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Prévia do material em texto

Donald A. Schõn
Educando o
Profissional Reflexivo
um novo design para o ensino e a aprendizagem
Tradução:
Roberto CataIdo Costa
Consultoria, supervisão e revisão técnica desta edição:
Beatriz Vargas Dorneies
Professora Adjunta da Faculdade de Educação da UFRGS.
ARINED¥EDITORA
S O B R E
O
A U T O R
D o n a l d
S c h õ n
f o i P r o f e s s o r
d e
E s t u d o s
U r b a n o s
e
E d u c a ç ã o
n o
I n s t i t u t o
d e
T e c n o l o g i a d e
M a s s a c h u s e t s . F o r m o u - s e
e m f i l o s o f i a
e m
1 9 5 1 , n a U n i v e r s i d a d e
d e
Y a l e ,
e
é m e s t r e
( 1 9 5 2 )
e P h . D .
( 1 9 5 5 ) ,
e m
f i l o s o f i a , p e l a U n i v e r s i d a d e
d e
H a r v a r d .
T a m b é m e s t u d o u
n a
S o r b o n n e
e
n o
C o n s e r v a t o i r e
N a t i o n a l e , e m
P a r i s , F r a n ç a .
E m
s e u t r a b a l h o
c o m o
p e s q u i s a d o r
e c o n s u l t o r , S c h õ n c o n c e n t r o u - s e
n o
a p r e n ¬
d i z a d o
o r g a n i z a c i o n a l
e n a e f i c á c i a p r o f i s s i o n a l .
D u r a n t e s e t e
a n o s ,
a n t e s d e s u a
i n d i ¬
c a ç ã o p a r a
o c o r p o d o c e n t e d o
M . I . T . , S c h õ n f o i
p r e s i d e n t e
d a
O r g a n i z a ç ã o p a r a
a
I n o v a ç ã o
S o c i a l
e T é c n i c a
( O S T I ) ,
u m a
o r g a n i z a ç ã o
s e m f i n s
l u c r a t i v o s
q u e e l e a j u d o u
a f u n d a r .
D e s e m p e n h o u
i n ú m e r o s
o u t r o s
p a p é i s
a d m i n i s t r a t i v o s
e
c o n s u l t i v o s j u n t o
a
a g ê n c i a s
d o g o v e r n o
e à i n d ú s t r i a p r i v a d a .
S c h õ n
t e v e
p a r t i c i p a ç ã o
a t i v a e m
u m
g r a n d e n ú m e r o
d e o r g a n i z a ç õ e s p r o ¬
f i s s i o n a i s
e
f o i
m e m b r o
d a
C o m i s s ã o
s o b r e
o a n o
2 0 0 0 d a A c a d e m i a A m e r i c a n a
d e A r t e s e C i ê n c i a s e d a C o m i s s ã o s o b r e
S i s t e m a s
S o c i o t é c n i c o s
d o
C o n s e l h o N a c i o ¬
n a l d e
P e s q u i s a .
S 3 7 1 e
S c h õ n , D o n a l d A .
E d u c a n d o
o
p r o f i s s i o n a l r e f l e x i v o :
u m
n o v o
d e s i g n
p a r a
o
e n s i n o
e a a p r e n d i z a g e m
/
D o n a l d
A .
S c h õ n ;
t r a d .
R o b e r t o
C a t a l d o
C o s t a
-
P o r t o A l e g r e : A r t e s M é d i c a s
S u l ,
2 0 0 0 .
1 . E d u c a ç ã o
-
M e t o d o l o g i a
d e e n s i n o .
I .
T í t u l o .
C D U
6 7 1 . 3
C a t a l o g a ç ã o n a p u b l i c a ç ã o : M ô n i c a
B a l l e j o
C a n t o - C R B
1 0 / 1 0 2 3
T T H T
O C
" 7 2
A " 7
< 2 Q
A
CAPíTULO 2
ENSINANDO O TALENTO ARTíSTICO
ATRAVÉS DA REFLE
CONHECER-NA-AÇÃO
Tenho usado o termo talento artístico profissional para referir-me aos
tipos de competência que os profissionais demonstram em certas situações da
prática que são únicas, incertas e conflituosas. Observe, no entanto, que o
talento artístico é uma variante poderosa e esotérica do tipo mais familiar de
competência que todos nós exibimos no dia-a-dia, em um sem-número de atos
de reconhecimento, julgamento e performance habilidosa. O que chega a ser
surpreendente sobre esses tipos de competência é que eles não dependem de
nossa capacidade de descrever o que sabemos fazer ou mesmo considerar,
conscientemente, o conhecimento que nossa ações revelam. Como já observou
Gilbert Ryle, “O que distingue a operação sensata daquela sem sentido não é a
sua origem, mas os seus procedimentos, e isso não é menos verdadeiro para as
performances intelectuais do que para as práticas. ‘Inteligente’ não pode ser
definido em termos como ‘intelectual’, ou o ‘saber como fazer’ em termos de
‘saber que’. O ‘pensar o que estou fazendo’ não implica ‘ao mesmo tempo,
pensar o que fazer e fazê-lo’. Quando faço algo de forma inteligente!... ) estou
fazendo uma coisa e não duas. Minha performance tem um procedimento ou
uma maneira especial, e não antecedentes especiais” (1949, p. 32). Por razões
semelhantes, meu falecido amigo Raymond H. Hainer falava de “saber mais do
que se pode dizer”, e Michael Polanyi, em The Tacit Dimension (1967), cunhou
o tenno conhecimento tácito.
Polanyi escreveu, por exemplo, sobre a virtuosidade extraordinária com a
qual reconhecemos os rostos das pessoas que nos são familiares. Ele chamou a
atenção para o fato de que, quando notamos um rosto familiar na multidão,
nossa experiência de reconhecimento é imediata. Em geral, não estamos cons¬
cientes de qualquer raciocínio anterior ou de qualquer comparação desse rosto
com outros rostos guardados na memória. Nós simplesmente vemos o rosto da
M
Victor Campelo
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3 0
/
D O N A L D
A . S C H õ N
p e s s o a
q u e
c o n h e c e m o s .
E
s e
a l g u é m n o s
p e r g u n t a s s e
d e q u e f o r m a
o
f a z e m o s ,
o u s e j a ,
c o m o
d i s t i n g u i m o s
u m r o s t o
p a r t i c u l a r
d e
c e n t e n a s
d e
o u t r o s
m a i s o u
m e n o s
s e m e l h a n t e s
a
e l e ,
p r o v a v e l m e n t e
r e s p o n d e r í a m o s
q u e n ã o
s a b e m o s .
N o r m a l m e n t e ,
n ã o s o m o s
c a p a z e s d e
c o n s t r u i r
u m a
l i s t a
d e c a r a c t e r í s t i c a s
e s p e ¬
c í f i c a s
d e s s e
r o s t o ,
d i s t i n t a s
d a s o u t r a s
à
v o l t a
d e l e ;
e , m e s m o
s e p u d é s s e m o s
f a z ê - l o ,
o
c a r á t e r
i m e d i a t o
d e n o s s o
r e c o n h e c i m e n t o
s u g e r i r i a
q u e e l e
n ã o a c o n ¬
t e c e
p o r u m a
l i s t a g e m
d e c a r a c t e r í s t i c a s .
P o l a n y i
t a m b é m
d e s c r e v e u n o s s a
e x t r a o r d i n á r i a
a p r e c i a ç ã o
t á t i l
d a s
s u p e r ¬
f í c i e s d o s
m a t e r i a i s .
S e n o s p e r g u n t a m
o
q u e s e n t i m o s
a o e x p l o r a r
a
s u p e r f í c i e d e
u m a
m e s a c o m
a
m ã o ,
p o d e m o s
d i z e r
q u e s e n t i m o s
a
m e s a
l i s a ,
á s p e r a ,
f r i a ,
p e g a j o s a
o u
e s c o r r e g a d i a ,
m a s é i m p r o v á v e l
q u e d i g a m o s
q u e
s e n t i m o s
u m a
c e r t a
c o m p r e s s ã o
o u
a b r a s ã o
n a s
p o n t a s
d o s d e d o s .
N o
e n t a n t o , d e v e
s e r d e s s e t i p o
d e
s e n s a ç ã o
q u e r e c e b e m o s n o s s a
a p r e c i a ç ã o
d a s
q u a l i d a d e s d a
s u p e r f í c i e d a
m e s a .
I
N a s
p a l a v r a s d e P o l a n y i ,
n o s s a p e r c e p ç ã o p a r t e
d a s s e n s a ç õ e s
n a s
p o n t a s
d o s I
d e d o s
p a r a
a s
q u a l i d a d e s d a
s u p e r f í c i e . D a m e s m a
f o r m a ,
q u a n d o
u s a m o s
u m
I
g r a v e t o
p a r a e x p l o r a r
u m b u r a c o
e m u m a p a r e d e
d e p e d r a ,
p r e s t a m o s
a t e n ç ã o
I
n ã o
n a s
i m p r e s s õ e s
d o g r a v e t o
n a s
p o n t a s
d o s d e d o s o u n a s
p a l m a s d a s
m ã o s ,
I
m a s s i m n a s q u a l i d a d e s d o b u r ac o
-
s u a
f o r m a
e
t a m a n h o ,
a s
s u p e r f í c i e s d a s
I
p e d r a s
e m
t o m o
d e l e
-
a s
q u a i s
a p r e e n d e m o s
a t r a v é s d e s s a s i m p r e s s õ e s t á c i t a s . I
C a p a c i t a r - s e n o u s o
d e u m a f e r r a m e n t a é a p r e n d e r a a p r e c i a r , d i r e t a m e n t e
e
s e m
I
r a c i o c í n i o
i n t e r m e d i á r i o , a s q u a l i d a d e s
d o s
m a t e r i a i s q u e a p r e e n d e m o s a t r a v é s I
d a s
s e n s a ç õ e s t á c i t a s
d a f e r r a m e n t a e m
n o s s a s m ã o s .
T a i s p r o c e s s o s d e
r e c o n h e c i m e n t o
e
a p r e c i a ç ã o ,
m u i t a s v e z e s ,
t o m a m
a
f o n n a
d e
j u l g a m e n t o s n o r m a t i v o s .
N o
p r ó p r i o
a t o a t r a v é s
d o
q u a l
r e c o n h e c e m o s
a l g o ,
t a m b é m
p e r c e b e m o s e s s e
a l g o
c o m o “ c e r t o ” o u “ e r r a d o ” .
C h r i s A l e x a n d e r
( 1 9 6 8 )
d e s c r e v e u c o m o o s a r t e s ã o s r e c o n h e c e m
o
d e s a j u s t e
d e u m
e l e m e n t o
e m
r e l a ç ã o
a
u m p a d r ã o
g e r a l
-
s e u e x e m p l o
m a i s
f a m o s o
é a
c o n f e c ç ã o d e x a l e s
d o s
c a m p o n e s e s
e s l o v a c o s - s e m q u e
h a j a
a m e n o r h a b i l i d a d e o u
n e c e s s i d a d e
d e
d e s c r e v e r
a s n o r m a s q u e e l e s c o n s i d e r a m t e r s i d o v i o l a d a s .
E
G e o f f r e y V i c k e r s
( 1 9 7 8 ) ,
a o c o m e n t a r o
e x e m p l o
d e
A l e x a n d e r ,
o b s e r v o u q u e n ã o
s ó
n o
j u l g a ¬
m e n t o a r t í s t i c o , m a s e m t o d o s o s n o s s o s
j u l g a m e n t o s
o r d i n á r i o s
d a s
q u a l i d a d e s
d a s
c o i s a s , s o m o s
c a p a z e s d e
r e c o n h e c e r
e d e s c r e v e r d e s v i o s
d e
a l g u m a n o r m a
d e f o r n i a m u i t o
m a i s c l a r a
d o q u e
a
p r ó p r i a n o r m a .
T a l
c a p a c i d a d e
p a r e c e
t e r
m u i t o
a v e r
c o m
a m a n e i r a
c o m o a p r e n d e m o s
n o v a s
h a b i l i d a d e s . U m p r o f e s s o r d e t ê n i s
q u e
c o n h e ç o e s c r e v e , p o r e x e m p l o ,
q u e
e l e s e m p r e
c o m e ç a
t e n t a n d o
a j u d a r s e u s a l u n o s a t e r e m
a s e n s a ç ã o d e
“ b a t e r c e r t o n a b o l a ” . U m a
v e z q u e e l e s t e n h a m r e c o n h e c i d o e s s a s e n s a ç ã o e
g o s t a d o
d e l a , e a p r e n d a m a
d i s t i n g u i - l a
d a s v á r i a s s e n s a ç õ e s
a s s o c i a d a s c o m
“ b a t e r
e r r a d o
n a
b o l a ” ,
e l e s c o m e ç a m a s e r c a p a z e s d e d e t e c t a r e
c o r r i g i r s e u s
p r ó p r i o s e r r o s .
E ,
e m g e r a l ,
n ã o s ã o
c a p a z e s e
n ã o p r e c i s a m
d e s c r e v e r
c o m o
é e s s a s e n s a ç ã o o u
p o r q u e m e i o s e l e s a
p r o d u z e m .
M é d i c o s
h a b i l i d o s o s
f a l a m d a c a p a c i d a d e d e
r e c o n h e c e r
u m a
d o e n ç a
e s p e c í f i c a , d e v e z e m q u a n d o ,
n o m o m e n t o
e m
q u e u m a
p e s s o a a t i n g i d a
p o r
e l a
e n t r a
n o c o n s u l t ó r i o .
O
r e c o n h e c i m e n t o
v e m i m e d i a t a m e n t e ,
c o m o u m
t o d o , e
e m b o r a o
m é d i c o
p o s s a
d e s c o b r i r
m a i s
t a r d e ,
e m
s u a i n v e s t i g a ç ã o ,
q u e o
p a c i e n t e
a p r e s e n t a
t o d o
u m
c o n j u n t o
d e
s i n t o m a s
p a r a s e u d i a g n ó s t i c o ,
e l e ,
m u i t a s v e z e s ,
n ã o
é c a p a z
d e d i z e r q u e
s i n t o m a
e s p e c i f i c a m e n t e
f o i
r e s ¬
p o n s á v e l
p o r s e u j u l g a m e n t o
i m e d i a t o .
C h e s t e r B a r n a r d e s c r e v e u ,
n o a p ê n d i c e d e T h e F u n c t i o n s
o f
t h e E x e c u ¬
t i v e
( 1 9 3 8 / 1 9 6 8 ) ,
s o b r e
o s “ p r o c e s s o s
n ã o - l ó g i c o s ”
a t r a v é s
d o s q u a i s
r e a l i -
Victor Campelo
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EDUCANDO O PROFISSIONAL REFLEXIVO / 31
zamos julgamentos habilidosos, decisões e ações que tomamos espontanea¬
mente, sem que possamos declarar as regras ou os procedimentos que segui¬
mos. Um garoto que tenha aprendido a atirar uma bola, por exemplo, faz
julgamentos imediatos sobre a distância e coordena-os com os julgamentos
imediatos envolvidos no ato de atirar a bola, mesmo que não possa dizer como
o faz ou mesmo a distância que estima. Uma aluna do ensino médio que tenha
aprendido a resolver equações biquadradas pode efetuar uma série de opera¬
ções espontaneamente, sem que seja capaz de dar uma descrição precisa dos
procedimentos que segue para fazê-las. Um contador experiente, conhecido de
Barnard, podia “pegar uma folha de balanço de considerável complexidade e,
em questão de minutos ou mesmo segundos, obter um conjunto de fatos signi¬
ficativos sobre ela” (p. 306), embora não fosse capaz de descrever em palavras
os julgamentos e os cálculos que utilizava em sua operação.
De forma semelhante, aprendemos a executar atividades complexas, como
arrastar-nos, caminhar, fazer malabarismo ou andar de bicicleta, sem poder dar
uma descrição verbal, ainda que grosseiramente adequada, da nossa performan-
\y cereal. Na verdade, se nos perguntarem como fazemos tais ações, tendemos a dar
/ / respostas erradas, de modo que, se estivéssemos agindo de acordo com elas,/ $ iriam causar-nos problemas. Quando se pergunta às pessoas que sabem andar dey wí' bicicleta, por exemplo, como não cair quando a bicicleta começa a inclinar-sef v para a esquerda, algumas dirão que se reequilibram movendo a roda à direita. Sey w elas realmente o fizessem, provavelmente cairiam. Felizmente, o conhecimento, .v implícito em suas ações é incoerente com sua descrição.
Usarei a expressão conhecer-na-ação para referir-me aos tipos de co¬
nhecimento que revelamos em nossas ações inteligentes - performances físi¬
cas, publicamente observáveis, como andar de bicicleta, ou operações priva¬
das, como a análise instantânea de uma folha de balanço. Nos dois casos, o
ato de conhecer está na ação. Nós o revelamos pela nossa execução capa-
<J / citada e espontânea da performance, e é uma característica nossa sermost $ incapazes de torná-la verbalmente explícita.
i v V Apesar disso, é possível, às vezes, através da observação e da reflexão
f Y' ,i! sobre nossas ações, fazermos uma descrição do saber tácito que está implícitoV 1 nelas. Nossas descrições serão de diferentes tipos, dependendo de nossos pro-
-.Jf pósitos e das linguagens disponíveis para essas descrições. Podemos fazer refe-rência, por exemplo, às sequências de operações e procedimentos que execu¬
tamos; aos indícios que observamos e às regras que seguimos; ou aos valores, às
estratégias e aos pressupostos que formam nossas “teorias” da ação.
Qualquer que seja a linguagem que venhamos a empregar, nossas des¬
crições do ato de conhecer-na-ação são sempre construções. Elas são sempre
tentativas de colocar de forma explícita e simbólicaum tipo de inteligência
f V que começa por ser tácita e espontânea. Nossas descrições são conjecturas
que precisam ser testadas contra observações de seus originais, dos quais,
pelo menos em um certo aspecto, elas provavelmente distorcerão. Porque o
processo de conhecer-na-ação é dinâmico, e os “fatos”, os “procedimentos” e
as “teorias” são estáticos. Quando sabemos como pegar uma bola, por exem¬
plo, antecipamos a vinda da bola pela forma como estendemos e colocamos
nossas mãos em concha e pelos ajustes sequenciais que fazemos à medida
que a bola se aproxima. Pegar uma bola é uma atividade contínua, na qual
consciência, apreciação e ajuste fazem seu papel. Da mesma forma, serrar em
uma linha traçada com lápis requer um processo mais ou menos contínuo de
r
::
r
r
y
, *
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D O N A L D A . S C H O N
d e t e c ç à o
e
c o r r e ç ã o
d e d e s v i o s
d a
l i n h a . D e
f a t o ,
é e s s e
a j u s t e
e e s s a e x p e c -
t a t i v a s e q u e n c i a i s ,
e s s a s c o n t í n u a s
d e t e c ç à o
e c o r r e ç ã o
d e e r r o q u e
n o s
l e v a m ,
e m p r i m e i r o
l u g a r ,
a c h a m a r
a a t i v i d a d e
d e
“ i n t e l i g e n t e ” .
C o n h e c e r
s u g e r e a
q u a l i d a d e
d i n â m i c a d e
c o n h e c e r - n a - a ç ã o ,
a
q u a l , q u a n d o
d e s c r e v e m o s ,
c o n ¬
v e r t e m o s
e m
c o n h e c i m e n t o -
n a - a ç ã o .
R E F L E X Ã O
N A - A Ç Ã O
Q u a n d o a p r e n d e m o s
a f a z e r
a l g o ,
e s t a m o s a p t o s
a e x e c u t a r
s e q u ê n c i a s
f á c e i s d e
a t i v i d a d e ,
r e c o n h e c i m e n t o ,
d e c i s ã o
e a j u s t e
s e m
t e r , c o m o
s e
d i z ,
“ q u e
p e n s a r a r e s p e i t o ” .
N o s s o a t o
e s p o n t â n e o
d e
c o n h e c e r - n a - a ç ã o
g e r a l ¬
m e n t e n o s p e r m i t e
d a r
c o n t a
d e
n o s s a s
t a r e f a s .
N o
e n t a n t o , n e m
s e m p r e é
b e m a s s i m .
U m a r o t i n a c o m u m
p r o d u z
u m r e s u l t a d o
i n e s p e r a d o ,
u m e r r o
t e i m a e m r e s i s t i r
à c o r r e ç ã o ,
o u ,
a i n d a
q u e
a ç õ e s
c o m u n s
p r o d u z a m
r e s u l t a ¬
d o s
c o m u n s , h á a l g o
n e l a s q u e n o s
p a r e c e
e s t r a n h o ,
p o r q u e p a s s a m o s a
v ê - l a s
d e u m a
o u t r a m a n e i r a . T o d a s
e s s a s
e x p e r i ê n c i a s ,
a g r a d á v e i s
e
d e s a g r a d á v e i s ,
c o n t é m
u m e l e m e n t o
d e
s u r p r e s a .
A l g o
n ã o
e s t á
d e
a c o r d o
c o m n o s s a s
e x -
p e c t a t i v a s .
E m
u m a t e n t a t i v a
d e p r e s e r v a r
a
c o n s t â n c i a
d e
n o s s o s
p a d r õ e s
n o r m a i s
d e c o n h e c e r - n a - a ç ã o ,
p o d e m o s r e s p o n d e r
à
a ç ã o c o l o c a n d o - a
d e
l a d o ,
i g n o r a n d o
s e l e t i v a m e n t e o s
s i n a i s
q u e a p r o d u z e m .
O u
p o d e m o s r e s ¬
p o n d e r a
e l a a t r a v é s
d a
r e f l e x ã o
e t e m o s
d u a s
f o r m a s
d e f a z ê - l o .
P o d e m o s
r e f l e t i r s o b r e
a a ç ã o ,
p e n s a n d o
r e t r o s p e c t i v a m e n t e
s o b r e
o
q u e
\
f i z e m o s ,
d e m o d o
a
d e s c o b r i r c o m o
n o s s o a t o
d e
c o n h e c e r - n a - a ç ã o p o d e
t e r
1
c o n t r i b u í d o
p a r a u m
r e s u l t a d o i n e s p e r a d o . P o d e m o s
p r o c e d e r
d e s s a f o r m a
a p ó s o
f a t o ,
e m u m a m b i e n t e
d e t r a n q u i l i d a d e , o u
p o d e m o s
f a z e r
u m a
p a u s a
n o
m e i o
d a a ç ã o p a r a
f a z e r
o q u e
H a n n a h A r e n d t
( 1 9 7 1 )
c h a m a d e
“ p a r a r
e
p e n ¬
s a r ” .
E m a m b o s
o s
c a s o s ,
n o s s a
r e f l e x ã o
n ã o
t e m
q u a l q u e r c o n e x ã o
c o m a a ç ã o
p r e s e n t e .
C o m o
a l t e r n a t i v a ,
p o d e m o s
r e f l e t i r
n o m e i o
d a
a ç ã o ,
s e m i n t e r r o m p ê -
l a .
E m
u m p r e s e n t e - d a - a ç â o ,
u m
p e r í o d o
d e
t e m p o
v a r i á v e l c o m o
c o n t e x t o ,
d u r a n t e o q u a l
a i n d a
s e p o d e
i n t e r f e r i r
n a
s i t u a ç ã o
e m
d e s e n v o l v i m e n t o ,
n o s s o
p e n s a r s e r v e p a r a d a r n o v a f o r m a a o
q u e e s t a m o s
f a z e n d o ,
e n q u a n t o
a i n d a
o
f a z e m o s .
E u
d i r i a , e m
c a s o s c o m o
e s t e , q u e r e f l e t i m o s -
n « - a ç ã o .
R e c e n t e m e n t e ,
p o r
e x e m p l o , c o n s t r u í
u m
p o r t ã o
d e e s t a c a s d e m a d e i r a e
c o r r e i a s .
E u h a v i a f e i t o
u m d e s e n h o
e
p e n s a d o s o b r e
a s d i m e n s õ e s q u e
q u e r i a ,
m a s
n ã o
h a v i a
a v a l i a d o o p r o b l e m a
d e
c o m o
m a n t e r f i r m e
o f o r m a t o q u a d r a d o
d a e s t r u t u r a . À m e d i d a
q u e
c o m e c e i
a p r e g a r a s
c o r r e i a s
à s e s t a c a s ,
n o t e i
u m a
o s c i l a ç ã o . E u s a b i a
q u e a
e s t r u t u r a i r i a t o m a r - s e
r í g i d a q u a n d o e u
p r e g a s s e u m a
p e ç a e m
d i a g o n a l ,
m a s
c o m o
p o d e r i a
t e r c e r t e z a
d e
q u e
e l a
f o r m a r i a
u m q u a ¬
d r a d o ? V e i o - m e
à
m e n t e
u m a v a g a l e m b r a n ç a a
r e s p e i t o
d a s d i a g o n a i s : e m u m
r e t â n g u l o ,
a s
d i a g o n a i s
s ã o
i g u a i s . P e g u e i
u m
m e t r o
d e
m a d e i r a ,
c o m
a i n t e n ç ã o
d e m e d i r
a s
d i a g o n a i s ,
m a s
d e s c o b r i q u e n ã o p o d e r i a u s á - l o
s e m
m o v e r
a
e s t r u ¬
t u r a .
O c o r r e u - m e u s a r
u m
p e d a ç o
d e
c o r d a .
E n t ã o ,
n o t e i
q u e , p a r a
m e d i r
a s
d i a g o n a i s , e u
p r e c i s a v a
d a e x a t a
l o c a l i z a ç ã o
d e c a d a
c a n t o . D e p o i s
d e
v á r i a s
t e n t a t i v a s ,
d e s c o b r i
q u e
p o d e r i a
l o c a l i z a r o p o n t o
c e n t r a l d e c a d a
c a n t o
t r a ç a n d o
d i a g o n a i s
a l i
( v e r
i l u s t r a ç ã o ) .
C o l o q u e i
u m
p r e g o
e m
c a d a u m
d o s q u a t r o
p o n t o s
c e n t r a i s
e
u s e i o s p r e g o s c o m o
a p o i o
p a r a
a
c o r d a
u s a d a p a r a m e d i r . L e v e i v á r i o s
m i n u t o s
p a r a
e n t e n d e r
c o m o
a j u s t a r a
e s t r u t u r a d e f o r m a a
c o r r i g i r
o s
e r r o s q u ed e t e c t e i p e l a
m e d i ç ã o .
E ,
q u a n d o o b t i v e a s
d i a g o n a i s
i g u a i s , p r e g u e i u m
p e d a ç o
d e
c o r d a p a r a m a n t e r a e s t r u t u r a i m ó v e l .
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EDUCANDO O PROFISSIONAL REFLEXIVO / 33
X
\
x
Aqui, em um exemplo que deve ter seus análogos nas experiências
de carpinteiros amadores no mundo todo, minha forma intuitiva de desen¬
volver a tarefa levou-me a uma surpresa (a descoberta da oscilação), a qual
interpretei como um problema. Durante a ação, inventei procedimentos para
resolver o problema, descobri mais surpresas desagradáveis e produzi mais
invenções corretivas, incluindo várias de menor importância, mas necessá¬
rias para levar adiante a idéia de usar uma corda para medir a diagonal.
Podemos chamar esse processo de “tentativa e erro”. Porém, as tentativas não
se relacionam aleatoriamente umas com as outras. A reflexão sobre cada ten¬
tativa e seus resultados prepara o campo para a próxima. Tal padrão de in¬
vestigação é melhor descrito como uma sequência de "momentos" em um
processo de reflexão-na-ação:
•Para começar, há uma situação de ação para a qual trazemos respostas
espontâneas e de rotina. Elas revelam um processo de conhecer-na-
ação que pode ser descrito em termos de estratégias, compreensão de
fenômenos e formas de conceber uma tarefa ou problema adequado à
situação. Conhecer-na-ação é um processo tácito, que se coloca es¬
pontaneamente, sem deliberação consciente e que funciona, propor¬
cionando os resultados pretendidos, enquanto a situação estiver den¬
tro dos limites do que aprendemos a tratar como normal.
•As respostas de rotina produzem uma surpresa - um resultado ines¬
perado, agradável ou desagradável, que não se encaixa nas cate¬
gorias de nosso conhecer-na-ação. Inerente à surpresa é o fato
de que ela chama nossa atenção. Por exemplo, posso não ter si¬
do surpreendido pela oscilação em meu portão porque não estava
atento a ele. A estrutura poderia não ter ficado quadrada, e eu po¬
deria nem ter notado.
•A surpresa leva à reflexão dentro do presente-da-ação. A reflexão é,
pelo menos em alguma medida, consciente, ainda que não preci¬
se ocorrer por meio de palavras. Levamos em consideração tanto o
evento inesperado como o processo de conhecer-na-ação que levou a
ele, perguntando-nos “O que é isso?” e, ao mesmo tempo, “Como
tenho pensado sobre isso?”. Nosso pensamento volta-se para o fe¬
nômeno surpreendente e, ao mesmo tempo, para si próprio.
•A reflexão-na-ação tem uma função crítica, questionando a estrutura
de pressupostos do ato de conhecer-na-ação. Pensamos criticamente
sobre o pensamento que nos levou a essa situação difícil ou essa
oportunidade e podemos, neste processo, reestruturar as estratégias
de ação, as compreensões dos fenômenos ou as formas de conceber
os problemas. Em meu exemplo, a surpresa desencadeada ao obser¬
var a oscilação levou-me a conceber um novo problema: “Como man¬
ter o portão no esquadro?”.
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3 4
/ D O N A L D
A . S C H õ N
•
A
r e f l e x ã o
g e r a
o e x p e r i m e n t o
i m e d i a t o .
P e n s a m o s
u m p o u c o
e
e x p e ¬
r i m e n t a m o s
n o v a s a ç õ e s
c o m o
o b j e t i v o
d e
e x p l o r a r
o s
f e n ô m e n o s
r e c é m - o b s e r v a d o s ,
t e s t a r n o s s a s
c o m p r e e n s õ e s
e x p e r i m e n t a i s
a c e r c a
d e l e s ,
o u
a f i r m a r a s a ç õ e s
q u e t e n h a m o s
i n v e n t a d o s
p a r a m u d a r
a s
c o i s a s
p a r a
m e l h o r .
C o m
m e u e x p e r i m e n t o
d a c o r d a
u s a d a
p a r a m e ¬
d i r , t e s t e i t a n t o
m i n h a
c o m p r e e n s ã o
d o a j u s t e
d o f o r m a t o
c o m o
i g u a l ¬
d a d e d e
d i a g o n a i s q u a n t o
a e f i c á c i a d o s
p r o c e d i m e n t o s
q u e
e u h a v i a
i n v e n t a d o
p a r a
d e t e r m i n a r
q u a n d o
a s
d i a g o n a i s
s ã o i g u a i s .
E x p e r i ¬
m e n t o s
i m e d i a t o s
p o d e m
f u n c i o n a r ,
n o
s e n t i d o
d e p r o p o r c i o n a r
o s
r e s u l t a d o s
p r e t e n d i d o s ,
o u p o d e m
p r o d u z i r
s u r p r e s a s
q u e e x i j a m
u m a
m a i o r r e f l e x ã o
e
e x p e r i m e n t a ç ã o .
A d e s c r i ç ã o
q u e
d e i é ,
c e r t a m e n t e ,
i d e a l i z a d a . O s m o m e n t o s
d e
r e f l e -
x ã o - n a - a ç ã o r a r a m e n t e
s ã o t ã o
c l a r o s ,
u m e m r e l a ç ã o
a o o u t r o ,
c o m o e u
o s
d e s c r e v i . A e x p e r i ê n c i a
d a s u r p r e s a p o d e a p r e s e n t a r - s e
d e f o r m a
a
p a r e c e r j á
i n t e r p r e t a d a . A
c r í t i c a e a
r e s t r u t u r a ç ã o d o a t o
d e
c o n h e c e r - n a - a ç ã o p o d e
s e r
r e s u m i d a
e m u m p r o c e s s o ú n i c o .
C o n t u d o ,
i n d e p e n d e n t e m e n t e
d a d i s t i n ç ã o
d e s e u s m o m e n t o s
o u
d a c o n s t â n c i a
d e s u a
s e q u ê n c i a ,
o q u e
d i s t i n g u e a
r e f l e x ã o - n a - a ç ã o
d e
o u t r a s f o r m a s
d e r e f l e x ã o
é s u a i m e d i a t a
s i g n i f i c a ç ã o p a r a
a a ç ã o .
N a
r e f l e x ã o - n a - a ç ã o ,
o
r e p e n s a r
d e
a l g u m a s
p a r t e s
d e
n o s s o c o n h e c e r -
n a - a ç ã o
l e v a
a
e x p e r i m e n t o s
i m e d i a t o s
e a m a i s p e n s a m e n t o s
q u e a f e t a m o
q u e
f a z e m o s
-
n a s i t u a ç ã o
e m
q u e s t ã o
e t a l v e z e m
o u t r a s
q u e p o s s a m o s
c o n s i d e r a r c o m o
s e m e l h a n t e s
a e l a .
A d i s t i n ç ã o
e n t r e
o s
p r o c e s s o s
d e r e f l e x ã o - n a - a ç ã o
e d e
c o n h e c e r - n a -
a ç ã o
p o d e s e r s u t i l .
A l g u é m
q u e e x e c u t a h a b i l i d o s a m e n t e
u m a
t a r e f a a j u s t a
s u a s r e s p o s t a s
à s
v a r i a ç õ e s n o s
f e n ô m e n o s . N e s s a a p r e c i a ç ã o
m o m e n t o
a
m o ¬
m e n t o d e u m
p r o c e s s o , o i n d i v í d u o
c o l o c a
e m a ç ã o u m v a s t o r e p e r t ó r i o
d e
i m a g e n s
d e
c o n t e x t o s
e
a ç õ e s .
A s s i m
s e n d o , u m a r r e m e s s a d o r d e b e i s e b o l
a d a p t a
s e u
e s t i l o
d e a r r e m e s s o
à s p a r t i c u l a r i d a d e s
d e u m b a t e d o r
e s p e cí f i c o
o u
d e u m a
s i t u a ç ã o
d e j o g o .
P a r a o p o r - s e à s
m u d a n ç a s
n a s e s t r a t é g i a s
d e u m
o p o n e n t e , u m
j o g a d o r d e t ê n i s e x e c u t a v a r i a ç õ e s
e m
s e u
j o g o
e m
f r a ç õ e s
d e
s e g u n d o s .
P o d e - s e
d i z e r ,
e m c a s o s c o m o e s t e ,
q u e o
e x e c u t a n t e
r e s p o n d e à
v a r i a ç ã o , a o
i n v é s d a
s u r p r e s a ,
p o r q u e a s
m u d a n ç a s n o
c o n t e x t o
e n a
r e s ¬
p o s t a
n u n c a u l t r a p a s s a m
a s
f r o n t e i r a s d o
f a m i l i a r .
T o d a v i a ,
e m u m
p r o c e s s o
q u e
p o d e p a r e c e r ,
d e f o r a ,
c o m o a q u e l e s
d e s c r i t o s
a c i m a ,
u m e x e c u t a n t e h a b i l i d o s o
p o d e i n t e g r a r
a r e f l e x ã o - n a - a ç ã o
n o d e c o r r e r
d e u m a t a r e f a e m a n d a m e n t o .
O u v i r e c e n t e m e n t e a h i s t ó r i a d e
u m
v i o l o n c e l i s t a
q u e
h a v i a s i d o
c o n v i d a d o
p a r a p a r t i c i p a r d a e x e c u ç ã o d e
u m a n o v a p e ç a
d e
m ú s i c a d e
c â m a r a .
P o r m o t i v o s
d e s a ú d e ,
e l e p e r d e u o s
p r i m e i r o s e n s a i o s
e a p a r e c e u
s o m e n t e
n a v é s p e r a
d a
a p r e s e n t a ç ã o . S e n t o u - s e
c o m o s o u t r o s
m ú s i c o s
e l e u , à
p r i m e i r a
v i s t a ,
a
d i f í c i l p a r t i t u r a , e x e c u t a n d o
a
m ú s i c a t ã o b e m q u e
o
m a e s t r o n ã o
p r e c i s o u
m u d a r a
d a t a
d a
a p r e s e n t a ç ã o .
À
m e d i d a q u e
o
m ú s i c o l i a o a r r a n j o ,
e l e
n ã o
p o d e r i a
s a b e r
a o c e r t o a o n d e
a
m ú s i c a e s t a v a i n d o . A i n d a a s s i m , d e v e t e r
s e n t i d o ,
a c a d a m o m e n t o , a
d i r e ç ã o
d e s e u
d e s e n v o l v i m e n t o ,
a s s i m i l a n d o e m s u a p r ó p r i a e x e c u ç ã o a s l i n h a s d e
d e s e n v o l v i m e n t o j á
t r a ç a d a s
p o r
o u t r o s .
E l e d e v e t e r
e n c o n t r a d o
s u r p r e s a s
p a r a a s
q u a i s
f o r m o u , d e
i m e d i a t o ,
u m a
i n t e r p r e t a ç ã o
g u i a d a p o r s e u s e n t i d o
e m e r g e n t e a
r e s p e i t o d o
t o d o . E e s s a e x e c u ç ã o
d e i x o u - o
c o m u m a c o m p r e ¬
e n s ã o r e n o v a d a d a p e ç a
e d e
c o m o t o c á - l a q u e
e l e
r e v e l a r i a n a f o r m a d e
c o n h e c e r - n a - a ç ã o
n o d i a d a
a p r e s e n t a ç ã o .
;
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EDUCANDO O PROFISSIONAL REFLEXIVO / 35
Quando os bons músicos de jazz improvisam juntos, eles demonstram
de forma semelhante uma reflexão-na-ação fluente, integrada à execução em
andamento. Escutando um ao outro, e escutando a eles próprios, sentem
aonde a música está indo e ajustam seu desempenho de acordo com isso.
Uma figura anunciada por um músico será assumida por outro, elaborada e
transformada em uma nova melodia. Cada músico faz invenções sequenciais
e responde a surpresas desencadeadas pelas invenções dos outros, mas o
processo coletivo da invenção musical é organizado em torno de uma estru¬
tura básica. Há um esquema comum de métrica, melodia e desenvolvimento
harmónico que dá à peça uma ordem previsível. Além disso, cada músico tem
à mão um repertório de figuras musicais em torno do qual ele pode tecer as
variações, quando a oportunidade surge. A improvisação consiste em variar,
combinar e recombinar um conjunto de figuras, dentro de um esquema que
dá coerência ao todo da peça. A medida que os músicos sentem as direções
nas quais a música está desenvolvendo-se, eles produzem novas compreen¬
sões dela. Refletem-na-ação sobre a música que estão produzindo coletiva¬
mente, ainda que isto não se dê, é claro, através das palavras.
O processo lembra os padrões conhecidos da conversação no dia-a-
dia. Em uma boa conversa - em alguns aspectos, previsível, em outros, não
- os participantes conhecem e desenvolvem temas da conversa, cada um
emitindo variações de seu repertório de coisas a dizer. A conversação é uma
improvisação verbal coletiva. Em alguns momentos, ela cai em rotinas con¬
vencionais - histórias com comentários e reações laterais, por exemplo, ou
discussões - as quais se desenvolvem de acordo com um passo e ritmo de
interação que os participantes parecem, sem deliberação consciente, desen¬
volver coletivamente, dentro de uma estrutura de divisão de trabalho que
evolui. Outras vezes, pode haver surpresas, mudanças inesperadas de frase
ou direções de desenvolvimento para as quais os participantes inventam
respostas imediatas.
Em exemplos desse tipo, os participantes estãofazendoalgo. A partir de
materiais musicais e temas para falar, eles fazem uma peça musical ou uma
conversa, um artefato com significado e coerência próprios. Sua reflexão-na-
ação é uma conversação reflexiva com os materiais de uma situação - “con¬
versação”, agora em um sentido metafórico. Cada pessoa desenvolve seu pró¬
prio papel, em evolução, na performance coletiva, “escuta” as surpresas - ou,
como direi, “respostas” - que resultam de movimentos anteriores e responde
através da produção sequencial de novos movimentos que dão novos signifi¬
cados e direções ao desenvolvimento do artefato. O processo lembra a descri¬
ção de Edmund Carpenter do escultor esquimó, esculpindo pacientemente
um osso de rena, examinando a forma que emerge gradualmente e, final¬
mente, exclamando, “Ah, foca!”.
Assim como o conhecer-na-ação, a reflexão-na-ação é um proces¬
so que podemos desenvolver sem que precisemos dizer o que estamos fa¬
zendo. Improvisadores habilidosos ficam, muitas vezes, sem palavras ou
dão descrições inadequadas quando se lhes pergunta o que fazem. É claro
que, sermos capazes de refletir-na-ação é diferente de sermos capazes
de refletir sobre nossa reflexão-na-ação, de modo a produzir uma boa
descrição ver-bal dela. E é ainda diferente de sermos capazes de refletir
sobre a descrição resultante.
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3 6 / D O N A L D
A . S C H õ N
C o n t u d o n o s s a
r e f l e x ã o
s o b r e n o s s a
r e f l e x ã o - n a - a ç ã o
p a s s a d a p o d e
c o n f o r m a r
i n d i r e t a m e n t e n o s s a
a ç ã o
f u t u r a .
A s
r e f l e x õ e s d e u m z a g u e i r o
n a
s e g u n d a - f e i r a d e m a n h ã
p o d e m
e s t a r c h e i a s
d e
s i g n i f i c a ç ã o s e
a
p e s s o a
q u e
r e f l e t e é o z a g u e i r o
q u e j o g a r á
n o p r ó x i m o
s á b a d o
-
e
j o g a r á
d i f e r e n t e m e n t e
p o r
c a u s a d e s e u j o g o
d e
s e g u n d a .
Q u a n d o p e n s o
e m
m i n h a e x p e r i ê n c i a
c o m
o
p o r t ã o
d e m a d e i r a ,
é p o s s í v e l c o n s o l i d a r
m i n h a
c o m p r e e n s ã od o
p r o b l e m a ,
o u
i n v e n t a r
u m a
s o l u ç ã o m e l h o r o u
m a i s
g e r a l p a r a
e l e . N e s s e
c a s o , m i n h a r e f l e x ã o p r e s e n t e
s o b r e
m i n h a
r e f l e x ã o - n a - a ç ã o
a n t e r i o r
d á
i n í ¬
c i o
a u m
d i á l o g o d e
p e n s a r e f a z e r a t r a v é s d o
q u a l p o s s o t o r n a r - m e
u m
c a r p i n t e i r o
m a i s h a b i l i d o s o
( e m b o r a
c o n t i n u e s e n d o
a m a d o r ) .
N a
v e r d a d e ,
c o m o v e r e m o s n o s
c a p í t u l o s s e g u i n t e s ,
e s s e s v á r i o s
n í v e i s e t i p o s
d e r e f l e ¬
x ã o d e s e m p e n h a m p a p é i s
i m p o r t a n t e s
n a
a q u i s i ç ã o
d o t a l e n t o a r t í s t i c o .
e m
q u e
t a m
o r g
d e
e m
t i v e
p r o
c o r
m u
i n s i
d a c
P R Á T I C A
l i m
s e u
A t é
a q u i ,
n e s t e
c a p í t u l o ,
t e n h o
f e i t o m u d a n ç a s
d e f o c o ,
d o
t a l e n t o
a r t í s ¬
t i c o
h a b i l i d o s o
e e s o t é r i c o
d a p r á t i c a
p r o f i s s i o n a l a t é
o
m a i s m u n d a n o
-
m a s
n ã o m e n o s i m p o r t a n t e
- t a l e n t o
a r t í s t i c o d a
v i d a
c o t i d i a n a .
T e n h o
f e i t o
i s s o n o
s e n t i d o
d e
m o s t r a r
q u e
a t o s
d e c o n h e c e r - n a - a ç ã o
e r e f l e x ã o - n a - a ç ã o e n t r a m
e m
e x p e r i ê n c i a s
d e p e n s a r e f a z e r q u e s ã o
c o m p a r t i l h a d a s p o r
t o d o s .
Q u a n d o
a p r e n d e m o s o t a l e n t o a r t í s t i c o
d e
u m a p r á t i c a
p r o f i s s i o n a l ,
n ã o
i m p o r t a n d o o
q u ã o s e p a r a d a
d a
v i d a
c o t i d i a n a
e l a p o s s a
p a r e c e r , a p r e n d e m o s
n o v a s
m a ¬
n e i r a s
d e
u s a r t i p o s
d e
c o m p e t ê n c i a s
q u e j á p o s s u í m o s .
C o n t u d o ,
o c o n t e x t o
d e u m a p r á t i c a
p r o f i s s i o n a l é
s i g n i f i c a t i v a m e n t e
d i f e r e n t e d e o u t r o s c o n t e x t o s ,
e
o s p a p é i s
d e c o n h e c e r - n a - a ç ã o e r e f l e x ã o - n a -
a ç ã o ,
n o
t a l e n t o
a r t í s t i c o
p r o f i s s i o n a l ,
c o r r e s p o n d e n t e m e n t e
d i f e r e n t e s .
E v e r e t t
H u g h e s , c o m o j á
m e n c i o n e i ,
d e f i n i a
o
p r o f i s s i o n a l
c o m o
a l g u é m
q u e
d e t é m o
c o n h e c i m e n t o
p r o f i s s i o n a l e m q u e s t õ e s
d e a l t a i m p o r t â n c i a
h u ¬
m a n a ( H u g h e s ,
1 9 5 9 ) .
E l e v i a a
r e i v i n d i c a ç ã o
d o p r o f i s s i o n a l
e m r e l a ç ã o
a o
c o n h e c i m e n t o
p r o f i s s i o n a l c o m o e n v o l v i d a
e m u m a
b a r g a n h a
c o m
a
s o c i e ¬
d a d e . E m t r o c a d o a c e s s o
a s e u
c o n h e c i m e n t o
e s p e c i a l , o
p r o f i s s i o n a l r e c e b e
u m
m a n d a t o
p a r a e x e r c e r c o n t r o l e s o c i a l
n a s
q u e s t õ e s
d e s u a e s p e c i a l i z a ç ã o ,
u m a
l i c e n ç a
p a r a d e t e r m i n a r q u e m e n t r a r á
e m s u a p r o f i s s ã o e u m g r a u
r e ¬
l a t i v a m e n t e a l t o
d e
a u t o n o m i a
n a r e g u l a m e n t a ç ã o d e s u a
p r á t i c a .
A s s i m ,
e m
u m a
í n t i m a
a s s o c i a ç ã o
c o m
a
p r ó p r i a
i d é i a d e p r o f i s s ã o ,
e n c o n t r a m o s
a i d é i a
d e u m a
c o m u n i d a d e
d e
p r o f i s s i o n a i s
c u j o
c o n h e c i m e n t o
e s p e c i a l
c o l o c a - o s
à
p a r t e
d e
o u t r o s
i n d i v í d u o s , e m
r e l a ç ã o a o s q u a i s
e l e s t ê m
d i r e i t o s
e
p r i ¬
v i l é g i o s
e s p e c i a i s .
U m a
p r á t i c a
p r o f i s s i o n a l é o
d o m í n i o
d e u m a
c o m u n i d a d e
d e p r o f i s ¬
s i o n a i s
q u e c o m p a r t i l h a m ,
n o s
t e r m o s
d e
J o h n
D e w e y , a s t r a d i ç õ e s
d e u m a
v o c a ç ã o . E l e s
c o m p a r t i l h a m
c o n v e n ç õ e s
d e a ç ã o q u e i n c l u e m m e i o s , l i n g u a ¬
g e n s e f e r r a m e n t a s
d i s t i n t i v a s
e o p e r a m
d e n t r o
d e
t i p o s
e s p e c í f i c o s
d e a m b i e n ¬
t e s
i n s t i t u c i o n a i s
-
o
t r i b u n a l ,
a
e s c o l a ,
o
h o s p i t a l
e a e m p r e s a , p o r e x e m p l o .
S u a s
p r á t i c a s s ã o e s t r u t u r a d a s
e m
t e r m o s d e
t i p o s
p a r t i c u l a r e s d e u n i d a d e s d e
a t i v i d a d e
-
c a s o s ,
p a c i e n t e s , v i s i t a s o u a u l a s ,
p o r
e x e m p l o
-
e
e l e s
e s t ã o s o c i a l
e
i n s t i t u c i o n a l m e n t e
p a d r o n i z a d o s , d e
f o r m a
a
a p r e s e n t a r o c o r r ê n c i a s
r e p e t i d a s
d e
t i p o s
p a r t i c u l a r e s
d e
s i t u a ç õ e s .
U m a
“ p r á t i c a ”
é
f e i t a d e
f r a g m e n t o s
d e a t i v i ¬
d a d e ,
d i v i s í v e i s e m
t i p o s
m a i s
o u m e n o s
f a m i l i a r e s ,
c a d a u m
d o s q u a i s s e n d o
v i s t o
c o m o
v o c a ç ã o p a r a
o e x e r c í c i o
d e
c e r t o t i p o
d e
c o n h e c i m e n t o .
u m
e n t
n o :
s i o
s i o
b u :
-
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Victor Campelo
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EDUCANDO O PROFISSIONAL REFLEXIVO / 37
As pessoas que exercem uma profissão são diferentes entre si, é claro,
suas subespecialidades, nas experiências e nas perspectivas particulares
que trazem para seu trabalho e em seus estilos de operação. Entretanto, elas
também compartilham um corpo de conhecimento profissional explícito e
organizado mais ou menos sistematicamente, que Geoffrey Vickers chamou
de um “sistema apreciativo” - o conjunto de valores, preferências e normas
em termos dos quais elas compreendem situações práticas, formulam obje¬
tivos e diretrizes para a ação e determinam o que constitui uma conduta
profissional aceitável.
O processo de conhecer-na-ação de um profissional tem suas raízes
contexto social e institucionalmente estruturado do qual compartilha
munidade de profissionais. Conhecer-na-prática é exercitado nos ambientes
institucionais particulares da profissão, organizados em termos de suas uni¬
dades de atividade características e seus tipos familiares de situações práticas e
limitado ou facilitado por seu corpo comum de conhecimento profissional e
seu sistema apreciativo.
Isso é o máximo que podemos dizer sem fazer referência explícita a
uma epistemologia particular da prática profissional. Além desse ponto, no
entanto, nossa visão do conhecimento de um profissional afetará em muito
nossas descrições das funções e das interações entre conhecimento profis¬
sional e talento artístico profissional.
Na perspectiva da racionalidade técnica, como já indiquei, um profis¬
sional competente está sempre preocupado com problemasinstrumentais. Ele
busca os meios mais adequados para a conquista de fins fixos e não-ambíguos
- na medicina, a saúde; no direito, o sucesso na disputa judicial; nos negócios,
o lucro - e sua eficácia é medida pelo sucesso em encontrar, em cada ins¬
tância, as ações que produzem os efeitos pretendidos, consistentes com seus
objetivos. Nessa visão, a competência profissional consiste na aplicação de
teorias e técnicas derivadas da pesquisa sistemática, preferencialmente cien¬
tífica, à solução de problemas instrumentais da prática.
Desse ponto de vista, podemos distinguir dois tipos de situações práti¬
cas e dois tipos diferentes de atos de conhecer apropriados a elas.
~ Há situações familiares, nas quais o profissional pode resolver o proble¬
ma pela aplicação rotineira de fatos, regras e procedimentos derivados da
bagagem de conhecimento profissional. No planejamento urbano, por exem¬
plo, há regras não-ofícíáís, mas aceitas, pelas quais um planejador pode cal¬
cular, sob um dado zoneamento regulamentado, o número de vagas de esta¬
cionamento necessárias para cada apartamento de um edifício. Em medicina,
há diagnósticos de rotina de pacientes e prescrições rotineiras para queixas
comuns e simples.
Há, também, situações incomuns nas quais o problema não fica inicial¬
mente claro e não há uma equivalência óbvia entre as características das situa¬
ções e o conjunto de teorias e técnicas disponíveis. É comum, nesse tipo de
situação, falar em “pensar como um médico” - ou advogado, ou adminis¬
trador - para referir-se aos tipos de investigação pelas quais profissionais
competentes aplicam conhecimentos disponíveis em situações práticas em
que sua aplicação é problemática. Nesse caso, a sequência comum da facul¬
dade de direito leva os estudantes através de um processo que começa com a
enunciação dos “fatos do caso” e continua através de padrões característicos
de raciocínio que determinam quais questões legais estão centralmente em
em
'I
no ’1uma co-
i
*í
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3 8
/
D O N A L D
A . S C H õ N
j o g o
n o
c a s o e q u e
p r e c e d e n t e s
j u d i c i a i s
s ã o
m a i s
p e r t i n e n t e s
a e l e .
D a m e s m a
f o r m a ,
o s
e s t u d a n t e s
d e m e d i c i n a
a p r e n d e m
a “ a n a l i s a r
u m a
d o e n ç a
e m
q u e s ¬
t ã o ”
e m q u e ,
c o m e ç a n d o
p o r
o b s e r v a ç õ e s
p a d r o n i z a d a s ,
e x a m e s
f í s i c o s , e n ¬
t r e v i s t a s
e t e s t e s
d e
l a b o r a t ó r i o ,
o
e s t u d a n t e
d e v e r a c i o c i n a r
e e n c o n t r a r
s e u
c a m i n h o
a t é u m
d i a g n ó s t i c o
p l a u s í v e l
d a d o e n ç a
d o p a c i e n t e
e u m a p r o p o s t a
d e e s t r a t é g i a
d e
t r a t a m e n t o .
D a p e r s p e c t i v a
d a r a c i o n a l i d a d e
t é c n i c a , o
“ p e n s a r
c o m o
u m
_
”
d e v e
s e r c o n s i d e r a d o
c o m o
s e n d o
u m a
i n v e s t i g a ç ã o
a u t o g o v e r n a d a .
O p r o ¬
f i s s i o n a l
c o m p e t e n t e
é v i s t o
s e g u i n d o
r e g r a s p a r a
a
o b t e n ç ã o
d e i n f o r m a ç õ e s ,
i n f e r ê n c i a
e t e s t e d e
h i p ó t e s e s ,
o
q u e
l h e p e r m i t e t o r n a r
c l a r a s
a s c o n e x õ e s
e n t r e a s s i t u a ç õ e s
q u e
s e
a p r e s e n t a m
e
o
c o r p o
d e c o n h e c i m e n t o
p r o f i s s i o n a l
e m q u e t a i s c o n e x õ e s
s ã o
i n i c i a l m e n t e
p r o b l e m á t i c a s .
P r e s u m e - s e
q u e e s s a s
r e g r a s s e j a m
e x p l i c á v e i s ,
o n d e
e l a s j á
n ã o e s t e j a m
e x p l í c i t a s .
O s
“ s i s t e m a s
e s p e c i a l i z a d o s ” ,
a t u a l m e n t e
e m
v o g a n a
m e d i c i n a
c l í n i c a ,
a s s i m
c o m o
e m
o u t r o s
c a m p o s ,
s ã o
t e n t a t i v a s
d e t o r n a r
e x p l í c i t a s
a s b a s e s
d e i n f o r m a ç ã o ,
a s
r e g r a s
e
o s
p r o c e d i m e n t o s
a t r a v é s d o s q u a i s
o
c o n h e c i m e n t o
p r o f i s s i o n a l
é
a p l i c a d o
a
c a s o s
p r o b l e m á t i c o s
p a r t i c u l a r e s
( K a s s i r e r
e G o r r y ,
1 9 7 0 ) .
D e n t r o
d e s s a
e s t r u t u r a ,
h á p o u c o
e s p a ç o
p a r a a t a l e n t o
a r t í s t i c o
p r o f i s ¬
s i o n a l , e x c e t o c o m o
u m a q u e s t ã o
d e
e s t i l o ,
e n x e r t a d a
n a e s p e c i a l i z a ç ã o
t é c ¬
n i c a . P o d e - s e
r e c o n h e c e r
a e x i s t ê n c i a
d e a r t i s t a s
p r o f i s s i o n a i s
c a p a z e s
d e
e n ¬
t e n d e r e m s i t u a ç õ e s
ú n i c a s
e i n c e r t a s ,
m a s
n ã o
h á
f o r m a
d e f a l a r s e n s i v e l m e n t e
s o b r e
s e u t a l e n t o a r t í s t i c o
-
e x c e t o ,
t a l v e z , d i z e r
q u e e l e s e s t ã o
s e g u i n d o r e g r a s
q u e
a i n d a n ã o s e t o r n a r a m
e x p l í c i t a s .
N a
e p i s t e m o l o g i a
d a
p r á t i c a
a l t e r n a t i v a
s u g e r i d a
n e s t e
l i v r o ,
o
t a l e n t o
a r t í s t i c o
p r o f i s s i o n a l
é e n t e n d i d o
e m t e r m o s
d e r e f l e x ã o - n a - a ç ã o
e c u m p r e u m
p a p e l c e n t r a l
n a d e s c r i ç ã o
d a
c o m p e t ê n c i a
p r o f i s s i o n a l .
N e s s a v i s ã o , r e c o n h e c e r í a m o s
c o m o
u m c a s o - l i m i t e
a s
s i t u a ç õ e s
n a s
q u a i s
é p o s s í v e l f a z e r
u m a a p l i c a ç ã o r o t i n e i r a
d a s
r e g r a s e
d o s
p r o c e d i m e n t o s
e x i s t e n t e s
a
s i t u a ç õ e s
p r o b l e m á t i c a s
e s p e c í f i c a s .
P a r a a l é m d e s s a s s i t u a ç õ e s ,
r e g r a s , t e o r i a s
e t é c n i c a s
c o n h e c i d a s
t r a b a l h a m
e m
i n s t â n c i a s
c o n c r e t a s ,
p o r
i n t e r m é d i o
d e u m a
a r t e q u e
c o n s i s t e
e m u m a f o r m a
l i m i t a d a
d e
r e f l e x ã o - n a -
a ç ã o .
E , p a r a
a l é m
d e s t a s ,
r e c o n h e c e r í a m o s
c a s o s
d e
d i a g n ó s t i c o s
p r o b l e m á ¬
t i c o s n o s
q u a i s o s
p r o f i s s i o n a i s n ã o
a p e n a s
s e g u e m a s
r e g r a s
d a i n v e s t i g a ç ã o ,
m a s
t a m b é m , à s v e z e s , r e s p o n d e m
a d e s c o b e r t a s
s u p r e e n d e n t e s a t r a v é s
d a
i n v e n ç ã o
i m e d i a t a d e n o v a s
r e g r a s .
E s s e t i p o
d e r e f l e x ã o - n a - a ç ã o
é f u n d a ¬
m e n t a l p a r a
o
t a l e n t o
a r t í s t i c o
c o m
o q u a l o s
p r o f i s s i o n a i s , m u i t a s
v e z e s ,
c o m p r e e n d e m s i t u a ç õ e s
i n c e r t a s , ú n i c a s
e
c o n f l i t u o s a s .
P o r e x e m p l o :
•
U m
m é d i c o , s a b e n d o q u e e m
t o m o
d e
8 5 %
d o s c a s o s
q u e e n t r a m e m s e u
c o n s u l t ó r i o n ã o
e s t ã o “ n o
m a n u a l ” ,
r e s p o n d ea o
c o n j u n t o ú n i c o d e s i n ¬
t o m a s
d e u m
p a c i e n t e
i n v e n t a n d o
e
t e s t a n d o
u m
n o v o
d i a g n ó s t i c o .
•
U m p e s q u i s a d o r
d e
m e r c a d o ,
m o n i t o r a n d o
a s r e a ç õ e s
d o s c o n s u m i ¬
d o r e s
a u m
n o v o
p r o d u t o ,
d e s c o b r e
q u e e l e s
e n c o n t r a r a m
u s o s p a r a
o
p r o d u t o q u e
e l e n u n c a t i n h a
p l a n e j a d o
e
r e s p o n d e r e p e n s a n d o o
p r o d u t o
e m
t e r m o s
d a s d e s c o b e r t a s d o s c o n s u m i d o r e s .
E m c a s o s c o m o
e s s e s ,
o
p r o f i s s i o n a l
e x p e r i m e n t a
u m a
s u r p r e s a q u e o
l e v a a r e p e n s a r s e u p r o c e s s o d e c o n h e c e r - n a - a ç ã o
d e
m o d o
a
i r a l é m d e
r e g r a s ,
f a t o s ,
t e o r i a s
e
o p e r a ç õ e s
d i s p o n í v e i s .
E l e
r e s p o n d e à q u i l o q u e é i n e s ¬
p e r a d o o u a n ó m a l o
a t r a v é s
d a r e e s t r u t u r a ç ã o d e
a l g u m a s
d e s u a s e s t r a t é g i a s
d e
a ç ã o ,
t e o r i a s
d e
f e n ô m e n o
o u f o r m a s d e
c o n c e b e r o
p r o b l e m a e
i n v e n t a
E N S I I >
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EDUCANDO O PROFISSIONAL REFLEXIVO / 39
experimentos imediatos para testar suas novas compreensões. Ele comporta-
se mais como um pesquisador tentando modelar um sistema especializado do
que como um “especialista” cujo comportamento é modelado.
Na base dessa visão da reflexão-na-ação do profissional está uma visão
construcionista da realidade com a qual ele lida - uma visão que nos leva a
vê-lo construindo situações de sua prática, não apenas no exercício do ta¬
lento artístico profissional, mas também em todos os outros modos de com¬
petência profissional.
A racionalidade técnica baseia-se em uma visão objetivista da relação
do profissional de conhecimento com a realidade que ele conhece. Nessa
visão, os fatos são o que são e a verdade das crenças é passível-de ser testada
estritamente com referência a elas. Todos os desacordos significativos são
solucionáveis, pelo menos em princípio, tomando-se os fatos como referên¬
cia. Todo o conhecimento profissional baseia-se em um alicerce de fatos.
Na visão construcionista, nossas visões, apreciações e crenças estão en¬
raizadas em mundos construídos por nós mesmos, que viemos a aceitar co¬
mo realidade. Comunidades de profissionais estão continuamente engajadas
no que Nelson Goodman (1978) chama de “visão de mundo”. Através de um
sem-número de atos de atenção e desatenção, designação, compreensão, es¬
tabelecimento de limites e controle, eles vêem e mantêm os mundos que são
adequados a seu conhecimento e know-how profissional. Eles estão em
transação com seus mundos práticos, concebendo os problemas que surgem
em situações práticas e moldando as situações para que sirvam nas concep¬
ções, concebendo seus papéis e construindo situações práticas que tornem
operacionais os papéis que lhes cabem na concepção. Resumindo, eles têm
uma maneira particular e profissional de ver o mundo e uma maneira de
construir e manter o mundo da forma como o vêem. Quando os profissionais
respondem a zonas indeterminadas da prática, sustentando uma conversação
reflexiva com os materiais de suas situações, eles refazem parte de seu mundo
prático e revelam, assim, os processos normalmente tácitos de construção de \
uma visão de mundo em que baseiam toda a sua prática.
i
!
5
ENSINO PRATICO
Quando alguém aprende uma prática, é iniciado nas tradições de uma
comunidade de profissionais que exercem aquela prática e no mundo prático
que eles habitam. Aprende suas convenções, seus limites, suas linguagens e
seus sistemas apreciativos, seu repertório de modelos, seu conhecimento
sistemático e seus padrões para o processo de conhecer-na-ação.
Pode-se fazer isso de várias maneiras. Raramente, é possível aprender a
prática por conta própria, que é a forma como as pessoas, às vezes, aprendem a
caça, a carpintaria ou a prática de crimes. Ele pode tomar-se um aprendiz de
profis-sionais mais experientes, como ainda fazem muitos artesãos, trabalhadores
industriais e outros. Ou pode entrar em uma atividade de ensino prático.
Aprender uma prática por conta própria tem a vantagem da liberdade -
liberdade para experimentar sem os limites das visões recebidas de outros.
Mas também oferece a desvantagem de exigir que cada aluno reinvente a
roda, ganhando pouco ou nada da experiência acumulada de outros. A con¬
dição de aprendiz oferece a exposição direta às condições reais de prática e
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4 0 /
D O N A L D
A . S C H õ N
p a d r õ e s
d e
t r a b a l h o . P o r é m
a m a i o r i a
d o s
e s c r i t ó r i o s ,
f á b r i c a s , f i r m a s »
c l í n i c a s
n ã o e s t á
o r g a n i z a d a p a r a
a s
t a r e f a s e x i g e n t e s
d a
i n i c i a ç ã o
e
d a
e d u c a B
ç ã o . A s p r e s s õ e s
p o r u m b o m
d e s e m p e n h o
t e n d e m
a
s e r
a l t a s ;
o
t e m p o
e * B
c a s s o ,
e o s
e r r o s ,
c a r o s . P r o f i s s i o n a i s
e x p e r i e n t e s
a p r e n d e r a m ,
a l é m
d i s s o ,
) B
e s p e r a r d o s
a p r e n d i z e s
q u e v e n h a m
e q u i p a d o s
c o m
h a b i l i d a d e s
p r á t i c a s
m l
d i m e n t a r e s . N o
e n t a n t o , m u i t o s
i n i c i a n t e s
a i n d a
s e
f o r m a m
a t r a v é s
d a c o n d B
ç ã o
d e
a p r e n d i z , e m u i t o s
p r o f i s s i o n a i s
e c r í t i c o s
e x p e r i e n t e s
d a
e d u c a ç à B
p r o f i s s i o n a l
a i n d a
a v ê e m c o m o
u m a o p ç ã o
d e
m é t o d o .
B
U m
a u l a
p r á t i c a
é u m a m b i e n t e
p r o j e t a d o
p a r a a
t a r e f a
d e
a p r e n d a !
u m a p r á t i c a . E m
u m
c o n t e x t o
q u e s e a p r o x i m a
d e u m m u n d o p r á t i c o ,
a W
e s t u d a n t e s
a p r e n d e m
f a z e n d o , a i n d a
q u e s u a
a t i v i d a d e
f i q u e
l o n g e
d o
m u n - 1
d o
r e a l
d o
t r a b a l h o .
E l e s a p r e n d e m
a s s u m i n d o p r o j e t o s
q u e e s t i m u l a m
e
s i m -
f
p l i f i c a m
a p r á t i c a o u
p r o j e t o s
r e a i s s o b u m a
s u p e r v i s ã o m i n u c i o s a .
U m a
a u l a
p r á t i c a
é u m m u n d o
v i r t u a l ,
r e l a t i v a m e n t e
l i v r e d e p r e s s õ e s ,
d i s t r a ç õ e s
e r i s c o s
d o m u n d o a o
q u a l , n o
e n t a n t o , e l e d i z r e s p e i t o .
F i c a n o
e s p a ç o
i n t e r m e d i á r i o
e n t r e o m u n d o p r á t i c o ,
a c a m a d a “ l e i g a ”
d a v i d a
o r d i n á r i a
e o m u n d o e s o t é ¬
r i c o
d a a c a d e m i a . É ,
t a m b é m ,
u m m u n d o c o l e t i v o
e m s i , c o m s u a p r ó p r i a
m i s t u r a
d e m a t e r i a i s ,
f e r r a m e n t a s , l i n g u a g e n s
e
a p r e c i a ç õ e s .
I n c o r p o r a
m a n e i ¬
r a s p a r t i c u l a r e s
d e v e r, p e n s a r
e f a z e r q u e
t e n d e m ,
c o m
o t e m p o ,
a t e r s u a
a u t o r i d a d e
c a d a v e z m a i s
r e f o r ç a d a n a
v i s ã o d o
e s t u d a n t e .
Q u a n d o
u m a e s t u d a n t e
i n i c i a u m a
a u l a
p r á t i c a , a p r e s e n t a m - s e
a
e l a ,
i m p l í c i t a
o u
e x p l i c i t a m e n t e ,
c e r t a s t a r e f a s f u n d a m e n t a i s .
E l a
d e v e a p r e n d e r a
•
r e c o n h e c e r
a
p r á t i c a
c o m p e t e n t e .
E l a d e v e
c o n s t r u i r
u m a
i m a g e m
d e s s a p r á t i -
>
c a , u m a
a p r e c i a ç ã o
d e s e u
l u g a r n a
r e l a ç ã o c o m
e s s a
p r á t i c a
e
u m
m a p a d o
i
c a m i n h o p o r o n d e
e l a p o d e
c h e g a r ,
d e
o n d e
e s t á ,
a t é o n d e q u e r
|
d e v e a c e i t a r
o s p r e s s u p o s t o s
i m p l í c i t o s d a q u e l a p r á t i c a :
q u e
e x i s t e u m a p r á ¬
t i c a ,
q u e é b o a o s u f i c i e n t e
p a r a
s e r a p r e n d i d a , q u e
e l a é c a p a z d e a p r e n d ê - l a
e
q u e
é r e p r e s e n t a d a ,
e m s u a s c a r a c t e r í s t i c a s
e s s e n c i a i s , p e l a
a u l a
p r á t i c a .
E l a
d e v e a p r e n d e r
a
“ p r á t i c a d o
e n s i n o p r á t i c o ”
-
s u a s
f e r r a m e n t a s ,
s e u s
m é t o d o s ,
s e u s
p r o j e t o s
e s u a s p o s s i b i l i d a d e s
-
e
a s s i m i l a r , à
p r á t i c a ,
s u a
i m a g e m
e m e r ¬
g e n t e
d e
c o m o
e l a p o d e a p r e n d e r
m e l h o r
o
q u e
q u e r .
O
t r a b a l h o
d o e n s i n o p r á t i c o
é
c o n s e g u i d o
a t r a v é s d e u m a c e r t a c o m b i ¬
n a ç ã o d o
a p r e n d i z a d o
d o
e s t u d a n t e
p e l o
f a z e r s u a s
i n t e r a ç õ e s
c o m o s i n s t r u ¬
t o r e s
e s e u s
c o l e g a s
e
u m
p r o c e s s o m a i s
d i f u s o
d e
“ a p r e n d i z a g e m
d e
f u n d o ” .
O s e s t u d a n t e s p r a t i c a m
e m u m d u p l o
s e n t i d o .
D e
f o r m a
s i m u l a d a ,
p a r ¬
c i a l
o u
p r o t e g i d a , e l e s e n g a j a m - s e n a p r á t i c a
q u e d e s e j a m a p r e n d e r ;
c o n t u d o ,
t a m b é m p r a t i c a m , c o m o
a l g u é m
p r a t i c a p i a n o , o s
a n á l o g o s , e m s e u s c a m p o s ,
d a s e s c a l a s e
d o s a r p e j o s d o p i a n i s t a .
E l e s
f a z e m
i s s o s o b
a
o r i e n t a ç ã o
d e u m
p r o f i s s i o n a l e x p e r i e n t e -
u m
c o o r d e n a d o r
d e a t e l i ê , u m
m é d i c o
s u p e r v i s o r
o u
u m
i n s t r u t o r
d e
e s t u d o
d e c a s o , p o r e x e m p l o . À s
v e z e s , e s s e s
i n d i v í d u o s p o ¬
d e m e n s i n a r
n o s e n t i d o
c o n v e n c i o n a l ,
c o m u n i c a n d o
i n f o r m a ç ã o ,
d e f e n d e n d o
t e o r i a s ,
d e s c r e v e n d o
e x e m p l o s
d e
p r á t i c a . N o
e n t a n t o , e l e s
f u n c i o n a m p r i n c i ¬
p a l m e n t e
c o m o i n s t r u t o r e s
c u j a s
a t i v i d a d e s
p r i n c i p a i s s ã o
d e m o n s t r a r ,
a c o n ¬
s e l h a r ,
q u e s t i o n a r
e c r i t i c a r .
A m a i o r i a d a s a u l a s
p r á t i c a s e n v o l v e g r u p o s
d e
e s t u d a n t e s q u e s ã o ,
m u i t a s
v e z e s ,
t ã o i m p o r t a n t e s u m
p a r a
o o u t r o q u a n t o o i n s t r u t o r . À s
v e z e s ,
c u m p r e m
o
p a p e l
d e l e . E
o
g r u p o é
o m e i o a t r a v é s
d o
q u a l e l e s p o d e m
i m e r g i r n o m u n d o
d o e n s i n o p r á t i c o
-
o m u n d o
a b r a n g e n t e
d e u m
a t e l i ê d e
p r o j e t o s
a r q u i ¬
t e t ô n i c o s ,
u m
c o n s e r v a t ó r i o
d e
m ú s i c a
o u
u m a
s u p e r v i s ã o
p s i c a n a l í t i c a ,
p o r
e x e m p l o -
a p r e n d e n d o n o v o s h á b i t o s d e
p e n s a m e n t o
e
a ç ã o .
A
a p r e n d i z a g e m
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e s t a r . E l a
Victor Campelo
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EDUCANDO O PROFISSIONAL REFLEXIVO / 41
através de exposição e imersão, aprendizagem defundo, acontece muitas vezes
de maneira inconsciente, mesmo que um estudante possa tomar-se consciente
disso mais tarde, quando entrar em um ambiente diferente.
Nossa visão do trabalho do ensino prático e das condições e do pro¬
cesso apropriados a ele depende, em parte, de nossa visão dos tipos de saber
essenciais à competência profissional. Os tipos de saber descritos anterior-
mente, e suas diferentes perspectivas apresentadas, sugerem concepções dife¬
rentes de ensino prático.
Se concebermos o conhecimento profissional em termos defetos, regras
e procedimentos aplicados de forma não-problemática a problemas instru- !
mentais, veremos o ensino prático, em sua totãlídade, como uma forma de 1
treinamento técnico. O trabalho do instrutor será comunicar e demonstrar a,'
aplicação de regras e operações aos fatos da prática. Pode-se imaginar, nessa
visão, uma aula prática para aprender uma linguagem de computação, técni¬
cas de análise química ou métodos de análise estatística. Esperaríamos dos
estudantes que assimilassem o material através da leitura, escuta e observação,
familiarizando-se com exemplos e problemas práticos adequados às catego¬
rias apropriadas da teoria e da técnica. A instrução consistiria na observação
da atuação dos estudantes, detectando-se erros de aplicação e apontando-se
as respostas corretas.
Se concebermos o saber profissional em termos de “pensar como um”
administrador, advogado ou professor, os estudantes ainda assim aprenderão
fatos relevantes, mas aprenderão também as formas de investigação pelas
quais os profissionais competentes raciocinam para encontrar, em instâncias'
problemáticas, as conexões entre conhecimento geral e casos particulares. Os
exercícios comuns da sala de aula da faculdade de direito e da clínica médica
exemplificam tal ponto de vista. Em uma atividade de ensino prático desse
tipo, presume-se haver uma resposta certa para qualquer situação, algum item
no corpo do conhecimento profissional que possa, afinal, encaixar-se no caso
em questão. Porém, dependendo da visão que se tem de “pensar como um_”, os instrutores podem enfatizar tanto as regras da investigação
quanto a reflexão-na-ação através da qual, ocasionalmente, os estudantes têm
que desenvolver novas regras e métodos próprios.
Se nos concentrarmos nos tipos de reflexão-na-ação através dos quais
os profissionais às vezes adquirem novas compreensões de situações incertas, \
únicas e conflituosas da prática, então iremos supor que o conhecimento
profissional não resolve todas as situações e nem todo o problema tem uma
resposta correta. Consideraremos que os estudantes devem aprender um tipo
de reflexão-na-ação que vai além das regras que se podem explicitar - não
apenas por enxergar novos métodos de raciocínio, como acima, mas também
por construir e testar novas categorias de compreensão, estratégias de ação e
formas de conceber problemas. Os instrutores enfatizarãozonas indetermi¬
nadas da prática e conversações reflexivas com os materiais da situação.
É importante acrescentar que o terceiro tipo de ensino prático não
impede o trabalho do primeiro e do segundo. Talvez possamos aprender com
a reflexão-na-ação, aprendendo primeiro a reconhecer e aplicar regras, fatos
e operações-padrão; em seguida, a raciocinar a partir das regras gerais até
casos problemáticos, de formas características daquela profissão, e somente,
então,desenvolver e testar novas formas de compreensão e ação, em que
categorias familiares e maneiras de pensar falham'.
I
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y
*
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/ r
4 2
/ D O N A L D A . S C H ô N
A t i v i d a d e s d e e n s i n o p r á t i c o d o
t e r c e i r o t i p o
e x i s t e m ,
e m m a i o r
o u
m e n o r
g r a u ,
n a s t r a d i ç õ e s
" d e s v i a n t e s "
d o
a t e l i ê
o u d o c o n s e r v a t ó r i o .
E l a s
t a m b é m s ã o
e n c o n t r a d a s ,
à s
v e z e s ,
a s s o c i a d a s
c o m
a
c o n d i ç ã o
d e
a p r e n d i z
o u
-
m e n o s
f r e q u e n t e m e n t e
e
g e r a l m e n t e
s e m
l e g i t i m i d a d e o u
s t a t u s f o r m a l -
n a s
p a l e s t r a s ,
n a s
o f i c i n a s o u
n o s e s t á g i o s
d a s e s c o l a s
p r o f i s s i o n a i s .
E s s a s
a t i v i d a d e s d e e n s i n o
p r á t i c o
s ã o
r e f l e x i v a s ,
n o s e n t i d o
d e q u e e s t ã o v o l t a d a s
p a r a a j u d a r o s
e s t u d a n t e s a a p r e n d e r e m
a
t o r n a r - s e
p r o f i c i e n t e s e m
u m t i p o
d e
r e f l e x ã o - n a - a ç ã o .
E l a s
s ã o
r e f l e x i v a s , c o m o
v e r e m o s ,
n o s e n t i d o
d e q u e
d e p e n d e m , p a r a s u a
e f i c á c i a ,
d e
u m
d i á l o g o r e c i p r o c a m e n t e
r e f l e x i v o e n t r e
<
_ _
i n s t r u t o r
e
e s t u d a n t e .
E l e s e s e u s
p r o j e t o s ,
c o n d u t a s ,
c o n d i ç õ e s
e d i l e m a s
c a r a c t e r í s t i c o s s ã o o
a s s u n t o d o s p r ó x i m o s
c a p í t u l o s .
N O T A
1 . H á
c l u a s
q u e s t õ e s ,
n e s s e
p o n t o
e e l a s t ê m
i g u a l
i m p o r t â n c i a .
A p r i m e i r a
é q u e o a t o d e
c o n h e c e r - n a - a ç à o c a r a c t e r í s t i c o d e
p r o f i s s i o n a i s c o m p e t e n t e s
e m u m c a m p o p r o f i s s i o n a l
n ã o
é o m e s m o q u e
o
c o n h e c i m e n t o p r o f i s s i o n a l
e n s i n a d o n a s
f a c u l d a d e s . E m
u m
d a d o
c a s o ,
o r e l a c i o n a m e n t o
e n t r e
o s d o i s t i p o s
d e
c o n h e c i m e n t o
d e v e r i a s e r t r a t a d o c o m o u m a
q u e s t ã o
a b e r t a . O
a t o
o r d i n á r i o d e c o n h e c e r - n a - a ç â o p o d e
s e r u m a
a p l i c a ç ã o
d o
c o n h e ¬
c i m e n t o p r o f i s s i o n a l
b a s e a d o
e m
p e s q u i s a
e n s i n a d o n a s
e s c o l a s ,
p o d e
s e r s o b r e p o s t o a e l e
o u p o d e n ã o t e r n a d a a
v e r
c o m
e l e . E s s e
a r g u m e n t o
é s e m e l h a n t e
a o
u s a d o p o r C h a r l e s
L i n d b l o m
e
D a v i d C o h e n
e m
U s a b l e
K n o w l e d g e
( 1 9 7 9 ) .
A s e g u n d a q u e s t ã o
é
q u e p r o f i s s i o n a i s
c o m p e t e n t e s ,
m u i t a s
v e z e s ,
t ê m
a c a p a c i d a d e d e
g e r a r u m n o v o p r o c e s s o d e
c o n h e c e r - n a - a ç â o , p o r
m e i o
d a
r e f l e x ã o - n a - a ç ã o
d e s e n v o l v i d a
e m d e t e r m i n a d a s z o n a s d a
p r á t i c a .
A s f o n t e s d e c o n h e c e r - n a - a ç ã o i n c l u e m e s s a r e f l e x ã o - n a -
a ç ã o
e n ã o
s ã o
l i m i t a d a s à
p e s q u i s a
p r o d u z i d a
p e l a s
e s c o l a s
p r o f i s s i o n a i s d a s u n i v e r s i d a d e s .
Victor Campelo
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