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1 “O EGO BUSCA SEU TRAUMA”: PARADOXOS DA TRAUMATOFILIA 1 Carlos Doin 2 O trabalho toma por base alguns dos diversos enfoques que a questão dos traumas tem recebido na literatura psicanalítica, inclusive seus vínculos com a compulsão à repetição, narcisismo, perversões e transferências, além de outros. São destacados os paradoxos da traumatofilia, em função de suas origens e desdobramentos. Algumas contribuições das neurociências são acrescentadas a certas visões psicanalíticas do problema. São comentadas as dificuldades técnicas das análises destes casos e os possíveis limites da ação terapêutica, do lado do paciente e do analista. Alguns pontos são ilustrados com vinhetas clínicas. Introdução Aparente paradoxo se abre em um dos meus trechos favoritos de Freud, que começa com uma citação de Goethe, não menos paradoxal (“A razão se torna desrazão, a bondade tormento”) e prossegue: “O ego adulto, com sua força aumentada, continua a defender-se contra perigos que não mais existem na realidade; de fato, ele se acha compelido a procurar na realidade aquelas situações que podem servir como um substituto aproximado para o perigo original, de maneira a poder justificar, em relação a elas, a manutenção de seus modos habituais de reação.” (1937, p. 238). (“Reason becomes unreason, kindness torment.” “The adult‟s ego, with its increased strength, continues to defend itself against dangers which no longer exist in reality; indeed, it finds itself compelled to seek out those situations in reality which can serve as an approximate substitute for the original danger, so as to be able to 1 Texto a ser utilizado em conferência no 44° Congresso Internacional de Psicanálise da IPA, Rio de Janeiro, 2005. 2 Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. 2 justify, in relation to them, its maintaining its habitual modes of reaction.”) E aponta o enfraquecimento gradativo do ego causado por esta continuada alienação da realida de, como um caminho para a neurose. Um dos alicerces do presente trabalho se firma na idéia mais geral deste trecho freudiano, parafraseada como “o ego busca seu trauma”. À primeira vista, ela contraria a crença ingênua de que o bem pessoal é a meta constante e direta de todos – a qual não resiste à simples constatação dos danos auto-infligidos pela maior parte dos humanos. Mas o que Freud vem mostrar é que, em inúmeros casos, “há método em tal loucura”, uma lógica inconsciente de funcionalidade na aplicação repetida do autodano; há, afinal, a busca de um certo ganho por meios tortuosos e autolesivos. Procurarei resumir alguns dos incontáveis desdobramentos desses temas, a partir de uma visão panorâmica da questão dos traumas, acrescentando elementos da minha experiência e reflexão. Trauma: conceito e condições O conceito de trauma psíquico, como tantos outros em psicanálise, foi se alargando a ponto de esvaziar-se a sua especificidade inicial. À semelhança das afecções traumáticas corporais, o termo se referia a eventos mais ou menos agudos, profundamente lesivos para o funcionamento mental do indivíduo. Diante da complexidade e diversidade de quadros correlatos, o conceito de trauma passou a incluir agressões de vários tipos, acabando por significar qualquer fator patogênico, qualquer acontecimento grave, mais ou menos circunscrito, único ou repetitivo, ou mesmo qualquer situação crônica danosa. Escreveu Anna Freud (1970): “Um „trauma‟ ou „acontecimento traumático‟ significava originalmente um evento (externo ou interno) de uma magnitude com a qual o ego do indivíduo não consegue lidar, ou seja, um súbito influxo de excitação tão maciço que é capaz de romper a barreira de estímulo que o ego normalmente possui. A esse significado puramente quantitativo do termo foram se acrescentando qualificações (tais como, cumulativo, retrospectivo, silencioso, benéfico) até que o conceito acabou ficando mais ou menos sinônimo da noção de evento patogênico em geral.” (“A „trauma‟ or „traumatic happening‟ meant originally an (external or internal) event of a magnitude with which the individual‟s ego is unable to deal, i.e., a sudden influx of excitation, massive enough to break through the ego‟s normal stimulus barrier. To this purely quantitative meaning of the term were added in time all sorts of qualifications (such as cumulative, retrospective, silent, beneficial), until the concept ended up as more or less synonymous with the notion of a pathogenic event in general.”) Por outro lado, a redução de especificidade do conceito o tornou mais condizente com a complexidade e a vastidão dos fenômenos observados. Penso, 3 contudo, que ele deveria conservar a noção de fator agressivo fora do habitual, especialmente destrutivo em função de suas características e dos limites das defesas daquela pessoa, naquele momento. Não cabe rever aqui toda a história das idéias psicanalíticas referentes aos traumas e à traumatofilia, relativas a suas origens, conseqüências e correlações com diversos outros fenômenos. Muitas idéias de Freud continuam fundamentais nesta discussão. Comecemos relembrando algumas delas. Em Outras observações sobre as neuropsicoses de defesa (Further remarks on the neuropsychoses of defence, 1896), Freud afirma que na origem dos sintomas neuróticos existe uma experiência traumática sexual real, ocorrida antes da puberdade. Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (Three essays on the theory of sexuality, 1905), passa a priorizar as fantasias carregadas de desejos sexuais. Em Lembrar, repetir, elaborar (Remembering, repeating and working-through, 1914), tematiza o fenômeno da repetição, mostrando que é atuado aquilo que não pode ser recordado. Nas Conferências introdutórias sobre psicanálise (Introductory lectures on psycho-analysis, 1916-1917-XVIII), toma a neurose de guerra como exemplo típico de neurose e de neurose traumática, pela relevância dos fatores agressivos externos e suas seqüelas, as quais tendem a se expressar nos sintomas e nos sonhos repetidos de angústia, nos pesadelos terroríficos. Em Da história de uma neurose infantil (From the history of an infantile neurosis, 1918), aborda a defasagem no tempo entre a ocorrência do trauma e a instalação da neurose, em função da possibilidade de dar significado retroativamente ao fator traumático (Nachträglichkeit). Em Além do princípio do prazer (Beyond the pleasure principle, 1920), Freud supõe que a compulsão a repetir situações traumáticas esteja subordinada ao instinto de morte, à inércia dos instintos, à impossibilidade de ligar (bind) as cargas energéticas excessivas que rompem o escudo protetor da mente, dando lugar à dor psíquica e ao sentimento de pavor. Em Inibições, sintomas e angústia (Inhibitions, symptoms and anxiety, 1926), assinala que os precipitados mentais de experiências traumáticas se reativam quando ocorre alguma outra situação semelhante, numa tentativa de elaboração: dar ao ego, em posição agora ativa, a oportunidade de lidar melhor com o trauma, promovendo a ligação das cargas energéticas. Assim, o ego consegue preparar-se para o trauma usando a angústia-sinal, sem recair no estado de surpresa, desamparo e angústia automática que sofreu na experiência inicial. Freud menciona alguns tipos de angústia relativos a diferentes fases da vida: nascimento, separações, ameaças de castração, de perda do amor dos objetos e do super-ego. 4 Nas Novas conferências introdutórias (New introductory lectures,1933- XXXII), reafirma que só o ego é capaz de gerar e vivenciar angústias, que a angústia objetiva é referida ao mundo externo, enquanto a angústia neurótica está ligada ao id, e a angústia moral se prende ao super-ego. Em Análise terminável e interminável (Analysis terminable and interminable, 1937), diz que há disposições e tendências individuais de cada ego, que são determinadas pela hereditariedade ou adquiridas nas lutas defensivas. Algumas pessoas têm uma “inércia psíquica”, uma “adesividade da libido” mais acentuada, que se opõe às mudanças (e à superação dos traumas), enquanto outras dispõem de mais plasticidade e maior capacidade de superar as resistências e se desenvolver. Os resultados de uma análise dependem desses fatores, bem como das características individuais do analista. Como aconteceu em relação a quase todas as outras questões levantadas por Freud, as linhas evolutivas do pensamento psicanalítico retomaram suas idéias acerca de trauma e as desenvolveram em muitas direções, confirmaram, complementaram, ou retificaram e substituíram. Com o desdobramento das teorias sobre as relações objetais, o trauma foi deixando de ser visto apenas como uma vicissitude do sujeito individual, de suas angústias projetadas, para ser conceituado como um problema intersubjetivo, com ênfase na relação externa real com a mãe, o pai, o meio humano, e suas repercussões intra-subjetivas. A importância do vínculo psicanalítico se fez notar cada vez mais. Podemos dizer, de uma maneira muito geral, que todos os referenciais teóricos levam em consideração um estado de falência da mente, do ego ou self sob a ação de uma sobrecarga energética ou de múltiplos estímulos e agressões, informações e demandas. O fator nocivo externo é sempre valorizado, pelo menos na experiência traumática inicial, e a participação do mundo interno e das características individuais é bastante reconhecida, seja a violência das pulsões instintivas e a malignidade dos objetos internos, seja o grau de primitivismo, imaturidade, desorganização e incompetência da mente e os conseqüentes distúrbios das funções cognitivas. Procurando uma definição de trauma psíquico que pudesse ser compartilhada por diversos modelos teóricos, Kirshner (1994) achou um terreno comum (common ground) para alguns deles, como os de Freud, Ferenczi, Klein e Lacan, em torno da ameaça de destruição ou perda do bom objeto, o qual é visto como uma função de representação simbólica do mundo humano, cheio de significados e valores culturais. Na linha de autores que consideram essencial aos tratamentos psicanalíticos a retomada do processo de desenvolvimento prejudicado precocemente por condições traumáticas, Kirshner cita Ferenczi (1931) (quanto à necessidade de um novo começo), Winnicott (1951) (sobre as raízes precoces da subjetividade e os fenômenos 5 transicionais) e Leowald (1960) (acerca da aquisição de um novo modo de ser e de relacionar-se com os objetos e consigo mesmo). Muitos outros poderiam igualmente ser mencionados. O entendimento das questões humanas, inclusive daquelas levantadas pela psicanálise, se robustece cada vez mais com os estudos interdisciplinares, como ficou consignado no congresso da IPA de 2003. Esta afirmação vale especialmente para os problemas concernentes aos traumas (Tutté, 2004). Neste trabalho utilizo várias contribuições de um setor das neurociências que mantém diálogo com a psicologia cognitiva evolutiva. Revi em outro trabalho (2003) a importância desses estudos interdisciplinares no sentido de ampliar, reforçar ou criticar uma boa parte dos conhecimentos psicanalíticos, principalmente quanto às tentativas de entender as bases somáticas dos fenômenos psíquicos, as relações entre corpo e mente (Kandel, 1999; Damasio, 1994, 1999, 2003; Pally, 2000; Edelman e Tononi, 2000). Embora não se possa reduzir os fenômenos psíquicos aos neurológicos, tornam-se cada vez mais evidentes as relações estreitas entre eles. Com todos os enigmas que ainda velam nossos conhecimentos, vai ganhando força a hipótese de que a vida mental é superveniente aos processos neurológicos, resulta de um salto qualitativo, de uma emergência da totalidade complexa que é o sistema nervoso central, onde se destacam o córtex cerebral e suas estruturas mais novas na evolução das espécies, e aquelas características da espécie humana. Respeita-se a distinção entre as propriedades do somático e as do psíquico, mas se reconhece a íntima interação que os mantém integrados estrutural e funcionalmente, a serviço das necessidades vitais. Trauma e repetição Sempre se impôs pela evidência a correlação entre trauma, padrões repetitivos e memória. Comecemos pelo aspecto repetitivo dos traumas, que tanto mobilizou a curiosidade científica de Freud. Enquanto sua tentativa de ligar a compulsão à repetição com o discutido instinto de morte foi contestada desde o início, tiveram logo bastante acolhida suas descobertas sobre os significados dos padrões repetitivos nos processos da vida. Podemos confirmar, à luz dos conhecimentos recentes, que a mente normal tem a tendência a repetir modos de reação e funcionamento sempre que volta a entrar em contato com estímulos mais ou menos iguais. Por outro lado, se as funções cognitivas de percepção, memória, reconhecimento, julgamento e comando trabalharem na faixa da normalidade, a mente se adaptará às situações novas fazendo os devidos ajustes às diferenças encontradas e modificando os padrões na medida do necessário. No sentido adaptativo, os traumas moderados são um estímulo ao desenvolvimento normal, ao 6 aprendizado de estratégias mais adequadas para enfrentar situações potencialmente danosas. O que não aniquila, aprimora. Porém, se no momento do trauma inicial as atividades mentais estiverem imaturas ou muito prejudicadas, ou de qualquer modo forem incompetentes para enfrentar os estímulos, originam-se padrões disfuncionais que tendem a ser reativados em outras circunstâncias, sem levar bastante em conta as diferenças da nova situação, funcionando em graus variáveis de inadequação e alienação da realidade. De maneira geral, a tendência à repetição das situações traumáticas se deve a três tipos de fatores que não se excluem e freqüentemente se combinam: repetir por causa de defeitos neuromentais que impedem a superação do padrão traumático; repetir para elaborá-lo; repetir por motivo das funções secundárias, estruturantes, defensivas, narcísicas e prazerosas que o padrão adquiriu. Trauma e memória É possível correlacionar a memória implícita (predominantemente emocional, não consciente, não simbolizada nem verbalizada) da neurociência cognitiva, com muitos aspectos e conteúdos inconscientes do mundo interno da psicanálise (representação de self, relações objetais internas, padrões afetivos de reação e procedimento, bases dos fenômenos transferenciais, etc.). Hoje se comprova, inclusive através de neuroimagens (neuroimaging), que os traumas graves e o stress contínuo produzem lesões anatomofisiológicas do encéfalo, especialmente do hipocampo, acarretando distúrbios mais ou menos acentuados das funções cognitivas, como as da memória. A amídala, um dos núcleos da base do cérebro e componente do sistema límbico, estreitamente ligada ao processamento das emoções, está bastante envolvida nas síndromes traumáticas e nas manifestações de pânico descontrolado. Nos primeiros meses de vida (Pally, 2000), a função alarmista primária da amídala diante de perigos atávicos (por exemplo, trovões) ainda não está modulada por outros dispositivos (hipocampo, córtex órbitofrontale pré-frontal) que só se tornam aptos mais tarde. Neste intervalo, a função tranqüilizadora do medo ou pânico deve ser provida pela mãe e cuidadores. Em desarranjos neuromentais traumáticos de fases posteriores, a amídala atingida por estimulação exagerada se torna hipersensível a novos estímulos, mesmo quando o perigo real não é mais tão grande. Por sua vez, o hipocampo é também atingido e sua função moduladora fica prejudicada. (LeDoux, 1996, 2002; De Masi, 2004). Além disso, outros recursos de proteção neuromental também entram em falência (Graeff, 2003). 7 Quanto à possibilidade de romper o fatalismo da compulsão à repetição inscrita na memória traumática, encontramos grande convergência entre os achados da neurociência (van der Kolk, 1994) e a experiência clínica psicanalítica. Podemos agora afirmar que, ao serem usados repetidamente num contexto bipessoal terapêutico favorável, os recursos de elaboração (associações livres, que tendem a incluir as vivências traumáticas e a promover os processos de sentir, simbolizar, falar, refletir, resgatar os dados de memória para datá-los e reduzir seu poder lesivo) propiciam modificações estruturais e funcionais duradouras das redes neuromentais, com o surgimento de novas conexões. É preciso ressaltar que todo este trabalho para ser exitoso deve se nutrir da boa qualidade de uma relação humana especial, do convívio construtivo de um analista com seu analisando. Freud (1920) correlacionou os danos traumáticos com uma falha na ligação (binding) das cargas energéticas excessivas que são mobilizadas. Com base nos conhecimentos atuais e guardadas as diferenças de contexto teórico, creio ser possível dizer, na seqüência da formulação de Freud, que a elaboração psicanalítica dos traumas envolve também uma questão de ligação - a de conexão ou reconexão de determinados circuitos neuromentais, como os que fazem contacto entre a amídala e o córtex pré-frontal, permitindo um melhor aproveitamento das funções de consciência ditas superiores (especialmente as de julgamento, “teste de realidade”, escolha, retificação). Essas modificações são acompanhadas de padrões de procedimento (procedural patterns) mais adequados, registrados na memória implícita (inconsciente, não simbólico-verbal, essencialmente emocional), com repercussões nos registros da memória explícita (afetivo-cognitiva, simbólico-verbal e conceitual) da vida mental consciente, bem como na qualidade dos relacionamentos intrapsíquicos e interpessoais. Mas, conforme frisam Gabbard e Westen (2003), não há uma correspondência completa entre os processos implícitos e os explícitos, uma vez que eles se baseiam em circuitos anatomofisiológicos distintos. Apesar da estreita inter-relação entre eles, suas diferenças específicas devem ser levadas em conta no raciocínio clínico e nos approaches terapêuticos. Vale o aviso. É sempre necessário dosar o nosso entusiasmo na aplicação dos conhecimentos novos, principalmente dos interdisciplinares, por mais promissores que sejam. Pela estrada da prudência ainda há muito a percorrer para que a utilidade deles se comprove em boa medida, sem reducionismos apressados, falsas analogias e aproximações forçadas. Com as devidas ressalvas, porém, creio que já temos argumentos bastante fortes para postular que todo tratamento psicanalítico bem sucedido promove a formação de padrões neuromentais mais realistas e adequados no analisando (e, não raro, também 8 no analista), que tendem a competir com os padrões arcaicos e a predominar sobre eles, pouco a pouco. (Doin, 2003a). Cabe agora perguntar: Afinal, o que se repete na compulsão à repetição? Até que ponto os padrões traumáticos correspondem aos traumas sofridos nas situações históricas? Como avaliar a veracidade dos registros mnêmicos recuperados e relatados? Qual o valor terapêutico destas operações? Como observa Target (1999), já Freud era cético sobre a acurácia das lembranças resgatadas durante a análise. Hoje, a convergência de dados clínicos e laboratoriais permite confirmar que as recordações são reconstruções e construções, que os processos mnêmicos de registro e evocação são dinâmicos, dependem das experiências posteriores, dos novos contextos interpessoais e de quem esteja ouvindo o relato das recordações. Mollon (1998) faz um alerta sobre a vulnerabilidade do processo terapêutico à sugestão, o perigo de o analista colaborar na produção de falsas lembranças, já que a narrativa do paciente sobre sua história de infância é uma criação conjunta da dupla analítica. As imagens de abuso podem também representar experiências de maus tratos sofridos na análise. Há pacientes que intuem e se deixam influenciar por alguns conteúdos da mente do analista que este desconhece ou pretende ocultar, como suas preferências teóricas e suas fantasias contratransferenciais. As alegadas recordações do paciente podem estar amoldadas ao que o analista espera ouvir, em detrimento da possível objetividade dos relatos. Target (1998), além de mencionar a participação contratransferencial nos fenômenos, chama atenção para a incerteza das narrativas de abusos sexuais na primeira infância por causa da imaturidade da mente. Mesmo acerca de traumas ocorridos em fases posteriores, as perturbações mentais (desorganização, dissociação, distanciamento das sensações e afetos, desrealização, despersonalização, entre outras) interferem na objetividade dos registros mnêmicos. Pode-se então dizer com Target (1999) que o problema do psicanalista não é tanto determinar se as lembranças são factualmente, “materialmente” verdadeiras, antes consiste em descobrir se a “validação” delas é terapêutica. O analista não deve afirmar nem negar terminantemente a verdade histórica do relato. O objetivo analítico é manter o foco sobre a realidade psíquica, as experiências internas, especialmente os significados inconscientes do trauma e suas modificações, sem fechar conclusões prematuras. Uma atitude aberta pode captar novos significados, conteúdos diferentes dos já percebidos, como por exemplo, o triunfo e a excitação que a vítima sentiu numa relação sexual abusiva. Importa mais observar como as experiências traumáticas se expressam agora, através dos padrões de relações objetais repetidos na transferência. 9 Gabbard e Westen (2003) assinalam a mudança da ênfase psicanalítica da reconstrução do passado para a interação da dupla no aqui-e-agora das sessões. Os padrões antigos de relações de objetos internos, conflitos, sensações, sentimentos, fantasias, sonhos, pensamentos e defesas do paciente se abrem diante do analista, sem necessidade de nenhuma “escavação arqueológica”. Mesmo porque hoje se admite que grande parte das vivências fica registrada apenas na memória implícita, como emoções em estado bruto e padrões de procedimentos, não permitindo acesso direto à memória explícita, à conscientização, simbolização e verbalização. Traumatofilia O termo traumatofilia tem sido usado com várias extensões de significado. Num sentido amplo, confunde-se com qualquer trauma em que é nítida a tendência à repetição. De maneira mais estrita, o termo se aplica àquelas condições crônicas em que, além do aspecto repetitivo, é evidente a relevância de motivações inconscientes; nestes casos o uso da raiz grega philia (amor, predileção) parece mais expressivo, por ressaltar a intenção do sujeito, sua participação determinante na causação do trauma. Na experiência do senso comum, costuma ser desconcertante, incômodo ou revoltante conviver com pessoas que, apesar das queixas pelos danos que sofrem, mantêm-se paradoxalmentenuma procura ativa e reiterada de situações penosas e lesivas, que se assemelham aos traumas sofridos. Com pessoas mais próximas da normalidade, é mais fácil perceber empaticamente suas intenções traumatofílicas, quase sempre inconscientes. O mesmo em geral não acontece diante do comportamento repetitivo de pessoas profundamente prejudicadas do ponto de vista neuromental (autistas, psicóticos graves, dementes, grandes traumatizados) em que não se detectaria um ego capaz de “procurar o seu trauma”. Num trabalho de Abraham (1907) já se delineia a ambigüidade da traumatofilia: tendência a vivenciar situações novas como traumáticas e semelhantes a outras já sofridas, ou a buscar a repetição destas. Abraham mostra a cumplicidade inconsciente de crianças e adultos que vão ao encontro de abusos sexuais, não fogem aos primeiros indícios de perigo, têm até mesmo atitudes francamente sedutoras, ou não se defendem bastante do ataque. Talvez o reconhecimento do aspecto traumatofílico em grande número de mulheres adultas estupradas esteja na base das punições que foram impostas a todas elas pela lei mosaica, e da acusação de conivência que o Sancho do Dom Quixote fez a uma mulher violentada. Por outro lado, lembremos que este tipo de motivação inconsciente foi levado aos extremos por uma linha do direito penal, a da vitimologia, culminando na responsabilização da vítima e na absolvição do agressor. O mesmo se passa em 10 muitas famílias em que a menina atacada sexualmente pelo pai ou algum outro familiar passa a ser considerada como a principal ou única culpada. Embora dando ênfase aos traumas sexuais desejados ocultamente, Abraham mostra que não se limita a eles a “diátese traumatofílica”, e aponta para uma dinâmica mais complexa na provocação dos traumas; menciona o caso de uma paciente que se infligia pequenos acidentes em troca do suicídio propriamente dito, como se danos menores servissem para exorcizar a destruição maior. Aí se esboça a noção de que os traumas e seus desdobramentos vão adquirindo outras funções e sua manutenção pode se tornar vantajosa; são os chamados benefícios da patologia. Até certo ponto, os funcionamentos prejudiciais têm ou tiveram alguma utilidade como estratégia de sobrevivência. As possibilidades de resolução dos padrões traumáticos dependem de algumas características próprias, mas também de todos aqueles fatores que se encontram em qualquer situação de mudança, luto, ou estágio de passagem: diferentes combinações de ambivalências, angústias, ganhos inconscientes obtidos com os funcionamentos antigos, desejos de inovação e esperança de uma vida diferente. Há, sem dúvida, traumas imprevistos que atingem uma pessoa totalmente fora de sua capacidade de escolha ou defesa. Mas, em grande número de casos, talvez em sua maioria, a vítima se atribui consciente ou inconscientemente, com justiça ou sem, alguma parte na produção do trauma, por meio de atos ou omissões, fantasias e desejos onipotentes, até mesmo nas catástrofes geradas pela natureza. Neste terreno movediço, o conceito de traumatofilia se avizinha e às vezes se confunde com vários outros, como o de narcisismo patológico, funcionamento obsessivo, perversão, masoquismo e sadismo, neurose de fracasso, organização patológica de defesa, condição borderline, reação terapêutica negativa, impasse psicanalítico de difícil resolução. É impossível catalogar todas as funções secundárias que os remanescentes e derivados traumáticos podem adquirir, as vantagens traumatofílicas acobertadas pela posição de vítima. À guisa de exemplos, vou relacionar algumas condições que tenho encontrado na prática psicanalítica, algumas com bastante freqüência. O padrão traumático pode ser re-alimentado e conservado porque proporciona àquela pessoa estruturação mental, manutenção do senso de self, de identidade, de existência fluente e contínua, preenchimento de vazios narcísicos, defesa contra angústias de morte iminente, de desintegração, alívio de experiências de desvitalização, anulação e depreciação; dá-lhe sentido e valor à vida, um suposto destino (trágico, glorioso) a cumprir, cheio de demonstrações de heroísmo e capacidade de resistir ao sofrimento, triunfar sobre o medo e a morte. Quem sofre está vivo, quem enfrenta riscos radicais e sobrevive sente-se poderoso e imortal. “A 11 vida só é digna de ser vivida a 300 km por hora” - dizia um campeão de corridas de carro, sobrevivente de vários acidentes. O destino traumático pode significar a condição que faz a pessoa pertencer à família e receber atenções por ser infeliz e incompetente, ou o meio de ser tolerada, compreendida, perdoada e talvez amada pelos objetos externos, o que não consegue dos objetos internos e do superego. A procura do trauma pode ter também o significado de dar razão aos pais, confirmando seus piores vaticínios (ou desejos); ou continuar com os objetos destrutivos, com a “mãe tanática” que dá vida enquanto mata, donde pode resultar o paradoxo de só acreditar na capacidade salvadora de um parceiro que seja cruel. A submissão se realiza muitas vezes de uma maneira excessiva ou sarcástica; este agravamento do trauma “encomendado” vale como um ganho narcísico, um esdrúxulo triunfo sobre a tirania. Ou, pelo contrário, a busca do trauma repetido é para alguns a maneira de não se submeter à normalidade sentida como imposta por pais narcisistas, desrespeitosos e autoritários, mais interessados em si próprios; contrariá-los, mesmo à custa de enormes sofrimentos, passa a ser uma questão de afirmação pessoal, de dignidade (!). O trauma desejado pode ter sentidos mágicos: tentar exorcizar males maiores, traumas desconhecidos, ou produzir algo melhor (“Bem-aventurados os que sofrem...”). Qualquer tipo de padrão anacrônico pode significar vitória sobre o tempo e a morte: querer ficar numa situação do passado que se eterniza implica a fantasia onipotente de impedir a passagem do tempo e anular os fatos posteriores, permanecer imortal e naquela época em que todos ainda estavam vivos, por exemplo. Em cada situação destas pode somar-se a competição com os pais e o analista, a humilhação diante da dependência e do reconhecimento das qualidades deles, o sofrimento narcísico que alimenta ataques invejosos. Em muitos casos de incesto e pedofilia observa-se que crianças e jovens abandonados ou desprezados pela família, principalmente pela mãe, procuram junto ao sedutor um vínculo de interesse ou amor pervertido. Às vezes a família, conivente por omissão ou indução, mostra-se estarrecida e indignada ao perceber a relação ambivalente do menor com o sedutor, quando este é descoberto. Especialmente nestes casos, o trauma tolerado ou mesmo buscado pela vítima serve também para denunciar os erros da família e de seus representantes, como punição para eles. E a própria vítima pode usar a situação para se castigar pelo envolvimento, pelas fantasias edípicas, narcísicas e agressivas, ou por qualquer outro motivo culposo. Não se devem minimizar todos os outros fatores que tolhem a reação de defesa da vítima, como as ameaças do sedutor, os ganhos materiais, a preservação da vida familiar através dos arranjos patológicos, etc. 12 O trauma pode ser acompanhado de prazeres eróticos e narcísicos semelhantes aos sentidos na situação inicial, por identificação com o agressor ou triunfo sobre ele. Essas vivências podem ter se definido mais tarde, por retrospecção (Nachträglichkeit). Como também é freqüente o acréscimo de novos ganhos de vários tipos, inclusive narcísicos e libidinais, segundo uma estratégia de sobrevivência para lidar com situações traumáticas: oque era doloroso e quase insuportável torna-se tolerável e depois um tanto ou quanto prazeroso, desejado ou mesmo indispensável. A repetição mais ou menos estereotipada serve, às vezes, como tapume (screen trauma) para encobrir outros aspectos da situação traumática inicial que não aparecem claramente no padrão (como o prazer sentido numa violência sexual sofrida); ou acobertar outros traumas, anteriores ou posteriores, do mesmo tipo ou de outro; ou como barreira repelente contra os contatos humanos, sentidos como extremamente perigosos devido a angústias primitivas de desorganização, dissociação, despersonalização, dominação, quase sempre vinculadas a desejos regressivos de simbiose, entrega passiva incondicional, e de envolvimento amoroso com maior ou menor erotização. Tais necessidades-desejos se acentuam, muitas vezes, quando o analisando sente-se atraído pelas condições de mudança criadas no processo analítico. A possibilidade de melhora do vínculo acarreta novas hesitações, novos compromissos e ameaças, medo de outras frustrações, de não saber funcionar de uma maneira diferente, relutância em abrir mão das vantagens anacrônicas. Nesta conjuntura há uma propensão a voltar aos padrões traumatofílicos costumeiros, configurando um quadro de reação terapêutica negativa. Tendo em vista a relevância dos componentes traumatofílicos nos relacionamentos sadomasoquistas, frisemos, junto com Ogden (2002), que a enorme força da combinação amor e ódio garante a “espantosa durabilidade” das relações objetais internas e externas. Pela lógica absurda dessas composições perversas, tendem a petrificar-se os “vínculos ferozes” entre o que é objeto dos abusos e o que abusa, seja a criança vezes e vezes violada sexualmemte e seu agressor, seja a esposa a miúdo espancada e seu carrasco, seja a família amarrada a seu delinqüente reincidente. Retroalimenta-se uma dependência mútua e pertinaz em que as identificações se entrecruzam, em que os parceiros vivenciam os abusos como a segurança de um ódio amoroso que é também um amor carregado de ódio, consolidando-se aquela que lhes parece a única maneira de relacionar-se e sobreviver, totalmente preferível à ausência de qualquer relação (Fairbairn, 1944). Há, de fato, uma multiplicidade de ganhos patológicos, quase sempre inconscientes, como a persistente e maligna estabilidade (“normalidade”) vital, psíquica, existencial, comportamental e relacional dos participantes. Em diversas ocasiões fiquei perplexo com o cortejo de tormentos, valores distorcidos e prazeres a perpetuar o sofrimento encadeado de duas ou mais pessoas, no meio do qual os 13 traumas se repetem como elos de uma corrente infernal que tem arrastado inúmeros tratamentos psicanalíticos ao atoleiro dos impasses transferenciais- contratransferenciais. Contudo, é razoável contar sempre, até nos casos mais desalentadores, com a probabilidade de que existam motivações conflitantes no mesmo paciente, a superposição de tendências anacrônicas e inovadoras: repetir para conservar padrões, repetir para modificar modos de ser e funcionar num contexto mais favorável. Um analisando pode, por exemplo, forçar a repetição do trauma que julga inevitável para se livrar da angústia de espera; toma a iniciativa de sua ocorrência, com a inversão dos papéis: assume o lugar do agressor e deixa com o analista o do agredido. Mas o mesmo analisando pode ser movido também pela esperança de superar o padrão traumático e corrigir as falhas do seu desenvolvimento. Regra geral, quem nos procura quer mudar – lembrete óbvio que pode ser terapêutico em horas de abatimento e revolta contratransferencial. Particularmente em situações como as consideradas neste tópico, o psicanalista precisa ter o maior cuidado com suas emoções extremadas para não se engolfar e prender em julgamentos éticos radicais sobre o paciente, as pessoas envolvidas e até sobre ele mesmo, caso tenha perdido o equilíbrio contratransferencial. A esperança deve estar também do nosso lado. Tipos de trauma Em todas as épocas da vida acontecem circunstâncias traumáticas propensas a gerar padrões repetitivos que se distribuem em um espectro de traumas (trauma spectrum), com características múltiplas e diferentes graus de complexidade e dano. Fatores agressivos incidentes em condições de fragilidade e dependência acentuada, num ambiente hostil e de desamparo, podem afetar profundamente uma vida, desde os primórdios dos bebês até o decesso dos doentes terminais e dos velhos. Nossos autores têm dado destaque a alguns quadros mais típicos e de difícil resolução, como os traumas ocorridos durante a gestação e os primeiros meses de vida, as graves agressões domésticas, inclusive as sexuais, e as violências sociais, especialmente as cometidas nas épocas de guerra. a) O trauma do nascimento é considerado hoje como elo de uma cadeia que vai da vida fetal até a metade do segundo ano de vida, pelo menos – período decisivo na estruturação neuromental somatopsíquica e social, como demonstram as neurociências, confirmando achados de Rank, Balint, Bowlby, Winnicott, Bion, Kohut, Mahler, entre muitos outros. É extenso o registro psicanalítico dos traumas precoces, como doenças, perdas e mortes na família, falhas graves da função materna primária (de disponibilidade 14 amorosa, sensibilidade fina e atendimento das necessidades físicas e emocionais da criança, timing e constância nos cuidados). São traumáticos todos os sentimentos e atitudes maternas de rejeição, já durante uma gravidez indesejada ou penosa, ou depois, diante de um bebê que decepciona por suas características físicas, seu sexo, alguma malformação. O narcisismo materno patológico é sempre danoso à criança, mas também o do pai e o dos familiares, pois as funções maternas satisfatórias devem ser complementadas pelas paternas e pelas de toda a família. Perelberg (2004), tomando por base as manifestações transferenciais e as mobilizações contratransferenciais no trabalho com pacientes que sofreram graves traumas no início da vida, resultantes ou agravados por desastres das relações primárias, descreve dois tipos de configurações narcísicas, ambos caracterizados por aversão às relações objetais. No primeiro tipo, a rejeição do objeto é feita com violência manifesta, no segundo o objeto é evitado através de retraimento e ataques mais discretos aos vínculos, e a violência é bem menos óbvia. Como exemplo do primeiro tipo, a autora apresenta um paciente que nasceu cego e assim ficou alguns anos, tendo passado por várias cirurgias; a maternagem parece que deixou a desejar; outro exemplo do primeiro tipo é o de um homem que teve de conviver com a mãe psicótica. Como ilustração do segundo tipo temos um analisando que sobreviveu às voltas com uma mãe gravemente deprimida e sujeita a surtos psicóticos. Diversos autores assinalam como especialmente traumáticas, ao lado das omissões, as intrusões (impingements) da mãe e do meio, perturbadoras do desenvolvimento natural da criança, da sua continuidade de ser em termos próprios (Winnicott, 1960b). Para sobreviver, a criança pode se submeter às imposições maternas em detrimento de sua individualidade, dando origem a um falso self (Winnicott, 1960a). Masud Khan (1963) usa o conceito de trauma cumulativo em relação a um aspecto específico da falha da maternagem: durante os primeiros meses de vida, a criança, por sua imaturidade, precisa da mãe como um “escudo protetor” (“protective shield”) contra as intrusões, os estímulos invasivos que põem em risco sua estabilidade e a integração psique-soma. A falha continuada desta função materna é extremamente daninha.Vejamos algumas contribuições neurocientíficas à compreensão dos primórdios da existência individual. Schore (1994), em seu livro sobre a importância dos afetos na constituição do self, relaciona dezenas de trabalhos comprovando que o bom desenvolvimento estrutural e funcional do cérebro do bebê só se realiza através da participação do meio ambiente, das trocas emocionais com um humano adulto, de preferência com a mãe. Entre o fim do primeiro ano e o começo do segundo, destaca-se o amadurecimento acelerado (inicialmente maior no hemisfério direito) de determinadas estruturas do neocórtex que se conectam com áreas subcorticais para integrar o 15 sistema límbico, o qual é indispensável à regulação da homeostase, à coordenação das funções somatopsíquicas, vegetativas, emocionais e relacionais da criança, à sua saúde biológica e social. Grande parte do futuro da pessoa se decide aí. A mãe é o principal fator externo na expressão fenotípica do genoma da criança. Nos primeiros meses ela funciona como cérebro acoplado, especialmente como córtex e sistema límbico anexos, como o “ego auxiliar” da tradição psicanalítica, até que as estruturas e funções correspondentes amadureçam bastante na criança, proporcionando sua crescente autonomia neuromental em termos individuais singulares. Mais ainda, a mãe, ou quem exerça a função relacional primária, serve de modelo biopsíquico, comportamental e cultural para as organizações equivalentes do bebê. Em condições normais, esta influência não impede, antes promove, a afirmação da singularidade das características fundamentais da criança, do verdadeiro self. Todavia, é preciso considerar que até certo ponto (sempre um ponto incerto, variável) o pequeno ser individual se forma e se transforma em função da mãe, adapta-se ao mundo que principia sendo ela, tende a alinhar-se ao que ela sente e pensa sobre tudo e sobre cada pessoa, e – o que é mais importante – ao que ela sente, pensa e espera em relação à criança. As experiências iniciais vividas com a mãe, e depois com o pai e todos os outros do convívio, influenciam em grau maior ou menor e mais ou menos definitivamente a constituição das estruturas neurológicas e psicológicas da criança, seu modo de ser e funcionar, amar-se ou odiar-se, de qualificar a vida e as pessoas em geral. As experiências posteriores vão sempre interagir com este fundo. b) São bastante conhecidas as manifestações de violência em casa, pressões, estresses, revoltas e sadismo de todo lado, necessidade de projetar aspectos detestados em alguém, de usar as crianças e jovens na realização de desejos de todo tipo, de impor papéis familiares, muitas vezes transgeracionais, como por exemplo a repetição de destinos trágicos na nova geração. O pedófilo tende a passar adiante os abusos sexuais sofridos na infância, mantendo uma tradição familiar. As conseqüências de tais agressões são também bem conhecidas. Entre os danos mentais sobressai a “lavagem cerebral”, a implantação da ideologia, do discurso defensivo e dos desejos dos adultos, de modo tal que a criança e o jovem, “de cabeça feita”, têm que dar razão e desculpar seus agressores, o que em parte executam, sem perder inteiramente sua própria visão do que se passa. Mas é também intrusiva e desrespeitosa a imposição reiterada de papéis “nobres”, de missões idealizadas a serem cumpridas pela nova geração. Há uma diferença colossal entre desejar e promover a realização de valores, e atacar a individualidade e a auto-estima de um filho impondo-lhe insistentemente um destino. Manter um jovem em contínuas e opressivas “obras de reforma” pode conotar a rejeição radical de sua pessoa, o profundo desagrado pelas suas características mais 16 próprias; o filho ou filha se insurge recaindo seguidamente em desastres traumáticos, como fracassos nos estudos, adição a drogas, comportamento anti-social ou criminoso. Não percamos de vista as implicações transferenciais e contratransferenciais de todas estas síndromes. Dos atos de violência grosseira em família, os abusos sexuais têm recebido atenção especial. Em um painel sobre incesto, no 42° Congresso Internacional da IPA (2002), Tesone relatou dois casos. O primeiro é o de uma paciente que na puberdade foi deflorada digitalmente pelo pai, um ginecologista. Sem qualquer ajuda da mãe, sentiu-se congelada (frozen) quando o ato se repetiu. No começo da análise, sofria de angústias de ser possuída (taken over). O analista a ouviu com bastante paciência, sem pressa de julgar sobre quanta fantasia e quanta realidade havia em sua história (story). O segundo é o de uma jovem manipulada sexualmente pelo pai, sem violência física explícita, desde os dez anos. Ela o acusava de enganá-la devido à necessidade de carinho (tenderness) que a fazia sofrer. A mãe morreu logo depois, e ela ficou duplamente órfã, também pelo lado do pai, incapaz de ajudá-la a desenvolver as funções simbólicas; ao invés, sentiu-se tomada por objetos persecutórios. O autor assinala que a criança vítima da violência sexual de um adulto perde a oportunidade de ter um envolvimento amoroso normal, que promova os processos de repressão e representação, indispensáveis à estruturação da mente. Em condições normais, as carícias dos pais libidinizam o corpo da criança. Na jovem atacada, o desenvolvimento libidinal fica congelado e impregnado de desejos de morte, no caminho da repetição traumática. O status de sujeito não é alcançado: os pais incestuosos, por causa de seus problemas narcísicos, buscam um objeto parcial dentro do vínculo de filiação (bond of filiation), bloqueando o desenvolvimento dos filhos em termos individuais próprios. No mesmo painel, Bokanowski mostrou que o pai incestuoso, impondo a realidade concreta da sexualidade e anulando a proibição do incesto, contraria os processos psíquicos que dão lugar a desejos e fantasias amorosos. Ainda mais, ele reforça as fantasias primárias de não-separação com a mãe (representada no pai). Não estabelecendo censura e diferenciação, confundindo os sexos e as identidades, o pai (ou seu representante) perturba profundamente o psiquismo da vítima, a ponto de esta assumir, muitas vezes, a culpa do agressor. Bokanowski verificou que o envolvimento de uma jovem com o pai encobria a experiência de vazio com a mãe fria e ausente. Tenho observado freqüentemente essa mesma conjuntura: quando a maternagem primária falha, a criança se refugia no pai, que funciona como mãe suplente e pai incestuoso - uma tentativa de solução precária e prejudicial que vem a se repetir em outros relacionamentos. Pode-se dizer, ressalvadas as diferenças, que diante da falência da maternagem ou da paternagem a criança toma o outro genitor como substituto naquela função, com danos narcísicos e edípícos de vários tipos. 17 Ainda no mesmo painel, Castellano lembra que é muito rara a consumação do incesto entre mãe e filho, diferentemente do incesto realizado entre pai e filha. Concordo com ela que um dos motivos do maior horror ao intercurso sexual entre mãe e filho são as fantasias de retorno ao corpo da mãe e as de morte. Creio que a maior proibição cultural reforça sua repulsa. Também parece pouco freqüente a perpetração de incestos homossexuais, principalmente entre pai e filho. Como se sabe, é comum a prática de atos sexuais equivalentes a incestos com representantes paternos e maternos, envolvendo maior ou menor comprometimento mental. Castellano aponta uma situação traumatizante bastante encontradiça: as confidências sobre sua intimidade sexual que alguns pais gostam de fazer aos filhos se equiparam a abusos sexuais, pelas fantasias que excitam. A mesma participantedo painel enfatiza, entre as dificuldades do tratamento de vítimas de incesto, as resistências contratransferenciais causadas pela ativação de “espectros primordiais” (“primordial spectres”) da mente do analista. Casoni (2002) descreve uma paciente que sofreu, na infância, abusos sexuais repetidos por parte do amante da mãe. Aos dezesseis anos foi brutalmente estuprada por um homem, no local de trabalho. Na época, tais ataques não resultaram em desorganização psíquica. Continuou adorando a mãe e detestando o pai, bêbado e tirânico. O grande desastre mental só aconteceu bem mais tarde, quando foi violentada por um amigo, com sua cumplicidade inconsciente. Foi então que procurou análise. A efetiva possibilidade de elaboração se abriu depois de uma tentativa séria de suicídio. Casoni comenta o efeito retroativo do trauma (Nachträglichkeit), a identificação com o agressor e o refúgio no papel de vítima. Sobre a identificação com o agressor, pensa que Anna Freud, considerando-a apenas como defesa contrafóbica, deixou de lado a importância dos impulsos da própria vítima; neste caso, a violência da paciente, acentuada pela dos pais e projetada nos agressores do passado e do presente. Pressionada a fazer o papel do agressor, a analista chegou a desejar o desaparecimento da paciente. Casoni usa o conceito de telescopagem (telescoping) proposto por Aulagnier (1984) para a superposição de experiências traumáticas de várias épocas na composição do padrão que se repete cronicamente, com a participação inconsciente da vítima. Kitron (2003) relata dois casos. Um rapaz foi abusado sexualmente pela mãe até os treze anos; ela usava como justificativa algumas teorias modernas sobre a criação de filhos que recomendam a proximidade física sem restrição. O juízo de realidade do garoto também era atacado pelo pai, que costumava desvalorizar os sentimentos e as percepções realistas do filho. Num incidente, o analista negou ter feito um movimento que o paciente percebeu, pelo menos em parte. O rapaz reagiu com violência, acusando o analista de querer levá-lo à loucura, igual ao pai. Ao fim de 18 um longo processo, esta transferência foi sendo trabalhada, abrindo caminho para um novo começo. O segundo caso descrito por Kitron ilustra uma contribuição de Kohut (1977) sobre o efeito terapêutico das “falhas empáticas não traumáticas” (“non-traumatic empathic failures”), isto é, momentos em que o analista, na tentativa de compreender o que o paciente está vivenciando, comete algum erro ou omissão, mas é capaz de reconhecer logo sua falha, refazendo e fortalecendo a relação empática. A relação que propicia esta frustração ótima (optimal frustration), suportável e estruturante, se aproxima do conceito de maternagem suficientemente boa (good-enough mothering) de Winnicott (1951). Uma pós-adolescente com um provável back ground de traumas primários em família não podia acreditar em nenhum homem que a considerasse digna de ser amada e respeitada. Aos dezoito anos apaixonou-se por um jovem sociopata que pisoteou seus sentimentos, usando-a apenas como objeto sexual. A partir daí, quando tinha um namorado que a tratava melhor e queria um relacionamento sério, ela o provocava com insistência a fim de transformá-lo em agressor, antecipando ativamente o trauma da decepção, que considerava inevitável. Pela análise conseguiu retificar este padrão e relacionar-se normalmente com um homem. Creio que, além deste motivo, ela também temesse os perigos (talvez maiores) do envolvimento amoroso. c) Quanto a situações traumáticas no âmbito social mais amplo – as guerras propriamente ditas, ao lado dos constantes abusos e crueldades do poder legal ou das organizações criminosas, dos fanatismos e terrorismos de toda espécie - Otto Kernberg (2003) faz uma avaliação abrangente de problemas relacionados com a violência social sancionada. Há, sem dúvida, uma série de fatos traumáticos tolerados e mesmo alimentados por sociedades que se prezam como civilizadas. Nós, psicanalistas, temos a responsabilidade de participar do exame destes problemas e propor soluções, utilizando nossos conhecimentos especializados, como os concernentes à dinâmica grupal e à psicologia das massas, aos impulsos agressivos primitivos, a traumas históricos e crises sociais, ao papel de líderes que polarizam forças coletivas, com a cooperação ativa ou passiva das partes envolvidas, tanto as de fora da lei, quanto as da lei. Esta questão, crítica no mundo inteiro, tem se agravado velozmente nas grandes cidades brasileiras. Por muito tempo, quase todos acreditamos que nossas históricas divisões sociais (uma violência em si mesma) continuariam acomodadas, permitindo a um lado considerar-se seguro em detrimento do outro. À medida que a revolta e a violência se espalharam, tornou-se imperiosa e urgente a necessidade de somar as capacidades construtivas de todos os cidadãos, incluindo os psicanalistas. O tema tem 19 sido trabalhado em nossos encontros, como no Congresso Brasileiro de Psicanálise de 2003. Em um painel sobre o trabalho com vítimas de violências sociais, realizado durante o Congresso da IPA de 2002, recomendou-se o aprofundamento dos estudos sobre os sistemas simbólicos, bem como sobre a subjetividade social que dá suporte à constituição das subjetividades individuais e está estruturada em contextos culturais particulares (Kirshner, 2002). Gumpel (2002) tratou de mulheres bosnianas, refugiadas dos conflitos sociais da região. Em encontros com psicoterapeutas israelenses e palestinos, ela observou as dificuldades de diálogo entre grupos culturais diferentes, o problema fundamental de admitir a realidade do outro, que ameaça o nosso próprio senso de realidade e integração mental. Laub (2002) faz a hipótese de que as rápidas mudanças em todo o mundo estão alterando as formas de subjetividade social dentro das quais os analistas têm trabalhado tradicionalmente. Mal podemos conceber os efeitos de longo alcance dos vários traumas que estão se difundindo por toda parte. As avalanches de tragédias desencadeadas pelas duas guerras mundiais atingiram pessoalmente os psicanalistas em grande número, seus familiares, amigos e pacientes, e afinal, todos os psicanalistas engajados nas questões humanas sem exceção, instigando-os a pensar e escrever mais ainda sobre as múltiplas conseqüências dos traumas. Acumulou-se uma vasta literatura, na qual sobressaem, no capítulo do holocausto, os dramas dos confinados nos campos de concentração nazistas, os danos mentais que sofreram, suas possibilidades de recuperação, os resíduos que podem atingir seus filhos. Tarantelli (2003) estuda casos-limite de vítimas de guerra que talvez ajudem a lidar com outros pacientes com uma história traumática e uma psicodinâmica semelhante, guardadas as diferenças. Nos casos extremos, segundo este entendimento, a mente sofre uma explosão, a destruição geral de todas as suas funções, tornando-se incapaz de qualquer percepção, experiência ou pensamento, de autopreservar-se. Ocorre, ao que parece, um instante em que nada existe, uma completa rotura do ser. Grotstein (1990) chamou a isto “estado traumático puro ou absoluto” (“pure or absolute traumatic state”), em que há, por um momento, uma ausência primária de significado da experiência. Winnicott (1989) assinala um paradoxo: essa “morte fenomênica” (“phenomenal death”) é morte como fenômeno, mas não é um fato que se possa observar. Quando as forças da vida prevalecem, os resíduos traumáticos tendem a ficar encapsulados, dissociados, não sendo mais experienciados em termos mentais. Nestas circunstâncias, a sobrevivência está garantida,mas o psiquismo permanece não integrado e o objeto interno mortífero continua ameaçando, devendo ser controlado o tempo todo. 20 Na mesma linha de raciocínio, Rosenfeld (2004) tece considerações sobre um jovem acometido de um surto psicótico. Quando ele tinha dezoito meses, seus pais foram seqüestrados por agentes de uma ditadura militar. Segundo Rosenfeld, o trauma psíquico teria provocado um “autismo encapsulado” (“encapsulated autism”): algumas introjeções foram destruídas, enquanto certos aspectos normais da mente infantil se preservavam. As condições mentais prejudicadas desses sobreviventes de traumas determinam limites à sua recuperação. Por outro lado, numerosos autores enfatizam o quanto também é decisiva a participação contratransferencial na evolução e prognóstico de cada caso. Varvin (2003), conforme a resenha de Leuzinger-Bohleber, estuda de acordo com uma perspectiva interdisciplinar psicanalítica, cognitiva e semiótica, os danos sofridos pelas vítimas de traumatismos extremos (problemas de mentalização, simbolização e relacionamento, diversos distúrbios e sintomas penosos), bem como as estratégias de sobrevivência mental desenvolvidas por elas. As seqüelas do trauma são explicadas como estratégias cognitivas e interpessoais, não apenas como as defesas descritas do ponto de vista psicanalítico tradicional. Várias questões sobre a memória são revistas. Assim, diante de uma situação nova, os elementos mnêmicos entram num processo construtivo em que estímulos sensorimotores do momento são recategorizados de modo análogo ao das situações antigas. Segundo Varvin, esta formulação é mais dinâmica do que simplesmente falar em “memória traumática”. As defesas são vistas como medidas estratégicas contra a dor mental; no entanto, elas resultam inadequadas do ponto de vista adaptativo, pois lançam o indivíduo em um círculo vicioso igualmente prejudicial: atrapalham as relações com bons objetos que talvez propiciassem soluções inovadoras para os sofrimentos. Creio que aqui se encontra mais um modo de entender a compulsão à repetição. A mentalização é compreendida como a atribuição de significado emocional a uma experiência. A representação é vista, na tradição de Peirce, como um sinal que está no lugar de alguma outra coisa, objeto, emoção, relação, etc; o sinal é usado por um intérprete ativo na função de dar significado. O sintoma é um sinal congelado, à espera de um intérprete (no caso, um psicoterapeuta) capaz de promover a mentalização no contexto relacional. Mas Varvin alerta contra o intersubjetivismo radical e reafirma a dimensão histórica dos fenômenos mentais, especialmente dos traumas e suas conseqüências. Ele sublinha a singularidade de cada caso, lançando dúvidas sobre as generalizações teóricas. Mostra, porém, uma semelhança de família (family likeness, na expressão de Wittgenstein) entre os traumatizados, os dados comuns a todos eles: perdas e lutos; medo do desamparo, de catástrofes; desconfiança e procura de alguém em quem confiar; medo de morrer, de ser assassinado ou humilhado; medo da raiva e 21 do ódio, o seu e o dos outros; manifestações de depressão, somatização, intrusão; disfunção relacional e social. Quando assinala a importância dos contextos coletivos e a face social e política na questão dos traumas, Varvin critica duas posições nada raras com referência aos traumatizados: a conspiração do silêncio e a inculpação das vítimas Volkan et al. (2003), segundo a resenha de Earl Hopper, afirmam que as experiências das vítimas do holocausto podem ter uma repercussão direta na mente dos seus descendentes (“representações depositadas” - “deposited representations”). Oliner (2004) faz lembrar que além dos fatores específicos, os que descendem de sobreviventes ainda têm os problemas gerais relacionados a Édipo e romances de família. Relatei em um livro (2003b) a história de uma sobrevivente do holocausto que foi prisioneira de Auschwitz quando tinha oito anos. Sua recuperação bem sucedida se deve em boa parte à análise com Paula Heimann, que focalizou, entre muitos outros aspectos, o resgate, a simbolização e a verbalização das lembranças de suas experiências traumáticas. Igualmente importante nessa análise foi o trabalho sobre a culpa do sobrevivente. Há um grupo de situações traumáticas que nos envolve muito diretamente: as violências cometidas pelos psicanalistas em seus consultórios e instituições, a meio caminho entre as falhas e abusos familiares-transferenciais e os sociais propriamente ditos. Este assunto complexo e doloroso só recentemente começou a ser aberto com bastante coragem e clareza, como mostram Gabbard (2003), Gabbard e Lester (1995), Gabbard e Peltz (2001), Sandler (2004). Casos de violações de limites (boundary violations) são traumáticos em muitos sentidos, atingindo as vítimas diretas, as instituições psicanalíticas e a psicanálise como um todo, e não menos os analistas transgressores, que põem em risco suas pessoas, reputação e carreira, sem que seus problemas psicológicos recebam o devido approach e ajuda. Em muitos deles a compulsão a repetir as transgressões aponta para a patologia de base. Tenho observado, quase sempre em analistas do sexo masculino, a acentuada dificuldade em lidar com transferências ligadas ao psiquismo primitivo. Os pedidos desesperados de socorro de uma criança pequena mobilizam nos adultos a urgência de fazer alguma coisa para salvá-la. Essa tendência natural tem impelido muitos analistas a irem além da sua posição técnica habitual, fazendo concessões excessivas aos pacientes e a si próprios. Ainda mais porque nos níveis primitivos, pré-verbais, a linguagem parece muitas vezes insuficiente ao analisando e ao analista, abrindo caminho para atos e violações de limites de diferentes graus. Muitos analistas homens relutam em aceitar transferencialmente o papel materno primário e se 22 defendem transpondo as demandas de seus pacientes, geralmente do sexo feminino, para o nível edipiano, com atuações sexuais explícitas. É típica a resistência de algumas sociedades e institutos contra o reconhecimento formal da ocorrência e recorrência do problema em seu âmbito (principalmente quando a violação de fronteiras inclui envolvimento sexual). e a adoção das providências indispensáveis. Pelo contrário, quase sempre se prefere uma postura de evasivas, negação e conluio. Creio que a maioria dos analistas não tem dúvida sobre o que não pode ser ultrapassado em termos de conduta, parece que há consenso a respeito dos limites éticos intransponíveis. No entanto, é surpreendente a força das defesas e racionalizações usadas pelos que cometem graves violações de fronteiras (Gabbard, 2003). Não menos surpreendente é a tendência de muitas das vítimas de negar a gravidade dos danos sofridos e a responsabilidade de seus agressores. Perturbam e constrangem mais ainda as tentativas de minimizar a complexa patologia dos fatos, conduta comum de muitos colegas protetores de analistas que abusam dos seus poderes. E quando casos deste tipo se repetem em uma mesma instituição, seria possível pensar em “traumatofilia grupal” ? Noto que os psicanalistas costumam usar pouco seus conhecimentos especializados (sobre dinâmica grupal inconsciente, sobre patologia coletiva, por exemplo), preferindo dar ênfase a aspectos éticos e políticos de casos individuais. Por que isto acontece com tanta freqüência? Vários motivos têm sido apontados, como o medo das repercussões na opinião pública, a parcialidade das relações políticas e de amizade dentro das instituições, os vínculos de “famílias” psicanalíticas (entre analistase seus analisandos, supervisores e professores e seus candidatos), o medo dos psicanalistas de reconhecer em si próprios as mesmas inclinações a atos abusivos, especialmente incestuosos, de admitir, pelo menos em princípio, os riscos de loucura onipresentes nas pessoas e suas agremiações, e assim por diante. O horror à violação do tabu do incesto é visto como um fator relevante em tais dificuldades (Margolis, 1997). Sem prejuízo dessas considerações, registre-se o lembrete de Sandler (2004) sobre alguns excessos de rigidez quanto a limites, que cerceiam os procedimentos dentro de moralismos e tecnicismos radicais. Mantida uma faixa de segurança, é possível ser flexível em relação às fronteiras psicanalíticas, dependendo das características do analista, do paciente, do vínculo e do momento da análise. A síndrome psiquiátrica chamada transtorno de estresse pós-traumático (post- traumatic stress disorder) (in Tutté, 2004) inclui muitas das características descritas nos quadros acima, especialmente quando o fator traumático se refere a um evento intensamente agressivo (catástrofes da natureza ou atos humanos) que deu origem a 23 mortes ou sérias ameaças à integridade física do sujeito ou de outros, determinando reações de medo intenso, desespero ou horror. As vivências do evento tendem a se repetir através de memórias recorrentes e pesadelos. Outros sintomas freqüentes são: estados dissociativos, desvitalização, anestesia afetiva, manifestações do sistema nervoso autônomo (hiperatividade, irritabilidade, entre outras), ataques de ansiedade, depressão, sentimentos de culpa, vergonha e raiva, fobia de situações que lembrem o evento traumático, abuso de substâncias, conduta autodanosa e tentativas de suicídio. Considerações finais Para resumir: a elaboração psicanalítica e a gradativa superação das seqüelas traumáticas de todos os tipos, origens e configurações dependem dos múltiplos fatores acima mencionados, como gravidade dos ataques traumáticos, estado de integração e capacidades da mente, funções e ganhos secundários dos traumas, bem como das potencialidades daquele processo analítico em particular, em função das características pessoais do analista e do analisando e da qualidade da relação terapêutica, com ênfase na predominância dos afetos positivos, amorosos. No tratamento das vítimas de traumas graves, a participação da pessoa do analista deve ser especialmente considerada, pois as tensões, sofrimentos e embaraços contratransferenciais podem ser muito intensos, principalmente quando o terapeuta tem também uma história traumática mal elaborada. Além disso, é preciso lembrar que os padrões existenciais, normais ou patológicos, principalmente os estabelecidos nos primeiros anos, tendem a durar para sempre, de acordo com os princípios de adaptação que se inclinam a recompensar e perpetuar os funcionamentos que se mostraram exitosos como estratégias vitais de adaptação e sobrevivência, mesmo quando se tornaram inadequados em novos contextos e o próprio paciente os reprova no nível consciente. É o que se verifica na absurda repetição de alguns funcionamentos destrutivos de pacientes obsessivos, limítrofes, perversos, psicóticos, traumatofílicos em geral, os quais são mantidos pelas razões inconscientes que ainda os justificam, tendo-os por necessários, mesmo insubstituíveis como garantia de vida, estruturação mental, reabilitação narcísica e prazer. Diante da sobrecarga contratransferencial daí decorrente, penso que reconhecer a complexidade das raízes neuromentais inconscientes da vida subjetiva pode nos ajudar, como psicanalistas, a ser mais pacientes e menos moralistas, a investir esperança por bastante tempo sem o sentimento de impotência e derrota, a suportar resistências pétreas e recaídas desanimadoras, a lidar com a insistência de alguns analisandos para que funcionemos como figuras do seu mundo interno, em suma, a 24 confiar sempre mais nos recursos da relação analítica postos a serviço das disposições para a recuperação vital (Doin, 2003a). Dois pontos merecem mais um comentário, em relação ao tratamento dos traumatizados. O primeiro se refere a uma dotação constitucional que determina a capacidade de promover mudanças somatopsíquicas, de substituir determinadas estruturas funcionais. As neurociências têm frisado a plasticidade neuromental comum a todas as pessoas, que é maior em certas fases da vida, principalmente no inicio, reduzindo-se depois. Mas a dotação primária de que estou falando parece mais individual e definitiva, mais dependente daquela herança genética e daquela constituição em particular, como o talento artístico, o ouvido musical, o jeito para determinada atividade, profissão ou esporte, a maior capacidade de tolerar frustrações e agressões e de perdoar, de mudar e desenvolver-se. Enquanto em outras pessoas, a “inércia psíquica”, a “adesividade da libido” (Freud, 1937) tendem a mantê-las agarradas ao passado, inclusive às seqüelas traumáticas. Contudo, “genética não é destino”, exceto em casos extremos. Na maioria das composições individuais, as experiências ambientais e intersubjetivas são também determinantes, de acordo com a série complementar que é bem expressa pelo dito inglês “Nature and Nurture”. Finalmente, fiquemos com a noção de que a capacidade de perdoar de cada um é fator decisivo em qualquer análise, mais ainda na dos grandes traumatizados. Não esqueçamos que praticamente todas as pessoas são ou se consideram, justa ou injustamente, vítimas de seus pais e de todos os que influenciam suas vidas. Muitas se tornam prisioneiras do ressentimento e das vantagens que auferem na condição de vítima, e relutam em assumir suas responsabilidades e possibilidades de liberação e crescimento. Não conseguem fazer a passagem, digamos, da posição esquizoparanóide para a depressiva, e permanecem patinhando nos impasses das organizações patológicas de defesa ou dos estados limítrofes, dos funcionamentos borderline ou perversos, no vai-e-vem da não- transicionalidade, da traumatofilia. Duas utilidades da condição de vítima tendem a perpetuá-la: libelo acusatório contra os algozes, álibi moral para o supliciado. Aceitar a superação progressiva da traumatofilia implica admitir que os danos sofridos não foram tão desastrosos e irremediáveis, que os agressores não atingiram o ápice da maldade. Abrir mão do lugar de eterna vítima acarreta o risco de reconhecer os próprios erros, os malefícios cometidos contra outros e não se perdoar. Tenho observado, em diversas análises, o quanto a renitência do amálgama ódio-culpa torna problemática a resolução de padrões traumatofílicos imbricados em lutos patológicos, principalmente com relação a familiares mortos. Como era o caso de um paciente que, por identificação vingativo-culposa, costumava dirigir o carro 25 perigosamente, no rumo de um desastre semelhante ao que acabou com o pai, motorista imprudente. Cavell (2003), escrevendo sobre liberdade e perdão, ressalta a importância psicanalítica de certas categorias que pareciam monopólio da religião e da ética, como a gratidão e o perdão. É, de fato, lamentável que preconceitos tenham relegado a segundo plano as chamadas virtudes, indispensáveis à condição humana como manifestações do amor a si e ao próximo, em sentido amplo. Precisamos aprofundar nosso entendimento sobre os afetos positivos, para usar uma expressão técnica ainda cautelosa. Eles por certo não ficaram inteiramente de fora da cultura psicanalítica. A importância do predomínio do amor se alberga no pensamento de Freud, Klein, Bion e tantos outros. Gratidão e perdão encontram boaacolhida no conceito de posição depressiva, por exemplo. Curiosamente, como demonstra Damasio (2003), Espinosa foi pioneiro nessa questão, no século 17, valorizando as bases naturalistas, evolutivas, biológicas, somatopsíquicas e socioculturais da ética e das virtudes, na concepção holística do ser humano e da integração sujeito-objeto-mundo. O que é bastante contemporâneo na visão interdisciplinar da psicanálise. Cavell diz que a capacidade de perdoar pressupõe e amplia as possibilidades de escolha. Perdoar e perdoar-se andam juntos, requerem a renúncia das supostas onipotência e onisciência atribuídas a si próprio e ao outro. Dependem de ver o agressor como maior que o mal cometido, mas também como uma pessoa limitada, não necessariamente um monstro cheio de intenções malignas. Olhando para trás, pode-se reconhecer que as chances de escolha dos que falham eram mais restritas do que se supunha. O mesmo vale para o sujeito. Perdoar-se por seus erros, numa dimensão justa, resulta do abandono das pretensões narcísicas onipotentes e oniscientes geradoras de culpas, necessidade de castigo e sentimentos de vergonha que chegam a aniquilar todo o ser. Perdoar, continua Cavell, é despregar-se qualitativamente do passado. Mas perdoar não é esquecer, é aceitar o passado como passado, que não pode ser desfeito, mas que pode se tornar mais leve, como acontece em todo processo de luto. Supõe alguma superação do ressentimento revanchista, o que só se faz com esforço e tempo, não pelo atalho de um impulso súbito. Perdoar é condição de acesso à felicidade, sintetiza Marchon (2004), estudando os temas da virada ética no pensamento psicanalítico. Cavell julga, porém, que nem tudo é perdoável, e dá como exemplo os atos sucessivos de extrema brutalidade. Cita a declaração de Hanna Arendt (1963) no sentido de que os crimes de Eichmann o puseram fora da comunidade humana e dos limites da moralidade, aquém de qualquer chance de perdão. É uma idéia desafiadora, à primeira vista inaceitável, a de que existam agressões imperdoáveis em termos absolutos, independentemente das situações específicas e das características 26 individuais das vítimas e dos demais envolvidos. Ou a afirmação categórica de Cavell só se aplica a determinados crimes sociais, em conformidade com as injunções do direito penal estatuído? No entanto, também estas são relativas a contextos particulares. Considero indispensável, no trabalho psicanalítico, ter sempre presente a distinção entre as normas jurídicas que regulam os julgamentos sociais, interpessoais, e os ditames do “direito moral privado” vigentes no tribunal subjetivo do super-ego. Assim posso entender melhor cada analisando em sua individualidade ímpar, o peso que têm sobre ele suas singularidades éticas, as concordâncias e divergências com os valores e critérios coletivos de julgamento, os determinadores inconscientes de seus funcionamentos e condutas. Vem daí, de tudo o que tenho observado, a minha convicção de que os resultados mais profundos de um tratamento psicanalítico dependem da capacidade, adquirida ou aprimorada, de perdoar-se e perdoar aos seus, principalmente aos pais e analistas. Ética, direito, foro íntimo, perdão: questões que ficam em aberto. Eis também uma boa maneira de colocar ponto final (provisório) em uma reflexão inconclusa como esta, como todas. Anexo Vinhetas clínicas Alguns aspectos de tratamentos psicanalíticos que acompanhei, como terapeuta ou supervisor, podem tornar mais claro o que procurei dizer acima. Esses dados servem apenas para ilustrar o texto e não fornecem base suficiente a uma avaliação dos processos analíticos correspondentes. A) Um paciente costumava se expor a riscos de acidente; sofreu dois ou três atropelamentos na rua, um deles quase fatal. Na adolescência, ouviu de uma tia que a mãe tentara abortá-lo até uma fase avançada da gravidez. Durante os primeiros anos de análise teve, repetidamente, o seguinte pesadelo: estava preso dentro de um liqüidificador, aterrorizado, grudando-se o mais que podia à parede para não ser atingido pelas pás cortantes. Os ataques feitos pela mãe teriam ficado registrados numa memória “corporal” implícita, de forma sub-simbólica, pré-verbal (Bucci, 1997)? Ou os pesadelos resultavam apenas das experiências posteriores de hostilidade e rejeição, e das informações da tia? 27 Mesmo sem poder definir a origem das experiências traumáticas, o analista trabalhou com a hipótese de que elas aconteceram muito precocemente e procurou ajudar o paciente a reconhecer a presença do objeto interno destrutivo. A compulsão a ferir-se, a “abortar-se”, foi cedendo gradativamente. B) Um paciente relutava em cumprir as condições de trabalho (esquema de horas, duração e número de sessões, uso da livre associação e do divã, fechamento da porta do consultório), num padrão de angústias claustrofóbicas, sem outros sintomas mais típicos. Durante cinco anos, viajou para passar seu aniversário com a família, numa cidadezinha do interior. Semanas antes entrava em intensa angústia sobre possíveis impedimentos à viagem. Depois que o analista sugeriu a hipótese de ter havido algum problema com seu nascimento, o paciente fez perguntas diretas à mãe. Ela lhe disse que o parto tinha sido extremamente difícil, com risco de morte para ambos. Nos anos seguintes ficou claro que se sentia obrigado a estar com a mãe no dia do seu aniversário-nascimento, sofrer com ela, sobreviver com ela, repetir e controlar o trauma inicial para “renascer” em melhores condições. Por outro lado, afastando-se do analista, procurava deixar com ele o objeto mau que o ameaçava de morte, uma figura compósita de mãe, pai e irmãos rivais. Este caso me inspirou (1988) a observar melhor os sofrimentos repetitivos de muitas pessoas por ocasião dos seus aniversários, alguns possivelmente relacionados a experiências traumáticas na vida intra-uterina e em torno do nascimento. C) Todos os anos, perto do aniversário, um paciente borderline se entregava compulsivamente a diversas práticas sexuais com mulheres e homens, acentuando seus traços de identificação com a mãe. Adquiriu alguma consciência desta necessidade de voltar à “fonte da vida” para contrabalançar as angústias de morte, que aumentavam em tais ocasiões. D) Desde a primeira apresentação como cantora profissional bem sucedida, uma jovem repetiu várias vezes o seguinte padrão: após a estréia de cada novo show, bebia excessivamente com os amigos e acabava entrando em conflito com repórteres e admiradores, o que lhe causava sofrimentos e remorsos nos dias seguintes. O tratamento a ajudou a interromper essa repetição traumática, à medida que descobriu algumas de suas motivações inconscientes: culpas em relação a uma irmã pouco talentosa; conflitos com a mãe, que a invejava e se opunha à sua carreira, a ponto de ter armado um escândalo no primeiro show da filha. Num padrão de reação terapêutica negativa, ela piorava de maneira regressiva imediatamente depois de cada sessão em que surgiam aberturas para o crescimento. Nas associações, apareceu como sentia que a mãe a ameaçava de abandono nos momentos de bem-estar com o pai, o namorado e o analista, pelo que significavam de 28 progresso, inclusive na direção do Édipo e da heterossexualidade, já que ela precisava da imaturidade das filhas para encobrir as suas próprias fraquezas. E) A inibição ao sucesso também acometia um advogado cujo pai, falecido havia pouco tempo, tinha sido um jurista famoso. O paciente se preparava cuidadosamente para os julgamentos, mas nas sessões do tribunaldefendia suas teses sem muito brilho, para surpresa dos que lhe conheciam a competência e os sucessos anteriores; só entenderam como razoável o mau resultado de uma causa, logo após a morte do pai. Na condição de profissional em ascensão e de sobrevivente, considerava-se duplamente vitorioso e culpado em relação ao pai, que também amava e admirava. Um dos aspectos transferenciais desta ambivalência consistia em sofrer e fazer o analista sofrer com suas performances decepcionantes. Por algum tempo, o analista sentiu-se impotente e irritado, repetindo insistentemente interpretações que não passavam de tentativas fracassadas de convencer o paciente de que seus insucessos profissionais (e os do analista) eram absurdos e injustos. F) Um rapaz de dezenove anos procurou tratamento analítico por causa do abuso de bebidas e drogas e das brigas violentas. Tinha acabado de ser despedido do terceiro emprego, em pouco tempo. Durante os primeiros anos do tratamento, essas dificuldades se repetiram diversas vezes, até o analista compreender que uma das principais motivações inconscientes do paciente era cumprir o papel familiar de membro problemático, de “ovelha negra”, para o que era estimulado pela tolerância excessiva e outras atitudes de cumplicidade dos pais e irmãos. A repetição de atos danosos era uma maneira de continuar fiel aos comandos da família e se opor ao analista, apesar do seu desejo consciente de mudar de vida. Num nível mais profundo, sentia-se ameaçado de mutilação e morte sempre que tentava romper o pacto familiar. “Ninguém sai vivo da máfia”, disse ele uma vez, ao comentar um filme, mas a mesma sentença também se aplicava a ele, à sua traumatofilia defensiva. G) Esse caso tem algumas semelhanças com o de uma senhora de trinta e poucos anos que colecionava pequenos acidentes, fracassos profissionais e amorosos, inúmeros episódios agudos de uma doença crônica mal tratada por negligência dela. Pertencia a uma família marcada por tragédias. Ainda pequena acompanhou o sofrimento de todos pelo desaparecimento de vários parentes, perseguidos por motivos políticos; um tio foi assassinado à sua porta. Sentia-se orgulhosamente identificada com a família, e só com muita relutância aceitou as modificações que o processo analítico foi lhe abrindo. Atravessou crises de identidade, experiências de alienação e angústias persecutórias, sonhou que os parentes a acusavam de desertora e a desprezavam como inimiga. 29 H) Uma jovem tinha um casamento tipicamente edipiano com um homem bem mais velho. Eram freqüentes as agressões entre eles, verbais e até físicas; quando menina, tinha sido espancada pelo pai diversas vezes. Todo este quadro foi bastante trabalhado na análise, com a eliminação das agressões físicas e considerável redução dos insultos verbais. Houve, porém, uma recaída quando seus sentimentos amorosos pelo analista se tornaram evidentes: numa sessão de segunda-feira conseguiu falar do seu carinho e gratidão. Faltou o resto da semana. Voltou constrangida, trazendo novamente no rosto e nos braços as marcas de uma briga com o marido. Apareceu primeiro o seu medo da erotização da relação com o analista, e depois o receio de decepcionar e decepcionar-se num envolvimento maior com ele, de se tornar frágil em seu amor, de sofrer violências psíquicas e outras angústias primitivas de tipo esquizóide provindas da relação com a mãe. I) Tomar a iniciativa do trauma ficou sendo uma defesa habitual de uma senhora de cerca de quarenta anos. Hipersensível a abandonos, tendo várias experiências de infância em que foi esquecida ou deixada para trás, ficava muito ferida com os atrasos do analista. Como primeiro padrão de defesa, passou a chegar atrasada às sessões. Um dia veio na hora, mas não fez corretamente o sinal combinado para que o analista lhe abrisse a porta. Quando este percebeu a presença dela, ficou muito consternado, desculpando-se enfaticamente. Este esquema se repetiu algumas vezes, até que os motivos da paciente foram compreendidos, como a provocação ativa do abandono e o prazer de deixar o analista na posição de sofrimento. J) Um estudante de direito, numa época de radicalização política, costumava ir de noite a bairros distantes para dar assistência a amigos presos por atividades políticas. Sofreu várias agressões, inclusive sexuais, mas não desistiu dessas incursões, deixando os pais desesperados durante horas, até que ele chegava, sujo e maltratado. Viu-se na análise, ao lado do propósito de ajudar os amigos e sua identificação com as vítimas, também a identificação com os agressores, o desejo de atingir os pais e o analista, sem excluir alguma compaixão pelo sofrimento deles. Mais adiante, destacou-se a importância de sua relação com uma mãe disparatada, dominadora e cruel, mas a única pessoa capaz de socorrê-lo em determinadas situações da infância e adolescência. Esta figura era odiada, mas também admirada, tida como indispensável à sua segurança e ao seu equilíbrio mental e existencial, e por isso incluída em seus relacionamentos atuais. As resistências e as transferências correspondentes a esta relação ocuparam grande parte do trabalho analítico. Palavras-chave: trauma, traumatofilia, compulsão à repetição, neurociências, neurociência cognitiva evolutiva. 30 Key words: trauma, traumatophilia, compulsion to repeat, neurosciences, evolutionary cognitive neuroscience. Summary: “The ego seeks out its trauma: paradoxes of traumatophilia” The article takes for ground some of the several approaches that the question of traumas has received in the psychoanalytic literature, including its links with compulsion to repeat, narcissism, perversions and transferences, beyond others. Paradoxes of traumatophilia are put forward in relation to their origins and developments. Some contributions of neurosciences are added to certain psychoanalytic visions of the problem. Some technical difficulties found in the analyses of these cases are commented, as well as some possible limits to the therapeutic action on both sides, the patient’s and the analyst’s. Some points are illustrated with clinical vignettes. Referências ABRAHAM K (1907). The experiencing of sexual traumas as a form of sexual activity. In Selected Papers (trad.). Londres: Hogarth Press, 1948. ARENDT H (1963). Eichmann in Jerusalem. Nova York: Viking. AULAGNIER P (1984). L’apprenti historien et le maître-sorcier. Paris: Presses Univ. France. BOKANOWSKI T (2002). From the theory of seduction to traumatic seduction: Incest (panel). Int J Psychoanal, 83: 504-7. BUCCI W (1997). Psychoanalysis & Cognitive Science: a Multiple Code Theory. Nova York: The Guilford Press. CASONI D (2002). Never twice without thrice. An outline for the understanding of traumatic neurosis. Int J Psychoanal, 83, 137-59. 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