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A EXECUÇÃO INEFICAZ DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE DENTRO DO SISTEMA CARCERARIO BRASILEIRO

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que os conceitos teológico-morais 
tiveram, até o século XVIII, no Direito Penal, já que se considerava 
que o crime era um pecado contra as leis humanas e divinas. 
(BITENCOURT, 2013, p 70) 
A Igreja via o cárcere como instrumento espiritual do castigo, afirmando as 
ideias de fraternidade, redenção e caridade, sustentando que no sofrimento e na 
solidão da prisão a alma do homem se purificava e purgava do pecado. 
A partir das prisões eclesiásticas, surgem as prisões subterrâneas onde 
dificilmente as pessoas que ali entravam saiam com vida. 
Inegavelmente, o Direito Canônico contribuiu consideravelmente para 
com o surgimento da prisão moderna, especialmente no que se 
refere as primeiras ideias sobre a reforma do delinquente. 
Precisamente do vocábulo “penitencia”, de estreita vinculação com o 
Direito Canônico, surgiram as palavras “penitenciário” e 
“penitenciaria”. (BITENCOUT, 2013, p. 571) 
A igreja, que detinha o mandato divino, unida com o poder estabelecido, 
dominou a Europa com o direito canônico durante quase toda a época medieval. A 
união dos dois poderes (igreja e o rei) garantia a fé, a ordem e a moralidade pública. 
Como aponta Bitencourt “Essa influência veio completar-se com o 
predomínio que os conceitos teológico-morais tiveram, até o século XVIII, no Direito 
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Penal, já que se considerava que o crime era um pecado contra as leis humanas e 
divinas”. 
Daí a importância do Direito Canônico sobre a pena de prisão, pois este 
contribuiu trazendo a ideia de isolamento celular com princípios como o 
arrependimento e a correção do delinquente que posteriormente foi adotado pelo 
direito punitivo. 
1.3 IDADE MODERNA, ADOÇÃO DA PRIVAÇÃO DA LIBERDADE COMO PENA 
Compreendida entre o inicio do século XV com a crise do feudalismo ao 
século XVIII, sendo seu fim marcado pela crise do antigo regime (absolutismo). 
Com o início da Idade Moderna, a visão religiosa de mundo da nobreza e do 
clero é substituída pela visão da burguesia, colocando o homem do centro do 
universo e possibilitando novos pensamentos políticos e religiosos. 
Consideramos interessante e sugestiva a análise de Dario Melossi e 
Massimo Pavarini sobre as causas que explicam o surgimento das 
primeiras instituições de reclusão na Inglaterra e na Holanda. Por 
essa razão convém citá-los. Dizem esse autores: “... É na Holanda, 
na primeira metade do século XVII, onde a nova instituição da casa 
de trabalho chega, no período das origens do capitalismo, a sua 
forma mais desenvolvida. É que a criação desta nova forma de 
segregação punitiva responde mais a uma exigência relacionada ao 
desenvolvimento geral da sociedade capitalista que à genialidade 
individual de algum reformador. BITENCOURT, 2013,p. 575) 
O que merece destaque na Idade Moderna é a ideia de tempo, pois se o 
homem da Idade Média tinha sua rotina determinada pela natureza e desta forma 
não se preocupando em medir o tempo, com o crescimento do comercio e das 
cidades na Idade Moderna muda essa situação. Os produtos passaram a ter prazos 
para serem entregues e o preço era estabelecido de acordo com a data do 
pagamento, se a vista ou a prazo, tornando-se uma necessidade dividir e controlar o 
tempo para o desenvolvimento das sociedades. 
[...] surgiu na Europa um instrumento que representava muito bem o 
passar do dia: o relógio. [...]. O crescimento das cidades e do 
comércio favoreceu a organização de uma vida ritmada, marcada 
pelas horas. O trabalho na cidade não precisava seguir o fluxo na 
natureza. [...]. Ganhar ou perder tempo são expressões tipicamente 
da Idade Moderna. (THEODORO, 2004, p. 46) 
Essa transformação na concepção de tempo foi decisiva para a instituição 
da pena de prisão, que retira do condenado a administração do seu tempo, de modo 
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que a prisão será um instrumento de coerção, condicionamento e educação para a 
vida cronometrada da sociedade capitalista, afinal tempo é dinheiro e se o infrator 
pobre não tem dinheiro, que perca seu tempo em beneficio da nação. 
Entre os séculos XVI e XVII, houve uma grande crise socioeconômica que, 
segundo aponta Cesar Roberto Bitencourt (1993, pg. 23-28) a Europa foi invadida 
pela pobreza, devido às guerras que arruinaram quase que por completo a Europa, 
contribuindo com a pobreza e consequentemente aumento da criminalidade, além 
do fracasso de todos os tipos de reações penais. Nessa época, os pobres formavam 
a maioria da população europeia e sobreviviam da mendicância e de pequenos 
delitos. 
As guerras religiosas tinham arrancado da França uma boa parte de 
suas riquezas. No ano de 1556 os pobres formavam quase a quarta 
parte da população. Essas vítimas da escassez subsistiam das 
esmolas, do roubo e assassinatos. O parlamento tratou de envia-los 
as províncias. No ano 1525 foram ameaçados com o patíbulo; em 
1532 foram obrigados a trabalhar nos encanamentos para esgotos, 
acorrentados de dois em dois; em 1554 foram expulsos da cidade 
pela primeira vez; em 1561 foram condenados às gáles e em 1606 
decidiu-se finalmente, que os mendigos de Paris seriam açoitados 
em praça pública, marcados nas costas, teriam a cabeça raspada e 
logo seriam expulsos da cidade. (DE GROTE, apud BITTENCOURT, 
2001, p. 15) 
Na França, com as guerras religiosas dizimando boa parte de sua riqueza, a 
pena de morte já não era tão adequada, pois era impossível aplica-la em tanta 
gente. Essa gente pobre ameaça dominar o poder do Estado, com os estados 
menores e as cidades independente da Europa, fazendo-se necessária nova politica 
criminal para conter o crescimento e a ação destes grupos. 
Foi então que em meados do século XVI houve um movimento por parte do 
clero inglês para o desenvolvimento das penas privativas de liberdade, sendo então 
autorizado pelo Rei da Inglaterra o uso do castelo de Bridwell para recolher as 
pessoas vadias, desocupadas, os ladrões e os que praticavam pequenos delitos, 
com finalidade de disciplina-los. Logo após surgiram as casas de correção com o 
escopo de reformar o infrator através de um regime de disciplina e trabalho. Porém o 
real objetivo destas casas era a de alcançar alguma vantagem econômica com a 
mão de obra barata. 
A suposta finalidade da instituição, dirigida com mão de ferro, 
consistia na reforma dos delinquentes por meio do trabalho e da 
disciplina. O sistema orientava-se pela convicção, como todas as 
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ideias que inspiraram o penitenciarismo clássico, de que trabalho e a 
férrea disciplina são um meio indiscutível para a reforma do recluso. 
(BITENCOURT, 2013, p. 573) 
Na mesma linha de raciocínio (BITENCOURT, 2001, p. 24/25) surgem as 
“workhouses” (casa de trabalho), fortalecendo, destarte, o controle judicial e as 
relações entre a prisão e mão de obra do recluso. Estes tipos de instituições foram 
criadas para cuidar dos pequenos delitos. Para os crimes mais graves ainda se 
aplicavam as penas de exilio e corporais. 
Essa experiência deve ter alcançado notável êxito notável êxito, já 
que em pouco tempo surgiram em vários lugares da Inglaterra 
houses of correction ou bridwells, como eram denominadas, 
indistintamente. (BITENCOURT, 2013, p. 573) 
Outra modalidade de prisão da mesma época foi a pena de Galés, em geral 
aplicada pela Inquisição, na qual os delinquentes e prisioneiros de guerra eram 
condenados a cumprir a pena de trabalho forçado em embarcações de vela, 
remando sob pena de chicote, sendo este também, o destino de muitos homens 
nascidos no Brasil. 
Um ambiente sujo, sem ventilação, com um calor insuportável. Neste 
lugar, os homens conviviam com alimentos estragados e corriam o 
risco constante de contrair doenças. Esses e outros percalços eram 
enfrentados pelos galerianos, condenados a fazer trabalhos forçados 
em galés. Nessas embarcações

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