Prévia do material em texto
A Luz que Brilhou no Abismo Escuro MAGGI LIDCHI-GRASSI Editora Shakti Este livro é dedicado ao Grande Senhor e à Senhora Celestial, Sri Aurobindo e a Mãe. Ele é também dedicado à minha amada mãe, Eliane, que sofreu o exílio de seu lar, e ao meu pai, Henri Lidchi, que, tendo lido o Mein Kampf de Hitler, teve a presciência de retirar-nos do cenário de seu terror. � AGRADECIMENTOS Minha primeira dívida de gratidão vai para Arvind, que, antes de qualquer pessoa e quando este livro era ainda um apêndice à história de John Kelly, viu o significado do que eu estava intentando. Em três semanas de trabalho intensivo, ele ajudou-me a peneirar o material que eu havia reunido até então, e também conseguiu obter o livro de Peikoff e o Ascensão e Queda do Terceiro Reich� Com inesgotável energia, ele digitou minhas páginas no computador e foi uma fonte de boas sugestões. E a Suzanne, por sua meticulosa revisão. A Twinkie e Subash, cujo constante apoio e entusiasmo sempre me sustentaram, digo "un grand merci". Obrigada também a Swadhin, pela sua mão sempre pronta a ajudar, e também a Ulli. Agradeço a Dyumanbhai, atualmente curador gerente do Sri Aurobindo Ashram, que serviu à Mãe por muitos anos, pelas úteis informações adicionais, pela ajuda e pelo caloroso apoio e interesse, assim como a Nirodbaran, o secretário de Sri Aurobindo. Este livro procura reconhecer o que Sri Aurobindo, a Mãe e os instrumentos por eles escolhidos fizeram para salvar o mundo da escuridão. A todas as milhões de pessoas que, intencionalmente ou não, aderiram à Luz naquele momento de grande provação, e assim permitiram que as forças evolucionárias prevalecessem, e a todos que ainda o fazem, nutrindo o conceito de uma nova consciência e dessa forma criando um clima que indubitavelmente possibilita que livros como este sejam escritos, eu estendo meu coração e agradecimento. M.L.G. INTRODUÇÃO Um amigo acabou de devolver-me um rascunho de A Luz que Brilhou no Abismo Escuro, dizendo que eu jamais poderia publicar este livro sem primeiro explicar Sri Aurobindo e a Mãe. Sri Aurobindo desencorajou todas as biografias dizendo, "Minha vida não está na superfície para ser vista pelos homens". Quando me sentei para tentar escrever algo sobre ele, percebi que não poderia. E a razão pela qual não poderia é precisamente porque a vida de Sri Aurobindo não está na superfície para ser vista pelos homens. Sri Aurobindo e a Mãe são o futuro, a evolução futura da humanidade. O futuro não pode ser compreendido pelo presente, exceto profeticamente. Essa é a antiquíssima situação do tempo linear em si próprio. Como traduzir uma dimensão para outra. Tentarei explicar por analogia. Do raio X, Lorde Kelvin disse ter certeza de que se mostraria uma farsa. Em 1943, o presidente da IBM estimou que cinco computadores seriam o máximo que o mercado mundial poderia absorver. No século passado, o Escritório de Patentes dos Estados Unidos escreveu ao presidente McKinley, dizendo que tudo que poderia ser inventado já o havia sido, e que não havia mais razão para a existência de seu departamento. E na exibição de Paris, quando o fonógrafo foi demonstrado pela primeira vez, um dos juízes agarrou o exibidor pela lapela e o sacudiu gritando, "Monsieur, você pensa que pode nos enganar com seu ventriloquismo?" Apesar da explosão da bomba atômica, o conceito do átomo não se tornou realidade na mente da maioria das pessoas. No que se refere a isso, não nos atualizamos com o conhecimento de que a Terra translada ao redor do sol, enquanto gira em torno do próprio eixo. Não apenas retivemos as expressões do nascer e do pôr do sol, como também é assim que vemos e sentimos isso: o Velho Sol tranqüilamente mergulhando atrás das montanhas ocidentais, recolhendo-se confortavelmente à noite, para, brilhante, novamente se levantar cedo pela manhã. Apenas a tentativa de experimentar o que está na realidade acontecendo já causa vertigens na maioria dos organismos.� Geralmente, mesmo as descobertas simples levam uma geração para tornarem-se lugares comuns, quer seja no campo doméstico, da física ou médico, se pensarmos na batalha travada contra a medicina homeopática.� Hoje, a história repete-se no campo do conhecimento oculto. A despeito do fato de que o médium israelense Yuri Geller tenha sido visto por milhões na televisão, demonstrando entortar colheres com o poder da mente (não que Sri Aurobindo tenha alguma coisa a ver com entortar colheres), isso pareceu não causar uma mudança verdadeira no entendimento do público ou da ciência sobre as leis físicas. Enquanto a pesquisa acadêmica (Universidade Duke) sobre a percepção extrasensorial mostrou que o pensamento pode ser transmitido à distância, e mesmo sonhos específicos podem ser implantados na mente de uma pessoa adormecida por outra mente, sem estímulo físico, achamos difícil acreditar que a mente de líderes políticos possa ser influenciada. Mas, temos alguma razão para não acreditar que uma forma de bloqueio oculto ao projeto de Hitler tenha sido utilizada com sucesso, desconhecida para o mundo? Qualquer um de nós, conscientemente ou não, pode apoiar os poderes da Luz. Tais coisas somente podem ser recontadas, não provadas, mas é isso exatamente que esta compilação está tentando estabelecer. Fiz o mínimo de comentários possível, de forma a permitir que o material falasse por si próprio. Esta é a história do violento ataque à evolução humana empreendido pelo que é, agora, seu escuro passado evolutivo, que a cada degrau resiste ao próximo ciclo evolutivo. Mais ainda, é a história das forças que trabalharam para detê-lo. Tudo o que a humanidade alcançou espiritualmente e tudo que estava avançando esteve sob um ataque de violência sem precedentes durante a 2a Guerra Mundial. Nenhuma das realizações externas de Sri Aurobindo nem da Mãe podem iluminar o papel que eles representaram nesse ponto de nossa história. Fazer justiça ao seu trabalho, localizá-los corretamente no tempo, espaço e história, não é possível numa curta introdução. Basta dizer que eles foram a vanguarda de um avanço totalmente novo na evolução. Resumidamente, Sri Aurobindo nasceu em Bengala, em 1872, estudou na Inglaterra, em St.Paul e em Cambridge, e retornou à índia, onde se tornou um líder revolucionário; mas, depois de suas realizações espirituais numa prisão britânica, ele passou o resto de sua vida na Terra em retiro Ióguico, em Pondicherry, trabalhando a partir de planos internos sutis. A Mãe, de descendência sefardita do Oriente Médio, nasceu na França, em 1878, estudou artes em Paris, estudou ocultismo com Théon no norte da África, e juntou-se a Sri Aurobindo em Pondicherry para apressar com ele o trabalho da evolução. Dizer que seu trabalho sobre a consciência celular abre uma era totalmente nova na jornada da humanidade em direção à luz seria dizer pouco. A evolução terrestre trabalha em longos e tediosos ciclos, mas a cada novo ciclo ela acelera; entre o começo de um novo ciclo e o fim de um velho existe um período de transição durante o qual o Espírito Supremo encarna para iniciar e guiar a humanidade. Estamos agora vivendo exatamente um desses períodos cruciais. Títulos de livros da Mãe e sobre o seu trabalho, assim como de e sobre Sri Aurobindo, podem ser encontrados na bibliografia. O Despertar dos Mágicos�, que citamos extensivamente, apareceu na França logo após a 2a Guerra Mundial e é de autoria de Louis Pauwels e Jacques Bergier, que foi confinado num campo de trabalho nazista durante a guerra. Até onde sabemos, foi o primeiro livro que tratou das forças não reveladas em ação no Hitlerismo. Pauwels e Bergier mencionam Sri Aurobindo, que eles haviam obviamente lido.� Eis o que dizem: "A psicologia acompanha a ciência muito de longe. A assim chamada psicologia moderna ainda estuda o Homem conforme a concepção corrente num século dezenove entregue ao positivismo militante. A ciência genuinamente moderna lança-se à prospecção de um Universo que se descobre cada vez mais surpreendentee menos ajustado à concepção oficialmente aceita da estrutura da mente e da natureza do conhecimento. A psicologia dos estados de consciência pressupõe um homem completo e estático: o Homo sapiens do 'Século da Luz'. A física desvela um mundo que funciona em vários níveis ao mesmo tempo e que tem muitas portas se abrindo para o infinito.... As ciências exatas fazem fronteira com o fantástico. As ciências humanas estão ainda muradas por superstições positivistas. A noção do 'tornar-se', da evolução, domina o pensamento científico." "A psicologia baseia-se ainda numa visão de homem 'acabado', cujas funções mentais foram catalogadas e classificadas em ordem hierárquica de uma vez por todas. Agora nos parece, pelo contrário, que o Homem não está de maneira nenhuma em seu estágio final; acreditamos ser possível discernir, através das grandes transformações que estão mudando a face do mundo, verticalmente na esfera do conhecimento, horizontalmente como resultado dos agrupamentos de massa, os primeiros sinais de uma nova tendência na consciência humana, uma 'mudança rejuvenescedora' no interior do próprio Homem. Conseqüentemente, uma psicologia adaptada ao tempo em que vivemos, se for efetiva, deve, acreditamos, basear-se não no que o Homem é (ou melhor, parece ser), mas no que ele pode se tornar - ou seja, em sua evolução possível." Na última década deste século, essa verdade torna-se impressionantemente aparente. Sri Aurobindo diz que uma das indicações de que a Nova Era está se aproximando é que a ciência reconhecerá mais e mais as energias sutis. Esse momento está próximo. M.L.G. ... Grandes seres titânicos e demoníacos poderes, Egos-mundiais torturados pela luxúria e pensamento e vontade, Vastas mentes e vidas sem um espírito em seu interior: Impacientes arquitetos da casa do erro, Líderes da ignorância e da instabilidade cósmicas E patrocinadores do sofrimento e da mortandade Incorporavam as obscuras Idéias do Abismo. ... Sri Aurobindo de SAVITR1, Livro II, Canto VIII "Se pudermos detê-lo (Adolf Hitler), toda a Europa estará livre e a vida no mundo poderá avançar para extensos e ensolarados planaltos. Mas se falharmos, então o mundo inteiro afundará no abismo de uma nova era de trevas." Winston Churchill I "É parte da experiência daqueles que avançaram bastante no caminho do Yoga que, além das forças e atividades ordinárias da mente, da vida e do corpo na Matéria, existem outras forças e poderes que podem agir, e realmente agem, por trás e de cima; há também um poder espiritual dinâmico que pode ser possuído por aqueles que são avançados em consciência espiritual, apesar de que nem todos se interessem em possuí-lo ou, possuindo-o, em usá-lo, e esse poder é maior que qualquer outro e mais efetivo." Sri Aurobindo Sem desculpas, mergulhamos o leitor diretamente no escuro abismo do nazismo e da 2a Guerra Mundial, como registrados por Leonard Peikoff em Os Paralelos Ameaçadores:� "Os homens, mulheres e crianças que se tornariam os cadáveres saqueados ou os esqueletos vivos do sistema nazista de campos de concentração foram aprisionados na Alemanha, e depois por toda a Europa, às centenas e aos milhares, e depois aos milhões. Eles eram aprisionados nas casas, escritórios, fábricas, fazendas, escolas, e mesmo ao acaso, nos campos e nas ruas." "O transporte dos prisioneiros aos campos seguia um certo padrão." De acordo com Bruno Bettelheim, um sobrevivente de Buchenwald e um brilhante observador da vida nos campos, "a natureza do traslado fazia parte de um plano definido." "Os prisioneiros recentes eram tratados com desprezo, aos berros, eram esbofeteados, empurrados, chutados, chicoteados... A alguns era ordenado que fitassem luzes ou se ajoelhassem por horas. Alguns era forçados a bater ou a espancar outros prisioneiros. Alguns eram forçados a amaldiçoarem a si mesmos, a seus entes amados e a seus mais preciosos valores. Sob a ameaça de morte instantânea, ninguém ousava pronunciar nem um murmúrio de protesto, fazer um gesto em defesa própria ou dar um passo para ajudar uma esposa ou um marido caído à vista de todos, sangrando e morrendo." Hitler começou a tecer seu futuro infernal, preparando o material humano necessário para torná-lo realidade na Terra. "Prisioneiros eram levados em vagões de carga como gado, comprimidos nus uns contra os outros, transportados de um lado para outro sem razão, às vezes por dias, e então depositados em centros de extermínio aos cuidados de torturadores treinados." "... A característica marcante do mundo dos campos não era somente a injustiça, ou mesmo o horror, mas o horror que era ininteligível para a vítima." "Ao chegar aos campos, muitos dos prisioneiros, estupidificados pelo pesadelo de sua prisão e transporte, não sabiam o que lhes estava acontecendo ou mesmo onde estavam. Como regra, os nazistas não lhes diziam nada e não respondiam perguntas. O comportamento dos guardas era o de uma resposta ao evidente em si mesmo, comportavam-se como se os prisioneiros fossem criaturas sem nenhuma faculdade de inteligência, ou como se os prisioneiros houvessem agora entrado num mundo onde tal faculdade fosse irrelevante." "Na sociedade como um todo, os nazistas contavam grandemente com o poder da ideologia; não existe outra forma de reinar sobre um país inteiro. A disseminação da ideologia, no entanto - qualquer ideologia, mesmo a nazista - implicitamente ratifica a importância de idéias de escolha e julgamento individuais, da mente dos ouvintes. Nos campos, tais implicações não eram permitidas." "Não foi feita nenhuma tentativa de apresentar o ponto de vista nazista aos prisioneiros. Não havia pronunciamentos justificatórios, nem resumos do Mein Kampf, nem propaganda, nem proselitismo. 'Educação (nos campos),' declarou Himmler, 'consiste de disciplina, nunca de nem um tipo de instrução de base ideológica.'" "A S.S. não queria que os prisioneiros aceitassem intelectualmente o nazismo, e rejeitava qualquer tentativa de aproximação da parte de pretensos convertidos. Quando certos prisioneiros procuravam fazer as pazes com a Gestapo, Bettelheim relata, a resposta da Gestapo era insistir em que os prisioneiros reprimissem a expressão de qualquer um de seus sentimentos, mesmo os pró-nazistas. 'Livre aceitação', observa a senhorita Arendt,� 'constitui-se num obstáculo para a dominação total, tanto quanto a livre oposição.'" "Os dominadores dos campos não toleravam que um prisioneiro se envolvesse com idéias de nenhum tipo, quer nazistas ou outras. Idéias são irrelevantes para um prisioneiro - essa era a idéia mestra; em Buchenwald e em Auschwitz, não havia lugar para o pensamento." "Nem tampouco, os prisioneiros logo aprenderam, havia lugar para a individualidade. Ao entrar num campo, o prisioneiro trazia consigo o conhecimento alcançado pelo homem civilizado; era evidente para ele que ele (como todos os homens) era uma entidade individua1 com uma identidade única. Os campos procediam metodicamente no desprezo dessa evidência." "Caracteristicamente, os guardas não sabiam nem procuravam saber nada sobre nenhum prisioneiro em particular. Freqüentemente, eles não conseguiam, ou deliberadamente recusavam-se a, reconhecer qualquer diferença entre um prisioneiro e outro. Um assustador igualitarismo prevalecia: para a S.S., as coisas sendo manipuladas por gritos, chutes e armas não eram entidades humanas individuais, cada uma com sua própria aparência, caráter, vida; elas eram células indistinguíveis de uma massa indiferenciada, unidades sem face feitas de agonia, imundície e indignas, cada uma igual e intercambiável com centenas ou milhões de outras tais unidades." "A responsabilidade pessoal não era reconhecida nos campos. Se um prisioneiro fizesse algo considerado como passível de punição, ele não era tratado como réu. Ao invés disso, tanto quanto possível, todos os membros do grupo ao qual ele pertencesse, inclusive ele mesmo, eram punidos pela ação, independentementedo comportamento ou do conhecimento de cada membro com relação ao incidente; todos eram cruel e igualmente punidos, e como um grupo. (Fora dos campos uma variante desse método era praticada: a polícia intimidava algum grupo insatisfeito, como por exemplo, médicos ou advogados, prendendo ao acaso uma amostra de seus membros, sem referência a nenhuma ação individual, culpa ou inocência.)" "Uma vez que os prisioneiros sabiam que todos poderiam ser punidos pelos atos de qualquer um, eles freqüentemente temiam e tentavam impedir a ação independente por parte dos outros prisioneiros, mesmo a ação dirigida a ajudar prisioneiros em especial necessidade ou perigo. Assim, feitos de coragem heróica eram geralmente condenados pelos próprios beneficiários, e os heróis, nas palavras de Bettelheim, eram 'impedidos de reacender o respeito pelo indivíduo ou de inspirar uma apreciação da independência.'" "Que uma intenção específica, e não apenas uma crueldade fortuita, estava por trás disso é indicado pela política da S.S. em relação aos prisioneiros que concordavam em servir como seus espiões. Um espião era vulnerável a reprimendas dos outros prisioneiros, mas a S.S. protegia-o apenas por um tempo limitado, mesmo que ele estivesse transmitindo as informações desejadas; depois desse tempo, matavam-no (ou permitiam que fosse morto). 'Sob nenhuma circunstância', explica Bettelheim, 'eles deixariam que um prisioneiro se tornasse uma pessoa através de seu próprio esforço, mesmo que esses esforços fossem úteis à S.S.'" "O prisioneiro não podia se tornar uma pessoa, acima de tudo, a seus próprios olhos. Ele tinha que perder toda conexão com o mundo da eficácia humana ou do valor humano. Ele tinha que aprender a se ver como um sub-animal acuado e fedorento, uma coisa sem nenhuma capacidade, a não ser a de fugas momentâneas do terror e a da satisfação momentânea das necessidades físicas mais baixas. "Não era suficiente que os prisioneiros enterrassem e esquecessem sua individualidade; como alguns prisioneiros compreenderam na época, a intenção era que eles se tornassem objetos repugnantes a seus próprios olhos." "'No começo [escreve um dos sobreviventes], os lugares onde vivíamos, as valas, a lama, os montes de excremento atrás dos alojamentos chocaram-me profundamente com sua horrível imundície... e então eu vi a luz! Vi que aquilo não era uma questão de desordem ou falta de organização mas que, pelo contrário, uma idéia consciente muito bem elaborada estava por trás da existência dos campos. Eles haviam nos condenado a morrer em nossa imundície, a nos afogarmos na lama, em nosso próprio excremento. Eles desejavam nos degradar, destruir nossa dignidade humana, apagar todo vestígio de humanidade, levar-nos de volta ao nível dos animais selvagens, encher-nos de horror e desprezo por nós mesmos e por nossos companheiros.'" "Você não pode compreender, porque este mundo não pode ser compreendido; essa era a primeira parte da mensagem transmitida ao prisioneiro por todas as condições degradantes e destruidoras da alma que ele encontrava, incluindo os padrões de vida incompatíveis com a vida, as regras sem causa, as torturas sem propósito - as condições que nenhuma mente poderia aceitar ou conceber, as condições impostas, porque nenhuma mente as poderia conceber. E: você não pode entender porque você é nada; essa era a segunda parte da mensagem." "Um método dessa campanha era confrontar o prisioneiro com dilemas impossíveis de serem resolvidos, que apresentassem alternativas impensáveis, e então exigir que ele fizesse uma escolha. Um homem teria que escolher, por exemplo, entre trair seus amigos, e assim mandá-los para a morte, ou sua esposa e filhos; para tomar seu posicionamento ainda mais impossível, ele era acautelado de que seu suicídio levaria ao assassinato de sua família. Ou uma mãe teria que escolher qual de seus filhos os nazistas deveriam matar." "Não era suficiente que o prisioneiro suportasse o mal passivamente; a intenção era de primeiro paralisar sua faculdade moral e então forçá-lo, qualquer que fosse sua escolha, a implicar-se no mal. O prisioneiro torna-se, nas palavras da senhorita Arendt, uma criatura que escolhe 'não mais entre o bem e o mal, mas entre assassinato e assassinato': e ele aparenta a si mesmo tornar-se, mesmo que a contragosto, um acessório dos matadores. Racionalmente, nenhum homem pode ser considerado responsável por atos ou decisões que lhe foram obrigados. Em muitos casos, no entanto, a política dos campos conseguiu alcançar sua meta; nas mentes de homens famintos e estupidificados, ela era capaz de borrar a linha entre vítima e matador. O resultado era a erosão do conceito de responsabilidade moral como tal, e/ou o deslocamento da culpa para a vítima.'" "'Não ouse perceber' - era ordenado aos prisioneiros - 'não olhe para o que está acontecendo ao seu redor, feche os olhos e os ouvidos, não seja consciente. Violar essa regra', coloca Bettelheim, 'era perigoso. Por exemplo, se um homem da S.S. estivesse matando um prisioneiro e outros prisioneiros ousassem olhar o que estava acontecendo em frente a seus olhos, ele instantaneamente os matava também.'" "Para evitar tais represálias, o prisioneiro tinha que aprender a suprimir qualquer sinal exterior de percepção (assim como ele tinha que suprimir qualquer sinal de individualidade); ou então ele tinha que realmente agir de acordo com a regra, treinar-se na arte e na prática da não-percepção. Mas a não-percepção também não funcionava; na medida em que os prisioneiros conseguiam sufocar seu poder de consciência, tornavam-se incapazes de se proteger até do perigo evitável, e não duravam muito." "Era esperado que o prisioneiro renunciasse a tudo; ele deveria renunciar a toda característica e função voluntária, desde pensamentos e valores até o movimento de seus olhos e de sua cabeça." Os prisioneiros, é óbvio, eram forçados a um yoga pervertido. "Aquela penumbra só fazia escurecer. Aos homens da S.S. era proibido conversar com os outros, exceto o que fosse necessário para o cumprimento de seus deveres. Quando criticados em reuniões, eles simplesmente levantavam-se e saíam. A idéia, como salientou o ministro do Reich Schwerin von Krozigk, era 'cultivar um determinado caráter'. O capitão da S.S. Josef Kramer descreveu em Nuremberg como matou com gás oitenta prisioneiros de Auschwitz. Foi-lhe perguntado quais eram os seus sentimentos na época. 'Eu não tinha sentimentos', ele respondeu. 'Assim ... foi como eu fui treinado'. 'Mas', salienta Bettelheim, 'se alguém desiste de observar, de reagir e de agir, desiste de sua própria vida. E era isso exatamente o que a S.S. queria que acontecesse.'" "A maioria dos guardas não sabia, mas o mesmo tipo de causa estava produzindo o mesmo tipo de efeito neles também. O jovem da S.S. pode ter pensado que estava meramente fazendo um trabalho ou ganhando uma promoção, mas, de fato, ele também não estava mais vivendo sua própria vida." "Os guardas eram bem vestidos, bem alimentados e ideologicamente treinados. Mas eles também estavam sendo processados e moldados. O prisioneiro estava aprendendo a submeter-se ao poder absoluto. O guarda estava aprendendo a exercê-lo, com tudo o que isso requer, e destrói, daquele que o exerce." "Com toda punição imotivada que infligia, quer em resposta a uma ordem ou por iniciativa própria, o jovem guarda estava negando a idéia do homem como entidade soberana e possuidora de direitos; ele estava negando-o não apenas na mente do prisioneiro, mas na sua própria. Com cada atrocidade impensável que cometia, o guarda estava negando seu senso pregresso de moralidade, estava ajudando a tornar irreal a seus próprios olhos sua vida anterior ao campo, incluindo os valores não nazistas que ele uma vez possuíra. Com cada regra insana e contradição mutável que mantinha ou inventava, o guarda estava se educando na insensibilidade, estava aprendendo a fazer da negação da lógica um hábito mental que logo se tornaria paraele uma segunda natureza. (O guarda experienciava todas essas negações também como receptor: não havia forma de punição ou de capricho maligno e selvagem que seus superiores não infligissem nele quando sentissem vontade.)" "Ninguém, nem os prisioneiros nem os guardas, podia suportar ou mesmo acreditar completamente naquilo. Os prisioneiros não podiam acreditar num mundo no qual os caprichos da S.S. estabeleciam todos os termos da existência humana. Eles não podiam acreditar num mundo que parecia, nas palavras da senhorita Arendt, 'perpetuar o próprio processo da morte', como se 'algum espírito mau enlouquecido estivesse se divertindo, mantendo-os entre a vida e a morte. ... '" Não havia dúvida a respeito. Nada poderia ser mais claro. Isso era o que realmente estava acontecendo. "... Eles tinham que lutar até para absorver os tipos de eventos que testemunhavam ou ouviam falar, tais como grandes cirurgias sendo executadas em prisioneiros por médicos treinados, 'sem a menor razão', um sobrevivente escreve, e sem anestesia; ou, como um outro relata, um prisioneiro sendo jogado, como punição, numa 'grande panela de água fervente, que seria utilizada para preparar o café do campo. A [vítima] foi escaldada até a morte, mas o café foi preparado com aquela água do mesmo jeito'; ou crianças sendo escolhidas ao acaso, 'agarradas pelos pés e arremessadas contra troncos de árvores'; ou chamas 'erguendo-se de uma vala, labaredas gigantes. [Os nazistas] estavam queimando algo. Um caminhão aproximou-se e descarregou sua carga - crianças pequenas. Bebês! Sim, vi com meus próprios olhos.... Estaria sonhando? Não podia acreditar.'" "Afora os verdadeiros assassinatos, esta era a característica mais letal dos campos: a maioria dos prisioneiros não podia aceitar a realidade daquilo que viam, não podia conciliar o horror com a vida que tinham conhecido um dia, e ainda assim não podia negar a evidência de seus próprios sentidos. Para essas pessoas, os campos perderam toda a conexão com a vida na Terra e adquiriram um tipo de aura metafísica, a aura de não serem instituições humanas na Europa, mas um 'outro mundo', um mundo impossível, como uma segunda dimensão sobrenatural da existência, inconcebível em si própria e ainda assim eliminando a primeira...." Era realmente uma infiltração de outra dimensão da existência, um outro mundo feito de carne, não mais mantido à baila por nenhuma fagulha de Razão. Aqui, o inferno governava inteiramente. "O produto final dos campos, que os nazistas cuidadosamente moldavam, era a morte. O que a S.S. forjou foi a morte em massa, sem um murmúrio de protesto, a morte aceita placidamente, tanto pelas vítimas quanto pelos matadores, a morte executada não como um tipo de exceção, nem como um ato de vingança proposital ou de ódio, mas como uma rotina casual, sorridente e até mesmo caseira, freqüentemente com o pano de fundo de canteiros de flores e ao acompanhamento de animadas operetas. Era a morte como a confirmação de tudo o que a havia precedido, a morte como a demonstração final de um poder absoluto e da falta de razão absoluta, a morte como o triunfo final do nazismo sobre o homem e sobre o espírito humano." Mesmo nessas análises intelectuais, Leonard Peikoff, Hannah Arendt e Bruno Bettelheim intuíram as realidades por trás das transparentes aparências e usaram imagens ocultas e metafísicas. Nenhuma outra serviria. "Mas os matadores, também, eram humanos, ao menos biologicamente, e, mesmo com todo seu treinamento, mal podiam digerir tal triunfo. A maioria não conseguia encarar o que estava fazendo e tentava não saber de nada de que não precisasse saber. Como os prisioneiros, a S.S. também terminou, na verdade, praticando a arte de 'não perceber'. O 'perceber' do prisioneiro era erradicado dele pelo terror; para ela mesma, a S.S. encontrou outro método: a bebida. ...A maioria dos guardas estava tão freqüentemente bêbada, que a sobriedade se tornou digna de nota: 'no seu relatório sobre uma execução em massa pela S.S.', a senhorita Arendt escreve, 'uma testemunha ocular [nazista] tece altos elogios a uma tropa, que havia sido tão "idealista" que foi capaz de suportar "o extermínio inteiro sem a ajuda de bebidas alcoólicas.'" "Os partidários de Adolf Hitler estavam proibindo seus inimigos de perceber a realidade, e lutavam para induzir a mesma nulidade em seus próprios crânios. Os oponentes da consciência estavam lutando para extinguí-la em suas vítimas e neles mesmos." ... "Os campos de concentração eram um importante fator de abastecimento do reinado de terror nazista por todo o país, um reinado que, em algum grau, provou ser indispensável a todas as ditaduras da história. Todos os detalhes da vida nos campos eram escondidos dos alemães por estrito edital governamental, mas a existência dos campos, assim como a ameaça que eles representavam a qualquer um culpado de desobediência, eram vivamente anunciadas." "Entretanto, como um todo, o fenômeno dos campos transcendia essa explicação, ele transcendia questões econômicas, cálculos políticos, precedente histórico, e qualquer preocupação ou necessidade 'práticas', incluindo até os requerimentos básicos da própria sobrevivência do regime, fato eloqüentemente ilustrado pelas ações das lideranças dos campos na última parte da guerra. Confrontados por uma ameaçadora situação militar, esses homens tomaram os desesperadamente necessários veículos para transportar vítimas para os campos, construíram enormes usinas de extermínio, apesar de uma aguda falta de material de construção, e enfraqueceram projetos críticos de armamentos ao prender e deportar trabalhadores em massa. 'Aos olhos de um mundo estritamente utilitário [isto é, prático]', observa Hannah Arendt, 'a óbvia contradição entre esses atos e o interesse militar deu ao empreendimento todo um ar de louca irrealidade.' " "Existe apenas uma explicação fundamental para os campos de concentração. Os campos são 'experiências' sobre o poder, mas experiências de um tipo único, com um método e inspiração, específicos, e com resultados específicos, que estão ainda para serem completamente identificados. A inspiração está implícita na própria natureza e nas práticas da vida nos campos. "Devemos nos lembrar que isso não era apenas um método para a vida nos campos, mas um padrão de treinamento a ser implementado no país inteiro, e finalmente na Europa e no mundo. Esta era a lógica dos campos de concentração: treinar os soldados do satanismo. " Nosso esforço com este livro é justamente o de traçar a inspiração e identificar sua fonte, levantar o véu de um mundo que ainda existe. Hitler vangloriava-se: "Somos freqüentemente insultados por sermos os inimigos da mente e do espírito. Bem, isso é o que somos, mas num senso muito mais profundo do que a ciência burguesa, em seu orgulho idiota, jamais poderia imaginar." II � O ano é 1932, vários anos antes dos campos de concentração, sete anos antes do início da guerra. O lugar é a aconchegante e rústica casa de Hitler no Obersalzberg. O Dr.Hermann Rauschning, futuro governador de Danzig e um dos confidentes de Hitler, está ouvindo Hitler falar sobre o problema de uma mutação da raça humana. Rauschning nunca havia sido mais nada que um humanista, no começo um admirador de Hitler e, não possuindo a chave para tão estranhas preocupações, interpreta as observações de Hitler em termos de um criador de animais interessado no melhoramento da raça alemã. Em seu A Vida de Hitler, ele conta a sua resposta: "Mas tudo o que pode ser feito é dar assistência à Natureza e encurtar a estrada a ser seguida! É a própria Natureza que deve criar para você uma nova espécie. Até agora, apenas em raras ocasiões, os criadores tiveram sucesso no desenvolvimento de mutações em animais - ou seja, nele mesmo criar novas características." Hitler exclamou triunfantemente: "O novo homem está vivendo entre nós agora! Ele está aqui! Isso não é suficiente para você? Vou contar-lhe um segredo. Eu vi o novo homem. Eleé intrépido e cruel. Fiquei com medo dele." "Ao pronunciar essas palavras," completa Rauschning, "Hitler estava tremendo, numa espécie de êxtase." Outros tópicos queridos ao coração de Hitler foram ventilados num frígido dia outonal, nas montanhas bávaras. Hitler, cantarolando trechos de uma ópera wagneriana, alegremente acolhe seus convidados, Dr.Rauschning e Linsmayer. "A última guerra," diz Hitler, "degenerou ao final. Para a próxima guerra, preciso não ter escrúpulos e escolherei qualquer arma que julgue necessária. Os novos gases venenosos são terríveis... vamos arruinar a saúde física de nossos inimigos da mesma forma como vamos despedaçar sua resistência moral. Tem futuro a guerra microbiológica? Eu digo que sim. Para dizer a verdade, não estamos ainda muito avançados nessa técnica, mas experimentos estão em andamento e parecem estar se desenvolvendo bem. Entretanto, o uso da arma é limitado. Ela é especialmente útil no enfraquecimento dos adversários antes do início das hostilidades. Nossas guerras começarão antes das operações militares. E devo pensar que teremos os meios para cortar a garganta da Inglaterra, caso ela se decida a enfrentar-nos. Ou dos Estados Unidos." Forster, um outro convidado: "Você fala em contaminar o inimigo antes das hostilidades serem declaradas." "Por nossos agentes, inofensivos viajantes." Então, muitos anos antes de a guerra ser declarada, com o que Rauschning descreve com sua gutural e ameaçadora voz, Hitler pinta, para uma fascinada audiência, um quadro de um cortejador Herr Schmidt ou Herr Schultz, todo sorrisos ao atravessar a fronteira, com o porta-malas cheio de amostras e micróbios, olhos faiscando de malícia por trás dos óculos. Suficiente para botar uma cidade inteira por terra. Hitler exclama, "Nunca sucumbiremos, mas se o fizéssemos, arrastaríamos o mundo inteiro conosco". Mais trechos do "Crepúsculo dos Deuses". Quando chegarmos aos últimos dias de Hitler, teremos razões para lembrar sua ameaça. O fértil cérebro de Hitler produz grande número de idéias, enquanto ele fita as adoráveis montanhas banhadas pelo sol. "Se eu fizer a guerra, Forster, vou, talvez, mergulhar ao fundo da paz, mandar nossas tropas marchando Paris adentro em uniformes franceses. Elas marcharão em plena luz do dia. Ninguém as deterá. Planejei tudo até o mais ínfimo detalhe. Senhores, sempre aquilo que é mais improvável é mais seguramente bem sucedido." Todos acreditariam, ele explica, que os numerosos grupinhos cruzando a fronteira em época de paz fossem pacíficos turistas. Hitler desprezava militares que ficavam atolados em táticas militares ou em códigos de honra. Ele havia dissecado o problema às minúcias, e contava-o, Rauschning relata-nos. "O que você está dizendo," murmurou Forster para Rauschning mais tarde. "Hitler é um gênio, um especialista universal." Linsmayer pediu permissão para ser fotografado com Hitler. É ainda Rauschning que nos relata o seguinte: "Uma pessoa próxima a Hitler contou-me que ele acorda à noite gritando e tendo convulsões. Pede ajuda e aparenta estar semi-paralisado. Ele é tomado por um pânico que o faz tremer até sacudir a cama. Pronuncia sons ininteligíveis, arquejando como que a ponto de se asfixiar. A mesma pessoa descreveu-me um desses ataques com detalhes que me recusaria a acreditar, não tivesse total confiança em meu informante. Hitler estava de pé em sua sala, o corpo oscilando, olhando à volta como que perdido. 'É ele, é ele,' disse desesperado; 'ele veio me buscar!' Seus lábios estavam brancos, e suava profusamente. De repente, ele pronunciou uma série de sons sem significado, e então palavras e esboços de sentenças. Era aterrorizante. Ele usava expressões estranhas, alinhavadas numa bizarra desordem. Depois, recaiu no silêncio, mas seu lábios ainda se moviam. Foi-lhe aplicada uma massagem e dado algo para beber. Aí, repentinamente, ele gritou: 'Ali! Ali! Ali!, no canto! Ele está ali!' Todo o tempo batendo os pés e gritando." De novo Rauschning, "Não se pode evitar pensar nele como um médium. Pois, na maior parte do tempo, os médiuns são pessoas comuns, insignificantes. Subitamente eles são brindados com o que parece ser poderes sobrenaturais, que os destacam do resto da humanidade. Esses poderes são algo exterior à sua verdadeira personalidade - visitantes, por assim dizer, de outro planeta. O médium é possuído. Uma vez passada a crise, eles recaem na mediocridade. Era dessa forma, indubitavelmente, que Hitler era possuído por forças exteriores a ele - forças quase demoníacas, de que o indivíduo chamado Hitler era apenas veículo temporário. Essa mistura do banal com o sobrenatural criou aquela insuportável dualidade que era sentida na presença dele." Nós omitiríamos o "quase", e este livro mostrará por que. J. H. Brennan, ele próprio um adepto, em seu livro Reich Oculto�, interpreta os sons bizarros como encantamentos pronunciados por um adepto iniciante, para expulsar seu visitante indesejado e aterrorizante, que ninguém mais podia ver. Retornaremos a esse episódio mais tarde. Pauwels e Bergier em seu livro, O Despertar dos Mágicos, também citam Strasser e Bouchez: "Ouvindo-se Hitler, tem-se repentinamente a visão daquele que levará a humanidade à glória.... Uma luz aparece na janela escura. Um senhor, com um bigodinho cômico, transforma-se num arcanjo. Então, o arcanjo voa para longe... e lá está Hitler sentado, banhado em suor, com olhos vidrados." "Olhei nos olhos dele - os olhos de um médium em transe.... Às vezes parecia haver um tipo de ectoplasma; o corpo daquele que falava parecia estar habitado por algo... fluido. Posteriormente, ele recolhia-se novamente à insignificância, parecendo pequeno, e mesmo vulgar. Ele parecia exausto, com as baterias descarregadas." "Nas palavras do Dr. Delmas, um especialista em psicologia aplicada: 'Um poderoso ressoador, Hitler sempre foi o 'alto-falante' que ele alegou ser no julgamento de Munique, e assim foi até o final.' ..." Pauwels e Bergier resumem: "O que nos parece certo é que Hitler era animado por algo diferente do que ele pregava: por forças e doutrinas mal coordenadas, sem dúvida, mas infinitamente mais perigosas que a mera teoria do nacional socialismo - uma idéia muito maior que qualquer coisa que ele pensasse a seu próprio respeito, que era mais do que ele podia conceber (e infinitamente maior do que ele jamais poderia manipular), e que ele só podia transmitir a seu povo e a seus colaboradores... numa forma muito vulgarizada e fragmentada." Rosenberg, um partidário assumido do satanismo (erroneamente interpretado como mero paganismo), havia sido nomeado o representante do Führer para toda a educação e instrução intelectual e filosófica do Partido Nacional Socialista. No programa de trinta pontos de Rosenberg, Hitler emergia como o salvador do mundo, e a sua nova Igreja Nacional do Reich controlava todas as igrejas da Alemanha, seu Mein Kampf foi declarado o maior de todos os documentos e apenas o símbolo inconquistável, a suástica, podia ser hasteada em catedrais, igrejas e capelas. Hitler embriagava-se com ódio e com palavras de ódio. Ele não era um grande orador. Sua voz era muito áspera. Ele era entediante. Era repetitivo. Era impreciso. Shirer, em seu Diário de Berlim�, afirmou que, até que se perdesse em suas paixões de raiva e ódio, ele nunca se elevava além do nível da mais baixa mediocridade. "Mas quando ele se soltava, quando realmente mergulhava naqueles transes de extática raiva, ondas de poder bruto fluíam dele e envolviam a audiência. Suas palavras não tinham a menor importância. Há pelo menos um caso de um bretão, que não entendia alemão, assistindo a uma assembléia de Hitler. Ele não entendeu uma palavra das vociferações teatrais de Hitler, mas ao final encontrou-se berrando "Heil Hitler!" com o resto da multidão." Qualquer pessoa que saiba alguma coisa sobre forças sutis sabe que, assim como a emoção amor é a base de lançamento para alcançar os níveis espirituais elevados, a raiva e o ódio evocam ospoderes do inferno. Hitler tinha aprendido a se abrir para os poderes da escuridão, de uma forma que traçaremos posteriormente, através da amplificação de sua raiva e de seu ódio até um ponto que sua estrutura física mal podia conter. O impulso por trás disso tudo era uma certa crença. Retornando ao testemunho do Dr. Rauschning, Hitler disse-lhe: "A criação ainda não está completa. O homem alcançou um estágio definido de metamorfose. A antiga espécie humana já está num estado de declínio, apenas conseguindo sobreviver... e a meta suprema é a vinda dos Filhos de Deus. Todas as forças criativas concentrar-se-ão numa nova espécie." Hitler estava certo. E precisamente porque, como ele sabia, havia chegado o momento para algo novo, seu ideal distorcido posto em ignição pelo seu ódio, era poderoso o suficiente para iniciar a produção de um novo tipo de ser. Sua primeira manifestação foi os torturadores subhumanos, que ninguém em sã consciência poderia associar com um tipo mais elevado de humanidade. Seu discurso a Rauschning continua, "... as duas variedades evoluirão rapidamente em direções diferentes. Uma desaparecerá e a outra vicejará. Ela será infinitamente superior ao homem moderno. Você compreende agora o profundo significado de nosso movimento nacional socialista?" ele perguntou a Rauschning (que, seguindo o raciocínio de Hitler, estava alarmado e perplexo), e continuou, "quem quer que veja no nacional socialismo nada mais que um movimento político não sabe muito sobre ele...." Existem relatos de fundamentados ocultistas de outras épocas que testemunham o horripilante poder de um certo tipo de "Super Ser", que visita adeptos em busca de poder. Samuel Mathers, fundador da sociedade inglesa Golden Dawn (aparentemente mãe de todos os grupos ocultistas ocidentais modernos): "...senti estar em contato com uma força tão terrível que só seria comparável ao choque que se receberia ao estar próximo a um raio numa grande tempestade, experimentando ao mesmo tempo grande dificuldade em respirar.... A prostração nervosa de que falei foi acompanhada por suores frios e hemorragia pelo nariz, boca e às vezes ouvidos. ..." A descrição do encontro de Mathers encontra eco na experiência das cerimônias iniciatórias da Death's Head S.S. (não confundir com a Waffen S.S.); ela era chamada de "Cerimônia da Asfixia". Essa ordem negra era o âmago da doutrina nazista. Brennan, no Reich Oculto, remonta a saudação nazista à iniciação de segundo nível em sociedades ocultas como a Golden Dawn. "Foram delineados planos para isolar os homens da Death's Head S.S. do mundo dos "pseudo-homens" para o resto de suas vidas. Havia um esquema para criar cidades e colônias de veteranos no mundo todo, que seriam responsáveis apenas pela administração e autoridade da Ordem. Himmler e seus 'irmãos' tinham concebido um projeto ainda mais vasto. O mundo teria por modelo um Estado da S.S. soberano. 'Na Conferência de Paz', disse Himmler, em março de 1943, 'o mundo será notificado da ressurreição da antiga província de Burgundy, anteriormente a terra das artes e das ciências, que a França reduziu ao papel de um apêndice preservado no álcool do vinho. O soberano Estado de Burgundy, com seu próprio exército, suas próprias leis e sistemas monetário e postal, será o estado S.S. modelo. Ele compreenderá a Suíça francesa, o Franche-Comté, o Hainaut e Luxemburgo. A língua oficial, naturalmente, será o alemão. O Partido Nacional Socialista (nazista) não terá jurisdição sobre ele. Ele será governado apenas pela S.S. e o mundo ficará estupefato e cheio de admiração por esse Estado, onde as idéias da S.S. serão corporificadas'." Himmler vangloriava-se para seu massagista de poder invocar espíritos e conversar com eles. Esse era o homem que, em 1929, havia iniciado a transformação da S.S. guarda-costas paramilitar de Hitler numa ordem elitista, de magia; o homem que estava planejando a nova ordem mundial e sobre quem o Dr.Kersten�, seu médico, dá-nos novas percepções. Himmler explicou ao Dr.Kersten como era recrutado o pessoal para os campos de concentração. "Um soldado ou um oficial não- comissionado da S.S. é julgado culpado de uma infração, de falhar em obedecer a um superior, de faltar sem licença ou alguma outra falha assim. É-lhe oferecida uma escolha: ser punido e ter a punição incluída em seu registro militar, o que naturalmente impossibilita qualquer promoção, ou ser guarda num campo de concentração, com todos os privilégios e liberdade com relação aos prisioneiros. Ele faz a segunda opção. Pouco depois de sua chegada ao campo, seu superior pede-lhe - por favor, note, não ordena, mas simplesmente pede-lhe - que torture e execute um prisioneiro. Geralmente, o novo recruta reluta. Então, seu superior dá-lhe uma opção: ser mandado de volta à sua posição anterior e às medidas disciplinares, ou fazer o que tem que ser feito. A primeira vez que ele faz um homem sofrer é contra a sua vontade, a segunda vez é mais fácil e, finalmente, ele vangloria-se de seus feitos." Depois de um longo silêncio, Kersten perguntou a Himmler se ele havia planejado esse sistema. "Ah não", exclamou Himmler, com entusiasmo. "Foi o próprio Führer. Seu gênio alcança até o último detalhe." Hitler parecia ser a fonte de toda inspiração demoníaca. Kersten queria saber quem havia receitado as torturas em si. "Como pode você pensar que alguma coisa possa ser feita sem as ordens de Hitler? Quando a mais grandiosa mente que já viveu na Terra ordena tais medidas, quem sou eu para criticar? E você sabe muito bem que, com minhas próprias mãos, eu sou incapaz de machucar alguém," foi a resposta de Himmler. Ninguém conhecia melhor do que Kersten quão fraco e covarde era o sistema nervoso de Himmler. Ele não agüentava nem mesmo olhar para o sofrimento ou para o sangue humano. Mas, ao ser questionado por Kersten, ele disse que não hesitaria em mandar matar sua esposa e filha, sem questionar a vontade de Hitler, caso lhe fosse ordenado. Essa atitude representava a condição do alto comando e da maioria da nação, a aceitação passiva e a implementação da vontade do Poder que trabalhava através de Hitler; sangue e tortura eram seus alimentos. Havia mais de 800.000 prisioneiros ainda vivos nos campos de concentração quando a guerra estava se aproximando do fim. Hitler ordenou que Himmler explodisse os campos quando os Aliados se aproximassem. Se a Alemanha perdesse a guerra, Himmler explicou a Kersten, seus inimigos deveriam morrer com ela. Na ocasião, Kersten conseguiu convencer Himmler de não executar a ordem. Himmler era conhecido, mesmo entre os nazistas de alto escalão, pela sua personalidade de robô. Manso, calmo e até mesmo descrito como tendo boa natureza no início de sua carreira, Heinrich Himmler uma vez escreveu em seu diário, 'Nunca deixarei de amar a Deus.' Parece que ele nunca cedeu à fúria ou ao ódio, ainda assim mais do que qualquer outro homem, Heinrich Himmler foi associado e responsabilizado pelas atrocidades perpetradas na Alemanha nazista. Antes de conhecer Hitler, ele era hesitante, inseguro e introspectivo. Como sabemos, pelas evidências fornecidas por seu médico Dr.Kersten, depois ele deixou que Hitler pensasse por ele. Uma vez que o inimigo tenha estabelecido uma posição segura através de um instrumento como Hitler, como ele assegura a continuidade de seu domínio sobre a nação escolhida. Hitler havia dado a Himmler a tarefa de forjar uma religião e a biblioteca dele era forrada de volumes e mais volumes sobre o assunto. Nada poderia dar-nos uma imagem mais clara da insanidade reinante. Um dia, Kersten, tendo que esperar por ele, foi convidado a utilizar-se da biblioteca. O bom doutor ficou perplexo ao constatar que todos os livros do Grande Mestre da S.S. e da Gestapo eram sobre, ou relacionados à religião. Assim como a Bíblia, os Evangelhos, os Vedas, o Corão, traduções do latim, grego e hebraico sobre a vida e escritos dos grandes santos e místicos, havia comentários e tratados teológicos e obras sobre a jurisdição teológicaao longo das eras. Himmler apressou-se em assegurar a Kersten que os livros eram apenas ferramentas de trabalho, pois nenhum nazista verdadeiro poderia pertencer a nenhuma religião. Himmler, reconta Kersten, tomou-se repentinamente sério e seu rosto assumiu aquela expressão exaltada que sempre assumia quando ele estava prestes a falar sobre Hitler (Hitler referia-se a ele como 'meu fiel Himmler'): O cristianismo seria abolido totalmente na grande Alemanha e, para que fosse estabelecida a fé germânica, a idéia de Deus seria mantida, mas de forma vaga e confusa. E o Führer tomaria o lugar do salvador da humanidade. Assim, milhões e milhões de homens invocariam em suas preces ninguém mais que Hitler, e em cem anos ninguém se lembraria de nenhuma outra religião. O único modelo para a humanidade seria alguém que torturara milhões e milhões, cremara crianças e oferecera sacrifícios humanos à sua deidade. Neste ponto, deve-se relembrar àqueles que podem estar pensando que isso nunca aconteceria, que a suástica já estava desfraldada sobre todos os prédios oficiais da maior parte da Europa, e a própria Inglaterra estava em perigo de invasão. Conjeturar o que acontece numa terra onde as preces e aspirações da humanidade são dirigidas a alguém como Hitler, abre os profundos abismos da escuridão de onde emergem os fantasmas da noite e estrangulam as esperanças mais elevadas e nobres da humanidade. Muitas pessoas pensam que Hitler atormentado, de joelhos no carpete, é apenas a imagem hilariantemente grotesca do grande ditador de Charlie Chaplin. Mas, na verdade, era a isso que o grande salvador do mundo se reduzia após haver alcançado um clímax de ódio e raiva. Seus inimigos referiam-se a ele como Teppichfresser - "o anão do tapete". O mundo estava desmoronando diante desse homem. "Não queremos eliminar as desigualdades entre os homens," disse Hitler, "mas, pelo contrário, aumentá-las e tomá-las um princípio protegido por barreiras impenetráveis. Como será a ordem social do futuro? Camaradas, vou contar-lhes: haverá uma classe de super- senhores, depois deles, o regimento de membros do partido em ordem hierárquica, e então a grande massa de seguidores anônimos, serventes e trabalhadores perpétuos, e ainda sob eles todas as raças estrangeiras conquistadas, os escravos modernos. E acima de todos esses reinará uma nova e exaltada nobreza de quem não posso falar. Mas sobre todos esses planos os membros militantes comuns nada saberão." Através dos pronunciamentos de Hitler, começamos a apreender o horror da Nova Sociedade e da concepção de "mestres e super-senhores". Também começamos a entender contra o que as forças da Luz lutaram para salvar a humanidade. O Demônio da Falsidade e da Morte estava fazendo um lance desesperado para apossar-se irreversivelmente do mundo, antes do surgimento da luz espiritual de uma Nova Era, iluminada pela Mente do Homem. Hoje, as profecias de Hitler podem soar como nada mais que loucura megalomaníaca, mas se assim é, o mundo esqueceu-se de quão próximo Hitler chegou de realizar seus sonhos. Certamente, nos campos de concentração, ele estabeleceu a fundação para sua sociedade escrava, seguramente para sua hierarquia de barreiras impenetráveis. Denis de Rougemont diz "Algumas pessoas pensam, por terem experienciado em sua presença (de Hitler) um sentimento de horror e a impressão de algum poder sobrenatural, que ele é o assento dos "Tronos, Dominações e Poderes," como São Paulo denominou aqueles espíritos secundários, que podem se incorporar num homem comum e ocupá-lo como um exército. Eu o ouvi proferindo uma de suas grandes palestras. De onde vêm os poderes super-humanos que ele exibe nessas ocasiões? E óbvio que uma força desse tipo não pertence a um indivíduo e, na verdade, não poderia nem mesmo se manifestar, caso o indivíduo tivesse alguma importância, exceto como um veículo de uma força para que nossa psicologia não tem nenhuma explicação. O que estou dizendo seria o mais barato absurdo romântico, não fosse porque o que foi realizado por esse homem - ou melhor, pelas forças atuando através dele - é uma realidade que é um dos mistérios deste século." A Segunda Guerra Mundial marcou uma derrota para essas Forças da Escuridão e diminuiu consideravelmente sua influência sobre o homem. Entretanto, a vitória final será ganha quando o homem, plenamente consciente, aderir à Luz, à sua inevitável Verdade. Em seu trabalho pioneiro, Pauwels e Bergier, e também Brennan, traçando o desenvolvimento da sujeição de Hitler ao ocultismo negro, finalmente identificaram o que Sri Aurobindo e A Mãe viram e sobre o que agiram diretamente. Trataremos disso no próximo capítulo. O NAPOLEÃO ANÃO Hitler, outubro de 1939 (um mês após a declaração de guerra) Veja, pela fantasia da vontade de Maya Um violento milagre nasce repentinamente, O real torna-se uno com o incrível. Com o controle de sua vara de condão O pequeno realiza grandes feitos, o medíocre, grandiosos. Esta insignificante criatura montaria na Terra Até mesmo como os imensos colossos do passado. A mente de Napoleão era ágil e destemida e vasta, Seu coração era calmo e tempestuoso como o mar, Sua vontade dinâmica em seu domínio e poder. Seu olho podia manter um mundo sob suas rédeas E ver soberanamente as grandes e as pequenas coisas. Um movimento de enorme profundidade e escopo Ele tomou e deu coesão à sua esperança. Muito diferente desta criatura de barro inferior, Desprovida de grandeza, como um gnomo a brincar, Ferro e lama misturam-se no estofo de sua natureza. Sri Aurobindo III Um número muito pequeno daqueles que estão conscientes de que recebem de outros planos entendem. Na medida em que os seres humanos estão do lado das Forças da Luz, tornam-se, conscientemente ou não, neutralizadores efetivos das forças satânicas. Esses neutralizadores, ou mesmo transformadores, são na maioria pessoas desconhecidas, que não escrevem sobre suas experiências, e às vezes mal têm um contexto para refletir sobre elas ou relembrá-las. Por uma série de concatenações de forças, que chamamos de circunstâncias, algumas pessoas como John Kelly e Silviu Craciunas, de quem falaremos mais tarde, entram em contato físico com os verdadeiros Seres, que eles vêem como visões, e são feitos os elos entre o mundo físico histórico e as dimensões ocultas. Seu papel é óbvio, mas, e o papel daqueles que os dirigiram como parte de uma batalha oculta mais profunda? Havia dois universos mutuamente exclusivos, lutando ferozmente pela supremacia naquele ponto da evolução humana. Poder-se-ia talvez dizer que a Luz estava destinada a prevalecer, ainda assim a batalha tinha que ser lutada. Na índia, Sri Aurobindo e a Mãe haviam, por muitos anos, trabalhado yoguicamente para ancorar na Terra a Luz do próximo estágio da evolução do homem, o estágio que lhe dará alcance ao degrau que está acima da Mente, e para que suas civilizações anteriores foram apenas uma preparação. Na realidade, foi por causa da iminente realização que o que estava para ser destruído reagiu convulsivamente. (Conversa da Mãe com Satprem, de 5 de novembro de 1961, como registrada em sua Agenda, vol. II): "Ao longo da guerra, Sri Aurobindo e eu ficamos numa tal tensão CONSTANTE que o yoga foi completamente interrompido. E foi exatamente por isso que a guerra começou - para parar o Trabalho. Naquela época, houve um extraordinário descenso... estava vindo assim (gesto amplo), um descenso! Exatamente em 39. Então a guerra estourou e congelou tudo. Pois tivéssemos nós pessoalmente continuado [o trabalho da evolução transformativa]... não tínhamos certeza de ter tempo suficiente para terminá-la antes que "o outro" [o Demônio de Hitler] reduzisse a Terra a pó, atrasando todo o Trabalho... por séculos. A PRIMEIRA coisa a ser feita era impedir a ação do... Senhor da Falsidade..." Citaremos de Perguntas e Respostas da Mãe (8 de março de 1951), a respeito da natureza dos seres que podem possuir um Hitler, (extraído das palestrasque ela costumava dar às crianças do Ashram em francês): "A MÃE: ...A principal característica desses seres é a falsidade: sua natureza é feita de enganação. Eles têm o poder para iludir; podem assumir a aparência de seres divinos ou seres superiores, podem aparecer numa luz esplendorosa, mas as pessoas verdadeiramente sinceras não são enganadas, elas imediatamente sentem algo que as previne. Mas se alguém gosta do maravilhoso, do inesperado, se ama as coisas fantásticas, se gosta de viver um drama, provavelmente será facilmente enganado." "Há não muito tempo, houve um acontecimento histórico, o de Hitler, que estava em contato com um ser que considerava ser o Supremo: esse ser vinha e aconselhava-o, dizia-lhe tudo o que tinha que fazer. Hitler costumava recolher-se sozinho, e assim permanecer tanto tempo quanto necessário para entrar em contato com seu "guia", e receber dele inspirações que executava muito fielmente. Esse ser que Hitler tomava como o Supremo era muito simplesmente um Asura�, que é chamado no ocultismo de 'Senhor da Falsidade', mas que se auto-intitulava o 'Senhor das Nações'. Ele tinha uma aparência brilhante, podia enganar qualquer um, exceto quem realmente tivesse conhecimento oculto e pudesse ver o que estava lá, por trás da aparência. Ele poderia ter enganado qualquer um, era verdadeiramente esplêndido. Geralmente, ele costumava aparecer para Hitler usando couraça e elmo de prata; uma espécie de chama saía de sua cabeça e havia uma atmosfera de luz esplendorosa ao seu redor, tão esplendorosa que Hitler mal podia olhar para ele. Costumava dizer a Hitler tudo o que deveria ser feito - ele o manipulava como a um macaco ou um camundongo. Ele havia claramente decidido fazer Hitler cometer todas as barbáries possíveis, até o dia em que torceria o pescoço dele, o que de fato aconteceu. Mas casos assim são freqüentes, apesar de em menor escala, é claro. "PERGUNTA: Quando Hitler morreu, o Senhor da Falsidade passou para Stalin?" "A MÃE: Não é de maneira nenhuma assim que essas coisas acontecem, mas é algo similar. Esse ser não esperou a morte de Hitler, é aí que você se engana. Esses seres não estão de forma alguma amarrados a uma única presença física. O ser em questão poderia muito bem possuir Hitler e ao mesmo tempo influenciar muitos outros. Hitler foi eliminado porque tinha toda uma nação por trás dele e poder físico, e se ele tivesse sucedido teria sido um desastre para a humanidade, não havia ilusão quanto a isso; não era suficiente que ele fosse eliminado para que a força por trás dele o fosse - não é tão fácil. Devo dizer-lhes que a origem desses seres é anterior a dos deuses; eles são as primeiras emanações, os primeiros seres individuais do universo, e não podem ser eliminados tão facilmente, vencendo-se uma guerra." O Senhor da Falsidade tomou ao mundo vinte milhões de vidas. As vidas dos judeus e dos ciganos foram a primeira oferenda. Em última instância, Hitler foi inspirado a ordenar que fechassem os portões sobre seus leais alemães, que haviam se refugiado nos subterrâneos de Berlim e a abrir as comportas para que eles se afogassem. Brennan vê isso como a última oferenda desesperada, a tentativa de Hitler de pacto com seu Demônio. O extermínio de um vasto número de seres humanos foi considerado como um meio de comprar a ajuda "Deles", os poderes da escuridão. Desde épocas remotas, o sacrifício humano tem sido um poder de barganha. Quanto mais próximo e querido a você o sacrifício, maior o seu valor. No final, Hitler fez com que seu cunhado e fiel médico fosse executado. Então, ele ficou virtualmente sozinho com Eva Braun. O momento lógico para o suicídio de Hitler teria sido após o fracasso do assim chamado contra-ataque Steiner contra os russos, uma vez que então corria o perigo de ser capturado pelos russos. Sabemos que ele não queria que seu cadáver tivesse o mesmo destino que o de Mussolini. Os italianos penduraram pelos calcanhares os corpos mortos de Mussolini e de sua amante em uma praça pública. Ainda assim, Hitler esperou mais duas semanas e suicidou-se com um tiro no dia 30 de abril, data do antigo festival de Baltane, o dia que torna a Noite de Walpurgis, a data mais importante de todo o calendário satanista. Surge agora uma imagem clara das forças da escuridão lançando-se contra a Luz. Temos a saudação nazista, a suástica corrompida� e a data escolhida por Hitler para tomar e, como Brennan diz, oferecer sua vida, todos aparentemente elos conscientes com caminhos esquerdos do ocultismo. IV O Tibete é um centro de práticas ocultas, tanto brancas quanto negras, e o movimento nazista desde logo começou a organizar expedições anuais para o Tibete, que continuaram até 1943. Que ninguém pense ser isso de pouca conseqüência, deve-se ressaltar ter sido calculado, que os nazistas gastaram mais dinheiro em pesquisa oculta, do que os americanos nos preparativos para a primeira bomba atômica. Essas pesquisas iam desde atividades estritamente científicas [Em 1939, a Ahnenerbe, uma organização de pesquisa científica, foi incorporada à S.S.] até a prática do ocultismo, e da vivissecção, praticada em prisioneiros, à espionagem em nome das sociedades secretas. Após a queda do comunismo na Rússia, seu serviço secreto abriu documentos confidenciais revelando que Hitler havia sido membro de uma sociedade secreta ocultista. A conexão tibetana também foi citada. No Tibete, o budismo tem duas linhas espirituais. Uma é a tradição B'on, mais antiga, em que sacerdotes oraculares são treinados em telepatia, viagem onírica, aquecimento sutil do corpo, levitação, viagem rápida no ar, predição da morte e todos os tipos de práticas ocultas, incluindo a metempsicose. Pode-se dizer que o Tibete é um dos centros da magia negra oriental, e certamente Hitler não estava muito interessado nos modos do compassivo Buda. Os mosteiros B'on viraram o símbolo da suástica ao contrário. (É fato atestado que os russos encontraram uma força de tibetanos mortos, em uniformes alemães, quando invadiram Berlim.) O B'on, que o budismo tentou liberar de suas raízes negras, era baseado numa religião ainda mais antiga. Apesar de, superficialmente, as formas se assemelharem, o B'on ainda traz traços de uma religião que costumava praticar o sacrifício humano. É um culto antigo sob um verniz de budismo. Para tentar compreender a infiltração das Forças da Escuridão e do Hitlerismo na Alemanha, devemos nos lembrar que sociedades satânicas proliferaram na Europa, logo após a guerra de 1914-1918. Muitas pessoas bem intencionadas e sensíveis foram envolvidas, sem entender para onde estavam sendo levadas. A primeira aquisição de poderes ocultos é inebriante e as pessoas acreditam, como aconteceu com Hitler, poder utilizar esses Poderes para alcançar seus próprios fins, mal sabendo que estes Seres enormes alimentam-se das energias vitais dos homens, são predadores de seus medos e ambições e descartam-nos após sugarem-nos totalmente. Mestres e professores verdadeiros nunca se cansam de relembrar ao aspirante de que grande pureza, humildade e abnegação são necessárias para se evitar os perigos e as armadilhas que esperam pelos ambiciosos e buscadores de poder no caminho. Os Poderes da Escuridão estavam preparando um ataque em grande escala contra a evolução espiritual do homem. Aqueles que perceberam sua ação por trás de seus instrumentos humanos eram imediatamente liquidados, caso ousassem desafiá-los. Teresa Neumann, a santa austríaca que recebeu os estigmas e que, como Santa Catarina de Siena, recebeu a extraordinária graça da inédia, não necessitando comer nunca, imediatamente viu que Hitler estava possuído por uma força demoníaca. Ele é o diabo. Ele é a morte. Ele é o caos. Ele é a destruição, ela declarou muito simplesmente. De alguma modo, o plano da Gestapo de matá-la nunca foi executado. E dito que Hitler tinha conhecimento oculto o suficiente para temer as conseqüências de feri-la. Quem era o ser que tanto dominava Hitler, e o que eram as seqüências de palavrasque ele pronunciava aterrorizado. Brennan, e também Pauwels e Bergier, supõem que eram encantamentos mágicos, mantras para controlar seu intrépido e cruel visitante. Essa seria nossa interpretação também. Hitler estava passando por uma experiência que, aparentemente, aconteceu com outros que contataram os níveis mais obscuros do ocultismo. Brennan implica, através de uma história análoga e aterrorizante, que quem não possui as fórmulas de palavras mágicas é incapaz de se proteger contra esses impiedosos visitantes. "O Dr. Michael MacLiammoir, ator irlandês de renome, forneceu-me algumas informações de considerável relevância aqui. Alguns anos antes da Segunda Guerra Mundial, a irmã do Dr. MacLiammoir desenvolveu um interesse por assuntos esotéricos, e foi finalmente iniciada numa ordem de magia chamada Argentum Astrum, ou Estrela de Prata. Essa ordem era comandada pelo mago negro Alister Crowley, anteriormente um iniciado da Golden Dawn, que foi subseqüentemente apelidado pela imprensa de 'O Homem mais Malvado do Mundo'. Ao ver algumas das práticas secretas da ordem, a senhorita MacLiammoir rapidamente percebeu que talvez aquilo fosse mais do que ela poderia lidar. Mas os iniciados só podiam deixar a ordem com a permissão expressa de Crowley. Ela foi ver o 'Mestre', como Crowley insistia em ser chamado. "Crowley fixou nela um olhar penetrante. 'Então você quer ir?' perguntou ele dramaticamente. Aí, aproximando-se e cutucando-lhe o ombro para enfatizar cada sílaba, ele acrescentou gravemente, 'Cuidado com a escuridão! Cuidado com o calor! Cuidado com os macacos! Agora pode ir...' Foi um gesto teatral, mas efetivo naquelas circunstâncias. A moça deixou a ordem, mas mergulhou no sofrimento de uma crise nervosa. Essa doença, no entanto, raramente é fatal, e com o passar do tempo ela se recuperou." "Muitos anos depois, com o incidente já esquecido, ela encontrava-se na África. No final de uma tarde, com o sol já a ponto de se por, ela estava passeando na borda da floresta com uma criança, filho de um amigo. De repente, o menino exclamou, 'Veja - lá está o tio George!' A senhorita MacLiammor voltou-se para ver. 'Tio George' não estava lá. A criança tinha obviamente se confundido com o jogo de luz e sombra através da folhagem, durante o curto crepúsculo africano. Ela voltou-se para dizer-lhe isso, e naquele instante um macaco saltou de uma árvore nas costas dela e mordeu seu ombro, no mesmo ponto onde Crowley a havia cutucado tantos anos antes. Ela gritou e o macaco fugiu. Quando se recobrou do susto e examinou seu ombro, não havia sinal de sangue e a ferida parecia misericordiosamente pequena. Mas ela contraiu meningite com a mordida, e depois de alguns dias caiu de cama, assolada por ataques de delírio crescentes." "Durante um deles, ela sentou-se repentinamente, o rosto pálido, e apontou para um canto. 'Ele está ali! Ele está ali! Está no canto! Ele veio me buscar! Crowley veio me buscar!' Ela não usou 'expressões estranhas alinhavadas numa bizarra desordem', pois essas, no caso de Hitler, eram provavelmente as 'palavras de poder' utilizadas por um satanista treinado para controlar seu visitante indesejado." "Talvez tivesse sido melhor se ela as conhecesse. Hitler finalmente caía num sono profundo e recuperava-se de sua experiência. A senhorita MacLammoir afundou num coma profundo e morreu." Para provas mais substanciais, temos que examinar uma pessoa que teve influência nos anos formativos de Hitler. Se formos ao Ascensão e Queda, Shirer leva-nos a acreditar que, uma vez que um certo professor Karl Haushofer lecionava geopolítica na Universidade de Munique, sua influência sobre Hitler tenha sido política. Isso é muito enganador. Sua verdadeira influência foi ocultista. O Dr.W. Ley, um especialista em foguetes de fama mundial, que fugiu da Alemanha, em 1933, conta-nos sobre uma comunidade espiritual de Berlim, fundamentada no livro de Bulwer Lytton, A Raça Futura�, que descreve homens divinos com grandes poderes, que vivem em cavernas e que logo emergirão para reinar no mundo. Aqueles de nós que não se aliarem a eles se tornarão escravos nas novas cidades do futuro. Essa sociedade secreta era A Loja Luminosa (também chamada de Sociedade Vril), de que Haushofer era um alto iniciado. Bulwer Lytton considerava-se um iniciado e escreveu muito sobre o mundo infernal e sobre os seres super-humanos, que surgiriam através de uma mutação na elite dos humanos. Obviamente, Haushofer transferiu seu conhecimento pelo menos a Hitler, que disse ter mantido contatos bem-sucedidos com esses super-homens. A idéia desses super-homens, que podem ser contatados através do conhecimento oculto, é encontrada em todos os escritos ocultistas, tanto do ocidente quanto do oriente, e existem rituais para invocá-los. Na verdade, o professor Haushofer era um iniciado, não apenas da sociedade secreta Vril, mas também do Grupo Thule, ambos pagãos, e, como Pauwels e Bergier ressaltam, sociedades satânicas (como a de Crowley, que também havia sido fundada com a sanção e instruções de uma certa senhora ocultista de Nuremberg). Rudolf Hess, representante de Hitler�, que era seu pupilo e também um membro do Grupo Thule, conta-nos que Haushofer era um mestre secreto. Haushofer nasceu em 1869, e visitou a índia e o Extremo Oriente, uma viagem raramente empreendida naquela época. No Japão, ele tornou-se membro de uma sociedade secreta, que prescrevia o suicídio a seus membros, caso eles falhassem em sua missão. Depois da guerra, em março de 1946, Haushofer cometeu um suicídio cerimonial, após matar sua esposa�. Os membros do Grupo Thule também cometiam suicídio, caso fizessem algo que quebrasse seus votos. No cadáver de seu filho, que estava envolvido num plano contra a vida de Hitler, foi encontrado o seguinte poema, escrito com a letra do filho: "Meu pai rompeu o selo. Ele não sentiu o alento do maligno Mas libertou-o para vagar pelo mundo." O Haushofer pai acreditava que a raça indo-germânica era o pivô do mundo. Durante a Primeira Guerra Mundial, como general, seu dom de previsão permitia-lhe saber quando e onde o inimigo atacaria. Mas ainda mais próximo de Hitler estava Dietrich Eckardt. Ele é o homem conhecido como o fundador espiritual do nazismo. Em 1920, Eckardt, poeta, autor teatral, jornalista, boêmio e membro do Grupo Thule, irmão da Sociedade Vril, ou A Loja Luminosa, juntamente com o arquiteto Rosenberg, conheceu Hitler na casa de Wagner, em Bayereuth, e eles foram, até a morte de Eckardt por alcoolismo e problemas pulmonares, em 1924, companheiros constantes de Hitler e seus conselheiros. Konrad Heiner, em seu livro sobre Hitler, escreve que foi Eckardt que empreendeu a formação espiritual de Hitler. Ensinou-lhe a doutrina secreta, e também oratória e jornalismo. Antes de sua morte, Eckardt tornou- se um dos sete membros fundadores do Partido Nacional Socialista. Em seu Mein Kampf, Hitler conta-nos que seu encontro com Eckardt foi o mais importante de sua vida. Ele agonizou por dois dias antes de decidir juntar-se ao grupo. Essa decisão, como ele diz, mudou sua vida e realmente, como nós dizemos, o curso da história. O que era o Grupo Thule? A seguinte citação é de O Despertar dos Mágicos: "A lenda de Thule é tão antiga quanto a raça germânica. Supõe-se que fosse uma ilha que desapareceu em algum lugar do extremo norte. Perto da Groenlândia? ou de Labrador? Como a Atlântida, pensava-se que Thule era o centro de uma civilização desaparecida. Eckardt e seus amigos acreditavam que nem todos os segredos de Thule haviam perecido. Seres intermediários entre o homem e outros seres inteligentes do Além colocariam à disposição dos iniciados um reservatório de forças, que poderiam ser utilizadas para capacitar a Alemanha a dominar o mundo novamente, e a ser o berço de uma raça vindoura de Super-homens, que resultaria de mutações da espécie humana. Um dia, suas legiões sairiam para aniquilar tudo que se mantivera no caminho do destino espiritual da Terra, e seus líderes seriam homens que saberiamtudo, derivando sua força da própria fonte da energia, e guiados pelos Grandes Seres do Mundo Antigo." Posteriormente, sob a influência de Haushofer, o Grupo Thule assumiu o caráter de sociedade iniciática, praticando magia cerimonial para contatar o invisível. Ele foi o âmago do nazismo, o verdadeiro centro do movimento. No ocultismo, quando um pacto é feito com seres ocultos, esses seres devem ser invocados por um iniciado, que por sua vez necessita de um médium. "Hitler, foi-nos dito, foi o médium utilizado por Haushofer." Eckardt passou quase três anos como íntimo conselheiro do jovem Hitler. Pauwels e Bergier contam-nos que ele doutrinou Hitler em dois níveis - um deles, sendo o da revelação oculta. Pouco antes de sua morte, ele disse a amigos: "Sigam Hitler. Ele dançará, mas conforme a música que eu determinarei. Demos-lhe os meios de comunicar-se com Eles. Não se lamentem por mim. Eu terei influenciado a história muito mais que qualquer outro alemão." Os chefes ocultistas secretos e outros seres elevados não estão necessariamente encarnados. Vária escolas esotéricas - incluindo virtualmente todas as que se desenvolveram a partir da Golden Dawn inglesa - ensinam que eles existem em uma outra dimensão não física, e apenas raramente assumem corpos. Parte importante das técnicas práticas ensinadas nessas escolas é o método de estabelecer contato com tais entidades. De acordo com Brennan, e muitas outras autoridades, as lojas da tradição esotérica ocidental ensinam a seus membros um ou mais de três segredos ocultistas gerais: 1) O controle de uma energia sutil, como a 'Vril' de Lytton ou o 'magnetismo animal' de Mesmer. Uma vez sob controle consciente, essa força pode ser utilizada como auxílio para a iluminação mística ou como um meio de dominar as pessoas, dependendo do temperamento do iniciado. O controle de eventos e a criação de situações desejadas no plano físico. Isso é feito através do treino dos poderes de concentração do iniciado, até que ele seja capaz de focar sua vontade como um laser. A força de vontade é assim anormalmente aumentada, e é então direcionada através de visualizações vívidas e relevantes, geralmente da situação que o mago quer que aconteça. A força diretriz por trás de toda operação é, como dissemos antes, a emoção amplificada - amor, no caso do mago branco, ódio e raiva, no caso de Hitler. Uma vez mais, os tipos de eventos e situações criados dependem do temperamento do iniciado. O estabelecimento de linhas de comunicação com entidades super-humanas, e às vezes alienígenas, que operem em níveis que não o físico (e hoje geralmente denominados de 'planos interiores' pelos ocultistas). Mas o neófito logo descobre que as técnicas designadas para colocá-lo em contato, por assim dizer, com os céus, podem ser igualmente utilizadas para contatar as regiões infernais. Não é difícil avaliar a escolha de Hitler." Era uma reiterada crença de Hitler que qualquer coisa deve ceder ante um poder superior... Ele estava certo. Quando esse poder é branco, isso é uma verdade espiritual. Quando não, é ocultismo negro. Como diz-se geralmente, a água pode lavar suas roupas ou afogar a vovó, o fogo pode cozinhar o mingau do café da manhã ou imolar seu inimigo. Chegamos a uma evidência ainda mais convincente com o símbolo que foi hasteado sobre todos os prédios oficiais da Alemanha nazista, impresso em livros e documentos, usado em braçadeiras, incluindo a de Hitler, e assim incutido na mente alemã: a suástica corrompida. A verdadeira suástica é um símbolo antigo, que representa o sol em movimento. Ela está presente em várias civilizações antigas e é um símbolo da luz e da vida. Na índia, ela é a mais auspiciosa, portadora da felicidade e de toda boa fortuna. Temos hoje a possibilidade de medir muito acuradamente os campos energéticos à nossa volta, e à de todos os objetos e símbolos, com o auxílio de um instrumento conhecido como Antena de Lecher. Um francês chamado Bovis desenvolveu uma escala, o biometro, através da qual são medidas as unidades de energia, denominadas bovis. Seis mil e quinhentos na escala bovis representam o nível de energia de um ser humano normal saudável. Qualquer diminuição indica doença, e zero representa a morte. O intervalo de energia dos diferentes centros energéticos do corpo humano� vai do nível energético do corpo humano até dezesseis mil bovis. O badalar de sinos de igreja produzem uma vibração de onze mil bovis. Símbolos, como a chave egípcia da vida, podem ser medidos em nove mil bovis. Quer em papel, ouro ou qualquer outro material, um dado símbolo mantém a mesma energia. Mas a verdadeira suástica (não a de Hitler) tem uma energia positiva de 1.000.000 (um milhão) de bovis. Hitler optou por incliná-la, de forma que ela não tivesse uma base firme, e cambaleasse desequilibradamente. Essa suástica, a 45 graus do eixo cardinal e de cor negra, tem a energia extremamente baixa de mil bovis, perigosamente próxima à morte. Na verdade, juntamente com a insígnia da cabeça da morte da S.S. de Himmler, aquele estado secreto dentro do estado, era um símbolo de total niilismo, mal, morte e caos. Os símbolos sagrados são sempre modificados no satanismo de modo a, ao invés de invocar a Luz, chamar os poderes do mal e da escuridão. Os satanistas rezam a missa negra de trás para frente e usam o crucifixo de cabeça para baixo para conectarem-se com aqueles inexprimíveis poderes. Que não se pense que a suástica inclinada foi escolhida ao acaso; foi-nos dito que Hitler correspondeu-se com um conselheiro ocultista do noroeste da índia sobre assuntos ocultos a respeito da suástica. Ele foi informado de que, apesar de a suástica alterada ser extremamente poderosa e conseguir ajudar a promover uma ascensão rápida ao poder, ela era involutiva e trazia o caos e a destruição. Aparentemente, Hitler desconsiderou o aviso em seu afã de ascensão. Quando a suástica foi inclinada não sei, mas numa das primeiras cópias do Mein Kampf ela ainda estava ereta. O trágico com relação aos satanistas é que eles invocam poderes que no final os destroem. Vamos agora tentar traçar a evolução da possessão de Hitler, tão brevemente quanto possível. Surge a pergunta, Hitler sabia para onde seria finalmente levado, quando foi primeiramente iniciado por Eckardt e Haushofer? Muito provavelmente não. Talvez nem eles mesmos soubessem, como dizia o poema do filho de Haushofer, seu pai não sentiu o alento do mal. Ele inconscientemente o libertou, abriu a caixa de Pandora, de onde algo horrível saltou para vagar pelo mundo. Nos ensinamentos secretos, parte da necessidade de segredo vem do fato de que, se o iniciado de primeiro nível pudesse antever quão profunda e inextricavelmente envolvido ele se tornaria com os Poderes que o comandariam completamente, ele muito provavelmente nunca daria o primeiro passo. Como no caso de Miss MacLammoir, ele apenas começa a entender o grau de seu envolvimento em níveis posteriores de iniciação, quando é muito tarde para voltar atrás, sem ser ameaçado por um perigo que começa a assombrar sua consciência. Inicialmente, a pessoa pode ser iludida e acreditar que poderes estão sendo colocados à sua disposição para quaisquer fins que ela escolha, e, ao ler-se Mein Kampf, vê-se que, inicialmente, as ambições de Hitler eram estritamente políticas e nacionalistas. Ele ainda está muito preocupado com questões sindicais e com a burguesia política. É verdade que ele já está consciente de certos elementos místicos negros, que ele pode manipular e manipula. Com uma aparente ingenuidade, no Mein Kampf, ele explica ao mundo todo que ele aprendeu a nunca proferir seus discursos de manhã ou à tarde. A noite é o período quando a razão está adormecida na audiência e as faculdades de crítica estão fora de ação. Ele era basicamente, como Sri Aurobindo sempre afirmou, um homenzinho sentimental e insignificante, interessado em reformas sociais e com um sentimento pela Terra Mãe; sua consciência era estreita e sua visão limitada.� Quando alcançou afama, ou melhor, foi propulsionado a um enorme sucesso em todos os seus empreendimentos, ele mal se surpreendeu, pois isso era exatamente o que Eckardt e Haushofer haviam-lhe prometido. No entanto, ele era apenas um médium, e um médium raramente é consciente do preço total que se paga por utilizar as forças que o possuem. Citamos de Pauwels e Bergier: "Após a Purgação, em 1934, com sua grande oferenda de sangue, o movimento que Hitler havia pensado ser Nacional Socialista foi substituído (como Gunther escreveu num jornal alemão) por uma idéia que era puramente satânica. Não que Hitler, como Rauschning acreditava, tivesse se tomado um completo lunático, apenas um instrumento mais moldável. Com cada atrocidade, Hitler ia ocultamente de força a força. A S.S. de Himmler foi organizada como uma ordem religiosa, com uma hierarquia religiosa e um tipo de um abade na direção. Os membros mais elevados eram uma elite que tinha fé absoluta em poderes super-humanos. Rauschning conta-nos que Hitler lhe confidenciou: 'Vou contar-lhe um segredo', disse Hitler, 'Estou fundando uma Ordem.' Era nos Burgos, os castelos iniciatórios, que a primeira iniciação acontecia. Hitler continuou, 'É de lá que o segundo estágio surgirá - o estágio do Homem-Deus, quando o homem será a medida e o centro do mundo. O Homem-Deus, esse ser esplêndido, será objeto de adoração.... Mas há outros estágios, sobre os quais não tenho permissão de falar....'" Porém, sobre a matéria-prima necessária para esse Homem- Deus ele falou e escreveu longamente. No Am Anfang war Erziehung (No Início Houve a Educação) de Alice Miller, encontramos Hitler dizendo: "Minha pedagogia é severa. O que quer que seja fraco deve ser contínua e energicamente eliminado. Nos castelos da minha ordem, deverá crescer a juventude que alarmará o mundo. Eu quero uma juventude violenta, dominadora, destemida e cruel. A juventude tem que ser tudo isso. Ela tem que suportar a dor. Não deve haver nada de fraco ou de frágil nela. De seus olhos, o maravilhoso e libertador predador deve uma vez mais brilhar. Quero que minha juventude seja forte e linda... E assim que poderei criar novas coisas." De O Despertar dos Mágicos: "A Ordem Negra foi isolada do mundo, e a essa ordem pertenciam todos os oficiais superiores e todos em cargos superiores da S.S., que eram iniciados nas severas e estritas exigências da Ordem. Eles tinham proteção total contra qualquer ação das autoridades civis. Nenhuma corte podia convocá-los, mas eles também não tinham nenhuma vida privada. Eles tinham abdicado do direito de escolher e de decidir. Tinham que obter permissão dos seus superiores para se casarem. "Nas escolas preparatórias, as instruções de Himmler eram, 'Acredite, obedeça, lute'. Nada mais. Era nesses castelos iniciatórios que os cadetes embarcavam irreversivelmente num destino sobre-humano. 'Aquele que for julgado pelo Partido como sendo desmerecedor da Camisa Marrom - e todos nós devemos saber disso - será não apenas expulso de sua função, como destruído em sua própria pessoa, e nas pessoas de sua família, esposa e filhos. Tais são as severas e impiedosas leis da nossa Ordem." Ainda assim engana-se quem pensa que a organização de Himmler fosse feita apenas de fanáticos sádicos. Tratava-se mais de iniciados acreditando-se acima do bem e do mal. Não soam dessemelhantes das de Sri Aurobindo as seguintes palavras do Credo da Ordem, "O mundo é matéria a ser transformada para liberar a energia concentrada do Homem Sábio - energia psíquica capaz de atrair os poderes de Além": os Seres Desconhecidos Superiores, os Senhores do Cosmos. Obviamente, a Ordem Negra não era política ou militar, de maneira nenhuma. Ela era puramente de magia. A intenção dos campos de concentração era a de ser um modelo para a ordem social do futuro. "Todos os povos do mundo serão desenraizados e transformados numa imensa população nômade, uma espécie de matéria-prima que pode ser explorada, e a partir da qual emergirá a flor: o Homem em contato com os Deuses. E o molde para o gesso (como Barbey d'Aurevilly costumava dizer, o inferno é o molde do paraíso) de nosso planeta, transformado num campo de operações para os magos da Ordem Negra." Uma doutrina bastante fascinante era aquela transmitida à juventude alemã, "O cosmos é um ser vivo em que todas as formas, incluindo o homem, são diversas expressões que se multiplicaram ao longo das longas eras; só estamos vivos quando conscientizamo-nos desse Ser que necessita de nós para preparar novas variações." A Criação não está completa, então os escolhidos nos castelos iniciatórios têm o destino de moldar as massas humanas ignorantes. Para esse fim, tudo é permitido. Os campos de concentração são parte do processo; as torturas e cirurgias experimentais, parte do ritual. Não apenas porque gosto muito deles, mas porque trazem uma verdade muito profunda, cito aqui os comentários de Pauwels e Bergier sobre os julgamentos de Nuremberg após a guerra: "...E agora, como lesmas após a chuva, tendo escapado da tempestade de ferro, aqui estão eles - juízes de monóculo, professores de direitos humanos e de virtudes horizontais, doutores da mediocridade, barítonos do Exército da Salvação, carregadores de maca da Cruz Vermelha, todos ingenuamente dizendo tolices sobre 'amanhãs mais luminosos' - reunidos aqui em Nuremberg para pregar sermões elementares para os Grandes desta Terra, os monges militantes que assinaram um pacto com os Poderes; os Sacrificadores que podiam ler no espelho da Escuridão; os Aliados de Shamballah, os herdeiros do Santo Graal! E eles realmente mandaram-nos à forca, e trataram-nos como criminosos ou lunáticos delirantes!" "O que os prisioneiros de Nuremberg e seus líderes, que se suicidaram, não podiam entender é que a civilização que acabara de triunfar era também, e com muito mais certeza, uma civilização espiritual, um movimento formidável, que, de Chicago a Tashkent, estava impelindo a humanidade em direção a um destino mais elevado. O que eles, os nazistas, fizeram foi destronar a Razão, colocando a Magia em seu lugar. E verdade que a razão cartesiana não abrange o todo do Homem ou o todo de seu conhecimento. Então eles tinham que a por para dormir. Mas quando a Razão dorme, surgem monstros. O que tinha acontecido aqui foi que a Razão, que não tinha sido posta para dormir, mas levada aos seus limites extremos, estava operando num nível mais elevado, unindo aos mistérios da mente e do espírito os segredos da energia e da harmonia universal. O Racionalismo levado ao extremo dá origem ao Fantástico, de que os monstros engendrados pela Razão quando adormecida são apenas uma sinistra caricatura. Mas os juízes de Nuremberg, os porta-vozes da civilização que triunfara, não sabiam que aquela guerra havia sido uma guerra espiritual. Eles não tinham uma concepção elevada o suficiente de seu próprio mundo; eles apenas acreditaram que o Bem triunfaria sobre o Mal, sem ter percebido quão negro era o mal que havia sido derrotado ou quão glorioso era o bem que havia triunfado." Era óbvio, para observadores perspicazes do drama subliminar, que certas sessões do julgamento de Nuremberg não tiveram sentido. Era impossível aos juízes ter qualquer tipo de comunicação com aqueles que eram os responsáveis, a maioria dos quais, de qualquer forma, havia desaparecido, deixando para trás apenas os homens que haviam sido seus instrumentos. Dois mundos totalmente estranhos confrontaram-se. Os julgamentos de Nuremberg trataram os nazistas como criminosos pelos padrões de nossa sociedade humanista, enquanto que aqueles que iniciaram a guerra não tinham mais nenhuma afinidade intelectual, espiritual e moral conosco, em qualquer sentido básico. Eles estavam mergulhados no satanismo. "Os guerreiros místicos alemães e japoneses pensavam ser magos melhores do que realmente eram. As nações civilizadas que os haviam derrotado não tiveram consciência do significado mágico superior de seu próprio mundo. Elas falavam de Razão, Justiça, Liberdade, Respeito pelaVida Humana, etc., num nível que não tem mais um lugar nessa segunda metade do século vinte, quando o conhecimento está sendo transformado e a transição para um outro estado da consciência humana já é aparente." O comentário acima coloca um argumento muito importante, na verdade, fundamental. Mas não se pode evitar pensar que, tendo tão lucidamente identificado Hitler como o protagonista da Escuridão, Pauwels e Bergier e Brennan falharam em identificar a figura que as forças da Luz inspiraram e guiaram para derrotá-lo. O nome de Churchill não é mencionado nenhuma vez em nenhum dos dois livros. Vamos abordar isso num capítulo posterior. A Mãe disse que foi um descenso maciço de luz transformadora que evocou as forças do Abismo. Ambas as forças estavam trabalhando pelo "Novo Homem": chegamos a um ponto de virada na evolução, diz Hitler, e ao seu novo homem. Sim, realmente, dizem a Mãe e Sri Aurobindo, mas, muito obviamente, não era exatamente o mesmo "Novo Homem". Disso pode-se apreender que não é suficiente saber que chegamos a um ponto de virada, e sentir-se um dos instrumentos escolhidos. Não é suficiente estar pronto para aniquilar a personalidade, como na verdade os cadetes nos castelos iniciatórios eram obrigados a fazer, e estavam até desejosos disso. A natureza abomina o vácuo, e é necessário saber o que será sugado para o vazio, uma vez que a personalidade se tenha ido. Qual é a diferença, se ambos os lados dizem a mesma coisa? Muito simplesmente, como Sri Aurobindo coloca, é estar no lado do Senhor. Mas como saber? Como saber, Arjuna pergunta a Krishna na batalha de Kurukshetra. Como saber se se está fazendo a coisa certa. Isso é uma questão de discernimento, diz Krishna. E sempre uma questão de discernimento. E nos estágios iniciais do conflito, um alto grau de discernimento teria sido necessário numa escolha entre o bon viveur que era Churchill, que bebia e comia sem moderação, e exercitava sua pungente perspicácia como um florete�, e o auto-negador vegetariano que teria de boa-vontade se sacrificado ao chamado de seus deuses, assim como todos os seus familiares mais próximos, em nome da grande causa e do Novo Homem. Vimos que o demônio de Hitler lhe aparecia como um anjo de deslumbrante luz, e muitos são os inocentes que teriam sido enganados. As pessoas raramente têm pensamento próprio. Dado um líder possuído, uma nação pode ser guiada. E quase qualquer coisa vai servir como slogan, a Raça Mestra, o Novo Homem, Ciência para um Mundo Melhor. A revista Harper's publicou os resultados de uma experiência conduzida nos Estados Unidos nos anos setenta. Pessoas foram chamadas na rua e solicitadas a colaborar com a causa da ciência, para determinar quanta voltagem o organismo humano poderia agüentar. Elas eram solicitadas a apertar um botão, que aparentemente fazia passar corrente através de um homem, amarrado ao que parecia ser uma cadeira elétrica, em quantidades crescentes, a cada vez que o botão era pressionado. O homem na cadeira inicialmente contraía-se, fingindo desconforto, e então reclamava, lamentava-se, lamuriava-se e depois contorcia-se e forçava suas amarras em simulada agonia. Quando o indivíduo que estava apertando o botão hesitava ou mostrava sinais de fraqueza, era incitado a continuar, com a justificativa de que estava fazendo uma importante contribuição à ciência. Estudantes, professores, advogados, encanadores, e pessoas de todos os tipos de vida foram envolvidas na experiência. No primeiro lote, de cerca de vinte pessoas (tanto quanto me lembro), apenas uma recusou-se a apertar o botão, depois das duas ou três primeiras vezes. Parece-me que era uma vendedora de loja. O professor universitário sufocou seu riso, enterrando o queixo no ombro. O que é que coloca alguém do lado do Senhor? Não é suficiente exclamar, Senhor, Senhor. Não é suficiente querer servir à evolução. Como foi visto, às vezes nada pode afastar-nos mais da Luz. Os jovens cadetes alemães eram sublimemente inspirados. Quando lhe perguntaram qual era a marca distintiva do novo homem evolutivo, Sri Aurobindo respondeu que era sua equanimidade, um calmo desapego. Certamente, não se encontraria um Hitler delirantemente histérico entre eles. Como veremos, o relato de Churchill sobre o que ele sentiu no Parlamento, um calmo desapego, é o tipo de condição que se esperaria de alguém que recebesse de planos superiores. V � No primeiro andar do Ashram de Sri Aurobindo, em Pondicherry (em Madras, no sul da Índia), existe uma divisória que separa o corredor do apartamento da Mãe. Os ashramitas que ainda cuidam dos apartamentos e têm afazeres onde um dia foi a sala do secretário francês da Mãe, Pavitra (Saint Hilaire), andam ao lado das janelas que dão vista para a árvore do serviço�, que protege o Samadhi de Sri Aurobindo e de A Mãe. Na divisória, gaivotas mergulham em tranqüilas baías, pintadas em estilo pontilhista, depois da guerra, por um artista do Ashram. Algumas dessas pessoas talvez mal se lembrem que, há menos de meio século (alguns eram crianças na época), ali, onde as ondinhas e as gaivotas brincam, o avanço das tropas de Hitler era marcado a carvão, por Pavitra, num mapa. Em menos de um ano, as tropas de Hitler atacaram em direção ao oeste nos mapas da Europa. Em 9 de abril de 1940, as forças nazistas ocuparam a Dinamarca e a Noruega. Citamos O Reich Oculto: "O movimento, como muitos dos movimentos de Hitler, havia sido anteriormente considerado impossível. A marinha britânica, arrasadoramente superior a qualquer coisa que os alemães jamais tiveram, guardava os portos. As águas territoriais norueguesas estavam minadas. Ainda assim, com a ajuda de uma sorte excepcional, os alemães conseguiram. Comboios de navios nazistas aproximaram-se furtivamente da costa, de alguma forma conseguindo evitar todas as embarcações britânicas, exceto uma, que, em todo caso, eles explodiram em pedaços, e na maioria alcançaram porto seguro antes das minas serem posicionadas. "Em 10 de maio, Hitler avançou contra a Holanda, Bélgica e Luxemburgo. 'A batalha que hoje se inicia,' disse Hitler às suas tropas em sua ordem do dia, 'decidirá o futuro da nação germânica pelos próximos mil anos.' E suas tropas, parecia, eram virtualmente invencíveis. O exército holandês (mais de meio milhão de fortes) capitulou em cinco dias. Em oito dias, os alemães alcançaram Bruxelas. Mais importante ainda, em 17 de maio a 'impenetrável' Linha Maginot francesa, a estrutura que fora a inveja da Europa, foi traspassada severamente. Ao final de maio, a Holanda havia sido derrotada. A Bélgica fora derrotada, o norte da França ocupado, os 1o, 7o e 9o exércitos franceses nocauteados e a famosa ação de retaguarda em Dunkirk estava a postos. Em 14 de junho, Paris caiu. Dias mais tarde, o Marechal Petain da França pediu um armistício." As forças da escuridão de Hitler estavam em vantagem." William Shirer anotou em seu diário de guerra, em 29 de maio, "A primeira invasão da Inglaterra desde 1066? As bases inglesas no continente, a não ser por um milagre de última hora, já eram." Dunkirk era em si um milagre e Sri Aurobindo fala sobre intervenção divina. Todas as balsas de invasão estavam prontas em Dunkirk. Nenhum historiador compreende por que Hitler recuou como também nenhum explica por que ele atacou a Rússia e se expôs em duas frentes de batalha. A explicação jaz por trás do véu que nos separa de outras dimensões, e que tentaremos penetrar. Na Batalha Freqüentemente, no longo retiro das morosas eras Na fina crista da Vida no enorme oceano do Tempo, Aceitei a morte e suportei a derrota Para ganhar pontos na minha queda por Ti. Pois destes ao Inconsciente o direito obscuro De opor-se à brilhante passagem de minha alma E coletar a cada passo a taxa da Noite: A Desgraça, sua augusta contadora, registra os pagamentos. À minha volta agora forças Titânicas pressionam; Este mundo é delas, que tomam os dias como honorários; Estou muito ferido e a luta é cruel. Não é ainda o momento de Tuavitória? Seja feita Tua vontade! O que ainda ao Destino deves, O Ancião dos mundos, Tu sabes, Tu sabes. 25 de setembro de 1939 (poucos dias antes do romper da 2a Guerra Mundial). Sri Aurobindo identificou-se dolorosamente com a Luz ameaçada e escreveu esse poema algum tempo antes da batalha real (por meses, ambos os lados esperaram pelo que veio a ser chamado de Guerra de Mentirinha ou guerra econômica. Os Aliados, em sua maioria, acreditavam que a guerra estava para acabar. Sri Aurobindo, como veremos, percebia o que estava por trás de Hitler). A regra do Ashram sempre havia sido "sem política". No começo da guerra, pela primeira vez desde a chegada de Sri Aurobindo a Pondicherry, um rádio foi instalado no Ashram. A Mãe, dando bênçãos do alto da escada, assim que o programa de notícias entrava no ar, ia ao quarto de Sri Aurobindo ouvi-las. A última transmissão da BBC era às duas da manhã e na maioria das noites a Mãe permanecia acordada para ouvir, ou alguém anotava as notícias para ela. Num momento em que qualquer ameaça ao poder britânico era vista com exultação pela índia, num momento em que qualquer inimigo britânico era necessariamente um amigo da índia, Sri Aurobindo escreveu esta carta ao governador de Madras: "Sentimos que não apenas é essa batalha travada em defesa própria, e em defesa das nações ameaçadas pelo domínio mundial da Alemanha e do sistema de vida nazista, mas também que ela é uma defesa da civilização e dos valores sociais, culturais e espirituais mais elevados alcançados e de todo o futuro da humanidade. A essa causa nosso apoio e solidariedade será irrestrito, não importa o que aconteça; ansiamos pela vitória da Inglaterra e, como resultado final, uma era de paz e união entre as nações e uma ordem mundial mais segura." Mais, Sri Aurobindo não poderia ter dito numa mensagem pública. Isso foi escrito na época do colapso da França e da ameaça de colapso da Inglaterra e foi colocado à disposição do governador para divulgação em apoio à causa aliada. Essa foi a primeira declaração pública política que Sri Aurobindo fez após chegar a Pondicherry. "Imediatamente houve uma chuva de protestos no país contra a posição que Sri Aurobindo tomara e alguns dos residentes do Ashram, que tinham fortes sentimentos anti-Inglaterra e haviam lutado pela liberdade da índia, também ficaram perplexos e muito perturbados. Como podia Sri Aurobindo, uma vez um mortal oponente da dominação britânica na Índia, 'não meramente um não-cooperador, mas um inimigo do Imperialismo Britânico', apoiar a causa da Inglaterra? Um discípulo escreveu para A Mãe, 'o Congresso está nos pedindo para não contribuir com o fundo de guerra. O que devemos fazer?' A resposta foi: 'Sri Aurobindo contribuiu por uma causa Divina. Se vocês ajudarem, estarão ajudando a si mesmos.' Mas as críticas continuaram e alguns residentes, por causa de seu ódio pelos ingleses, proclamaram abertamente seus sentimentos pró-Hitler...." Quando a Europa ainda não se conscientizará da enormidade da insanidade assassina de Hitler, Sri Aurobindo e A Mãe já haviam há muito percebido Hitler como um agente das Forças das Trevas. Citamos da correspondência entre Nirodbaran e Sri Aurobindo (4 de abril de 1936, três anos antes de a guerra estourar) quando, respondendo, Sri Aurobindo escreve: "... Quem, exceto o demônio, dará força à Alemanha? Você acha que estou aliado a Hitler e sua tribo de nazistas ululantes?" e também "Hitler e seus principais comandantes, Goering e Goebbels, são com certeza seres vitais1, ou estão possuídos por seres vitais, portanto não se pode esperar bom-senso deles. O Kaiser , apesar de totalmente satânico, era uma pessoa muito mais humana; essas pessoas mal são humanas. O século dezenove na Europa foi uma era proeminentemente humana - agora o mundo vital parece estar descendendo aqui. (18 de setembro de 1936)" "(22 de janeiro de 1939)... Quando dizemos que Hitler está possuído por uma força vital, isso é uma constatação da realidade e não um julgamento moral. Isso está claro pelo que ele faz e pela maneira como o faz." Ainda numa outra carta: "Não há paralelo na história de um maníaco utilizando todos os tipos de falsidade, hipocrisia e perversidade para capturar a imaginação de uma raça de cultura como a alemã." Sri Aurobindo via no Mein Kempf - a Bíblia do nazismo - um tecido de mentiras que ele disse não iria tocar. Uma revista francesa, L'Illustration, publicou uma foto de Hitler, Goebbels e Goering sobre a qual Sri Aurobindo comentou: "Hitler dá-me a impressão do rosto de um criminoso de rua. No caso dele, é um facínora de sucesso, com uma diabólica capacidade para o logro e, por trás dela, a psique de um taxista londrino, - rude e subdesenvolvido. Isso significa que o caráter psíquico desse homem consiste de fútil e tolo sentimentalismo. Ele está possuído por algum Poder sobrenatural e é desse Poder que a voz, como ele a chama, vem. Você já notou que as pessoas que foram uma vez seus inimigos entram em contato com ele e tornam-se seus admiradores? Isso é um sinal desse Poder. É desse Poder que ele constantemente recebe sugestões e a constante repetição das sugestões que dominaram o povo alemão. Você também perceberá que em seus pronunciamentos ele sempre enfatiza as mesmas idéias - isso é evidentemente um sinal de possessão vital." Narayan Prasad, um ashramita, escreve, "O sentimento nacional indiano contra os ingleses era tão amargo que cada vitória de Hitler era aclamada como se fosse nossa." A adesão de Sri Aurobindo à causa britânica foi muito surpreendente, dramática e até chocante, vinda de um radical lutador pela liberdade, do porte de Sri Aurobindo, que sofrera consideravelmente, inclusive na prisão, nas mãos do governo colonial de Sua Majestade. Sri Aurobindo denominou a Segunda Guerra Mundial de "A Guerra da Mãe", e tanto ele como a Mãe fizeram generosas contribuições aos vários fundos de guerra, apesar das rígidas condições financeiras de seu Ashram (10.000 francos na época era gesto dos mais generosos), tudo isso apesar do violento sentimento anti-britânico em toda a índia e mesmo no Ashram. Numa carta à seus discípulos, um deles havia sido seu assistente quando ele (Sri Aurobindo) era o líder revolucionário mais eloqüente da Índia, temido por um setor da administração imperial como o maior inimigo de seu domínio na índia, Sri Aurobindo escreve: "Afirmo novamente, com a maior veemência, que essa é a Guerra da Mãe. Vocês não devem pensar nela como uma luta de algumas nações por outras, nem mesmo pela índia; ela é uma luta por um ideal que tem que ser estabelecido na Terra na vida da humanidade, por uma Verdade que ainda tem que se concretizar plenamente e contra uma escuridão e falsidade que estão tentando subjugar a Terra e a humanidade no futuro imediato. São as forças por trás da batalha que têm que ser vistas e não esta ou aquela circunstância superficial. De nada adianta concentrar-se nos defeitos ou erros das nações; todas têm defeitos e cometem erros graves; mas o que importa é de que lado elas se colocaram na luta. É uma luta pelo desenvolvimento da liberdade da humanidade, por condições em que os homens tenham liberdade e espaço para pensar e agir de acordo com a luz neles e crescer na Verdade, crescer no Espírito. Não pode haver nem a mais leve dúvida de que, se um lado vencer, será o fim de toda liberdade e da esperança de luz e de verdade, e o trabalho que tem que ser feito seria sujeito a condições que o tornariam humanamente impossível; haveria um reinado de falsidade e de escuridão, uma cruel opressão e degradação da maior parte da raça humana, de uma tal forma que as pessoas neste país nem sonham e não podem ainda perceber. Se o outro lado, que se declarou a favor de um futuro livre, triunfar, esse terrível perigo terá sido evitado e condições terão sido criadas em que haverá a possibilidade para o Ideal crescer, para o Trabalho Divino ser feito, para a Verdade espiritual pela qual lutamos estabelecer-se na Terra. Aquelesque lutam por essa causa estão lutando pelo Divino e contra a ameaça do reinado do Asura." No país inteiro, Sri Aurobindo era a voz indiana levantada em apoio à Inglaterra e a única a iluminar a verdadeira natureza do conflito, e isso num momento em que o mundo estava totalmente ignorante dos horrores dos campos de concentração, das atrocidades que foram reveladas apenas após a guerra, quando os campos foram liberados. A um discípulo, que expressou apreensão em relação à ajuda incondicional e assumida de Sri Aurobindo aos Aliados na guerra, ele escreveu (3 de setembro de 1943): "O que dizemos não é que os Aliados não tenham feito coisas erradas, mas que eles estão do lado das forças evolutivas. Não disse isso ao acaso, mas baseado no que para mim são fatos reais claros. Você fala do lado escuro. Todas as nações e governos foram isso em suas transações umas com as outras - ao menos todos que tiveram a força e a oportunidade. Espero que você não queira que eu acredite que existam ou existiram governos virtuosos e povos sem egoísmo nem pecado! Mas há também o outro lado. Você está condenando os Aliados baseado em fatos sem significado para as pessoas no passado, baseado em ideais modernos de conduta internacional; olhando assim, todos têm registros negros. Mas quem criou esses ideais (liberdade, democracia, igualdade, justiça internacional e outros)? Bem, os Estados Unidos, a França, a Inglaterra - as atuais nações Aliadas. Todas foram imperialistas e carregam ainda o fardo de seu passado, mas elas também deliberadamente divulgaram esses ideais, assim como as instituições que os tentam concretizar. Qualquer que seja o valor relativo dessas coisas - elas foram um estágio, mesmo que imperfeito, em direção à evolução. (O que dizer dos outros? Hitler diz ser um crime educar os povos de cor, que eles devem ser mantidos como servos e trabalhadores.) A Inglaterra ajudou certas nações a se libertarem sem buscar nenhum ganho pessoal; ela também concedeu a independência ao Egito e ao Eire após uma luta, ao Iraque sem luta. Ela tem se distanciado consistentemente, ainda que vagarosamente, do imperialismo em direção à cooperação; a Liga das Nações Britânicas e Domínios é algo único e sem precedentes, um começo de coisas novas naquela direção: ela move-se em idéia à alguma forma de união mundial em que a agressão se tornará impossível; sua nova geração não mais acredita firmemente em missão e império; ela ofereceu independência ao Domínio Índia - ou até a pura independência isolada, se o quisermos, - depois da guerra, com um acordo de constituição livre escolhido pelos próprios indianos.... Tudo isso é o que eu chamo de evolução na direção correta - não importa quão vagarosa, imperfeita e hesitante possa ela ainda ser. Quanto aos Estados Unidos, eles prometeram renunciar à sua política imperialista passada em relação às Américas Central e do Sul, concederam independência a Cuba e às Filipinas... existe uma tendência similar do lado do Eixo? Deve-se analisar as coisas por todos os ângulos, para vê-las consistentemente e como um todo. Uma vez mais, são as forças trabalhando por trás que você deve ver, não quero ficar cego aos detalhes superficiais. O futuro deve ser salvaguardado; só então poderão os presentes problemas e contradições ter uma chance de serem resolvidos, eliminados...." "Para nós, tal questão não é relevante. Deixamos claro numa carta, que foi tornada pública, que não considerávamos a guerra como uma luta entre nações e governos (muito menos entre boas e más pessoas), mas entre duas forças, a Divina e a Asúrica. O que temos que ver é de que lado os homens e as nações se colocam; se colocam-se do lado certo, eles de imediato tornam-se instrumentos do propósito Divino, independentemente de todos os defeitos, erros, movimentos errados, e ações que são comuns à natureza humana e a todas as coletividades humanas. A vitória de um lado (os Aliados) manteria o caminho aberto para as forças evolutivas: a vitória do outro lado arrastaria a humanidade para trás, degradando-a terrivelmente e poderia até mesmo levar, na pior das hipóteses, à sua eventual falha como raça, como outras na evolução passada falharam e pereceram. Essa é a questão toda e todas as outras questões são ou irrelevantes ou de menor importância. Os Aliados ao menos apóiam valores humanos, apesar de várias vezes terem agido contra seus melhores ideais (seres humanos sempre fazem isso); Hitler apóia valores diabólicos ou valores humanos exageradamente errados, ao ponto de tornarem-se diabólicos (por exemplo, as virtudes da Herrenvolk, a raça mestra). Isso não faz das nações inglesa e americana anjos irrepreensíveis, nem da alemã uma raça má e pecadora, mas, como um indicador, tem importância primária." "Devemos nos lembrar que conquista e reinado sobre povos súditos não eram considerados errados, nem nas épocas antigas, nem medievais, nem em épocas bem recentes, mas sim algo grande e glorioso; os homens não viam uma maldade especial nos conquistadores ou nações conquistadoras. Apenas o governo dos povos subjugados era visualizado, mas nada mais - a exploração não estava excluída. As idéias modernas sobre o assunto, o direito de todos à liberdade, tanto de indivíduos como de nações, a imoralidade da conquista e do império, ou tais acordos como a idéia inglesa de treinar as raças subjugadas para a liberdade democrática, são valores novos, um movimento evolutivo; esse é um novo Dharma que apenas vagarosa e inicialmente começou a influenciar as práticas, - um Dharma infante que seria para sempre aniquilado caso Hitler sucedesse em sua missão 'Avatárica' e estabelecesse sua nova 'religião' sobre toda a Terra. As nações subjugadas naturalmente aceitam o novo Dharma e criticam severamente os antigos imperialismos; deve-se esperar que elas pratiquem o que hoje pregam quando elas próprias tornarem-se fortes, ricas e poderosas. Mas o melhor será se uma nova ordem mundial evoluir, mesmo que num primeiro momento hesitante e incompletamente, que torne as coisas passadas impossíveis - uma tarefa difícil, mas não absolutamente impossível." "O Divino toma os homens como eles são e usa-os como Seus instrumentos, mesmo que eles não sejam impecáveis em virtude, angélicos, sagrados e puros. Se eles tiverem boa vontade, se, para usar a frase bíblica, estiverem do lado do Senhor, isso é o suficiente para o trabalho ser feito. Mesmo se eu soubesse que os Aliados fariam mal uso de sua vitória, ou estragariam a paz, ou pelo menos parcialmente atrapalhariam as oportunidades abertas para o mundo humano pela vitória, ainda assim colocaria minha força em seu apoio. De qualquer modo, as coisas não poderiam ser nem um centésimo tão ruins como seriam sob Hitler. Os caminhos do Senhor estariam ainda abertos - mantê-los abertos é o que importa. Vamos concentrar-nos no real, no fato central, na necessidade de remover o perigo da servidão negra e de reviver a barbárie que ameaça a índia e o mundo, deixando para mais tarde todas as questões secundárias e menores ou problemas hipotéticos que anuviariam a mais importante e trágica questão ante nós." Além da carta que foi colocada à disposição do governador, Sri Aurobindo uma vez mais posicionou-se firmemente numa questão política vital. Citamos aqui a "All Índia Magazine", 1991, e um artigo de Nirodbaran, secretário de Sri Aurobindo: "O Japão entrou na guerra em dezembro de 1941 e, em três meses, varrendo tudo à sua frente, alcançara os portões da Índia. Percebendo a extrema gravidade da situação, Churchill anunciou que, em março de 1942, ele mandaria Sir Stafford Cripps à Índia como seu enviado pessoal, para negociar com o Congresso e com os líderes muçulmanos, para que um Governo Central responsável fosse formado para mobilizar os recursos indianos para combater os japoneses. Ele também ofereceu a criação de uma nova União Indiana com status de Domínio e uma constituição que seria formulada pelos próprios representantes indianos após a guerra. Quando Sir Stafford Cripps chegou à Índia para cuidardos detalhes, Sri Aurobindo acolheu a missão e, em 31 de marco, enviou-lhe uma mensagem nos seguintes termos: 'Ouvi seu pronunciamento. Como alguém que tem sido um nacionalista e um trabalhador pela independência da índia, apesar de minha atividade agora não ser mais no campo político, mas no espiritual, quero expressar minha apreciação por tudo o que você tem feito para realizar essa oferta. Eu acolho-a como uma oportunidade dada à Índia de determinar por si mesma, e organizar com toda liberdade de escolha, sua liberdade e unidade, e tomar um lugar efetivo entre as nações livres do mundo. Espero que ela seja aceita, e correto o uso dado a ela, colocando-se de lado todas as discórdias e divisões. Espero também que relações amistosas entre a Inglaterra e a índia, tomando o lugar de confrontos passados, sejam um passo em direção a uma maior união mundial em que, como uma nação livre, sua força espiritual contribuirá para construir para a humanidade uma vida melhor e mais feliz. Nessa luz, ofereço minha adesão pública, caso ela possa ser útil ao seu trabalho.'" Sir Stafford Cripps respondeu, 'Estou muito tocado e gratificado por sua gentil mensagem, permitindo-me informar à Índia que você, que ocupa uma posição única na imaginação da juventude indiana, está convencido de que a declaração do governo de Sua Majestade substancialmente confere a liberdade que o Nacionalismo Indiano por tanto tempo lutou.' "Cripps agora entrou em longas discussões com os líderes políticos indianos, mas falhou em conseguir que o Congresso aceitasse suas propostas. Sri Aurobindo havia visto claramente que a oferta de Cripps se constituíra numa grande oportunidade que, se utilizada, levaria a índia tanto à liberdade quanto à união - note que ele usa essas duas palavras em sua mensagem a Cripps. Ele considerava que um Governo Central em que hindus e muçulmanos trabalhassem juntos com um objetivo comum, alinhando firmemente a índia contra as forças anti-divinas, reduziria a tensão entre as duas comunidades e levaria à cooperação em vez de ao confronto. Sri Aurobindo também viu a necessidade de organizar a força coletiva do país para repelir o perigo japonês. Ele disse-nos claramente: 'O imperialismo japonês, por ser jovem, baseado no poder militar e industrial e orientado para o ocidente, era para a índia uma ameaça maior que o imperialismo britânico, que era velho, com o qual o país havia aprendido a lidar e que estava a caminho de ser eliminado.' Mas os líderes do Congresso foram impermeáveis a essas considerações vitais, parecendo mais preocupados com cálculos políticos imediatos, provavelmente influenciados pela opinião de Gandhiji, de que as propostas oferecidas pelos ingleses não eram nada mais que um 'cheque pré-datado de um banco que estava falindo'. Sri Aurobindo chegou ao ponto de enviar um emissário pessoal a Delhi para tentar persuadir os líderes do Congresso a aceitarem a oferta de Cripps. S.Duraiswamy, um eminente advogado de Madras e um discípulo, foi escolhido para essa missão, talvez por ser ele amigo de C. Rajagopalachari, um dos poucos líderes de posição elevada no Congresso a apoiar as propostas de Cripps. No entanto, foi tudo em vão; a oferta foi rejeitada pelo Congresso. Quando a rejeição foi anunciada, Sri Aurobindo disse num tom sereno, 'Eu sabia que falharia'. Nós imediatamente pulamos sobre suas palavras e perguntamos, 'Então por que você enviou Duraiswamy, afinal?' 'Por um pouco de niskama karma'? foi sua resposta tranqüila, sem nenhuma amargura nem ressentimento." "Muitos observadores perspicazes, analisando o passado com atitude desapegada, agora consideram que, fosse a oferta de Cripps aceita, todo curso da história recente poderia muito bem ter sido mudado. Uma associação eficaz de hindus e muçulmanos no governo poderia ter frustrado a teoria das 'Duas Nações', evitando a Separação com toda sua derivação de incalculável sofrimento humano, assim como seu legado de problemas políticos que ainda nos atormentam. A visão de Sri Aurobindo ia muito além de questões políticas imediatas e ele viu que a oferta de Cripps viera como resultado de uma inspiração divina. Os líderes políticos de então, mais preocupados com considerações de curto prazo, não puderam compartilhar dessa visão, e então uma grande oportunidade foi desperdiçada. Devo mencionar aqui que também a Mãe exortara veementemente a aceitação das propostas. Ela disse: 'Meu ardente pedido à índia é que não rejeite [a oferta de Cripps]. Ela não deve cometer o mesmo erro que a França cometeu recentemente e cair no abismo.' Quando foi anunciada a rejeição da oferta, ela disse apenas, 'Agora a calamidade abater-se-á sobre a Índia.'" O mundo sabe que calamidade não é uma palavra forte demais para descrever o que passou este subcontinente durante a Separação. Convém lembrar que Sri Aurobindo quebrou um período de trinta e quatro anos de não envolvimento com a política para exortar Gandhiji e os líderes do Congresso em Delhi a aceitar a proposta de Cripps�. VII Mahatma Gandhi escreveu uma carta aberta (2 de julho de 1940) aos membros do Parlamento inglês: "Apelo por uma cessação de todas as hostilidades... porque a guerra é em essência ruim.... Quero que vocês combatam o nazismo sem armas ou ... com armas não-violentas. Gostaria que vocês considerassem as armas que têm como inúteis para salvá-los ou à humanidade ... Deixe-os apossarem-se de suas lindas ilhas com suas muitas construções lindas... mas não de suas almas e mentes..." Sobre isso Sri Aurobindo diz: "... Permanece a objeção de que toda guerra é má e que nenhuma guerra pode ser apoiada; a força da alma ou algum tipo de força espiritual ou ética é o único tipo de força que pode ser utilizado; a única resistência permissível é a pacífica, a não-cooperação ou Satyagraha. Mas esse tipo de resistência, apesar de ter sido utilizada no passado, com algum efeito, por indivíduos ou numa escala limitada, não pode impedir a invasão de um exército estrangeiro, menos ainda de um exército nazista; ela só pode ser usada como meio de oposição a um reinado opressivo já existente. Surge então a questão se pode-se pedir a uma nação que voluntariamente sofra a ameaça de uma invasão estrangeira, ou a aflição de uma ocupação estrangeira, sem usar nenhum meio disponível de resistência material. É também uma questão se alguma nação no mundo é capaz desse tipo de resistência num prazo longo e de uma forma abrangente o suficiente, ou é suficientemente desenvolvida ética e espiritualmente para satisfazer as condições que lhe trariam sucesso, especialmente contra uma opressão militar organizada e sem compaixão como a dominação nazista; em qualquer grau, é admissível não querer arriscar a aventura enquanto houver outra alternativa. A guerra é fisicamente um mal, uma calamidade; moralmente ela tem sido, como a maioria das instituições humanas, uma mistura; na maioria dos casos, mas não em todos, uma mistura de algum bem e muito mal: mas é necessário, às vezes, encará-la, ao invés de convidar e passar por um mal pior, uma calamidade maior. Pode-se admitir que, enquanto a vida e a humanidade forem o que são, não poderá haver tal coisa como uma guerra correta.... Sem dúvida, numa vida espiritualizada da humanidade, ou numa civilização perfeita, não haveria espaço para a guerra ou a violência, - está claro que esse é o estado ideal mais elevado. Para levá-la a esse estado é necessário uma mudança espiritual imediata, da qual não há evidência presente, ou uma mudança de mentalidade e de hábitos, que a vitória da idéia totalitária e de seu sistema tornaria impossível; pois ela imporia justo a mentalidade oposta, a mentalidade e os hábitos de uma força bruta dominante e violenta de um lado, e de uma não-resistência servil e prostrada de outro." Sri Aurobindo diz dele mesmo: "... Se ele (Sri Aurobindo) tivesse favorecido o ideal pacifista, nunca teria apoiado os Aliados (nem ninguém mais) nesta guerra, muito menos sancionado que alguns de seus discípulos se alistassem no exército como pilotos,soldados, médicos, eletricistas, etc." A. B. Purani, um obstinado revolucionário que lutara contra os ingleses, era discípulo de Sri Aurobindo e levantou o assunto da não-violência Gandhiana. Esse diálogo foi registrado nos Evening Talks (8 de janeiro de 1939): "Discípulo: ...Gandhi escreveu sobre o regime de Hitler, que o sofrimento do Bispo Niemöller não é em vão. O coração de Hitler pode ser duro como pedra, mas a não-violência tem o poder de gerar um calor que pode fundir até o mais duro coração. O que você pensa sobre isso?" "Sri Aurobindo: Temo que uma bela fornalha seria necessária! (risos) Gandhi teve que lidar principalmente com ingleses, e os ingleses querem ficar com a consciência tranqüila. Além do mais, os ingleses querem satisfazer sua auto-estima e querem estima mundial.... Hitler não estaria onde está se tivesse um coração mole." Até mesmo Churchill, a única voz consistentemente levantada contra o pacifismo cego na Inglaterra, exortando um vigoroso rearmamento, e prevendo plenamente, ao menos, a ameaça política do nazismo, ainda em 1935 tinha esperança de um final feliz. Sua esperança por um resultado favorável evidencia a boa vontade de um homem forte, mas não a percepção infalível do Vidente: "Não é possível formar um julgamento justo de uma figura pública que alcançou a enorme estatura de Adolf Hitler, até que o trabalho de sua vida se apresente como um todo ante nós. Apesar de que nenhuma ação política subseqüente possa legitimar atos errôneos, a história é repleta de exemplos de homens que subiram ao poder através de métodos duros, cruéis e até mesmo aterrorizantes e que, no entanto, quando suas vidas foram reveladas como um todo, foram considerados como grandes figuras, cujas vidas enriqueceram a história da humanidade." "Não somos agraciados com tal visão do todo hoje. Não podemos dizer se ele levará o mundo a uma outra guerra, em que a civilização sucumbirá irrecuperavelmente, ou se ele marcará a história como o homem que restaurou a honra e a paz de espírito da grandiosa nação germânica e trouxe-a de volta serena, solícita e forte ao primeiro plano do círculo familiar europeu. É sobre esse mistério do futuro que a história fará seu pronunciamento. Basta dizer que ambas as possibilidades estão abertas no presente momento. Se, porque a história está inacabada, porque, na verdade, seus capítulos mais decisivos ainda estão por serem escritos, somos forçados a focarmo-nos no lado mais escuro de seu trabalho e credo, nunca devemos nos esquecer, nem deixar de ter esperança em uma alternativa mais luminosa." Mesmo antes da guerra, Sri Aurobindo disse: "... Homens como Hitler não podem mudar, eles têm que ser eliminados da existência. Não há possibilidade de eles mudarem nesta vida..." Essa declaração foi gravada em 8 de janeiro de 1939, nas Evening Talks de Purani (oito meses antes da guerra estourar). VIII � "Muitas pessoas acreditavam que o nazismo era uma fase temporária, que suas enormidades passariam, a verdadeira Alemanha automaticamente se elevaria à proeminência e novamente haveria a adorável música, a grande literatura e a elevada filosofia. Sri Aurobindo nunca corroborou com essa visão ensolarada." K. D. Sethna, em A Guerra por trás da Guerra�, resumiu como ninguém, brilhantemente, a inabalável visão de Sri Aurobindo. Ele continua: "Pelo contrário, ele sustentava que o nazismo, da forma como o via, era, apesar de sua terrível feiúra, nada mais que um pequeno e irrelevante começo de uma escuridão de que não tínhamos idéia. Era para ele a ponta de lança de uma ofensiva total das Trevas. Seu sucesso não seria um fenômeno passageiro que se exauriria por si só, deixando a vida humana retornar à sua antiga forma de compreensíveis fragilidades aliviadas por admiráveis forças. Seu sucesso introduziria o início de uma era em que o diabólico reinaria sobre o humano..." "Do ponto de vista oculto, o nazismo é o pólo exatamente oposto à dinâmica de Aurobindo. Não é um rompante ligeiro tocando as superfícies da vida material ou alguns de seus domínios, mas uma tentativa de total supremacia, porque a dinâmica de Aurobindo também inclina-se a um integralismo todo-abrangente de efeito na Terra. A espiritualidade de Sri Aurobindo não é uma grande fuga do enigma da vida: é uma solução radical a ele. Se o trabalho dele não fosse nada além de se interiorizar e se elevar acima do plano material, para um estado de alma não nascido e imanifesto, ele não teria se incomodado com o colosso Hitler avançando sobre a humanidade. Sri Aurobindo defende a criação do lebensraum para o Espírito aqui e agora. E o que finalmente determina que ele era o pólo superior oposto a Hitler, é que ele preconizava a divinização da consciência da substância material não menos que as partes sutis de nossa natureza - uma transformação nunca claramente visualizada pelos santos, sábios e profetas do passado, apesar de sua intuição de que o mundo material viera originalmente do Divino. O Yoga daqueles santos, sábios e profetas, mesmo quando não completamente escapista, não era completamente frustrado em sua função, pois sua meta última era ainda uma realização num Além no final da vida na Terra. Mas um Yoga único, que insiste na realização de uma manifestação divina integral na própria matéria e não no avanço para um estado sobrenatural após a morte, um Yoga objetivando pôr as mãos em cada um de nossos aspectos para a criação de uma nova raça, teria suas bases destruídas pelo triunfo do nazismo. Da mesma forma, se à Nova Ordem de Aurobindo fosse permitido avançar, os poderes corporificados em movimentos, como o nazismo, sofreriam uma derrota definitiva, e seu domínio sobre a Terra Seria fundamentalmente enfraquecido. Então, contra a marcha divina no plano terrestre, com o propósito de embasar nele de uma vez por todas a consciência da Verdade, existe a contramarcha da morada oculta da Falsidade, para ganhar soberania permanente. Porque Sri Aurobindo sabia pelo que ele luminosamente trabalhava, e percebeu num relance todo o caráter e ameaça do nazismo..." "Por trás do cenário evolutivo da Terra existem mundos típicos, fixados numa certa ordem e harmonia próprios. Esses mundos são de trevas, assim como de luz. Não existe progresso em seu próprio nível, eles estão satisfeitos com seu próprio tipo, possuindo sua natureza peculiar plenamente expressa e manifestando-a de diversas formas. Mas esse contentamento com sua plena manifestação não os eximem do desejo de estender o jogo de sua satisfação do oculto para o material. Eles fazem do cenário terrestre seu campo de batalha. E, como o cenário terrestre inicia-se com uma involução do Divino, uma ocultação do Espírito, os mundos ocultos das trevas têm um papel mais fácil que os da luz... É por isso que toda verdade é distorcida ao longo do tempo e torna-se, de fato, uma espécie de inverdade, religiões tornam-se uma praga obscurantista e a arte, decadentes saturnais, a filosofia, uma insurreição de sofismas e a política, uma grande maquinaria para a exploração de muitos no interesse de poucos... O caminho é sempre obstruído e interrompido por disformes massas de influência de mundos misteriosos onde a brutalidade e a cegueira são os princípios em que se baseia a existência, num molde imutável e não-evolutivo." "... A última guerra foi diferente de qualquer outra, e o nazismo não foi uma recrudescência da ignorância humana, mas uma tentativa de iniciar uma nova era de horror e terror imutáveis, a mais monstruosa investida da Preternatureza para fundar aqui o império do satanismo. A consciência humana está quase morta naqueles que corporificam a hierarquia preternatural - pela simples razão de que o humano tem valor de possuído. E porque a possessão é tão extrema, a tarefa de derrotar o Asura e seu bando foi tanto tão imperativa e tão árdua. Não é de se admirar que um grande número de combatentes, e também de neutros, perguntava-se: 'Pode Hitler ser derrotado?' Ainda assim, a própria enormidade da invasão invocou os poderesocultos da Luz de detrás do véu. E, apesar de ser mais difícil para o instrumento humano ser um canal para o Divino do que um médium para o Diabólico, devemos nos lembrar que o Divino é infinito, enquanto que o Diabólico não é nada além de imenso. Se o Diabólico encontra um papel mais fácil, o Divino traz uma capacidade mais vasta - e vagarosamente, passo a passo, as forças da Luz foram mobilizadas, treinadas e arremessadas contra o inimigo. Não podia haver discussão, acordo ou concessões. O Asura não pode ser convertido: ele tem que ser vencido." "Embora sem clareza, essa verdade foi compreendida pelas nações Aliadas. Churchill deu a ela o empurrão mais dinâmico possível, na falta de visão espiritual e oculta diretas. Quando a França prostrou-se, e Hitler anunciou que, em 15 de agosto daquele ano, ele falaria ao mundo do Palácio de Buckingham, e a infindável Luftwaffe sobre a Inglaterra parecia sua deusa alada da vitória, Churchill soube que não poderia haver retorno, nem cessão. Ele foi magnífico sob aquela chuva diária de explosivos, e seu instinto da verdade sobre-humana em jogo marcou-o como um instrumento por excelência do Divino na guerra. Na longínqua Índia levantava-se uma voz, guiada não pelo instinto, mas por brilhante percepção. Estranhamente, a voz era de alguém nascido em 15 de agosto, o exato dia em que Hitler esperava celebrar a morte de tudo o que a humanidade valorizava3. Um poder Yógico que trabalhava secretamente como um dínamo, enviando correntes mundiais, dirigindo uma vasta e invisível força inspirada aos exércitos, marinhas e aeronáuticas alinhados contra Hitler." "Quando os livros de história são escritos, esses exércitos, marinhas e aeronáuticas, assim como os homens dirigindo os governos Aliados, têm neles grande proeminência. A glória que eles recebem é amplamente merecida por seu idealismo, coragem, perseverança e habilidade. Mas quem quer que entenda o significado profundo da guerra e sinta o embate incorporai de que ela foi uma reverberação externa, certamente reconhecerá, como a antítese ativa ao mal oculto que ameaçava engolfar completamente a humanidade através de Hitler, o bem oculto que promete elevar a humanidade. ..." IX � "Doutor, por favor, não vá sem me ajudar. Sou uma mulher velha e doente, por favor, ajude-me a ser levada a um hospital." "A súplica foi feita numa voz suave, que me pareceu muito familiar. Onde tinha ouvido aquela voz antes, e aquele soluçar triste e contido que parecia vir da cela duas portas adiante? Então me lembrei: a voz lembrava-me de minha mãe no funeral de meu irmão, quando ela chorara da mesma maneira suave, de dar dó." Citamos um trecho de As Pegadas Perdidas�, de Silviu Craciunas, que foi torturado pelo regime comunista romeno. "No dia seguinte, a mesma cena se repetiu, mas dessa vez pude ouvir mais claramente. Um homem, que, acredito, era o médico da prisão, dizia, 'Sinto muito, não está em minhas mãos. É verdade, você está doente e deveria estar num hospital. Mas apenas o Interrogador responsável por seu caso pode deixá-la ir.'" "'Por favor, doutor! Faça alguma coisa para me ajudar! Não me deixe neste estado..." "Era, com certeza, a voz de minha mãe. Certamente, não poderia estar enganado. Tinha ficado obcecado por isso desde o dia anterior, e agora tinha quase certeza de que era realmente minha mãe que estava encarcerada na cela vizinha, apesar de tentar argumentar comigo mesmo que aquilo era impossível. Mas, no nonagésimo dia de meu aprisionamento, fui levado ao interrogador, que, talvez para analisar minha condição psicológica, questionou-me brevemente antes de me dar um pequeno sermão: 'Sua mãe será responsabilizada por não tê-lo denunciado às autoridades quando você voltou do exterior. Temos certeza de que vocês se encontraram após seu retorno...' " "Na verdade, eu tinha cuidadosamente evitado o contato com qualquer um dos meus - mas, obviamente, o Interrogador manteve sua palavra assim mesmo. E o que eu podia fazer agora?" "O regime que os Interrogadores impuseram-me prendera, por assim dizer, minha mente e alma num torno, e essa nova agonia era infinitamente pior que a dor do chicoteamento." "Foi por volta dessa época que fiquei obcecado com a idéia de suicídio. Estava convencido de que apenas minha morte salvaria minha família e aqueles que eu protegia com meu silêncio. Mas como poderia me matar?" "Por meses, examinei minuciosamente cada detalhe de minha cela, esperando encontrar um meio de acabar com a minha vida. As paredes eram absolutamente lisas, os canos do radiador estavam embutidos em madeira, na janela havia uma tela de arame de malhas pequenas entre o vidro e as barras. Não havia possibilidade de conseguir uma corda, e menos ainda de encontrar algo para pendurá-la. E mesmo que tivesse tais coisas, as visitas do carcereiro a cada trinta segundos não me dariam tempo para preparar meu suicídio. Nos banheiros, as cisternas estavam fixadas tão alto que ficavam fora de alcance, e até mesmo as correntes eram embutidas em canos cimentados às paredes." "Em um dos cantos do banheiro, encontrei um cano grosso de ferro - parte do esgoto - fixado à parede a uma altura de aproximadamente três metros, por uma grande argola de ferro em cada ponta. Ele deve ter passado desapercebido aos carcereiros e nele seria possível suspender uma corda." "Mas onde iria conseguir uma corda?" "Enquanto eu tentava desesperadamente encontrar uma solução, a porta da cela abriu-se e o oficial de plantão jogou um pijama fino na minha cama, e ordenou que lhe entregasse a camisa imunda e malcheirosa, que naquela altura já tinha quase apodrecido em mim. Vestir o pijama limpo foi uma experiência agradável, lembrou-me de uma vida muito distante... No dia seguinte, percebi que um dos botões de madrepérola das calças rachara no meio e consegui quebrar uma lasca afiada, de cerca de dois centímetros." "Eu pretendia cortar as veias do pulso esquerdo. Primeiro, pensei em fazê-lo ao deitar-me, à noite - pois teria a chance de esconder minha mão sob as cobertas e o sangue seria absorvido pelo colchão, e assim, em cerca de uma hora, meu coração pararia de bater, sem que o carcereiro notasse nada. Mas, pensando bem, o que aconteceria se ele pedisse, como freqüentemente o fazia, que eu mantivesse as mãos para fora das cobertas e o rosto voltado para a luz? Ele certamente perceberia minha crescente palidez ou manchas de sangue nos lençóis." "Minha mente então concentrou-se num único problema: como conseguir uma corda. Depois de vários dias descobri que havia um cordão fino nas costuras externas das pernas das minhas calças de pijama. Não poderia desfazer as costuras enquanto estava na cela, pois o carcereiro teria notado meus movimentos, mas no lavatório eu podia ter dois minutos e meio sozinho. Levaria as lascas comigo e cortaria as costuras logo abaixo da cintura; então poderia puxar os cordões para fora." "Levei dois dias e noites calculando o tempo necessário para cortar as costuras, puxar o cordão, amarrá-lo no anel de ferro da parede e colocar minha cabeça no laço... Acreditava poder fazer isso em sessenta segundos, mas achava que o outro minuto e meio não seria suficiente para me matar. Cada manhã eu contava o número de segundos que me era permitido permanecer no lavatório. Quando chegava a cerca de cento e cinqüenta, o carcereiro batia forte e ordenava que eu saísse. Se depois disso eu ainda me demorasse um momento, ele empurrava a porta e mandava que eu saísse. Acreditava que, para ter certeza de que não sobreviveria, eram necessários pelo menos duzentos e quarenta segundos. Muito dependeria de qual carcereiro estaria responsável por mim quando eu fosse ao lavatório." "Aqueles jovens guardas tinham entre vinte e vinte e cinco anos; a julgar por seus traços, fala e modos, a maioria vinha das favelas suburbanas de Bucareste, ao passo que outros eram camponeses. Sua disciplina era perfeita. Nunca conversavam com os prisioneiros; suas únicas respostas a pedidos era 'Sim', 'Não', ou 'Espere'. Todosaqueles jovens viviam sob a pressão de regras severas e do perpétuo medo de punição, e era virtualmente impossível até mesmo tentar se comunicar com eles. Ainda assim, um deles - acho que era de origem camponesa - parecia mais tolerante que os outros. Em uma ocasião, ele permitiu-me sessenta segundos extras no lavatório; nesses segundos extras baseei minha esperança de cometer suicídio. Mas eu teria que esperar mais cinco dias até que esse carcereiro 'gentil' estivesse de plantão." "Então, dois dias antes do momento que eu esperava tão febrilmente, toda a equipe de carcereiros foi trocada por uma nova, e tive que desistir de meu plano. Fiquei dominado pela frustração, senti como se tivesse sido esmagado por uma avalanche e soterrado sob os escombros sem mal poder respirar." "Depois disso, minhas alucinações tornaram-se muito freqüentes." "Numa noite, quando o radiador começou sua música lamuriosa, a parede à minha frente distanciou-se e vi uma cadeia de montanhas nevadas refletindo a luz do sol nascente. Em primeiro plano, havia um pequeno templo indiano dedicado à deusa Kali. Uma árvore alta sombreava-o. Aos seus pés, sentava-se um homem velho, com as pernas sob o corpo e as mãos pousadas nos joelhos à maneira brâmane. Tinha uma longa barba branca muito fina. Seu rosto ascético tinha a mesma serenidade que o céu azul que se estendia sobre os ofuscantes picos. Quando olhei, ele inclinou levemente a cabeça, sorriu e disse: 'Vejo que me esqueceu. Não se lembra de Aurobin Dogos, o brâmane?'" “Ouvi-me respondendo: 'Você não tem idéia de por quanto tempo tenho procurado e chamado por você...'" "'Tive que fazer uma longa viagem para chegar até aqui,' ele disse. 'Levou sessenta anos.' " "Durante meses depois disso vivi na companhia do 'brâmane', que naquela época eu acreditava que fosse uma pessoa real, diferente de mim mesmo. Mas essas visões eram diferentes em caráter dos pesadelos alucinatórios que eu tivera antes. Parecia que, de alguma forma, eu alcançara um nível mais profundo do meu ser e essas novas experiências, em vez de ajudar os meus inimigos, marcaram o início de um período de integração espiritual." "Mantive longas conversas com o 'eremita', e foi 'ele' que me convenceu a não cometer suicídio, persuadindo-me de que a vida é sagrada e deve ser vivida até a última respiração." "Reclamei que, trancado dentro daquelas paredes e pensando dia e noite sem um momento de trégua, havia alcançado os limites da minha resistência. 'Diga-me,' implorei, 'sou vítima desses homens que me mantêm preso ou estou à mercê de leis da natureza duras e cegas?' " "Ele me explicou sua visão do sofrimento. 'Algumas pessoas ele destrói', disse, 'outras são desafiadas por ele a resistir a algum mal ou a empreender uma ação positiva, criativa; alguns são corrompidos, perdem o controle sobre si mesmos e tornam-se cruéis e vingativos, outros crescem em força e graça.'" "'Mas o que pode um homem fazer sozinho, armado apenas de seu livre arbítrio, contra um mal avassalador?' Perguntei-lhe." "Em resposta, contou-me uma história:" "'Duas andorinhas aninharam sob o beiral da cabana de um pescador, próximo à costa. Ensinando seus filhotes a voar, elas os levavam até o mar, treinando-os gradualmente a cruzar distâncias cada vez mais longas e a enfrentar as dificuldades que encontrariam durante a migração. Os filhotes lançavam-se ao ar, exultando na alegria do vôo e da liberdade, mas uma rajada de vento tomou um deles, arremessando-o contra a superfície das ondas. O pequeno pássaro manteve as asas abertas para não afundar, mas não conseguia alçar vôo; flutuando como uma folha, chamava por seus pais a dar pena, enquanto eles voavam em círculos sobre o filho. As andorinhas pais fizeram o máximo para acalmar e encorajá-lo, então voltaram à margem e fizeram inúmeras viagens à beira da água, carregando uma gota de água de cada vez e derramando-a na areia. Assim, elas esperavam esvaziar o oceano para salvar seu filhote." "'Seu esforço heróico é para nós uma lição,' continuou o 'brâmane'. 'A vontade e o espírito humano também não devem se resignar em momentos de crise; devem continuar a buscar uma solução, não importa quão avassaladora a situação. Você não deve aceitar a derrota, não deve acreditar que seus esforços sejam vãos. Se tiver a coragem cega de continuar, resistir e lutar, você encontrará um novo começo em sua vida.'" "Minhas conversas com o eremita, que vivia próximo ao templo da deusa Kali, haviam durado vários meses. Lá fora estava surgindo a primavera; a força da luz e a suspeita do calor no ar foram os primeiros sinais. Quem era o 'brâmane'? Por que estava tentando me dar um valioso apoio? Compreendendo minha perplexidade, ele gentilmente estendeu sua mão pálida e esquelética e tocou minha testa com seus dedos frios. De uma forma transfigurada, disse-me com emoção:" "'Você quer saber quem sou eu? Eu sou o seu espírito; sua razão! Você apelou por mim num momento de intolerável desespero. No seu isolamento e desamparo, sou somente capaz de encorajá-lo a animar sua moral e fortalecer sua vontade; afora eu, ninguém mais pode vir em seu auxílio. Confie em minha força e nunca se arrependerá!' " "Esse encontro foi realmente um momento decisivo na minha existência. Gradualmente, meus pesadelos me deixaram, fui descobrindo calma e equilíbrio interior e consegui controlar minha mente e corpo." "Após dias e semanas de prática, vi que conseguia sentar-me imóvel em minha cadeira por horas, com minha cabeça gentilmente apoiada na parede e os olhos abertos. Respirava profunda e tranqüilamente, minha vontade controlando os batimentos cardíacos, mantendo-os estáveis. A fome e a fadiga cobravam agora um tributo sobre minha força, menor do que quando eu a dissipava andando de um lado para o outro na minha cela, lutando contra a letargia. A minha pequena ração de comida, e as duas ou três horas de sono que me eram permitidas a cada dia, eram agora suficientes para as necessidades do meu corpo." "Desapegar por completo minha mente do ambiente requereu mais tempo e esforço. Inicialmente, disse a mim mesmo, que eu era um espectador numa sala de cinema: minha vida na prisão nada mais era que um filme projetado numa tela, que me treinei interromper segundo minha vontade. Num estágio posterior, consegui observar meu corpo, sentado imóvel na cadeira, como se fosse uma fotografia. Mais tarde ainda, senti meu espírito capaz de escapar da prisão e empreender inumeráveis longas viagens." "Os carcereiros ficaram perplexos com a transformação que ocorrera diante de seus olhos: um homem que fora frenético, levado às margens da loucura pela falta de sono, agora sentava-se calmo e sereno como uma estátua. De tempos em tempos, eles batiam na porta e mandavam que eu movesse a cabeça ou piscasse os olhos, para certificarem-se de que ainda estava vivo e lúcido. Interiormente, eu alcançara uma paz e uma serenidade que nunca houvera conhecido antes." "O tempo não mais se arrastava; a solidão não era mais um obstáculo, mas uma oportunidade para incessante contemplação. Livre das ansiedades, minha mente devotou-se apaixonadamente ao pensamento puro. Ansiava agora por sobreviver - mesmo, se preciso fosse, na prisão - pois estava encantado com a felicidade de minha nova liberdade espiritual. Ansiava por abranger o universo, buscar seus mistérios, tão infindáveis quanto o infinito. Ao mesmo tempo, essa transformação colocou à minha disposição uma fonte de energia que aumentou enormemente meus poderes de resistência a meus adversários. Esse triunfo da razão sobre a loucura mudou radicalmente toda a minha vida. Acredito agora que, através daquela disciplina de contemplação, na verdade cheguei a uma nova filosofia baseada em valores de humanismo e leis de concórdia. Libertando-me de teorias e crenças, tornei-me versado nas leis do universo e desenvolvi uma nova compreensão sobre o sofrimento, a liberdade, a discórdia e a harmonia, a revolução e a evolução." "Neste livro de eventos factuais não há espaço para um tratadofilosófico. Menciono isso somente porque foi o desenvolvimento dessas idéias que me deram a vontade de viver para transmiti-las ao ocidente." Craciunas acabou por identificar Aurobin Dogos como Aurobindo Ghose, que chamamos de Sri Aurobindo. Quantas pessoas foram ajudadas por ele através de seu apoio ao espírito humano, nunca saberemos. O que é notável na história de Craciunas é que o autor experienciou Sri Aurobindo quatro anos depois que o grande yogi deixou seu corpo humano, em dezembro de 1950. Continuam a aparecer histórias do auxílio dele e de A Mãe durante a guerra, ou em circunstâncias de opressão política. Um soldado de infantaria alemão que viu Sri Aurobindo durante a guerra veio ao Ashram nos anos sessenta. O que chamamos de a Força de Sri Aurobindo ou a Força da Mãe, ou de a Luz de Sri Aurobindo ou a Luz da Mãe, é simplesmente a Força ou a Luz evolutiva, e o espírito humano aspirante vai automaticamente contatá-los, pois eles são simplesmente essas forças encarnadas. Quer digamos contatá-"los", ou contatá-la", é a mesma coisa. E, indubitavelmente, o espírito de Churchill sabia como sintonizar-se com Isso. X � Eis o que disse Sri Aurobindo sobre a ação de sua força espiritual: "Certamente, minha força não é limitada ao Ashram e suas condições. Como vocês sabem, ela tem sido muito utilizada em auxílio do correto desenrolar da guerra e da mudança do mundo humano. Ela é também utilizada para propósitos individuais fora do escopo do Ashram e da prática do Yoga; mas isso, é claro, é feito silenciosamente e através de uma ação espiritual, principalmente." Sri Aurobindo e A Mãe declararam abertamente que Churchill e de Gaulle eram muito abertos à sua força, e Churchill declarou publicamente, em seu pronunciamento à Casa dos Comuns, em 13 de outubro de 1942, "...Eu às vezes tenho uma sensação, na verdade muito forte, uma sensação de que houve uma interferência. Quero enfatizar que às vezes sinto que uma mão orientadora interferiu. Tenho a sensação de que temos um guardião, porque servimos a uma grande causa, e que teremos esse guardião enquanto servirmos à causa fielmente. E que grande causa é esta!" Há como ter certeza de que Churchill falava de causas cósmicas? Na verdade sim, ele não deixou dúvidas quanto ao que queria dizer. Em seu pronunciamento no rádio, "As Dores do Parto de uma Resolução Sublime"', em 16 de junho de 1941, ele disse: "...Nessa prodigiosa labuta há muitas forças elementais... O mundo está testemunhando as dores do parto de uma resolução sublime...." "O destino da humanidade não é decidido por cálculos materiais. Quando grandes causas movimentam-se no mundo, instigando a alma de todos os homens, tirando-os de seus lares, colocando de lado o conforto, a riqueza e a busca da felicidade em resposta a impulsos simultaneamente aterrorizantes e irresistíveis, aprendemos que somos espíritos, não animais, e que algo está acontecendo no espaço e no tempo, e além do espaço e do tempo, que, quer gostemos ou não, clama ao dever." "Uma história maravilhosa está se desenrolando ante nossos olhos. Como ela terminará não nos é permitido saber. Mas em ambos os lados do Atlântico, como todos sentimos, repito, todos, que somos parte dela, nosso futuro e o de muitas gerações está em jogo. Temos certeza de que o caráter da sociedade humana será moldado pelas resoluções que tomarmos e pelos nossos atos. Não precisamos lamentar o fato de que tenhamos sido chamados a encarar tão solenes responsabilidades. Podemos nos orgulhar, e até regozijar em meio a nossas tribulações, que tenhamos nascido neste momento crucial, por ser esta uma época tão grandiosa, com tão esplêndida oportunidade de serviço." E será que ele compreendia que havia uma estrada evolutiva a ser trilhada? Citamos seu discurso "Não Falharemos à Humanidade"�, de 17 de janeiro de 1941: "...Não tenho absolutamente nenhuma dúvida de que teremos uma vitória completa e decisiva sobre as forças do mal, e que a vitória em si será apenas um estímulo para posteriores esforços para conquistarmos a nós mesmos." Churchill escreve sobre o que lhe aconteceu em 3 de setembro de 1939, quando estava sentado na Casa dos Comuns ouvindo os debates, depois que o primeiro alarme de ataque aéreo soara sobre Londres.... "Sentado em meu lugar, ouvindo os discursos, fui tomado por um sentimento muito forte de calma, depois das intensas paixões e excitação dos últimos dias. Senti uma serenidade mental e fiquei consciente de uma espécie de enaltecido desapego aos assuntos humanos e pessoais. A glória da Velha Inglaterra, amante da paz e mal preparada como estava, mas imediata e destemida ao chamado da honra, emocionou meu ser e pareceu elevar nossos destinos àquelas esferas muito distantes dos fatos terrenos e das sensações físicas. Tentei transmitir algo desse espírito à Casa quando falei, não sem aceitação." No Ashram, a Mãe entrava em transes súbitos, no meio do serviço da sopa ou de alguma outra distribuição, às vezes deixando discípulos a esperar até uma hora. "Fui chamada," ela diria ao retornar. Isso acontecia a qualquer momento do dia ou da noite. A Mãe disse-me que soube que a paz havia sido declarada antes de que lhe contassem. Ao longo de toda a guerra, ela sentiu como se houvesse uma grande central telefônica sobre sua cabeça, algo que se conectava com o espaço. Um dia, isso simplesmente desapareceu, e ela soube que era o sinal da paz. Hitler também estava operando com o seu próprio tipo, bem diferente, de poder oculto. Haushofer e Eckardt, os mentores ocultos de Hitler, ensinaram-lhe, como faria qualquer ocultista, que a visualização era a chave essencial para dirigir os eventos ao fim desejado, que qualquer coisa cederia à uma vontade forte o suficiente e com a habilidade de projetar a imagem de sua própria visão. Vimos que Churchill sabia que estava sendo guiado e ele conta-nos que recebeu, em seus sonhos, soluções que sua mente tentava desesperadamente formular, apesar de que elas geralmente se esquivavam tão logo ele acordava. Entretanto, fica claro para os muitos que tiveram essa experiência e leram os relatos, que ele estava suficientemente em contato com seu ser subliminar para colocar em ação as informações recebidas. Quando o Oficial em serviço na Sala de Guerra reportava um ataque aéreo a Londres extraordinariamente pesado, de acordo com lorde Ismay, Churchill "costumava insistir num recesso para que todos pudéssemos assistir aos acontecimentos no teto do Ministério da Aeronáutica, que se transformava numa admirável, apesar de não muito segura, tribuna de honra". Ter se arriscado, e a seus comandantes, teria sido tolice, não fosse ele guiado por sua intuição. Ele sabia claramente que era um dos escolhidos para aquela tarefa sobre-humana. Ele disse com tanta ferocidade a Anthony Eden, seu Ministro dos Negócios Exteriores, quando enfrentou um voto de não confiança do parlamento: "Somente eu posso vencer esta guerra, somente eu. Nem você, nem Halifax, nem mesmo o Rei... Tenho que sobreviver ou perderemos." Os parágrafos seguintes são de Mistérios da Mente, do Espaço e do Tempo, Vol. 2, número 14: Ataques aéreos eram uma característica tão normal da vida em Londres, durante a 2a Guerra Mundial, que muitos londrinos se tornaram, se não um tanto indiferentes ao perigo, relativamente indiferentes a respeito deles. O primeiro ministro Winston Churchill, um homem naturalmente corajoso, que muitas vezes esteve sob fogo inimigo durante seus anos de serviço na ativa, era pugnaz como ninguém na capital, e talvez ainda menos disposto que a maioria a se deixar perturbar pelas bombas de Hitler. De qualquer forma, esperava-se que ele fosse a personificação da insubmissa resistência britânica ao inimigo, e ele assumiu seriamente o papel, mas quando sua voz interior disse-lhe que o perigo era real e iminente, ele ouviu e - figurativamente, é claro - pulou para a trincheira com toda a agilidade necessária. Certa noite, ele estava recebendo três ministros do governo na rua Downing, número 10, a residênciatradicional do primeiro ministro, em Londres. Acontecia um ataque aéreo, mas isso não dava permissão para interromper o jantar. De repente, Churchill deixou a mesa e foi à cozinha, onde a cozinheira e uma empregada estavam trabalhando. Num lado da cozinha, havia uma grande janela de vidro temperado. Ele disse ao mordomo que colocasse a comida num réchaud na sala de jantar, mandou que a equipe da cozinha fosse imediatamente para o abrigo antiaéreo, e então voltou a seus convidados. Três minutos mais tarde, uma bomba caiu atrás da casa e destruiu a cozinha completamente. O primeiro ministro e seus convidados, no entanto, saíram, miraculosamente, ilesos. Uma das maneiras pelas quais Churchill desempenhava seu papel de inspirar confiança era visitando pessoalmente as baterias antiaéreas, durante os ataques noturnos. Numa ocasião, depois de observar os artilheiros em ação por algum tempo, ele retornou a seu carro, talvez com a intenção de visitar ainda duas ou três equipes antes do raiar do dia. A porta do lado do carro onde ele geralmente se sentava estava aberta para ele. Mas dessa vez ele a ignorou, dirigiu-se para o outro lado do carro, abriu a porta e entrou. Poucos minutos depois, quando o carro rodava pelas rua escuras, uma bomba explodiu nas proximidades, levantando o carro, fazendo-o oscilar perigosamente sobre duas rodas, não capotando por um triz. Finalmente, entretanto, o veículo endireitou-se e continuou seu trajeto em segurança. "Deve ter sido o meu peso daquele lado que funcionou como lastro," disse Churchill mais tarde. Quando sua esposa perguntou-lhe sobre seu embate com a morte, ele disse primeiro que não sabia por que, naquela ocasião, deliberadamente escolhera o outro lado do carro. Então emendou, "É claro que sei. Algo disse 'Pare!', antes de eu chegar à porta que estava aberta para mim. Então pareceu-me ter sido dito que eu deveria abrir a porta do outro lado, entrar e sentar-me lá - e foi o que fiz." O papel de Churchill como o homem de quem a guerra dependia foi largamente compreendido. Mesmo assim, por causa de seus diversos dons, gênio e as encantadoras qualidades humanas que a eclipsaram, justiça não foi feita à sua condição espiritual. Talvez seja digno de nota que, no livro Seleção dos Melhores Discursos de Churchill durante a Guerra , o discurso "Não vamos Falhar à Humanidade", de 17 de janeiro de 1941, não tenha sido incluído. Assim como o mundo não encarou as conseqüências dos campos de concentração, preferiu permanecer no conforto de seu universo racional do que sondar as profundezas do que dizia Winston Churchill. "O homem não agüenta muita realidade," diz T. S. Elliot. Churchill é visto como um grande espírito, mas não como uma grande figura espiritual no sentido mais profundo. Ainda assim, foi um grande transmissor da Força e da Luz. E em algum lugar, de alguma forma, ele era consciente disso. Foi ele e ninguém mais que deu a conhecer a uma nação inteira, e a um mundo atento, o sentido das questões em jogo através de suas mensagens; e a Inglaterra respondeu. "Havia uma luz branca," escreveu ele, "irresistível, sublime, que percorreu nossa ilha de ponta a ponta." A Inglaterra, disse ele, estava completamente segura. Toque-a em qualquer lugar e ela responderá com verdade. Foi Churchill, como Lorde Ismay, seu Chefe do Estado-Maior, diz em suas memórias, que, "... fez o povo inglês ver a si mesmo assim como ele o via. As grandiosas qualidades da raça britânica pareciam quase que adormecidas, até que ele as despertou. Mas, quando ele falava todos estavam prontos a seguirem-no aonde quer que ele fosse, e a fazer qualquer sacrifício." Fica claro pela mudança de tom de Churchill, e pela leitura atenta de suas memórias, que em todas as crises da guerra suas decisões foram tomadas num plano intuitivo. Ao discutir a invasão dos Aliados, no avião a caminho do norte da África, o general George Marshall inquiriu: "Posso fazer uma pergunta direta? Você parece tomar decisões militares da mais alta importância mais por instinto do que por análise." Muito simples e calmamente, Churchill respondeu, "Ora, é isso mesmo." "Qual é sua razão mais fundamental para opor-se à invasão do norte da França?" perguntou Marshall. "Vejo o Canal da Mancha inteiro cheio de cadáveres," respondeu Churchill. A profunda consciência de Churchill e suas esplêndidas intuições são projeções, em nosso tempo, de uma dimensão futura, enquanto que os delírios incompreensíveis de Hitler, suas convulsões aterrorizadas, foram ejetados de algum mundo infernal de completo Terror, cuja expressão inicial foram os campos de concentração. "A noite é seu refúgio e base estratégica." Esse não é um verso do Savitri de Sri Aurobindo, é de Churchill. O Yogi e o Estadista dão voz ao mesmo tema. Apesar de Sri Aurobindo nunca ter falado sobre isso, A Mãe contou à autora como Sri Aurobindo costumava dizer-lhe as palavras que colocaria na boca de Churchill antes das famosas transmissões, e certos trechos foram reproduzidos por Churchill palavra por palavra. Não encontrei nenhuma referência a isso nos textos escritos por Sri Aurobindo, mas seu secretário, Nirodbaran, ouviu falar sobre isso, e Dyumanbhai, atual curador administrativo do Ashram, confirmou. Este contou- me que certos trechos dos discursos de Churchill eram freqüentemente repetição de palavras já ditas em Pondicherry. Anuben Purani disse-me que seu pai, A. B. Purani, uma das poucas pessoas que via Sri Aurobindo todos os dias, contou a ela a mesma coisa. Quando a invasão da Ilha parecia inevitável, ninguém nega que foram os discursos de Churchill que encorajaram sua nação e mantiveram sua motivação num nível elevado. O capitão Douglas Bader, que retornou à RAF em 1939, após perder as duas pernas em 1931, relata, "Todos esperávamos por sua voz no rádio. Todos, no ar assim como em terra, confiavam naquele homem único." (National Geographic) Ele falava para cada inglês homem e mulher na Ilha durante a guerra. Culto, inteligente, espirituoso e, acima de tudo, com resistência, plasticidade e uma mente aberta a planos intuitivos, ele tornou-se o pilar que apoiou o estremecido templo da humanidade. Talvez ninguém tenha se pronunciado tão entusiasticamente quanto Lady Violet Bonham Carter: "Em 1940, Winston Churchill mudou sozinho a maré da história. Seus 'ombros mantiveram os céus em seu lugar.' Ele salvou este país e a causa da liberdade humana." Em 1919, no Ideal de Unidade Humana� de Sri Aurobindo, encontramos: "Por um século inteiro a humanidade tem clamado e lutado pela liberdade, conseguindo-a por um amargo preço de labor, lágrimas e sangue."... Vinte e um anos mais tarde, Churchill animou sua nação: "...sangue, labor, lágrimas e suor...," disse, era tudo o que tinha a oferecer na desesperada batalha. Eis uma outra frase que poderia ter vindo tanto de Churchill como de Sri Aurobindo: "Eles rastejam ocultos no véu da noite." Acontece que também essa citação é de Churchill. Evidenciam-se as implicações dos universos invisíveis. No caso de Hitler, é fácil deduzir a presença de forças infinitamente poderosas; mas não era diferente o caso de Churchill, apenas que as dele eram as Forças da Luz, e ainda mais poderosas. Não é difícil ver que as sociedades secretas alemãs eram a expressão de um mundo em que é possível viver sem se estar consciente disso. Era o mundo de Hitler, o mundo do Mal, mas estamos igualmente inconscientes do mundo da Luz, que se manifestou através de Churchill. Pauwels e Bergier colocam-no bem: "Vivemos entre dois mundos e fingimos que esta terra de ninguém é idêntica ao nosso planeta inteiro. A ascensão do nazismo foi um dos raros momentos na história de nossa civilização em que uma porta foi sonora e ostensivamente aberta para algo, alguma "outra coisa". E estranho que as pessoas finjam não ter visto ou ouvido nada diferente das visões e dos sons intrínsecos à guerra ou às contendas políticas." De fato, as pessoas não vêem nem ouvem nada mais. Geralmente, os mundos subliminais da Luz e doMal estão fora de nossa consciência frontal, e apenas quando esta fica quiescente é que temos vislumbres e percepções de outros mundos em que também existimos. Mas realmente estranho é que, uma vez que, tanto Pauwels e Bergier quanto Brennan identificaram tão claramente Hitler como o médium para o mundo da escuridão, nem por uma vez eles mencionaram Churchill em toda a extensão de seus livros. Pauwels e Bergier obviamente leram Sri Aurobindo, citando-o brevemente, "Sri Aurobindo Ghose, o mestre do Sri Aurobindo Ashram," como tendo a certeza da evolução ascendente da humanidade. Eles parecem não ver que, se Hitler falhou, foi porque Churchill foi o médium para as forças da Luz. Ele estava imbuído de Luz. Haushofer e Eckardt podem ter dado as cartas para Hitler, mas foram, assim como também "Aqueles" com quem colocaram Hitler em contato, derrotados pelos guerreiros da Luz. Os poderes da escuridão foram obrigados a operar através de um líder político e militar em sua tentativa de dominar o mundo. Os poderes da Luz, da mesma forma, precisaram de um estrategista político e militar. Os poderes da Luz não compelem, apenas guiam; seu médium foi um homem de suprema integridade. A humanidade volta as costas quando são abertas as portas para outras dimensões, quer boa ou má. É o que Pauwels e Bergier dizem sobre os julgamentos de Nuremberg, que preferiram ignorar que nosso mundo estremecera, e que em todos os lugares rachaduras se abriram na separação com o inferno: "... Era importante manter viva a idéia da permanência e universalidade de nossa civilização humanista e cartesiana, e de uma forma ou de outra era essencial que os acusados fossem integrados ao sistema. Isso era necessário para que não fosse perturbado o equilíbrio do nosso modo de vida e consciência ocidentais. O fato de que os prisioneiros continuassem a fazer suas preces especiais e a conduzir seus ritos até o momento de sua execução foi largamente ignorado e nunca realmente analisado."� Os fatos assumem grande importância e dimensão, justamente porque muito de seu significado está velado e além da compreensão humana, no momento de sua precipitação. Sri Aurobindo disse que sua vida não estava na superfície para ser vista pelos homens, e que tentativas de escrever sobre ele apenas iniciariam um movimento que atrasaria seu trabalho. Segue uma das três declarações que Sri Aurobindo fez sobre seu trabalho interior e os negócios do mundo. Ele fala de si mesmo na terceira pessoa: "Internamente, ele colocou sua força em apoio aos Aliados, a partir do momento de Dunquerque (maio de 1941), quando todos esperavam uma queda imediata da Inglaterra e o triunfo definitivo de Hitler, e ele teve a satisfação de ver o ímpeto da vitória alemã quase que imediatamente obstruído, e a maré da guerra começar a mudar na direção oposta." No mais, ele batalhou em silêncio. Levados pelas circunstâncias, sentimo-nos agora sancionados a quebrar o silêncio. Segue-se um trecho de uma história de guerra verdadeira, sobre a 2a Guerra Mundial. Quarenta e cinco anos depois da guerra, a dez anos do século XXI, a história de John, um jovem soldado americano de infantaria, que teve visões de Sri Aurobindo no campo de batalha, durante a 2a Guerra Mundial, de certa forma um documento, foi liberta de uma gaveta trancada. Certamente, chegou o momento de tais histórias serem contadas. � A HISTÓRIA DE JOHN XI Este trabalho, A Luz cjue Brilhou no Abismo Escuro, foi originalmente concebido como um apêndice à história das experiências de guerra de John Kelly, um jovem soldado de infantaria, de origem américo-irlandesa, na 2a Guerra Mundial. À medida que ela se desdobrou, e que a pesquisa revelou as horripilantes profundezas daquilo que Sri Aurobindo e Churchill chamaram de abismo escuro, o Inferno, sua importância como documento tomou-se clara. Ele era muito longo para um apêndice, mas havia pouco que eu considerasse irrelevante. Inspirada pelo conselho daqueles que o leram, decidi publicá-lo separadamente. Uma breve história de John torna-se agora uma espécie de apêndice ao que originalmente fora o apêndice de sua história. Ela é aqui apresentada em forma de trechos do livro completo, O Grande Senhor e a Senhora Celestial, publicado por P.Lal, de Calcutá. John Kelly era um soldado americano de dezoito anos de idade, na França. Após dias e dias de guerra de trincheira, mantendo uma posição numa colina, ele teve a seguinte experiência: '... Um pontinho da trincheira começou a brilhar e cintilar, expandindo e diminuindo, ansioso por se explicar. Esse pontinho continha uma concha, uma estrela, um olho observador. Ele era o universo, unido aos seus universos vizinhos, que o mantinham através do amor. Pelo amor, ele respirava. Seu trabalho era ser o que era e, se tivesse falhado, teria causado um deslizamento de terra na trincheira. A Via Láctea dependia desse ponto.' A fumaça estava se dispersando. Alguém ofereceu-lhe um cigarro aceso. Ele empurrou a mão. "Ouça Kelly, se você enlouquecer, não vai sobrar ninguém." Não importa. Não fale. Não olhe, não olhe, não pense, cintilava cada faceta do fragmento expandindo, indo em sua direção. Seu mundo estava naquele microscópico e cintilante grão de areia. O cigarro se foi, mas um anel de fumaça flutuou sobre o muro. Naquele momento, não havia nenhum aroma de tabaco. Seria fumaça ou as brumas do tempo? Ela circulava ante seus olhos. Ele fixou o olhar até que ela cresceu e se estabilizou. Nenhuma fumaça poderia manter uma forma daquela maneira. O que havia lá para ser entendido? Aquela fumaça, menos densa até que partículas de poeira, poderia também pensar e saber? Era uma fumaça luminosa, consciente, e tomava a forma de algo semelhante a uma barba branca. Era uma barba, com lábios e então um rosto emergindo da neblina de luz. Então mechas de um longo cabelo branco. Ele olhava e olhava. Essa visão preencheu seu coração com gratidão e mais gratidão. Um som como o de um vinho espumante fluiu pelo ar. A nuvem cintilante cresceu e dançou ante seus olhos. Os pontos de luz uniram- se em longos filamentos que cresceram em radiância. O som fluido começou a trazer notas disconectas, luz, notas de cristal. Ele percebeu uma primeira melodia fugaz... etérea, doce. Anjos haviam descido. As melodias, os doces instrumentos não identificáveis, preencheram-no de deleite... e de um medo infantil, que quando criança ele não conhecera. Imperceptivelmente, a princípio, mas gradualmente intensificando-se, algo brotou da música: um riso antigo e sábio. Era o coração do riso, a semente da alegria e da celebração. Riso de Deus. Agora aquilo falava com ele, confortava-o, disse-lhe que não temesse. Disse: O Senhor está dentro de você... agora e sempre. Assim foi sempre e sempre será. Nada na vida ou na morte pode separar-nos, pois vivo no seu coração e você no Meu. A barba e a boca brilhavam radiantemente. Os olhos eram olhos de majestade e poder, abrindo seu coração para o amor. A realidade da guerra de membros mutilados e gritos animais estava contida no sorriso profundo. A matéria e a Divindade encontravam-se ali, na compaixão de Deus. Seu olhar foi atraído para cima dos filamentos dançantes e bruxuleantes que eram a boca. Olhou nos olhos. Eles incendiaram-no numa chama de luz atirando-o contra a parede da trincheira. Um poder mais forte que uma bomba o atingira. Ainda tremendo, atônito e imóvel, ele ficou, conservando aquele conhecimento denso e firme para sua alma. Ele estava ainda carregado de Luz e tremendo tanto quanto possível. Ansiava por ver novamente, mas sabia ter recebido a resposta. Uma vez mais, o deleite inundou seu coração. A loucura era apenas aparente. O caos do mundo era somente a superfície. O universo permanecia seguro em seu Senhor, mas ele estava nu na Luz que lhe perguntava: O que você deseja, meu filho? "Meu filho"! Era isso que ele tinha esquecido. Seu coração emergiu das esquecidas profundezas e dissolveu-se na doçura e maravilha daquilo, mas a delicada entonação da pergunta, quelhe fora colocada em melodioso inglês britânico, persistia com ele. O que ele desejava? O silêncio aprofundou-se, e lá no fundo estava uma resposta a que ele não conseguia chegar, como o reflexo de algo no fundo de um poço. Uma melodia suspirou em seus ouvidos. Você deseja entender. Foi isso que Nos trouxe de volta. Isso era o que ele queria. Apenas isso iria abri-lo para a graça. Ainda assim, não havia ainda uma reverência suficientemente grande. Como dizer? Como dirigir-se a esse Grande Comandante dos mundos? Ele não era nenhum general para ser chamado de senhor. O Senhor sorriu com compreensão. Com toda sua alma, ele respirou: 'Grande Senhor... Maior entre todos os Senhores: desejo entender.' O sorriso ancestral aprofundou-se, e dentro dele estava uma outra pergunta: O que é que você deseja entender? Seria possível entender o caos, e por que deveria ele receber respostas. Ainda assim, tinha que compreender. E agora, como que para o colocar à vontade, a voz do Senhor veio até ele num espirituoso verso de pé quebrado: Mas se minha ajuda você escolher, sua religião deve perder. O que significava isso? Era católico apenas no nome, e fazia muito tempo que não ia à missa, mas será que teria que trair a religião na qual nascera? Era seu coração que o aconselhava. "Grande Senhor", disse simplesmente, "não tenho religião. Não tenho nada dentro de mim. Sou como um espantalho ou um homem de lata." Onde estivera a luz, ele não mais via o Grande Senhor. Ele deveria tê-lo afastado. Procurou nos céus e viu uma figura trajando branco em pé à sua esquerda, numa terra de ninguém... O Grande Senhor deslocara-se para o lado de uma árvore destruída, uma mão descansava num galho. Seu rosto meditativo e compassivo acendeu nele nova adoração. John sentiu como era cru o seu ser, como um animal assustado na toca, sem saber ao certo porque lutava e querendo ter mais para oferecer. Seu ser foi atraído para a esquerda da terra de ninguém. Um templo de um mármore translúcido e vivo começou a formar-se em pleno ar. Lágrimas brotaram em seus olhos pela sua inacessibilidade, a pureza do mundo do Senhor, que agora se revelava para ele. Num divã dentro do templo, encontrava-se uma deusa, envolta em trajes de um azul da meia noite. Ao lado do divã, estavam pequenos chinelos de veludo. Sabendo ser um sacrilégio fitar esse Ser enquanto Ela dormia, ele fixou o olhar nos chinelos. Seu anseio pelo Grande Senhor surgiu, e no local onde ele nascera, em seu coração, encontrou um Ser maravilhoso esperando. Na radiância, seu corpo perdeu suas dores. Não era loucura. Seu olhar voltou-se para o templo. A Deusa estava agora sentada numa cadeira de mármore, com um cotovelo repousando no braço da cadeira e outro relaxadamente ao longo do corpo, dedos polegar e indicador tocando-se. Ela estava consciente de sua presença, cheia de compaixão por Seu filho e também de profundo amor. Essa era sua Mãe. Em todas as suas vidas, essa havia sido sua Mãe. Ondas de doçura percorreram seu ser, subindo-lhe pela cabeça. Um fino cordão prendia-o à noite hostil. 'Minha Senhora', murmurou, 'estamos em guerra aqui e sou um soldado.' Com um sorriso de compreensão, Ela começou a se desvanecer. À medida que o brilho se dissipava, Seu sorriso penetrou seu ser com uma aguda pressão de deleite que o transportou para além do Tempo. "Vamos lá, sargento, acorde. Você quer ficar para trás?" Algo alcançara-o em seu sonho. Bill Brown chacoalhou seu ombro. Ele viu nuvens brancas pairando bem acima de sua cabeça. Era quase manhã. "Puxa, sargento, acabou nosso turno. Vamos descer a colina. 'Cê' devia 'tá' tendo um sonho bem bom. Era sua namorada, sargento? Você estava sorrindo tão docemente. Diga, sargento, tem certeza que 'cê' 'tá' bem?" John entendeu o que era necessário fazer. "Vamos descer a colina! Vamos descer a colina nesta manhã". Bill sorria. Ele segurou a mão de Bill e levantou-se. Se iam viver, ou quanto, não mais importava. Agora ele havia visto que seu mundo estava do outro lado, que Eles estavam lá e esperariam, caso deixasse seu corpo nas trincheiras. Olhou em volta e viu seu mundo militar em movimento. Novos homens entravam nas trincheiras. Sua companhia esforçava- se para sair, preparando as bagagens. "Kelly, levanta logo. Estamos de saída." Ele começou a dobrar seu poncho. A comoção a seu redor começou a dominá-lo. Aqui estava a espada de Kathy. Procurou um lugar para ela. As botas de chuva dos soldados novos cruzavam por sobre sua cabeça. Enquanto suas mãos arrumavam seu equipamento, a noite desenrolava-se em silêncio. Alguém pulou para dentro da trincheira ao seu lado, um garoto de uniforme limpo. "Diga, como estão as coisas por aqui?" Ele olhou nos olhos do soldado e sorriu. O Senhor visitara esta colina. "Ótimas. Uma verdadeira terapia de descanso", disse um soldado que passava. "Diga, o que aconteceu por aqui?" "Coisas interessantes. Aquela água é de beber", ele disse, apontando para uma lata. Por alguns instantes, pousou a mão sobre o ombro do novo garoto. Então, ergueu-se para fora da trincheira. Uma linha verde movia-se trilha acima. Um grupo de maltrapilhos amarronzados, sua companhia, seguia trilha abaixo. Bill deve ter-lhes dito que ele os alcançaria. Mas por que não ficar? Um grande anseio brotou em seu coração. Seu corpo queria descer e descansar, mas será que a Senhora o encontraria em outro lugar? Onde estava seu grão de areia? Vasculhou as paredes da trincheira de alto a baixo e inclinou-se para pegar um punhado de terra, guardando-o em seu bolso. "Ei, dá o fora, pode ser?" Olhou em volta. As palavras eram dirigidas a um outro homem, que tinha pesadas papadas azuis. Seu pelotão começava a perder-se de vista e ele começou a correr. "Você viu aquela luz ontem à noite?" Naquela confusão de barulhos, de pés se arrastando, zunidos e de muitas vozes, as palavras alcançaram-no com aguda clareza. Um soldado baixo e gordo falara à sua frente. "Sim, acho que tinha alguma coisa lá. Tinha alguma coisa lá." Seu companheiro balançou a cabeça. "Era como se alguém tivesse ligado as luzes de um palco e uma peça fosse começar." "Foi lindo. Nunca vi nada assim. Foi um pouco assustador, também." "Eu achei que estava perdendo o juízo, mas quando aquilo sumiu, ansiei que reaparecesse." "Estamos indo. A próxima parada é Saar; não há nada além de Chucrutes no nosso trajeto, e eles vão nos combater a cada centímetro do caminho. Em meia hora, a coisa vai pegar fogo, e nós vamos entrar nele, então preparem-se. Sair deste lugar vai ser muito mais difícil do que entrar. Eles estão nos esperando." "Nunca nos cansamos de suas palavras doces. Fale mais", disse Blom. "Temos apoio aéreo e dos tanques." Dez minutos após cessarem fogo, Drummond conduziu-os ao meio do ataque, atrás de um tanque. Mal haviam eles avançado vagarosos cem metros e o tanque parou, o canhão movendo-se para todos os lados, como a tromba de um elefante perplexo. Choveu fogo sobre eles. Alguém estava gritando. John esforçou-se para ouvir. Fuja daqui. Proteja-se. Era o Grande Senhor, sereno e pleno de poder. John estivera acocorado atrás da única cobertura, o tanque. Ele correu para a esquerda e jogou-se numa vala que seguia ao longo da estrada. Do tanque estavam saindo chamas. Da fumaça, onde ele estivera até momentos antes, vieram gritos. Na sua frente, quando a fumaça esvaneceu, ele pôde ver os capacetes e um grupo de soldados que avançavam. Forçou-se a levantar e, com joelhos flexionados e ombros arqueados, arrastou-se pelo caminho para acompanhar. Quatro soldados abrigaram-se num portal à sua esquerda. Fumavam, levando os cigarros aos rostos sem expressão, talvez estivessem abrigando- se da chuva. Não. A parede vai cair. Vá embora. Antes mesmo de o pensamento de John tomar forma, o Grande Senhor dissera-lhe o que fazer. Os pelos de seus antebraços arrepiaram-se. Movendo-se em câmara lenta, como em um sonho, chegou ao portal. "Vão embora. Saiam daqui. A parede vai cair", gritou ele, gesticulando,apontando e fazendo mímica. Um dos quatro jogou fora o cigarro e avisou os outros. John correu para a esquina e olhou para trás. A parede, como se esperasse por seu olhar, começou a mover- se. Um buraco começou a surgir, como se os pedreiros houvessem esquecido de cimentá-lo. Tijolos começaram a se soltar e cair na rua, enquanto os quatro homens corriam em direção a ele em meio à fumaça. Chegaram a uma ampla área pouco habitada, nos arredores de Kreuzbach. À sua frente, estavam árvores que, quando o vento levou embora a cortina fumaça, se transformaram em floresta. Haviam conseguido escapar. Ele relaxou. ... Mais batalhas, mais fadiga, e então o seguinte incidente: '...Eles estavam espalhados, avançando lentamente por uma campina limitada ao longe por um campo recém-arado, quando houve um relance de pensamento.' Haverá bombardeio aqui. O olhar relutante de John foi levado à uma área junto à borda da campina, próxima ao campo arado. Capim novo dobrava-se à gentil brisa. O local parecia singularmente inocente. ... Os homens encaminhavam-se diretamente para ela. Ele apertou o passo, passando por eles e alcançando Drummond. "Tenente", Drummond olhou para ele com o canto dos olhos e soltou um grunhido. "Vamos atravessar aqui?" "Sim." "Bem, haverá um bombardeio, bem ali, cerca de 400 metros à frente." "Não diga." "Sim." Caminharam em silêncio, Drummond numa batalha interior. "Bombardeio, ahn", murmurou. "É, tenente, isso mesmo", disse John com determinação... Descubra exatamente o que você deveria estar fazendo. 'Grande Senhor, devo ter falado da maneira errada. Diga-me o que fazer.' Lançou um olhar ao redor, viu rostos aturdidos, cansados, e quis detê-los gritando, 'os Chucrutes planejam bombardear aqui', mas apenas o considerariam louco. Fique sereno, o Grande Senhor silenciou seu protesto, Ouça atentamente. Sua mente clareou. Tome... seus... homens... e... vá... primeiro. Tome seus homens e vá primeiro? Atraia o fogo inimigo para que Drummond compreenda. Atrair o fogo inimigo para seu esquadrão e deixar que o Grande Senhor se encarregasse do resto. "Ouça tenente", ele ouviu sua voz trêmula, esforçando-se inutilmente para soar casual. Grunhido. "Deixe-me dar uma outra olhada naquele mapa. Você quer que cheguemos aqui, não é?" "Como já disse antes." John mordeu os lábios, fingindo repensar a situação. Ele contou até seis... chega. Se fosse até dez, nunca diria nada. "Tenente, sabe de uma coisa... Vou pegar meus homens e ir primeiro", disse através de lábios anestesiados. Encontrou o olhar teimoso de Drummond. Aumentava a pressão em sua cabeça, sua têmporas pulsavam. Um repentino arrepio de pavor incitou-o a ir... agora. Quis gritar, acertar o rosto incrédulo de Drummond com seu incrédulo bigodinho, um arremedo de bigodinho, que nenhum homem crédulo poderia ter. "É melhor eu levá-los agora." Drummond preparou-se para dizer "Não", mas disse "O.K.". Ele correu de volta a seus homens, viu Wacky, Dikson e Perez fitando-o atentamente. "Vocês vêem aquelas casas ali? Temos que chegar lá. Rápido."... ... A campina tremeu. Gritou ao mundo em erupção, com voz entrecortada, "Corram... corram!" Crateras apareciam num padrão simétrico, e então, com um pulo, eles saíram da fina faixa do bombardeio. 'Obrigado, Senhor. Obrigado, Grande Senhor.' Haviam atravessado. Mais leves e com novo fôlego, passaram rapidamente por uma galeria ferroviária, cruzaram outro campo e, com o que restara de suas forças, ajudaram-se a pular um muro de um metro. Ele atravessara, seu rifle batendo. Um por um, todos pularam o muro. Ele bateu a porta atrás de Perez, que carregava o rifle automático Browning, e despencou contra a parede. Todos agacharam-se, resfolegando, enquanto bombas de morteiro explodiam à volta da casa. Wacky tirou o capacete... 'Grande Senhor, e agora?' Fechou os olhos e respirou fundo. O medo bloqueava a resposta. Fique calmo. Fique calmo. Abriu os olhos. Estavam todos olhando para ele. ... Esperavam. Ouviam o som das bombas caindo dos tubos, de três em três. Dup, dup, dup. Então, as explosões. Mais três. Densos círculos de fumaça. Repentinamente, veio a mensagem, clara e calma: Saiam pela porta à sua direita. 'Grande Senhor, estamos cercados. Completamente cercados.' Eu disse, saiam pela direita. ... 'Grande Senhor, eu acredito, mas...' Vão entre as explosões. Um de cada vez. "Vamos entre explosões", disse John. VÃO! "O sargento está planejando alguma coisa", murmurou Wacky. "Vamos entre as explosões." O terror condensou-se na sala. 'Somos quatro, Grande Senhor. Como tirar quatro homens daqui entre...' Os segundos corriam. A serenidade que esperava dentro dele se tomou um murmúrio de esperança. Então o dup, dup, dup, novamente. Ele entendeu. ... "Ouça, Wacky, ouça... quero que você corra para fora. Aquela porta, ali. Quando eu mandar, empurre aquela cerca lá com toda sua força, ela já está meio caída. Do outro lado é a estação ferroviária. Diga ao tenente para manter o chá quente para nós." Wacky pontuava cada frase com um aceno de cabeça. "Após cada série tem um intervalo, como agora. Não discutam." Eles ouviram o intervalo.... "Não temos mais tempo, Wacky, a próxima é sua vez." Eles agacharam-se sob uma chuva de gesso que atingiu seus capacetes. Mais explosões sacudiram a casa. A porta foi escancarada. "Agora!" Sentiu seu pé elevando-se. Chutou os quadris duros e magros. Com a cabeça abaixada, Wacky desapareceu na fumaça. Apertando os olhos, John procurou na fumaça, ouviu os disparos de uma metralhadora com o terrível som da morte de Wacky. 'Grande Senhor, ajude-o.' Através de uma clareira repentina, o capacete de Wacky apareceu e sumiu novamente. 'Obrigado, Grande Senhor.' Então, com o dispersar da fumaça, Wacky foi visto esguio, alto e esquelético em seu novo contorno sem jaqueta. "Perry! Vem cá. Dikson, continue atirando, continue atirando... Vá!" Perry desapareceu na fumaça. ... "Dikson?... Quando eu disser "Vai", você vai". ... "Agora, VAI", John empurrou-o para fora. E então ficou sozinho.... Ele foi propulsionado pela porta. VÁ! Alguém chutara-lhe o traseiro e ele corria. Suas pernas movimentavam-se de forma ridícula, inadequada ao que era necessário. Estava cego de fumaça e lágrimas. O mundo passava por ele com rapidez, pesadas partes dele voando perigosamente à sua volta. A cerca parecia infinitamente remota. Homens miravam nele, suas longas capas ao vento e seus rifles apontados. Mudou de direção ao encontrá-los. Estava novamente a céu aberto, e eles fora de vista. Havia ruídos em seus ouvidos. Vozes do inimigo, até que percebeu serem sua respiração resfolegante. Lá estava a cerca e a tábua solta, ele ia conseguir. 'Obrigado, Grande Senhor. Perdoe-me as dúvidas'. Ele estava correndo tábua acima, que se tornara uma gangorra capaz de catapultá-lo, atirando-o aos céus. Então, braços amigos estiraram-se para ampará-lo, estava do outro lado, mãos apoiando-o, alguém batia às suas costas com os punhos fechados. Tossindo e rindo, olhou o trecho de plataforma ferroviária. "Bom e velho Kelly... irlandês sortudo!" Todos falavam ao mesmo tempo. "Quando ouvi aquele dup, dup, dup, cara, pernas prá que te quero!" "O sargento me empurrou para a fumaça." "Chutou meu traseiro com tanta força que eu já estava no meio do caminho antes de começar a correr." "Você pode imaginar aqueles Chucrutes idiotas xingando-se, Donnerwetter, eles pregarram uma trruque em nós", disse Dikson. Ele riam, abraçando-se em inocente e triunfante hilaridade. Drummond dirigiu-se a eles com semblante sóbrio. "Bom trabalho", ele disse. "Achei que nunca mais veria vocês." Ele apertou a mão de John. Houve um silêncio repentino. De repente, pareceu desonesto assumir o crédito por tudo aquilo. 'Grande Senhor, devo contar-lhes?' Não diga nada. De que me serviria uma fileira de medalhas? John sorriu, segurando as lágrimas. "Você está bem, Kelly?" "Legal", ele engoliu ochoro. "Legal". Não tinha palavras. "...Ouçam, esta é a Linha Siegfried, lembram?" Drummond sempre falava à artilharia com mortal doçura. "Para que vocês estão economizando suas balas? Olha, se não acreditam em mim, podem mandar seu próprio observador. ... Sim, façam isso. E não mandem longe, eles estão tão perto que posso ouvir cada arroto que eles soltam...." interrompeu-se para acenar aos homens para que se abaixassem. Saraivada de balas. Enfiados nos buracos de cimento frio, eles esperaram. O ar começou a tomar vida com assobios ameaçadores, lamúrias e confusão. John sentiu um choque agudo no estômago, que o fez levantar, segurou-o por alguns momentos e atirou-se no chão novamente. Quando a fumaça se dissipou, via-se brilhando na manhã fria, o mesmo cenário friamente complacente. "Obrigado", disse Drummond ao telefone, numa voz rouca. "Foi bem no alvo... Negativo... Eu disse 'negativo'. Todos os suportes das armas estão em pé, uma mão de tinta e estarão como novos outra vez". ... "Mas como vamos atravessar, tenente?" Quando Drummond disse que os generais queriam que eles atravessassem o rio, ele viu o pesadelo de Metter tornar-se realidade. "Eles querem que atravessemos em uns barquinhos". "Barcos?", sua voz engasgou, "Talvez submarinos". "Barcos", repetiu Drummond com um cansaço impassível, como se já houvesse aprendido a repetir tudo pelo menos duas vezes. Eles encararam-se. Era um disparate, do tipo que somente um general poderia sonhar, depois de uma farta refeição e de balançar- se no lustre. "Peter, vamos mandar os homens atravessar o Saar nuns barquinhos. Eu sempre quis brincar de barquinho no Saar". "Mas por que meu regimento, tenente?" Talvez, se hesitasse o suficiente, Drummond reconhecesse a absoluta injustiça de designá-lo para todas as patrulhas estúpidas, inúteis e suicidas inventadas por gorilas disfarçados de oficiais. "Por que sempre eu?", disse. "Eu também vou". "Você é um herói". "Todos seremos heróis quando isto terminar". Os olhos cansados de Drummond olharam nos de John. Eram olhos cinza, como o cinza de seixos muito lisos. Havia uma espécie de confiança neles que nunca antes vira. E viu também algo mais naquele momento: em seus olhos brilhava uma luz vagamente familiar, a mesma luz que permeava a floresta, quando Bill apareceu. "Está olhando o quê, soldado?", Drummond perguntou. "Você está bem? Precisamos de você na regata". John voltou-se para olhar o que estava do outro lado da água. "Você quer dizer que eles realmente esperam que um punhado de homens atravessem de barco e assaltem aquelas fortificações?" "Não seremos só nós. Partirão pequenos grupos ao longo de todo o rio. Algo tem que ser feito, e isso é o que os generais decidiram. Olha, me deixa em paz, tá bom, Kelly? Não é culpa minha. Vá encher o capitão ou o major". "Eles são tão loucos quanto os generais. O major estava se balançando num lustre em Kreuzbach. Se eles acham que essa idéia é tão boa, eles que vão. Quero dizer, mesmo supondo que a gente consiga atravessar aquele maldito rio, o que é que vamos fazer então, cantar para os Chucrutes saírem das bases?" "Olha, Kelly, chega. Vá chamar o Walker e os dois novatos". "Dikson e Perez? Eles são completamente verdes". "São seus homens. Teste-os com uma de suas idéias irlandesas loucas". A balsa de compensado tinha uma aparência odiosamente leve e vulnerável, mas pesavam uma montanha. Em meio à desordem de equipamentos para demolição, um rolo de fio telefônico vagarosamente forneceu uma tênue ligação com o quartel general. Desceram a encosta tateando na escuridão, xingando e resfolegando, enrijecendo as pernas para segurar o peso do corpo. Relutantemente, Drummond deu um intervalo, depois de alguns poucos minutos, e então, mal haviam seus membros parado de tremer, a voz de Drummond incitou-os a continuar. Por duas vezes precisaram proteger-se de bombardeios. Suas respirações fundiam-se num único som áspero. Moviam- se como as pernas de uma centopéia descoordenada. Parte de seu cérebro procurava evitar que seu peso caísse para frente. Outra parte concentrava-se nas suas mãos em carne viva e nas escoriações, onde os rifles atritavam seu corpo. Drummond levou-os ao pátio de uma fábrica junto ao rio. Baixaram o barco com cuidado, e instalaram o telefone num pequeno abrigo. Mãos nervosas exploraram a superfície do barco. "Bom", disse Drummond. "O que está bom, tenente? Se tivesse buracos você poderia ligar para o quartel dizendo que não poderíamos atravessar". "Dikson, corta essa", sibilou Drummond. Ao longo de todo o rio escuro e frio, pequenos barcos cheios de explosivos, fios detonadores, torpedos Bangalore, alicates e todos os outros brinquedos, com que os homens haviam sido hipnotizados a acreditar que quebrariam os Dentes do Dragão, esperavam serem lançados como barquinhos de brinquedo na água mortal. Alguém deve ter-se esquecido que eles estariam cheios de soldadinhos vivos. A noite iluminou-se por alguns instantes com sinais de luz. Quando se extinguiram, malévolos pontos escuros dançavam ante seus olhos... ou seria atrás deles? Quando os fechou, os pontos transformaram-se em espectros com olhos frios e cheios de ódio. Com caretas contorcidas, preveniam-no a permanecer daquele lado do rio, caso quisesse ficar longe do desespero do mundo. Estavam cheias de malícia e dominaram-no com algo além do medo. Seriam verdadeiras as histórias escabrosas sobre campos de concentração, onde prisioneiros eram levados a morrer de fome e de espancamentos? Suas peles eram usadas para fazer abajures. Ele lutou para voltar os olhos da figura cinza que se formara do outro lado do rio. Mas milhões e mais milhões de formigas foi o que ele distinguiu. Não, não eram formigas. Com profundo horror, viu homens arqueados, milhares de homens arqueados, exaustos, cinzas, marchando ao longo do horizonte. Sobre eles, uma mão brandia um chicote, que tinha tiras de couro preto, nas quais estavam penduradas muitas suásticas de ferro. Caíam golpes sobre os homens que marchavam, flagelando os corpos esquálidos, derramando o sangue da pele cinza e enrugada, expondo ossos e vísceras. As suásticas voavam para cima, arrancando pedaços de carne, e novamente caíam. 'Grande Senhor', veio seu grito, 'Não quero atravessar. Não posso'. As cenas de horror ante seus olhos desvaneceram, as severas águas negras continuavam a mover-se rapidamente. Estariam os outros também sendo advertidos a não atravessar? Seria aquilo realidade? O que era mais real? Dikson e Perez, alternando o olhar entre Drummond e seus relógios de pulso, ou os milhões de seres torturados, arrastando-se no céu da outra margem? Porque ele tinha que escolher. Poderia ouvir o tenente, ir adiante e tentar atravessar um rio mortal, numa balsa de madeira compensada, ou ceder ao imperativo terror que dizia que qualquer coisa seria melhor que atravessar em direção ao inferno certeiro. Os fantasmas de horrores de infância ergueram-se ante ele. Sentiu-se sendo varrido por uma respiração fria, que fazia o gelado ar noturno parecer um quente e aconchegante abrigo, que ele não conseguia alcançar. Um outro mundo sugara-o e enfeitiçava-o com pavor, ameaçando matar sua alma, e isso era apenas uma sombra do terror que seria encontrado do outro lado das águas infernais. Sabia que as coisas só piorariam, escrevera para casa que a guerra não tinha sentido. Estava enganado. Aquela guerra estava cheia de um significado maligno e de maldade plena. E ele estava perdido. Sua alma estava perdida. Pois, se atravessasse, sabia que os espectros não o poupariam. Sua mente teria que habitar no terror escuro e abjeto por toda a eternidade. E se se escondesse? E caso se esgueirasse para as sombras? Esperou pela resposta de sua mente. Mas sua mente também estava presa no gelo, e ele poderia esperar somente a morte. Se apenas tivesse se jogado para o outro lado de Billy, ou se a bala o tivesse encontrado ao invés de Impi. Impi flutuava num mundo de amor eternamente inatingívelpara ele. Os que foram mortos nos primeiros meses eram os sobreviventes. E os sobreviventes em carne estavam amaldiçoados, pois eles é que teriam que atravessar para a noite. Eram filhos da perdição, numa batalha perversa e invencível. O braço de Drummond começou a erguer-se. As ondinhas batiam contra o barco, lambendo-o. Sua alma ergueu-se em protesto. NÃO. Não atravessaria. Ninguém podia obrigá-lo. Se falharmos, então o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos, incluindo tudo o que conhecemos e prezamos, afundará no abismo de uma nova era de trevas... O Grande Senhor falava não nos guturais tons inspirados de Churchill, mas a partir de sua mente de silêncio. Calmas, serenas, uma palavra depois da outra aliviavam-no de um anel de gelo depois do outro. No interior do profundo silêncio que se abriu como o ventre primal da esperança, encontrou seu coração e sua mente, que disseram o que ele sempre soubera. O Grande Senhor falava aos soldados e generais. Falava através de Churchill. O Grande Senhor estava com ele, contando-lhe que a guerra tinha sentido, inspirando-lhe inabalável determinação. O barco foi colocado na água suavemente. Eles estavam esfregando as mãos e respirando nelas quando o céu tornou-se repentinamente incandescente. Chamas explodiram no rio. "Malditos". "Eles sabiam de tudo". O Dente do Dragão brilhou na luz ofuscante. O som dos disparos de metralhadora e o zunido das balas que chegavam rasgavam o ar. O barco afastou-se lentamente na água. Rastreadores encontraram-no. "Voltem, voltem". Uma tremenda explosão. Botas pisoteando o pátio da fábrica. Drummond desapareceu no abrigo. Era possível ouvi-lo girando selvagemente a manivela do telefone. "Não podemos atravessar", gritava Drummond ao aparelho, "Eu disse, não podemos atravessar! O maldito barco foi atingido... Consertar! O troço 'tava cheio de explosivos de demolição, não sobrou nada. Idiotas, filhos da mãe", murmurou, "... como assim, 'outro'? Vamos achar um no iate clube local, por acaso? ...Olha, estamos voltando. É melhor avisar aqueles sentinelas brutamontes que somos nós"... Em algum lugar, do outro lado do Saar, estava escondido o general Patton. De alguma forma ele conseguira atravessar. Sem perdas. Com severas perdas. Cada relatório contradizia o anterior. Mas por que estava escondido? Esperava por reforços que não conseguiam atravessar. Não. Estava juntando provisões. Estava isolado. Não. Estava planejando um grande golpe. 'O que está acontecendo, Grande Senhor?' Um dia, então, inacreditavelmente, John estava assistindo caminhões americanos atravessarem ruidosamente uma ponte flutuante. Os capacetes americanos não mais se escondiam. Os soldados atravessavam o Saara a cantar. Risos ecoavam pelo rio e seus veículos passavam preguiçosamente pela estrada, não mais correndo ao longo dela. Guinchos de breques, atrito de embreagens. Câmaras dos noticiários de cinema seguiam sua movimentação, com suas duas curiosas cabeças pretas. Do outro lado do concreto, dentes rangiam inofensivamente, seu veneno havia sido extraído. Num outro dia, ele também cruzou o rio em direção às fortificações vazias, com suas armas silenciadas. Onde estavam os demônios do terror que ele vira na outra margem? Deve ter sido fadiga. Olhou para cima e viu uma bonita casa, com telhas vermelhas e gerânios nas janelas; seria uma foto digna de um cartão postal. Nuvens brancas surgiam atrás dela. Olhou para baixo. Sob suas botas, o rio sorria entre as tábuas da ponte. Ninguém parecia saber a verdade. 'O que aconteceu, Grande Senhor?' "Avancem". O major impacientemente incitava os tanques todas as vezes que faziam contato. "Avancem. Comuniquem qualquer resistência". John estava sentado no alto do primeiro tanque, investigando a floresta que se aproximava, com binóculos militares. Abriram caminho entre as sombras vespertinas das árvores. Pássaros chilreavam animadamente. Não houvera batalhas ali. No vão entre duas montanhas, apareceu uma cidade alemã, como as de cartão postal: praça com igreja, estátua eqüestre, homens trajados de ternos e chapéus negros, crianças com longas meias brancas e shorts de couro, senhoras em vestidos regionais vermelhos, verdes e brancos. Onde estavam os soldados? Podia-se ver a cidade toda, as torres da igreja iluminadas pelo sol, elevando-se sobre ruas estreitas, bordejadas por casas típicas, limpas e intocadas pela guerra. Havia nas redondezas cerca de cem metros de uma muralha medieval em ruínas, atacada pelo tempo apenas. "Tomem a cidade", trepidou a voz do major. Os tanques não encontraram resistência para entrar, trovejando na praça. Em poucos minutos, toda a cidade acenava com branco: em todas as casas, lenços, fronhas e lençóis foram postos ao vento. O prefeito, um homem alto e ascético, vestido de lã preta, pálido, estupefato e empunhando uma fronha branca engomada sobre a cabeça, apresentou-se para entregar a cidade para o recém-chegado major. O tanque de John uma vez mais penetrou pela floresta, procurando um conjunto de edificações que o reconhecimento aéreo havia localizado. Sua apreensão crescia juntamente com as sombras. Bebera o conhaque de seu cantil, mas isso não o relaxara naquela área, perfeita para atiradores camuflados. De repente, ele ficou paralisado. Um estranho e esquelético rosto aparecera atrás de uma árvore e depois desaparecera. Estava na terra dos espectros. Estavam entrando no abismo negro. Outro rosto fantasmagórico. O tanque parou, ele e Dikson desceram. Com a carabina em punho, ele rodeou o tanque, com as costas voltadas para o veículo. Algo moveu-se rapidamente à sua direita, fazendo-o voltar-se. Uma das figuras veio em sua direção e duas na de Wacky, que as fitava de olhos arregalados. A coisa que se aproximava dele vinha com o braço esticado, oferecendo a mão, que parecia uma garra, e um sorriso retardado, que o fizeram voltar um passo. Aquilo era um homem. A criatura baixou a mão, constrangida. O coração de John palpitava dolorosamente. O homem oferecia saudações. Cambaleou para frente. "Pode ser uma armadilha", advertiu Wacky. John estendeu a mão. O homem aproximou-se lentamente. "Estou te cobrindo". Quando se deu conta, John estava abraçado por braços que assemelhavam-se a galhos e sentiu o estômago agitar-se. O fedor... Reprimiu a ânsia. Era um ser humano. Os outros rostos fantasmagóricos tornaram-se reais. "O que está acontecendo?". Wacky voltou dois passos, apontando o rifle, perplexo. As mãos tateantes ignoraram-no. Começou a surgir um murmúrio em várias línguas. John procurava palavras. "Obrigado". Lágrimas inundaram seus olhos. "Obrigado". "Obrigado. Obrigado. Bem-vindos Dankeschön, libertadores". Eles empurravam-se para aproximarem-se. Ele dizia "Obrigado" a cada mão que se aproximava e era apertada. "Ei, o que é isso?" "Deve ser um campo de concentração." "Ya, ya. Lager de concentração, sim." "Ya, ya". Eles mostraram os números púrpura tatuados no antebraço. Criaturas emaciadas apareciam de todos os lados, às dezenas... no mínimo uma centena. Gesticulando e rindo, cheirando à morte e a excremento. Com seus sorrisos fantasmagóricos, tocavam suas mangas e ombros. John colocou a mão nos bolsos, pegando barras de chocolate, cigarros, uma caixa de fósforos e um caderno, e distribuiu-os por mãos vazias. Pegou sua mochila e começou a abrir os pacotes de ração K, queijo à esquerda, feijões ao centro, café à direita; quando acabaram os alimentos, meias e papel higiênico. Deu tudo, e quando não havia mais nada para oferecer, entregou a mochila a um par de mãos vazias. Olhou em volta. Semi-encoberto por braços acenantes, Wacky olhava para uma mochila vazia. Perez conversava em espanhol com um idoso de aparência bíblica. Uma senhora jogou-se aos pés de Dikson, agarrando-se às suas calças. Sem conseguir chamar a atenção dele, ela mordeu algo que estava segurando. John foi até ela e viu que na lata em suas mãos escorriam sangue e saliva. Ele a abriu e carinhosamente serviu uma colherada de cozido, que eladevorou. Duas, três vezes ela avançou para abocanhar a carne. Na quarta vez, estacou de súbito e, sorrindo embaraçada, apontou para a colher e então para a boca dele. Queria que ele comesse! Ele discordou com a cabeça, "Obrigado, obrigado". Três pequenas colheradas, tudo o que foi necessário para relembrá-la de sua dignidade. 'Grande Senhor, perdoe-me. Perdoe-me por não ter sido um melhor soldado, perdoe-me por todas as reclamações. É isso o que você queria dizer. É por isso que Você está de nosso lado. As trevas que eles disseminaram não devem prevalecer'. O clamor esvaeceu. Um homem apresentou-se ante ele. "Coronel Grissinsky do Exército Polonês". O coronel uniu os calcanhares. John olhou o rosto alto e anguloso. Os profundos olhos cinza estavam firmes, sustentando o seu próprio olhar calmo. Ele vestia o mesmo pijama que os outros. Estava emaciado e com os ombros curvados, mas era diferente. John levantou-se e fez continência. "Sargento na ativa John Kelly, da 70a Divisão de Infantaria, 2760 Regimento de Infantaria...." O coronel fitou-o por alguns instantes e, então, sorrindo solenemente, fez continência. A Guarda de Campo havia se retirado, explicou o coronel, e os prisioneiros saíram em busca de alimentos. Haviam ouvido falar que os americanos estavam chegando, mas ainda estavam com medo dos fazendeiros alemães. John deu uma arma ao coronel. "Tomamos a cidade, e as florestas parecem estar seguras, mas talvez você se sinta melhor tendo isso". O coronel Grissinsky pesou a arma na mão, fitando-a por um longo tempo, em silêncio. "Tudo bem?", perguntou John. "Uma Luger. Ótimo". Outra longa pausa. "Mas sabe, eu esperava nunca mais ter que usar uma destas". Segurando-a com ambas as mãos, ele olhava para baixo. "Logo que cheguei aqui, eu rezava todas as noites para Deus mandar-me uma destas. Queria matar os guardas da minha cabana. Depois isso passou, porque a única coisa que passou a me amedrontar era a possibilidade de me tornar tão bruto quanto eles. Você entende?" John assentiu. "Deus permita que eu nunca perca esse medo." O coronel calou-se. Envergonhado pela humanidade, John não encontrava palavras. Finalmente disse, "Sinto muito, coronel", assentiu com a cabeça e repetiu a frase, e sentindo sua inadequação, disse, "Sinto muito, sinto muito." O coronel estreitou os olhos, avaliando-o e medindo o valor de uma réplica. "Por que você sente muito?", murmurou o coronel. John não entendeu. Não se pode oferecer um pouco de consolo e achar que a dívida foi paga. Solidariedade não era suficiente. O que seria suficiente? Não sabiam, pois nada era suficiente. Eles deveriam saber disso. "Estou envergonhado." "De quê?" "Não sei. Talvez de ser humano." O coronel indicou a floresta com a cabeça, voltou-se e começou a adentrá-la, tendo John a seu lado. Ele poupava a perna esquerda, então John ofereceu o braço, onde o coronel apoiou a mão. "Desculpe não ter sido um melhor soldado". O coronel apoiou agora a mão no ombro de John, firmando o peso. Andavam no mesmo passo, no silêncio de uma pergunta inútil. Depois de alguns momentos, o coronel parou ao lado de uma árvore e pegou uma pinha. Examinando-a, e delicadamente testando-a com a unha, como se fosse algo desconhecido, disse: "Foi a graça. Foi a graça de Deus. Sim, foi terrível, foram trevas tão negras que não podíamos procurar pela luz do homem. A luz do homem fora extinta. Tínhamos que procurar a luz de Deus. Alguns encontraram-na, outros não. Você entende, não é?" "Coronel, acho que não tenho o direito de dizer que entendo, e ainda assim isso é a única coisa que compreendo. Nada mais faz sentido." "E então você vê, aqueles que a encontraram, nunca a esquecerão. Essa luz não pode ser apagada. A luz do homem... eu vi o que é, puf', disse, assoprando uma vela imaginária, "acabou-se. Portanto, Deus às vezes apaga a luz humana para que possamos ver Sua luz." "A luz do homem e a luz de Deus não brilham juntas, coronel?" "Você não pode ver a luz das estrelas durante o dia, pode?" "Não." O coronel deu de ombros. "E a mesma coisa." "Venha Kelly, estamos indo embora. Vai ficar escuro daqui a pouco." Era Wacky. "Esta floresta me dá arrepios." "Perdão, coronel, precisamos voltar ao acampamento. Teremos que passar um relatório para nosso major. Eu o convidaria para vir conosco no tanque, mas seria melhor se o senhor afastasse seu povo." "Diga ao seu major para mandar médicos, remédios e alimentos tão logo puder. Há centenas de pessoas que talvez possam ser salvas. Quando virá seu major?" "Talvez esta noite, talvez amanhã. Não sei, ele está com o prefeito." "Estas pessoas voltarão ao Campo. Elas não têm outro lugar para ir." Ao redor de uma fogueira, em um dos pátios entre as cabanas, John sentou-se ao lado do coronel, juntamente com a equipe de reconhecimento e os prisioneiros do Campo. Sobre as brasas, três espetos de carne de vaca eram girados. O cheiro de carne assada quase que mascarava o de morte e excremento. Apesar de ser uma noite fria, fora impossível manter as pessoas em alguma das vinte e seis cabanas. "Não podemos fazer nada por eles antes de seu major enviar os suprimentos que prometeu", disse o coronel Grissinsky, servindo bebida em copos que a equipe de busca trouxera dos aposentos dos guardas. "Vou ter que pedir licença, para providenciar que as pessoas que estão dando assistência aos moribundos sejam rendidas. Fazemos turnos de uma hora. Vou fazer a troca, depois retorno." Quando o coronel voltou, John disse, "Quero perguntar-lhe uma coisa." O coronel assentiu, tragando sua bebida. "Tudo isso", disse John, apontando com a cabeça para as cabanas cheias de pessoas agonizantes, os humanos sentados em silêncio no pátio, alguns chorando ao ouvir a melancólica música cigana que fluía como um rio do violino de um jovem sobrevivente. O coronel tornou a encher seu copo, John olhou em volta. Viu uma senhora idosa lá sentada, passando entre os dedos as contas de um rosário, sorrindo. Talvez fosse isso o que ele queria perguntar: como podiam ainda sorrir? Não, havia algo mais importante. Era tão feio. Altas torres de vigia fitavam com seus olhos cegos as malcheirosas cabanas de madeira construídas ao redor do pátio. Não eram as mãos esqueléticas que constantemente se ofereciam, nem os sorrisos agradecidos que ele sempre encontrava, tão fracos que pareciam idiotizados, nem mesmo que algumas mulheres estivessem vestindo algumas roupas melhores que tinham conseguido salvar, usando fitas esfarrapadas ao redor da cabeça e do pescoço, que o levavam a chorar... não conseguia chorar. Bem no meio de campos verdes e de florestas virgens, a cidadezinha de contos de fada aparecera entre as colinas... Como aquele pátio estéril de sacos de ossos e esqueletos surgira dela. "Por que é tão feio?" Cuidadosa e elegantemente, o coronel serviu-se de mais bebida. Balançou a cabeça. "Quero dizer, quando eles cortaram as árvores?" - abaixou a cabeça, consciente de que estava sentado no meio daquilo sobre o que os espectros o haviam acautelado. "Não deixaram nem uma árvore", disse. Sabia que só estava dizendo aquilo por causa da bebida, mas não estava bêbado. "Poderiam ter poupado uma árvore". O coronel puxou a cabeça de John para seu ombro. Por um momento, ele sentiu a clavícula saliente, o cheiro das roupas mofadas e o conforto de estar perto daquele homem. "Não, filho, eles não podiam deixar nenhuma árvore. Onde quer que os homens não sejam livres não deve haver árvores, não deve existir nem mesmo uma flor, porque isso os faz relembrar. Não deve haver nada, de uma floresta cria-se um deserto". O sotaque do coronel tornara-se mais pesado. "Eles estavam fazendo um deserto onde nem eles mesmos poderiam viver. Ouça. O comandante do Campo tinha algumas flores, umas rosas. Quando elas floresceram, os prisioneiros começaram a inventar desculpas para poder parar e olhar. Um dia, ele encontrou um prisioneiro, um professor de matemática, cheirando-as. Os guardas espancaram-no até a morte e ocomandante arrancou as flores. Você compreende? Você vê aquele rapaz?", perguntou, apontando o violinista, "Uma vez por semana, Joaquim tocava para o comandante, Mozart, sempre Mozart. Há duas noites, ele encontrou dez prisioneiros escutando sob sua janela. Ele ordenou que os prisioneiros e o rapaz fossem executados. Mas chegou a notícia de que vocês estavam se aproximando e os guardas fugiram antes. Você compreende? Eles poderiam ter interrompido a música, quebrado o violino, não é? Mas não, queriam matar a fonte da música. Mesmo ao transformar a terra num deserto." Deu de ombros novamente. "Ignorância. Não se pode fazer isso. Você pode mandar a música de volta à sua origem, evitar que se manifeste na Terra. Pode fazer com que nenhum ser se lembre como trazer a música de volta." Estendeu a mão nodosa em direção ao céu. "Eles somente podem transformar a terra num deserto. Quando se luta por uma árvore, luta-se pela floresta inteira, e, ao fazê-lo, luta-se pelo planeta. O mundo da música é imperturbável." John fitava as brasas. Em algum lugar, de alguma forma, ele já sabia disso, que o mundo inteiro poderia ser destruído e que nada poderia ser destruído, que mesmo se tudo fosse destruído ele ainda pertenceria à Senhora. O mundo inteiro podia apenas ser privado de sua permanência. Mas, naquele momento, a música nostálgica deu lugar a uma polca. Os homens giraram os espetos. A bebida começou a fazer efeito, ajudando a enunciar a pergunta que ele nunca tinha ousado fazer, nem a si mesmo. "Mas coronel", parou, embaraçado. Não, precisava perguntar, "se nada pode ser destruído, então de que importa o deserto?" Nada mais era importante, se pudesse ficar com Ela. Seu gesto abrangeu os sobreviventes, a floresta. O coronel empertigou-se. O horror das trincheiras, Impi, Bill, o bravo Tenente, o desperdício, o esforço desperdiçado. Se podiam ir diretamente ao paraíso estrelado de Impi, ao abrigo celestial de Bill, ao Templo e ao Amado, por que lutavam? O coronel inclinou-se para frente e fitou-o. Franziu o cenho, os olhos cinza-azulados tornaram-se duros como o aço. "Se isso importa? Nunca faça essa pergunta. Tudo importa." Sua voz estava suavemente selvagem. O coronel virou-se e olhou o fogo. A música continuava animada. "E ainda assim, eu mesmo me fiz essa pergunta. Venho de uma família longeva. Meu avô foi pai quando tinha quase noventa anos. Nós sugamos a vida até o último dia. Mas cheguei a essa questão." "Senhor, qual a resposta?" O coronel olhou-o. "Não procure as respostas em mim, meu garoto." "Estou procurando respostas. Com quem posso encontrá-las?" O coronel correu o olhar pelo céu noturno. "Deus?", perguntou John. "Se você gosta desse nome." Por que o coronel dissera aquilo? "Suponha que Ele escolheu você para me dizer?" 'Grande Senhor, que estou dizendo'. A música estava agora frenética. Os prisioneiros revezavam-se nos espetos com mais freqüência, girando-os cada vez mais rapidamente, acompanhando o ritmo. Aquilo tomara-se um tipo de dança, um jogo. "O senhor percebeu?" disse John, pensativo, "que quando os ajudamos a colocar a carne nos espetos, parecia que eles não iam agüentar a noite. Agora reviveram. A bebida com certeza não é assim tão boa." "A liberdade é uma droga poderosa. O álcool é água tônica comparado a ela. Nós, poloneses, aprendemos isso na carne, desde o começo, quando Chamberlain ainda dormia. Esse é o eixo desta guerra. Se não fosse por Churchill e pelo Deus que o guia, o mundo perderia-se em trevas por mais um ou dois mil anos. Você sabe disso, não é?" Fosse por causa das palavras do coronel, ou pelo que o Grande Senhor mostrara-lhe, renovou-se nele o entendimento de por que lutara para tomar cada centímetro daquelas montanhas. Billy e os outros não tinham morrido em vão, e o presidente Roosevelt também deveria estar sob o comando do Grande Senhor. Largos corredores de luz abriram-se em sua mente. Teria apreciado falar disso ao coronel, mas não encontrou palavras, nenhuma palavra. O coronel começou a falar num murmúrio, levando John a inclinar-se para ouvir. "Fiz essa pergunta e foi-me mostrado. Ele me mostrou o mundo em chamas, e era Seu corpo em chamas, e perguntei o que poderíamos fazer, porque não podia suportar aquela visão. Perguntei-Lhe o que fazer. Ele me mostrou. Ele queria um novo Corpo, queria a Terra como seu novo corpo, e que fosse eterno. Mostrou-me como Ele próprio já a havia queimado e destruído, para prepará-la, queimou e destruiu-a um milhão de vezes para preparar um corpo para si mesmo. Desta vez..." A música aquietou-se, "Ele deve descender. Vai descender." O Grande Senhor vibrou e ressoou dentro de John. "Um dia, a Luz entrou em meu desespero, e Ele apareceu ante mim", disse, "com olhos brilhantes, curou-me e salvou minha razão." Grande Senhor! "Se me esquecer de tudo o que já soube, isso nunca esquecerei, porque sei que qualquer vida que me restar devo gastar à procura d’Ele. Então, como você vê, importa. Ele veio para me mostrar que importa. Sim, meu filho, importa, e muito. Ele tinha uma aparência de oriental, com profundos olhos negros e cabelo também preto." Em silêncio, escutaram a música. Finalmente, John perguntou, "Aonde vamos agora?" "Aonde.... Ah, sim." O coronel subitamente explodiu em riso, e John pôde ver naquilo o homem que ele tinha sido, o homem cujo avô gerara filhos aos noventa anos. "Sim, isso é sempre um problema". O coronel sentou-se com as costas bem eretas. "Vou lhe contar", seu olhos cinza dançavam, "amanhã ambos iremos à floresta, lá. Vamos desenraizar uma arvorezinha e trazê-la para cá". Apontou para as pessoas ao redor do churrasco. "Vamos plantá-la ali, bem no meio. Amanhã plantaremos uma árvore." Carros blindados aproximaram-se do portão do Campo e os prisioneiros, acenando com os braços, dirigiram-se a eles. No primeiro jipe estava o major, aprumado num uniforme novo, o bigode prateado brilhando ao sol pálido, todos os detalhes irrepreensíveis, tudo no seu perfeito lugar. Afastou-se das mãos esqueléticas que se estendiam em sua direção, olhando em volta, e, quando elas subiram no tanque, utilizou seu cacetete para afastá-las. O major olhou furtivamente ao seu redor, tentando descobrir a origem daquilo que a brisa trouxera às suas narinas. Seu olhar parou em John. "Ei, soldado..." John prestou continência. "Não foi você que passou o relatório noite passada?" "Sim, senhor." "Vocês não chegaram aqui ontem à tarde?" "Sim, senhor." "Vocês deveriam ter mantido esta passagem desobstruída. O coronel vem bem atrás de mim, com médicos e suprimentos". Ele estava chocado. "Por que eles estão aqui?" "Senhor, acho que vieram ficar ao sol. Alguns estão morrendo." O major fechou os olhos. Quando os reabriu, disse, numa voz diferente, "Eles não deveriam estar, não seria melhor que estivessem lá dentro?", apontou com o cacetete para a cabana mais próxima. "Senhor, há cadáveres nas cabanas. Os prisioneiros estão fracos demais para carregá-los para as sepulturas atrás do arame farpado, ali. Há a cabana da administração, mas ela também está lotada." O major olhou desconfortável para os espantalhos que tentavam lisonjeá-lo com sorrisos, alguns deles tinham vômito ressecado em seus imundos pijamas listados, olhos vermelhos, dentes quebrados, descoloridos ou faltando. Por um momento, John teve a disparatada idéia de que o major iria ordenar a seu motorista que os atropelasse todos. O major voltou a cabeça, apontando com o queixo para um pequeno grupo de prisioneiros, que permaneceu do lado de fora dos portões. "Você recebeu ordens de que ninguém deveria ter permissão de sair. Deve haver tifo e todos os tipos de doença aqui, e não sabemos quem é esta gente." "Sim, senhor, mas eles não querem fugir. Estão fracos demais para ir a qualquer lugar. Sabem que pedimos alimentos e suprimentos médicos." O major passou o olhar pelos prisioneiros. "Como eles sabem?", perguntou, como se os prisioneiros devessem ter um tipo anormal de comunicação. "Senhor, o boatose espalhou. O senhor sabe como é. Tem um coronel polonês que parece ter assumido a liderança depois que os alemães fugiram." O major ficou aliviado e perturbado ao mesmo tempo. "Por que você não me disse isso antes, soldado? Leve-me até ele." John olhou em volta. Onde estava o coronel? Lá estava ele, falando a um grupo de prisioneiros, parecendo mais alto, magro e frágil agora que à luz do fogo. Finas linhas vermelhas emolduravam seus olhos fundos. As faces murchas nos ossos de máscara mortuária. Os lábios recobriam o que restava dos dentes, e no queixo e na testa havia finas cicatrizes que não vira na noite anterior. Aproximou-se num passo sem pressa, cumprimentando John com um meio sorriso. John retribuiu e fez continência. "É ele, senhor, aquele na frente." O major foi a seu encontro. "Ele fala inglês?", perguntou, nervoso. "Muito bem, senhor", John seguia-o dois passos atrás. O coronel parou primeiro, e então o major. O coronel inclinou-se levemente, e depois endireitou-se e fez continência. "Coronel Grissinsky, da Infantaria Polonesa." O major resmungou algo em resposta e correspondeu à continência. "Saudamos nossos libertadores." A entonação polonesa ecoou como um trovão. O coronel estava se esforçando para manter sua voz forte. John viu o suor que apareceu em sua testa, e, com pesar, deu-se conta, pela primeira vez, de que o coronel poderia estar morrendo. Houve uma mudança no rosto do major. O sorriso rígido e incerto desfez-se. O andaime que lhe permitira se alienar da situação subitamente cedeu, finalmente atirando-o para a calamidade. Ele deu o passo que faltava à frente, estendendo a mão, e começou a dizer algo, mas mordeu os lábios e apertou a mão do coronel com as suas duas. Ele assentiu pesarosamente e disse, quase num sussurro, "Coronel, sinto muito. Sinto muito não termos vindo antes. Não sabíamos." Não sabiam, não poderiam saber. Então, o coronel, apoiado no braço do major, levou-os a visitar as cabanas: os depósitos, onde estavam entulhados sapatos e roupas até o teto; as salas de tortura, onde chicotes, aventais de couro e instrumentos de metal encontravam-se ordenadamente pendurados, em macabra organização; a sala de cirurgia, onde os prisioneiros foram as cobaias; a vala comum, para além do arame farpado, onde milhares de prisioneiros, executados a tiro pouco antes da fuga dos alemães, jaziam nus, esquálidos, as cabeças grandes e os escuros genitais à mostra. John permaneceu ao lado do coronel Grissinsky nos portões, enquanto o major ia ao encontro da equipe do Coronel, que se aproximava. "Onde", John perguntou com desesperada urgência, "onde vamos encontrá-lo?" "Ele ama tanto a Terra que não pode estar longe, mas não sei. Não estudei tais coisas, fui um soldado. Vou começar a ler e a buscar. Não sei. Se Ele estiver na Terra, eu o encontrarei, se me for concedido tempo de vida..." Agora os dois coronéis e o major estavam na sede administrativa. John foi encarregado de trazer o prefeito e civis para limpar o Campo. Quando retomou, o coronel Grissinsky havia partido. Um prisioneiro entregou-lhe um pedaço de papel: "Ele precisa de uma nova Terra. Precisamos plantar árvores e mostrar aos outros como plantá-las." Não é que fosse sempre fácil ter um Comandante Celestial só para si: '...O resto do batalhão encontrou-os depois do Campo. Já não eram mais a vanguarda, uma outra divisão adiantara-se, deixando- os com as sobras. Patrulha após patrulha.' "Fiquem espalhados. Não percam contato." Os homens penetraram num trecho de floresta. Avançaram até encontrar uma encosta pontilhada de crateras. Trilhos de trem passavam ao pé da montanha, em direção à estação de Saarbrucken. Bombas dos Aliados tinham deixado aquele lunar cenário. Vagões descarrilhados brilhavam preguiçosos ao sol da manhã, totalmente quietos, não fosse pelo canto dos pássaros a avisá-los. "Podem estar guardados, portanto olhos atentos e fiquem prontos", disse John. "Parecem abandonados", falou Wacky, "vamos ver o que tem dentro, pode ser birita". "Para mim parece armadilha", continuou John. Desceram a encosta. A trinta metros do trem: "Não tem nenhum Chucrute. Já teriam atirado", a voz de Dikson fez arrepiar seus cabelos... "Fiquem espalhados", ordenou John, Perry acompanhava-o. Com um gesto, John indicou que parassem e que Wacky lhe desse cobertura. Perez cobria a direita, Dikson vinha atrás. Mais um passo, e outro, e mais um. Se fosse haver problema, aquele era o momento. Mais um passo... esperou pelo armar de um rifle. Um pássaro piou e ele ouviu sua própria respiração. Um enorme cadeado trancava a porta do vagão. Champanhe? Ouro? Caixas de iguarias, salame, arenque, anchovas e azeitonas... O volumoso cadeado correspondia a seu olhar. Não. Nem tinha dito o que ia fazer, mas seu comandante-em-chefe estava sentado em seu ombro. Olhou furtivamente para o cano de sua arma. Não atire. Não podia ser o Grande Senhor. Não atire. Aquele irritante sotaque britânico só podia ser do Grande Senhor, e era uma ordem, da mesma forma que um general mandaria que fizesse algo, sem ênfase ou explicações. Olhava o cadeado. Eu disse: não atire. O tom era agora imperativo, como a necessidade. Algo puxou seu dedo indicador no gatilho. Sentiu uma coisa quente entrar em seu ombro, o calor espalhou- se, chegando às axilas. Alguém atirara em seu peito. Uma torrente de lágrimas cegou-o. Por que seus homens não estavam atirando? "Você está bem, Kelly?" Wacky bateu em suas costas, sua visão começou a clarear. Seu idiota cretino! Disse a si mesmo. Fragmentos do cadeado devem tê-lo atingido. "O que aconteceu?" "Estilhaços do cadeado, acho". Seu ombro estava queimando, tocou-o com a mão, o sangue sujou a palma. "Maldito sortudo", disse Dikson. Hospital, descanso, cama limpa. Acabaram-se as patrulhas. Olhou para cima, onde as nuvens passavam indiferentes a ele. Atravesse para o outro lado por baixo do vagão. "Fique aqui", disse a Wacky. Rastejou sobre os trilhos, procurando por botas alemãs. Nada além do mesmo cenário lunar de desolação. Ficou em pé, vasculhando todos os lados. Nada. Deu um passo. Volte-se. A ordem veio tão intensa que ele se voltou sobre os calcanhares, colocando o rifle a postos. Este lado do vagão estava aberto, revelando o seu interior, onde havia pilhas e mais pilhas de cilindros. Caiu em si. Bombas. Bombas! Ele poderia ter pulverizado a todos, teriam explodido antes de se darem conta do que estava acontecendo. ...Perdeu a força nos joelhos, olhando os montes de bombas. Aos poucos, seu coração foi parando de palpitar. Acendeu um cigarro e tragou profundamente. Depois da segunda tragada, apagou-o e verificou seu ferimento. Doía. A superfície estava rija, e ainda sangrava. Seria mandado ao hospital. Não. 'Ó Grande Senhor, por favor! Estou cansado'. Não. Outra ordem sem detalhes ou explicações. Estupefato, John sentou-se numa pedra e acendeu outro cigarro. Ele sorveu a fumaça, e uma onda de indignação preencheu-o junto com ela. Lágrimas ressentidas. 'Veja todos os outros. Veja Robe e todos os soldados que se mataram ou simplesmente não fazem nada. Nunca nem me passou pela cabeça fazer isso. Meu ferimento é real'. É por causa dessas atitudes que a guerra está demorando tanto. Há mais campos de concentração. John atirou o cigarro longe, com raiva, o coração doendo. Somente um Ser no universo tinha compaixão. Ela tinha que vir ao encontro dele agora, precisava vir, ou ele morreria. Mas a única coisa que veio a ele foi Dikson, que olhou para o vagão e para ele aterrorizado. "Você poderia ter matado todos nós." John recusou-se a olhá-lo. Iria gritar se Dikson falasse novamente. Ninguém nunca mais deveria falar com ele. Deveria ter ido embora com Ela da primeira vez. A guerra aqui em baixo ia continuar muito bem sem ele. John levantou-se e apagou o cigarro com o calcanhar. "Vamos embora." Depois da guerra, John entrou numa depressão profunda, pensando ter perdido contato com seu Grande Senhor.Certa noite, estava deitado, convencido de que ia morrer: '...Tudo bem, desta vez iria fazê-lo e nunca mais retornaria ao caos deste mundo. Os horrendos espectros apavoraram-se. Depois de esperar e orar para a Senhora por dois dias, soube que não era o suficiente, deveria determinar-se a morrer. Nunca conseguiria enquanto alimentasse seu corpo com batatas fritas e cerveja. Se o anseio pela Senhora pudesse levá-lo a Ela, teria deixado seu corpo. Era necessário parar de comer, de sair, e simplesmente querer morrer com todas as fibras de seu ser.' Na manhã seguinte, abriu as janelas para um sol decidido. Deveria tomar café? Não era realmente importante. Não havia como se esconder na vida de novo, independentemente do que comesse. Viu a carta para Kathy. Talvez alguém a enviasse, mas não adiantava fingir que se importava, o que sentira por Kathy havia dois dias fora devorado por um faminto desejo de dormir para sempre nos braços da única Amada possível. Coou um café forte e surpreendeu-se de como era gostoso: fragrante, rico, amargo e doce. Sentou-se na poltrona, esperando, olhando a parede. Mas a porta é que foi escancarada. "Kelly, 'cê' tem uma garrafa de vinho? Devolvo amanhã. Os rapazes..." "Pode pegar, ali. Não, à direita." Com os olhos fixos em John, hipnotizado, o rapaz foi até o armário e pegou a garrafa como se fosse uma bomba. "Que que 'cê' tem, Kelly? Posso ajudar?" "Sim, feche a porta devagar." Tranqüilizado, o rapaz correu até a porta. Bateu-a com um estrondo. Abriu-a novamente. "Você não regula bem, Kelly." Bateu a porta de novo. Grandiosas últimas palavras: "Feche a porta devagar." O Doutor flutuou por ali por alguns instantes. 'Não precisa tomar cuidado, simplesmente vá em frente.' A morte aproximava-se um passo cada vez que ele olhava. Estaria com Ela. Uma vez que estivesse com Ela, nunca retornaria. Agora precisava preparar seu corpo. Escovou os dentes. Encheu de água a grande banheira branca. Observava-se perder as forças. Entrou em seu último banho. Cuidadosamente ensaboou-se, relembrando por alguns momentos, agora ridículos, a idéia da imortalidade do coipo. Após secar-se com a toalha, pausou por um momento, indeciso. Parou ante o interruptor de luz. A morte viria mais certa e rapidamente no escuro. Deitou-se na cama. "Ave Maria cheia de Graça...". Não. Palavras afastavam-na. A morte era mais predisposta ao silêncio e orações mantinham-na à distância. A morte era o vazio. Cruzou as mãos sobre o peito. Não tinha cortado as unhas. 'Não importa', disse à sua mente, agora cheia de trivialidades. Tinha penteado o cabelo. Agora vá em frente. Silêncio. Subitamente uma erupção. Jazz. A porta foi escancarada e três moças inclinaram-se sobre sua cama. Ele rezou desesperadamente. Não, não, não. Vão embora. Elas foram. Silêncio novamente. Deixou-se ser levado às suas profundezas, até que nas trevas insondáveis encontrou um cordão de luz, que se transformou num minúsculo diamante. Seu brilho cresceu, espalhando luz, cascateando luz. Dentro dele surgiu uma Presença. Era Ele, seu Senhor, seu Salvador e Protetor. 'Grande Senhor'. Energias murmuravam e pulsavam, aproximando-se de seu coração, como um grande motor em ação. Fortalecendo-se, as energias reuniram-se e começaram a subir, atravessando sua cabeça. Esperando por ele, com braços como diamantes azuis abertos, estava o Grande Senhor. John fitou-o. Fulgurava amor entre eles. Venha comigo, disse o Grande Senhor, mas não olhe para os lados nem para baixo. John segurou os tornozelos e sentiu-se sendo levantado. Sua velocidade aumentava. Como um grande pássaro, atravessavam mundos de sufocante angústia nos quais, não fosse por estar se segurando no Grande Senhor, teria se asfixiado. Viravam e giravam pela escuridão, através do horror que lhes abria passagem. Fantasmas fugiam, visões noturnas na madrugada. Apertou o rosto contra os calcanhares daquele que sempre fora seu Adorado Amigo. Havia agora menos resistência e algo sutilmente novo, que o levou a abrir os olhos. Era menos opaco, menos denso, com clareiras e redemoinhos numa bruma, e com um último giro penetraram num mundo mais doce e claro de infinitas praias e brilhantes oceanos prateados. Olhou para baixo maravilhado, era um eterno e sereno verão de inocência e tranqüilidade, onde se sentia a paz como um orvalho. Pulsando com beatitude, radiantes formas de deuses flutuavam. Era um vale de deleite além do tempo. Temos que ir mais além. As coisas aqui nunca mudam. Sem aviso prévio, sem transição, estavam voando na noite, a noite da Terra, sobre a Itália. Juntos viram as pontes de Florença, atravessando sobre o Arno com seus poéticos arcos; essa cidade de realizações, uma sentença em seu diálogo eterno. Seu riso derramou- se sobre as colinas de Assis, a terra vermelha de Siena. O nascente tingiu o mundo de cor-de-rosa e laranja sobre as areias do Egito. As perguntas dissolveram-se quando viu o lar de seu coração. O país em forma de coração sobre o qual sua mãe havia falado. Era a terra do Mestre. Baixaram no lado leste e passaram sobre um agrupamento de inocentes casas cinza, frescas ao sol nascente. Um terraço de cobertura brilhava com lustrosas bouganvílias carmim. Entre as casas e o cinza mais escuro das ruas moviam-se pessoas trajando branco. Agora você se lembra. 'Eu sei. Você é o Amigo Adorado.' Trocaram um olhar que atravessou muitas vidas. Uma voz soou em seu coração,: Você vê, nosso amor está além da perda, além das perturbações. Nosso amor permanece intocado. Seu coração, infundido de paz e banhado em graça, estava aos pés do Mestre. Fechou os olhos. Sua alma estava envolvida por uma chama, ele foi consumido. Finos filamentos de luz iluminaram os pontos de sua vida e a do Mestre em que havia escolhido se voltar. Cada conceito que lhe fora ensinado o afastara de seu próprio ser e do conhecimento de sua liberdade. Reviu o momento de seu nascimento e toda sua vida, seu Mestre mostrando-lhe que havia encarnado num centro de ignorância e superstição bárbaras, como nunca em toda sua vida ninguém lhe explicara que tivera vidas anteriores; ninguém sabia. Agora a vida do Mestre revelou-se, simples, humana. A Consciência, em seu amor ilimitado, assumindo as dores da vida. Ele viera para vestir-se da resistente matéria terrestre e acender sua chama. E o que se requisitava de John Kelly era que auxiliasse o Grande Senhor e a Senhora. Vou mostrar-lhe algo. Sobre um outro terraço, ao seu lado estava o Grande Senhor, seu sedoso cabelo branco ao vento. Veja. Fumaça, tanques, mais fumaça, homens marchando em formação. Não estavam vendo o horror do passado, mas o futuro, o que ainda estava por vir. Ele voltou-se em protesto. Se lhe pedissem que passasse por tudo aquilo novamente, seria impossível. Não conseguiria. Lembrou-se que tinha deixado seu corpo e que não retornaria, nunca mais abandonaria seu Amigo. A resistência abandonou-o, é necessário serenidade para compreender. Você sabe o que estamos fazendo aqui? Uma vez mais olharam as inocentes casas coloridas, onde homens e mulheres estavam oferecendo suas vidas à força que procurava penetrar na Terra. O sono do mundo mantinha a luz à distância. As forças das trevas seguravam as rédeas. Seu lugar era aqui em baixo, junto a essa guarda avançada do espírito. Seu corpo jazia envolto em sua mortalha, esperando. Mas precisava encontrar a Senhora. Seu desejo levou-o a uma catedral feita de anjos e de deuses semi-ocultos, cujas faces constituíam uma arquitetura viva. No topo de uma escadaria transparente estava sua liberdade: não podia hesitar. Trajada de verde-mar, semi-oculta em brumas, havia uma silhueta, seu rosto escondido pelo véu que impede nosso conhecimento. Porque o instrumento humano falhou, O Supremo frustrado dorme em sua semente. O que havia por trás do véu, tão diáfano e ainda assim oculto? Tentou penetrá-lo. Quando havia perdido toda esperança, um braço branco elevou-se. O véu desapareceu. Ele leu o segredo de Seus olhos,que penetrou seu sangue, transformando-o em mel, em ouro líquido, em vinho e fogo. Seu ser fundiu-se, tornou-se ilimitado. Ele era a Existência Única que governa os mares do Tempo. Era o Sorriso. Era o Uno. Ele caía extaticamente, sem direção, medo ou preocupação, aterrissando de forma perfeitamente controlada numa nuvem rosa e laranja, onde estava sentado... o Grande Senhor. Sobreveio uma memória acinzentada de algo grosseiro, pesado e ignorante que jazia lá em baixo. Algo que rastejava como um verme, ignorante do mundo de alegria e de luz. Nada no universo poderia obrigá-lo a voltar para aquele obscurantismo. Tinha a liberdade de ficar. Esperou, suspenso em anseio. A opção era-lhe oferecida com amor. Virou a cabeça, encontrou o olhar do Grande Senhor. Uma vez mais, a chama de amor varreu-o, tudo o que queria era servir seu Amigo. Com um lamento mudo de amor e de adeus, e uma prece de que lhe fosse permitido lembrar o que vivera, ele foi caindo, caindo, caindo e esquecendo. Benditos, benditos sejam, O magro, o alto e o baixo Vocês não vão ter promoção deste lado do oceano, Portanto, alegrem-se meus rapazes... Não morrera! Tivera um sonho curativo e acordara para um universo puro e imaculado. Esforçou-se para lembrar onde estivera, sabendo apenas que o Grande Senhor viera ao seu encontro, que estivera com sua Senhora e que ansiava por Sua presença novamente; mas havia algo para ser feito aqui em baixo por Eles. Estava vivo e bem. Despiu-se, e foi, nu, até a janela. Uma pessoa apareceu entre as árvores escuras, cambaleando em direção à calçada. Que obra de beleza é a figura humana, transbordante de graça. Cada movimento descuidado do braço, o mais bêbado apoio dos pés, era inspirado pelo Supremo e trilhava para a Divindade. Owens não sabia. "Benditos sejam". O coronel polonês. Havia agora tantas coisas para fazer, serena e calmamente. Encontraria o coronel e contaria o que acontecera, de como ele estava certo. Escreveria para Kathy. E iria para seu lar. Lar. Um pensamento surpreendeu-o: todos os lugares eram seu lar. As árvores elevavam-se ao redor da fonte de brilho prateado. O céu ainda estava cheio de estrelas. Nunca as tinha visto tão abundantes de vida ordenada. Viu sua própria mão apoiada no peitoril da janela, o branco contrastando com o preto do ferro batido das grades. Tudo era perfeito, o brilho suave, a silhueta escura das árvores, a luz do lago entre elas, o mistério da estátua feita pelo homem, um reflexo do Supremo. O soldado e sua voz distanciaram-se rua acima, semeando bênçãos. Quando o café estava borbulhando na cafeteira, o Grande Senhor chegou, através da parede, sentado numa grande poltrona verde. John fitou-o, enquanto sua mão direita desligava a máquina. Viu-se de joelhos, lágrimas correndo pelo rosto, o coração transbordando de amor, enviando palavras silenciosas. 'Meu Grande Senhor, mal compreendo Seu poder, Seu amor e Seu trabalho; mas qualquer que seja Sua missão, o que quer que Você queira, dedicarei minha vida a isso. Dedicarei minha vida a Você. Sou Seu por toda minha vida e depois. Não sei de que mundo Você vem, nem mesmo qual é Seu nome. Sou Seu servidor.' Olharam-se nos olhos. Algo começou a mover-se dentro do peito de John. A mão mais forte e gentil tocou seu coração, acariciando-o. Oro... Os lábios do Grande Senhor tinham dado forma a uma palavra. John inclinou-se à frente. Oro... Os lábios moviam-se em silêncio. 'Oro...?', perguntou John, ao que o Grande Senhor sorriu e assentiu. Seria uma palavra sagrada? Um abre-te sésamo? Os lábios fecharam-se, para pronunciar outra palavra. 'Bend?', perguntou John, aproximando-se ainda mais. 'Assim?', inclinou-se.� O Grande Senhor sorriu. Ondas de força emanavam da cadeira verde do Grande Senhor, atingindo-o de quando em quando, fazendo-o tremer e bater os dentes. Ele não era forte o suficiente. O tremor interior apossou-se de todos os seus membros. O rosto lindo e sério permanecia sereno. 'Grande Senhor, a noite passada você me mostrou o que devo fazer, mas não consigo me lembrar'. As palavras saíram num jorro, o tremor tornara-se tão violento que estava jogando até os pensamentos uns contra os outros. Ele ia precisar sair da sala. Ainda assim, não podia simplesmente sair correndo, nem se a força o despedaçasse. Você é um soldado, disse o Grande Senhor. Coloque-se em posição por um momento. John lutou para colocar-se em pé e endireitar-se, olhando para sua querida visão, com sua moldura de cabelos iluminados pela lua e a barba esvoaçante. Batendo os joelhos, os dentes, olhou para os olhos que repousavam na eternidade, o corpo resplandecente, gravou tudo em sua memória e cambaleou para fora. No corredor, seus joelhos ainda tremiam violentamente. Lágrimas de amor desceram por suas faces quando pegou o corrimão. Desceu as escadas, abriu a porta, percebeu que ainda estava de roupão de banho, fechou-a novamente. Começou a subir as escadas, seus joelhos perderam a firmeza novamente. Pendurou seu robe no cabide, tirou os cigarros, fósforos e lenço dos bolsos, secou o rosto e olhou para a rua. Um jovem capitão vinha da esquerda, uma mãe empurrando um carrinho de bebê da direita, um velho Peugeot preto fazia a curva ao redor do parque. Nuvens no céu azul eram gentilmente levadas pelo vento. O vento encontrou-o sob sua camisa leve, fazendo-o estremecer. Colocou um pé na rua, para atravessar em direção ao parque, e percebeu que estava usando um chinelo marrom peludo. O outro pé, que veio em seguida, usava um encerado sapato. Ele hesitou. Não, iria continuar e sentar-se no parque. Poderia mancar e fingir que tinha machucado um pé. Não importava. Nada disso importava. Onde deveria ir para encontrar respostas a suas perguntas, encontrar a explicação para aquilo tudo. Sabia que a resposta lhe seria dada antes que alcançasse o poste de luz. Índia. A resposta veio claramente, na voz do Grande Senhor. Houve um silêncio perplexo. Tinha querido morrer, ouvira o conselho do doutor. Teria oferecido sua vida ao Grande Senhor e à Senhora. Mas Índia! 'Índia?' Da última vez que lera o jornal, lá havia fome e levantes. Viu uma foto com pilhas de cadáveres esperando para serem cremados, fileiras e mais fileiras de esquálidos corpos escuros, braços e pernas rígidos, feridas abertas negras de moscas. ...Outro campo de concentração. Não, não poderia. Não poderia agüentar mais sofrimento, simplesmente não conseguiria. Quem poderia dar-lhe respostas na Índia? Sua mente passeou pelas pestilentas ruas coalhadas de cadáveres da Índia, tentando encontrar respostas. Numa caverna no Himalaia. Ouvira falar sobre buscadores que dedicavam toda sua vida à Verdade. Não fora talhado para isso. Teria sido melhor não saber. Seu coração ainda ardia de doce devoção pela Senhora e pelo Grande Senhor. Era triste e dolorido que não pudesse ser voluntário para ir à Índia. 'Perdoe-me, Grande Senhor'. Parou, pegou uma folha e continuou a andar. 'Uma vez que posso escolher... Realmente, não posso ir. Sinto muitíssimo'. Apoiou-se numa árvore. 'Não posso mais agüentar violência.' '... "Vamos meus amores, doçuras, vocês vão rolar pela Myrtle; a Myrtle precisa de um carro, ela quer dar uma volta; Myrtle é sua mamãe." John parou para olhar. Dikson olhou para cima, com um lento sorriso paternalista. "Oi, Dikson, tudo bem?" "Oi, sargento", respondeu. "Este seu homem não é mais voluntário para ir primeiro a nenhum lugar, exceto Manhattan Plaza. Dois mil dólares", Dikson sacudia carinhosamente os dados, passando- os de uma mão para outra. John assobiou. "Dá mesmo para comprar um carro para a Myrtle." "Vou comprar um Ca-dy-lac para ela. Tente a sorte, Kelly, você me quebrou um galho naquela casa de fazenda." Com descuidada magnificência, Dikson jogou-lhe duas notas de vinte dólares e, com o feliz sorriso carismático de um vencedor, assoprou entre as palmas das mãos. Ao redor dele, um pequeno grupo de homens observava cada um de seus movimentos. Dikson sacudiu os dados ao lado daorelha. Olhou para cima, ouvindo o som seco do marfim. "Vou apostar trinta." "'Pera aí, dez para mim", braços estendidos, dinheiro vibrando. "Vamos, dadinhos, rolem para o papai." Uma mão tomou as notas de John. Se ganhasse, compraria algo lindo para Kathy. Perdeu. Bem, a última coisa no mundo a que poderia se dar ao luxo seria ganhar uma bolada. Já estava confuso o suficiente. Restava tão pouco tempo para fazer a transição de volta a Kathy: cada balançar do navio aproximava-o do dia. Foi passeando pelos jogos de dados. Os perdedores desistiam, os ganhadores juntavam-se aos grandes ganhadores, os grupos iam se fundindo, as apostas subindo. Grandes vencedores, como Dikson, emanavam uma envolvente aura de glamour. Eram os generais, agora. Foi embora. Subitamente, uma voz irrompeu cantando: "Tem um médico morando na nossa cidade, um advogado e um cacique." Era o único disco que tinham a bordo. ... A angústia de John crescia à medida que os outros homens ficavam mais falantes. Era como se a vida estivesse baixando sobre eles e estaria lá, em toda sua glória, quando chegassem a Nova York. Alguns homens aproveitariam seus ganhos para se casarem, outros para abrir seu próprio negócio ou comprar as quotas de seus sócios. Cada um sabia que abriria uma oficina mecânica, uma lanchonete, trabalharia numa fazenda, iria à universidade ou ajudaria no negócio de seu pai, trabalharia num banco ou assaltaria um. Por que ele não sabia? O que faria ele? O que era ele? Era um servidor. ...' '... Era o mesmo restaurante italiano, com as mesmas toalhas de mesa, verdes e vermelhas, e velas em garrafas de Chianti. Apenas Mario, o bonito rapaz napolitano que tocava no bandolim suas músicas especiais, não estava lá. Morrera em ação. Um violinista velho e baixo inclinava-se sobre Kathy, tocando uma melodia nostálgica. A mão dela estava na de John. Ao término da melodia, o senhor inclinou-se para eles, sorrindo com olhos doces e satisfeitos. Aplaudiram entusiasticamente e ergueram-lhe as taças, antes de se voltarem um para ou outro. Seus olhares ficaram mais carinhosos.' "O que você descobriu na biblioteca hoje?" Ele abriu a boca. Estar com Kathy fizera-o divagar. "Kathy, esqueci. É tão maravilhoso estar com você que me esqueci de tudo. Depois de três semanas, acho que estou no caminho certo, Kathy. Encontrei algo." Colocou a taça na mesa tão bruscamente, que gotas de Chianti respingaram em seus dedos. Começou a tirar de seus bolsos pedaços de papel de todos os tamanhos. Pegou o maior e começou a ler: 'A primeira fórmula para a Sabedoria promete ser também a última, — Deus, Luz, Liberdade, Imortalidade.' Pausou para olhar para ela. Kathy, confusa, fitava-o. "Kathy, não consigo explicar. Isso me deu arrepios. Aconteceu novamente quando reli essas palavras. Até mesmo neste momento..." estendeu o braço, apresentando-lhe o papel. "Acontece o mesmo com você?" "É lindo, John, isso é tudo o que posso dizer, é lindo." Tirou do bolso mais papéis, bilhetes de ônibus, recibos e um cartão de biblioteca. Procurou entre eles agitadamente. 'Esses ideais persistentes da raça são, a um só tempo, uma contradição de sua experiência cotidiana e uma afirmação de experiências mais elevadas e profundas, que são anormais para a humanidade e somente passíveis de serem alcançadas, de forma organizada e integral, por um esforço individual revolucionário ou uma progressão evolutiva generalizada.' Olhou para ela ao terminar a sentença. Kathy estava ouvindo. 'Conhecer, possuir e ser a existência divina numa natureza animal e egoísta, converter nossa semi-iluminada ou obscura mentalidade física em plena iluminação supramental, construir a paz e uma beatitude auto-suficiente onde vê-se ênfase apenas em satisfação transitória, cercada pela dor física e pelo sofrimento emocional, estabelecer uma liberdade infinita num mundo que se apresenta como um conjunto de necessidades mecânicas, descobrir e realizar a vida imortal num corpo sujeito à morte e à mutação constante, — isso tudo nos é oferecido como a manifestação de Deus na Matéria, a meta da Natureza em sua evolução terrestre.' "Só um minuto, tem mais um pedaço de papel. Acho que escrevi atrás de um envelope." Folheou seus papéis. "Tudo bem, John, já entendi." Ela tomou um gole de vinho. "Não é a coisa mais linda que você já ouviu?" Um longo instante decorreu antes que ela dissesse, "É lindo, John. Não diria, 'a mais linda'. O que há de errado com o Sermão da Montanha? O que há de errado com o que dizem alguns dos místicos católicos?" "Nada de errado, você tem toda razão. Anotei algumas coisas deles também. Mas você não percebe, a diferença é que o Grande Senhor estava lá. Achei que eram palavras dele, mas a foto do escritor mostra um indiano de barba e olhos escuros e brilhantes. Suponho que o Grande Senhor estava apenas lendo as palavras para mim, para que eu soubesse que era o Seu tipo de coisa. Queria que eu soubesse." "...Você não percebe, Kathy, qual era a mensagem. Trata-se de experiências exaltadas. Ele diz que não são normais para a humanidade, mas não significa que eu não seja normal." Ela esquadrinhou o rosto dele. "Ao ler, agora há pouco, você mudou, sua voz mudou, seus olhos mudaram. Você ficou muito... lindo. Havia como que prata em sua voz, ela estava cheia de luz." Disse isso com dor. "Tenho medo, John. Eu sou a humanidade. Seu indiano moreno está certo, pode ser que o que esteja acontecendo com você seja muito grandioso para mim. Não sei se agüentaria se o Grande Senhor viesse. Isso de uma certa forma afastou-o de sua família. E se isso o fizesse se comportar da mesma maneira com nossos filhos. ..." Poderia haver coisas a que ele simplesmente não saberia como se opor, como às ondas de força que vieram do Grande Senhor depois do sonho curativo, ou como quando fora atirado contra a parede da trincheira pela Luz dos olhos do Grande Senhor. ... "Você recebeu todas aquelas instruções durante a guerra, e também depois. Foram Eles que lhe disseram para ler?" "Não, foi o coronel." "Eles não lhe deram nenhum tipo de orientação para o futuro?" "Nem sempre fiz o que me foi sugerido." Ela ponderou sobre isso, segurando a taça contra a luz da vela. A vela chorava pela garrafa de Chianti. "Quando você não o fez, quase se explodiu em pedacinhos. Bem, o que Eles disseram para você fazer?" "Disseram-me que fosse à Índia." "Índia?" Ela baixou o copo, e colocou as mãos na cabeça, "Você disse Índia?", deu uma risadinha. "Índia?". Ela saiu de atrás das mãos, voltando-as para pressionar as têmporas com os nós dos dedos. "Mas se Eles pedirem novamente e você disser não, você pode explodir. Talvez haja algumas coisas que alguns seres humanos tenham que fazer. Isso me assusta. O que você respondeu? Como pode ter certeza de que nunca irá?" "Kathy, na Índia há fome, levantes, milhares de pessoas morrem nas ruas. Acho que disse justamente isso, que já tivera minha quota disso tudo na guerra". No entanto, após um longo silêncio, ele se ouviu dizer, "Terei que ir um dia, Kathy. Você vem comigo?". Queria muito que ela o acompanhasse. "Poderíamos passar pela Alemanha e plantar a árvore juntos". Mostraria a colina a ela. Ela entendeu. Ele a olhou por um longo tempo, ela olhava sua taça. Balançou a cabeça. "Acho que tenho que plantar minha árvore aqui... no hospital." Sua clareza obscureceu a dor da recusa. Lágrimas brotaram de seus olhos, rolando pelas faces e todas as certezas dele foram por terra. "Ei, espere aí, Kathy", disse, inutilmente. Nada vinha à sua mente. Teria dito qualquer coisa para confortá-la. Lutava com sua língua, chocado com o que estava acontecendo. Olhou para ela, que estava mais pungente, mais linda do que nunca. A consciência de que não se sentaria ao seu lado, nem a veria, abriu uma ferida. Pediu por um sinal. Por um momento, tudo parou, suspenso num estado como que de sonho, esperando. Uma grossa gota de parafina rolou pela lateral da garrafa. O violino tocava uma canção hipnotizante,da-de-di-da-dididi-dididi, e, como uma resposta em eco... finicula. Três mesas adiante, um jovem casal de cabelo moreno cantava, olhando um nos olhos do outro. A canção percutia no sangue dele, irresistivelmente, levando-o a voltar-se para olhar o rosto do rapaz, feliz com a canção. Lembrou-se de Impi, Impi cantando animadamente Sheik of Araby, e dizendo, "Fui feito para amar, Kelly", bem, quem não foi? Quem não foi feito para ser assim, com canções brotando de um coração transbordante? Quem não gostaria de se sentar assim, olhando nos olhos apaixonados de sua garota? Kathy também os estava olhando. Seu olhar baixou para suas alianças de casamento. Aqueles dois círculos dourados era tudo o que conseguia ver através do tecido. Todos estavam olhando para o casal agora, sorrindo, assentindo, marcando o ritmo, o violinista aproximou-se deles. A vida foi feita para pessoas assim, para os que a celebram, e ela entregou-se a eles, derramando-se. A moça, que começara cantando timidamente, agora ganhara força do rapaz: Jamme jamme n'coppa jamme je Finiculi, finicula, Jamme n'coppa jamme Finiculi, Finicula... Ele não compreendia a letra da canção, mas ela teve o efeito de um encantamento, e a cena assumiu um significado. Era como um código estabelecido especificamente para que ele o decifrasse, e havia duas respostas possíveis. Precisava encontrá-la antes do final da música. Ou a vida tinha sido feita para ser vivida em alegria, derramando-se através de música e vinho e da luz nos olhos dos amantes, ou era algo totalmente diferente. Fizera malabarismos com sua mente por toda manhã. Agora pedia um sinal. A música ia acabar, o casal terminaria a refeição e talvez caminhasse pelo parque juntos. Ao passo que ele, possivelmente, iria fazer Kathy chorar mais um pouco antes do final da noite, por causa de... dois Seres que amava, mas que tinha visto apenas em visões, e de um novo mundo sobre o qual ouvira num campo de concentração. Nunca, nunca houvera opção. Essa tinha sido a maior ilusão de todas. Nada podia fazer por Kathy, exceto o que tinha que fazer. Era inútil tentar escapar do Grande Senhor, muito menos chamá-Lo, pois naquele mesmo momento a sala principiou a encher-se de Sua presença. O rapaz e a moça haviam parado de cantar e estavam brindando um ao outro com vinho, com os olhos, enquanto que, com um floreio final, o violinista jogou a cabeça triunfantemente. John tomou a mão de Kathy. "Está tudo bem?" Ela assentiu. "Você tem peito, Kennedy", disse, fazendo uma careta irônica, levantando as sobrancelhas, e apertando a mão dele. "E você estará bem, John. Você vai plantar sua árvore". Ele não pediria por mais sinais. Tivera tantos quanto um homem poderia querer em uma vida inteira, vários. Havia apenas uma coisa a ser feita, seguir a Senhora e o Grande Senhor. Ir aos picos nevados da Índia, ou caminhar entre os cadáveres por toda sua vida. Tinha que ir. Eles eram o sentido de sua vida, sem eles, era o abismo escuro. Agora era um voluntário. Aqui termina o livro, apesar de a história de John estar longe do fim. Mas, antes de continuar, gostaria de citar uma história da Primeira Guerra Mundial que é, em alguns aspectos, análoga à história de John. O escritor de histórias fantásticas galês Machen, que chegou a ter um certo sucesso, escreveu para o "The Evening News" um conto intitulado O Arqueiro�, publicado pelo jornal em 29 de setembro de 1914, o dia seguinte à retirada das tropas aliadas da frente de Mons. Nesse conto, o autor descreve São Jorge em brilhante armadura, seguido por seus anjos, disfarçados em arqueiros, na batalha de Angicourt. Tinham vindo salvar o exército inglês. Como conseqüência, o jornal recebeu centenas de cartas de soldados que haviam estado na batalha de Mons, dizendo que tinham realmente visto os anjos de São Jorge lutando a seu lado, muitos estavam dispostos a jurar essa verdade. Várias dessas cartas foram publicadas pelo "The Evening News". Após terminar de escrever este livro, li Markides, e em seu Margus de Strovolos, o primeiro livro da trilogia sobre Daskalos, o mundialmente famoso místico e curandeiro cipriota, conta-nos como seu mestre visitou os campos de batalha do Oriente Médio em seu corpo sutil. NOTA DA AUTORA John realmente foi, há vinte anos, à Índia. Quando John irrompeu em meu jardim certa manhã, após uma estada em Nainital (norte de Índia), e começou a contar sua história pela terceira vez, imaginei como poderia retornar à reclusão de meu quarto, sem ofendê-lo. Por muitos anos, de acordo com as instruções de meu Guru, reservei minhas manhãs para o silêncio e para escrever, mas John sempre contava suas histórias num fluxo ininterrupto, imitando as metralhadoras, uma pilha de nervos. Quanto mais eu tentava encontrar uma maneira de retirar-me gentilmente, mais incessantemente ele falava, e sem remorsos. Há apenas uma coisa a ser feita nessas situações: ficar sereno e perguntar-se porquê aquilo está acontecendo. A resposta veio, 'apenas ouça'. Quando John veio novamente, comecei a tomar notas. Começamos tudo novamente e descobri que tivera conhecimento de seus Pais Celestiais desde o começo de sua existência, antes mesmo de seus pais físicos. Trabalhamos todos os dias por vários meses e anos. Ele revivia sua história cada vez que a contava. Escrevi tudo até sua chegada ao Ashram, mas depois resolvi terminar o livro com sua decisão de vir à índia. Portanto, aqui tentarei explicar como John terminou por entrar em contato com sua Senhora Celestial em carne e osso. (o Grande Senhor já havia deixado seu corpo.) Mas primeiro, deixem-me contar a história do manuscrito que enviei para a Inglaterra, em 1970, aproximadamente, e que me foi enviado de volta, com o comentário do editor de que a história não poderia ser verdadeira e que, na melhor das hipóteses, era um relato da minha experiência trajada de história de guerra! O processo de enviar manuscritos a diferentes editores é desgastante e consome tempo. Além do mais, supus que receberia o mesmo veredicto da maioria dos editores. Amigos meus e de John queriam ler a história, e várias cópias datilografadas foram emprestadas e perdidas de vista. Há alguns anos, um amigo em Paris tirou uma fotocópia do último e sovado exemplar, mas quando decidi escrever um artigo sobre John para a revista italiana "Domani", ano passado, não consegui encontrar nenhuma cópia para referência e tive que trabalhar sem o livro. Parecia que o livro havia sido realmente perdido, estando destinado a nunca ser publicado. Estava eu feliz e ocupada a trabalhar no terceiro volume de minha versão do Mahabharata quando tive o seguinte sonho: Dirigia uma pequena motocicleta num campo aberto, que me lembrava Auroville, apesar de mais ondulado, quando a moto parou. Verifiquei o tanque de combustível: estava tão seco que não se via nem mesmo o brilho iridescente de uma última gota. Então, sem transição, vi-me com Sri Aurobindo, e entendi que minha tarefa era aquecer água para Ele. Quanto à primeira parte do sonho, no momento em que acordei, entendi que o fluxo contínuo e freqüentemente inspirado do escrever do O Grande Sacrifício Dourado do Mahabharata não estaria disponível, pelo menos temporariamente. Realmente, quando tentei escrever, vi-me tão seca como um tanque de combustível enferrujado. Disse então a Sri Aurobindo que estava preparada para fazer o que quer fosse necessário para aquecer a água da forma requerida, mas que, por favor, precisava de instruções específicas. Nenhuma apareceu. Nenhum escritor jamais acolhe um bloqueio com um tapete de boas-vindas, mas dessa vez realmente desfrutei de meu intervalo, apesar de nunca antes ter me deparado com uma parada tão abrupta. Nos dois ou três dias seguintes, escrevi cartas e cuidei de toda espécie de assuntos que estavam pendentes. Três ou quatro dias depois do sonho, alguém chamou um carpinteiro para pequenos reparos em minha porta. Quando o carpinteiro veio me dizer que o serviço estava pronto, ocorreu-me a idéia de pedir-lhe paraabrir uma gaveta que estivera emperrada por vários anos. Ele pediu-me que a esvaziasse. Assim que tirei uma cópia de O Grande Senhor eu sabia, e abracei-a. 'Obrigada, Grande Senhor'. Em vinte anos, alguma coisa eu aprendera sobre meu ofício desde que escrevera a história pela primeira vez. Como aquela velha cópia datilografada resistira ao teste do tempo? John não mais estava em seu corpo para responder a nenhuma pergunta nova. Reli o livro e comecei a gostar a partir do segundo capítulo. Assim, o primeiro foi descartado. Hospedei-me em um albergue por três dias para dar ao livro toda minha atenção. O combustível mostrou-se disponível uma vez mais. Fui para casa e comecei a trabalhar na revisão. Então Nancy apareceu e ofereceu-se para digitar a versão revisada no computador. Por ser americana, ela cuidou para que palavras e expressões britânicas fossem eliminadas. Tudo encaixava-se em seu lugar. Com tudo isso, nunca duvidei de que o livro fosse publicado. Além do mais, o que parecera fantástico e inverossímil nos anos 60 não mais o era. O conceito da evolução espiritual do homem já havia ingressado na consciência humana. Começa-se a entender agora que até mesmo as células têm uma consciência individual. Não sou normalmente recipiente de milagres, que não o milagre diário da vida; ainda assim, uma noite deixei o manuscrito de O Grande Senhor no jardim onde trabalho durante os meses de inverno. Caiu uma tempestade naquela noite de monções, e na manhã seguinte minha empregada veio correndo me contar que eu havia deixado meus papéis no jardim. Com um frio na barriga, lembrei-me ter sido chamada à frente da casa na noite anterior. Havia me esquecido de voltar e recolher meu trabalho! Imaginei o papel barato reduzido a uma polpa ilegível. 'Grande Senhor'. Minha empregada estava me dizendo algo animadamente em tamil. O que consegui entender foi que ela conseguira secá-lo e disse-lhe que não o tocasse. Saí e encontrei os papéis totalmente secos. Tinha recolhido, afinal de contas, o trabalho. Minha empregada insistiu: "Não, ele ficou aqui a noite inteira", e apontou para o pano encharcado sob o livro. Nitya Menon, que então trabalhava comigo, testemunhou todo o episódio. O papel simplesmente refutou a água. Comecei a perceber que me estava sendo mostrado ser importante terminar o livro. Somente ao escrever o apêndice percebi quão importante era. E agora deve ser explicado que John finalmente chegou a conhecer sua Senhora Celestial. O Grande Senhor e a Senhora Celestial, como escrevi, terminava com John procurando numa biblioteca e encontrando o livro Vida Divina de Sri Aurobindo. Apesar de não ter reconhecido o Grande Senhor no radiante jovem indiano de olhos brilhantes que aparecia no frontispício, a prosa iluminada do livro fê-lo ressoar com o Grande Senhor. A consagração das energias da vida prática de John era agora transferida para aquele Sri Aurobindo. Pode-se perguntar se John nunca suspeitou de que os dois eram um só ser, mas qualquer um que conheça a foto que Cartier-Bresson tirou de Sri Aurobindo, alguns meses antes deste deixar o corpo, entenderá. O rosto tornara-se mais redondo e não mais apresentava o olhar de profunda e absorta intensidade da foto do livro, mas de serenidade da eternidade, e a pele assumira um tom de dourado claro, a barba e o cabelo eram obviamente brancos. Era esse Sri Aurobindo, com a aparência que ele realmente tinha em Pondicherry durante a guerra, que John vira no campo de batalha, numa época em que tais fotos ainda não haviam sido feitas. Até 1950 (cinco anos depois da guerra), existiam apenas as fotos de Sri Aurobindo com cabelo preto. John encontrou o Centro de Sri Aurobindo na lista telefônica de Nova York e ofereceu seu serviço voluntário. O Centro funcionava mais como uma biblioteca para os livros de Sri Aurobindo. Um dia, John estava esperando a água ferver para um chá, depois de enviar pacotes de livros de Sri Aurobindo para todo o país pelo correio. Com seus pés apoiados na mesa, folheava uma das revistas do Centro, quando algo o apanhou de surpresa: o rosto da Senhora. Voltou as páginas. Era Ela, exatamente como a vira no campo de batalha. O conteúdo do sonho curativo, que havia sido quase que completamente obliterado assim que ele acordara, veio como uma avalanche e o jovem Sri Aurobindo fundiu-se com o Grande Senhor que, no dia posterior ao sonho, tentara dizer qual era Seu nome... Oro Bendo. Sri Aurobindo. Grande Senhor. Lágrimas começaram a inundar os olhos de John. Tudo isso aconteceu pelo menos dois anos depois que as primeiras fotos de Cartier-Bresson foram tiradas do Grande Senhor. Quando as fotos chegaram ao Centro, Sri Aurobindo já havia deixado o corpo. Muitos anos ainda se passaram até que John chegasse à índia, por muitas razões, algumas financeiras. Ele cuidou de sua mãe, que tinha câncer, até o momento de sua morte. Então tomou-se bombeiro. As visões não pararam e, assim que falou sobre elas, o psiquiatra do Corpo de Bombeiros recomendou que ele recebesse uma pensão e que se aposentasse antes dos quarenta anos. Ele encontrou A Mãe pela primeira vez no aniversário dele, pouco depois de sua chegada, em fevereiro de 1966. A Mãe aproximava-se dos noventa anos e John finalmente ajoelhava-se aos pés de sua Senhora Celestial. Ela fitou-o por um longo tempo, e então lentamente aquiesceu com a cabeça. Depois de alguns momentos, ele fez o mesmo. Palavra alguma foi pronunciada. Ela deu-lhe flores de aniversário; ele deixou hesitantemente a sala. Permaneci na sala com A Mãe, e foi nessa ocasião, depois que John partiu, que A Mãe me contou muitas coisas sobre o papel dela e de Sri Aurobindo na 2a Guerra Mundial. O leitor pode estar imaginando se outros seres com poderes ióguicos também não assumiram o mesmo papel, e similarmente ajudaram a derrotar as forças das trevas. Deve-se lembrar que, na maioria dos yogas, a primeira condição é conservar-se equânime, elevar-se acima do jogo das dualidades para permanecer completamente intocado pelo jogo dos opostos. Grandes yogis podem ter tido, durante a guerra, o potencial para lançar certo poder contra os nazistas, mas podem ter achado não ser correto ou necessário fazê-lo. (Apesar de Gandhi não ser um yogi, vimos qual foi seu posicionamento). Se a Terra tiver que ser destruída, isso deve ser aceito como a Vontade Divina, e essa aceitação é parte da entrega total à Vontade Suprema. A destruição pode ser considerada em alguns yogas como parte do Plano Divino. Shiva, o Destruidor, dançando no círculo de fogo cósmico. O Yoga de Sri Aurobindo é um yoga de evolução e transformação da Terra, e de levá-la ao descenso de uma força mais elevada para o próximo estágio da evolução humana, uma condição para a alegria e a harmonia. Na minha pesquisa para este livro, li sobre vários yogis com poderes bem documentados, mas em nenhum lugar está registrado que tenham utilizado seus poderes ocultos para influenciar um lado ou outro durante a guerra, apesar de que um deles mencionou que Hitler fora ajudado por forças demoníacas. Quando terminei a revisão do livro sobre John, comecei um apêndice que se tornou este livro, A Luz que Brilhou no Abismo Escuro. John deixou seu corpo na índia, em 1985. Sua Unidade do Exército e seu número no regimento eram: 70a Divisão de Infantaria, 276a Regimento de Infantaria, "Companhia Easy". � APÊNDICE Há poucas semanas, quando terminei, ou quando pensei ter terminado, de escrever o apêndice para o Grande Senhor, que acabou por se tomar, como disse, este pequeno livro, estava folheando a revista Mãe Índia, um dia, quando encontrei o seguinte relato de como A Mãe disse a Udar como pretendia provocar Hitler a atacar a Rússia, ANTES de ele realmente atacá-la. Udar foi levado a escrever o artigo pela morte de Pavita (Margaret Aldwinlke), a mesma que costumava ir à casa dele todas as noites para ouvir e anotar as notícias da guerra com Pavitra. Esse artigo é significativo, uma vez que Udar deve ser um dos poucos, além de Sri Aurobindo,a quem A Mãe falou sobre sua intenção de provocar Hitler a atacar a Rússia. Eis seu relato: "A Mãe disse-me que Hitler estava totalmente possuído pelo Asura que se autodenominava o Senhor das Nações. Não tínhamos transmissão radiofônica na índia, naquele tempo, e as únicas notícias que recebíamos eram as da BBC, que vinham às 21:30, toda noite. Na época, vivíamos num bangalô no final da Rue Dumas, e eu tinha que preparar um grande rádio de 9 válvulas, com uma antena alta, para receber as transmissões. Então, A Mãe acertou para que Pavitra e Pavita viessem a nossa casa. E uma boa caminhada do Ashram até nosso bangalô, e assim sugeri à Mãe que ficasse com nosso aparelho de rádio. Toda a agenda do Ashram foi ajustada aos horários da transmissão dos noticiários." "...Então começou a preparação para a grande invasão da Inglaterra, quando Hitler reuniu uma enorme força de invasão, que realmente teria sucedido, uma vez que a Inglaterra estava tão Mother India devastada pelos bombardeios alemães, que não tinha nada com que resistir, exceto por sua vontade.... Naquela época, uma manhã quando fui, como de costume, ter com A Mãe, ela me disse: 'Aquele sujeito (assim Ela chamava o Demônio") veio à noite passada vangloriar-se de como esmagaria a Inglaterra sob seus pés, e eu lhe disse que, 'Agora você vai ver, vou usar o mesmo truque que você usa contra nós; usarei seus próprios instrumentos para lutar uns contra os outros, e assim acabar com eles'. Então A Mãe explicou como assumira a forma e a voz do Senhor das Nações (o Demônio de Hitler), foi até Hitler e disse-lhe que a Rússia lhe representava grande perigo, que o apunhalaria pelas costas quando ele estivesse totalmente envolvido com a invasão da Inglaterra. Portanto, ele deveria dar conta da Rússia primeiro. A Inglaterra era fácil, foi-lhe dito, a Rússia é que era o grande perigo, então que esta deveria ser liquidada primeiro. Assim, Hitler desviou-se de sua tentativa de invasão para atacar a Rússia, e isso acabou com ele. Esse é um fato conhecido, mas conto-o aqui para enfatizar que A Mãe disse-me tudo isso ANTES de acontecer." Como Churchill destacou em seu pronunciamento no Usher Hall, Edimburgo, em 12 de outubro de 1942, a decisão de invadir a Rússia foi tomada por Hitler sozinho: "...O Marechal de Campo Goering já apressou-se em indicar que a decisão foi de Hitler apenas. Que Hitler conduz a guerra sozinho e que os generais do exército alemão são apenas assistentes que executam suas ordens...." A implicação é muito clara. Mesmo aqueles que haviam seguido Hitler cegamente até aquele ponto, não podiam fazer nada quanto à sua decisão. Quando A Mãe encontrou o Asura, este disse: "Eu SEI, sei que você vai me destruir, mas antes de ser destruído, vou causar toda devastação possível". Churchill disse sobre a invasão alemã da Rússia, em seu discurso pelo rádio, de 22 de junho de 1941,"A Quarta Fase": "... de repente, sem declaração de guerra, sem nem mesmo um ultimato, as bombas alemãs começaram a chover sobre as cidades russas, as tropas alemãs violaram as fronteiras; uma hora mais tarde o embaixador alemão, que até a noite anterior declamava suas juras de amizade, quase de aliança, aos russos, chamou o Ministro do Exterior da Rússia para comunicar-lhe a existência de um estado de guerra entre a Alemanha e a Rússia. ..." A Operação Barbarossa começou num domingo, 22 de junho de 1941, com Hitler invadindo a Rússia ao longo de um frente de batalha de dois mil e trezentos quilômetros. Em 28 de fevereiro de 1942, as perdas sofridas pelo exército alemão chegavam a um milhão, quinhentos mil, seiscentos e trinta e seis homens, ou 31% de suas forças, para não falar das graves perdas sofridas pelas forças italianas. Na véspera da Barbarossa, Hitler ditou uma longa carta para Mussolini, que encerrava com o seguinte parágrafo: "... Quero dizer ainda uma coisa, Duce. Desde que, depois de muitos conflitos, cheguei a essa decisão, sinto-me novamente livre espiritualmente..." Caso se pense que Udar fosse apenas mais um yogi avoado, relacionamos aqui alguns relevantes dados biográficos. Laurence M. Pinto, a quem Sri Aurobindo deu o nome de Udar, nasceu em Goa e estudou engenharia aeronáutica na Inglaterra. Ele planejava aeronaves e trabalhou numa oficina em Somerset. Ele era o homem mais qualificado na índia, na época em que foram montados centros de treinamento para mecânicos, soldadores, eletricistas, carpinteiros e torneiros mecânicos, necessários para a manutenção de aviões. Sri Aurobindo instrui-o a aceitar o cargo, quando foi chamado pelo Departamento de Aviação Civil, em Delhi. Aquilo significava trabalho. Dezenas de milhares de pessoas inscreveram-se para os treinamentos. Depois de um ano, quando o departamento já estava azeitado, Sri Aurobindo permitiu que Udar retornasse ao Ashram. Talvez seja difícil para o leitor acreditar que Hitler, que dominara a Europa em poucos meses, considerado por seus próprios generais como o estrategista supremo, fosse enganado pelos poderes ocultos da Mãe e levado a cometer tão grotesco erro, que nem um cadete novato cometeria. O general Walter Dornberger, responsável pelos testes dos mísseis V.2, aqueles mortais projéteis teleguiados, tão temidos pelos ingleses, e com os quais Hitler pretendia destruí-los, ao final de seu Memórias , reconta como recebeu ordens de que fosse interrompido todo o trabalho no vital projeto do V.2. Durante um de seus transes, Hitler vira que o V.2 não funcionaria, ou que, se funcionasse, atrairia a vingança dos céus. Os mísseis V. 1 tinham deixado a Inglaterra em nada menos que pedaços, o V.2 era ainda muito mais mortal, a arma secreta e decisiva de Hitler. Não sabemos quem enviou a ele o feliz sonho, e provavelmente nunca saberemos. Perguntei a várias pessoa próximas de Sri Aurobindo e de A Mãe, mas alguns milagres permanecem como mistérios. A intervenção da Mãe na decisão de Hitler de atacar a Rússia pode levantar muitas perguntas. Será que as Forças da Luz interferem de forma positiva da mesma forma que as das Trevas criam destruição e caos? A resposta é não, definitivamente, não. Está registrado que tanto Sri Aurobindo como A Mãe disseram que a Força Divina não se utiliza de compulsão nos assuntos humanos. A exceção pode ter ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando a evolução humana como um todo estava ameaçada. Numa carta enviada a Brennan, um "experiente ocultista inglês", que ele não identifica, escreve o seguinte sobre Hitler e os Senhores da Luz: "Hitler estava indefeso nas mãos daqueles que o estavam usando. Eles, através da manipulação das grandes correntes etéricas das terras alemãs, causaram reações reflexas nas mentes e nas emoções dos povos germânicos. Foi um hipnotismo de escala gigantesca - e o mesmo ainda acontece hoje em alguns países do mundo. Da mesma forma, essas mesmas correntes nacionais são manipuladas pelos Senhores da Luz. A diferença está na intenção e na forma como as forças afetam a quem a elas está sujeito. Portanto, os Mestres da Mão-Direita nunca dominam ou forçam. As correntes de energia à sua disposição agem como forças incubadoras que capacitam aqueles a elas expostos a naturalmente evoluir a novos níveis de consciência. Não há coação". De fato, o leitor pode relembrar que, na história de John, ele teve a opção de não mais voltar a seu corpo, ou voltar para terminar seu trabalho naquele mesmo corpo. Assim, com este breve apêndice, nosso livro de apêndices chega ao fim. Termina com o apelo de que histórias comecem a ser escritas trazendo uma compreensão de outras dimensões. Livros de história poderão então deixar de ser quase que exclusivamente sagas de guerra e derramamento de sangue, e começar a contar a muito mais interessante fábula da ascensão do homem pela escada da evolução, e o correspondente descenso da força que vem para encontrá-lo e transformá-lo. Para isso, deve haver um entendimento de que o mundo da matéria, onde estamos situados por causa das limitações de nossa consciência, é a esfera onde não temoscondições de perceber o que nos conecta com o que é subliminar ao nosso mundo, acima e abaixo, além e dentro.... Aquilo a que Churchill se refere quando diz, "acima e além do espaço". Não existem palavras adequadas para retratar outras dimensões. Para englobar ou começar a compreender outros mundos é necessário que entremos neles. Palavras não adiantam. O próximo ciclo da evolução nunca se distancia deste mundo material, que é o ponto focal de todos os universos. É por isso que o desrespeito de Hitler para com sua santidade evocou reverberações, naquele momento em que, como diz A Mãe, acontecia um descenso em massa da Luz. Mas por outro lado, as trevas ameaçadas e ameaçadoras trouxeram ainda mais Luz. Luz contra Trevas, Trevas contra Luz, em todos os disfarces e manifestações. ...Será sempre a mesma história, até que as Trevas deponham suas armas, removam suas máscaras para revelarem-se instrumento do Criador, para levar-nos à meta para a qual fomos feitos. Então não mais precisaremos de nenhum tipo de livro de história. As páginas poderão todas derreterem-se nas estantes ou, envergonhadas, dobrarem-se sozinhas, formando origamis de auspiciosas garças, que voarão levando as boas novas às esferas. "Ó Mundo-Sol, elevarás a alma-Terra à Luz E trarás Deus à vida dos homens; A Terra será minha oficina e meu lar, Meu jardim de luz onde plantarei divina semente. Quando todo teu trabalho no tempo humano houver terminado, A mente da Terra será uma morada da Luz, A vida da Terra uma árvore crescendo para o Paraíso, O corpo da Terra um tabernáculo de Deus". Sri Aurobindo SAVITRI, Livro XI, Canto I GLOSSÁRIO Ahimsa - não-violência, não ferir e não matar. Asura - ser hostil do vital mentalizado; o forte, o poderoso, Titã. Dharma - literalmente aquilo que segura e que mantém as coisas unidas, a lei, a norma, a regra da natureza, ação e vida. Dharma é a concepção indiana do conjunto das regras de conduta religiosas, sociais e morais. Niskama karma - obras feitas sem interesse pessoal nos resultados. Rudra - feroz, violento. Sadhana - a prática do yoga. Tapasya - concentração da vontade para conseguir os resultados da sadhana e conquistar a natureza inferior. Vishnu - a divindade onipresente. Extraído do Glossary of Sanskrit and Other Indian Terms Used in Sri Aurobindo's Writings. � The Rise and Fall of the Third Reich 2 Uma dose muito forte de força evolucionária em ação agora para tornar o mundo mais consciente claramente despedaçaria os organismos resistentes. � A medicina homeopática entende a doença como uma tentativa da inteligência celular de restabelecer o equilíbrio do organismo que foi perturbado no nível sutil. Ela incentiva o processo de cura com substâncias sutis. Este respeito pela inteligência das células do corpo só será compreendido quando a consciência das células o for. Apesar de explicado em grande detalhe pela Mãe, a aceitação desse conhecimento deve esperar pelo momento correto, apesar de que a consciência no interior das células já está em ação. � The Morning of the Magicians. � Pauwels e Bergier pesquisaram cinco mil documentos em um período de cinco anos, num escritório que eles alugaram em Paris, na rue du Berri, para o projeto de seu livro. 6 The Ominous Parallels. � Hannah Arendt: autora de A Condição Humana (The Human Condition). � Occult Reich. � Berlin Diary. �Apenas o médico finlandês era capaz de aliviar Himmler de suas excruciantes dores. O que quer que o Dr. Kersten nos conte é provavelmente inteiramente confiável. Após a Guerra, o governo holandês instituiu um corpo de inquérito para examinar as ações e negociações do Dr. Kersten na Alemanha nazista, e validou todas as suas apelações. � Demônio. � Um símbolo oculto sagrado, mas usado de maneira pervertida pela Alemanha. Veja o capítulo IV. � The Coming Race. � Rudolf Hess voou sozinho para a Inglaterra numa tentativa não oficial de negociar a paz com os ingleses. Hitler afirmou não saber nada sobre o assunto e que Hess estava louco. Hess afirmou ter sido "guiado" em seu empreendimento. � O serviço secreto russo também confirmou a conexão da sociedade secreta japonesa com o grupo ocultista de Hitler. � Prabhat Poddar: A Misteriosa Energia à Nossa Volta (The Mysterious Energy That Surrounds Us), Heritage Magazine. � Speer, o arquiteto de Hitler, que era próximo dele, escrevendo sua memórias na prisão, após a guerra, confirma a idéia da mediocridade de Hitler: os jantares que ele oferecia, que era obrigatório comparecer quando convidado, eram mortalmente chatos, a comida ruim e a conversa pior. O jantar era seguido por filmes caseiros banais. O marechal de campo Göring, o oficial do alto comando menos arregimentado e que sofreu menos lavagem cerebral, parece ter sido o que mais sofreu. � Churchill era às vezes muito provocante no (e fora do) Parlamento, e era uma das maiores perspicácias da tradição parlamentar inglesa. Uma vez, uma exasperada senhora, membro do Parlamento, disse a ele, "Se você fosse meu marido, eu envenenaria seu café." Churchill respondeu, "Se você fosse minha esposa eu o beberia." � Peltophorum pterocarpum � Tivesse Sri Aurobindo sido ouvido, a separação da Índia teria quase certamente sido desnecessária, pois a proposta de Cripps assegurava garantias absolutas aos grupos raciais e religiosos. � The War Behind the War. � The Lost Footsteps. � "We Will Not Fail Mankind." � Ideal of Human Unity. � Goebbels em seu último escrito na casamata, antes de matar sua esposa, filhos e a si mesmo, declarou que a tragédia alemã estava sendo encenada num plano cósmico: "nosso fim será o fim do universo." � N da T: jogo de palavras com o verbo inglês bend, inclinar-se, curvar-se. � The Bowman.