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Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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MED RESUMOS 2011
ARLINDO UGULINO NETTO
LUIZ GUSTAVO C. BARROS YURI LEITE ELOY
MEDICINA – P8 – 2011.1
HEMATOLOGIA
REFERÊNCIAS
1. Material baseado nas aulas ministradas pelas Professoras Flávia Pimenta e Angelina Cartaxo na FAMENE
durante o período letivo de 2011.1.
2. LORENZI, T. Manual de Hematologia – propedutica e clnica. 3ª ed., Atheneu: 2003.
3. GODMAN, C. Tratado de Medicina Interna. 21ª ed., Guanabara: 2001.
4. ZAGGO. Fundamentos de Hematologia. 19ª ed., Atheneu: 2001
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MED RESUMOS 2011
NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
SISTEMA SANGUÍNEO E HEMATOPOIESE
(Professora Flávia Pimenta)
O sistema hematolgico, por definio, consiste no conjunto de estruturas representadas pelo sangue e pelos
locais onde este produzido, incluindo a medula ssea e o sistema reticuloendotelial (SRE).
Hematopoiese (hematopoese ou hemopoese), o processo de formao, desenvolvimento e maturao dos
elementos do sangue (eritrcitos, leuccitos e plaquetas) a partir de um precursor celular comum e indiferenciado
conhecido como clula hematopoitica pluripotente, ou clula-tronco (stem-cell). As clulas-tronco que no adulto
encontram-se na medula ssea so as responsveis por formar todas as clulas e derivados celulares que circulam no
sangue.
RGOS DO SISTEMA SANGUNEO
Os rgos que comp
em o sistema sanguneo so tambm a sede de formao da maioria das clulas
sanguneas. Deles, podemos citar: medula ssea, timo, bao e linfonodos.
MEDULA ÓSSEA VERMELHA
A medula óssea vermelha,
popularmente conhecida como "tutano", um
tecido gelatinoso que preenche a cavidade
interna de vrios ossos e fabrica os elementos
figurados do sangue perifrico como:
hemcias, leuccitos e plaquetas.
A medula ssea constituda por um
tecido esponjoso mole localizado no interior
dos ossos longos. nela que o organismo
produz praticamente todas as clulas do
sangue: glbulos vermelhos (Eritrcitos),
glbulos brancos (Leuccitos) e plaquetas
(Trombcitos). Estes componentes do sangue
so renovados continuamente e a medula
ssea quem se encarrega desta renovao.
Trata-se portanto de um tecido de grande
atividade evidenciada pelo grande nmero de
multiplica
es celulares.
TIMO
O timo um rgo linftico bilobulado que est localizado na poro antero-superior da cavidade torcica. Ele,
que apresenta como funo principal a maturao do linfcito T, possui uma cpsula de tecido conjuntivo denso no
modelado de onde partem septos que dividem os lobos em lbulos.
No ambiente lobular, pelo contato com clulas do epitlio tmico, macrfagos e clulas dendrticas interdigitantes,
percusores dos linfcitos T oriundos da medula ssea (ainda denominados timócitos) so submetidos aos processos de
maturao, seleo e diferenciao.
LINFONODO
Os linfonodos so rgos pequenos em forma de feijo que aparecem no meio do trajeto de vasos linfticos.
Eles “filtram” a linfa que chega at eles, e removem bactrias, vrus, restos celulares, etc. So caracterizados por
concentrar os folículos linfóides (linfócito B) e as regiões interfoliculares (linfócito T) ao longo dos vasos linfticos,
exercendo a funo de filtrao da linfa.
BAÇO
O bao um rgo linfide secundrio presente no quadrante superior esquerdo do abdome e responsvel pela
remoo tanto de partculas estranhas do sangue como de hemcias e plaquetas envelhecidas.
o maior dos rgos linfticos e faz parte do Sistema Retculo-Endotelial, participando dos processos de
hematopoiese (produo de clulas sanguneas, principalmente em crianas) e hemocaterese (destruio de clulas
velhas, como hemcias senescentes - com mais de 120 dias). Tem importante funo imunolgica de produo de
anticorpos e proliferao de linfcitos ativados, protegendo contra infec
es.
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ETAPAS DA HEMATOPOIESE COM RELAO
FAIXA ETRIA
Sabe-se que a medula ssea o rgo produtor das clulas sanguneas. At os cinco anos de idade, a medula
de todos os ossos do corpo participa deste processo. A medida em que os anos avanam, ocorre uma substituio
gordurosa na medula dos ossos longos, at que, na idade adulta, somente os ossos da pelve (como o ilaco), o esterno,
os ossos do crnio, os arcos costais, vrtebras e as epfises femorais e umerais so capazes de gerar clulas
sanguneas.
Portanto, a depender da fase de desenvolvimento na qual se encontra o ser humano, a formao das clulas do
sangue pode variar de localizao, como mostrado no esquema abaixo.
Desenvolvimento embrionrio:
3 semana de gestao: ilhotas sanguneas, presentes no saco vitelino, so responsveis pela hematopoiese.
3 ms: migrao destas clulas primordiais para o fgado; pouco depois, ocorre hematopoiese tambm no bao,
timo, linfonodos.
6 ms: incio do perodo medular
7-8 ms: perodo hepatoesplnico-tmico chega ao seu ponto mnimo.
Ao nascimento, h hemopoese em praticamente todos os ossos do corpo. Ocorre ainda uma hematopoiese
residual ou nula no fgado e bao (ver OBS1); os rgos recuperaro a capacidade hemopotica no adulto, em
caso de necessidade (situa
es patolgicas), com exceo do timo.
2 - 4 anos de idade: comeam a aparecer adipcitos na medula ssea (MO), reduzindo a medula ssea
vermelha (que a medula ssea metabolicamente ativa). Esta reduo da medula ssea vermelha progressiva
e fisiolgica, sendo ela substituda, gradativamente, por medula ssea amarela (ou adiposa), que no produz
clulas sanguneas.
Criana – adulto jovem: com o progredir da idade, a medula vermelha comea reduzir de forma centrpeta,
passando a se localizar mais no esqueleto axial. Ocorre, com isso, reduo da hematopoiese nos ossos longos
e, no adulto, esta permanece apenas em ossos especficos (crnio, vrtebras, costelas, esterno, osso ilaco e
epfises de ossos longos). A hemopoese volta a ocorrer nos ossos longos apenas em situa
es patolgicas,
hemlise e hemorragias.
Adulto maduro: a relao entre medula ssea vermelha e medula ssea amarela se estabiliza na 2 dcada de
vida, a no ser que haja patologias. Na 7 dcada, h, na medula ssea, cerca de 1/3 de tecido adiposo e 2/3 de
hematopoitico aps 7 dcada; a hemopoese decai e ocupa de a 1/3 do volume medular.
OBS1: O fato de a criana ainda apresentar uma hematopoiese residual no bao e no fgado, justifica a facilidade com a
qual elas apresentam hepato-esplenomegalia diante de qualquer situao que exija a maior produo de clulas
sanguneas, como uma infeco, por exemplo. Alm do mais, todos os ossos esto ocupados por medula ssea
vermelha na infncia, sendo impossvel a expanso da mesma para um maior aporte na produo de clulas do sangue
– da a necessidade da hiperplasia daqueles rgos que j foram hematopoiticos no perodo embrionrio (fgado e
bao).
HEMATOPOIESE
J se sabe que a medula ssea com atividade hematopoitica denominada medula óssea vermelha (medula
metabolicamente ativa), devido presena de grande quantidade de hemcias e precursores eritrides. O restante dos
ossos contm a denominada medula óssea amarela, preenchida por tecido adiposo, porm com potencial para voltar a
produzir clulas sanguneas sob determinados estmulos.
Sabemos que todos os elementos do sangue (hemcias, plaquetas e leuccitos) originam-se de uma nica
clula progenitora, denominada clula-tronco (stem cell ou clula-me). Estas clulas apresentam duas propriedades
que as distinguem das demais clulas do organismo – elas so pluripotentes e autoperpetuantes. Isso significa que as
clulas-troncoso capazes de produzir clulas de diferentes linhagens por mitose e, diferentemente do conceito
tradicional de mitose (em que uma clula d origem a duas idnticas, morfologicamente e funcionalmente iguais), a
clula tronco, ao se dividir, produz uma clula de linhagem sangunea (a depender da necessidade do organismo) e
outra semelhante a si, mantendo a quantidade de clulas-tronco na medula ssea.
A clula tronco, existente apenas em pequena quantidade na medula ssea, tem a capacidade de se reproduzir
quando necessrio e dar incio a um processo de diferenciao em mltiplas linhagens celulares hematolgicas. O
transplante de medula ssea (ou "transplante de clulas-tronco"), a grande revoluo da terapia hematolgica nas
ltimas dcadas, baseia-se na propriedade de um pequeno grupo de clulas-tronco do doador produzir novamente todas
as clulas hematolgicas, reconstituindo a medula ssea do receptor. Assim, um paciente com leucemia pode ser
tratado com doses absurdamente altas de quimioterpicos, capazes de destruir quase todas as clulas de sua medula,
recebendo em seguida estas clulas progenitoras.
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Inicialmente, a clula-tronco se diferencia em dois tipos de clulas comissionadas, cada uma comprometida com
formao de uma grande linhagem hematolgica: a clula comissionada de tecido mielide (que dar origem s
hemcias, plaquetas, granulcitos e moncitos) e a clula comissionada de tecido linfide (que dar origem aos
linfcitos). Estas clulas, diferentemente da clula-tronco que as originou, no apresentam a pluripotencialidade – ou
seja: uma clula de tecido mielide no capaz de formar linfcitos, assim como a clula de linhagem linfide no forma
eritrcitos, plaquetas, granulcitos ou moncitos.
A diferenciao das clulas troncos em cada um dos componentes se d atravs de fatores de crescimento,
produzidos por rgos como o fgado e os rins, obedecendo a estmulos do meio. Por exemplo:
A eritropoetina (EPO) produzida no rim quando h baixa concentrao de O2 e estimula a diferenciao da
clula totipotente para Unidade Formadora de Colnias de Eritrcitos (CFU-E).
Fatores como a IL-1 e o TNF (fator de necrose tumoral) agem sobre clulas estromais da medula, estimulando-
as a produzirem o fator de estmulo formao de colnias granulocticas (G-CSF) e granulocticas/
macrofgicas (GM-CSF).
Os fatores de crescimento podem agir na diferenciao e na regulao do crescimento de clulas mais
maduras, atravs da inibio da apoptose.
Estes fatores so usados na prtica clnica para estimular a produo em casos de produo ineficaz pela
medula.
PRODU
O DAS CLULAS DO TECIDO MIELIDE
A clula progenitora mielide se diferencia em mais dois tipos: um comprometido com a linhagem eritride-
megacarioctica (que a unidade formadura de surtos – BFU, responsvel pela formao de hemcias e plaquetas) e
a outra comprometida com a linhagem granuloctica-monoctica (que a unidade formadora de colnias – CFU,
responsvel pela formao dos granulcitos e moncitos).
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Formação das hemácias (eritrócitos).
As hemcias ou eritrcitos derivam, obviamente, da clula comissionada de tecido mielide. Esta se divide por
mitose na unidade formadora de surtos de eritrcitos (BFU, responsvel pela formao de clulas da linhagem eritride-
megacarioctica) que, por sua vez, d origem a clula mais rudimentar da escala de formao dos eritrcitos: o pró-
eritroblasto. Esta clula, assim como todas as clulas da linhagem mielide, apresenta as caractersticas de uma clula
jovem: grande, com ncleo ocupando quase todo seu citoplasma e com a presena de nuclolo.
O pr-eritroblasto sofre mitose para formar o eritroblasto basófilo, clula rica em RNA por j possuir uma
sntese protica considervel (por produzir protenas de carter cido, ela apresenta maior afinidade por
corantes bsicos).
O pr-eritroblasto sofre mitose para formar o eritroblasto policromatófilo, uma
clula mais madura, mas que ainda apresenta uma grande quantidade de
protenas cidas, tendo maior afinidade por corantes bsicos.
O eritroblasto policromatfilo, tambm por mitose, forma o eritroblasto
ortocromático, uma clula que j apresenta caractersticas morfolgicas de uma
hemcia, mas que ainda apresenta ncleo.
O eritroblasto ortocromtico, atravs de um processo conhecido como extruso
nuclear, forma o reticulócito, uma clula anucleada. O reticulcito pode estar
presente tanto na medula ssea como no sangue perifrico (por cerca de 48 horas
aps formado, em situa
es de normalidade) e, por possuir ainda uma grande
quantidade de RNA sem seu citoplasma, pode ser identificado por um corante
especfico que o azul de cresil-brilhante.
O reticultico, aps 24 – 48h no sangue perifrico, dar origem ao eritrócito (ou
hemcia).
OBS2: As clulas mais imaturas apresentam alta sntese protica (para formao da hemoglobina), enquanto as mais
maduras vo adquirindo ferro e, por fim, perdem os ncleos e originam as hemcias. O tipo de hemoglobina varia de
acordo com a fase da vida: na vida fetal precoce, surgem as hemoglobinas embrionrias; na fetal tardia surge a
hemoglobina fetal (constituda por 2 cadeias a e duas g); aos 3-6 meses de vida ocorre a converso da hemoglobina
para a adulta, HbA, constituda por duas cadeias a e duas b. A HbF tem maior afinidade para O2 que a HbA. A
concentrao aumentada de CO2 diminui a afinidade da hemoglobina por O2, permitindo a liberao de oxignio para o
tecido.
Em condi
es normais, devemos encontrar apenas eritrcitos e reticulcitos no sangue perifrico. Desta forma, o
reticulcito funciona, para o mdico hematologista, como um “espelho” da funo da medula ssea: quanto mais
reticulcitos estiverem presentes no sangue perifrico, significa dizer que maior a atividade medular. Pacientes que
sofreram hemorragia severa, por exemplo, com cerca de 7 a 10 dias, apresentaro uma grande quantidade de
reticulcitos em seu sangue perifrico.
Desta forma, fcil de identificar que uma possvel causa desta anemia foi uma hemorragia ou uma hemlise,
desde que haja uma grande quantidade de reticulcitos no sangue perifrico. Por exemplo, se um paciente apresenta
anemia, mas possui um grande nmero de reticulcitos no sangue, significa dizer que a medula ssea est perfeita
(anemia regenerativa), trabalhando normalmente para suprir a falta de hemcias. Entretanto, na carncia de
componentes bsicos para formao de clulas do sangue (como ferro, vitaminas, DNA, etc.) ou na presena de
tumores, os reticulcitos estaro reduzidos (caracterizando as anemias arregenerativas), assim como as hemcias.
Os reticulcitos, embora sejam maiores que as hemcias, conseguem exercer a mesma funo que elas.
Contudo, a diferena de tamanho no capaz de diferenciar estas clulas em exames laboratoriais. A indicativa de
“presena de policromatofilia” em um hemograma de um paciente com anemia, por exemplo, indica a presena de
reticulcitos, caracterizando, assim, uma anemia regenerativa.
Em resumo, trs condi
es clnicas podem causar esta reticulocitose na decorrncia de uma anemia:
Sangramentos (hemorragias);
Hemlise;
Paciente que fez uso de medicamentos e suplementos para melhorar a funo sangunea cerca de uma semana
antes da realizao do exame.
No que diz respeito hemcia, esta apresenta, normalmente, cerca de 7m (enquanto que o reticulcito
apresenta, aproximadamente, 9m). A hemcia uma clula anucleada que tem cerca de 90 - 120 dias de sobrevida. O
fato de umahemcia ser maior que a outra (macrocitose) diminui a sobrevida da maior, pois o bao, responsvel pela
hemocaterese, extremamente rigoroso quanto ao dimetro da hemcia: o dimetro dos capilares do bao varia de 1 a
3m. O reticultico, independente de seu tamanho, resistente a esta seleo, e consegue sobreviver por 48 horas at
perder seu RNA, diminuir e formar a hemcia.
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Produção dos granulócitos.
Os leuccitos granulocticos (basfilos, eosinfilos e neutrfilos) tambm derivam da clula comissionada de
tecido mielide. Contudo, neste caso, esta clula se diferencia na unidade formadora de colnias (CFU, responsvel
pela formao de clulas da linhagem granuloctica-monoctica) que, por sua vez, dar origem a clula mais rudimentar
da escala de formao do setor granuloctico: o mieloblasto.
O mieloblasto sofre mitose e forma o pró-mielócito.
O pr-meiolcito sofre mitose e forma o mielócito. A partir desta clula, passa a ocorrer a formao da
chanfradura que dar origem ao formato caracterstico do ncleo das clulas do setor granuloctico.
O mielcito se transforma em metamielócito (com ncleo em formato de feijo).
O metamieltico forma, ento, a célula com núcleo em bastão (bastonete, com ncleo em formato de
bumerangue).
O bastonete d origem s células com núcleo segmentado, que so: basófilo, neutrófilo e eosinófilo.
Como podemos ver neste esquema, as clulas formadas at o mielcito inclusive (mieloblasto, pr-mielcito e
mielcito) so agrupadas no chamado compartimento mitótico (em comum, todas estas clulas se formam por mitose
e no realizam fagocitose de agentes estranhos). J as clulas que vo desde os metamielcitos at os segmentados
so clulas do chamado compartimento de reserva medular (CRM), e que existem na medula ssea com o objetivo de
suprir uma necessidade na vigncia de um processo infeccioso, por exemplo. Isso se faz importante pois, diferentemente
das hemcias, os granulcitos vivem apenas poucas horas: o segmentado neutrfilo, por exemplo, vive apenas 6 horas.
Por esta razo, na vigncia de uma infeco, no seria possvel a medula ssea fabricar uma grande demanda
de granulcitos para debelar esta infeco em poucas horas. Da a necessidade deste compartimento de reserva celular
medular.
OBS2: comum observar no hemograma de pacientes com infeco grave (apendicite, colecistite, amigdalite grave, pneumonia, etc.)
uma maior produo de granulcitos. Os mdicos, ao analisarem o hemograma, procuram logo a eventual presena de “desvio”. O
termo “desvio para esquerda” significa a liberao e aumento das clulas do compartimento de reserva medular. Isso ocorre porque,
em situa
es normais, as clulas encontradas no sangue perifrico sero apenas segmentados neutrfilos (cerca de 75%) e, no
mximo, bastonetes (1 – 5%). Quando h “desvio para esquerda” (esquerda com relao ao esquema da granulocitopoese
apresentado anteriormente, como era mostrado em hemogramas mais antigos), quer dizer que mais clulas do compartimento de
reserva esto alcanando o compartimento vascular perifrico no intuito de atender melhor emergncia infecciosa. Portanto, o termo
“desvio para esquerda”, no que diz respeito ao hemograma, quer dizer aumento de segmentados, bastonetes e metamielcitos (no
mximo, podemos encontrar at mielcitos) no sangue perifrico, traduzindo uma resposta da medula ssea frente a uma infeco,
fazendo com que haja uma maior produo de neutrfilos jovens no sangue, aumentando a porcentagem de bast
es, metamielcitos
e mielcitos, com relao aos segmentados.
OBS3: Tambm pode ocorrer desvio para direita. O termo "desvio para direita" significa um aumento das formas maduras de
neutrfilo, ou seja, maior percentual de segmentados (polimorfonucleares) e menor percentual de bast
es. O "desvio para direita"
caracterstico da anemia megaloblstica (muito embora a ausncia deste desvio jamais poder descartar o diagnstico da anemia
megaloblstica). Quando presente em um paciente com anemia macroctica, passa a ser um dado sugestivo.
As clulas segmentadas, assim que so formadas, passam a ocupar a circulao perifrica ao longo de 6 horas,
aproximadamente (tempo que dura a sua sobrevida). Na vigncia de uma infeco localizada, os segmentados de todo o
corpo so destinados para este foco no intuito de debel-lo. Aps 6 horas, os segmentados se aderem s paredes dos
vasos com o objetivo de alcanar os tecidos, onde vo sofrer catabolismo e serem destrudas.
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Durante este perodo em que os segmentados se encontram na circulao, eles passam a integrar o
compartimento circulante; quando ele se encontra aderido s paredes dos vasos, eles passam a constituir o
compartimento marginal (nesta forma, estes leuccitos no so determinados ou mensurados pelo hemograma, mas
na presena de uma infeco, eles podem retornar ao compartimento circulante – vide OBS4). Contudo, estes
compartimentos sempre esto em renovao constate: assim que um leuccito passa a integrar o compartimento
marginal, outro leuccito ocupa seu lugar no compartimento circulante.
OBS4: Dois fatos fazem com que o leucograma de um indivduo com infeco apresente uma grande leucocitose em um curto
intervalo de tempo: (1) as clulas do compartimento marginal que esto aderidas ao endotlio tm a capacidade de voltar para o
compartimento marginal na presena da infeco; (2) quando estas clulas do compartimento marginal voltam para o compartimento
vascular, elas se somam aos leuccitos que j tinham as substitudo no momento em que elas se tornaram do compartimento
marginal. Portanto, na presena de uma infeco, estas clulas passam a compor o compartimentocirculante, sendo ento, possvel a
sua mensurao quantitativa atravs do leucograma, aumentando, assim a leucometria logo na fase inicial dos processos infecciosos.
Se o processo infeccioso se perpetuar, entra em foco as clulas do compartimento de reserva medular.
OBS5: Existem determinadas situa
es variantes de uma condio normal em que se possvel provocar o aumento da leucometria.
Como exemplo de tais situa
es, temos: alimentao, exerccio fsico, estresses orgnicos ou psicolgicos, etc. Estas situa
es
cursam, de um modo geral, com a liberao de ACTH e adrenalina, que impedem a marginao dos leuccitos, podendo promover
este vis no leucograma, com aumento da leucometria em virtude da soma das clulas do compartimento circulante e marginal,
fazendo com que o indivduo se apresente com leucocitose sem ser portador, necessariamente, de uma infeco (caracterizando a
chamada leucocitose fictícia). Por este motivo, a interpretao de hemogramas no deve ser feita sem antes ter sido realizada uma
avaliao clnica minuciosa da paciente.
OBS6: Existe tambm a chamada leucocitose iatrogênica, promovida por ao do mdico. Podemos exemplificar estes casos com
aquelas crianas com crise asmtica que chegam ao pronto-socorro, so receitadas com corticides e adrenalina, e fazem, logo em
seguida, um hemograma. Estas, sem dvida, apresentaro uma leucometria extremamente exagerada, mas que no significa motivo
para pnico, no que diz respeito a infec
es. Com isso, a utilizao de medica
es como corticides (Prednisona, Dexametasona,
etc.) tambm faz com que haja aumento da leucometria, pois os corticosterides impedem a marginao dos leuccitos.
Produção dos monócitos.
Os moncitos se originam a partir de unidades formadoras de moncitos-granulcitos, que formam os
monoblastos, pr-moncitos e, por fim, moncitos. Os moncitos circulam de 20-40 horas, quando entram nos tecidos e
maturam para macrfagos teciduais. O sistema reticuloendotelial corresponde ao conjuntoformado por clulas derivadas
de moncitos e distribudas pelo corpo, como as clulas de Kupffer, macrfagos do bao, pulmo, medula ssea, etc.
Suas fun
es so: fagocitose de elementos estranhos e restos celulares, apresentao de antgenos para
clulas linfides, produo de citocinas, que atuam na regulao da hemopoese, inflamao e resposta imune.
Produção das plaquetas.
As plaquetas (trombcitos), assim como as hemcias e os leuccitos granulocticos, tambm so formadas a
patir da clula comissionada de tecido mielide. Sua clula mais imatura a chamada megacarioblasto que, por
mitose, forma o megacariócito. As plaquetas, por sua vez, so fragmentos da membrana citoplasmtica e do citosol
destes megacaricitos.
Os megacaricitos so clulas grandes, de ncleos multilobados, cuja proliferao estimulada pela
trombopoetina, produzida principalmente no fgado. O citoplasma dos megacaricitos, ento, se fragmenta e liberado
na circulao, originando as plaquetas, importantes no processo de hemostasia. Estas circulam por 6-8 dias e so
retiradas da circulao pelo sistema reticuloendotelial do bao e pulmo. Sua vida mdia est reduzida durante
tromboses, infec
es e hiperesplenismo.
PRODUÇÃO DAS CÉLULAS DO TECIDO LINFÓIDE
Os linfcitos so clulas relacionadas resposta imune humoral (B) e
celular (T). Em resumo, a clula comissionada para o tecido linfide produz o
linfoblasto (e clulas dendrticas linfides). Este linfoblasto forma o
prolinfcito, o qual forma as clulas exterminaduras naturais (natural killers) e
o linfcito maduro.
As clulas linfides precursoras maturam para os linfcitos B na
prpria medula ssea, enquanto que as dos linfcitos T se maturam no timo.
Portanto, estes rgos so considerados rgos linfides primrios (os
linfonodos, a polpa branca do bao, tecido linfide das mucosas e pele so
rgos linfides secundrios).
Os linfcitos apresentam o maior tempo de sobrevivncia, sendo que
alguns linfcitos de memria sobrevivem por muitos anos.
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COMPONENTES DO SANGUE
O sangue é composto por, basicamente, dois
componentes: o componente líquido e o componente celular. Em
resumo, temos:
Componente líquido (55% do volume): é representado
pelo plasma.
Componente celular (45% do volume): eritrócitos
(Hemácias), leucócitos (células brancas) e trombócitos
(plaquetas).
PLASMA
O plasma sanguíneo é o componente líquido do sangue, no qual as células sanguíneas estão suspensas. O
plasma é um líquido de cor amarelada e é o maior componente único do sangue, compondo cerca de 55% do volume
total de sangue. Os principais componentes do plasma são:
Água (90%)
Proteínas: albuminas; globumina; aglutininas; fribrinogênio / protrombina.
Outras substâncias orgânicas: enzimas; anticorpos; hormônios; vitamina;.
Aminoácidos
Substâncias nitrogenadas e excreção: uréia; ácido úrico; creatina.
Lipídios: colesterol e triglicérides.
Glicídios: glicose.
Gases: O2 dissolvido
ERITRÓCITOS
Os eritrócitos ou glóbulos vermelhos são unidades
morfológicas da série vermelha do sangue, também designadas por
eritrócitos ou hemácias, que estão presentes no sangue em número
de cerca de 4,5 a 6,5 x 106/mm³, em condições normais. Por
apresentarem a hemoglobina, possui a função de transportar o oxigênio
(principalmente) e o gás carbônico (em menor quantidade) aos tecidos.
Os eritrócitos vivem por aproximadamente 90 - 120 dias.
Suas principais características são:
Principal função: transporte de oxigênio dos pulmões para os
tecidos.
Principal componente: a proteína Hemoglobina.
Origem (eritropoese): medula óssea
Fim: baço e fígado.
LEUCÓCITOS
Os leucócitos (de leuco = branco + cito = célula), também conhecidos por glóbulos brancos, são células
produzidas na medula óssea e presentes no sangue, linfa, órgãos linfóides e vários tecidos conjuntivos. Um adulto
normal possui entre 3.800 e 9.800 mil leucócitos por milímetro cúbico de sangue. Suas principais características são:
Principal função: combate à infecção.
Tipos de células:
Granulócitos (65%): Neutrófilo, Eosinófilo e Basófilo.
Agranulócitos (35%): Monócito e Linfócito (B e T).
Neutrófilo. Previne ou limita infecção via fagocitose de elementos estranhos (bactérias).
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Eosinófilo. Envolvido em reações alérgicas; Libera histaminase; Digere elementos
estranhos.
Basófilo. Contém histamina; parte integral das reações de hipersensibilidade.
Monócito. Diferenciam-se em macrófagos, que são células altamente fagocitárias (fungos,
vírus).
Linfócito T. Responsável pela imunidade celular; Rejeição de tecidos estranhos;
Destruição de células tumorais.
Linfócito B. Responsável pela imunidade humoral; muitas diferenciam-se em plasmócitos.
Plasmócito. Secretam anticorpos (imunoglobinas).
PLAQUETAS
A plaqueta sanguínea ou trombócito é um fragmento citoplasmatico anucleado, presente no sangue que é
formado na medula óssea. A sua principal função é a formação de coágulos, participando portanto do processo de
coagulação sanguínea.
Uma pessoa normal tem entre 150.000 e 400.000 plaquetas por mm³ (ou por ml) de sangue. Sua diminuição ou
disfunção pode levar a sangramentos, assim como seu aumento pode aumentar o risco de trombose.
OBS7: Hemostasia: É o processo de prevenir a perda de sangue pelos vasos intactos e de parar o sangramento de
vasos rompidos. Processos: (1) Vasoconstrição; (2) Agregação de plaquetas; (3) Coagulação sanguínea.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
109
MED RESUMOS 2011
NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
SISTEMA ABO
(Professora Flávia Pimenta)
O Sistema ABO foi o primeiro dos grupos sanguíneos descobertos, ainda no início do
século XX em 1900), pelo cientista austríaco Karl Landsteiner.
Fazendo reagir amostras de sangue de funcionários do seu laboratório, ele isolou os
glóbulos vermelhos (hemácias) e fez diferentes combinações entre plasma e hemácias, tendo como
resultado a presença de aglutinação dos glóbulos em alguns casos, e sua ausência em outros.
Assim, Landsteiner classificou os seres humanos em três grupos segundo uma polialelia: A,
B e O, e explicou o porquê que algumas pessoas morriam depois de transfusões de sangue e outras
não. Em 1902, seus colaboradores von Decastello e Sturli encontraram e descreveram o grupo AB,
mais raro. Em 1930, Landsteiner ganhou o Prêmio Nobel por seu trabalho.
Partindo do pressuposto que o sangue, ao longo do século XX, tornou-se uma importante
ferramenta para tratamento de algumas doenças e situações de hemorragias, a descoberta deste
sistema (e das demais classificações do sangue) auxiliou na propedêutica da transfusão
sanguínea, diminuindo a incidência de complicações e mortalidade do procedimento.
FUNDAMENTOS DO SISTEMA ABO
Analisando o comportamento do sangue e do plasma de alguns de seus técnicos de laboratório, Landsteiner
verificou que as hemácias humanas podem apresentar, na sua membrana, substâncias químicas que ele chamou de
aglutinogênios (funcionando como um antígeno), que constituem o glicocálix (açúcares) de sua membrana celular.
Seus experimentos revelaram a existência de pelo menos dois tipos de aglutinogênios: o A e o B. Com isso, associando-
se estudos feitos mais tarde, percebeu-se que, a depender da presença destes aglutinogênios, haveria a coexistência no
plasma de substâncias químicas chamadas de aglutinina (funcionando como anticorpo).
Desta observação, o sangue passou a ser classificado, de
acordo com a presença ou não do aglutinogênio na parede da hemácia,
da seguinte forma:
Sangue tipo A: suas hemácias apresentam oaglutinogênio A e
seu plasma possui a aglutinina anti-B (ver OBS1), que reage
contra o aglutinogênio B.
Sangue tipo B: suas hemácias apresentam o aglutinogênio B e
seu plasma possui a aglutinina anti-A (ver OBS1), que reage
contra o aglutinogênio A.
Sangue tipo AB: suas hemácias apresentam os aglutinogênio
A e B, e seu plasma não apresenta aglutinina.
Sangue tipo O: suas hemácias não apresentam aglutinogênio,
mas seu plasma possui os dois tipos de aglutinina: anti-A e anti-
B (ver OBS1).
Do ponto de vista genético, observou-se que a tipagem sanguínea respondia a uma polialelia de herança
mendeliana, que ocorre quando existem três ou mais tipos de alelos diversos para o mesmo locus cromossômico. Alelos
são formas que um gene pode apresentar e que determina características diferentes. Um conjunto de três ou mais alelos
pertencente a um mesmo gene, ocorrendo de dois a dois em um organismo diplóide, é denominado alelos múltiplos. Os
alelos múltiplos são responsáveis pela herança genética no sistema ABO, Rh e MN (todos eles localizados no
cromossomo 9).
Desta forma, os aglutinogênios A e B são gerados pelos alelos IA ou IB, respectivamente. Na relação alélica
existente, o alelo i é recessivo aos seus alelos IA e IB. Assim, quando em um indivíduo é encontrado homozigose do alelo
recessivo i, esse pertencerá ao grupo O (genótipo ii). Caso sejam encontrados em heterozigose os alelos IA e IB, ambos
manifestam seu caráter dominante, e o indivíduo será do grupo sanguíneo AB (genótipo IA IB).
Desta forma, um indivíduo pertencerá ao grupo sanguíneo A, se enquadrado em duas situações: quando em
homozigose dominante IA IA, ou em heterozigose do alelo dominante IA com o recessivo i, apresentando genótipo IA i. Da
mesma forma para o grupo sangüíneo B: quando em homozigose dominante IB IB, ou em heterozigose do alelo
dominante IB com o recessivo i, apresentando genótipo IB i.
OBS1: A formação dos anticorpos (aglutininas) se dá no período neonatal, em torno de 3 a 6 meses de vida, graças à
reações cruzadas com determinados antígenos bacterianos.
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110
BASES BIOQUMICAS DO SISTEMA ABO
Os antgenos do sistema ABO so, por natureza, hidratos de carbono, sintetizados por influncia de genes
autossmicos correspondentes e que esto presentes na membrana plasmtica das hemcias (na forma de glicoclix). A
determinao antignica do sistema ABO, que inicialmente se acreditou ser bastante simples, envolve certas
complexidades, pois para ela, contribuem dois pares de alelos:
Os genes H (dominante) e h (recessivo) condicionam a presena de uma substncia, denominada antgeno ou
substncia H (glicoprotena H). Essa substncia formada por meio da ao da enzima fucosil transferase,
produzida por esses genes quando h uma relao de dominncia (HH e Hh) e responsvel por transferir uma
fucose uma substncia precursora do glicoclix das hemcias (formada pela seguinte sequencia: N-
acetilgalactosamina, D-galactose, N-acetilglicosamina, D-galactose),
formando a substncia H. A partir dessa sequncia de acares, tem-se o
depsito de mais um aucar, que determinar o tipo sanguneo do indivduo:
quando ocorre a adio de uma N-α-glicosamina pela enzima A-transferase,
tem-se um grupo sanguneo A; a partir da adio de uma N-α-galactosamina
pela enzima B-transferase, tem-se um grupo sanguneo B; e a partir da
adio desses dois acares simultaneamente, tem-se o grupo AB.
Desta forma, temos:
Indivduos de composio gentica HH ou Hh produzem essa substncia, que serve de base para a
manifestao de todos os antgenos do sistema ABO; Seu grupo ser ento determinado pela presena
ou no dos genes A e B.
Indivduos de composio gentica hh (gentipo muito raro) no produzem o antgeno H. Estes
indivduos sero enquadrados no grupo denominado fentipo falso O ou O-Bombay (observado pela
primeira vez em Bombaim, na India, conhecida atualmente como Mumbai). Este grupo tambm pode ser
designado como Oh. Idependentemente de sua composio gentica em termos dos genes A e B, no
podem produzir nem o antgeno A nem o antgeno B (por falta da fucose na substncia precursora, que
seria instalada pela fucosil transferase – ausente, nestes casos). Estes indivduos desenvolvem os
anticorpos Anti-A e Anti-B, da mesma maneira que todos os indivduos do grupo O. Entretanto,
desenvolvem tambm o anticorpo Anti-H e no podem receber transfus
es de sangue do grupo O
comum (que rico neste antgeno). Este fentipo constitui um problema para os hemoterapeutas e
ocorre em uma frequncia de 1 para 10.000 indivduos na ndia e 1 para 1.000.000 na Europa. Sua
deteco no feita atravs do teste de aglutinao, o que dificulta ainda mais seu manejo.
Os genes IA e IB (codominantes) condicionam a produo dos antgenos A e B, pela adio de carboidratos ao
antgeno H; sua ausncia (gene recessivo i) condiciona a no adio de carboidratos a esta substncia base.
Sua ao se d sobre os indivduos de composio gentica HH e Hh, que representam a quase totalidade da
populao humana. Assim:
Indivduos de composio gentica ii (duplo recessivo) produzem apenas o antgeno H. Estes indivduos
sero do grupo O.
O Gene A (IA) condiciona a adio de uma molcula do carbohidrato N-acetilgalactose a algumas (mas
no todas) molculas de antgeno H. Indivduos de composio gentica IA IA (homozigoto dominante)
ou IAi (heterozigoto) produzem o antgeno A, que ocupar parte dos stios representados pelo antgeno
H. Estes indivduos so do Grupo A. Entrentanto, como nem todos os stios do antgeno H so
ocupados, estes indivduos apresentam tambm o antgeno H, e no desenvolvero anticorpos anti-H.
O Gene B (IB) condiciona a adio de uma molcula do carboidrato D-galactose a algumas (mas no
todas) as cadeias do antgeno H. Indivduos de constituio gentica IB IB ou IBi produzem o antgeno B.
Estes indivduos so do Grupo B. Da mesma forma que os do grupo A, apresentam tambm o antgeno
H e no desenvolvem anti-H.
Por fim, indivduos de constituio gentica AB possuem ambos os alelos em codominncia (IAIB).
Produzem, assim, os antgenos A, B e H, e no produzem anticorpos contra antgenos A nem B.
Desta forma, em resumo, temos:
Gene H Genes IA, IB e i
Gentipo HH e Hh: produzem a fucosil
transferase e, portanto, so capazes de gerar a
substncia H (adio de uma fucose
substncia precursora).
Gentipo hh: no produzem a fucosil
transferase (e, portanto, so classificadas,
fenotipicamente, como falso O, caracterizando
o efeito Bombaim).
Gentipo IAIA e IAi: produzem a enzima que transfere
a N-α-glicosamina para a substncia H.
Gentpio IBIB e IBi: produzem a enzima que transfere
a N-α-galactosamina para a substncia H.
Gentipo IAIB: produzem enzimas que transferem N-
α-glicosamina e N-α-galactosamina, ao mesmo
tempo, para a substncia H.
Gentipo ii: no produzem enzimas para transferir
estes aucares para a substncia H (O verdadeiro).
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111
A seguinte tabela, de forma sumria, esquematiza as possibilidades entre os alelos para determinao do
sistema ABO.
Tipo sanguíneo Genótipo Estrutura do glicocálix Aglutinogênio Aglutinina
A I
A IA ou IA i
HH ou Hh
R – Glc – Gal – GalNac – Gal - GalNac
|
Fuc
A Anti-B
B I
B IB ou IB i
HH ou Hh
R – Glc – Gal – GalNac – Gal - Gal
|
Fuc
B Anti-A
AB IA IB
HH ou Hh
R – Glc – Gal – GalNac – Gal - GalNac
|
Fuc
R – Glc – Gal – GalNac – Gal - Gal
|
Fuc
AB -
O iiHH ou Hh
R – Glc – Gal – GalNac – Gal
|
Fuc
- Anti-A e Anti-B
Falso O hh R – Glc – Gal – GalNac – Gal - Anti-A, Anti-B e Anti-H
IDENTIFICAÇÃO DO SISTEMAABO
A determinao do grupo sanguneo ABO era realizada fazendo-se reagir as hemcias do paciente com soros
Anti-A e Anti-B produzidos em laboratrio, em lminas limpas de microscopia, como mostra o modelo abaixo.
Atualmente, o mtodo mais apurado e bem mais especfico.
Na prova direta, faz-se reagir uma poro das hemcias (de tipagem conhecida) com soros anti-A (colorao
azul), anti-B (colorao amarela) e anti-AB (colorao clara). Hemcias que reagem com o soro anti-A so ditas do grupo
A, e hemcias que reagem com o soro anti-B so do grupo B. Hemcias do grupo AB reagem com ambos os anti-soros,
e hemcias do grupo O no reagem com nenhum dos anti-soros. O soro divalente anti-AB usado como confirmatrio, e
somente no reagir com hemcias do grupo O.
EPIDEMIOLOGIA
O grupo sanguneo O o mais frequente. Quanto aos demais, na ordem do segundo mais frequente para o
menos frequente, temos: grupo A, grupo B e grupo AB.
Tipo sanguíneo Caucasianos Africanos Americanos Asiáticos
Grupo O 45% 49% 41% 47%
Grupo A 41% 27% 28% 38%
Grupo B 10% 20% 26% 11%
Grupo AB 4% 4% 5% 4%
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SISTEMA RHESUS (RH)
O sistema Rhesus recebeu este nome por ter sido o resultado de pesquisas feitas com uma espécie de
macacos, o Macacus rhesus.
Levin e Stone (1939)
relataram o caso de um feto
natimorto gerado por uma mulher que
posteriormente manifestou reação
hemolítica transfusional ao receber
sangue de seu marido (compatível
quanto ao sistema ABO, o único
então conhecido). Landsteiner e
Wiener (1940) descreveram um
anticorpo produzido no soro de
coelhos e cobaias, pela imunização
com hemácias de Macacus rhesus,
que era capaz de aglutinar as
hemácias de 85% das amostras
obtidas de um grupo de caucasóides
americanos. Wiener e Peters (1940)
aproximaram as duas observações,
determinando tratar-se do mesmo
antígeno.
Destes experimentos, os pesquisadores concluíram que no sangue do macaco
reso havia um antígeno que induzia a produção de anticorpos na cobaia. Esse antígeno
foi denominado fator Rh e o anticorpo, anti-Rh. Os sangues que aglutinaram em
presença do fator Rh (que correspondem aproximadamente 85% da população) foram
denominados Rh positivos (Rh+) e os 15% que não apresentaram reação foram
denominados negativos (Rh-) por não possuírem fator Rh.
O anticorpo produzido no sangue da cobaia foi denominado de anti-Rh. Os
indivíduos que apresentavam o fator Rh passaram a ser designados Rh+, o que
geneticamente acreditava-se corresponder aos genótipos DD ou Dd. Os indivíduos que
não apresentam o fator Rh foram designados Rh- e apresentavam o genótipo dd, sendo
considerados geneticamente recessivos.
Os antígenos do sistema Rh são de natureza glicoprotéica, de grande variabilidade. Com o avançar das
pesquisas, o sistema se revelou na prática bem mais complexo do que a tipificação simplesmente em Rh Positivo e Rh
negativo. Hoje, conhecem-se mais de 40 antígenos diferentes pertencentes a este sistema. Mas em resumo, temos:
Fator Rh+: genótipo DD, Dd (85%). O indivíduo possui o fator Rh e não produz anticorpos anti-Rh.
Fator Rh-: genótipo dd (15%). O indivíduo não possui o fator Rh e produz anticorpos Rh a depender do contato
(ver OBS2).
O fator Rh é encontrado nas hemácias, verificando esses pesquisadores que ele obedece às leis da
hereditariedade, sendo o Rh positivo um fator dominante em relação ao Rh negativo. O soro anti-D é usado para
determinar o fator Rh (ver figura abaixo). O sangue que não reage ao soro anti-D, é Rh-. O que reage, é Rh+.
OBS 2: O anticorpo anti-Rh, diferentemente das aglutininas do sistema ABO, não são formados de maneira natural. Para
a formação destes anticorpos, é necessário que haja uma sensibilização prévia. Portanto, para que um indivíduo Rh
negativo produza anticorpos anti-Rh, é necessário que ele tenha entrado em contato com um sangue Rh-positivo ou, no
caso da mulher, tenha abrigado um feto Rh-positivo durante uma gestação (com tudo, em uma outra gestação, pode
ocorrer a chamada eritroblastose fetal, que veremos com maiores detalhes mais a frente, ainda neste capítulo).
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113
COMPATIBILIDADE NO SISTEMA ABO E TRANSFUSO SANGUNEA
Portanto, como vimos at ento, o
sistema ABO se caracteriza pela presena
ou ausncia de dois antgenos (A e B) –
chamados aglutingenos – isolada ou
simultaneamente, em cada indivduo.
A maioria dos seres humanos
(excetuados os lactantes at uma idade
aproximada de 3 a 6 meses, e
eventualmente os indivduos que
apresentam imunossupreso ou outras
circunstncias especiais) apresenta
tambm anticorpos naturais ou aglutininas,
dirigidos contra o(s) antgeno(s) que cada
indivduo no possui, estabelecendo assim
as conhecidas regras de compatibilidade
sangunea para este grupo.
A presena ou ausncia do fator-
Rh e do anticorpo anti-Rh (ou anti-D)
tambm influencia na compatibilidade
sangunea.
Desta forma, temos, em resumo:
Doador Receptor
O-negativo Todos os tipos sanguneos
O-positivo Todos os tipos sanguneos com fator Rh+
A-negativo A-, A+, AB-, AB+
A-positivo A+ e AB+
B-negativo B-, B+, AB-, AB+
B-positivo B+ e AB+
AB- AB- e AB+
AB+ AB+
ERITROBLASTOSE FETAL
A importncia do fator Rh em popula
es
humanas reside no aparecimento, em certas condi
es,
da doena hemoltica do recm-nascido (DHRN) ou
eritroblastose fetal (EF). Para que haja a eritroblastose, A
condio primordial para a ocorrncia dessa anomalia a
seguinte: me Rh-negativa (ver OBS3); pai Rh-positivo; o
filho Rh-positivo.
A eritroblastose fetal (do grego eritro, "vermelho"
e blastos, "broto") ocorre quando uma me de Rh-
negativo que j tenha tido uma criana com Rh+ (ou que
tenha tido contato com sangue Rh+, numa transfuso de
sangue que no tenha respeitado as regras devidas) d
luz uma criana com Rh positivo. Depois do primeiro
parto, ou da transfuso acidental, o sangue da me entra
em contato com o sangue do feto e cria anticorpos contra
os antgenos presentes nas hemcias caracterizadas
pelo Rh+.
Como na primeira gestao a me no ficou muito sensibilizada pelo fator Rh, a criana sobrevive, mas deve ser
submetida a uma transfuso de sangue Rh. Assim, os anticorpos anti-Rh que, porventura, estejam no sangue fetal no
tero hemcias para aglutinar. Com o decorrer do tempo, esse sangue ser substitudo por novo sangue que o feto
passa a produzir.
Durante a segunda gravidez, esses anticorpos podem atravessar a placenta e provocar a hemlise das
hemcias da segunda criana. A destruio em massa desses eritroblastos causa uma anemia perinatal severa,
podendo cursar com anasarca, ictercia, insuficincia cardaca, esplenomegalia, hepatomegalia e, em boa parte das
vezes, morte.
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Como resposta anemia, so produzidas e lanadas no sangue hemcias imaturas, chamadas de eritroblastos.
A doena chamada de eritroblastose fetal pelo fato de haver eritroblastos em circulao.
O tratamento da criana consiste, basicamente, na observao, com controle dos nveis de bilirrubina;
fototerapia, se necessrio; transfuso simples de concentrado de hemcias. Em casos graves, proceder com transfuso
de substituio total ou exsanguneo transfuso.
Para prevenir a Eritroblastose fetal, a me Rh negativo que tem parceiro Rh positivo pode receber gamaglobulina
anti-RH por via injetvel logo aps o nascimento do primeiro beb RH positivo. Essa substncia bloqueia o processo que
produz anticorpos contra o sangue RH positivo do feto. A me recebe uma dose passiva temporria de anticorpos que
destroem clulas sanguneas RH positivo,impedindo assim que a me produza anticorpos permanentes.
OBS3: A herana gentica do gene D para o fator Rh se d na forma de uma trinca de genes (D ou d, C ou c, E ou e).
Os genes c e e, mesmo quando recessivos, so antignicos. Desta forma, a doena hemoltica perinatal no uma
condio exclusiva das mulheres Rh-negativas, pois podem haver rea
es relacionadas com antgenos produzidos por
estes outros genes (desde que o marido apresente os genes C e E – dominantes), embora sejam rea
es muito raras.
OBS4: Os anticorpos anti-Rh no existem naturalmente no sangue das pessoas, sendo fabricados apenas por indivduos
Rh-negativos, quando estes recebem transfus
es de sangue Rh+ ou quando a mulher entra em contato com as
hemcias do filho Rh-positivo. Afora estas condi
es, pessoas Rh-positivo nunca produziriam anticorpos anti-Rh, pois se
o fizessem provocariam a destruio de suas prprias hemcias.
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MED RESUMOS 2011
NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
HEMOGRAMA
(Professora Angelina Cartaxo)
O hemograma definido como o estudo qualitativo e quantitativo das clulas sanguneas, objetivando ajudar o
mdico no diagnstico ou no controle das doenas. O uso do hemograma por praticamente quase todas as
especialidades da medicina pode ser explicado pelo fato de que, alm de ser um exame barato e bastante acessvel,
capaz de avaliar o paciente de uma forma global, nos dando uma idia mais especfica do estado sanguneo do
paciente.
A anlise do hemograma se faz importante no s para as especialidades clnicas, como tambm para as
cirrgicas: avaliar se um paciente est anmico antes de um procedimento bastante pertinente, partindo-se do ponto
de vista que h um risco iminente de sangramento em tal procedimento, o que poderia complicar ainda mais o quadro do
mesmo. Avaliar o estado plaquetrio – o que tambm possvel por meio do hemograma – tambm essencial, uma
vez que ela a clula responsvel pela hemostasia primria. Um outro exemplo importante mostra o papel do
hemograma para o diagnstico e segmento das infec
es: um paciente que apresente um determinado quadro
infeccioso tende a apresentar uma leucometria elevada (leucocitose). O diagnstico de uma anemia em uma criana
tambm se faz importante, uma vez que ela pode interferir de maneira negativa no seu desenvolvimento.
Portanto, vrios dados clnicos e cirrgicos importantes podem ser levantados a partir de uma anlise do
hemograma, uma vez que ele disponibiliza ao mdico informa
es relacionadas aos seguintes parmetros:
Eritrograma: estuda as altera
es quantitativas e morfologia dos eritrcitos, as altera
es na hemoglobina , no
hematcrito e nos ndices globulares.
Leucograma: estuda a contagem (leucometria) em valor absoluto e em percentual dos leuccitos e sua
morfologia.
Plaquetograma: estuda a contagem e morfologia das plaquetas.
RESUMO DA HEMATOPOIESE
Como vimos a propsito do primeiro captulo deste material, a hematopoiese consiste processo de formao,
desenvolvimento e maturao dos elementos do sangue (eritrcitos, leuccitos e plaquetas) a partir de uma clula-tronco
percursora, conhecida como clula hematopoitica pluripotente.
Ela d origem a pelo menos dois tipos de clulas: a clula comissionada de tecido mielide e a clula
comissionada de tecido linfide. A primeira d origem a clulas do tecido mielide (eritrcitos, basfilos, eosinfilos,
neutrfilos, moncitos e plaquetas). A segunda, da origem a clulas da linhagem linfide (linfcitos, clulas NK, etc.).
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Desta forma, temos, em resumo:
O eritroblasto, derivado da clula comissionada mielide, d origem ao pr-eritroblasto, eritroblasto basfilo,
eritroblasto policromtico, eritroblasto ortocromtico e, por fim, reticulcito, que constitui a ltima fase de
diferenciao das clulas vermelhas antes da hemcia. possvel encontrar, alm das hemcias, determinadas
porcentagens de reticulcitos no sangue perifrico normal. A sua dosagem (solicitada a parte, e no analisada
diretamente no hemograma) se faz importante pois eles refletem a atividade da medula ssea.
O mieloblasto, tambm derivado da clula comissionada mielide, d origem ao pr-mielcito, mielcito,
metamielcito (com ncleo j em formato de feijo) e, por fim, em clula com ncleo em basto (bastonete).
Este, por sua vez, dar origem as clulas com ncleo segmentado, que so basfilos, eosinfilos e neutrfilos.
O monoblasto, tambm originado a partir da clula comissionada mielide, d origem ao pr-moncito e ao
moncito, o qual, a depender de estmulos quimiotxicos inflamatrios, migra para o tecido e forma o macrfago.
O megacarioblasto, derivado da clula comissionada mielide, converte-se em pr-megacaricito e, por fim, em
megacaricito, cujos fragmentos membranosos d origem s plaquetas.
J a clula comissionada de tecido linfide d origem ao linfoblasto, que por sua vez dar origem ao pr-linfcito
e, por fim, ao linfcito B (se for maturado na medula ssea) e T (se for maturado no timo).
Destas clulas, o hemograma normal capaz de visualizar e de trazer dados quantitativos e qualitativos
referentes s hemcias, basfilos, eosinfilos, neutrfilos, moncitos, plaquetas e linfcitos.
COLETA DE SANGUE E MTODOS DE ANLISE
O sangue perifrico do indivduo colhido em tubo de ensaio de
vidro contendo anticoagulante (EDTA) e que dever ser rotulado,
contendo o nome do paciente e lacrado com tampa. A identificao do
paciente deve conter, pelo menos, os seguintes dados: Nome completo;
Sexo; Idade; Endereo completo, telefone; Nome do mdico que solicitou
o hemograma; Nmero do registro do paciente no laboratrio.
Os mtodos de anlise do sangue podem ser automatizado ou
no-automatizado (manual). Obviamente, o primeiro mais utilizado na
prtica atual.
Mtodo no-automatizado: consiste na contagem manual do
nmero de hemcias, plaquetas e leuccitos. Os instrumentos
utilizados so: microscpio, centrfuga e espectrofotmetro ou
fotocolormetro.
Automatizada: so utilizados aparelhos que usam uma pequena quantidade de sangue. Neles, h dois
sensores principais: um detector de luz e um de impedncia eltrica. A contagem baseada nas diferenas de
tamanho das clulas. Em relao a srie vermelha, o aparelho mede a quantidade de hemoglobina, o nmero de
hemcias e o tamanho destas, realizando clculos para chegar ao valor do hematcrito e os outros ndices
hematimtricos. As plaquetas tambm so contadas por aparelhos.
ERITROGRAMA
O eritrograma o estudo da srie vermelha (eritrcitos ou hemcias). Ao microscpio, as hemcias tem
colorao acidfila (afinidade pelos corantes cidos que do colorao rsea) e so desprovidos de ncleo. As hemcias
apresentam colorao central mais plida e colorao um pouco mais escura na periferia, sendo clulas bicncovas. Em
indivduos normais, possuem tamanho mais ou menos uniforme. Quando uma hemcia tem tamanho normal ela
chamada de normocítica; quando ela apresenta colorao normal chamada de normocrômica.
O estudo da srie vermelha revela algumas altera
es relacionadas como por exemplo anemia, eritrocitose
(aumento do nmero de hemcias). Os resultados a serem avaliados so: hematometria, hematcrito, hemoglobina,
VCM (volume corpuscular mdio), HCM (hemoglobina corpurscular mdia), CHCM (concentrao de hemoglobina
corpuscular mdia) e RDW (Red Cell Distribution Width).
Destes parmetros, a hemoglobina um dos mais importantes – at mais que a hematometria. Isso porque o
indivduo pode ter 5 milh
es de hemcias mas, mesmo assim, ter anemia (definida por nveis reduzidos de
hemoglobina), o que semostra como um quadro mais importante pois a hemoglobina a principal responsvel pelo
transporte dos gases respiratrios.
Desta forma, os principais valores a serem avaliados, com mais detalhes, so:
Hematometria (contagem do nmero de hemcias): os valores normais variam de acordo com o sexo e com
a idade. Valores normais: Homem de 5.000.000 - 5.500.000 e Mulher de 4.500.000 - 5.000.000. Seu resultado
dado em nmero por mililitro (ml).
Hemoglobina – g/dl: segundo a Organizao Mundial de Sade, os valores normais de Hb so: >13g/dl para
homens; >12g/dl para mulheres; >11g/dl para grvidas e crianas.
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Hematcrito – % : um ndice, calculado em porcentagem, definido pelo volume de todas as hemcias de uma
amostra sobre o volume total desta amostra (que contm, alm das hemcias, os leuccitos, as plaquetas e,
claro, o plasma, que geralmente representa mais de 50% do volume total da amostra). Os valores variam com o
sexo e com a idade. Valores: Homem de 40 - 50% e Mulher de 36 - 45%. Recm-nascidos tem valores altos que
vo abaixando com a idade at o valor normal de um adulto.
VCM (Volume Corpuscular Mdio) – fl: o ndice que ajuda na observao do tamanho das hemcias e no
diagnstico da anemia: se pequenas so consideradas microcíticas (< 80fl, para adultos), se grandes
consideradas macrocíticas (> 100fl, para adultos) e se so normais, normocticas (80 - 100fl). A anisocitose
denominao que se d quando h alterao no tamanho das hemcias. As anemais microcticas mais comuns
so a ferropriva e as sndromes talassmicas. As anemias macrocticas mais comuns so as anemia
megaloblstica e perniciosa. O resultado do VCM dado em fentolitro (fl).
HCM (Hemoglobina Corpuscular Mdia) – pg: o peso da hemoglobina na hemcia. Seu resultado dado em
picogramas. O intervalo normal 26-34pg
CHCM (concentrao de hemoglobina corpuscular mdia) – %: a concentrao da hemoglobina dentro de
uma hemcia. O intervalo normal de 32 – 36%. Como a colorao da hemcia depende da quantidade de
hemoglobina elas so chamadas de hipocrômicas (< 32), hipercrômicas (> 36, embora seja um termo que no
to utilizado) e hemcias normocrômicas (no intervalo de normalidade). importante observar que na
esferocitose o CHCM geralmente elevado.
RDW (Red Cell Distribution Width): um ndice que indica a anisocitose (variao de tamanho), sendo o
normal de 11 a 14%, representando a percentagem de variao dos volumes obtidos. Nem todos os laboratrios
fornecem o seu resultado no hemograma.
Normalmente realiza-se uma anlise estatstica em testes realizados em um grande grupo de indivduos normais
para se chegar aos lmites estabalecidos para hemoglobina, hematcrito e nmero de hemcias, isto quer dizer que
cada regio possui um lmite de normalidade.
RELA
ES MATEMTICAS
Por meio de frmulas matemticas, possvel obter as rela
es entre alguns dos parmetros analisados no
eritrograma. Desta forma, temos:
Em um indivduo normal, a hematimetria pode ser empiricamente estipulada somando-se 4 ao valor absoluto do hematcrito.
Ao resultado, podemos multiplicar por 100.000.
Ex: Ht=40%.
No de hemácias = (40% + 4) x 100.000
No de hemácias = 44 x 100.000
No de hemácias = 4,4 milhões.
Em um indivduo normal e sem anemia, o Hematcrito cerca de 3 vezes o valor absoluto da hemoglobina. Seu valor de
referncia : 40 – 50% no homem; 36 – 45% na mulher. Antigamente, o hematcrito era muito utilizado como parmetro.
Atualmente, entretanto, no mais to utilizado devido s disparidades das compara
es entre os resultados dos mtodos
automatizados e no-automatizados.
Ex: Hb = 14,8.
Hematócrito = 3 x 14,8 = 44,4%
O VCM ndice que ajuda na observao do tamanho das hemcias (Valor de referncia: 80 – 100fl). Se a hemcia for
maior que esta faixa, diz-se que ela macroctica; se for menor que esta faixa, diz-se que microctica. Seu valor pode ser
estipulado a partir da relao entre o hematcrito sobre a hematimetria. Desta formulao, conclui-se que: o VCM
diretamente proporcional ao hematcrito e inversamente proporcional hematimetria. Desta forma, se o paciente analisado
tem um valor fixo de hematcrito (constante e igual a um outro paciente com hematcrito e hemcias normais), mas
apresenta uma hematimetria aumentada (com relao ao outro paciente), quer dizer que suas hemcias so menores (pois
para ocupar uma mesma proporo calculada no hematcrito em um tubo de ensaio, mas com um nmero maior de
hemcias, elas devem ser menores); o contrrio tambm verdadeiro.
Ex: Ht = 35%; Hematimetria: 3,8 milhões de hemácias.
VCM = 35 x 100/38 = 92fl.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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A HCM diz respeito ao peso de hemoglobina em cada hemácia (VR = 26 – 34pg). Seu valor pode ser estimado a partir da
relação entre a hemoglobina sobre a hematimetria. Sua análise poderá determinar se a eventual anemia é normocrômica ou
hipocrômica. Contudo, é uma prova com menor valor do que o CHCM.
Ex: Hb = 11g/dl; Hematimetria = 3,8 milhões de hemácias.
HCM = 11 x 100/38 = 28,9
A CHCM calcula a concentração da hemoglobina dentro de uma hemácia (VR = 32 – 36%). Seu valor é obtido através da
relação entre a hemoglobina e o hematócrito. Sua análise tem mais valor clínico do que o HCM.
Ex: Hb = 11g/dl; Ht = 35%.
CHCM = 11/35 (x 100) = 31,4%
VALORES DE REFERNCIA DO ERITROGRAMA
Parmetros hematimtricos em adultos normais
Parmetro laboratorial Homens Mulheres
Hematimetria 4.400 000 a 5.900 000/mm3 3.800 000 a 5.200 000/mm3
Hematcrito 40 a 52% 34 a 47%
Hemoglobina 13 a 18g/dl 12 a 16g/dl(grávida = 11 a 16g/dl)
VCM 80 a 100 fl 80 a 100 fl
HCM 26 a 34 pg 26 a 34 pg
CHCM 32 a 36% 32 a 36%
RDW 11,5,a 14,5 11,5 a 14,5
OBS2: Note que existem diferenças importantes entre alguns valores de referência da mulher e do homem. Estas
diferenças podem ser explicadas por, pelo menos, dois fatores: (1) presença da menstruação no sexo feminino; (2) nas
amostragens, a mulher se mostra menor (no que diz respeito a massa corporal) do que o homem.
ANLISE DO ESFREGA
O E ESTUDO MORFOLGICO DAS HEMCIAS
A coloração do esfregaço da amostra de sangue é
efetuada com corantes que têm em sua composição o azul de
metileno, a eosina e o metanol. Os principais métodos de
coloração são: Leishman, Giemsa, May-Grunwald, Wright,
panótico. O esfregaço ideal deve conter três áreas de distribuição
regular (como mostra a figura ao lado). A análise microscópica da
lâmina deve ser feita no ponto médio, onde as células se mostram
bem distribuídas, em número proporcional.
A análise da lâmina de esfregaço é importante pois
existem informações obtidas através desta análise que não são
possíveis de serem levantados através da análise dos valores
numéricos dos demais parâmetros do eritrograma, como a
morfologia da hemácia. A sequência de análise da morfologia
consiste em:
Tamanho: microcítica, normocítica ou macrocítica.
Forma: presença de poiquilocitose ou pecilocitose
(alteração na forma da hemácia)
Coloração celular: hipocromia, normocromia, policromasia.
Inclusões
A morfologia das hemcias (ou estudo da forma das hemácias) é feita em microscópio, analisando o esfregaço
de sangue. As formas encontradas são:
Drepanócitos (forma de foice): aparece somente nas síndromes falciformes (não aparecendo no traço
falciforme).
Esferócitos (forma esférica, pequena e hipercrômica): em grande quantidade é comum na anemia esferocítica
(esferocitose), em menores quantidades podem estar presentes em outros tipos de anemias hemolíticas.
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Eliptócitos(forma de charuto): em grandes quantidades comum na eliptocitose. Em menores quantidades podem
aparecer em qualquer tipo de anemia.
Hemácias em alvo (células cujas membranas são grandes havendo uma palidez e um alvo central mais corado):
aparece em hemoglobinopatias C, E ou S, nas síndromes talassêmicas e em pacientes com doença hepática.
Dacriócitos (forma de lágrima): em grande quantidade na mielofibrose. Em pequena quantidade podem aparecer
em qualquer tipo de anemia.
Hemácias policromáticas (forma normal mas com coloração azul devido a presença de RNA residual): são
reticulócitos, formas imaturas dos eritrócitos. Aparece quando grandes quantidades de hemácias novas estão
sendo produzidas. Comuns em anemias hemolíticas.
Esquizócitos (hemácias fragmentadas): aparecem quando nas hemácias há uma lesão mecânica, em casos de
hemólise, ou em casos de pacientes que sofreram queimaduras.
Hemácias mordidas: quando ocorre a formação um precipitado de hemoglobina nas hemácias (chamados de
Corpúsculos de Heinz) ocorre remoção destes precipitados pelo baço formando um aspecto de hemácia
mordida.
Acantócitos (hemácias com pontas de diversos tamanhos): nas hepatopatias, hipofunção esplênica,
esplenectomizados.
Crenadas (hemácias com várias pontas pequenas): na uremia, quando o paciente faz tratamento com heparina,
deficiência de piruvatoquinase.
Hemácias normais.
Reticulócitos. São as células precursoras imediatas das hemácias, sendo elas o
último ponto da diferenciação do pró-eritroblasto. Sua análise na decorrência de uma
anemia determina o grau de produção das células na medula óssea: se ela estiver
presente, significa dizer que a anemia é regenerativa (anemia decorrente de uma
hemorragia; anemia hemolítica, etc.) e, com isso, há produção normal de células na
medula óssea; se ela estiver ausente, significa dizer que a anemia é arregenerativa
(tumores de medula óssea, etc.), indicando uma produção deficiente de células na
medula.
Microcitose com hipocromia. A lâmina mostra hemácias pequenas e hipocoradas,
mas sem anisocitose (alterações entre as dimensões das hemácias analisadas) e sem
poiquilocitose (alterações na forma das hemácias).
Macrocitose. Lâmina mostrando hemácias aumentadas (VCM > 110), como ocorre na
anemia megalobástica.
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Anisocitose. Ocorre diferenças entre os tamanhos das hemácias, mas sem alteração
da forma.
Poiquilocitose. Lâmina mostrando alterações na forma das hemácias.
Policromasia, caracterizada por alterações na coloração no interior da hemácia,
podendo caracterizar uma anemia hemolítica (hereditária ou adquirida).
Drepanócitos. Lâmina mostrando hemácias em forma de foice, característico da
anemia falciforme.
Eliptócitos ou ovalócitos. Defeito hereditário da membrana (Eliptose hereditária ou
adquirida: anemia ferropriva, anemia megalobástica.
Esferócitos. Defeito de membrana por alteração genética da espectrina
(caracterizando a esferocitose, uma anemia hemolítica hereditária na qual existe um
defeito na produção da membrana plasmática da hemácia, a qual se torna mais
frágil, formando células pequenas com grande concentração de hemoglobina) ou
agressão por anticorpos (anemia hemolítica auto-imune - AHAI).
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Dacriócitos, que so hemcias em forma de lgrima. Comum na mielofibrose e na
anemia mieloblstica.
Hemácias em alvo. Achado caracterstico nas hemoglobinopatias e na
Talassemia.
Equinócitos ou hemácias crenadas. So hemcias com vrias pontas pequenas
comuns nas hepatopatias, mas pode ser encontrada em caso de uso de heparina
ou artefatos em lminas por substncia alcalina.
Acantócitos. Hemcias com pontas de diversos tamanhos. Podem ser vistas nas
hepatopatias e em pacientes esplenectomizados.
Esquizócitos ou hemcias fragmentadas. So hemcias com forma irregular, de
formato “esquisito”. comum na anemia microangioptica e na coagulao
intravascular disseminada (CIVD).
Eritroblastos. So clulas jovens que, quando presentes na circulao perifrica,
podem indicar uma produo medular exageradamente aumentada (como ocorre
na anemia hemoltica). Isso ocorre pela maior liberao de clulas jovens pela
medula na medida em que as hemcias so destrudas.
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OBS2: Outros achados não relacionados a forma:
Hemácias aglutinadas (agrupamentos de hemácias): quando a hemlise causada por um anticorpo contra
hemcias, elas acabam se agrupando (crioaglutininas).
Hemácias em Roleux (hemácias em rolos, formam pilhas de rolos de hemácias): aparece em alta
concentrao de globulinas anormais, mieloma mltiplo e macroglobulinemia.
OBS3: Inclusões nas hemácias:
Corpúsculos de Howell-Jolly: aparecem como se fossem um boto azul escuro junto membrana da hemcia,
por fragmento nuclear ou DNA condensado. So comuns aps esplenectomia, anemias hemolticas severas.
Hemácias com pontilhados basófilos: caracterizadas por vrios pontos roxos dentro da hemcia, pela
precipitao dos ribossomos ricos em RNA. Aparecem na talassemia beta, intoxicao por chumbo, anemia
hemoltica por deficincia de pirimidina-5-nucleotidase.
Anel de Cabot: caracterizada pela forma de uma anel ou em oito dentro da hemcia, por restos nucleares.
Ocorrem em em anemias hemolticas severas.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
Com o que foi visto at ento, o hemograma, atravs da anlise do eritrograma, nos permite avaliar as seguintes
situa
es no que diz respeito aos valores de hemoglobina:
Hemoglobina diminuída (♂ < 13g/dl; ♀ < 12g/dl; ♀ grvidas < 11g/dl) indica a presena de anemia. Esta pode
ser classificada em:
Microctica e hipocrmica
a) Reticulcitos diminudos: anemia ferropriva.
b) Reticulcitos aumentados: talassemia, anemia falciforme, esferocitose.
Normoctica e normocrmica
a) Reticulcitos diminudos ou normais: doenas crnicas (diabetes, hipotireoidismo, insuficincia
renal crnica, cncer, etc.).
b) Reticulcitos aumentados: anemia hemoltica auto-imune (AHAI)
Macroctica e normocrmica (anemia megalobstica)
a) Reticulcitos diminudos: deficincia de cido flico e/ou deficincia de vitamina B12 (ingredientes
fundamentais na constituio do material gentico). A deficincia destas duas vitaminas tambm
gera um quadro de pancitopenia.
b) Reticulcitos aumentados: AHAI.
Hemoglobina normal (♂ 13 - 18g/dl; ♀ 11 - 16g/dl)
Hemoglobina aumentada (♂ > 18g/dl; ♀ > 16g/dl) indica poliglobulia, que pode ser funcional (comum em
indivduos que residem em grandes altitudes) como tambm pode sugerir doenas, como a DPOC
(desencadeada por deficincias de trocas gasosas por problemas nos alvolos) e policitemia vera (causa
primria na medula ssea caracterizada por uma alterao gentica que faz com que ela produza hemcias em
grandes quantidades, fazendo com que o sangue se torne mais viscoso e aumente chances de doenas
cardiovasculares, como AVCs e infartos).
A B C Analisando os dados laboratoriais da tabela, podemos chegar s seguintes conclus
es:
O paciente A apresenta um eritrograma normal. necessrio, contudo, avaliar o
esfregao da lmina para avaliar a morfologia das hemcias.
O paciente B se apresenta com anemia (Hb de 10 g/dl), normoctica (VCM
normal = 95fl) e normocrmica (HCM = 34pg)
O paciente C apresenta uma poliglobulia (Hb = 19g/dl).
Hb g/dl 12,9 10 19
Ht % 37 30 57
VCM 93 95 85
HCM 32,4 34 36
CHCM 34,9 36 37
D E F Analisando os dados laboratoriais da tabela, podemos chegar s seguintes conclus
es:
O paciente D apresenta uma anemia (Hb = 9,0g/dl), microctica (VCM = 68,3fl)
e hipocrmica (HCM= 21,6pg).
O paciente E apresenta uma anemia (Hb = 10g/dl), normoctica (VCM = 90fl) e
normocrmica (HCM = 32pg).
O paciente F apresenta uma anemia severa (Hb = 5,7g/dl), macroctica (VCM =
124fl) e normocrmica (HCM = 36), sugerindo uma anemia megaloblstica.
Hb g/dl 9,0 10 5,7
Ht % 28,4 30 18,7
VCM 68,3 90 124
HCM 21,6 32 36
CHCM 15,7 33 36
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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LEUCOGRAMA
O leucograma é o estudo da série branca (ou leucócitos), em que se faz uma contagem total dos leucócitos e
uma contagem diferencial contando-se 100 células. O adulto normalmente apresenta de 5.000-10.000 leucócitos por
mm³ de sangue aproximadamente.
Como vimos a propósito de capítulos anteriores, as células da linhagem linfóide formadas até o mielócito
inclusive (mieloblasto, pró-mielócito e mielócito) são agrupadas no chamado compartimento mitótico medular (em
comum, todas estas células se formam por mitose e não realizam fagocitose de agentes estranhos). Já as células que
vão desde os metamielócitos até os segmentados são células do chamado compartimento de reserva medular (CRM),
e que existem na medula óssea com o objetivo de suprir uma necessidade na vigência de um processo infeccioso, por
exemplo. Isso se faz importante pois, diferentemente das hemácias, os granulócitos vivem apenas poucas horas: o
segmentado neutrófilo, por exemplo, vive apenas 6 horas.
Além disso, os leucócitos, quando chegam ao sangue periférico, podem se comportar de duas maneiras: podem
integrar o compartimento circulante (ocupando a circulação sanguínea propriamente dita) ou integrar o
compartimento marginal (quando se encontra aderido às paredes dos vasos). Nesta forma, os leucócitos não são
determinados ou mensurados pelo hemograma, mas na presença de uma infecção, eles podem retornar ao
compartimento circulante. Estes compartimentos sempre estão em renovação constate: assim que um leucócito passa a
integrar o compartimento marginal, outro leucócito ocupa seu lugar no compartimento circulante.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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OBS4: Quando os leucócitos ocupam o compartimento marginal na circulação sanguínea, eles não podem ser mensurados no
leucograma. Eles assim permanecem em situações de jejum e repouso, podendo interferir nos resultados dos exames, mostrando-se
como uma leucopenia distributiva. Ao contrário disso, alguns fatores podem fazer com que o leucograma de um indivíduo normal
apresente uma leucocitose fictícia: alimentação, exercício físico, estresses orgânicos ou psicológicos, etc. Estas situações cursam,
de um modo geral, com a liberação de ACTH e adrenalina, que impedem a marginação dos leucócitos, podendo promover este viés
no leucograma,
CONTAGEM DIFERENCIAL DE LEUCÓCITOS
Em um paciente normal, as células encontradas (e seus respectivos valores de referência) são:
Monócitos (120 a 1.000/ml; 3 a 10%): uma das maiores células da série branca, têm citoplasma azulado,
núcleo irregular (indentado, lobulado, em C ou oval) podem ter vacúolos (pela recente fagocitose). Quando estão
aumentados usa-se o termo monocitose e ocorre em infecções virais, leucemia mielomonocítica crônica e após
quimioterapia.
Linfócitos (880 a 4.000/ml; 22 a 40%): se pequenos têm citoplasma escasso, núcleo redondo; se grandes têm
citoplasma um pouco mais abundante. Podem ter grânulos. É a célula predominante nos hemogramas de
crianças (70% em crianças, contra 30% em adultos, em condições normais). Seu aumento é chamado de
linfocitose. Em adultos, seu aumento pode ser indício de infecção viral ou leucemia linfocítica crônica.
Eosinófilos (40 a 500/ml; 1 a 5%): citoplasma basofílico que não é visualizado por causa da presença de
grânulos específicos (de coloração laranja-avermelhada), com núcleo com 2-3 lóbulos. Quando seu número
aumenta é chamado de eosinofilia, e ocorre em casos de processos alérgicos ou parasitoses.
Basófilos (0 a 200/ml; 0 a 2%): citoplasma cheio de grânulos preto-purpúreos que cobrem o citoplasma. Em um
indivíduo normal, só é encontrado até uma célula (em termos percentuais); seu aumento ocorre em processos
alérgicos.
Neutrófilos Segmentados (1.800 a 7.500/ml; 45 a 75%): citoplasma acidófilo (róseo), núcleo com vários
lóbulos (2-5 lóbulos) conectados com filamento estreito. É a célula mais encontrada em hemogramas de
adultos. Seu aumento pode indicar infecção bacteriana, mas pode estar aumentada em infecção viral.
Neutrófilos.
O neutrófilo é o leucócito segmentado mais abundante
no sangue periférico de adultos (aproximadamente 70% do
leucograma). Consiste na principal célula fagocítica e
microbicida das defesas imunes, sendo produzidas na medula
óssea a partir de células progenitoras pluripotenciais sob a ação
de vários mediadores G-CSF e GM-CSF, sendo a primeira
linhagem de células a alcançar o foco infeccioso. Os leucócitos
são liberados da medula óssea para o sangue periférico, onde
sua vida média é de 6 - 7 horas.
No que diz respeito ao comportamento dos neutrófilos,
temos:
Neutrofilia verdadeira: corresponde ao aumento real
do número de neutrófilos, que ocorre quando a medula
óssea é solicitada para produção de neutrófilos,
passando a enviar células inclusive imaturas. As
principais causas de neutrofilia verdadeira são:
Infecções bacterianas diversas: estafilococos, estreptococos, pneumococos, meningococo, gonococo, E.
coli, P. aeruginosa;
Alguns vírus (vírus da raiva, vírus da poliomielite, herpes zoster).
Pseudoneutrofilia: acontece na vigência de um estímulo adrenérgico, que faz com que os neutrófilos da zona
marginal tornem-se circulantes, aumentando o leucograma sem que haja, necessariamente uma infecção.
Também há indução pelo uso de glicocorticóides.
Neutropenia: a diminuição do número de neutrófilos pode ocorrer na vigência das seguintes situações:
Algumas infecções bacterianas: febre tifóide e paratifóide, etc;
Infecções virais: a maioria dos vírus causa leucopenia, tais como: vírus da influenza, sarampo,
mononucleose (esta cursa com leucocitose as custas de linfócitos atípicos), hepatite infecciosa, dengue
(que costuma cursar com leucopenia e plaquetopenia).
Protozoários: malária, calazar (leishmaniose).
Infecções graves, como a tuberculose miliar e a sepse.
Doenças hematológicas: anemia aplástica, anemia megalobástica, anemia ferropriva.
Doenças auto-imunes: LES, artrite reumatóide, síndrome de Sjöegren.
Alguns produtos químicos tóxicos à medula óssea (como derivados de petróleo)
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125
Medicamentos: analgésicos e antiinflamatórios (Dipirona, Tributazona), antibióticos (Cloranfenicol,
Clindamicina, Gentamicina, Vancomicina), anticonvulsivantes (Carbamazepina, Imipramida, Fenitoína),
anti-hipertensivos (Propanolol, Captopril, etc.).
Ao contrário dos macrófagos, os neutrófilos não residem em tecidos saudáveis ou não se apresentam circulando
livremente no sangue. Eles só migram para estes locais na presença de danos teciduais, sendo os tecidos o local de
consumo.
A principal função dos neutrófilos é impedir ou retardar a introdução de agentes infecciosos ou material estranho
no ambiente do hospedeiro. Essa função é realizada através da fagocitose e digestão do material.
A interleucina 8 aumenta a capacidade dos neutrófilos de destruir bactérias pela intensificação fagocitose,
liberação de grânulos, que desencadeia assim uma firme adesão dos neutrófilos a célula endotelial, migração para os
tecidos e ativa seu mecanismo efetor.
Os neutrófilos são atraídos pelo estímulo quimiotáxico por produtos bacterianos e componentes do
complemento. Isso é o início da resposta imediata que ocorre em menos de uma hora. Acinética dos neutrófilos
caracteriza-se pelas seguintes etapas: (1) Adesão, rolamento e diapedese; (2) Ingestão do agente infeccioso; (3)
Desgranulação; (4) Destruição do organismo.
Eosinófilos.
Assim como os neutrófilos, os eosinófilos são
produzidos e armazenados na medula óssea. Eles são
atraídos para tecidos, onde exista invasão por parasitas ou
sítios de reação alérgica.
Três citocinas têm um papel importante na
diferenciação dos eosinófilos: IL-3, IL-5 e o fator estimulador
de granulócitos e macrófagos (GM-CSF). Os eosinófilos têm
atividade proinflamatória e citotóxica, participando da reação e
patogênese de numerosas doenças alérgicas, parasitárias e
neoplásicas.
As alterações na contagem dos eosinófilos são:
Eosinofilia: doenças alérgicas (asmas, doenças cutâneas como escabiose, pênfigo, etc.), infecções por
parasitas, doenças hematológicas (ateroembolismo), Síndrome de Churg-Strauss, algumas formas de leucemia
mielóide aguda, leucemia mielóide crônica, Linfoma de Hodgkin, Doença de Addison, etc.
Eosinopenia: não existe uma condição patológica que cause eosinopenia, uma vez que o seu valor normal vai
desde 1 a 5%.
Basófilos.
Os grandes grânulos dos basófilos são ricos em
histamina, serotonina e leucotrienos.
São, portanto, a principal fonte de histamina na
circulação, que é liberada pela desgranulação
determinada pela interação de seus receptores Fc com
IgE. A histamina, liberada pelos basófilos, é um pontente
agente quimiotático para os eosinófilos.
As alterações na contagem dos basófilos são:
Basofilia: mixedema, câncer, infecções virais como a varicela e influenza, infecções crônicas (tuberculose),
neopaslias pulmonares, estados inflamatórios (como na artrite reumatóide e colite ulcerativa), deficiência de
ferro, doenças mieloproliferativas, leucemias.
Basopenia: é rara assim como a eosinopenia.
Monócitos.
Os monócitos são células originadas na medula óssea,
onde encontramos as formas imaturas, monoblastos e
promonócitos.
Os monócitos são as células circulantes efetivas no
sangue; contudo, quando ativadas, elas migram para os
tecidos, se transformam em macrófagos e fagocitam antígenos
para processamento e apresentação celular. Eles apresentam
uma meia vida de 8,4 horas e daí vai para os tecidos. Nestes
sobrevivem por alguns anos como macrófagos tissulares.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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Elas so clulas ricas em enzimas como fosfatase alcalina, lisozimas e β- glicuronidases. So importantes
tambm pois possuem uma capacidade maior de fagocitose sem um prvio conhecimento do invasor, exercendo a
funo de digesto e apresentao de antgeno processado ao linfcitos CD4 (base da resposta imune). So, portanto,
as clulas envolvidas na ativao de clulas T virgens especficas para o antgeno.
A monocitose pode ocorrer nas seguintes condi
es: tuberculose, endocardite bacteriana, sflis, linfomas e
leucemias, doenas do colgeno, sarcoidose, etc.
Linfócitos.
Os linfcitos so produzidos a partir de uma
clula-tronco progenitora da medula ssea que d origem
a linhagem linfide com linfcitos B e T. Os linfcitos B,
amadurecidos na medula ssea, podem se diferenciar em
plasmcitos e produzirem anticorpos; os linfcitos T
amadurecem no timo. impossvel, microscopicamente,
diferenciar os linfcitos B e T.
Os tecidos linfides dividem-se em dois tipos:
Tecido linfóide primário: so os rgos onde
ocorre o amadurecimento dos linfcitos (medula
ssea e timo)
Tecidos linfóides secundários: onde os linfcitos maduros se tornam estimulados para responder a patgenos
via apresentao antignica (linfonodos, bao e tecido linfide associado ao intestino).
Os linfcitos podem participam de dois tipos de respostas:
Inata ou imediata: a primeira defesa do organismo, mas nem sempre consegue eliminar a infeco.
Adaptativa (tardia): iniciada nos tecidos linfides (bao e linfonodos), onde os linfcitos patgenos especficos
encontram os antgenos e so ativados por eles.
As altera
es na contagem de linfcitos podem ocorrer nos seguintes casos:
Linfocitose: infec
es como mononucleose (linfcitos atpicos), hepatite infecciosa, tuberculose, leucemias.
Linfopenia: LES, AIDS, uso de corticoesterides.
Outras células que podem ser encontradas.
Blasto:
o Linfoblasto:
L1: clula pequena, citoplasma basoflico e escasso. Encontrada nas leucemia linfide aguda tipo L1.
L2: clula de tamanho mdio, citoplasma de tamanho e basofilia variada. Encontrada na leucemia linfide
aguda tipo L2.
L3: clula grande ou mdia, citoplasma com intensa basofilia e com vacolos. Aparece no linfoma de
Burkitt.
o Mieloblasto: possui citoplasma escasso, azulado (basoflico), ncleo redondo ou oval, com um ou mais nuclolos
evidentes. Pode apresentar grnulos no seu citoplasma e basto de Auer (forma de agulha). Os mieloblastos
aparecem em casos de leucemia mielide e podem aparecer na sndrome mielodisplsica ou na reao leucemide
(infeco grave).
o Monoblasto: similar a outros blastos mas com ncleo mais contorcido ou irregular que o mieloblasto. Aparece na
leucemia mielomonoctica aguda ou na leucemia monoctica aguda.
Promielcitos neutroflico: O mieloblasto evolui para promielcito, clula maior que o mieloblasto, citoplasma basfilo,
grnulos de colorao vermelho-prpura (grnulos primrios), ncleo oval com uma pequena identao.
Mielcitos neutroflico: O promielcito evolui para mielcito, clula com citoplasma acidfilo (rosa), mais abundante que o
promielcito e com poucos grnulos e j no so mais visualizados os nuclelos.
Metamielcitos neutroflico: citoplasma acidfilo, ncleo identado com forma de feijo, poucos grnulos.
Bastonetes Neutroflico: citoplasma acidfilo, ncleo em forma de S ou C. No comum seu achado em sangue de pacientes
normais, mas aparecem em nmero aumentado em casos de infeco.
Linfcitos atpicos: citoplasma mais basoflico que o linfcito normal, ncleo irregular. Aparece em infec
es virais. Em
grande nmero na mononucleose infecciosa, na infeco por citomegalovrus, na toxoplasmose.
Clulas plasmticas: citoplasma basoflico, tamanho moderado e ncleo excentrico. Pode aparecer no mieloma mltiplo.
Clulas linfomatosas: citoplasma em quantidade variada, ncleo dobrado, convoluto, clivado ou dobrado. Com um ou mais
nuclelos. Aparece em linfomas.
Hairy cells: citoplasma azul plido, com proje
es citoplasmticas. Aparece somente na leucemia das clulas cabeludas.
Clula cerebriforme: ncleo escuro contendo fendas e dobras (aparncia de crebro). Aparece na sndrome de Szary.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
127
INCLUSES CITOPLASMTICAS QUE PODEM SER ENCONTRADAS EM NEUTRFILOS
Granulações Tóxicas: quando há um aumento na produção dos granulócitos, há uma diminuição no tempo da
maturação das células precursoras dos neutrófilos. Por isso os neutrófilos aparecem no sangue com os grânulos
primários. Estão presentes em casos de infecções.
Vacuólos: resultandes da fagocitose. Podem aparecer nos neutrófilos e monócitos. Seu relato só é importante
quando aparece nos neutrófilos. Aparece em casos de infecções graves.
FUNDAMENTOS DO LEUCOGRAMA
O Leucograma fornece a contagem total e diferencial dos leucócitos no sangue periférico. A contagem global e
diferencial varia de acordo os seguintes parâmetros: Idade, Estado fisiológico e Etnia.
Idade Estado fisiolgico Etnia
Recém- nascido: predomínio de
neutrófilos.
Primeiro mês: predomínio de
linfócitos.
A partir dos 4 anos: predomínio
de neutrófilos.
O envelhecimento não altera o
número dos leucócitos, mas
acompanha um déficit funcional
Normalmente, a gestanteapresenta neutrofilia
com desvio a esquerda
A alimentação e o exercício físico liberam
normalmente os leucócitos do compartimento
marginal para a corrente sanguínea, podendo
aumentar a contagem
A raça negra tem 20%
a menos de leucócitos
que a raça branca
As etapas da coleta de sangue para realização do leucograma devem obedecer a seguinte sequência: coleta do
sangue periférico com EDTA; confecção do esfregaço sanguíneo; coloração de escolha; aparelho de contagem
eletrônica de células; microscopia.
Os valores de referência para leucometria estão na faixa entre 3600 – 11000 leuccitos: abaixo de 3600, tem-
se leucopenia; acima de 11000, tem-se leucocitose. Os valores de referência para cada componente do leucograma
(utilizando-se uma faixa entre 5000 e 10000 células) podem ser encontrados na tabela a seguir:
Leucometria 5000 a 10.000
Relativo Absoluto
Bastes 0 a 5 % 0 a 500
Neutrfilos 54 a 74% 1.500 a 6.500
Eosinfilos 0 a 5% 80 a 500
Basfilos 0 a 1% 0 a 100
Linfcitos 18 a 44% 900 a 3.600
Moncitos 2 a 9% 100 a 900
Alteraes quantitativas dos neutrfilos e leuccitos
Neutrofilia Leucopenia
Aumento reacional: infecção,
inflamação crônica, necrose
Redistribuição do compartimento de
reserva (estresse, adrenalina,
exercício, corticosteróides)
Doença mieloproliferativa, neoplasias.
Infecções: Estafilococo, Estreptococo,
Pneumococo, Meningococo,
Gonococo, E. coli, P. aeruginosa,
Vírus da raiva, Vírus da Poliomielite,
Zoster, Catapora e Varíola.
Deficit de produção medular: anemia Aplástica, deficiência de
vitamina B12 e ácido fólico; Mielodisplasia; Hemoglobinúria
paroxística noturna.
Consumo aumentado: infecções bacterianas (por gram negativas);
maioria das infecções virais (Vírus da Dengue, Mononucleose,
Citomegalovírus, Vírus hepatite B e C, Vírus HIV).
Parasitose: Toxoplasmose e esquistossomose (Hiperesplenismo)
Doenças auto-imunes: L.E.S, artrite reumatóide, Sjoegren,
tireoidopatias.
Exposição a produtos tóxicos: Benzeno, tíner, solventes
Drogas: analgésicos e antiinflamatórios (dipirona), indometacina,
fenilbetazona, antibióticos (Cefalosporina, Clorafenicol,
Clindamicina, Gentamicina, Isoniazida, Vancomicina, SMT-TMP),
Anticonvulsivantes e anti-depressivos (Carbazepina, Fenitoína,
Amitriptilina, Imipramida, Clorpromazida), drogas cardiovasculares
e diuréticos (Captopril, Metildopa, Propranolol, Clortalidona,
Hidroclorotiazida).
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APLICAÇÕES CLÍNICAS
A B C D E Com relao ao leucograma ao lado, temos:
O paciente A apresenta um leucograma aparentemente dentro do
espectro normal para um adulto (com 7000 leuccitos,
predominando os netrfilos segmentados sobre os linfcitos).
Contudo, ele apresenta uma eosinofilia (10% de eosinfilos), o
que pode sugerir uma reao alrgia ou parasitose, em primeira
instncia.
O paciente B apresenta uma leucocitose (20000 leuccitos) com
discreto desvio a esquerda (ver OBS5), com a presena de
metamielcitos e mielcitos (clulas precursoras) no sangue
perifrico (sem a presena de mieloblastos). Isso fala a favor de
uma infecção bacteriana.
O paciente C apresenta uma leucocitose (40000 leuccitos), mas
com linfopenia as custas de uma neutrofilia (chamada de
linfopenia reativa). H tambm um importante desvio esquerda,
com aparecimento de mieloblastos na circulao, sugerindo o
diagnstico de uma leucemia mielóide crônica (condio em
que h aumento na produo de clulas blsticas, mas que no
perdem a capacidade de se diferenciar). Contudo, pode tambm
sugerir um quadro de infeco grave – da a necessidade de
avaliar o estado clnico do pacinte, que pode se encontrar muito
comprometido na vigncia de uma infeco de tamanha escala. A
confirmao pode ser obtida atravs do miolograma.
O paciente D apresenta uma leucocitose importante (100000
leuccitos), com predomnio de neutrfilos, linfcitos e
mieloblastos (assim como no paciente C, toda vez que
encontrarmos blastos na circulao sangunea, devemos sugerir o
diagnstico de leucemia). Neste caso, devemos pensar em
leucemia aguda (mielide ou linfde). No h, neste caso, um
desvio a esquerda, porque s os blastos podem ser vistos na
circulao perifrica.
O paciente E apresenta uma leucocitose (7000 leuccitos) com
linfocitose (70% de linfcitos) e neutropenia (30% de
segmentados). Esta seria a proporo que deveria ser encontrada
na criana, mas no com tamanha leucocitose. Muito
provavelmente, este quadro caracteriza uma leucemia linfóide
crônica (devido ao predomnio de linfcitos maduros, sem a
presena de linfoblastos).
Leuc 7000 20.000 40.000 100.000 70000
BL 0 0 3 20 0
Pro 0 0 2 0 0
Mielo 0 2 3 0 0
Meta 0 5 4 0 0
Bt 2 10 8 0 0
Seg 60 70 68 50 30
Eo 10 0 4 2 1
baso 0 0 5 0 0
Linf 25 13 3 26 70
mono 2 0 0 2 0
OBS5: O termo “desvio a esquerda” significa a liberao e aumento das clulas do compartimento de reserva medular. Isso ocorre
porque, em situa
es normais, as clulas encontradas no sangue perifrico sero apenas segmentados neutrfilos (cerca de 75%) e,
no mximo, bastonetes (1 – 5%). Quando h “desvio a esquerda” (esquerda com relao ao esquema da granulocitopoese
apresentado no esquema a seguir), quer dizer que mais clulas do compartimento de reserva esto alcanando o compartimento
vascular perifrico no intuito de atender melhor emergncia infecciosa.
OBS6: Tambm pode ocorrer desvio para direita. O termo "desvio para direita" significa um aumento das formas maduras de
neutrfilo, ou seja, maior percentual de segmentados (polimorfonucleares) e menor percentual de bast
es. O "desvio para direita"
caracterstico da anemia megaloblstica (muito embora a ausncia deste desvio jamais poder descartar o diagnstico da anemia
megaloblstica). Quando presente em um paciente com anemia macroctica, passa a ser um dado sugestivo.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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Portanto, depois da análise do leucograma apresentado anteriormente, além das informações vistas na OBS5,
podemos concluir o seguinte:
A neutrofilia, associada ao desvio a esquerda sem a presença de blastos, fala a favor de infecção grave,
principalmente na presença de um quadro clínico infeccioso exuberante.
A neutrofilia com a presença de desvio a esquerda associada à presença de blastos sugere uma leucemia
mielóide crônica. A clínica e a fosfatase alcalina diminuída auxiliam a afastar a hipótese de infecção.
A presença de blastos na circulação periférica (sem que haja desvio a esquerda), sugere uma leucemia aguda,
seja mielóide ou linfóide. A diferenciação entre as duas só pode ser feita através da análise clínica ou do
mielograma, e não pela proporção entre neutrófilos e linfócitos (uma vez que, por ser um quadro agudo, pode
não ter dado tempo para formação das células predominantes). A clínica do paciente pode ajudar a excluir uma
eventual hipótese de infecção (que deve ser remota, diante do achado de blastos sem desvio a esquerda).
A linfocitose com predomínio sobre os neutrófilos pode sugerir: (1) um leucograma de criança, se a contagem
geral de leucócitos for normal; (2) uma leucemia linfóide crônica em adultos.
SRIE PLAQUETRIA
Plaquetas são observadas em relação à quantidade e a seu tamanho. Seu número normal é de 150.000 à
400.000 por microlitro de sangue. O tamanho de uma plaqueta varia entre 1 a 4 micrometros.
A contagem de plaquetas é feita pelo método automático. A maioria dos laboratórios usam aparelhos cuja
contagem de plaquetas se faz no mesmo canal de contagens de hemácias, sendo que a diferenciação de ambas se dá
pelo volume (plaquetas são menores que 20 fl e hemácias maiores que 30 fl). Devido ao grande volume de examesfeito
por um laboratório ficou inviável a contagem manual de todas as plaquetas, mas a contagem manual não foi totalmente
abandonada sendo que a contagem automática pode ser confirmada pela observação das plaquetas no esfregaço ou
pela contagem manual feita em câmara de Neubauer.
Os erros mais comuns em uma contagem automática são: aparelhos mal calibrados e problemas na coleta do
sangue. A coleta correta é muito importante. Uma coleta muito lenta, agitação errada do sangue colhido, entre outros
problemas, podem fazer com que as plaquetas se agrupem e, ao realizar a contagem em aparelhos, seu número se
torne diminuído. O agrupamento de plaquetas não é um sinal clínico.
SUMRIO DE TERMOS UTILIZADOS
Leucocitose: aumento no número total de leucócitos.
Leucopenia: diminuição do número total de leucócitos.
Plaquetopenia: diminuição do número total de plaquetas
Eritrocitose ou policitemia: aumento do número de hemácias no sangue.
Eritroblastemia: diminuição do número dos precursores das hemácias.
Trombocitopenia: diminuição do número normal de plaquetas.
Bicitopenia: diminuição em número de duas populações celulares.
Pancitopenia: diminuição em número das três populações celulares.
Desvio à esquerda: aumento do número de bastões acima de 5/mm³, ou presença de formas mais imaturas
como mielócitos e metamielócitos no sangue periférico
Linfocitose: aumento do número de linfócitos.
Linfopenia: diminuição do número de linfócitos.
Neutrofilia: aumento do número de neutrófilos.
Neutropenia: diminuição do número de neutrófilos.
Eosinofilia: aumento do número de eosinófilos.
Monocitose: aumento do número de monócitos.
Basofilia: aumento do número de basófilos.
VALORES DE REFERNCIA POR FAIXA ETRIA
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130
MED RESUMOS 2011
NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
ABORDAGEM GERAL DAS ANEMIAS
(Professora Angelina Cartaxo e Flávia Pimenta)
A anemia é definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a condição na qual o contedo de
hemoglobina no sangue est abaixo do normal como resultado da carência de um ou mais nutrientes essenciais, seja
qual for a causa desta deficiência ou por perda aguda ou insidiosa de sangue. Lançando mão de um conceito mais
amplo, a anemia é qualquer condição possível de comprometer a produção ou de aumentar a taxa de distribuição ou de
perda dos glóbulos vermelhos.
Sobre a anemia, algumas questões devem ser levantadas e devidamente respondidas para entender a
importância do estudo desta entidade nosológica durante a graduação em medicina:
Quais são causas da anemia? Como diferenciá-las?
Quais seus sinais e sintomas?
Quais são os efeitos da anemia no nosso organismo?
Como tratá-la?
IMPORTNCIA EPIDEMIOLGICA
O termo "anemia", que define clinicamente a existência de um estado de queda da hemoglobina do sangue, na
verdade não faz referência a nenhuma entidade nosológica específica: anemia não é uma doença, mas sim um sinal de
que existe doença.
Segundo a OMS, cerca de 30% da população mundial é anêmica, sendo que sua prevalência entre as crianças
menores de 2 anos chega a quse 50%. É, portanto, uma condição de alta incidência e alta prevalência e, quase nunca, a
anemia é a doença principal: geralmente, como vimos anteriormente, ela é uma alteração secundária de uma doença de
base (insuficiência renal crônica, sangramentos crônicos, hipermenorréia, etc.). Uma das únicas situações em que a
anemia se instala como uma doença principal é na metaplasia medular, em que existe uma anemia secundária a
ausência de produção de células do sangue na medula óssea.
DEFINIO LABORATORIAL
Como vimos pelo próprio conceito da OMS, a anemia é caracterizada pela redução dos níveis de hemoglobina.
Os valores mínimos normais para a concentração de hemoglobina sanguínea é de:
13g/dl para homens;
12g/dl para mulheres;
11g/dl para gestantes e crianças entre 6 meses e 6 anos.
OBS1: Para crianças de 1 a 2 anos, de ambos os sexos, algumas literaturas apontam que o limite inferior de hemoglobina sérica é de
9,5g/dL (anemia fisiológica da infância). Os indivíduos residentes em elevadas altitudes, devido aos menores teores de oxigénio do ar
ambiente, possuem níveis marcadamente superiores.
OBS2: A dosagem de hemoglobina possui maior acurácia quando comparada ao hematócrito e à contagem de hemácias, devendo,
portanto, ser a medida de escolha utilizada para o diagnóstico de anemia.
FISIOLOGIA ERITROCITRIA
As hemácias ou eritrócitos derivam da célula comissionada
de tecido mielóide, descendente direta da célula-tronco
hematopoiética da medula óssea.
A célula precursora se divide, então, por mitose até formar
o reticulcito, última célula a se formar antes da hemácia e que já
pode ser encontrada no sangue periférico. Sua formação é
mediada pela eritropoietina, hormônio produzido pelo fígado e
pelos rins.
Estes reticulócitos duram cerca de 24/48h no sangue
periférico (correspondendo a 0,5% a 1,5% dos eritrócitos), até
serem convertidos em hemácias. É comum que o reticulócito seja
referido pelo médico hematologista como um “espelho” da funo
da medula ssea: quanto mais reticulócitos estiverem presentes
no sangue periférico, significa dizer que maior é a atividade
medular. A taxa de destruição dos reticulócitos é de 1% ao dia.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
131
A hemcia, por sua vez, consiste na
clula mais habilitada para a funo de sua
linhagem: transporte de oxignio ao longo dos
tecidos (praticamente todo o oxignio do
sangue est ligado hemoglobina, principal
constituinte da hemcia; uma pequena parte
apenas circula dissolvida no plasma).
A hemcia uma clula anucleada e de formato bicncavo (o que aumenta a sua rea de contato para facilitar o
transporte e as trocas gasosas, alm de facilitar o seu deslocamento na corrente sangunea), com cerca de 7m de
dimetro. Tem uma vida mdia de 90 – 120 dias, sendo ela destruda por fagocitose nos macrfagos esplnicos
A produo da hemcia leva cerca de 7-10 dias na medula ssea, at que ela alcance a corrente sangunea,
onde fica por aproximadamente 120 dias. O envelhecimento de sua membrana lipdica e a falncia da bomba de sdio-
potssio so os fatores responsveis pelo reconhecimento das hemcias senescentes por parte dos macrfagos
esplnicos. Estes macrfagos realizam, ento, a fagocitose das hemcias e liberam a hemoglobina e aminocidos (estes
derivados das membranas da hemcia). Os aminocidos podero ser utilizados para a formao de novas protenas,
no necessariamente relacionadas hematopoiese. A hemoglobina degradada em globina (que tambm servir na
produo de novas protenas) e no radical heme.
Este grupamento heme libera, ento, o seu on ferro e a protoporfirina. O ferro se ligar transferrina (protena
de transporte) para circular no sangue e novamente ser utilizado na hematopoiese ou armazenado junto ferritina
(principal forma de armazenamento do ferro no organismo). A protoporfirina ser metabolizada biliverdina e,
finalmente, em bilurribina, a qual se liga albumina para ganhar a circulao. Ao chegar no fgado, a bilirrubina
conjugada ao cido glicurnico para ser eliminada pelas fezes na forma de estercobilinognio (dando a colorao
amarronzada caracterstica das fezes). Parte do estercobilinognio absorvida e novamente excretada pelo fgado
(circulao entero-portal), e uma pequena frao excretada pelos rins na forma de urobilinognio (fornecendo a
colorao amarelada da urina).
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CLASSIFICAO
De uma forma didtica, a anemia pode ser classificada de acordo com o seu curso temporal em: Anemia aguda: consiste na perda sbita de sangue, de modo que esta falta de volume no sistema sanguneo
seja superior falta de hemoglobina. Desta forma, devemos considerar os seguintes valores:
Uma perda de volume sanguneo de at 10% tolervel, tendo em vista que este valor se iguala ao de
uma doao de sangue.
Uma perda de volume sanguneo entre 11% e 20% j causa tonturas, desmaios e hipotenso postural.
Perdas acima de 20% causam taquicardia, extremidades frias, palidez extrema e hipotenso; aps isso,
pode ocorrer o choque.
Se a perda exceder os 30%, sem que haja reposio imediata de infuso de sangue por via intravenosa,
o choque torna-se rapidamente irreversvel e letal.
Anemia crônica: neste caso, no h diminuio do volume sanguneo. O que ocorre uma instalao insidiosa
da anemia, de modo que o organismo se adapta, no limite do possvel, aos nveis baixos de hemoglobina.
ETIOLOGIA
Quanto etiologia, podemos destacar as seguintes classifica
es das anemias:
Anemia por déficit de produção: diminuio dos nutrientes essenciais para a produo da hemoglobina:
vitamina B12, ferro, cido flico, etc. Neste caso, a medula ssea est insuficiente e, portanto, os reticulcitos
esto reduzidos ou normais.
Anemia de carncia de ferro (anemia ferropriva) – mais comum.
Anemia das carncias de vitamina B12 (anemia perniciosa) e de cido flico
Anemia das doenas crnicas
Aplasia medular
Anemia por hemorragias agudas: ocorrer perda de grande volume de hemcias de forma aguda. Desta
forma, os reticulcitos esto altos (por compensao medular), e a bilirrubina e a desidrogenase lctica (DHL)
esto normais.
Anemia por doenças crônicas: insuficincia heptica, insuficincia renal crnica (↓eritropoetina), etc.
Anemia decorrente de doenças da medula óssea:
Anemia aplstica
Leucemias e tumores na medula
Anemia hemolítica por defeitos genéticos: ocorre por aumento da destruio das hemcias causado por
doenas hereditrias.
Anemia falciforme
Talassemias
Esferocitose
Deficincia de glicose-6-fosfatodesidrogenase (G6PD)
Anemia hemolítica por destruição periférica aos eritrócitos adquirida: ocorre por aumento da destruio
das hemcias causado por doenas adquiridas.
Malria
Anemias hemolticas auto-imunes
Anemia por fragmentao dos eritrcitos
OBS3: A hemlise (destruio patolgica das hemcias),
como vimos anteriormente, pode ser por defeitos
genticos ou adquiridos. Contudo, ela ainda pode ser
classificada como hemlise extravascular (mediada
pelos macrfagos esplnicos) ou intravascular (mediada
por lises intravasculares dos eritrcitos). Em qualquer
uma das situa
es, haver um elevao dos nmeros de
reticulcitos, aumento dos nveis de bilirrubina indireta e
de DHL.
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F ISIOPATOLOGIA
A fisiopatologia compartilhada entre todos os tipos de anemia baseia-se nos seguintes eventos:
Diminuição da taxa de hemoglobina
Hipóxia tecidual por carência de distribuição de oxigênio, causando elevação da eritropoietina.
Ativação de mecanismos compensatórios (adaptação): elevação do débito cardíaco, desvio da curva de
dissociação da hemoglobina para direita, etc.
SINTOMATOLOGIA
A sintomatologia da anemia depende, basicamente, dos níveis de hemoglobina. E esta sintomatologia
geralmente está relacionada com sinais de compensação cardíaca (e a presença deles já seria uma indicação clínica
para a realização da hemotransfusão).
Desta forma, temos:
Hb 9 a 11g/dl: irritabilidade, astenia, sonolência.
Hb 6 a 9g/dl: taquicardia, dispnéia e fadiga aos mínimos esforços.
Hb < 6g/dl: sintomatologia mesmo sem atividades sedentárias.
Hb < 3,5g/dl: insuficiência cardíaca congestiva iminente.
AVALIAO CLNICA
Durante a avaliação clínica, os seguintes dados devem ser levantados e criteriosamente avaliados:
Causa
Velocidade de instalação (tempo de duração da anemia)
Reserva funcional orgânica (questionar sobre a presença de doenças hepáticas, renais, etc.).
Compensação medular (observando a quantidade de reticulócitos)
Como vimos a propóstico da sintomatologia, o quadro clínico da anemia é inespecífico. Muito embora, podemos
encontrar os seguintes sintomas, de forma sumária:
Palidez
Fadiga
Intolerância aos esforços
Cefaleía, cãibras
Sonolência excessiva
Baixo rendimento escolar
Palpitações
Lipotímia e síncope
Quadros agudos: Hipotensão, dispnéia,
descompensação de ICC; coronariopatias, choque
e coma
Sintomas específicos da doença de base
Tempo de instalação - intensidade
Durante a avaliação clínica, além do levantamento de dados relacionados à doença e da análise do quadro
sintomatológico, devemos questionar ao paciente a presença de sintomas associados, o tempo de instalação da anemia,
a presença de comorbidades, o uso de drogas mielotóxicas, seu padrão dietético, possíveis sinais de hemólise e as
possibilidades de a anemia ser Hereditáira x Adquirida.
Ao exame físico, devemos atentar aos seguintes dados:
Coloração de mucosas: descorada, ictérica
Visceromegalias
Sinais de desnutrição
Sinais de outras citopenias
Cor da urina
Exame geral
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OBS4: Alterações da coloração da urina ao longo do dia é um sinal semiológico de bastante valor para o diagnóstico de
hemólise intravascular. Geralmente, o paciente refere que a sua urina, ao acordar, apresenta-se com uma coloração
semelhante à refrigerante de cola, mas que vai clareando ao longo do dia, de modo que, a noite, a urina se encontra
com coloração normal.
TRIAGEM LABORATORIAL
A avaliação laboratorial de um paciente com anemia deve constar da
utilização de exames específicos e exames inespecíficos.
TESTES INESPECÍFICOS
Hemograma Completo
Hematoscopia
Taxa de Reticulócitos (ver OBS5)
Perfil de hemólise: desidrogenase lática (DHL), Bilirrubinas (total e
frações), Haptoglobina (importante para análise das anemias
hemolíticas intravasculares), dosagem de Hb na urina (H.I) e
hemossiderinúria (H.I)
Classificação morfológica e etiopatogenética das anemias (ver OBS6):
Microcítica: VCM < 80
Normocítica: VCM entre 80 e 100
Macrocítica: VCM > 100
Hipocrômica: HCM < 26
Normocrômica: HCM entre 26 e 34
OBS5: Contagem de Reticulócitos. Os reticulócitos são as células imediatamente precursoras das hemácias
representando normalmente 0,5-2% do total de células vermelhas circulantes. São reconhecidos pela análise do
esfregaço do sangue periférico (corado pelo azul de metileno novo ou azul brilhante de cresil) aparecendo com um
reticulado azul em seu interior, correspondente ao material do RNA ribossômico. A presença de reticulocitose indica dois
grandes grupos de anemias: (1) anemias hemolíticas; (2) anemia por hemorragia aguda. Estas são as duas únicas
formas de anemia que se originam por "perda" periférica de hemácias, sem nenhum comprometimento da medula óssea
(direto ou indireto). Como a capacidade de produção destas células está intacta, há, na tentativa de corrigir a anemia,
intensa proliferação medular da linhagem vermelha, com consequente aumento de hemácias jovens (reticulócitos) na
corrente sanguínea.
Pela contagem reticulocitária, classificamos "fisiologicamente" as anemias em hipoproliferativas quando não há
reticulocitose (anemias carenciais, distúrbios medulares, etc.); e hiperproliferativas quando há reticulocitose (hemolítica
ou sangramento agudo).
Hiporregenerativas ou hipoproliferativas: reticulócitos normais ou baixos. Sugere déficit de produção medular.
Hiper-regenerativas ou hiperproliferativas: reticulócitos elevados. Típico das anemias hemolíticas ou por
hemorragiaaguda. Para diferenciar estas duas formas de anemia, podemos observar, na hemorragia aguda, os
níveis normais de bilirrubina e DHL (que estarão aumentados na anemia hemolítica).
Devemos corrigir rotineiramente o percentual reticulocitário para o grau de anemia. Esta correção consiste na
multiplicação do número de reticulócitos pela razão entre o hematócrito do paciente e o hematócrito normal. Desta
forma, temos: %Reticulócitos x (Ht do paciente/Ht normal). Isso é importante pois na anemia grave, a contagem total
de eritrócitos (hematimetria) pode estar reduzida; portanto, o mesmo percentual reticulocitário equivale a um menor
número absoluto de reticulócitos na periferia.
Reticulocitose. Lâmina mostrando um grande número de reticulócitos
corados com azul de cresil brilhante.
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OBS6: No que diz respeito classificao das anemias quanto aos índices hematimétricos, temos, em resumo:
TESTES ESPECÍFICOS
Podemos lanar mo tambm de testes mais especficos, a depender da suspeita do tipo de anemia que o
paciente apresente.
Perfil de Ferro, B12, cido Flico
Eletroforese de Hemoglobina
Dosagem de haptoglobulina (aumentada em caso de hemlise intravascular)
Teste de Coombs Direto (deteco de anticorpo na hemcia) e indireto (deteco do anticorpo no plasma)
Fragilidade Osmtica
Teste de HAM/Citometria de Fluxo
Dosagem de G6PD
Avaliao medular: pode ser feita por meio de dois mtodos:
Aspirado de medula ssea – mielograma
Bipsia de Medula ssea
No que diz respeito ao manejo destes testes inespecficos, podemos iniciar utilizando as provas de perfil de ferro,
no intuito de diagnosticar anemia ferropriva (por deficincia de ferro), que a mais comum de todas as anemias. Se,
entretanto, os testes forem normais ou se as hemcias no mostrarem uma anemia microctica hipocrmica, podemos
optar pelo do uso de endoscopia digestiva, dosagem de vitamina B12 (para avaliar o fator intrnseco) e dosagem de
cido flico.
Se existe suspeitas de anemia hereditria (que tenha aparecido com cerca de 6 meses de vida), devemos lanar
mo da eletroforese de hemoglobina e a curva de fragilidade osmtica. Se a anemia acontece em um adulto
previamente saudvel, sem histria anterior de anemia, e cursa com anemia sbita, ictercia e colria, devemos proceder
com o teste de Coombs direito. No caso de suspeita de anemia intravascular, podemos utilizar o Teste de
HAM/Citometria de Fluxo para verificar a presena de hemoglobinria. A dosagem de G6PD pode ser feita para crianas
que nascem com ictercia mas cuja causa no foi esclarecida pelo teste de Coombs ou pela curva de fragilidade
osmtica.
Quando a anemia no for esclarecida atravs do uso destes exames, podemos lanar mo, ento, do
mielograma, no intuito de avaliar o comportamento da medula diante do quadro de anemia: se h um distrbio de
produo, se h uma deficincia relacionada a uma aplasia medular, etc. Entretanto, quando o aspirado de medula
ssea no foi suficiente ou objetivo, devemos fazer uso da bipsia de medula ssea, que consiste na retirada de um
fragmento de medula ssea e envio para estudo histopatolgico.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
136
Resumo dos principais tipos de Anemia
Anemia Quadro clínico Etiologia Hemograma Exames Tratamento
Anemia
ferropriva
(carencial)
Palidez cutneo-
mucosa; Fadiga;
Sonolncia; Tontura;
Dispnia; Unhas
quebradias;
Perverso do
apetite.
Gastrectomias,
enteropatias, dieta pobre
em ferro, menstruao
Anemia microctica,
hipocrmica,
poiquilocitose,
↓reticulcitos, ↓Hb,
plaquetose
- Perfil do ferro:
↓ferritina; ↓ferro
srico
- Tratar causa de
base;
- Sulfato ferroso
(300mg 3x/dia, 1h
antes das refei
es)
Anemia
aplástica
(15 – 20anos e
>65 anos)
Pancitopenia,
sonolncia,
fraqueza, infec
es
frequentes,
equimoses, epistaxe,
hemorragias
Falncia da hematopoese,
parada do funcionamento
da medula ssea; adquirida
(drogas e agentes
qumicos, agentes
infecciosos, doenas
imunes, anemia de
Fanconi, etc.)
Anemia normoctica,
neutropenia,
plaquetopenia,
↓reticulcitos,
↓eritropoetina
- Mielograma:
aumento da
gordura;
- Bipsia de
medula ssea:
diminuio da
celularidade
- Transfus
es
sanguneas;
- Imunossupressores
(ciclosporina)
- Transplantes de
medula (<40 anos,
<15 transfus
es,
↑compatibilidade)
Anemia
falciforme
(comum em
negros; inicia
aos 5 – 12
meses de vida)
Crises vasoclusivas
(Sd. mo-p) com
crise lgica;
priaprisma; Sd.
torcica aguda; dor
ssea; crise
heptica; disfuno
esplnica;
manifesta
es
cardacas e
neurolgicas.
Gentica: deficincia no
cromossomos 11
(substituio do cido
glutmico por valina, o que
gera a formao de uma
Hb mutante – a HbS,
formando hemcias em
forma de foice)
Anemia normocrmica e
normoctica;
↑reticulticos;
drepancitos (hemcias
em foice); plaquetose;
corpsculos de Howell-
Jolly; ↑Bb indireta.
- Teste do
afoiamento;
- Eletroforese de
hemoglobina.
- Medidas gerais:
evitar infec
es
(vacinas), uso de
cido flico,
tratamento da crise
lgica (hidratao +
opiceos);
- Hemotransfuso
- Exsanguneo
transfuso aguda (em
caso de AVC,
priaprismo refratrio,
etc.)
- Hipertransfuso
crnica (AVC, DRC,
etc.)
- Transplantes
Esferocitose
hereditária
(mais comum
em brancos e
RN)
Ictercia; anemia e
esplenomegalia;
↑absoro de ferro;
↑ferritina srica;
↑demanda de cido
flico.
Defeito na membrana do
eritrcito (deficincia de
anquirina ou espectrina,
deficincia da banda 3 ou
protena 4.2)
citoesqueleto incompetente
↓deformabilidade da
hemcia e ↑elasticidade da
hemtica hemlise
acelerada esfercitos
Anemia microctica,
hipercrmica; hemcias
sem palidez central e
com forma de esfera,
↑reticulcitos.
- Teste da
fragilidade
osmtica
- Ectacitometria,
eletroforese de
protenas
- Esplenectomia a
partir dos 5 anos
- Vacina
- cido flico
Anemia
megaloblástica
Glossite,
dormncias,
parestesias em
extremidades,
lceras orais
dolorosas, anorexia,
diarria, nuseas,
atrofia de papilas,
disfuno
neurolgica (↓vit.
B12).
Carncia de vitamina B12
ou cido flico:
desnutrio, distrbios
gastrintestinais;
gastrectomias; gestantes;
lactentes; neoplasias;
drogas; etc.
Anemia macroctica
(VCM > 110) e
normocrmica;
leucopenia;
plaquetopenia; ↑Bb
indireta; ↓Reticulcitos;
Poiquilocitose;
Neutrfilos
plurisegmentados;
- Endoscopia
digestiva alta;
- Teste de
Schiling;
- Ac anti-clula
parietal gstrica;
- Anti-fator
intrnseco;
- Dosagem de
folato nas
hemcias
- cido flico (1-2mg
por dia)
- Vit. B12:
1000mcg/dia IM por 7
dias
1000mcg em dias
alternados at
normalizar Hb
Anemia
hemolítica
auto-imune
(AHAI)
Quente:
Esplenomegalia,
petquias,
hemorragias; Frio:
cianose, Raynaud,
isquemia digital
Auto-anticorpos que se
ligam na mebrana
eritrocitria
Anemia
normoctica/macroctica,
↑reticulcitos; ↑DHL;
↑Bb
- Teste de
Coombs direto
- Teste da
crioaglutinina;
- Aglutinao
espontnea do
sangue
perifrtico
- Quentes: identificar a
causa de base;
CC/prednisona;
esplenectomia; terapia
imunossupressora.
- Frio: terapia
imunossupressora;
no expor ao frio.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
137
MED RESUMOS 2011
NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
ANEMIA FERROPRIVA
(Professora Angelina Cartaxo)
A anemia ferropriva considerada a anemia mais frequente no mundo, sendo elaa mais comum dentre as
anemias, correspondendo a praticamente 90% dos casos.
A deficincia de ferro a forma mais frequente de deficincia nutricional, tanto nos pases em desenvolvimento
como nos desenvolvidos. Entretanto, o ferro considerado como o principal constituinte da hemoglobina, a real
responsvel pelo transporte de oxignio do sangue para os tecidos.
PREVALNCIA
Cerca de 20% da populao mundial no tem, no organismo, reservas de ferro suficientes no organismo para
repor a hemoglobina. Por esta razo, qualquer excesso de demanda suficiente para desencadear anemia ferropnica,
que j considerada um problema de sade pblica, diante de sua espantosa prevalncia.
BASES FISIOPATOLGICAS E METABOLISMO DO FERRO
O contedo total de ferro no organismo de 50mg/kg para homens e 35mg/kg para mulheres. Este ferro est
distribudo no organismo nos seguintes compostos: estrutura do grupamento heme da hemoglobina (aproximadamente
70%); protenas de armazenamento de ferro, como a hemossiderina e ferritina (30%); plasma (apenas 0,1% sem estar
ligada, ou ligada transferrina em pequena proporo).
A perda diria de ferro considerada baixa: apenas 1,0mg/dia, at mesmo com a menstruao (0,006 a
0,025mg/kg) – o que pode parecer pouco para um dia, mas que, ao longo de anos, caracteriza uma carncia importante.
Muito embora, o principal fator relacionado com a etiologia da anemia ferropriva a carncia nutricional de ferro, e no a
sua perda diria.
HEMOGLOBINA
A hemoglobina um tetrmero composto por dois pares de cadeias
polipeptdicas, cada uma das quatro cadeias est ligada por um grupo heme.
O grupo heme encontra-se em protenas (denominadas, por esta
razo, protenas hmicas) como a hemoglobina, a mioglobina, a catalase e os
citocromos. O grupo heme um complexo ferroso da protoporfirina IX, que
um tetrapirrol, de estrutura complexa e formada por quatro anis pirrlicos
unidos entre si com o ferro em seu centro (figura ao lado).
Na hemoglobina, assim como na mioglobina, o ferro tem a funo de
ligar uma molcula de oxignio, possibilitando o seu transporte na corrente
sangunea para todo o organismo.
Na catalase, o ferro tem uma funo cataltica, aliada sua
capacidade de mudar o seu estado de oxidao; neste caso, o ferro catalisa a
dismutao do perxido de hidrognio.
Em protenas como os citocromos, o grupo heme serve de meio de
transporte eletrnico entre protenas, recebendo um ou dois eletrons de uma
protena e transferindo-os para outra. Protenas contendo um ou mais grupos
hemo tm uma colorao entre o cor-de-rosa e o vermelho.
SÍNTESE DO GRUPO HEME
Inicialmente, a sntese do grupo heme tem ocorrncia mitocondrial e amplamente distruibuda em todo o
organismo devido a sua importncia. Porm, essa sntese ocorre majoritariamente em dois tecidos: o heptico e o
hematopotico (clulas da medula ssea).
Essa sntese tem incio quando o succinil CoA (intermedirio do ciclo de Krebs) se condensa com glicina,
liberando a CoA, formando o composto ALA (cido δ-amino levulnico), pela ao da enzima ala sintetase que requer a
vitamina B6 para atuar.
Duas molculas de ALA se unem, j no citosol, e por desidratao, formam o porfobilinogênio, por meio da
enzima ALA Desidrase (essa enzima inibida pelo metal chumbo). O porfobilinognio, j como um anel pirrlico, se une
com mais 3 compostos iguais, por meio da ao da enzima uroporfirinogênio sintase, formam o uroporfirinogênio III,
liberando 4 molculas de amnia (NH4+) que sero transformadas em uria no fgado.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
138
OBS1: Intoxicação por chumbo (Pb) inibe a ezima PBG-Sintetase (ALA-desidrase), causando quadros de anemia
hipocrômica.
Através da enzima uroporfirinogênio III descarboxilase, o uroporfirinogênio III sofre uma descarboxilação,
originando o coproporfirinogênio III. Este volta à mitocondria e é oxidado pela coproporfirinogênio oxidase, originando
o protoporfirinogênio IX, que será oxidado (perdendo 6H+), para formar a protoporfirina IX. A protoprofirina recebe
um íon Fe++ cedido pela ferroquelatase, formando, então grupo Heme.
OBS2: A enzima reguladora da biossíntese do heme é a ALA sintetase: é modulada negativamente por altas
concentrações celulares de heme (o heme se liga a uma proteína apo-repressora a, a nível de DNA, regula
negativamente a transcrição da enzima 1). Baixos níveis de heme ativa a produção da ALA sintetase.
OBS3: Defeitos da ferroquelatase ou carência do íon Fe++, causa a chamada anemia ferropriva.
OBS4: Os compostos originados a partir da protoporfirina, incluindo a mesma, são compostos que apresentam
pigmentação. Os compostos anteriores são incolores.
METABOLISMO DO FERRO E ABSORÇÃO
Sabe-se que são duas as vias de absorção do ferro: uma ligada ao heme (ferro-heme) e outra não ligada ao
heme (ferro não-heme). A forma heme é bem melhor absorvida do que a forma não-heme.
O ferro ligado ao heme é proveniente de fontes de alimentos de origem animal (hemoglobina, mioglobina e
outras heme-proteínas). Além de ser bem absorvido, devido à sua alta biodisponibilidade, melhora a absorção de
pool de ferro não-heme.
O ferro não-heme, por sua vez, está presente em alimentos de origem vegetal, encontrando-se sob a forma de
complexo férrico, que durante a digestão é parcialmente reduzido para a forma ferrosa, de mais fácil absorção,
sob a ação do ácido clorídrico, bile e suco pancreático. As principais fontes vegetais de ferro são folhas verdes
escuras, couve, espinafre, brócolis, beterraba, feijão, etc. Diz-se que estas fontes possuem mais ferro do que a
própria carne vermelha, muito embora a forma na qual se encontra este ferro imprime maior dificuldade de
absorção (forma férrica).
Dessa forma, sempre deve ser levado em consideração que existem alimentos de alto teor em ferro como o
feijão que, pela presença de filatos e fibras, apresenta baixa disponibilidade. Em contrapartida, as carnes apresentam
teores bem menores de ferro, porém de alta biodisponibilidade. Portanto, é mais aconselhável a ingestão de carne do
que aumentar a ingestão de vegetais que, mesmo apresentando maior teor de ferro, este íon se encontra em uma forma
de absorção mais dificultosa.
O principal lugar de absorção do ferro se dá no duodeno e no jejuno, quer seja ele adquirido por vegetais ou por
carne vermelha. Após o processo de digestão, a maior parte do ferro forma um depósito intraluminal, sendo, portanto,
sua absorção determinada por fatores facilitadores (ácido ascórbico ou vitamina C). No intestino, o ferro pode seguir dois
destinos: ficar armazenado dentro do enterócito (e ser perdido durante a descamação intestinal) ou se ligar a proteínas
transmembranas dos enterócitos e ser absorvido, para alcançar, então, o plasma.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
139
No plasma, o ferro se liga transferrina e sua maior parte se
move atravs desta protena at alcanar a medula ssea, onde
precursores eritrides so capazes de produzir a hemoglobina. A
outra parte, em menor escala, dever ser armazenada na forma de
ferritina e hemosiderina por macrfagos do fgado e do bao. Alguns
ons de ferro tambm so direcionados para a formao da
mioglobina muscular e os citocromos envolvidos na cadeia
respiratria mitocondrial.
Quando a sntese da hemoglobina se completa, o ferro,
agora na forma de hemoglobina nos eritrcitos, distribudo na
circulao para facilitar o transporte de oxignio. Aps cerca de 90 –
120 dias, as hemcias so fagocitadas por macrfagos no bao,
principalmente. O ferro ento extrado da hemoglobina.
OBS4: Podemos destacar alguns tipos de protenas envolvidas com
o processo de metabolismo do ferro: as protenas carreadoras do
ferro(transferrina); protenas de armazenamento (ferritina e
hemosiderina).
Uma molcula de transferrina capaz de se ligar a dois ons ferro, os quais sero transportados para a medula
ssea, em sua maioria.
A maneira normal e mais comum de armazenamento de ferro no organismo se faz sob a forma de ferritina e,
quando o organismo necessita de ferro, retira deste estoque. A ferritina a forma mais importante de estoque de
ferro. A concentrao srica de ferritina diretamente proporcional s reservas de ferro no organismo, isto ,
quanto maior o acmulo de ferro, maior ser o valor da ferritina srica.
Quando o ferro se acumula na hemossiderina, no mais reutilizado.
O organismo no apresenta nenhum mecanismo especfico conhecido de eliminao do ferro. O excesso de
ferro , portanto, um problema importante, assim como sua carncia. Por esta razo, o tratamento de uma eventual
anemia apenas instituindo o aumento da ingesto ferro pode causar, inclusive, acmulo deste on, desde que a anemia
tenha sido por outra causa, que no a ferropriva (o problema que, por se tratar do tipo mais comum de anemia, a
maioria dos mdicos sugere o diagnstico e tratam qualquer anemia como se fosse uma ferropriva). O ferro em excesso
txico para o organismo, podendo causar pancreatite/insuficincia pancretica, cardipatias por impregnao de ferro,
hepatopatias por acmulo de ferro (uma vez que o fgado o local de maior armazenamento deste on), etc (ver OBS5).
O tratamento nestes casos de acmulo de ferro seria a sangria e a utilizao de quelantes de ferro.
OBS5: Assim como a ictercia o termo utilizado para o acmulo de bilirrubina, a hemossiderose significa o acmulo de
hemossiderina devido hemlise, que se acumula primeiramente no bao; enquanto a hemocromatose o acmulo de
hemossiderina devido a uma deficincia genticamente determinada caracterizada por uma absoro exagerada do
ferro, que passa a se acumular, primeiramente, no fgado.
OBS6: Embora no existam mecanismos de eliminao de ferro, existem mecanismos que regulam a sua absoro. O
bloqueio mucoso, por exemplo, consiste na formao de um complexo entre a transferrina e a protena efestina (HFE)
que modula a capacidade absortiva de ferro no entercito. Neste contexto, a absoro de ferro modulada de acordo
com a dieta. Quando a dieta for rica em ferro e, consequentemente, a quantidade de ferritina no interior do entercito
est elevada, o complexo HFE-Transferrina inibe a capacidade absortiva de ferro do entercito. Outros dois mecanismos
esto relacionados com a concentrao de ferritina (se esta estiver elevada no entercito, a absoro reduzida) e com
reguladores hematopoiticos (se existe uma maior necessidade de produo medular, ocorre um aumento na abdoro
de ferro).
OBS7: Apenas a vitamina C capaz de auxiliar na absoro do ferro. Contudo, sua utilizao aumenta a intolerncia
gstrica e, por isso, seu uso dispensvel.
ETIOLOGIA
As principais causas envolvidas com a etiopatognese da anemia ferropriva so:
Sangramento crnico (principal causa)
Deficincia alimentar
Sangramento gstrico
Hemorridas
Neoplasias
Hemoglobinria
Parasitose
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Doena celaca
Uso de salicilatos (AAS)
Acloridrias: faz-se uso de beta-bloqueadores.
Gastrectomia: caracteriza-se pela deficincia da absoro de ferro. Todo paciente submetido gastrectomia
deve fazer uso de ferro pelo resto da vida, uma vez que a retirada do estmago e parte do duodeno interfere no
metabolismo deste metal, principalmente no que diz respeito sua estabilizao (pelo cido clordrico) e seu
local de absoro (retirada de parte do intestino).
Hipermenorria: podemos caracterizar esta situa
es na presena dos seguintes relatos: (1) uso de mais de 12
absorventes por perodo; (2) uso de mais de 4 absorventes por dia; (3) presena de cogulos; (4) durao da
menstruao por mais de 5 dias.
Necessidades aumentadas:
Crescimento
Gravidez
Baixa reserva de ferro neonatal: quase todo conteodo de ferro no ltimo trimestre de vida intra-uterina.
Prematuramente, no h reserva adequada podendo ocorrer anemia ferropriva nos perodos meses.
INSTALAO DA ANEMIA
Em decorrncia de algum fator etiolgico, podemos destacar as seguintes fases durante a instalao da anemia:
1. Depleo gradativa do ferro (diminuio das reservas), sem afetar a hematopoiese (sem anemia).
2. Eritropoese deficiente (podendo j apresentar microcitose e hipocromia), mas sem anemia importante.
3. Instalao da anemia propriamente dita.
Percebe-se, assim, que a instalao da anemia acontece de forma gradativa, insidiosa e, relativamente
demorada. Por esta razo, durante a anlise de um hemograma, no podemos nos deter apenas quantidade de
hemoglobina – prudente analisar, de forma sistemtica, o VCM e HCM (que medem, respectivamente, o tamanho das
hemcias e o peso da hemoglobina dentro dela). Se eles se apresentarem baixos, mesmo na ausncia de uma anemia
propriamente dita, podemos sugerir uma deficincia de ferro.
QUADRO CLNICO
Os sinais e sintomas da carncia de ferro so inespecficos, necessitando-se de exames de sangue laboratoriais
para que seja confirmado o diagnstico de anemia ferropriva.
Dentre os principais sintomas, temos:
Palidez cutneo-mucosa
Fadiga com incmodo em membros inferiores
Sonolncia
Tontura
Dispnia
Unhas quebradias
Pica (termo que se d a um tipo de perverso do apetite: desejo de comer alimentos de baixo valor nutricional,
como amido, gelo, barro e terra; constitui-se em um sintoma clssico, que reverte prontamente ao iniciarmos a
reposio de sulfato ferroso)
OBS8: A associao entre quelite angular, glossite, disfagia e deficincia de ferro caracteriza a sndrome de Plummer-
Vinson.
DADOS LABORATORIAIS
O diagnstico de anemia ferropriva sempre deve ser cogitado em qualquer paciente com anemia. Dados do
hemograma e do esfregao perifrico so de grande valia, mas a confirmao diagnostica feita pelo “laboratrio do
ferro” ou perfil do ferro (ferro srico, TIBC e ferritina srica). Nos casos duvidosos, pode-se lanar mo do aspirado de
medula ssea (mielograma).
Hemograma:
Anemia microctica e hipocrmica, anisocitose (alterao do tamanho das hemcias), poiquilocitose
(alterao da forma das hemcias).
Reticulcitos diminudos
Leucopenia (15% dos casos): se corrige quando se rep
e ferro.
Plaquetose (75% dos casos): causada pelo sangramento
Perfil do ferro: o teste mais fidedigno do perfil de ferro a ferritina, que melhor avalia as reservas de ferro. As
dosagens do ferro, propriamente dito, no so muito fidedignas.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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o Ferro srico (VR: 50 – 170mcg/dl): diminudo.
o Capacidade total de ligao do ferro ou TIBC (VR: 250 – 360mcg/dl): aumentada (se o ferro est
reduzido, a capacidade de a transferrina se ligar ao ferro est aumentada).
o ndice de saturao da transferrina = Ferro x 100/TIBC (VR: 20 – 40%): diminuda.
o Ferritina (VR: 10 – 300ng/ml): diminuda. Contudo, esta ferritina pode ter seu valor alterado pois ela se
mostra elevada em doenas, como o lpus eritematoso sistmico.
Aspirado de medula ssea (mielograma): consiste na pesquisa de ferro medular. O mielograma o exame de
maior acurcia para o diagnstico da anemia ferropriva, porm, s solicitado nos casos duvidosos.
Anemia microctica e hipocrmica.
TRATAMENTO
A terapia diettica no tem valor algum quando empregada de forma isolada na correo da anemia ferropriva,
devido a baixa biodisponibilidade do ferro nos alimentos. Em compensao, os preparados contendo ferro em sua forma
ferrosa (Fe+2) so prontamenteabsorvidos pelo trato gastrointestinal.
Em linhas gerais, temos:
Tratar a causa de base da anemia ferropriva
Optar pela teraputica oral, obedecendo a dose recomendada diria de ferro, que de 60mg de ferro
elementar/dia (para crianas, 5mg). Para isso, devemos fazer uso de Sulfato ferroso de 300mg (para crianas:
25mg/kg/dia), 3x ao dia, sendo a administrao feita sempre uma hora antes das refei
es (1 hora antes do caf
da manh, 1 hora antes do almoo e 1 hora antes do jantar), devendo o tratamento ser contnuo at que o
paciente atinja uma hemoglobina de, no mnimo, 12g/dl. No prudente associar cido flico ou vitamina C
(muito embora esta auxilie na absoro do ferro, mas muitos pacientes cursam com intolerncia). A melhor
forma de tratamento , de fato, por via oral, por ser um mtodo mais seguro, mais barato e que mostra melhor
incorporao do ferro na medula ssea. A resposta ao tratamento deve ser observada avaliando-se a contagem
de reticulcitos: estes elevam-se nos primeiros dias de reposio, atingindo um pico entre 5-10 dias (adultos) e
entre 5-7 dias (crianas).
Teraputica parenteral: as indica
es de ferro parenteral incluem: (1) sndromes de m-absoro duodeno-
jejunais, como por exemplo, a doena celaca; (2) intolerncia ou pouca resposta s prepara
es orais; (3)
anemia ferropriva refratria terapia oral, apesar da aderncia teraputica; (4) necessidade de reposio
imediata dos estoques de ferro, quando utilizamos, por exemplo, a eritropoietina recombinante humana em
pacientes com insuficincia renal crnica em tratamento dialtico. As prepara
es disponveis se fazem na forma
de ampolas de 2ml com 100mg de ferro elementar. Alm de ser um tratamento mais caro e poder causar
nuseas e diarria, o principal risco de sua administrao a reao anafiltica. O clculo da dose a ser
administrada em cada paciente feito da seguinte maneira:
Intra-muscular Dose = (15 – Hb encontrada) x Peso (kg) x 3; a dose intramuscular diria mxima
recomendada de ferro de 100mg. Uma dose de 20mg deve ser administrada inicialmente para testar a
sensibilidade ao ferro.
Endovenosa Dose = (15 – Hb encontrada) x Peso (kg) x 3; a dose endovenosa diria pode ser
equivalente dose total dividida em trs dias consecutivos, diluda em 100ml de soluo salina para
cada 250mg de ferro e infundida velocidade de 150ml/hora.
PREVENO
A melhor arma para preveno da anemia ferropriva , sem dvida, uma alimentao variada, rica em alimentos
que naturalmente possuem ferro.
As melhores fontes naturais de ferro so os alimentos de origem animal (fgado e carne de qualquer animal) por
possurem um tipo de ferro melhor aproveitado pelo nosso organismo (o ferro heme).
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MED RESUMOS 2011
ELOY, Yuri Leite; NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
ANEMIA APLÁSTICA
(Professora Angelina Cartaxo)
A anemia aplstica causada por uma falncia do
processo de hematopoese, potencialmente fatal, caracterizada
por uma depleo nas reservas medulares acompanhada de
anemia grave, neutropenia e trombocitopenia. uma anemia
normocrmica e normoctica.
Estudos populacionais demonstram que a doena
mais comum no oriente do que no ocidente. Um estudo
realizado em Bancoc de 3,9 casos novos/1000000 habitantes
por ano, enquanto que no ocidente a incidncia de dois casos
novos/ 1000000 habitantes por ano.
No Brasil, um estudo no estado do Paran teve um
coeficiente de incidncia de 2,4 casos/1000000 habitantes por
ano. uma anemia mais frequente em pacientes do sexo
feminino, com uma idade entre 15 a 20 e maiores que 60 anos.
CLASSIFICAO
QUANTO A GRAVIDADE
Moderada: considerada moderada quando o paciente no preenche critrios para grave ou muito grave.
Grave: considerada grave quando o paciente apresenta as seguintes condi
es: neutrfilos <500, plaquetas
<20.000, reticulcitos <1%.
Muito grave: neutrfilos < 200 no hemograma, independente do nmero de plaquetas, ou seja, as plaquetas
podem estar superiores a 20.000. Desta forma, o achado de neutrfilos menor que 200 j indica caso grave de
anemia aplstica.
QUANTO A ETIOLOGIA
Idiopática.
A anemia aplstica classificada como idioptica, nos casos em que no h evidncia de um agente causal,
situao encontrada em 65% dos casos.
Etiologia Adquirida.
Esto includos nesse grupo agentes qumicos, fsicos e infecciosos, entre outros.
Agentes químicos e drogas: benzeno, Inseticidas, Anticonvulsivantes (Carbamazepina), Antiinflamatrios
(Fenilbutazona, Indometacina, Ibuprofen, AAS), Antimalricos, Cloranfenicol, quimioterpicos e metais pesados.
Agentes físicos: Radiao ionizante – ficou clara sua ao lesiva na medula aps a exploso de bomba
atmica nas cidades de Hiroshima e Nagazaki, pois nas vtimas autopsiadas foi visto que no existia medula
funcionante. Sendo a anemia aplstica e a leucemia as principais causas de morte por esta radiao.
Agentes infecciosos: Hepatites, HIV, Epstein-Barr, Citomegalovrus, Vrus da dengue. A ao viral pode
ocorrer devido a ao direta do vrus sobre o rgo, ou ainda, atravs da ativao do sistema imune, ocorrendo
a leso da medula por clulas desse sistema.
Doenças imunes: Fascite eosinoflica, Timoma.
Gravidez: ocasionada pelas altera
es que o feto induz na gestante, considerando que, metade do material
gentico do filho estranho ao organismo da me uma vez que pertence ao pai.
OBS1: Dentre os agentes citados acima, merece destaque o benzeno, pois uma substncia largamente utilizada em
fbricas de sapatos. Sua penetrao no organismo pode ocorrer atravs inalao ou pelo prprio contato com a pele.
Quando dentro do organismo sofre altera
es estruturais, adquirindo a capacidade de lesar o DNA da clula, e com isso,
impedindo a progresso da hematopoese na medula ssea. Por isso, so os principais causadores de anemia aplstica
dentre os agentes citados anteriormente.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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OBS2: Dentre os medicamentos, o cloranfenicol possui um maior poder lesivo sobre a medula, fato este que fez com que
os EUA proibissem sua comercialização. Depois de ingerido o cloranfenicol sofre alterações formando o nitroso-
cloranfenicol, que causa danos no DNA da célula, desencadeando a anemia aplástica.
Etiologia Hereditária (Constitucional).
A anemia de Fanconi (AF) é uma doença hereditária autossômica recessiva, frequentemente associada
pigmentação anormal da pele, hipoplasia renal ou esplênica, anormalidades do esqueleto, microcefalia e atraso mental.
Há uma elevada fragilidade cromossômica, especialmente após exposição a agentes que afetam a estrutura do DNA.
Tem uma evolução invariavelmente fatal, iniciando as manifestações clínicas hematológicas ainda na infância.
Caracterizam-se por mal-formações congênitas (agenesia de rins, rins em ferradura, má-formações cardíacas,
baixa estatura, agenesia do polegar) e insuficiência da medula óssea. O defeito de base da doença ocorre na célula
mesenquimal pluripotente, envolvendo vários defeitos enzimáticos, relacionados com o processo de regeneração do
DNA.
As malformações congênitas mais comuns são:
Pigmentação da pele: Hiperpigmentação, manchas café com leite e hipopigmentação.
Malformações cardíacas
Malformações renais: aplasia de um rim, rim em ferradura, rim ectópico, rim policístico
Defeitos esqueléticos: ausência do rádio e polegar, polegar hipoplásico, agenesia do polegar.
OBS3: A Síndrome de Blackfan-Diamond caracteriza-se pela presença de anormalidades ósseas nos polegares e baixa
estatura. A aplasia vermelha pode ocorrer transitoriamente durante diversas alterações infecciosas e hemolíticas e em
associação a tumores dotimo.
FISIOPATOLOGIA
As possíveis alterações descritas abaixo podem estar envolvidas com o desenvolvimento da anemia aplástica.
TEORIA / HIPÓTESE DAS CÉLULAS-TRONCO
A fisiopatologia da anemia aplástica pode ser explicada através de um defeito intrínseco qualitativo ou
quantitativo nas células tronco. A teoria de um defeito nas células tronco da medula óssea é sustentada principalmente
devido ao sucesso da terapia com transplante de medula óssea (TMO) em gêmeos idênticos (singênicos). Ou seja, se
um dos gêmeos é portador de anemia aplástica e o TMO resolve o problema, demonstra que o defeito realmente estaria
presente nas células tronco.
Entretanto, caso o defeito estivesse no microambiente medular, às células tronco recebidas não iriam exercer
nenhuma melhora hematológica para o paciente, pois iriam ser destruídas.
TEORIA / HIPÓTESE DE ALTERAÇÃO NO MICROAMBIENTE MEDULAR
Esta teoria de baseia na existência de alterações no microambiente medular, como anomalias na produção de
citocinas por defeito ou deficiência dos fatores de crescimento hematopoiéticos. Não há, entretanto, evidências
concretas que o microambiente possa causar um dano a medula óssea participando da gênese da anemia aplástica.
Existem diversos trabalhos contra e a favor dessa teoria.
TEORIA IMUNOLÓGICA E SUPRESSÃO HEMATOPOIÉTICA
Baseia-se na supressão da hematopoese secundária a fatores imunológicos (anticorpos, linfócitos, ativação de
linfocinas). Essa teoria é sustentada principalmente devido à melhora do paciente após a administração de drogas
imunossupressoras. Além disso, baseia-se no fato dos pacientes com anemia aplástica, submetidos à TMO só
conseguirem enxerto bem sucedido utilizando condicionamento prévio com Ciclofosfamida (imunossupressor).
Ou seja, mesmo os pacientes que são submetidos à TMO, após algum tempo, alguns deles apresentam um
quadro de destruição da medula recebida. Por isso, deve ser utilizada drogas imunossupressoras. Esse fato é indicativo
que exista um fator imunológico na gênese da anemia aplástica.
QUADRO CLNICO
Sabe-se que a deficiência desses pacientes afeta todas as linhagens de células oriundas da medula óssea. Com
isso, as principais manifestações clínicas são:
Fadiga
Falta de ar
Batimento cardíaco acelerado
Palidez cutâneo-mucosa
Tonturas
Cefaléias
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Infecções frequentes ou prolongadas: a queda da imunidade é evidente devido à deficiência de células de
defesa, especialmente os granulócitos. As infecções mais comuns são aquelas relacionadas ao sistema
pulmonar e TGI. O risco de infecção se relaciona principalmente com os valores quantitativos de neutrófilos, ou
seja, quanto maior a neutropenia, maior será o risco de o paciente com anemia aplástica apresentar infecções
de repetição.
Equimoses inexplicadas ou frequentes
Epistaxe ou hemorragia gengival
Hematêmese, Sangramentos do TGI, Metrorragia de difícil controle, hemorragias do SNC
Hemorragias prolongadas no caso de cortes: as manifestações hemorrágicas ocorrem principalmente devido a
ocorrência de uma não formação de células plaquetárias.
Apesar dos sinais e sintomas citados acima, alguns pacientes desenvolvem um quadro de anemia crônica, ou
seja, com adaptação do organismo às concentrações baixas de oxigênio.
DIAGNSTICO
CLÍNICO
O diagnóstico da anemia aplástica é dado seguindo o roteiro da semiologia hematológica, ou seja, iniciando-se a
partir dos sinais e sintomas clínicos relatados e confirmados pelo médico. Geralmente as manifestações mais comuns
são: sangramentos gengivais, hematomas após microtraumas, demora para cicatrização de pequenas referidas,
infecções de repetição, equimoses inexplicadas.
LABORATORIAL
Hemograma.
Mostra valores de glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas muito
baixas (pancitopenia). O paciente se apresenta com anemia normocítica e
normocrômica, neutropenia variável (tendo importante valor prognóstico) e
plaquetopenia.
Espera-se que os reticulócitos estejam reduzidos, já que é uma
anemia por déficit de produção. Com a queda dos reticulócitos, ocorrerá
uma secreção aumentada de eritropoietina na tentativa de estimular uma
maior produção. E por último temos uma ferritina aumentada, já que está
não esta sendo utilizada devido à evidente ausência de ferro nas hemácias.
Mielograma.
Consiste no primeiro exame a ser solicitado nos casos de pancitopenia, como é o caso da anemia aplástica.
Apesar de ser o primeiro exame, é incompleto para realização o diagnóstico concreto de anemia aplástica. O intuito do
mielograma é excluir outras causas de anemia, como é o caso da anemia megaloblástica (na qual há anemia,
leucopenia e plaquetopenia) e da leucemia, sendo estas as principais patologias com a qual a anemia aplástica deve
fazer diagnóstico diferencial.
Com isso, no mielograma, percebe-se um aumento de gordura. No pouco de medula óssea vermelha que se vê,
existem linfócitos e plasmócitos.
O mielograma é um exame que pode ser colhido no osso esterno, crista ilíaca ântero-superior ou póstero-
superior. Em crianças menores, o exame pode ser realizado na tíbia.
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Biópsia da medula óssea.
É o exame ideal para confirmação do diagnóstico, excluindo a possibilidade de outras doenças hematológicas. A
medula é pobre, mas com células de aspecto normal, diferentemente de tumores infiltrativos.
OBS4: Citogenética é realizada em pacientes com menos de 20 anos para afastar anemia de Fanconi, já que 20% dos
pacientes não apresentam os caracteres da doença, ou seja, malformações características citadas anteriormente.
OBS5: A imunofenotipagem está indicada para exclusão de hemoglobinúria paroxística noturna, sendo esta a causa da
anemia aplástica. Nesse exame avaliam-se o CD-55 e CD-59.
TRATAMENTO
PALIATIVO
Consiste na reposição dos elementos sanguíneos que estão gravemente reduzidos no paciente. Com isso, está
indicada a realização de infusão de concentrado de hemácias, concentrado de plaquetas e a realização de uma
vigilância constante em relação ao número de neutrófilos.
As transfusões sanguíneas estão indicadas nas seguintes situações:
Pacientes sintomáticos e com episódios de sangramentos, podendo ser administrado concentrado de hemácias.
Somente é recomendada a transfusão quando o paciente tem uma hemoglobina menor que 6mg/dl.
A infusão de concentrado de plaquetas é feita quando o paciente apresenta níveis plaquetários inferiores a
20.000. Algumas literaturas consideram abaixo de 10.000 plaquetas, variando também de acordo com o serviço
médico local.
Nos pacientes que apresentarem febre, é indicativo de quadro infeccioso. Com isso, deve-se fazer uma
investigação adequada com realização de raios-x da face e tórax, Urina I e urocultura, hemocultura, identificação
do foco e administrar antibióticos de amplo espectro. Essa conduta deve ser priorizada, pois esses pacientes
podem evoluir rapidamente para sepse devido à neutropenia.
É necessário ter cautela na indicação de transfusão, devido a possíveis complicações com as múltiplas
transfusões:
Os glóbulos vermelhos contêm ferro que pode se acumular no corpo e danificar os órgãos vitais, levando ao
quadro de hemocromatose. Nesses casos é importante salientar que esses pacientes já apresentam uma
ferritina elevada, podendo sobrecarregar os hepatócitos.
Outra possível complicação é a de o corpo poder vir a desenvolver anticorpos contra os glóbulos vermelhos do
doador tornando esta terapia menos eficaz, caracterizando reações transfusionais
IMUNOSSUPRESSORES
O tratamento com imunossupressores, como foi citado anteriormente, participa de forma ativa na progressão da
doença, já que esta inibe um determinado fatorimunológico responsável pelos danos a medula óssea. Os
imunossupressores mais utilizados são: ciclosporina, globulina antitimocito, corticosteróides (prednisona).
TRANSPLANTE DE MEDULA ÓSSEA (TMO)
O tratamento através do TMO tem uma maior eficácia devido ao paciente apresentar uma resposta completa, ou
seja, o portador de anemia aplástica tem uma remissão do quadro de anemia mais efetivo. Entretanto, enquanto que as
complicações dos imunossupressores são relativamente leves, a principal complicação da TMO é o óbito. Estima-se que
cerca de 30% dos pacientes que realizam o transplante de medula óssea morrem.
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O procedimento caracteriza-se pela substituição de tecido danificado pelo tecido novo de um doador. Este pode
ser o único tratamento de sucesso para pessoas com anemia aplástica grave. O TMO só poderá ser feito para aqueles
pacientes que apresentam as seguintes condições:
< 40 anos de idade
Doador HLA compatível.
Tipos de Transplantes.
O transplante de medula óssea pode ser:
Autogenênico: quando a medula ou as células precursoras de medula óssea provêm do próprio indivíduo
transplantado (receptor). Por isso, não há indicação para pacientes portadores de anemia aplástica. Esse tipo de
transplante também está indicado como medida terapêutica para linfomas, especialmente nos casos resistentes,
na qual as doses de quimioterapia seriam altas, ocorrendo assim à lesão da medula do paciente. Com isso, é
feita a retirada da medula, realiza-se a quimioterapia e posteriormente reinfunde e medula do paciente.
Alogênico: quando a medula ou as células provêm de outro indivíduo (doador), podendo ter ou não grau de
parentesco. Entretanto, sabe-se que a resposta será melhor se o paciente receber de um parente próximo, como
por exemplo, o irmão, devido aos menores riscos de rejeição. Esse tipo de transplante é largamente utilizado nos
pacientes diagnosticados com leucemia, anemia aplástica.
Transplante singênicos: em que o doador é um irmão gêmeo idêntico. É a modalidade mais rara de transplante
devido a pouca frequência de gêmeos idênticos na população.
As chances de sucesso do tratamento com o TMO é tanto maior quanto menor for o número de infusões de
concentrado de hemácias e plaquetas. Naqueles pacientes que tiveram menos que 15 transfusões, com um tempo
menor que 2 meses entre o diagnóstico e realização da TMO, as taxas de cura são de até 90%. Entretanto, essa
realidade vem se modificando devido ao uso correto de imunossupressores prévios, impedindo a progressão da lesão.
Formas de coleta.
As células progenitoras hematopoiéticas podem ser coletadas das seguintes formas:
Diretamente na crista ilíaca, através de múltiplas punções e aspirações da medula óssea. Nesses casos é
necessária a presença de 2 x 108 células, para que haja possibilidade de êxito no transplante. A técnica correta
para retirada da medula do doador é feita com o paciente sob anestesia geral, no centro cirúrgico, especialmente
por ser um procedimento doloroso e incômodo para o paciente. Após aspiração, a medula do doador é colocada
em um recipiente que contém diversas substâncias, como gorduras, anticoagulantes etc. Depois disso será
filtrada, para a retirada de fragmentos ósseos, e colocada em uma bolsa de sangue. E por fim o contemplado
receberá a medula no seu leito, como se estivesse realizando uma doação de sangue.
Do sangue periférico, através de máquinas de aférese. Nesses casos espera-se coletar 3 a 5 x 106 células
para obter sucesso no transplante. Geralmente o doador recebe diversas injeções de fatores estimuladores de
granulócitos, que estimula a medula óssea a intensificar a produção de células de forma que as células
hematopoiéticas transbordam da medula óssea e tornam-se circulantes. Desta forma, é coletado o sangue do
paciente através de uma máquina específica. Depois disso, o líquido é passado em outra máquina para
contagem de células específicas.
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Do sangue de cordão umbilical: atravs desse procedimento s possvel obter cerca de 70 a 100 ml de
medula ssea ntegra para transplante. Por isso, essa fonte est reservada somente para crianas, j que no
possvel a obteno de um nmero de clulas suficientes para os pacientes adultos.
Se for encontrado doado compatvel, o procedimento comea por submeter a medula do receptor (paciente) a
radiao e ou quimioterapia. Depois, extrada a medula saudvel do doador e injetada via intravenosa na corrente
sangunea do receptor, onde vai migrar at as cavidades da medula ssea e, dentro de 3 a 4 semanas, poder comear
a originar novas clulas.
Complicações.
Somente aps 3 a 4 semanas, a medula que foi transfundida inicia o processo de produo de clulas
hematopoiticas (ou seja, o sangue), sendo este diferente de sua tipagem sangunea anterior. Nos transplantes
autlogos, no h risco de rejeio, entretanto, aumentam-se os riscos de ocorrncia de infec
es nesse perodo em
que a medula permanece no funcionante. Nessa etapa o paciente conduzido com administrao de antibitico
profiltico, concentrado de hemcias e plaquetas.
No transplante Alognico, a maior complicao a reao do Enxerto x Hospedeiro. Essa reao
caracterizada pelos leuccitos produzidos pela nova medula, que reagem contra diversos rgos, tais como fgado, pele,
pulmo, rins. Essa reao pode ocorrer de forma leve ou grave, podendo levar ao bito.
Indicação Terapêutica em Relação à Idade e Neutropenia.
Nos pacientes menores que 20 anos de idade, com a forma
grave da doena, pode-se realizar o TMO, caso tenha um
irmo HLA compatvel.
Entre 20 a 40 anos podemos ter as seguintes condi
es:
Menor que 200 neutrfilos – transplante de medula
ssea
Maior que 200 neutrfilos – tratamento com
imunossupresso
Em pacientes com idade superior a 40 anos, independente do
nmero de neutrfilos h indicao absoluta somente para
imunossupresso. Isso ocorre, pois nesses pacientes o risco
dos transplante grande.
DIAGNSTICO DIFERENCIAL
Infiltrao medular
Mielofibrose
Tricoleucemia – evolui com pancitopenia, motivo principal para realizao do diagnstico diferencial com
anemia aplstica.
Leucemias agudas aleucmicas
Mielodisplasia – lentificao da produo de clulas por parte da medula ssea.
Linfomas e mieloma mltiplo – podem induzir leucopenias e neutropenias.
Hiperesplenismo – quando o bao torna-se hiperfuncionante, destruindo as clulas jovens do sangue, evoluindo
com plaquetopenia, anemia e leucopenia.
Esquistossomose – doena que leva ao crescimento do bao ocorrendo assim um quadro de hiperesplenismo.
Calazar
Sarcoidose
Anemia megaloblstica – pancitopenia.
LES
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MED RESUMOS 2011
ELOY, Yuri Leite; NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
ANEMIA MEGALOBLÁSTICA
(Professora Flávia Pimenta)
A anemia megaloblstica uma doena na qual a medula ssea produz hemcias gigantes e imaturas. O termo
"megaloblastose" no se refere a uma alterao do tamanho das hemcias circulantes (isso porque uma hemcia
aumentada chamada de macrcito), mas sim a uma anormalidade morfolgica dos ncleos de seus progenitores no
interior da medula ssea, a qual passa a liberar na circulao clulas jovens com altera
es especficas. Estas clulas
so os eritroblastos, que desenvolvem esta alterao nuclear, e passam a ser reconhecidos como megaloblastos. Os
megaloblastos so reconhecidos como clulas defeituosas pelos macrfagos da medula ssea, sendo destrudos no
interior da prpria medula, um fenmeno que chamamos de eritropoiese ineficaz.At se prove o contrrio, uma anemia megaloblstica causada pela carncia de ácido fólico (folato) e/ou
vitamina B12 (cianocobalamina), importantes cofatores da sntese de DNA. O uso de medica
es que impedem a
sntese adequada do DNA (zidovudine e os antagonistas das purinas e pirimidinas) e de drogas que trazem prejuzo ao
metabolismo do folato (metotrexato), vem se constituindo em etiologia frequente de anemia megaloblastica em
indivduos infectados pelo HIV e em pacientes com neoplasias malignas e doenas auto-imunes.
Portanto, a anemia megaloblstica ocorre por carncia nutricional, podendo esta ser por deficincia de vitamina
B12 ou cido flico. Apesar dessa diferena nutricional e etiolgica, o quadro hematolgico semelhante, muito embora o
tratamento tambm seja distinto.
OBS1: Como j vimos ao longo destes captulos, podemos conceituar anemia como uma ligeira queda dos nveis de hemoglobina
e/ou hematcrito, para a idade e sexo de um determinado paciente. Alm disso, importante salientar que no necessita ter uma
reduo da populao de hemcias, para que seja caracterizado um quadro de anemia. De acordo com o que foi discutido, podemos
exemplificar da seguinte forma: RN geralmente apresentam uma hemoglobina de 22mg/dl, com isso, quando este apresenta nveis em
torno de 14mg/dl, sugestivo de anemia, diferentemente de um paciente adulto do sexo feminino, em que, o valor srico de 14mg/dl
est normal. Sobre o que foi discutido acima, pode-se perceber que os RN apresentam nveis sricos de hemoglobina mais elevados
que os adultos, alm de possuir uma alta afinidade pelo oxignio. O adulto possui uma hemoglobina classificada como A1 – HbA1 –
que apresenta uma baixa afinidade pelo oxignio quando comparada com a hemoglobina do RN. Os RN apresentam uma alta
afinidade pelo oxignio, entretanto apresentam dificuldades para distribuio adequada para os tecidos e, por isso, necessitam de um
contedo de hemoglobina maior que do adulto.
ASPECTOS EPIDEMIOLGICOS
Ambas as carncias (de cido flico ou de vitamina B12) so mais comuns em adultos acima de 40 anos, sem
predileo para o sexo. Os precursores gigantes com degenerao da cromatina nuclear em medula ssea so
denominados de megaloblastos (defeito na sntese de DNA – devido deficincia de cido flico, necessrio para a
sntese do DNA).
A incidncia maior no sexo feminino, podendo acometer todas as faixas etrias. De acordo com a etiologia
temos predileo por determinadas idades.
DEFICINCIA DE CIDO FLICO
A principal fonte de cido flico (folato) a
dieta, sua absoro feita em nvel do intestino
delgado (jejuno), na forma de metiltetrahidrofolato
(forma inativa). Os principais alimentos que contm
cido flico so: vegetais verdes, frescos, fgado,
aveia, frutas. Aps sua absoro e metabolizao
permanece armazenado no fgado por at 4 a 5
meses.
Aps sua absoro no ID, sob a forma de
metiltetrahidrofolato, esse composto sofre ao da
enzima metionina sintetase, que est associada
vitamina B12, modificando sua forma estrutural para
tetrahidrofolato, sendo esta a forma ativa do cido
flico.
Alm disso, o radical metileno ir atuar sobre o metiltetrahidrofolato, formando as bases nitrogenadas, purinas e
pirimidinas, substncias responsveis pela sntese de DNA.
A homocistina recebe o radical metil, formando a metionina, substncia indispensvel para a cadeia de rea
es
para formao das purinas e pirimidinas.
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Percebe-se, ento, que o cido flico e a vitamina B12 esto relacionados, de forma que, se o cido flico
permanecer na forma de metiltetrahidrofolato, no haver formao do DNA e, com isso, cria-se uma situao que se
denomina de “armadilha do metilfolato”, pois a dosagem do cido flico no sangue estar elevada, entretanto, no
servindo para formao do material gentico.
OBS2: importante salientar que quanto mais cozidos so os alimentos, menor ser o teor de cido flico. De forma
geral, a elevao da temperatura diminui drasticamente seus nveis nos alimentos.
ETIOLOGIA
Ingesta Inadequada: falta de vegetais, ocorrendo com uma maior freqncia em alcolatras, adolescentes e
crianas.
Absorção prejudicada: ocorre principalmente devido a doenas que afetam o intestino delgado, como por
exemplo: espru tropical, doena celaca, sndrome de intestino curto, medicamentos anticonvulsivantes e
sulfassalazina (substncias que inibem a ao da metionina folato).
Prejuízo no metabolismo: Metrotexate, trimetroprim, pirimetamina, etanol, deficincias enzimticas congnitas
(raro).
Demanda Excessiva: gravidez, lactao e crescimento, proliferao celular aumentada (anemias hemolticas
crnicas, situao em que h formao constante de novas clulas), anemias hemolticas, dermatite esfoliativa,
hemodilise. Nessas situa
es, especialmente gravidez e amamentao, necessrio fazer a reposio de
cido flico.
QUADRO CLÍNICO
Cansao, tontura, irritabilidade, cefalia
Glossite, estomatite, atrofia de papilas
No h disfuno neurolgica
DIAGNÓSTICO
Quadro Clínico.
As manifesta
es clnicas decorrem das altera
es megaloblsticas e dos sintomas das doenas de base. As
manifesta
es de deficincia de folato e vitamina B12 so indistinguveis, exceto pelo fato de que as altera
es
neurolgicas so mais comuns na deficincia de vitamina B12.
Exame Físico.
Graus variados de palidez com pele amarelada (combinao de palidez e anemia) so comuns. Uma
manifestao clssica a perda das papilas da lngua, a qual fica lisa, brilhante e intensamente vermelha que ocorre
mesmo na ausncia de anemia. Associao com outras carncias vitamnicas pode mostrar queilite angular, dermatite,
sangramento de mucosas, infec
es crnicas. Especial ateno deve ser dada a hiperpigmentao das dobras da pele e
leitos ungueais; pode acontecer e envelhecimento precoce dos cabelos. Os casos mais graves so acompanhados de
sinais de insuficincia cardaca.
Diagnóstico Laboratorial.
O diagnstico, alm da realizao do hemograma mostrando macrocitose, feito com a dosagem de folato nas
hemcias, sendo este o padro ouro para o diagnstico, mostrando seus nveis reduzidos, assim como o folato srico.
Os principais achados so anemia macroctica, leucopenia, trombocitopenia, plaquetopenia (configurando uma
pancitopenia), acompanhadas de anisocitose, macrocitose com macroovalcitos, poiquilocitose e granulcitos
polissegmentados.
Em resumo, tem-se como manifestao uma
pancitopenia associada macrocitose. A contagem de
reticulcitos normal ou baixa, mas o clculo do ndice de
reticulcitos corrigido indica anemia hipoproliferativa.
Descreve-se a anemia megaloblstica como anemia
macrocítica hiporregenerativa. A hipersegmentao dos
neutrfilos o sinal mais precoce da disfuno da
granulopoese, aparecendo mesmo antes da macrocitose e da
anemia e persistindo por dias ou semanas aps o incio do
tratamento. Considera-se hipersegmentao quando h no
mnimo 5% de neutrfilos com cinco lobos ou um neutrfilo com
seis ou mais lobos (neutrfilos plurisegmentados).
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Alm de todas as altera
es descritas, a DHL (desidrogenase lctica – enzima intracelular que, quando elevada,
indica morte celular) estar elevada, pois a prpria medula ssea destri as clulas com altera
es morfolgicas
intensas. Alm disso, nota-se uma bilirrubina indireta elevada explicada, pela destruio eritrocitria, reduo da
Haptoglobina e elevao da Homocistina Srica.
Conclumos que na avaliao laboratorial teremos: anemia macroctica normocrmica com reticulcitos normais
ou reduzidos (diferentemente das anemias hemolticas),DHL e bilirrubina indireta elevada.
TRATAMENTO
A deficincia de folato tratada com terapia de reposio, na dose usual de 1-2mg/dia por via oral. Se o
problema estiver na absoro, doses de at 15mg/dia podem ser utilizadas, sendo rara a necessidade do folato
parenteral.
Os pacientes com necessidades continuamente aumentadas (anemia hemoltica ou m-absoro) devem
continuar a receber cido flico oral indefinidamente, juntamente com uma dieta rica em folato. Deve-se atentar para o
uso de folato no perodo periconceptual (trs meses antes da gestao), pois reduz a incidncia de defeitos do tubo
neural em conceptos.
DEFICIENCIA DE VITAMINA B12
A vitamina B12 (cobalamina) produzida por
bactrias que habitam o tubo digestivo de animais, e existe
primariamente em alimentos de origem animal, no sendo
encontrada em frutas e vegetais.
As necessidades dirias so nfimas, e por isso a
carncia de vitamina B12 de origem alimentar
excepcional: somente ocorre em vegetarianos estritos
depois de mais de uma dcada sem ingerir alimento de
origem animal, devido a uma eficiente conservao de
vitamina pela circulao entero-heptica.
METABOLISMO
A absoro de vitamina B12 ocorre
predominantemente no leo terminal e depende de uma
glicoprotena produzida pelas clulas parietais da mucosa
gstrica, denominada de fator intrínseco (FI). No
estmago, a digesto pptica em pH cido pr-requisito
para a liberao da vitamina B12 do alimento. A molcula
liberada liga-se protena R, sendo este complexo
degradado pelas proteases pancreticas com consequente
transferncia da molcula da vitamina B12 para o fator
intrnseco. Este complexo de vitamina B12/FI captado
pelos receptores das clulas epiteliais do leo e a vitamina
B12 absorvida. Qualquer alterao neste processo de
absoro leva a deficincia de vitamina B12.
De acordo com a reao 1 mostrada abaixo, possvel observar que a vitamina B12 participa como co-fator
importante na formao da metil-homocistena. Com isso, a deficincia de vitamina B12 leva a acmulo de homocistena,
que predisp
e a formao de trombos arteriais.
Na reao 2, podemos observar que a deficincia de vitamina B12 vai levar a reduo da formao de Succinil
CoA, que pode estar associada a diminuio da produo dos fosfolipdios da bainha de mielina, de forma que a
deficincia de vitamina B12 esteja associada um neuropatia perifrica, evoluindo com dificuldade para deambular, at
permanecer totalmente hemiplgico. As altera
es na bainha de mielina no so reversveis com o tratamento.
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As fontes naturais de vitamina B12 so as carnes e laticnios, sendo esta vitamina armazenada do fgado, por
tempo que varia entre 3 a 15 anos. Com isso, caso haja interrupo da ingesta de vitamina B12, os sintomas de anemia
s aparecero aps 10 a 15 anos.
QUADRO CLÍNICO
A trade de fraqueza, dor na lngua e parestesias so clssicas na
deficincia de vitamina B12, mas os sintomas iniciais podem ser muito variveis.
Apesar disso, os sinais e sintomas so semelhantes anemia por deficincia de
folato, como: Cansao, tontura, irritabilidade, cefalia, glossite, estomatite, atrofia
de papilas.
Nesses casos deve-se acrescentar as altera
es neurolgicas, que esto
ausentes na deficincia de cido flico, como:
Parestesia, demncia, Romberg positivo, Babinski positivo;
Acometimento do cordo posterior da medula (responsvel pela
sensibilidade profunda, esterognosia, sensibilidade vibratria e
propriocepo consciente) e dos feixes piramidais – sndrome dos
sistemas combinados.
DIAGNÓSTICO
Semelhantes a anemia megaloblstica por deficincia de folatos, ou seja:
Citopenias no sangue perifrico
Reticulcito normal ou diminudo
Neutrfilos plurisegmentados
Macroovalcitos
Anemia macroctica hiporregenerativa
Eritropoiese ineficaz
DHL srica elevada
Bilirrubina indireta elevada
Haptoglobina diminuda
O teste de Schilling um teste complexo e realizado para avaliar a absoro de vitamina B12, em que se utiliza
vitamina B12 radioativa por via oral. Depois disso, avalia-se a radioatividade da urina no dia seguinte. Caso seja
detectada a radioatividade, concluis-se que o paciente possui intestino e FI normais. Caso a radioatividade seja negativa,
deve-se continuar a investigao, avaliando se existe uma agenesia dos receptores para vitamina B12 em leo terminal,
ou se o paciente no produz fator intrnseco.
Com isso, no dia seguinte a vitamina B12 administrada com fator ntrsenco e mede-se a radioatividade na
urina. Caso seja detectada radioatividade, conclui-se que a deficincia de fator intrnseco, (caracterizando a anemia
perniciosa); ao contrrio, caso no seja detectado nenhuma radioatividade, diz que a deficincia dos receptores.
ANEMIA PERNICIOSA
o tipo mais comum de carência de vitamina B12, mas sendo ela de natureza provavelmente imunológica,
em que ocorre atrofia e inflamao crnica da mucosa gstrica, levando ausncia de fator intrnseco e da secreo de
cido clordrico, com consequente m absoro da vitamina B12. A anemia perniciosa o prottipo das anemias
megaloblsticas, sendo o modelo das descri
es clinico laboratoriais.
Em 90% dos casos h formao de anticorpo anti-clula parietal, em 60% dos casos anticorpo anti-FI. Na
endoscopia mostra-se uma gastrite crnica atrfica, existindo anemia devido ausncia ou in Insuficincia de FI.
Geralmente est associada hipocloridria, fator de risco para cncer gstrico. A idade de acometimento est em torno
de 50 a 60 anos.
Associação com outros distúrbios auto-imunes.
Hashimoto
Addison
Vitiligo
Hipoparatireoidismo
Doena de Graves
Quadro clínico.
Atrofia das Papilas Gustativas
Gastrite Crnica Atrfica
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
152
Diagnóstico.
Clínico.
Perda de apetite
Dores abdominais, enjôos e diarréia
Desenvolvimento de úlceras dolorosas na boca e na faringe
Alterações da pele
Alopecia
Cansaço, perda de energia e de vontade
Sensação de boca e língua doridas
Durante a gravidez, o parto prematuro e/ou a malformação do feto
Nas crianças, o crescimento pode ser retardado e a puberdade atrasada
Laboratorial.
Macrocitose significativa: quando o VCM for >110 é muito mais provável que
a macrocitose seja megaloblástica
Reticulócitos baixo (<120.000/mm³ ou menos de 1% do nº de hemácias).
Esfregaço sanguíneo: anisocitose, poiquilocitose, macroovalócitos,
neutrófilos hipersegmentados (6 lobos ou mais) - altamente sugestivo da
deficiência.
Destruição intramedular de eritrócitos o que aumenta a bilirrubina Indireta.
Nível sérico de cobalamina - de 200 a 900picogramas/mL e ácido fólico de 6
a 20 nanogramas/mL.
Medula Óssea: importante hiperplasia eritróide, isto é, com grande presença
de precursores das hemácias. Precursores dos granulócitos são grandes ou
gigantes. Dosagens reduzidas de níveis séricos de Folato e Vitamina B12
TRATAMENTO
Na maioria dos pacientes com deficiência de cobalamina, o problema está na má-absorção desta vitamina.
Assim, a via de administração tradicional é a parenteral.
A vitamina B12 é prescrita sob a forma de cianocobalamina ou hidroxicobalamina. A dose inicial, intramuscular,
é de 100-1.000ug (100-1.000 unidades) por dia, durante 7 dias, seguida da mesma dose administrada 1-2 vezes por
semana por 1-2 meses, seguida ainda por uma dose mensal para toda a vida do indivíduo (se for anemia perniciosa ou
alguma outra causa irreversível).
Em resumo, temos:
Fazer o diagnostico diferencial entre as deficiências.
Deficiência de B12: hidroxicobalamina 1.000 microgramas por dia via IM, por7 dias e, depois, 1000 microgramas
em dias alternados ate normalizar a Hb.
Se houver manifestação neurológica: 5.000 a cada 2 semanas por 6 meses.
A manutenção em caso de anemia perniciosa é por toda vida na dose de 1.000micrograma/mês.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
153
MED RESUMOS 2011
CORREIA, Luiz Gustavo; NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
ANEMIA FALCIFORME
(Professora Angelina)
A anemia falciforme uma doena gentica que cursa com altera
es da cadeia beta da hemoglobina, com uma
maior prevalncia em indivduos negros, principalmente, na frica. Possuem vrios fatores precipitantes, principalmente,
os que cursam com disxia sistmica.
uma doena de fcil diagnstico, com tratamento clnico no-curativo. Quando identificada precocemente,
cursa com evoluo benigna.
GENERALIDADES
A anemia falciforme (ou drepanocitose) uma doena gentica da hemoglobina, pertencente ao grupo das
hemoglobinopatias estruturais. considerada a doença hematológica genética mais comum da humanidade. Possui
uma predileo pelos pases da frica equatorial (frica Negra), de modo que, em vrios pases deste continente, cerca
de 45% da populao possuem o gene βs, a maioria desses indivduos so heterozigotos e no desenvolvem a doena.
A extensa migrao de africanos para as Amricas, Europa mediterrnea, e sia favoreceram a disseminao do gene
previamente descrito para todo o mundo, inclusive no Brasil.
No Brasil, estima-se que existem cerca de 2 milh
es de pessoas com o trao falcmico.
FISIOPATOLOGIA
A anemia falciforme (AF) ocorre em decorrncia de um defeito no cromossomo 11, que o responsvel por
produzir a cadeia β da hemoglobina, que causa a substituio do cido glutmico pela valina, formando cadeias
mutantes de hemoglobina.
A hemoglobina formada a partir dessas cadeias mutantes – hemoglobina S (HbS) – possui uma tendncia de se
polimerizar, transformando as hemcias em um gel alongado e deformado, smile a uma foice. Algumas hemcias
tornam-se mais densas e perdem a deformabilidade necessria passagem pela microcirculao, enquanto outras
ganham uma maior capacidade de se aderir ao endotlio vascular. Como resultado, observaremos dois principais
efeitos:
Destruio precoce das hemcias no sistema reticuloendotelial
Ocluso aguda ou crnica da microvasculatura
MECANISMOS GENÉTICOS
A hemoglobina formada por 4 cadeias de globina, cada uma ligada a um radical heme. Cerca de 97% da
hemoglobina presente nas hemcias de um indivduo normal composta por duas cadeias α e duas cadeias β.
POLIMERIZAÇÃO DA HEMOGLOBINA S
A polimerizao da hemoglobina o fenmeno responsvel pela
morfologia “em foice” das hemcias. A hemoglobina, conforme sabemos um
tetrmero (ou seja, composta por 4 unidades), que se encontra dissolvida no
citoplasma das hemcias. A substituio do cido glutmico pela valina na
posio 6 da cadeia beta aumenta a fora de atrao entre os molculas de
hemoglobina.
Quando ocorre a dessaturao da hemoglobina, os tetrmeros da hemoglobina se combinam, formando uma
estrutura insolvel de fibras alinhadas em paralelo – polmeros de hemoglobina. medida que a hemoglobina vai se
polimerizando, a desidratao celular faz com que as hemcias apresentem uma maior quantidade de molculas de
hemoglobina S, que suficiente para deformar as hemcias. Com isto, a hemoglobina se polimeriza, ao passo que o
citoplasma da hemcia passa a se caracterizar como se fosse um gel. A maioria das hemcias afoiadas (drepancitos)
retorna ao seu estado normal aps a oxigenao da hemoglobina. Alguns fatores podem determinar e predispor a uma
dessaturao, propiciando, com isso, a polimerizao das hemcias:
Acidose predisp
e a crise hemoltica da anemia
falciforme, explicada pelo fato que esta situao
determina uma diminuio da afinidade da hemoglobina
pelo oxignio, favorecendo a polimerizao.
Exposio ao frio: pelo mecanismo reflexo de
vasoconstrico.
Infec
es: por levar a acidose metablica
Porcentagem de Hg intracelular: a maior porcentagem
de hemoglobina S
Aumento do tempo de trnsito dos eritrcitos na
microcirculao
Consumo alcolico
Desidratao
Estresse emocional
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
154
MANIFESTAES CLNICAS
A polimerizao da HgS determina, como uma consequncia,
obstruo vascular, com diminuio do suprimento de oxignio e
nutrientes para os tecidos.
Paralelamente, as hemcias em foice so recrutadas pelo bao
e destrudas, causando microinfartos no territrio esplnico. De forma
que, em trs a quatro anos, o bao totalmente substitudo por tecido
fibrtico, causando uma asplenia anatmica, que caracterizada pela
perda da capacidade deste rgo em produzir IgA, predispondo a
infec
es por cepas encapsuladas. Eventualmente, os vasos arteriais
cerebrais e/ou pulmonares podem ser comprometidos pelas altera
es
hematolgicas das hemcias, caracterizando les
es graves.
A anemia decorrente da crise hemoltica, sequestro esplnico,
crise megaloblstica (exausto do cido flico) e aplasia medular por
ao viral.
CRISES VASOCLUSIVAS
Os primeiros sinais e sintomas da anemia falciforme ocorrem
aos 5-6 meses de idade, geralmente, se manifestando com o quadro da
“sndrome mo-p”. A crise lgica a mais frequente, que ocorre em
decorrncia da obstruo vascular, predominando no fmur, arcos
costais e vrtebras.
A principal manifestao da sndrome mo-p a dactilite
falcmica, que decorrente da isquemia aguda dos ossos da
mo e do p, manifestando-se com dor de forte intensidade
associada a edema dos dgitos, frequentemente associada
febre e leucocitose.
Crises lgicas venoclusivas: Se iniciam abruptamente, com durao mdia de 4-5 dias. Nos casos mais graves,
podem durar por longas semanas. Manifestam-se das seguintes formas:
Priapismo: Ereo involuntria do pnis, dolorosa.
Sndrome torcica aguda: manifestao grave, que ocorre em decorrncia da uma infeco grave do
pulmo, com obstruo vascular. Os sintomas so: dispnia, dor torcica, hipotenso com tosse.
Ossos: Necrose sptica de cabea do fmur, espessamento da dploe, osteomielite.
Crise heptica
lceras maleolares por insuficincia vascular
DISFUNÇÃO ESPLÊNICA
As principais manifesta
es clnicas da anemia falciforme (doena SS) so decorrentes dos fenmenos
vasoclusivos, que se manifestam como crises lgicas (dor ssea, crise abdominal, crise torcica e priapismo). O AVC
difere das outras crises por ser decorrente da obstruo trombtica de artrias cerebrais de mdios calibres.
Os rgos mais acometidos por disfuno isqumica crnica so o bao, rins e fgado. A perda da funo
esplnica (autoesplenectomia) predisp
e sepse por bactrias encapsuladas, principalmente por Streptococcus
pneumoniae.
Infec
es severas so as causas principais de morte, e ocorre em decorrncia a autoesplenectomia (meningite,
pneumonia, trato geniturinrio e osso).
o Osso: Salmonella spp.
o SNC: Streptococcos, hemphilos
o Septicemia: Streptococcos ou Stafilococcos
OBS1: O sequestro esplnico uma situao grave que ocorre de maneira sbita, caracterizando por uma falncia na
sada de sangue do bao, com o seu acmulo no interior do bao. Ocorrem manifesta
es de choque hipovolmico, com
a necessidade de um suporte rpido.
MANIFESTAÇÕES CARDÍACAS
Em decorrncia de uma hipxia crnica com a necessidade de um maior esforo cardaco, portanto, o corao
pode evoluir para uma insuficincia cardaca, e ainda possuir vasocluso coronariana por efeitos tromboemblicos.
MANIFESTAÇÕES NEUROLÓGICAS
Pode ocorrer AVCi em crianas abaixo de 10 anos de idade, com aumento estatsticoao longo da evoluo.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
155
DIAGNSTICO
A suspeita é feita inicialmente a partir das características clínicas do indivíduo. Esta suspeita inicial pode ser em
caráter de emergência médica, tal como ocorre nos pacientes com crises hemolíticas de grande monta, ou ainda, em
caráter eletivo, ou seja, no consultório médico ao realizar exames de rotina. O diagnóstico laboratorial é inespecífico,
pois, ocorre em vários outros tipos de anemia, demonstrando um padrão variável; a sua confirmação é feita diante do
teste de eletroforese de hemoglobina.
EXAME DO SANGUE PERIFÉRICO
Anemia moderada com hemoglobina entre 6,0 e 10,0 g/dL (em média 8,0 g/dL) e hematócrito entre 18 e 30%
(em média, 24%);
Anemia normocítica normocrômica (VCM=90; CHCM= 32,5 g/dL) ou microcítica e hipocrômica. A
associação entre uma VCM baixa sugere associação com ferropenia ou ainda talassemia, enquanto que o VCM
elevado está presente na crise megaloblástica (deficiência de folato).
Reticulócitos elevados entre 4 e 24% (em média, 10%).
Drepanócitos (hemácias em formato de foice) no sangue periférico
Hemácias em alvo no sangue periférico, que são os leptócitos, células com redução do seu volume em relação a
superfície.
Corpúsculos de Howell-Jolly podem ser visualizados, ocorrendo em decorrência do hipoesplenismo
Leucocitose neutrofílica (leucometria na faixa entre 12.000 e 15.000/mm3)
Plaquetose (plaquetas elevadas) em função do hiperesplenismo (450.000/mm3)
VHS baixo
Aumento da bilirrubina indireta e da DHL
Queda da heptoglobina
TESTE DO AFOIÇAMENTO
É muito utilizado em nosso meio. Consiste em selar uma gota espessa de sangue entre a lâmina e a lamínula,
de forma a impedir a passagem de oxigênio ou acrescentar um desoxigenador químico, como o metabissulfito de sódio a
2%. Com isso, as hemoglobinas das hemácias ficam dessaturadas, permitindo o seu afoiçamento in vitru.
ELETROFORESE DE HEMOGLOBINA
É o teste padrão-ouro para a confirmação da anemia falciforme, selando o seu diagnóstico. As diversas formas
de hemoglobinas migram na placa de acetato de celulose de acordo com o seu peso e ponto isoelétrico, cada uma com
uma posição característica. Pelo percentual do total de hemoglobina, podemos obter o diagnóstico preciso.
TRATAMENTO
MEDIDAS GERAIS
Prevenir infecções, com imunização para hepatite B, hemófilos, meningococo e pneumococo. A primeira dose
da vacina anti-pneumocóccica deve ser aplicada nas crianças falcêmicas aos 2 anos de idade, seguida de um
reforço aos 3-5 anos. A profilaxia com Penicilina Via Oral a partir dos 2 a 3 meses é uma medida que deve ser
adotada. Até os três anos, a dose é de 125 mg 2x ao dia, até os 5 anos, 250 mg 2x/dia. Após esta faixa,
devemos suspendê-la. Febre alta sugere infecção por pneumococo, devendo-se prontamente realizar
antibioticoterapia para esta cepa em específico.
Uso de ácido fólico
Tratamento das crises álgicas vasoclusivas com hidratação vigorosa (3 a 4 litros por dia), de preferência, por
via parenteral, associada à opiáceos (meperidina ou morfina, 0,1 a 0,15 mg/kg a cada 3 ou 4 horas).
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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HEMOTRANSFUSÃO, EX-SANGUÍNEOTRANSFUSÃO E HIPERTRANSFUSÃO
Concentrado de hemácias, com a finalidade de
reduzir o percentual de hemácias com HbS para
abaixo de 30%;
Ex-sanguíneotransfusão é a troca do sangue do
paciente pelos concentrados de hemácias do
doador. Tem efeito redutor de HbS
extremamente rápido, sendo a indicação para as
crises vasoclusivas fatais (síndrome torácica
aguda com insuficiência respiratória, AVC) ou de
alta morbidade (priapismo refratário)
A hipertransfusão é indicada quando a anemia
falciforme complicada com AVC. Corresponde a
uma transfusão crônica de concentrado de
hemácias numa dose de 5 a 10mL/Kg a cada 3-5
semanas, com o objetivo de manter a Hb entre
10 e 12 g/dL.
HIDROURÉIA
A hidrouréia é um agente mielosupressour que possui efeito especialmente benéfico na anemia falciforme, por
estimular a síntese de HbF, reduzindo o número de crises álgicas e ainda melhorando o prognóstico em pacientes com
disfunção orgânica progressiva. A hemoglobina fetal (HbF) protege a hemácia do afoiçamento, por inibir a polimerização
da HbS.
O seu emprego é indicado, portanto, em adolescentes e adultos com crises álgicas frequentes, com história de
síndrome torácica aguda, eventos vasoclusivos diversos, principalmente, os referentes ao sistema nervoso central, e
anemia severa e sintomática. O principal efeito adverso é a leucopenia e o aumento do VCM pela megaloblastose.
OUTRAS TERAPIAS
O transplante de medula óssea tem sido eficaz constante em crianças que possui complicações severas como
AVC, síndrome torácica aguda recorrente e dor intratável.
Indicações de hemotransfusão na anemia falciforme.
Hemotransfusão aguda
Crise anêmica (aplásica, seqüestro esplênico)
Crise álgica refratária
Hematúria prolongada
Pré-operatório
Exsanguíneo-transfusão aguda
Fase aguda do AVC
Crise torácica grave
Priapismo refratário
Hipertransfusão crônica
História de AVC
Retinopatia grave
Úlcera maleolar refratária
Doença renal progressiva
Pacientes com alterações no Doppler transcraniano
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
157
MED RESUMOS 2011
ELOY, Yuri Leite; NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
TALASSEMIA
(Professora Angelina Cartaxo)
As Talassemias constituem um grupo heterogneo de doenas genticas autossmicas recessivas,
caracterizadas pela reduo ou ausncia da sntese de um dos tipos de cadeias de globina que formam as
hemoglobinas. Tambm pode ser chamada de anemia do mediterrneo.
OBS1: A talassemia um problema quantitativo de globinas pouco sintetizadas, enquanto que a anemia falciforme um
problema qualitativo na sntese e de um funcionamento incorreto da globina. Talassemia geralmente resulta na deficiente
produo de globina normal, muitas vezes atravs de muta
es em genes reguladores. Hemoglobinopatias implicam
altera
es estruturais das prprias globinas. As duas condi
es podem sobrepor-se, no entanto, desde que algumas
doenas que causam altera
es na hemoglobina (doenas conhecidas tambm como hemoglobinopatias) tambm
afetem a sua produo (talassemia). Assim, algumas talassemias so hemoglobinopatias, mas a maioria no o . Uma
destas condi
es (ou ambas) pode causar anemia.
DISTRIBUIO GEOGRFICA
A palavra talassemia deriva de uma combinao das
palavras gregas, talassa – mar e emes – sangue. Com essa
denominao os mdicos tinham a inteno de descrever
uma doena do sangue cuja origem predominava nos pases
banhados pelo mar mediterrneo, tanto que a mesma
doena chamada de “anemia do mediterrneo”.
O motivo pelo qual esta deficincia gentica apareceu
na rea do mediterrneo ainda no tem explicao cientfica
concreta. Mas tem-se certeza do motivo pelo qual a doena
se expandiu, explicado principalmente pela malria, patologia
de incidncia elevada nos pases do mediterrneo.
Sobre estes aspectos os cientistas notaram que as
pessoas portadoras dessa deficincia gentica resistiam
muito mais que pessoas normais a malria. Em
consequncia, com o passar dos anos, na medida em que
morriam de malria sempre mais pessoas “normais”,
aumentava a porcentagem sobre o nmero total da
populao de talassemia.
Atualmente, a doena se alastrou praticamente por todo o mundo. So registrados em toda a Amrica, sobretudo
nos EUA, Brasil e Argentina, bem como na ndia, Austrlia etc.
HEMOGLOBINA
Com para o entendimento das Talassemias de extrema necessidade o conhecimento prvio da molcula de
hemoglobina,j que est intimamente relacionada com esse grupo de patologias.
A hemoglobina um tetrmero composto por dois pares de cadeias polipeptdicas. Cada uma dessas cadeias
contm cerca de 141 aminocidos e est ligado por um grupo heme.
A funo da hemoglobina transportar o oxignio, distribuindo o mesmo para todas as partes do corpo irrigadas
por vasos sanguneos. A distribuio inicia-se atravs da interao da hemoglobina com o oxignio do ar. Com isso
forma-se o complexo oxi-hemoglobina. Chegando s clulas do organismo, o oxignio liberado e o sangue arterial
trasnforma-se em venoso, caracterizado pela carboxi-hemoglobina.
TIPOS DE HEMOGLOBINA
Durante o desenvolvimento o indivduo apresenta diferentes tipos de hemoglobina, cada uma desenvolvendo um
importante papel em cada etapa da vida.
Fase Embrionária: esse tipo de hemoglobina no tem uma grande importncia clnica no que diz respeito s
talassemias.
o Gower 1 (ξ2ε2)
o Gower 2 (α2ε2)
o Hemoglobina de Portland (ξ2γ2)
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
158
Fetal
o Hemoglobina Fetal (α2γ2)
Adultos
o Hemoglobina A1 (α2β2): o tipo mais comum (97%)
o Hemoglobina A2: (α2δ2): as cadeias δ so sintetizadas no
ltimo trimestre aps o parto, seu nvel normal de
aproximadamente 3%.
o Hemoglobina Fetal: tambm pode estar presente nos
indivduos adultos, desde que esteja restrita a uma pequena
quantidade de clulas vermelhas, que so inferiores a 1%.
Tendo esses conceitos devidamente esclarecidos, podemos dizer que uma deficincia da cadeia alfa de
extrema importncia, pois ela est presente na hemoglobina fetal, e nos dois tipos de hemoglobina do adulto. Por isso,
sua deficincia causa repercuss
es clnicas intensas. Bem como, a cadeia β que, apesar de s estar presente na
hemoglobina A1, esta representa cerca de 97% da hemoglobina total do adulto, tendo assim sua importncia clnica
justificada.
Com isso, podemos classificar as talassemias em alfa e beta-talassemias a depender da cadeia acometida pela
alterao gentica. Em relao a delta-talassemia, o paciente no apresenta sinais e sintomas importantes e, por isso,
no ser estudada.
SÍNTESE DAS GLOBINAS E DEFINIÇÃO DE TALASSEMIA
A cadeia β sintetizada por dois genes localizados no cromossomo 11, enquanto que a cadeia α produzida por
quatro genes localizados no cromossomo 16. A talassemia , entretanto, uma doena hereditria autossmica recessiva
que afeta o sangue. Na talassemia, o defeito gentico resulta na reduo da taxa de sntese de uma destas cadeias de
globina que formam a hemoglobina. A reduo da sntese de uma das cadeias de globina pode causar a formao
anormal de molculas de hemoglobina, causando anemia - sintoma caracterstico de apresentao da talassemia.
ALTERAES GENTICAS
As altera
es genticas que ocorrem nas talassemias podem ocorrer devido s grandes dele
es, havendo a
perda de um grande fragmento de DNA, ou ainda, pequenas dele
es, na qual h perda de um, dois ou quatro
nucleotdeos, promovendo um deslizamento de bases, no permitindo assim a sntese correta da globina.
Ainda podem ocorrer muta
es de ponto, com substituio de uma nica base de DNA e troca de um par de
aminocidos por outro na cadeia de globina.
A herana gentica dos pais transmitida de forma autossmica recessiva aos filhos, como mostra a figura
abaixo. Ou seja, aqueles pacientes que so portadores do trao talassmico, cuja esposa normal, no tero filhos
talassmicos; entretanto, tero 50% de chances de gerar crianas portadoras do trao talassmico.
Quando ambos os genitores so portadores, ter 50% de chances de gerar crianas portadoras do trao
talassmico e 25% de um filho portador da talassemia, propriamente dita.
Geralmente os portadores do trao talassmico no apresentam nenhum sinal e sintoma importante, raramente
podendo apresentar uma discreta anemia, microcitose e hipocromia.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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BETA-TALASSEMIA
A talassemia classificada, de acordo com o tipo de cadeia de globina que sofre alterao. Desta forma, a β-
Talassemia caracteriza-se por uma produo deficiente na cadeia beta da hemoglobina. Ela pode ser classificada como
homozigtica e heterozigtica.
A forma heterozigtica acontece quando a leso ocorre em um gene β – (trao talassmico ou talassemia
menor), ou seja, quando o indivduo herda somente metade da alterao gentica. A forma homozigtica caracteriza-se
por uma leso nos dois genes β a Talassemia e chamada de anemia de Cooley, ou Talassemia Maior. Ainda sobre a
forma homozigtica as altera
es genticas podem causar: (1) ausncia completa de sntese das cadeias β (β0
Talassemia) e (2) supresso parcial da sntese (β+ Talassemia).
Com isso, o gentipo desses pacientes ser da seguinte forma de acordo com o tipo de acometimento da cadeia
β:
Talassemia Menor:
Talassemia Intermdia: (β+ / β+)
Talassemia Maior: (β0/β0 – β0/ β+)
PATOGÊNESE
O quadro clnico da talassemia decorrente do desequilbrio causado pela supresso da sntese de uma das
cadeias das globinas (alfa / beta). Na talassemia homozigtica a cadeia excedente precipita e forma agregados nos
eritrcitos, provocando uma leso na membrana dessas clulas que interfere nos mecanismos celulares, alm de deixar
a clula mais susceptvel. Com isso, quando essas clulas passam pelo bao, so facilmente destrudas, evoluindo para
um quadro de anemia hemoltica.
Os mecanismos celulares alterados podem incluir a presena de atividade mittica comprometida, ocorrendo
morte ainda na medula ssea, caracterizando assim uma hematopoese ineficaz.
Em resposta a destruio dos eritrcitos no bao e morte ainda na medula ssea, caracterizando uma
hematopoese ineficaz, a medula provoca uma hiperplasia eritrode, porm com baixa produo de eritrcitos e estes so
microcticos e hipocrmicos.
Genótipo HbA1 HbA2 Hb Fetal
Normal 97% At 3% Menos de 1%
Talassemia Menor (traço talassêmico) >90% 3,5 – 8% 1 a 2%
Talassemia Intermediária Presente 5,4 – 10% 30 – 73%
Talassemia Maior 0 1 – 5,9% 90 – 100%
ALFA - TALASSEMIA
A α-talassemia caracteriza-se pela deficincia na produo da cadeira α da hemoglobina. A cadeia α produzida
por quatro genes localizados no cromossomo 16 e, desta forma, as manifesta
es clnicas e gravidade da doena
estaro envolvidas com a quantidade de genes acometidos pelas altera
es genticas. Com isso temos:
Um gene comprometido: o indivduo denominado portador assintomtico
Dois genes comprometidos: quando pelo menos dois genes so afetados, denomina-se de trao talassmico,
podendo apresentar no hemograma microcitose e hipocromia, porem, sem anemia e altera
es do
desenvolvimento,
Três genes comprometidos: naqueles indivduos em que houve mutao de 3 genes caracteriza a doena da
hemoglobina H, tambm chamada de talassemia menor α, sendo esta comparada a Beta-talassemia maior, j
que a α-Talassemia maior incompatvel com a vida. Na doena da hemoglobina H o paciente vai evoluir com
anemia hemoltica, esplenomegalia, altera
es esquelticas (explicadas pela hematopoese aumentada),
necessitando de transfus
es frequentes.
Quatro genes comprometidos: consiste em uma srie de altera
es que so incompatveis com a vida. Com
isso, as altera
es fetais mais intensas so hemlise macia, evoluindo para anasarca e por fim bito. Esse tipo
de talassemia denominada de α-Talassemia maior ou Hidrpsia fetal.
PATOGÊNESE
A hemoglobina H um subtipo formado somente por cadeias beta e gama. Com a deficincia de α haver uma
produo relativamente aumentada de do tetrmero β4 e o excesso das cadeias gama da hemoglobina F forma ϒ4
(hemoglobina Bart’s). Esta ltima forma s encontradaem fetos. Essas hemoglobinas no participam da oxigenao
dos tecidos, alm de serem instveis e precipitam nos eritrcitos, encurtando sua vida, mdia.
Aps o nascimento a hemoglobina fetal gradativamente substituda pela hemoglobina do adulto A1 e A2. A
hemoglobina ainda poder ser encontrada at os 6 meses de idade. Quando se inicia a produo das hemoglobinas do
adulto, haver uma deficincia para formao da hemoglobina alfa, formando apenas duas cadeias de hemoglobina
beta, que denominada de hemoglobina H.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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MANIFESTAES CLNICAS
O quadro clínico desses pacientes é extremamente variável, dependendo da carga genética, se homozigótica ou
heterozigótica (geralmente não tem manifestações clínicas). Entre as alterações mais comuns temos:
Hiperbilirrubinemia Indireta (icterícia): quando se encontra bilirrubina indireta aumentada no sangue, deve-se
pensar em patologias hepáticas por defeito de conjugação. Com isso, temos a síndrome de Gilbert e Síndrome
de Dubin Johnson. E, por fim, anemia hemolítica hereditária, podendo existir um traço talassêmico, com
microcitose hereditária.
Esplenomegalia: com o progredir da doença, o baço, cuja função é destruir os glóbulos vermelhos em
circulação, passa a também a destruir células jovens, e posteriormente, leucócitos e plaquetas. A esse quadro
denomina-se de hiperesplenismo.
Hepatomegalia:
Anemia: é explicada pelo quadro de eritropoese ineficaz, que leva a uma ligeira diminuição das hemácias.
Palidez e Fraqueza
Hiperplasia da Medula Óssea: deformidades ósseas na face
Carência de Ácido Fólico: sua carência ocorre devido ao grande consumo, devido à eritropoese aumentada na
tentativa de suprir a anemia. Nesse estágio a anemia do paciente pode ocorrer devido à própria Talassemia
como também, pela deficiência de ácido fólico.
Hipodesenvolvimento Somático: atraso de crescimento e do aumento de peso é frequente antes do início do
tratamento ou nos pacientes tratados com transfusões insuficientes. Os motivos que determinam um
hipodesenvolvimento podem ser: (1) a hipóxia crônica levando ao dano as células das gônadas culminando em
uma menor produção de hormônio de crescimento; (2) o ferro leva a impregnação nas glândulas reprodutoras
levando a disfunção hormonal, contribuindo para o hipodesenvolvimento.
Retardo Puberal: devido às alterações de hipóxia crônica e impregnação de ferro. Além disso, para que ocorra
as alterações puberais é necessário que o indivíduo atinja um desenvolvimento motor mínimo, e, os pacientes
talassêmicos não possuem uma massa corpórea adequada para essas alterações.
Alterações Ósseas: ocorre devido à hiperplasia da medula óssea, ocorrendo assim protuberância malar,
horizontalização das fossas nasais etc.
Sobrecarga de Ferro: pode levar a insuficiência endócrina, caracterizando um quadro de diabetes, fibrose
hepática e insuficiência cardíaca.
Os problemas cardíacos e as infecções são as causas mais frequentes de morte entre as crianças com
Talassemia maior.
DIAGNÓSTICO
Hemograma.
Anemia microcítica e hipocrômica e poiquilocitose,
Hemácias em alvo e com grânulos basófilos
Eritroblastos em circulação (reticulócitos aumentados).
Leucocitose com desvio a esquerda.
Leucopenia e plaquetopenia devido ao hiperesplenismo
Outros Achados Laboratoriais.
Bilirrubina Indireta Aumentada
DHL aumentado
Perfil de ferro: encontra-se normal nos portadores de Talassemia.
Ferro, ferritina, saturação da transferrina aumentados.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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Eletroforese de Hemoglobina.
O diagnstico definitivo dado atravs da eletroforese de hemoglobina,
tcnica laboratorial de separao e quantificao das fra
es de protenas, enzimas,
DNA e RNA.
Beta-Talassemia
o Talassemia Beta-Menor: a HbA1 vai se mostrar em 10,5 a 12 g/dl,
sem evidenciar anemia, mostrando apenas microcitose hipocrmica
com ferro normal. A HbA2 nestes estar entre 3,5 a 6 g/dl (sendo
uma eletroforese de HbA2 normal at 3,5 g/dl). Estima-se que 5%
desses pacientes apresentem um padro diferenciado, ou seja, em
vez de mostrar um aumento da HbA2 apresentem um aumento da
hemoglobina fetal, isto , acima de 1% (entre 2 a 5%).
o Talassemia Beta-Intermédia: aquela cujo gentipo
homozigtica, em que, os dois genes comprometidos produzem pequenas quantidades de cadeia beta.
Nesse tipo de Talassemia o diagnstico eminentemente clnico, ou seja, o paciente apresenta um
quadro de anemia, hemlise, reticulcitos aumentados, hiperbilirrubinemia indireta, anemia microctica
hipocrmica, porm, na eletroforese mostra um aumento da Hb Fetal superior a 6%, alm de ser um
paciente que necessita de pouca transfuso (1 a 2 transfus
es por ano) e HbA2 entre 7 a 10g/dl (normal
at 3,5g/dl)
o Talassemia Beta-Maior: pode se apresentar com dois gentipos diferentes, β0-Talassemia e β+-
Talassemia, por isso a Talassemia beta maior tem express
es clnicas variveis. A eletroforese de
hemoglobina mostra valores at 6g/dl nos casos graves, e menores que 4g/dl nos muito graves. O
diagnstico laboratorial se caracteriza por elevao de Hb Fetal entre 20 a 100%, anemia grave com
muitos eritroblastos no esfregao sanguneo.
Alfa-Talassemia
o Talassemia alfa-maior: forma clnica incompatvel com a vida, evoluindo com hidrpsia fetal.
o Talassemia alfa-menor: tambm denominada de doena da Hemoglobina H. Seu diagnstico dado
pela presena de HbH (β2γ2) em eletroforese de hemoglobina, e ainda, presena de precipitados intra-
eritrocitrios de HbH. Quando o paciente possui somente o trao talassmico, apresentar poucos sinais
e sintomas (microcitose e hipocromia) e a hemoglobina de Bart’s de 5 a 10%. Ao contrrio na doena da
hemoglobina H, o paciente apresenta todas as manifesta
es como anemia hemoltica, ictercia,
esplenomegalia, e a hemoglobina de Bart’s encontram-se em torno de 10 a 20% no nascimento e na
vida adulta entre 5 a 30%.
TRATAMENTO
TRANSFUSÕES
O tratamento dos portadores de talassemia feito com transfus
es frequentes. A hipertransfuso fundamental
para garantir o desenvolvimento normal da criana, melhorar a sua qualidade de vida e prevenir os problemas cardacos
assim como os defeitos sseos. Geralmente so feitas a cada 3 a 4 semanas e visam manter o hematcrito prximo da
normalidade.
Com isso, esse tipo de tratamento no curativo mais sim paliativo, sendo efetuada para melhorar o quadro de
ictercia, esplenomegalia, fraqueza, palidez, deformidades sseas. Assim a hipertransfuso leva a uma inibio
hematopoitica da medula ssea, diminuindo a produo de eritroblastos e dessa forma, minimizando os sintomas
apresentados pelo paciente.
Complicações.
Infelizmente o uso frequente de transfus
es leva a um acmulo de ferro (100 a 250mg de ferro por transfuso)
no organismo (hemossiderose – capacidade da transferrina de se ligar ao ferro superada) causando danos ao corao,
fgado e outros rgos (outra causa de hemossiderose o aumento da absoro intestinal de ferro determinado pela
hiperplasia eritride da medula ssea).
A avaliao clnica de nveis elevados de ferro feito atravs da dosagem de ferritina, que quando est acima de
1000mcg indica uma sobrecarga de ferro no organismo. Entretanto o exame padro ouro para avaliar nveis elevados de
ferro a bipsia heptica, porm, um exame invasivo doloroso, caro e que requer profissionais treinados. Futuramente
espera-se que a RNM seja o melhor exame para avaliar os danos do excesso de ferro no fgado, j que nos exames
anteriores esse rgo avaliado de forma parcial, especialmente quando j se identifica les
es de suas clulas.
O uso de medicamentos quelantes de ferro como a desferoxamina(DF - Desferal), utilizado sob a forma injetvel
e contnua atravs de uma bomba de infuso, diminui, mas no elimina completamente as complica
es do acmulo de
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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ferro. O quelante usado por via parenteral se liga ao ferro em circulao sendo excretado por via urinria (80%) e fecal
(40%).
Algumas recomenda
es prticas quanto ao uso da DF compreendem:
Dose recomendada de 20-40mg/kg/dia, 5 dias por semana, por infuso subcutnea lenta empregando bomba
de infuso caso seja disponvel.
Quando isso no for possvel, devem ser empregadas inje
es IM dirias de 500-1000mg, porm, com eficincia
menor.
Uma novidade no mercado farmacutico so os quelantes de ferro por via oral, disponibilizados em
comprimidos de 125, 250 e 500mg. A dose inicial est em torno de 20mg/kg. Naqueles pacientes que necessitam de 1
concentrado de hemcias por semana, deve-se administrar 30mg/kg, quando necessita somente de 2 unidades de
hemcias por ms ou o paciente entra na fase de manuteno a dose reduzida para 10mg/kg dia.
A transio da droga parenteral – DF – feita com metade da dose, ou seja, se o paciente fazia uso de 50mg de
desferoxamina, o medicamento oral dever ser administrado na dosagem de 25mg/kg dia.
ESPLENECTOMIA
uma medida auxiliar no tratamento da doena talassmica, a ser empregada quando h sinais de que as
complica
es sobrepujam os benefcios da presena do bao. Algumas considera
es devem ser feitas sobre este
procedimento:
Nos pacientes que so candidatos a esplenectomia deve-se realizar a vacinao contra Haemophilus,
pneumococos e meningococos, trs meses antes da esplenectomia.
Indicada somente em crianas acima de 5 anos de idade – pois esses pacientes permanecem desprotegidos
contra germes encapsulados, podendo torna-se mais susceptvel por exemplo a ocorrncia de pneumonias,
meningites.
Plaquetopenia – hiperesplenismo
Elevado consumo transfusional de sangue, excedendo 240ml de hemcias/kg peso/ano para manter nvel mnimo
de Hb de 10,0g/dl.
ANTIBIOTICOTERAPIA/PROFILAXIA
O uso de antibiticos tem melhorado em muito a qualidade de vida diminuindo o nmero de complica
es por
infec
es secundrias a esplenectomia. As seguintes medidas so aconselhadas para reduzir os riscos desta
complicao:
Retardar a cirurgia, se possvel, at os 5 anos de idade
Fazer uso de vacina, antipneumoccica, antes da esplenectomia
Antibioticoprofilaxia nos primeiros anos aps a cirurgia ou at a adolescncia, atravs da penicilina oral duas
vezes ao dia ou uma injeo de penicilina benzatina a cada 21 dias.
Instruir os pais sobre a necessidade de procurar cuidados mdicos sempre que surgir febre
TRANSPLANTE DE MEDULA ÓSSEA
uma forma alternativa de tratamento nestes pacientes, embora s seja realizado quando h doadores
compatveis, que ainda assim, suas complica
es so muito graves. Entretanto para execuo desse tipo de tratamento
deve-se classificar esse paciente em alto, moderado e baixo risco.
O baixo risco so aqueles pacientes que no apresentam leso heptica pela sobreposio de ferro – mostrando
boa adeso ao quelante. O alto risco aquele paciente com les
es hepticas mesmo em uso de quelantes, evoluindo
com hepatomegalia, fibrose periportal. E por fim o risco intermedirio quando no preenche nenhum dos critrios
citados acima.
Nos pacientes de baixo risco, as chances do mesmo evoluir sem doena de cerca de 87%, mostrando uma
boa indicao para realizao do TMO, j no risco intermedirio tem 84% e no alto risco 50%.
PREVENO
A doena s pode ser prevenida hoje com aconselhamento gentico pr-natal de casais portadores dos genes.
Indivduos que tem casos de Talassemia na famlia ou descendncia europia com casos de anemia crnica ou morte
perinatal na famlia devem procurar ajuda mdica em centros especializados para realizar estudo gentico e
planejamento familiar.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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MED RESUMOS 2011
CORREIA, Luiz Gustavo.
HEMATOLOGIA
ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA
(Professora Flávia Pimenta)
A esferocitose hereditária é uma doença de curso clínico intermitente e recorrente, que se caracteriza pela tríade
clínica: anemia, icterícia e esplenomegalia. Traduz-se pela presença de hemácias microcíticas (pequenas) e hipo ou
hipercrômicas, com formato esférico e sem a palidez central, o que caracteriza os esferócitos. É uma doença de
prevalência na população caucasiana, com raros casos na população negra, de evolução clínica variável.
A terapêutica, atualmente, visa a retirada do órgão responsável pela maioria das alterações estruturas das
hemácias, que é a esplenectomia (retirada do baço), que deve ser feita movida a uma atenção completa sobre o
histórico de vacinas e ainda reposição do ácido fólico.
CARACTERSTICAS GERAIS
A esferocitose hereditária (em 80% das vezes, na forma autossômica dominante) é uma síndrome clínica que se
caracteriza pela tríade clássica: anemia microcítica e hipercrômica, icterícia e esplenomegalia. O quadro clínico é
recorrente, com crises intermitentes durante a vida, muito confundida com a hepatite e doença hemolítica do recém-
nascido. Incide em 1 caso a cada 2.000 nascimentos. Nos EUA e norte da Europa, a esferocitose hereditária é a causa
mais comum de anemia hemolítica hereditária, com alta prevalência na população caucasiana e, pouco frequente, na
raça negra.
Ocorre em consequência ao defeito na membrana do eritrócito, com comprometimento dos compostos presentes
nesta membrana, dentre os quais se destacam:
Deficiência de anquirina ou espectrina (que é mais comum)
Deficiência de banda 3 ou proteína 4.2
FISIOPATOLOGIA
A membrana do eritrócito é sustentada por uma rede de proteínas que formam um citoesqueleto. A espectrina,
uma proteína fibrilar em forma de hélice (cadeias alfa e beta), é o principal constituinte do sistema. A interação
espectrina-actina é fundamental para a manutenção da rede. O ancoramento das fibras de espectrina sobre a membrana
da hemácia é feita pela anquirina que serve como ponte entre a espectrina e a proteína banda 3 (glicoforina). De uma
forma geral, a esferocitose hereditária ocorre quando existem defeitos genéticos das proteínas (espectrina, anquirina,
banda 3, proteína 4.2). Ocorre que, o citoesqueleto da membrana das hemácias além de dar sustenação à membrana,
também garante a sua forma bicôncava, que é importante para a maleabilidade ou deformibilidade dos eritrócitos, tão
importante para a sua passagem através das fendas sinusoidais do leito esplênico.
A actina, que é considerada um componente protéico
disposto longitudinalmente, possui a capacidade de deformar ou
retrair uma determinada hemácia, conferindo-a certa elasticidade.
Deste modo, fica fácil entender que o comprometimento do
componente actínico da membrana eritrocitária faz com que as
hemácias alcancem com dificuldades o leito capilar, com uma
pouca deformabilidade da hemácia. Outra característica
importante é o fato que os componentes da membrana eritrocitária
também contribuem para uma sobrevida média das hemácias de,
em média 120 dias. Portanto, destruições ou ausências de
componentes da membrana da hemácia também determinam uma
hemólise mais acelerada.
Na vigência de uma esferocitose hereditária, a medula óssea promove a formação normal das hemácias, ao
longo de seu percurso na circulação, as hemácias com membranas alteradas permanecem por mais tempo no pólo
vascular do baço. Isto faz com que os macrófagos esplênicos fagocitem parte do componente lipídico da membrana
das hemácias, retirando-se fragmentos desta estrutura. Em seguida, a superfície das hemácias passa a sofrer uma
diminuição de sua espessura e extensão, culminandoem uma alteração estrutural das hemácias, tornando-as com
pouco diâmetro, coradas em uma só coloração, perda do componente hemoglobiníco central. A célula eritrocitária, após
sucessivas ações macrofagocitárias, passa a ser denominada de esferócitos. Em resumo, os quatro eventos abaixo
caracterizam a fisiopatologia da esferocitose hereditária:
Pouca deformabilidade da hemácia
Desidratação celular (alteração dos canais iônicos)
Fagocitose parcial e total das hemácias no leito esplênico
Hemólise extra-vascular
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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Imagem mostrando duas lâminas distintas. Na lâmina esquerda,
podemos visualizar várias hemácias com um halo interno pálido, ao
redor de uma área corada de rosa. Nesta mesma lâmina, podemos
visualizar pequenas células com coloração homogênea, sem o halo
interno pálido, são os microesferócitos.
DIAGNSTICO
QUADRO CLÍNICO
O quadro clínico da esferocitose hereditária é caracterizado pela tríade clássica: icterícia, anemia e
esplenomegalia. A icterícia é discreta, que ocorre em conseqüência da hemólise acelerada. A anemia hemolítica é extra-
vascular, por ocorrer em nível do baço e, a esplenomegalia é variada de moderada a intensa. Outras características
também estão co-associadas ao quadro clínico típico recém-referido.
Aumento da absorção intestinal de ferro, que pode gerar aumento da ferritina plasmática;
Aumento da demanda de ácido fólico, podendo induzir a uma anemia megaloblástica;
Cálculos biliares de bilirrubina, em virtude de uma maior oferta de bilirrubina;
Úlceras em membros inferiores (MMII);
Distúrbios extrapiramidais e fenômenos tromboembólicos (raros)
OBS1: Algumas características são responsáveis pela piora da anemia em distúrbios hemolíticos crônicos.
Crise aplástica: Ocorre em indivíduos com esferocitose hereditária que são infectados pelo parvovírus B19,
induzindo a uma queda do DHL basal e curva de reticulócitos baixo, mas com bilirrubina normal.
Crise megaloblástica: Em determinados pacientes, ocorre uma deficiência relativa de ácido fólico, induzindo a
uma taxa de reticulócitos baixa, com VCM muito aumentado.
Crise de seqüestro esplênico: O aumento do volume do baço caracteriza uma queda importante da
hemoglobina (acima de 2 g).
Crise hemolítica: Piora da hemólise em relação ao episódio anterior, com reticulocitose elevada.
ALTERAÇÕES LABORATORIAIS
O diagnóstico da esferocitose hereditária deverá constar de uma avaliação clínica completa, bem como da
realização de exames complementares. O hemograma, por si só, é um exame de boa eficácia no diagnóstico da
esferocitose hereditária e da avaliação geral do doente. Todavia, o padrão-ouro é a ectacitometria, teste da fragilidade
osmótica e a eletroforese de proteína de membrana. Na realidade do Brasil, o teste da fragilidade osmótica ainda pode
ser feito, mas a associação entre clínica e o hemograma já são suficientes para ditar o diagnóstico.
Hemograma.
Alterações da forma das hemácias, com a formação dos esferócitos;
Anemia com icterícia
Anemia microcítica (em virtude da diminuição do tamanho das hemácias), com VCM baixo
Anemia com icterícia determina um CHCM elevado
Reticulocitose, elevação do DHL
Teste da fragilidade osmótica.
O referido teste é utilizado para o diagnóstico de anemias
hemolíticas e esferocitose hereditária. Neste teste os eritrócitos do
paciente são incubados em soluções salinas de diferentes tonicidades,
para avaliar sua resistência ou fragilidade osmótica. Quando
aumentado, sugere esferocitose.
Observamos no gráfico, a curva da esferocitose em linha
contínua, demonstrando o seu desvio para a direita. No caso da
esferocitose, sempre ocorre o desvio à medida que se diminui o volume
do cloreto de sódio.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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Ectacitometria.
Na imagem, observamos a ectacitometria, que é o padrão-ouro para a
esferocitose, cuja principal função é a de identificar que os defeitos ocorrem na
membrana das hemácias. É um exame pouco utilizado, por ser bastante custoso
e, praticamente, impossível no nosso País.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Apesar de que a esferocitose hereditária apresente uma prevalência em crianças pequenas, não é incomum que
determinados profissionais confundam com a história de hepatite recorrente. Além disto, a própria doença hemolítica
auto-imune, que é mais prevalente em adultos jovens, também deve ser diferenciada da esferocitose, quando
reconhecida tardiamente.
TRATAMENTO
O tratamento mais atualizado consiste na retirada cirúrgica do baço, procedimento conhecido por esplenectomia,
a partir dos 5 anos de idade. Todavia, previamente ao tratamento cirúrgico, o paciente deve ser preparado a partir de
vacinas que cubram germes encapsulados (hemófilos, pneumococos, menigococos) e ainda administrar ácido fólico. No
tocante à vacinação prévia, o baço possui um efeito imunológico, no instante em que produz a IgA, que é a principal
imunoglobulina efetiva contra os germes encapsulados.
Diante do que foi exposto a despeito do seu tratamento, podemos fazer o seguinte argumento: “Em crianas
menores que 5 anos, com gravidade do quadro anmico, o que fazer?”. Nesta situação, devemos utilizar a classificação
proposta por Eber et al., 1990, que descreve que a indicação da esplenectomia deve seguir após uma análise de 4
critérios, conforme podemos visualizar abaixo:
Hemoglobina
Reticulócitos
Bilirrubina
Espectro por eritrócito
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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MED RESUMOS 2011
CORREIA, Luiz Gustavo.
HEMATOLOGIA
ANEMIA HEMOLTICA AUTO-IMUNE
(Professora Flávia Pimenta)
A anemia hemoltica auto-imune (AHAI) a uma das mais importantes causas das anemias hemolticas
adquiridas, por apresentar uma frequncia relativamente alta, bem como um potencial de gravidade. Nesta situao,
formam-se anticorpos ou componentes do complemento que se ligam membrana das hemcias, na maioria das vezes,
so auto-anticorpos que reagem com determinados antgenos de membrana, que fazem parte do sistema conhecido de
grupos sanguneos como o sistema Rh. Podem ser formados anticorpos quentes (IgG) ou frios (IgM), possuindo uma
faixa etria de maior incidncia, bem como caractersticas clnicas tpicas de acordo com o tipo de IgG envolvida.
GENERALIDADES
A anemia hemoltica auto-imune, atualmente, possui uma incidncia real desconhecida. A maioria dos casos no
possui causas definidas, ainda que o mecanismo imunolgico envolvido j tenha sido estudado por vrias correntes
cientficas. Algumas doenas pode ser correlacionar com o quadro anmico, principalmente, as doenas
linfoproliferativas e as de carter infeccioso.
As imunoglobulinas, que so as principais “vils” nesta condio, podem se apresentar em maior concentrao
quando levamos em conta o gnero sexual. Nas mulheres e adultos jovens, predomina-se a IgG, enquanto que a IgM
a mais comum em idosos. Por ser uma doena mais comum em adultos jovens, podemos dizer que a maioria dos casos,
cerca de 70%, so causados pela ao da IgG.
FISIOPATOLOGIA
A anemia hemolítica auto-imune ocorre, com maior prevalncia, em indivduos jovens, possuindo, como principal
causa fisiopatolgica, a formao de anticorpos IgG e/ou IgM contra elementos celulares das hemcias.
Em temperaturas superior a 37 C (quente), o principal anticorpo envolvido a IgG, que se liga aos elementos
presentes nas hemcias, formando uma estrutura antgeno-anticorpo. No bao, ocorre uma espcie de “seqestro” dos
eritrcitos recobertos e sensibilidades por IgG, com a ao dos macrfagos esplnicos, induzindo cicatriza
es e
regenera
es da hemcia, tornando a clula sangunea menorquando comparada com as de indivduos sos. O
mecanismo da hemlise depende da opsonização, que um termo muito utilizado na anatomia patolgica que possui
significado, do latim, de “tempero”. Ao revestir por completo a membrana eritrocitria, os anticorpos IgG se ligam a
receptores especficos dos macrfagos esplnicos, permitindo a fagocitose das hemcias (hemlise extravascular). Ou
seja, como se as molculas de IgG “temperassem” as hemcias para serem “deglutidas” pelos macrfagos. Alm das
imunoglobulinas, o componente C3b do sistema complemento tambm tem a funo de opsonizar as hemcias.
A IgM pode ser a imunoglobulina envolvida, caso a reao ocorra em uma temperatura inferior a 0 a 10C,
induzindo a uma reao macrofagoctica pelas clulas de Kuppfer no fgado.
Diante do que foi exposto anteriormente, podemos concluir que as imunoglobulinas possuem papel fundamental
na etiopatognese da anemia hemoltica auto-imune. Mas, o entendimento por completo da patologia somente dado
quando se sabe, exatamente, os agentes etiolgicos que induzem a reao imunomediada pelas IgE e IgM. Para muitos,
as doenas auto-imunes de base so umas das principais responsveis pela ao das imunoglobulinas, tal como o lpus
e a sndrome de Sjogren. Outros autores intitulam que a presena de determinados tipos de cnceres, linfoma, leucemia
linfoctica aguda, tambm so fatores que estimulam a reao auto-imune.
OBS1: Quando a imunoglobulina, alm de promover dano estrutura das hemcias, tambm propicia uma ligao
plaquetria, induzindo uma anemia hemoltica auto-imune e plaquenopenia auto-imune, constitui a Sndrome de Evans.
ETIOLOGIA
AHAI por IgG (anticorpos “quentes”).
Esta a variedade de hemlise mais encontrada na prtica clinica. Os autoanticorpos IgG so habitualmente
dirigidos contra os antgenos do sistema Rh. O principal local de hemlise no bao. Cerca de 50% dos casos no tem
causa aparente, so as AHAI por IgG idioptica. No restante, vrias etiologias podem se envolver com a AHAI: uso de
alfa-metildopa, lpus eritematoso sistmico, leucemia linfoctica crnica, linfomas no-hodgkin.
AHAI por IgM (anticorpos “frios”).
Nesta condio, os autoanticorpos IgM so dirigidos contra o antgeno I da membrana eritrocitria. Esse
antgeno pertence ao sistema de grupo sanguneo (I, i), e est presente em quase todas as pessoas.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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Como esses anticorpos possuem uma maior atividade em baixas temperaturas (0 a 10 C), costumam ser
chamados de crioaglutinina. A etiologia tambm variada, com predomínio da forma AHAI por IgM idiopática,
sinnimo de doena da crioaglutinina.
Na realidade, existe uma expanso de clones de linfcitos B, levando a uma produo exagerada de IgM
monoclonal. mais comum em indivduos idosos (entre 50 e 70 anos). Alguns autores tambm intitulam que a infeco
por Mycoplasma pneumoniae possui importncia estatstica na epidemiologia da AHAI, porm, ainda no se tem estudos
clnicos apropriados na literatura.
DIAGNSTICO
ANEMIA HEMOLÍTICA AUTO-IMUNE INDUZIDA POR ANTICORPOS QUENTES
Diagnóstico clínico.
Conforme citado anteriormente, a anemia hemoltica induzida por IgG mais comum em pacientes na faixa
etria jovem e do sexo feminino, principalmente, em gestantes. As manifesta
es clnicas so variveis desde as formas
assintomticas e sem anemia (hemlise compensada) at os episdios hemolticos agudos gravssimos (fulminantes),
com anemia profunda, insuficincia cardaca congestiva e colapso vascular. uma doena que pode levar ao bito,
ocorrendo em cerca de 10 a 30% dos casos. Outros pacientes, porm, se encontram em uma situao intermediria,
com anemia leve a moderada e oligossintomtica.
Manifestações clínicas da doença de base
Icterícia leve, esplenomegalia discreta ou grave (quando o bao atinge propor
es de grande monta, j se
observa uma maior probabilidade de associao com distrbio linfoproliferativo).
Petéquias, hemorragias de mucosas, que ocorre em funo de uma reao auto-imune contra as plaquetas e
granulcitos, caracterizando a sndrome de Evans (associao entre AHAI promovida por IgG e prpura
trombocitopnica auto-imune). Quando a plaquetopenia grave, inferior a 20.000/mm3, o paciente passa a
apresentar hemorragias vistas na pele. Quando o nvel decai para valores inferiores a 5.000, h uma provvel
associao com sangramento digestivo e AVC.
Diagnóstico laboratorial.
Anemia com reticulocitose (10 a 30%)
VCM pode ser normal (normoctica) ou aumentado (macroctica)
Esfregao de sangue perifrico demonstrando microesfercitos
Elevao do DHL e bilirrubina
Diagnóstico definitivo.
Teste de Coombs: O teste de Coombs direto, tambm denominado de teste da antiglobulina direta, identifica a
presena de anticorpos ou complementos ligados superfcie das hemcias do paciente. positivo em 98% dos
casos de AHAI por IgG, mas no especifico para anemia hemoltica auto-imune. A presena de qualquer IgG
ligada s hemcias, tais como ocorre aps uma hemotransfuso, pode causar positividade do teste. Deste
modo, podemos, eventualmente, evidenciar falso-positivos. O teste de Coombs indireto no importante para o
diagnstico da AHAI, somente serve para avaliar a presena de anticorpos anti-hemcia no soro do paciente e
no especfica para as que se ligam a superfcie das hemcias. O exame bastante simples, podendo ser
realizado em qualquer laboratrio de hematologia. feito da seguinte maneira: adiciona-se soro de “Coombs” a
uma gota de sangue do paciente, incubando-se a 37 C; caso seja detectada uma aglutinao macroscpica do
tubo de ensaio, o teste considerado positivo. O “soro de Coombs”, portanto, formado por anticorpos anti-
imunoglobulina humana, derivados do coelho ou cabra.
OBS2: Com a finalidade de aumentar a especificidade o teste de Coombs, alguns laboratrios de hematologia repetem o
exame utilizando-se anti-IgG humano (Coombs anti-IgG) ou anticorpos anti-C3b humano (Coombs anti-C3). Na anemia
hemoltica auto-imune induzida por “anticorpos quentes” ambos os testes especficos sero positivos.
ANEMIA HEMOLÍTICA AUTO-IMUNE INDUZIDA POR ANTICORPOS FRIOS
Diagnóstico clínico.
um tipo de AHAI mais prevalente em indivduos idosos. O quadro clnico costuma ser mais brando e indolente
quando comparado ao quadro promovido pelos anticorpos quentes. Podem ser associar ao quadro infeccioso, por
Mycoplasma pneumoniae, em uma pneumonia atpica prvia.
Livedos reticulares e acrocianose: Os livedos reticulares e acrocianose ocorrem pela exposio ao frio, na
realidade, se tem uma aglutinao transitria de hemcias nos vasos da derme ou dos dgitos. Tambm pode se
associar a doena linfoproliferativa, como os linfomas no hodgkins, macroglobulinemia de Waldenstrom. Na
prtica mdica, a causa mais comum de AHAI por anticorpos frios a infeco por Mycoplasma pneumoniae. O
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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quadro bastante tpico, o paciente apresenta um quadro de pneumonia atpica, com evoluo para uma
discreta anemia e ictercia aps a primeira semana da doena.
Cianose, fenmeno de Raynaud, isquemia digital, gangrena
Diagnóstico laboratorial.
Anemia com reticulocitose (10 a 30%)
VCM pode ser normal (normoctica) ou aumentado (macroctica)
Elevao do DHL e bilirrubina
Diagnóstico definitivo.
Aglutinação espontânea do sangue periférico: Aps colher o sangue do paciente beira do leito, o sangue do
paciente colocando em geladeira a 4 C. Na presena de crioaglutinina em ttulos satisfatrios, formar-se-o
diversos grumos na parede do tubo, que logo se desfazem aps o aquecimento temperatura corporal. Os
“grumos” representama aglutinao macroscpica das hemcias.
Teste de Coombs direto
Títulos séricos de crioaglutinina
Teste da crioaglutinina (padrão-ouro): obtido observando-se a diluio (ttulo) mxima de soro do paciente
capaz de aglutinar na temperatura a 0oC.
OBS3: Levando em conta o fato que a anemia hemoltica pode se relacionar s causas auto-imunes (Lpus, sndrome de
Sjogren), uma avaliao laboratorial com marcadores auto-imunes deve sempre ser solicitada, principalmente diante de
uma paciente do sexo feminino. Nos indivduos do sexo masculino, a avaliao de possveis neoplasias como agente
causador da anemia tambm deve ser procedido.
TRATAMENTO
O tratamento da anemia hemoltica auto-imune leva em conta o tipo em especial dos anticorpos envolvidos.
Portanto, como medida geral, devemos sempre corrigir a causa de base, at porque, os sintomas regridem quando a
causa de base corrigida.
ANEMIA HEMOLÍTICA AUTO-IMUNE INDUZIDA POR ANTICORPOS QUENTES
Identificar a presena de uma possível causa de base (infeco por hepatite, doena auto-imune, neoplasia)
Administrar corticosteróides: Anemia moderada, com nvel de hemoglobina superior a 8 mg/dL, sem sinais
clnicos importantes (dispnia, palpita
es, etc), a conduta a administrao de corticosterides, de preferncia,
prednisona 1mg/Kg. O tratamento no deve ser feito de modo contnuo, caso o paciente apresente melhora
laboratorial da anemia, se faz o desmame do corticosteride exgeno, at retir-lo por completo.
Esplenectomia: Caso o paciente seja refratrio ao tratamento com corticosterides, a prxima conduta a
esplenectomia, que deve ser feita somente aps a vacinao prvia contra bactrias encapsuladas
(menigogocos, hemfilos, pneumococos).
Uso de imunossupressores: Uma recidiva do quadro anmico, mesmo aps a esplenectomia e uso de
corticosterides, deve ser monitorizada e controlada atravs de trs op
es, que so escolhidas pelo profissional
de acordo com a sua experincia: (1) imunosupressores, (2) pulsoterapia, (3) imunoglobulina humana. Os
imunossupressores (rituximab, que possui como nome comercial Mabthera¥), possuindo ao anti Cd-20.
OBS4: A transfuso sangunea deve ser evitada em pacientes com AHAI, pois, pode induzir rea
es imunolgicas ainda mais
exacerbantes. A sua nica indicao na emergncia hematolgica, que quando os nveis de hemoglobina esto muito baixos, e o
paciente se apresenta com sinais clnicos importantes refratrios ao tratamento clnico com corticosterides
ANEMIA HEMOLÍTICA AUTO-IMUNE INDUZIDA POR ANTICORPOS FRIOS
A forma idioptica responde aos imunossupressores em 50 a 60% dos casos, sendo esta a terapia mais
indicada. O clorambucil (agente alquilante) o mais utilizado. Como as hemcias so destrudas no fgado, no h
resposta aos corticosterides e muito menos esplenectomia. O paciente no deve ser exposto ao frio.
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MED RESUMOS 2011
NETTO, Arlindo Ugulino; CORREIA, Luiz Gustavo.
HEMATOLOGIA____________________________
HEMOSTASIA
(Professora Angelina Cartaxo)
Hemostasia o processo fisiolgico encarregado de “parar o sangramento” e iniciar o processo de reparo
tecidual. Diariamente, o ser humano submetido a traumas imperceptveis que podem levar rotura de pequenos vasos
teciduais da pele e das mucosas. Alm disso, pode ser surpreendido a qualquer momento por um grande trauma (ou
uma grande cirurgia), com rompimento de vasos maiores, o que poderia levar a grandes perdas sanguneas
ameaadoras vida, no fosse a eficcia do sistema hemosttico.
A hemostasia possui dois componentes: (1) hemostasia primria — aquele que “estanca o sangramento”, pela
formao do tampo ou trombo plaquetrio e (2) hemostasia secundria – aquele que evita o ressangramento, pela
formao de uma rede de fibrina (cogulo) encarregada de estabilizar o trombo. Vejamos agora os diversos passos do
processo hemosttico.
COMPONENTES DA HEMOSTASIA
A hemostasia se inicia a partir do instante em que ocorre leso vascular, com
exposio de determinadas camadas histolgicas dos vasos. Portanto, devemos
previamente conhecer a histologia vascular, em seguida, descrevermos os principais
componentes que participam do fenmeno de hemostasia.
Os vasos, sob o ponto de vista histolgico, so constitudos por trs camadas:
tnica ntima, mdia e externa. Na camada ntima, encontramos o subendotlio
(colgeno, depsito de fator de Von Willebrand) e as clulas epiteliais; j a tnica mdia
formada, predominantemente, por clulas musculares lisas e fibroblastos; por fim, a
tnica externa que, por sua vez, formada por tecido conjuntivo e vasa vasorum, que
so arterolas que irrigam o prprio vaso.
CÉLULAS ENDOTELIAIS
O endotlio se encontra na superfcie interna do vaso, impedindo a formao de trombos vasculares no estado
fisiolgico normal do indivduo, portanto, garantem uma superfcie antitrombtica para o fluxo sanguneo. Este fenmeno
antitrombtico proporcionado pelas clulas endoteliais ocorre em decorrncia da produo de substncias
(vasodilatadores e vasoconstrictores), que regulam o tnus vascular.
Vasodilatadores: As clulas endoteliais produzem uma vasta populao de substncias vasodilatadoras, que se destacam o
xido ntrico e as prostaciclinas. O óxido nítrico produzido a partir da estimulao pela trombina e bradicinina, atuando de
modo a impedir a adeso, ativao e agregao plaquetria. As prostaciclinas so secretadas pelas clulas endoteliais,
bem como pelas clulas musculares lisas, sob estmulo da trombina, histamina e bradicinina.
Vasoconstrictores: Dois vasoconstrictores so liberados pelas clulas endoteliais: endotelina e fator ativador das plaquetas
(PAF). A endotelina proporciona aumento do influxo de clcio para o interior das clulas musculares lisas, favorecendo o
aumento do tnus vasculares. O PAF promove a vasoconstrico e ativao plaquetria.
PLAQUETAS
As plaquetas so caracterizadas como fragmentos dos megacaricitos, com vida mdia de 9 - 10 dias. Depois
disso, so seqestradas e destrudas no leito esplnico. Conhecidamente, as plaquetas so a grande vedete da
hemostasia, com as seguintes fun
es:
Manutenção da hemostasia: A manuteno da hemostasia proporcionada pela adeso plaquetria ao
endotlio.
Adesão a superfície endotelial danificada
Ativação com secreção de substâncias pró-coagulantes, que so importantes por ativarem outras plaquetas.
Agregação plaquetária
Membrana citoplasmática.
As plaquetas possuem morfologia ovide, com membrana plasmtica constituda por dupla camada lipdica e
glicoprotenas (que so os receptores de membrana das plaquetas). Portanto, as glicoproteinas (GP) imersas na
membrana plasmtica apresentam os seguintes receptores plaquetrios:
Complexo GP IIb/IIIa: receptor para fibrinognio, fator de Von Willebrand, fibronectina e vitronectina.
GP Ia/IIa: receptor para colgeno
GP Ic/IIa: receptor para fibronectina
GP Ib/IX/V: receptor para fator de Von Willebrand (fvW)
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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Citoesqueleto.
O citoesqueleto da plaqueta é formado por um sistema circunferencial de microtúbulos de actina e miosina, que
deslizam um sobre o outro, favorecendo a expressão plaquetária, bem como a secreção de substâncias.
Citoplasma.
O citoplasma plaquetário é composto pelas mitocôndrias (especializada na produção de energia), lisossomos,
corpúsculos densos e grânulos alfa.
Córpusculos densos: são ricos em ADP (substância pré-coagulante), ATP, serotonina, histamina e cálcio.
Grânulos alfa: possuem uma quantidade elevada de fibrinogênio, fator V e XI, vitronectina, fibronectina e fvW.
OBS1: O sistema canalicular abertopromove intercâmbio entre o meio interno e externo; já o sistema tubular denso
seqüestra o cálcio.
HEMOSTASIA PRIMRIA
A hemostasia primária é ativada na vigência de uma lesão vascular. Diante da lesão, o endotélio, por sua vez,
também é comprometido, expondo a região subendotelial, que é rica em colágeno e fator de vW. A hemostasia primária
ocorre em três etapas cronológicas, sob a seguinte ordem:
1. Adesão: inicio da hemostasia primária, ocorrendo no instante em que ocorre a lesão endotelial, com exposição
da matriz colágena e proteínas subendoteliais.
2. Ativação
3. Agregação
ADESÃO PLAQUETÁRIA
Imaginando-se que um vaso sanguíneo previamente íntegro,
com espaço subendotelial mantido, sofreu uma lesão. Diante disto, há
uma ruptura da continuidade e/ou integridade do espaço subendotelial
(que é rico em colágeno e fator de vW), expondo-os, mas ainda na sua
forma inativa. A ativação da matriz colágena, bem como do fator de vW,
que são macromoléculas, ocorre pela ação de proteases,
transformando-as em micromoléculas, que são funcionantes. Logo em
seguida, as plaquetas circulantes aderem ao fator de vW (ligação fvW-
GP Ib/X) e ao colágeno, caracterizando-se uma ligação frágil,
dissociável, que pode ser facilmente desfeita com o fluxo sanguíneo.
Portanto, diante deste empecilho, se faz necessário uma ligação mais duradoura, forte, que é obtida através da
ativação e agregação plaquetária. Outro fator importante é o fato que o fluxo sanguíneo se altera com a lesão do vaso.
Torna-se lento próximo a parede do vaso em comparação a região central, gerando fluxo em camadas. Essa alteração
do fluxo sangüíneo proporciona maior atrito entre as plaquetas, permitindo que permaneçam aderidas.
ATIVAÇÃO PLAQUETÁRIA
Depois de aderidas ao endotélio comprometido,
as plaquetas devem ser ativadas. Para isto, é necessário
a liberação de substâncias agonistas plaquetárias:
colágeno, ADP, tromboxano-A2, trombina, epinefrina,
serotonina, vasopressina e fator da ativação plaquetária.
As substâncias agonistas são as que se ligam ao receptor
da proteína G das plaquetas, ativando,
consequentemente, as fosfolipases. Dentre as quais, a
fosfolipase C é ativada, induzindo à hidrólise do fosfatidil-
inositol, em dois mensageiros: trifosfato inositol (IP3) e
diacilglicerol (DGI).
O IP3 se liga aos receptores de membrana do sistema
tubular denso, onde se armazena cálcio, mobilizando tais íons,
bem como ativando o sistema contrátil actina-miosina, para que
ocorra uma mudança de sua forma, estimulando a liberação de
outras plaquetas. O cálcio liberado também ativa a fosfolipase
A2, que dá início a liberação do ácido araquidônico da
membrana fosfolipídica..
O ácido araquidônico sofre efeito da ciclooxigenase,
transformando-se em endoperóxidos, que se convertem em
tromboxane A2, que é um importante agonista da ativação
plaquetária.
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AGREGAÇÃO PLAQUETÁRIA
O DGI ativa a protena-quinase C que leva a alterao da conformao GP IIb/IIIa para que ocorra a ligao do
fibrinognio formado no processo de hemostasia secundria.
HEMOSTASIA SECUNDRIA
Em um individuo normal, a coagulao iniciada dentro de 20 segundos aps o surgimento da leso no vaso
sanguneo. Durante a hemostasia primria, as plaquetas formam imediatamente, um tampo plaquetrio no local da
leso. A hemostasia secundária acontece quando os componentes do plasma, chamados de fatores de coagulao,
respondem (em uma completa cascata de rea
es) para formar fios de fibrina, que fortalecem o tampo plaquetrio.
Portanto, a hemostasia secundria a segunda parte da hemostasia, que quando os fatores de coagulao
(que so protenas plasmticas), geralmente inativos, passam a serem ativados para estabilizar o trombo plaquetrio
que foi desenvolvido na vigncia da hemostasia primria. Obviamente, os mecanismos que regem a hemostasia
secundria so regulados de maneira simultnea, para que no ocorra a formao de trombos intravasculares
exagerados.
Em 1964, Macfarlane e Davie & Ratnoff propuseram a hiptese “cascata da coagulao” para explicar a fisiologia
da coagulao sangunea. Neste modelo, a coagulao ocorre por meio de ativao proteoltica seqencial de
zimgenos por proteases plasmticas.
Essas proteínas são chamadas de zimógenos e são proenzimas (enzimas inativas) que quando são ativadas
catalizam a ativação de proenzima que dá origem a enzima que ativa outra proenzima, criando uma reação em cascata.
No final das contas, cursam com a produção de fibrina. Os fatores da coagulao que participam desse processo so:
ons de clcio e 11 protenas diferentes, tambm denominadas de fatores de coagulao (na sua maioria, produzidas
pelo fgado). Algumas delas dependem da vitamina K (fatores II, VII, IX, X).
Existem 13 fatores de coagulao conhecidos, alguns conhecidos pelos nmeros, outros pelos nomes. Os
fatores VIII e IX so os mais conhecidos, por conta de sua deficincia na hemofilia A e B, respectivamente.
Fator I: fibrinognio
Fator II: protrombina
Fator III: tromboplastina
Fator IV: clcio
Fator V: proacelerina
Fator VII: proconvertina
Fator VIII: fator anti-hemoflico
Fator IX: fator Christmas
Fator X: fator Stuart
Fator XI: antecedente tromboplastnico do plasma
Fator XII: fator Hageman
Fator XIII: fator de von Willebrand
Os mesmos autores tambm dividiram a hemostasia secundria em duas vias: extrnseca e intrnseca. Na via
extrnseca, participam as substncias do sangue (protenas plasmticas), bem como as que pertencem ao extravascular.
Na via intrnseca, somente participam protenas plasmticas, ou seja, substncias do sangue. Portanto, a via intrnseca
no ativada por substncias que estejam no meio extravascular, mas somente pelo contato molcula--molcula
(protena-protena).
A tradio de se dividir o sistema de coagulao do sangue em intrnseco e extrnseco, atualmente entendida
como inadequada para entendimento da fisiologia da coagulao, tendo em vista que a diviso (em intrnseco e
extrnseco) no ocorre in vivo. No homem, as duas vias so ativadas concomitantemente. Atualmente, se aceita que
mecanismos hemostticos estejam associados com trs complexos enzimticos pr-coagulantes.
Via Intrínseca: A via intrnseca inicializada pelo contato do sangue com superfcies de carga negativa
expostas em decorrncia da leso vascular. Nestas superfcies, o cininognio de alto peso molecular (CAPM)
comea a ativar o fator XII (fator de Hageman). O fator XII ativado (XIIa) converte a precalicrena (PK) em
calicrena (K) que, por sua vez, acelera a ativao do prprio fator XII - um mecanismo de retroalimentao
positiva. O fator Xlla capaz de converter o fator XI em fator Xla. Este ltimo, a partir do fator IX (fator anti-
hemoflico B ou fator de Christmas), forma o fator IXa. Na superfcie das plaquetas, utilizando o seu componente
fosfolipdico (fator 3 plaquetrio), o fator IXa ativa o fator X (fator de Stuart), na presena de clcio ionizado e de
um cofator - o fator VIIIa (fator anti-hemoflico A). O produto desta reao o fator Xa (protrombinase). O fator
VIII ativado pela trombina.
Via Extrínseca: Avia extrnseca inicializada por uma lipoprotena presente nas clulas do tecido subendotelial
- o chamado Fator Tecidual (TF), ou "tromboplastina tecidual" liberado a partir da injria tecidual. Na membrana
celular, o fator VII (pr-convertina) se liga ao TF, na presena de clcio ionizado, convertendo-se em fator VIla.
Na superfcie plaquetria, o complexo TF-fator VIla ativa o fator X (fator de Stuart), produzindo o fator Xa
(protrombinase). O fosfolipdio plaquetrio e o clcio ionizado tambm participam do processo.
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Via Comum: o fator Xa (protrombinase) é a interseção entre as vias intrínseca e extrínseca da coagulação.
Daqui em diante, o processo é denominado via comum. O fator Xa liga-se ao fosfolipídio plaquetário para
converter o fator II (protrombina) em trombina (fator IIa), na presença de cálcio ionizado e de um cofator- o fator
Va. Uma grande quantidade de trombina é formada neste momento, devido ao mecanismo de amplificação da
cascata da coagulação. A trombina agora transforma o fibrinogênio plasmático (fator I) em monômeros de fibrina,
que logo se combinam para formar polímeros (rede de fibrina ou coágulo). A trombina também ativa os fatores V
(pró-acelerina), VIII e XIII, além de ser um potente ativador plaquetário. As ligações fibrina-fibrina são
estabilizadas (tornam-se covalentes) e mais rígidas pelo fator XlIIa (fator estabilizador de fibrina). A rede de
fibrina reveste e estabiliza o tampão (plug) plaquetário, finalizando o processo hemostático.
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ATIVAÇÃO DOS FATORES DE COAGULAÇÃO NA MEMBRANA PLAQUETÁRIA
A hemostasia secundria ocorre na superfcie das plaquetas do endotlio vascular. O incio da coagulao
ocorre mediante a ligao do fator VIIa ao fator tecidual (FT), com consequente ativao do fator IX. O FT uma
glicoprotena de membrana que funciona como receptor para o fator VII da coagulao. O fator tecidual o responsvel
pelo desencadeamento do processo de coagulao aps a injria vascular ou altera
es bioqumicas (liberao de
citocinas).
Aps a leso tecidual, h um depsito do fator tecidual (tromboplastina), induzindo a ativao do fator VII
(antigamente denominada de via intrnseca). Uma vez ativado, o fator VII proporciona a ativao do fator X, em
pequena proporo, e ao mesmo tempo do complexo IXa/VIIIa (complexo tenase intrnseco). Este complexo
ativa os fatores VIII e IX ao mesmo tempo, que ativam o fator X de modo mais intenso. O fator X, ativado,
estimula o complexo protrombinase, que transforma protrombina em trombina e fibrinognio em fibrina. Por fim,
o fator XIII estabiliza o coagulo. O fator XII ativa o fator XI, que ativa o complexo tenase intrnseco (VIIIa + clcio
+ IXa) e fator II plaquetrio (que ainda ativa o complexo protrombinase (Xa + Va + clcio), tambm tranformando
protrombina em trombina e fibrinognio em fibrina.
Aps leso vascular, ocorre exposio do colgeno, inibindo o fvW, havendo adeso, agregao e plaquetria.
Ao mesmo tempo, ocorre a liberao do FT (fator III), que estimula a via intrnseca. O fator XII, ativando o
complexo tensa extrnseca (VII + III + clcio), pode ativar fator X (em menor proporo), mas ele vai ativar o
complexo tenase intrnseco (VIIIa+clcio+IXa+fator III plaquetrio) que ir ativar o complexo trombinase
transformando protrombina em trombina e fibrinognio em fibrina.
HARMONIA ENTRE COAGULAÇÃO E ANTI-COAGULAÇÃO
De fato, no estado fisiolgico no h formao e deposio de fibrina no intravascular devido:
As propriedades anticoagulantes do endotlio;
A forma inativa das protenas plasmticas da coagulao (que circulam como zimognios – enzimas inativas –
ou cofatores), que s sero ativados quando tiver um sangramento;
A presena de inibidores fisiolgicos da coagulao (fator inibidor da via tecidual – Tissue Factor pathway
inhibitor-TFPI, Proteina C, Protena S e Antitrombina III).
INIBIDORES DA COAGULAÇÃO
Cada mililitro de sangue contm uma quantidade de fatores de coagulao necessria para coagular todo o
fibrinognio corporal em apenas 15 segundos. Contudo, existe um sistema regulador que funciona como uma espcie de
“freio” desse sistema. So os anticoagulantes endgenos. Estas substncias so ativadas juntamente com o sistema da
coagulao. Os principais so: antitrombina III, protena C, protena S e TFPI.
A antitrombina III liga-se aos principais fatores da coagulao das vias intrnseca e comum (especialmente a
trombina e o fator Xa, alm do IX e XII), inativando-os. A heparina pode complexar-se com a antitrombina III,
aumentando bastante o seu poder anticoagulante.
A proteína C precisa ser ativada pela trombina e/ou trombomodulina nas clulas endoteliais para adquirir o seu
efeito anticoagulante, inativando dois importantes cofatores da coagulao - fator V e VIII.
A proteína S aumenta o efeito anticoagulante da protena C ativada. Vale ressaltar que tanto a protena C como
a protena S tm a sua sntese realizada no hepatcito e depende da vitamina K (pois precisa da reao de
gama-carboxilao). A inibio da sntese desta protena nas primeiras 24-48h justifica o curto efeito inicial pr-
coagulante do cumarnico. Portanto, inibe a ligao entre o fator VII ao fator tecidual, e o fator X.
O TFPI, como j descrito, inibe o complexo TF-fator VIla.
OBS1: As raras deficincias hereditrias de antitrombina III ou protena C ou protena S acarretam em uma sndrome de
hipercoagulabilidade (ou trombofilia), manifestando-se por fenmenos tromboemblicos. Muito mais frequentemente na
prtica mdica, observa-se um distrbio qualitativo: o fator V de Leiden. Esta sndrome, tambm conhecida como
resistncia protena C ativada, decorrente de um fator V mutante, resistente ao efeito inibitrio deste anticoagulante
endgeno.
SISTEMA FIBRINOLÍTICO
Assim que o tampo hemosttico (trombo) formado para o controle do sangramento, ele j comea a ser
dissolvido pelo sistema fibrinoltico endgeno. O endotlio libera o tPA (ativador do plasminognio tecidual), uma
substncia capaz de converter o plasminognio (uma protena plasmtica circulante) em plasmina, uma potente enzima
proteoltica.
A plasmina possui uma alta capacidade de degradar os polmeros de fibrina em pequenos fragmentos – os
produtos de degradao de fibrina (PDF), como o D-dmero, processo denominado fibrinlise. Estes ltimos so ento
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“depurados” pelos macrfagos locais. Quando em excesso, a plasmina tambm degrada o fibrinognio (fibrinogenlise)
e os fatores V, VIII, e XIII.
A fibrinlise um processo fundamental para o reparo tecidual. Os PDF podem ser dosados e encontram-se
elevados nos estados de fibrinlise intensa, como em tromboses do sistema venoso e arterial e na CIVD (coagulao
intravascular disseminada). Eles inibem a coagulao, por terem um efeito anti-trombnico. A plasmina formada na
superfcie do trombo, pois o tPA tem um efeito mais eficaz no plasminognio ligado rede de fibrina do que no
plasminognio circulante livre. Aps cumprirem o seu papel, os integrantes do sistema fibrinoltico so inativados.
A plasmina degradada pela alfa2-antiplasmina, enquanto que o tPA sofre ao do PAI-1 (inibidor do ativador
do plasminognio), uma substncia tambm liberada pelo endotlio. Assim, a fibrinlise um fenmeno local. Se a
plasmina no fosse metabolizada fisiologicamente, ela degradaria o fibrinognio solvel circulante (fibrinogenlise),
prejudicando a coagulao.
AVALIAO CLNICA DOS DISTRBIOS DA HEMOSTASIA
Em ambas as etapas da hemostasia, podem ocorrer distrbios relacionados com seus diversos fatores,
mecanismos e elementos. Tais distrbios podem ser devidamente diferenciados atravs da anlise clnica, e sero
melhor detalhados nos prximos captulos.
De antemo, sempre que suspeitarmos de um distrbio da hemostasia, dois passos fundamentais devem ser
realizados: (1) identificar se o distrbio hereditrio ou adquirido; (2) diferenciar se o distrbio da hemostasia primria
ou da secundria.
HEREDITÁRIA x ADQUIRIDA
Os distrbios da hemostasia hereditrios geralmente se manifestam na infncia, mas eventualmente podem
aparecer pela primeiravez na fase adulta. Os distrbios mais graves, como a hemofilia A, geralmente se
manifestam assim que a criana comea a deambular longe dos pais (3-4 anos), tornando-se mais suscetvel ao
trauma. Os distrbios mais brandos, como a doena de von Willebrand, podem passar despercebidos at a
realizao de uma extrao dentria, de uma amigdalectomia ou alguma outra cirurgia. De um modo geral, a
histria familiar pode ajudar se for positiva. Se for negativa, no exclui de forma alguma os distrbios hereditrios
da hemostasia.
Os distrbios da hemostasia adquiridos geralmente vm acompanhados dos outros sinais e sintomas da doena
de base ou pela histria do uso prvio recente de algum medicamento. A doena de base domina o quadro: a
coagulao intravascular disseminada (CIVD) normalmente se associa ao quadro de sepse ou gestao
complicada; o hepatopata com distrbio da coagulao tambm apresenta os sinais de insuficincia heptica e
hipertenso porta; o renal crnico que sangra geralmente tem tambm outras manifesta
es da sndrome
urmica; etc. Nas desordens adquiridas da hemostasia, comum a associao de distrbio plaquetrio com
coagulopatia, podendo ter o sangramento caractersticas mistas, como na CIVD.
DISTÚRBIO NA HEMOSTASIA PRIMÁRIA x DISTÚRBIO NA HEMOSTASIA SECUNDÁRIA
Os distrbios da hemostasia primria (caracterizados pelo sangramento plaquetário) predominam na pele e
nas mucosas. Os sinais e sintomas mais frequentes so: gengivorragia, epistaxe, menorragia (se for mulher),
hematria, petquias e equimoses. As petquias e equimoses so tipos de prpura, definida como uma 'mancha'
cutnea por extravasamento de hemcias por pequenos vasos. As petquias so manchas puntiformes
decorrentes de hemorragias capilares na derme.
Os distrbios da hemostasia secundria (caracterizados pelo sangramento por coagulopatia) predomina nos
rgos e tecidos internos. Os sinais e sintomas mais frequentes so: hemartrose, hematoma dissecante
profundo, hematomas musculares, retroperitoneais ou em rgos internos.
AVALIAO LABORATORIAL DA COAGULAO (PROVAS LABORATORIAIS DA HEMOSTASIA)
As provas laboratoriais da hemostasia, chamadas corriqueiramente de “coagulograma” so de extrema
importncia na avaliao de uma suposta desordem hemosttica. O coagulograma um conjunto de exames
solicitados pelo mdico ou cirurgio-dentista para avaliar a funo da coagulao do paciente, estimando se o tempo de
coagulao e seus mecanismos esto normais. So fundamentais no pr-operatrio de qualquer cirurgia de mdio a
grande porte, principalmente se o paciente tem histria de sangramentos.
solicitado na clnica mdica para investigar sangramentos espontneos, petquias, fazer diagnstico
diferencial de sangramentos uterinos disfuncionais nas mulheres. Os exames compreendidos so tempo de protrombina
(TP) e ativao de protrombina (AP), tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPA), Tempo de Sangramento, alm da
contagem plaquetria (plaquetometria).
De um modo geral, o TP testa os fatores de coagulao participantes da via extrnseca e fatores vitamina K-
dependentes: II, VII, IX, X; enquanto o TTPA testa os participantes da via intrnseca (fatores VIII e Von Willebrand, IX, XI,
XII). Portanto, o TP e o TTPA são avaliadores da hemostasia secundária, que condiz formao do cogulo.
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Os demais exames, como o tempo de sangramento e a contagem de plaquetas, avaliam a hemostasia
primária. Outro teste que faz parte do coagulograma a dosagem dos produtos de degradao de fibrina (PDF), como o
Dmero-D, avaliado em casos de tromboembolismo pulmonar e CIVD, por exemplo.
CONTAGEM DE PLAQUETAS (PLAQUETOMETRIA) E ÍNDICES PLAQUETÁRIOS
A contagem de plaquetas no sangue normal varia entre 150.000-450.000/mm3. Os ndices plaquetrios principais
so o VPM (volume plaquetrio mdio) e o PDW (ndice de anisocitose plaquetrio ou platelet distribution width). O
aumento do VPM (normal: 3-12) sugere destruio perifrica de plaquetas, como na PTI (prpura trombocitopnica
imune) e na PTT (prpura trombocitopnica trombtica).
A relao entre o nmero de plaquetas e o risco de sangramento proporcional, da seguinte maneira:
> 100.000/mm3: no provoca sangramento.
50.000-100.000/mm3: eventual sangramento acima do normal aps trauma grave
20.000-50.000/mm3: sangramento acima do normal aps trauma ou cirurgia; eventual sangramento espontneo
(especialmente quando < 30.000/ml3); aumento do tempo de sangramento.
10.000-20.000/mm3: sangramento espontneo comum.
< 10.000/mm3: risco de sangramento grave ou incontrolvel.
< 5.000/mm3: risco muito alto de sangramento grave e fatal
TEMPO DE SANGRAMENTO
Valor normal: 1 a 3 minutos, quando realizado o mtodo de Duke
Avalia a hemostasia primria, quantidade de plaquetas e funo plaquetria.
Atravs do mtodo de Duke, mede-se a durao do sangramento aps uma perfurao de 1mm de profundidade
que visa lesar pequenos vasos da pele (o local mais realizado no lbulo da orelha). J o mtodo de Ivy o que
se faz uma insuflao de manguito a 40 mmHg do antebrao, realizando cortes na superfcie da pele com
lancetas especiais.
Aumento do tempo de sangramento fala mais a favor de uma baixa quantidade de plaquetas (plaquetopenia), tal
como ocorre nas prpuras trombocitopnicas, ou ainda, funo plaquetria alterada (indivduos que utilizam
antiinflamatrios no-hormonais ou nas trombastenias).
TEMPO DE PROTROMBINA (TP) E ATIVIDADE DE PROTROMBINA (AP)
O tempo de protombina (TP) consiste no tempo que o plasma leva para coagular aps acrescentar-se um
ativador de protombina na soluo; realizado e comparado com o tempo da protombina-controle normal.
Aps a realizao deste teste, compara-se seu resultado em uma tabela padronizada pelo laboratrio, em que se
compara o TP do paciente com o TP controle, o que leva ao resultado definido como atividade da protombina (AP); em
outras palavras, o AP um produto da comparao do TP com valores baseados em tabelas pr-definidas. Os valores
de AP podem ser definidos em porcentagem ou pelo padro INR. O INR (International Normalized Ratio) o padro
mais utilizado, pois se baseia na relao do TP do paciente com valores de TP normal.
Tempo de protrombina (TP) Atividade de protrombina (AP)
Valor normal: 12 a 15 segundos
um mtodo que avalia a via extrnseca e comum da
coagulao.
O teste de TP mede o tempo necessrio para um
cogulo de fibrina se formar em uma amostra de plasma
(4,5mL) citratado a 0,5 mL, aps adio de ons clcio e
tromboplastina de tecido (fator III).
Tambm avalia os fatores II, VII, IX e X (fatores
dependentes de vitamina K)
Atividade de protrombina normal: 70% a 100%
Mede o tempo necessrio para um cogulo de fibrina se
formar em uma amostra de plasma citratado aps a
adio de ons de clcio e tromboplastina de tecido
(fator III).
Devido s diferenas de sensibilidade dos reagentes
utilizados por diferentes fontes, a Organizao Mundial
de Sade recomenda uma padronizao utilizando-se
uma tromboplastina de referncia mundial, a partir da
qual se calcula um ndice de correo denominado ISI
(International Sensitivity Index). O INR (International
Normalized Ratio) a relao do TP do paciente com
o TP do “pool” normal, elevado ao ISI.
Valor normal (INR): 1 a 1,25.
Portanto, o resultado do TP pode ser dado em termos da relao entre o tempo do paciente e o tempo controle
(feito com vrios plasmas humanos de indivduos normais) e pela “Atividade de Protrombina”. Se, por exemplo, o
controle for 12 segundos e o tempo do paciente for 16 segundos, a relao ser 1,5 e a atividade de protrombina ser
50%. Normalmente existe uma tabela de correlao entre a relao do TP e a Atividadede Protrombina.
OBS2: Caso o TP/AP (que avalia a via extrnseca e fatores dependentes de vitamina K: fatores II, VII, IX e X) estiver
alterado, devemos suspeitar de deficincia de vitamina K. Diante deste caso, devemos administrar vitamina K e, aps 3
dias, reavaliar. Caso no responda, devemos pensar na deficincia congnita de fator VII e, caso seja submetido ao
tratamento cirrgico, devemos administrar hemoderivados que j contenham os fatores dependentes de vitamina K.
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TEMPO DE TROMBOPLASTINA PARCIAL ATIVADA (TTPA OU PTTa)
Valor normal: 24 a 36 segundos
É utilizado para avaliar a via intrínseca, podendo constatar defeitos dos fatores VIII, IX, XI e XII. É útil ainda para
o controle do uso terapêutico de heparina e na avaliação da presença de anticoagulantes circulantes.
Quando se encontra alargado (acima de 36 segundos), suspeitamos de hemofilia A (fator VIII) ou B (fator IX), ou
deficiência dos fatores XII ou XIII.
Pode também se apresentar alargado na vigência do uso de heparina.
Clinicamente, o resultado do TTPA deve ser dado em termos da relação entre o tempo do paciente e o tempo
de controle (feito com vários plasmas humanos de indivíduos normais). Por exemplo, se o controle for 30s e o
tempo do paciente for 60s, a relação do TTPA é 2 (Rel=2).
TEMPO DE COAGULAÇÃO
Valor normal: 5 a 10 minutos
O tempo de coagulação é o tempo gasto para o sangue que foi coletado (cerca de 4 mL) coagular. Portanto, é
um teste que avalia a hemostasia secundária como um todo.
Assim como o tempo de sangramento, o tempo de coagulação não devem ser critérios máximos para a
disponibilidade do paciente em aceitar uma cirurgia, devendo-se avaliar outros exames.
OBS3: Resumos de termos:
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MED RESUMOS 2011
ELOY, Yuri Leite; NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA____________________________
PÚRPURAS
(Professora Flávia Pimenta)
As prpuras so manifesta
es hemorrgicas que se caracterizam por sangramento mucocutneo causados por
deficincia das plaquetas (funcional ou numrica) ou dos vasos.
Clinicamente, quando se manifestam na pele, acontecem na forma de petquias, localizadas principalmente nos
membros inferiores (onde a presso hidrosttica maior), ou na forma de equimoses, que podem ser definidos como
sangramentos planos, sem elevao da pele (quando h elevao, denominamos esse sangramento na pele de
hematoma – tumor hemático).
CONSIDERAES GERAIS
Podemos dizer, portanto, que as equimoses e petquias consistem sinais em clnicos que demonstram uma falha da
hemostasia primária, acontecendo em decorrncia de distrbios vasculares ou plaquetrios. Os distrbios vasculares ainda podem
ser classificados em queda das plaquetas (plaquetopenia) ou disfuno de plaquetas (situao em que o nmero de plaquetas
normal, mas existe uma alterao de sua funo como clula hemosttica).
Essas altera
es da funo das plaquetas (disfuno plaquetria) podem ser divididas em um grupo de patologias
hereditárias (como nas trombastenias, doenas em que existe uma alterao da funo das plaquetas por modifica
es em suas
protenas estruturais) e (2) adquiridas (ocorrendo, por exemplo, por ao medicamentosa, como AAS).
Desta forma, sempre devemos reconhecer, logo ao diagnstico, se o sangramento por dficit da hemostasia primria, que
pode ocorrer por deficincia da atividade das plaquetas ou por dficit numrico (isto , por simples reduo da populao de
plaquetas) ou, ento, por disfuno vascular.
Alm disso, a relao do tempo de aparecimento das manifesta
es hemorrgicas de grande importncia. Quando os
distrbios hemorrgicos ocorrem em face disfuno plaquetria (plaquetopenia ou disfuno vascular – hemostasia primária) o
sangramento imediato, logo aps o trauma, como exemplo, aps pequenos procedimentos cirrgicos e odontolgicos. J na
deficincia de algum fator da cascata da coagulao (hemostasia secundária) o sangramento no imediato, pois a hemostasia
primria est ntegra e, com isso, pode haver, inicialmente, a formao de trombos (promovendo uma certa hemostasia), mas que, no
momento da estabilizao do cogulo de fibrina, por deficincia de algum dos fatores da coagulao, a cascata interrompida. Por
esta razo, pacientes com distrbios da hemostasia secundria geralmente apresentam sangramento com cerca de 24 horas aps o
procedimento cirrgico.
Essas considera
es gerais so de extrema importncia pois, de acordo com a semiologia hematolgica, pode-se determinar
o momento correto em que ocorrer um possvel sangramento em um paciente.
OBS1: Quando ocorre um dficit da produo de protenas da coagulao (defeitos na hemostasia secundria), geralmente o
sangramento se manifesta sobre a forma de hematoma, podendo ser espontneo (como na hemofilia) ou provocado (traumas ou
procedimentos pouco ou muito invasivos).
CLASSIFICAO
Em resumo, o nosso estudo estar baseado no seguinte esquema classificatrio:
Púrpuras vasculares: Hereditrias e Adquiridas.
Púrpuras plaquetárias
PRPURAS VASCULARES HEREDITRIAS
De um modo geral, as prpuras vasculares de origem hereditria acontecem em virtude de altera
es no tecido
que forma a estrutura dos vasos sanguneos. Dentre as principais prpuras vasculares, temos:
Telangiectasia hemorrgica hereditria (Sndrome de Osler-Weber-Rendu)
Prpura anafilactide de Henoch-Schoenlein
Prpura senil
Trombastenias (que sero abordadas em um tpico a parte)
TELANGIECTASIA HEMORRAGICA HEREDITARIA (SINDROME DE OSLER-WEBER-RENDU)
A telangiectasia hemorrgica hereditria (THH) uma doena autossmica dominante que cursa com displasia
fibrovascular mucocutnea e visceral, que usualmente reconhecida pela "trade clssica" de telangiectasias, epistaxes
recorrentes e histria familiar da doena. As telangiectasias formam-se pela fragilidade da parede das vnulas,
aparecendo na pele, boca, lngua, mucosa nasal e tubo digestivo. a causa gentica mais comum de sangramento
vascular, ocorrendo em 1:50.000 nascidos vivos.
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Histórico.
Em 1865 Babington descreveu pela primeira vez a epistaxe hereditária, sendo a telangiectasia discutida por
Legg em 1876 e por Chiari em 1887.
Porém, a primeira descrição compreensiva foi feita por Rendu em 1896.
Contribuições subsequentes para o conhecimento da doença foram feitos por Osler em 1901 e Weber em 1907,
o que levou a designação de "doença de Rendu-Osler-Weber".
Hanes em 1909 denominou "telangiectasia hemorrágica hereditária" definindo assim as três características
principais da doença.
Sintomatologia.
Caracterizam-se pela formação de vasos tortuosos e dilatados localizados principalmente em mucosa oral,
lábios, narinas e extremidades das falanges dos membros superiores e inferiores e ainda na mucosa dos órgãos
internos, como estômago, intestino etc. Dessa forma, concluímos que os locais mais frequentes de sangramentos são
cavidade oral e nasal (epistaxe) e, não menos importante, sangramento do TGI (melena).
A doença tem uma característica específica de permanecer oculta até o 6º ou 7º ano de vida da criança, ou seja,
sem surgir lesões, quando de forma abrupta as mães relatam o surgimento de extremidades dos dedos arroxeadas nos
seus filhos. Em relação à formação desses vasos defeituosos na mucosa das vísceras pode haver formação de fístulas
arteriovenosas, que a mais grave é fístula arteriovenosa pulmonar que pode levar a hipertensão pulmonar podendo levar
o paciente ao óbito.
Em resumo da sintomatologia temos:
Epistaxe: manifestação clínica mais comum
Sangramentodo TGI
Anormalidades à radiografia de Tórax: ocorrem quando há
hipertensão pulmonar
Cefaléia: pode ser a causa de hemorragias intracranianas
Convulsão
Lesões Cutâneas Progressivas: à medida em que o
paciente envelhece
Cianose: ocorre de fato quando há hipertensão pulmonar
Dor abdominal: deve-se fazer diagnóstico diferencial com
quadro de abdome agudo.
Características das Lesões.
As telangiectasias são definidas clinicamente como pequenos pontos hemorrágicos e devem ser diferenciadas
das equimoses e petéquias, pois essas lesões língua não desaparecem na vitro-pressão da, enquanto que as
telangiectasias desaparecem.
Tratamento.
Trata-se de uma doença progressiva, para a qual não há um tratamento específico. Atualmente, para prolongar a
vida desses pacientes, utilizam-se inibidores da neovascularização, como um fármaco derivado da talidomida, porém,
não é disponível no Brasil.
Dessa forma o tratamento desses pacientes passa a ser sintomático, corrigindo a anemia ferropriva que esses
possam vir apresentar (reposição de ferro e folato), controle dos sangramentos (inclusive do TGI), etc. No tratamento das
malformações vasculares cerebrais são utilizadas as técnicas de neurocirurgia vascular; êmboloterapia; cirurgia radio-
estereotáxica.
PÚRPURA ANAFILACTÓIDE DE HENOCH-SCHOENLEIN
Consiste em uma arterite auto-limitada, aguda geralmente seguindo uma infecção estreptocócica, uso de drogas,
doença auto-imune. A lesão é vascular, existindo púrpura por deposição de complexos imunes na parede dos vasos,
causada por quinina, penicilina, ácido acetilsalicílico.
A púrpura alérgica, uma doença incomum, afeta, sobretudo crianças de baixa idade, mas também pode afetar
crianças mais velhas e adultos. Em adultos pode ocorrer devido a doenças reumáticas.
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Evolução Clínica e Sintomatologia.
caracterizada por um processo inflamatrio das pequenas artrias que, na maioria dos casos, ocorre
secundrio a uma infeco. Com isso, na histria clnica, a me relata que a criana apresentou febre, dor de garganta,
que abruptamente aparece com equimoses em membros inferiores, podendo ocorrer edema, manchas escuras (cor de
vinho) que ascendem at a cintura acometendo a fscia extensora. Essa prpura tem caracterstica de ser progressiva e
palpvel, sendo este ltimo dado de extrema importncia para o reconhecimento clnico.
Os vasos sanguneos da pele, das articula
es, do trato gastrointestinal ou dos rins podem inflamar e romper,
caracterizando a sndrome de Henoch-Schoenlein. Clinicamente esses pacientes apresentam poliartralgias, dor
abdominal, hematria (nefrites), vmitos e as prpuras caractersticas da doena.
A doena pode comear com o surgimento de pequenas manchas violceas (prpura) – mais frequentemente
nos ps, pernas, braos e ndegas – quando o sangue extravasa dos vasos para a pele. No decorrer de alguns dias, as
manchas purpricas podem tornar-se elevadas e duras; outras manchas podem surgir nas semanas seguintes.
comum a ocorrncia de edema de tornozelos, quadris, joelhos, punhos e cotovelos, normalmente acompanhado de febre
e dor articular.
OBS2: Para crianas que cursam com febre a aparecimento de manchas na pele, a primeira suspeita clnica trata-se de
uma meningococemia, sendo por isso, um importante diagnstico diferencial.
OBS3: Aproximadamente 50% dos indivduos que apresentam prpura alrgica tm hematria, entretanto poucos
evoluem para insuficincia renal.
Tratamento.
A maioria dos indivduos apresenta recuperao total em um ms, mas os sintomas podem aparecer e
desaparecer vrias vezes.
Se o mdico suspeitar que a reao alrgica seja causada por uma droga, esta deve ser interrompida
imediatamente. Os corticosterides (p.ex., prednisona) podem ajudar no alvio do edema, da dor articular e da dor
abdominal, mas eles no impedem a leso renal. Como foi dito a evoluo situao mais grave desses pacientes a
evoluo para insuficincia renal aguda (IRA).
Outras drogas, como as que reduzem a atividade do sistema imunolgico (imunossupressoras), como a
azatioprina ou a ciclofosfamida, s vezes so necessrias na presena de leso renal, mas a sua utilidade no
conhecida.
Entretanto, de uma forma geral, podemos dizer que no existe uma droga propriamente dita indicada para tal
patologia.
PÚRPURA SENIL
Nos indivduos idosos, particularmente naqueles expostos excessivamente ao sol, as equimoses ocorrem
comumente no dorso das mos e dos antebraos (prpura senil).
Eles so especialmente susceptveis equimose aps impactos e quedas por apresentarem vasos sanguneos
frgeis e uma camada mais fina de gordura sob a pele, a qual normalmente serve como um amortecedor que auxilia na
proteo contra o traumatismo.
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OBS4: Sobre as prpuras vasculares a suspeita clnica e o raciocnio diagnstico devem ser feito da seguinte forma: manchas em
membros inferiores progressivas de acometimento bilateral, pode-se dizer que uma prpura de Henoch-Schoenlein. Ainda sobre as
prpuras vasculares, quando o indivduo apresenta histria familiar sugestiva, presena de manchas localizadas na ponta dos dedos,
hemorragia digestiva recorrente, pode-se pensar em Telangiectasia Hemorrágica. Dessa forma, conclumos que o diagnstico
dessas patologias clnico, no existindo nenhum exame complementar que seja capaz de diferenci-las patologias. Apesar disso,
pode-se solicitar hemograma e coagulograma, para afastar plaquetopenia.
TROMBASTENIAS
Consiste em um grupo de doenas caracterizadas por altera
es plaquetrias hereditrias que so denominadas
de disfuno, ou seja, esses pacientes no apresentam uma plaquetopenia, entretanto possuem sangramentos
frequentes devido altera
es nas plaquetas. Existem dois tipos principais de trombastenias (a trombastenia de
Glanzmann e a sndrome de Bernard-Soulier), embora ambas sejam consideradas raras.
TROMBASTENIA DE GLANZMANN
A trombastenia de Glanzmann (TG) uma sndrome hemorrgica autossmica recessiva rara que afeta a linha
megacarioctica, caracterizado por dficit de agregao plaquetria. Do ponto e vista molecular, a TG est ligada a
anomalias quantitativas e/ou qualitativas na integrina alfa IIb/beta3 das plaquetas (GP IIb/IIIa), o receptor que medeia
a ligao das protenas de adeso que asseguram a formao do agregado.
Com isso, podemos dizer que esses pacientes vo apresentar uma disfuno na formao do cogulo, mesmo
apresentando uma contagem normal de plaquetas (ver OBS5). Por ser autossmica, pode acontecer tanto em homens
quanto em mulheres.
Sintomatologia.
O diagnstico clnico-laboratorial baseia-se na existncia de hemorragia mucocutnea e altera
es no teste de
agregao plaquetria (em resposta a todos os estmulos fisiolgicos), associada a uma contagem e morfologia
plaquetrias normais.
Geralmente, esses pacientes podem apresentar sangramentos intensos que podem ocorrer nos primeiros
momentos de vida, como no clampeamento do cordo umbilical. Alm disso, pode manifestar epistaxe, hemorragia
digestiva, gengivorragias sem histria de trauma.
Entretanto, esta sndrome hemorrgica apresenta grande variabilidade clnica: alguns doentes apresentam
apenas pequenas equimoses, enquanto outros tm hemorragias frequentes, graves e potencialmente fatais.
Os locais de hemorragia na TG esto claramente definidos: prpura, epistaxes, hemorragia gengival e
menorragia so caractersticas praticamente constantes. As hemorragias gastrointestinais e a hematria so menos
comuns. Quando essas crianas eventualmente sofrem um trauma, podem ocorrer sangramentos intensos podendo
levar ao bito.
Diagnóstico.
Para o diagnstico destapatologia, devemos tomar conhecimento que ela se caracteriza por uma agregao
plaquetria defeituosa em resposta ao ADP, colgeno, trombina e adrenalina. O defeito consiste em uma deficincia da
glicoprotena Ilb/IIIa. Este receptor fundamental para a ligao do fibrinognio (elemento responsvel por unir uma
plaqueta outra em um fenmeno que j descrevemos como agregao).
Encontramos em exames de um tempo de sangramento prolongado, ausncia de clamps plaquetrios no
esfregao do sangue perifrico e plaquetas que no se agregam in vitro. O tempo de retrao do cogulo tambm est
elevado. A plaquetometria normal.
Em sntese, temos:
Coagulograma: como vimos, o exame responsvel por avaliar parmetros da hemostasia primria (como o
tempo de protrombina – TP – e o tempo parcial de tromboplastina ativada – TTPA) e secundria (contagem de
plaquetas e tempo de sangramento). Para a trombastenia de Glanzmann, temos:
Plaquetometria normal (150.000 a 450.000/mm¦).
Retrao do cogulo diminuda (normal entre 45 a 65%), configurando um coágulo hipo-retrátil.
Tempo de sangramento elevado (ver OBS5), com cerca de 15 minutos.
TP e TTPA normais.
Agregação plaquetária: um exame especializado em que o plasma rico em plaquetas do paciente colocado
em um meio rico em agonistas da coagulao (colgeno, ADP, adrenalina, etc). O plasma de pacientes com
trombastenia de Glanzmann no apresentaro coagulao quando exposto ao ADP. Apesar disso, haver
agregao quando expostos Ristocetina (antibitico utilizado antigamente para tratamento de tuberculose, mas
que matava pacientes devido aos seus efeitos colaterais, como a formao de tromboses e embolias). Desta
forma, em resumo, pacientes com TG apresentaro agregao plaquetria normal diante da Ristocetina, mas
apresentaro agregao alterada com ADP e todos os demais agonistas da coagulao.
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Deficiência de alfaII/beta3 plaquetária (GP IIb/IIIa): o exame confirmatrio e especfico para TG, sendo a
dosagem feita atravs da utilizao de anticorpos monoclonais e citometria de fluxo.
Em resumo, o diagnstico da TG pode ser definido pela presena de hemorragias de mucosa associadas a um
tempo de sangramento prolongado e retrao do cogulo diminudo, mesmo com plaquetometria normal. Diante de um
coagulograma alterado desta forma, podemos optar por uma investigao especfica atravs do teste de agregao
plaquetria (a qual mostra uma resposta diminuda ao estmulo de ADP e normal ao estmulo de ristocetina) ou dosagem
da integrina alfa IIb/beta3 plaquetria.
OBS5: Justamente, o termo “trombastenias” define as patologias que se caracterizam por um tempo de sangramento
muito elevado (normal de 1 a 3 min, segundo o mtodo de Duke) associado a um nmero normal de plaquetas (somente
em nmeros abaixo de 50.000, as plaquetas podem alterar o tempo de sangramento), demonstrando que o problema da
patologia no est associada a um dficit numrico de plaquetas, mas a uma disfuno das mesmas.
Tratamento.
O tratamento feito de forma a evitar a aloimunizao plaquetria, e o seguimento teraputico tem que incluir,
se possvel, procedimentos hemostticos locais e/ou administrao de DDAVP (vasoconstrictor). Caso estas medidas
forem ineficazes ou em caso de condicionamento para cirurgia, sangramentos graves, o seguimento baseia-se em
transfus
es de concentrados de plaquetas HLA-compatveis, embora a administrao de fator VIIa recombinante seja
uma nova alternativa teraputica a ter conta.
A TG pode ser uma doena hemorrgica grave, no entanto o prognstico excelente com os cuidados de
suporte adequados.
SÍNDROME DE BERNARD-SOULIER
A sndrome de Bernard-Soulier (SBS) uma doena hemorrgica hereditria rara caracterizada por
plaquetopenia, presena de plaquetas gigantes e uma tendncia a sangramento mucocutneos. Com isso, apresenta-se
com clnica semelhante s demais trombastenias, diferenciando-se pela sua deficincia que, neste caso, trata-se da
glicoproteína Ib, responsvel pela ligao ao fator de von Willebrand durante a adeso plaquetria ao subendotlio.
Fisiopatologia.
uma doena hereditria autossmica recessiva caracterizada pela falta da glicoprotena Ib na superfcie das
plaquetas. Essa glicoprotena o stio de ligao do fator de Von Willebrand e, quando alterada, no permite a ligao
deste fator, impedindo a realizao de suas fun
es (com a prpria adeso plaquetria).
A funo do fator de von Willebrand ligar-se s plaquetas e ao colgeno exposto do endotollio lesado. Essa
ligao estar alterada devido s altera
es estruturais presentes na glicoprotena Ib.
O fator de von Willebrand tem como funo adicional no processo de coagulao impedir a catabolizao do
fator VIII, ligando-se a este fator (e, por esta razo, tambm chamado por outros autores de “fator VIII-antgeno”).
Sintomatologia.
Relacionados disfuno das plaquetas: sangramentos nas mucosas, nas gengivas, epistaxe e
gastrointestinais. Pacientes heterozigotos geralmente no apresentam sintomas.
Exames laboratoriais.
De uma forma geral, os exames laboratoriais da SBS se mostra de forma contrria aos achados da TG:
Coagulograma:
Contagem de plaquetas apresenta-se abaixo do normal (discreta plaquetopenia).
Anlise do esfregao pode revelar a presena de plaquetas gigantes (embora no seja comum)
Retrao do cogulo normal (cogulo normoretrtil)
Tempo de sangramento: prolongado
Agregação induzida pela Ristocetina: no h agregao.
PRPURA TROMBOCITOPNICA IMUNE IDIOPTICA (PTI)
Como j foi explicado anteriormente, as prpuras consistem em doenas que ocorrem devido a altera
es
vasculares e plaquetopnicas (estas podem ocorrer por disfuno das plaquetas, ou seja, plaquetopatias).
A definio da prpura trombocitopnica imune (PTI) de doena causada por mecanismos de auto-imunidade
na qual ocorre a diminuio de contagem de plaquetas e sangramentos, na maioria das vezes, com manifesta
es
hemorrgicas leves ou moderadas, limitadas pele e mucosas. A PTI pode ser primria (idioptica) ou secundria
(associada a alguma doena de base) e aguda ou crnica (neste caso com mais de seis meses de durao).
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182
Tem uma incidncia de 1,6/10.000 ano. A forma idioptica citada anteriormente corresponde a 50 a 60% dos
casos. Algumas vezes a causa da PTI se apresenta aps anos de acompanhamento do paciente, por exemplo, artrite
reumtica, LES, linfoma. Alm disso, pode ser secundria a viroses como o caso da hepatite B e C, HIV.
Com isso, na suspeita de uma PTI deve-se sempre conduzir o paciente com uma investigao diagnstica
importante, isto , avaliando o perfil reumtico desse paciente, solicitao de sorologias. Dessa forma evita-se tratar a
PTI sem tratar a doena de base, que muitas vezes corresponde causa da prpura.
FISIOPATOLOGIA
A habitual depurao das plaquetas no fgado e, principalmente, no bao acelerada quando as plaquetas esto
revestidas por auto-anticorpos da classe IgG que ligam-se aos receptores Fc expressos em macrfagos teciduais.
Como consequncia, em alguns indivduos produz-se um aumento compensatrio na produo de plaquetas na
medula ssea, ao passo que, em outros, a produo diminui por destruio intramedular das plaquetas por macrfagos,
ou por inibio da hematopoese megacariocitria.
Os nveis de trombopoietina no se elevam
o que traduz a quantidade normal de megacaricitos
presentes na medula.
Na PTI a fisiopatologia semelhante
anemia auto-imune. Algum fator determina a
produo de anticorpos, mais especificamente do
tipo IgG. Esses anticorpos por sua vez se fixam nas
plaquetas, sensibilizando-as.As plaquetas revestidas por anticorpos, ao
passarem pelo bao e fgado, so reconhecidas
pelos macrfagos esplnicos e sofrem fagocitose e
destruio. Com isso, podemos dizer que na PTI h
uma produo normal de plaquetas pela medula
ssea, porm uma retirada precoce por parte do
bao.
Parece existir uma base gentica para a
ocorrncia da PTI, que tem sido identificada com
maior freqncia em gmeos monozigticos e em
certos grupos familiares nos quais existe uma maior
tendncia para a produo de auto-anticorpos.
FORMAS CLÍNICAS
PTI Aguda.
uma forma de apresentao abrupta. Nesses casos o paciente nem sempre possui uma plaquetopenia severa,
mas apresenta manifesta
es hemorrgicas graves – gengival, nasal (nas formas crnicas ocorre o contrrio, ou seja, os
pacientes apresentam uma plaquetopenia severa, porm no possui hemorragias graves).
Tem um pico de incidncia entre 2-6 anos de idade. Geralmente est associada exposio a agentes
infecciosos e ps-vacinao, incluindo as viroses como Hepatite e HIV. As doenas infecciosas virais so agudas, ou
seja, resfriados, gripais etc. Tambm pode ocorrer aps campanhas de vacinao como o caso do vrus influenza.
Provoca uma trombocitopenia que ocorre em um perodo inferior a 6 meses. O quadro clnico desses pacientes
em boa parte dos casos benigno, e em 80% dos casos tem resoluo espontnea.
PTI Crônica.
Acomete com uma maior freqncia em pacientes adultos, com predominncia para o sexo feminino. Pode ser
secundria a alguma doena de base, como a doena reumtica. No h associa
es com agentes infecciosos.
Possui um quadro clnico de incio insidioso com evoluo mais grave e remisso espontnea incomum, devido
doena secundria. Nesses pacientes percebem-se episdios recorrentes de sangramento (menos graves).
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
O diagnstico clnico pode ser feito atravs da anlise de sangramentos cutneo-mucosos na forma de
equimoses e petquias, podendo haver tambm epistaxes, gengivorragias, altera
es menstruais (hipemenorragia).
As prpuras so denominadas midas quando ocorrem associadas a sangramentos de mucosa como: epistaxe,
gengivorragia, hemorragia digestiva. Essas formas so mais graves e necessitam de internao hospitalar. A prpura
seca aquela em que h somente equimoses e petquias, ou seja, nesses casos o paciente no apresenta perda
sangunea to ampla. Quando aguda tem uma remisso espontnea.
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Alm disso, o mdico deve estar atento a sinais e sintomas como: queda do estado geral, visceromegalias,
adenomegalias, sudorese ou sintomas no hemorrgicos. Essas altera
es no esto presentes na PTI, e quando
presentes, o mdico deve pensar em uma possvel doena de base para a PTI.
EXAMES COMPLEMENTARES
Hemograma:
Plaquetopenia isolada, sem altera
es em lmina de sangue perifrico.
Macroplaquetas: ocorre devido a um “turn-over” acelerado de formao plaquetria pela medula ssea.
Mielograma: necessrio para realizao do diagnstico diferencial de aplasia medular e leucemias. Pode
mostrar na PTI uma hiperplasia megacarioctica ou medula normal
Identificação de anticorpos: abaixo de 18 anos ou acima de 60 anos.
TRATAMENTO
Indicações.
Os pacientes que merecem tratamento so aqueles que se enquadram nos seguintes critrios abaixo:
PTI aguda: Plaquetopenia < 10.000 ou < 25.000 com sangramento mucoso
PTI Crnica: Plaquetopenia < 20.000 ou < 30.000 com sangramento
Formas Terapêuticas.
1ª linha: corticide (Prednisona 1mg/kg/dia), que deve ser mantido at a normalizao das plaquetas.
Geralmente esses pacientes apresentam uma normalizao em um tempo no superior a 1 semana. Depois
disso, o corticide deve ser retirado de forma gradativa.
2º Linha: Esplenectomia. Deve ser indicada para aqueles pacientes que foram tratados com corticides, e aps
sua retirada houve recorrncia da doena. Isso importante, pois esses pacientes so fortes candidatos a
desenvolver uma PTI crnica. Deve-se lembrar que pacientes esplenectomizados devem ser vacinados para
preveno de infeco por germes encapsulados.
3º Linha: Imunossupressores, terapia com Rituximab ou Danazol. Mesmo com a retirada do bao e o paciente
ainda apresente plaquetopenia, pode-se indicar algum dos imunossupressores citados anteriormente.
Geralmente esses pacientes so aqueles que possuem uma PTI crnica.
Transfusão de Plaquetas.
Os pacientes em que a transfuso necessria so aqueles que apresentam a PTI mida, ou seja, com eventos
hemorrgicos como: epistaxe, gengivorragias, hemorragia digestiva. Esses pacientes tm risco de desenvolver
hemorragias do SNC. Por isso, aqueles pacientes com prpuras na vigncia de sangramentos fatais so candidatos a
transfuso. Nesses pacientes indica-se 1 unidade/10kg de peso diariamente, at que a plaquetometria seja estabilizada.
Tratamento de Urgência.
Pacientes com manifesta
es graves (sinais de choque) devem ser internados e submetidos a pulsoterapia com
Metilprednisolona 1g/dia por 3 dias. Alm disso, recomendada a administrao de imunoglobulina humana
400mg/kg/dia por 5 dias ou 1g/kg/dia durante 2 dias. A imunoglobulina atua ocupando o receptor Fc no bao, impedindo
o reconhecimento e destruio das plaquetas sensibilizadas.
PRPURA TROMBOCITOPNICA TROMBTICA (PTT)
uma doena mais rara que, quando se manifesta, na maioria das vezes, evolui com bito do paciente. A
prpura trombocitopnica trombtica (PTT) uma sndrome caracterizada pela presena de anemia hemoltica
microangioptica, trombocitopenia, sintomas neurolgicos e psiquitricos, insuficincia renal e febre. O diagnstico e a
teraputica precoce da PTT so essenciais para a sobrevivncia do paciente nessas situa
es.
Com isso, podemos dizer que uma patologia que acomete a microcirculao, onde haver formao de
trombos. A formao de trombos dificulta a passagem das hemcias, causando leso da camada lipdica das hemcias
e com isso, alterando a forma das hemcias deixando-as “esquisitas”, por isso, denomina-se de esquizcitos.
FISIOPATOLOGIA
No plasma sanguneo existe uma protena denominada de ADAMTS 13, que responsvel pela proteo dos
multmeros do fator de Von Willebrand. Com isso, altera
es dessas protenas acarretam na formao e agregao das
plaquetas na microcirculao, havendo assim a formao dos trombos plaquetrias.
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A formação do trombo plaquetário vai determinar três alterações básicas:
Grande consumo dessas células, manifestando-se com isso uma plaquetopenia.
Isquemia tecidual, especialmente no sistema nervoso central e rins.
Anemia Hemolítica microangiopática devido à lesão da camada lipídica das hemácias (formando os esquizócitos).
ACHADOS CLÍNICOS E LABORATORIAIS
Plaquetopenia
Anemia Hemolítica Microangiopática (esquizócitos): devido à anemia espera-se encontrar reticulócitos
aumentados.
DHL elevada
Alterações neurológicas: irritação, ansiedade, agressividade, não reconhecimento dos familiares.
Função Renal diminuída: uréia e creatinina elevada.
Febre
Coombs direto negativo
TP e TTPA (são utilizados para diagnóstico diferencial com CIVD): na PTT, encontram-se normais (e alterados
na CIVD).
Algumas condições associadas ou predisponentes para esta doença são: doenças virais prévias, HIV, drogas,
gravidez, doenças auto-imunes, história familiar.
TRATAMENTO
Aqueles pacientes que são atendidos
com febre, com níveis de uréia e creatinina
elevada, alterações neurológicas e hemograma
demonstrando anemia microangiopática com
reticulocitose (e presença de esquizócitos) e
trombocitopenia muito provavalmente são
portadores de Púrpura TrombocitopênicaTrombótica.
Para eles, como primeira conduta,
devemos realizar plasmaferese (troca do
plasma). Entretanto, nos serviços em que a PF
não é disponível, podemos utilizar somente a
infusão de plasma fresco congelado (PFC)
como alternativa terapêutica temporária.
Depois disso, realizamos a
plasmaferese (PF) com reposição de PFC
associada à corticoterapia.
Concomitantemente o paciente deve ser
monitorizado com dosagem da Hb, DHL,
plaquetas e esquizócitos. Depois disso devemos
analisar as condições clínicas laboratoriais (Hb,
DHL, palquetas) do paciente:
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Normalização: continuar plasmaferese por 3 dias. Depois disso, suspende-se a corticoterapia e plasmaferese.
Não-normalização: manter plasma plasmaferese e corticóide. Caso ainda não haja melhora deve-se pensar em
alternativas terapêuticas como esplenectomia e vincristina.
A plasmaferese deve ser realizada retirando-se diariamente todo o plasma do paciente (40ml/Kg), trocando-o por
unidades de plasma fresco congelado (este deve conter a proteína ADAMTS 13 e ser pobre em fator de von Willebrand).
As trocas devem continuar até a completa estabilização do paciente e normalização dos exames laboratoriais. O período
médio é de 10 dias.
Vale ressaltar que a transfusão de plaquetas é formalmente contra-indicada na PTT, pelo risco de aumentar a
formação dos microtrombos, piorando a função neurológica e renal.
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MED RESUMOS 2011
NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
COAGULOPATIAS HEREDITÁRIAS
(Professora Angelina Cartaxo)
As coagulopatias hereditrias so doenas hemorrgicas resultantes da deficincia quantitativa e/ou qualitativa
de um ou mais fatores da coagulao, envolvidos na fisiologia da hemostasia secundria.
CONSIDERAES SOBRE A HEMOSTASIA
No que diz respeito hemostasia (revisando o que foi visto em captulos anteriores), a conceituamos como o
processo fisiolgico encarregado de estancar um sangramento e iniciar o reparo tecidual. Do ponto de vista didtico,
podemos dividir este processo em dois grandes momentos:
• Hemostasia primária: formao do tampo plaquetrio pela adeso e agregao plaquetria; Vasoconstrio.
• Hemostasia secundária: formao do cogulo para estabilizar o trombo plaquetrio; Reparo tecidual.
A rede de fibrina, formada neste processo de hemostasia, tem apenas a funo de estabilizar o instvel tampo
plaquetrio, de modo que toda a cascata da coagulao tem como funo principal formar estruturas que estabilizem e
fixem o tampo plaquetrio no local da leso at que o endotlio seja reparado.
Quando h uma leso endotelial, trs eventos simultneos acontecem: (1) liberao de substncias
vasoconstrictoras (entre elas, as tromboxanas e tromboplastina); (2) adeso de plaquetas no local exposto da leso; (3)
desencadeamento da cadeia de coagulao, no intuito de estabilizar o agregado de plaquetas no local da leso. Durante
todos estes eventos, h a liberao de fatores de crescimento que induzem o reparo do tecido lesado.
HEMOSTASIA PRIMÁRIA
caracterizada pela formao do tampo plaquetrio,
que se d por meio de trs processos: (1) a adesão plaquetária
no local da leso, fazendo com que haja uma (2) ativação
dessas plaquetas, o que culmina na (3) secreo de
substncias que promovem a agregação plaquetária. Esse
processo de d de maneira cclica, de modo que um grupo de
plaquetas promova, cada vez mais, a agregao de outros
grupos.
A adeso iniciada pela leso endotelial do vaso que,
imediatamente, exp
e o colgeno subendotelial s plaquetas
circulantes. Esta adeso mediada pela interao entre a
glicoprotena Ia/IIa (GP Ia/IIa) da membrana das plaquetas com
as fibrilas do colgeno (presente na tnica mdia do vaso,
exposto a partir da separao das clulas endoteliais que se d
na leso).
Esta ligao estabilizada por uma protena plasmtica denominada de Fator de von Willebrand (sua carncia
gera a Doença de von Willebrand, abordada neste captulo), que fundamental no na coagulao sangunea, mas que
age apenas na fase de adeso plaquetria (hemostasia primria), se ligando a GP Ib
Portanto, os fatores que estimulam a adeso plaquetria so: colgeno e o Fator de von Willebrand. Como
fatores que a inibem, temos: NO e prostaciclinas, duas substncias vasodilatadoras.
Na medida em que as plaquetas vo passando pelo processo de adeso ao local lesionado, ocorre o processo
de agregao, de modo que ocasiona uma intensa modificao estrutural nas plaquetas, as quais emitem pseudpodes
(o que facilita o contato entre as plaquetas e a melhor exposio de seus receptores) e liberam o contedo dos seus
grnulos. Receptores presentes na membrana da plaqueta iro favorecer tanto a sua adeso ao endotlio lesado como a
agregao com outras plaquetas para que conjuntamente ocorra a formao do trombo plaquetrio. Esta ativao
mediada pela adeso e subsequente agregao promove a liberao dos constituintes dos grnulos plaquetrios. Os
principais componentes so: ADP, serotonina, Fator V, trombospondina.
Estas substncias, ao se ligarem aos seus receptores plaquetrios, ativam a cascata da cicloxigenase, levando a
produo de tromboxana (TXA2). A produo de tromboxana ativa a liberao de clcio. A liberao de clcio, por sua
vez, ativa a glicoproteína IIb/IIIa, o que favorece a agregao plaquetria e o incio da cascata da coagulao, pois
estas glicoprotenas interagem com uma molcula de fibrinognio, aderindo as plaquetas entre si.
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HEMOSTASIA SECUNDÁRIA - CASCATA DA COAGULAÇÃO
Uma vez expressas as proteínas IIb/IIIa e realizada a agregação plaquetária, tem-se o início da cascata da
coagulação, no intuito de formar uma malha de fibrina capaz de estabilizar o agregado constituído pelas plaquetas. A
cascata da coagulação é um sistema de amplificação biológica no qual o fibrinogênio solúvel é convertido em uma rede
de fibrina insolúvel, com a função de estabilizar o tampão plaquetário.
A cascata da coagulação é dividida em duas vias (via intrínseca e via extrínseca), cujas etapas finais são
exatamente as mesmas.
Via extrínseca: é ativada quando há um dano tecidual e se inicia com a liberação de fatores teciduais chamados
de tromboplastina. Esta é responsável por clivar o fator VII (inativo) em fator VIIa (ativo e apresentando como
co-fatores o cálcio e os fosfolipídeos de membrana da plaqueta). Este apresenta alta afinidade pelo fator X
(também inativo), clivando-o e formando fator Xa. O fator Xa (apresentando como co-fatores: cálcio, fator V
liberado pelos grânulos da plaqueta, fosfolipídios de plaquetas), forma ativa do fator X, cliva a protrombina,
dando origem aos passos tardios da cascata da coagulação: a protrombina (que é o fator II), clivada pelo fator
Xa, forma a trombina, que age e ativa o fibrinogênio (fator I), convertendo-se em fibrina (que forma uma rede
não tão densa), que é estabilizada pelo fator XII (tornando-se densa; ver OBS2).
Via intrínseca: ocorre quando há uma lesão vascular, o que expõe as fibras de colágeno subendotelial. Esta
exposição faz com que o fator XII (inativo) seja convertido em fator XIIa, que por sua vez, ativa o fator XI,
convertendo-o em fator XIa. Este (utilizando o cálcio como co-fator), cliva o fator IX em fator IXa, que é a forma
ativa. Este fator IXa (que tem como co-fatores o cálcio, o fator VIII e os fosfolipídeos das plaquetas), cliva o fator
X em fator Xa, que culmina nos mesmo passos tardios da via pré-citada: o fator Xa cliva a protrombina em
trombina, responsável por converter o fibrinogênio e fibrina.
OBS1: Ao observar o tempoem que uma amostra de plasma do paciente reage com uma aplicação de tromboplastina, verifica-se o
chamado tempo de protrombina, que avalia, portanto, a via mais fisiológica da cascata da coagulação.
OBS2: Observe no esquema que a trombina, além de clivar o fibrinogênio em fibrina, ativa o fator Va e o fator VIIIa, que agem como
co-fatores do fator Xa e do fator IXa, respectivamente. Ela é responsável ainda por clivar o fator XIII, convertendo-o em fator XIIIa.
Este é responsável por promover uma agregação maior da rede de fibrina, estabilizando e fortalecendo a rede de fibrina previamente
formada.
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CLASSIFICAO DAS COAGULOPATIAS HEREDITRIAS
As coagulopatias hereditárias podem estar relacionadas com a carência de qualquer um dos fatores envolvidos
nesta fisiologia da hemostasia. Elas podem ser classificadas, basicamente, em:
Deficiência de fibrinogênio (fator I), que se subdivide em:
Afibrinogenemia
Hipofibrinogenemia
Disfibrinogenemia
Deficiência de protrombina (fator II)
Deficiência de fator V
Deficiência de fator VII
Deficiência de fator VIII - Hemofilia A
Deficiência de fator IX - Hemofilia B
Deficiência de fator X
Deficiência de fator XI
Deficiência de fator XII
Deficiência do fator estabilizador da fibrina
(fator XIII)
Doença de von Willebrand
HEMOFILIA
A hemofilia é o nome de diversas doenças genéticas hereditárias que incapacitam o corpo de controlar
sangramentos (hemostasia). Logo, quando um vaso sanguíneo é danificado, um coágulo não se forma e o vaso continua
a sangrar por um período excessivo de tempo.
O sangramento pode ser externo, se a pele é danificada por um corte ou abrasão, ou pode ser interno, em
músculos, articulações ou órgãos. A hemofilia é decorrente da falta dos fatores de coagulação (a hemofilia A tem falta do
fator de coagulação VIII; a hemofilia B tem falta do fator de coagulação IX; a hemofilia C tem falta do fator de coagulação
XI). A hemofilia A é a mais comum, ocorrendo em mais de 80% dos casos.
HISTÓRICO
A hemofilia é, muitas vezes, associada à história da Monarquia na Europa. A rainha
Vitória passou a doença ao seu filho Leopoldo, e através de várias das suas filhas, a várias
famílias reais Europeias, incluindo as famílias reais da Espanha, Alemanha, e Rússia. O filho do
Czar Nicolau II da Rússia, Alexei Romanov, foi um dos descendentes da Rainha Vitória que
herdou a doença.
O termo hemofilia apareceu pela primeira vez em 1828 por Hopff da Universidade de
Zurique. Em 1937, Patek e Taylor, dois médicos de Harvard descobriram a globulina anti-
hemofílica. Pavlosky, um médico de Buenos Aires, separou a Hemofilia A e Hemofilia B
laboratorialmente. Este teste era feito transferindo o sangue de um hemofílico para outro
hemofílico. O fato corrigia o sangramento, comprovando que havia mais de um tipo de hemofilia.
HEMOFILIA A
A hemofilia A é uma doença recessiva ligada ao cromossomo X causada pela deficiência do fator VIII que se
transmite por um gene localizado na posição 2,8 do braço longo do cromossomo X da mãe, aparentemente normal. Esta
alteração no cromossomo X gera, portanto, uma deficiência no fator VIII, que funciona como um efetivo co-fator para a
ativação do fator X pelo fator IXa, participante da via intrínseca da coagulação.
É uma patologia quase que exclusiva aos homens, uma vez que se trata de uma herança ligada ao cromossomo
X (e uma vez que, na mulher, o outro cromossomo X consegue suprir o mau funcionamento do cromossomo alterado; o
que não acontece no homem). Esta é a razão que explica o fato de a mulher ser uma simples portadora da doença.
Epidemiologia.
Registra-se 01 caso de hemofilia para cada 20.000 nascidos.
80% destes casos, corresponde à hemofila A, sendo esta, portanto, o tipo mais comum de hemofilia.
Quase que exclusiva ao sexo masculino
30 a 40% dos casos não têm história familiar de sangramentos
Em cerca de 25%-30% dos casos de hemofilia A, o evento genético é novo (mutação de novo), acontecendo a
partir da geração do indivíduo acometido (sem histórico pregresso familiar).
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Transmissão genética.
A hemofilia, exceto sua variante "C", referida como uma
doena recessiva ligada ao cromossomo X ("doena ligada ao sexo"),
o que significa que o gene defeituoso est localizado no cromossomo
feminino ou cromossomo X.
Um homem possui um cromossomo X e um Y. Uma mulher,
dois X. Como o defeito est no cromossomo X, raro uma mulher que
carregue o defeito, pois seu outro cromossomo X pode produzir os
fatores de coagulao necessrios. Entretanto, o cromossomo Y do
homem no tem genes para os fatores de coagulao, portanto, se um
homem apresentar defeito no cromossomo X, ele desenvolver a
doena.
Partindo-se do pressuposto que um homem recebe o seu
cromossomo X da me, o filho de uma portadora silenciosa tem 50%
de chance de ter a doena e 50% de chance de ser sadio. Uma
mulher para desenvolver a doena precisa receber dois cromossomos
X defeituosos, um do pai e outro da me. Por isso a doena mais
comum em homens do que em mulheres.
Portanto, como mostra a figura ao lado, um casal composto
por um homem sadio e uma mulher portadora pode ter uma criana do
sexo masculino sadia e um hemoflico, ou uma criana do sexo
feminino sadia e outra portadora. O grande problema se configura na
mulher portadora, a qual no manifesta a doena, mas transmite seu
cromossomo X defeituoso para suas gera
es futuras, afetando a
segunda gerao deste casal.
Duas situa
es podem estar associadas ao nascimento de meninas hemoflicas:
A unio de um pai hemoflico e uma me portadora pode gerar, alm de filhas portadoras, filhos hemoflicos e
filhas hemoflicas.
A eventual inativao embrionria de um cromossomo X sadio (lionizao), de modo que o gene defeituoso
localizado no outro cromossomo X se expressa normalmente.
Classificação da hemofilia A.
Leve: dosagem do Fator VIII > 5%
Moderada: dosagem do Fator VIII entre 1%-5%
Grave: dosagem do Fator VIII inferior a 1%
HEMOFILIA B
A hemofilia B (doena de Christmas) caracterizada pela falta do fator de coagulação IX, cujo gene
responsvel tambm localizado no brao longo do cromossomo X.
menos frequente e menos grave que o tipo A: sua incidncia 10 vezes inferior a hemofilia A (incidncia de
1:30.000 a 1:50.000).
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
O espectro clnico da doena varia de acordo com a gravidade da hemofilia – se o paciente for um hemoflico
grave, ele apresentar sinais hemorrgicos mais frequentes e de forma mais espontnea; o paciente portador de
hemofilia moderada apresentar uma apresentao varivel, podendo acontecer de forma espontnea ou decorrente de
traumas; j o paciente portador de uma forma leve de hemofilia apresentar sintomas apenas quando submetido a
trauma.
As manifesta
es da doena podem ocorrer logo no primeiro ano de vida
do paciente sob a forma de equimoses. Alm destas, outros sinais podem
caracterizar a doena:
Hemartrose: responsvel por 70 a 80% dos sangramentos.
decorrente do sangramento espontneo dos vasos sinoviais que
se dirigem cpsula articular.
Locais mais comumente acometidos: joelho, tornozelo, cotovelo,
ombro e coxo-femoral.
Surgem geralmente de sangramentos espontneos.
Sinais e sintomas: dor, aumento do volume da articulao, calor,
limitao de movimento.
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Antes da instalao da hemartrose, comum o paciente passar por um perodo semelhante a uma
“aura”, apresentando manifesta
es inespecficas como inquetao, formigamento, ansiedadee,
posteriormente, aumento da articulao acometida e calor local.
Aps tratamento cessa o sangramento, porm a absoro total do sangue no ocorre
Surgem rea
es inflamatrias crnicas na membrana sinovial que se torna espessada e vascularizada,
formando dobras e vilosidades que propicia a novos sangramentos. O sangramento decorrente
justamente por rompimento dos vasos da sinvia.
A cartilagem articular evolui com eros
es, degenerao fibrilar, crescimento irregular e alterao da
formao ssea.
Artropatia hemofílica crônica: sua
gravidade proporcional ao nmero de
hemartrose ocorridas, pois consiste em uma
complicao desta patologia. As principais
caractersticas da artropatia so a perda ou
limitao da movimentao articular,
contratura fixa em flexo e intensa atrofia
muscular, secundria ao desuso.
A radiografia simples capaz de mostrar a
destruio da articulao, caracterizando a
artropatia crnica, como mostra a figura ao
lado.
Hematomas: a segunda causa mais comum de sangramento
em hemoflicos graves, podendo ser espontneos ou causados
por traumas leves. Podem ser pequenos e autolimitados,
causando apenas dor, a graves, chegando a dissecar a
musculatura, resultando em compresso de estruturas nobres
(sndrome compartimental).
O local do sangramento se d na musculatura, sendo mais
frequentes em panturrilha, coxa, glteos e antebrao. A
complicao mais comum destes hematomas o surgimento da
sndrome compartimental, com aumento da presso no segmento
envolvido e compresso de vasos e nervos.
Hematomas do ileopsoas: pode ser confundida com apendicite aguda (quando o hematoma se instala no
ileopsoas do lado direito), sendo necessrio solicitar USG abdominal para esclarecimento diagnstico.
Hematúria: ocorre em 2/3 dos casos. prudente solicitar exames como urina I e USG renal (para estabelecer
diagnstico diferencial com clculo renal).
Sangramento gastrointestinal: hematmese ou melena. A origem, na maioria dos casos, se d por gastrite ou
por lceras gstricas. Entretanto, uma condio no muito frequente.
Sangramento intracraniano: hematoma subdural, epidural ou intracerebral que pode surgir de forma
espontnea ou aps traumas. Em pacientes hemoflicos, podemos sugerir um sangramento intracraniano na
presena de cefalia duradoura (por mais de 4 horas), tontura, perda da conscincia, etc.
Pseudotumor hemofílico: pouco frequente, porm grave. Hematoma persiste em forma de leso cstica
encapsulada. Podem causar compresso e destruio dos msculos, nervos e ossos.
DIAGNÓSTICO
O diagnstico deve ser sugerido logo que uma criana apresenta sangramentos anormais durante atividades
rotineiras, principalmente em mucosas, articula
es e hematomas em grupos musculares. Alm disso, comum relatos
familiares de hemofilia.
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Podemos lanar mo ainda dos seguintes parmetros complementares:
Hemograma: pode se apresentar normal, ou mostrar anemia, a depender da perda de volume sanguneo.
Coagulograma
TTPA: alargado
Tempo de sangramento (TS), tempo de coagulao (TC), Tempo de trombina (TP), Ativao de
protrombina (AP): normais
Dosagem do fator VIII e IX: diagnstico definitivo da doena.
TRATAMENTO
No h cura para a hemofilia. Controla-se a doena com inje
es regulares dos fatores de coagulao
deficientes (o uso de plasma no mostrou resultados eficientes). Alguns hemoflicos desenvolvem anticorpos (chamadas
de inibidores) contra os fatores que lhe so dados atravs do tratamento (ver OBS4).
Concentrado de Fator VIII e IX: concentrado liofilizado, obtido atravs do plasma humano. Submetido a
pasteurizao, calor seco e calor mido.
Vida mdia fator VIII: 12h (portanto, para hemofilia A, faz-se concentrado de fator VIII de 12/12 horas).
Vida mdia fator IX: 24h (portanto, para hemofilia B, faz-se concentrado de fator IX de 24/24 horas).
Drogas anti-fibrinolíticas: so importantes para impedir a degradao natural da fibrina, de modo que ela
auxilie, de certa forma, no controle de sangramentos. Podemos lanar mo de:
Ácido Transexâmico - TXA (Trasamim®), 10mg/kg dose EV ou mg/kg VO 3x dia; ou
Ácido épsilon-aminocapróico - EACA (entretanto, o Trasamim bem mais potente que o cido
aminocaprico).
A reposio dos fatores de coagulao leva em conta a magnitude do sangramento e o local deste sangramento.
Podemos lanar mo das seguintes frmulas (considerando que, a cada unidade de concentrado de fator VIII
administrada, aumentamos 2 unidades deste fator no sangue; enquanto que para cada unidade de fator IX administrada,
aumentamos apenas uma unidade no sangue):
Unidades internacionais (UI) de CFVIII = Peso x Porcentagem (Δ) necessria de fator VIII
2
Unidades internacionais (UI) de CFIX= Peso x Porcentagem (Δ) necessria de fator VIII
A apresentao farmacutica destes fatores se d na forma de frascos de 150 e de 500 unidades. A
porcentagem necessria para reposio dos fatores se apresentam em valores pr-estabelecidos a depender da sede e
da intensidade do sangramento. Desta forma, para cada tipo especfico de sangramento, temos:
Epistaxe:
Tamponamento em dedo de luva
cido epsilon 200mg/kg 6/6h por 3 a 7 dias
CFVIII ou IX: Δ=30% (ver OBS3)
Hemartrose:
CFVIII (Δ=30%), por 3 a 5 dias
Realizar compressa fria (gelo) local, para induzir uma vasoconstrio.
Hematoma
Panturrilha, antebrao, iliopsoas
Sem comprometimento neurolgico (sem sndrome compartimental): Δ=50%; 12/12h (para hemofilia
A) ou 24/24h (para hemofilia B); 3 a 5 dias
Com comprometimento neurolgico: Δ=100% 12/12h, de 3 a 5 dias, independente se for hemofilia A
ou B.
Pescoo e assoalho da lngua: Δ=80% no primeiro dia e, depois, Δ=40%, por 3 a 5 dias.
Retroperitneo: Δ=80% primeiro dia e, depois, Δ=40% 12/12h, por 10 a14 dias
Hematria: nesta situao, nunca utilizar drogas anti-fibrinolticas, como o TXA ou o EACA, pois a formao
de cogulo em nvel renal pode promover obstru
es tubulares. Utilizar Δ=30% de 24/24h at desaparecer.
Solicitar USG ou TC para acompanhar o comprometimento renal.
Hemorragia TGI: Δ=80% de 24/24h + EACA 100mg/kg VO 6/6h.
TCE:
Pequena monta: Δ=50% 24/24h
Sangramento maior confirmado pela TC:
Sem sinais neurolgicos: Δ=100% na primeira infuso e, depois, Δ=50% de 24/24h por 14 dias.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
192
Com sinais neurolgicos: Δ=100% na primeira infuso e, depois, Δ=50% 12/12h por 6 dias,
mantendo, depois deste perodo, Δ=50% de 24/24h at completar 14 dias. Realizar TC de crnio e se
houver melhora, fazer Δ=50% 24/24h at 14 dias.
Cirurgias de pequeno porte: Δ=50% antes imediatamente a cirurgia e 30% no ps-operatrio 24/24h 2 a 3
dias.
Cirurgias de médio porte:
Δ=100% no pr-operatrio
Δ=50%12/12h at 3 dia
Δ=40% 12/12h at 7 dia
Δ=30% 12/12h at 14 dia
Cirurgias de grande porte:
Pr-operatrio: Δ=100%
Ps-operatrio: Δ=80% 12/12h at 3 dia
Δ=50% 12/12h 4a 7dia
Δ=40% 12/12h 8 a 14 dia
Δ=30% 12/12h 15 a 21 dia
OBS3: Para melhor entendimento do clculo de unidades de concentrado necessrias para o paciente com hemofilia,
tomemos como exemplo um paciente de 60kg portador de hemofilia A que apresenta epistaxe. Para determinar a
quantidade de unidades, temos: 60 x 30/2 60 x 15 CFVIII = 900 UI. Desta forma, podemos prescrever o seguinte
tratamento para este paciente: Concentrado de Fator VIII, 2 frascos em bolus (sabendo que existem frascos de 500
unidades, podemos aproximar este valor).
OBS4: Na hemofilia A, o paciente pode vir a desenvolver anticorpos contra o fator VIII, o que pode complicar a utilizao
deste elemento duranteo tratamento das complica
es da hemofilia. Nestes casos, quando se administra fator VIII, o
paciente desenvolve aloanticorpos contra este fator, diminuindo o aproveitamento dos concentrados de fator VIII.
Devemos suspeitar desta condio quando o paciente se apresentar refratrio ao tratamento com concentrado de FVIII
ou quando necessitar de doses cada vez mais frequentes de FVIII. Para confirmar, podemos realizar a dosagem destes
anticorpos.
Para driblar esta situao, podemos abrir mo da diviso (por 2) durante o clculo da dosagem do concentrado de FVIII
para hemofilia A, estimando a dose total apenas multiplicando o peso do paciente e a porcentagem necessrio de FVIII
para aquele tipo de sangramento. Alm das altas doses de FVIII, podemos utilizar ainda complexo de pr-trombina
ativado (Prothromplex¥) ou administrao de fator VII.
DOENA DE VON WILLEBRAND
A doença de von Willebrand uma doena hemorrgica hereditria (autossmica dominante, na maioria dos
casos) causada por uma diminuio ou uma disfuno da protena chamada de fator de von Willebrand (FvW). Isto
ocorre devido mutao no cromossomo 12 e caracterizada por deficincia qualitativa ou quantitativa do fator de von
Willebrand. A doena foi descrita pela primeira vez em 1925 pelo mdico finlndes Erik Adolf von Willebrand.
A diversidade de muta
es leva ao aparecimento das mais variadas manifesta
es clnicas possibilitando a
diviso dos pacientes em vrios tipos e subtipos clnicos. A coagulopatia se manifesta basicamente atravs da disfuno
plaquetria associada diminuio dos nveis sricos do fator VIII coagulante. Existem tambm casos raros de doena
de von Willebrand adquirida (mais comum em pacientes com mielopatias, como linfomas, em que se desenvolvem
anticorpos anti-FvW).
EPIDEMIOLOGIA
a doena hemorrgica mais comum
Atinge cerca de 2% da populao mundial
Acomete igualmente ambos os sexos, porm mulheres tm mais probabilidade de ter a doena diagnosticada
pelas manifesta
es durante a menstruao.
FATOR DE VON WILLEBRAND
O fator de von Willebrand (FvW) um multmero que circula no plasma sanguneo em uma concentrao
aproximada de 10mg/ml. Ele sintizado por clulas endoteliais e megacaricitos. Tem duas fun
es principais:
Mediar a adeso das plaquetas ao subendotlio lesado: funciona como uma ponte entre receptores da plaqueta
(glicoprotena Ib, principalmente) e o subendotlio lesado. Para que ocorra a adeso s plaquetas necessario a
presena de grandes multmeros do FvW.
Manter os nveis plasmticos do fator VIII (protena procoagulante): o FvW liga-se a fator VIII, alentecendo
(evitando) sua degradao.
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Portanto, em casos de deficiência de FvW, independente da causa (hereditária ou não), o fator VIII passa a
circular de forma desprotegida, podendo cursar com deficiência deste fator, simulando sangramentos que outrora vimos
como típicos da hemofilia (hemartrose, epistaxes, etc.).
CLASSIFICAÇÃO
Tipo 1: é o tipo mais comum, entre 60-80% dos casos. É um defeito quantitativo leve, em que a concetração do
FvW fica entre 20-50% do valor normal. Causa sangramentos de leve a moderado.
Tipo 2: é um defeito qualitativo (funcional) e acomete entre 20-30% dos casos. Neste caso, o indivíduo
apresenta quantidades normais de FvW, mas que não funciona corretamente. Possui 4 subtipos:
2A: subtipo mais comum. Neste caso o FvW tem dificuldade de unir-se às plaquetas e há diminuição da presença de
grandes multímeros.
2B: o FvW tem grande afinidade de união às plaquetas, por isso diminui a circulação livre do FvW.
2M: não há ausência dos grandes multímeros porém eles não tem a mesma capacidade de ligação às plaquetas.
2N: o FvW perde a capacidade de ligação com o Fator VIII (cursando com características clínicas semelhantes à
hemofilia, sendo necessário diagnóstico diferencial com esta patologia).
Tipo 3: é o tipo mais grave, caracterizado pela deficiência total do FvW. O paciente tem sangramentos
profundos.
Doença de von Willebrand Adquirida: está relacionada a outras patologias como doenças linfóides, mieloma
múltiplo, macroglobulinemia, doenças mieloproliferativas, alguns tumores, algumas doenças autoimunes entre
outras. De um modo geral ela pode ser ocasionada por anticorpos anti-FvW ou não.
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
Sangramentos de leve a moderado que variam com a intensidade da doença.
Hematomas
Sangramentos menstruais prolongados (menorragia)
Sangramentos nasais
Sangramentos excessivos após pequenos cortes
Sangramentos após extração dentária ou outra cirurgia.
Gengivorragia, equimoses frequentes
DIAGNÓSTICO
Deve-se levar em conta a presença dos sintomas, história familiar (já que a doença é de herança genética) e
estudos laboratoriais. Seu diagnóstico laboratorial é difícil principalmente no que diz respeito a classificação.
Testes auxiliares:
o TTPA (tempo de tromboplastina parcialmente ativado): encontra-se prolongado nos casos de deficiência
de FvW (em alguns casos devido a baixa de fator VIII) assim como tempo de sangramento.
o Tempo de sangramento: estará aumentado.
o Dosagem de fator VIII: como o FvW protege o fator VIII, sua falta ocasionará a degradação deste fator e,
consequente, sua diminuição. Porém a simples dosagem baixa de fator VIII não diagnostica
definitivamente a doença de von Willebrand, já que o Fator VIII diminui nos casos de hemofilia A.
o Contagem de plaquetas: geralmente apresenta-se normal a todos os tipos, com exceção do tipo 2B que
tem uma leve diminuição.
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Testes específicos:
o Dosagem de antígeno de von Willebrand: se mostra reduzido, de uma maneira geral. A dosagem é feita
por ensaio imunológico este teste apresenta boa resposta para os tipos 1 e 3, ja que nem sempre os
casos do tipo 2 apresentam baixa na concentração de FvW.
o Agregação induzida pela Ristocetina reduzida (teste de adesão plaquetária com Ristocetina): o plasma
rico em plaquetas do paciente é colocado em contato com a ristocetina (um antibiótico que facilita a
liberação de estoques de fator VIII); o paciente normal apresenta agregação; quando há deficiência do
FvW, há falta de de agregação, sendo que o tipo 2B tem aumento na sensibilidade de aglutinação
mesmo em concetrações menores.
TRATAMENTO
Evitar drogas antiplaquetárias (qualquer comprimido que contenha AAS)
Crioprecipitado: é um componente do sangue rico em FvWB, tendo a desvantagem do risco maior de
transmissão infecciosa, mas a vantagem do baixo custo.
DDAVP ou desmopressina (0,3mg/kg diluido em 50ml SF): análogo do hormônio vasopressina cuja função é
aumentar o nível plasmático do FvW através da libertação dos depósitos endoteliais do mesmo.
Concentrados de Fator VIII: sabendo que este fator pode estar diminuído frente à carência de FvW, podemos
lançar mão de seu uso.
Complexo de pró-trombina ativado (Prothromplex®)
Drogas antifibrinolíticas: podem ser suficientes para permitir que um paciente possa fazer pequenas cirurgias
dentárias, por exemplo. O ácido epsilon-aminocapróico (EACA, 6g VO 6/6h durante 3-4 dias após o
procedimento) e o ácido tranexâmico (TXA, 25mg/Kg VO 6/6h) são os dois mais utilizados. Essas drogas inibem
a ativação do plasminogênio aderido à fibrina, sendo mais eficazes contra hemorragias na mucosa oral.
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MED RESUMOS 2011
NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
COAGULOPATIAS ADQUIRIDAS
(Professora Flávia Cristina Fernandes Pimenta)
As coagulopatias adquiridas estão associadas a múltiplas alterações da coagulação (no que diz respeito,
portanto, aomecanismo de hemostasia secundária), sendo que a deficiência de Vitamina K e as hepatopatias se
configuram entre as mais comuns em animais. O diagnóstico se dá pelas características clínicas e pelos resultados dos
testes como tempo de pró-trombina (TP), tempo de tromboplastina parcial ativado (TTPA) e tempo de trombina (TT).
Ao se estabelecer o diagnóstico de uma coagulopatia, se faz necessário diferenciá-la sob o ponto de vista
etiopatogênico (se é hereditária ou adquirida; ver OBS1) e, não menos importante, diferenciá-la de distúrbios que
envolvem a hemostasia primária (como as púrpuras, por exemplo; ver OBS2).
As coagulopatias adquiridas se diferenciam das hereditárias em vários pontos. Enquanto as desordens
hereditárias possuem características clínicas típicas de uma coagulopatia e anormalidades características no
coagulograma, as coagulopatias adquiridas geralmente cursam com anormalidades múltiplas na hemostasia, às vezes
associadas à trombocitopenia. Muitas vezes, o sangramento é apenas mais uma das complicações da doença de base
que levou ao distúrbio hemostático.
OBS1: O diagnóstico das coagulopatias adquiridas inicia-se pela anamnese, através da análise da história clínica do paciente, com
relação principalmente à ocorrência de sangramentos anteriores. Isto é importante pois, para pacientes atendidos com queixas de
sangramento, o médico tem por obrigação saber diferenciar se a coagulopatia é de origem hereditária e adquirida. O relato de
sangramentos anteriores, ou ainda na ocasião do nascimento/infância, falam a favor de coagulopatia hereditária.
OBS2: Outra forma importante de diferenciar as coagulopatias, do ponto de vista diagnóstico, se faz com relação às púrpuras, uma
vez que estas estão envolvidas com distúrbios da hemostasia primária, enquanto que as coagulopatias, de um modo geral, estão
relacionadas com distúrbios da hemostasia secundária. As coagulopatias, geralmente, se apresentam na forma de sangramentos
tumorais (hematomas, hemartroses, sangramentos articulares, etc.); as púrpuras, por sua vez, se apresentam mais comumente na
forma de sangramentos planos (petéquias e equimoses).
MECANISMOS FISIOPATOLGICOS
Identificada a coagulopatia adquirida e feita a sua diferenciação com distúrbios hereditários e distúrbios da
hemostasia primária, a próxima etapa é saber classificar a coagulopatia quanto a sua etiopatogenia, analisando os
seguintes mecanismos:
Deficiência de vitamina K: a deficiência de vitamina K pode ocorrer por problema gastrintestinal crônico como má absorção
e administração por longo tempo de terapia com sulfanilamida e antibióticos de amplo espectro de ação. Pode ocorrer
também em pacientes que não nascem em ambiente hospitalar, e que por isso, não são submetidos à reposição de vitamina
K (o que seria importante para evitar a doença hemorrágica do RN, visto que o bebê tem deficiência relativa de fatores da
coagulação).
Hepatopatias: cursam com consumo de todos os fatores da coagulação, já que o fígado participa direta ou indiretamente da
formação de todos os fatores de coagulação.
Anticoagulantes circulantes: ocorre comumente naqueles pacientes que são portadores de hemofilia e, que de tanto repor
o fator VIII, deficiente para seu tipo específico de hemofilia, experimenta a formação de anticorpos contra este fator, e passa
a não responder mais à terapia.
Consumo exagerado: característico em pacientes politraumatizados com sangramentos intensos, hemorragias digestivas
difusas e intensas.
DEFICINCIA DE VITAMINA K
A vitamina K é um co-fator fundamental para a gamacarboxilação hepática dos fatores D, VII, IX e X, além dos
anticoagulantes endógenos proteína C e proteína S. Sem a vitamina K estes fatores têm o seu efeito prejudicado pela
falta da terceira carboxila nos resíduos de ácido glutâmico. Este radical é fundamental para a interação com o fosfolipídio
plaquetário e com o cálcio ionizado.
FISIOLOGIA DA VITAMINA K
A vitamina K apresenta três formas de apresentação: Fitoquinona (K1); Menaquinona (K2); e Menadiona (K3).
Apresenta como fonte alimentos de origem animal, como a carne e fígado. Sua absorção acontece no intestino delgado.
Sua importância da coagulação diz respeito aos fatores II, VII, IX e X, proteína C e S são dependentes da
vitamina K para sua atuação através da gamacarboxilação.
O que ocorre é que os fatores II, VII, IX e X, são monovalentes e, com isso, não se ligam ao cálcio (co-fator
fundamental durante toda a cascata da coagulação). Para que o cálcio se liga a estes fatores, é necessário uma nova
carboxilação, o que torna a molécula bivalente e possibilita a ligação com o cálcio. Essa reação química é proporcionada
pela vitamina K.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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Dessa forma, na deficincia de vitamina K, os fatores II, VII, IX e X, a protena C e S, so produzidos, mas no
participam da cascata de coagulao uma vez que eles no se tornam bivalentes e no se ligam ao clcio, o que
configura uma situao que impede a passagem entre as fases da cascata da coagulao.
OBS3: Como veremos adiante, este mecanismo leva a altera
es no tempo de pr-trombina (TP), responsvel por
avaliar a funo do fator VII, sendo este o primeiro exame que se altera.
OBS4: No tratamento das tromboses, os medicamentos utilizados, como os Cumarnicos (Warfarin – Marevan¥;
Dicumarol), determinam uma inibio da gamacarboxilao dos fatores II, VII, IX e X, e protena C e S.
ETIOLOGIA
Condi
es clnicas relacionadas com a deficincia da vitamina K. O recm-nato, por exemplo, tem baixas
reservas de vitamina K e fica propenso sua carncia, principalmente se for prematuro e alimentado
exclusivamente com leite materno (pobre em vitamina K). A doena hemorrgica do recm-nato (como
chamada esta entidade) pode ser prevenida ou tratada pela aplicao parenteral de vitamina K 1mg.
Baixa ingesto de fontes de vitamina K: fgado, vegetais de folhas verdes (espinafre, couve-flor, repolho), leite,
tomate, arroz integral, ervilha, leos vegetais, sementes de soja, ch verde, gema de ovo, aveia, trigo integral,
batatas, aspargos, pepinos, manteiga, queijo, carne de vaca e de porco, presunto, cenouras e milho.
Baixa absoro:
Sndrome de m absoro: altera
es anatmicas ou fisiolgicas que acometem o intestino delgado.
Colelitase, coledocolitase, fstula biliar: por ser uma molcula lipossolvel, as doenas que afetam as vias biliares
determinando uma obstruo a sada dos sais biliares, determina uma absoro deficiente de vitamina K. Por isso,
esses pacientes apresentam deficincia de vitamina K, e antes do procedimento cirrgico deve-se realizar um
coagulograma e repor vitamina K se necessrio.
Antibioticoterapia oral prolongada: alteram as bactrias intestinais.
Uso de Cumarnicos: Warfarin.
DIAGNÓSTICO
Nesses pacientes a principal forma de realizar o diagnstico atravs do tempo de atividade de protrombina
(TAP ou TP) que avalia o fator VII, sendo o primeiro parmetro que se altera no coagulograma.
Como o fator VII o fator de menor meia-vida, logo fica deficiente na carncia de vitamina K. Assim, o TP alarga
mais (alcanando um nvel de INR acima do limite esperado para o normal que 1,2) e muito antes do TTPA, devendo
ser o parmetro utilizado para a suspeita diagnostica e controle teraputico. Depois, a deficincia dos fatores II
(hipoprotrombinemia), IX e X fazem alargar tambm o TTPA (o que menos comum nesta deficincia).
TRATAMENTO
O tratamento a reposio da vitamina 10mg parenteral, restaurando a hemostasia em 10-12h. A via pode ser
subcutnea ou venosa. A administrao intramuscular pode acarretar na formao de hematoma. O plasma fresco
congelado utilizado nos casos de urgncia hemorrgica.
Caso o paciente apresente uma condio no muito grave (como por exemplo,uma colelitase), e o
procedimento cirrgico est prximo de ser realizado, pode-se fazer uma reposio intramuscular de vitamina K. Caso
necessite de uma atividade mais imediata, pode-se realizar a administrao da forma hidroflica, por via IV. Entretanto,
nas duas formas de administrao, os fatores sero produzidos somente depois de 24 horas.
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ENFERMIDADE HEMORRÁGICA DO RECÉM-NASCIDO
A enfermidade hemorrágica do RN consiste em uma condição de deficiência de vitamina K, em que o RN não
recebe uma dose profilática de vitamina K logo após o nascimento. Geralmente apresentam sintomas nos primeiros dias
de nascimento através de sangramentos no coto umbilical.
O diagnóstico diferencial é feita principalmente com coagulação intravascular disseminada (CIVD) e infecções
neonatais. Laboratorialmente, o hemograma se mostra normal para o RN, mas, no coagulograma, percebe-se uma
elevação do tempo de protrombina.
O tratamento consiste na reposição da vitamina nos casos leves; nos casos em que há sangramentos
generalizados e hemorragias digestivas, pode ser necessária a administração de complexos pró-trombínicos (que
consiste em um hemoderivado que possui os fatores II, VII, IX e X).
HEPATOPATIAS
O hepatócito sintetiza todos os fatores da coagulação. Portanto, quando há sofrimento hepático, poderá se
desenvolver uma coagulopatia por deficiência de diversos fatores, da via intrínseca (IX, XI, VIII), extrínseca (Vil) e
comum (I, II, X, V) da coagulação. A gama-carboxilação dos fatores do complexo protrombínico (II, VII, IX, X) está
deficiente, especialmente do fator VII, razão pela qual predomina o alargamento do TP, como acontece na deficiência de
vitamina K e no uso de cumarínicos.
Como também é o fígado que sintetiza os anticoagulantes endógenos anti trombina III, proteína C e proteína S,
estes encontram-se depletados na insuficiência hepática, predispondo à trombose e à CIVD. Finalmente, a não-
depuração hepática do tPA (ativador do plasminogênio tecidual), pode determinar um estado de hiperfibrinólise primária
(ver adiante). A esplenomegalia congestiva também pode justificar uma trombocitopenia moderada.
HISTÓRIA CLÍNICA
A história clínica destes pacientes revela histórico de hepatopatia crônica. Geralmente, esses pacientes
apresentam fenômenos vasculares, ginecomastia, telangiectasias, atrofia testicular, hipertensão portal, varizes
esofagianas, entre outros achados que sugerem uma insuficiência hepática.
ACHADOS LABORATORIAIS
Os exames a serem solicitados incluem o hemograma, o coagulograma e dosagem de fibrinogênio para
realização do diagnóstico diferencial com CIVD (pois nos hepatopatas, esta está normal).
Plaquetopenia no hemograma
Deficiência de fatores de coagulação: altera tanto o tempo de protrombina (TP) como tempo de tromboplastina
parcial ativado (TTPA). Sendo esta uma forma de diferenciação da coagulopatia por vitamina K, já que nesta
observa-se somente uma elevação da TP.
Exacerbação da fibrinogenólise, com tendências ao sangramento
Tendência trombótica: deficiência de Antitrombina, proteínas C e S
TRATAMENTO
Reposição de vitamina K;
Complexo protrombínico (Prothromplex®): quando o paciente apresenta sangramentos ativos.
Plasma fresco congelado: para casos de hemorragia grave e com sangramento digestivo com risco de choque.
INIBIDORES CIRCULANTES DOS FATORES DA COAGULAO
O aparecimento de auto-anticorpos anti-fator VIII (do tipo IgG) pode ocorrer em algumas circunstâncias da
prática médica, tal como (1) o hemofílico A que recebeu componentes do sangue; (2) na puérpera; (3) no lúpus
eritematoso sistêmico; e (4) em algumas imunodeficiências. Este anticorpo inativa o fator VIII, provocando uma diátese
hemorrágica, às vezes, bastante grave
A presença de anticoagulantes circulantes é comum em pacientes hemofílicos que são submetidos à reposição
dos fatores deficiências (VIII para hemofilia tipo A; IX para hemofilia tipo B) e que apresentam a formação de anticorpos
contra estes fatores.
ETIOLOGIAS
Presença de inibidores na hemofilia: o uso crônico dos fatores de coagulação estimula a formação de anticorpos
contra os fatores que são infundidos no paciente.
Doenças auto-imunes: LES
Uso de medicamentos: principalmente penicilina e eventualmente a procainamida.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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DIAGNÓSTICO
O diagnstico pode ser sugerido diante de um quadro de paciente hemoflico com sangramentos de difcil
controle e refratrios reposio de fator VIII. O coagulograma revela um TTPA bem alargado e um TP normal ou
alargado. O quadro pode ser agudo e auto-limitado ou se cronificar.
TRATAMENTO
Sabe-se, portanto, que o paciente no responde reposio de crioprecipitado, plasma fresco congelado ou
fator VIII purificado, pois o anticorpo inibe o fator VIII exgeno tambm.
A alternativa mais vivel a infuso do concentrado de complexo protrombnico – o Prothromplex – por conter
pequenas quantidades dos fatores II, IX e X ativados, “desviando” a utilizao do fator VIII na cascata da coagulao.
Entre os hemoderivados, somente o Prothromplex controla a hemorragia destes pacientes.
A plasmaferese e o uso de imunossupressores (ex.: ciclofosfamida) pode ser necessrio nos casos crnicos e
refratrios.
COAGULAO INTRAVASCULAR DISSEMINADA
A coagulao intravascular disseminada (CIVD) configura uma expresso clnica de diversas doenas sistmicas
graves. Trata-se de uma grave desordem adquirida da hemostasia, relacionada a doenas no menos graves, como a
sepse bacteriana por Gram negativos (ex.: meningococo, enterobactrias, pseudomonas), as complica
es obsttricas
(descolamento prematuro de placenta, feto morto retido, embolia amnitica), neoplasias malignas (adenocarcinoma
mucinoso, LMA promieloctica - M3), politrauma, grande queimado, hemlise intravascular aguda etc.
Como o prprio termo sugere, a CIVD caracterizada pela formao de trombos principalmente na
microcirculao sistmica levando ao consumo de todos os fatores da coagulao, ou seja, uma coagulopatia
adquirida por consumo de fatores.
A CIVD abordada neste captulo pois ela tambm considerada uma coagulopatia adquirida, caracterizada
pelo consumo de fatores da coagulao. Na fase inicial, caracteriza uma doena pr-trombtica, induzindo a trombose
generalizada. Nesta fase, no existem exames laboratoriais que possam sugerir CIVD, da a importncia das correla
es
clnicas do paciente (quando diagnosticada em fase inicial, o tratamento pode ser feito com anticoagulantes, como a
heparina).
IMPORTÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA
Estima-se que 4 em cada 1.000 admiss
es hospitalares apresentam CIVD, tendo uma alta incidncia em
pacientes hospitalizados e em UTI.
Faz parte da trade da morte
uma patologia grave que, se no diagnosticada na sua fase preventiva, leva o paciente ao bito muito
frequentemente.
Est associada a dezenas de situa
es clnicas
FISIOPATOLOGIA
A CIVD uma sndrome adquirida caracterizada por coagulação
intravascular sistêmica, em que h uma deposio intravascular de
fibrina, a qual recruta plaquetas e forma microtrombos em vasos de
pequeno e mdio calibre, acarretando em isquemia de diversos rgos,
podendo cursar com falência múltipla de órgãos.
Alm disso, essa ativao sistmica da coagulao vai produzir
uma depleo de plaquetas e fatores da coagulao, predispondo a
fenmenos hemorrgicos, podendo levar ao bito.
Quando o diagnstico feito na fase hemorrgica, mesmo que
haja controle desta, j houve uma isquemia generalizada e, com isso, j
existem altera
es irreversveis.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1199
Em resumo, a sequncia fisiopatolgica da CIVD consiste em:
Ativao macia da coagulao (a coagulao sempre caracteriza o evento inicial)
Formao de mltiplos trombos de fibrina
Isquemia tecidual
Processo persistente – depleo de fatores da coagulao e plaquetas
Coagulopatia
Hemorragias diversas
©bito (se o processo no for interrompido)
ETIOPATOGENIA
Infec
es diversas com sepse grave: causa mais comum
Complica
es obsttricas (descolamento de placenta, embolia de lquido amnitico, reteno de feto morto)
Malignidades (leucemia mielide aguda M3, neoplasia gstrica, prstata, pncreas, pulmo, clon, etc )
Politrauma
Grande queimado
Acidentes ofdicos
Cirrose heptica avanada
M-forma
es vasculares
Hemangioma cavernoso gigante - Sndrome de Kasabach-Merrit
Anafilaxia
Pancreatite Aguda
Hipotermia
QUADRO CLÍNICO
O quadro clnico desses pacientes extremamente heterogneo, j que ocorre microtromboses de forma
disseminada, ou seja, h isquemia de praticamente todos os sistemas do corpo (diferentemente dos casos de TVP, por
exemplo, em que geralmente ocasionam sinais clnicos locais como dor em membros inferiores, edema, varizes etc). Por
isso, a necessidade de se ter uma avaliao clnica mais apurada com os achados laboratoriais desses pacientes.
Clinicamente, podemos identificar duas fases da CIVD:
Fase isquêmica: isquemia e necrose de extremidades com gangrena
Fase hemorrágica: sangramentos diversos e difusos, espontneos ou no. “O paciente sangra por todos os
orifcios, tubos e drenos“.
ACHADOS LABORATORIAIS
Hemograma: demonstra uma plaquetopenia (trombocitopenia), uma vez que a formao de trombos levou ao
consumo exagerado de tais clulas. Pode mostrar tambm anemia hemoltica microangioptica, com
esquizcitos na periferia.
Anemia hemolítica microangiopática: presena de esquizcitos. Faz o diagnstico diferencial com prpura
trombocitopnica trombtica (PPT), pois nesta patologia no h altera
es da TTPA e TP nem de fibrinognio,
diferentemente da CIVD.
Coagulograma: aumento do tempo de Tromboplastina ativado e o tempo de protrombina
Hipo ou Afibrinogenemia: < 70-100mg/dL
Elevação dos produtos de degradação de fibrina (PDF): o D-dmero um PDF de significado especial, pois
s liberado pela degradao direta dos polmeros de fibrina, e no dos monmeros ou do fibrinognio. Ou seja,
aparece quando a fibrinlise resultado da formao prvia de trombos. Na fibrinlise primria (uma outra
entidade), os PDFF esto elevados, mas o D-dmero est normal. A dosagem do D-dmero no tem valor
quando o paciente realizou algum procedimento cirrgico ou politraumatizado, pois nessas condi
es h
formao de fibrina.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
200
OBS5: Não existem exames específicos para CIVD e, por isso, o médico sempre deve fazer uma associação de dados
clínicos e os riscos que uma patologia de base tem de evoluir para uma CIVD. Com isso, devemos desconfiar de CIVD
diante de uma doença primária sabidamente associada a quadro clínico compatível e dados laboratoriais compatíveis
(plaquetopenia + hipofibrinogenemia + elevação de D-Dímero). Neste caso, já podemos iniciar uma terapia profilática
com heparina.
OBS6: Ao longo deste capítulo, observamos que os dados colhidos nos exames laboratoriais são bastante importantes
para o diagnóstico diferencial entre as coaguloptias, por exemplo:
Deficiência de vitamina K: TP prolongado apenas.
Hepatopatias: TP e TTPA prolongados.
CIVD: TP e TTPA prolongados; fibrinogênio diminuído ou ausente.
FORMAS CLÍNICAS DA CIVD
Forma aguda: relacionada à sepse, trauma, complicações obstétricas, LMA. O consumo de fatores da
coagulação e de plaquetas não consegue ser compensado por um aumento da produção hepática e medular.
Estes pacientes se manifestam muito mais com sangramento.
Forma Crônica: quase sempre relacionada a tumores sólidos secretores de fator tecidual. Como há uma
resposta compensatória hepática e medular, o consumo excessivo de fatores da coagulação e de plaquetas é
reposto. As manifestações principais passam a ser de repetidas tromboses.
CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS
O diagnóstico de CIVD agudo deve ser suspeitado em qualquer paciente grave, com os fatores de risco
previamente assinalados, que se apresenta com diátese hemorrágica (hemorragia cutâneo-mucosa, gastrointestinal,
pulmonar, cerebral etc.). A hemostasia primária está prejudicada principalmente pelo consumo plaquetário
(trombocitopenia).
Os critérios que definem o diagnóstico são:
Hipofibrinogenemia (< 70-100mg/dL)
Aumento dos PDF, especialmente o D-dímero.
Alargamento do TTPA, do TP e do TT (tempo de trombina)
Trombocitopenia
Anemia hemolítica com esquizócitos
TRATAMENTO
Tratamento da doença de base;
Medida de suporte: A conduta transfusional deve ser indicada apenas se sangramento ativo ou procedimento
invasivo. Com isso, incluímos reposição de plaquetas, hemácias.
Plasma fresco congelado: é utilizado por possuir todos os fatores de coagulação 20ml/kg/dia.
Crioprecipitado: no plasma tem pouco fibrinogênio enquanto nesta há uma alta concentração de fibrinogênio.
Concentrado de plaquetas: naqueles pacientes que apresentam sangramentos intensos.
Heparina em baixas doses: controverso
Infusão intravenosa de proteína C ativada: sepse, caro e de difícil acesso.
PROGNÓSTICO
O prognóstico da CIVD não é bom, já que reflete uma doença de base geralmente muito grave. Estima-se uma
mortalidade entre 40-80% em casos de sepse, politrauma e grande queimado. Não se sabe se o mecanismo de óbito é
pela própria CIVD ou simplesmente pela SIRS.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
201
MED RESUMOS 2011
ELOY, Yuri Leite; NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA____________________________
TROMBOFILIAS
(Professora Flávia Pimenta)
O sistema da hemostasia e coagulao, vistos em captulos anteriores, funcionam
mediante mecanismos de grande perfeio, impedindo que o indivduo venha a bito por
hemorragias, especialmente nas condi
es de trauma. Podemos citar, por exemplo, o
sangramento de pacientes vtimas de trauma ou submetidos a processos cirrgicos
rapidamente estabilizado, caso o seu sistema de hemostasia esteja funcionante, de modo
que ele no provoca nenhuma ou pouca alterao clnica ao paciente. Ao contrrio
daqueles pacientes com altera
es da hemostasia, que podem vir a bito por hemorragias
aps uma simples extrao dentria.
Para se ter noo da perfeio desse sistema, devemos tomar nota que o sangue
capaz de mudar seu estado fsico para promover uma hemostasia adequada assim que
detecta sangramentos, deixando o seu estado lquido fisiolgico e passando por uma srie
de rea
es qumicas e fsicas at formar cogulos, unidades slidas constitudas por
componentes do sangue.
O processo de hemostasia fisiolgica depende basicamente de dois componentes principais: coagulao e
anticoagulao. Quando ocorre a formao do cogulo, h uma ativao dos fatores da cascata da coagulao. Aps
trs dias, aproximadamente, os cogulos formados devem ser removidos, e os fatores que foram ativados pela cascata
da coagulao, passam a ser liberados para a corrente sangunea.
Qualquer um desses fatores pode reiniciar o processo da cascata da coagulao, havendo a formao de novos
cogulos em regi
es desnecessrias. Com isso, podemos dizer que no proveitoso para o organismo apresentar uma
srie de fatores da coagulao ativados circulantes na corrente sangunea. Por esse motivo, o organismo possui o
sistema da anticoagulação. Entre os fatores que importam para manuteno desse sistema so:
Fluxo sanguíneo: que circula rapidamente de modo que impede comque os fatores entrem em contato com o endotlio.
Fígado: funcionando como um filtro, ou seja, na mesma intensidade que forma esses fatores, tambm seqestra e inativa
boa parte destes quando circulam na corrente sangunea.
Proteínas do sistema da anticoagulação: inativam o restante dos fatores de coagulao que no foram inativados pelo
fgado. Uma das mais importantes a antitrombina III. As proteína C e S so responsveis pela inativao dos fatores da
coagulao que so dependentes da vitamina K (so eles: II, VII, IX, X).
Quando alguns desses mecanismos citados acima falham, haver uma formao de trombos arteriais e venosos
desnecessrios, podendo manifestar doenas graves, como o caso da CIVD. Desta forma podemos definir as
trombofilias como um grupo de patologias em que o sistema da anticoagulao no funciona adequadamente.
Os trombos que so formados devido a essas patologias podem ser de tamanhos variados: pequenos,
acometendo a microcirculao e gerando uma coagulopatia de consumo; ou grandes, gerando isquemia em territrios
importantes (como a trombose de veia porta, trombose retiniana, trombose de veias safenas, trombose de membros
inferiores – este ltimo apresenta um papel importante, pois quando os trombos se desprendem, podem se impactar nos
ramos arteriais pulmonares ocasionando uma embolia pulmonar, condio alta morbidade e mortalidade). Entre as
causas de um sistema de anticoagulao falho, temos as etiologias hereditrias e adquiridas.
ANTICOAGULANTES ENDGENOS
Cada mililitro de sangue contm uma quantidade de fatores de coagulao necessria para coagular todo o
fibrinognio corporal em apenas 15 segundos. Contudo, existe um sistema regulador que funciona como uma espcie de
“freio” desse sistema. So os anticoagulantes endógenos. Estas substncias so ativadas juntamente com o sistema
da coagulao. Os principais so: antitrombina III, protena C, protena S e TFPI.
A antitrombina III liga-se aos principais fatores da coagulao das vias intrnseca e comum (especialmente a
trombina e o fator Xa), inativando-os. A heparina pode complexar-se com a antitrombina III, aumentando
bastante o seu poder anticoagulante.
A protena C precisa ser ativada pela trombina para adquirir o seu efeito anticoagulante, inativando dois
importantes cofatores da coagulao - fator VIIIa (via intrnseca) e fator Va (via comum).
A protena S aumenta o efeito anticoagulante da protena C ativada.
O TFPI (Tissue Factor Pathway Inhibitor) inibe o complexo fator tecidual-fator VIIa, que converte o fator X em Xa
pela via extrnseca.
Vale ressaltar que tanto a protena C como a protena S tm a sua sntese realizada no hepatcito e depende da
vitamina K (pois precisa da reao de gama-carboxilao).
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CONCEITOS BSICOS
TRÍADE DE VIRCHOW
Os fatores de risco para ocorrência de trombose,
especialmente naqueles pacientes com idade inferior a 50 anos já são
conhecidos e demonstrados pela tríade de Virchow, que leva em
consideração os três parâmetros descritos abaixo:
Lesão endotelial
Estase circulatória
Estado de hipercoagulabilidade (mecanismo da trombofilia)
Para ocorrência de trombose inesperada em pacientes com
idade inferior a 50 anos, deve-se ter pelo menos um dos três fatores
descritos acima. Sempre que houver trombose inesperada em
pacientes com menos de 50 anos, devemos suspeitar de trombofilia.
Assim, por muitos anos, pensou-se, por exemplo, que uma imobilização de tornozelo podia levar a trombose
devido à estase venosa, da mesma forma, grandes cirurgias, levavam a formação de muitos trombos. Atualmente, sabe-
se que se esses pacientes, imobilizados e/ou em pós-operatório, apresentam trombose com menos de 50 anos,
possivelmente são portadores de hipercoagulabilidade sanguínea (uma condição que pode caracterizar trombofilias).
De acordo com esses conceitos, Virchow afirmou que o endotélio vascular em estado intacto é um complexo
estrutural ativamente antitrombótico, tornando-se pró-trombótico quando ativado ou danificado. Com isso, conclui que a
trombose resulta de um desequilíbrio entre fatores prócoagulantes e mecanismos de proteção (anticoagulantes) em
favor da trombogênese.
Para o entendermos as afirmações e conclusões de Virchow, devemos conhecer os fatores que predispõem a
trombose e antitrombogênicos:
Fatores trombogênicos
Perturbação Endotelial
Exposição das células subendoteliais após
lesão
Ativação plaquetária pela circulação através
de moléculas agonistas
Ativação da cascata de coagulação
Estase venosa
Inibição da Fibrinólise
Mecanismos de proteção (anticoagulantes)
Endotélio íntegro
Substâncias antitrombóticas liberadas pelo endotélio
Neutralização dos fatores de coagulação
Redução dos Fatores de coagulação feita pelas proteínas
inibidoras plasmáticas.
Fibrinólise
Diluição do Coágulo
Dissolução do Coágulo de fibrina
Diante desse equilíbrio delicado que o organismo adota para manutenção da hemóstase sanguínea, existe uma
série de patologias que podem desviar esse equilíbrio, tanto para um estado de hipercoagulabilidade ou deficiência na
formação de trombos, entre as principais temos:
Diabetes
Tabagismo
Dislipidemias
Trauma
Cirurgias
Doenças inflamatórias
Neoplasias malignas
Quimioterápicos
Infecções
Estresse hemodinâmico
Diminuição da tensão de O2
Mediadores como a interleucina-1
Fator de necrose tumoral
Trombina
Imunocomplexos
OBS1: A coagulação intravascular disseminada (CIVD) é uma manifestação hematológica presente em muitas doenças
sistêmicas e deve ser diferenciada da trombofilia. A CIVD é definida como a formação inadvertida de microtrombos na
microcirculação ocorrendo de forma disseminada. Isso é importante para diferenciação das trombofilias, uma vez que,
nestas, ocorre a formação de trombos em vasos localizados, como por exemplo, a artéria retiniana ou veias dos
membros inferiores. Em alguns casos pode ocorrer em mais de um vaso, porém, nunca disseminada como na CIVD.
TIPOS DE TROMBOS
Trombo Venoso.
A trombose venosa é mais frequente nos membros inferiores, uma vez que,
nesta região, é marcante a presença de um dos componentes da tríade de Virchow: a
estase sanguínea, determinada pela própria ação gravitacional.
Já os trombos venosos dos membros superiores estão geralmente
associados a procedimentos invasivos, como punções, mais especificamente, punção
venosa de subclávia, veia jugular interna. Comumente, o estado de
hipercoagulabilidade está associado à formação de trombos venosos.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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Trombo Arterial.
O trombo arterial geralmente est associado a doenas vasculares como a aterosclerose, podendo causar
complica
es isqumicas em microcircula
es distais e embolias.
Trombo intra-cardíaco.
Os trombos cardacos esto envolvidos com diversas causas tais como:
Válvulas Danificadas: ocorre comumente devido a febre reumtica, endocardite
Endocárdio adjacente a regiões de Infarto do Miocárdio;
Câmaras Cardíacas Dilatadas ou Discinéticas: nesses casos a insuficincia cardaca promove uma estase
sangunea e com isso, predisp
e a formao de trombos.
Próteses Valvares: prteses metlicas – atualmente esto em desuso.
TROMBOGÊNESE
O processo de trombognese est relacionado com a ativao endotelial que promove altera
es na produo
de vasodilatadores (prostaglandinas e xido ntrico) e vasoconstritores (endotelinas). Essas altera
es de fluxo
altera
es no fluxo sanguneo levam a inibio da atividade fibrinoltica.
Mecanismos protetores à trombogênese
Elaborao de fatores anticoagulantes pelo endotlio intacto
Inibio de fatores decoagulao pela protena C anticoagulante, protena S e antitrombina
Fibrinlise reativa
Trombomodulina e sulfato de heparina na superfcie endotelial diminuem a atividade da trombina
Mecanismos ativadores da trombogênese
Presena de anticoagulante lpico, que diminui a ativao da protena C anticoagulante: no est restrito
ao LES, podendo se manifestar em outras doenas auto-imunes.
Anticorpos antifosfolpides;
Neoplasias malignas, infec
es, quimioterpicos;
Mutao na molcula do fator V da coagulao, denominado nestes casos de fator V de Leiden (nessa
forma o Fator V no responde a inativao promovida pela protena C).
Causas Hereditrias:
Deficincia de antitrombina.
Deficincia de protenas C ou S
Mutao no gene da protrombina
Hiper-homocisteinemia: pode ser adquirida como nos casos de deficincia de vitamina B12, ou ainda,
muta
es dos genes precursores das enzimas que participam do mecanismo de absoro da
homocistena.
CONCEITO DE TROMBIFILIAS
Entendido os mecanismos que podem levar a trombose, assim como os fatores que so responsveis pela sua
inibio, podemos definir trombofilias como: qualquer anormalidade, herdada ou adquirida, associada tendncia
aumentada a trombose, por deficincia ou falhas no sistema de anticoagulao (a ausncia destes fatores no
compatvel com a vida e, portanto, no define trombofilia).
Estima-se que metade dos pacientes com achados clnicos de trombofilia tem uma anormalidade detectvel. Em
relao deficincia protena C, ocorre em 1:200 e 1:500 casos, deficincia antitrombina est entre 1:200 e 1:400 casos
e o Fator V de Leiden entre 2:100 e 7:100, sendo este ltimo o mais comum.
ACHADOS CLÍNICOS
Tromboembolismo em pacientes jovens (com
menos que 50 anos)
Tromboembolismo venoso em mais de uma
ocasio
Trombose em stios incomuns, como no seio
cavernoso, trombose mesentrica, trombose de
veia porta.
Sinais de insuficiência hepática (o fgado
produtor da maioria dos fatores de coagulao e
de anti-coagulao).
Histria familiar de tromboembolismo
Perdas fetais recorrentes
Pr-eclmpsia e Sndrome HELLP – hemlise
associada a elevao das enzimas hepticas e
plaquetopenia
Necrose cutnea induzida por antagonistas da
Vitamina K – Cumarnicos
Resistncia a heparina – ocorre nas situa
es em
que h uma deficincia severa de antitrombina.
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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TROMBOFILIAS HEREDITRIAS (HERDADAS)
As trombofilias hereditrias mais comuns so:
Fator V de Leiden (causa mais comum e mais importante).
Mutao da protrombina
Deficincia de protena C e S
Antitrombina
Aumento de homocistena
MUTAÇÃO NO FATOR V (FATOR V LEIDEN)
A mutao no fator V causa resistncia desse fator inativao pela protena C ativada, por modificao de sua
estrutura. A prevalncia em pacientes com tromboembolismo varia entre 20 e 50% e na populao caucasiana,
populao normal em torno de 5%.
Fisiopatologia.
Em pessoas normais, o fator V funciona como um cofator que permite o fator X ativar a enzima trombina. A
trombina, por sua vez, converte o fibrognio em fibrina, formando um manto que bloueia a passagem do sangue e que
normalmente responsvel pela coagulao de machucados e les
es externas, estancando naturalmente uma essa
hemorragia. A protena C funciona como um anticoagulante natural que limita a exteno da coagulao necessria para
estancar a hemorragia, diminuindo a ao do fator V.
O Fator V de Leiden uma condio autossmica dominante que resulta numa dificuldade do fator V ser
desativado pela protena C ativada, favorecendo uma coagulao excessiva, e, em alguns casos, formar trombos
(trombose), obstruindo as vias circulatrias.
O gene que codifica essa protena referido como F5. A mutao desse gene (polimorfismo de nucleotdeo
simples) est localizado no xon 10 do cromossomo 1.
Achados Clínicos.
Tromboembolismo venoso;
Tromboflebites superficiais;
Tromboses em stios no usuais;
Tromboses arteriais na infncia;
I.A.M. em mulheres jovens;
Perda fetal;
Prematuridade.
Achados Laboratoriais.
O Fator V de Leiden pode ser diagnosticado com preciso atravs de exames de DNA especficos que so
capazes de identificar a ausncia do gene mutante, ou na presena dele, diferenciar a condio heterozigtica (menos
grave) da condio homozigtica (mais grave). Portanto, devemos realizar pesquisa e identificar a mutao (atravs de
estudos de biologia molecular) para formao do Fator V de Leiden.
Tratamento.
O tratamento desta condio se baseia na anticoagulao profiltica para aqueles pacientes j apresentaram
episdios de trombose.
DEFICIÊNCIA DE ANTITROMBINA
uma rara doena gentica caracterizada pela deficincia da antitrombina III, o que ocasiona em defeitos da
inativao da trombina (um dos mais importantes fatores de coagulao, pois atua no final da cascata da coagulao) e
uma leve persistncia do fator X ativado.
uma doena de herana autossmica dominante: tipo I e II. Estima-se que 70% dos indivduos com nveis de
40 a 60% do normal desenvolvem eventos tromboemblicos antes dos 50 anos. Os pacientes so tratados com
anticoagulantes ou, mais raramente, com um concentrado de antitrombina.
DEFICIÊNCIA DE ANTITROMBINA ADQUIRIDA
Pode se manifestar da seguinte forma: (1) CIVD; (2) doena heptica grave; (3) estados de perda protica. O
tratamento para essas desordens pode ser feito com L-Asparaginase.
Achados clínicos.
Tromboembolismo venoso;
Tromboflebites superficiais de repetio;
Tromboses em stios no usuais;
Perda fetal – histrico de pelo menos 2 abortos.
Avaliação laboratorial.
Dosagem da antitrombina
Demais exames so normais
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Tratamento.
Anticoagulação profilática
Nos casos mais graves, especialmente em RN, pode ser realizada transfusão sanguínea com concentrados de
antitrombina.
DEFICIÊNCIA DE PROTEÍNA C
A proteína C é uma proteína vitamina K-dependente, ativada pela trombina. Sua deficiência é explicada por uma
herança autossômica dominante. Com isso, teremos as seguintes possibilidades:
Heterozigoto: tromboembolismo venoso recorrente e necrose cutânea induzida pelo warfarin.
Homozigoto: púrpura fulminante neonatal, levando a necrose cutânea disseminada, sendo uma condição
incompatível com a vida.
A deficiência da proteína C também pode se manifestar de forma adquirida, como ocorre nos casos de doença
hepática grave, síndrome nefrótica (proteinúria), uso de warfarin e desnutrição.
Achados laboratoriais.
A deficiência da vitamina C pode ser quantitativa
(tipo I) ou qualitativa (tipo II). O diagnóstico diferencial é
estabelecido através da investigação laboratorial
(dosagem da proteína C funcional e C antigênica),
com teste funcional (avalia a função da proteína) seguido
do teste antigênico (determinação quantitativa
independentemente da função).
Tratamento.
O tratamento de escolha é a anticoagulação profilática. Nos casos mais graves, podemos utilizar concentrados
de proteína C e/ou reposição de complexo protrombínico.
DEFICIÊNCIA DE PROTEÍNA S
A proteína S é dita como Vitamina K-dependente (na deficiência de vitamina K, pode ter seus níveis séricos
reduzidos). Estima-se que 60% da proteína S total esta ligada a uma proteína e 40% está na forma livre. Podem-se
detectar dois tipos de deficiência:
Tipo I: deficiência quantitativa da fração antigênica (ligada) e livre.
Tipo II: deficiência qualitativa da fração livre
A proteína S age como um cofator da proteína C ativada. Nos pacientes heterozigóticos tem expressão clínica
quando níveis de proteína S variam entre 15 e 50%do normal.
Achados Clínicos.
Tromboembolismo venoso e 25% dos pacientes
poderão desenvolver trombose arterial, incluindo
AVC isquêmico.
Tromboses em sítios não usuais, tromboflebites
de repetição.
Perdas fetais.
Avaliação Laboratorial.
Dosagem da proteína S total e da fração livre.
Tratamento.
Anticoagulação, quando necessário.
MUTAÇÃO DO GENE DA PROTROMBINA
Corresponde a 1% da população normal e a 7% de pacientes com trombose venosa. As mutações genéticas
(mais especificamente a mutação 20.210) da protrombina provocam uma elevação das concentrações de protrombina
plasmática, facilitando, com isso, a formação de trombos.
Achados clínicos.
Tromboembolismo venoso recorrente
Trombose arterial na infância
IAM em mulheres jovens.
Perdas Fetais
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Achados Laboratoriais.
Pesquisa da mutação por biologia molecular.
Tratamento.
Anticoagulação, quando necessário.
HIPERHOMOCISTEINEMIA
A elevação da homocisteína pode ocorrer de forma adquirida ou hereditária. Seus níveis elevados na corrente
sanguínea provocam danos endoteliais elevando o risco de TVP e trombose arterial (AVC isquêmico, IAM).
Hereditária: deficiência enzimática
Adquirida: deficiência de ácido fólico, B12, B6; na insuficiência renal
OBS2: Defeitos combinados são comuns e potencializam o risco trombótico. Mulheres com trombofilia herdada possuem
um risco aumentado de perda fetal, síndrome HELLP e pré- eclâmpsia. Para ser concretizado o risco desses pacientes
deve-se levar em consideração somente aqueles que apresentaram pelo menos dois abortos ou ainda, um aborto e uma
pré-eclâmpsia.
ANORMALIDADES ADQUIRIDAS
No que diz respeito às trombofilias adquiridas, a etiologia mais frequente é a síndrome de anti-fosfolípides
(anticoagulante lúpico e anticorpos anticardiolipina). Nesta situação, ocorre a redução da proteína C anticoagulante.
Apesar de receber a denominação de anticoagulante lúpico, essa substância tem uma intensa atividade pró-
trombótica, e está presente principalmente na LES e outras doenças sistêmicas, como artrite reumatóide. Quando
associado à LES, aumenta a incidência de tromboembolismo venoso. A incidência anual de tromboembolismo venoso é
de 5 a 10 por 1000/ano.
ACHADOS CLÍNICOS
Tromboembolismo venoso
Trombose venosa em sítios não usuais
Tromboses arteriais (AVC isquêmico em idade jovem e oclusão vascular da retina)
Abortamentos
Perdas fetais recorrentes.
ACHADOS LABORATORIAIS
Aumento do TTPA
Pesquisa dos anticorpos positiva.
EVENTOS TROMBTICOS RELACIONADOS AO CNCER
Ocorre com uma maior frequência nas neoplasias de pâncreas, ovário, pulmão, carcinomas gastrointestinais.
Nestes pacientes os principais achados clínicos são: tromboses venosas em sítios usuais e não usuais, embolia
pulmonar, tromboflebites superficiais migratórias, endocardite trombótica não- bacteriana.
Tem uma incidência aumentada em neoplasias malignas ocultas, que surgem, em geral, 6 a 12 meses após o
evento tromboembólico. A associação com quimioterapia (QTX), cirurgias, cateteres potencializa o risco trombótico.
TRATAMENTO DA TROMBOSE (ANTICOAGULAO FARMACOLGICA)
Heparina
Anticoagulantes eficazes por via oral
Anticoagulantes inibidores diretos da trombina
Drogas antiplaquetárias
Drogas trombolíticas (fibrinolíticas)
HEPARINA
A heparina tem como principal mecanismo de ação promover um aumento da atividade fibrinolítica da
antitrombina, tornando esta proteína mais hábil para inibir a coagulação. Com isso, conclui-se que a administração de
Heparina nos pacientes que não possuem antitrombina não terá efeito satisfatório. As Heparinas são utilizadas na fase
aguda, e podem ser divididas em dois tipos para uso clínico, a saber:
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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Heparina Padrão (no-fracionada ou alto peso molecular): A heparina de alto peso ter seu stio de ao na
trombina, inativando essa molcula (por ser uma molcula maior e, ao se ligar, a antitrombina promove uma
maior capacidade de inibio dos fatores de coagulao). A heparina de alto peso molecular inativa
principalmente a trombina e os demais fatores da coagulao).
Heparina de baixo peso molecular (LMWH, lowmolecular-weight heparin): uma molcula estruturalmente
menor, que se liga somente a uma molcula de antitrombina, tornando a antitrombina menos hbil a inibir o
processo de coagulao. A heparina de baixo peso molecular inativa principalmente o Fator X da coagulao.
Heparina Padrão.
uma medicao mais antiga derivada de extrato animal (Heparina Sdica). Consiste em uma mistura de
mucopolissacardeos cidos altamente eletronegativos. produzida e liberada pelos mastcitos, encontrada em grandes
quantidades no fgado, nos pulm
es, intestino.
Seu mecanismo de Ao: Sua ao anticoagulante depende de um inibidor endgeno da trombina, ou seja,
antitrombina. Essa droga deve ser administrada por via parenteral (intravenosa ou subcutnea) – importante saber que
por via oral ela no absorvida e por via muscular tambm est contra-indicada devido formao de grande
hematoma.
A dose deve ser determinada individualmente e prescrita mais em unidades (UI) do que em miligramas. Entre os
benefcios das vias de administrao temos: (1) administrao IV produz efeito anticoagulante imediato e (2)
administrao SC observa-se um incio da ao da droga intervalo de 2 horas para o inicio de atividade.
Outras caractersticas so:
No se liga s protenas plasmticas
No secretada no leite materno
No atravessa a placenta
Funo fisiolgica ainda no elucidada
encontrada em diminutas quantidades no sangue circulante
A terapia com heparina feita com o paciente internado
Inibe a coagulao do sangue tanto in vivo quanto in vitro
Controle Laboratorial: 2,5x o valor do TTPA prolongado. Ou seja, se o TTPA era de 30, deve ter 60 de TTPA
para ser considerado anticoagulado.
Heparinas de Baixo Peso Molecular.
As molculas de LMWH contm a sequncia necessria para a ligao antitrombina III, porem no tem a
seqncia 18-sacaridica necessria para a ligao trombina. Possui atividade antifator X 2 a 4 vezes maior do que
atividade antitrombina. Apresenta maior disponibilidade e efeito mais prolongado.
Sua depurao independe da dose, sendo mais eficaz no tratamento da TEV. Menor incidncia de
trombocitopnica. As principais drogas disponibilizadas para uso so:
Enoxaparina (Clexane)
Dalteparina (Fragmin)
Ardeparina (Normiflo)
Tinzaparina (Innohep)
ANTICOAGULANTES ORAIS
Aps a utilizao da heparina na fase aguda, segue-se com os anticoagulantes orais, cujos principais
representantes so: Warfarin e Decumarol. Essas duas drogas inibem a carboxilao de protenas vitamina K-
dependentes, inibindo a gerao de fator Xa e trombina.
Esses anticoagulantes vo atuar principalmente nos fatores II, VII, IX, X, necessitando de 7 a 10 dias para ter um
efeito anticoagulante.
OBS3: O modelo ideal de anticoagulante teria que obedecer aos seguintes critrios:
Efeito antitrombtico completo
No hemorrgico
Sem efeitos colaterais
Qualquer via de administrao
Boa biodisponibilidade, 1 - 2x /dia
No atravessar barreira placentria
No provocar anticorpos
No animal
Fcil obteno
Baixo custo
No seja necessrio controle laboratorial
Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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Outros representantes so: Hirudina (derivada de toxinas da sanguessuga, responsvel por promover a
persistncia do sangramento nos locais de trauma), Bivalirudina, danaparóide (orgaran), Dabigatrana (Pradaxa –
atualmente liberado apenas para profilaxia de cirurgiasortopdicas, naqueles pacientes com prteses).
OUTRAS DROGAS
Inibidores diretos da Trombina
Drogas antiplaquetrias; AAS
Trombolticas
SCREENING PARA TROMBOFILIAS (INDICAÇÕES)
Em todos os pacientes com tromboembolismo idioptico ou recorrente.
Em pacientes jovens com eventos tromboemblicos.
Na ocorrncia de tromboses em stios no usuais.
Histria familiar positiva para trombofilia.
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Arlindo Ugulino Netto; Luiz Gustavo Barros; Yuri Leite Eloy – HEMATOLOGIA – MEDICINA P8 – 2011.1
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MED RESUMOS 2011
NETTO, Arlindo Ugulino; ELOY, Yuri Leite.
HEMATOLOGIA
DOENÇAS MIELOPROLIFERATIVAS CRÔNICAS
(Professora Flávia Cristina Fernandes Pimenta)
As doenças mieloproliferativas crônicas (DMC) constituem um grupo de doenças hematológicas que apresentam
os seguintes componentes em comum: (1) corresponder a uma proliferação clonal de elementos hemopoéticos
totipotentes; (2) apresentar aspectos histológicos que frequentemente se sobrepõem, ou seja, de proliferação dos
elementos hemopoéticos, por vezes com pouco ou nenhum componente displásico à morfologia; (3) apresentar
hematopoese eficaz, pelo menos nas fases iniciais da doença (diferentemente das SMD); (4) apresentar, em alguma
fase da evolução do processo, mielofibrose, a qual pode levar ao esgotamento da hemopoese e, portanto, à morte por
insuficiência medular (esta pode ocorrer, também, em decorrência da crise blástica, ou seja, transformação em uma
leucemia aguda); (5) ter em comum alguns aspectos clínicos, como a existência de uma fase inicial que pode passar
despercebida por muito tempo e mesmo ser diagnosticada em hemogramas de rotina. Esta é seguida por uma fase
clínica, com sinais e sintomas, como aumento de uma ou mais das séries hemopoéticas no sangue periférico,
esplenomegalia importante, fenômenos circulatórios e vasculares (pletora, tromboses e hemorragias).
As DMC são, portanto, doenças que correm em virtude de mutações na célula precursora da linhagem mielóide,
que é a célula precursora mielóide, condicionada a formação de hemácias, granulócitos (basófilos, neutrófilos e
eosinófilos), monócitos e plaquetas. Desta forma, as seguintes doenças constituem o grupo que caracterizam a
síndrome mieloproliferativa crônica:
Leucemia Mielóide Crônica (LMC)
Policitemia Vera
Mielofibrose
Trombocitemia Essencial
Em cada uma destas doenças, existe o aumento específico da produção de um determinado grupo de células: a
LMC caracteriza-se pela produção exagerada de granulócitos neutrófilos; na Policitemia Vera, existe um aumento dos
níveis de hematócrito e hemoglobina; a Mielofibrose é caracterizada por fibrose da medula óssea, esplenomegalia e
hematopoiese extramedular; na Trombocitemia Essencial, como o próprio termo sugere, existe aumento na produção de
plaquetas. Muito embora, na fase inicial, as DMC geralmente cursam com aumento de todas as linhagens.
FISIOPATOLOGIA
O mecanismo por trás das DMC é bastante simples: uma alteração cromossômica por uma anormalidade
adquirida envolvendo a célula-tronco hematopoética promove a proliferação desordenada de unidades precursoras de
grupos celulares da linhagem mielóide. Desta forma, temos:
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Alterações no precursor granulocítico promovem a leucemia mielóide crônica (LMC);
Alterações no precursor de células vermelhas provem a policitemia vera;
Alterações no precursor de megacariócitos promovem a trombocitose essencial;
Alterações que promovam uma fibrose reativa medular podem levar à mielofibrose.
Além do mecanismo fisiopatológico que envolve a gênese destas doenças, nota-se que cada uma delas pode
evoluir ou cursar com alterações que possam caracterizar outra doença. Como mostrado no esquema visto na página
anterior, a LMC, em até 70% dos casos, pode evoluir para leucemia mielóide aguda na forma de uma crise blástica (ver
OBS1), assim como a policitemia vera (10%) e a mielofibrose (10% dos casos). A policitemia vera também pode evoluir,
em 30% dos casos, para a mielofibrose.
OBS1: O Imatinibe (Glivec®), um inibidor específico da tirosina-quinase, utilizado no tratamento da LCM diminui,
exageradamente, a possível evolução da LMC para uma LMA, reduzindo a porcentagem de 70% para apenas 2%,
aproximadamente.
Desta análise, concluímos que, de um modo geral, todas estas doenças podem se apresentar, clinicamente,
semelhantes e confundíveis. Na fase inicial de uma Trombocitemia Essencial, por exemplo, além de identificar um
aumento de plaquetas, também podemos identificar altos níveis de hemoglobina e hemácias. Somente com a evolução
cronológica, cada doença toma um rumo específico, cursando com o aumento individualizado de sua respectiva
linhagem.
POLICITEMIA VERA
A policitemia vera (também conhecida por policitemia rubra vera) é um distúrbio mieloproliferativo crônico devido
à anormal multiplicação clonal de uma célula progenitora hematopoiética pluripotencial na ausência de estímulo
fisiológico reconhecível, em que ocorre superprodução de eritrócitos sobretudo, bem como de granulócitos e plaquetas
de fenótipo normal.
FISOPATOLOGIA
Mutações na stem-cell levam a proliferação das três linhagens de células: granulocítica, eritrocítica e
megacariocítica. Apesar disso, há uma predominância da eritrocitose. Sua etiologia ainda é desconhecida; porém,
acredita-se que, em 50% dos casos, haja mutação do gene Janus Kinase 2 (JAK-2).
QUADRO CLÍNICO
Síndromes hemorrágicas (25% dos casos)
Prurido intenso após o banho;
Úlcera péptica (em virtude dos níveis elevados de histamina)
Hipertensão arterial sistêmica;
Eritromegalia;
Ocasionamente, pode haver esplenomegalia.
Fenômenos tromboembólicos (> 50% dos pacientes).
Acidentes vasculares encefálicos em 1/3 dos casos
Síndrome de Budd-Chiari (10%): caracterizada pela hipertensão portal com hepatomegalia causada pela
obstrução venosa (por trombose) do sistema de drenagem do fígado, frequentemente evoluindo com
varizes esofágicas, encefalopatia hepática e coagulopatia por insuficiência hepática.
Síndrome de Hiperviscosidade.
Cefaléia
Tontura
Parestesias
Distúrbios visuais
Zumbidos
Na imagem, podemos observar uma paciente do sexo feminino, 68 anos, portadora de
policitemia vera, apresentando Hb de 18g/dl e fácieis pletórica. Como se sabe, a faixa de
normalidade de hemoglobina de pacientes do sexo feminino está em torno de 12 a 14g/dl.
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DIAGNÓSTICO
O diagnstico da policitemia vera se estabelece atravs da anlise de critrios.
Critérios maiores. Hb> 18,5 (H) ou >16,5 (M) ou aumento da massa eritrocitria Mutao JaK -2 e/ou V617F
Critérios menores.
Bipsia de medula ssea compatvel
Eritropoietina baixa
Formao de colnia eritride endgena (in vitro)
Diagnóstico: 2 critrios maiores + 1 menor; ou
1 critrio maior + 2 critrios menores.
DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS
Hipoxemia (doena pulmonar ou cardaca,
grandes altitudes)
Carboxiemoglobina (uso de tabaco)
Certas hemoglobinopatias caracterizadas por
ligao firme ao O2
Eritrocitose congnita (muta
es ativadoras do
receptor Epo ou gene VHL)
Tumores secretores de eritropoietina
Doena renal cstica
Eritrocitose espria, com reduo do volume
plasmtico e massa eritrocitria normal alta
(sIndrome de Gaisbock)
Outros distrbios mieloproliferativos
TRATAMENTO
O tratamento destes pacientes tem como objetivo a manuteno de um hematcrito menor que 45% para
homens e menor que 43% nas mulheres, o que facilmente obtido atravs da flebotomia. Tais objetivos so
responsveis por uma sobrevida global em 7 anos em torno de 80%.
Portanto, o tratamento pode ser feito da seguinte forma:
Baixorisco:
o Flebotomia: consiste na retirada do sangue (de, no mximo, 10% da volemia) sem que este seja
reutilizado de forma teraputica – , simplesmente, desprezado. A flebotomia visa a retirada de 0,7ml de
sangue/kg de peso para homens e 0,6ml de sangue/kg de peso para mulheres. Naqueles pacientes que
apresentam problemas de parestesias e dormncia nos lbios, podemos associar o uso de Aspirina,
100mg/dia.
Risco intermediário:
o Hidroxiuréia: por se tratar de uma doena crnica, a flebotomia pode se tornar ineficaz (pois, aps a
retirada, a medula pode passar a sintetizar novas clulas cada vez mais rapidamente). Com isso,
podemos associar Hidroxiuria e AAS. o tratamento mais utilizado em termos evolutivos.
Alto risco:
o Hidroxiuria + AAS 100mg/dia
MIELOFIBROSE
caracterizada por uma proliferao de megacaricitos e granulcitos na medula ssea, o que leva a uma
fibrose reacional da medula. Com isso, as clulas medulares permanecem impedidas de sofrer mitose devido fibrose, o
que produz uma migrao de clulas para periferia orgnica, ocasionando uma proliferao hematopoitica em rgos
que participaram da hematopoese no perodo embrionrio (ou seja, bao e fgado).
QUADRO CLÍNICO E DADOS LABORATORIAIS
Sintomas de pancitopenia: anemia (60% dos casos), infec
es e sangramento; associados a aumento de fgado
e bao.
Leucoeritroblastose: aumento de leuccitos e
eritroblastos no sangue circulante.
Esplenomegalia (95% dos casos)
Hepatomegalia (65% dos casos)
Hipertenso porta e Sndrome de Budd-Chiari
(trombose de veias supra-hepticas).
Fenmenos hemorrgicos (16%)
Presena de dacricitos em grande quantidade
(hemcias em lgrimas)
25% so assintomticos
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DIAGNÓSTICO
Aspirao de medula ssea com frequncia “seca” (dry tap)
Bipsia de medula ssea: fibrose
JAK 2 positivo em 50% casos
Hemograma: Leucoeritroblastose + Hemcias em lgrimas (dacricitos)
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Leucemia mielide crnica
Leucemia neutrofilica crnica
Sndromes mielodisplsicas (SMD)
Sndromes mieloproliferativas crnicas
Sndromes mieloproliferativas/mielodisplsicas
TRATAMENTO
Atualmente, no h um tratamento especfico para essas doenas. Podemos lanar mo da Hidroxiuria ou
tentar transfus
es sanguneas, com reposio de plaquetas e/ou hemcias, se necessrio.
TROMBOCITEMIA ESSENCIAL
Caracteriza-se por ser uma doena mieloproliferativa clonal que envolve primariamente a linhagem
megacarioctica. Consiste em um diagnstico de excluso e pode ser biologicamente heterognea.
Nesses pacientes, h uma trombocitose crnica com nveis plaquetrios acima de 600.000 (VN: 150.000 a
400.000 por microlitro de sangue). Quando as plaquetas atingem valores acima de 1 milho, j existem grandes riscos
de ocorrer fenmenos tromboemblicos e hemorrgicos. Acomete com uma maior frequncia pacientes idosos (6-7
dcadas de vida).
QUADRO CLÍNICO
Mais de 50% dos pacientes so assintomticos
Sintomas microcirculatrios (cefalia, distrbios visuais, auditivos, Reynaud, eritromegalia)
Fenmenos trombticos (AIT, isquemia digital)
Fenmenos hemorrgicos (mucosas, TGI)
Esplenomegalia em 50% dos casos
Hepatomegalia em 15% a 20%
JAK2 positivo em cerca de 50% casos
DIAGNÓSTICO
Nmero aumentado de plaquetas;
Bipsia de medula ssea;
Ausncia do cromossomo Filadlfia (ver OBS2).
OBS2: O cromossomo Filadélfia ou translocao Filadlfia uma anormalidade cromossmica que est associada
leucemia mielide crnica. Corresponde a uma translocao cromossmica recproca envolvendo os braos longos dos
cromossomos 9 e 22. Ele encontrado em mais de 90% dos casos de leucemia mielide crnica (LMC). Entretanto, a
presena do cromossomo Filadlfia no suficientemente especfica para diagnosticar a LMC, j que ele tambm
encontrado na leucemia linfoblstica aguda (LLA, 25-30% em adultos e 2-10% em casos peditricos) e ocasionalmente
na leucemia mielide aguda (LMA).
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Outros distrbios mieloproliferativos (especialmente policitemia vera)
Trombofilias
Infeco crnica ou doena auto-imune, cncer visceral (trombocitose reativa)
Deficincia de ferro
TRATAMENTO
Hidroxiuria
Anagrelide
cido acetilsaliclico em baixas doses, se necessrio, para prevenir sintomas vasotrombticos.
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MED RESUMOS 2011
CORREIA, Luiz Gustavo; NETTO, Arlindo Ugulino.
HEMATOLOGIA
LEUCEMIA MIELÓIDE AGUDA
(Professora Angelina Cartaxo)
A leucemia mielóide aguda (LMA) uma doena caracterizada por uma proliferao clonal e maturao
aberrante de um dos precursores hematopoiticos da linhagem mielide. Com maior frequncia em idoso, com idade
superior a 65 anos, o paciente com leucemia deve ser assistido por uma equipe multidisciplinar, com comunicao
interdisciplinar, destacando-se o prprio mdico oncologista, hematologista, fisioterapeuta, assistente social,
enfermeiros.
A LMA surge com uma alterao gentica na clula hematopoitica, que faz com que as clulas jovens, que so
as clulas imaturas (tambm denominadas de blsticas), proliferem de maneira exacerbada. Com isso, h uma perda da
capacidade do amadurecimento celular, bem como de sua diferenciao, com consequente acmulo de clulas imaturas
na medula ssea, de modo a impedir que a hematopoiese ocorra de maneira eficaz.
Em consequncia, o paciente apresentar anemia, plaquetopenia, leucocitose ou leucopenia. Na teoria, o
paciente deveria apresentar uma leucopenia, at porque, o acmulo de blastos na medula ssea faz com que o
continente (leia-se o espao interno da medula ssea), impea que as clulas normais funcionem. Mas, a quantidade de
clulas imaturas to grande que, os blastos chegam a transbordar da estrutura medular e alcanam o sangue,
cursando com uma leucocitose, porm, custa de clulas blsticas.
EPIDEMIOLOGIA
No geral, a leucemia mielide aguda corresponde a mais de 80% de todas as leucemias que possam afetar a
populao da idade adulta, bem como, 15 a 20% da faixa etria peditrica. No contexto geral, representa uma estatstica
de 2,4 casos para cada 100 mil habitantes, com incidncia aumentada com o acrscimo da idade. Para se ter idia, a
estatstica da LMA, quando levamos em conta a populao acima de 65 anos, atinge a cifra de 12,6 casos por 100.000
habitantes.
ETIOLOGIA E FATORES DE RISCO
Radiao ionizante. uma etiologia, de certeza, comprovada na LMA. A participao da radiao aps as
explos
es atmicas em Hiroshima e Nagasaki traduz que a natureza da radiao tem relao direta com o
aumento das estatsticas da LMA.
Substncias qumicas: benzeno, derivados do petrleo, solventes, pesticidas
Agentes quimioterpicos
Doenas genticas, tal como a sndrome de Down, com incidncia aumentada em 15 vezes, quando
comparadas com a populao normal.
Anemia de Fanconi: sndrome autossmica recessiva que cursa com altera
es renais, do tipo “rim em
ferradura”, bem como altera
es do crescimento e desenvolvimento sseo.
Sndrome de Bloom, que caracterizada por quebras cromossmicas frequentes.
Sndrome de Schawchman-Diamond
Sndrome de Kostman
MANIFESTAES CLNICAS
Os sintomas e sinais surgem de forma, praticamente, abrupta. A histria de 10 a 15 dias com sintomas
inespecficos de insuficincia medular, tais como fraqueza, palidez cutneo-mucosa, baixa imunidade e, em seguida,
sangramentos (que traduzido por equimoses, petquias, hemorragias, epistaxe). No geral, os sintomas e sinais
simplesmente reproduzem uma deficincia na produo celular pela medula ssea devido proliferao exagerada de
blastosque nela ocorre. Associado ao quadro generalizado, o paciente pode ainda apresentar febre, que pode ser por
conta da atividade da doena e/ou infeco associada pela imunodeficincia.
No exame fsico, podemos ainda notar o aumento do bao e fgado (hepatoesplenomegalia), que nos informa
que houve uma infiltrao de clulas imaturas (blsticas), em tais rgos. Outra informao importante que, em
algumas ocasi
es, tambm pode ocorrer infiltrao de clulas blsticas na pele, formando uma tumorao, que recebe a
denominao especial de cloroma.
Sinais e sintomas de anemia, fenmenos hemorrgicos, com ou sem febre;
Hepatoesplenomegalia;
Cloroma;
Infiltrao do SNC rara (o que possibilita j uma diferenciao da leucemia linfide aguda, cuja infiltrao
neurolgica um evento mais comum).
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AVALIAO DIAGNSTICA
Diante do paciente com o quadro sintomático previamente descrito, o médico assistente faz a investigação a
partir do hemograma. Através dele, podemos, em 90% dos casos, observar uma anemia normocítica e normocrômica,
podendo se associar a leucocitose/leucopenia, com ou sem presença de blastos (BL) no sangue periférico. Aliado ao
hemograma, ocorre ainda um aumento do ácido úrico, bem como do DHL, demonstrando que há uma renovação celular,
com produção de mais células blásticas. O mielograma demonstra mais de 20% de blastos no esfregaço.
Hemograma: anemia (normocítica e normocrômica) em 90% dos casos, leucopenia ou leucocitose (mais
comum) ou normais, com ou sem blastos no sangue periférico, plaquetopenia.
Alterações metabólicas, hiperuricemia, aumento do DHL
Mielograma: é o único exame que faz diagnóstico de leucemia mielóide aguda: os exames anteriormente
citados somente fazem suspeita de LMA, a confirmação somente é obtida pelo mielograma. A principal alteração
evidente é a população dos blastos maior que 20% no esfregaço.
MIELOGRAMA
O paciente é colocado em decúbito dorsal, e o médico insere uma agulha perpendicularmente ao esterno, crista
ilíaca ou tíbia. É feita mediante a aplicação de anestesia local, em seguida, o médico deve aspirar uma pequena
quantidade de medula óssea. O conteúdo é colocado no esfregão e é corado por corantes específicos, avaliados pela
microscopia. A lâmina deve ser analisada sob os seguintes aspectos: forma das células, contagem das células, etc. A
forma dos blastos, que é identificado pelo mielograma, também define se é uma leucemia mielóide aguda ou linfóide.
Na linhagem linfóide, quando a alteração genética é na célula progenitora, ocorre uma leucemia linfóide aguda,
que pode ser de linhagem B ou T. As alterações genéticas nas células primordiais genitores mieloide cursa com LMA,
que pode comprometer o setor neutrofílico, monofílico, leucemia megacarioblástica, eritroleucemia (que compromete os
eritroblastos).
CITOQUÍMICA
A citoquimica sempre foi muito utilizada, mas, ao longo dos anos, perdeu espaço para a imunofenotipagem.
Mieloperoxidase (MPO): enzima presente nos grânulos azurófilos das células granulocíticas e monocíticas.
Positivo na LMA, é a mais sensível das variáveis avaliadas pela citoquímicas.
Sudam Black: cora em negro os fosfolipídios presentes em granulocitos e monócitos. Positivo na LMA
Esterase não-específica: enzima presente nos monócitos que cliva a alfa-naftil do corante que reage corando.
Positivo na LMA
PAS (reação do periódico de Schif): o glicogênio das células da LLA reage com composto de Shif, corando em
bloco. É o único exame que é positivo na leucemia linfóide aguda, mas negativo na LMA. Portanto, podemos
diferenciar a LMA da LLA a partir do PAS.
IMUNOFENOTIPAGEM
É um exame capaz de obter características da linhagem da leucemia. A partir da imunofenotipagem, obtemos
informações sobre os antígenos de superfície do blasto, que são característicos, a depender da linhagem, se é mielóide
ou linfóide. É feito no momento em que o médico procede do mielograma, ou seja, parte do material aspirado é colocada
no tubo de ensaio em contato com o EDTA e os anticorpos monoclonais.
Colocamos os anticorpos monoclonais para pesquisar linhagem mielóide (CD13, CD33) e da linhagem linfóide
(CD19, CD20). Em seguida, avalia-se o tubo de ensaio. Caso seja mielóide, ocorre uma reação com os anticorpos
monoclonais previamente descritos, demonstrando uma fluorescência na avaliação pela citometria de fluxo. A linhagem
mielóide possui, basicamente, independente da sua subclassificação, os marcadores CD13 e CD 33. É valido lembrar
que o sangue periférico de indivíduos que não possuem leucemia também pode cursar com CD13 e CD33 positivos.
Devemos diferenciar pelo fato que, na leucemia, as células que predominam são células blásticas (imaturas).
CD34, CD117 demonstram que as células são imaturas
Na fase promielocítica, o CD34, CD117 são negativos. Neste caso, devemos avaliar a presença do CD14, CD15
e CD11c.
Na fase M6, ocorre fluorescência pela citometria de fluxo com a glicoforina A.
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CITOGENTICA DA LMA
A avaliao citogentica somente serve para avaliar o prognstico do paciente, principalmente, no que se refere
a necessidade ou no de realizar transplante de medula ssea.
Grupo de prognstico favorvel: t(8;21) LMA M2, t (15;17) LMA M3, Inv 16, LMA M4; A forma LMA-M2, que
a que possui menos de 90% de blastos possui bom prognstico.
Grupo de prognstico desfavorvel: caritipo complexo, monossomias do 5 ou 7.
Grupo de prognstico intermedirio: caritipo normal ou anomalias no includas nos outros subgrupos.
ANORMALIDADES MOLECULARES
Baixo risco: citogenetica normal com mutao da NPM1 ou mutao da CEBPA
Alto risco: Alta expresso da EVI1/ Citogentica normal, com FLT3-ITD na ausncia de mutao da NPM1
CLASSIFICAO
O grupo franco-americano-britnico (FAB), classificou as leucemias agudas em M0 – M7, segundo a quantidade
e morfologia de blastos encontrados, auxiliando na determinao do prognstico do paciente.
M0- MPO + por mtodo imunolgico CD13+, CD33+
M1 - >90% de blastos MPO+ > 3% blastos
M2 - % de blastos > de 20 e 90% na MO
M3- predomnio de clulas promielocticas
M4 – componente monoctico entre 20-80% > 5000 moncitos no SP
M5 – componente monoctico > 80%
M6 – Blastos>20%, eritroblastos>50%
M7 – Megacarioblastos>20%
M0. O subtipo M0 a leucemia mielide mais imatura. Por ser to imatura, chega ao ponto em que a morfologia
do blasto pode ser difcil de ser analisada e, portanto, o diagnstico diferencial entre a leucemia linfide e
mielide tambm pode ser complicado. A imunofenotipagem, que detecta os antgenos de superfcie dos blastos,
quem d o diagnstico definitivo.
a forma mais imatura. A morfologia de difcil diferenciao, por se tratar de
blastos que tem um ncleo que toma quase toda a clula, com citoplasma escasso. O
ncleo bem condensado, (geralmente, bem roxo), sem a presena de grnulos
citoplasmticos. O diagnstico diferencial com a forma linfide feito atravs da
imunofenotipagem.
M1. O subtipo M1 a que possui mais de 90% de blastos no esfregao, significando que a medula apresenta-se
repleta de clulas imaturas.
H uma maior predominncia de blastos. O blasto bem maior que a
anterior, com colorao mais clara, contendo alguns grnulos dentro do
citoplasma. Isso chamado de basto de Auer, que patognomnico da
leucemia mielide aguda.
M2. O subtipo M2 o que possui mais de 20% de blastos e menos de 90%. O ponto de corte para diferenciar se
a leucemia , realmente, aguda a predominncia de 20% de blastos. Acima de 90%, conforme vimos
anteriormente, M1.
Maior predomnio de clulas blsticas, mielcitos, segmentados,