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Cabestré, Graziade e Polesel Filho (CABESTRÉ; GRAZIADE; POLESEL 
FILHO, 2008 apud BACHA; SANTOS; SCHAUN, 2010, p.6) também 
apresentam um conceito interessante sobre o que vem a ser sustentabilidade: 
“a relação entre os sistemas econômicos e os sistemas ecológicos na qual a 
vida humana continuaria indefinidamente e os efeitos das atividades humanas 
permaneceriam dentro de limites sem destruir a diversidade, complexidade e 
funções do sistema ecológico de suporte da vida”. 
Estes conceitos foram desenvolvidos a partir da definição para 
desenvolvimento sustentável proposto pela Comissão Mundial sobre o Meio 
Ambiente e Desenvolvimento realizada pela ONU, em 1983, mais conhecida 
como Comissão Brundtland. Os resultados desta Comissão foram publicados 
em 1987, sob o título Nosso Futuro Comum, ficando também conhecido como 
Relatório Brundtland. Nele, o desenvolvimento sustentável é definido como o: 
(...) desenvolvimento que satisfaz as necessidades do 
presente, sem comprometer a capacidade das futuras 
gerações de satisfazer suas próprias necessidades. 
(GENERAL ASSEMBLY OF THE WORLD COMMISSION ON 
ENVIRONMENT AND DEVELOPMENT, 1987, p.54) 
Para Veiga (2010), o Relatório é um documento intencionalmente de 
cunho político e, embora esta seja a definição mais aceita para o 
desenvolvimento sustentável, alguns autores criticam seu caráter 
demasiadamente amplo: “A definição (...) é considerada, cada vez mais, um 
conceito válido, porém impreciso e aberto a diferentes interpretações, muitas 
vezes contraditórias, apesar de ainda ser a principal referência no âmbito 
internacional” (EDWARDS, 2008, p.20). Abreu (2006 apud PEREIRA, 201-?), 
concorda com esta afirmação: 
O caráter propositadamente vago e indefinido do conceito de 
desenvolvimento sustentável facilitou a constituição de um 
falso consenso: aparentemente amplo, mas, ao mesmo tempo, 
pouco efetivo em termos concretos (...). (ABREU, 2006 apud 
PEREIRA, 201-?, p.4) 
Entretanto, Veiga (2010) afirma que este caráter impreciso e ambivalente 
da definição é justamente o que garantiu sua força e aceitação praticamente 
global; citando Nobre e Amazonas (2002), o autor diz que esta definição 
“reuniu sob si posições teóricas e políticas contraditórias e até mesmo opostas. 
Entre o Discurso e a Prática: o mi(n)to da arquitetura sustentável 
Capítulo 2 – Revisão de Literatura 
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E isto só foi possível exatamente porque ela não nasceu definida: seu sentido é 
decidido no debate teórico e na luta política” (VEIGA, 2010, p.164). 
O consenso que parece existir é sobre a validade da discussão e 
fundamentação do conceito de desenvolvimento sustentável apresentada por 
Ignacy Sachs (AMODEO; BEDENDO; FRETIN, 2006; BACHA, SANTOS, 
SCHAUN, 2010; SILVA, 200-?; TIBÚRCIO, 2010; VEIGA, 2010). Embora sua 
contribuição seja voltada para o campo da Economia, Sachs é citado por 
autores de diversas áreas devido à sua contribuição para a definição de 
desenvolvimento sustentável e, em especial, pela proposição de seus cinco 
pilares: social, ambiental, territorial, econômico e político (SACHS, 2008). 
Sachs (2008, p.36) alega que, desde a década de 70, a problemática 
ambiental obteve cada vez mais reconhecimento, levando o Desenvolvimento a 
ser reconceitualizado, tornando-se Ecodesenvolvimento e, posteriormente, 
desenvolvimento sustentável. De acordo com o autor, o desenvolvimento 
sustentável exige “critérios de sustentabilidades social e ambiental e de 
viabilidade econômica”, devendo obedecer ainda ao “duplo imperativo ético de 
solidariedade sincrônica com a geração atual e de solidariedade diacrônica 
com as gerações futuras” (SACHS, 2008, p.15). Trata-se de um 
aprofundamento da definição do Relatório Brundtland. 
Os cinco pilares do desenvolvimento sustentável, segundo a contribuição 
de Sachs, são descritos a seguir: 
1) Social, fundamental por motivos tanto intrínsecos quanto 
instrumentais, por causa da perspectiva de disrupção social 
que paira de forma ameaçadora sobre muitos lugares 
problemáticos do nosso planeta; 
2) Ambiental, com as suas duas dimensões (os sistemas de 
sustentação da vida como provedores de recursos e como 
‘recipientes’ para a disposição de resíduos); 
3) Territorial, relacionado à distribuição espacial dos recursos, 
das populações e das atividades; 
4) Econômico, sendo a viabilidade econômica a conditio sine 
qua non para que as coisas aconteçam; 
5) Político, a governança democrática é um valor fundador e 
um instrumento necessário para fazer as coisas acontecerem; 
a liberdade faz toda a diferença. (SACHS, 2008, p.15-6) 
Semelhantemente ao seu conceito de desenvolvimento sustentável, estes 
cinco pilares foram desenvolvidos especificamente para o campo da Economia, 
Entre o Discurso e a Prática: o mi(n)to da arquitetura sustentável 
Capítulo 2 – Revisão de Literatura 
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entretanto são utilizados nas mais diversas áreas do conhecimento relativas à 
sustentabilidade (AMODEO; BEDENDO; FRETIN, 2006). 
Silva (200-?, n.p.) alerta que estes “(...) desdobramentos da 
sustentabilidade em dimensões [ou pilares, na terminologia utilizada por Sachs] 
refletem uma necessidade de cunho meramente analítico, pois trata-se de 
temas estreitamente vinculados entre si”. 
Em suma, poderíamos dizer que, para os efeitos deste trabalho, 
sustentabilidade é o estado de equilíbrio, no qual condições ambientais, 
econômicas e sociais satisfatórias estariam asseguradas para o presente, 
assim como para o futuro, indefinidamente. Desenvolvimento sustentável seria 
o meio para atingir-se tal fim. 
Embora possamos chegar a consensos, toda a discussão acerca destas 
definições é criticada por diversos motivos. 
Uma das críticas ao conceito proposto pela Comissão Brundtland é sua 
escolha de termos. Murray Gell-Mann, prêmio Nobel de Física em 1969, explica 
que o termo sustentável é literalmente inadequado, posto que vários cenários 
sustentáveis não são o que se espera com este conceito – a ausência de vida 
na Terra ou uma tirania universal, por exemplo, poderiam ser sustentados 
indefinidamente, mas não é o que se imagina pelo termo. Para Gell-Mann, a 
sustentabilidade vem acompanhada de certa desejabilidade, que, de acordo 
com ele, existe num determinado consenso global (VEIGA, 2010). 
Amartya Sen (2004) aponta outro ponto relevante: o ser humano poderia 
ser resumido apenas às suas necessidades? Onde ficam as questões dos seus 
valores? Para o autor, a definição da Comissão Brundtland seria reducionista, 
fazendo uma ideia insuficiente da humanidade. 
Com relação à noção geral de sustentabilidade, uma crítica é sugerida por 
Silva (2000) e refere-se à falta de respaldo científico do tema: a noção está 
apoiada em tendências, sem confirmação científica até o momento; isto se 
constituiria no maior desafio relativo à sustentabilidade, ou seja, comprovar sua 
necessidade e eficiência. 
Porém, a crítica que talvez seja mais pungente entre os diversos autores 
é apresentada por Moura (2002), que afirma que as diversas definições, 
enfoques e visões de sustentabilidade possuem contradições e ambiguidades, 
Entre o Discurso e a Prática: o mi(n)to da arquitetura sustentável 
Capítulo 2 – Revisão de Literatura 
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várias vezes irreconciliáveis, especialmente quanto à expressão 
desenvolvimento sustentável. Moura (2002) alega que a semântica de 
desenvolvimento é usada como sinônimo de progresso e são claras as tensões 
entre o almejado crescimento econômico ilimitado e a finitude dos recursos 
naturais. 
Assim, Silva (200-?) argumenta que o termo sustentabilidade carece de 
uma definição mais específica de acordo com o contexto em que seja adotado, 
fundamentando-o. Entretanto, esta mesma contextualização gera outras 
críticas justamente por sua amplitude de aplicações: 
A sustentabilidade para profissionais distantes do tema provoca 
debates estéreis

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