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Tornar se pessoa

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ROGERS, C. Ser o que realmente se é: os objetivos pessoais vistos por um terapeuta. In: ROGERS, C. Tornar-se pessoa. 6ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009, cap. 8.
Neste capítulo, Rogers (2009) discorre, num discurso pessoal, sobre suas reflexões sobre ser o que realmente se é, a partir dos anos de experiência clínica que teve com seus clientes. Inicia com questionamentos, tais como, “qual é meu objetivo de vida?”, “o que procuro?”, “qual minha finalidade?”. Enfatiza que o ser humano busca questionar a própria existência, tentando encontrar respostas que justifiquem os objetivos que pretendem alcançar. Esses são questionamentos possíveis, que o terapeuta precisa instigar em seus clientes, para que os mesmos aprendam a discernir o próprio caminho e suas escolhas.
	Citou algumas possíveis respostas a essas escolhas da humanidade, que perpassam pelas diferentes concepções de ser humano ao longo da história, como no período medieval, em que o objetivo de vida era preservar a alma imortal. Outra perspectiva seria a descoberta por Charles Morris, que realizou um estudo com pessoas de diferentes nacionalidades e culturas, para tentar exprimir dados que fossem constantes em todas elas sobre qual seria o sentido da vida, apesar das diferenças de contexto. Ele encontrou então cinco dimensões, que são responsáveis pelas opções individuais:
Participação numa vida responsável, moral, comedida, com preservação e conservação das conquistas humanas;
Superação de obstáculos, abertura à mudanças para resolver problemas pessoais e sociais;
Percepção profunda de si e dos outros, numa elevação da consciência humana, abrindo mão do controle sobre outras pessoas.
Desenvolver-se concomitante à natureza, sendo receptivo e respeitoso para com as coisas externas.
Busca do próprio prazer na simplicidade e no gozo de si mesmo, acentuando os sentidos. 
No entanto, para Rogers (2009), esse estudo se mostrou insuficiente, pois esses objetivos de vida não faziam parte dos objetivos que seus clientes demonstraram em seus anos de experiência. Para isso, ele utilizou uma frase de Kierkegaard para exprimir sua percepção, “ser o que realmente se é”, criando um clima de segurança, conforto, compreensão empática, sem intervir com expressões, impressões e hipóteses diagnósticas, na experiência do cliente, permitindo que ele mesmo encontre suas respostas, que podem trilhar caminhos variados.
Existe uma percepção que inclui um afastamento do não-eu, feito pelo cliente, começando a definir, mesmo que negativamente, o que ele é de fato, por trás da fachada social que apresenta. Outra forma de chegar a si mesmo, é o desvio de uma imagem de si, sobre aquilo que tem que ser para corresponder ao esperado pelos outros, seja como bom ou mau. Fugir do que a cultura da qual faz parte também é um caminho possível, já ela molda e normatiza os grupos, indivíduos, comportamentos e atitudes. 
Numa recusa em fazer parte da normatização e dos preceitos que a família e sociedade impõem às pessoas, o cliente vai trilhando seu próprio caminho, rumo à autonomia, optando gradualmente por objetivos que ele mesmo pretende atingir, e que não necessariamente são parte do que os outros esperam ou desejam que seja. Tornam-se responsáveis por si mesmos. Rogers (2009) comenta que essas decisões não são realizadas com alegria e confiança, mas com precaução, receio, e por vezes, inicialmente, quase sem confiança alguma, pois junto à liberdade vem a responsabilidade pelas consequências das próprias escolhas e ações. 
Pouco a pouco, o cliente aprende a ser parte de um processo em constante mudança e transformação, sentindo que apesar de lidar com o desconhecido e não mais ter controle sobre seu futuro, apenas sobre quem é naquele momento, o agora, se percebe cheio de possibilidades, e não mais um objeto cristalizado e reduzido a si mesmo.
Algo a ser trabalhado com o cliente, no processo terapêutico e que não é um processo fácil para muitos, é de o indivíduo ter uma relação aberta, amigável e íntima com suas próprias experiências. Somente quando se vivencia um aspecto de si mesmo negado anteriormente, que se pode aceita-lo e assumi-lo como parte de si mesmo. Por exemplo: um cliente se sentiu impressionado depois de ter vivenciado um aspecto de dependência infantil, exclamando, “É uma emoção que nunca senti claramente – uma emoção que nunca havia sentido!”. Ele nunca foi capaz de tolerar seus sentimentos infantis, mas começou a aceita-los e assumi-los como parte de si mesmo, vivendo ligado a eles e neles quando manifestados.
Maslow notou essas características nas pessoas que ele chamou de “autorrealizadas”, em seus estudos, ele cita a facilidade com que essas pessoas conseguem penetrar na própria realidade, em uma aceitação espontânea, implicando em uma consciência superior aos próprios impulsos e desejos. Ao mesmo tempo em que esse indivíduo está aberto interiormente para si, também está para o mundo exterior, numa apreciação constante da vida.
Outra característica que ocorre ao longo da terapia centrada na pessoa, que está atrelado ao dito anteriormente é a aceitação do outro, pois à medida que o indivíduo assume sua própria experiência, caminha em direção a aceitar os outros como são, bem como as vivências deles, valorizando tanto a própria experiência como as dos outros por aquilo que elas são.
Rogers (2009) também observou que ao longo do processo terapêutico, a confiança do cliente em si mesmo aumentou, pois aprendem a confiar no processo que vivenciam, na ousadia e desenvolvimento dos próprios sentimentos e vivendo com os valores que descobriram dentro de si exprimindo-os no dia a dia.
Algumas considerações importantes devem ser feitas: ser o que se é não é permanecer estático ou imutável, mas é se aprofundar verdadeiramente num processo em si mesmo, tendo a mudança, facilitada por conta disso. Rogers (2009) completa que a pessoa que busca tratamento é a que nega os seus sentimentos e reações, encontrando-se fixada em sentimentos e emoções que lhe desagradavam e, portanto, não pertenciam a ela, logo, ao se aprofundar em si, a mudança é uma consequência da ressignificação da autopercepção.
Outra consideração é que não quer dizer também que, ao ser o que se é, a pessoa se revela um monstro, alguém mau, descontrolado e destrutivo, mesmo sendo a atitude expressa ou não de quase todos os clientes que chegavam a seu consultório ao experenciarem os aspectos desconhecidos de si mesmo. Ele pode descobrir que a raiva, irritação, reações sexuais, receio, entre outras reações, suas verdadeiras reações, e que ao aceita-las como transparentes para si, não são destrutivas. 
“Quanto mais ele for capaz de permitir que esses sentimentos fluam e existam nele, melhor estes encontram o seu lugar adequado numa total harmonia. Ele sente que ama, que é terno, respeitoso, cooperador, como também é hostil, sensual e colérico [...] Seus sentimentos, quando os vive de uma maneira íntima e os aceita na sua complexidade, realizam uma harmonia íntima construtiva e não um mergulho em qualquer forma de vida descontrolada [...] é um processo positivo, construtivo, realista e digno de confiança” (ROGERS, 2009, p. 202-203).
	Depois de tratar dessa trajetória centrada no indivíduo, Rogers (2009) amplia suas reflexões para grupos e organizações, afirmando ser possível a mesma compreensão, comparando as relações políticas e empresariais entre os indivíduos, com as descobertas de si mesmo que o indivíduo realiza no processo terapêutico. Propõe o distanciamento da fachada política que a sociedade se impõe, para, de modo transparente, focar na busca por soluções para problemas mundiais partindo de questões reais, ou seja, ser em profundidade sugere uma vida enriquecedora.

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