iremos explorar esses questionamentos. Bora lá! TEMA 1 – PERÍCIA INTERPESSOAL OU INTERPROFISSIONAL, TRANSDISCIPLINARIDADE E FISCALIZAÇÃO DOS PRAZOS Queridos alunos, estamos iniciando a nossa segunda aula do curso de perícia contábil. Trataremos neste tema da perícia interpessoal ou interprofissional, da transdisciplinaridade da perícia e da fiscalização dos prazos. A realização de uma perícia, ou seja, o exame de um fato ou a emissão de opinião verdadeira, muitas vezes requer do perito visão interdisciplinar e transdisciplinar, para que se obtenha um adequado laudo pericial. A natureza da prova pericial contábil já pressupõe a interdisciplinaridade da contabilidade, pois traz consigo diversos aspectos do direito processual civil, em especial a perícia contábil (Ornelas, 2000). A transdisciplinaridade, na perícia judicial ou extrajudicial, é a união do conhecimento pericial de duas ou mais áreas do conhecimento humano para que se possa chegar ao conhecimento do fato examinado e a uma opinião verdadeira. Isso pode acontecer com a sinergia de áreas diversas, como a contabilidade e a medicina, a contabilidade e a engenharia, a contabilidade e a economia, a contabilidade e a administração, entre outras (Hoog, 2010, p. 88). Assim, nos casos em que a legislação permite a perícia interprofissional, temos os laudos de especialistas de outras áreas, além do laudo do perito- contador, para auxiliar a decisão do magistrado. Por exemplo, um laudo de um engenheiro sobre a avaliação de um edifício, em uma ação de apuração de haveres ou de resolução de sociedade. Nesse caso, o valor contábil histórico é substituído pelo valor da reavaliação, conforme laudo de outro perito especialista em engenharia de avaliações. Assim, o laudo final do perito-contador depende do laudo de outro perito para que possa ser feito com confiabilidade e fidedignidade (Hoog, 2010, p. 89). Hoog (2010, p. 89) ainda afirmar que O perito-contador pode requerer ao juiz a indicação de especialistas de outras áreas que se fizerem necessários para a execução de trabalhos específicos. Entendemos que o perito não só pode, mas também deve requerer que o juiz indique perito especialista de outras áreas, por ser isso atribuição do juiz. Esse fato está regulado no CPC, art. 431-B. Normalmente esse pedido é feito quando da elaboração da proposta de honorários, quando se analisa profundamente a extensão da perícia e o teor dos quesitos. 4 Portanto, o perito-contador tem o dever de solicitar indicação de um perito especialista em outra área do conhecimento para a entrega do laudo pericial, quando necessário. Essa atitude revela grande profissionalismo do perito- contador e responsabilidade com as seis esferas estudadas na aula anterior (moral, ética, social, cível, criminal e filosófica). TEMA 2 – ALÇADA DO PERITO, ATRIBUIÇÃO E LIMITAÇÕES Caros alunos, o Tema 2 versará sobre a alçada do perito-contador, suas atribuições e limitações. Esse é um tópico fundamental para o entendimento da prática profissional pericial, visto que trataremos de como o perito deve proceder em seu exame de prova pericial. No trabalho pericial, o profissional precisa apreender algumas informações fundamentais quanto ao instituto da prova para realizar sua função com maestria. Dentre essas informações, é importante que o perito-contador identifique qual a função da prova, a quem compete o ônus da prova, os meios das provsa contábeis disponíveis e os tipos de prova que o perito irá examinar durante o processo judicial (Ornelas, 2000). Ainda, Hoog (2010, p. 89) aponta que o perito é, por essência, um cientista, que auxilia o magistrado em suas decisões, quando o objeto da prova requer conhecimento específico. Por ser um profissional de confiança do juiz, tem a sua alçada ilimitada, no que tange à busca de subsídios para fundamentar suas convicções tecnológico-científicas. Contudo, não é dever do perito produzir ou juntar provas para os autos do processo, cabendo a esse profissional inspecionar as provas produzidas pelas partes. Portanto, neste tema, tratamos das atribuições e limitações do perito em relação à prova pericial. Conforme comentamos no parágrafo anterior, o perito tem como alçada acesso ilimitado a provas periciais, que devem ser fornecidas pelas partes do processo; ainda, não é dever desse profissional produzir ou juntar provas. Em relação ao acesso do perito às provas periciais, é dever das partes, por força de lei, a apresentação de documentos, papéis, livros, demonstrativos e qualquer outro tipo de prova, ao perito nomeado nos autos. Caso uma das partes se recuse a apresentar as provas ao perito nomeado pelo juiz, poderá a parte prejudicada declarar litigância de má-fé (Hoog, 2010, p. 32): 5 O perito, quando se sentir cerceado em sua alçada, ou seja, não obtiver as informações necessárias, como embaraço à perícia, deve denunciar o fato em juízo antes da conclusão de seu trabalho, para que sejam tomadas as medidas cabíveis, entre elas: busca e apreensão de documentos, proteção pessoal do perito, ajuda do oficial de justiça, ou também a intimação pessoal da parte que não colaborou com os trabalhos para que ela venha colaborar. Tal afirmativa se faz pela interpretaçãono disposto no art. 1.191 do CC/2002. Caros alunos, isso significa que a alçada do perito é ilimitada no exame da prova pericial e que as partes não devem atrapalhar o trabalho do perito- contador no exercício de sua profissão. Contudo, se houver embaraço, denuncia-se o fato em juízo, e a perícia deve ser refeita, ou seja, deve-se marcar nova diligência. Se houver nova visita ao estabelecimento onde deveria estar a documentação, deve a parte responsável pela repetição da diligência arcar com a despesa conforme previsto no CPC, art. 29 (Hoog, 2010). O procedimento requerido para tal caso é o seguinte: o perito-contador deve solicitar ao juiz a repetição da diligência e o recebimento das despesas associadas à nova diligência. Desse modo, ao ser agendada nova diligência, pede-se novo prazo e horário; além disso, as horas agendadas inicialmente devem ser pagas pela parte que pediu o adiamento (Hoog, 2010). Em relação às limitações de acesso a prova pericial, Hoog (2010) afirma que existem ressalvas relativas ao acesso de provas que possuem sigilo industrial, tributário, bancário e outras, que dependem de determinação expressa da justiça, mediante emissão de ofício. Outra limitação apontada pelo autor se refere a pesquisas de documentos e livros, que devem ser examinados no local e na presença dos responsáveis pela documentação – portanto, não podem ser transportados. Por fim, caros leitores, mencionamos que o perito é um cargo de servidor público, e assim sendo deve observar os princípios da Administração Pública, tais como (Hoog, 2010): Princípio da publicidade: Os atos e fatos praticados no processo devem ser de acesso público, ressalva apenas para as exceções legais. Princípio da impessoalidade: O perito deve seguir condutas obrigatórias e está proibido de agir com quaisquer formas de favoritismo; portanto, deve agir de forma correta (equidade) ao interpretar as normas e legislações. 6 Princípio da eficiência: O perito deve realizar suas atividades de forma excelente para obter o resultado desejado, mas sempre priorizando o menor dispêndio de recursos possível. Ainda, o formalismo e a burocracia devem ceder espaço para a eficiência e a realização da justiça. Princípio da moralidade: Este princípio determina e privilegia o decoro e a confiança na boa-fé, na honradez e na probidade. E, assim, veda condutas inaceitáveis e transgressoras da ética e bom senso, não permitindo qualquer tipo de condescendência. Princípio da legalidade: Todos os atos e fatos devem se desenvolver na forma e limites da lei. TEMA 3 – NORMAS RELATIVAS A INDICAÇÃO DE ASSISTENTE TÉCNICO Caros alunos, este tema da nossa segunda aula tratará dos atributos, funções e responsabilidade do assistente técnico. Ainda, identificaremos as especificidades da profissão de assistente técnico e as diferenças para os profissionais peritos. Os assistentes técnicos são peritos indicados pelas partes interessadas no processo judicial para garantir a veracidade dos fatos apurados – diferentemente do perito-contador, que é indicado pelo magistrado. Alunos, é importante salientar que os assistentes devem preservar a sua independência e autonomia em relação aos seus clientes, ou seja, a parte que contratou o profissional, em função da ética do sigilo profissional e da verdade (Hoog, 2010). Mas então o que diferencia um perito de um assistente técnico? Bom, vejamos, independentemente se foi nomeado pelo magistrado ou contratado por uma das partes, o profissional tem o dever de seguir os preceitos éticos e buscar a verdade formal. Mas existem algumas pequenas diferenças, pois o perito é profissional de confiança do juiz, enquanto que o assistente técnico é profissional de confiança da parte que o indica livremente, razão pela qual a parte que o indicou arca com os honorários e adiantamento das despesas, valores que ao final do processo vão compor as custas judiciais (Hoog, 2010). Em relação aos procedimentos, a Resolução CFC n. 1.243/09 declara que os procedimentos adotados por ambos os profissionais são iguais, pois a perícia contábil visa fundamentar questões que abrangem, total ou parcialmente, o objeto da perícia contábil, em seu exame, vistoria, indagação, investigação, arbitramento, mensuração, avaliação e certificação (Hoog, 2010). 7 Ainda, na execução de suas atividades, o perito-contador assistente e o perito-contador trabalham de forma colaborativa: O perito-contador assistente pode, tão logo tenha conhecimento da perícia, manter contato com o perito-contador, pondo-se à disposição para o planejamento, para o fornecimento de documentos em poder da parte que o contratou e ainda para a execução conjunta da perícia. Uma vez recusada a participação, o perito-contador pode permitir ao assistente técnico acesso aos autos e aos elementos de prova arrecadados durante a perícia, indicando local e hora para exame pelo assistente técnico (CFC, 2009). Adicionalmente, comentamos que é importante que o perito assistente informe ao juiz que concorda com a indicação de uma das partes, procure o perito-contador e informe por escrito o interesse de acompanhar o trabalho pericial do profissional nomeado pelo juiz. Nesse cenário, pode o perito-contador trabalhar sem o acompanhamento e sem discussão técnica com o perito assistente, ficando a seu encargo essa decisão (Hoog, 2010). Aqui, faremos dois adendos, o primeiro relacionado ao assistente técnico e o segundo relativo ao perito-contador. Vejamos. Primeiramente, cabe mencionar que, em relação ao assistente técnico, há o dever de acompanhar passo a passo o andamento do processo, pois fica firmado compromisso profissional ético com a parte que o contratou. Assim, ele deve acompanhar o início dos trabalhos, a coleta dos dados, a intimação das partes via termo de diligência e a conclusão dos trabalhos do perito-contador, além de apresentar, em um prazo de 10 dias, o seu parecer divergente, se for o caso (Hoog, 2010). O outro ponto versa sobre o perito-contador. Esse profissional é inteiramente responsável pela perícia nomeada nos autos pelo magistrado, independentemente de delegar tarefas a auxiliares ou outros profissionais especialistas (Sá, 2010). Em suma, caros leitores, podemos afirmar que o perito-contador e o assistente técnico trazem procedimentos técnicos similares; o que os diferencia de fato é a sua nomeação. O primeiro foi nomeado pelo juiz, o segundo por uma das partes do processo. Portanto, ambos os profissionais estão sujeitos às mesmas normas e sanções previstas ao profissional perito (Hoog, 2010). TEMA 4 – HONORÁRIOS Caros alunos, o Tema 4 fornecerá orientações e explicações quanto ao tratamento dos honorários do perito-contador e do assistente técnico. Aceita a 8 perícia, como requerer os honorários periciais? E, em caso de aumento da carga horária, como proceder? A proposta de honorários deve ser aceita pelo magistrado? O que deve conter nessa proposta, em especial para que o magistrado compreenda e aceite a proposta de honorários? E o assistente técnico, como ele precifica os trabalhos prestados? Segue regra e procedimento similares ao do perito-contador? Bem, essas e outras perguntas relativas ao tratamento dos honorários periciais serão respondidas daqui em diante. Apertem os cintos que a leitura já vai começar! Para fins didáticos, adotaremos a divisão proposta por Ornelas (2000), em que a remuneração do trabalho pericial contábil pode ser abordada sob duas dimensões: a primeira, relativa ao perito, quando na função judicial; e a segunda, quando em função extrajudicial, incluindo-se a arbitral. Vejamosagora o tratamento dos honorários em relação ao trabalho do perito-contador e do assistente técnico nas funções judiciais e, em seguida, nas funções extrajudiciais. 4.1 Função Judicial Trataremos agora dos honorários cobrados pelo perito judicial, ou seja, o denominado perito-contador, que é indicado pelo magistrado para a realização de exame da prova pericial, ou o denominado assistente técnico, que é indicado pelas partes para emitir opinião sobre um fato investigado em processo judicial (Ornelas, 2000). 4.1.1. Honorários do perito judicial Bom, caros leitores, inicialmente o magistrado nomeia um perito para o trabalho pericial (ou uma das partes indica um assistente técnico para o trabalho pericial). Aceita a perícia, o profissional deve requerer seus honorários, que fazem parte das custas do processo; portanto, quem pede a perícia é quem deve fazer o depósito (Sá, 2010). Vale salientar que o arbitramento (autorização do valor dos honorários periciais) é feito pelo magistrado. Portanto, a etapa que será descrita a seguir é de fundamental importância para o perito judicial, pois irá subsidiar a decisão de arbitramento dos honorários. Então, vamos lá! 9 De início, o perito apresenta ao magistrado orçamento ou estimativa de sua remuneração, antes do início do trabalho pericial. O valor dos honorários deve ser respaldado nos custos do trabalho pericial; portanto, por meio de petição, o perito apresenta as horas técnicas empregadas em cada fase do trabalho pericial e os respectivos custos, considerando como base as orientações do CFC (Ornelas, 2000). Sá (2010) expõe qual a tratativa dos honorários para os casos de aumento da carga horária de trabalho do perito: Em caso de aumento da carga horária de trabalho do perito, mesmo ele tendo fixado previamente seus honorários, se teve a cautela de precaver-se contra aumento de tal carga, pode pedir reajuste. Tal fixação prévia pode, todavia, ser reajustada se o prazo da perícia assim o exigir e nos casos de inflação (habitual em nosso país). Portanto, a proposta de honorários deve ser bem-feita, pois será analisada pelo magistrado. E ainda, seguindo os preceitos éticos, deve visar não cometer erros contra si, nem contra as partes. Bom, de maneira geral, os honorários podem ser contestados, mas o juiz e o perito, em comunhão, estabelecem acordos que vigoram quase em sua totalidade (Sá, 2010). Desse modo, após o pronunciamento das partes, ou em seu silêncio, os autos do processo são concluídos e levados ao juiz, que fixará os honorários periciais (Ornelas, 2000). Após esse procedimento inicial da arbitração dos honorários do perito judicial, citaremos alguns aspectos que são importantes, em especial com relação ao pagamento dos honorários periciais: Independentemente de concordância, de impugnação, ou de agravo, a quantia fixada deve ser depositada à ordem do magistrado em instituição bancária autorizada a receber depósitos judiciais no prazo por esse determinado (Ornelas, 2000). Não é permitido que o perito, em função judicial, receba diretamente das partes os honorários periciais. Esse é um ato financeiro que precisa estar comprovado nos autos do processo. Primeiramente, porque a parte responsável pelo pagamento precisa provar que cumpriu a determinação do magistrado, sob pena de desobediência ou de extinção do processo. Depois, os valores da remuneração pericial precisam constar como prova nos autos, em casos de eventual ressarcimento dessa despesa processual (Ornelas, 2000). Caros leitores, por fim questionamos: quem é o responsável pelo pagamento do perito? 10 O CPC dispõe que a responsabilidade financeira pelos honorários periciais é da parte que requereu a prova pericial. Se ambas as partes solicitam exame de prova, o responsável pelo pagamento é o autor do processo judicial. Contudo, é importante esclarecer que o pagamento da remuneração do perito é um adiantamento de despesa processual, e isso implica que a parte que perdeu o processo judicial será responsável pelo pagamento ou ressarcimento à parte que adiantou os honorários periciais (Ornelas, 2000). Agora, vamos tratar do levantamento dos honorários periciais, isso é, do recebimento efetivo por parte do perito-contador da remuneração a qual tem direito. Concomitantemente com a entrega do laudo pericial contábil, o profissional perito deve oferecer também uma petição requerendo o arbitramento de sua remuneração, se ainda não foi realizada no momento da proposta anteriormente apresentada ao magistrado. Nessa mesma petição, o perito solicita o levantamento da quantia depositada judicialmente pelas partes, fato que permite a retirada desse valor por parte do perito (Ornelas, 2000). Desse modo, diante da petição apresentada, o juiz autoriza a movimentação financeira dos valores depositados judicialmente, por meio de documento de levantamento. Então, em posse do documento deferindo o levantamento do depósito, o perito se direciona a um cartório, que autorizará a movimentação ao emitir documento denominado mandado de levantamento judicial ou alvará de levantamento (Ornelas, 2000). Portanto, de forma resumida, segundo Sá (2010), tem-se o seguinte procedimento pericial para recebimento dos honorários: 1. Elabora-se e apresenta-se ao magistrado uma proposta de honorários, e solicita-se depósito prévio em conta judicial; 2. Executa-se a perícia e produz-se o laudo pericial contábil; 3. Entrega-se o laudo e faz-se a petição para a liberação do depósito feito em conta e que ficou à disposição da Justiça. Bom, caros leitores, salienta-se que tal sequência pode ser alterada, nos casos em que for autorizada a antecipação dos honorários, ou seja, antes de o profissional concluir o exame de prova. Em geral, esse valor de adiantamento gira em torno dos 50% (Sá, 2010). Para ter acesso a modelos de petição, sugerimos que consultem Ornelas (2000). Em seu livro, há sete modelos de petição para orientar na formulação de 11 cada uma das etapas que envolvem a comunicação do perito com a justiça, no que tange aos aspectos de remuneração. 4.1.2 Honorários do assistente técnico No caso dos assistentes, quase sempre os honorários se ajustam sem dificuldade entre a parte e o perito. O perito, na função de assistente técnico, deve, preliminarmente, oferecer proposta de prestação de serviços profissionais, ajustando com a parte seus honorários e a forma de pagamento, e orientando- se nos procedimentos recomendados para a perícia contábil, aprovados pelos Conselhos Regionais de Contabilidade (Ornelas, 2000). Caros alunos, é importante compreender que, embora a negociação seja particular, ou seja, entre a parte e o assistente técnico, os honorários são considerados despesas do processo judicial, e devem, portanto, constar nos autos do processo (Ornelas, 2000). Assim, o assistente técnico deve apresentar uma petição ao magistrado requerendo o arbitramento de sua remuneração. Contudo, esses honorários são fixados, em geral, em dois terços da quantia fixada para o perito nomeado pelo magistrado. Isso significa dizer que, na petição preparada pelo assistente técnico, não é requerida a apresentação de uma proposta de orçamento; como no caso do perito-contador, apenas solicita-se o arbitramento (Ornelas, 2000). Notem que essa fixação não se relaciona com aquela livremente ajustada pelo assistente técnico e a parte que o indicou, mesmo porque o magistrado não tem poderes para interferir na negociação particular. O magistrado fixa a remuneração do assistente técnico nos autos para conhecer-se o valor dessa despesa processual no caso de ressarcimento àparte vencedora (Ornelas, 2000). 4.2 Função Extrajudicial Após analisarmos o tratamento despendido pelo perito em sua função judicial, veremos que, na função extrajudicial, não há burocracias procedimentais, visto que não existe comunicação direta com a justiça. Nessa função, o perito é contratado de forma particular para atender a uma demanda de um cliente na forma extrajudicial; nesse caso, o profissional negocia livremente seus honorários e a forma de pagamento (Ornelas, 2000). 12 Nessa relação que se estabelece extrajudicialmente, recomenda-se que o perito elabore um contrato de prestação de serviço, estabelecendo o escopo dos serviços a serem realizados, o valor dos honorários, a forma de pagamento, o prazo de execução, e outros elementos relevantes para a relação profissional estabelecida entre as partes (perito e cliente). Vale observar que o profissional deve seguir as normas éticas e os procedimentais previstas pelo CFC na execução da atividade pericial (Ornelas, 2000). TEMA 5 – PROVA PERICIAL: FUNÇÃO E ÔNUS DA PROVA Caros alunos, o último tema da nossa segunda aula trata da prova pericial, em especial da função e do ônus da prova. Iremos discorrer sobre a função da prova pericial e, em seguida, versaremos sobre o ônus da prova pericial. 5.1 Função da prova pericial Para Ornelas (2000), a função da prova pericial considera o conceito de verdade formal, ou seja, a função da prova pericial consiste em transformar fatos em verdade formal. Ora, vejamos bem, é importante entender dois conceitos: fatos e verdade formal. O fato é o que constitui a prova. Isso é, a prova é a soma de todos os fatos que estão sendo apurados em um processo judicial – embora, obviamente, nem todos os fatos possam ser submetidos a prova (Ornelas, 2000). Os fatos são classificados em controversos e incontroversos. Fatos controversos são aqueles que necessitam de exame de prova pericial. Os fatos incontroversos não são submetidos a prova; trata-se dos denominados fatos notórios. Esses fatos fazem parte da cultura de uma sociedade e são, assim, afirmados por uma parte e dados por verdadeiro por outra parte (Ornelas, 2000). O conceito de verdade formal é aquele assentado nas provas, ou seja, relaciona-se ao que pode ser apreendido da prova examinada pelo perito em seu processo tecnológico-científico. Assim, Ornelas (2000) assevera que o estudo da perícia se interessa pelo conceito de verdade formal, ou seja, pela utilização da inteligência (do perito) para se obter a verdade (formal). Por conseguinte, a busca pela verdade formal dos fatos é objetivo do perito, já que a ele é submetida a responsabilidade pela veracidade dos fatos nos autos do processo. 13 Portanto, a função da prova pode ser entendida como a função de provar a existência de um fato da vida que se ajusta a norma ou a princípio de direito, na forma jurídica – ou seja, a verdade formal (Ornelas, 2000). Assim, neste ponto da aula, deve ficar claro para os estudantes que o perito, em seus trabalhos, não deve externar sua opinião pessoal sobre os fatos do processo. O relato do perito- contador deve estar em conformidade com os princípios de contabilidade e sua boa técnica, e, assim, retratar a verdade formal dos fatos (Ornelas, 2000). 5.2 Ônus da prova pericial No âmbito judicial, o ônus da prova é entendido como o dever de provar o que se alega. A parte que afirma ou nega determinado fato é que tem o ônus, o interesse de oferecer ou produzir as provas necessárias que entende possam vir a corroborar as alegações oferecidas. É de se notar que ninguém está obrigado a produzir provas; todavia, não o fazendo, arcará com consequências negativas no processo judicial, pois quem busca a proteção da justiça depara-se com a necessidade de produzir suas provas. No processo judicial, a parte que oferecer as provas mais convincentes fatalmente obterá sucesso (Ornelas, 2000). Na produção da prova pericial contábil, é, portanto, indispensável o perito debruçar-se sobre a matéria fática objeto da causa, à luz da classificação contida no dispositivo legal, estudando-a detidamente sob essa ótica, o que lhe vai possibilitar traçar os caminhos técnicos a serem por ele percorridos mesmo porque é inerente a sua função colaborar para o descobrimento da verdade. Caros alunos, o perito-contador, na execução de seu trabalho, irá examinar os fatos relativos à prova contábil objetivando o descobrimento da verdade. Nessa área do conhecimento, os fatos, que são de origem administrativa, financeira e patrimonial, são captados pelos sistemas de informações contábeis e pelo exame de documentos físicos e digitais (Ornelas, 2000). Eles podem ser classificados como construtivos, extintivos, impeditivos ou modificativos (Ornelas, 2000): Fatos construtivos: são aqueles que têm a eficácia jurídica de dar vida, de fazer nascer, de constituir a relação jurídica; Fatos extintivos: são os fatos que tem a eficácia de fazer cessar a relação jurídica; 14 Fatos impeditivos: são os fatos que impedem o efeito que lhe é normal, ou próprio, e que constitui a sua razão de ser; Fatos modificativos: são os fatos que, sem excluir ou impedir a relação jurídica, à qual são posteriores, têm a eficácia de modificá-la. TROCANDO IDEIAS Caros alunos, nesta segunda aula do nosso curso sobre perícia contábil aprendemos que a vida profissional do perito é composta por regras, normas, diretrizes e orientações. Em um mundo tão normatizado, é normal se esperar que o profissional tenha de estar sempre atualizado para que não cometa nenhum deslize. Nesta atividade de fórum, você deverá refletir e expor a sua opinião sobre a seguinte questão: um profissional perito assistente finalizou seu laudo pericial contábil; contudo, ao solicitar o recebimento dos honorários de seu cliente, parte em processo judicial, foi informado que esqueceu de realizar a petição para arbitramento. Qual o impacto desse fato, para o cliente e para o processo judicial? Como a falta de conhecimento das normas periciais prejudicam a validade da perícia efetuada? NA PRÁTICA Vamos agora para uma atividade prática! Alunos, utilizem os conceitos aprendidos nessa aula como base para a resolução de um problema pericial. Nessa atividade, você deverá refletir e aplicar o conceito de fatos constitutivos. Vamos lá: determinado comerciante propõe ação contra um de seus devedores que não honrou o pagamento de uma duplicata de venda mercantil. Sabe-se que uma transação de venda mercantil provoca a emissão de nota fiscal e respectiva duplicata, gerando alguns lançamentos contábeis nos livros mercantis e fiscais das partes: No vendedor, lançamentos nas contas: (a) pela venda: duplicatas a receber e receitas; (b) pela saída das mercadorias: custo das vendas e estoques; (c) registro da venda no livro Registro de Saídas; No comprador, lançamentos nas contas: (a) pela compra: estoques, impostos e duplicatas a pagar; (b) escrituração da compra no livro de Registro de Entradas. 15 A entrega da mercadoria pode ser efetuada por transportadora, ou mediante frota própria do comerciante, e ainda ser retirada pelo comprador. No primeiro caso, temos ainda duas possibilidades: frete pago ou a pagar. Independentemente do meio utilizado, o vendedor deve exigir do comprador o recebido de entrega do produto, mediante assinatura do denominado canhoto da nota fiscal. A duplicata mercantil poderá ser colocada em cobrança bancária e protestada por falta de pagamento. Pode ter sido uma transação originária de um pedido remetido pelo comprador ao vendedor; pode referir-se a pedidoemitido por vendedor pertencente ao quadro de vendedores ou de representante comercial do vendedor; ou, então, ter origem em um pedido extraído pela administração da vendedora, provocado por telefone do comprador. Com base no caso acima, determine os quatro fatos constitutivos da matéria fática disponível, de fonte própria, em favor do direito reclamado pelo comerciante. FINALIZANDO Olá alunos, agora sim estamos finalizando nossa segunda aula do curso de perícia contábil. Essa aula de conceitos normativos nos auxiliou a adentrar no mundo da perícia contábil e compreender como é complexo, dinâmico e extremamente normatizado e legalizado, o que implica em muitas responsabilidades por parte do perito-contador e do assistente técnico. Os dois primeiros temas dessa aula normativa introduziram características essenciais ao profissional pericial, seja ele perito-contador ou assistente técnico. O primeiro tema tratou dos aspectos interpessoal ou interprofissional, da transdisciplinaridade e das fiscalizações dos prazos do profissional perito. Já o segundo tema dessa aula abordou a alçada do profissional pericial, bem como as suas atribuições e limitações. Em seguida, apresentamos as normas relativas à indicação do assistente técnico, no terceiro tema dessa aula. Ainda, tratamos dos aspectos gerais dos honorários periciais, como os procedimentos processuais para a solicitação e aprovação dos honorários, a precificação dos honorários e pormenores técnicos. E, por fim, discorremos sobre a função e o ônus da prova pericial. 16 Esperamos que você tenha compreendido, por meio de textos, vídeos e exemplos, os principais procedimentos normativos que são exigidos do profissional pericial para finalizar suas atividades. 17 REFERÊNCIAS CFC – Conselho Federal de Contabilidade. Resolução n. 1.243, de 10 de dezembro de 2009. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 18 dez. 2009. HOOG, W. A. Z. Prova Pericial Contábil: Teoria e Prática. 8. ed. Curitiba: Juruá, 2010. ORNELAS, M. M. G. Perícia Contábil. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2000. SÁ, A. L. Perícia Contábil. 9.ed. São Paulo: Atlas, 2010.