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Resumo BURKE, Peter. Problemas causados por Gutenberg a explosão da informação nos primórdios da Europa moderna

Resumo do artigo de Peter Burke sobre problemas gerados pela imprensa de Gutenberg: efeitos da explosão informacional, reação da Igreja e censura, alfabetização, surgimento de jornais, preservação, bibliografias e catálogos e o papel emergente dos bibliotecários.

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Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Fundamentos de Biblioteconomia 2018.1 Noturno
Marcela Almeida da Costa 
Resumo: BURKE, Peter. Problemas causados por Gutenberg: a explosão da informação nos primórdios da Europa moderna. Estudos avançados. São Paulo, jan. /abr. 2002, n.44, v. 16, p. 173-185. 
A máquina impressora é vista como o marco de uma nova era, vinculada diretamente ao progresso do conhecimento e à solução de problemas. Entretanto essa não é a única forma de encarar a grande invenção de Gutenberg, pois houveram também algumas consequências imprevistas e efeitos adversos. Guillaume Fichet, humanista francês, designou a imprensa como “Cavalo de Tróia”. 
Uma classe que não se beneficiou com a máquina impressora foi a de copistas e os contadores de história profissionais, pois temiam ser privados de seu meio de vida, como aconteceu na revolução industrial com a invenção de aparelhos que extinguiram diversos postos de trabalho. 
A Igreja, por sua vez, temia que a possibilidade de acesso à textos religiosos e à informação acabassem por fazer os leigos pararem de acatar o que lhe dissessem as autoridades, e tiveram razão, pois com a crescente alfabetização da população europeia no final da idade média e a invenção da imprensa, o acesso à informação aumentou consideravelmente. No século XVI, o povo reivindicava o direito de interpretar as escrituras e não só obedecer ao que lhe dizia o clero. O Índice Católico dos Livros Proibidos foi uma tentativa de lidar com esse incômodo, tendo como objetivo o controle da informação que a população poderia ou não consumir. Outra iniciativa foram as campanhas de alfabetização, que tiveram como intuito o incentivo à leitura da Bíblia, mas tal solução gerou novos problemas, pois as pessoas alfabetizadas não se restringiram somente a leitura do livro sagrado, como almejava o clero. 
Em 1620, além das preocupações de cunho religioso, acrescentaram-se as políticas. Surgiram os jornais impressos, que veiculavam críticas contra os governos. O inglês Sir Roger L’Estrange, conhecido censor da impressa, se perguntava “se a invenção da tipografia não trouxera mais malefícios do que vantagens para o mundo cristão”. 
A informação se alastrava de uma maneira nunca vista, e os estudiosos também enfrentaram problemas: os tipógrafos negligentes poderiam disponibilizar informações erradas, e quanto a isso houveram eruditos que propuseram até mesmo a censura. Outro problema enfrentado foi o de preservação da informação, o que gerou a necessidade de novos métodos de gerenciamento do conhecimento. 
Se na Idade Média o problema fora a escassez, após a invenção da imprensa o problema foi a superfluidade. Conrad Gesner, humanista suíço, cita a “multidão confusa e irritante de livros” como marco de sua época. Problema persistente até os dias atuais, pois a enorme disponibilidade de fontes de informação também é um problema contemporâneo, com as mídias eletrônicas. 
No ano de 1500, o número de livros publicados aumenta, e com isso surge um problema para o grupo profissional dos bibliotecários, que se tornam indispensáveis. A existência de livros impressos facilitou consideravelmente a tarefa de encontrar informações, e foi preciso compilar catálogos para as bibliotecas, o que acentuou a discussão sobre como catalogar e classificar as informações. 
Também existia o problema do acesso: os leitores não tinham formas de descobrir quais livros estavam disponíveis nas bibliotecas. Tendo em vista essa adversidade, Conrad Gessner (1516-65), criou a grande Bibliotheca Universalis, com o objetivo de catalogar todas as obras eruditas organizadas por autor e por assunto.
Bibliografias gerais foram sucedidas por outras mais específicas e com o foco na produção nacional. Cem anos depois, surgiram as resenhas, como uma outra forma de proporcionar ao usuário a possibilidade de discernir os livros ‘’bons’’ dos ‘’ruins’’. Essa solução acabou criando outro problema: o de localizar as resenhas, ou mesmo de achar as revistas eruditas que as publicavam e as comercializavam, pois estavam espalhadas por diversas cidades da Europa. 
A comercialização de conhecimento já era uma realidade na época de Gutenberg, mas deu um salto no século XVIII, com o surgimento da “sociedade de consumo”. 
Todas essas soluções de problemas acabaram por criar outros problemas, e provocaram mudanças na sociedade: mudam as formas de leitura e escrita, e sobretudo as técnicas de organização de informações. 
Francis Jeffrey, um literato inglês, temia que “se continuarmos a escrever e rimar no ritmo atual por mais duzentos anos, será preciso inventar alguma nova arte de leitura taquigráfica, - caso contrário toda leitura será abandonada em desespero”. De certa forma, era o que já estava acontecendo. A leitura que antes era intensiva, tornou-se extensiva. De acordo com Jonathan Swift, “entrar no palácio do conhecimento pelo portão principal exige um consumo de tempo e formalidade. Gente muito apressada e pouco cerimoniosa se contenta com entrar pela porta dos fundos. ” 
A mudança nos estilos de leitura e a comercialização de conhecimento resultaram em mudanças no formato e apresentação dos livros, como por exemplo a introdução da divisão do texto em capítulos, acréscimo de sumários, índices e notas marginais. Essas mudanças trouxeram também uma grande competição entre os editores, que tentavam de toda forma motivar o usuário à compra de uma edição específica de um texto clássico. 
A maneira de escrever também se modificou: surgiu a “nota de rodapé”, fenômeno do século XVIII, era a nota dos editores ou autores, que possuía o intuito de orientar o leitor a localizar informações adicionais ao referido conteúdo. Essa nova prática almejava facilitar a volta às “fontes”, um dos lemas humanistas da renascença. Acreditava-se que a informação, assim como a água, era mais pura conforme se aproximava da nascente. 
Houveram mudanças também na organização da informação, com o surgimento da ordem alfabética em substituição à organização por assunto. Ideia já antiga, empregada anteriormente na enciclopédia bizantina nomeada Suidas, mas até o final do século XVII, a organização por ordem alfabética era extremamente rara. 
As novas modalidades de leitura, escrita e organização da informação causaram suas próprias consequências imprevistas e efeitos colaterais. Umas das consequências sociais foi o aparecimento de novas ocupações: além do aumento do número de editores, a imprensa trouxe também ocupações como a de revisor e bibliotecário, indexadores, catalogadores, e compiladores de enciclopédias.
Houve uma tendência geral para especialização e fragmentação do conhecimento, e o mundo dos livros tornou-se aos poucos um objeto de estudo em si, mais do que um meio de entender o mundo. Segundo o escritor religioso Richard Baxter, em Holy Commonwealth (1659) “dividimos artes e ciências em fragmentos, de acordo com as limitações de nossas capacidades, e não somos tão pansóficos a ponto de uno intuitu enxergarmos o todo. ” Ocorreu um avanço do conhecimento no nível coletivo, e mais informação foi disponibilizada, mas o ser humano mudou seu estilo de leitura e de absorção de informação. 
Há divergências quanto a decisão de quem foi o último polímeta, destacam-se Leibniz, que fez contribuições originais em campos como a matemática, história, e biblioteconomia, e o inglês Meric Casaubon, que escreveu uma apologia nomeada por ele de “conhecimentos gerais”, em meados do século XVII. 
O autor do artigo gens de lettres da Encyclopedie declarou que ‘’o conhecimento universal já não está ao alcance do homem’’, conselho que continua apropriado até hoje.

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