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See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/281346919 Apostila de Nefrologia UFPR Research · August 2015 CITATIONS 0 READS 2,744 1 author: Some of the authors of this publication are also working on these related projects: Doutorado em Clínica Cirúrgica View project Campbell-Walsh Urology View project Frederico Ramalho Romero Universidade Federal do Paraná 117 PUBLICATIONS 1,093 CITATIONS SEE PROFILE All content following this page was uploaded by Frederico Ramalho Romero on 30 August 2015. The user has requested enhancement of the downloaded file. NEFROLOGIA - 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Avaliação clínica e laboratorial da função renal Introdução O diagnóstico de uma enfermidade do aparelho urinário depende de informações obtidas a partir de dados subjetivos fornecidos pelo paciente a partir da anamnese e de dados objetivos obtidos pelo médico através do exame físico e dos exames laboratoriais. Dados subjetivos Alterações na micção Uma pessoa normal urina a cada 4 a 6 horas durante o dia e normalmente não urina à noite. Entre as alterações miccionais mais importantes, destacamos: Polaciúria Aumento da freqüência miccional, eliminando-se pequeno volume de urina. Urgência miccional Necessidade imperiosa de urinar. Urência Traduz dor em queimação à micção. Geralmente está acompanhada de polaciúria e urgência miccional e é secundária a processos inflamatórios da bexiga, próstata ou uretra. Nictúria Predomínio noturno da diurese. Diabetes mellitus; Hipertrofia prostática benigna; Infecção do trato urinário; Insuficiência cardíaca congestiva; Insuficiência renal crônica. Incontinência urinária De esforço Defecando, tossindo ou levantando peso; Paradoxal É a perda involuntária de urina por extravasamento, devido a retenção urinária crônica. Hipertrofia prostática benigna Bexiga neurogênica. NEFROLOGIA - 2 Alterações do volume urinário O volume urinário diário, no adulto, varia usualmente entre 700 e 2.000 ml. Toda vez que a diurese nas 24 horas é inferior a 400 ml nós podemos afirmar que há um comprometimento funcional ou orgânico do rim. Por outro lado, uma diurese normal não indica, de maneira alguma, uma função renal normal e integridade orgânica do rim. Oligúria Volume urinário inferior ou igual a 400 ml/dia. Estados hipovolêmicos; Insuficiência cardíaca congestiva; Cirrose hepática; Lesão glomerular Glomerulonefrite difusa aguda Necrose cortical bilateral; Lesão tubular Necrose tubular; Lesão obstrutiva. Poliúria Volume urinário igual ou superior a 2.500 ml/dia. Polidipsia psicogênica; Diabetes Mellitus Insipidus Síndrome caracterizada por poliúria importante devido a uma insuficiência do sistema neuro-hipofisário em produzir ou liberar hormônio antidiurético (ADH) Insipidus nefrogênica Falta de resposta dos túbulos renais ao ADH circulante; Insuficiência renal crônica; Anemia falciforme. Anúria Volume urinário igual ou inferior a 100 ml/dia. Obstrução do trato urinário; Trombose das artérias renais; Insuficiência renal aguda grave; Necrose cortical do rim. NEFROLOGIA - 3 Alterações na coloração da urina A coloração normal da urina pode variar desde um amarelo-claro, quando diluída, até um amarelo-escuro, quando concentrada. Quando o paciente não está tomando drogas e quando não pode ser atribuída aos alimentos ingeridos, uma alteração na coloração da urina é indício de uma enfermidade, que se traduz pela presença de certos pigmentos na urina. Urina turva Piúria Bactérias e leucócitos; Sais de fosfato amorfo em urina alcalina É normal e pode ser diferenciada da piúria com a acidificação da urina, que determina o clareamento da turvação determinada pela fosfatúria. Hematúria Macroscópica; Microscópica Não causa alteração da coloração da urina e só é detectada ao microscópio; Inicial ou final Geralmente associadas a doença do trato urinário baixo; Durante toda a micção Rim, ureter e bexiga. Hemoglobinúria Hemólise intravascular. Mioglobinúria Necrose ou queimaduras extensas. Bilirrubinúria Afecções hepatobiliares Coloração amarelo-esverdeada. Dor renal Situa-se no flanco ou na região lombar e, às vezes, pode irradiar-se anteriormente. Origina-se a partir de distensão da cápsula renal, quando há obstrução do fluxo urinário (litíase renal) ou em condições que causam edema do parênquima renal (pielonefrite aguda). Uma irritação da pélvis renal ou do ureter causa dor em flanco e hipocôndrio, com irradiação para a fossa ilíaca do mesmo lado e freqüentemente para o testículo ou lábio genital. NEFROLOGIA - 4 Edema Qualquer que seja a causa do edema, ele implica um excesso de água e sal, o que causa um aumento do componente extravascular do volume extracelular. O edema é geralmente percebido nas extremidades inferiores mas isto se deve simplesmente a ação da gravidade pois no paciente em decúbito dorsal ele é facilmente percebido em outros sítios. Glomerulonefrite aguda Síndrome nefrótica Insuficiência renal aguda Insuficiência renal crônica Na prática, pode-se caracterizar dois tipos de edema renal: 1. Generalizado Anasarca Síndrome nefrótica Glomerulonefrite aguda Insuficiência renal aguda Atinge predominantemente o rosto Insuficiência renal crônica 2. Localizado Inflamação Queimaduras Obstrução venosa Obstrução linfática Angioedema História mórbida pregressa Hipertensão arterial A época da detecção da hipertensão arterial é importante na formulação da patogenia da nefropatia. Se a hipertensão já existia, é possível que ela tenha lesado o parênquima renal com o decorrer do tempo, causando uma nefropatia crônica. Por outro lado, o seu aparecimento mais recente pode indicar ser ela a conseqüência de uma nefropatia crônica que se tenha instalado lenta e progressivamente. Diabetes mellitus Trinta a cinqüenta porcento dos diabéticos insulino-dependentes e 10 a 15% dos diabéticos não insulino- dependentes vão apresentar nefropatia diabética, com um pico de incidência entre os 14 e os 16 anos de duração do diabetes. Colagenoses Lupus Eritematoso Sistêmico Esclerodermia Poliartrite nodosa NEFROLOGIA - 5 Hipercalcemias e hiperuricemias Podem levar a precipitação de cristais no parênquima renal ou no lume tubular, causando litíase renal ou nefrite intersticial. Infecções Estreptococos -hemolíticos Infecções de orofaringe ou da pele causadas por estes agentes podem ter como complicação o desenvolvimento de glomerulonefrite aguda. Traumatismo ou cirurgia prévia Procedência do paciente História mórbida familiar Síndrome de Alport Rim em esponja Rim policístico Dados objetivos H álito do paciente Odor amoniacal ou de peixe Pele e unhas Aproximadamente 10% dos paciente portadores de insuficiência renal crônica apresentam unhas cuja metade proximal é pálida e cuja metade distal é rósea (“half and half nails of Lindsey”). Pressão arterial Pacientes urêmicos ou diabéticos muitas vezes apresentam queda ortostática da pressão arterial (naausência de drogas) devido a um comprometimento do sistema nervoso autônomo. Fundo de olho Em nefrologia, o estudo do fundo de olho é especialmente importante por ser um exame que permite a avaliação da repercussão dinâmica da hipertensão arterial, tão comum em nefropatias crônicas. Reflexo dorsal da arteríola Normalmente, como a parede arteriolar é transparente, a incidência da luz sobre a coluna de sangue no seu interior resulta num reflexo de coloração amarelada. Quando ocorrem alterações escleróticas nas arteríolas, a incidência da luz sobre os lipídeos e o colesterol NEFROLOGIA - 6 infiltrados na suas paredes é responsável pela coloração de fio de cobre e reflete uma arteriosclerose moderada. Na arteriosclerose grave, com o agravamento da esclerose, o reflexo dorsal se parece com um fio de prata. Espasmo do vaso Corpos cistóides São manchas de coloração esbranquiçada com um tamanho cerca de 1 /5 do tamanho do disco papilar e que representam uma coleção de células gliais edemaciadas resultantes de um infarto isquêmico da artéria terminal na camada de fibras nervosas. Exsudatos duros Fração não-absorvida do soro após um edema de retina. Alterações nos cruzamentos arteriovenosos Edema de papila Manifesta-se pela perda da nitidez do contorno papilar e indica hipertensão arterial maligna. Aparelho cardiopulmonar Pulmão Derrame pleural Congestão pulmonar Atrito pleural Coração Pericardite urêmica Figura 1 - Comparação de uma fundoscopia normal (a direita) à uma fundoscopia evidenciando edema de papila (a esquerda) NEFROLOGIA - 7 Insuficiência aórtica funcional Decorrente do excesso de volume circulante que faz dilatar o anel aórtico. Exame dos rins Palpação O paciente é colocado em decúbito dorsal, com os joelhos levemente elevados. Coloca-se a mão posteriormente, debaixo do rebordo costal, e faz-se pressão para cima. A outra mão é colocada anteriormente, debaixo do rebordo costal na linha hemiclavicular. Com a inspiração, o rim se desloca para baixo, possibilitando a palpação. Tumores renais benignos Geralmente são pequenos demais para serem palpáveis; Tumor de Wilms Massa palpável em flanco; Rins policísticos São normalmente bilaterais e podem ser palpados a medida que os cistos aumentam; Obstrução urinária. Percussão Sinal de Giordano Percussão com a mão fechada sobre o ângulo costovertebral. Ausculta É útil na verificação de sopros abdominais na estenose da artéria renal. Exames laboratoriais pH O pH normal varia de 4,5 a 7,8. Contudo, o pH não identifica nem exclui doença renal. A urina alcalina (pH > 7) pode sugerir infecção por organismos que desdobram a uréia, mas também ocorre por contaminação de urina guardada por muito tempo, pela dieta vegetariana, diuréticos, vômitos, sucção gástrica e terapia com substâncias alcalinas. Uma maior ingestão de carne produz urina ácida devido a maior formação de uréia. Bilirrubina e urobilinogênio Estase leucocitária e nitritos A pesquisa de infecção urinária através do screening com o uso de fitas reativas é realizada através da detecção de granulócitos urinários que sofreram lise e da pesquisa de nitrito na urina. NEFROLOGIA - 8 A esterase liberada pelos granulócitos reage com sais da fita resultando numa cor rosa ou roxa. Falso-positivos ocorrem quando há contaminação vaginal, e a reação pode ser inibida na presença de excesso de glicose, albumina, ácido ascórbico, tetraciclina, cefalexina, cefalotina ou ácido oxálico. Os nitritos são formados a partir da conversão de nitratos pelas bactérias da urina e reage com a fita resultando numa cor rosa. Resultados falso-negativos ocor- em quando a urina é armazenada por muito tempo e na presença de infecção por bactérias Streptococcus faecalis, Neisseria gonorrheae e Mycobacterium tuberculosis. Glicose Como o limiar renal de glicose é de 160 a 180 mg/dl, a presença de glicose na urina geralmente indica glicemia acima de 210 mg/dl. Corpos cetônicos Acetoacetato e acetona podem aparecer na urina em jejum prolongado e na presença de cetoacidose alcoólica ou diabética. Hemoglobina e mioglobina Densidade urinária A densidade urinária avalia a concentração de solutos na urina e normalmente varia de 1,003 a 1,030. Proteinúria Diariamente, menos de 150 mg de proteína são excretadas na urina, das quais a maior parte é composta por uma mucoproteína de alto peso molecular (Tamm-Horsfall) e o restante é composto por globulinas e muito pouca albumina. As proteínas que são filtradas pelos glomérulos, especialmente aquelas de baixo peso molecular, geralmente são absorvidas no túbulo distal. As moléculas do mesmo tamanho ou maiores que a albumina plasmática (PM = 40.000) não atravessam o glomérulo normal. Entre os mecanismos propostos para se explicar a proteinúria destacam-se o aumento da filtração glomerular de proteínas, a diminuição na remoção da proteína filtrada e a adição de proteínas por ductos tubulares ou linfáticos renais. Todavia, a proteinúria nem sempre indica patologia. Cerca de 3 a 5% dos jovens sadios podem apresentar uma proteinúria discreta (< 1,0 g/dia) durante o dia que desaparece durante a noite (proteinúria postural). NEFROLOGIA - 9 Da mesma maneira, a proteinúria funcional refere-se a proteinúria que aparece com exercício físico, febre, exposição ao frio ou calor e, provavelmente, insuficiência cardíaca congestiva. Os melhores testes qualitativos para detectar proteinúria são o ácido acético associado ao calor, o ácido sulfossalicílico a 25% e as tiras de papel com tetrabromofenol azul. A determinação quantitativa pode ser feita através da avaliação da urina em 24 horas ou através da relação entre a quantidade de proteína e a quantidade de creatinina numa amostra de urina. Normalmente, a relação proteinúria/creatinina é menor que 0,1. Uma relação maior que 3,0 - 3,5 indica excreção proteica maior que 3,0 - 3,5 g/24 horas e uma relação menor que 0,2 indica menos de 0,2 g/24 horas. Sedimento urinário Normalmente, um pequeno número de células e outros elementos formados podem ser detectados na urina como, por exemplo: Células do sangue Eritrócitos Leucócitos Linfócitos Plasmócitos; Células do trato urinário Células tubulares renais Células transicionais ou escamosas da bexiga; Células estranhas Bactérias Fungos Parasitas Células neoplásicas; Cristais Oxalato Fosfatos Uratos Drogas. Na presença de uma enfermidade, o número desses elementos aumenta. Nas nefropatias, as células epiteliais degeneram e são excretadas em grande número, particularmente quanto há proteinúria intensa. NEFROLOGIA - 10 Os elementos do sedimento urinário de maior importância na distinção entre nefropatia primária e doenças do trato urinário baixo são os cilindros, que são massas alongadas (cilíndricas) e de material aglutinado formadas usualmente nas partes distais dos néfrons, onde a urina é concentrada. A desidratação e o aumento da concentração do líquido tubular favorece a formação de cilindros. Os cilindros podem ser classificados em cilindros simples (sem inclusões) e cilindros com inclusões. Dentre os cilindros simples nós temos o cilindro hialino, constituído pela mucoproteína de Tamm- Horsfall;o cilindro epitelial, formado de células epiteliais tubulares sem muita matriz proteica; o cilindro leucocitário, contendo leucócitos; o cilindro eritrocitário, contendo hemácias; o cilindro graxo, que é um cilindro hialino impregnado com gotículas de gordura; e outros. Figura 2 - Cilindro eritrocitário NEFROLOGIA - 11 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Sódio e água Introdução A diminuição ou o excesso de água e sódio ocorrem em uma grande variedade de circunstâncias clínicas. Teoricamente, os distúrbios no metabolismo da água e do sódio podem ser classificados em quatro categorias, refletindo o excesso ou o déficit de água e sódio, mas na prática, tais distúrbios raramente ocorrem isoladamente. O excesso de sódio geralmente resulta em edema, enquanto seu déficit quase sempre é acompanhado por depleção de água. Da mesma maneira, o excesso de água resulta em hiponatremia e a depleção de água relativa ou absoluta leva a hipernatremia. Metabolismo da água No adulto, a quantidade total de água equivale a cerca de 57% do seu peso corporal total. No recém-nascido, esse valor pode atingir 75%, mas ele diminui progressivamente desde o nascimento até a idade adulta, principalmente nos dez primeiros anos de vida. A obesidade pode diminuir a porcentagem de água do organismo até 45%. A regulação da água corporal é feita pelo centro da sede e pelo núcleo supra-óptico do hipotálamo. O centro da sede situa-se no hipotálamo lateral e estimula a ingestão de água quando há uma concentração excessiva dos eletrólitos no interior dos seus neurônios. Assim, qualquer fator passível de causar desidratação intracelular irá causar a sensação de sede. O núcleo supra-óptico controla a excreção renal de água através da secreção do hormônio antidiurético. Esse hormônio aumenta a permeabilidade à água na porção terminal dos túbulos distais e dos ductos coletores, determinando uma maior conservação de água pelos rins. A maior parte da nossa ingestão diária de água é feita por via oral, da qual cerca de dois terços encontra-se na forma de água pura ou de alguma bebida, enquanto o restante provém dos alimentos ingeridos. Uma pequena quantidade, equivalente a 150 - 250 ml por dia, também é sintetizada no organismo como conseqüência da oxidação dos alimentos. Do total de água ingerida, cerca de 70% é eliminado na urina, 4% no suor e 4% nas fezes. Os 22% restantes são eliminados por evaporação a partir do aparelho respiratório ou por difusão através da pele (perda insensível de água). Quanto a absorção, a água é totalmente transportada através da membrana intestinal pelo processo de difusão, obedecendo as leis gerais de osmose. Por conseguinte, quando o quimo (pasta a que se reduzem os alimentos pela digestão estomacal) está diluído, a água é absorvida por osmose através da mucosa intestinal. Por outro lado, a água também pode ser transportada na direção oposta, especialmente quando soluções hiperosmóticas são lançadas no duodeno pelo estômago. NEFROLOGIA - 12 Em geral, dentro de poucos minutos, quantidade suficiente de água é transferida por osmose para tornar o quimo isosmótico em relação ao plasma. Depois de absorvida, a água difunde-se para os diferentes compartimentos corporais. Do total de água presente no organismo, cerca de 60% situa-se no interior dos cerca de 75 trilhões de células existentes no corpo. Esse líquido é coletivamente chamado de líquido intracelular. Todos os líquidos existentes fora das células recebem a denominação de líquido extracelular. A quantidade de líquido no compartimento extracelular é, em média, de cerca de 40% do líquido corporal total. O líquido extracelular pode ser dividido em líquido intersticial, plasma, líquido cefaloraquidiano, líquido intra-ocular, líquidos do tubo gastrointestinal e líquidos dos espaços potenciais. Nos rins, a reabsorção de água depende da reabsorção renal dos diferentes solutos. A reabsorção renal dos solutos dos túbulos renais causa uma redução na sua concentração no lume tubular, mas aumenta-a no interstício. Isso cria uma diferença de concentração que irá produzir osmose de água na mesma direção em que foram transportados os solutos, através de grandes poros existentes nas “junções fechadas” localizadas entre as células epiteliais. Esse processo é especialmente observado nos túbulos proximais. As partes mais distais do sistema tubular, começando na alça de Henle e estendendo-se pelos demais túbulos, são bem menos permeáveis dos que os túbulos proximais. Ou seja, a velocidade de absorção do volume de líquido tubular diminui progressivamente ao longo do sistema tubular. Metabolismo do sódio A ingestão média de cloreto de sódio em um adulto normal está em torno de 7 g por dia. Uma vez absorvido, o íon sódio distribui-se para o líquido extracelular (45%), para o líquido intracelular (7%) e para o esqueleto (48%). A concentração plasmática de sódio está entre 135 e 145 mEq/L e a concentração intracelular é em torno de 10% da concentração plasmática. O sódio pode ser eliminado na urina, fezes ou suor. Todavia, para efeito de balanço, a excreção urinária de sódio é a mais importante. A eliminação pelo suor ou pelas fezes só adquirem importância em casos de sudorese intensa ou diarréias graves. Assim, a concentração do sódio no organismo depende principalmente do balanço entre a sua ingesta na dieta e a sua excreção renal. A excreção renal de sódio é regulada para equivaler à quantidade ingerida. Pouco tempo depois que a ingesta de sódio é abolida, a sua excreção urinária diminui intensamente. Quando a ingestão de sódio se eleva abruptamente, a sua excreção aumenta imediatamente e se iguala a ingesta em poucos dias. Desta forma, as concentrações de sódio no organismo permanecem dentro de uma estreita faixa no indivíduo normal, a despeito das amplas variações na sua ingesta. O mecanismo pelo qual alterações na ingesta modificam a excreção de sódio ainda não está totalmente esclarecido. NEFROLOGIA - 13 Acredita-se que receptores sensíveis a alterações regionais da volemia, tais como receptores intratorácicos, renais, do sistema nervoso central e do fígado, sejam os responsáveis. Como a quantidade diária de sódio filtrada pelos rins (26.000 mEq) excede em muito a quantidade ingerida (cerca de 135 mEq), a principal função dos rins no metabolismo do sódio é sua reabsorção. A maior parte da reabsorção de sódio tubular ocorre nos túbulos proximais e nas alças de Henle. Cerca de 40 a 65% do total de sódio filtrado é reabsorvido nos túbulos proximais, devido ao seu transporte ativo através de sistemas de co-transporte (via transcelular), ou ao seu transporte passivo através das “junções fechadas” localizadas entre as células epiteliais (via paracelular). Na porção espessa do ramo ascendente da alça de Henle, outros 27 a 40% são reabsorvidos, de modo que apenas 8 a 20% penetram nos túbulos distais. A reabsorção de sódio na porção terminal dos túbulos distais e nos ductos coletores corticais é extremamente variável, dependendo sobretudo da concentração sangüínea de aldosterona. Nesses segmentos, a passagem do sódio para dentro das células é característica e ocorre via canais de sódio. Na presença de grandes quantidades de aldosterona, quase todo o sódio tubular restante é reabsorvido por essas porções do sistema tubular, de modo que praticamente nenhum sódio chega à urina. Na ausência de aldosterona, quase todo o sódio que penetra na porção terminal dos túbulos distais, isto é, cerca de 800 mEq/dia, não é reabsorvidoe, assim, passa para a urina. A aldosterona age através da sua combinação com uma proteína receptora intracelular, que se difunde para o interior do núcleo onde ativa as moléculas de DNA para formar um ou mais tipos de RNA mensageiros. A seguir, acredita-se que o RNAm determine a formação de proteínas ou de enzimas necessárias para o processo de transporte do sódio, como a bomba Na + /K + , mas ainda se desconhece o mecanismo preciso envolvido. A secreção de aldosterona é feita pelas células da zona glomerular do córtex das glândulas supra-renais e é estimulada principalmente pela redução excessiva do volume de líquido extracelular e, em menor grau, pela redução da concentração de íons sódio no líquido extracelular. A redução excessiva de volume do líquido extracelular resulta em queda da pressão arterial e aumento da estimulação reflexa do sistema nervoso simpático, que produzem uma redução do fluxo sangüíneo para os rins e estimulam a secreção de renina. A renina determina a formação de angiotensina I, que é convertida em angiotensina II e, então, exerce efeito direto sobre as células da zona glomerular do córtex adrenal, aumentando a secreção de aldosterona. Apesar da aldosterona aumentar a quantidade de sódio no líquido extracelular, a maior reabsorção de água juntamente com o sódio impede, em geral, a Figura 1 - Reabsorção de sódio nos túbulos coletores NEFROLOGIA - 14 elevação na concentração de sódio, mas aumenta principalmente a quantidade total do líquido extracelular. A manutenção da normalidade do sódio extracelular requer não apenas o controle da excreção de sódio, mas também o controle da sua ingesta. Da mesma forma que a sede atua no controle da ingestão de água, a diminuição da concentração de sódio no líquido extracelular e a redução do volume sangüíneo estimulam o apetite por sal. A importância do desejo por sal é especialmente ilustrada em pacientes com doença de Addison, em que praticamente nenhuma aldosterona é secretada, resultando em um forte desejo por sal. Depleção de volume O déficit combinado de sódio e água é muito mais freqüente do que o déficit isolado de cada um dos constituintes. Apesar do termo “desidratação” geralmente ser utilizado para descrever o déficit combinado de sódio e água, ele deveria representar uma depleção pura de água, que leva a hipernatremia. O termo correto para se utilizar nesses casos é “depleção de volume”. As principais causas de depleção de volume são: Perdas extra-renais Gastrointestinais É a causa mais comum de depleção de volume Vômitos Diarréia Fístulas Sondagem gastrointestinal Seqüestro abdominal Peritonite Ascite Pele Sudorese Queimaduras Perdas renais Doenças renais Fase diurética da insuficiência renal aguda Diurese pós-obstrutiva Insuficiência renal crônica Doença tubular perdedora de sal Diuréticos Diurese osmótica Deficiência de mineralocorticóides Doença de Addison Hipoaldosteronismo NEFROLOGIA - 15 A causa da depleção de volume pode geralmente ser suspeitada a partir de uma história de ingestão inadequada de sal e água associada a vômitos, diarréia ou sudorese excessiva. Da mesma maneira, os sintomas de um diabetes mellitus não- controlado e doenças renais ou adrenais podem sugerir sua etiologia. Os principais achados no exame físico são aqueles de depleção de volume intersticial e plasmático. A depleção do volume intersticial pode ser avaliada através da redução do turgor da pele e da desidratação das membranas mucosas. O turgor da pele pode ser estimado clinicamente pela observação do lento retorno da pele à sua posição original quando ela é espremida entre os dedos do examinador. Para a realização dessa manobra, deve ser escolhida uma área de pele normalmente livre de rugas e que não apresente grandes variações na espessura do tecido subcutâneo, como o esterno por exemplo. A depleção de volume plasmático é indicada por mudanças na pressão arterial. Uma depleção moderada de volume plasmático geralmente apresenta- se com uma pressão arterial normal quando o paciente está em decúbito, mas pode haver taquicardia. Nesses casos geralmente há hipotensão postural, isto é, uma queda em pelo menos 5 a 10 mmHg na posição sentada ou em pé. Nas depleções mais acentuadas, a pressão arterial encontra-se reduzida mesmo em decúbito, desenvolvendo-se choque hipovolêmico. Outros sintomas do paciente hipovolêmico incluem letargia, fraqueza, confusão mental e obnubilação. Geralmente há oligúria, exceto na diurese osmótica. Laboratorialmente, o hematócrito geralmente está aumentado, mas elevações dentro da faixa normal são interpretáveis somente quando se tem valores anteriores. A concentração plasmática de sódio pode apresentar-se reduzida, normal ou aumentada, dependendo da proporção entre os déficits de sódio e água. A creatinina e a uréia plasmáticas geralmente estão elevadas devido a diminuição no ritmo de filtração glomerular. Terapeuticamente, as depleções leves de volume podem ser corrigidas pelo aumento na ingesta oral de sal e água nos pacientes sem distúrbios gastrointestinais. Depleções mais graves requerem tratamento com soluções endovenosas. A quantidade de líquido a ser infundida no paciente pode ser estimada pela história clínica e pela gravidade dos achados no exame físico. Os pacientes com depleção moderada de volume geralmente requerem uma reposição com dois a três litros de solução salina isotônica, enquanto pacientes com depleção grave podem necessitar de quantidades muito maiores. A necessidade de corrigir outras anormalidades eletrolíticas associadas pode modificar a composição do líquido infundido. Por exemplo, os pacientes com depleção de volume e acidose metabólica podem receber parte do sódio na forma de bicarbonato de sódio. Edema Edema significa um acúmulo excessivo de líquido no compartimento intersticial, ou seja, na parte não vascular do compartimento líquido extracelular. NEFROLOGIA - 16 O edema pode ser bem localizado como numa pequena inflamação ou generalizado como na insuficiência cardíaca. Edema localizado O mecanismo de formação do edema localizado pode ser adequadamente explicado com base numa alteração das forças de Starling que controlam a troca de líquido entre o plasma e o interstício. Estas forças estão relacionadas na seguinte expressão: q = Kf [(PC – PT) – (P – T)] onde: q = Ritmo de fluxo de líquido através da parede capilar Kf = Coeficiente de filtração que é proporcional à permeabilidade capilar e à área do leito capilar PC = Pressão hidrostática intracapilar PT = Pressão do turgor tecidual P = Pressão oncótica do plasma T = Pressão oncótica tecidual O edema localizado ocorre quando as alterações nas forças de Starling estão restritas a um órgão ou determinado território vascular. Normalmente, o balanço de forças de Starling na porção arteriolar do capilar é de tal ordem que ocorre filtração de líquido para o interstício. Com isso, ocorre uma diminuição axial da pressão hidrostática capilar e um aumento da pressão coloidosmótica do plasma. De acordo com a visão clássica de distribuição de líquido transcapilar, a reversão do balanço das forças de Starling ocorria na porção terminal venosa do capilar, havendo então reabsorção do líquido filtrado. Assim sendo, havendo equilíbrio entre o líquido filtrado e reabsorvido, apenas uma pequena quantidade deveria retornar ao sistema vascular via linfáticos. No entanto, recentementedemonstrou-se que a pressão hidráulica transcapilar excede a pressão coloidosmótica do plasma em toda a extensão do capilar, de sorte que a filtração ocorre ao longo de todo o capilar. O líquido filtrado retorna à circulação via linfáticos. Desta forma, a circulação linfática passa a ter um papel importante no controle da formação do edema. Numa reação de hipersensibilidade ou inflamação local ocorre vasodilatação que aumenta a saída de líquido do capilar principalmente através de um aumento da pressão hidrostática intracapilar e do coeficiente de filtração. O aumento do Kf ocorre devido à abertura de novos capilares, dilatação dos capilares e aumento da permeabilidade a determinados solutos, tais como as proteínas. Uma diminuição da P e um aumento da T também contribuem para a saída de líquido do capilar. Portanto, a coleção de líquidos no interstício ocorre devido a um aumento da pressão hidrostática capilar (por vasodilatação ou mais comumente obstrução venosa) ou por obstrução linfática. NEFROLOGIA - 17 Mais raramente, um aumento na permeabilidade capilar favorece a saída de líquido. Exemplos clínicos de edema localizado são: Inflamação Queimaduras Obstrução venosa Obstrução linfática Angioedema Edema generalizado É a principal manifestação clínica da expansão do volume líquido do compartimento extracelular e está invariavelmente associado a uma retenção renal de sódio. É uma manifestação comum em situações clínicas tais como a insuficiência cardíaca, cirrose hepática e síndrome nefrótica, e a retenção de sódio é apenas uma resposta renal a um distúrbio hemodinâmico determinado pela enfermidade básica. As principais causas de edema generalizado são: Enfermidades renais Glomerulonefrite aguda Síndrome nefrótica Insuficiência renal aguda Insuficiência renal crônica Insuficiência cardíaca Baixo débito Alto débito Anemia Tireotoxicose Septicemia Enfermidades hepáticas Cirrose hepática Obstrução da drenagem hepática venosa Enfermidades confinadas a mulheres Gravidez Toxemia gravídica Síndrome da tensão pré-menstrual Edema cíclico idiopático Enfermidades vasculares Fístulas arteriovenosas Obstrução das veias do tórax Veia cava inferior Veia cava superior Distúrbios endócrinos Hipotireoidismo Excesso de mineralocorticóides NEFROLOGIA - 18 Diabetes mellitus Causas iatrogênicas Administração de drogas Anticoncepcionais orais Agentes anti-hipertensivos Miscelânea Hipocalemia crônica Anemia crônica Edema nutricional Síndrome da permeabilidade capilar Clinicamente, a distribuição do edema generalizado é afetada por fatores locais e gravitacionais. Assim sendo, o líquido intersticial em excesso pode acumular-se nos membros inferiores de pacientes ambulatoriais e na região pré-sacra de pacientes acamados. A baixa pressão do turgor tecidual nas regiões periorbital e escrotal pode acentuar o edema nestas áreas. O edema revela o sinal do cacifo quando a pressão deixa uma depressão transitória na pele. Em algumas situações clínicas o edema não revela o sinal de cacifo, pois a pressão digital não consegue mobiliar o líquido intersticial devido a obstrução linfática (linfedema) ou fibrose do tecido subcutâneo, que pode ocorrer na obstrução venosa crônica. É importante salientar que pode haver um acúmulo de quatro a cinco litros de líquido no compartimento extracelular antes que o paciente ou o médico percebam o edema com sinal de cacifo presente. Há, no entanto, sinais e sintomas sugestivos do excesso de líquido no organismo como, por exemplo: Ganho de peso Flutuações diárias no peso Redução da diurese Nictúria Tosse ou dispnéia ao deitar-se Dispnéia aos esforços Princípios gerais no tratamento Quando houver uma etiologia identificável, como insuficiência cardíaca, cirrose hepática ou síndrome nefrótica, o manejo clínico do edema deve ser dirigido para a correção desse distúrbio básico. Embora a restrição isolada de sódio seja efetiva na prevenção do aumento do edema, ela não causa um balanço negativo de sódio. A diurese de pacientes cardíacos hospitalizados e colocados em dietas hipossódicas está mais relacionada ao efeito benéfico do repouso no débito cardíaco do que resultante da dieta hipossódica. Pacientes que estão formando edema retêm uma fração da ingesta diária de sal a fim de restaurar o volume sangüíneo arterial efetivo. A excreção urinária diária de sódio desses pacientes reflete a capacidade de excreção renal. NEFROLOGIA - 19 Conhecendo-se a oferta de sódio na dieta, a determinação da excreção de sódio nas 24 horas permite saber se o balanço de sódio é positivo ou negativo. Concentrações urinárias de sódio na ordem de 10 a 15 mEq/L geralmente indicam um balanço positivo. A maior parte dos pacientes edemaciados tem um comprometimento na excreção renal de água. A ingesta diária de líquido deve ser ajustada para às suas perdas diárias. O repouso no leito, como já foi frisado, é capaz de induzir uma diurese devido a uma redução da seqüestração venosa na periferia, aumentando assim o volume sangüíneo arterial efetivo. Efeito similar possuem as meias elásticas. A presença de edema por si só não é uma indicação de uso de diuréticos. Em geral, o uso dos diuréticos deve ficar restrito a situações tais como: Comprometimento da função cardíaca e/ou respiratória Desconforto físico devido ao acúmulo excessivo de líquido Para permitir liberalização do sal na alimentação de pacientes que pouco toleram dietas hipossódicas NEFROLOGIA - 20 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Metabolismo do potássio Fisiologia O potássio é o principal cátion intracelular. Seu transporte ativo, mediado pela bomba Na + /K + das membranas celulares, mantém uma concentração celular de aproximadamente 160 mEq/L, quarenta vezes maior que no líquido extracelular. Com exceção de quando há mudanças no equilíbrio ácido-básico, as concentrações de potássio intra e extracelulares são diretamente proporcionais. Assim, alterações no potássio plasmático geralmente são um bom indicativo para a avaliação de alterações nos níveis de potássio corporal total. Nos distúrbios ácido-básicos, a relação entre o potássio plasmático e o potássio intracelular é alterada (desvio iônico). A acidose promove a saída do potássio intracelular, enquanto a alcalose favorece o movimento do líquido extracelular para o interior das células. A relação entre o pH plasmático e a concentração de potássio plasmática é complexa e é influenciada por diversos fatores, incluindo o tipo de acidose, a duração do distúrbio ácido-básico e mudanças na concentração de bicarbonato. Em geral, o potássio plasmático é menos alterado na acidose respiratória do que na alcalose metabólica e se modifica menos na alcalose do que na acidose. Os hormônios também parecem ter um papel importante no equilíbrio do potássio corporal. A insulina e as catecolaminas beta-adrenérgicas promovem o movimento do potássio para dentro das células, enquanto os agonistas alfa-adrenérgicos impedem a sua entrada. Os mecanismos de excreção renal do potássio são complexos. Para manter o balanço normal de potássio corporal, o rim pode excretar apenas um oitavo dos 800 mEq de potássio filtrados por dia, já que a sua ingestão diária é de apenas 50 a 150 mEq. O transporte ativo pelas células epiteliais dos túbulos proximais reabsorve cerca de 65% de todo o potássio filtrado. Outros 27%são reabsorvidos na porção grossa do ramo ascendente da alça de Henle e os 8% restantes penetram nos túbulos distais e nos ductos coletores corticais quando a concentração de potássio no líquido extracelular está muito baixa. Por outro lado, quando a concentração de potássio no líquido extracelular está normal ou elevada, é preciso que haja excreção de grande quantidade de potássio na urina. Essa excreção é dependente da absorção de sódio e ocorre na porção terminal dos túbulos distais e nos ductos coletores, através das bombas de Na + /K + localizadas na membrana basolateral dessas células. As bombas de Na + /K + atuam bombeando sódio do interior das células tubulares para o interstício renal e, inversamente, o potássio do interstício para as células. Assim, o acentuado aumento de potássio no interior das células promove sua rápida difusão para o lume tubular e, conseqüentemente, sua excreção na urina. Exceto quando o indivíduo está ingerindo quantidades extremamente baixas de potássio, sua excreção tubular é geralmente necessária para evitar a morte. Com freqüência, surgem arritmias cardíacas quando a concentração de potássio plasmática eleva-se do seu valor normal de 4,5 mEq/L para um nível de 8 mEq/L. Concentrações mais elevadas de potássio podem resultar em parada cardíaca ou fibrilação. NEFROLOGIA - 21 Por isso, é importante o controle da concentração de potássio no líquido extracelular. O aumento da concentração de potássio no líquido extracelular estimula a velocidade de secreção de íons potássio nas porções terminais do néfron através da bomba de Na + /K + , como foi descrito anteriormente. Além disso, da mesma maneira que a aldosterona age para reabsorver sódio na porção terminal dos túbulos distais e dos ductos coletores, ela também exerce um poderoso efeito de controle na secreção de íons potássio por essas mesmas células, uma vez que ativa a bomba de Na + /K + das membranas basolaterais. O efeito da aldosterona pode ser visualizado na doença de Addison, onde a secreção de aldosterona aproxima-se de zero e, conseqüentemente, a concentração de potássio no líquido extracelular se eleva e atinge 2 vezes o seu valor normal. Isso quase sempre leva à morte do paciente devido a parada cardíaca. No aldosteronismo primário causado por um tumor da zona glomerular em uma das glândulas supra-renais, a secreção de grandes quantidades de aldosterona leva a um acentuado aumento na excreção de potássio, resultando em pronunciada redução da concentração de potássio no líquido extracelular, de modo que muitos desses pacientes apresentam paralisia causada por falta de transmissão nervosa. Hipocalemia Etiologicamente, as principais causas da depleção de potássio são: Gastrointestinais Ingesta deficiente Como a resposta renal a depleção de potássio é lenta, diminuindo os níveis de excreção somente do 7 o ao 14 o dias, uma depleção moderada de potássio pode resultar da sua ingesta deficiente. Doenças gastrointestinais Vômitos Diarréia Adenoma viloso Fístulas Ureterosigmoidostomia Renais Alcalose metabólica Diuréticos Tiazídicos De alça Inibidores da anidrase carbônica - Acetazolamida Efeitos mineralocorticóides excessivos Aldosteronismo primário NEFROLOGIA - 22 Aldosteronismo secundário A despeito do aldosteronismo secundário presente nos pacientes com insuficiência cardíaca congestiva, cirrose hepática e síndrome nefrótica, eles não apresentam hipocalemia. O aldosteronismo secundário causa hipocalemia nos pacientes com: - Hipertensão maligna - Síndrome de Bartter - Tumor de células justaglomerulares Secretores de renina Excesso de glicocorticóides - Síndrome de Cushing - Esteróides exógenos Doenças tubulares renais Acidose tubular renal Tipo I e II Leucemia - Monocítica - Mielomonocítica Síndrome de Liddle Alguns antibióticos - Carbenicilina e, raramente, outros derivados da penicilina - Anfoterecina B - Gentamicina Depleção de magnésio Hipocalemia por desvio iônico Alcalose Insulina Atividade beta-adrenérgica Paralisia periódica hipocalêmica As principais características clínicas da hipocalemia são neuromusculares. Um grau moderado de depleção pode ser assintomático, principalmente se for de evolução lenta. Alguns pacientes, contudo, queixam-se de fraqueza muscular, especialmente nos membros inferiores. Graus mais elevados de hipocalemia levam a uma fraqueza generalizada dos músculos esqueléticos. Uma hipocalemia grave ou súbita pode desenvolver uma paralisia virtualmente total, incluindo os músculos respiratórios. Ao exame físico, além da redução da força, os pacientes podem demonstrar redução ou ausência de reflexos profundos. Os músculos liso do trato gastrointestinal podem também ser afetados, resultando em íleo paralítico. NEFROLOGIA - 23 Anormalidades eletro- cardiográficas são comuns. As mudanças características incluem achatamento ou inversão da onda T, exacerbação da onda U e infradesnivelamento do segmento ST. Essas alterações não se correlacionam com a gravidade do distúrbio no metabolismo do potássio e, desta forma, não podem ser consideradas como índices da significação clínica de uma hipocalemia. Apesar de que uma depleção moderada de potássio raramente afeta o coração, uma depleção grave ou súbita do potássio plasmático pode causar parada cardíaca. Além disso, a hipocalemia favorece a intoxicação cardíaca por digitálicos, predispondo o paciente a uma variedade de arritmias atriais e ventriculares. A função tubular renal fica caracteristicamente alterada na hipocalemia, principalmente na sua capacidade de concentração urinária, resultando em poliúria e polidipsia. No diagnóstico, a causa da hipocalemia pode ser obtida a partir da história clínica. O esquema a seguir nos mostra a conduta no diagnóstico da hipocalemia quando não houver uma causa evidente na anamnese. HIPOCALEMIA Pressão arterial Normal Potássio urinário Hipertensão Renina plasmática < 25 mEq/L Bicarbonato plasmático > 25 mEq/L Bicarbonato plasmático Alta Baixa Aldosterona plasmática Baixo Alto Baixo Alto Alta Baixa Figura 1 - Anormalidades eletrocardiográficas na hipocalemia Avaliar desvio iônico (alcalose, insulina, agonistas -adrenérgicos, paralisia periódica, etc.) Perdas GI baixas ou ingesta inadequada Diuréticos (uso prévio) Acidose renal tubular ou acidose diabética Vômitos, diuréticos (em uso) ou S. de Bartter Hipertensão maligna ou tumor secretor de renina Hiperaldos- teronismo Excesso de glicocorti- cóides NEFROLOGIA - 24 A avaliação do equilíbrio ácido-básico pode ajudar no diagnóstico diferencial. A hipocalemia encontra-se associada a acidose metabólica causada por: Disfunção tubular renal Cetoacidose diabética Diarréia grave Inibidores da anidrase carbônica Os outros tipos de hipocalemia cursam com bicarbonato normal ou elevado, quando estão associadas a alcalose metabólica. Quando possível, a depleção do potássio deve ser corrigida através do aumento da ingesta alimentar ou através da suplementação com sais de potássio. Os sais de potássio podem ser fornecidos naforma de um elixir ou de tabletes, nos quais os cristais de cloreto de potássio são encontrados. O tratamento endovenoso é recomendado para os pacientes com distúrbios gastrointestinais ou quando a deficiência de potássio é grave. Contudo deve ser enfatizado que as infusões endovenosas não devem ultrapassar 40 ou, no máximo, 60 mEq/L e a velocidade de infusão não deve exceder 40 mEq/h ou, aproximadamente, 240 mEq/dia, a não ser quando houver necessidade de uma infusão mais rápida, com evidência de perda contínua grande o suficiente para justificar uma terapia mais intensa. Os resultados do tratamento são monitorizados por determinações sucessivas do potássio plasmático e pela avaliação dos sintomas clínicos, tais como a fraqueza muscular e a paralisia. O desaparecimento dos sinais eletrocardiográficos não indica uma melhora completa dos níveis de potássio corporal, mas o eletrocardiograma é um bom exame para monitorizar uma administração endovenosa rápida de potássio. Hipercalemia As principais causas de hipercalemia são: Excreção renal inadequada Doenças renais Insuficiência renal aguda Pela redução progressiva do volume urinário Insuficiência renal crônica grave Devido a oligúria Disfunções tubulares - Lupus Eritematoso - Doença falciforme - Rejeição aguda de transplante renal - Uropatia obstrutiva - Amiloidose Diminuição do volume circulante efetivo Hipoaldosteronismo Distúrbios da glândula supra-renal - Doença de Addison - Distúrbios enzimáticos congênitos da adrenal NEFROLOGIA - 25 Hiporeninemia - Nefropatia diabética - Nefrite intersticial crônica - Causada por drogas Agentes antiinflamatórios não-esteroidais, bloqueadores beta-adrenérgicos, etc. Diuréticos Poupadores de potássio Espironolactona Triamtereno Amiloride Desvio do potássio para fora dos tecidos Dano tissular Rabdomiólise Hemólise Hemorragia interna Drogas Succinilcolina Relaxante muscular Hidrocloreto de arginina Utilizado no tratamento da alcalose metabólica Digitálicos Antagonistas beta-adrenérgicos Envenenamento Acidose Hiperosmolaridade Deficiência de insulina Paralisia periódica hipercalêmica Ingesta excessiva Pseudo-hipercalemia Trombocitose Leucocitose Outros Clinicamente, os principais efeitos da hipercalemia são as arritmias cardíacas. A manifestação mais precoce é o desenvolvimento de ondas T em forma de tenda. Achados mais tardios incluem prolongamento do intervalo PR, bloqueio cardíaco completo e assistolia atrial. A medida que o potássio plasmático se eleva, o complexo QRS tende a se deteriorar, tornando-se progressivamente mais prolongado, até se fundir com a onda T em uma configuração sinusal. Finalmente, fibrilação ventricular e parada cardíaca podem ocorrer. Figura 2 - Alterações eletrocardiográficas na hipercalemia NEFROLOGIA - 26 Ocasionalmente, uma hipercalemia moderada ou grave pode também produzir efeitos nos músculos periféricos. Uma fraqueza muscular ascendente pode ocorrer, progredindo para tetraplegia flácida e paralisia respiratória. Assim como a sensibilidade, a função cerebral e a dos nervos cranianos permanece normal. Em termos diagnósticos, uma hipercalemia grave ou progressiva raramente ocorre na ausência de insuficiência renal. Desta forma, a creatinina sérica e o débito urinário devem ser determinados imediatamente nos pacientes com hipercalemia. A insuficiência renal aguda não-complicada, principalmente se oligúrica, vai determinar uma hipercalemia progressiva, elevando o potássio plasmático em cerca de 0,5 mEq/L por dia. Contudo, na presença de acidose ou dano tissular, a insuficiência renal aguda pode elevar o potássio plasmático em 2 a 4 mEq/L por dia. Por isso, a elevação do potássio plasmático em mais de 0,5 mEq/L por dia sugere a presença de outras fontes de elevação de potássio além da insuficiência renal aguda, como por exemplo, rabdomiólise ou hemólise. Quando é detectada uma hipercalemia em pacientes com insuficiência renal crônica, o médico deve procurar por uma alta ingesta de potássio na alimentação ou por medicações que interfiram na excreção de potássio como os antiinflamatórios não- esteroidais, beta-bloqueadores, diuréticos poupadores de potássio, etc. Na ausência desses elementos, deve-se procurar hiporeninemia ou uma doença tubular que afete diretamente a excreção tubular de potássio. Além da creatinina plasmática, os níveis de glicose e de bicarbonato devem ser determinados para avaliar possíveis contribuições de diabetes ou acidose à hipercalemia. Ao contrário da hipocalemia, na hipercalemia a análise do potássio urinário contribui pouco no diagnóstico diferencial. Com relação ao tratamento, é importante classificar a hipercalemia de acordo com o seu grau de gravidade, que pode ser estimado tanto através da concentração de potássio plasmático quanto pelo eletrocardiograma. Tabela 1 - Classificação da hipercalemia de acordo com seu grau de gravidade Classificação Concentração de K + plasmático Alterações eletrocardiográficas Leve < 6 mEq/L Alterações limitadas a onda T Moderada 6 a 8 mEq/L Alterações limitadas a onda T Grave > 8 mEq/L Inclui ausência de onda P, complexos QRS alargados ou arritmias ventriculares A hipercalemia leve geralmente pode ser tratada pela eliminação da sua causa. Contudo, os casos mais graves ou progressivos requerem um tratamento vigoroso. A toxicidade cardíaca grave responde rapidamente a infusão de cálcio, mas apesar de seu efeito ser quase imediato, ele é transitório caso a hipercalemia não seja tratada diretamente. Na hipercalemia moderada ou grave, a infusão de soluções de glicose hipertônica diminuem a sua toxicidade induzindo a liberação de insulina e, conseqüentemente, o desvio do potássio para dentro das células. A insulina também pode ser administrada diretamente, por via subcutânea ou endovenosa. Da mesma maneira, a infusão de bicarbonato de sódio ajuda a diminuir rapidamente o potássio plasmático facilitando a entrada de potássio no interior das células. Apesar desse agente ter maior valor nos pacientes com acidose, ele também é efetivo em indivíduos com um equilíbrio ácido-básico normal. NEFROLOGIA - 27 A infusão de soluções hipertônicas de sódio pode ser efetiva em reverter a toxicidade cardíaca, principalmente em pacientes hipovolêmicos e com hiponatremia, através da simples diluição do potássio plasmático. A glicose, o bicarbonato e o sódio podem ser misturados para formar um “coquetel terapêutico”. NEFROLOGIA - 28 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Equilíbrio ácido-básico Considerações fisiológicas Por definição, ácido é a molécula ou íon capaz de contribuir com um íon hidrogênio para a solução, como o H2CO3 (ácido carbônico), o ácido úrico, o ácido acetoacético, etc. Base, por sua vez, é a molécula ou íon que irá se combinar com íons hidrogênio para removê-los da solução, como o íon HCO3 – (íon bicarbonato), o HPO4 – (íon fosfato), as proteínas, etc. A maioria dos ácidos e das bases envolvidos na regulação normal do equilíbrio ácido-básico do organismo consiste em ácidos e bases fracos, dos quais os mais importantes são o ácido carbônico e a base bicarbonato. Os ácidos são produzidos continuamente durante o metabolismo normal do organismo. Apesar da deposição de 20.000 mEq de ácido carbônico e de 80 mEq de ácidos não-voláteis diariamente nos líquidos corporais, a concentraçãode íon hidrogênio livre (H + ) nesses líquidos permanece dentro de uma estreita faixa. O pH do líquido extracelular normalmente encontra-se entre 7,35 e 7,45. O limite inferior compatível com a vida de uma pessoa durante algumas horas é de cerca de 6,8, enquanto o limite superior é de cerca de 8,0. O pH dos líquidos intracelulares não pode ser determinado com precisão, mas a maioria dos métodos sugere que a média de pH intracelular encontra-se na faixa de 6,0 a 7,4, com uma média de 6,9. Apesar da concentração de hidrogênio livre nos líquidos corporais ser pequena, esses prótons são tão reativos que qualquer alteração na sua concentração pode alterar reações enzimáticas e processos fisiológicos. A defesa imediata contra essas mudanças no pH é fornecida pelos sistemas tampões, que podem receber (bases) ou liberar (ácidos) íons hidrogênio instantaneamente em resposta a alterações na acidez dos líquidos corporais. A regulação do pH, posteriormente, depende da função dos pulmões e dos rins. No organismo, os seguintes sistemas tampões são importantes: Bicarbonato; Fosfato O tampão fosfato não é muito importante no líquido extracelular porque sua capacidade de tamponamento é bem menor que a do sistema bicarbonato, mas ele é especialmente importante nos líquidos tubulares dos rins e nos líquidos intracelulares; Proteínas plasmáticas e tissulares É o sistema tampão mais abundante e mais potente do organismo; Hemoglobina É nas hemácias que se forma a maior parte do bicarbonato plasmático; Compostos organofosforados e Cristais de apatita do osso. NEFROLOGIA - 29 O principal produto ácido do metabolismo é o ácido carbônico, que é formado a partir do dióxido de carbono, ou gás carbônico (CO2), dissolvido em solução através da seguinte reação: CO2 + H2O H2CO3 (1) A concentração normal do ácido carbônico nos líquidos corporais é mantida pelos pulmões em cerca de 1,2 mEq/L (pCO2 = 40 mmHg). Nessa concentração, a excreção pulmonar de CO2 se iguala a sua produção metabólica. Além da produção de CO2, o metabolismo orgânico produz íons hidrogênio e radicais ácidos que dão origem aos ácidos não-voláteis ou fixos que, ao contrário do dióxido de carbono, não podem ser eliminados diretamente pelo pulmão. Quando um ácido não-volátil é produzido pelo metabolismo, seus íons hidrogênio são tamponados quase que instantaneamente, principalmente pelo sistema bicarbonato (HCO3 – ). A partir de então, através da conversão do ácido carbônico em água e dióxido de carbono, eles podem ser excretados pelos pulmões. A eliminação do dióxido de carbono pelos pulmões pode ser modulada pela ação direta dos íons hidrogênio sobre o centro respiratório no bulbo, que controla a respiração. Devido a capacidade do centro respiratório de responder à concentração de íons hidrogênio, o sistema respiratório atua como um controlador típico de “feedback”, isto é, toda vez que a concentração de íons hidrogênio se elevar, o sistema respiratório também fica mais ativo e, por outro lado, se a concentração de H + cair para níveis muito baixos, ele fica deprimido. Contudo, o controle respiratório é incapaz de fazer com que a concentração de íons hidrogênio retorne exatamente ao valor normal de 7,4, pois a medida que o pH retorna ao seu valor normal, o estímulo que causou a alteração respiratória começa a dissipar-se. Em geral, o mecanismo respiratório possui uma eficiência de controle de cerca de 50 a 75%. Apesar deste mecanismo minimizar as mudanças do pH, eliminando CO2 ele destrói o bicarbonato e esgota a capacidade de tamponagem celular. Como a capacidade de tamponagem total dos líquidos corporais é de cerca de 15 mEq por quilograma de peso, a taxa normal de produção de ácidos não-voláteis seria capaz de depletar completamente os tampões corporais em cerca de 10 a 20 dias, se não fosse a habilidade dos rins em eliminar íons hidrogênio do corpo sem destruir o íon bicarbonato, mantendo sua concentração entre 24 a 28 mEq/L. A principal fonte de ácidos não-voláteis é o metabolismo de metionina e cistina da dieta proteica, que produz ácido sulfúrico. Outras fontes incluem a combustão incompleta de carboidratos e gorduras, que produzem ácido úrico; e o metabolismo de compostos organofosforados, que liberam íons hidrogênio e fosfatos inorgânicos. As principais funções dos rins no equilíbrio ácido-básico são: 1. Retenção do bicarbonato extracelular; 2. Excreção dos íons hidrogênio de ácidos não-voláteis produzidos pelos processos metabólicos. A secreção de íons hidrogênio no fluido tubular, através da sua troca por sódio (mecanismo de contratransporte Na + /H + ) nos segmentos proximais do néfron (95%) e através da bomba H + -ATPase nos segmentos distais (5%), é feita a partir da NEFROLOGIA - 30 dissociação do ácido carbônico em H + e HCO3 – (íon bicarbonato), através da seguinte reação: H2CO3 H + + HCO3 – (2) O ácido carbônico é formado no interior das células epiteliais tubulares pela ação da enzima anidrase carbônica, que combina a água com o dióxido de carbono que se difundiu para o interior das células ou foi formado pelo seu metabolismo. Existe uma lei físico-química que se aplica a dissociação de todas as moléculas e estabelece que a divisão do produto das moléculas dissociadas pela concentração das moléculas não-dissociadas é igual a uma constante, K. H + × HCO3 – / H2CO3 = K (3) Essa fórmula pode ser modificada para a seguinte: H + = K × H2CO3 / HCO3 – (4) Todavia, como é quase impossível medir a concentração do ácido carbônico não-dissociado porque ele se dissocia rapidamente, nós podemos substituí- lo pela pressão parcial de gás carbônico multiplicada por uma outra constante, . H + = K × × pCO2 / HCO3 – (5) (K × = 24) H + = 24 pCO2 / HCO3 – (equação de Henderson) (6) Se tomarmos o logaritmo de cada termo da equação 4 nós teremos a equação de Henderson-Hasselbalch: log H + = log K log H2CO3 / HCO3 – log H+ = log K log HCO3 / H2CO3 pH = pK log HCO3 / H2CO3 (eq. de Henderson-Hasselbalch) (7) Essas equações vão ser importantes para nós mais adiante. A reabsorção do bicarbonato filtrado pelos glomérulos inicia com a sua reação com os íons hidrogênio secretados pelas células tubulares, dando origem ao ácido carbônico (2). A seguir, o ácido carbônico dissocia-se em dióxido de carbono e água através da fórmula (1). Como o CO2 tem a capacidade de se difundir com extrema rapidez através de todas as membranas celulares, ele se difunde instantaneamente para a célula tubular e, em seguida, para o líquido extracelular, enquanto a água permanece no túbulo. NEFROLOGIA - 31 A destruição do bicarbonato por este processo é substituída pela produção de bicarbonato pelas células tubulares renais, pela transformação do ácido carbônico em H + e HCO3 descrita na fórmula (2), que mantém os estoques de bicarbonato constantes. Quando os íons hidrogênio são tamponados por outros tampões urinários que não o bicarbonato, este íon é poupado e, desta forma, vai representar um componente adicional ao sistema tampão do organismo. Contudo, a maior parte dos íons hidrogênio urinários são tamponados por íons bicarbonato e apenas uma pequena porção deles é tamponada por outros sistemas como pelo fosfato e a amônia. A quantidade de íons H + livres que são excretados na urina é mínima, mesmo quando o pH urinário é de 4,8. A acidificação da urina, contudo, é essencial paraa tamponação dos prótons por fosfato e amônia. Assim, toda vez que um íon H + é secretado nos túbulos, forma-se simultaneamente um íon bicarbonato na célula epitelial tubular e ocorre absorção de um íon sódio do túbulo para a célula epitelial. O íon sódio e o íon bicarbonato são, então, transportados juntos da célula epitelial para o líquido extracelular. HCO3 + Na + = NaHCO3 (8) Mudanças no pH dos líquidos corporais resultam em respostas regulatórias mediadas pelos rins. Na acidose, o excesso de dióxido de carbono ou a redução de bicarbonato de sódio leva a uma secreção de íons hidrogênio superior a filtração dos íons bicarbonato nos glomérulos. Em conseqüência, o excesso de íons hidrogênio nos túbulos aumenta a sua reação com os outros tampões do líquido tubular, principalmente a amônia. Na alcalose, a diminuição da pCO2 ou o aumento de bicarbonato aumenta a proporção de íons bicarbonato filtrados no filtrado glomerular. Por conseguinte, o delicado equilíbrio que normalmente existe nos túbulos entre os íons hidrogênio e o bicarbonato deixa de ocorrer. Como quase nenhum íon bicarbonato pode ser reabsorvido sem antes reagir com os íons hidrogênio, todo o excesso de íons bicarbonato passa para a urina, transportando com ele o íon sódio ou outros íons positivos. Estudos recentes mostraram que os rins podem secretar bicarbonato nos túbulos distais através de uma bomba Cl /HCO3 , que é estimulada pela alcalose. Os mecanismos regulatórios renais para o equilíbrio ácido- básico são influenciados por outros fatores além do pH dos fluidos corporais, como a pressão parcial de dióxido de carbono (pCO2), o volume de líquido extracelular, angiotensina, aldosterona, íons cloreto (Cl – ) e potássio (K + ). A hipercapnia (elevação da pCO2), que induz acidose intracelular, tende a estimular a reabsorção de bicarbonato renal, enquanto a hipocapnia tem um efeito oposto. Figura 1 - Esquema de eliminação e regeneração do bicarbonato NEFROLOGIA - 32 Os estados hipovolêmicos aumentam os níveis de bicarbonato provavelmente devido a estimulação da sua reabsorção juntamente com o sódio, mediada pela angiotensina II, e pela diminuição da sua filtração glomerular. A aldosterona aumenta a secreção de íons hidrogênio nos segmentos distais do néfron por estimulação direta da bomba H + -ATPase e pela maior reabsorção de sódio, que retém os íons H + no fluido tubular por aumento da eletronegatividade intraluminal. A diminuição da concentração de íons cloreto diminui a excreção de íon bicarbonato devido a sua necessidade na secreção de HCO3 – pela troca HCO3 – /Cl – . Desta forma, resumidamente, os sistemas tampões podem atuar dentro de fração de segundos para impedir a ocorrência de alterações excessivas na concentração de íons hidrogênio. Por outro lado, são necessários 1 a 12 minutos para que o sistema respiratório possa fazer ajustes agudos e outro dia ou mais para efetuar ajustes adicionais crônicos. Por fim, os rins, apesar de constituírem o mais potente de todos os sistemas de regulação ácido-básica, necessitam de muitas horas a vários dias para reajustar a concentração de íons hidrogênio. Avaliação do equilíbrio ácido-básico Na prática, a classificação dos distúrbios ácido-básicos são baseados na medida das alterações no sistema bicarbonato-ácido carbônico, o principal sistema tampão do líquido extracelular. A relação entre os elementos do sistema bicarbonato é geralmente descrita em termos da equação de Henderson-Hasselbalch: pH = pK + log HCO3 – / H2CO3 A acidose é definida como um distúrbio que tende a adicionar ácido ou remover álcalis dos líquidos corporais, enquanto alcalose é um distúrbio que tende a remover ácido ou adicionar base a eles. Por sua vez, acidemia é o aumento de íons hidrogênio no sangue enquanto alcalemia é a sua diminuição. Como os processos compensatórios podem minimizar ou prevenir alterações na concentração dos íons hidrogênio no plasma, a acidose ou a alcalose nem sempre resultam em acidemia ou alcalemia. Distúrbios metabólicos são aqueles em que a perturbação primária encontra-se na concentração do bicarbonato. Como o bicarbonato figura no numerador da equação de Henderson-Hasselbalch, um aumento na sua concentração causa elevação do pH (alcalose metabólica), enquanto uma redução do bicarbonato resulta em sua diminuição (acidose metabólica). Os distúrbios respiratórios são aqueles em que a alteração primária está na concentração de ácido carbônico. Conforme pode ser observado através da equação de Henderson-Hasselbalch, uma queda na concentração de ácido carbônico causa alcalose respiratória e uma elevação, acidose. O principal problema na determinação dos distúrbios ácido-básicos resultam das respostas compensatórias dos pulmões e dos rins. NEFROLOGIA - 33 Os distúrbios respiratórios induzem uma resposta renal compensatória que altera a concentração plasmática de bicarbonato na mesma direção, para cima ou para baixo. Semelhantemente, um distúrbio metabólico induz reposta respiratória que modifica a concentração de ácido carbônico na mesma direção. Por exemplo, considere um paciente com insuficiência respiratória crônica que apresente uma acidose respiratória com as seguintes medidas: pCO2 = 70 mmHg (normal = 40 mmHg) HCO3 = 31 mEq/L (normal = 24 mEq/L) pH = 7,25 (normal = 7,4) É importante para o clínico diferenciar se a elevação do bicarbonato é meramente uma resposta renal apropriada a hipercapnia ou um distúrbio ácido-básico metabólico associado. Acidose metabólica A acidose metabólica é causada por um de três mecanismos: 1. Produção aumentada de ácidos não-voláteis; 2. Diminuição da excreção renal de ácidos; 3. Redução do bicarbonato extracelular. A diminuição do pH estimula a respiração e, conseqüentemente, a pressão parcial de dióxido de carbono se reduz. Normalmente, a pressão parcial de dióxido de carbono diminui em 1,2 mmHg para cada 1 mEq/L de decréscimo no bicarbonato plasmático. Na acidose metabólica, uma compensação respiratória completa raramente ocorre, principalmente nas acidoses metabólicas crônicas. A máxima compensação respiratória alcançável só é evidente em 12 a 24 horas e uma hiperventilação fisiológica não consegue reduzir a pCO2 abaixo de 10 mmHg. Quando a função renal está normal, a excreção de ácidos aumenta imediatamente em resposta a acidose metabólica, especialmente devido a sua titulação com fosfatos. Depois de diversos dias, a produção de amônia pelos rins também aumenta e se torna o mecanismo mais importante para a excreção do ácido em excesso. A quantidade de bicarbonato que o rim devolve a circulação também aumenta de maneira progressiva. As principais causas de acidose metabólica são: Cetoacidose Diabética Alcoólica Nutritiva Acidose lática Secundária a insuficiência circulatória Choque séptico Infarto agudo do miocárdio Hemorragia Secundária a insuficiência respiratória NEFROLOGIA - 34 Exercícios físicos vigorosos ou convulsão Podem causar uma desproporção entre o suprimento de oxigênio e a demanda metabólica muscular, levando a uma acidose lática clinicamente benigna e transitória. Associada a diversos distúrbios Os mecanismos fisiopatológicos dessa associação são pouco conhecidos Leucemia Linfoma Tumores sólidos Diabetes mellitus Insuficiência hepática grave Drogas e toxinas Frutose parenteral Nitroprussiato de sódio Epinefrina e norepinefrina Defeitos enzimáticos congênitos Principalmente no metabolismo dos carboidratos Glicose-6-fosfatase Frutose-1,6-bifosfatase Piruvato carboxilase Piruvato desidrogenase Intoxicação e drogas Salicilatos Produzem um bloqueio metabólico que leva a produção de uma mistura de ácidos orgânicos endógenos. Os salicilatos tem o efeito adicional de estimular o centro respiratório diretamente. Assim, a alcalose respiratória pode ser o primeiro sintoma da intoxicação por salicilatos e, em alguns pacientes, pode ser o único distúrbio. Etilenoglicol É convertido em ácidos glioxílicos e oxálicos. Além disso, o etilenoglicol produz bloqueios metabólicos que podem levar ao aumento da produção de ácidos orgânicos endógenos. Metanol O metanol é convertido em ácido fórmico e também pode levar a produção de ácidos orgânicos endógenos pelo bloqueio metabólico. NEFROLOGIA - 35 Insuficiência renal Crônica Seu principal defeito é a redução na excreção de amônia, mas alguns pacientes também perdem bicarbonato, reduzindo seus níveis plasmáticos para cerca de 12 a 18 mEq/L. Aguda A concentração de bicarbonato cai de 1 a 2 mEq/L/dia quando a redução da excreção de ácido renal é a única causa da acidose metabólica. Disfunção tubular renal Acidose tubular renal Hipoaldosteronismo Causa acidose associada a hipercalemia Diuréticos poupadores de potássio Inibem a secreção tubular distal de íons hidrogênio e potássio Perda de bicarbonato Diarréia grave Síndrome da malabsorção intestinal Ureterosigmoidostomia Inibidores da anidrase carbônica Acetazolamida Diamox® Produção de ácido clorídrico O bicarbonato é titulado pelo ácido e substituído pelo cloro. Existem poucos sintomas ou sinais específicos de acidose metabólica. Na acidose metabólica aguda, a hiperventilação (ritmo de Kussmaul) é freqüente e pode ser intensa. Contudo, na acidose metabólica crônica, a hiperventilação quase nunca está presente, a despeito da redução substancial da pressão parcial de dióxido de carbono. Uma acidose aguda e grave produz uma variedade de sintomas inespecíficos variando desde fadiga até confusão mental, estupor e coma. Sintomas cardiovasculares incluem hipocontratilidade cardíaca e vasodilatação, que levam a insuficiência cardíaca ou a hipotensão. A acidose metabólica crônica pode ser assintomática ou estar associada com fadiga e anorexia, apesar de geralmente ser difícil determinar se esses sintomas refletem a acidose em si ou se eles estão relacionados a doença de base. As características laboratoriais incluem diminuição do bicarbonato plasmático e do pH sangüíneo, associados com a redução compensatória na pressão parcial de dióxido de carbono. Geralmente ocorre hipercalemia em decorrência da saída de potássio do interior das células. Isso ocorre devido a um fenômeno denominado desvio iônico, em que a maior quantidade de íons hidrogênio no espaço extracelular induz a sua entrada no interior das células, resultando na saída do potássio e, conseqüentemente, em hipercalemia, que pode mascarar significativamente uma depleção de potássio. Em termos gerais, para cada redução no pH em 0,1 unidade, a concentração plasmática de potássio aumenta em 0,6. NEFROLOGIA - 36 Quando a causa da acidose metabólica não está evidente, o cálculo do fator R ou “anion gap” pode ajudar no diagnóstico diferencial. O fator R é calculado através das concentrações plasmáticas dos seguintes eletrólitos: Fator R = Na + – (Cl– + HCO3 – ) ou Fator R = (Na + + K + ) – (Cl– + HCO3 – ) (9) Como a concentração plasmática de potássio é mais ou menos constante, a primeira fórmula é a mais utilizada. Considerando-se como valores normais as concentrações plasmáticas dos eletrólitos citados, o fator R normalmente está em torno de 8 a 16 mEq/L (12 mEq/L). R = Na + – (Cl– + HCO3 – ) R = 140 – (103 + 24) R = 140 – 127 R = 13 O termo em inglês “anion gap”, que poderia ser traduzido como hiato aniônico, não é correto, porque na verdade não existe um hiato entre a concentração de ânions e cátions. Sabemos que a concentração de cátions no plasma deve ser igual à concentração de ânions. Os cátions do plasma são o Na + e os cátions não-determinados (CND), tais como o potássio, o cálcio e o magnésio. Os ânions do plasma são o Cl – , o HCO3 – e os ânions não-determinados (AND), como as proteínas, os íons fosfato, os íons sulfato e os ácidos orgânicos. Portanto: [cátions] = [ânions] Na + + CND = (Cl – + HCO3 – ) + AND Na + – (Cl– + HCO3 – ) = AND – CND Fator R = AND – CND Conclui-se, assim, que o fator R, embora seja determinado a partir do sódio, cloro e íon bicarbonato, é na verdade determinado a partir das concentrações dos cátions e ânions não-determinados. Desta forma, quando a acidose metabólica é devido ao aumento na produção de ácidos ou à insuficiência renal, o fator R encontra-se geralmente aumentado, devido a elevação na concentração dos ânions não-determinados. A causa da acidose com um fator R elevado geralmente é determinada facilmente pela clínica ou por exames laboratoriais. A cetoacidose deve ser considerada quando a acidose ocorre em pacientes com diabetes mellitus não-controlada, alcoolismo ou desnutrição. Cetoacidemia pode ser detectada por testes séricos que reagem com o acetoacetato, mas não com o - hidroxibutirato. A reação para o -hidroxibutirato exige testes específicos. O diagnóstico de acidose lática é suspeitado nos pacientes com insuficiência circulatória grave quando outras causas de acidose foram descartadas. Um teste específico para o lactato plasmático pode ser realizado quando o diagnóstico é duvidoso. NEFROLOGIA - 37 A concentração elevada a níveis tóxicos de salicilato confirma a suspeita de intoxicação por salicilato e a acidose causada pela intoxicação com etilenoglicol ou metanol deve ser presumida se a osmolaridade plasmática mensurada exceder a osmolaridade calculada. Em todos os outros tipos de acidose metabólica, o fator R está normal porque não há nem uma produção aumentada nem uma excreção reduzida dos ácidos orgânicos. O tratamento da acidose metabólica depende da sua causa e da sua gravidade. Na insuficiência renal crônica, uma acidose metabólica leve ou moderada não requer tratamento. Quando o bicarbonato plasmático cai abaixo de 15 mEq/L, o tratamento pode ser feito via oral com álcalis, tais como bicarbonato de sódio ou citrato de sódio. Cuidados devem ser tomados para evitar a rápida alcalinização do plasma, que pode levar a tetania. Um excesso de sódio dado com o bicarbonato pode agravar uma hipertensão ou edema. Os pacientes com insuficiência renal aguda normalmente também não requerem terapia específica para a acidose. A diálise instituída para a insuficiência renal deve manter níveis adequados de bicarbonato. A acidose causada por disfunção tubular renal deve ser completamente tratada para evitar o desenvolvimento de hipercalciúria, osteomalácia, nefrocalcinose e litíase. A cetoacidose diabética responde bem a insulina e a maioria dos pacientes não requer tratamento com álcalis, a não ser quando o pH reduz-se de 7,1. A cetoacidose alcoólica responde rapidamente a infusões de glicose ou solução salina. Na acidose lática, a acidose pode ser corrigida pelo próprio metabolismo do lactato, que produz bicarbonato, quando o distúrbio puder ser revertido. O tratamento com bicarbonato endovenoso é controverso porque, primeiramente,a velocidade de formação de H + e lactato é muito grande, necessitando de grandes quantidades de bicarbonato para elevar seu nível plasmático. Em segundo lugar, parece que a correção da acidose aumenta a produção de lactato. Por outro lado, uma acidose extrema pode levar a um colapso circulatório. Recomenda-se o tratamento da acidose lática com bicarbonato endovenoso numa dosagem suficiente para manter o bicarbonato plasmático em 8 a 10 mEq/L e o pH acima de 7,1. O cálculo da quantidade de bicarbonato a ser administrado baseia-se no espaço de distribuição do bicarbonato, que habitualmente é considerado como 50% do peso corporal. Por exemplo, em um paciente de 70 kg (espaço de distribuição do bicarbonato = 35 litros) em que se deseja elevar a concentração de bicarbonato em 10 mEq/L, a quantidade de bicarbonato que deve ser administrada é: 10 mEq = 1 litro x 35 litros x = 350 mEq NEFROLOGIA - 38 Nem sempre o espaço de distribuição do bicarbonato é de 50%. Nos casos de intensa acidose metabólica, a participação de outros sistemas tampões e o tamponamento intracelular excessivo eleva o espaço de distribuição acima de 100% do peso corporal. Assim, recomenda-se que quando o bicarbonato plasmático for igual ou inferior a 5 mEq/L, o espaço calculado seja em torno de 100% do peso corporal. Quando for impossível controlar a acidose metabólica com bicarbonato porque a produção endógena de ácido é muito rápida ou já há sinais de sobrecarga circulatória, o tratamento dialítico está indicado. Alcalose metabólica A alcalose metabólica geralmente resulta da perda aumentada de ácido pelo estômago ou pelos rins. Contudo, a excreção de bicarbonato é normalmente tão rápida que a alcalose só vai se sustentar na presença de elevada reabsorção ou progressiva produção de bicarbonato. Clinicamente, a manutenção da alcalose metabólica é mais freqüente quando ocorre estimulação da reabsorção de bicarbonato devido a uma hipovolemia. Neste caso, o aumento da reabsorção de sódio, como mecanismo compensatório da hipovolemia, acaba elevando a reabsorção de bicarbonato porque o íon bicarbonato é reabsorvido juntamente com o sódio. Assim, a alcalose vai se sustentar até que a hipovolemia seja corrigida pela administração de cloreto de sódio. Outro mecanismo que pode suster uma alcalose metabólica é o hipermineralocorticoidismo. Os mineralocorticóides estimulam a secreção de íons hidrogênio pelos rins. Nos pacientes com excesso deste hormônio, a elevação dos níveis plasmáticos de bicarbonato inicia com a perda aumentada dos íons H + como amônia e é mantida pela sua elevada reabsorção. A compensação respiratória (hipercapnia) para a alcalose metabólica é limitada pela hipóxia e a redução da ventilação alveolar raramente eleva a pressão de gás carbônico acima de 55 ou 60 mmHg. Essa compensação só ocorre na ausência de hipocalemia, por mecanismos ainda não bem esclarecidos. As principais causas de alcalose metabólica são: Hipovolemia Vômito ou drenagem gástrica Diuréticos Os diuréticos causam redução do volume extracelular através da inibição da reabsorção de sódio. O conseqüente aumento na produção de aldosterona, assim como a hipocalemia concomitante, estimulam a secreção de H + , produzindo e mantendo a alcalose, que é geralmente discreta. Os diuréticos capazes de causar alcalose metabólica são os diuréticos tiazídicos e os de alça. Os diuréticos que inibem especificamente a reabsorção de bicarbonato, tais como a espironolactona, o amiloride e o triamtereno, causam acidose ao invés de alcalose. NEFROLOGIA - 39 Alcalose pós-hipercapnia Pacientes com hipercapnia crônica causada por insuficiência respiratória (acidose respiratória) mantém altos níveis de bicarbonato. Quando a respiração melhora, a pCO2 cai rapidamente, mas a excreção urinária do bicarbonato em excesso produzido pela compensação renal leva vários dias. Em pacientes com uma dieta pobre em sal ou em uso de diuréticos, que apresentam hipovolemia, a alcalose pode persistir indefinidamente, até que cloreto de sódio ou de potássio seja adicionado a sua dieta. Hipermineralocorticoidismo Síndrome de Cushing Aldosteronismo primário Síndrome de Bartter Hipocalemia grave Com níveis séricos de potássio iguais ou inferiores a 2 mEq/L Ingestão excessiva de bicarbonato Não há sintomatologia específica na alcalose metabólica. Uma alcalose grave pode causar apatia, confusão mental e estupor. Quando os níveis séricos de cálcio forem baixos, o rápido desenvolvimento da alcalose pode induzir tetania. A associação de hipocalemia com alcalose metabólica pode manifestar-se por fraqueza ou paralisia muscular, distúrbios abdominais, íleo e arritmias cardíacas. Em pacientes intensamente alcalóticos, um pH de 7,54 a 7,56 tem uma mortalidade de 40% e um pH de 7,65 a 7,7 atinge 80% de mortalidade. O diagnóstico de alcalose metabólica depende do reconhecimento do quadro clínico e de exames laboratoriais apropriados. O bicarbonato plasmático está aumentado e a pressão de dióxido de carbono aumenta em cerca de 0,7 mmHg para cada mEq/L na elevação do bicarbonato. A concentração de potássio freqüentemente está reduzida, e o eletrocardiograma pode revelar alterações nas ondas T e U decorrentes da hipocalemia. Uma alcalose metabólica leve ou moderada raramente necessita de tratamento específico. Nos pacientes com vômito ou drenagem gástrica, a infusão de solução salina é geralmente suficiente para aumentar a excreção renal de bicarbonato. A administração de cloreto de potássio nos pacientes tratados com diuréticos também é útil. Quando houver hiperfunção adrenal (hiperadrenocorticismo), a alcalose deve ser corrigida com o tratamento específico da doença de base. Acidose respiratória Ocorre quando há uma retenção de CO2 no organismo e traduz-se por uma elevação da pCO2 no sangue. Isto ocorre quando a produção de CO2 nos tecidos excede a capacidade de remoção pelos pulmões. NEFROLOGIA - 40 A acidose respiratória aguda promove somente uma pequena elevação do bicarbonato plasmático, cerca de 1 mEq/L para cada 10 mmHg de aumento da pCO2. Se a hipercapnia for mantida, a excreção renal de ácidos vai se elevar e a reabsorção de bicarbonato vai ser estimulada. Na acidose respiratória crônica, o bicarbonato vai ser capaz de se elevar em aproximadamente 3,5 mEq/L para cada 10 mmHg de pCO2, minimizando o grau de acidemia. Patogenicamente, a acidose respiratória aguda ocorre sempre que houver insuficiência súbita da ventilação. Suas causas mais comuns incluem: Depressão do centro respiratório Doença cerebral Drogas Distúrbios neuromusculares A acidose respiratória crônica, por sua vez, ocorre em doenças pulmonares tais como: Enfisema Asma Bronquite crônica É freqüentemente difícil de distinguir as manifestações clínicas da acidose respiratória daquelas resultantes da hipóxia associada. Na presença de uma hipercapnia moderada, principalmente quando seu desenvolvimento é lento, provavelmente não vai haver características clínicas. Quando a pCO2 ultrapassa 70 mmHg, os pacientes tornam-se progressivamente confusos e obnubilados. Pode ocorrer edema de papila, aparentemente porque a pressão intracraniana está elevada pela vasodilatação característica da hipercapnia. Os pacientes com hipercapnia crônica são geralmente acidêmicos. Contudo, alguns indivíduos com hipercapnia crônica mínima ou moderada podem ter um pH plasmático normal ou mesmo levementeelevado, devido a compensação renal. Todavia, na maioria das vezes, uma elevação significativa do pH, em pacientes com hipercapnia crônica, resulta de uma complicação por alcalose metabólica. Os diuréticos, dietas com baixo teor de sódio e a alcalose pós-hipercapnia são freqüentes causas desse tipo de distúrbio ácido-básico associado. A única abordagem válida no tratamento da acidose respiratória é a correção do distúrbio subjacente. Alcalose respiratória Uma redução aguda na concentração de dióxido de carbono traduz-se por uma diminuição da pCO2, que leva a uma liberação de íons hidrogênio pelos tampões plasmáticos no sentido de reduzir a alcalemia reduzindo o bicarbonato plasmático. A alcalose aguda também aumenta o metabolismo da via glicolítica, levando a produção de ácidos lático e pirúvico que diminuem a concentração de bicarbonato. NEFROLOGIA - 41 Na hipocapnia crônica, o bicarbonato plasmático ainda é reduzido por um mecanismo complementar no qual a pCO2 inibe a reabsorção tubular e a regeneração de bicarbonato. Assim como na acidose respiratória, a compensação do estado crônico é muito mais completa do que a do agudo. Na hipocapnia aguda, o bicarbonato plasmático cai em apenas 2 mEq/L para cada 10 mmHg na queda da pCO2, enquanto que na hipocapnia crônica ele se reduz em 4 a 5 mEq/L. Patogenicamente, a alcalose respiratória é decorrente de hiperventilação aguda ou crônica, causadas por: Hipóxia Com redução da pO2 para menos de 60 mmHg Aguda Pneumonia Asma Edema pulmonar Hipotensão Crônica Fibrose pulmonar Cardiopatia cianótica Altas altitudes Anemia Estimulação do centro respiratório Ansiedade Febre Septicemia Intoxicação por salicilatos Doença cerebral Cirrose hepática Gestação Correção da acidose metabólica Ventilação mecânica excessiva Dependendo da sua gravidade e velocidade de desenvolvimento, a hiperventilação pode ou não ser visível clinicamente. Na alcalose respiratória aguda, o quadro clínico é característico. O paciente queixa-se de parestesias nas extremidades e região perioral, alteração na consciência e, quando a alcalose for grave o suficiente, manifestações de tetania. A alcalose aumenta diretamente a excitabilidade neuromuscular. Esse efeito é provavelmente a causa principal da tetania. Alcalose respiratória grave pode causar confusão ou perda da consciência, talvez devido a vasoespasmo cerebral induzido pela hipocapnia. O diagnóstico pode ser presumido pelo quadro clínico, mas deve ser confirmado a partir da análise da pCO2. O único tratamento de sucesso da alcalose respiratória é a eliminação do distúrbio subjacente. NEFROLOGIA - 42 Distúrbios mistos Acidose metabólica e acidose respiratória Parada cárdio-respiratória Edema pulmonar grave Assim como a parada cárdio-respiratória, o edema pulmonar grave pode resultar em acidose metabólica devido a insuficiência circulatória e em hipercapnia devido a insuficiência respiratória. Intoxicação por salicilatos e sedativos Além da acidose metabólica causada pela intoxicação isolada por salicilatos, pacientes em tratamento crônico que também recebem sedativos ou hipnóticos podem desenvolver uma depressão respiratória e apresentar acidose respiratória. Pneumopatia associada a insuficiência renal ou septicemia Acidose metabólica e alcalose respiratória Intoxicação por salicilatos Septicemia A insuficiência cardiovascular causa acidose lática enquanto a febre e a endotoxemia estimulam o centro respiratório e causam hipocapnia. Cirrose hepática associada a insuficiência renal A insuficiência renal, uma complicação freqüente em pacientes com cirrose hepática, vai associar uma acidose metabólica à alcalose respiratória crônica, freqüente em pacientes com cirrose. Embriagues Pacientes embriagados que desenvolvem cetoacidose também podem desenvolver hiperventilação devido ao “delirium tremens”. Nos pacientes que vomitaram repetitivamente, pode haver associado um terceiro distúrbio, a alcalose metabólica. Alcalose metabólica e acidose respiratória Nos pacientes com acidose respiratória crônica causada por pneumopatia, pode-se desenvolver uma alcalose metabólica quando há administração terapêutica de diuréticos, esteróides ou ventiladores ou vômito. NEFROLOGIA - 43 Alcalose metabólica e alcalose respiratória Gestação com vômitos Hepatopatia crônica tratada com diuréticos Parada cárdio-respiratória tratada com bicarbonato e ventilador A alcalose metabólica é associada pela administração de bicarbonato e pela conversão metabólica de lactato acumulado em bicarbonato depois da correção do colapso circulatório. Um terceiro distúrbio pode ocorrer caso a circulação não seja adequadamente corrigida, com acúmulo de acido lático, levando a associação da alcalose metabólica e respiratória a uma acidose metabólica (acidose lática). Acidose metabólica e alcalose metabólica Este distúrbio geralmente ocorre quando a alcalose metabólica causada por vômitos sobrepõe-se a: Cetoacidose diabética ou alcoólica Insuficiência renal aguda ou crônica Em alguns pacientes com cetoacidose diabética, a ingestão de grandes quantidades de antiácidos absorvíveis para tratamento de sintomas de desconforto gástrico podem ser uma causa adicional de alcalose metabólica. Diagnóstico O diagnóstico de um distúrbio ácido-básico é feito através de uma análise sistemática com os seguintes elementos: Anamnese Exame físico Exames laboratoriais Normalmente, a história clínica, o bicarbonato plasmático e o fator R são suficientes para o diagnóstico. Arbus desenvolveu um mapa ácido-básico que pode ser útil no diagnóstico clínico de um distúrbio ácido-básico. Valores que não se encaixam em nenhuma faixa do mapa para um único distúrbio ácido-básico freqüentemente sugerem um distúrbio misto. Contudo, valores presentes nas faixas para um único distúrbio não eliminam a possibilidade de um distúrbio misto. Mesmo valores normais podem ser encontrados nesses distúrbios. Outra maneira de se avaliar se um distúrbio ácido-básico é puro ou misto é através das seguintes fórmulas: Acidose metabólica pCO2 = 1,1 HCO3 – pCO2 < 1,1 HCO3 – Alcalose respiratória associada pCO2 > 1,1 HCO3 – Acidose respiratória associada NEFROLOGIA - 44 Alcalose metabólica 0,4 HCO3 – pCO2 0,7 HCO3 – pCO2 < 0,4 HCO3 – Alcalose respiratória associada pCO2 > 0,7 HCO3 – Acidose respiratória associada Acidose respiratória aguda HCO3 – = 0,1 pCO2 HCO3 – < 0,1 pCO2 Acidose metabólica associada HCO3 – > 0,1 pCO2 Alcalose metabólica associada Acidose respiratória crônica HCO3 – = 0,35 pCO2 HCO3 – < 0,35 pCO2 Acidose metabólica associada HCO3 – > 0,35 pCO2 Alcalose metabólica associada Alcalose respiratória aguda HCO3 – = 0,2 pCO2 HCO3 – < 0,2 pCO2 Acidose metabólica associada HCO3 – > 0,2 pCO2 Alcalose metabólica associada Alcalose respiratória crônica HCO3 – = 0,5 pCO2 HCO3 – < 0,5 pCO2 Acidose metabólica associada HCO3 – > 0,5 pCO2 Alcalose metabólica associada NEFROLOGIA - 45 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Reposição hidroeletrolítica Introdução Para se formularum plano parenteral, é necessário o conhecimento dos problemas do paciente através do exame clínico e laboratorial. Na história, nós devemos prestar atenção em dados como vômitos, que indicam uma provável alcalose metabólica e um déficit de sódio e potássio; insuficiência cardíaca congestiva, que apresenta-se com excesso de sódio; rápidas mudanças no peso, que traduzem ganho ou perda de líquidos; etc. As determinações das concentrações plasmáticas de sódio (Na + ), potássio (K + ), cloro (Cl – ), bicarbonato (HCO3 – ), glicose (C6H12O6), uréia e creatinina já são rotina na maioria dos hospitais e são de extrema importância no diagnóstico e correção dos distúrbios hidroeletrolíticos. Uma vez obtidas essas informações, a formulação do plano para a reposição hidroeletrolítica, elaborado pelo Dr. Gelding H. Scribner, da Universidade de Washington, obedece à seguinte ordem: 1. Cálculo da necessidade básica Refere-se a previsão da quantidade de líquidos e eletrólitos perdidas nas próximas 24 horas através da urina, fezes, suor, respiração, etc. 2. Cálculo das correções hidroeletrolíticas relativas aos distúrbios detectados através da avaliação clínica e laboratorial 3. Balanço entre a necessidade básica e as correções para determinar o total de líquido e eletrólitos a ser administrado Cálculo da necessidade básica A estimativa da quantidade de líquidos e eletrólitos perdidos em um período de 24 horas baseia-se em: Volume urinário Perdas gastrointestinais Perdas sensíveis e insensíveis Pele e pulmão O volume urinário normal atinge 2.000 ml e em condições de intensa restrição líquida, é de cerca de 500 ml/dia. O valor médio entre os volumes urinários mínimo e máximo excretados habitualmente é de 1.500 ml/dia e, por isso, é o valor utilizado por nós por convenção. A ingesta média diária de sódio é de 135 mEq. Se houver suspensão na ingesta ou perda de sódio pelo organismo, ele poderá produzir uma urina quase sem sódio em quatro a nove dias. Na necessidade básica, costumamos administrar 75 mEq diários de sódio, permitindo ao rim eliminar uma maior ou menor quantidade, de acordo com as suas necessidades. NEFROLOGIA - 46 A perda diária habitual de potássio é de 40 mEq e, obrigatoriamente, pelo menos 25 mEq de potássio é excretado diariamente pelo organismo. Conservando o mesmo raciocínio para o cálculo do volume urinário e do sódio, administra-se 40 mEq de potássio diariamente na necessidade básica. A necessidade básica do cloro é de 115 mEq por dia e, como conveniência, pode ser deduzida pela soma da necessidade do Na + e do K + . Assim, resumidamente, a perda urinária diária de água e eletrólitos de um indivíduo normal é: Água = 1.500 ml Sódio = 75 mEq Potássio = 40 mEq Cloro = 115 mEq Quando o paciente apresenta um distúrbio da função renal, o raciocínio acima não é válido para o cálculo da quantidade de água e eletrólitos perdidos na urina. Por exemplo, um paciente com oligúria devido a um comprometimento orgânico do rim deverá receber um volume de água igual ao volume de urina excretada. Da mesma forma, um paciente com edema resultante de sódio total deve ter sua necessidade básica de sódio reduzida. As perdas gastrointestinais podem ser altas, através de vômitos, por exemplo; ou baixas, devido a diarréias. Procura-se avaliar o volume a ser eliminado nas próximas 24 horas baseando-se nas perdas diárias anteriores. Isto é, se um paciente vem eliminando 1.000 ml de suco gástrico ao dia, é natural esperar que ele elimine a mesma quantidade nas próximas 24 horas. Por sua vez, o melhor meio de avaliar as perdas eletrolíticas é proceder à análise bioquímica do líquido. Como regra prática, calcula-se a concentração de sódio do suco gástrico baseado no seu pH. Quando ele é superior a 4, a concentração de sódio em mEq/L será numericamente igual a 10% do volume de suco gástrico em ml. Por exemplo, quando o volume de suco gástrico eliminado é igual a 1.500 ml e o seu pH é superior a 4, a concentração de sódio será de 150 mEq/L. Se o pH for inferior a 4, a concentração de sódio será de 5% do volume eliminado. A perda de potássio no suco gástrico é geralmente na base de 1% do volume eliminado e a concentração de cloro pode ser calculada pela soma das perdas de sódio e potássio. Como o pH das fezes liquefeitas na diarréia é geralmente superior a 4, suas perdas eletrolíticas são semelhantes à do suco gástrico de pH > 4. Habitualmente, para a necessidade básica, consideramos a perda diária pela pele e pulmões na ordem de 1.000 ml de água, com exceção de quando há febre ou taquipnéia, em que nós aumentamos: 200 ml a cada elevação de 1o C acima de 37o C; 200 ml a cada 4 impulsões por minuto, quando a freqüência respiratória for superior a 20 ipm. As perdas eletrolíticas são desprezíveis, com exceção de quando há sudorese excessiva. NEFROLOGIA - 47 Tabela 1 - Necessidade básica diária Perdas Água (ml/dia) Sódio (mEq/L) Potássio (mEq/L) Cloro (mEq/L) Urina 1.500 75 40 115 Gastrointestinais Volume perdido no dia anterior 5 ou 10% 1% ? Pele e pulmões 1.000 0 0 0 Cálculo das correções O estado de cada uma das cinco categorias a seguir enumeradas deverá ser avaliado toda vez que se formula um plano parenteral. Isto será extremamente útil nos distúrbios hidroeletrolíticos mais complexos: 1. Água 2. Sódio 3. Sangue e plasma 4. Ácido-básico 5. Potássio Correções para a água A maneira mais prática de avaliar a necessidade de água é determinar o sódio plasmático. O objetivo é administrar uma quantidade de água que mantenha o sódio plasmático entre 130 e 135 mEq/L. Considerando-se que quando a concentração plasmática de sódio é de 140 mEq/L (concentração de sódio normal), a quantidade total de água corporal é de 60% do peso corporal total de um indivíduo, pode- se calcular a quantidade de água de um paciente através da avaliação do seu sódio plasmático. Por exemplo, um paciente de 65 anos, que usualmente pesa 70 kg, chega ao hospital com um quadro de gastroenterite, queixando-se de sede e com um sódio plasmático de 154 mEq/L. Na+ normal = total de água corporal Na+ observado X 140 = 60% do peso corporal 154 X 140 = 42 154 X X = 42 154 140 NEFROLOGIA - 48 X = 46,2 litros Como a concentração de sódio do paciente está aumentada, deduzimos que ele apresenta um déficit de água. Pela fórmula acima, observamos que um sódio equivalente ao do paciente necessitaria de 46,2 litros para manter sua concentração normal. Ou seja, uma variação de 4,2 litros do normal calculado para esse mesmo paciente (42 litros). Como a concentração de sódio corporal e a quantidade total de água corporal variam de maneira inversamente proporcional (e não de maneira diretamente proporcional como na fórmula acima), podemos concluir que o aumento na concentração de sódio do paciente ocorreu devido a um déficit de água que é numericamente igual ao valor obtido por essa regra prática, ou seja, 4,2 litros. Quando há déficit de água, a correção se faz apenas acrescentando a quantidade defasada. Assim, no exemplo acima, deve-se administrar 4,2 litros no paciente. No excesso de água, a correção é feita em até 50% do valor calculado. Correções para o sódio Grosseiramente, pode-se avaliar um déficit de sódio através de perdas pequenas (10%), médias (20%) ou moderadas (30%) de volume extracelular. Pressupõe-se uma perda pequena quando o pacienteapresenta apenas dados na história clínica, como vômitos, diarréia, etc., mas seu exame físico é normal. Perdas moderadas de volume extracelular são indicadas por alterações no exame físico, como hipotensão ortostática com redução de 20 mmHg na pressão sistólica e 10 mmHg na pressão diastólica; taquicardia; vasos sublinguais e jugular externa não-ingurgitados; etc. Um estado intermediário é indicativo de perdas médias do volume extracelular. Sangue e plasma Se houver uma redução importante do volume globular ou evidência de sangramento ativo, a administração de sangue pode ser indicada. Ácido-base Quando houver alcalose metabólica, a correção da depleção do volume extracelular e do déficit de potássio, em geral, é suficiente. Raramente há necessidade de administração de ácidos minerais. Se o diagnóstico é de acidose metabólica, deve-se calcular a quantidade de bicarbonato de sódio a ser administrada e tomar cuidado para deduzir da necessidade básica ou da correção para o sódio a quantidade desse elemento administrada com o bicarbonato de sódio. NEFROLOGIA - 49 Correções para o potássio Uma maneira de se fazer um cálculo aproximado do déficit de potássio é o seguinte: 1. Quando o potássio sérico é superior a 3 mEq/L, para se elevar o potássio sérico em 1 mEq/L, há necessidade de administrar de 100 a 200 mEq de potássio. 2. Quando o potássio sérico é inferior a 3 mEq/L, para se elevar o potássio sérico em 1 mEq/L, há necessidade de administrar de 200 a 400 mEq de potássio. 3. Para cada alteração no pH de 0,1 unidade, há uma alteração inversa de 0,6 mEq/L na concentração sérica de K + . Com a exceção de quando houver controle eletrocardiográfico, não se deve administrar mais de 40 mEq/hora ou 240 mEq/24 horas na reposição terapêutica de potássio. Princípios gerais no plano parenteral Primeiramente, é necessário que se faça apenas uma estimativa da magnitude do distúrbio, a qual servirá de guia para a reposição. Uma determinação exata não é possível e tampouco necessária. À medida que se faz a correção do distúrbio, o plano terapêutico seguinte deverá aproximar-se da necessidade básica e deixar que o próprio rim faça os ajustes finais. Nunca há necessidade de corrigir o distúrbio completamente nas primeiras 24 horas. Normalmente, não se acrescenta fósforo, magnésio e cálcio às soluções hidrossalinas que se destinam a uma reposição hidroeletrolítica de poucos dias de duração. No entanto, esses elementos são essenciais na nutrição parenteral. Uma intensa depleção de fósforo pode ser encontrada em situações como o diabetes mellitus; a suspensão da ingesta de álcool; a utilização de drogas como o hidróxido de alumínio, que se liga ao fósforo no intestino; a fase de melhora de queimaduras extensas; etc. Nesses casos, a hipofosfatemia pode causar fraqueza muscular; hemólise; alterações na função de plaquetas e leucócitos; rabdomiólise, quando indivíduos desnutridos com hipofosfatemia são realimentados; insuficiência respiratória; hipocontratilidade miocárdica; insuficiência cardíaca congestiva; etc. O magnésio, por sua vez, pode estar diminuído nas diureses intensas induzidas por diuréticos e quando há perdas gastrointestinais. Sua sintomatologia mais freqüente inclui agitação e tremores; hiper-reflexia profunda; alterações da personalidade; convulsões; arritmias cardíacas; etc. Algumas vezes, a hipomagnesemia é associada a uma hipocalcemia que não é corrigível através da administração de cálcio a não ser que se restaure o déficit de magnésio. Desta forma, deve-se lembrar que embora não haja necessidade de administrar rotineiramente fósforo e magnésio na terapia parenteral NEFROLOGIA - 50 hidroeletrolítica de curta duração, deve-se corrigir a sua concentração plasmática quando houver manifestação clínica da sua diminuição. Plano de administração O sódio é administrado sob a forma de solução salina isotônica (soro fisiológico), na qual 1.000 ml possui 150 mEq de sódio. A água é administrada sob a forma de solução de glicose a 5% (isotônica). Soluções hipertônicas de glicose poderão ser utilizadas, mas a sua infusão periférica causa flebite. O potássio é administrado sob a forma de cloreto de potássio em ampolas de 10 ml. Uma ampola de KCl 19,1% contém 2,5 mEq de K + por ml. A quantidade de potássio prevista na reposição é distribuída preferencialmente pelos frascos de soro glicosado a 5%. Deve-se evitar uma concentração de K + superior a 30 mEq/L, pois concentrações maiores causam irritação e dor ao longo da veia. Na prescrição médica, o plano parenteral deve ter especificado: 1. A solução básica Soro fisiológico, soro glicosado, etc.; 2. A via de administração Sempre E.V. ou I.V.; 3. O volume de cada solução Soro fisiológico, E.V., 2.000 ml; 4. A identificação de cada frasco por um número consecutivo Soro glicosado, E.V., 3.000 ml, frascos 1, 2 e 3; 5. Os aditivos a serem usados na solução Adicionar 5 ml de KCl 19,1% aos frascos 4, 5, 6 e 7; 6. A velocidade de infusão Gotejamento por minuto. Aproximadamente, 12 gotas por minuto equivalem a 1 litro em 24 horas, 15 gotas por minuto a 1,2 litros em 24 horas e 30 gotas/minuto a 2,4 l/24 horas. Ao final de cada prescrição, deve-se lembrar que o nosso metabolismo basal necessita diariamente de pelo menos 400 Kcal. Sabendo-se que a combustão de um grama de glicose produz 4 Kcal, pode-se calcular a quantidade de Kcal que vão ser fornecidas pela administração de soro glicosado. Por exemplo, um paciente que recebe diariamente 2.000 ml de soro glicosado a 5% vai apresentar exatamente as 400 Kcal diárias necessárias para o seu metabolismo. 5% de 2.000 ml = 100 g de glicose 1g = 4 Kcal 100 g 400 Kcal Caso ele fosse receber apenas 1.000 ml de soro glicosado, suas necessidades seriam preenchidas por um soro glicosado a 10% e assim por diante. Contudo, deve-se lembrar que soluções de glicose mais concentradas (10, 20 ou 50%) não podem ser administradas por veia periférica pois podem causar flebite. NEFROLOGIA - 51 Exemplos 1. Uma jovem de 28 anos é submetida a uma colecistectomia e, 24 horas após, apresenta-se bem, com sede. Dados: PA = 140/80 mmHg Pulso = 80 bpm T = 36,2 o C FR = 10 ipm Peso = 60 kg Diurese = 600 ml/24 horas Sódio = 147 mEq/L Potássio = 3,9 mEq/L Drenagem nasogástrica = 2.500 (pH = 6,0) Formular o plano parenteral para as próximas 24 horas: Fonte Volume Na + (mEq/L) K + (mEq/L) Cl- (mEq/L) Urina 1.500 75 40 115 Sensível e insensível 1.000 0 0 0 P. gastrointestinais 2.500 250 25 275 Subtotal 5.000 325 65 390 Água 1.800 0 0 0 Sódio 0 0 0 0 Sangue e plasma 0 0 0 0 Ácido-base 0 0 0 0 Potássio 0 0 0 0 TOTAL 6.800 325 65 390 Administrar: 1. Soro fisiológico, E.V., 2.000 ml, frascos 1 e 2, 24 gotas/min; 2. Soro glicosado 5%, E.V., 5.000 ml, frascos 3, 4, 5, 6 e 7, 60 gotas/min; 3. Adicionar 5 ml de KCl 19,1% nos frascos 3, 4, 5, 6 e 7. 2. Um homem de 35 anos é trazido para o Serviço de Emergência do hospital após ter sido encontrado por amigos num estado semi-estuporoso. Segundo os amigos, ele vinha bebendo muito nos últimos dias. A história médica pregressa era irrelevante, a não ser por um tratamento ambulatorial de úlcera péptica. Ao exame físico, ele se apresentava obnubilado, com os seguintes dados vitais: PA = 100/60 mmHg (deitado) 40/? mmHg (sentado) Pulso = 100 bpm (deitado) 140 bpm (sentado) FR = 18 ipm T = 38 o C Peso = 60 Kg As veias jugulares não eramvisíveis em decúbito dorsal. O exame do abdome acusou dor epigástrica e ruídos hidroaéreos diminuídos. Não havia edema. Os exames laboratoriais revelaram: Hematócrito = 45%; 10.500 leucócitos com 75% de polimorfonucleares; Glicemia = 120 mg/100 ml; Na + = 125 mEq/L K + = 3 mEq/L Cl- = 75 mEq/L HCO3 - = 25 mEq/L pCO2 = 38 pO2 = 60 pH arterial = 7,41 creatinina = 1,8 mg/100 ml Formular o plano parenteral para as próximas 24 horas: NEFROLOGIA - 52 Fonte Volume Na + (mEq/L) K + (mEq/L) Cl- (mEq/L) Urina 1.500 75 40 115 Sensível e insensível 1.000 0 0 0 P. gastrointestinais 0 0 0 0 Subtotal 2.500 75 40 115 Água - 2.000 * 0 0 0 Sódio 3.600 540 0 540 Sangue e plasma 0 0 0 0 Ácido-base 0 0 0 0 Potássio 0 0 100 100 TOTAL 4.100 615 140 755 * Aplicando a fórmula descrita nas páginas anteriores, concluímos que há um excesso de aproximadamente 3.850 ml de água. Contudo, a correção deve ser feita em até aproximadamente 50% do valor calculado, ou seja, 2.000 ml. Administrar: 1. Soro fisiológico, E.V., 4.000 ml, frascos 1, 2, 3 e 4, 48 gotas/min; 2. Adicionar 14 ml de KCl 19,1% aos frascos 1, 2, 3 e 4. Tabela 2 - Composição das principais soluções utilizadas na terapia hidroeletrolítica Soluções Eletrólitos mEq/L Na + K + Cl – Ca ++ Mg ++ HCO3 – Soro glicosado - - - - - - Soro fisiológico 153 - 153 - - - Soro glicofisiológico 153 - 153 - - - Solução de Ringer 147 4 156 4,5 - - Ringer-lactato 130 4 109 3 - 28 Bicarbonato de sódio 3% 360 - - - - 360 Bicarbonato de sódio 10% 1.190 - - - - 1.190 Lactato de sódio 1/6 M 167 - - - - 167 Haemacel 140 5 154 9,5 3,5 - NEFROLOGIA - 53 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Avaliação diagnóstica da hipertensão arterial Conceito e definições A conceituação de pressão arterial normal tem se modificado ultimamente devido a descoberta que mesmo pequenas alterações no nível pressórico já estão associadas ao maior risco de se desenvolver complicações cardiovasculares. Hoje, há um consenso de que qualquer valor igual ou superior a 140/90 mmHg é considerado hipertensão arterial. Hipertensão sistólica isolada é aquela em que apenas o componente sistólico está elevado, com níveis superiores a 140 mmHg, enquanto o componente diastólico mantém-se abaixo de 90 mmHg. A pressão sistólica isolada é muito comum em idosos devido a maior rigidez das grandes artérias e seus riscos são semelhantes aos indivíduos com elevação da pressão sistólica e diastólica. O conceito de hipertensão lábil, ao contrário da hipertensão definida, refere-se a indivíduos cujos níveis pressóricos oscilam entre a faixa elevada e a considerada normal. Contudo, esse conceito ficou abalado diante do conhecimento de que a pressão arterial sofre grande variação no decorrer do dia, apresentando um “ritmo circadiano” com elevação pela manhã, redução após as refeições e decréscimo de 10 a 20 mmHg durante o sono. A monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) por 24 horas, com aparelhos automáticos, vem demonstrando claramente que a pressão arterial, tanto em normotensos quanto em hipertensos, sofre variações dentro de uma faixa relativamente ampla durante o período em que estamos acordados em atividade. Esta é uma das razões para que se recomende, do ponto-de-vista clínico, só rotularmos um indivíduo de hipertenso após pelo menos três determinações da pressão arterial em momentos e circunstâncias diferentes, realizadas após um período de repouso de pelo menos 5 minutos. A pressão sangüínea arterial pode ser determinada por métodos diretos, através da introdução de um cateter na luz arterial; ou indiretos, com o auxílio dos esfigmomanômetros. A MAPA tem se mostrado útil nas seguintes condições: Hipertensão paroxística Feocromocitoma Hipertensão lábil Hipertensão que aparece exclusivamente em consultórios Hipertensão do “jaleco branco” Para se avaliar a eficácia e ajuste de medicamentos Avaliação do comportamento noturno da pressão arterial Hipotensão arterial Síncope NEFROLOGIA - 54 Avaliação do paciente Na avaliação do paciente com hipertensão arterial, três pontos principais devem ser analisados: 1. Grau de comprometimento sistêmico que a moléstia possa ter causado; 2. Identificação de doenças e/ou fatores de risco para doenças cardiovasculares que possam estar associados; 3. Indícios de que a hipertensão possa ter caráter primário ou secundário. Do ponto-de-vista clínico, é muito importante ressaltar que na maioria dos indivíduos a hipertensão arterial é absolutamente assintomática. Por isso, só a determinação sistemática da pressão arterial irá possibilitar o diagnóstico e tratamento precoces, evitando suas complicações. A história clínica deve ser orientada através dos seguintes tópicos: Identificação; Duração da hipertensão arterial; Ganho de peso recente; Queixas clínicas Dispnéia Nictúria Edema Palpitação Síncope Dor pré-cordial; Claudicação intermitente; Dor abdominal pós-prandial; Paralisias; Dificuldade para andar; Alterações visuais Turvação Borramento; História anterior de doença renal; Alterações urinárias Hematúria Disúria; Outras doenças associadas Diabetes Gota Dislipidemia Bronquite ou asma Alterações hepáticas, gástricas ou intestinais Artrites Anemia Enxaqueca; NEFROLOGIA - 55 Antecedentes familiares Hipertensão arterial Acidente vascular cerebral Infarto do miocárdio Diabetes Amputações; Idade e causa de falecimento dos pais e irmãos; Hábitos pessoais Fumo (tempo e qualidade) Etilismo (tempo e qualidade) Exercícios (tipo, tempo e freqüência) Lazer habitual (regularidade); Hábitos alimentares Sal Carboidratos Gorduras Proteínas Vegetais; Medicação em uso Anticoncepcionais Antiinflamatórios Corticóides Antidepressivos; Medicação anti-hipertensiva em uso Regularidade Adesão ao tratamento. O exame físico, por sua vez, deve avaliar: Fácies; Peso e altura; Pressão arterial; Exame cardiovascular completo; Exame abdominal Hepatomegalia Tumorações pulsáteis Massas renais palpáveis; Extremidades Edema Lesões tróficas de pele Alterações ungueais Outros sinais de isquemia; NEFROLOGIA - 56 Exame de fundo de olho Observar e descrever com detalhes as papilas, vasos retinianos, aspecto e alterações retinianas. Quando fazemos uma observação clínica pormenorizada freqüentemente detectamos, mesmo em indivíduos aparentemente assintomáticos, algum grau de comprometimento sistêmico da doença e se há indícios de que a hipertensão possa ter caráter primário ou secundário. Indivíduos com hipertensão arterial primária ou essencial freqüentemente apresentam antecedentes familiares de hipertensão e/ou de doenças cardiovasculares, encontram-se na faixa etária mais prevalente e não costumam apresentar sinais ou sintomas clínicos de quaisquer doenças que possam causar a hipertensão. O exame de fundo de olho é um importante subsídio para a avaliação do comprometimento vascular periférico, da gravidade e duração da hipertensão. Segundo a classificação de Keith-Wagener, nós vamos ter: Grau 0 – Fundo de olho normal; Grau 1 – Esclerose arteriolar discreta, com tortuosidade e brilho centraldas arteríolas reduzindo a relação artério/venosa; Grau 2 – Esclerose arteriolar grave, com cruzamentos patológicos, arteríola em “fio de cobre” ou “fio de prata” e lesões retinianas antigas, como exsudatos duros; Grau 3 – Grau 2 associado a lesões recentes como exsudatos algodonosos e hemorragias; Grau 4 – Grau 3 com edema de papila (hipertensão intracraniana) A presença de alterações de grau 1 ou grau 2 indica a duração e gravidade anterior da hipertensão, enquanto as de graus 3 e 4 nos dizem se há ou não lesões sugestivas de agravo recente da hipertensão (exsudatos, hemorragias e edema de papila). O conhecimento dos hábitos pessoais e a presença de sinais e sintomas sugestivos de comprometimento sistêmico serão fundamentais para nos orientar na estratégia de tratamento. Alguns dos riscos associados à hipertensão que também poderão influenciar na maneira de tratarmos cada indivíduo só serão conhecidos após a realização da rotina laboratorial proposta a seguir: Hemograma Na presença de anemia; Glicemia de jejum Na suspeita de diabetes mellitus; Creatinina Na suspeita de insuficiência renal; Urina I Para avaliar doença renal prévia ou lesão pela hipertensão; Potássio Para avaliar hipocalemia para um eventual uso de diuréticos; Ácido úrico Para avaliar gota; Colesterol total Para avaliar dislipidemia; Triglicerídeos Também serve para avaliar dislipidemia; Raio-X de tórax Para estudo cardiopulmonar; Eletrocardiograma Para detectar arritmias, hipertrofia, bloqueios, alterações da repolarização ventricular; Ecocardiograma Para avaliar a fisiologia cardíaca; NEFROLOGIA - 57 Ultra-sonografia renal Somente em casos de suspeita de doença renal; Metanefrina urinária Somente em caso de suspeita de feocromocitoma; Teste de captopril Somente em caso de suspeita de hipertensão renovascular; Aldosterona e renina Somente em caso de suspeita de hiperaldosteronismo. Quaisquer desvios nesses exames que venham significar risco adicional devem ser levados em conta. A associação de hipertensão arterial com quaisquer outros fatores de risco, tais como diabetes mellitus, dislipidemia, fumo e hipertrofia ventricular esquerda, aumenta assustadoramente a probabilidade de ocorrência de complicações cardiovasculares. Por isso, é essencial que saibamos como manipular estas associações minimizando seus efeitos. Também é fundamental que o médico se esforce no sentido de informar e orientar o paciente quanto aos riscos da própria hipertensão e também de outras condições clínicas que possam estar associadas, e não apenas reduzir sua pressão com um medicamento qualquer e considerar sua tarefa realizada. Complicações Devido a evolução insidiosa da hipertensão arterial, vão ocorrendo várias adaptações, principalmente do sistema cardiovascular, em resposta à elevação pressórica. De uma forma geral, a manifestação clínica mais precoce é a doença aterosclerótica das artérias de maior calibre, acompanhada do espessamento das pequenas artérias e arteríolas. Esse espessamento da parede arteriolar, além de contribuir para aumentar a resistência periférica, perpetuando o processo hipertensivo, pode ser tão grave a ponto de comprometer o fluxo sangüíneo para órgãos importantes como os rins e a musculatura cardíaca. Comprometimento renal A hipertensão arterial compromete principalmente as estruturas vasculares renais como as artérias, as arteríolas e os capilares glomerulares. A parede das arteríolas sofrem espessamento das camadas muscular e elástica reduzindo o fluxo efetivo do rim, que promove a liberação de renina, agravando ainda mais a hipertensão e comprometendo a filtração glomerular. Do ponto-de-vista anatomopatológico, a esclerose progressiva dos glomérulos, parcial ou total, é um achado característico da hipertensão. A conseqüência das lesões arteriolares e glomerulares é a queda lenta e progressiva da filtração glomerular e a correspondente perda da função renal (insuficiência renal crônica). Esse quadro é conhecido como nefroesclerose e costuma acompanhar os casos de hipertensão sem caráter maligno. NEFROLOGIA - 58 Na hipertensão maligna, além da nefroesclerose, ocorre também necrose fibrinóide das arteríolas, cujo processo de regeneração freqüentemente leva à endarterite proliferativa com caráter obliterante (proliferação em casca de cebola). Nesses casos, a elevação extrema da pressão arterial provoca ruptura dos capilares glomerulares, levando a insuficiência renal aguda ou a “agudização” de uma insuficiência renal preexistente. Comprometimento retiniano As lesões retinianas provocadas pela hipertensão podem ser de natureza aguda ou crônica. As alterações crônicas correspondem ao comprometimento arteriolar como em qualquer outro território vascular. A arteriosclerose pode ser visualizada em diversas fases de seu processo. No início ocorre apenas aumento do reflexo central das arteríolas e tortuosidade. Posteriormente pode ocorrer compressão venosa no local de cruzamento, que é denominado “cruzamento patológico”. Em estágio mais avançado de esclerose, as arteríolas podem refletir completamente a luz incidente, conferindo-lhes o aspecto comparável ao “fio de cobre”. Mais tarde, quando ocorre interrupção total do fluxo sangüíneo, suas paredes brilham como “fios de prata”. A elevação abrupta da pressão arterial provoca vasoconstrição generalizada nas arteríolas reduzindo a relação entre o diâmetro arteríolo-venular. Figura 1 - Microscopia óptica mostrando necrose fibrinóide das arteríolas e endarterite proliferativa de caráter obliterante, respectivamente NEFROLOGIA - 59 As lesões de caráter agudo que comprometem o tecido retiniano provocam edema superficial da retina (que se torna mais brilhante) e a formação de exsudatos e hemorragias. A isquemia da camada nervosa da retina forma edema localizado chamado de “exsudato algodonoso”. As hemorragias retinianas são mais freqüentemente vistas junto às arteríolas e significam lesão da parede arteriolar (necrose fibrinóide). Os exsudatos duros são vistos como manchas muito refringentes (brilhantes) na retina e correspondem a restos antigos de lipídeos provenientes do extravasamento sangüíneo ou transudação. Comprometimento cerebral A encefalopatia hipertensiva, que ocorre quando há um desequilíbrio na auto-regulação da perfusão cerebral, é freqüentemente acompanhada por um ou mais dos seguintes sinas de hipertensão intracraniana: Cefaléia intensa; Náuseas e vômitos; Alterações da consciência Desde sonolência e obnubilação até o coma profundo; Comprometimento motor; Convulsões; Outros. O exame fundoscópico mostrará com freqüência as seguintes alterações agudas: Edema de retina Brilho aumentado; Edema de papila Edema cerebral; Hemorragias retinianas Lesão da parede arteriolar; Exsudatos algodonosos Isquemia da retina. O acidente vascular cerebral (AVC), que é 5 a 7 vezes mais freqüente em hipertensos que em normotensos, é na maioria das vezes do tipo isquêmico ou trombótico, por obstrução completa de uma artéria previamente comprometida por placa aterosclerótica. Geralmente coexistem alterações da sensibilidade do mesmo lado da hemiplegia e comprometimento da consciência (sonolência ou coma) devido ao edema cerebral. O AVC hemorrágico é mais raro, porém mais dramático e de pior prognóstico. A apresentação clínica é semelhante ao AVC isquêmico, porém, como o edema cerebral é mais intenso, há maior comprometimento da consciência(coma profundo) e de funções cerebrais vitais. O AVC do tipo lacunar, cuja ocorrência é quase exclusiva de indivíduos hipertensos, deve-se ao rompimento ou obstrução de vasos muito pequenos formando Figura 2 - Exsudato algonodoso NEFROLOGIA - 60 “lacunas” no parênquima cerebral, cujas conseqüências são mais tardias à medida que vários deles se sucedem. Na fase aguda pode simular um episódio isquêmico transitório. Comprometimento cardíaco A resposta da massa muscular cardíaca frente à elevação da pressão sistêmica é a hipertrofia ventricular esquerda, do tipo concêntrica. Embora a hipertrofia ventricular seja uma adaptação à elevação da pressão arterial, ela reduz a complacência do ventrículo esquerdo e predispõe à fibrose, dilatação e arritmias, principalmente as extra-sístoles ventriculares isoladas. Além disso, a hipertrofia ventricular esquerda constitui-se no maior fator de risco isolado para a ocorrência de complicações cardíacas como o infarto do miocárdio, arritmias graves e morte súbita. Os sintomas clínicos mais freqüentes e precoces referem-se à insuficiência cardíaca esquerda, que podem progredir para a insuficiência cardíaca congestiva. A aterosclerose que se instala no território das artérias coronárias também apresenta a hipertensão como um importante fator de risco, manifestando-se por episódios de angina e infarto do miocárdio. Comprometimento arterial periférico A hipertensão arterial leva a formação de aneurismas e obstruções no sistema arterial periférico. O aneurisma dissecante da aorta, presente quase que exclusivamente em hipertensos, é uma emergência. Nestes casos, a redução da pressão arterial é indispensável para interromper a dissecção da parede da aorta. Figura 3 - Hipertrofia ventricular concêntrica NEFROLOGIA - 61 O território mais comprometido pelas obstruções é aquele compreendido entre a aorta abdominal e as artérias femorais, mas os membros também podem ser acometidos. As manifestações clínicas mais freqüentes são: Claudicação intermitente; Trombose arterial de membros inferiores; Úlceras cutâneas. Figura 4 - Aneurisma dissecante da aorta NEFROLOGIA - 62 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Diuréticos Introdução Os diuréticos são drogas que aumentam o volume de formação da urina. O termo diurese refere-se ao aumento do volume urinário em si, através da perda de soluto e água. Seu uso é indicado para a manutenção do volume urinário e, principalmente, para a mobilização de líquido de edema, de modo a normalizar o volume extracelular. Com exceção dos diuréticos osmóticos, os diuréticos atuam diretamente sobre determinados segmentos do epitélio tubular, podendo atuar indiretamente nos outros segmentos. O organismo tende a reagir à diminuição do volume de líquido extracelular induzida pelos diuréticos através de mecanismos hemodinâmicos, neurais e endócrinos, que procuram conservar a água e os solutos. Além disso, todas as drogas nesta classe tem tendência a alterar a composição dos líquidos corporais através de diversos fatores como, por exemplo, a excreção seletiva de um único tipo de íon. Fisiologia Cada segmento do néfron tem um mecanismo de reabsorção diferente de sódio e de outros íons. A classificação dos diuréticos é baseada nos locais em que eles agem. Os efeitos dos agentes diuréticos são previsíveis a partir do conhecimento da função do segmento do néfron em que eles agem. Túbulo contorcido proximal Este segmento é responsável pela reabsorção de aminoácidos, glicose e cátions, assim como é o sítio de maior reabsorção de bicarbonato. A anidrase carbônica, enzima necessária para o processo de reabsorção do bicarbonato, é o alvo dos diuréticos inibidores da anidrase carbônica. O túbulo proximal é o responsável pela reabsorção de 40 a 65% do sódio. O transporte de ácido úrico é especialmente importante e é o alvo de algumas drogas utilizadas no tratamento da gota. Porção espessa da alça de Henle ascendente Este segmento bombeia sódio, potássio e cloreto do lume tubular para o interstício renal. O transporte desses íons é realizado por uma única proteína, que é o alvo dos diuréticos de alça. Vinte e sete a quarenta porcento do sódio filtrado no glomérulo é reabsorvido nesta localização. A porção espessa da alça de Henle ascendente também é um local importantíssimo para a reabsorção de cálcio e magnésio. NEFROLOGIA - 63 Túbulo contorcido distal Este segmento bombeia sódio e cloreto ativamente para fora do lume tubular. A enzima responsável por esse co-transporte é o alvo dos diuréticos tiazídicos. O túbulo contorcido distal é responsável por 6 a 16% da reabsorção de sódio. O cálcio também é reabsorvido nesta localização, na dependência de hormônio paratireóide. Figura 1 - Locais de ação dos agentes diuréticos sobre o néfron Arteríolas aferente e eferente Glomérulo Túbulo contorcido proximal Túbulo contorcido distal Ducto coletor Local de ação: O - Diuréticos osmóticos I - Inibidores da anidrase carbônica T - Benzotiazidas A - Diuréticos de alça P - Diuréticos poupadores de potássio NEFROLOGIA - 64 Túbulo coletor O túbulo coletor é o último sítio de reabsorção de sódio e é controlado pela aldosterona. Ele é responsável por 2 a 4% da reabsorção total de sódio. Os receptores da aldosterona e os canais de sódio são os locais de ação dos diuréticos poupadores de potássio. A reabsorção do sódio é acompanhada por perda equivalente de potássio ou íons hidrogênio. Assim, o túbulo coletor é o sítio primário de acidificação da urina. A reabsorção de água por este segmento é dependente de hormônio antidiurético (ADH). Diuréticos osmóticos O termo diurético osmótico é utilizado para referir-se a certos solutos que têm os seguintes atributos em comum: 1. São livremente filtráveis no glomérulo; 2. Têm absorção limitada pelo túbulo renal; 3. São relativamente inertes pelos critérios farmacológicos convencionais. O manitol é o diurético osmótico usado com maior freqüência. Outros fármacos que são classificados como diuréticos osmóticos mas que raramente são utilizados são a glicerina, a uréia e a isosorbida. Mecanismo de ação Um soluto não-reabsorvível na luz tubular proximal torna-se progressivamente concentrado à medida que ocorre reabsorção de líquido, produzindo uma contraforça para a reabsorção normal de água. Apesar da excreção de sódio geralmente estar aumentada, a reabsorção de sódio não diminui na mesma proporção que a de água e, em conseqüência, ocorre reabsorção relativamente maior de sódio do que de água. Na hiperglicemia grave, o mecanismo de reabsorção de glicose torna-se saturado e a porção não- reabsorvida atua como um diurético osmótico, assim como os agentes de contraste radiológicos. Usos terapêuticos Insuficiência renal aguda Cirurgias cardiovasculares Lesão traumática grave Operações em presença de icterícia grave Hemólise Rabdomiólise NEFROLOGIA - 65 Estado oligúrico Nesta situação, as drogas que inibem seletivamente a reabsorção de solutos em algum segmento tubular podem ser incapazes de aumentar o fluxo urinário, enquanto os diuréticos osmóticos geralmente mantém sua eficácia. Isquemia renal aguda de curta duração Os agentes nefrotóxicos e a insuficiência renal grave e prolongada podem lesar o epitélio tubular e provocar necrose tubular aguda comoligúria. Nesse estágio, o túbulo deixa de exibir a sua impermeabilidade seletiva e os diuréticos osmóticos tornam-se ineficazes. Hipertensão intracraniana Os diuréticos osmóticos podem reduzir a pressão e o volume do líquido céfalo-raquidiano ao elevar a osmolaridade do plasma, aumentando a difusão de água de volta para o plasma. Glaucoma A redução da pressão intra-ocular a curto prazo, sobretudo no pré e pós-operatório de pacientes que necessitam de cirurgia ocular, também pode ser conseguida com diuréticos osmóticos. Toxicidade Cefaléia, náuseas e vômitos são queixas comuns a todos os diuréticos osmóticos. As contra-indicações do manitol incluem: Doença renal de gravidade suficiente para produzir anúria, congestão ou edema pulmonares acentuados; Desidratação pronunciada; Hemorragia intracraniana. A infusão de manitol deve ser suspensa se o paciente apresentar: Sinais de disfunção renal progressiva; Insuficiência cardíaca; Congestão pulmonar. Inibidores da anidrase carbônica No início da década de 30 foi descoberta a enzima anidrase carbônica no interior dos eritrócitos. Posteriormente, essa enzima foi encontrada em muitos outros tecidos, incluindo o córtex renal, a mucosa gástrica, o pâncreas, olho e SNC. Quando a sulfanilamida, um derivado da sulfonamida, foi introduzida como agente quimioterápico, a acidose metabólica foi reconhecida como um NEFROLOGIA - 66 de seus efeitos colaterais. Verificou-se, então, que a droga inibia a anidrase carbônica e a acidificação normal da urina. Dentre o enorme número de sulfonamidas que já foram sintetizadas, a acetazolamida foi a mais extensamente estudada. Ela é um potente inibidor reversível da anidrase carbônica e age nas células do túbulo contorcido proximal. Após a administração de acetazolamida, verifica-se aumento imediato no volume urinário. O pH normalmente ácido da urina torna-se alcalino e a concentração urinária de bicarbonato aumenta, sendo equilibrada pelo sódio e por quantidades substanciais de potássio. A concentração urinária de cloreto, por sua vez, cai. Como conseqüência da excreção aumentada de bicarbonato e de cátions fixos, sobretudo o sódio, desenvolve-se acidose metabólica. Com o aumento progressivo da exposição de sódio ao túbulo coletor, uma proporção maior de sódio é trocada por potássio, resultando numa importante “perda” de potássio. A depleção do bicarbonato plasmático reduz a excreção de bicarbonato pelos rins, mesmo com a administração contínua do diurético, e a diurese fica autolimitada a 2 a 3 dias. Além da sua ação sobre o rim e sobre o plasma, a acetazolamida age sobre diversos órgãos que contém a enzima anidrase carbônica como, por exemplo, no olho, reduzindo a formação de humor aquoso; no SNC, reduzindo a formação de líquido céfalo-raquidiano; no trato gastrointestinal; etc. A aplicação mais comum dos inibidores da anidrase carbônica consiste em reduzir a pressão intra-ocular. A acetazolamida é raramente utilizada como diurético, mas pode ser útil para a alcalinização da urina. Benzotiazidas As benzotiazidas foram sintetizadas na tentativa de aumentar a potência dos inibidores da anidrase carbônica, mas uma reação química inesperada produziu substâncias com novas propriedades farmacológicas. A urina eliminada continha quantidades aumentadas de cloreto, representando uma resposta significativamente diferente daquela produzida pelos compostos originais. Estudos posteriores indicaram que o efeito das benzotiazidas independe de qualquer ação sobre a anidrase carbônica. As benzotiazidas também podem ser designadas como diuréticos benzotiazídicos ou tiazídicos. Os principais diuréticos tiazídicos são a hidroclorotiazida, a diidroclorotiazida e a clortalidona. Mecanismo de ação As tiazidas atuam diretamente sobre o rim aumentando a excreção de cloreto de sódio, água e potássio. Elas variam amplamente na sua potência como inibidores da anidrase carbônica. Todavia, tal fenômeno é raramente observado na prática clínica. As tiazidas são ativamente secretadas no túbulo proximal e seu principal local de ação é a porção inicial do túbulo distal. NEFROLOGIA - 67 Sua ação pode ser atribuída ao bloqueio do co- transporte de Na + -Cl – e o diurético deve estar no lume tubular para exercer seu efeito. A taxa máxima de excreção de sódio induzida pelas tiazidas é moderada em relação à que se pode obter com outros tipos de diuréticos. Isso resulta do fato de que cerca de 80% do Na + filtrado é reabsorvido antes do túbulo distal. A excreção de potássio induzida pelos tiazídicos ocorre devido ao aumento do fluxo tubular nos segmentos distais ao local de ação dos tiazídicos, que é estimulante para a secreção de K + . Esse efeito pode ser facilmente observado na administração a curto prazo de tiazídicos, mas na administração a longo prazo ele pode ser insignificante. Alguns diuréticos tiazídicos também exibem atividade hiperglicemiante e hiperuricemiante. Os tiazídicos determinam aumento nas concentrações plasmáticas de colesterol e triglicerídeos através de mecanismos desconhecidos. A taxa de filtração glomerular pode ser reduzida por ação direta dos tiazídicos sobre a vascularização renal. Esse efeito pode adquirir importância clínica nos pacientes com reserva renal diminuída. Ao contrário de alguns outros fármacos natriuréticos, os tiazídicos reduzem a excreção renal de Ca +2 e aumentam a excreção de Mg +2 . Como os iodetos e os brometos são excretados por mecanismos renais qualitativamente semelhantes aos cloretos, todos os agentes cloruréticos podem ser úteis no tratamento da intoxicação por brometos. Além disso, a excreção aumentada de iodeto, sobretudo na terapia diurética prolongada, pode produzir ligeira depleção de iodo. Farmacocinética A clorotiazida não é bem absorvida pelo trato gastrointestinal, sendo sua absorção de cerca de 10%. As outras drogas desta classe caracterizam-se por uma biodisponibilidade muito maior. A maioria dessas drogas produz efeito diurético demonstrável dentro de uma hora após sua administração oral. Todavia, a persistência das drogas no organismo varia acentuadamente, de acordo com suas meia-vidas. Várias dessas drogas apresentam-se no interior dos eritrócitos, talvez em conseqüência da ligação à anidrase carbônica. A ligação às proteínas plasmáticas também varia consideravelmente. Toxicidade A toxicidade clínica das tiazidas é rara em decorrência de que sua dose tóxica é muitas vezes maior do que a necessária para sua ação farmacológica. NEFROLOGIA - 68 Foram relatados casos de hipersensibilidade inesperada, púrpura, fotodermatite, redução dos elementos figurados do sangue, pancreatite aguda e vasculite necrotizante. Pode haver hipocalemia, quando se indica suplementação de potássio ou associação com um diurético poupador de K + . O nível plasmático de ácido úrico está quase sempre elevado e, em raras ocasiões, pode haver hipercalcemia e hipofosfatemia, simulando o hiperparatireoidismo. As insuficiências renal e/ou hepática limítrofe podem ser imprevisivelmente agravadas pelos tiazídicos. A hiperglicemia pode agravar um diabetes mellitus preexistente. Não se sabe se o aumento nas concentrações plasmáticas de colesterol e triglicerídeos aumenta o risco de aterosclerose. Usos terapêuticos Edema da insuficiência cardíaca congestiva; Edema de doença hepática crônica; Edema de doença renal crônica; Hipertensão arterial sistêmica; Controle da hipercalciúria em pacientes com cálculos urinários recorrentes compostos de sais de cálcio. Diuréticos de alça Existem atualmente duas drogas desta classe que são utilizadas clinicamente no Brasil, o furosemide e a bumetamida. Nos Estados Unidos, utiliza-se também o ácido etacrínico. Farmacocinética Os diuréticos de alça são rapidamente absorvidos pelo trato gastrointestinal, ainda que em graus variáveis. Por exemplo, a biodisponibilidade da furosemida é de cerca de 60%, enquanto a da bumetamida é de quase 100%. Após serem absorvidos, esses diuréticos ligam-se extensamente às proteínas plasmáticas. Sua excreção renal é rápida e ocorre nos túbulos proximais, quando eles vão ter acesso ao líquido tubular e, eventualmente, ao seu local de ação mais distal. Os diuréticos de alça podem ser excretados pelos rins ou pelo fígado. A meia-vida de todos esses diuréticos é curta (1 a 2 horas), e cada um deles tem duração de ação situada na faixa de 3 a 6 horas. Toxicidade As anormalidades do equilíbrio hidroeletrolítico constituem as formas mais comuns de toxicidade clínica, enquanto os efeitos colaterais não relacionados à ação primária dessas drogas são muito raros. NEFROLOGIA - 69 A hiperuricemia é relativamente comum. Outras reações incluem distúrbios gastrointestinais (com o sem sangramento), redução dos elementos figurados do sangue, exantemas cutâneos, parestesias e disfunção hepática. A furosemida tem sido implicada como causa de nefrite intersticial alérgica, com conseqüente desenvolvimento de insuficiência renal reversível; e com a ocorrência de surdez transitória. Pode ocorrer diminuição da tolerância aos carboidratos, porém em menor grau do que aquele observado com os diuréticos tiazídicos. Os diuréticos de alça podem interagir de modo adverso com outras drogas devido a sua ligação com a albumina plasmática. A depuração renal do Li + diminui durante a terapia prolongada com diuréticos. A furosemida também aumenta a nefrotoxicidade produzida pela cefaloridina (cefalosporina). Usos terapêuticos Edema da insuficiência cardíaca congestiva; Edema de doença hepática crônica; Edema de doença renal crônica; Insuficiência renal aguda; Hipercalcemia sintomática. Espironolactona Mecanismo de ação A espironolactona é um antagonista competitivo das ações dos mineralocorticóides, dentre os quais a aldosterona é o mais potente. Quando a espironolactona liga-se ao receptor da aldosterona na porção final do túbulo distal e do sistema coletor, ela o impede de assumir uma conformação ativa. Então, a ação global da aldosterona, que consiste em elevar a reabsorção de Na + e a excreção de K + , fica prejudicada. Além disso, a espironolactona aumenta a excreção de Ca +2 através de um efeito direto sobre o transporte tubular. Em concentrações relativamente altas, a espironolactona pode também inibir a biossíntese de aldosterona. Farmacocinética Cerca de 70% de uma dose oral de espironolactona é absorvida, mas o composto é significativamente metabolizado durante a sua primeira passagem pelo fígado. A ligação às proteínas plasmáticas é extensa. Toda espironolactona é metabolizada antes de ser excretada nos rins. Um metabólito importante desse processo é a canrenona. NEFROLOGIA - 70 Toxicidade Os efeitos tóxicos mais graves da espironolactona resultam da hipercalemia. Além disso, foram relatadas algumas reações de menor gravidade, que costumam ser reversíveis com a suspensão da droga, tais como ginecomastia, efeitos colaterais semelhantes aos efeitos androgênicos e sintomas gastrointestinais leves. Usos terapêuticos Hipertensão arterial sistêmica; Controle do edema refratário; Diagnóstico e controle das doenças metabólicas e renais associadas com hipocalemia e depleção de potássio. Outros diuréticos poupadores de potássio As duas drogas pertencentes a esta classe que são utilizadas clinicamente são o triamtereno e o amiloride. Ambas possuem atividade natriurética moderada, suficiente para a manutenção de alguns pacientes. Entretanto, são utilizadas mais freqüentemente pelos seus efeitos sobre o potássio. Mecanismo de ação O triamtereno e o amiloride interferem no transporte dos segmentos finais do néfron, produzindo elevação moderada da excreção de Na + , acompanhada principalmente pelo íon cloreto, e apenas um leve aumento na excreção de K + . Todavia, quando a excreção de potássio está elevada em virtude da maior ingestão do elemento, da administração de outro diurético ou de excesso de mineralocorticóides, tais drogas provocam acentuada redução na sua excreção. Em muitos aspectos, esses efeitos assemelham- se aos da espironolactona, mas está bem claro que essas drogas não são antagonistas da aldosterona. Sua principal ação consiste em inibir a entrada eletrogênica de sódio ou agir como um inibidor competitivo do transporte de Na + ou por outros mecanismos não esclarecidos. Em virtude da interrupção do transporte eletrogênico de Na + por esses fármacos, o potencial elétrico através do epitélio tubular cai. A redução ou eliminação desse potencial, que é uma das forças propulsoras para a secreção de K + , representa provavelmente a base do efeito poupador de potássio. Os diuréticos poupadores de potássio também podem provocar leve alcalinização da urina, atribuível à inibição da secreção de prótons no néfron distal. O amiloride também diminui a excreção de Ca +2 . NEFROLOGIA - 71 Farmacocinética Cerca de 50% de uma dose oral de amiloride e triamtereno é absorvida no tubo gastrointestinal. O triamtereno liga-se às proteínas plasmáticas numa proporção maior do que o amiloride. O amiloride não é metabolizado, enquanto o metabolismo de triamtereno é muito extenso, e alguns de seus metabólitos possuem atividade diurética. Ambas as drogas são secretadas no túbulo proximal. Toxicidade O efeito tóxico mais grave dos diuréticos poupadores de potássio é a hipercalemia. O triamtereno produz relativamente poucos outros efeitos colaterais, que incluem náuseas, vômitos, cãibras de perna e tonturas. É relativamente comum a presença de uremia leve a moderada. Foi relatada a ocorrência de anemia megaloblástica em pacientes com cirrose alcoólica. Alguns pacientes que receberam triamtereno desenvolveram nefrolitíase. Os efeitos colaterais mais comuns do amiloride, além da hipercalemia, consistem em náuseas, vômitos, diarréia e cefaléia. Usos terapêuticos Alguns pacientes com edema apresentam resposta diurética satisfatória ao diurético poupador de potássio isoladamente. Todavia, a maior utilidade dessas drogas reside em seu uso concomitante com outros diuréticos, principalmente as benzotiazidas. Em virtude de induzir hipercalemia grave, os pacientes tratados com diurético poupador de potássio não devem receber suplementos de K + . Além disso, deve-se cuidar com a sua associação aos inibidores da enzima angiotensina, visto que estas drogas reduzem a secreção de aldosterona. De modo semelhante, o triamtereno ou o amiloride não devem ser prescritos com espironolactona. Nos casos em que foi feita tal associação, verificou-se a ocorrência de um grau inesperadamente elevado de hipercalemia. Metilxantinas As metilxantinas são conhecidas há muito tempo pela sua ação diurética. Dentre elas, a teofilina é a que possui maior ação sobre o rim.NEFROLOGIA - 72 Mecanismo e ação A diurese induzida pela teofilina provavelmente resulta, em parte, do aumento no fluxo sangüíneo renal e da taxa de filtração glomerular. Todavia, as metilxantinas também parecem exercer ações diretas sobre o túbulo renal. Usos terapêuticos As metilxantinas são raramente empregadas como diuréticos primários. Entretanto, quando utilizadas com outras finalidades, sobretudo como broncodilatadores, deve-se considerar a coexistência de sua ação diurética. NEFROLOGIA - 73 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Síndrome nefrótica Introdução A síndrome nefrótica é caracterizada por: Proteinúria; Hipoalbuminemia; Edema; Hiperlipidemia e Lipidúria. Essas anormalidades são conseqüência de uma filtração glomerular deficiente, que pode ser causada por uma variedade de processos patológicos, incluindo doenças imunológicas, intoxicação, anormalidades metabólicas, defeitos bioquímicos e distúrbios vasculares. Assim a síndrome nefrótica é o desfecho comum de uma variedade de processos patológicos que alteram as propriedades de permeabilidade da parede capilar glomerular. Fisiopatologia Os glomérulos são normalmente perfundidos com plasma contendo mais de 60.000 g de proteína por dia. Apesar disso, apenas 150 mg de proteína são excretados na urina final, graças a uma barreira de filtração glomerular que inclui células endoteliais, membrana basal, células epiteliais e diafragmas fenestrados. A principal característica da síndrome nefrótica é a proteinúria. Arbitrariamente, as taxas de excreção urinária total de proteínas superiores a 3,5 g por 1,73 m 2 de área corporal por dia (ou concentração urinária de proteínas superior a 0,4 mg/mEq de creatinina) são consideradas na faixa nefrótica, principalmente pelo fato de que esse grau de proteinúria é raramente observado em doenças túbulo intersticiais ou vasculares renais. Na presença de doença glomerular difusa, mais de 40 gramas de proteína podem ser excretados na urina de alguns pacientes a cada dia. Uma proteinúria elevada e constante é freqüentemente, mas não invariavelmente, acompanhada por hipoalbuminemia (< 3,0 g/dl), que ocorre quando a perda urinária excessiva e o catabolismo renal da albumina filtrada excedem a velocidade de síntese hepática. O resultante decréscimo na pressão oncótica plasmática leva a um distúrbio nas forças de Starling ao longo dos capilares periféricos, diminuindo a reabsorção de líquido intersticial e produzindo edema. Esse distúrbio leva a uma diminuição no volume efetivo de sangue circulante, o que ativa uma série de mecanismos compensatórios, tais como o sistema renina-angiotensina-aldosterona, a secreção do hormônio antidiurético, a estimulação do sistema nervoso simpático e alterações no metabolismo do peptídeo natriurético atrial, que causam uma maior reabsorção de sódio e água pelos rins e resultam na intensificação do edema. NEFROLOGIA - 74 A diminuição na pressão oncótica plasmática também parece estimular a síntese hepática de colesterol, triglicerídeos e lipoproteínas resultando em hiperlipidemia. A elevação das proteínas de baixa densidade (LDL) e a hipercolesterolemia geralmente são as primeiras anomalias observadas mas, a medida que a pressão oncótica plasmática cai, as lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL) e os triglicerídeos também aumentam. A excreção urinária de fatores proteicos plasmáticos que regulam o metabolismo das lipoproteínas também pode contribuir para a hiperlipidemia. A excreção urinária de lipídeos (lipidúria) apresenta-se como gordura livre, corpúsculos gordurosos ovais e ácidos graxos, todos os quais apresentam um padrão de cruz de malta à luz polarizada. A lipidúria acompanha o nível de excreção de proteínas e não os níveis séricos de lipídeos. As perdas de outras proteínas plasmáticas na urina, além da albumina, também são importantes. Por exemplo, a excreção da globulina de ligação da tiroxina pode produzir anormalidades nos testes de função tireoidiana; a excreção de transferrina pode resultar em uma anemia microcítica e hipocrômica resistente ao ferro; as perdas de antitrombina III, proteína C e proteína S são responsáveis por uma estado de hipercoagulação que freqüentemente acompanha a síndrome nefrótica grave; alguns pacientes podem desenvolver uma deficiência de IgG grave; etc. Figura 1 - Representação esquemática da barreira de filtração glomerular Membrana basal glomerular Endotélio Hemácia Células pedicelares Processos pedicelares epiteliais Células endoteliais Células mesangiais Matriz mesangial NEFROLOGIA - 75 Complicações As principais complicações metabólicas da síndrome nefrótica são a desnutrição proteica grave; hipercoagulabilidade, levando a complicações tromboembólicas; e insuficiência renal aguda. Acredita-se que a hipercoagulabilidade seja uma conseqüência da alteração dos níveis dos fatores de coagulação e do aumento da susceptibilidade das plaquetas à agregação. As complicações tromboembólicas resultantes são razoavelmente comuns, incluindo oclusões periféricas espontâneas, oclusões arteriais pulmonares e oclusões venosas renais. A trombose venosa renal, antigamente, era considerada uma causa e não uma conseqüência da síndrome nefrótica. Ela pode produzir certas lesões glomerulares, tais como glomerulonefrite membranosa ou membranoproliferativa e amiloidose. Características sugestivas de trombose venosa renal aguda incluem dor em flanco que pode ser bilateral, hematúria macroscópica, varicocele no lado esquerdo, ritmo de filtração glomerular flutuante, proteinúria e assimetria renal. A trombose venosa renal crônica é geralmente assintomática. O risco de trombose venosa renal ou trombose venosa profunda está aumentado nos pacientes com níveis de albumina sérica muito baixos (menos de 2 g/dl). A presença de uma complicação tromboembólica geralmente é vista como uma indicação para o uso de anticoagulantes orais por longo período de tempo. Contudo, o efeito da heparina pode ser bloqueado por uma deficiência concomitante de antitrombina III, um fator necessário para a ação desse anticoagulante. A insuficiência renal da síndrome nefrótica muito raramente ocorre devido a rápida evolução da doença renal subjacente, pois a maioria das doenças que causam a síndrome nefrótica evolui muito lentamente. Entretanto, a insuficiência renal aguda ocorre em conseqüência dos vários distúrbios potencialmente tratáveis sobrepostos a doença glomerular nefrótica. Entre eles estão a redução da perfusão renal devido a redução no volume efetivo de sangue circulante, o edema renal intersticial e o edema periférico significativo, nefrite intersticial alérgica, trombose aguda bilateral da veia renal e redução da perfusão glomerular devido ao uso de antiinflamatórios não-esteroidais. Outras complicações que também podem estar associadas a síndrome nefrótica incluem deficiência grave de IgG, disfunção tubular proximal com sinais de síndrome de Fanconi, deficiências de oligoelementos como ferro, cobre e zinco, e perda de vitamina D, com desenvolvimento de osteomalácia e hiperparatireoidismo secundário. Figura 2 - Trombose venosa renal NEFROLOGIA - 76 Etiologia A etiologia da síndrome nefrótica inclui praticamente todos os distúrbios que podem afetar o glomérulo. Aproximadamente um terço dos adultos e um décimo das crianças apresentam a síndrome nefrótica como manifestação de alguma doença sistêmica. No restante dos adultose na maioria das crianças a síndrome nefrótica é idiopática. As principais causas de síndrome nefrótica são: Idiopática Doença de alterações mínimas Glomerulonefrite mesangioproliferativa Glomeruloesclerose segmentar e focal com hialinose Glomerulonefrite membranosa Glomerulonefrite membranoproliferativa Tipo I Tipo II Outras variantes Outras lesões incomuns Glomerulonefrite crescente Glomerulonefrite proliferativa segmentar e focal Glomerulonefrite fibrilar Glomerulopatia imunotactóide Doenças sistêmicas Infecções Glomerulonefrite pós-estreptocóccica Endocardite Nefrite por shunt Sífilis secundária Lepra Hepatite B e C HIV Mononucleose Malária Esquistossomíase Filariose Neoplasia Doença de Hodgkin Linfomas Leucemia Carcinomas - Pulmão - Mama - Cólon NEFROLOGIA - 77 Melanoma Tumor de Wilms Doenças multisistêmicas Diabetes mellitus Lupus Eritematoso Sistêmico Púrpura de Henoch-Schönlein Vasculite Doença de Goodpasture Dermatomiosite Dermatite herpetiforme Amiloidose Sarcoidose Síndrome de Sjögren Artrite reumatóide Doenças mistas de tecido conectivo Heredofamiliar Diabetes mellitus Síndrome de Alport Doença falciforme Doença de Fabry Lipodistrofia Síndrome nefrótica congênita Miscelânea Toxemia pré-eclâmptica Glomerulopatia de transplante Tireoidite Mixedema Obesidade maligna Hipertensão renovascular Nefrite intersticial crônica com refluxo vesicouretérico Drogas Ouro orgânico Mercúrio orgânico, inorgânico e elementar Penicilamina Heroína Agentes antiinflamatórios não-esteroidais Probenecide Captopril Tridione Mesantoína Perclorato NEFROLOGIA - 78 Síndrome nefrótica idiopática O diagnóstico da síndrome nefrótica idiopática é realizado pela exclusão das causas conhecidas, tais como as infecções, a exposição medicamentosa, neoplasias, doenças multisistêmicas e doenças hereditárias. A exclusão dessas doenças pode as vezes ser difícil, uma vez que elas podem existir em uma forma oculta, principalmente com relação ao câncer e as hepatites. As formas idiopáticas são subclassificadas de acordo com as suas características morfológicas à biópsia renal. A realização da biópsia renal, pelo menos nos adultos, é requerida para uma classificação correta de síndrome nefrótica idiopática, para a formulação de um plano racional de tratamento e para a avaliação de uma possível progressão para insuficiência renal. As crianças nem sempre precisam ser submetidas a uma biópsia renal, pois sua avaliação clínica geralmente fornece um diagnóstico preciso. Doença de alterações mínimas Antigamente, essa doença era denominada de nefrose lipóide ou lesão mínima. Nessa forma de síndrome nefrótica idiopática, pouca ou até nenhuma alteração dos capilares glomerulares são demonstráveis a microscopia, daí o nome “alterações mínimas”. Apesar de leves graus de hipercelularidade poderem ser observados no glomérulo, os glomérulos possuem um tamanho normal, em contradição a esclerose focal existente. A perda difusa ou fusão dos processos pedicelares epiteliais é evidente a microscopia eletrônica. A imunofluorescência revela uma ausência de depósitos de imunoglobulinas e de complementos ou uma presença irregular e inespecífica desses elementos. Figura 3 - Glomérulo aparentemente normal na doença de alterações mínimas NEFROLOGIA - 79 Figura 4 - Representação esquemática das alterações observadas na doença de alterações mínimas à microscopia eletrônica Figura 5 - Microscopia eletrônica na doença de alterações mínimas evidenciando a perda difusa ou fusão dos processos pedicelares epiteliais Endotélio Perda difusa dos processos pedicelares epiteliais Membrana basal glomerular Hemácia Células pedicelares Células endoteliais Células mesangiais Matriz mesangial NEFROLOGIA - 80 A doença de alterações mínimas é a forma mais freqüente de síndrome nefrótica idiopática encontrada em crianças, responsável por mais de 70 a 80% dos casos diagnosticados antes dos 16 anos de idade. Seu pico de prevalência encontra-se entre os 2 e os 8 anos de idade. Esta lesão não é rara nos adultos, representando cerca de 15 a 20% dos casos de síndrome nefrótica idiopática nos indivíduos acima dos 16 anos. Há uma pequena predisposição para os homens. Tipicamente, os pacientes apresentam-se com: Síndrome nefrótica; Pressão arterial normal; Ritmo de filtração glomerular normal ou levemente reduzido Exceto nos pacientes que desenvolvem esclerose focal ou segmentar; Sedimento urinário benigno. Graus variados de hematúria microscópica são encontrados em mais de 20% dos casos. Nas crianças, as proteínas urinárias são caracteristicamente seletivas, contendo principalmente albumina e quantidades mínimas de proteínas plasmáticas de alto peso molecular, tais como IgG, alfa-2-macroglobulina e C3. Nos adultos as proteínas são variáveis. Em alguns casos, pode haver história de atopia associada, uma história de imunização recente ou de infecção respiratória alta. O antígeno de histocompatibilidade HLA-B12 é mais prevalente quando a doença de alterações mínimas está associada com atopia, indicando uma possível predisposição genética para esta doença. Como complicação, manifestações tromboembólicas podem ocorrer, mas a trombose de veia renal é incomum. As complicações com morte estão mais relacionadas com o tratamento da doença do que com a doença por si mesma. Raramente ocorre insuficiência renal aguda, principalmente pelo uso de glicocorticóides e diuréticos. Remissão espontânea e recidivas de proteinúria intensa podem ocorrem em 30 a 40% dos pacientes sem tratamento. Além disso, há uma associação entre a doença de alterações mínimas e a doença de Hodgkin, na qual a síndrome nefrótica pode ser o sinal de apresentação de um linfoma oculto. Como a sua etiologia e a sua fisiopatologia ainda são desconhecidas, o tratamento é empírico e sintomático. Os glicocorticóides aumentam a tendência natural da doença de sofrer remissão espontânea. A administração em dias alternados é preferida a administração diária devido ao seu menor índice de complicações. Mais de 95% das crianças com doença de alterações mínimas apresentam desaparecimento completo da proteinúria 8 semanas após a instituição da corticoterapia. Por isso, e também por causa da alta incidência dessa doença nas crianças com sintomatologia de síndrome nefrótica, a maioria dos pediatras institui o tratamento sem realizar uma biópsia renal. O completo desaparecimento da sintomatologia nessas circunstâncias confirma o seu diagnóstico. NEFROLOGIA - 81 No adulto, somente 50% dos pacientes com doença de alterações mínimas respondem em 8 semanas de tratamento, sendo a resposta terapêutica máxima alcançada em 20 a 24 semanas. Os pacientes com mais de 40 anos parecem responder menos do que aqueles com menos de 40 anos. Contudo, devido a maior prevalência de outras lesões e pelo fato de que outras patologias respondem a corticoterapia, a resposta terapêutica de um paciente adulto com síndrome nefrótica idiopática não pode ser considerada como doença de alteração mínima. Entre crianças e adultos, 50 a 60% dos pacientes apresentam recorrência aofinal ou após o término do tratamento. A retirada súbita dos glicocorticóides parece predispor a recorrência, enquanto as remissões espontâneas, sem tratamento, parecem ser mais estáveis e apresentar uma menor freqüência de recorrências. Glomerulonefrite mesangioproliferativa Suas lesões são caracterizadas por um aumento moderado e difuso na celularidade dos capilares glomerulares. A parede dos capilares glomerulares periféricos são finas e delicadas, e não ocorre proliferação extracapilar. A natureza precisa das células proliferativas ainda não está claramente definida, mas parece ser uma combinação de células mesangiais, células endoteliais e células mononucleares infiltradas. O envolvimento glomerular é geralmente uniforme, mas pode haver acentuação da hipercelularidade em algumas áreas. Não ocorre necrose nos glomérulos. Os achados da microscopia eletrônica são inespecíficos. Esta patologia atinge aproximadamente 5% dos adultos com síndrome nefrótica idiopática e cerca de 5 a 10% das crianças. Ela é mais comum nos adultos jovens e adolescentes, tendo uma pequena predisposição por homens. Clinicamente, uma hematúria tanto macroscópica quanto microscópica é comum. Dor lombar, uni ou bilateral, pode ser observada na doença idiopática, mas é mais freqüente nos pacientes que apresentam uma nefropatia de IgA associada. As manifestações laboratoriais são incaracterísticas. A função renal pode estar modestamente diminuída ou normal ao diagnóstico. Os níveis de complemento geralmente estão normais enquanto os níveis de IgG podem estar diminuídos e os de IgA aumentados. Os títulos de antiestreptolisina O são geralmente normais. A proteinúria não é seletiva. Entre os pacientes com síndrome nefrótica e uma proliferação mesangial difusa moderada ou grave, há uma tendência de persistência da proteinúria e progressão para insuficiência renal, principalmente se houver sobreposição de esclerose glomerular segmentar e focal na primeira biópsia. Os pacientes com uma forma de glomerulonefrite mesangioproliferativa mais leve, especialmente aqueles sem deposição de imunoglobulinas ou glomeruloesclerose associadas, tendem a ter um curso mais benigno. Alguns pacientes, principalmente as crianças, apresentam um curso semelhante ao da doença de alterações mínimas. NEFROLOGIA - 82 As lesões mesangioproliferativas bem desenvolvidas, principalmente em associação com depósitos de imunoglobulinas, geralmente não respondem a corticoterapia e tendem a evoluir com o tempo para uma esclerose glomerular focal e segmentar. Os pacientes que apresentam remissão da proteinúria após o tratamento com glicocorticóides geralmente evoluem bem, com poucas chances de progredirem para uma insuficiência renal. Recidivas e exacerbações da proteinúria podem ocorrer. Os pacientes que não respondem ao tratamento com corticosteróides apresentam uma progressão variada para insuficiência renal. O prognóstico da glomerulonefrite mesangioproliferativa varia conforme a gravidade da doença. Os pacientes com graus leves de proliferação que respondem a corticoterapia tem um bom prognóstico, enquanto aqueles que não respondem ao tratamento e que apresentam glomeruloesclerose segmentar e focal na primeira biópsia tem um prognóstico ruim, e freqüentemente desenvolvem insuficiência renal em 5 a 10 anos. Glomeruloesclerose segmentar e focal com hialinose Esta lesão é caracterizada pela esclerose e hialinose de alguns, mas não de todos os glomérulos (focal). Entre os glomérulos afetados, somente uma porção deles é anormal (segmentar). O aumento dos glomérulos menos acometidos é característico desta patologia. Há uma tendência de, inicialmente, serem afetados os glomérulos justamedulares e de haver uma progressiva destruição tubulointersticial. À microscopia eletrônica, as áreas não escleróticas mostram uma perda difusa dos processos pedicelares característica da doença de alterações mínimas mas, além disso, apresentam um descolamento focal e pronunciado das células epiteliais com desnudação da membrana basal glomerular subjacente. Na imunofluorescência, depósitos de IgM e C3 estão presentes nas massas hialinas das áreas escleróticas. Figura 6 - Aspecto de um glomérulo normal (a esquerda) em comparação a um glomérulo com esclerose segmentar presente na glomeruloesclerose segmentar e focal com hialinose (a direita) NEFROLOGIA - 83 Além da esclerose focal, freqüentemente há um espessamento hialino pronunciado das arteríolas aferentes e, ocasionalmente, alguns glomérulos encontram-se totalmente esclerosados (esclerose global). Com o desenvolver da doença, um maior número de glomérulos tornam-se envolvidos e a esclerose dissemina-se em cada glomérulo, levando a uma esclerose total, com acentuada atrofia tubular e fibrose intersticial. Esta patologia compreende cerca de 10 a 15% dos casos de síndrome nefrótica idiopática nas crianças e é mais comum nos adultos, particularmente entre as idades de 16 a 30 anos. Os homens são mais afetados que as mulheres. A esclerose focal pode representar um estágio na evolução de um subgrupo de pacientes com a doença de alterações mínimas ou com glomerulonefrite mesangioproliferativa pura. Alguns pacientes com glomeruloesclerose segmentar e focal podem apresentar proteinúria fora do espectro nefrótico. Clinicamente, geralmente ocorre: Hipertensão; Diminuição do ritmo de filtração glomerular; Função tubular anormal; Sedimento urinário anormal Leucocitúria e hematúria A esclerose focal pode apresentar características clínicas e laboratoriais indistingüíveis da doença de alterações mínimas, da glomerulonefrite mesangioproliferativa e da glomerulopatia membranosa. A proteinúria é quase sempre não-seletiva e os produtos de degradação da fibrina e C3 podem estar presentes na urina. Os níveis séricos de C3 são normais e os níveis de IgG estão diminuídos, mas não tanto quando na doença de alterações mínimas. Lesões semelhantes podem ser observadas em associação com a overdose de heroína, refluxo vesicoureteral, AIDS, obesidade patológica, “rim solitário”, etc. e podem complicar outras doenças glomerulares primárias em estágios tardios. Há pouca tendência para uma remissão espontânea, principalmente entre crianças. Figura 7 - Microscopia eletrônica e imunofluorescência na glomeruloesclerose segmentar e focal com hialinose NEFROLOGIA - 84 Os pacientes com esclerose focal, proteinúria maciça (maior que 1,5 a 2 g/dl) e acentuada hipoalbuminemia rapidamente progridem para uma insuficiência renal. Os esteróides exercem um efeito benéfico nesta patologia, diminuindo a proteinúria em 20 a 40% dos pacientes e, com isso, reduzindo o risco de insuficiência renal progressiva. A resposta dos pacientes que já desenvolveram insuficiência renal é menor. Os inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) ou outros medicamentos anti-hipertensivos com efeitos antiproteinúricos podem ser úteis nos pacientes com proteinúria maciça e/ou função renal moderadamente alterada. Como geralmente ocorre uma hiperlipidemia grave na esclerose focal, seu tratamento com agentes hipolipidêmicos deve ser realizado. Pelo menos metade dos pacientes com proteinúria maciça persistente desenvolvem insuficiência renal terminal ou morrem de doenças intercorrentes dentro de 10 anos após o diagnóstico. A taxa de desenvolvimento de insuficiência renal é inversamente proporcional à magnitude da proteinúria. O prognóstico é pior nos pacientes com azotemia ou hipertensão na época do diagnóstico. Glomerulonefrite membranosaA glomerulonefrite membranosa é a principal causa de síndrome nefrótica no adulto. Esta lesão é caracterizada pela deposição irregular e descontínua de depósitos de proteínas ao longo do lado epitelial da parede capilar glomerular. Esses depósitos contém IgG e algumas vezes C3 e complementos de ação tardia e aparecem a microscopia eletrônica como regiões densas. Figura 8 - Microscopia eletrônica da glomerulonefrite membranosa NEFROLOGIA - 85 Ao contrário da esclerose focal, todos os glomérulos estão uniformemente envolvidos na glomerulonefrite membranosa. Num estágio inicial, a maioria dos glomérulos podem parecer normais a microscopia, mas a medida que a doença progride, depósitos imunes coalescem e um novo material semelhante ao da membrana basal é produzido, causando o espessamento da parede capilar. Hemácia Membrana basal glomerular Endotélio Depósitos eletrodensos Células pedicelares Células endoteliais Células mesangiais Matriz mesangial Figura 9 - Representação esquemática das alterações observadas na glomerulonefrite membranosa à microscopia eletrônica NEFROLOGIA - 86 Eventualmente, o aumento da quantidade de material da membrana basal se projeta em direção ao espaço urinário, dando a aparência de “spikes”. Essas estruturas são melhor visualizadas quando coradas pela prata, que colore a membrana basal de negro. Há pouca proliferação das células endoteliais capilares ou das células mesangiais, mas uma esclerose mesangial pode ocorrer nos casos avançados. A atrofia tubulointersticial e lesões vasculares são outras manifestações tardias. A imunofluorescência demonstra a presença tanto de imunoglobulinas quanto de complemento nos depósitos imunes da parede glomerular. Este distúrbio compreende 30 a 40% dos casos de síndrome nefrótica idiopática nos adultos, mas é raro nas crianças. Em mais de 80% dos casos, a síndrome nefrótica é conhecida. Nos restantes, somente uma proteinúria isolada é encontrada. Os homens são afetados mais freqüentemente do que as mulheres. A pressão arterial, o ritmo de filtração glomerular e o sedimento urinário tendem a ser normais nos estágios iniciais da doença, tornando difícil distinguí-la da doença de alterações mínimas por bases clínicas. A seletividade das proteínas urinárias é variável. A excreção de antígenos de reação tardia na urina pode indicar a formação de depósitos imunes subepiteliais. Os níveis de complemento sérico são normais, mas os níveis de IgG geralmente estão diminuídos. Figura 10 - Glomérulo normal e glomérulo presente na glomerulonefrite membranosa, respectivamente Figura 11 - Glomerulonefrite membranosa corada pela prata (a esquerda) e à imunofluorescência (a direita) NEFROLOGIA - 87 A glomerulonefrite membranosa pode se desenvolver juntamente com o Lupus Eritematoso Sistêmico, algumas infecções crônicas (hepatite B, sífilis, esquistossomose e malária), distúrbios metabólicos (DM e tireoidites), tumores sólidos (carcinoma pulmonar ou melanoma) ou exposição a metais pesados (ouro e mercúrio) ou drogas (penicilamina e captopril). Desde que essas causas podem estar ocultas na época da apresentação da doença, uma procura cuidadosa deve ser feita em todos os casos de glomerulonefrite membranosa. Por causa da presença uniforme de imunoglobulinas e complemento nos depósitos da parede capilar glomerular, acredita-se que a glomerulonefrite membranosa é uma forma de doença mediada por complexos antígeno- anticorpo. A susceptibilidade genética é sugerida pelo aumento na prevalência de HLA-DR3 nos pacientes europeus e de HLA-DR2 nos japoneses. A trombose venosa renal é freqüente. Uma remissão espontânea completa da síndrome nefrótica é comum nas crianças e ocorre em 20 a 40% dos adultos. Insuficiência renal lentamente progressiva é vista em 20 a 30% dos pacientes, geralmente 3 anos ou mais depois do diagnóstico. Alguns parâmetros para a identificação de pacientes prováveis de desenvolverem insuficiência renal progressiva incluem: Sexo masculino Diagnóstico em idade avançada Hipertensão arterial Creatinina sérica elevada ao diagnóstico Dislipidemia severa Proteinúria maior que 10 g ao dia. Um declínio rápido da função renal na glomerulonefrite membranosa sugere uma complicação com nefrite intersticial induzida por droga, trombose aguda de veia renal ou glomerulonefrite crescente sobreposta. A corticoterapia não influencia o desenvolvimento de remissões completas duradouras, mas pode reduzir temporariamente a proteinúria para níveis não nefróticos. Alguns estudos demonstraram um efeito benéfico tanto na proteinúria quanto na função renal da combinação de glicocorticóides e agentes citotóxicos. Contudo, desde que o prognóstico da glomerulonefrite membranosa geralmente é favorável, uma abordagem conservadora para o tratamento é recomendada. Os achados da biópsia renal geralmente não ajudam na determinação do prognóstico, mas alterações avançadas na parede capilar glomerular, esclerose segmentar, fibrose intersticial e atrofia tubular são todos indicativos de mau prognóstico. Esses pacientes podem ser candidatos ao tratamento mais agressivo com glicocorticóides e agentes citotóxicos. O prognóstico em 10 anos é de 80 a 90% e as principais causas de morte são as doenças intercorrentes e uma insuficiência renal terminal. NEFROLOGIA - 88 Glomerulonefrite membranoproliferativa Este distúrbio caracteriza-se pela proliferação das células mesangiais, freqüentemente com uma interposição segmentar ou difusa dessas células ou do seu citoplasma nas alças capilares periféricas. A síntese de matriz mesangial também está aumentada. A parede capilar glomerular encontra-se espessada irregularmente. Esses aspectos histológicos são provavelmente comuns a no mínimo duas doenças distintas e talvez não relacionadas, que agora são denominadas glomerulonefrites membranoproliferativas tipo I e tipo II. Vários aspectos do tipo I sugerem que ele é uma glomerulonefrite por imunocomplexo crônica. A glomerulonefrite membranoproliferativa do tipo II não parece ser uma doença de depósitos imunes. Figura 12 - Diferença entre um glomérulo normal e um glomérulo na glomerulonefrite membranoproliferativa Figura 13 - Imunofluorescência da glomerulonefrite membranoproliferativa do tipo I NEFROLOGIA - 89 Este grupo de distúrbios também é conhecido como glomerulonefrite mesangiocapilar ou lobular. Histopatologicamente, a microscopia óptica do tipo I revela uma glomerulonefrite proliferativa difusa com espessamento das paredes capilares glomerulares, aumento das células e da matriz mesangiais e um aspecto lobulado do glomérulo. O espessamento das paredes capilares deve-se a depósitos imunes subendoteliais e interposição de matriz mesangial entre a membrana basal glomerular e o endotélio, resultando em um aspecto de contorno duplo, divisão ou “trilho de bonde” das paredes capilares coradas pela prata. Os crescentes estão presentes em menos de 10% dos casos. Há depósitos grosseiramente granulares de C3 e freqüentemente de IgG, IgM, C4, properdina e fibrina no mesângio e nas alças capilares periféricas. À microscopia eletrônica, existem densos depósitos subendoteliais e mesangiais, assim como interposição de matriz mesangial com espessamento da parede capilar e estreitamento da luz capilar. Figura 14 - Microscopia corada pela prata evidenciando alterações na glomerulonefritemembranoproliferativa Figura 15 - Microscopia eletrônica da glomerulonefrite membranoproliferativa tipo I NEFROLOGIA - 90 Os achados histológicos na glomerulonefrite membranoproliferativa tipo II são muito semelhantes àqueles na doença tipo I, exceto pela presença de crescentes em até 30% dos pacientes que estão relacionados a um mau prognóstico. Os depósitos densos podem ser observados como depósitos PAS-positivos, semelhantes a fitas dentro da parede capilar e também ao longo da cápsula de Bowman e da membrana basal tubular. C3 está presente ao longo das bordas desses depósitos. Os depósitos imunes granulares de IgG são muito menos comuns que na doença tipo I. A microscopia eletrônica revela extensa substituição da lâmina densa por material homogêneo, de coloração escura, que também pode ser observado no mesângio, na cápsula de Bowman e na membrana basal tubular. A glomerulonefrite membranoproliferativa é encontrada em cerca de 5% das síndromes nefróticas idiopáticas nas crianças, particularmente entre a idade dos 8 aos 16 anos, e menos comumente nos adultos. Não há predisposição em relação aos sexos. Em 50 a 75% dos pacientes, uma síndrome nefrótica com todas as suas características está presente. Vinte porcento dos pacientes podem apresentar- se com uma síndrome nefrítica aguda (que é mais comum no tipo II). Nos pacientes restantes, a proteinúria no estado não- nefrótico quase sempre está acompanhada de hematúria microscópica. A pressão arterial e o ritmo de filtração glomerular são geralmente anormais, e o sedimento urinário está ativo. Pode ocorrer hipertensão em um terço dos pacientes. Aproximadamente metade dos pacientes com glomerulonefrite membranoproliferativa do tipo I possui história prévia de infecção do trato respiratório superior, que pode ter sido estreptocóccica. Anormalidades funcionais dos túbulos renais são comuns e a seletividade das proteínas urinárias é geralmente pobre. Produtos de degradação da Figura 16 - Microscopia eletrônica da glomerulonefrite membranoproliferativa tipo II NEFROLOGIA - 91 fibrina e C3 podem ser encontrados na urina. Os níveis de C3 sérico estão reduzidos na maioria dos casos. Os complementos de ação precoce estão freqüentemente normais. Algumas lesões similares à glomerulonefrite membranoproliferativa são encontradas no Lúpus Eritematoso Sistêmico, na síndrome hemolítico-urêmica, na rejeição de transplante, na hepatite B crônica, etc. Trombose de veia renal pode ocorrer. Remissões espontâneas são incomuns (menos de 5%) e a corticoterapia pode atrasar a progressão da doença. Os anticoagulantes e os antiadesivoplaquetários podem apresentar um efeito benéfico a longo prazo. Pode ocorrer recidiva em 25% dos pacientes que recebem transplantes renais, mas raramente há interferência na função do enxerto. O curso da glomerulonefrite membranoproliferativa é progressivo e, aproximadamente, de um terço a metade dos pacientes morrem ou desenvolvem uma insuficiência renal terminal dentro de 10 a 20 anos do diagnóstico. O restante permanece com uma síndrome nefrótica persistente e com função renal relativamente estável ou apresenta proteinúria não-nefrótica persistente ou hematúria. Os sinais de mau prognóstico incluem redução da taxa de filtração glomerular no início, presença da síndrome nefrótica, hipertensão precoce, hematúria macroscópica e presença de crescentes ou esclerose em uma biópsia normal. Outros tipos de síndrome nefrótica idiopática Em uma pequena percentagem de adultos e crianças com síndrome nefrótica idiopática, outras lesões podem ser encontradas na biópsia renal. Glomerulonefrite crescente Glomerulonefrite proliferativa segmentar e focal As características clínicas, a história natural e a resposta ao tratamento dessas patologias não está bem definida. A hematúria é comum e pode ser recorrente. A proteinúria tende a ser não- seletiva e a remissão espontânea da síndrome nefrótica é incomum. A glomerulonefrite crescente tem um prognóstico ruim, enquanto a glomerulonefrite mesangial segmentar e focal parece ter um desenvolvimento a longo termo mais favorável. Glomerulonefrite fibrilar Glomerulopatia imunotactóide Seus tratamentos são geralmente insatisfatórios e muitos pacientes, particularmente aqueles com proteinúria maciça persistente, progridem para insuficiência renal. NEFROLOGIA - 92 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Síndrome nefrítica Glomerulonefrite aguda As principais causas de glomerulonefrite aguda (GNA) são: Doenças infecciosas Glomerulonefrite pós-estreptocóccica Glomerulonefrite pós-infecciosa não-estreptocóccica Bacteriana - Endocardite infecciosa - Septicemia - Pneumonia pneumocóccica - Febre tifóide - Sífilis secundária - Meningococcemia Viral - Hepatite B - Mononucleose infecciosa - Varicela - Coxsackievírus - Caxumba - Sarampo - Vaccínia - Echovírus Parasitária - Malária - Toxoplasmose Doenças multisistêmicas Lupus Eritematoso Sistêmico Vasculite Púrpura de Henoch-Schönlein Doença de Goodpasture Doenças glomerulares primárias Glomerulonefrite membranoproliferativa Doença de Berger Glomerulonefrite mesangioproliferativa pura Miscelânea Síndrome de Guillain-Barré Irradiação de tumor de Wilms Vacina tríplice (difteria-pertussis-tétano) Doença do soro NEFROLOGIA - 93 A síndrome nefrítica aguda, ou glomerulonefrite aguda, consiste na instalação súbita de hematúria e proteinúria, freqüentemente acompanhadas de azotemia, indicativa de redução na filtração glomerular, e retenção de sal e água. A retenção de sal e água leva a congestão circulatória, hipertensão e edema. A hematúria resulta da passagem de eritrócitos através da parede capilar glomerular e/ou peritubular, que se encontra danificada, e é a principal característica da síndrome nefrítica aguda. Podem haver cilindros hemáticos. A proteinúria é uma conseqüência da perda de cargas aniônicas da parede capilar (defeito seletivo de carga elétrica) ou pela aparência de poros capilares maiores que os normais. Assim sendo, a proteinúria da síndrome nefrítica aguda é não- seletiva e contém globulinas séricas, assim como albumina. A redução da filtração glomerular é decorrente da infiltração da parede capilar por células inflamatórias ou pela expansão do número de células glomerulares, que reduzem a sua área de filtração. Ainda, a área de filtração pode estar reduzida pela ação de compostos vasoativos capazes de contrair reversivelmente as células mesangiais, levando a uma redução do número de capilares glomerulares perfundidos. A retenção de líquido pode ser explicada tanto pela diminuição da filtração glomerular quanto pela reabsorção aumentada de sal e água nos túbulos distais. O edema da glomerulonefrite aguda tende a aparecer inicialmente nas áreas de baixa pressão, tais como pálpebras, face e mãos, mas podem progredir para uma ascite e/ou derrame pleural. A congestão circulatória manifesta-se por hipertensão sistêmica e pulmonar e/ou débito cardíaco normal ou elevado. Nas crianças, a hipertensão pode estar acompanhada de encefalopatia. A atividade da renina, da aldosterona e do sistema nervoso simpático estão relativamente diminuídas. A extensão e a gravidade das anormalidades urinárias da glomerulonefrite aguda variam. A hematúria macroscópica é a queixa mais freqüente, mas quando ela se apresenta em menor intensidade, ela pode passar despercebida pelo paciente. Nestescasos, as características da retenção de líquido e da hipertensão podem ser atribuídas erroneamente a outras patologias caso o exame do sedimento urinário seja omitido da avaliação inicial. O grau de proteinúria varia de acordo com a natureza e a gravidade da lesão glomerular subjacente. Ela geralmente se encontra entre 0,5 e 3 gramas por dia. Raramente, a taxa de excreção proteica está nos níveis normais (150 mg/dia). A evolução da glomerulonefrite aguda depende da lesão glomerular subjacente e do seu tratamento. Por exemplo, a maioria dos pacientes com glomerulonefrite aguda pós-estreptocóccica começam a apresentar resolução espontânea da retenção de líquidos e da hipertensão dentro de uma semana. Poucos pacientes com síndrome nefrítica aguda desenvolvem uma forma de insuficiência renal rapidamente progressiva. A biópsia renal é útil na caracterização da natureza da lesão subjacente mas não é necessária em todos os casos. NEFROLOGIA - 94 Glomerulonefrite aguda pós-estreptocóccica A glomerulonefrite pós-estreptocóccica (GNPE) geralmente ocorre em seguida a uma infecção cutânea ou faringítica de um número pequeno de cepas de estreptococos -hemolíticos do grupo A de Lancefield e do tipo nefritogênico M. Os episódios assintomáticos de GNPE são mais freqüentes que os sintomáticos numa proporção de 3 ou 4 para 1. Como o organismo apresenta imunidade específica, de longa duração, episódios repetitivos de GNPE são incomuns. Epidemiologicamente, essa patologia é mais comum nas crianças de 3 a 12 anos de idade e a prevalência de GNPE está mais associada a infecções faringíticas do que a infecções cutâneas. Uma característica importante é a presença de um período de latência entre o início das manifestações da infecção estreptocóccica e a instalação dos sinais e sintomas de nefrite. Após uma infecção faringítica, o período de latência é geralmente de 6 a 20 dias (média de 10 dias), enquanto a infecção cutânea normalmente apresenta uma média de duas semanas. Indícios de inflamação glomerular ocorrendo na mesma época da infecção ou em um período menor que o período de latência geralmente indicam uma exacerbação de uma glomerulopatia preexistente, tal como a doença de Berger. O diagnóstico da glomerulonefrite pós-estreptocóccica baseia-se na demonstração de pelo menos duas das três características abaixo: 1. Presença de estreptococos potencialmente nefritogênicos na faringe ou em lesões epiteliais; 2. Resposta imune às enzimas estreptocóccicas Antiestreptolisia-O Antiestreptoquinase Antidesoxiribonuclease-B Anti-NAD Anti-hialuronidase Uma terapia anti- microbiana prévia pode prevenir a resposta imunológica às enzimas e, também, resultar em culturas negativas, mas não previnem o desenvolvimento da GNPE. 3. Redução transitória do complemento C3, que retorna ao normal dentro de 8 semanas após os primeiros sinais da nefropatia. A apresentação típica da glomerulonefrite pós-estreptocóccica é o início abrupto de hematúria (90%), que geralmente é evidenciada como urina escura ou “turva”, acompanhada por mal-estar e, algumas vezes, sintomas gastrointestinais como dor abdominal, náuseas e vômitos. Podem haver cefaléias e, ocasionalmente, convulsões. O edema é um sinal precoce e freqüente, comumente em uma distribuição periorbitária e mais evidente ao levantar. Algumas vezes, ele pode evoluir para um edema periférico e anasarca. A hipertensão é constatada em 60 a 70% dos pacientes e reflete a retenção renal de sal e água com sobrecarga de volume. NEFROLOGIA - 95 Laboratorialmente, o exame de urina geralmente revela sinais de inflamação glomerular com proteinúria, hemácias, leucócitos e cilindros. Aproximadamente 20% dos pacientes hospitalizados desenvolvem proteinúria na faixa nefrótica, em geral transitória e durante a fase de recuperação. Uma hipoalbuminemia grave pode se desenvolver caso uma proteinúria maciça torne-se prolongada. A proteinúria é de caráter não-seletivo e freqüentemente contém altas concentrações de produtos de degradação da fibrina e proteína C3. Nos pacientes oligúricos ou azotêmicos, podem ocorrer hiponatremia, hipercloremia, hipercalemia e acidose metabólica. A radiografia renal vai revelar rins normais ou aumentados de tamanho. A radiografia de tórax pode demonstrar um coração levemente alargado e freqüentemente acompanhado de congestão pulmonar. O diagnóstico diferencial da GNPE inclui outras infecções ou patologias renais primárias que podem produzir uma síndrome nefrítica aguda idêntica a esta (glomerulonefrite pós-infecciosa não-estreptocóccica). As doenças multisistêmicas podem se apresentar inicialmente como uma nefrite aguda. Outras doenças não-glomerulares, tais como a púrpura trombocitopênica trombótica, síndrome hemolítico-urêmica e doença renal ateroembólica também podem se apresentar com características de síndrome nefrítica aguda. Histopatologicamente, a biópsia renal feita no início do curso da doença mostra uma glomerulonefrite proliferativa difusa (todos os glomérulos são envolvidos) com acentuada hipercelularidade envolvendo as células endoteliais glomerulares e mesangiais. É comum a infiltração do glomérulo por leucócitos polimorfonucleares e monócitos. Alguns depósitos proteináceos projetam-se do contorno externo da parede capilar em direção ao espaço urinário à microscopia óptica ou à microscopia eletrônica. Figura 1 - Aspecto microscópico da glomerulonefrite pós-estreptocóccica (a direita) em comparação ao aspecto microscópico de um glomérulo normal (a esquerda) NEFROLOGIA - 96 Na doença grave, a proliferação das células epiteliais no espaço de Bowman resulta na formação de “crescentes” em alguns glomérulos. Todavia, a proliferação difusa e extensa é incomum e está relacionada a uma redução na probabilidade de recuperação completa. À imunofluorescência, depósitos granulares de IgG são vistos nas alças capilares periféricas e no mesângio, quase sempre acompanhados por C3 e, menos comumente, por C1q e C4. Um envolvimento extenso das alças capilares periféricas geralmente está associado a um prognóstico mais pobre, enquanto depósitos envolvendo exclusivamente o mesângio apresentam uma evolução mais benigna. O prognóstico da glomerulonefrite aguda pós-estreptocóccica também difere quanto as formas esporádicas e endêmicas e quanto ao acometimento em adultos e crianças. Nas crianças, as formas endêmicas da doença têm um prognóstico favorável. Poucos pacientes morrem de complicações como insuficiência renal e praticamente todos eles apresentam resolução espontânea dos sinais dentro de uma semana após o início da doença e normalização das anormalidades urinárias nos meses seguintes. Casos esporádicos de glomerulonefrite aguda pós-estreptocóccica entre crianças podem apresentar conseqüências mais sérias à longo prazo. Algumas crianças podem desenvolver obliteração capilar glomerular lentamente progressiva (glomeruloesclerose), ritmo de filtração glomerular reduzido e hipertensão. Após várias décadas, uma insuficiência renal terminal pode resultar da glomerulonefrite crônica. A persistência da proteinúria é a regra nesses casos. O prognóstico dos adultos em geral é pior do que o das crianças. Apesar do prognóstico da glomerulonefrite aguda pós- estreptocóccica parecer bom nos casos endêmicos, os casos esporádicos estão associados com uma deterioração progressiva da função renal em 30 a 50% dos pacientes. Essa deterioração pode manifestar-se através de uma proteinúria e/ou uma hematúria persistentes ou através de uma glomeruloescleroselentamente progressiva com insuficiência renal, geralmente acompanhadas de hipertensão. O tratamento da glomerulonefrite aguda pós-estreptocóccica é de suporte, pois é previsível a recuperação espontânea. Recomenda-se o repouso durante o quadro agudo. A retenção de fluidos, a congestão circulatória e o edema podem ser tratados com a restrição da ingesta de sódio e com diuréticos. Figura 2 - Microscopia eletrônica e imunofluorescência na glomerulonefrite pós-estreptocóccica NEFROLOGIA - 97 Caso a hipertensão não melhore com o uso dos diuréticos, algumas drogas vasodilatadoras podem ser úteis. O uso de antimicrobianos por um período de 7 a 10 dias pode ser feito caso seja detectada infecção estreptocóccica ativa. Glomerulonefrite pós-infecciosa não-estreptocóccica Uma ampla variedade de doenças infecciosas, além das causadas pelos estreptococos -hemolíticos do grupo A, também podem estar associadas com a glomerulonefrite aguda, incluindo os estados com bacteremia e várias doenças virais e parasitárias. Alguns exemplos incluem a endocardite infecciosa, febre tifóide, mononucleose infecciosa, malária falciparum, toxoplasmose, etc. O controle da infecção geralmente produz uma melhora na inflamação glomerular, apesar de que pode-se desenvolver uma glomerulonefrite progressiva ou crônica. Nefropatia por IgA (Doença de Berger) Esta doença caracteriza-se pela presença de depósitos de IgA nas regiões mesangiais detectadas pela imunofluorescência. A nefropatia por IgA é duas a três vezes mais comum no sexo masculino e se apresenta, na maioria dos pacientes, antes dos 35 anos de idade. Ela provavelmente é a forma mais comum de glomerulonefrite em todo o mundo. Patogenicamente, alguns estudos sugerem uma anormalidade genética ou adquirida no sistema imune, levando a um aumento na síntese de IgA secretora em resposta à exposição de agentes ambientais respiratórios ou gastrointestinais. A deposição de complexos de IgA no mesângio ativa a via alternativa do complemento e inicia a lesão glomerular. A apresentação clássica é a hematúria macroscópica concomitante, ou imediatamente subseqüente (24 a 48 horas), à infecção respiratória alta viral (50%), doença semelhante à gripe (15%), síndrome gastrointestinal (10%) ou outro pródromo infeccioso. Achados freqüentes incluem febre leve, mal-estar, mialgias, disúria e dor nos flancos. Os casos restantes são identificados durante a avaliação clínica da hematúria ou proteinúria assintomática e persistente. A ausência de um período latente, assim como níveis normais de complemento e anticorpos antiestreptocóccicos, faz a diferenciação clínica entre esta patologia e a glomerulonefrite pós-estreptocóccica. Além disso, outros aspectos da síndrome nefrítica aguda, incluindo edema e hipertensão, são observados em menos da metade dos pacientes. A hematúria macroscópica geralmente dura apenas dois a seis dias, mas a hematúria microscópica freqüentemente persiste entre os ataques. NEFROLOGIA - 98 Cinqüenta por cento dos pacientes vão apresentar apenas um episódio de hematúria macroscópica. O restante apresenta episódios recorrentes durante muitos anos, freqüentemente precedidos por infecções virais. Não há achados laboratoriais diagnósticos de nefropatia por IgA. Histologicamente, as lesões variam consideravelmente. O glomérulo pode ser normal ou pode mostrar expansão mesangial e proliferação segmentar e focal, proliferação mesangial difusa ou, raramente, glomerulonefrite crescente. A imunofluorescência característica mostra depósitos mesangiais de IgA, freqüentemente com C3 e menores quantidades de IgM ou IgG. C1q e C4 geralmente estão ausentes, sugerindo a ativação da via alternativa do complemento. A microscopia eletrônica confirma a presença de depósitos eletrodensos no mesângio na grande maioria dos casos. Figura 3 - Glomérulo normal e glomérulo evidenciando proliferação na doença de Berger Figura 4 - Respectivamente, imunofluorescência e microscopia eletrônica da doença de Berger NEFROLOGIA - 99 Em 15 a 20% dos pacientes, há evolução para insuficiência renal em seis meses e a sobrevida em 20 anos é de 50%. Embora não haja aspectos clínicos ou histopatológicos que permitam a previsão da evolução, os pacientes cujo prognóstico é pior são do sexo masculino, com curso clínico prolongado, que desenvolvem hipertensão ou proteinúria maior que 3 gramas ao dia, ou que apresentam glomeruloesclerose extensa à biópsia. Terapeuticamente, nenhuma forma específica de tratamento tem demonstrado alterar a evolução clínica desta doença. É importante o controle rigoroso da hipertensão. Glomerulonefrite rapidamente progressiva O termo clínico glomerulonefrite rapidamente progressiva é freqüentemente aplicado a um grupo de glomerulonefrite que desenvolve insuficiência renal em semanas ou poucos meses, ao contrário da glomerulonefrite aguda em que isso leva anos ou décadas, associada à extensa formação de crescentes. Histopatologicamente, uma extensa glomerulo- nefrite extracapilar é comum, mas outras lesões podem incluir glomerulonefrite necrotizante difusa ou segmentar. A glomerulonefrite rapidamente progressiva pode-se originar a partir de quatro quadros clínicos: 1. Como complicação de uma infecção aguda ou subaguda Glomerulonefrite pós-estreptocóccica Endocardite infecciosa Septicemia Hepatite B Figura 5 - Amplo envolvimento de um glomérulo mostrando alterações esclerosantes e proliferativas em suas alças capilares e a formação de uma crescente ao longo da face interna da cápsula de Bowman NEFROLOGIA - 100 2. Como complicação renal de doenças multisistêmicas Lupus Eritematoso Sistêmico Púrpura de Henoch-Schönlein Vasculite necrotizante sistêmica e poliarterite microscópica Doença de Goodpasture Crioimunoglobulinemia essencial mista Neoplasias Policondrite recorrente Artrite Reumatóide (com vasculite) 3. Associada ao uso de certas drogas Penicilamina Hidralazina Alopurinol Rifampicina 4. Como uma doença glomerular primária em que o rim é o único órgão afetado e cujas manifestações extra-renais são somente resultado de distúrbios na função renal Glomerulonefrite primária ou idiopática Tipo I Tipo II Tipo III Tipo IV Sobreposta a outra doença glomerular primária Mesangiocapilar (glomerulonefrite membranoproliferativa) Glomerulonefrite membranosa Doença de Berger NEFROLOGIA - 101 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Insuficiência renal aguda Introdução A insuficiência renal aguda (IRA) caracteriza-se pela rápida diminuição da taxa de filtração glomerular (horas a semanas) e pela retenção de produtos de degradação do nitrogênio no sangue. Esta síndrome ocorre em aproximadamente 5% de todos os pacientes hospitalizados e em mais de 30% dos pacientes em um Centro de Terapia Intensiva (CTI). Aproximadamente 60% dos casos estão relacionados a cirurgia ou traumatismo e o restante tem causas clínicas ou obstétricas. A oligúria (débito urinário < 400 ml/d) é um sinal comum mas, freqüentemente, a IRA é assintomática e só é diagnosticada pela detecção de uréia sérica e creatinina aumentadas. A anúria é relativamente rara. Para facilitar o diagnóstico e o tratamento, a IRA pode ser subdividida em três tipos, dependendo da sua etiologia: 1. IRA pré-renal ou azotemia pré-renal (55%) Distúrbios de hipoperfusão renal em que o rim encontra-senormal; 2. IRA intrínseca ou azotemia renal (40%) Doenças do parênquima renal; 3. IRA pós-renal ou azotemia pós-renal (5%) Obstrução aguda do trato urinário. Etiopatogenia Azotemia pré-renal Responsável por metade dos casos de insuficiência renal aguda, esta síndrome ocorre em resposta a hipoperfusão renal e é rapidamente reversível pela restauração do fluxo sangüíneo renal e da pressão de ultrafiltração glomerular, pois o parênquima renal encontra-se normal. Contudo, uma hipoperfusão prolongada ou grave pode levar à isquemia e necrose do parênquima renal, transformando a azotemia pré-renal em azotemia renal. As principais causas de azotemia pré-renal são: Depleção do volume intravascular Hipovolemia verdadeira Hemorragia Cirúrgica Traumática Gastrointestinal; Queimaduras; Desidratação; Perdas gastrointestinais Vômitos Diarréia Drenagem cirúrgica; NEFROLOGIA - 102 Perdas do trato genitourinário Diuréticos Diabetes mellitus; Seqüestro de líquido para os compartimentos extravasculares Peritonite Pancreatite Traumatismos Queimaduras Hipoalbuminemia grave. Diminuição do débito cardíaco Hipovolemia “efetiva” Insuficiência miocárdica; Insuficiência hepática; Valvopatias; Pericardite constritiva; Tamponamento cardíaco; Arritmias complicadas; Hipertensão pulmonar; Tromboembolismo pulmonar; Septicemia; Tratamento com vasodilatadores; Anestesia; Anafilaxia; Outros. Tanto a hipovolemia verdadeira quanto a hipovolemia “efetiva” produzem hipotensão arterial. Essa queda na pressão arterial sistêmica ativa os baroreceptores arteriais e cardíacos, que desencadeiam diversos mecanismos neuro-humorais no sentido de manter a pressão arterial em níveis normais. Dentre esses mecanismos, destacam-se a ativação do sistema nervoso simpático e do sistema renina-angiotensina-aldosterona e a liberação de hormônio antidiurético e endotelina. Esse processo resulta em vasoconstrição do leito vascular esplâncnico e musculocutâneo, redução da perda de sal pelas glândulas sudoríparas, estímulo da sede e do apetite por sal e promoção da retenção de água e sal pelos rins; com o objetivo de manter o fluxo sangüíneo cerebral e cardíaco. Para conseguir manter a perfusão e o ritmo de filtração glomerular nessas situações, os rins apresentam uma série de mecanismos compensatórios que resultam em vasodilatação, principalmente das arteríolas aferentes. O aumento da biossíntese de prostaglandinas (prostaciclinas e prostaglandina E2) e de óxido nítrico auxiliam essa resposta. Além disso, a angiotensina II faz constrição preferencialmente das arteríolas eferentes, provavelmente devido ao maior número de receptores nessa topografia, auxiliando na manutenção da pressão intraglomerular e no aumento do ritmo de filtração glomerular. Quando a hipoperfusão é muito grave, porém, essas respostas tornam-se inadequadas e, então, advém a insuficiência renal aguda. NEFROLOGIA - 103 Alguns medicamentos que atuam nesse processo compensatório do rim podem converter uma hipoperfusão compensada em azotemia pré-renal manifesta, ou então, podem acelerar a progressão de uma azotemia pré-renal em uma azotemia renal. Conseqüentemente, os inibidores da síntese de prostaglandinas (inibidores da ciclo-oxigenase) ou da atividade da enzima conversora da angiotensina (inibidores da ECA) devem ser utilizados com cautela nos pacientes com hipoperfusão. Outros agentes farmacológicos que podem induzir IRA, principalmente na presença de hipovolemia, são os contrastes radiológicos, ciclosporina, anfoterecina B, epinefrina, norepinefrina e altas doses de dopamina. Azotemia renal A maioria dos casos de azotemia renal resultam de isquemia secundária a hipoperfusão renal (IRA isquêmica) ou a toxinas (IRA nefrotóxica). Como a insuficiência renal aguda isquêmica ou nefrotóxica está quase sempre associada com necrose das células epiteliais tubulares, esta síndrome também é freqüentemente referida como necrose tubular aguda. Contudo, esse termo não deve ser utilizado como sinônimo de azotemia renal, pois diversas doenças parenquimatosas causam insuficiência renal sem necrose tubular aguda. Além disso, mesmo os casos isquêmicos ou nefrotóxicos podem se apresentar sem essa manifestação. A IRA isquêmica pode resultar de qualquer uma das causas citadas de azotemia pré-renal, principalmente hemorragias, traumatismo, septicemia e desidratação. Os mecanismos pelos quais a isquemia pode causar IRA incluem a redução da perfusão e do ritmo de filtração glomerular, a obstrução do fluxo urinário nos túbulos renais pela presença de células e restos celulares resultantes da necrose tubular, e o retorno do filtrado glomerular (retrofiltração) pelo epitélio tubular isquêmico. Figura 1 - Azotemia renal com (a esquerda) e sem (a direita) necrose tubular aguda NEFROLOGIA - 104 Os principais segmentos tubulares susceptíveis a necrose por isquemia são a porção reta dos túbulos proximais (pars recta) e a porção espessa da alça de Henle ascendente, pois esses segmentos localizam-se em uma região do rim que é relativamente hipóxica quando comparada com o córtex renal, a junção córtico-medular. Além disso, os túbulos proximais e a porção espessa da alça de Henle ascendente normalmente têm uma maior necessidade de oxigênio do que as outras células renais devido às elevadas taxas de transporte ativo de sódio. O traumatismo das células epiteliais tubulares resulta, então, em vasoconstrição intra-renal secundária por um processo denominado feedback túbulo- glomerular, que piora ainda mais a situação isquêmica dos rins. A IRA nefrotóxica pode resultar da administração de diversos agentes farmacológicos, principalmente os antibióticos aminoglicosídeos, a cisplatina, a ciclosporina, os contrastes radiológicos e a anfoterecina B; ou da produção de compostos endógenos, como na rabdomiólise ou na hemólise. Os pacientes com insuficiência renal crônica, hipovolemia, exposição associada a outras toxinas e idade avançada têm predisposição para a maioria das formas de lesão nefrotóxica. Além disso, o diabetes mellitus e o mieloma múltiplo são fatores de risco para a nefropatia aguda por contrastes radiológicos e a acidose pode contribuir para a insuficiência renal nos casos de rabdomiólise ou hemólise. Histopatologicamente, os achados característicos de IRA isquêmica incluem necrose focal do epitélio tubular e oclusão luminal por aglomerados de células epiteliais degeneradas com dilatação tubular a montante, restos celulares, mucoproteínas de Tamm- Horsfall, inflamação e edema do interstício renal e áreas de regeneração tubular, com figuras mitóticas. Essas alterações ocorrem principalmente na porção reta dos túbulos proximais e na porção espessa da alça de Henle ascendente. Contudo, a lesão isquêmica pode incluir um epitélio aparentemente intacto, descolamento das células epiteliais das suas membranas basais na ausência de necrose, etc. A IRA nefrotóxica difere da IRA isquêmica no fato de que as alterações morfológicas são comuns tanto na porção reta quanto na porção contorcida do túbulo proximal, ocorrendo menos freqüentemente em outros segmentos. A necrose celular tubular tende a ser menos pronunciada e o epitélio raramente descola-se da sua membrana basal. Figura 2 - Patogênese da azotemia renal NEFROLOGIA - 105 Evolutivamente, a maioria dos casos de IRA isquêmica ou nefrotóxica caracterizam-se por três fases distintas: 1. Fase deiniciação Compreende o período entre a exposição ao fator etiológico e o desenvolvimento da insuficiência renal. A restauração da perfusão renal ou a eliminação das nefrotoxinas durante esta fase pode reverter ou limitar o traumatismo renal. 2. Fase de manutenção Tem uma duração média de 7 a 14 dias 3. Fase de recuperação Além da IRA isquêmica e nefrotóxica, outras causas de azotemia renal incluem trombose, arteriosclerose e traumatismo de vasos renais; glomerulonefrite aguda e vasculite; púrpura trombocitopênica trombótica; coagulação intravascular disseminada; hipertensão maligna; toxemia gravídica; esclerodermia e irradiação. Alguns agentes farmacológicos, como as penicilinas, cefalosporinas, trimetoprim, sulfonamidas e rifampicina, podem causar IRA através da indução de uma nefrite intersticial alérgica, caracterizada pela infiltração do espaço intersticial por macrófagos, linfócitos, plasmócitos, neutrófilos e outras células inflamatórias, além do edema. Azotemia pós-renal A obstrução urinária só resulta em insuficiência renal aguda quando ela ocorre além do colo da bexiga, obstruindo ambos os rins, pois a função de um único rim é suficiente para excretar os produtos de degradação do nitrogênio. Bexiga neurogênica; Doença prostática Hiperplasia Prostática Benigna Câncer de próstata Prostatite; Litíase vesical; Neoplasias; Estenose uretral; Válvulas de uretra posterior ou anterior; Fimose; Ruptura de bexiga; Iatrogênese; Outros. Diagnóstico Manifestações clínicas A azotemia pré-renal deve ser suspeitada em pacientes com elevação da creatinina sérica que tiveram algum episódio de hemorragia, perda gastrointestinal ou NEFROLOGIA - 106 urinária excessiva ou queimaduras extensas, principalmente se o acesso a líquidos for restrito como, por exemplo, nos pacientes comatosos ou obnubilados. Evidências suplementares incluem sede, hipotensão ortostática e taquicardia, presença de jugulares não ingurgitadas, diminuição do turgor da pele, mucosas desidratadas e vasos sublinguais vazios. Deve-se procurar registros sobre uma diminuição no débito urinário, ganho de peso e utilização de medicamentos como a ciclo-oxigenase e os inibidores da ECA. O exame clínico pode demonstrar algum tipo de hipovolemia “efetiva”, como a insuficiência cardíaca congestiva, insuficiência hepática, valvopatias, pericardite constritiva, etc. Todavia, o diagnóstico definitivo da azotemia pré-renal só é feito quando a restauração da perfusão renal resulta em pronta resolução da insuficiência renal. A azotemia renal isquêmica é mais comum em pacientes com insuficiência renal após um quadro de choque hemorrágico, choque séptico ou no pós-operatório de uma cirurgia de grande porte. A persistência da insuficiência renal após a restauração da sua perfusão aumenta a probabilidade do diagnóstico estar correto. O diagnóstico de azotemia renal nefrotóxica requer uma história com o uso de medicamentos nefrotóxicos ou contrastes radiológicos. A rabdomiólise é sugerida por uma história recente de tontura, exercícios intensos, abuso de álcool ou drogas e dor muscular. Apesar das IRA isquêmica e nefrotóxica serem as principais causas de azotemia renal, os pacientes também devem ser avaliados quanto a presença de outras doenças do parênquima renal. A dor lombar pode ser indicativa de oclusão vascular aguda, pielonefrite aguda ou glomerulonefrite necrotizante aguda. IRA associada a oligúria, edema, hipertensão, proteinúria e hematúria (síndrome nefrítica) sugere a presença de uma glomerulonefrite aguda ou uma vasculite. A hipertensão maligna é a causa mais provável nos pacientes com hipertensão grave e evidências de lesão hipertensiva em outros órgãos. A presença de febre, artralgias e lesões eritematosas e pruriginosas de pele sugerem uma nefrite intersticial alérgica, apesar dos sinais sistêmicos da hipersensibilidade estarem freqüentemente ausentes. Quanto a azotemia pós-renal, ela pode ser assintomática quando a obstrução urinária desenvolve-se lentamente. Podem haver sinais e sintomas de doença prostática (urgência, polaciúria, hesitação urinária, gotejamento terminal, nictúria, incontinência de urgência e incontinência paradoxal). A distensão vesical pode ser evidente na palpação abdominal. Pacientes em uso de medicamentos anticolinérgicos (antidepressivos tricíclicos) podem desenvolver bexiga neurogênica. Evidências físicas de doença neurológica também indicam a presença dessa patologia. A cateterização vesical pode ser diagnóstica, mas o diagnóstico definitivo de azotemia pós-renal geralmente é feito por investigações radiológicas e pela rápida melhora da função renal após o alívio da obstrução. Urinálise A determinação do volume urinário não ajuda muito no diagnóstico diferencial entre os diferentes tipos de IRA. NEFROLOGIA - 107 A anúria completa sugere uma obstrução completa do trato urinário mas também pode ocorrer nos casos de azotemia pré-renal e renal, por oclusão arterial renal, glomerulonefrite proliferativa ou necrose cortical bilateral. A melhor maneira de diferenciar esses três tipos de IRA é pela avaliação do sedimento e do sobrenadante de uma amostra centrifugada de urina. O sedimento urinário pode revelar aglomerados celulares, cilindros, hematúria, piúria e cristalúria. Na azotemia pré-renal, o sedimento é caracteristicamente acelular, podendo conter cilindros hialinos transparentes (sedimento urinário inativo ou benigno). A azotemia pós-renal também pode apresentar um sedimento urinário inativo, mas quase sempre há presença de hematúria e piúria. Os cilindros granulosos com inclusões de coloração marrom e os cilindros epiteliais são característicos da necrose tubular, sugerindo IRA isquêmica ou nefrotóxica (azotemia renal). Esses cilindros geralmente são encontrados em associação com hematúria microscópica e proteinúria “tubular” leve (< 1 g/d). Todavia, os cilindros podem estar ausentes em 20 a 30% dos pacientes com IRA isquêmica ou nefrotóxica e, por isso, não são necessários para o seu diagnóstico. A proteinúria “tubular” reflete a insuficiência da reabsorção tubular de proteína e difere da proteinúria “glomerular” (> 1 g/d), que ocorre por lesão da barreira de ultrafiltração glomerular. O sobrenadante da amostra centrifugada de urina pode revelar a presença de hemoglobinúria e mioglobinúria. Índices de insuficiência renal A análise urinária e a bioquímica sangüínea são úteis no diagnóstico diferencial entre a azotemia pré-renal e a azotemia renal. A relação entre o clearance de sódio e o de creatinina (excreção fracionada de sódio) é um importante parâmetro. CNa CCr UNa V PNa UCr V PCr UNa PCr PNa UCr ________________ ________________ ________ ________ EFS = EFS = ________________ EFS = EFS - Excreção fracionada de sódio CNa - Clearance de sódio UNa - Concentração urinária de sódio PNa - Concentração plasmática de sódio CCr - Clearance de creatinina UCr - Concentração urinária de creatinina PCr - Concentração plasmática de creatinina V - Volume urinário por minuto NEFROLOGIA - 108 Na azotemia pré-renal, o sódio é reabsorvido avidamente do filtrado glomerular na tentativa de restaurar o volume intravascular, mas não na azotemia renal. Em contraste, a creatinina é reabsorvida de forma menos eficiente em ambas as condições. Conseqüentemente, os pacientes com azotemia pré-renal tem uma relação de excreção sódio/creatininamenor que 1,0 (freqüentemente menor que 0,01), enquanto os pacientes com azotemia renal geralmente apresentam uma relação de excreção maior que 1,0. A EFS pode ser maior que 1,0 nos pacientes com azotemia pré-renal em uso de diuréticos, nos pacientes com bicarbonatúria, que arrasta sódio para urina para manter a eletroneutralidade, nos pacientes com insuficiência adrenal e naqueles com insuficiência renal crônica subjacente complicada por perda de sal. Por outro lado, aproximadamente 15% dos pacientes com azotemia renal apresentam uma EFS menor que 1,0, refletindo uma forma discreta de lesão renal. O índice de insuficiência renal (IIR) fornece informações semelhantes, pois as variações do sódio plasmático são relativamente pequenas. UNa PCr UCr Outros índices menos sensíveis, particularmente em indivíduos idosos, são: Concentração urinária de sódio Relação entre a creatinina urinária e a creatinina plasmática Relação entre a uréia urinária e a uréia plasmática Relação entre a uréia e a creatinina plasmáticas Densidade urinária Osmolalidade urinária Tabela 1 - Índices da insuficiência renal Exames complementares A realização de ultra-sonografia, tomografia computadorizada ou ressonância magnética está recomendada para a maioria dos pacientes com insuficiência renal aguda para excluir uma uropatia obstrutiva ou uma doença renal crônica. Uma radiografia simples de abdome pode ser útil quando se suspeita de nefrolitíase. O doppler e a ressonância magnética podem detectar obstruções nas veias e artérias renais, mas a angiografia contrastada é necessária para o diagnóstico definitivo. Índice diagnóstico Azotemia pré-renal Azotemia renal EFS < 1 > 1 Índice de insuficiência renal < 1 > 1 Concentração urinária de sódio (mEq/L) < 10 > 20 Relação entre a creatinina urinária e a creatinina plasmática > 40 < 20 Relação entre a uréia urinária e a uréia plasmática > 8 < 3 Relação entre a uréia e a creatinina plasmáticas > 20 < 10 - 15 Densidade urinária > 1.018 < 1.012 Osmolalidade urinária (mEq/KgH2o) > 500 < 250 ________________ IIR = NEFROLOGIA - 109 A biópsia renal tem indicação quando a azotemia pré-renal e a azotemia pós- renal foram descartadas e a etiologia da azotemia renal ainda não foi determinada. Complicações A insuficiência renal aguda prejudica a excreção renal de sódio, potássio e água; altera o metabolismo dos cátions bivalentes e desregula o mecanismo de acidificação urinária. Conseqüentemente, a IRA é freqüentemente complicada por sobrecarga de volume intravascular, hiponatremia, hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hipermagnesemia e acidose metabólica. Além disso, a incapacidade de excretar os produtos de degradação do nitrogênio pode resultar em síndrome urêmica. Em geral, a gravidade das complicações reflete o grau de comprometimento renal. A sobrecarga de volume é uma conseqüência da excreção reduzida de sal e água, principalmente nos indivíduos oligúricos e anúricos. A ingestão excessiva de líquidos ou a administração inapropriada de água pode causar hiponatremia. A hipercalemia é comum e pode ser exacerbada pela acidose metabólica. Nos pacientes com rabdomiólise ou hemólise, a hipercalemia pode ser particularmente grave. A acidose metabólica geralmente cursa com “anion gap” elevado. As manifestações da síndrome urêmica incluem pericardite, derrame pericárdico, tamponamento cardíaco, anorexia, náuseas, vômitos, íleo, letargia, confusão mental, estupor, coma, agitação, psicose, hiper-reflexia e tontura. A anemia é uma complicação que se desenvolve rapidamente na IRA, assim como o prolongamento do tempo de sangramento e a leucocitose. As infecções são complicações temíveis que ocorrem em 50 a 90% dos pacientes com IRA e que são responsáveis por mais de 75% das mortes. As complicações cardiovasculares incluem arritmias, infarto miocárdico e tromboembolismo pulmonar. Um sangramento gastrointestinal leve está presente em 10 a 30% dos pacientes e geralmente decorre das úlceras de estresse que se formam. Pode haver alterações neurológicas em função da síndrome urêmica, complicações metabólicas ou diminuição na excreção de medicamentos psicotrópicos. Uma diurese vigorosa durante a fase de recuperação pode resultar em depleção do volume intravascular e retardo da recuperação renal. A hipernatremia também pode complicar a recuperação caso as perdas urinárias não sejam repostas. Tratamento Prevenção Muitos casos de insuficiência renal aguda podem ser prevenidos quando, nas situações de alto risco, a função cardiovascular e o volume intravascular são protegidos e o uso de drogas nefrotóxicas é limitado. NEFROLOGIA - 110 Tratamento específico O tratamento da azotemia pré-renal devido a depleção do volume intravascular varia de acordo com o tipo de líquido perdido. A hipovolemia causada por hemorragia deve ser corrigida com concentrado de hemácias, enquanto a solução salina isotônica geralmente é suficiente para a reposição de perda de plasma no caso de queimaduras ou pancreatite, por exemplo. As perdas urinárias e gastrointestinais geralmente são hipotônicas e, por isso, a reposição inicial deve ser feita com soluções hipotônicas. Os distúrbios hidroeletrolíticos também devem ser normalizados. A azotemia pré-renal por diminuição do débito cardíaco requer tratamento da etiologia subjacente. Uma variedade de agentes terapêuticos já foram utilizados no tratamento da azotemia renal isquêmica ou nefrotóxica, mas a maioria deles mostrou-se inefetiva ou demasiadamente tóxica para o uso em seres humanos. A azotemia renal causada por outras patologias intrínsecas do rim, tais como glomerulonefrite aguda ou vasculite, pode responder aos glicocorticóides, agentes alquilantes e/ou plasmaferese, dependendo da patologia primária. Os agentes antiplaquetários, a plasmaferese e a infusão de plasma podem ser úteis no tratamento da síndrome hemolítico-urêmica e da púrpura trombocitopênica trombótica. Um controle agressivo da pressão arterial sistêmica é um parâmetro de importância no controle da nefroesclerose causada pela hipertensão maligna, pela toxemia gravídica e por outras doenças vasculares. O tratamento da azotemia pós-renal requer um trabalho em equipe entre os nefrologistas, urologistas e radiologistas e consiste no tratamento da uropatia obstrutiva. Medidas de suporte Desde que a sobrecarga de volume, hipercalemia, hiperfosfatemia e acidose metabólica invariavelmente estão presentes em pacientes oligúricos com IRA, algumas medidas preventivas devem ser tomadas na hora do diagnóstico. A prescrição nutricional deve ser feita para manter o balanço calórico e minimizar o catabolismo. Além disso, caso estejam sendo administradas drogas excretadas por via renal, suas doses devem ser ajustadas com o grau de insuficiência renal. Após a correção dos déficits de volume intravascular, a reposição hidroeletrolítica deve ser ajustada para equivaler às perdas. A sobrecarga de volume intravascular geralmente pode ser tratada pela restrição de sal e água e pelo uso de diuréticos. Na verdade, não há outra indicação para a administração de diuréticos na IRA além do que tratar esta complicação. A administração de baixas doses de dopamina pode promover a excreção de sal e água por elevar o fluxo sangüíneo renal e o ritmo de filtração glomerular e por inibir a reabsorção de sódio no túbulo proximal. A ultrafiltração e a diálise podem ser utilizadas quando a redução de volume pelas medidas conservadoras falham. A hipercalemialeve (< 5,5 mEq/L) deve ser tratada inicialmente pela restrição dietética de potássio. A hipercalemia moderada (5,5 a 6,5 mEq/L) em pacientes sem alterações clínicas ou eletrocardiográficas pode ser controlada pela administração de resinas trocadoras de íons de ligação ao potássio, como o sulfonato de poliestireno sódico associado ao sorbitol, por via oral ou na forma de enema de retenção. NEFROLOGIA - 111 Os diuréticos de alça também aumentam a excreção de potássio nos pacientes responsíveis aos diuréticos. Os pacientes com níveis de potássio sérico maior que 6,5 mEq/L, os pacientes com anormalidades eletrocardiográficas e os pacientes com manifestações clínicas de hipercalemia devem ser tratados com a administração de glicose hipertônica ou insulina, que promovem o desvio de potássio para dentro das células em 30 a 60 minutos. O gluconato de cálcio antagoniza os efeitos cardíacos e neuromusculares da hipercalemia, sendo uma importante medida terapêutica enquanto outros agentes reduzem os níveis séricos de potássio. A diálise está indicada quando a hipercalemia é resistente a essas medidas. A acidose metabólica só necessita tratamento quando a concentração de bicarbonato cai para menos de 15 mEq/L. Nesses casos, a administração oral ou endovenosa de bicarbonato está indicada. A hiperfosfatemia geralmente pode ser controlada pela restrição da ingesta de fosfato e pela administração de agentes orais, tais como o hidróxido de alumínio e o carbonato de cálcio, que reduzem a absorção de fosfato no trato gastrointestinal. A hipocalcemia não requer tratamento, exceto quando grave. A terapia nutricional requer colaboração entre médicos, enfermeiras e nutricionistas e tem como objetivo fornecer a quantidade de calorias suficientes para evitar cetoacidose e minimizar a produção de produtos de degradação do nitrogênio. Isso geralmente é conseguido pela redução da dieta proteica de alto valor biológico e pela administração da maioria das calorias na forma de carboidratos. A anemia pode requerer transfusão sangüínea e administração de eritropoetina. Os antiácidos parecem reduzir a incidência de hemorragia gastrointestinal mais do que os bloqueadores H-2. Os pacientes febris devem ser investigados agressivamente na procura de infecções e podem ser tratados com antibióticos de amplo espectro enquanto não se consegue identificar os agentes etiológicos. Diálise A diálise está reservada para o tratamento dos sinais e sintomas de uremia e para os casos de sobrecarga de volume, hipercalemia ou acidose refratários ao tratamento conservador. O tipo de diálise (diálise peritoneal ou hemodiálise) e a sua prescrição dependem da necessidade individual de cada paciente. A diálise peritoneal pode ser feita por um cateter intraperitoneal temporário e a hemodiálise de curta duração geralmente é feita por um cateter de dupla luz introduzido na veia subclávia, jugular interna ou femoral. A hemofiltração arteriovenosa e a diálise contínua e lenta são alternativas para os pacientes que não toleram a diálise convencional de curta duração e que não podem fazer diálise peritoneal como, por exemplo, após uma cirurgia abdominal. A ultrafiltração plasmática, sem diálise, pode ser usada em pacientes sem uremia sintomática quando a redução de sobrecarga de volume pelas medidas conservadoras falharam. NEFROLOGIA - 112 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Insuficiência renal crônica Introdução Ao contrário do que ocorre na insuficiência renal aguda, algumas doenças levam a um estado freqüentemente irreversível da função renal, com destruição progressiva do parênquima renal. Essa destruição resulta em uma hipertrofia funcional e estrutural dos néfrons remanescentes, predispondo eventualmente o desenvolvimento de esclerose glomerular e, conseqüentemente, insuficiência renal terminal. A insuficiência renal é mais comum entre os negros do que entre os brancos. Antigamente, a principal causa de insuficiência renal crônica era a glomerulonefrite. Devido ao tratamento mais agressivo da glomerulonefrite, todavia, o diabetes mellitus e a hipertensão ocupam a primeira posição atualmente. Uremia é o nome genericamente dado à síndrome clínica resultante da perda da função renal. Originalmente, esse termo foi adotado devido a retenção de uréia no sangue. Contudo, uma variedade de outros produtos metabólicos e endócrinos também são retidos e, desta forma, a uremia refere-se a uma constelação de sinais e sintomas associados a insuficiência renal. A gravidade dos sinais e sintomas de uremia variam de paciente para paciente, dependendo, pelo menos em parte, da magnitude da redução do parênquima renal e da velocidade da redução da função renal. Inicialmente, quando o ritmo de filtração glomerular (RFG) está reduzido para cerca de 35 a 50% do normal, a função renal global ainda é suficiente para manter o paciente assintomático. Quando o ritmo de filtração glomerular diminui para 20 a 35% do normal, ocorre azotemia e as manifestações iniciais da insuficiência renal começam a aparecer. Apesar dos pacientes estarem relativamente assintomáticos nesse estágio, a reserva renal está diminuída o suficiente para que frente a um estresse súbito, tal como infecção, Figura 1 - Redução característica no tamanho dos rins, que apresentam superfície irregular resultante da esclerose total de alguns glomérulos, na insuficiência renal crônica NEFROLOGIA - 113 obstrução urinária, desidratação, crise hipertensiva ou uso de drogas nefrotóxicas, os sinais e sintomas de uremia possam se tornar evidentes. Com a intensificação da doença (RFG abaixo de 20 a 25% do normal), o paciente desenvolve insuficiência renal manifesta. A uremia pode ser vista como o estágio final de um processo inexorável, quando muitas ou todas as manifestações da insuficiência renal crônica tornam-se evidentes clinicamente. Características da uremia Bioquímica A descoberta de que o soro de pacientes com uremia apresenta efeitos tóxicos sobre o organismo levou a realização de diversas pesquisas para se tentar identificar os agentes responsáveis. Descobriu-se, então, que os principais responsáveis por esses efeitos são os produtos do metabolismo proteico e de aminoácidos, dentre os quais a uréia é, quantitativamente, o mais importante. Ao contrário dos lipídeos e dos carboidratos que podem ser metabolizados em dióxido de carbono e água, substâncias que são facilmente excretadas pelos pulmões e pele, os produtos do metabolismo proteico e de aminoácidos dependem amplamente dos rins para sua excreção. Outros produtos metabólicos que são possíveis toxinas urêmicas incluem os uratos e outros produtos do metabolismo do ácido nucleico, aminas alifáticas, uma variedade de peptídeos e, finalmente, vários derivados dos aminoácidos aromáticos (triptofano, tirosina e fenilalanina). A patogênese dessas substâncias ainda não está esclarecida. Apesar de provavelmente não ser responsável por toda a toxicidade urêmica, a uréia está intimamente relacionada a algumas anormalidades clínicas, incluindo anorexia, astenia, vômitos e dor de cabeça. Além disso, o nível plasmático de vários hormônios polipeptídeos (incluindo o hormônio paratireóideo, insulina, glucagon, hormônio do crescimento, hormônio luteinizante e prolactina) aumentam na insuficiência renal. O hormônio paratireóideo pode ser uma importante toxina urêmica. Fisiopatologia A retenção de todas essas toxinas na insuficiência renal crônica é responsável, pelo menos em parte, por alterações na composição dos fluidos intra e extracelulares,principalmente devido a redução no transporte de sódio para fora das células pela bomba Na + /K + -ATPase. Esse defeito no transporte iônico das células leva a um aumento anormal na concentração intracelular de sódio e uma redução na concentração de potássio. A retenção intracelular de sódio é a principal responsável pela expansão do volume intracelular nos pacientes com uremia, mas a redução na sua excreção renal também resulta em expansão do volume extracelular. A despeito da redução intracelular de potássio, o potássio sérico é geralmente normal ou elevado principalmente em decorrência da acidose metabólica, que produz um efluxo de potássio do interior das células. NEFROLOGIA - 114 Com o desenvolvimento de astenia, anorexia, náuseas, vômitos e diarréia, os pacientes com insuficiência renal crônica podem desenvolver uma desnutrição proteico-calórica com balanço negativo de nitrogênio, produzindo uma intensa perda dos tecidos magros e dos depósitos gordurosos. Contudo, devido a tendência em reter sal e água, essas perdas passam freqüentemente despercebidas até os estágios finais da insuficiência renal crônica. A atividade da bomba Na + /K + -ATPase nas membranas celulares é a principal responsável pela produção de energia basal no indivíduo normal. Assim, a redução na atividade dessa bomba nos pacientes urêmicos também pode resultar em hipotermia, com um reajuste da temperatura normal de 37 o C para até 35,5 o C. Essa observação possui importância prática na avaliação da febre em pacientes com insuficiência renal crônica, pois uma temperatura de 37 o C pode indicar uma grave infecção aguda, que exige antibioticoterapia apropriada. Quanto ao metabolismo dos carboidratos, devemos dizer que a habilidade em metabolizar a glicose está diminuída nos pacientes com insuficiência renal crônica. A glicemia de jejum, todavia, é geralmente normal ou somente discretamente elevada. Raramente, pode haver hiperglicemia grave e/ou cetose. Por isso, a intolerância a glicose da insuficiência renal crônica não necessita de tratamento específico. Como a insulina necessita amplamente dos rins para sua remoção e degradação, os níveis de insulina plasmática geralmente encontram-se elevados. Conseqüentemente, há uma redução do número de receptores insulínicos (“down- regulation”) e a resposta dos pacientes com insuficiência renal crônica a administração endovenosa de insulina também encontra-se alterada. A intolerância a glicose dos pacientes urêmicos resulta, em grande parte, dessa resistência periférica a ação da insulina. Outros possíveis fatores que contribuem para isso são o déficit intracelular de potássio, a acidose metabólica, aumento nos níveis de glucagon, catecolaminas, hormônio do crescimento e prolactina, assim como a miríade de potenciais metabólitos tóxicos presentes na insuficiência renal crônica. Com relação ao metabolismo lipídico, geralmente há hipertrigliceridemia e diminuição nos níveis de HDL nos pacientes urêmicos, enquanto a concentração total de colesterol comumente é normal. Manifestações clínicas A insuficiência renal crônica está associada a uma constelação de sinais e sintomas com ou sem redução do débito urinário, mas sempre com elevação dos níveis séricos de uréia e creatinina. A diferenciação entre a insuficiência renal aguda e a insuficiência renal crônica pode ser difícil. A história clínica é útil na maioria das vezes, particularmente quando a função renal era normal antes do episódio atual. O exame físico e os achados laboratoriais não auxiliam muito no diagnóstico diferencial. A principal característica da insuficiência renal crônica é a redução do tamanho dos rins pelos métodos de imagem. Na ausência desse sinal, a biópsia renal pode ser necessária para o diagnóstico. NEFROLOGIA - 115 D istúrbios hidroeletrolíticos Em todos os pacientes com insuficiência renal crônica estabilizada, o sódio corporal total e o volume de água estão modestamente aumentados. Apesar disso, a expansão do volume extracelular pode não ser visível. A ingestão de quantidades excessivas de sal, contudo, pode agravar ou contribuir para a instalação de insuficiência cardíaca congestiva, hipertensão, ascite e edema. Por outro lado, hiponatremia e ganho de peso são as principais conseqüências de uma ingestão excessiva de água. Como esses pacientes têm um mecanismo renal para a conservação de sódio e água alterado, quando eles perdem líquido por vômitos, diarréia, etc., pode-se desenvolver depleção de volume, com secura da boca e de outras mucosas, tontura, síncope, taquicardia, hipotensão ortostática e colapso vascular. Essa depleção de volume em geral perturba a função residual do rim e os pacientes previamente estabilizados ou assintomáticos tornam-se sintomáticos, com sinais e sintomas de uremia. Nesses casos, uma cuidadosa reposição de volume deve ser feita no sentido de reestabilizar a função renal. Distúrbios no balanço do potássio podem ser encontrados nos pacientes com insuficiência renal crônica, mas eles raramente são responsáveis por sintomas clínicos, a menos que uma carga de potássio endógena (hemólise, trauma, infecção) ou exógena seja administrada. A despeito da progressão da insuficiência renal, a maioria dos pacientes mantém um nível sérico de potássio normal até os estágios finais da uremia. Essa habilidade em manter um balanço de potássio na insuficiência renal avançada ocorre devido a adaptações nos túbulos renais distais e no cólon, onde a aldosterona e outros fatores atuam aumentando a excreção de potássio. Assim, a oligúria ou um distúrbio nesses mecanismos adaptativos podem resultar em hipercalemia. Na insuficiência renal crônica, outra causa comum de hipercalemia é a diminuição abrupta do pH arterial, pois a acidose está associada ao efluxo de K + do interior das células. Algumas drogas devem ser utilizadas com muito cuidado nos pacientes com insuficiência renal. Dentre elas, destacam-se a espironolactona, o triamtereno e o amiloride. Quando não houver evidências de oligúria, acidose ou aumento na ingesta de potássio, o hipoaldosteronismo deve ser considerado como uma possível causa da hipercalemia. Quando ocorre hipocalemia, a dieta pobre em K + , geralmente associada a diuréticos ou perdas gastrointestinais, é a provável causa subjacente. Na insuficiência renal crônica, a incapacidade dos rins em sintetizar a 1,25-dihidroxivitamina D resulta em hipocalcemia. A concentração sérica de fosfato, por sua vez, aumenta a medida que o ritmo de filtração glomerular cai para cerca de 25% do normal. Como a deposição de cálcio nos ossos é dependente dos níveis de fosfato, a retenção plasmática de fosfato facilita a entrada de cálcio nos ossos e, desta forma, contribui para a hipocalcemia e para a elevação dos níveis plasmáticos de paratormônio, com eventual hiperplasia das glândulas paratireóides. NEFROLOGIA - 116 A despeito da hipocalcemia, raramente ocorre tetania. A superprodução de hormônio paratireóideo, o distúrbio no metabolismo da vitamina D, a perda excessiva de cálcio nas fezes e a acidose metabólica crônica contribuem para o desenvolvimento de diversas doenças ósseas, denominadas genericamente por osteodistrofias renais. Dentre elas, destacam-se a osteíte fibrosa, a osteomalácia, a osteoporose, a osteosclerose e, principalmente em crianças, distúrbios do crescimento. Apesar de, clinicamente, as osteodistrofias manifestarem-se em apenas 10% dos pacientes não-tratados com insuficiência renal avançada, pode-se observar alterações histológicas e radiológicas em, respectivamente,90 e 35% dos pacientes. O tratamento da osteodistrofia renal inclui redução na ingestão de fosfato e administração de agentes quelantes de fosfato, tais como o carbonato de cálcio e o hidróxido de alumínio. O carbonato de cálcio tem preferência devido aos efeitos potencialmente tóxicos do alumínio. Esse tratamento deve iniciar precocemente na insuficiência renal crônica no sentido de prevenir o desenvolvimento de hiperparatireoidismo e osteopatias. Também pode haver calcificação metastática dos tecidos moles. Outros distúrbios hidroeletrolíticos incluem hiperuricemia e hipermagnesemia. D istúrbio ácido-básico Na doença renal crônica, ocorre acidose metabólica quando a ingestão exógena e a produção endógena de ácido excedem a sua excreção renal. Na acidose metabólica crônica, são envolvidos os mecanismos extra-renais de tamponamento, incluindo os sais ósseos e os tampões intracelulares. A perda das reservas de tampão ósseo contribui para o desenvolvimento da osteodistrofia renal. Esta acidose metabólica crônica é bem tolerada pela maioria dos pacientes com insuficiência renal crônica, provavelmente refletindo seu lento desenvolvimento e a compensação respiratória. Entretanto, a reserva total de tampão é limitada, de forma que estímulos ácido-básicos agudos (cetoacidose, septicemia) podem causar agravamento substancial da acidose metabólica. Figura 2 - Comparação macroscópica entre uma glândula paratireóide normal (a esquerda) e uma glândula paratireóide com hiperplasia (a direita) NEFROLOGIA - 117 D istúrbios cardiovasculares e pulmonares A retenção de líquidos na uremia freqüentemente resulta em insuficiência cardíaca e/ou edema pulmonar. Uma forma única de congestão pulmonar e edema pode ocorrer mesmo na ausência de sobrecarga de volume e está associada a uma pressão pulmonar e intracardíaca normal ou levemente elevada. Essa entidade, caracterizada radiologicamente por congestão vascular peri-hilar (aspecto em “asa de borboleta”), decorre do aumento da permeabilidade da membrana capilar alveolar e responde imediatamente ao tratamento dialítico vigoroso. A hipertensão arterial é a complicação mais comum das nefropatias terminais. Quando ela está ausente, o paciente geralmente está recebendo tratamento anti- hipertensivo ou tem depleção de volume. Antigamente, era maior a ocorrência de pericardite devido aos efeitos das toxinas metabólicas sobre o pericárdio. Atualmente, porém, devido ao início precoce da diálise, a incidência de pericardite diminuiu bastante e, quando presente, geralmente está associada a infecções virais ou doenças sistêmicas. A apresentação clínica da pericardite urêmica é semelhante àquelas de outra etiologia, com a exceção de que as efusões são comumente hemorrágicas. Geralmente ocorre dor intensa, que piora com a respiração, associada a atrito pericárdico. Pode haver tamponamento com sinais de redução da pressão arterial e da pressão de pulso, elevação da pressão venosa jugular e deficiência da perfusão das extremidades. O tratamento intensivo com diálise é recomendado e a anticoagulação sistêmica deve ser evitada para minimizar a ocorrência de tamponamento hemorrágico. Se houver tamponamento, pode ser necessária intervenção cirúrgica. A ecografia bidimensional pode ser muito útil na documentação da magnitude do derrame pericárdico e na avaliação de seu significado funcional. Os pacientes em diálise crônica apresentam uma grande incidência de aterosclerose, resultando em manifestações vasculares coronarianas, cerebrais e periféricas. As principais causas dessa complicação incluem a hipertensão, hiperlipidemia, intolerância a glicose e calcificação metastática vascular e miocárdica. A anormalidade mais característica dos lipídios é a elevação das concentrações de triglicerídeos com níveis plasmáticos de colesterol normais ou discretamente elevados. Figura 3 - Pericardite urêmica Figura 4 - Calcificação vascular metastática NEFROLOGIA - 118 A causa da hipertrigliceridemia na insuficiência renal crônica é desconhecida, mas as evidências atuais favorecem um defeito na remoção dos triglicerídeos e não um aumento da sua produção. D istúrbios hematológicos Uma anemia normocrômica e normocítica geralmente está presente e contribui para a sintomatologia da insuficiência renal crônica. Ela decorre da diminuição da eritropoese, produzida tanto pela presença de toxinas na medula óssea quanto pela redução na biossíntese de eritropoetina pelos rins doentes ou pela presença de inibidores da eritropoetina. A administração de eritropoetina recombinante humana resulta em uma melhora dramática nos níveis de hematócrito e hemoglobina. As transfusões podem contribuir para a supressão da eritropoese na insuficiência renal crônica e, devido também ao risco aumentado de hepatite e hemossiderose, devem ser evitadas até que a anemia não responda mais a administração de eritropoetina. A intoxicação por alumínio também pode ser responsável por uma anemia microcítica. Um quadro de hemostasia anormal é comum na insuficiência renal crônica, caracterizado por tendência ao sangramento anormal (epistaxe, menorragia, hemorragia) e escoriações. Alterações na função e na formação dos leucócitos predispõem ao desenvolvimento de infecções. As alterações nas barreiras mucosas também podem aumentar a susceptibilidade a infecções e, nos pacientes em diálise, os acessos vasculares são portas de entrada comuns para os patógenos, principalmente os estafilococos. Os glicocorticóides e os imunossupressores são fatores adicionais ao risco de infecção. Os pacientes com insuficiência renal crônica têm uma tendência a apresentar uma resposta febril menos intensa devido a freqüente presença de hipotermia. A resposta quimiotática de leucócitos polimorfonucleares também pode apresentar-se deprimida. D istúrbios neuromusculares Mudanças súbitas na função do sistema nervoso central, incluindo a inabilidade em se concentrar, hipersonia e insônia, estão entre os sintomas iniciais de uremia. Então, surgem alterações comportamentais, perda de memória e erros de julgamento, que podem estar associados a irritabilidade neuromuscular, com soluços, cãibras e fasciculação muscular. Asterixe, mioclonia e coréia são comuns na uremia terminal, assim como torpor, convulsões e coma. Muitos desses distúrbios neuromusculares melhoram com a diálise, apesar de que alterações eletroencefalográficas podem persistir. É comum haver neuropatia periférica na insuficiência renal crônica. Inicialmente, ocorre um predomínio no envolvimento sensorial dos membros inferiores sobre os membros superiores e das extremidades distais sobre as proximais. NEFROLOGIA - 119 A síndrome da perna inquieta caracteriza-se por sensações mal definidas de desconforto na porção distal dos membros inferiores e freqüente movimentação das pernas. Se a diálise não for instituída logo após o início das anormalidades sensitivas ocorre envolvimento motor, com perda dos reflexos tendinosos profundos, fraqueza, paralisia do nervo fibular (“pé caído”) e, eventualmente, quadriplegia flácida. Desta forma, a evidência de neuropatia periférica é uma indicação imediata de diálise ou transplante renal. Dois tipos de distúrbios neurológicos parecem ser restritos aos pacientes em diálise, a demência por diálise e o desequilíbrio por diálise. A primeira caracteriza-se por dispraxia da fala, mioclonia, demência e, eventualmente, convulsões e morte. A intoxicação por alumínio é provavelmente a maior responsável por esta síndrome.O desequilíbrio por diálise ocorre durante as primeiras seções de diálise e está associado às rápidas reduções nos níveis sangüíneos de uréia. Seus sintomas incluem náuseas, vômitos, dor de cabeça e até mesmo convulsões e decorrem da redução na osmolaridade dos líquidos extracelulares, levando ao edema cerebral e ao aumento da pressão intracraniana. D istúrbios gastrointestinais Anorexia, soluços, náuseas e vômitos são sintomas precoces da uremia. O hálito urêmico, de odor semelhante ao da urina, origina-se a partir da quebra da uréia, pela saliva, em amônia, e está freqüentemente associado a halitose. Podem ocorrer ulcerações com sangramento em qualquer altura do trato gastrointestinal nos estágios avançados da insuficiência renal crônica (gastroenterite urêmica). A úlcera péptica está presente em um quarto dos indivíduos. Com exceção dos sintomas relacionados a doença péptica, a maioria dos sintomas gastrointestinais melhora com a diálise. D istúrbios endócrinos e metabólicos O metabolismo dos carboidratos geralmente é anormal nos pacientes com insuficiência renal crônica. A glicemia de jejum é normal ou discretamente elevada, mas a tolerância à glicose pode ser anormal. A função da hipófise, tireóide e supra-renais encontra-se relativamente normal apesar dos distúrbios nos níveis circulantes de hormônio do crescimento, tiroxina, aldosterona e cortisol. Nas mulheres, os níveis de estrogênio encontram-se baixos. Amenorréia e infertilidade são manifestações precoces da uremia. Figura 5 - Gastroenterite urêmica NEFROLOGIA - 120 Apesar dos ciclos menstruais retornarem após o início da diálise, as gestações normais são raras. Nos homens com insuficiência renal crônica, incluindo aqueles em diálise, a impotência, a oligospermia e a displasia de células germinativas são comuns. Os níveis plasmáticos de testosterona também encontram-se reduzidos. Assim como o crescimento, a maturação sexual está freqüentemente alterada nos adolescentes com insuficiência renal, mesmo naqueles em diálise crônica. D istúrbios dermatológicos As manifestações dermatológicas ocorrem em decorrência da anemia, dos distúrbios hemostáticos (equimoses e hematomas), da deposição de cálcio e do hiperparatireoidismo secundário, da desidratação, etc. O prurido urêmico generalizado é um sintoma constante da insuficiência renal crônica e, ocasionalmente, é resistente a maioria das formas tópicas ou sistêmicas de tratamento. Outras condições dermatológicas incluem uma coloração amarelo- pálida devida a deposição de “urocromos”, deposição de cristais de uréia na superfície cutânea através do suor, que evapora deixando na pele um pó fino de coloração branca (geladura urêmica), etc. Abordagem do paciente com uremia Os princípios de abordagem do paciente urêmico são baseados nos preceitos gerais da medicina interna. Uma anamnese detalhada é imperativa, com ênfase especial para os sintomas do trato urinário. Também tem importância especial uma história completa de doenças sistêmicas, de exposição a toxinas e infecções e de doenças renais na família. O exame físico deve enfatizar a pressão arterial, retina, aparelho cardiovascular, exame renal com ausculta de sopros e palpação, exame retal para avaliação do tamanho da próstata nos homens, exame ginecológico à procura de massas pélvicas nas mulheres, exame das extremidades para pesquisa de edema e achados no leito ungueal e exame neuroesquelético para pesquisar evidências de miopatia, neuropatia e osteodistrofia. Os exames laboratoriais devem incluir um hemograma completo e parcial de urina. Outros estudos devem determinar se um paciente possui insuficiência renal aguda reversível, agravamento agudo da insuficiência renal crônica, resultante de fatores agravantes, ou uma doença progressiva crônica. É improvável que um indivíduo com doença renal aguda seja assintomático com elevações dos níveis séricos de creatinina e uréia sangüínea acima de 10 e 100 mg/dl, respectivamente. Por outro lado, os pacientes com doença crônica lentamente progressiva freqüentemente são assintomáticos com elevações muito maiores de creatinina e uréia. Na insuficiência renal crônica, o hematócrito tende a ser menor, a excreção de fosfato é maior e o sedimento urinário geralmente é benigno. NEFROLOGIA - 121 Entretanto, nenhum desses exames é suficientemente específico para diferenciar com certeza a insuficiência renal aguda da crônica. A determinação do tamanho do rim pode ser útil no estabelecimento da cronicidade da doença renal. Se os rins apresentam redução significativa de seu tamanho, isto quase sempre indica cronicidade e irreversibilidade. O rim de tamanho normal fala a favor de um processo agudo, embora haja exceções. Os processos renais crônicos nos quais o tamanho do rim pode ser normal ou maior que o normal incluem doença renal policística, amiloidose, esclerodermia e diabetes mellitus. Também é importante diferenciar as causas renais das extra-renais de azotemia. Uma vez determinado que a uremia é secundária à doença do parênquima renal e não de causas extra-renais, o médico deve determinar se há uma forma tratável de doença no parênquima. A biópsia renal e a arteriografia podem ser úteis e freqüentemente são consideradas. A biópsia renal pode fornecer um diagnóstico histológico definitivo desde que seja realizada antes que a doença tenha evoluído até um grau cuja única interpretação morfológica possível seja a de doença renal terminal. A morbidade e mortalidade associadas são baixas, mas existe a possibilidade de complicações. Por isso, embora não haja um consenso entre os nefrologistas, a biópsia só deve ser realizada se o médico estiver seguro de que as informações que serão obtidas vão influenciar o tratamento. As contra-indicações para a biópsia renal incluem tendências hemorrágicas incorrigíveis, hipertensão grave, bacteriúria, suspeita de abscesso perinefrético, hidronefrose e obesidade extrema. A biópsia usualmente é mais útil em pacientes com rins de tamanho normal e doença renal progressiva quando há suspeita de síndrome nefrótica, colagenoses (principalmente Lúpus Eritematoso Sistêmico), doenças túbulo- intersticiais ou doença glomerular rapidamente progressiva. Em geral, apesar da arteriografia renal produzir excelente visualização do rim, ela possui um valor diagnóstico limitado nos pacientes com uremia, podendo ser útil nos pacientes com doença renal secundária à hipertensão grave. Tratamento A conduta em pacientes com insuficiência renal crônica pode ser dividida em três categorias distintas: 1. Tratamento dos fatores agravantes; 2. Tratamento de complicações específicas da uremia e 3. Princípios gerais da dieta e do acompanhamento a longo prazo. Tratamento dos fatores agravantes Os pacientes com insuficiência renal crônica são muito suscetíveis a fatores que podem causar uma deterioração da função renal. Por isso, eles devem ser meticulosamente pesquisados e tratados logo a seguir, de forma que a insuficiência renal subjacente não seja permanentemente agravada. NEFROLOGIA - 122 Uma das causas mais comuns do agravamento da função renal em um paciente com insuficiência renal crônica é a depleção do volume vascular. Seu tratamento deve ser feito através da reposição de líquido por via oral ou intravenosa. Os pacientes que não estão em diálise crônica devem ser hospitalizados se houver qualquer dúvida de que possa ser realizada uma reposição adequada de volume em base ambulatorial. Os pacientes com insuficiência renalcrônica são freqüentemente tratados com vários fármacos, dos quais muitos são nefrotóxicos. É prudente obter uma história detalhada da ingestão de drogas sempre que se avalia um paciente com agravamento da insuficiência renal. Além disso, é importante uma posologia apropriada para o nível de função renal a fim de evitar nefrotoxicidade superposta. A obstrução aguda ou subaguda do trato urinário pode ter múltiplas causas nos pacientes com insuficiência renal crônica. Quando os sintomas clínicos sugerem obstrução, é importante que sejam tomadas medidas imediatas de diagnóstico e tratamento. As infecções do trato urinário são significativamente agravadas quando há obstrução. Embora a infecção limitada ao trato urinário raramente cause progressão da insuficiência renal, deve-se dedicar atenção específica à avaliação da proteinúria, piúria e bacteriúria. Na presença de infecção deve ser realizada uma cultura de urina e o tratamento deve ser feito com antibióticos específicos. É preciso ter cuidado para ajustar a dose da droga ao grau de insuficiência renal. Os pacientes urêmicos também possuem maior tendência a outras infecções como pneumonia e septicemia. Essas infecções sistêmicas podem comprometer o fluxo sangüíneo renal e resultar em agravamento da uremia. O índice de suspeita deve ser alto para septicemia em pacientes com insuficiência renal crônica hipotensos ou na presença de infecção do trato urinário na qual o nível sérico de creatinina está se elevando. Muitos pacientes com insuficiência renal crônica são hipertensos. Assim, é preciso prestar atenção rigorosa ao controle adequado da pressão arterial nesses pacientes pois eles ocasionalmente desenvolvem hipertensão maligna com rápida deterioração da função renal. É imperativo que a pressão arterial seja rapidamente controlada em tais doentes. Das anormalidades metabólicas que agravam a progressão da doença renal, as elevações dos produtos de cálcio e fósforo estão entre as mais comuns. A elevação do produto cálcio-fósfoto não apenas causa calcificação metastática dos tecidos moles, mas também pode ser um fator precipitante na progressão da doença renal. A suplementação com vitamina D e o uso de carbonato de cálcio como ligante do fosfato proporcionam razoável controle do produto de cálcio e fósforo. A monitorização cuidadosa do nível sérico de cálcio e a restrição de fosfato na dieta também são importantes auxiliares para o tratamento de pacientes com insuficiência renal crônica. NEFROLOGIA - 123 Tratamento das complicações específicas da uremia Distúrbios hidroeletrolíticos Como até mesmo a depleção leve de volume pode afetar adversamente a função renal em pacientes com insuficiência renal crônica, é prudente mantê-los num estado de certa expansão de volume. A hipertensão arterial e o edema pulmonar são fatores limitantes, mas ainda é mais prejudicial manter um paciente completamente sem edema. Se um paciente desenvolver sintomas de hipotensão ortostática, a ingestão de sal deve ser liberada. O ideal é que a ingestão de sal na dieta seja reduzida proporcionalmente à redução do ritmo de filtração glomerular. Se o paciente apresentar expansão de volume, fica indicado o uso de diuréticos, como o furosemide isolado ou associado a tiazida, supondo-se que a função renal subjacente é suficiente para permitir uma resposta clínica satisfatória a esses fármacos. Caso não haja resposta às técnicas convencionais, é indicada a diálise peritoneal aguda ou hemodiálise. A hiponatremia e a hipernatremia são tratadas com os mesmos princípios gerais de restrição hídrica ou administração de água livre como em qualquer outro paciente. A hiponatremia fatal, neurologicamente sintomática, pode exigir a administração de cloreto de sódio hipertônico, mas a expansão do volume resultante pode, então, exigir diálise aguda. Na hipercalemia, concentrações séricas de potássio de até 6 mEq/L são bem toleradas pelos pacientes com insuficiência renal crônica. Entretanto, esses pacientes têm dificuldade em excretar uma carga aguda de potássio. Por isso, concentrações de potássio acima de 6 mEq/L exigem tratamento. Se a hipercalemia for moderada e apresentar algum fator agravante, o tratamento deve ser direcionado para a correção de sua origem. A interrupção de suplementos orais de potássio e a restrição de potássio da dieta são etapas iniciais racionais. Entretanto, se a hipercalemia for grave, pode haver fraqueza do músculo esquelético e alterações eletrocardiográficas. Esta situação representa uma emergência clínica e exige transferência intracelular imediata de potássio e rápida remoção de potássio do corpo. Distúrbios cardiovasculares A hipertrigliceridemia e hipertensão são os fatores de risco primários que levam à aterosclerose acelerada e a alta mortalidade cardiovascular. Não está claro se o curso da doença vascular aterosclerótica em pacientes com insuficiência renal crônica pode ser alterado. Mesmo os pacientes que foram submetidos a um transplante renal NEFROLOGIA - 124 bem sucedido parecem possuir uma maior incidência de mortes cardiovasculares. Todavia, parece aconselhável aderir os pacientes com insuficiência renal crônica aos mesmos princípios dietéticos dos pacientes com hipertrigliceridemia sem insuficiência renal crônica. Se são usados clofibrate ou inibidores da síntese do colesterol, a dose deve ser reduzida proporcionalmente ao grau de insuficiência renal para evitar efeitos adversos. Como a sobrecarga de volume é a principal causa de hipertensão no estado urêmico, um dos objetivos primários é reduzir o volume intravascular, uma conduta que é suficiente para controlar a hipertensão na maioria dos pacientes. O excesso de líquido pode ser removido por ultrafiltração em pacientes em diálise. Também pode-se utilizar diuréticos, dos quais o furosemide e a bumetamida são os preferidos devido a sua eficácia. Se a contração de volume não for suficiente, os mesmos princípios gerais aplicados a qualquer outro paciente com hipertensão pode ser aplicada. Podem ser necessárias outras drogas, como os bloqueadores dos canais de cálcio, vasodilatadores e beta-bloqueadores. Foi demonstrado que os inibidores orais da enzima de conversão da angiotensina são particularmente úteis em alguns casos. Existe um número extremamente pequeno de pacientes com hipertensão maligna que não podem ser controlados por qualquer esquema clínico. Esses pacientes podem responder à nefrectomia bilateral. O diagnóstico de pericardite urêmica exige hospitalização e tratamento devido ao risco de tamponamento cardíaco iminente. O melhor tratamento inicial é a diálise diária durante aproximadamente uma semana. A indometacina não é eficaz na pericardite urêmica. Se a pericardite permanece refratária ao aumento da freqüência de diálise, a injeção intrapericárdica de esteróides inabsorvíveis pode ser terapêutica. Alguns pacientes exigirão pericardiectomia parcial se desenvolverem comprometimento circulatório que não responde a tratamento clínico. Distúrbios hematológicos A anemia da insuficiência renal crônica comumente melhora com a hemodiálise de manutenção ou com a administração de eritropoetina. Como esses pacientes geralmente apresentam deficiência de ferro, principalmente aqueles em diálise, deve-se administrar ferro suplementar. Não existe consenso sobre a freqüência ou a posologia, e há a possibilidade de sobrecarga de ferro com hemossiderose e ocasional reação anafilactóide ao dextrano com ferro intravenoso. NEFROLOGIA- 125 A maioria dos pacientes com insuficiência renal crônica não apresenta deficiência de folato, exceto se estiverem recebendo tratamento de diálise de manutenção. É aconselhável a suplementação rotineira com folato. As alterações na hemostasia podem ser revertidas pelo uso de desmopressin, crioprecipitados, estrogênios conjugados e transfusões sangüíneas, assim como pelo uso de eritropoetina. Na presença de infecções, o uso de antibióticos deveria ser ajustado pela monitorização da sua concentração sérica. Entretanto, como isso freqüentemente não é possível, após uma dose de ataque normal inicial, a posologia deve ser ajustada para o grau de insuficiência renal, caso o antibiótico for excretado pelos rins. Se as sensibilidades a drogas permitirem uma escolha no tratamento de determinada infecção, o médico deve escolher o antibiótico terapêutico menos nefrotóxico. Distúrbios neuromusculares Não existe tratamento específico para a neuropatia central ou periférica. Entretanto, pode haver melhora objetiva e subjetiva através do prolongamento dos períodos de diálise e pelo uso de dialisadores com maior área superficial. Foi observada uma melhora gratificante da neuropatia periférica após transplante renal bem-sucedido, mesmo em pacientes que estavam bem dialisados antes do transplante. Da mesma maneira, não existe tratamento específico da miopatia. Os pacientes podem melhorar muito com diálise adequada. Alguns deles apresentam melhora da miopatia após tratamento com análogos ativos da vitamina D e suplementação nutricional agressiva. A eritropoetina possui um efeito anabólico generalizado que pode ser muito útil neste caso. Alguns pacientes com hiperparatireoidismo secundário podem beneficiar-se com a paratireoidectomia. Distúrbios metabólicos As anormalidades do metabolismo dos carboidratos no paciente não-diabético possuem pequeno ou nenhum significado clínico. No paciente diabético, as doses de insulina devem ser ajustadas para manter normais os níveis séricos de glicose. Geralmente, menores doses de insulina serão adequadas à medida que a insuficiência renal crônica evolui. Pode desenvolver-se hipoglicemia manifesta em um pequeno número de pacientes com insuficiência renal crônica. Embora os níveis de ácido úrico estejam constantemente elevados nessa doença, eles raramente estão muito acima de 10 mg/dl. NEFROLOGIA - 126 Há poucas evidências sugerindo que a hiperuricemia assintomática deve ser tratada. Níveis elevados de ácido úrico em pacientes uricêmicos só devem ser tratados quando há depósitos tofáceos ou gota sintomática. Se for eleito tratamento, o alopurinol é a droga de escolha, pois os pacientes com insuficiência renal crônica não respondem a agentes uricosúricos. Devido aos potenciais efeitos colaterais tóxicos, a dose de alopurinol deve ser reduzida, não excedendo 100 mg/dia em pacientes com uremia crônica. Distúrbios dermatológicos Nenhum tratamento específico resistiu ao teste do tempo na terapia do prurido. Alguns pacientes obtêm alívio após aplicação tópica de óleos emulsificados ou o uso de anti-histamínicos orais. Certos pacientes beneficiaram-se da redução da concentração sérica de fosfato por diálise mais eficaz e restrição de fosfato. A paratireoidectomia algumas vezes aliviou o prurido intratável. Princípios gerais da dieta e do acompanhamento a longo prazo Uma dieta apropriada pode ser muito importante no tratamento dos pacientes com insuficiência renal crônica, pois pode proporcionar melhora sintomática e reduzir a velocidade de perda da função renal residual. Alguns princípios gerais podem ser aplicados a todos os pacientes. A redução do teor de proteína na dieta diminui a uréia sangüínea e reduz os sintomas da síndrome urêmica. Além disso, as dificuldades no controle do fósforo sérico e da acidose são superadas, pois uma elevada ingestão de proteínas está sempre associada a uma elevada ingestão de fosfatos, assim como de outros íons inorgânicos. Entretanto, a ingestão de proteínas não deve ser inferior a 0,6 gramas de proteína por quilograma de peso corporal por dia, pois pode haver desnutrição proteica com perda da força, do peso corporal e da massa muscular. No mínimo 60% das proteínas ingeridas devem ser ricas em aminoácidos essenciais. Tais proteínas incluem os ovos, carnes magras e leite. As dietas devem ser suplementadas com as vitaminas B hidrossolúveis mais vitamina C e ácido fólico. Não há necessidade de suplemento de vitamina A ou E. A vitamina D deve ser reservada para o tratamento da osteodistrofia renal grave. Em geral, o sódio da dieta não deve ser intensamente restrito, exceto se houver hipertensão ou edema. Enquanto o volume de urina excretado for maior que 1 litro por dia, raramente é preciso restringir o potássio da dieta. Com o uso dessas orientações, os sintomas urêmicos e as conseqüências da insuficiência renal podem ser controlados na maioria dos pacientes. Quanto se torna necessária uma hemodiálise crônica, a dieta deve ser alterada para atender às carências adicionais relacionadas ao tratamento com diálise. Quanto ao acompanhamento, os pacientes com insuficiência renal crônica devem ser avaliados a intervalos regulares para monitorização da evolução de sua doença. NEFROLOGIA - 127 Todos os pacientes devem ser avaliados no mínimo a cada 3 meses, quando é colhida uma história clínica e realizado um exame físico. Também devem ser determinados alguns valores laboratoriais, incluindo hematócrito, contagem de leucócitos, concentrações séricas de uréia e creatinina, e eletrólitos. A monitorização da evolução da insuficiência renal geralmente é realizada através da medida da concentração sérica de creatinina e da avaliação da taxa de filtração glomerular. Na maioria dos pacientes, a perda da função renal evolui de forma constante. Quando a concentração sérica de creatinina atinge um valor de 10 mg/dl ou mais, está próximo o momento em que a diálise torna-se necessária. Todavia, a secreção de creatinina pode ser relativamente mantida mesmo quando a taxa de filtração glomerular se reduz, de modo que a concentração sérica de creatinina pode superestimar a taxa de filtração glomerular “verdadeira”. Portanto, existem amplas variações entre pacientes individuais com insuficiência renal crônica quando os valores séricos de creatinina são comparados com a taxa de filtração glomerular. Essas considerações eliminam qualquer relação absoluta entre o nível sérico de creatinina e a necessidade de diálise. Apesar disso, no paciente individual, a concentração sérica de creatinina é o marcador disponível mais rapidamente para acompanhamento da evolução da insuficiência renal. NEFROLOGIA - 128 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Nefrologia Nefrites hereditárias Introdução As nefrites hereditárias são um grupo de nefropatias hereditárias que apresentam diferentes padrões de herança e diferentes ritmos de progressão. A doença renal, manifestada por traços microscópicos de hematúria e proteinúria, está presente e é geralmente leve ao nascimento mas, principalmente nos homens, pode progredir para uma insuficiência renal terminal caso o paciente não seja tratado. Algumas crianças com nefrite hereditária podem apresentar associadas outras malformações hereditárias progressivas do cristalino, outras doenças ópticas ou hipoacusia neurossensorial. Desde a sua descoberta até a década de sessenta, as nefrites hereditárias eram consideradas extremamente raras mas, atualmente, sabe-se que cerca de uma em cada 5.000pessoas é portadora de uma dessas doenças. As nefrites hereditárias são responsáveis, hoje, pode cerca de 3% das nefropatias terminais em crianças, 3 a 5% delas nos homens e por apenas uma pequena fração nas mulheres. Síndrome de Alport Esta doença foi relatada pela primeira vez em 1875 por Dickinson, que descreveu um tipo de hematúria familiar em três gerações de uma mesma família. Em 1927, Alport acrescentou outras características a ela, incluindo albuminúria, azotemia e hipoacusia, motivo pelo que foi creditado a ele o nome desta síndrome. A síndrome de Alport é a mais bem conhecida das nefrites hereditárias. Ela é freqüentemente diagnosticada em crianças ou adultos jovens e afeta principalmente o sexo masculino. Provavelmente não há predisposição quanto a raça ou a distribuição geográfica. Os critérios para o diagnóstico da síndrome de Alport variam em diversos estudos e é difícil definir exatamente quais os sinais e sintomas que essa doença deve incluir. Alport não realizou estudos histológicos e a doença parece ter desaparecido espontaneamente na família originalmente descrita por ele, pois nenhum caso novo de nefrite foi descoberto nessa família desde então. Sua principal característica é a hematúria crônica macroscópica ou microscópica, que é geralmente exacerbada por exercícios físicos, infecções inespecíficas ou gravidez. A hematúria pode ser acompanhada por dor em flanco ou um vago desconforto abdominal. Outros achados incluem cilindros eritrocitários, proteinúria de grau variável, perda progressiva da audição e insuficiência renal lentamente progressiva. A hipoacusia neurossensorial, principalmente para os sons de alta freqüência, ocorre mais comumente nos pacientes do sexo masculino e pode ser detectada somente na audiometria. NEFROLOGIA - 129 A função renal desses pacientes pode permanecer normal por anos mas inexoravelmente evolui para insuficiência renal. Bacteriúria e infecções do trato urinário podem ser encontradas, mas achados radiológicos de pielonefrite bacteriana crônica e nefropatia por refluxo não são encontradas, de modo que esses achados, na ausência de hematúria, devem sugerir outro diagnóstico. A hipertensão arterial leve geralmente é uma complicação tardia. Diversos outros achados também podem estar presentes, tais como anormalidades oculares (miopia, retinite pigmentosa, amaurose, lentícone e esferofacia), trombocitopatia, inclusões leucocitárias e leiomiomatose. Além disso, outras anormalidades que foram esporadicamente relatadas incluem hiperprolinemia e disfunção cerebral, hipoparatireoidismo e aminoacidúria. Alguns estudos demonstraram variados modos de herança para a síndrome de Alport, incluindo herança autossômica dominante, herança ligada ao cromossoma X e transmissão autossômica recessiva. A insuficiência renal parece estar preferencialmente relacionada a herança ligada ao cromossoma X. Nesse tipo de herança, filhos do sexo masculino de homens afetados não herdam a doença, enquanto mulheres portadoras transmitem a doença para cerca de metade dos seus filhos, independente do sexo. Outra característica importante é que esta doença é geralmente leve e se manifesta parcialmente nas mulheres enquanto que, nos homens, ela é freqüentemente grave e se manifesta totalmente. Além disso, demonstrou-se que alguns homens desenvolvem nefropatia terminal na infância ou adolescência, enquanto outros desenvolvem-na mais tardiamente. Assim, subdividiu-se a síndrome de Alport em tipo juvenil, na qual os indivíduos desenvolvem nefropatia terminal antes dos 31 anos de idade; e tipo adulto, quando o seu desenvolvimento ocorre acima dos 31 anos. Existe também uma classificação que subdivide esta síndrome em tipos I, II, III, IV, V, VI e indeterminado, dependendo da forma de transmissão, tipo juvenil ou adulto e outras anormalidades associadas. Essa diversidade de fenótipos e de modos de herança reflete a heterogeneidade genética da síndrome de Alport. O diagnóstico pode ser feito através de uma história mórbida atual e familiar cuidadosa, e através do exame do sedimento urinário para a detecção de hematúria. Cilindros eritrocitários e proteinúria podem estar presentes, mas sua ausência não descarta o diagnóstico. O quadro típico é o de uma criança com hematúria inexplicada ou de um adolescente ou homem de meia idade com nefropatia terminal e com uma vaga história de doença renal nos irmãos ou parentes do lado materno. Exames genéticos específicos são promissores para o diagnóstico futuro das nefrites hereditárias. Deve ser assinalado que outras condições hereditárias também podem estar associadas com várias combinações de hematúria, proteinúria, etc., incluindo a doença de Fabry, a síndrome unha-patela, doença falciforme, síndrome urticária-surdez- amiloidose, amiloidose, doença policística renal, doença renal medular cística e lipodistrofia progressiva parcial ou total. NEFROLOGIA - 130 Histopatologicamente, os achados da microscopia óptica são variados e inespecíficos, e o diagnóstico histológico é feito principalmente pela microscopia eletrônica e pela imunofluorescência indireta. Apesar da síndrome de Alport ser considerada como uma doença glomerular, no início do curso da doença alguns paciente podem apresentar-se sem qualquer anormalidade detectável à microscopia óptica. Outros apresentam uma proliferação focal e segmentar e um aumento na matriz mesangial. Pode ocorrer persistência do glomérulo embrionário em cerca de um quarto dos pacientes, especialmente naqueles menores de 10 anos. A medida que a doença progride, os glomérulos sofrem esclerose segmentar e, posteriormente, total. As alterações tubulares e intersticiais geralmente ocorrem paralelamente as do glomérulo. Quanto maior o número de glomérulos que sofrem esclerose, maiores os graus de atrofia tubular e fibrose intersticial. Freqüentemente, há um infiltrado inflamatório intersticial misto nos casos avançados. Em alguns casos, as células epiteliais glomerulares e tubulares adquirem uma aparência espumosa provavelmente pela fagocitose de gorduras neutras, mucopolissacarídeos, colesterol e fosfolipídeos pelos macrófagos. Essas células também podem ser encontradas em uma variedade de doenças glomerulares e, portanto, não devem ser consideradas diagnósticas de síndrome de Alport. Figura 1 - Microscopia óptica da síndrome de Alport demonstrando esclerose glomerular parcial e total NEFROLOGIA - 131 O estudo ultra-estrutural do glomérulo pela microscopia eletrônica na síndrome de Alport é obrigatório pois suas alterações são freqüentemente diagnósticas. As alterações características afetam a membrana basal, que encontram-se espessadas com rupturas e estratificação longitudinais, reticulação e fragmentação (padrão em tela). Há uma ampla variação na morfologia da membrana basal, incluindo uma estrutura normal em um pequeno número de pacientes. A ausência de lesões geralmente está associada a um curso menos grave da doença. A membrana basal é dividida em camadas de cerca de 300 a 1.000 Å de espessura. As zonas claras intermediárias freqüentemente contêm partículas arredondadas, pequenas, densas ou vacuoladas de 300 900 Å de diâmetro. Logo após ou entre os segmentos de membrana basal envolvidos nessas alterações, encontram-se porções extremamente finas de membrana basal, especialmente em crianças. Essas estruturas chegam a alcançar a espessura de 15 Å, cerca de 25% ou menos da espessura normal. A região subepitelial da membrana basal é tipicamente recortada. Figura 2 - Microscopiaóptica da síndrome de Alport mostrando células espumosas e aumento da matriz mesangial NEFROLOGIA - 132 Alterações semelhantes da membrana basal, mas não idênticas, podem ser encontradas nos glomérulos de pacientes com outras doenças, incluindo nefropatia por IgA, glomerulonefrite pós-infecciosa, esclerose focal e segmentar e outras glomerulopatias. Outras alterações que podem ser encontradas incluem a obliteração variável dos processos pedicelares epiteliais, aumento da matriz mesangial e uma aumento variável na celularidade, como foi descrito anteriormente na microscopia óptica. A imunofluorescência direta geralmente é negativa. Alguns autores observaram que os pacientes com síndrome de Alport desenvolvem anticorpos anti-MBG (membrana basal glomerular) após a realização de um alotransplante. Sugeriu-se, então, que a membrana basal de pacientes com síndrome de Alport não apresenta certos antígenos presentes nos indivíduos normais e que o desenvolvimento de anticorpos após a realização de um alotransplante demonstra a presença desses antígenos no enxerto transplantado. Desta forma, como um auxílio diagnóstico, pode-se realizar imunofluorescência indireta utilizando soro com anticorpos anti-MBG, como o soro de pacientes com síndrome de Goodpasture por exemplo, sobre o tecido de pacientes com suspeita de síndrome de Alport. Se não houver reação, o diagnóstico de síndrome de Alport é apropriado. Também foram observadas a ausência do componente amilóide P e uma anormalidade do colágeno tipo IV na membrana basal glomerular de um grande número de pacientes com síndrome de Alport. A biópsia de pele desses pacientes, com reagentes apropriados, pode demonstrar a ausência de reação com anticorpos derivados do sangue de pacientes com síndrome de Goodpasture e a anormalidade do colágeno tipo IV. Assim, é possível que a síndrome de Alport possa ser diagnosticada sem a realização de biópsia renal. Além disso, parece que a urina dos pacientes com síndrome de Alport possui maiores quantidades de glicosídeos hidroxilisina, um dos componentes da membrana basal glomerular, do que os pacientes normais ou com outras glomerulopatias. Figura 3 - Microscopia eletrônica da síndrome de Alport NEFROLOGIA - 133 Esse achado sugere que possa haver uma maior degradação do colágeno da membrana basal glomerular e, possivelmente, de outras membranas basais do corpo. Não existe um tratamento específico que haja sobre o processo patológico subjacente ou altere o curso clínico da doença. Antibióticos, anticoagulantes, esteróides e imunossupressores mostraram-se sem valor. O tratamento de suporte inclui o controle da hipertensão e a restrição proteica. A abordagem da insuficiência renal segue as medidas convencionais. A diálise e o transplante renal não apresentam contra-indicações particulares, apesar de que a presença de antígenos nefritogênicos no enxerto pode levar a uma nefrite anti-MBG após o transplante. O defeito glomerular da síndrome de Alport não tem tendência a recorrência. Um cuidado particular deve ser tomado para evitar a intensificação da hipoacusia com certas drogas que apresentam ototoxicidade. Pode haver uma melhora ou estabilização da perda auditiva após o transplante dos pacientes com síndrome de Alport, mas a interpretação desses achados é difícil pois a diálise e o estado urêmico são responsáveis por uma perda reversível na audição. A acuidade visual deve ser monitorizada nos pacientes acometidos ou com risco de desenvolver lentícone ou catarata. View publication statsView publication stats