Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Resumo Crítico: "O Xadrez das Cores"
	O curta começa mostrando de forma bem humorada - e explícita - um cenário aonde o sobrinho de uma idosa contrata uma empregada doméstica negra. O tom de humor do curta, creio eu, seja exatamente para criar uma indagação e desconforto no expectador aonde ele se questione se deve rir realmente da situação ou não, por causa das constantes piadas e comentários extremamente racistas e preconceituosos por parte da idosa. Nota-se estereótipos genéricos, de natureza puramente preconceituosa, aonde a negra é chamada de ladra, "favelada", desastrada, mau caráter, de inteligência limitada e mau intencionada - todas baseadas na cor da sua pele, somente. Nos faz questionar os pequenos detalhes de cunho racista que deixamos passar no dia-a-dia, seja por inocência ou ignorância, mas que estão sistematizados em nós devido à doutrinação e pouca importância dada ao assunto.
	É interessante e deve-se destacar a "diferença" entre a tia e o sobrinho, sendo um personagem cuja característica principal é o preconceito com a empregada, e o outro, embora não faça comentários diretos sobre o racismo expresso, age de forma neutra e conivente com a situação.
	O curta expressa o ápice de uma mente racista desinformada, preconceituosa por pura ignorância, que julga toda uma personalidade e caráter baseado no tom da pele da outra pessoa. Interessantemente, certos lapsos de "sanidade" vão brotando na mente da idosa, como se diante dos fatos ela visse uma coerência e boa intenção no comportamento da empregada, mas isso é constantemente abafado pela sua própria negligência em querer acreditar nisso. É visível que todo o conceito gira em torno de cor - como o título já sugere. - onde a idosa enaltece o branco, como sendo símbolo de sucesso, bondade, riqueza e inteligência; e o negro, como algo vil, medíocre e incapacitado.
	Conta com diálogos muito bem elaborados como a cena em que a empregada reza para a Nossa Senhora Aparecida, usando um raciocínio desprovido de preconceitos, aonde ela responde aos insultos da idosa com "Santo é Santo, não tem cor. A N.S. Aparecida apareceu como negra para as pessoas para mostrar que isso não faz diferença." - É nítido que isso deixa a idosa sem palavras, pois como ela poderia se contradizer e blasfemar?
	Aos poucos o expectador é apresentado com dicas de que a mente da idosa pode ser desconstruída em relação ao seu preconceito doentio. Em um momento de rebeldia, a idosa bate da mão da empregada seu próprio suco de laranja, e pede para que a empregada faça outro suco. A empregada faz um suco de acerola - pêgo de seu próprio quintal - e, incrivelmente, a idosa o toma e se alegra, exigindo ser somente daquele suco. É quando lhe vêm a proposta de ensinar xadrez à empregada em troca de mais acerola, no que a idosa aceita. Isso dá início ao título-tema do filme: na visão da idosa (Estela), as peças negras eram inúteis igual a empregada, e as peças brancas, superiores igual à ela, feitos para "sair na frente."
	Em uma cena bem emocionante, Estela conta aos prantos sobre suas lembranças de ter perdido um filho que nunca chegou a ter, por causa do egoísmo de seu falecido marido controlador. Cida (a empregada), conta também a sua parte, que ela sabe oque é perder um filho que chegou a ter, no caso fora assassinado na porta de casa, devido à violência na comunidade. É então mostrada uma cena aonde as duas choram suas perdas. Tal cena é bastante forte, pois mostra que somos todos humanos, afinal de contas. Com arrependimentos, batalhas, angústias, sonhos, alegrias e desejos. Independente da cor da pele, há humanidade em nós.
	Cida reconhece que têm valor em si própria com o jogo de xadrez, quando vê que um "mero" peão negro, quando chega na última casa do tabuleiro, pode recuperar alguma peça que já fora comida. Seguindo esse raciocínio, todos podemos ser reis e rainhas na vida se nos valorizarmos e sabermos quem realmente somos. Em uma partida contra Estela, a idosa come a rainha de Cida e ri de sua cara, chamando-a de burra, mas Cida já tinha um movimento em mãos, que a fez recuperar sua rainha perdida chegando como um peão na última casa do tabuleiro, dando um cheque-mate em Estela, que fica perplexa. Em uma cena teatral, a "rainha" Cida poupa Estela com sua espada e, na vida real, dá as costas a Estela, dizendo que reconheceu seu valor e que merece dignidade, pedindo demissão. Voltando à cena teatral, Estela está com a espada para atacar Cida, mas Cida simplesmente vai embora e deixa Estela sozinha. Agora ela está para trás, ela não tem ninguém, perdeu sua mão direita nas tarefas rotineiras por sua própria ignorância. Ou seja, fora derrotada em vida devido a sua incivilidade.
	Em várias cenas, Cida caminha pela sua vizinhança - uma comunidade menos favorecida - aonde há várias crianças brincando de armas de brinquedo na rua. Cida passa sempre reto sem se focar naquilo. Talvez seja uma representação de que podemos ser influenciados pelos maus hábitos desde a infância, oque nos molda indiretamente. Certo dia, ao ver as crianças brincando de armas, ela decide levar o xadrez para fora e oferecer uma oportunidade às crianças de conhecer outra brincadeira. Um jogo "para gente inteligente", sendo jogado por dois negros, um com as peças brancas. Um ensinando, outro disposto a aprender. É de se admirar a simbologia da cena, mostrando mais uma vez a humanidade em todos, a capacidade para aprender e, principalmente, para fazer suas escolhas a que caminho seguir. Não há mais interesse nas crianças em brincar de arma, bastou uma atitude positiva de amor de Cida para mudar seus dias. É perceptível que as peças não são mais brancas ou negras, e sim tomam qualquer formato e figura na mão das crianças - inocência. São bonecos coloridos, latinhas, objetos, garrafinhas. Abrange a lição para: não importa sua cor, formato ou conteúdo, você pode ser um rei e uma rainha no jogo da vida.
	O curta nos mostra uma cena em que outra empregada, desta vez branca, chega à casa de Estela, e é visível que a mulher não se importa com a idosa, cuida dela de qualquer jeito. Estela percebe nessa hora que preferia a companhia e os cuidados de Cida. Vemos então uma introspecção por parte de Estela em que ela se vê sozinha, sem o sobrinho, e agora sozinha no tabuleiro também: uma rainha solitária, abandonada, vencida pelos seus preconceitos cegos. Em um ato de desamparo, recorre à santa de Nossa Senhora Aparecida, que é negra, e reza em solitude. O santo perdeu a sua cor para transparecer uma mensagem de esperança e redenção.
	O curta termina com uma metáfora e simbologia sensacionais, aonde Cida volta para a casa de Estela e, ao Estela acordar, Cida prepara um jogo de xadrez para as duas, em silêncio total. Dessa vez, Cida no controle das peças brancas e Estela nas pretas. No tabuleiro: peão frente a peão, rainha frente a rainha. Mão branca e negra entrelaçadas. No xadrez da vida, somos todos peões, somos todos reis e rainhas.
	Finalizo com uma frase escrita por um internauta: "Chique é entender que ninguém é mais que ninguém... Chique é saber que a vida é como um jogo de xadrez, que ao final, Peão e Rei são guardados na mesma caixa."

Mais conteúdos dessa disciplina