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A Hidrovia Paraguai Paraná e seu significado par a diplomacia sul americana do brasil

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puderam
ser redirecionados para a promoção do desenvolvimento, que
ocorreria no “eixo de relativa igualdade entre países com poder e
situação internacionais comparáveis”20. Condição indispensável a esse
novo objetivo, que passaria a integrar a essência de nossa diplomacia,
era a garantia da paz na região, para o que não mais deixaria de
empenhar-se o Brasil em sua ação externa, voltada para a promoção
da amizade e união dos países sul-americanos, sua realidade
imediata21.
Pavimentava-se, assim, a estrada das primeiras iniciativas
promotoras da transformação das “fronteiras de separação em fronteiras
20
 De acordo com o Embaixador Rubens Ricupero, os esforços da diplomacia brasileira
em prol da cooperação e do desenvolvimento seriam empreendidos, na realidade, em
dois eixos, o de “simetria” ou relativa igualdade com os países de poder e situação
internacional comparáveis aos do Brasil (América Latina, mais tarde África e Ásia) e o
de “assimetria” ou de desigualdade com as nações das quais nos separa um diferencial
apreciável de poderio político e econômico (industrializados da América do Norte,
Europa, Japão, de um lado, e U.R.S.S. e socialistas, do outro). Ver em RICUPERO,
Rubens. A Diplomacia do Desenvolvimento. In: ARAÚJO, João Hermes de;
AZAMBUJA, Marcos e Ricupero, Rubens. Três Ensaios sobre Diplomacia Brasileira.
Brasília: Ministério das Relações Exteriores, 1989. pp. 193 e 194.
21
 RICUPERO, Rubens. Rio Branco, definidor de valores nacionais. In: CARDIM,
Carlos Henrique; ALMINO, João (Orgs.). Rio Branco: a América do Sul e a
modernização do Brasil. Rio de Janeiro: EMC, 2002. p.90. Expressões dessa política,
iniciada por Rio Branco já em 1909, foram os esforços diplomáticos empreendidos, na
década de 30, em busca de soluções conciliatórias para os conflitos deflagrados entre
Colômbia e Peru, em torno da questão de Letícia; entre Paraguai e Bolívia, por ocasião
da Guerra do Chaco, e, mais recentemente, entre Peru e Equador, envolvidos em antigo
contencioso territorial. A questão da paz na América do Sul como condição essencial
para o desenvolvimento e a segurança do país era notada na política de Rio Branco.
“Fiel ao seu passado, o Brasil [à época do chanceler] continuava a oferecer ao mundo
testemunho inequívoco de amor à concórdia e de entranhado sentimento de justiça,
prosseguindo com serena constância na liquidação pacífica da pesada herança de litígios
territoriais, pondo termo, prudente e cautelosamente, a situações por vezes inquietantes,
com a preocupação exclusiva de viver em paz com os seus vizinhos e em boa harmonia
com todas as nações do mundo”. JORGE, Arthur Guimarães de Araújo. Rio Branco e as
fronteiras do Brasil: uma introdução às obras do Barão do Rio Branco. Brasília:
Senado Federal, 1999. p.154. “Na concepção de Rio Branco, a melhor maneira de se
proteger contra atentados à soberania era garantir a estabilidade política da região”.
37A VISÃO DA INFRA-ESTRUTURA FÍSICA DA AMÉRICA DO SUL
de cooperação”22, na América do Sul, já a partir do início dos anos
sessenta, seguindo a tendência aos processos de integração regional,
de que foi precursora a Europa na década de 50. A primeira delas, a
Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC, 1960),
resultaria na Associação Latino-Americana de Integração (ALADI,
1980)23. A segunda, o Tratado da Bacia do Prata (1969), em cujo
âmbito se inscreve o projeto da Hidrovia Paraguai-Paraná, chegou a
incluir no rol de suas discussões a preocupação com a integração do
espaço físico sul-americano. Nesse sentido, a XII Reunião de
Chanceleres da Bacia do Prata, realizada em 1981, em Santa Cruz de
la Sierra, teve como um dos tópicos de interesse a questão da
interligação das bacias do Orinoco, do Amazonas e do Prata, tema
retomado como relevante na atualidade24.
Seguiram-se a essas iniciativas, a criação, em 1969, do Grupo
Andino, que se transformaria em Comunidade Andina das Nações
BUENO, Clodoaldo. O Barão do Rio Branco e o projeto da América do Sul. In: CARDIM,
Carlos Henrique, ALMINO, João (Orgs). Rio Branco, a América do Sul e a modernização
do Brasil. Rio de Janeiro: EMC, 2002. p.359.
22
 COMUNICADO DE BRASÍLIA. Emanado da I Reunião dos Presidentes da América
do Sul, realizada em Brasília, no período de 31 de julho a 02 de agosto de 2000, texto
mimeografado, parágrafo 36.
23
 PEÑA, Félix. Momentos y Perspectivas. La Argentina en el mundo y en América
Latina. Buenos Aires: Editorial de la Universidad Nacional de Tres de Febrero,
septiembre, 2003. p. 169. Sobre a evolução do pensamento político brasileiro acerca da
integração regional, veja CERVO, Amado Luiz. Eixos Conceituais da política exterior
do Brasil (abril de 1998). In: Revista Brasileira de Política Internacional, ano 46, n. 1,
pp. 69-74, 2003.
24
 “O assunto acabara de ser tratado naquele ano, em Lima, no âmbito de Reunião
Especializada, convocada pelo Governo peruano, com o patrocínio da OEA. Dado o
caráter ambicioso do projeto, que tinha grandes implicações para o Brasil em termos
econômicos, buscou-se lhe dar tratamento cauteloso e realista. Esse enfoque prevaleceu
por ocasião da reunião de Santa Cruz de la Sierra, na qual a Bolívia pretendia dar
seguimento mais dinâmico ao assunto, tendo apresentado, para tanto, projeto de resolução
encomendando o exame da questão no âmbito da Bacia do Prata. Tal proposta não
prosperou, contudo, tendo sido apenas incluída na Ata Final uma referência ao encontro
de Lima”. Ver em BRASIL. MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES.
Informação da DAM-I. Brasília, 1985, texto mimeografado, p. 6.
ELIANA ZUGAIB38
(CAN); o Tratado de 1973 celebrado entre o Paraguai e o Brasil, que
possibilitou a construção da hidrelétrica de Itaipu, cuja controvérsia
será tratada no capítulo II; o acordo tripartite celebrado por Argentina,
Paraguai e Brasil, em outubro de 1979, que representou a transposição
das relações Brasil/Argentina do patamar da confrontação para o da
cooperação, como se procurará demonstrar mais adiante; o Tratado
de Cooperação Amazônica (1978); o gasoduto Brasil/Bolívia (1999),
cujas tratativas se haviam iniciado na década de 30; o Tratado de
Integração, Cooperação e Desenvolvimento, assinado entre a Argentina
e o Brasil em 1988, que proveria os fundamentos iniciais do Mercosul
e a efetiva criação deste último, em 1991, pelo Tratado de Assunção,
que incorporaria o Paraguai e o Uruguai ao processo de integração, e
estabeleceria, num primeiro momento, laços de associação com o Chile
e a Bolívia. Mais tarde, no governo Lula, abrir-se-iam perspectivas
não só de aprofundar, mas de ampliar o bloco regional com a associação
do Peru, em 2003, e a assinatura de acordo com a Venezuela, Colômbia
e Equador, em outubro de 2004, de maneira que ficaria configurada a
zona de livre comércio entre o Mercosul e a CAN, com a possibilidade
de futura associação do México25.
No entanto, essa tentativa de “latino-americanização” da
diplomacia brasileira26 viria a sofrer, mais recentemente, um
reducionismo, embora não excludente, em função da revisão do conceito
25
 A reunião de chefes de Estado latino-americanos em Puerto Iguazú, em julho de 2004,
quando o Brasil assumiu a presidência Pro Tempore do Mercosul, marcou uma inflexão
na aliança regional. Registrou avanços nos acordos com a CAN, aprovou o ingresso da
Venezuela como membro associado e autorizou negociações para que o México venha a
se incorporar nessa mesma condição. GARCIA, Marco Aurélio. Além da Crise do
Mercosul. Jornal O GLOBO, coluna Opinião, de 14 jul. 2004. A aspiração de unidade
continental presidiu também o surgimento do Grupo do Rio, primeiro foro político
exclusivamente latino-americano para harmonizar posições a respeito dos grandes
problemas hemisféricos e conferir à região voz mais influente através da coordenação
informal das atuações do Brasil, Argentina, México, Venezuela, Colômbia, Peru, Uruguai
e Panamá, este último suspenso após haver-se