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��Os Barones de Boston 08 - Um Perfeito cavalheiro
Um Perfeito cavalheiro
Série multi- autoras – Os Barones de Boston 08
Cindy Gerard
Titulo Original: The Librarian’s Passionate Knight
Resumo:
Quando a bibliotecária Phoebe Richards viu o homem que a salvou de seu ex-noivo, não podia acreditar. Só nos livros e em seus sonhos tinha visto um homem tão sexy como Daniel Barone. Era tudo o que um herói devia ser: bonito, valente, milionário... E completamente fora do alcance de Phoebe. Daniel Barone acreditava ter visto tudo. Mas nada o tinha preparado para o inocente sorriso de Phoebe, e nada o surpreendia mais que o estranho desejo de ficar com ela. Pela primeira vez em sua vida, sentiu medo: sobreviveria a uma aventura com aquela bibliotecária ingênua que usava óculos?
Capítulo Um
Daniel Barone não estava muito seguro do porque daquela mulher ter chamado sua atenção. Em uma visão global das coisas não era mais que um grama de areia perdida entre as brilhantes cores do Faneuil Hall, no centro de Boston.
Era uma noite quente de agosto, e o mercado ao ar livre estava vivo e repleto de tonalidades, aromas e sons. Justamente o contrário daquela mulher. E, entretanto, tinha captado sua atenção enquanto esperava pelo carrinho de sorvetes que estava por trás dela.
Iguais ao resto das pessoas que havia na fila, ambos esperavam sua vez. Mas ao contrário dos outros, que avançavam calmamente em formação, ela se balançava com impaciência. Parecia estar dançando, como se encontrasse um prazer irresistível no simples fato de pensar que dentro em pouco teria em suas mãos um sorvete de casquinha.
Por alguma estranha razão, aquilo provocou em Daniel um sorriso. Aquela exuberância o encantava e não teve outro remédio senão voltar a olhá-la.
Tinha estatura mediana, embora de perto talvez parecesse menor. Seu cabelo não era loiro nem castanho e não era nem remotamente sexy o corte de cabelo que tinha. As calças curtas e a camiseta que usava cobriam o suficiente o que parecia ser um corpo bonito e miúdo, embora não pudesse ter certeza. À exceção do esmalte vermelho brilhante dos pés, não havia nada luminoso naquela mulher, até que se virou com seu cobiçado prêmio entre as mãos.
Detrás dos óculos antiquados e insípidos, os olhos de cor mel brilhavam com alegria, inteligência e um bom humor natural. E quando deu a primeira lambida no sorvete, longa e lentamente, um sorriso de puro prazer iluminou seu rosto comum transformando-a num rosto que tirava a respiração. O brilho daquele sorriso quase o deixou cego. 
- Valeu a pena à espera - sussurrou ela soltando um suspiro enquanto abandonava a fila.
- Eu que o diga - reconheceu ele lhe dedicando um sorriso enquanto observava a deliciosa cadência de seus quadris ao afastar-se.
Daniel se perguntou por que uma mulher dotada de uma beleza natural tão excitante teria decidido esconder-se detrás daqueles óculos de professora, um corte de cabelo sem imaginação e aquela roupa tão vulgar. Seguiu-a com o olhar enquanto se perdia entre a multidão. Prosseguia olhando-a quando o menino do carrinho de sorvetes o trouxe à realidade.
- Ouça amigo: quer um sorvete ou não?
- Sim, sinto muito - respondeu Daniel se virando lentamente para o carrinho.
Colocou a mão no bolso de seu paletó para tirar a carteira e, sem deixar de sorrir, indicou com o queixo a moça e disse:
- Tomarei o mesmo que ela. Mas com duas bolas.
O sorvete não era tão delicioso como os da Baronessa, é obvio, mas era um prazer simples, doce e delicioso.
Como o sorriso sincero de uma mulher bonita e satisfeita.
Daniel voltou a sorrir desta vez se criticando, porque não podia evitar a imagem que tomava conta de sua mente.
A cabeça daquela mulher recostada sobre seu travesseiro.
Seu corpo suave e quente e suplicante sob seu...
Seu incrível sorriso não só de satisfação, mas também de autêntica plenitude; Phoebe Richards perambulou pelo mercado entre a multidão de turistas e bostonianos que tinham saído à rua para desfrutar daquela noite de agosto. Tomou seu sorvete de baunilha e se negou a pensar nas calorias. 
Aquele era seu prêmio por ter perdido um quilograma depois de seis dias de abstinência de sorvetes. Deu uma olhada nas vitrines das lojas de marca, nas que não podia permitir o luxo de comprar e aplaudiu as apresentações dos artistas de ruas a cujas atuações grátis podia se permitir. Dedicou um pensamento, ou talvez dois, ao bonito desconhecido de incríveis olhos azuis e sorriso encantador.
Não estava acostumada a desfrutar de nenhuma das duas coisas em sua vida: nem de bonitos desconhecidos nem de suas risadas encantadoras. E não se importava. Mas era divertido imaginar que algo poderia ter acontecido entre os dois se ela tivesse dado chance. Mas, para isso precisaria de ter um espírito aventureiro, o que ela não teria nem que se passassem um milhão de anos. Além do que, esse tipo de coisas só acontecia nas novelas que ela assistia durante a semana. Sua vida amorosa estava muito longe do descrito naquelas novelas. De fato, ultimamente sua realidade se aproximava ao horror.
Decidida a não pensar na situação tão feia que vivera com seu ex-noivo, optou por se auto flagelar um pouco e reconhecer que era muito covarde para sequer avivar a chama de interesse que tinha visto dançar naqueles impressionantes olhos azuis.
- De qualquer maneira, não teria acontecido nada mesmo... - murmurou entre dentes.
Nesse momento, uma loira escultural vestida com roupa de griff e muito bem maquiada, esbarrou em seu ombro sem querer ao passar.
- Desculpe – disse Phoebe, embora tenha sido ela a atingida e não era culpada.
Sua reação tinha sido automática e não tinha nada a ver com a boa educação. Era um ato de humilhação, um antigo costume que teria que se livrar se quisesse defender seu terreno em muitos outros aspectos.
-Por que faz isso sempre? - tinha-lhe perguntado sua amiga Leslie a última vez que comeram juntas.
Naquela ocasião, Phoebe tinha pedido desculpas ao garçom porque a sopa estava gelada e a alface de sua salada dura como uma pedra.
-Não deve às pessoas uma desculpa pelas falhas que eles comentem. Você também tem direitos.
Sim, tinha direitos. Por exemplo, o direito a seguir sendo tímida. Não podia evitá-lo. Para ela era mais fácil esconder-se que ficar em pé. A vida a tinha ensinado essa lição sendo muito pequena.
Uma vez fez a Leslie uma revelação sobre sua infância.
-Olhe: quando se é um patinho feio de doze anos, tem quinze quilogramas a mais e uma mãe alcoólatra que não faz mais que te repetir que para ela é uma decepção, aprende a desaparecer pela porta traseira. Cheguei a fazê-lo tão bem que as pessoas apenas se davam conta de minha existência. A vida era mais fácil assim. 
E seguia sendo-o. Os velhos costumes eram muito difíceis de mudar. E à avançada idade de trinta e três anos não se daria ao trabalho de mudar.
-Além disso - tinha continuado explicando a Leslie-, os enfrentamentos me acelera o coração. Forma-me um nó no estômago e as mãos começam a suar. Não me vale à pena.
Phoebe foi consciente de que uma gota de suor lhe escorregava pela têmpora, e a retirou com um lenço de papel.
-Agosto - disse bem alto enquanto lhe dava a última dentada a seu sorvete-. Eu gosto.
Eram quase às onze da noite e a cidade seguia tão animada como uma selva. No dia seguinte tinha que madrugar para fazer outro turno na biblioteca, por isso decidiu que já era hora de voltar para sua casa e meter-se na cama. Sozinha. Como de costume.
-Isto foi outra excitante sexta-feira à noite para a Phoebe Richards - murmurou entre dentes, enquanto se afastava a um lado da calçada para deixar passar a um casal.
Pareciam tão encantados um com o outro, tão apaixonados, que não pôde evitar sorrir, embora com certa nostalgia. O desejo de encher o vazio que tinha em seu coração parecia haver-se feito mais profundo com o passar dos anos. O mundo girava, e a seu redor o amor parecia florescer paratodos menos para ela.
Phoebe cruzou a rua e andou durante três quadras a caminho de seu carro, tratando de animar-se. Um fracasso sentimental não a convertia em uma inútil para o amor. Embora talvez dois fracassos sim, pensou mordendo o lábio inferior. E não digamos já três ou quatro.
De acordo. Sua vida amorosa era um desastre, tal e como lhe repetia constantemente sua amiga Leslie sacudindo a cabeça.
-Garota, parece que os escolhe de propósito. Phoebe exalou um suspiro de resignação enquanto lhe vinha à mente Jason Collins. 
-Não sirvo para isto - reconheceu Phoebe em voz alta-. Mas não há quem ganhe encontrando vaga para estacionar. 
O lugar que tinha encontrado aquela noite estava só a três quadras do mercado. Mas, sentindo um leve calafrio, pensou que talvez tivesse sido melhor que estivesse em uma rua mais iluminada.
Phoebe abriu a bolsa e começou a procurar nela para encontrar as chaves. Não lhe dava medo sair sozinha à noite. Ao menos não muito, reconheceu. Levava toda a vida em Boston e simplesmente era precavida, pensou enquanto tirava as chaves. Em geral não lhe assustavam as sombras nem olhava debaixo da cama ao deitar-se se por acaso havia alguém, mas sua atitude tinha mudado desde que dois meses atrás rompeu com o Jason e ele começou a chamá-la em meio da noite e a acossá-la no trabalho.
Um calafrio lhe percorreu o espinho dorsal ao pensar de novo nele, mas repetiu a si mesmo que tinha que superá-lo. Jason tinha sido um engano, mas o tinha desculpado. Ou isso acreditava até que escutou sua voz.
-Dando uma volta para te divertir um pouco, né, camundongo?
Phoebe girou tão depressa que lhe caíram às chaves ao chão.
-Jason... - sussurrou morta de medo, enquanto o coração pulsava com tanta força que parecia que ia sair do peito.
-Jason... - imitou-a ele com tom zombador enquanto se agachava a recolher as chaves-. Isso é tudo o que tem que me dizer? Ao menos podia fingir que te alegra de ver-me. Depois de tudo, passei a noite te procurando.
Phoebe obrigou a si mesmo a olhá-lo aos olhos, injetados em sangue, e se odiou ao dar-se conta de que não podia lhe sustentar o olhar. E se odiou ainda mais ao precaver-se de que estava tremendo.
Jason tinha o cabelo comprido e desarrumado e levava a camisa suja. Além disso, estava bêbado. Muito bêbado. Destilava álcool quando começou a aproximar-se dela, deixando-a totalmente paralisada e obrigando-a a recordar momentos de sua infância e um muito recente: a primeira e única vez que lhe tinha batido. O hematoma da bochecha tinha demorado bastante em desaparecer, mas a lembrança não lhe apagaria nunca embora tivesse expulsado de sua vida ao Jason naquele mesmo instante.
Ele a olhou fixamente com um sorriso de desagrado.
Como pôde Phoebe pensar alguma vez que tinha um sorriso bonito?
E o que era mais importante, como ia sair daquela situação?
-Me dê as chaves, Jason - ordenou-lhe tratando de aparentar firmeza.
Mas, por desgraça, suas palavras soaram, mas, como uma súplica.
Jason sacudiu a cabeça com gesto compassivo e apartou as chaves de seu alcance.
-Sabe uma coisa? Seu problema é que nunca soubeste lhe mostrar a um homem o respeito que se merece. Deveria-me dizer obrigado em lugar de me dar ordens.
-Obrigado... Por me recolher as chaves - disse Phoebe com os olhos fechados, depois de tragar saliva -. Poderia... Poderia me devolver isso, por favor? - implorou andando para trás até chegar a dar com a porta do carro.
-Isso está melhor - respondeu ele sorrindo com ar triunfal - Mas ainda não é suficiente. Igual a mim tampouco fui alguma vez suficientemente bom para você, verdade? Verdade?
Phoebe se concentrou para não entrar em pânico enquanto Jason se aproximava de seu rosto. 
-Como é possível? - exclamou ele com raiva - Como é possível que um rato de biblioteca dissimulada pense que é melhor que eu?
Jason limpou a saliva da boca com o dorso da mão antes de continuar.
-Você acredita que é uma jóia, ou algo assim? -perguntou soltando uma amarga gargalhada-. Pois não o é, entende? Não é mais que um lixo. Um lixo! - assegurou lhe cravando os dedos no antebraço com tal força que Phoebe fechou os olhos de dor -. Pode-se saber o que acontece com você?
Igual a um animal pressente o perigo de um terremoto, Phoebe se deu conta de que ele ia golpeá-la. Fazendo um esforço sobre-humano, conseguiu escapar do Jason e apartar-se rápida-mente antes que seu punho aterrissasse e fosse dar contra a porta do carro com um golpe surdo. O sujo palavrão do Jason encheu o ar da noite e Phoebe saiu dali meio andando meio correndo, rezando para que ele se dedicasse a sanar sua ferida e se esquecesse dela.
Mas o som de passos fortes golpeando sobre a calçada a suas costas fez ver que não seria assim.
Phoebe sentiu que o coração se encolhia. Uma náusea abriu caminho através do estômago enquanto apertava o passo e, pela enésima vez na vida, desejou ter o sangue-frio e a habilidade suficientes para contra-atacar.
A multidão tinha dado passo a um punhado de pessoas quando Daniel divisou à dama do sorvete uma quadra mais acima. Aquele prazer inesperado e incontestável lhe fez esquecer-se do cansaço e o obrigou a dirigir-se para ela.
Estava apenas a uns quantos metros quando se deu conta de que não estava sozinha. Um homem de uns dois metros de altura e bastante grosso ia lhe pisando os calcanhares.
Daniel observou a cena com olho crítico. Não gostou do que viu. Pensou que se tratava de um gorila desalmado. Escutou fragmentos soltos de sua conversação quando se detiveram ao lado de um carro pequeno de cor cinza. Escutou o suficiente para dar-se conta de que aquele tipo era um indesejável, e algo mais: que lhe tinha medo.
Para Daniel se oprimiu o estômago quando o homem lhe apertou o braço com tanta força que ela fechou os olhos de dor. Aquilo era mais do que estava disposto a suportar.
Capítulo Dois
Daniel se pôs a andar, mas a perdeu de vista um instante à mulher porque de repente se viu envolto em meio de um grupo de buliçosas adolescentes. Quando conseguiu sair dali e voltou a ver a mulher, esta se estava afastando com passo firme. O homem lhe seguia os calcanhares. 
Daniel correu um pouco e ficou à altura dela.
-Ouça carinho - disse colocando-se a seu lado e cortando com seu corpo a presença do outro homem -. Anda um pouco mais devagar, quer? Estivemos a ponto de nos perder – assegurou lhe colocando sua mão pelos ombros dela como se fosse um homem reclamando a sua garota.
Ela se deteve com tanta brutalidade que Daniel teve que sujeitá-la para impedir que caísse. Quando elevou os olhos para olhá-lo, lhe viam muito abertos, duros e assustados depois das lentes dos óculos. Demorou uns segundos em reconhecê-lo como ao homem da fila dos sorvetes.
Daniel lhe sorriu e a tranqüilizou com o olhar, como se lhe dissesse: «Atua. Eu te tirarei desta»
-Que tal estava seu sorvete? - perguntou-lhe enquanto a obrigava a seguir caminhando. 
-Be... Bem - conseguiu responder ela finalmente compreendendo o jogo.
-Quem diabos é você? - perguntou uma voz furiosa a suas costas.
-Segue andando - sussurrou-lhe Daniel ao ouvido.
Pelo bem da mulher, não queria montar uma cena, e lhe parecia que a melhor maneira de evitá-la era seguir andando.
Mas uma mão repugnante a agarrou pelo ombro, obrigando-o a deter-se.
-Perguntei quem diabos você é .
-Sou o tipo que vai acompanhar esta dama a sua casa - respondeu Daniel girando-se com um sorriso condescendente na cara-. E agora, se nos desculpar...
-Me deixou por este? - exclamou Jason arrastando as palavras por causa do álcool-, Por este menino bonito? Eu sabia! Sabia que estava me enganando!
-Jason - começou a dizer ela ruborizando-se-. Terminamos. Terminamos faz dois meses. O que tenho que fazer para que entenda?
-Isso, Jason - repetiu Daniel com falsa cordialidade-. O que tem que fazer para que o entenda?
-Não te meta nisto - ordenou-lhe Jason centrando-se outra vez nela-. Não terminamos, camundongo. Terminaremosquando eu o disser. 
Manchas vermelhas lhe cruzavam o branco dos olhos semi-abertos. Tinha os punhos fechados colocados a ambos os lados do corpo. Queria golpear a alguém. Em Daniel se formou um nó na garganta ao dar-se conta de quem ele queria bater.
-Nem pense nisso - assegurou colocando-se diante da Phoebe, na linha de fogo-. E se faça um favor: Vá embora. Vá embora de uma vez por todas.
Jason, que pesava ao menos vinte kilos a mais do que ele, soltou uma gargalhada.
-Quer brigar comigo, menino bonito?
-Eu adoraria - respondeu Daniel com gesto depreciativo-. Mas não vale a pena perder o meu tempo com você. E agora dê a volta e deixa à dama em paz, ou se verá comigo e com o policial que vem para cá. Quer que te detenha por assalto sob os efeitos do álcool? Faz um só movimento e o conseguirá.
-Algum problema por aqui, meninos?
-Não sei - respondeu Daniel olhando fixamente ao Jason enquanto o policial se aproximava-. Há algum problema?
Jason duvidou um instante, mas, finalmente negou com a cabeça.
-Há algum problema? -repetiu Daniel girando-se para olhar aquele par de olhos de cervo para lhe fazer saber que não tinha mais que dizer uma palavra para que acabassem com aquele tipo.
-Não - respondeu ela depois de uns segundos.
-Parece que tudo está em ordem - disse girando-se para o policial com um sorriso-. Obrigado de toda maneira.
Daniel lançou a Jason um olhar de advertência e logo esperou até assegurar-se de que o outro homem partia. Quando o viu afastar-se voltou a passar o braço pelos ombros da moça.
-Vamos sair daqui.
Ela esboçou um pequeno sorriso, não sabia muito bem se de alívio ou de agradecimento. Tremia tanto que Daniel temeu que lhe escapasse do braço. Mas quando se puseram a andar, Phoebe exalou um suspiro de alívio que pareceu liberá-la de toda a tensão.
Daniel se sentia cômodo com o modo em que o corpo daquela mulher se ajustava ao dele, mas o que não gostava tanto era o instinto de amparo que despertava nele.
Não era a primeira vez que se sentia atraído por uma mulher, mas geralmente gostava de saber algo delas antes de acender as luzes. Para começar, pensou com uma careta, tentava ao menos saber como se chamavam.
Phoebe imaginou que estava em estado de choque. Não lhe ocorria nenhuma outra razão para permitir que um perfeito desconhecido colocasse o braço pelos seus ombros e a afastasse mais e mais a cada passo de seu carro. Certamente Jason a tinha deixado tão assustada que tinha perdido o sentido, mas tampouco lhe escapava o fato de que o homem com o qual caminhava com ela sobre a calçada era provavelmente o mais bonito que tinha visto em sua vida.
-Está bem? - escutou-lhe dizer.
Pelo tom que utilizou, Phoebe se deu conta de que não era a primeira vez que o perguntava. Sua voz, tão suave e profunda como a água, parecia cheia de preocupação.
Ao ver que ela era incapaz de lhe responder, Daniel se deteve, agarrou-a brandamente dos ombros e a olhou aos olhos.
Céu Santo era muito bonito. Não era especialmente alto, mediria menos de dois metros, mas mesmo assim ela tinha que levantar o queixo para poder olhá-lo. Tampouco era especialmente musculoso, como os culturistas, mas sim tinha uma constituição parecida com a dos corredores ou os nadadores. A camiseta negra e as calças curtas deixavam ver umas extremidades magras embora fortes, e ligeiramente bronzeadas.
Phoebe obrigou a si mesma a concentrar-se no momento, mas não pôde evitar em pensar que tampouco se tratava de um trabalhador. Havia algo em sua presença que denotava dinheiro. Aquilo era tão óbvio como o azul de seus olhos. Notava-se tanto no estilo do corte de seu cabelo castanho queimado pelo sol como na camiseta de esporte que levava.
Os olhos azuis que lhe esquadrinhavam o rosto tinham um ar sonhador e largas pestanas negras, e pareciam estar estrategicamente situados naquele rosto de pôster para provocar o máximo impacto.
Entretanto, aquela beleza masculina de corte clássico tinha o suficiente de traços de dureza para salvar-se de ser perfeita. Uma pequena cicatriz lhe marcava a linha do lábio superior e uma no arco da sobrancelha. Mas apesar disso, seu rosto estava tão simetricamente esculpido que fazia mal olhá-lo tanto, ao mesmo tempo era também impossível olhar para outro lado.
Aquele homem era tudo, absolutamente tudo o que tinha que ser um herói: Valente, muito bonito e rico.
A Phoebe deu um tombo o coração e retornou à realidade. Ela não era uma heroína que valesse a pena.
-Está aí? - perguntou ele lhe passando a mão por diante da cara com certa ironia - Quantos dedos vê?
Phoebe piscou e o olhou fixamente.
-Quatro e o polegar - respondeu recuperando-se - Não chegou a me pegar.
-Mas queria fazê-lo - assegurou Daniel sorrindo com amabilidade -. E isso já é um delito.
Tinha uma boca muito sensual, e seus lábios carnudos pareciam estar sempre fazendo uma careta.
Phoebe se deu conta de que estava outra vez olhando-o fixamente, assim desviou o olhar para apartar dos olhos mais expressivos que certamente tinha visto em sua vida. Mas antes de fazê-lo viu a compaixão desenhada neles e se envergonhou. Embora se tratasse de um perfeito desconhecido, não queria que pensasse assim dela.
-OH, não, não... Não é o que está pensando. Não sou dessas pobres mulheres que se vêem envoltas em um círculo de maus tratos. Terminei a relação faz meses. O que ocorre... Bom, o que ocorre é que ele não quer assumir que terminou.
-E não parece que vá fazê-lo nunca a não ser que tenha uma boa razão para parar e considerar as conseqüências.
De fato, era ela e não Jason a que estava sofrendo as conseqüências de sua obsessão.
-Bom — respondeu Phoebe tratando de recuperar algo do pouco orgulho que ficava depois daquela situação -. É meu problema. Já resolverei isso.
-A solução poderia ser uma pistola. E lhe aponte entre as sobrancelhas - assegurou Daniel com voz sombria.
-Porque será que todos se guiam pela testosterona? - perguntou ela sem poder conter-se.
Phoebe fechou os olhos e levou as mãos às têmporas. Mau, mau e mau.
Não sabia como comportar-se com aquele homem. Ou ficava babando contemplando em silêncio seus atrativos ou lhe soltava as frases mais inapropriadas.
-Sinto muito. Me salvou de uma situação espantosa e te estou dando bronca por... 
Phoebe não terminou a frase. Limitou-se a levantar a mão ao ar em gesto de frustração.
-Por acrescentar mais violência a uma situação já por si só violenta? - sugeriu Daniel em tom de desculpa -. Por desgraça, às vezes é a única opção.
Pela primeira vez, Phoebe observou em sua boca algo distinto ao gesto de leve diversão que o caracterizava. Era um sorriso duro. Viu e escutou sua raiva, mas compreendeu que estava dirigida para o Jason.
Também compreendeu que ele não a tinha julgado com tanta dureza como ela mesma.
Nesse instante se deu conta de que aquele homem a olhava com uma intensidade absorvente que a fez esquecer-se de todas as preocupações, e exalou com força o ar.
-Bom - começou a dizer, sentindo a necessidade de tranqüilizá-lo -, estarei bem. Cedo ou tarde se cansará. De verdade que não sei como te dizer obrigado. A maioria das pessoas não teria parado e se colocado em meio de uma situação violenta entre duas pessoas.
-Eu não sou como a maioria das pessoas.
Phoebe já se deu conta disso. Não se parecia em nada a nenhuma das pessoas que conhecia. E tampouco se parecia em nada a ela, que era uma mais da multidão. E trocou ele... Bom, ele não.
-E agora o que?
-E agora o que? - repetiu ela soltando de novo outro suspiro-. Pois agora eu retornarei ao carro e irei para a minha casa.
Aquilo parecia simples, mas Phoebe se deu conta ao dizer de que não ia resultar tão fácil. Se tivesse tido forças teria soltado uma gargalhada.
-Bom, normalmente retornaria ao carro e iria para a minha casa.
-Normalmente?
-Levou as chaves de meu carro - respondeu ela mordendo o lábio inferior.
-Ah - respondeu o homem arqueando uma de suas bonitas sobrancelhas-.Isso sim que é um problema.
Phoebe se retorceu as pontas do cabelo que lhe caía pela nuca e tratou de não pensar na maneira em que ele a estava olhando, com aquela mescla de diversão e interesse masculino.
-Por isso parece, está com um problema.
Sim. Tinha um problema. Então, por que lhe devolvia o sorriso?
-Eu... Pararei um táxi - assegurou então aparentando firmeza -. Tenho outro jogo de chaves em casa. Posso voltar amanhã para buscar o carro.
-Outra opção - interveio Daniel balançando-as mãos nos bolsos de suas calças curtas -, é que eu te leve.
-OH, não - apressou-se a responder ela embora a idéia adorasse -. Não posso te pedir uma coisa assim. Já tem feito o suficiente. E nem sequer me conhece. Nem eu tampouco a você.
-Isso sim é um problema - respondeu Daniel lhe dedicando outro daqueles sorrisos capaz de derreter as pedras -. Poderia me dizer seu nome e eu te direi o meu. Assim já poderemos dizer que nos conhecemos. O que te parece?
A Phoebe parecia de pérolas. Ainda lhe parecia incrível que um homem com aquele aspecto se interessasse o mínimo por uma mulher como ela. Mas a idéia a agradava. De fato, estava-se dando conta de que gostava de tudo o que via nele.
Como aqueles lábios tão sensuais.
-Então, o que me diz? - insistiu Daniel - Começa você?
-Phoebe - murmurou ela apartando a vista de seus lábios-, Phoebe Richards.
-Phoebe - repetiu Daniel como se mastigasse as letras -. Eu gosto. Vai muito melhor que camundongo.
Ela piscou e voltou a ficar sem palavras.
-Eu sou Daniel - disse ele com um sorriso, estendendo a mão -, Daniel Barone.
Lentamente, Phoebe lhe devolveu o sorriso e tomou a mão que lhe oferecia. Era uma mão forte que envolvia à sua, miúda e frágil. Antes que pudesse evitá-lo, veio-lhe à mente a imagem daquela mão cálida percorrendo outros lugares de seu corpo muito mais íntimos.
Phoebe agradeceu mentalmente que a rua estivesse escura. Talvez assim ele não pudesse ver o rubor que se deu em suas bochechas. E com um pouco de sorte tampouco se daria conta do ligeiro tremor que a sacudiu quando por fim foi capaz de apartar sua mão da dele.
-Me deixe te levar a casa, Phoebe Richards – lhe pediu Daniel com amabilidade-. Espera um segundo antes de me dizer que não. Pensa no mal que me sentiria se depois de tudo que fiz lhe atacassem ou algo parecido. Eu teria arriscado minha vida para nada.
A confiança que mostrava em si mesmo lhe fez recordar a Phoebe a pouca que ela tinha. Pensou que Daniel Barone não podia evitar interpretar o papel de herói. E pelo contrário, ela nunca encaixaria no rol de heroína, por muito que no fundo desejasse formar parte daquela obra.
Então caiu a ficha.
Já sabia quem era ele.
Abriu os olhos desmesuradamente, como podia não havê-lo reconhecido?
Talvez estivesse equivocada, pensou paralisada pelo pânico enquanto percorria aquele rosto com o olhar. Talvez não tivesse feito o maior dos ridículos frente ao homem que tinha sido definido uns meses atrás por uma revista de Boston como «Sem dúvida nenhuma o milionário mais sexy e atrativo da cidade».
-Daniel Barone? - murmurou como o autêntico camundongo que era -. O verdadeiro Daniel Barone?
Quando ele cruzou os braços e a olhou sorrindo, Phoebe se deu uma palmada na frente. 
-O Daniel Barone das revistas? O Barone dos sorvetes Baronessa?
Havia que viver debaixo de uma rocha para não ter ouvido falar dos Barone de Boston. A família italiana da dinastia do sorvete era uma lenda não só neste Costa, mas também em todo mundo. A sorveteria original ainda funcionava no North End de Boston, e os deliciosos sorvetes da Baronessa tinham convertido a todos o que levavam o sobrenome Barone em multimilionários.
Daniel encolheu os ombros. Parecia sentir certo acanhamento, o que não fazia mais que acrescentar atrativo a seu aspecto.
-Tenho a impressão de que o considera como algo mau.
-OH, não! É só que...
-É só um sobrenome - interrompeu-a Daniel para deixar clara sua postura-. E eu sou só um tipo que quer assegurar-se de que chega a casa sã e salva, de acordo?
Apesar de tudo, Phoebe se sentiu incapaz de não lhe devolver o sorriso. Tinha optado por render-se ante ela. Igual a tinha optado por renunciar à sensatez e aceitar seu convite a levá-la.
Daniel estendeu a mão e ela duvidou uns instantes antes de tomá-la.
Só um sobrenome. E só uma mão. Recordou-se a si mesmo que simplesmente estava sendo educado. E, entretanto, se sentia como se estivesse caminhando em sonhos enquanto deixava que a guiasse até seu carro.
Acaso não tinha direito, embora só fosse uma vez, a que se cumprisse uma de suas fantasias, uma fantasia real que incluía um dos homens mais ricos e atrativos do mundo?
Daniel lhe abriu a porta do carro e Phoebe entrou. Afundou-se no couro do assento e fingiu que estava acostumada a ele. Deixou-se envolver pela música clássica que saía do aparelho de som e entrou em outro mundo. O mundo do Daniel.
Exalou um suspiro para tratar de recordar que realmente não pertencia a aquele mundo. Do mesmo modo que não tinha nada em comum com um homem assim.
E, entretanto, ali estava.
Dentro de seu carro, amparada pela escuridão, com o homem de seus sonhos. Dos seus e dos de qualquer mulher viva.
Daniel Barone era um cavalheiro de reluzente armadura que a havia literalmente salvado. O Porsche prateado podia considerar-se sem dúvidas como sua armadura.
Phoebe seguia em seus pensamentos quando ele girou para olhá-la. Seus olhos azuis a observavam com interesse através das sombras que em seu rosto provocavam a luz das luzes.
-Pronta? - perguntou ele sorrindo de novo daquele modo irresistível.
-Ao castelo - murmurou Phoebe inclinando-se para trás no assento.
Capítulo Três
A euforia da Phoebe não durou mais à frente do primeiro semáforo. A corrente de adrenalina que a tinha atravessado durante a desagradável situação vivida com o Jason desapareceu rapidamente. Além disso, ela era muito prática para deixar-se levar por aquela fantasia durante muito tempo. Em qualquer caso, quando Daniel rumou para sua rua ela já se abateu.
Daniel Barone. Ainda não podia acreditar. E se ele achava seu bairro modesto em comparação com a grandiosa residência do Beacon Hill em que tinha crescido, foi o suficientemente educado para não demonstrá-lo.
Era a imagem do perfeito cavalheiro, com a exceção de que conduzia muito depressa. Não lhe teria feito falta ler o artigo da revista sobre ele para saber que isso formava parte de seus gostos. A velocidade. As provocações. O afã de fazer o que a outros mortais dava medo. Suas façanhas eram legendárias. Phoebe supôs que teria que ser excitante atravessar a noite naquela bala chapeada. Mas ela carecia daquele instinto aventureiro. Era um caso perdido. E Daniel se equivocou a respeito de seu nome. Camundongo ia perfeitamente. Era uma covarde.
Phoebe suspirou com força. Não combinava nada com aquele Porsche prateado. Nem tampouco combinava com aquele homem, nem em sonhos nem na realidade por muito que ele tratasse de lhe facilitar as coisas. E, que Deus o benzera, Daniel o tinha tentado. Mas, para mortificação da Phoebe, na meia hora de trajeto até sua casa a conversação se limitou a seus repetidos agradecimentos por levá-la e às constantes brincadeiras de Daniel em referência a seus nódulos, brancos de ir tão agarrada ao banco.
Aquele homem estava fora de seu alcance. 
Deveria haver-se sentido aliviada quando ele estacionou por fim em frente a sua casa e desligou o motor. E, entretanto, invadiu-a uma estranha mescla de frustração e remorso.
Phoebe acariciou o couro do assento e exalou outro resignado suspiro de frustração enquanto procurava a maçaneta da porta.
A aventura tinha terminado.
-Espera - disse Daniel-. Eu o farei.
Phoebe não estava em realidade tão resignada como pensava, assim esperou enquanto ele descia do carro, rodeava-o e lhe abria a porta do passageiro com a galanteria de um cavalheiro medieval.
O castelo notou Daniel, resultou seruma construção modesta dos anos sessenta em tons brancos e negros. Estava situada no meio de uma quadra de um bairro limpo e bem conservado. No interior da casa havia uma luz acesa, e um gato gordo e grande os contemplou através da janela com ar de superioridade enquanto se aproximavam.
Daniel era um homem observador e se deu conta de que a grama estava aparada e que havia duas filas de flores margeando o atalho que levava para a casa. O alpendre era menor que normal, e nele havia cestos com petúnias que penduravam de umas colunas que tinham a pintura cortada.
Daniel não soube o que o comovia mais: se o fato de que Phoebe fosse uma mulher que cultivasse flores e provavelmente cortasse ela mesma a grama, ou a pintura em mal estado indicando que tinha pouco tempo ou pouco dinheiro.
Ao final não foi nenhuma daquelas coisas, a não ser a visão de uma rã de estuque horroroso do tamanho de um punho que estava no tapete de entrada. Não sabia por que, mas isso o comoveu.
-Bom - disse ela passando a mão nervosamente pelo cabelo e sem olhá-lo aos olhos - Obrigado outra vez. De verdade. Não precisava me acompanhar até a porta.
-Nem pense nisso... - Advertiu ele antes que Phoebe começasse de novo com a mesma história que tinha repetido durante todo o trajeto-. Fazemos um trato, recorda? Já não me pediria mais desculpas.
-Tem razão. O sinto... Quero dizer que não vou te pedir mais desculpas - corrigiu-se ela com sorriso angelical.
Phoebe se agachou para recolher a rã. Estava ruborizada e tinha um aspecto adorável.
Daniel ficou de pé em silêncio, absorvendo o delicioso aroma de sorvete de baunilha e de verão que a rodeava, estudando a forma que lhe separava o cabelo em duas metades, considerando a possibilidade de acariciar aquelas mechas de seda que pareciam o cabelo de um bebê. A tentação era tão forte que teve que meter as mãos nos bolsos para não afundar os dedos neles.
Daniel não compreendia. Não compreendia por que estava tão fascinado por ela. Não era o que pudesse dizer que fosse uma sereia, e, entretanto, sentia como o atraía. Deveria sentir-se aliviado por ter completo com seu dever. Tinha-a deixado sã e salva na porta de sua casa. Era livre para partir.
 Por isso não entendeu por que quando ela pôs de barriga para baixo aquela estúpida rã, tirou uma chave de um buraco que tinha no ventre e abriu a porta de sua casa, sentiu uma onda de ternura que fez saltar as serenes de alarme de seu cérebro.
Não deveria lhe importar tanto que aquela mulher sofresse a perseguição de um ex-noivo briguento. Nem deveria lhe importar tanto que guardasse a chave de sua casa dentro de uma rã e provavelmente o considerasse um lugar seguro.
Não deveria se importar tanto que, a primeira vista, tivesse encontrado uma mulher comum.
Mas lhe importava.
Porque ela estava tão longe da vulgaridade como um passeio pelos recursos marinhos do recife de coral das ilhas da Micronésia. Tão longe da vulgaridade como a orquídea que Daniel tinha tido o prazer de ver ao natural nas montanhas do Abisko, ao norte da Laponia.
Muito longe da vulgaridade.
E ao mesmo tempo, muito longe também da sofisticação. Não era glamurosa. Não sabia ir pelo mundo. De fato, provavelmente necessitaria de um guarda-costas.
E ele deveria partir dali antes de cometer alguma estupidez como oferecer-se de voluntário.
Mas em lugar de despedir-se depressa, Daniel sacudiu a cabeça e deixou escapar um profundo suspiro. Logo lhe tirou a chave das mãos duras, inseriu-a na fechadura e abriu a porta. 
Uma onda de ar quente saiu do interior da casa e saudou a brisa fresca do exterior.
Phoebe estava a ponto de voltar e dizer obrigado quando ele colocou uma mão na soleira da porta por cima de sua cabeça e cravou o olhar naquele rosto que lhe recordava ao de um bebê mocho tenro e pequeno que estava aprendendo a voar.
-Te deixo nervosa, Phoebe? - perguntou com uma careta nos lábios.
-Em uma escala de um a dez? - perguntou ela por sua vez, olhando-o um instante antes de desviar de novo o seu olhar-. Vinte e cinco mais ou menos.
-É por culpa desse Jason? - disse Daniel entornando os olhos ante aquele pensamento negativo -. Porque teme que eu possa ser como ele?
-Não, é obvio que não. Você nunca poderia ser como Jason Collins - tranqüilizou-o Phoebe - Não se trata disso absolutamente.
-Então, é porque não me conhece?
-Justo o contrário - respondeu ela com um som parecido a um grunhido -. Porque te conheço. Ao menos sei quem é.
Phoebe pela enésima vez levantou a mão para passar pelos cabelos, mas Daniel a segurou no ar. Ela tinha a mão frágil e ligeiramente tremente. Daniel voltou a sentir uma onda de ternura, e a soltou com muita mais relutância da que tivesse sido necessária.
- Agora já sei que não é muito sofisticado - se explicou Phoebe, ainda aturdida pelo contato -, mas não sei muito bem como atuar ao lado de um homem como você. Não sei o que dizer. Não sei o que fazer... Com os olhos, nem com as mãos.
Phoebe se deteve e levantou uma mão em gesto de impotência, olhando a todas as partes menos a ele.
Daniel pensou com certo cinismo que a maioria das mulheres sim sabiam como atuar. Ao menos as que se aproximavam dele. Talvez essa fosse a razão pela que encontrava a aquela mulher tão intrigante. Era uma mudança refrescante em comparação com as mulheres que geralmente tratava de evitar quando retornava a Boston. Por norma geral, as damas do Beacon Hill o buscavam porque tinha dinheiro, ou porque elas tinham dinheiro e procuravam um igual. Algumas queriam caçá-lo, outras domá-lo, outras, simplesmente, serem vistas a seu lado. E outras, por alguma estranha e doentia razão, queriam que ele as utilizasse. Era evidente que Daniel representava para elas a personificação da aventura.
-Vou te contar um segredo - sussurrou inclinando-se para ela como se temesse que alguém os escutasse-. Quando era pequeno deixava de noite a luz acesa.
Phoebe soltou uma leve gargalhada repleta de sons de seda, esquentando no interior do Daniel lugares aos que nunca tinha chegado o sol de Bora Bora. O sorriso da Phoebe era relaxado. E divertida. E maravilhoso igual ao brilho que desprendiam seus olhos. De repente, a palavra excitação adquiria um significado completamente novo.
-O que quero te dizer é que não somos tão diferentes. Exceto você é uma mulher e eu um homem, é obvio - esclareceu com uma careta-. E, por certo, agora você parece muito mais relaxada.
-Estou. Obrigado.
De acordo. Missão cumprida. Já podia partir. Isso seria o que faria um homem inteligente.
Mas evidentemente, ele não o era.
Tinha feito isso de verdade? Perguntou-se Daniel para si mesmo mais tarde. Havia-lhe dito de verdade: «O que você acha de me agradecer com algo para beber antes de eu ir embora 
Estava claro que o havia dito, porque o seguinte que soube foi que Phoebe havia tornado a ruborizar-se.
-Claro, é obvio. O sinto... Teria que haver lhe oferecido isso antes - corrigiu-se ela- Tenho chá e... Me deixe pensar... Chá - concluiu depois de duvidar um segundo.
- Chá gelado?
Ela assentiu com a cabeça.
- Aceito.
Phoebe o convidou a entrar com um gesto da mão. Combinava-lhe perfeitamente embora ainda não tivesse nem a mais mínima idéia de por que.
Aquilo não combinava com ele. Ela não era seu tipo. Daniel se aproximou da janela em que estava o gato enquanto Phoebe desaparecia no que provavelmente seria a cozinha. Tentou lhe fazer uma bajulação, mas o felino levantou a cauda em gesto defensivo.
Daniel optou por deixá-lo tranqüilo e dedicar-se a espiar o ninho de sua pequena ave.
Sua pequena ave?
Sacudiu a cabeça para arrancar-se aquela estúpida idéia e olhou a seu redor. O salão era pequeno, mas, primorosamente decorado em tons prateados e verdes. As paredes estavam pintadas em cor nata, e o chão era de madeira polida, coberto por um tapete de flores que combinava com o tom dos móveis e as cortinas.
O efeito era muito feminino e ao mesmo tempo muito cômodo. Um tanto brega para o gosto do Daniel, masquente e acolhedor. Para sua própria surpresa, gostava.
Tratava-se também de um ambiente muito romântico. Perguntou-se se ela também o seria. Esconderia Phoebe Richards uma romântica oculta sob sua roupa funcional e aquele corte de cabelo absurdo? Isso explicaria o ar sonhador que tinha vislumbrado em seu rosto sob as luzes da rua enquanto estavam no carro.
«Para o castelo. »
Aquelas palavras lhe tinham feito sorrir. Agora as entendia. E as entendeu melhor ainda quando cruzou a estadia para inspecionar o conteúdo de sua livraria, transbordante de exemplares. Tirou um livro de seu lugar e voltou a sorrir.
A julgar pela coberta, tratava-se sem dúvida de uma romance de amor, ao parecer pertencente a uma série que girava em torno de um poderoso cavalheiro e uma donzela. Daniel voltou a deixá-lo em seu lugar e descobriu outros títulos parecidos, além de uma grande coleção de novela romântica contemporânea e vários clássicos como Cúpulas borrascosas, Camelot e Romeo e Julieta.
Sentiu uma nova onda de ternura por aquela mulher que tomava um sorvete de baunilha só na sexta-feira de noite, uma noite tradicionalmente cultural em Boston. Ao menos assim estava acostumado a ser antes que Daniel colocasse um par de coisas na mochila e partisse a percorrer o mundo oito anos atrás.
Uma súbita onda de raiva lhe ferveu no sangue ao recordar de Jason Collins. Aquele homem era um predador. E também um lixo. Custava-lhe trabalho encontrar uma situação em que pegasse com a Phoebe Richards, e, entretanto tinham tido uma história.
Daniel transformou seu gesto de desagrado em um sorriso quando a viu aparecer na soleira com um copo alto de chá gelado em cada mão.
- Muito, obrigado - disse ele bebendo meio copo de um gole-. Só com gosto. É bonita sua casa - assegurou fazendo um gesto circular com a mão-. Muito bonita.
Phoebe tratou de dissimular o orgulho que lhe provocavam seus elogios sob um sorriso tímido.
-Só me faltam vinte e cinco anos de hipoteca mensal e será minha. Toda minha. Incluído os encanamentos ruins e a pintura descascada.
Daniel se deu conta então do que tinha aquela mulher que tanto o cativava, além do fato de que era bonita refrescante e tão tentadora como o sorvete de baunilha que tinha provocado que se conhecessem.
Phoebe Richards era uma pessoa real. Não podia ser outra coisa. Seus nervos anteriores e as risadas de agora eram tão autênticos como seu coração. Aquilo era uma novidade no mundo de Daniel, onde a maioria das mulheres lutava por fazer-se com uma posição ou queriam tirar algo dele. Phoebe nem sequer tinha querido que a levasse a casa.
Ela cruzou a estadia para a janela em que o gato esperava com olhos vigilantes. Phoebe o saudou lhe acariciando a cabeça e lhe passando a mão amorosamente pelo lombo. O animal se arqueou ante seu contato, e Daniel esteve a ponto de gemer ao imaginar-se que era ele mesmo quem recebia aquela carícia de seda que não só era encantada, mas, também inconscientemente sensual.
Aquilo sim que era uma novidade. Estava com ciúmes de um maldito gato. Ciumento de um gato. Decidiu não pensar nisso para não sentir-se à altura do betume.
-É um gato guardião? - Perguntou para afastar de si a imagem de sua mão acariciando ao felino. 
- O guardião do reino - respondeu Phoebe com um sorriso.
Estava começando a sorrir com mais facilidade, e Daniel temeu que, igual a ocorria com as batatas fritas, não ia conformar se com apenas uma.
-Também é o que leva a batuta. Arthur pôs as regras e eu as cumpri a rigorosamente desde o dia que o trousse para casa já faz três anos.
- Um gato com sorte - disse Daniel antes de levantar a vista e vê-la de novo acariciando ao animal.
Ele limpou a garganta sem apartar a vista da cena.
Phoebe retirou a mão imediatamente com as bochechas ruborizadas.
-Né... Por favor, sente-se - pediu-lhe, lhe assinalando uma das cadeiras -. Normalmente não estou acostumada a ser tão desconsiderada.
E normalmente ele não se distraía com tanta facilidade com uns olhos sonhadores e uma cara bonita que se fazia mais bonita a cada minuto que passava. Tinha chegado o momento de fazer uso do sentido comum.
-A verdade é que tenho que partir - assegurou sentindo-se como um abutre ao observar em seu rosto um gesto de desilusão.
«Phoebe, Phoebe», pensou Daniel para seus adentros lutando contra outra onda de ternura, «é muito clara, muito vulnerável». Não havia nenhuma dúvida de por que constituía o branco perfeito para um indesejável como Jason Collins.
-Me faça um favor, sim? - Pediu-lhe Daniel depois de beber-se de um só gole o que ficava de chá para dissimular sua confusão-. Procure outro lugar para guardar a chave de sua casa que não seja a rã. E ponha fechaduras decentes nas portas, de acordo? Necessita um alarme - assegurou dirigindo-se com decisão para a porta -. Melhor ainda: chama uma empresa para que lhe instalem aqui um sistema completo de segurança.
Phoebe deixou seu copo de chá, ainda intacto, sobre uma mesa auxiliar e ficou em pé, limpando-as palmas das mãos nas calças.
-Estou bem, de verdade. Mas obrigado por preocupar-se.
-Esse tipo é um problema, Phoebe – assegurou Daniel franzindo o cenho quando ela chegou à porta -. Não se dará por vencido. Conheço os de sua classe. Feriu seu orgulho, seu ego. Diga-me a verdade. Esta não é a primeira vez que ele te ataca verdade?
Daniel notou que ela fazia esforços para negá-lo, mas soube que era muito sincera para mentir.
-Chamou-me no meio da noite alguma que outra vez, e me incomodou no trabalho. Mas nunca se aproximou de mim como... Bom, como esta noite.
- O que demonstra que seguirá tentando-o - assegurou ele exalando um suspiro -. Suponho que alguma vez teve aula de defesa pessoal, verdade?
Phoebe pareceu encontrar aquela pergunta muito divertida.
- O que te faz tanta graça? - Perguntou Daniel inclinando a cabeça.
- Em meu mundo e em meu trabalho não sai nunca o tema da defesa pessoal. Sou bibliotecária. O nosso é classificar livros, não o caratê.
É obvio. A formosa, tímida e pequena Phoebe era bibliotecária. Não podia ser de outra maneira.
- Bibliotecária - repetiu ele com um sorriso.
Phoebe tratou de ler em sua expressão se ele ia zombar de sua profissão.
- Da biblioteca pública do Boston – acrescentou um tanto à defensiva-. Seção infantil - concluiu relaxando um pouco ao dar-se conta de que Daniel gostava da idéia.
- E como é que não havia bibliotecárias como você quando eu revisava os exemplares do National Geographic no oitavo ano? - Perguntou aproximando-se dela de maneira quase inconsciente - Nunca me ocorreu pensar que encontraria fotos de mulheres com os peitos nus entre os artigos. Imagine meu estupor ao vê-los em uma revista, e em outra, e em outra...
- Imagino - repetiu Phoebe com um sorriso tímido.
Daniel estava pondo-a nervosa outra vez. Mas não eram uns nervos incômodos. Eram uns nervos de emoção que lhe tingiam as bochechas de rosa. Gosto de sua reação. Talvez gostasse muito.
- Foram essas revistas as que lhe levaram a embarcar nas aventuras que tão famoso lhe têm feito? - Perguntou-lhe Phoebe.
Daniel lhe tinha posto as mãos sobre os ombros. Eram frágeis e miúdos. Não tinha sido uma decisão consciente lhe colocar as palmas ali. Como tampouco o tinha sido atraí-la para si. Mas era plenamente consciente de que os olhos da Phoebe se suavizaram em um tom caramelo e o olhavam com uma estranha mescla de rechaço e desejo.
- Totalmente. Eu ia procurando o conhecimento e...
O olhar do Daniel escorregou por sua boca e logo mais abaixo, para os suaves montículos de seus peitos que subiam e baixavam sob seu top de algodão. Seus pequenos mamilos em forma de botão lhe marcavam sob o tecido, a escassos centímetros do peito do Daniel.
-E que mais? - Sussurrou ela -, Inspiração?
- Inspiração. Sim, isso é — respondeu Daniel elevando a mão e lhe percorrendo a bochecha com os dedos-. E me deixe te dizer que nestes momentos estou totalmente inspirado.
- OH...
Sob as lentes dosóculos, as larguísimas pestanas de Phoebe se inclinaram sedutoramente. Em mudo convite.
Aquilo era um engano.
Mas a Daniel não pareceu tal enquanto inclinava a cabeça, embora à palavra ressonasse em um canto de sua mente. O que lhe parecia era que roçava o céu ao estar tão perto dela, a reclamar o beijo com o que tinha fantasiado desde que Phoebe se deu a volta com seu sorvete e o cegou com um sorriso.
Daniel lhe roçou primeiro as comissuras com os lábios em um lado, e logo no outro, lhe mostrando suas intenções, lhe dando a seu passarinho a oportunidade de sair voando.
Mas ela não saiu voando. Nem sequer levantou uma asa. E antes que mudasse de opinião, Daniel alinhou a boca com a sua e a beijou com toda sua vontade.
Voltou-lhe para a cabeça a palavra «sincera» enquanto se afundava na luxuriosa calidez do sabor da Phoebe. Sua resposta era completamente sincera. Tudo o que ela era deixou transparecer em seus beijos: Inocência, candura e bondade.
A boca tinha um sabor de baunilha, mais deliciosa que o mais doce dos sorvetes. Tinha os lábios tão suaves como às pétalas de uma rosa do verão. Daniel deslizou as mãos por seus braços e os sujeitou. Phoebe deixou escapar um fundo suspiro no que se mesclavam a indecisão e a inquietação. E quando lhe pediu que se abrisse para ele com uma suave dentada no lábio inferior, ela duvidou só um décimo de segundo antes de lhe permitir o acesso.
A ternura que sentia por Phoebe se transformou como o ar quente em um pouco mais intenso, mais exigente. Calor. Desejo. Um desejo muito mais forte do que jamais tinha experimentado lhe abriu passo no peito antes de descender rapidamente para sua virilha.
«Isto é muito», advertiu-lhe a parte racional de seu cérebro.
«Não é suficiente», contradisse-o a outra metade quando as delicadas mãos da Phoebe começaram a subir sensualmente por suas costas.
Céus. Daniel obrigou a si mesmo a levantar a cabeça e romper o contato, mas se viu obrigado a retomá-lo quando aqueles olhos sonhadores de âmbar e aqueles lábios inchados de desejo lhe pediram mais.
Problema.
Tinha um problema. E se estava afundando cada vez mais nele.
Fazia tempo que deveria ter partido. Com uma força de vontade até o momento desconhecida para ele, Daniel deixou de beijá-la. A segurou pelos ombros para manter ambos o equilíbrio, jogou a cabeça para trás e aspirou com força o ar. 
Passou um longo momento durante o qual esteve tentado a retornar ao normal, mas soube recuperar-se, e recuperar de passagem a voz.
-Bom... - Começou a dizer com voz rouca.
Surpreendeu-lhe a paixão que refletia seu tom de voz, mas decidiu passar por alto para terminar com aquilo antes de chegar mais longe.
Porque ir além de uns beijos estava fora de questão. Para o Daniel, é obvio, e para ela sem dúvida nenhuma. Phoebe Richards merecia dez vezes mais do que ele poderia lhe oferecer.
- Bom... - Repetiu esboçando um sorriso como a que lhe tivesse dedicado a uma tia solteirona -. Isto sim que é autêntica inspiração.
Phoebe não respondeu. Tinha os olhos fechados e parecia enjoada enquanto se balançava suavemente para tratar de manter o equilíbrio.
- Escuta, Phoebe, eu...
- Espera - interrompeu-o ela abrindo os olhos de repente-. Acredito que conheço o que segue. É muito tarde e tem que partir, verdade? E eu tenho que trabalhar amanhã, assim é o momento de despedir-se. Não me importa. De verdade.
Não havia dúvida de que Phoebe lhe estava facilitando as coisas. Então, por que se sentia ele tão mal?
Porque a boca dela era tão tentadora como o pecado original. Porque seus olhos eram um sussurro suave atrás do qual se adivinhavam centenas de emoções, entre elas o arrependimento.
- Estará bem, verdade?
Phoebe assentiu duas vezes com a cabeça.
- E vai a...
-... A trocar as fechaduras - interveio ela forçando um leve sorriso - Sim, já verei o que faço.
- Muito bem - disse Daniel apertando o trinco da porta com a mão -. Me encantou te conhecer.
- Sim - respondeu Phoebe assentindo de novo levemente-. A mim também. Quero dizer que também gostei de te conhecer.
Daniel olhou seu rosto durante um longo instante antes de abrir por completo a porta e sair. Ao final do atalho girou de novo, estudou aquele rosto tão incrível que não voltaria a ver jamais e tragou saliva para desfazer o nó que lhe tinha formado na boca do estômago.
- Adeus, Phoebe.
- Adeus - respondeu ela apertando a cara contra o marco da porta.
- Se cuide, tá?
- Farei. Obrigado de novo por sua ajuda.
E fechou a porta.
Enquanto caminhava para seu carro, Daniel pensou que aquilo era o final da história. Ficou sentado depois do volante durante um bom momento sem acender o motor. E quando por fim colocou a marcha atrás para sair da entrada de sua casa, experimentou a incômoda sensação de estar cometendo um tremendo engano partindo da vida da Phoebe.
-Um engano para quem, Barone? - Perguntou-se em voz alta enquanto esperava a que o semáforo ficasse verde.
Aquela era a questão. Daniel não tinha nenhuma dúvida de que aquilo era o correto para a Phoebe. À exceção do Collins, ela levava uma vida normal e tranqüila. Não o fazia falta que chegasse ele para enchê-la de buracos. Porque isso seria o que ocorreria. Quando Daniel partisse - porque sempre partia-, deixaria a pior de como a encontrou. Assim não queria começar algo que não poderia terminar sem lhe fazer dano.
Não era um presunçoso, mas tampouco estava cego. Havia sentido o modo em que Phoebe tinha reagido a seu contato. Teria-lhe resultado muito fácil levar-lhe à cama. Mas Phoebe era muito doce, muito verdadeira e muito boa para que a amassem e logo à manhã seguinte a deixassem.
Assim que aquilo era o melhor para ela.
Mas pela primeira vez em sua vida Daniel se perguntou se deixar a uma mulher, aquela mulher, era o melhor para ele.
Capítulo Quatro
-Seguro que não foi para tanto, querida.
Leslie Griffin, tão estilosa aos sessenta anos com seu cabelo castanho e sua esbelta figura, sorriu-lhe com simpatia à manhã seguinte quando viu a Phoebe golpear-se brandamente à cabeça contra sua mesa na biblioteca.
- Foi pior que isso - gemeu Phoebe exalando um suspiro enquanto apoiava a bochecha sobre o exemplar do Boston Globe que tinha aberto -. Se ao menos tivesse me engenhado isso para enlaçar três palavras juntas que não fossem «Sinto e Obrigado... »
Phoebe levantou a cabeça, tirou a capa dos óculos, as pôs e voltou a deixar cair sobre a cadeira.
-Tive a oportunidade de conhecer homem mais bonito de Boston. Ou melhor dizendo: Ao homem mais bonito do mundo. E vou e me comporto como uma estúpida. O que acontece comigo?
- Não te acontece nada. Pelo amor de Deus, esse encontro com o Jason deixaria a qualquer um nocauteado. Que canalha. Não posso acreditar que siga te perseguindo.
- Bom, não voltarei a vê-lo jamais – assegurou Phoebe colocando os cotovelos sobre a carteira e olhando fixamente o artigo da revista dedicado ao Daniel Barone-, assim suponho que não importa. E, de toda maneiras, daria igual. Não está a meu alcance.
- Já sabe que eu não gosto de nada que fale de si mesma te rebaixando.
- Não estou me rebaixando. Os fatos são os fatos. As mulheres como eu não se casam com príncipes nem com cavalheiros - assegurou a sua amiga com um suspiro-. As mulheres como eu, simples, aborrecidas, e temerosas de sua própria sombra, ficam com as sobras, não com as sobremesas. 
E isso é o que é Daniel Barone. Sim, dá-me igual a ponha essa cara - disse a Leslie sem azedume antes de continuar-. Mas é a verdade e você sabe. Ele é tudo o que diz este artigo e muito mais. É extraordinariamente atrativo. É carismático e encantador. E também é um multimilionário aventureiro que certamente tem um harém de amantes exóticas e sofisticadas.
Phoebe acariciou com o dedo polegar a foto do Daniel em que lhe via com o cabelo alvoroçado e sorriso triunfal no campo depois da sua segunda e bem-sucedida expedição ao Everest.
-Se puser tudo isso ao lado de uma bibliotecáriaque vive com um gato, que a julgar pelo que diz o artigo, é três anos maior que ele e que, além disso, tem um ex-noivo perseguidor lhe pisando os calcanhares, chegamos à conclusão de que seu mundo e o meu não colidiriam nem que houvesse uma explosão cósmica no universo.
- Mas te deu um beijo antes de ir-se, verdade? - Assinalou Leslie sem deixar-se impressionar, por seu longo discurso.
- OH, sim... - Reconheceu Phoebe fechando os olhos para recrear-se naquela lembrança.
- Pois isso quer dizer algo - assegurou sua amiga.
- Não acredito - respondeu Phoebe consultando seu relógio-. Será melhor que volte para o trabalho. Tenho uma dúzia de coisas que fazer esta manhã e, além disso, terá que preparar-se para a hora dos meninos. Você também tem que se trocar.
- Eu sei perfeitamente o que tenho que fazer porque hoje trabalho, mas o que não entendo é por que trabalha você em seu dia livre - assegurou Leslie deixando a pergunta pendurada no ar como uma acusação enquanto caminhava para a porta.
- Porque Allison me pediu que a substituísse - respondeu Phoebe elevando o queixo.
-Sempre acaba cobrindo-a em todos os turnos. É muito fácil, Phoebe. Deveria pensar um pouco em você para variar.
-Não me importa - assegurou ela encolhendo-se de ombros-. Além disso, vem-me bem o dinheiro. Daniel Barone diz que deveria trocar as fechaduras de minha casa.
- Seriamente? - Perguntou Leslie intrigada-. Porque será que esse homem se preocupa com você?
- Isso parece, mas não é de sentir saudades - apressou-se a esclarecer a sua amiga-. Se você me tivesse visto me comportar como ontem teria medo de que não fosse capaz sequer de escovar os dentes sem vigilância.
Phoebe sacudiu a cabeça em gesto de desgosto, aborrecida por sua incapacidade para haver-se comportado de outra maneira com ele.
- Mostrou para mim à mesma consideração que teria por qualquer pessoa que se encontrasse no caminho. 
Simplesmente, é um tipo amável. - Os tipos amáveis não beijam as flores nem lhes sobem a temperatura corporal só por consideração.
Phoebe ficou pensativa. Nunca tinha experimentado nada parecido aos beijos do Daniel Barone. E o certo era que não lhe pareceram beijos de lástima. Estiveram carregados de energia, calor e promessas de sedução. Nunca a tinham beijado assim. Como se fosse especial para ele, como se quisesse mais dela.
Mas ao parecer lhe tinha parecido suficiente, concluiu Phoebe fechando a revista e ficando em pé para ir procurar sua fantasia no armário. Porque o certo era que Daniel partiu.
Sim, partiu-se. E o que temia era que talvez lhe tivesse permitido levar-se com ele uma parte de seu coração. 
Sob a pressão suportável, mas, firme de sua fantasia de tartaruga, Phoebe baixou o tom de voz até imitar quase à perfeição a cadência da tartaruga Tommy. Perto de vinte meninos do pré-escolar estavam sentados no chão formando um círculo a seu redor absolutamente fascinados enquanto ela e Leslie, disfarçada de coelho Robert, interpretavam uma cena do conto.
- Mas esta é minha casa - exclamou Phoebe com a voz da tartaruga Tommy ante a absurda proposição do coelho Robert-Não posso te vender minha carapaça. Onde dormiria então? Com o que me vestiria?
A tartaruga Tommy era uma das razões pelas quais Allison tinha pedido a Phoebe que lhe fizesse o turno. Ao contrário da Allison, não se importava em vestir aquela ridícula fantasia e caminhar de quatro patas durante meia hora. Adorava aquela parte de seu trabalho. Os olhos brilhantes e emocionados dos meninos, sua risada fresca e suas exclamações de júbilo lhe levantavam sempre o ânimo.
-Não posso vender minha carapaça, verdade, meninos? -perguntou a seu público.
-Nãoooo! - Gritaram todos ao uníssono-. Não venda! Não venda!
Phoebe sorriu com doçura a uma menina morena de expressão tímida e grandes olhos marrons que permanecia de pé detrás de outros, tímida porque tinha chegado tarde.
-Olá - saudou-a Phoebe com a voz da tartaruga Tommy-. Como te chama pequena?
- Kayla - respondeu ela com vergonha.
- Olá, Kayla. Eu sou Tommy. Meninos, digam olá a Kayla.
- Olá, Kayla - repetiu o coro de meninos e meninas ressonando por toda a sala.
- Já a mim não me dizem olá?
Phoebe ficou paralisada. Aquela voz profunda e algo zombadora só podia pertencer a um homem. Ela fechou os olhos e deixou escapar um profundo suspiro que estivesse cheio de orgulho ao muito mesmo Darth Vader.
Levantou a cabeça muito devagar. Se não tivesse estado já de joelhos, ao olhá-lo tinha caído ao chão.
Estava vestido com uma camiseta negra ajustada ao corpo e calças jeans desbotadas. Tinha um ombro apoiado com ar indolente contra a dobradiça da porta e os braços morenos cruzados sobre o peito. Um sorriso maior que o estado do Texas percorria seu lindo rosto de orelha a orelha.
O que estava fazendo ali? E por que tinha que parecer o herói da capa de uma romance de amor enquanto ela tinha o aspecto de um animal que comia moscas mortas e acabava de sair de uma caixa de sapatos?
A vida não era justa.
- Digam olá ao senhor Barone, meninos – disse Phoebe obrigando-se a olhá-lo aos olhos enquanto os meninos o saudavam em coro.
Apesar dos tímidos sorrisos da Leslie e a careta zombadora do Daniel, Phoebe interpretou o resto do conto. Assim que os meninos se dispersaram pelos cantos da estadia para procurar seus livros favoritos, pensou em sair correndo. Uma coisa era que se perguntasse o que estava fazendo Daniel ali e outra muito distinta que tratasse de averiguá-lo.
Mas ao parecer ele tinha outros planos.
Daniel lhe pôs a mão diante, lhe oferecendo sua ajuda para ficar em pé, mas Phoebe se limitou a ficar de cócoras sem aceitá-la.
- Sabe da história do caracol que foi atacado por duas tartarugas? - Perguntou-lhe ele sem mais preâmbulo, provocando na Phoebe a sensação de que só o havia dito para vê-la ruborizar-se.
- Não - respondeu ela com um suspiro, decidida a lhe seguir a brincadeira -. O que lhe passou ao caracol que foi atacado por duas tartarugas?
- Porque quando a polícia pediu ao caracol que descrevesse seus assaltantes, respondeu: Não posso. Tudo ocorreu muito depressa.
- Que mau - disse Phoebe com uma careta, depois de demorar uns segundos em entender a piada.
- Sei, mas não pude me conter - confessou ele-. Além disso, você achou graça.
O certo era que sim, mas não estava disposta a admiti-lo. Não queria prolongar mais aquele encontro. Mas era evidente que Daniel sim.
- Fica muito bem neste traje - assegurou ele com voz zombadora -. E a cor é muito bonita.
- Bom, sim, o verde mofado e o marrom barro são os tons básicos de meu guarda-roupa - respondeu Phoebe suspirando com resignação ao dar-se conta de que ele não tinha intenção de partir.
Então se arriscou a olhá-lo aos olhos e começou a derreter-se ante a mescla de calor e humor que viu neles.
- Referia a este rosa - assegurou Daniel lhe acariciando levemente a bochecha com o dorso de um dedo-. É muito favorecedor.
Céu Santo.
Sentia-se indefesa ante seu sorriso e desorientado por sua proximidade, assim Phoebe retrocedeu para sua única linha de defesa. Estirou os ombros e, encolhendo o queixo, meteu-se dentro da carapaça da tartaruga Tommy.
- Isso sim que é meter-se no personagem - escutou-o dizer-. Eu gosto das tartarugas com, caráter. Olá? Há alguém aí? - Perguntou golpeando brandamente a carapaça ao ver que ela não respondia.
Por que não se limitava a partir e a deixava sofrer sua vergonha em martirizado silêncio? Embora, visto de outra maneira, por que não se armava ela de valor e se enfrentava à situação?
- Tem a virtude de me pilhar sempre em meus melhores momentos - assegurou com uma careta de decisão, enquanto tirava a cabeça da carapaça -, Vamos arrematar... Tenho previsto me pôr uma máscara de barro as sete em ponto. É bem-vindo.
- Em realidade estava pensando, mas em um jantar - respondeu Daniel lhe estendendo as mãos para ajudá-la a ficar de pé.
- Um jantar?
Estava-a convidando para jantar?
- As tartarugas tambémcomem, não? A que hora sai do trabalho?
- Às cinco. Sai as cinco - respondeu Leslie, que tinha estado observando a cena em silêncio -. Sou Leslie Griffin - apresentou-se tirando as orelhas de coelho e estendendo o braço.
- Daniel Barone - respondeu ele com um sorriso, lhe estreitando a mão antes de girar-se de novo para a Phoebe-. Está bom às sete e meia? A menos, claro, que tenha outros planos...
- Só a máscara de barro - murmurou Phoebe ao notar o olhar de advertência da Leslie cravada em sua nuca.
- Estupendo. Passarei para te buscar.
- Como deve vestir-se? - Perguntou Leslie ao ver que Phoebe ficava quieta, muito confusa para pensar.
 - Algo informal - respondeu Daniel dando a volta ao chegar à porta-. Faz muito calor para vestir-se para jantar.
E, depois de lhe dedicar outro sorriso capaz de derreter as pedras e aumentar a temperatura da sala até os cinqüenta graus, partiu.
- Sim, faz bastante calor - murmurou Leslie utilizando as orelhas de coelho para abanar-se teatralmente-. Meu Deus, Phoebe. É incrível.
- Não estou preparada para falar contigo disto neste momento - assegurou sua amiga com gesto de preocupação.
- Posso esperar - respondeu Leslie com uma careta de perita conhecedora do tema -. Mas na segunda-feira quero todos os detalhes.
A risada sonora de Leslie acompanhou a Phoebe no caminho para seu escritório. Ao chegar, fechou sonoramente a porta atrás dela.
Uma vez ali, saiu do disfarce de tartaruga e se deixou cair contra a parede. Apartou o cabelo da cara com dedos rígidos, olhou fixamente ao teto e se perguntou se o coração lhe teria pulsado alguma vez mais depressa e com tanta força como naquele instante.
Phoebe levou a mão ao peito e respirou fundo. Daniel Barone a tinha convidado para sair. E num sábado, dia no qual provavelmente teria centenas de coisas melhores que fazer. Centenas de mulheres com as que poderia ficar. Mas tinha ido ver a ela. Tinha paquerado com ela e lhe tinha sorrido. A ela. E queria levá-la para jantar. A ela.
Quando Daniel tirou o carro do estacionamento da biblioteca para dirigir-se a casa de seus pais pensou no modo em que tinha fracassado seu plano de manter-se afastado da Phoebe.
Não deveria ter dormido tão tarde na noite anterior. E ao despertar pela manhã teria que haver-se dado conta de que em realidade não estava conduzindo sem direção quando se encontrou na larga avenida que passava na frente da biblioteca pública de Boston.
Teria que haver-se limitado a comprovar que Phoebe estava bem. Depois de tudo, aquela tinha sido sua desculpa em um princípio para parar na biblioteca. Só queria assegurar-se de que se encontrava bem, mas tinha terminado por convidá-la para jantar. Não o tinha planejado. 
Simplesmente tinha ocorrido, e não teria que ter ocorrido. Do mesmo modo que não teria que havê-la beijado a noite anterior. Nem pensar nisso tanto como tinha pensado.
O primeiro que teria que ter feito, pensou com remorso ao ver o rosto de sua mãe iluminando-se ao abrir a porta, era passar por ali.
- Daniel, carinho, é maravilhoso te ter em casa!
- É maravilhoso estar de volta, mamãe - respondeu ele abraçando-a e fechando a porta atrás de si.
- Está muito bonito.
Sandra Barone era uma jovem de cinqüenta e nove anos. Era alta e esbelta, levava o cabelo loiro cortado com estilo e seus olhos cinza eram vivos e intuitivos.
- Tão adulador como sempre - disse sua mãe fazendo um gesto com a mão para lhe subtrair importância ao comentário-. Seu pai vai sentir um desgosto por não te ver. Teve que ir ao escritório.
- Não importa. Logo irei buscá-lo – prometeu Daniel.
- Me conte, quando chegou? E o que é mais importante: quanto tempo pensa em ficar?
Durante oito anos aquelas tinham sido sempre as palavras de recebimento.
- Cheguei ontem à noite e ficarei um tempo.
- OH, Daniel! - Exclamou sua mãe tomando-o do braço e guiando-o para o salão -, já sei que está farto de ouvir nos dizer isso, mas a seu pai e nós gostaríamos tanto que sentasse a cabeça, retornasse a Boston e terminasse a carreira de direito... Sorveteria Baronessa poderia aproveitar seu cérebro privilegiado em sua equipe de advogados. Além disso, estou preocupada contigo. Ambos o estamos.
Sua mãe se deteve bruscamente e sacudiu a cabeça com recriminação.
- Já estou outra vez te perturbando. Prometi a mim mesma que ia deixar de fazê-lo, mas é que lhe vemos tão pouco...
- Sei. Não se preocupe - tranqüilizou-a Daniel como sempre fazia-. Conte-me, o que aconteceu desde que estive em casa o mês passado? Casou-se alguém ou nasceu algum bebê?
Era uma pergunta lógica. A maioria de seus primos e inclusive sua irmã pequena, Emily, agora prometida, arrojaram-se à piscina do amor eterno a um ritmo alarmante nos últimos meses.
- OH, carinho, que curioso que o pergunte! Será melhor que se sente para escutar isto. Tenho uma notícia que te vai deixar sem fala.
Efetivamente, a notícia o tinha deixado mudo. Isso foi o que pensou Daniel mais tarde quando foi em busca de sua irmã Claudia ao hotel Ritz-Carlton, onde sua mãe lhe disse que estaria coletando recursos para alguma de suas causas.
Serviu-se de uma soda enquanto tratava de assimilar o que sua mãe lhe tinha contado e observou a Claudia no balcão do bar enquanto ela deslumbrava a um par de executivos para lhes tirar uma substanciosa contribuição para construir um centro de apoio. Viu-a tão animada como sempre, com seus olhos azuis brilhantes enquanto se apartava o cabelo loiro dos ombros e retornava ao seu lugar. Daniel pensou com orgulho que ninguém era capaz de cruzar uma habitação como o fazia Claudia.
Não se aproximou dela até que os homens não se partiram com as carteiras bastante leves de peso. Ela estava fazendo números e olhando uns papéis que tinha tirado de sua maleta quando o viu.
- Daniel! - Exclamou movendo os braços - De onde saiu? Quanto tempo está aqui? Meu Deus! Que alegria te ver. Sente-se. Sente-se e me conte.
- Bem - começou a dizer ele depois de que se puseram ao dia-. Agora que já sei no que está trabalhando, importa-se me contar quem é o branco de seu próximo projeto pessoal?
- Não sei do que está falando - assegurou Claudia olhando-o com ar de suficiência.
Muito bem. Assim não queria lhe contar com quem saía nem se estava saindo com alguém, por isso Daniel deduziu que tinha dado no prego. Sua irmã tinha ultimamente tendência a sair com homens problemáticos. Ao Daniel preocupava que ainda arrastasse as seqüelas de sua ruptura com o Jonathan Norman dois anos atrás e preferisse ocupar-se dos problemas de outros antes que dos seus.
- Foi ver papai e mamãe? - Perguntou-lhe Claudia, deixando claro que sua vida amorosa não era tema de conversa.
O Daniel pareceu bem e decidiu lançar-se de cheio a falar da bomba que sua mãe acabava de lhe lançar.
- Quero estar seguro de haver entendido bem - começou a dizer-. É verdade que acaba de aparecer uma prima que não conhecíamos?
- Karen Rawlins - confirmou-lhe - Claudia assentindo com a cabeça-. Esse é ao menos seu nome oficial. Mas o certo é que seu pai, que vivia sob o nome do Timothy Rawlins, era em realidade o irmão gêmeo de papai.
- E nosso tio Luke - sussurrou Daniel, ainda aturdido pela notícia-. Faz tanto tempo que desapareceu que nunca penso nele.
Ao irmão gêmeo de seu pai o tinham raptado do hospital ao pouco tempo de nascer. Após não haviam tornado a vê-lo e nem sabiam noticias dele. Até este momento.
- Como nunca o conhecemos, parecia, mas um personagem de livro que papai mencionava quando ficava triste.
- Mas é de verdade - apontou Claudia -. As pessoas que o raptaram o criaram com o nome do Timothy Rawlins. Logo se casou e teve a Karen. Mas quando os pais da Karen morreram o ano passado em um acidente de tráfego, ela começou a questionar a verdade em relação à identidade de seu pai.
- Mamãe me contou que Karen encontrou o jornal de sua avó e por isso surgiram as dúvidas - disse Daniel inclinando-se para diante na cadeira.
- Isso foi o que a impulsionou- respondeu sua irmã ao tempo que se apartava o cabelo da cara -, mas como os avós da Karen também tinham morrido não tinha a quem lhe perguntar sobre seu passado. Deixou-o passar durante um tempo, mas então viu no periódico uma fotografia da partida de voleibol que jogamos na última reunião familiar, lembra-te? Ganhamos nós as garotas - recordou-lhe Claudia com uma careta-. Bom, pois Karen ficou sem fala quando viu papai, porque ao parecer é o retrato vivo de seu pai.
- Me tinha esquecido que papai e o tio Luke eram gêmeos idênticos - sussurrou Daniel pensando em seu próprio irmão gêmeo, Derrick, que era tão oposto a ele como o dia e a noite.
- Karen começou a fazer averiguações. Entre o jornal e as resenhas de periódicos antigos sobre o seqüestro do tio Luke, reuniu todas as peças e deduziu que tinha relação com o clã dos Barone.
- Que loucura.
- Me parece fantástico. Quando a conhecer te dará conta de que é uma Barone. Tem nossos genes. Além disso, é encantadora, embora agora mesmo me pareça que anda um pouco perdida. Está procurando algo ao que agarrar-se. Papai está muito emocionado com todo o assunto.
- Isso me falou mamãe. Que está triste porque agora sabe que Luke morreu, mas ao mesmo tempo é feliz por ter recuperado uma parte de seu gêmeo.
- Te falou mamãe da grande festa de bem-vinda que está preparando para a Karen?
- É obvio. Deixou-me muito claro que não posso faltar. Não se preocupe. Ali estarei.
A festa seria realizada em duas semanas. Daniel não tinha previsto inicialmente ficar tanto tempo. Por muitas razões. Mas não tinha contado com uma absurda tartaruga de bochechas rosadas.
-E falando de gêmeos, viu já ao Derrick?
Não. Daniel não tinha visto ainda a seu irmão, e por isso, depois de despedir-se da Claudia, foi diretamente à fábrica da Baronessa no Brooklin. Quando voltava para casa sempre fazia a mesma ronda, e dado que Derrick e sua outra irmã, Emily, trabalhavam na direção de qualidade um como vice-presidente e a outra como sua secretária, mataria dois pássaros de um tiro.
- Não posso acreditar que Derrick te tenha feito trabalhar num sábado - exclamou Daniel com uma careta quando Emily levantou a cabeça da mesa e o olhou -. O que opina seu bombeiro disto?
- O Shane está ocupado esta vez com turno de fim de semana - respondeu sua irmã levantando-se para abraçá-lo-. Assim está melhor.
- E como é a vida com um bombeiro? - Perguntou Daniel olhando-a aos olhos-. Está bem também?
- Melhor que bem - assegurou sua irmã ruborizando-se-. Dentro de cinco meses serei a senhora Shane Cummings, e isso será ainda melhor.
- Ali estarei - disse Daniel lhe beliscando brandamente à bochecha, encantado de vê-la tão apaixonada-, Não perderia isso por nada do mundo. Está Derrick por aqui? - Perguntou olhando a seu redor.
- Derrick sempre está por aqui - grunhiu a voz de seu irmão gêmeo a suas costas-. Não como você. 
Daniel se deu a volta. Seu irmão estava de pé na soleira da porta de seu escritório, vestido com seu habitual traje de jaqueta e a expressão dura.
Ao Daniel resultava difícil em ocasiões acreditar não só que fossem gêmeos, mas também compartilhassem inclusive os mesmos genes. Às vezes lhe dava a impressão de que quão único tinham em comum era o sobrenome Barone e a cor de cabelo. Derrick tinha os olhos marrons, enquanto que os do Daniel eram azuis, e era de caráter áspero e difícil em comparação com o aberto que era seu irmão.
- Bom - respondeu Daniel com um sorriso amigável-, alguém tem que ser o vago da família.
- Quem disse foi você, não eu — contra-atacou seu irmão lhe devolvendo um sorriso duro.
- Eu também me alegro muito de voltar a te ver, Derrick - assegurou Daniel girando a vista para a Emily -. Vai melhorando, não acredita?
- Já está bem, meninos - interveio ela olhando a um e a outro alternativamente -. Se neste momento entrasse alguém que não lhes conhecesse pensaria que se odeiam.
Mais tarde, quando Daniel tirou o carro do estacionamen to e recordou sua conversa com Derrick, pensou que assim era efetivamente. Qualquer um pensaria que se odiavam, embora tivessem feito um esforço por conter-se e comportar-se de maneira civilizada diante da Emily.
As coisas sempre tinham sido assim entre eles: Tensas e hostis. Ultimamente a situação tinha piorado. Derrick sempre estava à defensiva e respondia com amargura. Sua má relação era um dos motivos pelos quais Daniel nunca ficava muito tempo quando voltava para casa. Ocorreu-lhe pensar então que talvez seu irmão tivesse sido uma das razões pelas quais partiu a primeira vez. E a frustração que sentia ao comprovar que a coisas com ele não pareciam mudar nunca era também uma das razões pelas quais estava desejando que chegasse o momento de sair para jantar com certa bibliotecária.
A pura verdade era que tinha sido incapaz de deixar de pensar nela embora seguisse sem ter muito clara a razão. Enquanto conduzia pela cidade, Daniel pensou que talvez tivesse algo que ver com o fato de que Phoebe conseguia lhe arrancar um sorriso pelo mero feito de existir.
Capítulo Cinco
Quando Daniel terminou a visita a seu pai e a um par de amigos casados, já estava muito tarde. Começava inclusive a anoitecer. Fez uma parada técnica em seu apartamento para tomar banho, barbear-se e vestir uma camiseta limpa e uma calça Sport. Logo colocou os pés em uns cômodos mocasins, agarrou as chaves e se dirigiu a casa da Phoebe sem deixar de pensar em por que se preocupava tanto por ela.
E pelo caminho teve uma revelação.
- Bingo - disse em voz alta, ao tempo que golpeava brandamente o volante com a mão.
Durante os últimos anos tinha conhecido, convidado para jantar e dormido com algumas das mulheres mais glamurosas e desejadas do mundo. Entre elas, uma modelo sueca, uma atriz americana e uma princesa austríaca. Todas eram sofisticadas e seguras de si mesmas. Tinham constituído uma provocação e lhe tinham devotado noites de louca paixão. Mas não tinham sido confortáveis.
Isso era o que Phoebe lhe dava. Conforto. Daniel pensou que era como comida caseira para sua alma. Não pôde evitar uma careta ao pensar naquela metáfora, mas basicamente consistia nisso.
Teria passado em total uma hora, hora e meia com ela durante seus dois breves encontros. Apenas a conhecia, e, entretanto o fazia sentir uma espécie de paz, uma plenitude, uma comodidade que não tinha experimentado até então nem sequer com sua própria família.
- Comida caseira - murmurou em voz alta quando estacionou diante de sua casa.
Daniel seguia refletindo sobre aquela idéia quando Phoebe lhe abriu a porta. Ele a olhou e então qualquer tento de associá-la com a sopa de frango e o bolo de maçã se esfumou como por arte de magia. Igual a sua capacidade de falar.
Estava preciosa.
- Olá - saudou-o ela ao ver que Daniel ficava ali quieto, cativado por aquela visão.
Inconsciente do sorriso que lhe desenhava nos cantos dos lábios, Daniel escorregou o olhar por seu vestido do verão amarelo limão. Era suave e feminino, e de um tecido tão vaporoso como a incerteza que refletiam seus olhos.
Phoebe não era consciente nem por indício de quão sensual estava. Não tinha nem idéia de que embora aquele vestido sem mangas tivesse o corte por debaixo do peito e não marcava a cintura, havia algo indubitavelmente sedutor nele, um pouco essencialmente romântico.
Uma fila de delicados botões em forma de concha ia dos joelhos até aquele vale quente e misterioso que havia entre seus seios. Apesar de sua aparência ingênua, a possibilidade daqueles botões despertou no Daniel uma imagem muito erótica. Um só movimento do dedo e aqueles peitos luxuriosos que Phoebe tinha guardado cuidadosamente sob uma camiseta ampla e uma carapaça de tartaruga se esparramaria quentes e pesados sobre suas mãos.
Mas as surpresas não acabavam ali. Daniel se deu conta de que teve muitos desconfortos por ele, e além de prazer experimentou certa sensação de culpa.
Frisou o cabelo. Umas mechas suaves e sedosas caíam a cada lado do rostocomo mariposas. A tênue maquiagem lhe realçava a cor natural das bochechas e remarcava a delicadeza daqueles lábios carnudos que Daniel era incapaz de olhar sem relacioná-los com pétalas de rosa e beijos úmidos e apaixonados.
- Não está usando seus óculos - assegurou ele, dando-se conta naquele instante daquela outra diferença.
- Lentes de contato - respondeu Phoebe encolhendo-se ligeiramente de ombros e olhando-o com aqueles olhos de caramelo fundido.
- Eu... Irei procurar minha bolsa - disse ela baixando finalmente o olhar.
Daniel meteu as mãos nos bolsos da calça e logo que teve tempo de recuperar o fôlego, reordenar seus pensamentos e fixar-se naquela estúpida rã de estuque quando Phoebe voltou a sair da casa e fechou a porta detrás de si.
- Pronta? - Perguntou-lhe Daniel com voz mais rouca do que tivesse desejado quando ela tomou assento a seu lado no carro.
Ela assentiu com a cabeça.
- Está bonita, Phoebe - assegurou-lhe ele. 
O disse por que era certo e porque de repente lhe pareceu importante que soubesse. E porque se não tivesse aberto a boca para falar talvez houvesse se sentido tentado a saltar sobre a Phoebe, colocar-lhe sobre o colo e comprovar quão rápido podia lhe desabotoar aqueles botões.
- Terá sido a máscara - respondeu ela franzindo ligeiramente os lábios de tal forma que Daniel teve que forçar uma careta para dissimular a excitação que lhe produziu.
Comida caseira? Miúda piada. Um homem no estado de excitação no que ele se encontrava estava muito longe de sentir-se cômodo, sobre tudo tendo em conta que não ia encontrar nenhum alívio a seu desejo. Não com ela. 
Daniel pensou então que as razões pelas quais a tinha convidado a sair para jantar tinham mudado subitamente. Suas motivações seguiam sendo egoístas, mas tinham passado de ser uma simples busca de companhia a algo completamente distinto. E isso não podia ser. 
Ia necessitar de toda sua força de vontade para manter as mãos afastadas dela. E não porque tivesse passado muito tempo no Kalahari, mas sim porque a desejava.
Mas temia lhe fazer dano, assim não ia atuar de acordo com aquele desejo.
Daniel conduziu entre o tráfego da cidade e chegou um momento no que se deu conta de que o silêncio estava se fazendo muito tenso. Tinha que dizer algo se queria que a noite transcorresse com aparente normalidade.
- Bom o que gostaria de jantar?
- O que você queira - respondeu Phoebe olhando pela janela.
Daniel golpeou brandamente o volante com os dedos enquanto atravessava as ruas. Era consciente de que ela estava incômoda ao seu lado. Quando foi à biblioteca, a cara da Phoebe era toda ela um sinal de interrogação que se perguntava o que estava fazendo Daniel ali.
Acreditava sabê-lo, mas já não estava tão seguro. Naquele momento só era consciente de uma coisa: Tudo o que rodeava a Phoebe implicava um compromisso a longo prazo, um lar, uma família... Justamente o contrário do que o rodeava a ele. Mas que demônios, gostava de estar com ela. Queria estar com ela.
A noite anterior Phoebe lhe havia dito quando ele se foi que não tinha acontecido nada. Tinha-lhe deixado claro que sabia que não havia nenhum romance à vista entre eles. Então, por que não deixava as coisas como estavam? Daniel sabia como ser amistoso e afável sem mais complicações. Era um professor das relações superficiais. Saberia dizer as frases adequadas e emitir os sons necessários que garantissem que aquela seria uma noite interessante.
Mas aquela sua libido tinha dado um passo à frente e tinha decidido fazer as coisas a sua maneira. Nunca tinha se comportado assim antes e Daniel não estava disposto a deixar que o fizesse naquele momento. Não queria fazer dano a Phoebe, e isso seria exatamente o que conseguiria se deixasse que sua relação fosse algo mais que platônica.
Limitaria simplesmente a desfrutar de sua amizade durante o curto espaço de tempo que estivesse em Boston. E no processo talvez encontrasse um modo de ajudá-la a enfrentar-se ao Jason Collins. 
Daniel sentiu que se animava. Isso funcionaria. Depois de tudo, preocupava-se com ela. Poderia ajudá-la a livrar-se daquele tipinho e assim não se sentiria tão egoísta.
Lançou então um olhar fugaz em sua direção, antes de voltar a cravar a vista na condução com a mandíbula apertada. Quão único tinha que fazer para evitar as complicações era deixar de pensar em quão formosa estava com aquele vestido. Quão único tinha que fazer era esquecer-se daqueles beijos no qual não deveria haver-se dado, e não deveriam ter sido tão doces, nem tão apaixonados, tanto que Daniel começava a pensar que tinham sido uma alucinação produto da mudança de fuso horário e a falta de sono.
Quão único tinha que fazer era...
- O que te parece uma pizza? - Escutou-lhe dizer Phoebe ao Daniel como em sonhos.
O que lhe parecia uma pizza? Naquele momento? Pois lhe parecia algo tão absurdo como uma bibliotecária solteirona tratando de aparentar o que não era. Aquele pensamento lhe provocou um nó no estômago.
- Parece-me muito bem - respondeu, tratando de esquecer-se da humilhação que sentiu ao ver a expressão do Daniel quando abriu a porta e a encontrou ali de pé com seus melhores ornamentos, como se aquilo fosse uma entrevista ou algo parecido.
Como se Daniel tivesse tido que dar uma olhada a seus pobres esforços para estar bonita para ele e beijá-la de novo apaixonadamente. Como se ao Daniel importasse o esforço com que depilou as pernas e pôs um dos dois únicos conjuntos de lingerie sexy que tinha.
- Além do sorvete, o que mais sinto falta de quando estou fora dos Estados Unidos é a pizza - assegurou Daniel olhando pelo retrovisor para tomar uma separação-. Esteve alguma vez no Bela Lua?
Phoebe segurou com força a bolsa entre as mãos e sentiu que as bochechas voltavam a inflamar-se o com uma nova onda de humilhação, ao pensar em como tinha interpretado mal as intenções do Daniel. Pelo amor de Deus, tinha trinta e três anos, não dezesseis.
- Está bem - conseguiu dizer com muita dificuldade-. Nunca estive lá.
Phoebe as arrumou para conter um gemido. O que pensaria ele? A julgar por seu silêncio, provavelmente estava tratando de lhe fazer aterrissar brandamente.
Olhou pela janela e fechou os olhos com força para tratar de conter suas emoções. Infelizmente, era muito tarde para aterrissar sem dar um golpe. Muito tarde para negar o que lhe ocorria desde que Daniel a tinha beijado até lhe derreter os ossos. Muito tarde para fazê-la de tonta e negar que estava já meio apaixonada por ele. Certamente, pensou com uma careta, algo mais para seus pensamentos. Teria que pensar naquela nova revelação mais tarde, quando estivesse a sós na escuridão, entre os frios lençóis de sua grande cama vazia e com a roupa íntima depositada no cesto da roupa suja em lugar de esparramada pelo chão de seu dormitório porque ele não tivesse tido tempo de tirar-lhe.
 Por sorte chegaram à Bela Lua poucos minutos depois. Estava cheio até os batentes de gente rindo e falando em voz alta, por isso resultava impossível manter uma conversação. A decoração em tons amarelos e azuis e os pratos pintados à mão conferiam ao lugar uma sensação cálida. Certamente a Phoebe tivesse gostado se não se houvesse sentido tão desgraçada.
Sentaram-nos em uma mesa para duas pessoas com uma toalha de quadros vermelhos e uma vela e o garçom os entregou o cardápio. Havia ao menos um milhão de possíveis combinações de pizza e uma grande variedade de entradas que foram desde aspargos a saladas.
- O que te parece se pedir eu pelos dois? - Sugeriu Daniel ao observar sua cara de desconcerto.
- Por mim tudo bem - respondeu ela aliviada, deixando o cardápio sobre a mesa.
- Bom, como está se sentindo? - Perguntou ele quando o garçom partiu com o pedido - Não ficou nenhuma seqüela de ontem à noite?
Assim essa era a razão daquela noite. Lição número dois do código dos heróis: considera-se de boa educação que o resgatador se reúna com o resgatado para assegurar-se deque seus heróicos esforços não foram em vão.
- Estou bem. Muito bem - assegurou Phoebe colocando as mãos entrelaçadas sobre a mesa, antes de voltar a baixar-lhe ao regaço para voltar a subir - Leslie veio me buscar esta manhã antes do trabalho e me levou até meu carro.
Não se incomodou em lhe mencionar que alguém tinha gravado a palavra Prostituta na porta do condutor. Não tinha provas para afirmá-lo, mas estava segura de que tinha sido obra de Jason, utilizando provavelmente suas próprias chaves.
O garçom retornou com uma jarra de cerveja para Daniel e água para ela, devolvendo-a ao momento presente e apartando a daquela imagem tão feia. Phoebe brincou com o copo enquanto Daniel olhava a seu redor. Deu-se conta então de que ele também estava um pouco incômodo. Mas, depois de tudo, como podia ser de outra maneira? Daniel contava com um jantar informal para continuar na linha de seus beijos de compaixão e ela frisou o cabelo e pôs lentes de contato, pelo amor de Deus.
Uma coisa era que não estivesse interessado nela e outra que fora um estúpido, e não o era. Um só olhar e teria compreendido que ela pensava... Bom, o que pensava.
«Está bonita, Phoebe», havia-lhe dito. Igual a podia ter comentado: «Ondulaste o cabelo, Phoebe», ou «Já não leva a carapaça de tartaruga, Phoebe».
- Minha avó tem um ditado.
A sua cálida voz a tirou momentaneamente da larva de desgraça em que se foi enterrando. Phoebe se arriscou a olhá-lo aos olhos, aqueles olhos imensamente azuis.
-Quello Che ci mette, ci trova.
A poesia lírica daquelas palavras escorregou por sua língua como se tivesse nascido falando aquele idioma. O calor de seu sorriso poderia ter derretido a chama da vela que havia entre eles. Ao menos derreteu grande quantidade de coisas no interior da Phoebe.
- Embora não tenho o que se diz um grande ouvido para os idiomas, parece-me que isso era italiano, verdade? - As arrumou para dizer-. O que significa?
- Mais ou menos deve dizer algo assim como: O que alguém pôs em um prato, encontra-o.
- Até arisco me repetir, o que significa isso? - Insistiu Phoebe inclinando-se para diante com as sobrancelhas arqueadas.
- A verdade é que não sei - respondeu Daniel com fingida confusão-. Mas ela o repete muito e é uma das poucas frases em italiano que posso dizer sem que me trave a língua.
Bom, que demônios. O que outra coisa podia fazer ela a não ser sorrir? Não era culpa do Daniel que ela tivesse captado a idéia equivocada. Não era culpa dela que seu coração tivesse decidido por sua conta pulsar um pouco mais depressa. Não era culpa sua ser tão bonito e nem que ela estivesse tão necessitada.
- E qual é a outra frase? - Perguntou Phoebe armando-se de coragem e adotando uma expressão jocosa.
- Questa festa É solamente per te - respondeu Daniel elevando seu copo de cerveja para brindar com ela -.O que significa que esta festa é só para ti. 
Justo quando Phoebe começava a pensar que controlava a situação, a expressão do rosto do Daniel voltou a deixá-la sem respiração. Observou fixamente aquele formoso rosto sorridente e lutou contra seu desejo de cair a seus pés. Porque o que tinha acreditado ver - interesse, calor, intensidade-, era só Daniel sendo Daniel: encantador, amável e inconscientem ente sensual. Aquilo não significava nada.
Phoebe suspirou. Tinha que assumi-lo. Engolir e assumi-lo. Reuniu forças da fraqueza, sorriu e se prometeu tratar de desfrutar da noite. E a única maneira de consegui-lo era deixar de fantasiar e aceitar de uma vez por todas que não havia nenhuma possibilidade de ter um romance com o Daniel Barone.
- Eu tenho algo que dizer a isso - assegurou Phoebe elevando seu copo de água e forçando um sorriso-. Dubi, dubi, dá.
-E isso o que significa? - Perguntou Daniel sorrindo meio de lado com um de seus irresistíveis gestos.
- Quer dizer: Vamos nos divertir, em idioma galimatías.
- Horas, a garota é bilíngüe - assegurou ele com olhos divertidos.
- Também sofre às vezes de transtorno bipolar - sussurrou Phoebe baixando a voz em tom confidencial-. Mas não falemos disso agora, de acordo? Danificaríamos o jantar. 
Daniel se inclinou para trás e soltou uma leve gargalhada.
- O que vou fazer contigo? - Murmurou entre dentes sacudindo a cabeça.
A Phoebe lhe ocorriam várias coisas, mas as guardou para si mesma. Igual a se guardaria os seus sentimentos e ataria curto suas emoções. Não ia deixar se levar por uma fantasia que os incluía a ela e a aquele homem em uma aventura romântica.
O que faria seria seguir adiante com aquela noite. E para isso a ajudava saber que todos os olhos femininos do restaurante percorriam Daniel de cima abaixo e a olhavam a ela com inveja.
Aquelas mulheres não tinham por que saber que não se tratava de um encontro amoroso.
Não tinham por que saber que Phoebe morria por dentro ao saber que aquele homem maravilhoso nunca seria nada mais que um amigo.
Saíram do Bela Lua ao redor das nove e meia da noite. Daniel se surpreendeu a si mesmo quando a acompanhou à porta de sua casa e virtualmente não lhe deixou mais opção que convidá-lo a entrar.
- Agora mesmo volto - desculpou-se Phoebe desaparecendo.
Quando voltou a reunir-se com ele no salão levava um copo alto com chá gelado em cada mão e pôs os óculos.
- Tenho os olhos secos - explicou-se ela tomando assento em uma poltrona ao lado do sofá no qual Daniel se acomodou.
Sabia que pela Phoebe aquela cena não teria tido lugar. Ela não tinha intenção de convidá-lo a entrar, mas ele não tinha intenção de partir, assim, sorrindo, tinha entrado pela porta e se havia posto cômodo.
Isso tinha sido uns quinze minutos atrás. Agora estava reclinado no sofá, escutando os suaves acordes de um saxofone ao ritmo de jazz que saíam do aparelho de som, enquanto observava Phoebe aconchegada na poltrona com o gato no colo. Não pôde evitar sorrir.
Daniel se deu conta de que tinha sorrido muitas vezes ao longo daquela noite, algo que não era freqüente nele. A pequena e tímida Phoebe Richards tinha um fino senso de humor quando por fim baixava a guarda e o deixava sair, como tinha ocorrido durante o jantar. 
Daniel não sabia muito bem como defini-lo, mas algo tinha mudado no modo em que ela o olhava. Parecia como se em certa maneira tivesse tomado a decisão de mostrar-se tal e como era, como se dissesse: «tudo bem. O que vê é o que há, tanto se você gosta como se não. Dá-se igual».
Mas ele gostava. E muito. Phoebe tinha rido, tinha-lhe perguntado coisas de sua vida e tinha dado boa conta de sua pizza.
Todo isso gostava, à exceção do fato de dar-se conta de que a partir daquele momento tinha começado a olhá-lo a ele de outra maneira.
As bochechas da Phoebe não se tingiram em nenhum momento daquele rosa adorável quando seus olhares se cruzaram por cima da mesa. Seus olhos tinham perdido aquele tímido e sonhador ar sensual. Parecia como se ela tivesse tomado conscientemente a decisão de apartar-se das turbulentas águas sexuais e tomar um caminho mais firme.
Daniel deixou que aquele pensamento se assentasse em sua mente. Aquilo era o certo, não? Era o que ele queria.
Sem faísca, sem tensão. Só amizade. Só comodidade. Nem sequer tinha que lhe pôr as coisas claras. Com seu sutil, mas, firme mudança de temperatura, Phoebe o tinha feito por ele. 
- Está dormido? - Escutou-a sussurrar, como se temesse despertá-lo.
- Espero que não tome como uma ofensa - respondeu Daniel sem abrir os olhos nem levantar a cabeça das almofadas-. Mas poderia ficar dormindo perfeitamente. É por culpa da pizza, a música e a mudança de horário. É incrível - continuou obrigando-se a si mesmo a incorporar-se e sacudindo a cabeça-. Por muito que tenha viajado por todo mundo, a mudança de hora me segue afetando.
- O mais longe que eu viajei foi a Nova Iorque, assim acredito que terei que dar por válida sua resposta.
Daniel tinha tido ocasião de comprovar ao longo da noite que não era muito dada a falar de si mesma, mas tinha uma grande habilidade para extrair informaçãoa ele. Tinha-lhe feito cantar como um canário. Os sorrisos cálidos da Phoebe e o interesse que mostravam suas perguntas o tinham impulsionado a compartilhar com ela anedotas dos lugares que tinha visitado e as coisas que tinha feito.
De fato, tinha falado tanto que estava um pouco afônico.
- Como é possível - perguntou-se em voz alta- que eu te tenha contado em detalhes cada mês de meus últimos oito anos e sigo sem saber nada de você?
- Certamente porque sua vida é fascinante e a minha não - respondeu ela com naturalidade sem deixar de acariciar o lombo de Arthur. 
Daniel a olhou aos olhos e ela os desviou rapidamente. Não lhe surpreendeu. Phoebe não queria ser o centro de atenção. Sentia-se incômoda quando o era, e as tinha engenhado para desviar o interesse por volta dele durante toda a noite.
Mas agora não o conseguiria. Tinha uma pergunta lhe dando voltas à cabeça desde fazia vinte e quatro horas e estava decidido a obter uma resposta.
- Phoebe, me conte uma coisa. Como é possível que você e esse tipinho do Collins...?
Daniel se deteve um instante para encontrar uma maneira delicada de dizê-lo. Mas Phoebe o fez por ela.
- Quer dizer que por que uma boa garota como eu se correia com um perdedor como esse?
- Sim, suponho que isso é o que queria dizer - confessou Daniel estirando o braço para agarrar seu copo de chá.
- Apresentou-me ele uma amiga de uma amiga - respondeu Phoebe depois deixar escapar um fundo suspiro -. Parecia simpático. Atento. Mas não sei - disse encolhendo-se de ombros-. Algo mudou. Seus cuidados se converteram em exigências, e sua simpatia em posse. E a posse se transformou em... Bom, você mesmo o viu.
- Sim - respondeu Daniel recordando com desagrado a imagem das mãos do Collins sobre ela-. Eu vi. Te bateu alguma vez, Phoebe? - Perguntou inclinando-se para diante.
Ela ficou tensa e tragou saliva, lutando visivelmente contra a tensão.
- Uma vez - confessou passando-a mão pelo cabelo.
- O que desgraçado... - Disse Daniel fechando os olhos e sentindo uma onda de fúria.
- Está doente - assegurou ela mais como explicação que como defesa-. Isso não o desculpa, mas me faz mais fácil aceitá-lo. Jason é um alcoólatra - continuou dizendo enquanto sacudia a cabeça com gesto de frustração -. Gostaria de me ter dado conta, mas não o fiz. 
Daniel ficou pensativo olhando-a. Tinha o forte pressentimento de que Collins não partiria da vida da Phoebe tão facilmente. E por essa mesma razão ele se convenceu a si mesmo da necessidade de não ir-se tampouco muito longe no momento.
Olhou então fixamente a seu copo de chá, consciente de que o que estava a ponto de lhe propor não era o mais sensato.
Depois de passar a noite com a Phoebe se deu conta de que o que de verdade queria dela era algo que não podia conseguir. Tampouco confiava nele o suficiente para manter sua relação no campo platônico. Mas lhe importava, e por isso ia fazer algo com o que talvez estivesse tentando a sorte.
- Phoebe, tenho que te fazer uma proposta.
Capítulo Seis
- Uma proposta?
Nos olhos da Phoebe havia o suficiente cepticismo como para não continuar falando, mas quando Daniel elevou o braço para segurar a mão ela se deixou cair a seu lado no sofá. 
- O que te parece se eu te der aula de defesa pessoal? -perguntou-lhe de supetão.
Phoebe tinha colocado os pés nus à altura do quadril no sofá, criando um autêntico muro de resistência entre eles. Daniel não estava muito seguro se o tinha feito intenciona lmente ou lhe saía natural.
- Detesto todo tipo de violência – respondeu ela olhando-o com desconfiança.
- A defesa pessoal consiste precisamente em evitar a violência - assegurou Daniel-. Pensa nisso. Além disso, serei eu quem te ensinarei e não qualquer desconhecido.
- Talvez seja o momento de te recordar que até ontem de noite você e eu fomos uns desconhecidos - respondeu ela inclinando ligeiramente a cabeça de um modo que Daniel encontrou encantador.
- Sei - reconheceu ele olhando-a aos olhos-.Mas me diga a verdade, Phoebe: te pareço um desconhecido? Quero dizer... Não o sentiu você também?
- O ardor de estômago? Sim, mas pensei que era a pizza.
- Estou falando da conexão - respondeu Daniel exalando um suspiro de paciência-. Nós conectamos. Sinto-me muito bem com você.
- Igual à sensação que com um par de sapatilhas velhas, verdade? - Murmurou ela baixando o olhar e posando a vista sobre o tecido de seu vestido.
Daniel escorregou o olhar por aqueles botões. Soltou um suspiro, sacudiu a cabeça e tratou de pensar em sapatilhas, em sapatilhas velhas, e não em uns peitos perfeitos de pequenos mamilos eretos que pressionavam provocativamente o tecido amarelo.
- Igual sensação de um velho amigo - respondeu finalmente, inclinando um pouco a cabeça-. E não me diga que não nos conhecemos o suficiente. O tempo não tem por que ser necessariamente um fator determinante da amizade.
- Assim... O que quer é sair comigo por aí, não? -Perguntou Phoebe cravando de novo a vista no tecido de seu vestido.
-Sim. O que quero é sair contigo por aí - repetiu ele imitando-a-. Ir de vez em quando ao cinema, a ver uma partida... Ou como esta noite, sair para jantar uma pizza e logo me sentar no sofá de sua casa a escutar música e ser simplesmente...
- Simplesmente você? - Atreveu-se a aventurar Phoebe.
- Exato. Você me faz recordar por que eu gosto de minha vida, o que faço. Minha família quer que volte para casa, me una ao clã dos Barone e sente a cabeça. Mas com você é diferente - assegurou Daniel franzindo levemente o cenho com ar pensativo - Você não tem nenhuma expectativa a respeito de mim. Você não quer que mude ou que sente a cabeça. E isso eu gosto. Eu gosto muito. O que eu não gosto - acrescentou adotando uma atitude séria-, é pensar que é vulnerável ante a Jason Collins.
Phoebe não tinha nada que dizer a respeito, mas não importava, porque Daniel falava pelos dois.
- Então, o que me diz? Deixe-me que, como amigo, faça algo por você. Me deixe te ensinar a cuidar de você mesma. Os rudimentos básicos - pediu-lhe tomando a da mão apesar de ter toda a intenção de não fazê-lo-. Por favor, Phoebe. Me deixe fazer isto por você.
«Por favor, Phoebe. Me deixe fazer isto por você.», repetiu Phoebe para seus pensamentos a tarde seguinte em sua casa, enquanto colocava no torno de oleiro a base.
«me deixe que, como amigo, te ensine a cuidar de você mesma», em lugar de «Deixa que eu te deite em cima da mesa e te faça amor como um selvagem».
«Poderia ter dito que não», pensou para seus pensamentos enquanto se concentrava em centrar o torno para amassar a vasilha que pensava lhe dar de presente a Leslie. «Poderia ter dito: Olhe Daniel, é um menino muito simpático e não quer que nenhuma mulher te controle, e muito menos eu, mas o que gostaria tem mais que ver com dançando tango em posição horizontal que com umas aulas de caratê».
Phoebe se acomodou sobre o tamborete e deixou escapar um profundo suspiro. Ela nunca se considerou a si mesmo uma pessoa sensual, nem muito menos sexualmente agressiva, mas era incapaz de ter nem um só pensamento sobre Daniel Barone no que não aparecesse ele nu em cima dela, ou debaixo dela, ou dentro dela.
Uma onda elétrica de desejo sexual lhe nasceu nos seios e desceu até mais abaixo do ventre quando sua mente desenhou aquela cena tão erótica. Era inútil enganar-se. Do momento em que pôs os olhos naquele rosto adorável, olhou-se naqueles olhos azuis como o céu e escutou sua voz de mel, tinha-o desejado.
Mas agora era pior. Agora o conhecia. Conhecia sua ternura, seu senso de humor, sua tendência a comportar-se como um cavalheiro andante. E o desejava ainda mais.
E ele só queria ser seu colega.
Fabuloso.
Deveria havê-lo despedido a noite anterior com um amável, mas, firme: «Não, muito obrigado».
- Mas não - murmurou em voz alta-. Tinha que deixar que suas ocultas tendências masoquistas saíssem à luz.
Sim. Definitivamente era masoquista, porque ao final lhe havia dito:
- Deacordo. Me ensina a quebrar pernas, destroçar narizes. Ensina-me a ser má, Barone. Estou preparada para golpear as pessoas na cabeça.
Daniel tinha rido, é obvio, e lhe havia dito que ficavam às três da tarde do dia seguinte para sua primeira aula. Ou seja, dentro de uma hora.
Phoebe se inclinou sobre o torno e desejou que Daniel tivesse dormido mais que ela a noite anterior para poder lhe dar a aula em condições. Porque ela passou a noite repassando centenas de situações que incluíam o Daniel Barone e como sobreviveria ela sendo sua amiga.
Phoebe deteve o pedal do torno um instante e soprou com força. Que Deus a ajudasse. Daniel queria lhe ensinar defesa pessoal, e ela tinha a sensação de que não ficava já nenhuma defesa.
Phoebe abriu a porta depois de escutar o timbre limpando-as mãos em uma toalha e coberta com um avental branco de açougueiro sujo de algo que parecia ser barro. Fosse o que fosse, Daniel se deu conta de que também manchou o queixo, uma bochecha e a manga da camiseta branca que levava posta e que estava claro que tinha conhecido dias melhores. As tinha arrumado para manchar-se inclusive uma das pernas dos óculos. 
- Chegou mais cedo - acusou-o com uma careta e um rubor que lhe chegou da frente até o pescoço.
- Sinto muito, acho que sim - desculpou-se Daniel consultando seu relógio-. Uns minutos. Que demônios têm na cara? 
E antes de parar-se a pensar o que estava fazendo, percorreu-lhe brandamente a bochecha com o dedo polegar para lhe retirar um pedaço de barro seco.
Tinha a pele muito suave, e ele a sentiu muito quente sob seu contato. Daniel escorregou o olhar para sua boca e recordou outro tipo de calor. Outro tipo de suavidade relacionado com aquela boca úmida, ansiosa e sensual.
- Bom - disse ela apartando-se imediatamente, lhe recordando desse modo os limites que ele mesmo marcou -. Vou... Vou tomar um banho rápido e estarei pronta para a defesa pessoal, a ofensa, ou o que seja.
E sem lhe dar oportunidade de responder, Phoebe girou sobre seus calcanhares e subiu pelas escadas. Daniel ficou de pé no vestíbulo pensando naquele pequeno traseiro embutido em um par de calças jeans desgastadas que tinha visto quando ela deu a volta e se afastou dele.
Era um traseiro estupendo, disso não cabia nenhuma dúvida. Mas estava unido ao corpo de uma amiga, e não tinha por que pensar nele do modo em que o estava fazendo, imaginando-lhe nu e entre suas mãos.
Daniel passou as mãos pelo cabelo e se perguntou por que demônio estava ali se metendo na vida da Phoebe. Então se lembrou de Jason Collins e soube exatamente por que. 
Ambos estavam colocados frente a frente naquela pequena habitação que estava ao meio terminar. A Phoebe gostava de pensar nela como seu futuro gabinete, mas no momento só tinha podido costear um tapete de tweed barato e pintura para a parede. O teto estava sem terminar. Uma carteira velha sobre o que estava colocado seu antiquado computador e um par de cadeiras dobradiças eram as únicas peças de mobiliário.
- Bem, façamos o seguinte - disse Daniel-. Quero que pense em um par de coisas antes que comecemos com a técnica. Em primeiro lugar, tem que estar consciente.
Phoebe pensou com desmaio que aquela parte já a tinha coberta. Era plenamente consciente do modo em que Daniel lhe marcavam os músculos sob a camiseta de algodão que levava posta.
- Consciente de onde está - continuou dizendo ele -, e do que pode ocorrer. Isso são os mecanismos mais importantes da defesa pessoal. Em seu caso, deve estar preparada contra qualquer ameaça pensando nos objetos cotidianos como armas potenciais: As chaves do carro, o telefone celular... Pensa nas coisas que leva na bolsa. Uma caneta ou um pente de manga comprido podem fazer muito dano e te oferecer a porta que necessita para sair fugindo. E a laquê de cabelo pode deixar a uma pessoa temporalmente cega.
- Vá que interessante - assegurou Phoebe batendo as pestanas a toda pressa com gesto zombador.
- Escuta, sei o que está fazendo. Tenta tomar como brincadeira porque está assustada. Mas pode superar o medo se confiar em suas possibilidades e se dá conta de que pode cuidar de você mesma.
- De acordo. Sinto muito - desculpou-se ela assentindo com a cabeça -. Já não farei mais brincadeiras.
Fez-lhe duro, mas Phoebe conseguiu permanecer a seguinte hora escutando-o falar e vendo-o fazer coisas que ela não tivesse qualificado como táticas de defesa pessoal nem em um milhão de anos. A maioria delas eram muito simples e pouco dolorosa.
- Muito bem - disse Daniel quando considerou que já tinha falado o suficiente-. Como se sente agora?
- Melhor. De verdade - a assegurou com sinceridade-. Obrigado.
- Deixaremos a aula seguinte para outro momento - disse então Daniel para sua surpresa.
- Como? Espera! - exclamou ela sentindo como o estômago lhe enchia de mariposas -, É que vai haver mais aulas?
No final resultou que houve bastantes aulas ao longo da seguinte semana. Daniel foi a sua casa na segunda-feira depois de que ela saísse do trabalho, e o mesmo fez na quarta-feira e na sexta-feira. E em todas as ocasiões Phoebe sentia como lhe parava o coração cada vez que o tinha perto. Talvez fosse porque naquelas sessões se suava e os corpos entravam em contato.
- Bom - disse-lhe Daniel na sexta-feira à noite olhando-a com os braços em jarras -. Agora ele te toca e como vai reagir.
Phoebe sabia que aquele momento tinha que chegar. Durante os últimos dias tinha seguido atentamente as explicações de seu professor particular a respeito do modo de exercitar uma chave do Kung Fu. Exalou um suspiro de frustração e se preparou para o ataque.
Daniel lhe pôs a mão no ombro. Com uma velocidade respirada por três dias de frustração, Phoebe se girou, golpeou-lhe com a mão na cara, cravou-lhe o joelho no peito e quando Daniel se dobrou sobre si mesmo lhe deu um chute no diafragma.
Daniel caiu no chão de costas soltando um gemido.
E ficou ali estendido.
Phoebe esperou durante um longo momento olhando-o, esperando que ele se levantasse.
- Meu Deus, Daniel - disse finalmente, sentando-se a seu lado no chão ao ver que lhe movia o peito agitadamente-. Te machuquei?
- Não - respondeu ele ao tempo que Phoebe se dava conta de que não estava procurando ar, a não ser rindo -. Maldita seja Phoebe - disse cravando seus olhos azuis nos dela-, quando te põe a fazer uma coisa, faz de verdade, não?
- Quer dizer que te derrubei de verdade? Não estava fingindo?
- Me derrubou direitinho - assegurou Daniel sentando-se -. Felicidades. Acredito que aprovou o curso. E isto merece uma celebração - disse consultando seu relógio-. Se nos pusermos em marcha agora mesmo chegamos a tempo de ver um filme. Temos tempo inclusive de comer algo antes, se gostar.
A Phoebe gostava de muitas coisas. Mas nenhuma delas incluía torturar-se sentando ao lado do Daniel para outra sessão de bate-papo, que só poderia terminar com ela sentindo-se sexualmente frustrada devido à grande quantidade de testosteronas que o corpo do Daniel desprendia por segundo. Outra questão para a qual não estava preparada era para sentar-se a seu lado na escura intimidade de um cinema e lhe roçar sem intenção os braços e encontrar-se com seus dedos ao tocar as pipocas.
Centenas de desculpas lhe passaram pela cabeça. Tinha que engomar. Tinha que limpar as juntas dos azulejos do banheiro com uma escova de dente. Tinha que limpar a geladeira por dentro. Todas aquelas atividades evitariam o jantar e o filme. E eram razões muito acreditáveis.
Phoebe abriu a boca para dizer uma delas, mas para sua própria surpresa quão único conseguiu dizer foi:
- Aceito.
- Estupendo. Trouxe roupa para me trocar. Importa-se que eu use o teu banheiro?
Phoebe não foi capaz de articular uma resposta a aquela pergunta. Daniel já se pôs de pé e se dirigia às escadas.
Ela seguia sentada no chão quando escutou o ruído da ducha. Daniel estaria nu. E úmido. E aquela noite Phoebe pensava dormir envolta na toalha que ele utilizasse para secar-se.Capítulo Sete
Phoebe conseguiu sobreviver ao jantar, mas só porque o restaurante estava cheio e ela tinha aproveitado a oportunidade de evitar um cara a cara com o Daniel ao oferecer-se com entusiasmo a compartilhar mesa com um casal de meia idade que vinha de Idaho. Agora sabia mais de batatas do que tivesse imaginado em sua vida.
Também conseguiu sobreviver ao filme, mas unicamente porque insistiu em ver uma de tipos quadrados, repleta de suor, brigas, balas voando e centenas de atos violentos. E sangue. Muito sangue.
É obvio, Daniel tinha se fartado de rir porque ela tinha visto tudo o filme através do buraco formado entre os dedos indicadores e coração da mão com a que tampou os olhos.
E tampouco houve pipocas para ela. Daniel as ofereceu várias vezes, mas Phoebe não queria arriscar-se a que seus dedos se roçassem.
Para ela foi um imenso alívio que aparecessem os títulos de crédito, as luzes se acendessem e fosse o momento de partir. Agora só restava chegar a casa, lhe dar uns tapinhas no ombro ao Daniel e escorrer-se a toda pressa a seu dormitório. Sozinha. 
- Assim acredito que gostou, não? - Perguntou-lhe Daniel quando saíram do vestíbulo do cinema por volta da meia noite de agosto.
- É obvio que sim.
-Mentem tão mal todas as bibliotecárias ou você é particularmente inepta? - Exclamou Daniel com uma gargalhada.
- Acredito que é minha coisa - reconheceu Phoebe olhando-o nos olhos.
Daniel passou o braço por seus ombros em gesto amistoso e lhe deu um abraço rápido, apertando-a contra si do ombro até a coxa.
- Me deixe te dar um conselho - sussurrou-lhe ao ouvido-. Não minta quando fizer a declaração do imposto de renda. Não conseguiria superar uma inspeção.
Phoebe não escutou além da palavra «conselho». Um som suave e baixo lhe ressonou na cabeça e apagou o resto das palavras do Daniel enquanto sua respiração lhe acariciava a orelha e a firmeza de seu corpo provocava que todas as zonas erógenas de seu corpo ficassem em alerta.
- O que? Como diz? - Perguntou confusa, ao dar-se conta de que se detiveram na porta do cinema e lhe estava perguntando algo.
- Perguntei-te se quer tomar um sorvete - repetiu Daniel com uma careta.
- Um sorvete?
- Sim, já sabe. Essa coisa fria que às vezes vai recoberta de chocolate quente e...
Daniel se deteve bruscamente a metade da frase e dirigiu o olhar para o outro lado da rua.
- Filho de uma cadela... - Murmurou enquanto a atraía para si com ar protetor.
Surpreendida por sua repentina e drástica mudança de humor, Phoebe seguiu a direção de seu olhar. O coração começou a lhe pulsar a toda pressa quando viu o que lhe tinha chamado a atenção ao Daniel.
Jason Collins estava estacionado ao outro lado da rua, frente ao cinema. Tinha baixado a janela do carro para assegurar-se de que o vissem bem e o reconhecessem.
- Esse desgraçado está te seguindo – assegurou Daniel obrigando-a a girar-se-. Vejamos se podemos desviar sua raiva para outra direção.
E antes que Phoebe pudesse assimilar o que estava passando tinha as costas apoiada contra a parede do cinema e ao Daniel em frente.
- O que quer é chatear a alguém. Vejamos se me chateia. Espera - sussurrou enquanto sua boca descendia - Vamos fazer bem feito.
Fazê-lo bem? «Meu Deus», pensou Phoebe. O que era que teria que fazer bem?
Abriu os olhos desmensuradamente e também a boca para dizer algo, mas as palavras ficaram apanhadas na garganta. Mas de repente não tinha importância. Igual a tampouco importava que ela levantasse as mãos e as colocasse em Daniel sobre o peito. Talvez para lhe sugerir que se pensasse bem o que estava fazendo. Talvez para lhe disser que aquilo não era uma boa idéia. Talvez para apartar ele de si.
Mas então a boca do Daniel roçou a sua, cobriu a sua, abriu-se sobre a sua. E com a pressão de seu corpo, pediu-lhe que fizesse o mesmo.
Então, quão único importou foi sua boca.
Daniel a beijou profunda e docemente e a atraiu tão perto dele que Phoebe logo não podia respirar, nem tão sequer pensar. Nem é obvio protestar. Nem muito menos recordar por que aquilo lhe tinha parecido uma má idéia em um primeiro momento.
Phoebe piscou e observou seu rosto, observou aquelas pestanas escuras tão largas que lhe roçavam as bochechas e com um gemido que unia desejo e rendição fechou os olhos e deixou que Daniel tomasse o controle.
Seus beijos... Céu santo, seus beijos... Eram como sempre tinha sonhado que deviam ser os beijos. Tudo o que os beijos do Jason não tinham sido nunca. Eram apaixonados e ao mesmo tempo tenros. Eram intensos e exigentes. Estavam cheios de desejo e de urgência. Phoebe se perdeu neles e se esqueceu completamente de que se tratava de uma atuação.
Levantou os braços, os jogou ao redor do pescoço e, acompanhando-se de um suspiro que era em parte apaixonado e em parte surpreso, permitiu que lhe abrisse as pernas com o joelho. 
Quando os braços fortes do Daniel escorregaram por suas costas e chegaram até seu traseiro para logo pressioná-la contra seus quadris, Phoebe ficou nas pontas dos pés para animá-lo a estreitar o contato.
Aquilo era... Era muito. Ele continuou escorregando a boca pela sua, trocou de ângulo e se afundou em outra bateria de beijos que incluía línguas enlaçadas e suspiros apaixonados.
Alguém, provavelmente ela, protestou levemente quando Daniel levantou a cabeça. Ele soltou com força o ar e apoiou a frente contra a sua. Phoebe tragou saliva e logo se atreveu a olhá-lo aos olhos, que estavam brilhantes e cheios de desejo e paixão.
- Talvez... Talvez devêssemos lhe fazer outra demons tração - sussurrou Daniel apertando-a brandamente contra a parede -. Só para nos assegurar de que capta a mensagem.
- Qual... Qual é exatamente a mensagem? - Murmurou Phoebe quase sem respiração.
Temia interpretar aqueles beijos como algo mais que uma estratégia estudada para dirigir a raiva contra Daniel em lugar de contra ela.
Daniel lhe respondeu com um olhar misterioso e logo voltou a baixar a cabeça. Voltou a beijá-la. Era todo um professor de sensualidade, com aquela respiração cálida e aquela língua brincalhona que marcava um ritmo similar ao do ato amoroso. A Phoebe pulsava tão forte o coração que podia escutá-lo nos ouvidos, sentir seu pulso nos pontos em que seus corpos se roçavam como uma promessa da qual poderiam fazer e o modo em que se encaixariam na escuridão.
O som de umas rodas derrapando fez com que Daniel levantasse a cabeça. Ela olhou por cima de seu ombro e juntos observaram como o carro do Jason desaparecia rua abaixo a toda velocidade.
- Acredito que o conseguimos - assegurou Daniel com um tom de voz tão áspero como o papel de lixa. Está bem? -Perguntou-lhe apartando-a brandamente de si.
Phoebe o olhou aos olhos, reprimiu o calor que lhe pulsava por dentro e assentiu com a cabeça, mentindo descaradamente. Se Daniel leu a mentira em seus olhos decidiu ignorá-la.
- Vamos. Vou te levar para casa.
Com a respiração ainda agitada, Phoebe tomou a mão que lhe oferecia e caminhou em silencio a seu lado até o carro.
Assim Daniel só tinha querido lançar uma mensagem. E ela seguia perguntando-se qual era exatamente aquela mensagem.
Talvez ali houvesse algo mais. Talvez ele estivesse interessado um pouco nela. Talvez muito interessado.
Quando chegaram a sua casa depois de um longo percurso silencioso que não incluiu uma parada para tomar um sorvete, a realidade se tomou já a revanche.
Daniel Barone, aquele homem extraordinário, não ia apaixonar se por uma bibliotecária vulgar e insípida que não só era três anos mais velha e também, além disso, estava a anos luz do tipo de mulher que poderia conquistá-lo e levá-lo pelo caminho do amor eterno.
Mas quando Phoebe se deitou naquela noite só em sua cama não pôde evitar pensar que aquele homem estava extraordinariamente capacitado para fingir os seus beijos.
Daniel se olhou à manhã seguinte no espelho do banheiro. Tinha um aspecto espantoso. Passou a mão pelo rosto. Aquele era o efeito que exerciasobre um homem uma noite sem dormir. Em realidade, várias noites sem dormir.
E também era o efeito de uma bibliotecária devoradora de sorvetes com tendência a disfarçar-se de tartaruga, vocação de oleira e mentirosa.
Sempre tinha pensado que Phoebe era sincera. Mas levava toda a semana lhe mentindo. Com os olhos e com aqueles sorrisos. Com eles tinha estado dizendo que o fato de estar juntos, de tocar-se como conseqüência dos movimentos de defesa pessoal não lhe afetava o mínimo, que não se sentia inclinada para ele do modo que Daniel o estava para ela.
Que mentirosa.
Daniel lavou a cara com água fria e colocou as duas mãos na pia. Deixou cair à cabeça e terminou por admitir que ele também tinha mentido. A ela e a si mesmo.
Aquilo não podia continuar assim. Não podia seguir aparecendo por sua casa fingindo que queria ser seu amigo e logo inventar-se qualquer desculpa para tocá-la, para beijá-la. Porque ela se derretia como o fogo entre seus braços. Porque sua boca lhe entregava com doçura, com luxúria. Porque o olhava com aqueles olhos de bebê desamparado lhe suplicando que a levasse a cama. 
E isso era exatamente o que ele desejava fazer.
-Muito bem, isto é um esquentamento. E o que? – Perguntou a seu reflexo.
Soou o telefone. Considerou a possibilidade de deixar que atendesse a secretária eletrônica, mas ao final entrou no dormitório e respondeu.
- Barone - disse com um grunhido.
- Daniel?
- Ash? É você?
- Se estiver de tão mau humor, não.
- Vá, sinto muito, encontrou-me... Preocupado - desculpou - se Daniel -. Onde está?
- Em Boston.
- De verdade?
- Não brincaria com uma coisa assim, Daniel.
Daniel sorriu. Não. O xeque Ashraf Saalem, príncipe do Zhamyr, não brincaria com uma coisa assim.
Conheceram-se vários anos atrás em uma estação de esqui de Andorra, nos Pirineos. Ash estava de férias, e Daniel passava por ali caminho de não recordava onde e Andorra lhe tinha parecido um bom lugar para deter-se. Em seguida tinha combinado com aquele consultor financeiro. Ash e ele não só tinham forjado uma amizade à sombra dos conhaques no refúgio, mas também além aquilo tinha sido o começo de uma bem-sucedida relação comercial.
Depois de comprovar que Ash era quem dizia ser, Daniel tinha entregado uma pequena quantidade da herança que tinha recebido de seu avô, e Ash lhe tinha tirado um grande benefício. Durante os últimos cinco anos, Daniel tinha entregado gradualmente a Ash todo seu patrimônio para que ele o administrasse.
- E o que te traz pelos Estados Unidos?
- Um pouco de tudo, mas sobre tudo assuntos de negócios. Faz muito tempo que não nos vemos, amigo.
- Muito - reconheceu Daniel.
- Tem um espaço livre esta semana?
- Me diga um lugar e ali estarei.
- Encontramos amanhã para comer?
Depois de concretizar o encontro, Ash desligou o telefone. Daniel esteve pensando em seu amigo durante todo o dia. Ao menos durante o momento que não pensava na Phoebe.
Como tinha permitido que a situação saísse de suas mãos daquele modo? Como tinha conseguido convencer-se de que Phoebe não o olhava com o mesmo desejo devorador que consumia a ele?
À manhã seguinte, enquanto tomava banho para ir à entrevista com Ash, Daniel se perguntou se seria muito terrível deixar-se levar e manter uma relação física com a Phoebe. Depois de tudo ela era uma adulta e podia compreender perfeitamente que por muito especial que fosse a história que pudessem chegar a viver não se trataria de uma relação no sentido tradicional da palavra. Ao menos, não de uma relação a longo prazo.
Por que não podiam ter bons momentos enquanto durasse?
Ele sabia que poderia desfrutar ao máximo até que chegasse o momento de deixá-lo.
Daniel torceu o gesto. O de partir era a parte complicada do assunto. Mas poderia fazê-lo. Sem problemas. Que ele sentiria falta dela? Sem dúvida. Phoebe era doce, divertida, sensual e amável. E educada. E havia momentos em que a olhava aos olhos e desejaria perder-se neles para sempre.
Daniel saiu da ducha, agarrou uma toalha e se secou. Para sempre. Aquelas palavras era o problema.
Jogou a toalha sobre a cama e abriu o armário do dormitório. Tirou uma cueca, os pôs, e se sentou na beirada da cama para vestir meias três - quartos.
Para sempre. Tudo estava relacionado com aquele término. Phoebe o merecia e ele não podia dar-lhe Se Daniel começava algo com ela, algo que ambos desejavam, a faria mal ao partir.
E isso o levava de volta ao princípio. Não poderia ter uma aventura com ela, por muito tórrida e apaixonada que pudesse chegar a resultar. Mas tampouco podia partir sem mais e deixá-la a mercê de Jason Collins.
Seguia lhe dando voltas na cabeça ao assunto quando se encontrou com o Ash no Ritz. O xeque avançou para sua mesa e todas as cabeças femininas se giraram para vê-lo. Nesse momento, uma idéia começou a tomar forma na mente do Daniel.
A última vez que tinha falado com seu amigo este lhe tinha confessado que tinha vontade de sentar a cabeça. Queria tudo o que Daniel rechaçava. Ash desejava casar-se, formar uma família. Queria uma mulher que o olhasse como se ele fosse o mais importante do mundo.
Phoebe olhava para Daniel daquela forma. Já o fazia dano aquele olhar, em boa parte porque ia dirigida ao homem equivocado. 
Durante toda a comida, enquanto Ash e ele ficavam ao dia, falavam um pouco de negócios e brincavam uma idéia lhe seguia rondando pela cabeça. Não podia deixar de pensar nisso, e quando a comida terminou Daniel já tinha decidido o que tinha que fazer. Ele não era o homem adequado para a Phoebe, mas, talvez Ash sim. Era muito atrativo, tinha carisma e queria uma esposa. Além disso, Ash faria realidade todas às fantasias românticas da Phoebe.
- Como ia dizendo - disse Daniel cruzando os tornozelos-, na quarta-feira de noite há uma festa em casa de meus pais.
Tinha-lhe contado ao Ash a repentina aparição de sua desconhecida prima, Karen Rawlins, e a festa em sua honra que foram celebrar para lhe dar a bem-vinda à família.
- Por que não vem? Já conhece meus pais, a meu irmão e a minhas irmãs, mas eu gostaria de te apresentar ao resto da família. E quero que conheça uma amiga.
-Uma amiga? - Perguntou Ash com curiosidade arqueando uma sobrancelha.
- Phoebe - disse sentindo uma leve opressão no peito ao pronunciar seu nome-. Phoebe Richards. Vou chamá-la para que também vá. E você gostará. Você gostará muito.
E então começou a lhe falar dela. De seu sorriso e seu fino senso de humor. De sua incapacidade para dar-se conta de sua formosura. De que era a companheira perfeita para um homem que estivesse pensando em casar-se.
Ash o olhava em silencio sem pestanejar. Parecia interessado. E isso era estupendo.
Isso era simplesmente estupendo, pensou Daniel, com uma careta de desgosto, no dia seguinte enquanto marcava o número de telefone da Phoebe.
Depois da «falsa entrevista» da sexta-feira de noite, Phoebe tinha passado todo o fim de semana esperando uma chamada telefônica do Daniel. Sabia que era absurdo, mas não pôde evitá-lo. Há lições que se demora bastante tempo em aprender.
Tinha chorado e gemido e tinha tirado sua frustração dirigindo o torno de oleiro. Não haveria suficientes flores em Boston para encher todos os vasos que fez. Sabia que Leslie se deu conta de seu mau humor na segunda-feira pela manhã, mas, não lhe tinha perguntada nada, lhe dando a entender que se Phoebe queria contar-lhe já o faria.
Quando soou o telefone na segunda-feira à noite tinha renunciado à possibilidade de que Daniel Barone estivesse ao outro lado.
«Que alguém me belisque», pensou Phoebe quando se viu ao lado do Daniel na quarta-feira de noite no imenso salão da casa de seus pais. Ainda não podia acreditar-se que estivesse ali como a acompanhante de Daniel, conhecendo sua família. Como era possível que aquela menina de doze anos gordinha e tímida que tinha crescido em um bairro marginal de Boston tivesse terminado acotovelando-se com o mais amadurecido da cidade?
Alegrava-se de teroptado pela sempre elegante cor negra. Tinha encontrado o vestido depois de uma busca frenética em uma loja de roupas de segunda mão, na qual, a elite de Boston mandava as roupas usadas uma vez, para estas morressem com dignidade e assim deixar espaço em seu armário para mais roupas de marca que utilizariam uma só vez e assim sucessivamente. O vestido negro sem mangas que tinha comprado e que lhe cobria justo por cima do joelho lhe havia custado mais do que ganhava no mês, e mesmo assim tinha constituído uma boa dentada em seu orçamento.
Mas havia valido a pena. Ao menos levianamente Phoebe sentia que encaixava naquele salão repleto de mulheres Barone, famosas por sua elegância. Todas eram muito bonitas e pareciam sentir-se em seu ambiente. Todas à exceção possivelmente da Karen Rawlins, a convidada de honra. Não havia dúvida de que era uma beleza, mas Phoebe estava convencida de que não se encontrava a bem.
Daniel a tinha apresentado assim que chegaram. Phoebe havia sentido imediatamente simpatia por aquela mulher tão bonita de olhos de cervo e cabelo castanho ondulado. Parecia um pouco aflita. Phoebe se alegrou ao comprovar que Karen e Maria, a prima do Daniel, pareceram combinar estupendamente. Inclusive escutou que Maria oferecia a Karen seu antigo apartamento e um emprego na sorveteria Baronessa.
Sim, os Barone era um clã muito irrequieto, mas Maria acabava de demonstrar que também eram quentes e afetivos. Ao menos todos pareciam estar muito unidos, à exceção do irmão gêmeo do Daniel, Derrick quem, para desgosto de sua mãe, nem sequer se tinha apresentado na festa.
Phoebe tinha conhecido a uma das irmãs do Daniel, Emily, a que ele se referia com afeto, igual a quando falava da Claudia. Mas quando surgia o nome de seu irmão ficava tenso. Derrick era um assunto do que Daniel preferia não falar.
Mas aquela noite parecia ser o tema de conversação de todo o mundo. Phoebe não tinha intenção de escutar as conversações alheias, mas tinha resultado impossível não captar alguns fragmentos. Falava-se muito do por que Derrick não tinha aparecido e do estranho comportamento que tinha ultimamente. Ao parecer, foi-se fazendo cada vez mais anti-social.
Phoebe observou ao homem que tinha ao lado enquanto a seu redor um punhado do Barone falava de meninos e de trabalho e riam. Tinha tratado de não pensar nisso, mas Daniel também estava um pouco afastado e pensativo aquela noite. Não parecia ele mesmo. Estava mais calado do habitual, como se estivesse tratando de manter a distância com ela.
- Há dito maldição? - Perguntou Phoebe de repente, ao escutar algo que havia dito Nicholas, o primo do Daniel.
- Não te contou Daniel da maldição de São Valentin? - Sentiu saudades Gail, a mulher do Nicholas, fingindo um estremecimento de terror.
- Não é nada - interveio Daniel sacudindo a cabeça-. Trata-se só de uma velha lenda familiar. Quando nosso avô Marco era jovem trabalhou de garçom no restaurante do Antonio Conti da Rua Prince. Ao parecer, Antonio esperava que Marco se casasse algum dia com sua filha Lucia.
- Mas as coisas não saíram assim - assegurou Nicholas. 
- Marco se apaixonou pela Angélica Salvo, a cozinheira do restaurante, que, além disso, era a noiva do filho dos Conti, Vincent - continuou explicando Gail.
- Já vou entendendo - assegurou Phoebe com uma careta.
- Resumindo: Marco e Angélica fugiram para casar-se em segredo o dia de São Valentin - recordou Daniel-. A Lucia lhe rompeu o coração e Vincent, que via Marco como a um irmão, sentiu-se traído. Toda a família se sentiu traída. E Lucia, em um momento de ira, lançou-lhes uma maldição para que todos seus aniversários de bodas fossem malignos.
- E aconteceu algo a seus avós? - Perguntou Phoebe, fascinada com a história.
- Bom, criaram Sorvetes Baronessa - respondeu Daniel encolhendo-se de ombros-. Não se pode dizer que fossem mal.
- Mas Angélica perdeu a seu primeiro filho em seu primeiro aniversário de bodas, e por isso começaram a tomar-se a sério a maldição - recordou Nicholas-. A partir de então ocorreram coisas sem importância nessa data, nada terrível até que nasceu o pai do Daniel.
- OH, Meu deus - disse então Phoebe, suspeitando que tivesse adivinhado como seguia a história-. O irmão gêmeo de seu pai, Luke, foi...
- Seqüestrado o dia de São Valentin. Exatamente.
- Que triste.
- O mais triste é que após há uma absurda rivalidade entre os Barone e os Conti por culpa dessa estúpida maldição.
- O que foi da Lucia e Vincent?
- Vincent se casou e se fez cargo do restaurante dos Conti - explicou Nicholas-. Lucia nunca se casou. Não recordo quem me contou isso, mas alguém me disse que a última vez que a viu parecia uma bruxa amargurada.
- Sinto interromper, mas acabo de ver alguém a quem devemos saudar - desculpou-se Gail com um sorriso-. Prazer em conhecê-lo, Phoebe. Diga ao Daniel que te traga mais freqüentemente para que nos conheçamos melhor.
- Eu... Eu adoraria - respondeu Phoebe com um sorriso, que se desvaneceu imediatamente ao comprovar a expressão séria do Daniel.
- Acabou sua champanha - disse ele - Irei ver se te encontro outra taça.
Ao vê-lo afastar-se, Phoebe se perguntou por que se sentiria tão incômodo com a idéia de fazer planos para um futuro próximo. Talvez Daniel estivesse arrependido de haver apresentado a sua família. E talvez ela se precipitou ao pensar que estava ali em qualidade de outra coisa que não fosse como amiga.
Mas seguro que o fato de estar ali significava algo. Por exemplo, que ele já não queria conformar-se com que seguissem sendo só amigos. Quando o viu retornar com duas taças de champanha na mão, Phoebe desejou acreditar aquilo com toda sua alma. Estava muito bonito com seu smoking e sua gravata negra de laço.
- Sinto ter demorado tanto - desculpou-se lhe trocando a taça vazia por uma nova -. Quero te apresentar a alguém, Phoebe. Este é o xeque Ashraf Saalem, príncipe do Zhamyr. Ash, esta é a amiga da que te falei, Phoebe Richards.
Phoebe levantou a vista para aquele rosto que parecia tirado de um relato das mil e uma noites. O xeque Ashraf Saalem era um dos homens mais exoticamente atrativos que tinha visto em sua vida.
Tinha os olhos tão escuros que pareciam ser da cor negra - de seu cabelo e um sorriso cálido e amável. Era um pouco mais alto que Daniel e, apesar de seu traje formal, estava claro que cada centímetro de seu corpo era puro músculo.
- Senhorita Richards, é um prazer conhecê-la - disse o xeque lhe beijando levemente o dorso da mão.
- O prazer é meu - respondeu ela, orgulhosa de ter respondido sem titubear.
Ao parecer, sua gagueira estava diretamente relacionada com suas respostas a Daniel.
- Bom, os deixarei para que se conheçam um pouco melhor - disse Daniel com um sorriso forçado, antes de dar a volta e partir.
Phoebe piscou, abriu a boca para detê-lo e se deu conta de que não sabia o que dizer. E, entretanto, o estômago lhe pôs ao reverso ao dar-se conta do que tinha passado.
Daniel as tinha engenhado para deixá-la a sós com o xeque. Suas intenções eram óbvias. Queria uni-los.
Phoebe sentiu como lhe ardiam as bochechas. Envergonhada, cravou a vista no chão e permaneceu assim. Algo com tal de não ver Daniel partir. Algo com tal de que o xeque não se desse conta da humilhação e a dor que devia ter escritos na cara como um anúncio luminoso.
Daniel não a tinha levado ali para lhe apresentar a sua família. Nunca tinha pretendido que pensasse que estavam saindo. Tinha-a levado ali para uni-la com seu amigo. Porque depois de tudo, pensou amargamente, sentindo-se humilhada, para o Daniel não era mais que uma amiga.
Aquela verdade indisputável lhe doeu no peito como um golpe doloroso.
Tinha que sair dali.
Tinha que sair dali agora.
Capítulo Oito
- Phoebe? Senhorita Richards?
Phoebe escutou a voz do Ashraf através de uma nebulosa dor que se transformou rapidamente em raiva, para ela mesma e para o Daniel. A raiva deixou aparecer finalmente ao orgulho.
- Está bem? - Perguntou-lheo xeque lhe tocando brandamente o braço.
- Estupendamente - respondeu Phoebe elevando a cabeça e fingindo a mais radiante dos sorrisos-. É que me aflige um pouco pensar que estou falando com um autêntico príncipe. Como tenho que te chamar?
- Só Ash, por favor - assegurou ele -. E te asseguro que sou eu o que se sente afligido. Daniel me disse que era bela, mas sua descrição não te faz justiça.
Phoebe não era bela. Nunca o tinha sido. E não o fazia falta ter estudos de psicologia para dar-se conta de que Ashraf Saalem sabia como adular as mulheres. Nem para dar-se conta de que a tinham deixado plantada em uma entrevista que não era tal.
- É muito amável - respondeu com sorriso forçado.
- E você está completamente apaixonada por meu amigo Daniel.
Se o xeque tivesse estendido um tapete mágico sobre o chão e tivesse saído voando, Phoebe não teria ficado mais surpreendida. 
Assim que lhe notava muito. Phoebe exalou um suspiro, incapaz de negar o que claramente era evidente.
- E acredito que ele também está completamente apaixonado por você.
- Temo que esteja equivocado – respondeu ela deixando escapar uma risada amarga -. Daniel não pôde deixá-lo mais claro. Somos só amigos. Ele quer assim.
- Talvez seja isso o que quer - assegurou Ash sorrindo com amabilidade -, mas eu o conheço. As coisas não são assim. Está perdido por você, Phoebe, mas ainda não se deu conta de que está lutando em uma batalha perdida ao tratar de negar seus sentimentos.
Enquanto ela tratava de assimilar aquele pedaço de sabedoria oral, uma jovem alta e loira ficou a seu lado e enlaçou o braço no do xeque.
- Ash, é um malvado. O que está fazendo a esta mulher que tem a meu irmão apertando a mandíbula e te olhando como se quisesse te assassinar?
A jovem o beijou na bochecha antes que pudesse responder e logo dedicou a Phoebe um sorriso radiante.
- Sou Claudia, a irmã do Daniel. E você deve ser a única mulher que trouxe para casa e a única a que lhe vi olhar como se queria te arrastar do cabelo e fazer contigo o que possa. É fascinante.
- Claudia te apresento Phoebe Richards – disse Ash dedicando um sorriso à irmã de seu amigo-. Daniel acaba de tentar nos unir. 
- Isto fica cada vez melhor - assegurou a jovem com ar pensativo -. Ash, querido, vai dar uma volta por aí. A senhorita Richards e eu temos que falar muito a sério.
- Vou, mas não sem antes dar ao Daniel motivos para pensar - respondeu o xeque com um sorriso.
Para assombro da Phoebe, Ash se inclinou sobre ela e a beijou docemente nos lábios.
- Oh, você o fez! Não posso acreditar isso! - falou Claudia com alvoroço-. Nunca vi Daniel ficar tão vermelho.
- E, melhorando o presente, acredito que alguma vez vi a uma mulher tão formosa em minha vida - assegurou o xeque cravando a vista em algum ponto mais à frente do campo de visão da Phoebe - Quem é?
- É Karen - respondeu Claudia olhando em sua mesma direção -. Nossa convidada de honra.
Ainda confundida pelo beijo do Ashraf e as conclusões que tinham tirado respeito do Daniel, Phoebe escutou pela metade a Claudia contar a história da Karen.
- Estamos encantados de que esteja a formar parte da família - acrescentou Claudia-. E sim, é preciosa.
Era evidente que o xeque se deu conta, porque já ia de caminho para a improvisada linha que os Barone tinham formado para saudar com dois beijos ao novo membro da família.
Entretanto, Ash não acreditava em semelhantes demonstrações de boa-vinda. Claudia e Phoebe soltaram uma gargalhada quando o viram saltar fila, sujeitar a Karen pelos ombros com suas mãos grandes e atraí-la para si. Estava claro que os beijos de compromisso nas bochechas não estavam feitos para aquele homem. Sussurrou - algo a Karen ao ouvido que obrigou a jovem a sorrir surpreendida e logo lhe cobriu a boca com a sua.
- Eu adoro os homens que sabem o que querem e vão por isso - murmurou Claudia antes de voltar-se para a Phoebe-. O que nos leva ao tema de meu irmão, um homem supostamente inteligente que certamente não sabe o que quer, ou ao menos não sabe como consegui-lo.
Uma hora mais tarde, Phoebe estava sentada no assento do passageiro do Porsche de Daniel a caminho de sua casa depois da festa. Ele não tinha muito que dizer, e ela tampouco. Mas era o normal, tendo em conta que tinha passado da humilhação ao assombro em uma só noite.
Primeiro tinha sido o encontro do Daniel e logo não. Logo tinha sido o encontro do xeque e logo não. E ao final tinha sido a resposta às preces de uma irmã que rogava porque seu irmão encontrasse uma mulher, tal como Claudia lhe tinha confessado.
Phoebe olhou de esguelha o perfil perfeito do Daniel enquanto ele conduzia o carro pela cidade. Seria isso possível? Poderia ser ela a mulher adequada para o Daniel Barone? E, de sê-lo, teria o que fazia falta ter, segundo Claudia?
- Seduza-o, Phoebe - tinha-lhe aconselhado sua irmã -. Conheço Daniel e estou convencida de que se ele colocou na cabeça que não pode te amar e logo vai partir. O que não sabe é que não partirá. Esta vez não. Entende o que trato de te dizer?
Não, Phoebe não o entendia. Todo aquele assunto lhe seguia parecendo absolutamente fora de seu alcance.
- Daniel sempre foi um menino mimado - continuou dizendo Claudia, ao observar sua expressão de desconcerto -. Foi o gêmeo preparado, o bonito, o esportista. Os homens o admiram e querem ser como ele, as mulheres e os cães o adoram. A vida lhe sorriu sempre. Imagina a pressão que isso significa para um homem? Todo mundo espera dele que seja o melhor, que o faça tudo bem. E, além disso, é consciente de que seu irmão passou a vida a sua sombra.
Fascinada, Phoebe se limitou simplesmente a escutar a Claudia falar com carinho e preocupação sobre o Daniel.
- Uma vez me confessou que desejava que Derrick tivesse sido o atrativo e o inteligente. Sente-se culpado pelo fato de que para ele tudo tenha sido tão fácil e para o Derrick tão complicado. Acredito que essa foi à razão pela qual partiu daqui assim que terminou a universidade. Nunca o reconheceu, mas acredito que Daniel confiava em que se ele decepcionava a papai e a mamãe, talvez Derrick tivesse sua oportunidade. E talvez desse modo eles se dessem melhor. Sempre lhe doeu muito a animosidade que Derrick sente para ele.
Phoebe tinha ficado de pedra ante as revelações da Claudia. Estava comovida, e se sentia uma egoísta e uma imatura por não haver-se dado conta de que o Daniel do sorriso encantador e os olhos amáveis tinha também seus próprios fantasmas.
Os fantasmas da Phoebe eram mais visíveis. Sem ir mais longe, Jason e uma mãe alcoólatra. Mas os do Daniel tampouco eram para menosprezá-los.
- Conheço meu irmão e sei que está louco por você - tinha insistido Claudia antes de soltar uma gargalhada -. Ajuda-o, pelo amor de Deus. Ajuda a esse pobre louco.
Phoebe tinha começado seriamente a pensar na possibilidade de que pudesse haver algo de verdade nas palavras da Claudia.
Mas, era ela suficientemente mulher? Perguntou-se quando entraram na sua rua. Seria capaz de seduzi-lo, tal e como lhe tinha aconselhado Claudia, ou era muito covarde para ir depois do homem de seus sonhos?
Phoebe decidiu que se faria forte por ele. Seria valente por ele. Daniel não precisava pôr uma covarde em sua vida. Necessitava fortaleza, a fortaleza de Phoebe, e ela não encontraria nunca uma oportunidade como aquela para demonstrar que a tinha.
- Que demônios...? - Murmurou Daniel inclinando-se para frente para olhar pelo pára-brisa quando se aproximaram de casa da Phoebe.
Ela seguiu a direção de seu olhar e engoliu seco.
Na entrada de sua casa havia um carro de polícia e outro parado em frente. Havia luzes por toda parte.
- Arthur! - Gritou Phoebe quando Daniel estacionou detrás da patrulha e se deu conta de que a porta principal estava aberta -. Por favor, que não lhe tenha acontecido nada com Arthur!
- Fique aqui - ordenou-lhe Daniel abrindo a porta.
Mas Phoebe já tinha saído do carro e corriapela calçada. Daniel conseguiu alcançá-la, passou-lhe a mão pela cintura e a atraiu para si.
- O que fazem vocês aqui? - Perguntou-lhes um agente de uniforme, lhes impedindo a entrada.
- Eu moro aqui - exclamou Phoebe -. Arthur. Tenho que encontrar Arthur.
- É seu gato - explicou Daniel.
- Está a salvo. A última vez que o vi estava escondido debaixo de uma cama.
Phoebe levou a mão ao peito e soltou um profundo suspiro de alívio.
- O que ocorreu? - Perguntou Daniel sem soltá-la.
- Ainda não estamos muito seguros. Recebemos uma chamada de um vizinho dizendo que tinha visto por aqui rondando a alguém de aspecto suspeito. Viemos dar uma olhada, mas já não há ninguém. Senhora, você poderia entrar em sua casa, dar uma olhada e nos dizer se falta algo?
- Não faltará nada - assegurou Daniel com voz dura -. Esse filho de um cadela só quer assustá-la.
- Sabe de quem se trata? - Perguntou o agente elevando uma sobrancelha.
- É obvio - respondeu Daniel com voz tirante-. Chama-se Jason Collins, e a senhorita quer solicitar uma ordem de afastamento contra ele.
Uma hora e meia mais tarde aproximadamente, a polícia partiu sem ditar a ordem de afastamento. Espremendo Arthur contra seu peito, Phoebe fechou a porta atrás deles.
- Acredita que encontrarão alguma pista? - Perguntou com aspecto e voz de estar esgotada.
- Sinceramente, não. Há de esconder as costas - assegurou Daniel-. Não há rastros e seguro que não te falta nada. O que pretendia era te fazer saber que pode chegar a você quando quiser, e o conseguiu.
Daniel ficou em pé com a gravata de laço desabotoada e as mãos metidas nos bolsos. Não se sentia com ânimo de tocá-la naquele momento. Tinha tanta raiva por dentro de Jason Collins e se sentia tão frustrado pelas limitações da lei que temia fazer algum mal em apenas abraçá-la.
Entendia que não era possível ditar uma ordem de afastamento contra Collins. Não havia nenhuma prova de que tivesse sido ele quem tinha entrado na casa. A isso teria que acrescentar que Phoebe não tinha denunciado nunca antes a polícia as outras ocasiões em que a tinha atacado e nem a vez que lhe agrediu, por isso não existia base legal para ditar uma ordem.
Assim racionalmente Daniel o compreendia, mas isso não acalmava sua raiva.
- Vamos - disse então - Esta noite fica em minha casa.
 Phoebe levantou a vista e pareceu considerar a possibilidade e então Daniel viu refletido em seu rosto algo que não tinha visto até então. Raiva. Desafio.
- Não - assegurou com convicção, negando com a cabeça - Até aqui cheguei. Não vou permitir que me siga atemorizando. Não vai conseguir que saia fugindo de minha própria casa. Não vou permitir. 
Daniel observou aquele rosto que tanto lhe fascinava. Tremia os lábios ligeiramente entreabertos e em seus olhos apareciam à fadiga e o estresse embora tivesse o olhar arrogante, as costas reta e a cabeça bem alta.
Sua pequena ave se transformou em uma águia ante seus olhos. O que sentiu Daniel ante aquilo ia pra lá do orgulho: estava tão excitado que era doído até respirar. 
- Então dormirei eu em seu sofá - assegurou fazendo um esforço para conter sua libido - Porque de maneira nenhuma penso em te deixar aqui sozinha 
Sem perder em nenhum momento a compostura, Daniel tirou a jaqueta, sentou-se no sofá e tirou os sapatos.
- Se me der uma manta, o assunto está resolvido.
Estava tirando já as meias três-quartos quando o prolongado silêncio de Phoebe o obrigou a levantar a vista.
Ela entrecerrou os olhos, deixou Arthur sobre uma cadeira de balanço e foi para ele com passo decidido.
- Não vai dormir no sofá. Vai dormir comigo.
Não havia nenhuma dúvida a respeito de suas intenções. O tom de voz e o convite que havia em seus olhos o deixavam muito claro. Daniel obrigou a si mesmo a ficar de pé, reuniu forças da fraqueza e se dispôs a ser a voz da razão.
Mas, então, Phoebe se colocou justo diante dele, ocupando todo seu campo de visão com seus olhos cor âmbar com brilhos dourados, alagando seus sentidos com seu aroma de mulher, com a pálida pele que aparecia sob o pescoço do vestido, com os suaves seios redondos que se acomodavam sob o tecido.
Daniel engoliu sua saliva, sacudiu a cabeça e se esforçou por manter a calma enquanto o coração ameaçava saindo do peito ao imaginá-la nua, cálida e impaciente debaixo dele.
- Não - assegurou com voz grave-. Isto não pode acontecer.
Não poderia ser. E era ele quem tinha que assegurar-se de que não acontecesse nada entre eles.
- Escuta Phoebe: Tem a adrenalina a flor de pele. Isso é o que te faz pensar e falar neste momento.
Ela se aproximou tanto que o calor de sua respiração lhe roçou a mandíbula. Aproximou-se tanto que a suavidade de seus seios lhe roçou o peito, obrigando-o a gemer.
- Então é a minha adrenalina que fala por mim, não é?
Daniel tragou saliva e assentiu com a cabeça, porque tinha perdido naquele momento a capacidade de falar.
- Me diga - sussurrou Phoebe lhe percorrendo brandamente o peito com as mãos por cima da camisa-. E o que ela está te dizendo exatamente?
- Phoebe... - Protestou ele duro como uma pedra, enquanto a sujeitava as mãos, fazendo o impossível por resistir - Por favor, não...
-Sshh - murmurou ela sobre seu pescoço antes de percorrer-lhe sensualmente com o nariz-. Escuta. Escuta o que ela está te dizendo.
Daniel escutava. É obvio que escutava. Mas é obvio, não ouvia nada. O pouco sangue que não tinha ido a sua entre perna tinha subido até as orelhas e ali lhe pulsava como um batalhão de tambores. E, entretanto, não para ele escutar o que lhe havia dito para entender claramente a mensagem. Ela queria o mesmo que ele. E ele a queria com toda sua alma
Nunca se tinha considerado um homem débil, mas, ao ter Phoebe apertada contra ele com os lábios entreabertos e o calor de sua respiração lhe chegando à mandíbula, sentia-se tão fraco como Sansão depois de que Dalila cortou o seu cabelo.
Aquilo era muito para sua força de vontade. Nem sequer se incomodou em inventar outro argumento.
- Me diga que não vai se arrepender depois – pediu ele lhe soltando as mãos e atraindo-a para si.
- Espera um segundo - atreveu-se a brincar Phoebe, segura de sua vitória -, me deixe consultar com minha adrenalina.
Então deslizou as mãos por seu peito e subiu depois pelo pescoço até lhe cobrir o queixo.
- Boas notícias - sussurrou a um centímetro de sua boca-. Meus hormônios e eu estamos pelo trabalho.
- Alegra-me saber que ao menos alguém aqui controla seus hormônios - respondeu Daniel exalando um suspiro-. Está me deixando louco.
- Não quero que fique louco.
Uma das delicadas mãos da Phoebe viajou indolentemente por seu peito para baixo, além de seu ventre, até cobrir a dureza que se apertava contra sua braguilha.
- O que quero é te ter dentro de mim.
- Bem - sussurrou Daniel com muita dificuldade-. Então, tem um problema de tempo.
Rodeou-lhe o pescoço com os braços e passou a ponta da língua pela parte exterior da orelha.
- Se você continuar assim acabará acontecendo tudo sem a comodidade de uma cama.
- E isso é mau? - Sussurrou Phoebe lhe mordiscando o lóbulo.
- Claro que é mau - respondeu ele sem poder reprimir um calafrio -. Porque assim que se dispa vou deixá-la assim durante muito tempo. E desejará ter sob as costas um colchão e não uma parede.
- Então vem - disse Phoebe, detendo o curso de sua boca-. Acredito que mudei de opinião.
Daniel não tinha estado antes em seu dormitório. E não se fixou tampouco muito nele. Só tinha olhos para ela. Ela era a única coisa que desejava. Tinha a sensação de desejá-la sempre.
Deixou-a no chão ao lado da cama e procurou o interruptor do abajur da mesinha de cabeceira.
- Quero te ver - confessou Daniel tomando sua mão ao dar-se conta de que ela recuperava seu habitual acanhamento-. Morro de vontade de te ver faz tempo.
- Também quando tentava me unir com o Ash?
Daniel deslizou as mãos em carícia exploradora por seus quadris até a cintura e lhe percorreuas costas. Seus dedos encontraram o zíper e o baixou lentamente.
- Sobre tudo quando tentei te unir com o Ash. Tive vontade de matá-lo a golpes quando a beijou.
O zíper se baixou sem fazer ruído por suas costas e se deteve ao chegar no traseiro Daniel afundou a cara em seu ventre, sentiu seu calor através do tecido negro, sentiu o ligeiro tremor dos músculos da Phoebe contra seus lábios.
- E... E se você se decepcionar com o que vê?
- Tem escamas de peixe no traseiro? - Perguntou ele muito sério, inclinando a cabeça.
- A última vez que olhei, não - respondeu Phoebe com um sorriso.
- Então, não me decepcionarei.
Um novo e delicioso estremecimento lhe percorreu o corpo enquanto Daniel introduzia os dedos na abertura do vestido e o baixava.
O tecido do vestido se deslizou pela sua pele de seda e caiu a seus pés. Um suspiro delicado surgiu dos lábios entreabertos da Phoebe. Daniel levantou a vista e a cravou na generosidade daqueles peitos que virtualmente se saíam do sutiã de encaixe negro. Ela fechou os olhos quando os dedos do Daniel encontraram o fechamento e o abriram.
Seus peitos se liberaram. Quentes, generosos, e muito maiores do que ele tinha imaginado. Os mamilos da Phoebe ficaram duros quando ele os cobriu, elevou-os e deslizou os polegares por aquelas aréolas rosadas tão delicadas e tão extremamente femininas que Daniel sentiu desejos de chorar.
- Preciosa - murmurou.
Outro calafrio. Outro suspiro agitado.
E Daniel estava perdido.
Deitou-a brandamente sobre a cama e ele se colocou apoiado sobre um cotovelo para poder acariciá-la sem deixar de olhá-la.
- É preciosa - repetiu inclinando a cabeça para saborear um daqueles montículos pálidos e trementes.
Percorreu-lhe com a língua a coroa de um dos mamilos. Ela se arqueou para recebê-lo e emitiu um gemido lastimoso quando Daniel se afastou, obrigando-o a sorrir enquanto se inclinava em busca de mais. Mas esta vez não se conformou lambendo-a: cobriu-lhe o peito com a mão e o introduziu na boca.
Phoebe parecia ter problemas para respirar e para saber o que fazer com as mãos. Decidiu lhe afundar os dedos no cabelo e lhe atraiu a boca mais perto dela. Quando Daniel deslizou a mão para lhe acariciar o púbis por cima do encaixe da cinta liga, ela pronunciou seu nome com um gemido desesperado.
- Me diga o que quer - disse ele levantando a cabeça antes de afundar-se no outro peito.
- Quero você. Dentro de mim. Agora.
- Tem que aprender a se expressar melhor - assegurou Daniel com uma meia gargalhada.
-E você tem que aprender a não zombar de uma mulher desesperada.
Para sua surpresa, Phoebe se incorporou, empurro-o para trás e lhe passou uma perna entre os quadris em um movimento veloz e incrivelmente bem coordenado.
- Já não te parece tão divertido, verdade? - Perguntou ela com um sorriso, encantada com sua proeza.
Mas sim o era. Divertido, maravilhoso e sensual Daniel soltou outra gargalhada quando começou a lhe desabotoar os botões da camisa e a tirou pelos ombros.
Phoebe era um sonho erótico e selvagem feito realidade em cima dele. Tinha os lábios inchados por seus beijos, os peitos úmidos, livres e rosados nos pontos em que sua barba incipiente havia arranhado sua carne tenra. E era a personificação mesma da mulher quando ficou de joelhos, desabotoou o seu cinto, as calças e... '
- Uau! - Exclamou Daniel lhe sujeitando as mãos antes que fizesse um dano irreparável - Devagar. Seremos os dois mais felizes se tomar com calma.
Sem deixar de olhá-lo aos olhos, Phoebe exalou um suspiro de impaciência e se deteve.
- Faz você - disse tomando o das mãos e guiando-lhe pela barguilha -. Depressa.
A urgência daquela ordem sussurrada esteve a ponto de levá-lo a bordo do abismo, igual ao modo em que o estava olhando. Phoebe tinha os joelhos cravados a cada lado de suas coxas, com os peitos nus subindo e lhe baixando a cada respiração agitada, mordendo-se de desejo o lábio inferior.
Daniel observou sua expressão enquanto baixava lentamente o zíper, levantava os quadris e baixava as calças e a cueca até a altura dos joelhos.
O olhar lhe obscureceu de desejo quando Phoebe cravou os olhos na dureza de sua ereção e logo subiu a vista para ele.
E de repente, Daniel já não teve vontades de seguir jogando.
- Me toque.
Capítulo Nove
Phoebe sentia como se estivesse vivendo uma experiência extra-corporal, com a diferença de que ela não queria sentir-se fora de seu corpo. Por uma vez em sua vida, queria estar dentro dele. Queria que Daniel estivesse dentro dela. A julgar pela expressão de seu rosto, ele também queria o mesmo embora o corpo da Phoebe estivesse muito longe de ser perfeito. A ele não parecia se importar que tivesse os quadris um pouco largos e os peitos muito grandes. Daniel pensava que ela era preciosa.
E o que estava contemplando Phoebe também era precioso.
Ficou de cócoras para vê-lo melhor. As coxas musculosas do Daniel se apertavam contra seu traseiro, e o fogo de seus olhos lhe provocava um calor liquido naquela parte de seu corpo que desejava unir-se a ele quanto antes.
Que um homem tão inteligente, tão interessante e tão incrivelmente sensual pudesse estar assim de excitado por ela parecia quase um milagre.
Mas Daniel era o autêntico milagre. Era tudo o que uma tímida bibliotecária de trinta e tantos anos mais covarde que um camundongo podia sonhar e era dele, embora fosse por uma noite. E ela o desejava de um modo do que certamente se envergonharia pela manhã.
Mas aquela noite não. Aquela noite era uma sereia desejável e desinibida. Aquela noite era uma tigresa. Aquela noite o tinha entre seus braços e o estava deixando louco.
Phoebe deslizou as mãos pela parte interior das coxas até chegar à deliciosa fenda de seu ventre. Sabia onde queria que o acariciasse, mas se fez de boba, percorrendo com os dedos o arbusto de cabelo escuro e encaracolado que lhe cobria o peito.
Elevou a vista. Daniel a estava olhando. Seus olhos azuis estavam tão escuros como o cobalto, e pareciam inclusive perigosos enquanto seu largo peito subia e baixava agitadamente. Dava a impressão de que estivesse utilizando todo seu controle para manter a calma.
- Por favor... - Sussurrou ele molhando-os lábios e fechando os olhos.
Phoebe se sentiu então atravessada por uma onda que a fez inclusive tremer. O desesperado e torturado sussurro que Daniel emitiu não tinha que lhe haver provocado amor, mas assim tinha sido. Definitivamente, era amor.
Por favor.
As lágrimas lhe nublaram a visão. Estava meio apaixonada desde a primeira noite que o viu. Seu cavalheiro andante. Seu caçador de dragões. Que aquele homem tão forte se permitisse a si mesmo ser fraco para ela, que se permitisse lhe suplicar, derrubou a última barreira da Phoebe. Deixou-se levar, feliz, para um amor contra o que tinha lutado desde que o conheceu.
No dia seguinte se daria conta do absurdo de todo aquilo. Mas aquela noite... Quanto o amava aquela noite! 
Com os olhos cravados nos do Daniel deslizou ás mãos para baixo até que seus dedos encontraram o suave ninho de cabelo encaracolado que emoldurava seu sexo, e então o tocou.
Ele fechou os olhos e conteve a respiração.
Phoebe tomou com a mão e se deixou invadir por seu gemido de prazer. Daniel parecia estar forjado com fogo e um desejo duro carregado de paixão.
Por ela
Seus músculos se esticaram sob seu contato e no momento seguinte que Phoebe soube foi que estava outra vez deitada sobre a cama com ele em cima. Sentiu todo o peso do Daniel sobre ela, assumo contra peito e sua ereção aninhada entre suas coxas enquanto ele tirava sua cueca.
Daniel colocou os cotovelos a cada lado de seus ombros e a sujeitou pela cabeça enquanto afundava os dedos em seu cabelo e colocava a boca sobre a dela.
Phoebe nunca havia se sentido tão desejada. Nunca havia sentido tantas coisas.
Abriu as pernas para recebê-lo, entrelaçou-as sobre os quadris do Daniel e o sujeitou. Sentiu o calor, o desejoe a urgência em cada um dos poros de sua pele enquanto uniam as línguas e ele afundava os quadris nos seu com ritmo compassado.
Daniel apartou a boca, aspirou com força o ar e soltou um palavrão.
- Preservativo, por favor - pediu apertando a frente contra a sua enquanto respirava agitadamente - Me diga que tem algo.
- Na gaveta de acima. À esquerda. Depressa. 
Ele rodou sobre ela e abriu a gaveta enquanto Phoebe tirava a calcinha. Quando se girou de novo para olhá-la tinha a mandíbula apertada. Abraçou-a, abriu-lhe as pernas e encontrou um lugar para ele entre seus corpos.
- Merece mais sutileza - desculpou-se enquanto procurava emprego -. Prometo-te que a próxima vez será assim, mas agora...
Phoebe lhe atraiu a boca perto da sua.
- Agora o que quero é que te cale e...
Ficou sem fala e tragou ar quando Daniel colocou um braço detrás de seu joelho e entrou nela.
Voltou a tragar ar quando se retirou para logo voltar a entrar uma e outra vez com um ritmo acelerado e frenético.
Phoebe logo que teve tempo de recuperar o fôlego e catalogar o prazer tão profundo que estava experimentando quando um clímax absolutamente inesperado e entristecedor lhe atravessou o corpo. Chegou ao topo afundando-se em uma maré de sensações tão intensas, que chegou inclusive a assustar-se, porque perdeu o sentido de tudo o que não fosse sentir ao Daniel movendo-se dentro dela.
Em algum momento daquele marasmo no qual não havia lugar para pensar, Phoebe o escutou dizer seu nome, gritar seu nome, e por último gemer seu nome enquanto a investia uma última vez antes de encontrar seu próprio e estremecido alívio.
Quando Daniel foi capaz de voltar a respirar, quando pôde assimilar as palavras em um estado de consciência cognitiva, quando conseguiu convencer seus músculos e a sua cabeça de que teria que sair de cima dela e deixá-la respirar, seguia sem poder mover-se.
Queria ficar exatamente onde estava fundo dentro da Phoebe Richard durante um milênio ou dois. Para então talvez tivesse suficiente dela.
Esperou uns instantes e logo se apoiou com muita dificuldade sobre os cotovelos.
- Vou tirar - sussurrou beijando-a brandamente primeiro em uma pálpebra fechada e logo depois na outra. 
- Sssh - mandou-o calar Phoebe, levantando o dedo indicador e colocando-lhe sobre os lábios-. Não fale. Não diga nada ainda - ordenou-lhe movendo-se sinuosamente debaixo dele -. Deixe-me que cavalgue sobre a onda até estar segura de que terminou.
- E isto foi só a primeira onda – assegurou Daniel mordendo brandamente o dedo dela - A grande é a sétima, assim, imagine todo tempo que teremos para deslizamos sobre ela.
- A sétima? - Perguntou Phoebe abrindo os olhos de par em par.
Daniel assentiu com a cabeça sorrindo e compôs uma careta. Quando lhe devolveu o sorriso outro tipo de onda, esta vez de ternura o atravessou. Naqueles momentos pensou que poderia contemplar seu rosto durante horas e escutar seus sons de prazer durante dias. O fato de pensar em quão gemidos emitiria quando ele a amasse como ela se merecia fez que Daniel desejasse fazer realidade essa imagem assim que fosse humanamente possível.
- Está bem? - Perguntou-lhe inclinando a cabeça para beijar aqueles lábios doces e inchados.
- Perfeitamente - assegurou ela com uma risada alegre.
- Eu, em troca, tenho a sensação de ter avançado o filme a toda pressa com o mando para ver o final e me haver perdido partes boas - disse Daniel tornando-se a um lado para vê-la melhor.
- Partes boas? - Perguntou Phoebe deixando escapar um suspiro -. Vejamos: houve Tecnicolor, foguetes, som estéreo, efeitos especiais... O que outra parte boa poderia haver?
- Bom... - Sussurrou ele lhe cobrindo um seio com a mão e observando com entusiasmo como seu mamilo percebendo de imediato a resposta -. Esta é uma das partes boas. Uma muito boa - assegurou afundando a cabeça para saboreá-la.
Phoebe gemeu levemente de prazer. Daniel lhe cobriu o peito de beijos e começou a descender por aquele ventre adorável, incapaz de resistir a tentação de explorá-lo com a língua.
- E aqui há outra parte boa.. - Sussurrou.
Ela fez o esforço de apoiar-se sobre os cotovelos. Tinha a expressão assombrada e estava tensa e espectador quando ele ficou de joelhos no chão aos pés da cama, agarrou-a pelos quadris e a colocou na borda do colchão. Nesse momento, Phoebe deixou de respirar.
- E esta é a melhor parte de todas.
Daniel escorregou a língua pelo interior de suas coxas em tímida amostra do que estava ainda por saborear. Com o olhar cravado no seu, colocou as pernas da Phoebe ao redor de seus ombros e logo baixou a cabeça, afundou-a naquele arbusto de cachos úmidos e aspirou aquele aroma dela, a ele e à excitação de ambos.
- A melhor de todas - murmurou enquanto seus dedos abriam brandamente a flor de sua feminilidade e saboreava por fim aquele lugar misterioso que a definia como mulher, um lugar sensual, fofo e tão sensível que Phoebe teve que retirar-se assim que ele o roçou.
- Daniel... - Sussurrou ela ofegante
- Sshh.
Ele a mandou calar com uma dentada suave no interior da coxa, lhe acariciando brandamente o ventre com as gemas dos dedos.
E quando os tremores se intensificaram e a respiração de Phoebe se fez mais agitada, Daniel voltou a amá-la de novo. Lentamente esta vez, tomando-se seu tempo, afundando-se em seu prazer, levando-a até o mais alto até que lhe suplicou que lhe concedesse o alívio e gritou entre seus braços quando Daniel o deu.
«Seda», pensou ele quando apagou a luz, acomodaram-se sob os lençóis e a atraiu para si A pele da Phoebe era como a seda. 
Ficou estendido na escuridão sentindo seu corpo apertado contra o seu e a cabeça recostada em seu ombro. E se perguntou onde se colocou e como tinha ocorrido. E soube que quando chegasse o momento seria muito difícil sair dali.
-Sabemos como te fazer falar - disse Leslie ao dia seguinte pela manhã, cravando os cotovelos no escritório da Phoebe, imitando a um valentão -. E agora, mais vale que me diga a verdade se quer retornar com vida a seu povo. Dormiu em sua casa ontem à noite ou não?
- Sim! - Exclamou Phoebe seguindo a brincadeira, como se não agüentasse mais e tivesse que confessar -. Reconheço-o! É isso o que quer saber? Fomos uns meninos muito maus! Satisfeita?
- A pergunta é: você está? - Perguntou Leslie com uma careta, soltando uma gargalhada a que Phoebe não teve mais remédio que corresponder -. Muito bem. Quero saber os detalhes.
- Nem sonhe - respondeu Phoebe reclinando-se na cadeira, feliz -. É muito bonito para compartilhá-lo.
- Tudo bem - comentou Leslie ficando de repente séria e sentando-se sobre a mesa de sua amiga -. Suponho que saberá onde está se colocando, não, carinho?
- Sim - assegurou Phoebe soltando um suspiro-. Sei. Não passa nada.
- Apaixonou-se por ele - deduziu Leslie.
- Sim. Me apaixonei - reconheceu Phoebe, sabendo que não lhe serviria de nada negá-lo-. E vou desfrutar de cada momento disso enquanto dure, já seja um dia, uma semana ou o que queira Daniel que seja. Vou desfrutar dele.
Ficou de pé e se dirigiu a estante para tirar um livro. O silêncio da Leslie era por si mesmo eloqüente.
- Olhe Leslie, não sou tão boba para pensar que ele me ama. Gosta. Muito. Gosta de fazer amor comigo - acrescentou sem poder evitar estremecer-se de prazer -. Mas não me faço ilusões respeito ao futuro.
Não importava o que Claudia e Ash houvessem dito a noite anterior. Aquela manhã de caminho ao trabalho, Phoebe tinha pensado bem a situação e tinha compreendido que Daniel não iria apaixonar-se por ela.
Phoebe rodeou sua mesa, voltou a sentar-se e abraçou o livro contra seu peito.
- Ele gosta de sua vida. E gosta de mim porque ao contrário que sua família, não o pressiono para que mude. Comigo pode ser ele mesmo, o que significa que pode partir assim que sinta a chamada da selva ou a necessidade de descarregar adrenalina escalando uma montanha Por mim tudo bem - assegurou percorrendo o canto do livro com o dedo -.Vou ficar com o tempo que ele me queira dar. Isso me converte em um ser patético? - perguntou encolhendo-se de ombros e respondendo-se a si mesmo -. Não acredito. Acredito que isso me converte em uma valente pela primeira vez em minha vida. Estou cansada de ver a vida passar, Leslie - assegurou olhando a sua amiga aos olhos - Quero vivê-la a fundo. Quero experimentá-la. E quero viver todas as experiências que possa com o Daniel Barone.
- Se ele te deixar é porque é um idiota - respondeu sua amiga com um suspiro.
- Não. É um homem amável, divertido, sensual e sincero. Não seria justo para ele que deixasse de ser quem é. E não seria justo que eu o pedisse.
- Bom, se no final acabar partindo se assegure ao menos de que ele fique sabendo que deixa para atrás o melhor que lhe passou na vida - assegurou Leslie forçando um sorriso.
Daniel permanecia estendido na escuridão, consciente de que Phoebe estava acordada ao seu lado. Era sexta-feira, mais de meia-noite, e estavam em sua cama. As dimensões extras de seu colchão lhes tinham brindado a oportunidade de fazer amor de maneira que não tinha sido possíveis na cama padrão da Phoebe. Também lhes tinha enriquecido a leitura. Antes, enquanto ela olhava um artigo dê uma de suas revistas de ciência, Daniel tinha lido uma cena de amor de uma das novelas românticas que Phoebe sempre levava na bolsa. Não tinha tido mais opção que levar à cama e contribuir seu grão de areia a aquela cena tórrida.
Phoebe estava agora nua, suave e tão cansada como ele. Esgotaram-se um ao outro uma vez mais, assim não entendia por que ela não dormia, embora tivesse muito clara a razão de por que ele estava com os olhos totalmente abertos e era incapaz de descansar.
Tinha chegado o momento de partir. Não tinha nenhuma obrigação que o retivesse em Boston. Então, por que era tão difícil deixar Phoebe?
Ao princípio tinha utilizado a desculpa de que estava preocupado por ela. Mas tinha contratado uma empresa de segurança e sua casa era agora, mas segura que um forte. Daniel tinha ido à delegacia de polícia e lhe tinham prometido que teriam um «pequeno bate-papo» extra-oficial com o Jason Collins. E além a tinha ensinado tudo o que tinha podido para assegurar-se de que seria capaz de defender-se daquele indesejável.
Logo tinha ficado para assistir à festa da Karen. Bom, pois, já tinha passado uma semana desde que se celebrou, justo antes que ele perdesse completamente a cabeça e terminasse na cama de Phoebe.
E agora lhe parecia não ter nunca o suficiente dela. E isso era o que lhe preocupava. Seguia encontrando razões para ficar. Havia uma peça de teatro nova que Phoebe queria ir ver. Logo descobriu que ela nunca tinha ido a uma partida de basquete. E logo tinha chamado Claudia para lhe dizer que tinha entradas de sobra para um concerto no Parque. A Phoebe adorava os concertos no parque, assim é obvio, tinha-a levado.
Sim. Tinha encontrado muitas coisas que fazer com ela, mas, sobre tudo falavam. Adorava falar com ela. E faziam o amor. Phoebe era incrível, tão aberta e tão disposta na cama, tão generosa... Não tinha perguntado nada sobre o futuro, mas ele tampouco o esperava. Não de Phoebe. Nunca lhe pediria o que não lhe daria. E Daniel não poderia ser nunca o que ela necessitava.
Não podia fazer realmente muito mais além de colocar algumas coisas na mochila sair dali e retomar a vida que gostava no ponto em que a tinha deixado em lugar de ficar ali inventando alguma razão para ficar um pouco mais.
Então Phoebe suspirou a seu lado, e o coração do Daniel deu um tombo ante a possibilidade de que ela pudesse lhe dizer algo, algo que o fizesse mudar de opinião. Algo que lhe desse uma razão para ficar um pouco mais.
Só um pouco mais.
Capítulo Dez
- Está muito pensativa. O que tem na cabeça?
- Acabo de tomar uma decisão - respondeu ela girando-se sobre o travesseiro olhando-o com olhos sonolentos.
«Mantém a calma, Daniel», disse a si mesmo lhe acariciando brandamente o rosto.
- Do que se trata?
- Bom, decidi que a vida não é para vê-la como espectador.
Phoebe olhou o pescoço do Daniel, como se tratasse de pensar em como explicar a frase.
- Minha mãe é uma alcoólatra - assegurou olhando-o de novo aos olhos depois de exalar um suspiro - Quando eu era pequena, podia ser às vezes carinhosa e boa, mas a maior parte do tempo se comportava de maneira cruel comigo. Não – disse acariciando a mandíbula do Daniel-. Não me olhe assim.
Daniel era consciente de como a estava olhando. Sentia raiva e lástima, e desejava ter podido estar ali para ajudá-la quando Phoebe teve que viver aquele inferno.
- Não estou contando isto para despertar sua compaixão. Só quero que compreenda que aprendi rápido a me esconder desaparecendo. Como defesa esteve muito bem, mas ainda arrasto as conseqüências. Por isso tenho tendência a observar das sombras. Sou muito covarde para sair e atuar. Me deixe acabar - pediu-lhe lhe colocando três dedos sobre os lábios quando Daniel ia intervir -. Limitei-me a ser uma espectadora. Em troca você... Como eu gostaria de me parecer contigo! É tão valente, Daniel... Não tem medo de enfrentar a seus medos e vencê-los
Daniel lhe beijou as pontas dos dedos e tomou a mão entre as suas. Não sabia o que dizer. Não se considerava um valente, mas sim um egoísta. Fazia as coisas que fazia porque eram divertidas e porque não tinha ataduras nem compromissos que o impedissem.
- Em troca eu... Vamos, que ver como explora a bolsa de pipocas no microondas é o mais excitante que tenho feito em minha vida - assegurou Phoebe apoiando a cabeça no braço dobrado -. Quero romper o molde. Estou cansada de mim, de minha vida, e quero fazer algo para mudar. Algo selvagem, algo terrível, algo...
- Algo que te convença de algo que eu já sei sobre ti. Que é capaz de fazer muitas mais coisas das que faz - interrompeu-a Daniel com amabilidade.
- Sim. Exatamente - concluiu ela deitando de novo e olhando ao teto -. Por exemplo, me lançar em pára-quedas poderia ser um bom começo.
- Pára-quedismo? - Perguntou Daniel divertido, incorporando-se para olhá-la com assombro -. Está segura?
- É obvio que não estou segura, mas isso é exatamente o que necessito. Não me ocorre pensar em algo que me aterrorize mais.
Ele a observou com renovado interesse, e decidiu naquele momento que o faria por ela. Asseguraria de que Phoebe se demonstrasse a si mesma o quão valente era em realidade.
- De acordo - disse Daniel prometendo a si mesmo que não a deixaria tornar-se atrás - Tenho um amigo nos subúrbios que tem uma escola de pára-quedismo. Eu tirei ali o título. Arrumá-lo tudo. O que te parece este fim de semana?
- Este fim de semana? - Perguntou ela com um calafrio.
- Vamos pular juntos a primeira vez – a tranqüilizou Daniel abraçando-a -. Eu estarei a seu lado todo o momento.
Conseguiu com suas carícias apartar a mente da Phoebe do medo. E ele deixou de lhe dar voltas à idéia de partir. Phoebe acabava de lhe dar uma razão para ficar um pouco mais. «Só um pouco mais», prometeu-se para seus pensamentos, enquanto ela se colocava em cima dele e entrava profundamente em seu corpo.
Dois dias mais tarde Phoebe seguia com a adrenalina pelos ares. Deixou Daniel na cama e se meteu na ducha. Depois de pôr a cafeteira no fogo se dirigiu para seu torno de oleiro
No dia anterior tinha sido uma loucura, e a noite ainda mais. O seu primeiro salto em pára-quedas acompanhada do Daniel lhe seguiu outro e logo outro. Nunca em toda sua vida tinha experimentado semelhante sensação de liberdade. Não era capaz de expressá-lo com palavras. Quando retornaram a Boston, sentia-se ainda como flutuando. E aquela sensação não fez mais que aumentar quando de noite aterrissaram em sua cama.
De repente sua vida era como a das novelas românticas, e Phoebe queria desfrutar ao máximo de cada momento.
Acabava de pôr as mãos no torno quando escutou ranger as escadas sob o peso dos passos do Daniel.
Sentiu um estremecimento de prazer. Como era possível quevoltasse a desejá-lo depois de ter passado a noite entre seus braços, tremendo e suando? Talvez porque agora era uma pessoa distinta a que era antes que Daniel irrompesse em sua vida e a resgatasse não só do Jason, mas também de passar o resto de seus dias imerso em um mundo aborrecido e sem cor.
- Bom dia - disse ele brandamente a suas costas, com voz rouca.
Com apenas escutar aquelas duas palavras, Phoebe soube que ela não era quão única tinha os hormônios alvoroçados aquela manhã.
- Viu esse filme do Demi Moore, Ghost? - Perguntou-lhe sentando-se detrás dela.
Daniel tinha o interior das coxas quente e duro. Colocou seus braços nus e fortes ao redor de seu umbigo, atraiu-a para si e afundou a cabeça em seu pescoço.
Sim, claro que a tinha visto. De fato tinha comprado o torno de oleiro pouco tempo depois de ver aquele filme.
- Não - mentiu reclinando-se para trás para recrear-se na deliciosa sensação de sentir seus braços rodeando-a-. Alguma razão particular pela que deveria havê-la visto?
Phoebe sentiu seu sorriso no canto no que seu pescoço se encontrava com o ombro e soube que Daniel sabia que estava mentindo.
- É que há uma cena em que... Sempre sonhei interpretando-a.
- Bom, eu não sou ninguém para limitar as fantasias de um homem.
Depois disso já não falaram muito, mas se mancharam os dois de argila antes de fazer amor e logo se meteram juntos na ducha para limpar-se mutuamente a argila.
Quando Daniel a deixou em sua casa na segunda-feira a primeira hora, depois de despedir-se com um beijo apaixonado Phoebe foi incapaz de recordar como era sua vida antes de conhecê-lo. Do mesmo modo que já não podia imaginar-lhe sem ele.
Daniel estava se barbeando quando soou o timbre da porta. Vestiu a toda pressa às calças jeans e colocou uma toalha sobre os ombros.
- Olá! Entrem - disse com uma careta, enquanto abria a porta.
Tratava-se de sua irmã Emily e seu noivo Shane Cummings, ao que por fim tinha conhecido na festa de bem-vinda a Karen.
- Querem um café? - Perguntou-lhes depois de se desculpar por seu aspecto e vestir uma camiseta.
- Não, obrigado, só ficaremos por um momento - disse Emily-, mas queremos te perguntar uma coisa. Havia tanta gente na festa da Karen que não tivemos oportunidade de falar contigo a sós.
- E logo tampouco - acrescentou Shane com uma careta-. É um homem muito ocupado.
Ocupado? Não, não o era. Ocupado com Phoebe? Sim. E tinha que pensar seriamente nisso.
- Bem, o que ocorre? - Perguntou relegando aquela idéia para outro momento.
- Queríamos te perguntar se quer ser testemunha em nossas bodas - disse Emily depois olhar de esguelha ao Shane.
- Será uma honra - assegurou Daniel encantado-. De fato, teria sido uma decepção que não me pedissem isso.
- Isso é estupendo. Obrigado - respondeu Shane lhe estreitando a mão.
- Talvez possamos te devolver o favor logo - comentou Emily com uma careta.
- A que se refere? - Perguntou Daniel, cujo sorriso ficou congelado.
- Phoebe e você. Parecia estar muito bem juntos na festa. Caiu-me muito bem, Daniel, igual a todo mundo.
- Bom - respondeu seu irmão, levando uma mão ao peito como se estivesse sufocado -. Acreditei que me conhecia melhor. Phoebe é... Bom, é especial, mas de casamento nada.
- Por que não quer te casar? - Perguntou-lhe Emily tomando o da mão -. E por que não com a Phoebe?
Porque não queria comprometer-se, por isso. Porque não havia mulher no mundo que pudesse pôr em perigo seu estilo de vida, nem sequer Phoebe. E porque não havia mulher no mundo pela que ele renunciaria a viver a seu modo.
Nem sequer Phoebe.
Daniel sentiu uma onda de pânico.
Era isso o que todo mundo pensava? Que estava preparado para sentar a cabeça? Preparado para comprometer-se com alguém que dependeria totalmente dele? Alguém que quereria ter filhos com ele e lhe exigisse estar ali para deitá-los de noite e despertá-los pela manhã?
E o mais importante: Era isso o que Phoebe pensava? Daniel sentiu uma profunda opressão no peito e se deu conta de que isso era exatamente o que ela pensava.
- Isto... Acredito que será melhor irmos, Emily - disse então Shane.
Daniel se deu conta de que os tinha ignorado por completo. Seguia estando com eles só pela metade quando os acompanhou até a porta, sorriu por pura cortesia e lhes disse adeus. Ao fechar apoiou as costas contra a porta e cravou a vista no chão. As coisas sempre eram assim: fazia falta observar o quadro de longe para ser capaz de olhá-lo com perspectiva.
As coisas lhe tinham escapado das mãos. Teria que ter pensado melhor antes de meter-se naquela confusão porque agora seria muito difícil sair dela.
Daniel passou a mão pela mandíbula. Ia ser duro. Muito duro. Mas sabia o que tinha que fazer. E sabia que tinha que fazê-lo esse mesmo dia. Quanto mais tempo ficasse, mais dano faria a Phoebe. E lhe fazer dano era a última coisa que desejava.
- Está aberto - disse Phoebe levantando a vista de sua mesa na biblioteca, quando alguém golpeou brandamente a porta com os nódulos-. Daniel! - Exclamou sorrindo ao vê-lo aparecer à cabeça.
- Olá - saudou ele entrando na sala.
Foi então quando Phoebe viu a mochila que tinha pendurada ao ombro.
Mais tarde recordaria com claridade o modo em que reagiu seu corpo quando sua mente entendeu o que ocorria. Aquele enjôo. Aquela sensação tremenda de pena. Parecia como se uma onda de dor e perda a tivesse miserável longe.
- Está... De partida - disse ficando lentamente em pé, assombrada de que suas pernas pudessem sustentá-la.
Daniel aspirou com força o ar e o deixou escapar. Não foi capaz de olhar à cara.
- Sim. Surgiu algo.
Phoebe esperou ele encontrar com seus olhos. Quando ele a olhou por fim, compreendeu-o. Daniel não partia. Estava fugindo. Fugindo dela. De ambos.
-É um lugar maravilhoso para mergulhar - explicou-se Daniel tirando um caderno de couro do interior da mochila-. Está na costa do Taiti. Levo um par de anos esperando a oportunidade de ir.
Phoebe o observou em silêncio, sentindo-se vulnerável, confusa e subitamente zangada.
- Quando voltará?
Não tinha que haver perguntado. Daniel se girou lentamente e a olhou. Ao fazê-lo. Phoebe soube. Não ia retornar. Ao menos não ao seu lado.
- Phoebe o nosso foi - nunca a esqueceria. É uma mulher incrível. Qualquer homem seria afortunado ao te ter. Mas Phoebe, eu não teria que ter mantido nunca uma relação com você. Fui muito egoísta. Eu sabia que seria uma relação passageira. Suponho que esperava que ambos soubéssemos.
Daniel se deteve um instante e soltou uma palavra entre dentes.
- Pelo amor de Deus, diga que me cale. Sou igual a qualquer desgraçado que...
 -Que esta deixando para traz a alguém? – Interrompeu-o ela olhando-o aos olhos e vendo neles a culpabilidade.
-Phoebe sinto muito. Nunca quis te fazer mal. Quero que compreenda bem isso.
Naquele momento ela se sobrepôs à dor. Sábia que era algo temporal, que a dor retornaria, mas naqueles momentos estava anestesiada. E zangada.
- Não acredito que procure compreensão, Daniel. Acredito que procura perdão. E o mais engraçado é que faz uma semana te teria dado as duas coisas. Faz uma semana que estava disposta a me conformar com algo que queria me dar antes de partir. Mas, sabe o que? Já não sou a mesma mulher de uma semana atraz para então não me tinha amado, nem eu a ti.
Era surpreendente como estava calma e segura de si mesma.
- Antes tinha medo de viver e você me ensinou a superar esse medo. É interessante ver como resultaram as coisas. Agora é você o que tem medo.
Daniel apertou a mandíbula e olhou para outro lado. Se a negação tinha um nome, naqueles momentos se chamava Daniel Barone. Sua incapacidade para olhá-la demonstrava às claras o desesperadamente que estava tratando de fugir da verdade. Não havia nada que Phoebe pudesse fazer nada que pudesse dizer para lhe abrir os olhos. Então o escutou repetir:
- Nunca quis te fazer mal.
E soube que o tinha perdido.
- Tampouco queria se apaixonarpor mim – acrescentou ela com uma tristeza que a deixou absolutamente vazia -. Mas se apaixonou.
Disso estava segura. Nunca em sua vida tinha estado tão segura de algo.
- E agora sai fugindo morto de medo - afirmou chegando - inclusive a sorrir-.A verdade é que tem graça. Houve um tempo no que pensava que eu não era suficiente mulher para você.
Aquilo era uma provocação. Queria dizer: «me demonstre que é o suficientemente homem para mim. Fique ».
Mas é obvio, não o fez.
Phoebe fechou os olhos quando Daniel se aproximou dela, roçou-lhe levemente o cabelo e logo deixou cair à mão lentamente.
- Se cuide, Phoebe. Recorda o que te ensinei.
- Claro que o recordarei.
Daniel não viu a lágrima que lhe escorregou pela bochecha. Já tinha saído pela porta.
- Recordarei sempre.
Apaixonar-se era assombrosamente simples. 
Desapaixonar era simplesmente espantoso.
Ao longo da semana seguinte, Phoebe entendeu melhor que nunca o significado daquelas palavras. Suas emoções foram da raiva à compreensão passando pela dor. Estava zangada com o Daniel por sua súbita retirada e sua incapacidade para admitir os sentimentos que tinha para ela. Mas lhe tinha servido para dar-se conta de que não era quão única às vezes tinha medo. Não o perdoava por haver partido, mas para todo o possível por compreendê-lo.
Era sexta-feira de noite, outra sexta-feira solitária como os que eram habituais em sua vida anterior. Teria que começar a acostumar-se de novo a eles. Phoebe se dirigiu para seu carro, que estava estacionado sob uma luz embora à luz do dia não se desse conta de que estava fundida. Então notou que não estava sozinha
Deu-se a volta rapidamente. Ali estava Jason. Parecia zangado e tinha todo o aspecto de haver-se tomado algo mais que um par de taças. Phoebe sentiu uma sensação de deixa vu quando o viu avançar para ela.
- Estive-te procurando, camundongo. 
Phoebe se surpreendeu ao dar-se conta de que não tinha medo. O que sentia era uma raiva inegável E sábia que seus dias de vítima do Jason tinham chegado a seu fim.
- Suma, Jason - disse sem olhá-lo enquanto procurava as chaves do carro na bolsa.
- Não me dê as costas.
Quando a mão daquele homem lhe tocou o ombro, não o pensou. Simplesmente reagiu. Girou-se de repente, esbofeteou-lhe a cara com a mão aberta e lhe cravou o joelho no peito. Jason exclamou um gemido de surpresa e perdeu o equilíbrio, momento que ela aproveitou para lhe dar um chute no diafragma e fazê-lo cair.
Antes de ser consciente de que o tinha convexo, Phoebe tinha o spray anti violadores em uma mão e o pé sobre o pescoço do Jason.
- Mas que demônios... Ouça, camundongo... – Gemeu ele.
- A partir de agora me chame Super-ratão - assegurou Phoebe sentindo-se absolutamente orgulhosa por ter sido capaz de defender-se do Jason. E esta é a última vez que me incomoda.
- Mas sinto sua falta. Preciso de você
- O que precisa é de ajuda Jason – respondeu ela procurando o telefone celular dentro da bolsa para chamar à polícia-. Necessita de ajuda - repetiu com mais amabilidade franzindo o cenho ao ver que não o encontrava.
- É isto o que está procurando?
Aquela voz profunda vinha de detrás dela. Não teria que ver o homem para saber a quem pertencia. Reconheceria aquela voz em qualquer lugar, na escuridão ou a plena luz.
Phoebe girou lentamente a vista para o telefone celular que estava na palma da mão do Daniel Barone.
- Saiu voando quando lhe fez a chave.
Durante um instante quão único pôde fazer foi ficar olhando aquela mão. Necessitava mais coragem para elevar a vista que para derrubar ao Jason.
- Ao que parece já não necessita que lhe salve, verdade? 
Phoebe sentiu que lhe encolhia o coração ao escutar a carícia de sua voz. Olhou-o aos olhos com esperança, desejo e uma incerteza que empanava todo o resto.
- Não - respondeu ela remarcando as palavras-. Suponho que não.
- Mas posso servir para outras coisas – assegurou Daniel olhando-a intensamente com aqueles olhos azuis com os que ela sonhava desde dia que o conheceu.
- Por exemplo?
- Bom, para começar apareci no momento justo no lugar adequado e chamei à polícia.
Capítulo Onze
Phoebe teve que ir à delegacia de polícia para apresentar queixa. Agora tinha a prova que necessitava para solicitar uma ordem de afastamento contra Jason Collins. Antes de partir, entretanto, pediu para vê-lo. Sentiu-se relativamente aliviada quando conseguiu lhe arrancar a promessa de que procuraria a alguma terapia que o ajudasse com seu problema.
Daniel não se separou de seu lado. Phoebe não sabia muito bem o que pensar daquilo, nem do fato de que ele a acompanhasse a sua casa, nem tampouco sabia se acreditar se sua explicação de que passava por aí com o carro por acaso quando a viu. 
- Que tal no Taiti? - Perguntou-lhe ao cabo de um momento, quando o ronrono do Arthur em seu colo foi o único som que interrompia o silêncio do salão.
- Taiti? - Repetiu ele elevando os ombros e olhando-a do sofá-. Não cheguei a ir. 
Phoebe se perguntou se seu coração seria capaz de resistir toda a aceleração a que tinha sido submetido em uma só noite. E se perguntou também se Daniel poderia ler o nervosismo que refletiam seus olhos e os esforços que tinha que fazer para conservar o pingo de orgulho o qual restava e não jogar-se em seus pés para lhe suplicar que a amasse. 
- E quanto a essas outras coisas...
- Que outras coisas? - Perguntou Phoebe tratando de sair do marasmo de sentimentos contraditórios no qual estava sumida.
- Já sabe essas outras coisas que posso fazer tendo em conta que já não necessita que te proteja mais.
- Ah.
Phoebe teve que apertar ao Arthur muito forte, porque o gato desceu de seu colo com a cauda estirada em sinal de indignação.
- Quer... Quer fazer uma lista?
Daniel cravou os cotovelos nos joelhos e fico olhando suas próprias mãos.
- Bom, posso ser seu amigo.
Quando o levantou a vista para olhá-la, Phoebe reuniu forças da fraqueza para não chorar. Já tinham passado por isso. Ela não podia voltar a ser seu colega. Resultava mais doloroso ainda pensar que Daniel tivesse aparecido daquele modo, lhe dando esperanças para logo...
- Senti sua falta, Phoebe.
A sinceridade daquelas palavras provocou as lagrimas que tinha tratado tão duramente de conter. Nublaram-lhe os olhos e ela tratou firmemente de conter-se.
-Sinto falta da minha amiga. Sei que aconteceu apenas uma semana, mas, te senti falta de todos os dias. Cada hora. Sinto falta da mulher com a qual falava, com a que podia rir, a mulher que nunca me pediu que fosse algo que eu não queria ser.
Daniel lhe estava mostrando seu coração porque necessitava que ela fosse o que não podia ser. E isso matava
- Sinto falta de à mulher com a que fazia o amor. A mulher da qual me apaixonei.
Aquele era um daqueles momentos que Phoebe sabia que recordaria enquanto vivesse.
«A mulher da qual me apaixonei. »
- Não, por favor - sussurrou tampando-a boca com a mão-. Por favor, não me diga isso se não pensar ficar.
Através da nebulosa das lágrimas, Phoebe o viu cair de joelhos frente a ela.
- Te quero, Phoebe - assegurou tomando a da mão e beijando-a nos nódulos duros pela tensão-. Te quero desde o primeiro momento em que te vi. Não sei como ocorreu. Eu não queria que acontecesse, mas estive perdido desde que te vi lambendo com aquele sorvete de baunilha.
Phoebe deixou de lutar, deixou de pensar que não tinha escutado bem, que em algum momento despertaria e descobriria que aquele era outro de seus sonhos. Quando levantou a vista para olhá-lo, os olhos do Daniel lhe disseram quão real era aquele ato. Ele a amava. Então se jogou em seus braços.
- Sshh... Não chore, carinho - sussurrou ele - Sinto ter sido tão estúpido. Tentei-o, Deus sabe que tentei me convencer de que não me partia para te proteger e logo comecei a inventar desculpas para ficar. E isso me assustava terrivelmente.
- E já não te assusta?
- Muito - assegurou Daniel limpando as lágrimas do rosto dela comos polegares-. Não sei se me dará bem isto de me comprometer, mas te asseguro que vou tentar com todas as minhas forças. Recentemente aprendi algo de uma mulher formosa e sábia: que se enfrento a meus medos, minha vida será muito mais rica. Case-se comigo, Phoebe - pediu-lhe beijando-a no dorso da mão -. Esta noite.
- Esta noite? - Repetiu ela soltando uma gargalhada em meio das lágrimas.
- Certo, é muito precipitado. Então, que seja amanhã. Mas não me faça esperar mais Quero te ensinar tantas coisas, te levar a tantos lugares... Começaremos pela casa familiar do Harwichport. Quero que passemos ali a lua de mel para poder me saciar de ti na cama, no banheiro, na cozinha... Que demônios, quero te possuir em todas as partes. Quero fazer amor contigo sob as estrelas do Cabo.
Daniel se deteve um instante e soltou uma gargalhada.
- Me diga que sim, Phoebe, e estaremos só você e eu e muitos dias por diante para te demonstrar quanto sinto te haver feito mal e quanto te quero.
- Sim. Sim, sim, sim.
Daniel a beijou apaixonadamente lhe demonstrando desse modo quanto a queria igual a tinha feito com as palavras tão bonitas que acabava de dizer.
- Você é a melhor aventura que vivi na vida, Phoebe Richards - assegurou tomando-a em braços e levando-a ao dormitório -, e a única que necessito. 
- E o que passa se eu quero ir a Borneo? - Perguntou ela soltando uma gargalhada de pura felicidade. 
Daniel a depositou cuidadosamente sobre a cama e começou a tirá-la camiseta.
- Então te levarei a Borneo. Melhor ainda: vou te levar a Cágados. Você adorará – assegurou com uma careta-. Há muitas tartarugas.
- Não só não fui ao Taiti - confessou-lhe Daniel mais tarde, quando descansavam um nos braços do outro-, mas sim nem sequer saí de Boston. Queria fazê-lo, mas sempre encontrava alguma razão para ficar.
- Razões de que tipo? - Perguntou ela lhe acariciando o peito com um dedo.
- Depois de te deixar na biblioteca voltei para minha casa porque pensei que tinha deixado uma coisa. Não era certo, mas sim se tratava de outro mecanismo de meu subconsciente para atrasar a partida. Em qualquer caso, resultou que Ash passou por ali justo quando eu estava a ponto de partir pela segunda vez. E me fez refletir.
- Sobre mim?
- Sim. Sobre você - confessou Daniel abraçando-a-. Disse-me que não podia partir ainda, que precisava revisar um pouco relacionado com minha carteira de ações. Eu sabia o que pretendia. Estava me dando tempo para que pensasse deixando de lado meus medos. E então decidi ir e esperar-la na saída do trabalho. Senti-me tremendamente orgulhoso de você quando lhe deu seu castigo a esse tipo – assegurou olhando-a com ternura enquanto brincava com uma mecha de seu cabelo.
- Eu também estou orgulhosa de mim – assegurou Phoebe
Fez-se o silêncio uns instantes no dormitório, até que Daniel voltou a falar.
- Poderá me perdoar algum dia por ser tão estúpido?
Que se poderia perdoá-lo? Como lhe fazer entender que já o tinha feito?
- Acredito que este conto responderá a sua pergunta - disse então Phoebe-. Havia uma vez um cavalheiro andante muito bonito que não tinha medo de nada. Tinha matado muitos dragões e se enfrentou aos ogros, e era conhecido na comarca por suas façanhas e sua coragem sem igual. Só havia uma coisa a que o cavalheiro temia: A lhe entregar seu coração a uma princesa para que o cuidasse. Mas um dia, no fragor de uma batalha, o cavalheiro caiu de seus arreios e foi parar ao chão com tanta força que o coração lhe saiu do peito. E sabe quem estava ali para recolhê-lo e devolver-lhe lhe demonstrando assim podia confiar em que ela o cuidaria?
- Sua princesa?
- Não, era uma tartaruga. Mas ao cavalheiro não se importou. Estava tão contente de ter recuperado seu coração que beijou à tartaruga, que não era tal tartaruga, mas sim estava sob o poder de um feitiço e quando o cavalheiro a beijou se converteu em uma bibliotecária que tinha renunciado a esperar a que chegasse um cavalheiro andante que a resgatasse de uma vida vazia e solitária.
- Acredito que sei como termina o conto - sussurro Daniel, que tinha os olhos úmidos-. O cavalheiro e a formosa bibliotecária passaram o resto de sua vida em um reino encantado com o Arthur o gato e viveram felizes para sempre.
Phoebe sorriu olhando-o aos olhos, segura de seu amor, animada pela confiança que Daniel tinha nela e, como sempre, impressionada pela profundidade de seu desejo.
- Muito felizes para sempre.
FIM
Cindy Gerard - Serie Multiautor Os Barone de Boston 8 - Um arrumado cavalheiro (Harlequín by Mariquiña)
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