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31Secretaria de Vigilância em Saúde / MS MALÁRIA CID 10: B50 a B54 Características gerais Descrição Doença infecciosa febril aguda, cujos agentes etiológicos são protozoários transmitidos por vetores. Reveste-se de importância epidemiológica, atualmente, pela sua elevada incidência na re- gião amazônica e potencial gravidade clínica. Causa consideráveis perdas sociais e econômicas na população sob risco, principalmente aquela que vive em condições precárias de habitação e saneamento. Agente etiológico Protozoários do gênero Plasmodium. No Brasil, três espécies estão associadas à malária em seres humanos: P. vivax, P. falciparum e P. malariae. Em relação ao P. ovale, nunca foi registrada transmissão autóctone no Brasil estando restrita a determinadas regiões do continente africano e a casos importados de malária no Brasil. Reservatório O homem é o único reservatório com importância epidemiológica para a malária humana. Vetor Os mosquitos vetores da malária pertencem à ordem Diptera, infraordem Culicomorpha, família Culicidae, gênero Anopheles Meigen, 1818. Este gênero compreende aproximadamente 400 espécies, das quais cerca de 60 ocorrem no Brasil. No país, as principais transmissoras da malária são: Anopheles (N.) darlingi Root, 1926; Anopheles (N.) aquasalis Curry, 1932; Anopheles (Nys- sorhynchus) albitarsis s. l. Lynch-Arribálzaga, 1878. Tais mosquitos são popularmente conhecidos por “carapanã”, “muriçoca”, “sovela”, “mosquito-prego” e “bicuda”. O principal vetor de malária no Brasil é o An. darlingi, cujo comportamento é extremamente antropofílico e, dentre as espécies brasileiras, é a mais encontrada picando no interior e nas proxi- midades das residências. Esta espécie cria-se, normalmente, em águas de baixo fluxo, profundas, límpidas, sombreadas e com pouco aporte de matéria orgânica e sais. Entretanto, em situações de alta densidade, o An. darlingi acaba ocupando vários outros tipos de criadouro, incluindo peque- nas coleções hídricas e criadouros temporários. Esta espécie distribui-se por todo o Brasil, exceto em regiões de altitude elevada (mais de 1.000 metros), no sertão nordestino e no estado do Rio Grande do Sul. Além disso, esta espécie consegue manter altos níveis de transmissão mesmo com densidades muito reduzidas. An. albitarsis s. l. é um complexo de cerca de seis espécies crípticas, das quais apenas An. deaneorum Rosa-Freitas, 1989; An. marajoara Galvão e Damasceno, 1942 e An. albitarsis espécie “E” já foram formalmente incriminadas como vetoras de Plasmodium. As formas imaturas deste complexo de espécies são encontradas tanto em criadouros temporários quanto permanentes. An. aquasalis, por se criar em água salobra, tem distribuição praticamente restrita à faixa litorânea. A espécie é encontrada em boa parte da costa Atlântica sul-americana, sendo seu limite sul o Estado de São Paulo. A importância desta espécie como vetora é, aparentemente, relacionada a situações de alta densidade. Vale ressaltar que, em regiões de Mata Atlântica e, portanto, não endêmicas de malária, Ano- pheles (Kerteszia) cruzii Dyar & Knab, 1908; Anopheles (K.) bellator Dyar & Knab, 1906 e Anopheles Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 32 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS (K.) homunculus Komp, 1937 podem ser responsáveis por surtos de malária. As formas imaturas destas espécies são encontradas em fitotelmata - plantas com depósito de água - como, por exem- plo, as bromélias. Modo de transmissão Através da picada da fêmea do mosquito Anopheles, infectada por Plasmodium. Os vetores são mais abundantes nos horários crepusculares, ao entardecer e ao amanhecer. Todavia, são encontrados picando durante todo o período noturno, porém em menor quantidade em algumas horas da noite. Não há transmissão direta da doença de pessoa a pessoa. Raramente pode ocorrer a transmis- são por meio de transfusão de sangue contaminado ou do uso compartilhado de seringas contami- nadas. Mais rara ainda é a transmissão congênita. Período de incubação O período de incubação da malária varia de acordo com a espécie de plasmódio. Para P. falci- parum, de 8 a 12 dias; P. vivax, 13 a 17; e P. malariae, 18 a 30 dias. Período de transmissibilidade O mosquito é infectado ao sugar o sangue de uma pessoa com gametócitos circulantes. Os gametócitos surgem na corrente sangüínea, em período que varia de poucas horas para o P. vivax e de 7 a 12 dias para o P. falciparum. Para malária por P. falciparum, o indivíduo pode ser fonte de infecção por até 1 ano; P. vivax, até 3 anos; e P. malariae, por mais de 3 anos, desde que não seja adequadamente tratado. Suscetibilidade e imunidade Em geral, toda pessoa é suscetível à infecção por malária. Indivíduos que tiveram vários epi- sódios de malária podem atingir um estado de imunidade parcial, apresentando quadro oligossin- tomático, subclínico ou assintomático. Em regiões não endêmicas, as áreas de risco são determinadas pelo potencial malarígeno, re- lacionado com a receptividade e vulnerabilidade da área. A receptividade é mantida pela presença, densidade e longevidade do mosquito Anopheles. A vulnerabilidade está relacionada à chegada de portadores de malária, oriundos da região amazônica e de outros países endêmicos. Com exceção do Rio Grande do Sul, todos os estados são ainda total ou parcialmente receptivos para a malária. Aspectos clínicos e laboratoriais Manifestações clínicas O quadro clínico típico é caracterizado por febre alta, acompanhada de calafrios, sudorese profusa e cefaléia, que ocorrem em padrões cíclicos, dependendo da espécie de plasmódio infec- tante. Em alguns pacientes, aparecem sintomas prodrômicos, vários dias antes dos paroxismos da doença, a exemplo de náuseas, vômitos, astenia, fadiga, anorexia. Período de infecção – a fase sintomática inicial caracteriza-se por mal-estar, cansaço e mial- gia. O ataque paroxístico inicia-se com calafrio, acompanhado de tremor generalizado, com du- ração de 15 minutos a 1 hora. Na fase febril, a temperatura pode atingir 41°C. Esta fase pode ser acompanhada de cefaleia, náuseas e vômitos. É seguida de sudorese intensa. Remissão – caracteriza-se pelo declínio da temperatura (fase de apirexia). A diminuição dos sintomas causa sensação de melhora no paciente. Contudo, novos episódios de febre podem 33Secretaria de Vigilância em Saúde / MS acontecer em um mesmo dia ou com intervalos variáveis, caracterizando um estado de febre intermitente. Período toxêmico – se o paciente não recebe terapêutica específica, adequada e oportuna, os sinais e sintomas podem evoluir para formas graves e complicadas, dependendo da resposta imunológica do organismo, aumento da parasitemia e espécie de plasmódio. São sinais de malária grave e complicada: hiperpirexia (temperatura >41°C), convulsão, hi- perparasitemia (>200.000/mm3), vômitos repetidos, oligúria, dispnéia, anemia intensa, icterícia, hemorragias e hipotensão arterial. As formas graves podem cursar com alteração de consciência, delírio e coma, estão relacionadas à parasitemia elevada, acima de 2% das hemácias parasitadas, podendo atingir até 30% dos eritrócitos. Diagnóstico diferencial O diagnóstico diferencial da malária é feito com a febre tifoide, febre amarela, leptospirose, hepatite infecciosa, calazar, doença de Chagas aguda e outros processos febris. Na fase inicial, prin- cipalmente na criança, a malária confunde-se com outras doenças infecciosas dos tratos respirató- rio, urinário e digestivo, quer de etiologia viral ou bacteriana. No período de febre intermitente, as principais doenças que se confundem com a malária são as infecções urinárias, tuberculose miliar, salmoneloses septicêmicas, calazar, endocardite bacteriana e as leucoses. Todas apresentam febre e, em geral, esplenomegalia. Algumas delas apresentam anemia ehepatomegalia. Diagnóstico laboratorial O diagnóstico de certeza da infecção malárica só é possível pela demonstração do parasito, ou de antígenos relacionados, no sangue periférico do paciente, pelos métodos diagnósticos espe- cificados a seguir. Gota espessa – é o método oficialmente adotado no Brasil para o diagnóstico da malária. Mesmo após o avanço de técnicas diagnósticas, este exame continua sendo um método simples, eficaz, de baixo custo e fácil realização; quando adequadamente realizada é considerada como padrão-ouro pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Sua técnica baseia-se na visualização do parasito através de microscopia óptica, após coloração com corante vital (azul de metileno e Giem- sa), permitindo a diferenciação específica dos parasitos, a partir da análise da sua morfologia, e dos seus estágios de desenvolvimento encontrados no sangue periférico. A determinação da densidade parasitária, útil para a avaliação prognóstica, deve ser realizada em todo paciente com malária, especialmente nos portadores de P. falciparum. Esfregaço delgado – possui baixa sensibilidade (estima-se que a gota espessa é cerca de 30 vezes mais eficaz na detecção da infecção malárica). Porém, este método permite, com mais facili- dade, a diferenciação específica dos parasitos a partir da análise de sua morfologia e das alterações provocadas no eritrócito infectado. Testes rápidos para a detecção de componentes antigênicos de plasmódio – testes imu- nocromatográficos representam novos métodos de diagnóstico rápido de malária. Realizados em fitas de nitrocelulose contendo anticorpo monoclonal contra antígenos específicos do parasito, apresentam sensibilidade superior a 95% quando comparados à gota espessa, com parasitemia superior a 100 parasitos/μL. Entretanto, os testes hoje disponíveis discriminam especificamente o P. falciparum e as demais espécies simultaneamente, não sendo capazes de diagnosticar a malá- ria mista. Por sua praticidade e facilidade de realização, são úteis para a triagem e mesmo para a confirmação diagnóstica, principalmente em situações onde o processamento do exame da gota Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 34 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS espessa é complicado, como áreas longínquas e de difícil acesso aos serviços de saúde e áreas de baixa incidência da doença. Tratamento O Ministério da Saúde, por meio de uma política nacional de tratamento da malária, orienta a terapêutica e disponibiliza gratuitamente os medicamentos antimaláricos utilizados em todo o território nacional, em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS). Para o cumprimento dessa política, o Programa Nacional de Controle de Malária (PNCM) preocupa-se, constantemente, em revisar o conhecimento vigente sobre o arsenal terapêutico da malária e sua aplicabilidade para o tratamento dos indivíduos que dela padecem em nosso país. Pesquisadores, professores e profis- sionais de saúde de renomadas instituições brasileiras de ensino, pesquisa e assistência compõem uma Câmara Técnica de Terapêutica da Malária, oficialmente nomeada pelo Ministério da Saúde, com o objetivo de assessorar o PNCM na determinação da política nacional de tratamento da doença no Brasil. Objetivos do tratamento – o tratamento da malária visa a atingir o parasito em pontos-chave de seu ciclo evolutivo, os quais podem ser didaticamente resumidos em: • interrupção da esquizogonia sangüínea, responsável pela patogenia e manifestações clínicas da infecção; • destruição de formas latentes do parasito no ciclo tecidual (hipnozoítos) das espécies P. vivax e P. ovale, evitando assim as recaídas tardias; • interrupção da transmissão do parasito, pelo uso de drogas que impedem o desenvolvimen- to de formas sexuadas dos parasitos (gametócitos). Para atingir esses objetivos, diversas drogas são utilizadas, cada uma delas agindo de forma específica, tentando impedir o desenvolvimento do parasito no hospedeiro. Decisão sobre o tratamento – a decisão de como tratar o paciente com malária deve ser pre- cedida de informações sobre os seguintes aspectos: • espécie de plasmódio infectante, pela especificidade dos esquemas terapêuticos a serem utilizados; • idade do paciente, pela maior toxicidade para crianças e idosos; • história de exposição anterior à infecção uma vez que indivíduos primoinfectados tendem a apresentar formas mais graves da doença; • condições associadas, tais como gravidez e outros problemas de saúde; • gravidade da doença, pela necessidade de hospitalização e de tratamento com esquemas especiais de antimaláricos. Condições que indicam gravidade da doença e necessidade de hospitalização do paciente com malária • Crianças menores de 5 anos; • idosos com mais de 60 anos; • todas as gestantes; • pacientes imunodeprimidos; • pacientes com qualquer um dos sinais de perigo para malária grave, citados anteriormente (ver Manifestações clínicas). 35Secretaria de Vigilância em Saúde / MS A prescrição e a dispensação dos antimaláricos É da maior importância que todos os profissionais de saúde envolvidos no tratamento da malária, desde o auxiliar de saúde da comunidade até o médico, orientem adequadamente, com uma linguagem compreensível, os pacientes quanto: ao tipo de medicamento que está sendo oferecido; e a forma de ingeri-lo e os respectivos horários. Muitas vezes, os pacientes são pessoas humildes que não dispõem nem mesmo de relógio para verificar as horas. O uso de expressões locais para a indicação do momento da ingestão do remédio é recomendável. A expressão de 8 em 8 horas ou de 12 em 12 horas, muitas vezes não ajuda os pacientes a saber quando devem ingerir os medicamentos. Por outro lado, sempre que possível deve-se orientar os acompanhantes ou responsáveis, além dos próprios pacientes, pois geralmente estes, além de humildes, encontram-se desatentos, como consequência da febre, da dor e do mal-estar causados pela doença. Em vários lugares, as pessoas que distribuem os remédios e orientam o seu uso utilizam envelopes de cores diferentes para cada medicamento. O importante é que se evite ingestão incorreta dos remédios, pois as consequências podem ser graves. Portanto, uma prescrição legível, clara e compreensível deve ser feita, para que a adesão do paciente ao tratamento seja garantida. Esquemas de tratamento para a malária recomendados pelo Ministério da Saúde Para facilitar o trabalho dos profissionais de saúde das áreas endêmicas e garantir a padro- nização dos procedimentos necessários para o tratamento da malária, é apresentado, nas tabelas e quadros a seguir, todas as orientações relevantes sobre a indicação e uso dos antimaláricos pre- conizados no Brasil, de acordo com o grupo etário dos pacientes. Embora as dosagens constantes nas tabelas levem em consideração o grupo etário do paciente, é recomendável que, sempre que possível e para garantir boa eficácia e baixa toxicidade no tratamento da malária, as doses dos medicamentos sejam fundamentalmente ajustadas ao peso do paciente. Quando uma balança para verificação do peso não estiver disponível, recomenda-se a utilização da relação peso/idade apre- sentada nas tabelas. Chama-se a atenção para a necessidade de, sempre que surgirem dúvidas, recorrer-se ao texto do “Manual de Terapêutica da Malária” do Ministério da Saúde e “Tratamento da Malária Grave e Complicada-Guia de Condutas Práticas” da OMS para melhor esclarecimento. Esquemas recomendados para a malária não complicada Tabela 1. Tratamento das infecções pelo P. vivax ou P. ovale com cloroquina em 3 dias e primaquina em 7 dias (esquema curto) Idade/peso Número de comprimidos de medicamento por dia 1o dia 2o dia 3° dia 4o ao 7o dias Cloroquina Primaquinainfantil Cloroquina Primaquina infantil Cloroquina Primaquina infantil Primaquina infantil 6-11 meses (5-9kg) 1/2 11/4 1 1/4 1 1/2 1-3 anos (10-14kg) 1 2 1/2 1 1/2 1 1 4-8 anos (15-24kg) 1 2 1 2 1 2 2 Idade/peso Cloroquina Primaquinaadulto Cloroquina Primaquina adulto Cloroquina Primaquina adulto Primaquina adulto 9-11 anos (25-34kg) 2 1 2 1 2 1 1 12-14 anos (35-49kg) 3 2 2 2 2 2 1 ≥15 anos (≥50kg) 4 2 3 2 3 2 2 - Cloroquina: comprimidos de 150mg, Primaquina infantil: comprimidos de 5mg e Primaquina adulto: comprimidos de 15mg. - Sempre dar preferência ao peso para a escolha da dose. - Todos os medicamentos devem ser administrados em dose única diária. - Administrar os medicamentos preferencialmente às refeições. - Não administrar primaquina para gestantes ou crianças menores de 6 meses (nesses casos, usar a Tabela 4). - Se surgir icterícia, suspender a primaquina. - Se o paciente tiver mais de 70kg, ajustar a dose de primaquina (Tabela 3). Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 36 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS Nota importante: Como hipnozoiticida do P. vivax e do P. ovale, a primaquina é eficaz na dose total de 3,0 a 3,5mg/kg de peso, que deve ser atingida em período longo de tempo (geralmente superior a uma semana). Para tanto, calcula-se uma dose diária de 0,25mg de base/kg de peso, dia- riamente por 14 dias (esquema longo, Tabela 2) ou, alternativamente, a dose de 0,50mg de base/kg de peso durante 7 dias (Tabela 1). O esquema curto, em 7 dias com a dose dobrada, foi proposto para minimizar a baixa adesão ao tratamento, geralmente ocorrendo com o tempo mais prolongado de uso da droga. Em caso de pacientes com mais de 70kg de peso, a dose de primaquina pode ser ajustada, calculando-se a dose total de 3,2mg/kg de peso, que pode ser atingida num período maior de dias (Tabela 3). Em caso de segunda recaída, usar o esquema profilático com cloroquina semanal (Tabela 5), tendo-se o cuidado de certificar se houve adesão correta do paciente ao tratamento con- vencional com cloroquina + primaquina (Tabela 1 ou 2). Gestantes e crianças com menos de 6 meses não podem usar primaquina. Nesses casos, tratar de acordo com a Tabela 4. Tabela 2. Tratamento das infecções pelo P. vivax, ou P. ovale com cloroquina em 3 dias e primaquina em 14 dias (esquema longo) Idade/peso Número de comprimidos de medicamento por dia 1°o dia 2°o dia 3° dia 4°o ao 14°o dias Cloroquina Primaquinainfantil Cloroquina Primaquina infantil Cloroquina Primaquina infantil Primaquina infantil 6-11 meses (5-9kg) 1/2 1/2 1/4 1/2 1/4 1/2 1/4 1-3 anos (10-14kg) 1 1 1/2 1/2 1/2 1/2 1/2 4-8 anos (15-24kg) 1 1 1 1 1 1 1 Idade/peso Cloroquina Primaquinaadulto Cloroquina Primaquina adulto Cloroquina Primaquina adulto Primaquina adulto 9-11 anos (25-34kg) 2 1/2 2 1/2 2 1/2 1/2 12-14 anos (35-49kg) 3 1 2 1 2 1 1/2 ≥15 anos (≥50kg) 4 1 3 1 3 1 1 - Cloroquina: comprimidos de 150mg, Primaquina infantil: comprimidos de 5mg e Primaquina adulto: comprimidos de 15mg. - Sempre dar preferência ao peso para a escolha da dose. - Todos os medicamentos devem ser administrados em dose única diária. - Administrar os medicamentos preferencialmente às refeições. - Não administrar primaquina para gestantes ou crianças menores de 6 meses (nesses casos, usar a Tabela 4). - Se surgir icterícia, suspender a primaquina. - Se o paciente tiver mais de 70kg, ajustar a dose de primaquina (Tabela 3). Tabela 3. Ajuste da dose e tempo de administração da primaquina para pacientes com peso igual ou superior a 70 kg Faixa de peso (kg) Dose total de primaquina (mg) Tempo de administração (dias) Esquema longo (15mg/dia) Esquema curto (30mg/dia) 70-79 240 16 8 80-89 272 18 9 90-99 304 20 10 100-109 336 22 11 110-120 368 24 12 37Secretaria de Vigilância em Saúde / MS Tabela 4. Tratamento das infecções pelo P. malariae para todas as idades e das infecções por P. vivax ou P. ovale em gestantes e crianças com menos de 6 meses, com cloroquina em 3 dias Idade/peso Número de comprimidos por semana Cloroquina 1° dia 2° dia 3° dia <6 meses (1-4kg) 1/4 1/4 1/4 6-11 meses (5-9kg) 1/2 1/4 1/4 1-3 anos (10-14kg) 1 1/2 1/2 4-8 anos (15-24kg) 1 1 1 9-11 anos (25-34kg) 2 2 2 12-14 anos (35-49kg) 3 2 2 ≥15 anos (≥50kg) 4 3 3 - Cloroquina: comprimidos de 150mg. - Sempre dar preferência ao peso para a escolha da dose. - Todos os medicamentos devem ser administrados em dose única diária. - Administrar os medicamentos preferencialmente às refeições. - Não administrar primaquina para gestantes ou crianças menores de 6 meses. Tabela 5. Esquema recomendado para prevenção das recaídas frequentes por P. vivax ou P. ovale com cloroquina semanal em 12 semanas Idade/peso Número de comprimidos por semana Cloroquina <6 meses (1-4kg) 1/4 6-11 meses (5-9kg) 1/4 1-3 anos (10-14kg) 1/2 4-8 anos (15-24kg) 3/4 9-11 anos (25-34kg) 1 12-14 anos (35-49kg) 1 e 1/2 ≥15 anos (≥50kg) 2 - Cloroquina: comprimidos de 150mg. - Para utilizar este esquema deve-se ter certeza que o paciente aderiu corretamente ao tratamento convencional. - Sempre dar preferência ao peso para a escolha da dose. - Recomendar ao paciente não se esquecer de tomar todas as doses. Tabela 6. Tratamento das infecções por P. falciparum com a combinação fixa de artemeter+lumefantrina em 3 dias Idade/peso Número de comprimidos 1º dia 2° dia 3º dia Manhã Noite Manhã Noite Manhã Noite 6 meses-2 anos(5-14kg) 1 1 1 1 1 1 3-8 anos (15-24kg) 2 2 2 2 2 2 9-14 anos (25-34kg) 3 3 3 3 3 3 ≥15 anos (≥35kg) 4 4 4 4 4 4 - Comprimido: 20mg de artemeter e 120mg de lumefantrina. - Cada tratamento vem em uma cartela individual, em quatro tipos de embalagem, de acordo com o peso ou idade das pessoas. - Sempre dar preferência ao peso para a escolha da dose. - No primeiro dia, a segunda dose pode ser administrada em intervalo de 8 a 12 horas. - P? - Recomenda-se administrar o comprimido junto com alimentos. - Nã? abela 10) Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 38 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS Tabela 7. Tratamento das infecções por P. falciparum com a combinação fixa de artesunato+mefloquina em 3 dias Idade/peso Número de comprimidos por dia 1º dia 2° dia 3º dia Infantil Infantil Infantil 6-11 meses (5-8kg) 1 1 1 1-5 anos (9-17kg) 2 2 2 Idade/peso 1º dia 2° dia 3º dia Adulto Adulto Adulto 6-11 anos (18-29kg) 1 1 1 ≥12 anos (≥30kg) 2 2 2 - Comprimido infantil: 25mg de artesunato e 50mg de mefloquina; adulto: 100mg de artesunato e 200mg de mefloquina. - Cada tratamento vem em uma cartela individual, em quatro tipos de embalagem, de acordo com o peso ou idade das pessoas. - Sempre dar preferência ao peso para a escolha da dose. - Para crianças pequenas, esmagar o comprimido para facilitar a administração, podendo ingerir o comprimido com água ou leite. - Recomenda-se administrar o comprimido junto com alimentos. - Não administrar a gestantes durante o primeiro trimestre de gravidez, nem crianças menores de 6 meses (nesses casos, usar a Tabela 10) Tabela 8. Esquema de segunda escolha, recomendado para o tratamento das infecções por P. falciparum com quinina em 3 dias, doxiciclina em 5 dias e primaquina no 6° dia Idade/peso Número de comprimidos por medicamento por dia 1°, 2° e 3° dias 4° e 5° dias 6° dia Quinina Doxiciclina Doxiciclina Primaquina 8-10 anos (22-29kg) 1 e 1/2 1 1 1 11-14 anos (30-49kg) 2 e 1/2 1 e 1/2 1 e 1/2 2 ≥15 anos (≥50kg) 4 2 2 3 - Sulfato de quinina: comprimidos de 500mg do sal, Doxiciclina: comprimidos de 100mg do sal e Primaquina: comprimidos de 15mg. - A dose diária de quinina e da doxiciclina devem ser divididas em duas tomadas, de 12/12 horas. - Sempre dar preferência ao peso para a escolha da dose. - A doxiciclina não deve ser dada a gestantes ou crianças menores de 8 anos. - A primaquina não deve ser dada a gestantes ou criançasmenores de 6 meses. - Não administrar a gestantes, nem crianças menores de 6 meses (nesses casos, usar a Tabela 10) Tabela 9. Tratamento das infecções mistasa por P. falciparum e P. vivax ou P. ovale Idade/peso Esquema para P. falciparum Número de comprimidos por dia Primaquina 4° dia 5° dia 6°o dia 7° ao 10° dias 1° ao 3° dias Infantil Infantil Infantil Infantil 6-11 meses (5-9kg) Artemeter + Lumefantrina (Tabela 6) ou Artesunato + Mefloquina (Tabela 7) 1 1 1 1/2 1-3 anos (10-14kg) 2 1 1 1 4-8 anos (15-24kg) 2 2 2 2 4° dia 5° dia 6°o dia 7° ao 10° dias Adulto Adulto Adulto Adulto 9-11 anos (25-34kg) 1 1 1 1 12-14 anos (35-49kg) 2 2 2 1 ≥15 anos (≥50kg) 2 2 2 2 a) Se infecção mista com P. malariae, administrar apenas o esquema de P. falciparum. - Primaquina infantil: comprimidos de 5mg, Primaquina adulto: comprimidos de 15mg. - Sempre dar preferência ao peso para a escolha da dose. - Para crianças menores de 6 meses e gestantes no 1o trimestre, tratar apenas malária por P. falciparum segundo a Tabela 10. - Não administrar primaquina para gestantes. - Administrar os medicamentos preferencialmente às refeições. - Se surgir icterícia, suspender a primaquina. - Se o paciente tiver mais de 70kg, ajustar a dose de primaquina (Tabela 3). 39Secretaria de Vigilância em Saúde / MS Tratamento da malária na gravidez e na criança menor de 6 meses No caso de malária por P. falciparum durante o primeiro trimestre de gravidez e em crianças menores de 6 meses apenas a quinina associada à clindamicina deve ser utilizada. No segundo e terceiro trimestres da gestação a combinação de artemeter+lumefantrina pode ser utilizada com segurança (Tabela 6); a doxiciclina é contraindicada, enquanto a clindamicina pode ser usada com segurança em associação com quinina. Os derivados da artemisinina podem ser usados no primei- ro trimestre de gestação em casos de malária grave, caso seja iminente o risco de vida da mãe. Gestantes e crianças menores de 6 meses com malária pelo P. vivax ou P. ovale devem receber apenas cloroquina (Tabela 4) para o seu tratamento, uma vez que a primaquina é contraindicada nessas situações pelo alto risco de hemólise. Após um segundo episódio de malária por P. vivax ou P. ovale (recaída), toda gestante deverá receber com o tratamento convencional com cloroquina (Tabela 4) e, em seguida, iniciar o esquema de cloroquina semanal profilática (Tabela 5), durante 12 semanas, para prevenção de novas recaídas. O mesmo se aplica para crianças menores de 6 meses. Gestantes e crianças menores de 6 meses com malária pelo P. malariae devem receber trata- mento com cloroquina normalmente (Tabela 4). Tabela 10. Esquema recomendado para tratamento das infecções não complicadas por P. falciparum no primeiro trimestre da gestação e crianças com menos de 6 meses, com quinina em 3 dias e clindamicinaa em 5 dias Idade/peso Número de comprimidos ou dose por dia 1°, 2° e 3° dias 4° e 5° dias Quinina Clindamicina Clindamicina <6 mesesa (1-4kg) 1/4 (manhã)1/4 (noite) 1/4 (manhã) 1/4 (noite 1/4 (manhã) 1/4 (noite Gestantes 12-14 anos (30-49kg) 1 e 1/2 (manhã)1 (noite) 1/2 (6 em 6 horas) 1/2 (6 em 6 horas) Gestantes ≥15 anos (≥50kg) 2 (manhã)2 (noite) 1 (6 em 6 horas) 1 (6 em 6 horas) a) A clindamicina não deve ser usada para crianças com menos de 1 mês. Nesse caso, administrar quinina na dose de 10mg de sal/kg, a cada 8 horas, até completar um tratamento de 7 dias. - Sulfato de quinina: comprimidos de 500mg do sal, Clindamicina: comprimidos de 300mg. - Sempre dar preferência ao peso para a escolha da dose. Tratamento da malária grave e complicada causada pelo P. falciparum Para qualquer paciente portador de exame positivo para malária falciparum, que apresente um dos sinais e/ou sintomas de malária grave, o tratamento deve ser orientado de preferência em unidade hospitalar. Nesses casos, o principal objetivo do tratamento é evitar que o paciente evolua para óbito. Para isso, antimaláricos potentes e de ação rápida devem ser administrados (Quadro 1), juntamen- te com todas as medidas de suporte à vida do paciente. Secundariamente, após evidência de me- lhora das complicações da malária grave, deve-se preocupar com a prevenção de recrudescência, da transmissão ou da emergência de resistência. A malária grave deve ser considerada uma emergência médica. Portanto, a permeabilidade das vias aéreas deve estar garantida e os parâmetros da respiração e circulação avaliados. Se possí- vel, o peso do paciente deve ser aferido ou estimado, para facilitar os cálculos dos medicamentos a serem administrados. Um acesso venoso adequado deve ser providenciado e as seguintes determi- nações laboratoriais solicitadas: glicemia, hemograma, determinação da parasitemia, gasometria arterial e parâmetros de função renal e hepática. Exame clínico-neurológico minucioso deve ser realizado, com especial atenção para o estado de consciência do paciente, registrando-se o escore da escala de coma (por exemplo, a escala de Glasgow). Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 40 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS Quadro 1. Esquemas recomendados para o tratamento da malária grave e complicada pelo P. falciparum em todas as faixas etárias Artesunatoa: 2,4mg/kg (dose de ataque) por via endovenosa, seguida de 1,2mg/kg, administrados após 12 e 24 horas da dose de ataque. Em seguida, manter uma dose diária de 1,2mg/kg, durante 6 dias. Se o paciente estiver em condições de deglutir, a dose diária pode ser administrada em comprimidos, por via oral. Clindamicina: 20mg/kg/dia, endovenosa, diluída em solução glicosada a 5% (1,5ml/kg de peso), infundida gota a gota, em 1 hora, durante 7 dias. Se o paciente estiver em condições de deglutir, a dose diária pode ser administrada em comprimidos, por via oral, de acordo com a Tabela 10. Não indicado para gestantes no 1º trimestre OU Artemether: 3,2mg/kg (dose de ataque), por via intramuscular. Após 24 horas aplicar 1,6mg/kg por dia, durante mais 4 dias (totalizando 5 dias de tratamento). Se o paciente estiver em condições de deglutir, a dose diária pode ser administrada em comprimidos, por via oral. Clindamicina: 20mg/kg/dia, endovenosa, diluída em solução glicosada a 5% (1,5ml/kg de peso), infundida gota a gota, em 1 hora, durante 7 dias. Se o paciente estiver em condições de deglutir, a dose diária pode ser administrada em comprimidos, por via oral, de acordo com a Tabela 10. Não indicado para gestantes no 1º trimestre OU Quinina: administrar quinina endovenosa, na dose de 20mg/kg de dicloridrato de quinina (dose de ataque)b, diluída em 10ml/kg de solução glicosada a 5% (máximo de 500ml de SG 5%), por infusão endovenosa, durante 4 horas. Após 8 horas do início da administração da dose de ataque, administrar uma dose de manutenção de quinina de 10mg de sal/kg, diluídos em 10ml de SG 5%/kg, por infusão endovenosa (máximo de 500ml de SG 5%), durante 4 horas. Essa dose de manutenção deve ser repetida a cada 8 horas, contadas a partir do início da infusão anterior, até que o paciente possa deglutir; a partir desse momento, deve-se administrar comprimidos de quinina na dose de 10mg de sal/kg a cada 8 horas, até completar um tratamento de 7 dias. Clindamicina: 20mg/kg/dia, endovenosa, diluída em solução glicosada a 5% (1,5ml/kg de peso), infundida gota a gota, em 1 hora, durante 7 dias. Se o paciente estiver em condições de deglutir, a dose diária pode ser administrada em comprimidos, por via oral, de acordo com a Tabela 10. ESTE ESQUEMA É INDICADO PARA GESTANTES DE 1º TRIMESTRE E CRIANÇAS MENORES DE 6 MESESc a) Dissolver o pó de artesunato (60mg por ampola) em diluente próprio ou em uma solução de 0,6ml de bicarbonato de sódio 5%. Esta solução deve ser diluída em 50ml de SG5% e administrada por via endovenosa, em 1 hora. b) Outra possibilidade é administrar quinina em infusão endovenosa (ou bomba de infusão) numa dose de ataque de 7mg do sal/kg, durante 30 minutos, seguida imediatamente de 10mg do sal/kg, diluídos em 10 ml/kg de solução glicosada a 5% (máximo de 500ml), em infusão endovenosa durante 4 horas. c) A clindamicina não deve ser usada para crianças com menos de 1 mês. Neste caso, administrar apenas quinina. Aspectos epidemiológicos A malária é reconhecida como grave problema de saúde pública no mundo, ocorrendo em quase 50% da população, em mais de 109 países e territórios. Sua estimativa é de 300 milhões de novos casos e 1 milhão de mortes por ano, principalmente em crianças menores de 5 anos e mu- lheres grávidas do continente africano. A região amazônica é considerada a área endêmica do país para malária. Em 2008 no Brasil, aproximadamente 97% dos casos de malária se concentraram em seis estados da região amazônica: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima. Os outros três estados da região amazônica Maranhão, Mato Grosso e Tocantins foram responsáveis por menos de 3% dos casos de malária no país. A maioria dos casos ocorre em áreas rurais, mas há registro da doença também em áreas urbanas (cerca de 15%). Mesmo na área endêmica, o risco de contrair a doença não é uniforme. Este risco é medido pela incidência parasitária anual (IPA), que serve para classificar as áreas de transmissão em alto, médio e baixo risco, de acordo com o número de casos por mil habitantes (Figura 1). 41Secretaria de Vigilância em Saúde / MS Figura 1. Classificação das áreas de risco para malária, segundo a incidência parasitária anual (IPA). Brasil, 2008 Fonte:SVS/MS IPA (Número de municípios) Sem transmissão 0,1 a 9 - Baixo risco (n=291) 10 a 49 - Médio risco (n=80) 50 a 451 - Alto risco (n=68) A OMS identifica quatro fases programáticas para alcançar e manter a eliminação da malária: controle, pré-eliminação, eliminação e prevenção da reintrodução (Figura 2). Figura 2. Fases do controle da eliminação (OMS, 2008) Controle Pré-eliminação Eliminação Prevenção da reintrodução ILP = proporção de lâminas ou testes rápidos positivos 1ª reorientação do Programa 2ª reorientação do Programa ILP <5% em casos febris <1 caso p/1.000 hab. sob risco/ano 0 casos adquiridos no local Certificação da OMS 3 anos Na série temporal brasileira (Gráfico 1), a partir dos anos 60 pode ser observado que até 1976 foram registrados menos de 100 mil casos de malária por ano. A partir daquele ano, houve forte tendência na elevação da doença em função da ocupação desordenada da região amazônica. Este incremento deveu-se também à implantação, na região, de projetos de colonização e mineração sem a necessária estrutura de saúde para atender à população. Em 1983, registraram-se 300 mil casos. No período de 1984 a 1986, a malária manteve-se na faixa dos 400 mil casos. De 1987 a 1995, foram registrados 500 mil casos em média. Em 1996 e 1997 houve redução importante nos registros da doença. Nos anos de 1998 e 1999, a incidência aumentou de forma preocupante, atingindo seu limite, em 1999, com 635.646 casos. De 2000 a 2002, foi observado o maior declínio na ocorrência da malária em relação aos 40 anos anteriores. Em 2002, registraram-se 348.259 casos, o que representou 43% de queda em relação a 2000. De 2003 a 2005, observou-se nova elevação progressiva no número de casos, chegando a 607.730 casos notificados em 2005, um aumento de 74% em relação ao número de casos de 2002. O aumento dos casos de malária a partir de 2003 deveu-se, principalmente, à intensa e desordenada ocupação das periferias das grandes cidades da região. O desmatamento para extração de madei- Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 42 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS ra, criação de gado, agricultura e assentamentos, atividades essas não autorizadas pelos órgãos competentes contribuiu para o aumento da transmissão da doença. Outro fator colaborador foi o aumento dos criadouros do mosquito vetor da malária em função da atividade de piscicultura desordenada, com a construção de tanques artificiais, seja nos quintais dos domicílios ou nas peri- ferias de diversas cidades da região amazônica. Para enfrentar a nova dinâmica de transmissão, muito influenciada pelo crescimento desorde- nado das cidades médias e grandes da região, o Ministério da Saúde desencadeou amplo processo de mobilização de forças multissetoriais. Esta mobilização, envolvendo principalmente os gestores da saúde nos estados e municípios da região amazônica, visou promover, de forma articulada, a ordenação de movimentos populacionais e priorizar as ações de vigilância, prevenção e o controle da malária. Os efeitos dessa articulação refletiram-se a partir do ano de 2006 até 2008, onde foi observado declínio constante no número de casos, passando de 550.930 para 313.922, uma redução de 43%. Até a década de 80, houve relativa equivalência entre as espécies parasitárias (P. vivax e P. falciparum) inclusive com um período de inversão parasitária de 1983 a 1988 com predominância de P. falciparum. A partir de então, nota-se um distanciamento no número de registro das duas espécies, que culminou com a predominância do P. vivax, responsável por quase 85% dos casos notificados em 2008 (Gráfico 1). Gráfico 1. Registro de casos de malária e espécies parasitárias (P. falciparum e P. vivax). Brasil, 1960-2008 Fonte: SVS/MS 60 0 100 200 300 400 500 600 700 P. vivaxP. falciparum Casos 62 64 66 68 70 72 74 76 78 80 82 84 86 88 90 92 94 96 98 00 02 04 06 08 Anos No ano de 2008, a região da Amazônia Brasileira contava com 3.422 laboratórios para diag- nóstico de malária e 48.281 agentes de saúde envolvidos no controle da endemia contemplando os 807 municípios, além de médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde para atenção ao pa- ciente. Essa ampla rede de diagnóstico e tratamento possibilitou a realização de 2.717.511 exames de gota espessa e o tratamento de todos os casos diagnosticados. No período de 1999 a 2008, observa-se uma redução na incidência parasitária anual (IPA) nos estados da Região da Amazônia Brasileira, que era de 32 por 1.000 habitantes, em 1999 e passou para 13 por 1.000 habitantes em 2008. A letalidade por malária também foi reduzida, de 3 óbitos por 10.000 casos de malária no ano de 1999 para 1,5 em 10.000 casos em 2008, assim como a pro- porção de internações que passou de 3,3% em 1999 para 1,3% em 2008. Neste mesmo período, de 1999 a 2008 observa-se uma importante alteração na dinâmica de transmissão da malária com concentração de casos em alguns municípios. O número de municí- 43Secretaria de Vigilância em Saúde / MS pios de alto risco, ou seja, com incidência a partir de 50 casos por 1.000 habitantes, passou de 160 para 67 municípios. Na região extra-amazônica, mais de 80% dos casos registrados são importados dos estados pertencentes à área endêmica, continente africano e Paraguai. Casos autóctones esporádicos ocor- rem em áreas focais restritas desta região (Figura 1). Destacam-se os municípios localizados às margens do lago da usina hidrelétrica de Itaipu; áreas cobertas pela Mata Atlântica nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia; a região Centro-oeste, estados de Goiás e Mato Grosso do Sul; e a região Nordeste, estado do Piauí. Vigilância epidemiológica Objetivos A vigilância epidemiológica da malária é um dos componentes do Programa Nacional de Controle da Malária (PNCM), cujos objetivos são reduzir mortalidade por malária, as suas formas graves e a sua incidência, eliminar a transmissão em áreas urbanas das capitais e manter a ausência da transmissão da doença nos locais onde ela tiver sido interrompida.A vigilância da malária com- preende a vigilância de casos humanos e a vigilância entomológica, a fim de orientar as medidas de controle e prevenção. Os objetivos da vigilância são: • estimar a magnitude da morbidade e mortalidade da malária; • identificar tendências, grupos e fatores de risco; • detectar surtos e epidemias; • recomendar as medidas necessárias para prevenir ou controlar a ocorrência da doença; • avaliar o impacto das medidas de controle. Vigilância de casos Definição de caso Suspeito • Área endêmica – toda pessoa que apresente febre seja residente ou tenha se deslocado para área onde haja transmissão de malária, no período de 8 a 30 dias anterior à data dos primeiros sintomas; ou toda pessoa testada para malária durante investigação epidemiológica. • Área não endêmica – toda pessoa que seja residente ou tenha se deslocado para área onde haja transmissão de malária, no período de 8 a 30 dias anterior à data dos primeiros sintomas, e que apresente febre acompanhado ou não dos seguintes sintomas: cefaleia, calafrios, sudorese, cansaço, mialgia; ou toda pessoa testada para malária durante investigação epidemiológica. Observação: Existe a possibilidade de aparecimento de sintomas em período maior de 30 dias após contato com áreas de transmissão de malária, e casos de malária decorrentes de transmissão não vetorial. Estes casos também devem ser notificados. Confirmado • Critério clínico-laboratorial – toda pessoa cuja presença de parasito ou algum de seus componentes, tenha sido identificada no sangue pelo exame laboratorial. Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 44 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS Descartado Caso suspeito com diagnóstico laboratorial negativo para malária. Quando houver forte evi- dência epidemiológica, repetir o exame em 24 ou 48 horas. Classificação da lâmina Detecção passiva – quando o paciente procurar a unidade de saúde notificante para coleta da lâmina. Detecção ativa – quando o agente de saúde visitar o paciente para coleta da lâmina. Lâmina de verificação de cura (LVC) – classifica-se como LVC, o exame de microscopia (gota espessa e esfregaço) realizado durante e após tratamento recente, em paciente previamente diagnosticado para malária, por detecção ativa ou passiva: • Para a área endêmica – não há obrigatoriedade na realização de controles periódicos du- rante o tratamento. Desta forma, deverá ser classificada como LVC toda lâmina cujo resul- tado atual seja: › P. vivax e o paciente tenha realizado tratamento para P. vivax dentro dos últimos 60 dias do diagnóstico atual.1 › P. falciparum e o paciente tenha realizado tratamento para P. falciparum dentro dos últi- mos 40 dias do diagnóstico atual.2 • Para a área não endêmica – a realização dos controles periódicos pela LVC durante os pri- meiros 40 (P. falciparum) e 60 dias (P. vivax), após o início do tratamento, deve constituir-se na conduta regular na atenção a todos os pacientes maláricos nessa região, a fim de verificar se o tratamento foi eficaz. Desta forma deverá ser realizada LVC: › nos dias 2, 4, 7, 14, 21, 28, 40 e 60 após o início do tratamento de pacientes com malária causada pelo P. vivax; › nos dias 2, 4, 7, 14, 21, 28 e 40 após o início do tratamento de pacientes com malária causada pelo P. falciparum. Em caso de lâmina positiva após os limites máximos acima especificados, o paciente deverá ser classificado como caso novo e deve-se considerar a investigação epidemiológica para confirmar ou afastar autoctonia. Caso seja afastada a possibilidade de autoctonia ou caso induzido, classificar o exame como LVC. Notificação Malária é uma doença de notificação compulsória, portanto, todo caso suspeito de malária deve ser notificado às autoridades de saúde, tanto na área endêmica, pelo Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Malária (Sivep-Malária), quanto na área não-endêmica, pelo Sis- tema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). A notificação deverá ser feita por meio da ficha de notificação de caso de malária, conforme fluxos e modelos adiante apresentados nas Figuras 3 e 4. Primeiras medidas a serem adotadas Confirmação diagnóstica e assistência ao paciente Atendimento ambulatorial ao paciente suspeito, para coleta da amostra de sangue, exame diagnóstico e tratamento, se necessário. 1) Pode incluir recurdescência, recaída ou nova infecção. 2) Pode incluir recrudescência ou nova infecção 45Secretaria de Vigilância em Saúde / MS Figura 3. Ficha de notificação SIVEP-Malária Figura 4. Ficha de notificação Sinan Coleta de material para exames A coleta e preparo da amostra de sangue para exame de malária devem ser feitas por técnicos devidamente preparados pelo serviço de saúde, de acordo com os procedimentos detalhados no “Manual de Diagnóstico Laboratorial de Malária” do Ministério da Saúde. Para o exame de gota espessa ou esfregaço proceder: • coleta da amostra de sangue e preparação da lâmina; Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 46 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS • identificação da lâmina; • coloração da lâmina: gota espessa, pelo método de Walker ou Giemsa; esfregaço, pelos mé- todos de Giemsa ou Wright; • exame da lâmina: identificação das espécies e formas parasitárias, quantificação da parasi- temia; • registro do resultado. No caso de testes rápidos seguir as orientações do fabricante para a realização do teste e pro- ceder com o registro do resultado na ficha de notificação. Em locais que somente coletam amostras de sangue e não realizam o exame microsópico ime- diato, após preparação e identificação da lâmina, esta deve ser enviada ao laboratório de referência. O resultado do exame deverá ser enviado, posteriormente, ao local da coleta. Recomenda-se que este processo não exceda 24 horas. Assistência ao paciente O caso confirmado recebe tratamento em regime ambulatorial. O caso grave deverá ser hos- pitalizado de imediato. No paciente com resultado negativo para malária, outras doenças deverão ser pesquisadas e quando houver forte evidência epidemiológica, repetir o exame em 24 ou 48 horas. Um dos indicadores para se avaliar a qualidade da assistência é o tempo verificado entre a coleta da amostra de sangue para exame e o início do tratamento, que não deve ser superior a 24 horas. Uma forma de garantir boa assistência é o monitoramento do tratamento ou tratamento supervisionado, por meio de visitas domiciliares ou de idas do paciente à unidade de saúde. Investigação epidemiológica O instrumento de coleta de dados é a ficha de notificação de caso de malária do Sivep- Malária, ou a ficha de investigação de malária do Sinan, que contém os elementos essenciais a serem coletados em uma investigação de rotina. Todos os seus campos devem ser criteriosamente preenchidos. Coleta de dados clínicos e laboratoriais Anotar na ficha do Sivep ou Sinan: • se o paciente apresentou ou não algum sintoma. • confirmação da data dos primeiros sintomas. • registrar a data e o resultado do exame, incluindo a parasitemia quando disponível. • quando o exame for positivo para malária, registrar a data de início e o tratamento dispen- sado ao paciente. Coleta de dados epidemiológicos Identificar a principal atividade que possa estar relacionada ao maior risco de contrair ma- lária no período de 8 a 30 dias antes do iníco dos sintomas; para a Região Amazônica usa-se uma média de 15 dias. A identificação da área de transmissão (local provável da infecção) deve ser feita mediante entrevista com o paciente, familiares, responsáveis ou pessoas da comunidade. Os dados serão anotados na ficha de notificação, permitindo identificar o local provável de infecção da malária. Quando o paciente residir em área endêmica, a caracterização do local de transmissão é faci- litada. Entretanto,a história dos deslocamentos e atividades permitirá definir melhor a localidade provável de infecção. • Identificar se o local de residência corresponde a uma área conhecida de transmissão de malária. 47Secretaria de Vigilância em Saúde / MS • Verificar se o paciente esteve em área de transmissão de malária no período de 8 a 30 dias anterior à data dos primeiros sintomas e se a permanência no local corresponde aos horá- rios habituais de alimentação do vetor (do anoitecer ao amanhecer). • Verificar se local de residência ou de procedência é considerado área receptiva de malária. A identificação da área onde se deu a transmissão é de fundamental importância para nortear as medidas de controle. A identificação da área onde se deu a transmissão é de fundamental importância para nortear as medidas de controle (Figura 5). Resultado positivo para malária Identificação do local de residência (ou permanência) atual 1) Área receptiva: área onde existe a possibilidade de transmissão da malária pela presença de mosquito vetor. 2) Detecção ativa: a busca de possíveis casos de malária pode ser feita pelo exame de indivíduos sintomáticos ou não-sintomáticos em um raio de até 2km, de acordo com a capacidade operacional. Tratamento imediato e assistência ao paciente Confirmação do local provável de infecção Local provável de infecção Residência em área receptiva1 Residência em área não-receptiva1 Controle vetorial segundo capacidade operacional Detecção ativa2 de casos com tratamento imediato Educação em saúde e mobilização social Figura 5. Fluxograma do Sistema de Vigilância da Malária Encerramento da notificação Para registros no Sinan deve ser feito o encerramento da notificação, confirmando ou descar- tando o caso e identificando se o caso é ou não autóctone do município de residência. Detecção ativa de casos Após a notificação de um ou mais casos de malária e determinação do local de transmissão faz-se adetecção ativa (busca ativa) de outros casos, cuja área de delimitação deve ser definida por critérios entomológicos e epidemiológicos. Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 48 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS A determinação da extensão da área de transmissão será usada para direcionar as ações de controle vetorial. Observação A inclusão de indivíduos assintomáticos durante as atividades de detecção ativa de casos deverá ser feita em áreas com transmissão autóctone de malária. Vigilância entomológica Em áreas endêmicas A vigilância entomológica deve levar em consideração a avaliação de informações sobre a bio- logia e comportamento dos vetores, relacionando-os ao ambiente e ao ser humano que, no caso da malária, é o único reservatório com importância epidemiológica do agente causador da doença. O monitoramento de parâmetros entomológicos permitirá à equipe de controle gerar infor- mações que complementam os dados epidemiológicos e geográficos na escolha das intervenções e na análise da dinâmica da transmissão e do impacto das medidas. A caracterização entomológica servirá para: • registrar informações entomológicas confiáveis para subsidiar a seleção de ações de contro- le vetorial em nível local; • levantar informações padronizadas para orientar, no nível central, ajustes nas políticas de manejo de inseticidas e seleção de produtos; • adquirir evidências para orientar mudanças nas estratégias e políticas de controle vetorial. Indicadores entomológicos A medição dos parâmetros entomológicos em localidades selecionadas deve ser realizada com metodologia que obtenha dados robustos e que permitam analisar as variações nos parâme- tros com relação às intervenções e à sazonalidade. A metodologia inclui, então, a realização de quatro observações nos momentos que, por motivos epidemiológicos e operacionais, sejam de maior interesse monitorar. Para que as variações possam ser analisadas e para que seja garantida uma robustez mínima nos dados é preciso que as ações de campo sejam realizadas sempre com a mesma metodologia. No Quadro 2 estão descritos estes indicadores. Após completar um ciclo de observações entomológicas (quatro avaliações durante um ano) sugere-se a seleção de outra localidade representativa de outro estrato ou outra localidade epi- demiologicamente importante. Essa rotatividade nas localidades de estudo permitirá, em curto tempo, uma boa amostragem da variabilidade espacial no comportamento e resposta dos vetores de malária. Todas as informações coletadas durante a vigilância entomológica devem ser registradas na ficha do Sistema de Informação e Controle de Vetores (Vetores-Malária) e digitadas no sistema. Em áreas não endêmicas Nas áreas onde for identificada transmissão autóctone, deve-se realizar um estudo periódico da distribuição espaço-temporal das espécies de Anopheles sp, a cada um ou dois anos. Tais dados devem constituir a carta anofélica do estado ou município. Essas informações são determinantes para definir a receptividade de determinada região à transmissão malárica. Locais onde seja de- monstrada a presença de fêmeas de Anopheles das espécies comprovadamente competentes como vetoras de Plasmodium são, em princípio, receptivas à transmissão autóctone de malária. Em áreas de Mata Atlântica, deve-se manter vigilância também sobre as espécies que se criam em fitotelmatas. Tal avaliação se faz necessária, pois há, na região, incriminação comprovada de An. (Kerteszia) cruzii; An. (K.) bellator e Na. (K.) homunculus. 49Secretaria de Vigilância em Saúde / MS Vale ressaltar que a carta anofélica também deve ser rotineiramente atualizada em áreas en- dêmicas de malária. Quadro 2. Indicadores entomológicos e procedimentos utilizados para monitorar as ações de controle vetorial Indicador Procedimento Unidade mínima de medida Número de coletores Periodicidade Número de mosquitos Outros critérios Grau de endofilia Capturas em repouso (Opcional) 2 casas por localidade, 30 minutos pela manhã (5:30 às 6:00) e 30 minutos à noite (horário de pico 2 pessoas 3 noites por observa- ção, 4 observações ao ano Não se aplica Em residências diferentes das selecionadas para captura por atração humana Densidade, horário do pico, grau de endofilia e endofagia Capturas de mosquitos adultos 2 casas por localidade; capturas de 12 horas 2 pessoas por casa (1 no intra e 1 no peridomicílio) 3 noites por observa- ção; 4 observações ao longo do ano: 2 nas épocas de maior den- sidade anofélica e 2 na época seca Não se aplica Não se aplica Paridade Dissecção de mosquitos para determinação da paridade Material das capturas em repouso e das capturas por atração em humano protegido Não se aplica Todas as capturas em respouso e por atração em humano protegido <100 exemplares capturados = dissecção de 100% >100 exemplares cap- turados = dissecar pelo menos 100 de acordo com o percentual em cada horário Não se aplica Residualidade do inseticida Provas biológicas de parede 3 cones por superfície avaliada em três alturas diferentes Não se aplica Mensal até que a mor- talidade seja inferior a 80% 10 a 15 mosquitos por cone 1 cone controle (sem contato com o inseticida) por casa Provas biológicas em mosquiteiros 4 mosquiteiros por localidade - 10 cones por mosquiteiro Não se aplica 4 vezes ao ano 10 por cone Não se aplica Densidade larvária Coleta de imaturos com concha entomológica Pelo menos 5 pontos por ciradouro Não se aplica Semanal Não se aplica Somente fazer esse tipo de análise quando houver previsão de utilização de controle larvário Análise dos dados A análise dos dados da notificação deve permitir a avaliação da magnitude, segundo as carac-terísticas de pessoa, tempo e lugar. O nível local deverá fazer as primeiras avaliações para carac- terizar a transmissão e adoção das medidas adequadas e oportunas ao controle da malária. Estas ações serão constantemente reavaliadas para medição do impacto sobre a transmissão da doença e redirecionamento, caso necessário. Relatório final Os dados da vigilância de casos e da vigilância entomológica deverão ser sumarizados em um relatório com as principais conclusões, das quais se destacam: • distribuição da doença, por sexo e faixa etária; • distribuição da doença por local provável da infecção e período da ocorrência; • análise da situação da doença, segundo os indicadores de risco de transmissão e de gravidade (IPA, percentagem de P. falciparum, coeficiente de internação, mortalidade e letalidade); • descrição dos fatores de risco envolvidos na transmissão; • descrição dos principais indicadores entomológicos; • carta anofélica; • interpretação dos dados; • descrição da infraestrutura de serviços disponíveis. Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 50 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS Divulgação dos dados O relatório final com a interpretação das informações descritas deverá ser amplamente divul- gado por diversos meios, tais como, oficinas de trabalho, reuniões de avaliação, boletins epidemio- lógicos, seminários, congressos e publicações científicas. Instrumentos disponíveis para controle Diagnóstico e tratamento O tratamento precoce da malaria, além de curar o indivíduo e diminuir sua incapacidade e risco de complicações busca reduzir rapidamente a produção de gametócitos (as formas do parasi- ta capazes de infectar o mosquito) para interromper a cadeia de transmissão. Isto faz com que uma estratégia baseada em promover a detecção pelo diagnóstico e em melhorar o acesso aos serviços, aliado à existência de medicamentos altamente eficazes, seja capaz de reduzir a transmissão da doença. Quanto mais precocemente a pessoa for tratada, menos vai disseminar a doença. Isto é ainda mais evidente na malária por P. falciparum, onde a produção dos gametócitos só se dá depois do início dos sintomas. Contudo, o fator determinante, qualquer que seja a espécie do parasito, é o tratamento correto iniciado precocemente. Para que a estratégia funcione, os municípios endêmicos devem ter uma rede de postos de diagnóstico e tratamento que garanta acesso oportuno ao diagnóstico e tratamento com boa qua- lidade. Controle vetorial As atividades de controle vetorial devem ser vistas como complementares ao diagnóstico e tratamento. O controle vetorial da malária deve ser desenvolvido, preferencialmente, no nível mu- nicipal e tem como objetivo principal reduzir o risco de transmissão, prevenindo a ocorrência de epidemias, com a consequente diminuição da morbimortalidade. Deve-se analisar a capacidade operacional instalada no município para as atividades de controle vetorial que se pretende realizar e, baseado nela, definir em quantas localidades prioritárias é possível fazer controle vetorial, seguindo todos os critérios de periodicidade, qualidade e cobertura. A seleção de intervenções deverá se basear nos determinantes definidos no Quadro 3 e de- penderá da possibilidade de cumprir os requisitos e as indicações necessárias para que a ação de controle seja eficaz. A possibilidade de usar duas ou mais ações de controle de modo simultâneo deve ser considerada sempre que indicado e operacionalmente possível. Após a realização de qualquer atividade de controle vetorial, deve-se realizar uma avaliação do impacto dessas ações de controle tanto na densidade de mosquitos quanto na transmissão de malária. Todas as informações a respeito das atividades de controle vetorial devem ser registradas na ficha do Sistema de Informação e Controle de Vetores (Vetores-Malária) e digitadas no sistema. Em áreas endêmicas Controle químico de vetores adultos – o controle químico de vetores adultos é atualmente baseado em borrifação residual intradomiciliar e termonebulização com inseticidas piretróides, compostos sintéticos análogos ao piretro que, de forma geral, são menos tóxicos aos mamíferos do que os organoclorados e organofosforados. Os inseticidas relacionados no Quadro 4 a seguir são os recomendados pelo Ministério da Saúde. 51Secretaria de Vigilância em Saúde / MS Quadro 3. Intervenções de controle vetorial e determinantes para a seleção Ação de controle Critérios técnicos Critérios operacionais Borrifação residual Residências com paredes completas (N) Endofagia e endofilia dos vetores (N) Todas as faixas etárias afetadas (D) Aglomerados de residências (D) Pessoal formalmente capacitado (N) Sustentabilidade da ação de controle (N) Mosquiteiros impregnados Vetor endofágico (N) Todas as faixas etárias afetadas (D) Capacidade de reimpregnação quando não for de longa duração (N) Ampla aceitação do uso de mosquiteiros/ cortinados (D) Controle de criadouros Proximidade a residências aglomeradas (D) Criadouros permanentes (D) Número reduzido de criadouros (D) Capacidade entomológica para identificação de criadouros e avaliação da densidade larvária (N) Nebulizações espaciais (FOG) Alta densidade populacional (N) Alto número de casos (N) Realização de ciclos completos (N) Avaliações de efetividade entomológica (N) N: necessário; D: desejável Quadro 4. Inseticidas recomendados para o controle de Anopheles Inseticidas Formulaçãoa Dose do ingrediente ativo g/Ha mg/m2 Cyflutrina PM – 50 Betacyflutrina SC – 15 Alfa-cypermetrina SC – 40 Cypermetrina PM – 125 Cypermetrina CE 3 – Deltametrina SC – 25 Lambdacyalotrina PM – 30 Etofemprox PM – 0,2 a) PM: pó molhável; SC: suspensão concentrada; CE: concentrado emulsionável Borrifação intradomiciliar – os ciclos de borrifação intradomiciliar devem respeitar a residu- alidade do inseticida que, no caso dos piretróides, é de cerca de três meses. Sendo assim, idealmente, deve-se realizar quatro ciclos anuais de aplicação do inseticida por profissionais devidamente trei- nados. Vale ressaltar que para que uma ação de borrifação intradomiciliar seja efetiva, é necessário que, na localidade onde ela vai ocorrer, a cobertura mínima de residências atendidas seja de 80%. O controle de mosquitos adultos é feito, atualmente, por meio de borrifação intradomiciliar. Mosquiteiros impregnados de longa duração (MILD) – os MILD são, junto com a borri- fação residual, a principal estratégia de controle vetorial recomendada pela OMS para o controle da malária. Espera-se, como efeito da distribuição maciça de MILD, redução na quantidade de mosquitos picando no interior das residências. O impacto dos MILD será especialmente impor- tante em localidades onde haja evidências epidemiológicas e/ou entomológicas de transmissão intradomiciliar (grande quantidade de casos em crianças menores de 10 anos e mosquitos picando no interior das residências). Os mosquiteiros impregnados são muito mais efetivos quanto maior seja o número de pessoas protegidas na localidade. Para garantir a cobertura ótima é preciso que a distribuição seja de forma gratuita e que sejam instalados diretamente pelos agentes de saúde informando devidamente sobre o uso. É necessário que se faça um trabalho de sensibilização da população quanto à importância do uso diário, à limitação no número de lavagens e ao uso ade- quado dos MILD. A cobertura deve ser monitorada rotineiramente por meio de visitas periódicas (pelo menos a cada quatro meses) e pela aplicação de questionários padronizados. Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 52 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS Termonebulização – as ações de termonebulização não devem ser utilizadas na rotina de controle vetorial, pois, devido à efemeridade da ação e à enorme quantidade de variáveisam- bientais e entomológicas envolvidas, a ação é, normalmente, muito pouco efetiva. Sendo assim, ela deve ser utilizada somente em situações de alta transmissão (surtos e epidemias) para retirar fêmeas infectadas da população de mosquitos. Esta ação deve ser realizada somente em aglo- merados de residências. As termonebulizações, quando indicadas, devem ser realizadas por três dias consecutivos no horário de pico de atividade hematofágica das fêmeas. Estes ciclos devem ser repetidos a cada cinco a sete dias até que a densidade de fêmeas de Anopheles paridas caia consideravelmente. Controle larvário – deve-se priorizar, para o controle larvário de Anopheles, o ordenamento do meio, ou manejo ambiental, por drenagem, aterro e modificação do fluxo da água, pois são defi- nitivas e têm, normalmente, maior impacto na transmissão de malária. Alternativamente, pode-se tratar criadouros artificiais e de pequeno porte por meio de biolarvicidas, fazendo, concomitante- mente, controle da vegetação (macrófitas) aquática e limpeza das margens destas coleções de água. È importante notar, entretanto, que os parâmetros físico-químicos da água podem influenciar na eficácia do produto. O controle de criadouro só é efetivo se toda ou a maior parte da área de cria- ção do vetor na localidade de intervenção é tratada e se for mantida a frequência de tratamento ou manejo dos criadouros, conforme a duração da intervenção. Há de se levar em consideração que o controle sobre os insetos adultos tem maior impacto sobre a capacidade vetorial do que as atividades de controle larvário, pois, para terem efeito na transmissão, as medidas de controle larvário devem impactar de forma importante a densidade de formas imaturas. Na região amazônica, na maioria das situações, é muito difícil atingir os níveis de cobertura necessários para impactar a transmissão de malária com medidas de controle larvário. Contrariamente, o uso de adulticidas (inseticidas que matam e/ou repelem o mosquito adulto) tem efeito mais direto sobre o número dos mosquitos picando no interior dos domicílios. Em áreas não endêmicas Deve-se fazer controle químico de vetores em áreas não endêmicas, caso haja presença de vetor potencial e ocorrência de mais de dois casos autóctones. Nesta situação de surto, a utilização da termonebulização deve ser avaliada e, quando indicada, deverá ser realizada em ciclos de três dias repetidos a cada cinco a sete dias até que a densidade de fêmeas de Anopheles paridas caia consideravelmente. A borrifação intradomiciliar, não é medida essencial na contenção de surtos. A borrifação residual pode ser utilizada no caso de ocorrências sazonais ou de surtos prolongados como forma de atuar preventivamente. Assim como nas áreas endêmicas, deve-se realizar estudo entomológico antes e após inter- venção de controle vetorial. Ações de educação em saúde A população deve ser informada sobre a doença, a necessidade de se procurar a unidade de saúde aos primeiros sintomas, a importância do tratamento completo, o correto uso e manutenção dos MILDS e os cuidados com a proteção individual e coletiva. Várias técnicas pedagógicas podem ser utilizadas, tanto para educação em saúde coletiva (teatro, música, imprensa falada, escrita, en- tre outras), quanto individual (cartilhas, folders e outros). Tendo em vista que os determinantes da ocorrência de malária não são exclusivos do setor saúde, é necessário que a comunidade esteja mobilizada para se articular junto aos demais setores envolvidos com o controle da endemia. 53Secretaria de Vigilância em Saúde / MS Imunização Vários antígenos plasmodiais foram identificados nas últimas décadas. Ensaios de campo fo- ram realizados para avaliar a eficácia de algumas vacinas, porém os resultados destes estudos ainda não são satisfatórios para a implantação da vacinação como medida de prevenção da malária. Estratégia de prevenção Além de evitar frequentar os locais de transmissão à noite, utilizam-se como medidas de pre- venção individual: uso de mosquiteiros impregnados ou não com inseticidas, roupas que protejam pernas e braços, telas em portas e janelas, uso de repelentes. As medidas de prevenção coletiva incluem todas as atividades de controle citadas anterior- mente. Prevenção em viajantes Diante da complexidade que envolve as medidas de prevenção da malária em viajantes, reco- menda-se uma avaliação criteriosa do risco de transmissão da doença nas áreas a serem visitadas, para a adoção de medidas preventivas contra picadas de insetos, bem como procurar conhecer o acesso à rede de serviços de diagnóstico e tratamento da malária na área visitada. Nos grandes centros urbanos do Brasil, esse trabalho de avaliação e orientação do viajante está sendo feito em Centros de Referência cadastrados pelo Ministério da Saúde (disponíveis no website: http://portal. saude.gov.br/portal/saude/Gestor/visualizar_texto.cfm?idtxt=27452). A quimioprofilaxia (QPX) deve ser reservada para situações específicas, nas quais o risco de adoecer de malária grave por P. falciparum for superior ao risco de eventos adversos graves, rela- cionados ao uso das drogas quimioprofiláticas. No Brasil, onde a malária tem baixa incidência e há predomínio de P. vivax em toda a área endêmica, deve-se lembrar que a eficácia da profilaxia para essa espécie de Plasmodium é baixa. Assim, pela ampla distribuição da rede de diagnóstico e tratamento para malária, não se indica a QPX para viajantes em território nacional. Entretanto, a QPX poderá ser, excepcionalmente, recomendada para viajantes que visitarão regiões de alto risco de transmissão de P. falciparum na Amazônia Legal, que permanecerão na re- gião por tempo maior que o período de incubação da doença (e com duração inferior a 6 meses) e em locais cujo acesso ao diagnóstico e tratamento de malária estejam distantes mais de 24 horas. Por fim, é importante frisar que o viajante que se desloca para áreas de transmissão de malá- ria deve procurar orientação de prevenção antes da viagem e acessar o serviço de saúde, caso apre- sente sintomas de doença dentro de 6 meses após retornar de uma área de risco de transmissão, mesmo que tenha realizado quimioprofilaxia. As medidas de proteção contra picadas de mosquitos devem ser enfaticamente recomenda- das a todos os viajantes com destino a áreas de risco de malária: • informação sobre o horário de maior atividade de mosquitos vetores de malária, do por-do- sol ao amanhecer; • uso de roupas claras e com manga longa, durante atividades de exposição elevada; • uso de medidas de barreira, tais como: telas nas portas e janelas, ar condicionado e uso de mosquiteiro impregnado com piretróides; • uso de repelente à base de DEET (N-N-dietilmetatoluamida), que deve ser aplicado nas áreas expostas da pele, seguindo a orientação do fabricante. Em crianças menores de 2 anos de idade, não é recomendado o uso de repelente sem orientação médica. Para crianças entre 2 e 12 anos, usar concentrações até 10% de DEET, no máximo 3 vezes ao dia. Malária Guia de Vigilância Epidemiológica | Caderno 10 54 Secretaria de Vigilância em Saúde /MS Anexo A Laboratórios credenciados para o envio de amostras para diagnóstico de malária Laboratórios de Referência Nacional Instituto Evandro Chagas - IEC/PA Rodovia BR 316 - Km 07, s/n° - Levilândia Ananindeua - PA CEP: 67030-000 Telefone: (91) 3214-2258 / 2264 / 2238 Fax: (91) 3214-2214 Instituto Oswaldo Cruz - IOC/Fiocruz/RJ Av. Brasil, 4365 - Manguinhos Rio de Janeiro - RJ CEP: 21040-900 Telefone: (21) 2598-4316 / 4242 / 4215 Fax: (21) 2598-4215