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da ação do grupo, ou então que sejam oferecidos, 
individualmente aos membros, incentivos cuja recompensa é outro bem 
diferente do bem coletivo” (FONSECA; BURSZTYN, 2007, p.178). 
Esta proposta é indicada em casos como os mencionados “certificados de 
redução de emissões”. Para Veiga (2010), boa parte dos economistas defende 
que apenas ao atribuirmos um valor monetário ao bem-estar coletivo a 
humanidade dará seu devido valor, dentro da lógica da racionalidade 
econômica. 
Como explicar então o amplo apoio – pelo menos discursivo – à 
sustentabilidade? Fonseca e Bursztyn (2007) explicam que os indivíduos 
apoiam a ordem social dominante para obter prestígio e status; da mesma 
forma, quando um indivíduo ou um grupo contraria as normas sociais 
legitimadas, ele sofre sanções. Esta é a normalidade até que um número 
relevante de indivíduos conteste a norma, desestabilizando a ordem social e 
colocando suas normas em xeque. Com a preocupação ambiental foi assim: os 
ambientalistas que defendiam a preservação do meio ambiente na década de 
70 eram considerados alarmistas, sem crédito social. Com a divulgação dos 
preceitos sustentáveis no final da década de 80, esta situação começou a se 
inverter e a preocupação ambiental entrou em pauta globalmente. 
Atualmente, ser a favor da sustentabilidade gera “lucro simbólico na 
esfera social” (FONSECA; BURSZTYN, 2007, p.173); em outras palavras, os 
indivíduos que se opõem à sustentabilidade são os marginalizados de hoje. 
Entre o Discurso e a Prática: o mi(n)to da arquitetura sustentável 
Capítulo 2 – Revisão de Literatura 
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”Ressalta-se que o apoio às normas sociais com vistas ao lucro simbólico daí 
resultante não necessita, em princípio, ter reflexos nas ações cotidianas dos 
indivíduos. O aplauso discursivo às normas gera efeitos simbólicos 
semelhantes à aplicação prática das mesmas” (FONSECA; BURSZTYN, 2007, 
p.173). 
É assim que surge o free-rider ou caroneiro-discursivo (FONSECA; 
BURSZTYN, 2007): indivíduos que desfrutam do bem coletivo sem 
contribuírem efetivamente para o mesmo. 
O comportamento do “free-rider discursivo” frente à questão 
ambiental contribui para explicar a diferença entre discurso e 
prática. Enquanto o “free-rider discursivo” propaga os discursos 
ambientalistas – por meio da racionalidade que maximiza os 
lucros simbólicos – esses discursos são referendados no 
contexto dos valores sociais dominantes e o desenvolvimento 
sustentável continua presente e, cada vez mais, legitimado. Ao 
mesmo tempo, sem incentivos ou sanções que forcem a prática 
de ações ambientalmente corretas, o carona simbólico pauta 
suas ações práticas pela otimização de seus interesses 
individuais, que muitas vezes não coincidem com os 
imperativos da sustentabilidade. (FONSECA; BURSZTYN, 
2007, p.181) 
Este é o caso de empresas que se aproveitam do marketing verde sem 
contrapartida compatível, de políticos que usam a sustentabilidade para serem 
eleitos e dos cidadãos “extremamente preocupados com o meio ambiente” e 
que, no entanto, nada mudam em seus hábitos diários: “(...) todos contribuem 
para que a discrepância entre o discurso e a prática do desenvolvimento 
sustentável seja mantida e a sustentabilidade ainda constitua uma realidade 
distante” (FONSECA; BURSZTYN, 2007, p.182). 
Embora o comportamento de free-rider contribua para o engodo teórico 
da sustentabilidade, Fonseca e Bursztyn (2007) apontam que existe um lado 
positivo, o do aumento da consciência ambiental. Este aumento contribui, 
mesmo que numa escala ainda muito reduzida, para mais ações responsáveis 
ambientalmente. 
O grande problema seria o caráter emergencial da implementação de 
mudanças de hábito e, para os autores, a alternativa mais viável seria 
minimizar o número de free-riders, oferecendo benefícios individuais e 
aumentando as sanções das práticas contrárias à sustentabilidade (FONSECA; 
BURSZTYN, 2007). 
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Capítulo 2 – Revisão de Literatura 
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Já Pereira e Mosca (200-?) defendem que a única maneira de se alcançar 
a sustentabilidade é com “(...) uma educação voltada para questões de 
mudanças de hábitos e práticas de consumo” (PEREIRA; MOSCA, 200-?, 
p.707). 
Afonso (2006) conclui que: 
Por enquanto, a sustentabilidade se realiza apenas como 
discurso. Discurso unânime, porém não transformado em 
práticas possíveis e nem mesmo em um caminho possível. 
Será preciso compreender que o bem comum, a cidadania 
acessível a todos e o contato com sistemas naturais saudáveis 
podem tornar a vida muito mais agradável (mesmo que alguns 
privilégios deixem de existir) para que possamos modificar os 
rumos de nosso pequeno planeta e a qualidade de nossas 
vidas. (AFONSO, 2006, p.70) 
Como vimos, a sustentabilidade já está consolidada enquanto discurso, 
no entanto, mantém-se a sensação de que pouco se tem feito para sua 
implementação real. As mudanças de hábito necessárias ao avanço da 
sustentabilidade estão profundamente relacionadas à ética e à moral 
individuais, assunto que será tratado a seguir. 
 
2.2.1. Moral e Ética 
 
Como discutimos, a sustentabilidade tem sido cada vez mais presente 
nos discursos dos mais variados atores da sociedade, desde empresas a 
governos e aos próprios cidadãos. No entanto, não é possível notar atualmente 
igual comprometimento nas atitudes práticas dos mesmos, legando a 
sustentabilidade ao campo da retórica. Para que este quadro se resolva e a 
prática sustentável seja, enfim, implementada, é necessário uma mudança de 
pensamento, que acarrete na formação de sujeitos críticos, com valores morais 
e éticos comprometidos com a sustentabilidade. 
A diferença básica entre a Moral e a Ética é que “O sujeito moral 
reconhece as regras, normais e hábitos que reforçam as estruturas de poder. O 
sujeito ético, no entanto, pensa criticamente tais estruturas e, se preciso, 
reinventa-as, transformando a moralidade” (APARECIDA MARIN, 2004, p.158). 
Ao compararmos esta afirmação com o trabalho de Fonseca e Bursztyn 
(2007) citado anteriormente, podemos concluir que a moralidade está 
relacionada diretamente à norma social vigente, que proporciona lucro 
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Capítulo 2 – Revisão de Literatura 
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simbólico ao sujeito que a segue. O conceito de free-rider proposto pelos 
autores seria, portanto, um sujeito moral, mas não um sujeito ético. 
Assim, o fundamental para a implementação plena da sustentabilidade 
seria a formação de sujeitos éticos. Veiga (2010) confirma esta conclusão: 
Sendo uma questão primordialmente ética, só se pode louvar o 
fato da ideia de sustentabilidade ter adquirido tanta importância 
nos últimos vinte anos, mesmo que ela não possa ser 
entendida como um conceito científico. A sustentabilidade não 
é, e nunca será, uma noção de natureza precisa (...) ela 
sempre será contraditória, pois nunca poderá ser encontrada 
em estado puro. (VEIGA, 2010, p.165) 
Neste contexto, surge a importância da educação ambiental: a ideia é 
criar “novos” cidadãos críticos, autônomos e éticos em sua essência 
(APARECIDA MARIN, 2004). 
Para Aparecida Marin (2004), alguns educadores ambientais propõem 
que deva existir uma mudança de uma ética antropocêntrica para uma ética 
biocêntrica, voltada para a sustentabilidade e compatível com suas mudanças 
de posturas e valores. A autora, contudo, questiona se esta mudança de ética 
não seria uma forma de converter a própria ética num discurso puramente 
moral: 
Revestir a ética de um interesse de mudança comportamental 
talvez seja reduzi-la a uma reformulação de um discurso moral, 
com todos os perigos de parcialidades político-ideológicas que 
isso pode carregar. O que quero salientar é que o sujeito que 
passou por uma formação crítica, e por uma educação estética,

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